Retrato de uma juventude

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Retrato de uma juventude
Prof. iLwyzx
08
15/06/2014
História
Aluno(a):______________________________________________________
Retrato de uma juventude
‘O selfie é a expressão contemporânea da
iconofilia. Torna visível a força invisível da
tribo’, diz sociólogo francês
Juliana Sayuri. O Estado de S. Paulo, 17 de maio de
2014.
O retrato, aliás, o autorretrato é o seguinte:
de manhã despertamos com o celular, zapeamos
as notícias no tablet, conferimos o trânsito na
rádio, tarde adentro ziguezagueamos no trabalho
entre abas e abas repletas de imagens, letras e
links, à noite assistimos à TV para pensar na vida
– e às vezes para não pensar –, marcamos um bar
com os amigos no Facebook, narramos o evento
no Twitter e fotografamos o quão divertido está
o encontro no Instagram. Socializamos o tempo
todo, compartilhamos o tempo todo, curtimos o
tempo todo. Curtimos?
No fim de abril, o diretor londrino Gary Turk
postou seu “manifesto” Look Up, que já soma
mais de 37 milhões de visualizações –
ironicamente, uma crítica à midiatização da vida
se tornou um hit no YouTube. Outro hit, já na
casa dos 42 milhões de views desde agosto, foi
protagonizado pela atriz Charlene deGuzman. No
vídeo I Forgot My Phone, a americana é ignorada
por todos ao seu redor, intensamente vidrados
nos “likes” de seus smartphones, o que levou o
jornalista Nick Bilton a publicar no New York
Times uma pensata atilada à nossa sociedade:
“Assistir
ao
vídeo
de
DeGuzman
é
desconfortável. É um golpe direto na nossa
cultura obcecada com smartphones, cutucandonos sobre nosso vício naquela pequena tela e
sugerindo que talvez a vida possa ser mais bem
direcionada quando é vivida – em vez de
visualizada.”
“Dizia Hegel, o jornal é a ‘oração’ matinal
do homem moderno. As redes sociais serão a
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oração do homem pós-moderno”, considera o
sociólogo francês Michel Maffesoli, diretor do
Centre d’Études sur l’Actuel et le Quotidien
(CEAQ) da Université Paris Descartes – Sorbonne.
Autor de O Ritmo da Vida (2007), O Tempo das
Tribos
(2006) e
Sobre o
Nomadismo:
Vagabundagens Pós-modernas (2001), entre
outros, o teórico da pós-modernidade é um dos
principais pensadores debruçados sobre questões
culturais e ciberculturais da atualidade. Vê nos
selfies mais uma expressão contemporânea da
iconofilia, essa adoração imagética num looping
rumo ao infinito como o que vimos nos últimos
dias: Macaulay Culkin vestindo uma camiseta de
Ryan Gosling, vestindo uma camiseta de
Macaulay Culkin e assim por diante.
Mas Maffesoli, aos 69 anos, é otimista sobre
determinados aspectos da internet. Na sua visão,
o avanço tecnológico não nos direciona ao
antissocial. “Tende, ao contrário, a consolidar
uma mise en relation. E uma das pistas que será
preciso estudar sobre o desenvolvimento
tecnológico próprio às mídias sociais é a
emergência de novas formas de generosidade e
de solidariedade”, diz.
Nesta entrevista ao Aliás, às vésperas do Dia
Mundial da Internet (celebrado no dia 17 de
maio), o intelectual comenta as relações entre
os
“nativos
digitais”
nessas
tribos
contemporâneas. Pondera que, evidentemente,
não estamos mostrando quem somos nas redes
sociais – mas quem desejamos ser aos olhos dos
outros. “Qual é o status dessas determinadas
personalidades? De fato, elas não são mais
consubstanciáveis
a
um
indivíduo,
mas
representam uma máscara – a persona – de quem
escolhe se posicionar nessa ou naquela rede
social.”
Para Maffesoli, essas relações tribais,
especialmente entre os jovens, levam a um
outro quadro: quer-se tanto viver em sociedade
que os jovens se preocupam mais em se
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acomodar ao mundo – e não a querer transformálo.
Qual é o papel das mídias sociais na pósmodernidade?
Podemos dizer que, na pós-modernidade, as
mídias estão se tornando mais e mais
importantes,
especialmente
as
chamadas
“mídias sociais”. Lembremos Hegel, que dizia no
século 19: a leitura do jornal é a oração do
homem moderno. Podemos pensar que as mídias
interativas serão a oração do homem pósmoderno.
Contrariamente
às
críticas
tradicionais, porém, acredito que essas mídias
favorecem a mediação, isto é, a relação e a
inter-relação
entre
as
pessoas.
Se
a
modernidade, particularmente no seu momento
final, viu o triunfo da “multidão solitária”, a
pós-modernidade nascente verá se desenvolver
uma multiplicidade de novas tribos urbanas, cuja
essência é o relacionismo.
Com os avanços tecnológicos, nós estamos
observando a emergência de uma geração
‘selfie’?
Certamente o selfie está no ar. Entretanto, na
minha opinião, essa mise en scène de si mesmo
não é, como se costuma dizer, o símbolo de um
aprisionamento de si. Nessa perspectiva,
discordo dos teóricos que abordam abusivamente
o narcisismo. Prefiro dizer que os selfies
compõem a forma contemporânea da iconofilia.
Assim, podemos indicar um narcisismo tribal.
Isso quer dizer que, ao difundir essas fotografias,
nós pretendemos nos posicionar em relação aos
outros da tribo. Se traçarmos um paralelo com
uma imagem religiosa, o selfie tem uma
finalidade sacramental, que torna visível a força
invisível do grupo. O que me liga aos outros da
minha tribo? Nós nos definimos sempre em
relação ao outro. Assim, o fenômeno tribal
repousa essencialmente no compartilhamento de
um gosto (sexual, musical, religioso, esportivo,
etc.). É preciso dizer que essa “partilha” cresce
exponencialmente com o desenvolvimento
tecnológico.
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Nas mídias sociais, publicamos ‘selfies’ sempre
felizes. Somos tão felizes? Ou filtramos nossos
retratos justamente para esconder nossas
angústias atuais?
De fato, as mídias sociais (Facebook, Instagram,
Twitter, etc.) tendem a dar uma figuração feliz
de nós mesmos. Certamente não estamos sempre
felizes. Mas há aí um movimento de pudor: nós
tendemos a dar à tribo, ou às diversas tribos às
quais pertencemos, imagens reconfortantes de
nós mesmos. No entanto, historicamente, é
preciso lembrar que os quadros e as esculturas,
as imagens próprias a todas as civilizações
destacaram essencialmente essa figuração de
felicidade. Os últimos livros de Michel Foucault
(História da Sexualidade: O Cuidado de Si e
História da Sexualidade: O Uso dos Prazeres)
mostram que isso marcou a Grécia e a Roma
antiga. Foi o caso também na Idade Média. Para
resumir em uma expressão: isso traduz um
“pudor antropológico”, que é um elemento
essencial do viver em sociedade.
Há quem argumente que a tecnologia está nos
tornando antissociais. Temos muitos amigos no
Facebook, mas estamos mais solitários?
Contrariamente aos críticos que sublinham o
isolamento crescente, que seria característico
das megalópoles pós-modernas, considero que a
multidão solitária – na minha expressão, a
solidão gregária – é uma das especificidades da
modernidade decadente. Paradoxalmente, o
desenvolvimento tecnológico não nos direciona
ao antissocial. Tende, ao contrário, a consolidar
essa mise en relation – no seu sentido forte e
etimológico, o comércio das ideias, dos bens,
dos afetos. É evidente que o termo “amigo”
particularmente no Facebook não pode ser
reduzido à concepção de amizade clássica, feita
de relações intensas e recíprocas. Entretanto, a
multiplicidade de amigos nos permite saber, se
necessário for, onde e com quem manter
relações sociais. E uma das pistas que será
preciso estudar sobre o desenvolvimento
tecnológico próprio às mídias sociais é a
emergência de novas formas de generosidade e
de solidariedade, nas quais os uns e os outros
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são causa e efeito de uma “horizontalização
societal”.
Divulgado nos últimos dias, um estudo da OMS
mostrou que a depressão é a principal
enfermidade entre os jovens. A vida virtual e a
fragilidade das relações ‘tête-à-tête’ teriam
impacto nessa geração?
É preciso ter bastante cuidado com os diversos
estudos institucionais focados principalmente no
campo da saúde, que tendem a dizer que a
depressão é a doença específica das jovens
gerações. Valeria questionar se essa depressão
não é característica das gerações no poder, quer
dizer, das próprias gerações que comandam
esses estudos e que talvez, num processo de
compensação como destacou o psicanalista Carl
Gustav Jung, tendem a projetar ao exterior o
mal-estar que nós mesmos sofremos.
do mundo. No entanto, na minha opinião, é
paradoxal observar que, atualmente, esse
desenvolvimento tecnológico, especialmente nos
seus usos sociais, nos direcionam a um
reencantamento do mundo. Nessa perspectiva,
as mídias sociais são ao mesmo tempo um meio e
uma mensagem, que confortam a vida em
sociedade. Se a modernidade se firmou a partir
de um princípio individualista, a tecnologia pósmoderna abriga um relacionismo galopante –
uma relação, como frisei, entre nós e os outros.
Michel
Maffesoli
é
sociólogo,
teórico
da
pós-
modernidade e autor de 'O tempo da tribos', entre
outros livros
Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/su
plementos,retrato-de-umajuventude,1167792,0.htm
Há tempo para contemplação do mundo
atualmente?
No livro A Contemplação do Mundo, tento
demonstrar que a tendência geral da pósmodernidade, perceptível particularmente nas
jovens gerações, consiste menos em querer
mudar o mundo – e mais em se acomodar ao
mundo. Adaptar-se, ajustar-se a ele. Isso pode
nos conduzir a evitar a devastação, cujos
“saques” ecológicos são exemplos cotidianos.
Com o sociólogo italiano Massimo De Felice, no
Centro de Pesquisa Atopos da Universidade de
São
Paulo
(USP),
tentamos
justamente
desenvolver pesquisas sobre essa “ecosofia”.
Acredito que é assim que precisamos
compreender o “ritmo da vida”, isto é, pensar a
existência a partir de um ponto fixo – a
natureza, o território –, todos os elementos que
fazem com que o ambiente social dependa do
ambiente natural. Se a modernidade foi um
pouco paranoica, levando à dominação e à
devastação do mundo, na pós-modernidade uma
nova sabedoria está em gestação.
Por fim, a tecnologia é um meio? Ou uma
mensagem?
É habitual considerar que, com a prevalência de
um racionalismo exacerbado, a tecnologia
moderna contribuiu para um desencantamento
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