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A reorganização da produção e do trabalho no pósGuerra: o global e a determinação das relações locais
de trabalho
Eudes Lopes Melo1
Resumo: Este artigo discute as mudanças nas relações de trabalho como produto do aprofundamento da inserção das grandes transnacionais nos países subdesenvolvidos, implicando profundas mudanças na relação do ser global e do ser
local. As contradições vão sendo evidenciadas na medida em que, por um lado, o
capital exige uma força de trabalho especializada de alta qualidade, por outro,
forma-se um grande exército de desempregados, de especialistas altamente qualificados e não qualificados, empregados e subempregados, formais e informais, em
diversas partes do planeta, em geral, nos países subdesenvolvidos.
Palavras-chave: relações de trabalho; exército de desempregados; força
de trabalho especializada.
Resumen: Este artículo discute los cambios en las relaciones de trabajo
como un producto de aprofundamiento a la inserción de las grandes
transnacionales en los países subdesarrollados, implicando profundos
cambios en lo que se refiere a ser global – y ser local. Las contradicciones están
siendo evidenciadas a medida en que por un lado el capital exige una fuerza de
trabajo especializada de alta calidad, por otro lado se forma un gran ejército
de desempleados, de especialistas altamente calificados y no calificados,
empleados y desempleados, formales e informales, en diversas partes del planeta, de forma general en los países subdesarrollados.
Palabras clave: Relaciones de trabajo, ejército de desempleados, fuerza
de trabajo especializada.
1
Mestre em Sociologia. Professor de sociologia da Faculdade Metropolitana de Manaus – FAMETRO.
Nanbiquara: Revista Científica da Fametro, v. 1, n. 1, jul.dez./2010 11
A reorganização da produção e do trabalho no pós-guerra...
As raízes da globalização
De acordo com Bauman, a finalidade da globalização é fazer emergir
“coisas” (problemas e questões) relativas a este tema, por meio dos questionamentos e investigação das suas raízes e das suas consequências sociais (1999b).
A concepção tempo/espaço deve ser encarada como mundos, cuja
mudança é um processo de estruturas estruturantes e estruturadas, movimento e mudanças que mexem com os mais profundos paradigmas de grupos, classes, tribos e outros, em que o global pode estar/ser local e, ao mesmo
tempo, o local pode estar/ser global. Assim, ser global e ser local têm um
significado antagônico. De um lado, o global tem o signo do domínio, como
quem tem o assento principal na cabina de comando de um avião; de outro,
ser local é viver o desconforto da dependência do ser global em todos os sentidos: por exemplo, o intelectual local viveria da criação e dos sonhos do pensador global (1999b).
O diagnóstico de uma guerra espacial, enunciado por Bauman, determina uma vantagem do ser global sobre o ser local. Esse, talvez, seja um resultado extremamente perverso. Na guerra espacial, em termos de disputa de
mercado, o pior resultado é a escolha pelo local, quando, por analogia, os
acionistas retirarem seus investimentos de uma companhia instalada no espaço local, não se tem dúvida de que os acionistas conferem um fator de autonomia no que respeita à determinação espacial, o que confirma a autenticidade da sua vantagem (1999b).
Para concordar com Silva, isso pode explicar em grande medida a
razão por que a Amazônia, como um espaço regional, local, não pode nem
pretende mais desconectar-se do mundo, embora fique clara a consequência,
que pode incorrer numa possível perda dos elementos das especificidades da
sua formação fundamental. Ora, fechar-se no local pode significar pagar um
pesado preço (2000).
A mobilidade é um fenômeno em que os novos investidores têm, hoje,
por estratégia a liberdade de custos, no frio cálculo, de poder investir sem a
preocupação com as obrigações sociais, de modo a inaugurar, assim, uma
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dislexia entre ser “livre para explorar e abandonar as consequências dessa exploração” (1999b).
Para Harvey, essa mobilidade do capital e sua dispersão geográfica
implicam soluções flexíveis. Isso leva a dizer que o capitalismo tende a ser
mais organizado e aumenta sua capacidade de reproduzir-se, pelo fato de que
tal mobilidade lhe permite maior flexibilidade no mercado de trabalho e no
conjunto da economia (1992).
A consequência de como isso se configura no plano local pode engendrar outras possibilidades, em que “a questão do desemprego, da pobreza,
das desigualdades regionais, das desigualdades raciais e de classe subsume-se
na globalização da questão social, que acentua as crises nacionais.” É possível
ver aqui a combinação de, pelo menos, três totalidades: regional, nacional,
global (SILVA, 2000:268).
Para entender a globalização, é preciso ver os sinais que a realidade
está revelando. Assim, é possível percebermos a relação quase inexistente da
oposição “dentro” e “fora” em coisas e na humanidade. A velocidade da comunicação e dos transportes tem dissolvido gradualmente a disjuntiva “longe” e
“perto” (1999b).
A implantação da rede de computadores inaugura, no limite, teórica e
praticamente, o fim das distâncias. Trata-se de uma mudança do caráter do
espaço, visto que este se desprende das dependências naturais do corpo humano, ao dificultar a solidariedade, os conflitos interpessoais e demais resoluções físicas mediadas pela noção da proximidade (1999b).
A realidade nova da rede mundial de informática reordenou o espaço.
Isso pode explicar o fato de o espaço cibernético assumir o lugar do espaço
planejado, “territorial-urbanístico-arquitetônico”. Embora este não seja comum a todas as pessoas, admite-se que ainda seja possível separar pessoas
por obstáculos físicos e distâncias temporais (1999b).
A nova realidade das distâncias pressupõe a sua anulação pela força
da tecnologia informática, cuja tendência é uma polarização entre o mundo
da nova elite, extraterritorializada, cujo poder – principalmente o financeiro
– se encontra em uma condição incorpórea, ainda que se admita a sua
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corporeidade física de lugar; e o mundo telúrico, daqueles que não conseguem
e não conseguiram emancipar-se, ou seguir o movimento da tecnologia contemporânea.
No plano das organizações das empresas, a implantação de redes nos
Estados Unidos, como modo de extensão de maior controle financeiro, expansão e transparência no interior dos negócios de cada organização, entre outros.
Nos Estados Unidos, a transformação organizacional ocorreu independentemente da transformação tecnológica. A inserção das novas
tecnologias de informação intensificou as transformações organizacionais,
mas há uma diferença fundamental entre dois tipos de organizações: uma
delas são as burocracias, organizações para as quais a reprodução de seu
sistema de meios se transforma em seu objetivo organizacional fundamental;
e as organizações, nas quais os objetivos e as mudanças de objetivos modelam
e remodelam de forma infinita a estrutura dos meios. Com base nessa diferenciação conceitual, Castells propõe um conceito de empresa- -rede: aquela forma específica de empresa, cujo sistema de meios é constituído pela interseção de segmentos de sistemas autônomos de objetivos (2006).
Nesses termos, vai dar-se a materialização da empresa-rede em uma
forma definida de cultura econômica informacional/global, num movimento
de atividades econômicas virtuais pelo processamento de conhecimento (2006).
Somos, assim, espectadores de uma nova elite, que vive a experiência
de deslocar seu poder para além território, isto é, o poder perdeu sua geografia em termos de economia, de política, de cultura, de segurança, de conforto,
de limite, de civilização. Um movimento em que tal poder, independente das
condições corporais e terrestres, se imaterializa simultaneamente ao estado
materializado do seu corpo presente no mundo telúrico, no mundo vivido, no
mundo experimentado. Essa poderosa força social tem a marca da onipotência, mas com a capacidade e a autoridade de influenciar na formatação da
realidade. Trata-se de uma nova realidade: a do ciberespaço, em que é criada
certa dependência dos corpos em relação à dinâmica do ciberespaço. Daí,
então, a necessidade do isolamento dessa elite, ao mesmo tempo em que ela
precisa de segurança que garanta tal isolamento com conforto.
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Para melhor ilustrar o significado dessa separação, Bauman cita o
livro Construindo a paranópia, de Flusty, no qual analisa a onda de construção
de ‘espaços proibidos’ em áreas urbanas, cujo objetivo é criar obstáculos ou
“filtrar” aqueles que gostariam de usufruir deste novo campo (1999: 27).
Aqueles que não podem pagar para se enclausurarem, ou que ficaram
do lado de fora da dos muros, ou não seguem o mesmo padrão da produção
da autossegurança, seu destino é arremessado à exposição da insegurança e à
condição de receptores dos sinais de comunicação como “não ultrapasse”, ou
“proibida a entrada de estranhos”. Essa é a realidade vivida não só nos grandes centros urbanos, mas é um tema análogo ao vivido pela condição dos
imigrantes latinos, asiáticos, africanos em países europeus, Japão, Estados
Unidos.
Talvez o grande problema exposto por Bauman aqui seja que a nova
realidade contemporânea está experimentando o liame entre a condição humana e a sua perda. Os padrões bipolares de mundo expõem, de um lado, um
que oferece dignidade e outro, a humilhação (1999b).
A invenção da concepção da perspectiva pela pintura é o pressuposto
da intervenção do homem na organização do espaço. Constata-se a existência
da objetividade na determinação das distâncias. Seja quem for o observador
verá a mesma forma dos objetos e do espaço. E é essa a novidade. A observação é impessoal, por causa da existência do ponto de referência.
O espaço moderno será caracterizado pela disputa pelo controle
cartográfico. O significado dessa disputa constitui-se no controle e centralização estatal dos territórios unificados num único mapa em detrimento da
subordinação do espaço social (1999b).
A invenção da concepção da perspectiva pela pintura é o pressuposto
da intervenção do homem na organização do espaço. O novo olhar do observador é o olhar impessoal, porque existe, desde então, um ponto de referência
(BAUMAN, 1999b).
Como mostram o “fenômeno burocrático” de Crozier, a escala de certeza é obtida de acordo com a influência gradual na hierarquia de poder, quanto
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mais certos setores burocráticos conseguirem o controle dos demais setores;
e o panóptico artificial de Foucault, ao contrário de outros tempos, em que o
mapa demarcava o território, agora é o próprio território que se faz reflexo
do mapa. Assim, o território estatal foi investido de transparência (1999b).
A cidade moderna foi edificada sob o plano urbano racional de
Morely e completada pelos princípios da uniformidade, regularidade e permutabilidade. Bauman analisa a obsessão pelo centro, numa busca da forma lógica do espaço urbano, ao referir-se a Baczko, cujo estudo faz alusão
ao projeto dos utopistas, de uma cidade planejada sob o nome de liberdade.
Assim, a cidade é a expressão do sentimento da liberdade disposta de modo
objetivo no espaço. O planejamento das cidades utópicas partiu de valores
comuns, cuja arquitetura urbana tinha por finalidade a felicidade sustentada na razão (1999b).
Essa projeção urbana dos utópicos é vista como desafiadora da destruição da história, porque visa a demolir sua memória e a autoridade do
espaço e do tempo no seu significado histórico (1999b).
Outro exemplo dessa planta de cidade pode ser visto pela nova
urbanicidade, com o rigor racional, estético e apelo funcional (1999b).
Os limites da vida social urbana no contemporâneo são sintomáticos
da retirada sem freios da humanidade da cidade. Ao fazer um balanço sobre
esse indicativo de Sennett, Bauman mostra como:
“Sempre que foi empreendida a execução de tais planos, as tentativas de “homogeneizar” o espaço urbano, de torná-lo “lógico”,
“funcional” ou “legível” redundaram na desintegração das redes
protetoras tecidas pelos laços humanos, na experiência fisicamente
devastadora do abandono e da solidão – combinada com a de um
vazio interior, um horror a desafios que a vida pode colocar e o
expediente da ignorância ante opções autônomas e responsáveis”
(BAUMAN, 1999:53).
Percebemos, assim, que os princípios da racionalidade, legibilidade e
funcionalidade da nova projeção urbana têm esvaziado a cidade da humanidade. O fato que se constata que o medo é o novo invasor desta. Não se constro-
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em muros na cidade com o objetivo de liberar-se do perigo, mas para garantir
a segurança.1
A economia atual é apontada como despossuída de um lugar fixo e o
Estado-nação não tem mais o controle político sobre ela. As forças erosivas
do definhamento do Estado são as empresas transnacionais (1999b).
Crise da produção e o processo da acumulação flexível
Enquanto a economia de tipo fordista estava ancorada na política
keynesiana e apoiou-se nesta para expandir a produção, internacionalizar o
comércio dos seus produtos e aumentar seus lucros, o movimento da empresa capitalista materializava-se na combinação do impulso político, por meios
de incentivos do Estado-nação e da dinâmica produtiva das corporações capitalistas.
Além da forma corporativa de organização de negócios, Ford incorporou também, porém de modo racional, “velhas tecnologias e uma detalhada divisão do trabalho preexistente, embora, ao fazer o trabalho chegar ao
trabalhador numa posição fixa, ele tenha conseguido dramáticos ganhos de
produtividade.” Incorporou também a separação entre gerência, concepção,
controle e execução e demais aspectos relativos à hierarquia (HARVEY, 1992).
A produção em escala e seu consequente consumo, também em grande escala, implicariam um novo sistema de reprodução da força de trabalho,
uma política nova de disciplina e gerência do trabalho, “uma nova estética e
uma nova psicologia, em suma, um novo tipo de sociedade democrática, racionalizada, modernista e populista” (HARVEY, 1992).
Ford acreditava no poder produtivo do modelo corporativo. O dia de
oito horas e o pagamento de cinco dólares, além de forçar o aumento da disci-
1
“Os muros construídos outrora em volta da cidade cruzam agora a própria cidade em inúmeras direções. Bairros vigiados,
espaços públicos com proteção cerrada e admissão controlada, guardas bem-armados no portão dos condomínios e
por tas operadas eletronicamente – tudo isso para afastar concidadãos indesejados, não exércitos estrangeiros,
salteadores de estrada, saqueadores ou outros perigos desconhecidos emboscados extramuros.” (BAUMAN, 1999:53)
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plina dos trabalhadores, para adequá-los à nova linha de montagem de elevada produtividade, proporcionar-lhes-ia renda e tempo para o consumo da
alta produção que as corporações estavam por fabricar (HARVEY, 1992).
A implantação do fordismo encontrou dois importantes obstáculos:
um deles foi a própria resistência à tecnologia de montagem de produção de
massa. O outro se relaciona com o modo de intervenção política do Estado. O
fato é que a realidade pedia uma nova concepção de regulamentação compatível com a produção fordista. No entanto, a derrota dos movimentos sindicais,
fundamental para o controle da força de trabalho, foi um considerável componente (HARVEY, 1992).
Assim, o fordismo aliado à concepção keynesiana conseguiu transcender as fronteiras nacionais, formar uma rede mundial de produção e comércio, inclusive as nações descolonizadas. Após o ano de 1945 (pós-guerra),
será um marco para o capitalismo pelo alcance de altas taxas econômicas,
devido à sua consistência produtiva e, por efeito, à elevação dos níveis sociais
de vida.
A motivação para a procura de solução tem início a partir da crise,
cuja expressão fundamental é a incompatibilidade da alta produção com o
consumo. O plano de Keynes tinha por objetivo estabilizar o capitalismo por
meio de estratégias administrativo-científicas, com o uso do poder do Estado2 (HARVEY, 1992).
Nesse contexto, o fordismo, sustentado no keynesianismo, vai configurar-se como um regime de acumulação pleno com características próprias.
Ele se constituiu também como a plataforma completamente estável, de um
longo período de expansão que vai do pós-guerra até o ano de 1973. Isso
permitiu que o capitalismo ganhasse bastante consistência e a elevação dos
padrões de vida (HARVEY, 1992).
O Estado teve de assumir novos (keynesianos) papéis e construir novos poderes institucionais; o capital corporativo
teve de ajustar-se às velas em certos aspectos para seguir com mais suavidade a trilha da lucratividade segura; e o trabalho
organizado teve de assumir novos papéis e funções relativos ao desempenho nos mercados de trabalho e nos processos
de produção (HARVEY, 1992:125).
2
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As formas de intervenções estatais variaram de acordo com o desempenho dos gastos públicos, na organização do estado de bem-estar social
obtido nos diversos países. O fordismo pós-guerra teve êxito não somente
nos Estados, mas também na Europa, aos quais os governos estenderam seu
apoio com significativos gastos públicos. É possível ver, assim, que um número significativo de países europeus o fez.
“O fordismo do pós-guerra tem de ser visto menos como um
mero sistema de produção em massa do que como um modo de
vida total. Produção em massa significava padronização do produto e consumo de massa, o que implicava uma nova estética e
mercadificação da cultura... O fordismo apoiou-se na, e contribuiu para a estética do modernismo – na inclinação desta última,
para a funcionalidade e a eficiência – de maneiras muito explícitas, enquanto as formas de intervencionismo estatal (orientadas
por princípios de racionalidade burocrático-técnicos), e a configuração do poder político que davam ao sistema a sua coerência se
apoiavam em noções de uma democracia econômica de massa,
que se mantinha através de um equilíbrio de forças de interesse
especial.” (HARVEY, 1992:131)
O movimento do internacionalismo aprofundou sua intervenção, de
modo a trazer em sua bagagem atividades na área de serviços financeiros,
hoteleiros, turísticos, de terminais de transportes, dentre outras, e apoiou-se
fortemente em capacidades recém-descobertas de reunir, avaliar e distribuir
informações” (HARVEY, 1992).
Pode-se concluir que
a expansão internacional do fordismo ocorreu numa conjuntura
particular de regulamentação político-econômica mundial e uma
configuração geopolítica em que os Estados Unidos dominavam
por meio de um sistema bem distinto de alianças militares e
relações de poder (HARVEY, 1992:132).
Ao mesmo tempo em que o Estado garantiu em alguns países boa
qualidade de vida para parte de seus trabalhadores, o fordismo gerou descontentamento, mesmo no momento de apogeu deste modelo, em que o Estado
tentou aliviar por meio de medidas compensatórias salariais (HARVEY, 1992).
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A reorganização da produção e do trabalho
As análises que procuram explicar a crise do capital do final da década
de 1960 e início da década de 1970 põem em relevo o declínio da produtividade
e dos lucros das empresas após 1966 e afetam diretamente a arrecadação pública dos Estados Unidos, que, após a aceleração da inflação, deu o status de
moeda-reserva internacional (HARVEY, 1992; ANTUNES, 1999a).
Soma-se a isso a crise em proporções internacionais do capital imobiliário e da paralisia das instituições financeiras. Na crista da onda, encontram-se, ainda, as consequências da elevação do preço do petróleo e o embargo do fornecimento de petróleo ao Ocidente, no contexto da guerra entre
árabes e israelenses, no ano de 1973.
Seus efeitos constituíram formas diversas de economizar energia. A
deflação entre os anos de 1973-1975 gerou uma série crise “fiscal e de
legitimação”. A falência técnica de Nova Iorque revelou o quanto o problema
era grave. Simultaneamente a isso, a capacidade de excedente levou as
corporações a se lançarem a uma desenfreada competição. Esses fatores explicam as razões da
racionalização, reestruturação e intensificação do controle do trabalho (caso pudessem superar ou cooptar o poder sindical). A
mudança tecnológica, a automação, a busca de novas linhas de
produto e nichos de mercado, a dispersão geográfica para zonas
de controle do trabalho mais fácil, as fusões e medidas para acelerar o tempo de giro do capital passaram ao primeiro plano das
estratégias corporativas de sobrevivência em condições gerais de
deflação” (HARVEY, 1992:136-7-140).
As razões da crise são, de acordo com Antunes, consequência dos problemas que abalaram o capitalismo no início dos anos de 1970. A queda da
taxa de lucro do capital, combinada com a subida do preço da força de trabalho, e a ascensão do movimento sindical na década de 60 foram fatores que
influenciaram de modo determinante na diminuição da produtividade da
empresa capitalista, na saturação do regime de acumulação de produção do
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tipo taylorista/fordista e no excessivo desenvolvimento financeiro, que deram a este setor certa independência em relação ao capital industrial, alta
concentração de capitais, puxados pelo movimento das fusões das empresas
monopolistas e oligopolistas, a crise fiscal, influenciada diretamente pela crise do “Estado de bem-estar social”, e a corrida das privatizações, tendência
geral da desregulamentação e flexibilização do processo produtivo, do comércio e das relações de trabalho (1999a).
As proporções da crise fordista e keynesiana expressaram a complexidade de um quadro de crise estrutural do capitalismo, cujo declínio da taxa de
lucro foi a manifestação dos efeitos dos fatores antes mencionados.
A organização das estruturas gerais do capital foi uma forma de responder à sua própria crise, de que o neoliberalismo é o suspiro imediato da
solução política e a economia estava na privatização do Estado, na
flexibilização das leis trabalhistas e no desmantelamento do aparato de produção do Estado. Junte-se a isso a reestruturação da produção e do trabalho
(1999).
Um dos efeitos da recomposição da lógica geral do capital é a falência
de parques industriais inteiros de determinadas regiões que não suportam
ficar de pé, em face do peso da concorrência desigual das grandes corporações
de força transnacional. Não menos afetado e destruído é o contingente enorme de trabalho e das forças produtivas, das populações que vivem de salário,
em condições de trabalho precarizado, ou nas redes da informalidade.
BAUMAN chama de o “resto” aos indivíduos que nem sequer puderam escolher, opinar sobre a sua condição, em total desvantagem, situados no espaço
local, que se opõe ao império privilegiado do espaço global (1999a; 1999b).
A acumulação flexível é exatamente a oposição da definição da rigidez
do regime fordista. Harvey denominou de acumulação flexível os elementos
das relações de trabalho, do mercado de trabalho, dos produtos e padrões de
consumo, todos dotados de flexibilidade. Caracterizam-se, sobretudo, pela
novidade dos setores de produção, serviços financeiros, elevadas taxas nos
componentes das relações de produção, da tecnologia e comércio; pela ampliação do movimento do setor de serviços, por meio do desenvolvimento desiNanbiquara: Revista Científica da Fametro, v. 1, n. 1, jul.dez./2010 21
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gual entre setores e até mesmo entre regiões e a capacidade de criar novas
indústrias em lugares antes inteiramente subdesenvolvidos. É o caso de algumas regiões que ficaram conhecidas como “terceira Itália”, Flandres e outros
(2006).
Outro aspecto dessa denominação passa pelo alto índice de desemprego estrutural, com veloz capacidade de eliminação de habilidades e baixos
salários, além da subcontratação3, do recuo e do controle do poder de fogo do
movimento sindical (2006).
A respeito disso, Castells analisa esse processo com base num tipo de
rede, que pode ser exemplo da rede produtiva Benetton. Esse tipo de organização em redes é uma forma intermediária de arranjo entre a desintegração
vertical por meio dos sistemas de subcontratação de uma grande empresa e as
redes horizontais das pequenas empresas. É uma rede horizontal, mas baseada em um conjunto de relações periférico-centrais, tanto no lado da oferta
como no lado da demanda do processo (2006).
Vislumbra-se um horizonte em que a inevitável mudança ocorrida no
regime da acumulação flexível esteve sob a reserva da luta consciente das
mulheres, pela sua firmação no mercado de trabalho (2006).
Outro aspecto característico da acumulação flexível é que esta reduziu
o tempo de utilidade do produto, em setores como têxtil e vestuário.4
Harvey demonstra o aumento potencial da geração de as crises financeira e monetária serem maiores no contexto atual, em que a dinâmica mudança no equilíbrio de forças e o capitalismo global ofereceu maior autono-
“A mudança mais radical tem seguido a direção do aumento da subcontratação (setenta por cento das firmas britânicas
pesquisadas pelo National Economic Development Council [Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico] relataram um aumento da subcontratação entre 1982 e 1985), ou do trabalho temporário – em vez do trabalho em tempo
parcial. Isso segue um padrão há muito estabelecido no Japão, em que mesmo no fordismo, a subcontratação de
pequenas empresas agia como protetor mesmo das grandes corporações do custo das flutuações do mercado. A atual
tendência dos mercados de trabalho é reduzir o numero de trabalhadores “centrais” e empregar cada vez mais uma força
de trabalho que entra facilmente e é demitida sem custos quando as coisas ficam ruins” (HARVEY, 2006:144).
5
“A acumulação flexível foi acompanhada na ponta do consumo, portanto, por uma atenção muito maior às modas fugazes
e pela mobilização de todos os artifícios de indução de necessidades e de transformação cultural que isso implica. A
estética relativamente estável do modernismo fordista cedeu lugar a todo o fermento, instabilidade e qualidades fugidias
de uma estética pós-moderna, que celebra a diferença, a efemeridade, o espetáculo, a moda e a mercadificação de formas
culturais” (HARVEY, 2006:148).
3
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mia ao capital financeiro do que no regime fordista. Embora as redes de telecomunicações possibilitem maiores condições “de minimizar os riscos através da diversificação e da rápida transferência de fundos de empresas, regiões
e setores em decadência para empresas, regiões e setores lucrativos”
(2006:155).5
O movimento mais flexível do capital acentua o novo, o fugidio,
efêmero, o fugaz e o contingente da vida moderna, em vez dos
valores mais sólidos implicados na vigência do fordismo. Na
medida em que a ação coletiva se tornou, em consequência disso,
mis difícil – tendo essa dificuldade constituído, com efeito, a
meta central do impulso de incremento do controle do trabalho
– o individualismo exacerbado se encaixa no quadro geral como
condição necessária, embora não suficiente, da transição do
fordismo para a acumulação flexível. Afinal de contas, foi principalmente por intermédio da irrupção da formação de novos negócios, da inovação e do empreendimento que muitos dos novos
sistemas de produção vieram a ser implementados.” (2006:161).
Considerações finais
Os efeitos das mudanças intrínsecas ao regime de produção capitalista oferecem até aqui o dilema entre quem fica no hall da produção, quem é
escalado, quem está excluído ou desempregado, portanto, desconectado da
rede do consumo, excluído das novas tecnologias. Nesse sentido, Dupas (2001)
expõe um cenário, pelo qual vemos alguns quadros, alguns indicando a
negatividade, outros indicando a positividade do futuro dos postos de trabalho e, por efeito, a condição incerta da classe trabalhadora.
É possível, assim, considerar, diante do que dissemos, que as transformações na lógica interna do capital se encontram em processo de transição.
5
“A desregulamentação e a inovação financeira - processos longos e complicados – tinha- se tornado, na época, um
requisito para a sobrevivência de todo centro financeiro mundial num sistema global altamente integrado, coordenado
pelas telecomunicações instantâneas. A formação de um mercado de ações global, de mercados futuros de mercadorias
(e até de dívidas) globais, de acordos de compensação recíproca de taxas de juros e moedas, ao lado da acelerada
mobilidade geográfica de fundos, significou, pela primeira vez, a criação de um único mercado mundial de dinheiro e de
crédito” (2006:152).
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A reorganização da produção e do trabalho no pós-guerra...
Se partirmos do diagnóstico de Bauman sobre o conflito espacial decidindo e determinando a condição humana, num ambiente em que as desigualdades se acentuam e dependem da situação de cada indivíduo, grupo,
comunidade ou tribo. Ser global, portanto, é determinar uma condição de
poder, de opinar sobre grandes decisões. Essa é a rara condição de liberdade e
de autonomia. Em contrapartida, parece ter ficado para o ser local a mera
condição de espectador, em que o indivíduo é menos sujeito das suas ações,
pela simples condição de ser local. A desvantagem do ser local é também
reveladora de dependência e de vigilância.
Os efeitos dessa nova configuração do cenário mundial, cuja tendência geral é de instabilidade permanente da economia mundial, em função da
mundialização do capital, flexibilização e desregulamentação de direitos,
flexibilização da produção em função da reestruturação produtiva na ordem
das grandes corporações.
Referências
ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do Trabalho: Ensaio sobre a afirmação e a
negação do trabalho. 5. ed. São Paulo: 1999a.
BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as consequências humanas. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1999b.
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede: A Era da Informação: Economia,
Sociedade e Cultura. 9. ed. Editora Paz e Terra, 2006.
DUPAS, Gilberto. Economia Global e Exclusão Social: Pobreza, Emprego,
Estado e o futuro do capitalismo. 3. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2001.
SILVA, Marilene Correa da. Metamorfoses da Amazônia. Manaus: EDUA,
2000 (259-270)
Recebido em: 22/6/10
Aceito em:10/08/10
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