A História Ambiental na paisagem - NIMA - PUC-Rio

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A História Ambiental na paisagem - NIMA - PUC-Rio
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA
DO RIO DE JANEIRO
CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS
DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA
A História Ambiental na paisagem contemporânea
do maciço da Pedra Branca/RJ
Agni Hévea dos Santos
ORIENTADOR: PROFª Drª. RITA DE CÁSSIA MONTEZUMA
BANCA EXAMINADORA:
PROFº Dr. Rogério Ribeiro Oliveira
PROFª Me. Leonor Ribas de Andrade
RIO DE JANEIRO
2007.1
1
Aluno de Pós-Graduação em Transformação da Paisagem/Departamento de Geografia e Meio Ambiente - PUC-RIO –
[email protected]
2
Sumário
Agradecimentos-------------------------------------------------------------------------------------------------------4
I – Introdução ----------------------------------------------------------------------------------------------------------5
II – Fundamentação teórica ----------------------------------------------------------------------------------------9
III – Evolução espacial da baixada de Jacarepaguá ------------------------------------------------------- 13
3.1 Ocupação das freguesias rurais --------------------------------------------------------------------------- 14
3.2 Ocupação do Camorin e o território dos carvoeiros--------------------------------------------------- 19
3.3 Criação do Parque Estadual da Pedra Branca --------------------------------------------------------- 23
3.4 Urbanização contemporânea da baixada de Jacarepaguá ----------------------------------------- 24
IV- Procedimentos Metodológicos------------------------------------------------------------------------------ 26
V- Resultantes dos usos pretéritos----------------------------------------------------------------------------- 29
5.1 – Fitossociologia ----------------------------------------------------------------------------------------------- 29
5.2 Ciclagem de nutrientes pela serapilheira ---------------------------------------------------------------- 33
VI - Resultantes dos usos contemporâneos- poluição pluvial ------------------------------------------- 38
VII – Classificação digital do espaço--------------------------------------------------------------------------- 40
VIII – Considerações finais --------------------------------------------------------------------------------------- 49
Referências Bibliográficas ---------------------------------------------------------------------------------------- 52
Índice de Figuras
Figura 01 – engenho colonial --------------------------------------------------------------------------------------6
Figura 02 – Grandes propriedades rurais nas freguesias ------------------------------------------------ 15
Figura 03 – loteamentos na região das freguesias--------------------------------------------------------- 18
Figura 04 – Reprodução do plano-piloto Lúcio Costa ----------------------------------------------------- 19
Figura 05 – Ilustração do balão de carvão ------------------------------------------------------------------- 21
Figura 06 – Ilustração do balão de carvão na região de encosta--------------------------------------- 22
Figura 07 – Parque estadual da Pedra Branca ------------------------------------------------------------- 24
Figura 08 – Evolução demográfica de Jacarepaguá 1999-2000---------------------------------------- 25
Figura 09 – Evolução da densidade de Jacarepaguá 1999-2000 -------------------------------------- 25
Figura 10 – Variação demográfica relativa da baixada de Jacarepaguá ----------------------------- 26
Figura 11 – Localização da área de estudo na Bacia do rio Camorim -------------------------------- 27
Figura 12 – Diferença entre o pH da área aberta e florestada ------------------------------------------ 39
Figura 13 – Imagem Digital RBD & Classificação da Imagem Digital --------------------------------- 47
Figura 14_ Percentuais de classes da Imagem Digital Landsat 1999 --------------------------------- 48
Índice de Tabelas
Tabela 01 – Número de posses na propriedade rural ----------------------------------------------------- 17
Tabela 02 – Principais características vegetacionais------------------------------------------------------ 30
Tabela 03 – Principais características vegetacionais do Pedra Branca------------------------------- 31
Tabela 04 – Parâmetros fitossociológicos das dez espécies -------------------------------------------- 32
Tabela 05 – Produção de serapilheira em periódicos científicos --------------------------------------- 36
3
Ao longo de minha jornada acadêmica na PUC situada à zona
sul do município do Rio de Janeiro, que por vezes confundiu-se com a
jornada profissional e econômica, familiar, social, etc. passando a ser
condecorada a “jornada de vida”, presenciei várias situações sociais
que me angustiava enquanto morador de um bairro pequeno e humilde
do 3° distrito do município de São Gonçalo.
Além do natural choque cultural, haja visto as notórias distinções
econômicas, espaciais, comportamentais, sociais e, sobretudo, da
atenção diferenciada do Estado em relação às duas longínquas
realidades sociais: interior de São Gonçalo e a Zona sul carioca,
deparei-me com a situação da favelização junto às encostas cariocas e,
consequentemente, o subjugarmento e expropriação das classes
marginais ao processo de estruturação espacial.
Lidar com crianças e adolescentes oriundos dessa angustiante
realidade social, tais como os que eram os atendidos nos projetos
sociais do NEAM, Educação Ambiental às escolas públicas, Prévestibulares Comunitários, etc. e, em sua maioria, emergidos de
comunidades e favelas até mesmo facínoras e antagônicas como o
Vidigal e a Rocinha, proporcionou-me, concomitantemente, a
indignação e a impotência frente a problemática.
A busca incessante para compreensão e intervenção mitigantes
as aflições e “fomes” que assolavam esses moradores passou a estar
intimamente ligado ao meu mundo em função do espraiamento da
violência urbana, agora não só à montante das encostas cariocas,
como também, às regiões metropolitanas e periféricas tais como São
Gonçalo.
A proximidade dos mundos, ante então longínquos e agora
simulacros, fez-me vítima dessa realidade, o que de certa forma me
enfraquecia em termos materiais, porém engrandecia-me de ideologias
e ensejos – um tanto quanto utópicos – mas de caminhos trilháveis e
reais.
Passei então a dar mais significância a um problema social que
a mim parecia inerme – apesar dos corriqueiros relatos de amigos e da
mídia. Questões mil pareciam tomar forma: O que faz os moradores
destas “carentes” comunidades escolherem tais regiões desprovidas de
estruturas e serviços básicos e agravadas ainda pela vertiginosa
geomorfologia fluminense e pela climatologia tropical? Que dinâmica
social explica as estruturas sócio-espaciais destas comunidades
alicerçadas em gírias, vestimenta, músicas e comportamentos
peculiares? Quais os agentes sociais responsáveis pelo avanço desses
usos urbanos às áreas “abandonadas” pelo capital ou reservas legais,
tais como os parques, reservas e unidades de conservação?
Busquei atender a essas angústias ao longo desse trabalho final
de graduação, no sentido de que tais dinâmicas ambientais, sendo
pretéritas ou contemporâneas, atendem e são reflexos dos agentes
sociais tanto àqueles detentores dos meios e mecanismos políticos e
econômicos de demarcação espacial quanto àqueles desprovidos dos
mesmos, porém inseridos marginalmente à economia, ora ferramentas
utilizadas no processo de especulação fundiária, ora agentes (mesmo
que em menor escala) da expropriação espacial e social.
4
Agradecimentos
Bom, agradecer àqueles que me confiaram ensejos, amizades será um tanto
quanto extenso em virtude das inúmeras funções e atividades que permearam a minha
lida acadêmica:
À minha professora, amiga e orientadora Rita de Cássia Montezuma e sua
encantadora filha Aymara, sou grato pelas oportunidades de aprendizado, confiança
infinita, apoio incondicional, paciência extremada, companheira, solidária, etc. sempre
solícita às minhas “perturbações” e “chatices”.
Ao meu professor, tutor, progenitor científico Rogério Ribeiro Oliveira e família, sou
infinitamente grato pela hospitalidade nas inúmeras acolhidas em seu lar, pelos eficazes
conselhos, pelo legado teórico transmitido em suas publicações, pelos valiosos anos de
orientação na iniciação científica, abrindo mão na maioria das vezes do fim de semana de
descanso em família para dar uma “subidinha” ao Caçambe.
À minha família Herbene, Raimundo, Tayon e Ramene, sendo acrescida pela irmã
adotiva Flavia e, ultimamente, pela sobrinha Soraya, reconheço o perene incentivo e
amor, além dos suportes: genético, financeiro e afetivo ao longo da minha vida. Expresso,
também aqui, toda minha gratidão que sinto e, tantas vezes, esqueço-me de expressar.
Auxiliam-me e confiam plenamente no meu sucesso.
Ao curso Pré-vestibular Comunitário Paulo Freire e aos professores voluntários
pela oportunidade de estudar neste projeto que possibilitou o meu ingresso na
Universidade e, do qual firmemente abraço na ideologia de reverter o quatro social pelas
iniciativas micro, porém integradas e continuadas.
À PUC-Rio pela política de inclusão social, através da bolsa de estudos de 100%.
À Pastoral Comunitária pela importante inclusão no projeto FESP, responsável por minha
manutenção na Universidade, sem o qual não possuiria condições de “caminhar” na
graduação.
Ao NEAM e, em especial, a professora Marina Lemette na qual estimo como uma
grande amiga: enérgica quando necessário e amável sempre, bem como, aos
funcionários e colaboradores do NEAM: professor Fernando, Paulo, Simone, Cristiane,
eterna lembrança da estimada Malu. Ao NIMA e NIMA-JUR sob a tutela maestrosa do
Prof. Josafá e Prof. Fernando Walcacer e Danielle Moreira. Em suma: todos estes entes
(institucionais ou humanos) consolidaram-se como essenciais à obtenção da instrução
acadêmica, da tarimba pedagógica, política e social.
Ao Departamento de Geografia, em especial, a sempre atenciosa Edna e aos
preofessores: João Rua, Regina Matos, Marcelo Motta, Felipe Guanaes, Álvaro, Augusto,
entre outros. Além de importantes profissionais e amigos tal como a profª. Ana Valéria.
Todos estes essenciais pela paciência e companheirismo ao longo destes cinco anos.
Aos amigos Ernesto, Leonardo, Renan, Felipe Bagatoli, Carlos Humbeto,
Bernardo, Ugo Medeiros, Manoel Caetano, Maxwel, Aderivaldo, Rafael Mendes, Carlos
Eduardo, Bruno Santos, Gustavo Godinho, Bruno Robert, Dudu Paixão, Bruno “Ruivo”,
George Almeida, Demian, Alex e Bryan Solórzano, Vitor, Toninho paizão, Prof. Umberto,
Cadu, Zeca, Pablo, “Janjão”, “Mosquito”, “Skol”, Vinny, Charles, Paulo, João, Frederico,
Arthur, Adler, Muños, Diego, Felipe, Júlio, Willian, Vanderlei, Alex, Rogério, etc. pelo
inestimável apoio e solidariedade do início ao fim da minha formação.
Às amigas Débora sol, Fernanda Débora, Aline, Fernanda Vieira, Clara, Ferê,
Flavinha, Bárbara, Joana, Hanna, Rejane, Merinha, Michele, Delma, Bettina, Camila,
Marcela, Amanda, Evelyn, Gisele, Ilana, Laura, Lívia, Mariana, Paula, Vanessa, etc. pela
acolhida e amparo em todas as horas em que precisei.
Os amigos e colaboradores José Raimundo, Pedro Capella, Maxwel, Elisangela
Silva, Esmeralda, Rodolfo S. da Silveira, Ricardo Matos, Álvaro, Marlene e todos que
empenharam esforços no trabalho de campo para a coleta e triagem dos materiais e
dados científicos.
5
INTRODUÇÃO
“A geografia é um saber difícil porque integrador do vertical e do
horizontal, do natural e do social, do aleatório e do voluntário,
do atual e do histórico e sobre a única interface da qual dispõe
a humanidade”.
(G. Pinchemel apud Mendonça 2001)
“Esta história da Mata Atlântica não é uma história natural; ou
seja, não é uma explicação das criaturas da floresta e das
relações e estas que mantêm entre si. É antes, um estudo da
relação entre a floresta e o homem”.
(Dean, 1986)
Cerne de inúmeras polêmicas que envolvem o saber geográfico, as diversas
concepções de ambiente ilustra a complexidade que envolve muitos teóricos das
ciências ambientais, tais como Sauer (1998) que cunha o conceito “paisagem
cultural” como produto da paisagem natural e Santos (2001) com a idéia de
“território usado” atrelado, historicamente, às condições sócio-espaciais. As
acepções para o termo meio ambiente situam-se entre a redundância, a
fragmentação e o reducionismo – como em interpretações para geografia
ambiental e
preponderante
geografia
e meio
perspectiva
ambiente
acerca
do
(Mendonça,
conceito
2001).
designa
uma
Porém,
a
natureza
interdependente e sistêmica entre o homem, as sociedades e os componentes
físicos, químicos, bióticos e, sobretudo, integrados aos aspectos econômicos,
sociais e culturais.
Dessa forma, a compreensão da dinâmica ambiental do maciço da Pedra
Branca se dá segundo a avaliação integrada dos diversos aspectos relacionados
ao uso do solo pretéritos e contemporâneos, deflagradores da resultante ecológica
ou ambiental desse remanescente de Mata Atlântica. As peculiaridades da
territorialidade dos carvoeiros na vertente sul do maciço, bem como os interstícios
6
da relação homem-floresta atestam para uma singular resultante dessa evolução
histórica.
Segundo Oliveira (2005), a produção colonial no Engenho do Camorim
alicerçava-se no consumo crescente da floresta tanto estrutural (instalação e
manutenção das cercas e reformas dos madeiramentos das construções), quanto
operacional (fabrico e manutenção dos carros de boi, fornecimento de lenha para
as caldeiras e construção de caixas para exportação do açúcar produzido),
ilustrado abaixo (figura 01):
Figura 01 – engenho colonial (apud Oliveira, 2005)
O mesmo autor, baseado em dados oficiais da época, estipula que as
demandas coloniais de madeira para o Engenho do Camorim respondiam a um
consumo anual médio de 12 árvores com diâmetro superior a 70 cm ou 4.200 m³
por safra (contabilizando e relativizando a variação florestal dos estágios
sucessionais, a orientação da encosta, a geomorfologia, as características
florísticas, etc.), o que correspondia em área florestal a um total de 52 ha.
Sendo, portanto, as demandas e os padrões dos subseqüentes e
7
superpostos usos históricos da floresta, deflagrantes do desmatamento – por
vezes cíclico e rotativo – determinantes na configuração da resultante ambiental
da Mata Atlântica que é composta, quase em sua totalidade, por uma diversidade
de fragmentos – muito dos quais – isolados e descontínuos. Dessa forma, A Mata
Atlântica é caracterizada por formações secundárias fragmentadas, subsistindo
assim, a partir de uma funcionalidade garantidora da recuperação e regeneração
de seus principais atributos e funções ecossistêmicas, bem como, a perpetuação
de sua auto-sustentabilidade pela ação de diversos mecanismos ambientais.
Dentre toda essa gama de elementos inclusos nos mecanismos garantidores
da ecossistêmica ambiental, a fitossociologia ocupa importante papel de
mensuração dos parâmetros florísticos e vegetacionais de uma floresta, tais como
tipologia das espécies, inventário arbóreo, número, disposição, diâmetro e altura
dos indivíduos, etc. (Mueller-Dombois & Ellemberg, 1974)
A ciclagem de nutrientes via deposição e a decomposição da serapilheira,
material orgânico proveniente do dossel florestal, é reservatório energético e
hídrico, além de ser o principal locus das relações vegetação/solo, efetiva-se como
essencial ao funcionamento desse ecossistema face à natureza crítica de escassa
disponibilidade em nutrientes no solo, comum aos ambientes tropicais altamente
lixiviados e suscetibilizados ao longo dos ciclos econômicos históricos (Garay &
Silva, 1995).
Dessa forma, a entrada de nutrientes e/ou poluentes por vias atmosféricas
consolida-se ora como um importante mecanismo de sustentabilidade ora como
perturbador da sistêmica ambiental (Oliveira, 2006). Encontra-se intimamente
atrelado a incidência das correntes marítimas e atmosféricas e, portanto, tende a
inferir tanto na estrutura física da floresta quanto na química e hidrologia dos
fragmentos ambientais.
O objetivo desta monografia é analisar a História Ambiental do maciço da
Pedra Branca, a partir da forma, estrutura e função dos usos das populações
tradicionais nesse fragmento Mata Atlântica, bem como, analisar as resultantes
ecológicas que permeiam as diversas sucessões ecológicas desse mosaico
ambiental.
8
Sendo a História Ambiental, um campo interdisciplinar, enfrenta alguns
problemas na questão metodológica de mensuração de suas múltiplas facetas
inerentes, bem como, a de se estabelecer, com exatidão, um agente ou processo
determinante à configuração espacial. Problemática esta associada a uma falta de
delimitação mais clara desta disciplina e, portanto, a uma variedade de conceitos e
métodos de outras áreas que são por ela incorporados, sem que ela própria tenha
uma que a defina e, portanto, passa a incorporar uma metodologia analíticointegradora calcada nas disciplinas que a compõem (Solórzano, 2006)
E, conforme proposto nessa análise ambiental, utiliza-se os parâmetros
ambientais e metodologias quanto a: fitossociologia, a ciclagem de nutrientes via
serapilheira e composição química da precipitação atmosférica, na compreensão
da resultante ecológica dos distintos usos antrópicos.
Tal proposta analítico-interpretativa, de associação de associação dos
arquétipos naturais (físico, químico, biológico, etc.) e sociais, corrobora com a
proposta de Oliveira (2006) de “uma alternativa para a análise integrada dos
ecossistemas, que abarque tanto a dimensão humana (a história das populações
que com eles interagem) como seus atributos físicos e biológicos (como
composição, estrutura e funcionalidade)”.
Determinadas indagações são propostas nesse trabalho:
• Como se dá a evolução da paisagem da Mata Atlântica do Maciço da Pedra
Branca?
• Como a História Ambiental, a partir das subseqüentes e superpostas
populações tradicionais, vincula-se ao legado ambiental?
• Quão diverso e contundente o uso antrópico dos carvoeiros na História
Ambiental do maciço ao inferir, diacronicamente a outros usos e sob
distintas escalas, na resultante ambiental do maciço da Pedra Branca?
• Tais variáveis ambientais (fitossociologia, ciclagem de nutrientes via
serapilheira e precipitação atmosférica) constituem-se enquanto elementos
hábeis à análise da evolução da paisagem do maciço?
• Como as ferramentas ambientais geoprocessamento e análise digital
consolidam-se como um importante método potencializador de tal
diferenciada análise do ambiente?
9
Dada à amplitude de tempo e intensidade de ocupação, possivelmente a
maior parte destas florestas tenha tido diversos usos antrópicos, principalmente a
partir do período colonial. Daí a importância de se averiguar a relevância de tais
usos (pretéritos e contemporâneos) na configuração da paisagem fluminense
caracterizada pelo mosaico de usos subseqüentes.
Fundamentação teórica: História Ambiental
História Ambiental é uma abordagem das questões
ambientais no tempo e que encontra no meio ambiente o
seu objeto de investigação (Mantinez, 2006).
A História Ambiental, ciência relativamente nova, com pouco mais de 15
anos, é concebida a partir da relação homem-meio metamorfoseado pelas
diversas escalas espaciais e temporais, em que os seres humanos estabelecem
interação com o mundo natural, havendo simultaneidade de sua inserção e
derivação (Martinez, 2006). Trata-se da visualização da natureza enquanto
construção cultural e, dessa forma, perceptível segundo a historicidade, o
dinamismo e a intensidade de intervenção dos seus atores estruturais: físicos e
humanos, bióticos e abióticos.
A História Ambiental possui um legado teórico proveniente, principalmente,
dos Estados Unidos, que segundo Drummond (1991), um dos primeiros
divulgadores de História Ambiental no Brasil, são: William Cronon, Donald
Worster, Richard White, Warren Dean, Frederick Turner, Rocerick Nash, Richard
Tucker, entre outros. No continente europeu destacam-se os trabalhos de Verena
Winarker, John McNeill e Fridolin Krausmann.
Dessa forma, a história ambiental, assim como outras ciências ambientais,
promove um enriquecedor câmbio com a geografia ao inferir sobre o objeto
geográfico: espaço, essencialmente complexo e interdisciplinar. Freitas (2005)
aponta a necessidade de agregar abordagens na compreensão do espaço, de
forma a haver cooperação entre diversas disciplinas e, atendendo assim, às
10
diversas realidades metadisciplinares: locais, regionais, transnacionais, globais,
planetárias.
Para tanto, faz-se necessário a busca em tornar a disciplina História muito
mais aberta à inclusão do elemento natureza nas suas narrativas do que ela,
tradicionalmente, tem sido, e acima de tudo, rejeitar a premissa de que os
humanos conseguiram se desenvolver sem restrições naturais e de que as
conseqüências ecológicas de suas ações pretéritas são passíveis de serem
ignoradas (Worster, 1991).
Worster (1991) exalta a função da disciplina história ambiental: ”trata do
papel e do lugar da natureza na vida humana”, além de enfatizar o arraigado
caráter interdisciplinar da evolução humana e da paisagem. A intima relação entre
diversidade ecológica e diversidade cultural e social, indissociáveis segundo
Leonardi (1999), configura-se como cerne da história ambiental, sendo ilustrada e
expressa pelas singularidades sociais do local. Corroborados por Martinez (2006)
ao afirmar que “a História ambiental é uma abordagem das questões ambientais
no tempo e que encontra no meio ambiente o seu objeto de investigação”.
As múltiplas realidades que perpassam o espaço geográfico, enquadrado
enquanto sua dinâmica complexa, poli-facetado e multi-vetorial e de gênese e
titularidade difusa, caracterizam-no como um grande caleidoscópio que demanda
abordagens, essencialmente, holísticas e abrangentes. Como, brilhantemente,
ressaltado por Cronon (1996 apud Freitas) com relação do mito da natureza
intocada ou “natureza primitiva”: “a natureza intocada não é uma opção, (...) a
escolha que nós fazemos não deve ser a de não deixar nenhuma marca, que é
impossível, mas sim quais tipos de marcas nós desejamos deixar”.
A história ambiental no Brasil perpassa, inevitavelmente, pela historicidade
da estrutura colonial que se consolidou pelo desenfreado uso dos recursos
naturais e pela irracional submissão de classes sociais. Dean (1996) ressalta o
caráter predatório e perdulário do aproveitamento das riquezas da terra – desde o
início da colonização ao século XX - ainda remanescente e impactantes no
cenário atual: consumo dos “recursos transitórios” sem se preocupar com a
preservação ou a reposição das condições de disponibilidade desses recursos.
11
Dessa forma, a história ambiental transcende os marcos históricos e o tempo
social – devidamente amparados em documentos formais – e baliza-se ,
sobretudo, em dados informais: relatos, indícios, vestígios humanos, etc. Tem nos
espólios culturais: vestígios fósseis ou estruturais das civilizações históricas, fonte
para a análise das especificidades econômicas, comportamentais, religiosas, etc.
que totalizam o legado físico, ambiental e social.
Nesses ambientes tropicais é notório o seu peculiar poder regenerativo, ou
seja, as florestas tropicais, por meios de suas funções ecológicas, possuem
capacidades funcionais de recuperação de suas funções sistêmicas, tais como a
sucessão ecológica e seus correlatos atributos florísticos. Dessa forma, a
regeneração natural torna-se capaz de sobrepor os condicionantes sócioespaciais dos usos históricos e, sobretudo, coloniais da Mata Atlântica que está
associado, em geral, a um uso agrícola da área prévio ao seu abandono.
A história ambiental promove assim, um grande câmbio científico com as
ciências correlatas (biologia, arqueologia, geomorfologia, etc.), porém se
particulariza por dar significado amplo aos recursos naturais sob análise e
avaliação cultural, de forma a “colocar a sociedade na natureza”, exaltando a
reciprocidade e mutualismo de sua interação (Martinez, 2006) e de “dar sentido a
natureza” ao evocar a importância econômica e social da paisagem, mas,
sobretudo a dimensão histórica dessa evolução. (apud Freitas, 2005).
A História Ambiental Fluminense inscreve-se nos períodos precedentes ao
marco do descobrimento do “Novo Mundo” datado e inscrito na era do
mercantilismo e colonialismo, embora somente com a chegada do colonizador
alcançou-se os notórios e acelerados níveis de devastação, alterando –
irreversivelmente – as práticas culturais das populações indígenas que habitavam
a Mata Atlântica. Constatou-se que a cada período socioeconômico da história
moderna, como, por exemplo: o cultivo da cana de açúcar no período colonial ou
do café no início da República, trouxe consigo características de um grande
avanço na transformação da mata atlântica
Os primeiros habitantes primitivos do estado, situados no litoral fluminense,
foram as tribos indígenas tupinambás (de tradição Tupi) e a tribo goitacá (de
tradição Una) migrados da Amazônia, mas percorreram caminhos distintos até
12
aportarem no litoral fluminense, século XV. Populações estas que tiveram uma
íntima relação com as missões jesuíticas tiveram e, com a criação das
comunidades e aldeamentos e – consequentemente – catequese dos índios
tupinambás, ajudaram a pôr fim na colonização francesa e o contrabando de
madeira e minerais sob domínio franco-tamoyo que perdurava e, renitentemente,
permeava o espaço colonial vicentino (Primo, 2002).
Essas populações indígenas subsistiram-se segundo uma gama de
elementos culturais, tais como: os hábitos alimentares baseados em peixes e a
caça e o cultivo da mandioca e desenvolvendo peculiares ritos religiosos, etc.,
passíveis de constatação, somente no século XX, ao serem analisados os
vestígios destas populações resignados nos sambaquis (restos de conchas
amontoadas próximas às moradias indígenas), consolidado como importante
testemunho arqueológico destas populações (Chamum, 1999).
Dessa forma, a hermenêutica sócio-espacial da história ambiental revela uma
íntima relação com a arqueologia no sentido de relacionar as características das
civilizações antigas (seus valores, rituais, hábitos alimentares e status social)
oriundos de análise dos remanescentes fósseis in situ ao território social.
O litoral fluminense possui uma diversidade de reservatórios de conchas
(sambaquis) de civilizações datadas a cerca de 6 mil anos atrás que viviam do que
o mar oferecia e tinha na agricultura, sobretudo de tubérculos, prática
complementar a coleta marinha (Chamum, 2001). Essas civilizações após fazerem
uso de um determinado ambiente ao longo de um tempo, posteriormente os
abandonam juntamente com objetos de uso, adornos e sepulturas que seguem
rituais e simbologias singulares. Esses restos humanos foram recobertos pelo
tempo e alterados pelos agentes erosivos que deram origem a verdadeiras colinas
de conchas que são facilmente imperceptíveis e não distinguível ao relevo, mas
pelas escavações cuidadosas e minuciosas pôde-se evidenciar o conteúdo interno
e, através deste, inferir a gênese deste sítio arqueológico particular.
Deflagra-se o verdadeiro mosaico de usos inscritos na Mata Atlântica, bem
como os impactos das populações tradicionais, tanto no que diz respeito à
manutenção dos atributos ambientais, quanto na sua deterioração. Faz-se assim,
13
com que concebamos as florestas tropicais como constituídas por subseqüentes
usos antrópicos inseridos na sua constituição e perpetuação.
Nesse sentido, o Parque Estadual da Pedra Branca constitui-se em uma
floresta tropical que apresenta usos antrópicos representados por populações
tradicionais com realidades sócio-espaciais específicas.
Os carvoeiros se constituíram como uma relevante intervenção sócioespacial, assim como outros desconexos, subseqüentes ou sobrepostos usos
antrópicos no maciço da Pedra Branca, que subsistiam a partir da fabricação e
comercialização do carvão vegetal no bairro do Camorim, garantindo assim, a
sobrevivência de suas famílias, porém sua influência ganhava escopo regional
decorrente de suas funções econômicas e sociais.
Evolução sócio-espacial da Baixada de Jacarepaguá
“Essa grande planície é formada pelos maciços da Tijuca e Pedra
Branca e seus contrafortes, destacados do systema da Serra do Mar
(...) de que nos occupamos presentemente”.
(Magalhães Corrêa, Sertão Carioca, 1933)
A baixada de Jacarepaguá, palco hoje de um irreversível adensamento
populacional e, conseqüentemente, uma nítida especulação imobiliária, tem sua
gênese, caracterização e evolução compatíveis à singular metamorfose que
perpassaram e perpassam os remanescentes florestais do município: Maciços da
Tijuca e Pedra Branca. Remontam assim, os peculiares traços de ocupação e uso
do espaço colonial datados em meados do século XVI e concretizados pelos
inúmeros atores sociais daquele contexto mercantilista.
Diversos autores retrataram as minuciosidades no processo de evolução da
baixada de Jacarepaguá, entre eles encontram-se o ilustre Magalhães Correa
quem relatou, a bico de pena e de forma maestrosa, as especificidades espaciais,
sociais e culturais deste processo; Fania Fridman relatando o histórico da
propriedade fundiária nas freguesias rurais do império; Carlos Engemann
realçando as marcas das mãos neste.
14
A
região
conhecida
como
sertão
carioca¹,
freguesias
rurais² ou
baixada/freguesias de Jacarepaguá constitui como a zona oeste do município do
Rio de Janeiro que se caracterizou enquanto zona rural a partir de 1834 no
período de consolidação da corte na capital imperial Rio de Janeiro.
A vinda da família real em 1808 e, sua conseqüente aglomeração na
capital, intensificou a valorização da terra e foi o passo inicial para a ruptura com a
tradição medieval de aquisição de terras pelas sesmarias (cartas donatárias e
capitanias hereditárias) (Fridman, 1999).
O mesmo autor ressalta a concomitância do processo de valorização e
ocupação espacial desta área, havia uma gradativa desregulamentação do
trabalho compulsório que impulsionavam a mercantilização do solo. Já que tanto
os escravos alforriados quanto os foreiros, em sua maioria imigrantes ora
provenientes de outras capitanias ora oriundos do velho mundo, pressionavam o
sistema
sesmarial,
bem
como,
as
posses
adquiridas
por
concessão
(arrendamento) do donatário. Em 1850, com a promulgação da Lei de Terras,
consolida-se legalmente a propriedade fundiária e formação de um mercado
capitalista de terras. Dessa forma, os arrebaldes rurais constituem-se pela
expansão da pequena propriedade e por ser o principal logradouro público e de
relações vassalas que garantiam o fornecimento de café, feijão, milho, mandioca e
outros gêneros à região central e arrebaldes, gerando assim, acumulação de
capitais pelas elites locais.
Ocupação das freguesias rurais
Denominada no século XVI como a Planície dos Onze Engenhos (D’água,
Camorim, Vargem Grande, Vargem Pequena, Taquara, Novo, de Fora, Velho da
Taquara, Rio Grande, Restinga e Serra), conforme avistada na figura 02, a
baixada de Jacarepaguá era permeada por grandes concessões territoriais
aforadas que se dedicavam à pecuária e aos engenhos de açúcar. Apesar de ter
apresentado um breve auge e decadência cafeeira no século XVII, a região
possuía uma economia mercantil essencialmente açucareira controlada por
¹ vocábulo empregado por Magalhães Correa, 1933.
² vocábulo empregado por Fania fridman, 1999.
15
agentes sociais complexos que ora se opunham aos interesses régios e
individuais ora associados e intimamente interligados.
Figura 02: Grandes propriedades (engenhos) na freguesias rurais do Rio de Janeiro no início
do século XIX (apud Fridman, 1999).
O governo Régio, a representatividade religiosa e os senhores de engenho
revezavam-se ou coadunavam-se no controle e apropriação do espaço colonial.
Representavam a composição social categorizada, respectivamente, por Matos
(1987), em colonizador, colono e colonizado, sendo a composição deste último
repleta pelos escravos ou trabalhadores compulsórios, indígenas e servidão
voluntária e livre.
Os sesmeiros, cristãos em condição de possuírem o solo, aproveitá-lo e
prover o pagamento do dízimo, firmavam determinadas cláusulas de obrigações
em que se comprometiam a medir e demarcar propriedade; conservar na floresta,
determinadas espécies como “tapinhoas” e “parobas” que só poderiam ser
cortadas para a construção de naus para o Rei; construir caminhos e pontes;
reservar meia légua nas margens dos rios para logradouro público; não suceder
em tempo algum a pessoa eclesiástica (Fridman, 1999).
16
As ordens religiosas detinham uma considerável parcela das terras da
região, transmitidas pela devoção e fé de seus possuidores. Os monges
beneditinos do mosteiro de São Bento constituíam a principal autoridade religiosa
da época e, sobretudo segundo os registros paroquiais, configuravam-se como
importantes produtores de mantimentos: milho, feijão, arroz e, sobretudo,
mandioca para a produção de farinha de guerra – base alimentar nas fazendas e
no mosteiro, além de anil e de rebanhos bovinos (Engemann, 2005). Detinham um
considerável contingente de escravos que possuíam a liberdade do cultivo de
subsistência – concessão esta a fim de conter os ânimos dos cativos - por meio
das roças e hortas nos plantios intercalados em dias santificados e sábados e,
dessa forma, auferir resíduo ou lucro fundamental à compra de alforrias.
Porém, muitos dos cativos recém alforriados, buscavam nos arrendamentos
- pagamento de um foro anual pela utilização de lotes de terra – como forma de
subsistirem na economia colonial. Dessa forma, equiparavam-se aos foreiros
migrados de outras regiões e ilustravam o prenúncio da nova forma de
expropriação da mão-de-obra, ao que Marx salientou como uma reinvenção da
escravidão vinculada à acumulação de terras e capitais (Marx apud Fridman,
1999).
Somente no começo do século XIX é que os posseiros passaram a ter
regularizadas suas glebas. Consolidavam-se sobre os arrendamentos concedidos
pelos senhores de engenho e igreja ou sobre as terras desapropriadas por
insucessos de seus seismeiros.
Já em 1854/1856, a baixada de Jacarepaguá apresentava a maior
quantidade de propriedades rurais dentre as freguesias rurais que apresentavam
arrendamentos em seu território: Guaratiba, Jacarepaguá e Campo Grande, sendo
em sua maioria composta por pequenas ou médias propriedades (abaixo de 500
ha). Realça-se assim, vide tabela 01, a diversidade de usos antrópicos nas regiões
marginais ao Maciço da Pedra Branca, sendo, por Corrêa (1933), detalhadamente
caracterizada a grandiosidade cultural, religiosa, social e econômica das
populações tradicionais: os pescadores, os machadeiros, os tamanqueiros, as
estereiras, os oleiros, os bananeiros, os caçadores, e, sobretudo, os carvoeiros
que habitavam a vertente sul do maciço.
17
Tabela 01: Número de posses e propriedades nas freguesias rurais, em
1854/1856. (apud Fridman, 1999)
Área dos Terrenos
Guaratiba
Jacarepaguá
Campo Grande
Mais de 500ha
7
8
9
de 100 a 500ha
30
26
15
de 50 a 100ha
13
16
17
de 10 a 50ha
21
53
14
Menos de 10ha
9
17
4
Sem informação
28
82
14
total
108
202
72
Cabe realçar, uma comunhão religiosa evidenciada espacialmente através
dos símbolos e ritos de nítida representatividade mítica ou abstrata que permeava
as culturas locais ora coabitáveis e complementares ora dicotômicas e
antagônicas: cristãos católicos e a macumba. Produzindo um indelével patrimônio
cultural e imaterial mesclado pelo primitivo, profano, satânico, fiel, sagrado, etc
(Fonseca, 2005).
De fato, o insucesso e o descaso dos primeiros donatários – segundo os
registros da colonização – foram fundamentais à consolidação dessas
propriedades rurais pela família Correia de Sá. Gonçalo, filho de Salvador Correia
de Sá, ficou com a região do engenho da Restinga, conhecida hoje como Barra da
Tijuca e sua filha, D. Vitória de Sá, ao casar-se, desprendeu como dote as terras
que vão do Camorim a Vargem Grande. Porém, depois da morte dos homens
Correia de Sá, D. Vitória deixa seu dote em testamento aos monges beneditinos
do mosteiro de São Bento que já possuíam íntimo vínculo com a propriedade, por
meio dos currais à pecuária.
A administração do mosteiro de São Bento, para facilitar a administração,
dividiu as terras segundos os engenhos que lá se instalavam: Vargem Pequena,
Vargem Grande e Camorim, onde, preferencialmente, pôs a produzir açúcar e
aguardente (Oliveira 2005).
18
Porém, a partir de 1870, o governo imperial passou a intervir no
financiamento de capital e maquinário para conter o declínio da oferta de mão-deobra compulsória, concorrência estrangeira e propagação de pragas.
Dessa forma, a agricultura de plantation é preterida pela inserção da
mecanização, pelo emprego do braço livre e pelas ferrovias garantidoras na
rapidez do escoamento da produção. Gerou-se assim, condições irreversíveis
para a decadência e alienação dos engenhos, sobretudo, a partir da venda de
terras com imposição do governo em troca de apólices da dívida das ordens
beneditina e carmelita.
Deflagrou-se
assim,
uma
irreversível
propagação
de
loteamentos
executados pelo Banco de Crédito Móvel e pela Empresa Saneadora territorial,
conforme figura 03:
Figura 03: Loteamentos na região das freguesias rurais pertencentes ao Banco de Crédito Móvel
(apud Fridman, 1999).
19
Somente
em
1969,
com
seu
adensamento
demográfico
e,
consequentemente, as delimitações imprimidas pela especulação imobiliária já
consolidada, é que a baixada de Jacarepaguá teve iniciado o seu plano Piloto para
o ordenamento de sua ocupação. Lúcio Costa projetou os grandes eixos de
expansão urbana da zona oeste do Rio de Janeiro sobre as remanescentes áreas
do maciço da Pedra Branca (figura 04) (Fridman, 1999).
Figura 04: reprodução do plano-piloto de Lúcio Costa (apud Fridman, 1999)
Ocupação do Camorim e o território dos carvoeiros
Na administração beneditina, a propriedade, legada dos Correia de Sá, foi
permeada por arrendamentos concedidos a foreiros e escravos alforriados, dos
quais desempenhavam a agropecuária de pequena escala ou de subsistência,
garantidora da manutenção do próprio engenho e, consequentemente, das
demandas para a atividade do mosteiro, além do atendimento à própria vida da
escravaria e dos arrendatários que vendiam mantimentos aos engenhos e regiões
marginais.
Cabia aos arrendatários ou “índios de aluguel” a derrubada da mata virgem
e plantio de aipim, matéria-prima para a produção da farinha de guerra utilizada
nos mosteiros, além do cumprimento de um específico contrato em que se
20
realçava o caráter de subsistência dos sítios arrendados, descrito por Fridman
(1999, p. 132-133):
“Que não poderá vender, nem dar pau que sirva para obra qualquer que ele seja
sem licença por escrito do Reverendo Som Abbade o qual pelo direito de senhorio
poderá tirar as madeiras que quizer e em qualquer parte deste arrendamento como
lhe parecer (...) (o foreiro) nem poderá sublocal parte alguma deste arrendamento
sem expressa licença, e no caso que pratique o contrário pagará por cada ano, e
por cada pessoa que admitir no sítio a pensão do arrendamento em dobro (...) e
que só poderá ter quatro vacas pra leite no sítio, sem ter gado ou criação nos
pastos, que ficão reservados (...)”
No entanto, a partir de meados do século XIX, a fazenda do Camorim
passou por uma agravada situação deficitária que foi superada pela substituição
do engenho d’água pelo um moderno e oneroso engenho a vapor, obtendo porém,
um breve apogeu que culminou com sua venda ao Banco de Crédito Móvel. Com
a posse do Banco de crédito rural, começou a venda a lavradores e pequenos
proprietários, que utilizaram as terras de maneira diversa, dependendo do
tamanho, localização e condição financeira do proprietário (Corrêa, 1933).
No período compreendido entre 1930 e, aproximadamente, 1950, a região
onde se instalava o engenho do camorim, passou a ter seus recursos florestais
aproveitados para a fabricação de carvão vegetal, destinado a abastecer o
crescente mercado marginal à área e do restante do município do Rio de Janeiro.
A população de carvoeiros eram principalmente pequenos posseiros,
descendentes dos foreiros, que sem outra condição de sobrevivência, vendiam
sua força de trabalho por um preço irrisório para o fazendeiro, ou produziam o
carvão por conta própria. Os fogões domésticos onde era fabricado o carvão in
situ, além de produzir indeléveis marcas, ainda hoje avistadas nos escuros solos
da região e repleto de fragmentos de carvão, atendiam a específicos
procedimentos, descrito detalhadamente por Correa (1933):
“A construcção do balão requer preliminarmente a seguinte technica: a roçada, que
precede à derribada da matta, a qual consiste em cortar, a foice, os pequenos
arbustos e vegetações, que possam embaraçar o manejo do machado; em
21
seguida, a derribada, acto de abater as arvores de porte por meio dos machados;
feito do extermínio, procede – se ao corte de galhos e ramagens, e logo a seguir a
coivara, queima dos montes de folhas, galhos e gravetos reduzindo – os a cinzas”
Ilustrado precisamente, pelo mesmo autor, o processo primitivo de
confecção das pilhas ou balões de carvão, conforme figura abaixo:
Figura 05: Ilustração do balão de carvão (Magalhães Correa, 1933).
Novamente, Magalhães Correa descreve minuciosamente a preparação
para a queima da lenha no balão de carvão e tendo seus peculiares traços
ilustrados na figura 06 do mesmo autor:
Preparado o terreno no mesmo local da derribada, na encosta da serra (matta
mesophila) ou na planície que é muito rara, fazem um terreiro em plano horizontal
que dê a area desejada, mas no caso da declividade da encosta ser pronunciada,
fazem um revestimento, com paus roliços ou varas em forma de prateleira, para
suportar a terra que o cobre, formando o terreiro desejado, denominado estiva.
Sobre o terreiro, determina – se o diâmetro da base a constituir – se o balão; ao
centro, coloca – se um tronco ou deixa – se um vácuo, que será a chaminé; ao
redor da mesma arruma – se a lenha traçada regularmente a machado, que se
pretende carbonizar em pilhas, formando um cone truncado, e com lenha menor,
22
termina – se o vértice do cone, tendo – se de dispor canaes horizontaes que vão
ter à chaminé central
Figura 06: ilustração do balão de carvão na região de encosta (Magalhães Correa, 1933).
Finalmente, pós combustão e queima da lenha, o carvão vegetal é retirado
de dentro do balão, e o processo de distribuição do carvão desde a área onde foi
produzido, até os consumidores, através do lombo do burro. Processo este,
portador de uma auto-suficiência inerente, porém Corrêa (1933) ressaltava para o
vínculo de observância com determinados procedimentos e a manutenção deste
processo:
“A carbonização da lenha não causará danno ás nossas reservas florestaes, se os
proprietários de mattas souberem fazer o replantio methodico das mesmas. As
cepas e raízes das arvores, cujo destocamento deve ser também systematizado,
deixando aquellas que tenham menos de um metro de altura e tronco, quando
forem essenciais para o reflorescerem por meio de brotos (talhadia), serão um
contingente de primeira ordem, pois limparão o terreno para o replantio, e quanto á
matéria é de primeira qualidade para a carbonização.”
Cabe salientar, a existência de uma forte hierarquia no processo de divisão
de trabalho e produção do carvão. O carbonizador é aquele trabalhador que enche
23
e esvazia os fornos, um segundo homem é responsável por cortar a lenha e
recebe o nome de cortador, e aquele que era considerado o pinchador, que usava
o ancinho para pinchar a lenha, existe o responsável por construir os fornos,
exatamente como Corrêa (1933) descrevera nos mínimos detalhes, tinha também
o transportador que era aquele que descia no burro com o carvão até a cidade
para distribuição e comercialização. Ou seja, era tudo hierarquizado e bem
dividido. Ainda dentro da estrutura da carvoaria, cada trabalhador recebia um
percentual do valor arrecadado conforme a tarefa que realizava dentro da
carvoaria.
Era patente, naquele contexto social, a ocorrência de laços de afetividade e
ajuda mútua entre os trabalhadores envolvidos no processo de produção do
carvão, bem como, a inter-conectividade com os demais agentes sociais dos
engenhos e fazendas do Camorim e regiões marginais. Deflagra-se assim, um
intenso uso tanto de alienação direta (múltiplos cultivos, caças e extração florestal)
quanto indireto (comunicação inter-regional, efetivação da religiosidade, etc.) do
maciço e seus recursos naturais e florestais.
Criação do Parque Estadual da Pedra Branca
A baixada de Jacarepaguá, após 5 anos de efetivação do Plano Piloto de
Lúcio Costa, obteve, por meio do maciço da Pedra Branca, o beneplácido de
possuir um parque estadual de conservação da biodiversidade, segundo a Lei n.º
2.377, de 28/06/74. Tal iniciativa fazia-se necessária em função da forte pressão
do processo de urbanização que pora – cada vez mais intenso hoje – em risco os
bens ambientais e, sobretudo, a rede hidrográfica que abastece as áreas de
capitação para o município (Pau da Fome, Camorim, Taxas e Engenho Novo).
Totalizando pouco mais de 12.500 ha de área coberta por vegetação típica
da Mata Atlântica e portador do ponto mais alto da cidade, o Pico da Pedra
Branca, com 1.204 m de altitude, o Parque Estadual da Pedra Branca passou,
gradativamente, a vincular a proteção e convervação dos seus domínios com
efeciência de suas funções basilares. Em 1988, as autoridades municipais criaram
a Área de Proteção Ambiental (APA) da Pedra Branca em função do quadro
24
ambiental em níveis de devastação, de invasão e de poluição assustador. Hoje,
ele se encontra sob a proteção da Fundação Instituto Estadual de Florestas (IEF).
Figura 07: Parque Estadual da Pedra Branca. Fonte: www.cmcv.org.br/
Desta forma, o Parque Estadual da Pedra Branca insere-se nos 5.700 km² de
áreas remanescentes de Mata Atlântica protegidos legalmente Unidades de
Conservação, o que totaliza pouco mais que 13% de toda cobertura original
(42.940 Km²) da Mata Atlântica fluminense (Abreu, 2005).
Urbanização contemporânea da Baixada de Jacarepaguá
A baixada de Jacarepaguá apresenta hoje, um dos maiores índices de
urbanização e adensamento demográfico do município do Rio de Janeiro. As
áreas florestais remanescentes do Parque Estadual da Pedra Branca vêm
sofrendo forte pressão tanto dos vetores sociais informais e ilícitos quanto dos
vetores de intervenção formal e estatal.
De acordo com dados oficiais (figura 08 e figura 09), a região vem sendo
amplamente adensada, corroborando assim, com a concepção da zona oeste
25
como eixo da expansão territorial do município desde a década de 70 do último
século.
Figura 08: Evolução demografia da região de Jacarepaguá no período de
1991/1996/2000. Fonte: IPP (www.rio.rj.gov.br/planoestrategico/)
Figura 09: Evolução da densidade da região de Jacarepaguá no período de 1991 a
2000. Fonte: IPP (www.rio.rj.gov.br/planoestrategico/)
As regiões limítrofes aos maciços florestais na baixada de Jacarepaguá e,
conseqüentemente, as unidades de conservação: Parque Nacional da Tijuca e
26
Parque Estadual da Pedra Branca são assoladas pelo crescimento demográfico
exponencial (figura 10) em detrimento às áreas de urbanização consolidada,
permeadas ao longo das principais vias de acesso à região.
Figura 10: Variação demográfica relativa da baixada de Jacarepaguá 1996-2000
Fonte: IPP (www.rio.rj.gov.br/planoestrategico/)
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Área de estudo
A área de estudo dos trabalhos de onde foram obtidos os dados para a
presente análise é a Bacia do Caçambe, englobada pelo Maciço da Pedra Branca,
situado na zona oeste do município do Rio de Janeiro, entre as coordenadas 22o
53’ e 23o latitude sul, 43o 23’ e 43o 32’ longitude oeste, com extensão de 12.500
ha.
O estudo foi realizado em um trecho de Mata Atlântica, denominado
Floresta do Camorim, localizado na porção sudoeste do Maciço da Pedra Branca,
na zona oeste do município do Rio de Janeiro, RJ. A área delimitada para a
execução dos trabalhos foi a bacia do rio Caçambe, tributário de primeira ordem
do rio Camorim. Esta bacia foi fortemente influenciada pela sua derrubada para a
27
fabricação do carvão vegetal entre os anos 30 e 50, conforme explicitado
anteriormente.
Duas áreas da referida bacia – divisor de drenagem e Fundo de Vale concentraram grande partes dos estudos científicos e são geomorfologicamente e
geologicamente distintas quantos aos seus atributos estruturais e funcionais:
caracterizadas essencialmente por área convexa (divisor de drenagem) ser
dispersora de detritos e fluxos sob/sub-superfície e área côncava (fundo de vale)
ser convergente de tais aportes. Ambas as encostas apresentam-se voltadas para
sudoeste e localizam-se de forma aproximadamente eqüidistante de trechos
conservados de floresta, conforme figura abaixo:
Figura 11: Localização da área de estudo na Bacia do rio Camorim, Maciço da Pedra
Branca/RJ (zona oeste do município). Composição Imagem Lansat 7 (RGB 123).
28
Consiste em uma Floresta Ombrófila Densa sub-montana de tipologia
climática subúmido, com pouco ou nenhum déficit hídrico, megatérmico, com calor
uniformemente distribuído por todo o ano. Formação secundária decorrente de
sucessivos e superpostos usos pretéritos, sendo o mais relevante, datado em
início do século XX para a fabricação de carvão vegetal até a década de 1950.
Categorizado por Köppen como Af – clima tropical quente e úmido, sem estação
seca, com baixas precipitações no mês mais seco: 60 mm em agosto
(IBGE,1992).
O substrato geológico é formado por Gnaisses totalíticos e granitóides,
metatexitos, migmatitos, kinzigitos e granitos (CIDE et al., 1997). Galvão (1957)
discorre sobre formação geológica do parque pertencente ao Pré-Cambriano e a
litologia como sendo composta por rochas na maior parte metamórficas do tipo
biotita-gnaisse, e algumas magmáticas do tipo graníticas leucocráticas, originando
assim, solos residuais jovens e coluviais. O Maciço da Pedra Branca é composto,
basicamente, por rochas cristalinas e cristalofilianas, granitos e principalmente o
gnaisse facoidal, entrecortados por rochas básicas, como o diabásio.
A geologia da região da bacia do Camorim é caracterizada, nas partes mais
baixas, pela presença de ampla faixa de gnaisse melanocrático, enquanto, nas
mais elevadas, por granitos de diversos tipos. No entanto, a presença desses
granitos é conspícua nos trechos de baixa encosta e fundos de vale, sob a forma
de matacões oriundos de desabamentos ocorridos em épocas diversas. Esta
litologia, juntamente com o clima regional, gera os seguintes solos na região do
Camorim: os latossolos, nas encostas mais elevadas do maciço, que são solos
rasos e aparecem associados aos cambissolos, solos litólicos e podzólicos, estes
recobrindo principalmente as vertentes mais suaves de menor altitude (Oliveira et
al. 1980).
Este ambiente florestal, influenciado constantemente pelo meio urbano,
possui uma diferenciação espacial compatível com as especificidades do relevo:
as formas côncavas que baseiam o fundo de um vale suspenso são responsáveis
pelo domínio dos processos deposicionais que convergem os fluxos de água e
sedimentos às regiões mais baixas (elúvio), enquanto as formas convexas do
29
divisor de drenagem respondem pela dispersão dos fluxos delegando as partes
altas do relevo (colúvio), hegemonia dos processos erosivos.
O presente fragmento de formação secundária, objeto desta análise, se
constitui a partir dos usos anteriores da floresta (principalmente o consumo de
recursos florestais no período colonial e a agricultura de subsistência) na região do
piemonte foram responsáveis pelo declínio e transformação da sua área.
Resultante dos usos pretéritos: fitossociologia e ciclagem de nutrientes
pela serapilheira
Emprega-se
fitossociológicos
como
critérios
(Sylvestre
&
científicos
Rosa,
a
2002),
conjugação
bem
como
dos
a
métodos
reprodução
metodológica, quanto à ciclagem de nutrientes pela serapilheira, dos coletores
florestais (litter traps de Proctor,1993). Ambos análises restritas so recorte
espacial dos cervoeiros – bacia do Caçambe, permitindo assim uma análise
estrutural que privilegia as resultantes ambientais de um uso pretérito específico
da paisagem local.
Fitossociologia
O inventário florístico e a fitossociologia fornecem uma importante leitura
acerca da estrutura funcional das florestas secundárias. Trata-se em compreender
a biodiversidade em sua estrutura vegetacional evidenciadas em decorrência das
atividades econômicas pretéritas de uso do solo.
Estabelece-se como um essencial mecanismo ambiental de averiguação das
resultantes ambientais da evolução do uso do solo, em função de estar
diretamente ligado às peculiaridades de cada uso antrópico. A exemplo das
características, encontradas por Fonseca (2005), segundo os critérios de uso e
não-uso de determinadas espécies ou elementos florestais utilizados numa
específica atividade econômica, em que a permanência da espécie Ficus
gameleira – por razões religiosas – se contraporia à dizimação da espécie Cedrela
fissilis – interesses econômicos – o que determinou na composição florestal
pertinente a evolução da Mata Atlântica.
30
Na área de concentração dos trabalhos, Solorzano (2005) pelo método de
parcelas contíguas, focou olhar na influência das distinções geomorfológicas na
distribuição e estrutura florística. O referido autor encontrou, na área de fundo de
vale, um total de 41 espécies distribuídas entre 35 gêneros e 22 famílias,
representando uma diversidade média de 1,64 espécies/100 m2. Na área de
divisor de drenagem foram identificadas 92 espécies pertencendo a 60 gêneros e
33 famílias, atingindo uma diversidade média de 3,7 espécies/100 m2, ou seja, o
divisor de drenagem apresentou mais que o dobro de espécies (92 espécies) que
o fundo de vale (41 espécies), apesar das duas áreas apresentarem a mesma
idade (cerca de 50 anos) e um mesmo histórico de devastação.
Na tabela 3, pode-se constatar que as duas áreas estudadas apresentam
uma área basal semelhante. Cabe destacar, no entanto, que, apesar desta
semelhança, as suas densidades absolutas são diferentes. Esta diferença explicita
o fato de que os indivíduos do fundo de vale apresentam um valor individual de
área basal significativamente maior do que os do divisor de drenagem, ou seja,
maior porte em relação à altura. Este fato pode indicar que apesar de as duas
áreas terem mesmos idade e uso passado, a regeneração estrutural destas tenha
se dado de forma diferente: por conta de um determinismo geomorfológico.
Tabela 02 – Principais características vegetacionais nos dois ambientes estudados
do maciço da Pedra Branca, RJ.
Característica
Fundo
Divisor de
de vale
drenagem
Número de espécies
41
92
Área amostrada (m2)
2.500
2.500
Espécies raras
51,2%
38%
Densidade (ind./ha)
1.016
1.800
Espécies/100 m2
1,6
3,7
Área basal (m2/ha)
25,3
26,2
Indivíduos amostrados
254
450
45 cm
43 cm
14,9 cm
10,8 cm
1
Diâmetro máximo
Diâmetro médio
31
Característica
Fundo
Divisor de
de vale
drenagem
Altura máxima
25 m
30 m
Altura média
9,8 m
9m
Troncos múltiplos
5,9%
10,6%
Indivíduos mortos em pé
10,2%
9,5%
Índice de Shannon (nats/ind.)
2,19
3,98
Índice de Pielou
0,59
0,88
O mesmo autor realizou uma averiguação das espécies florísticas. Dentre as
espécies encontradas na área estudada, obteve-se a aparição de espécies nativas
características de ambientes tropicais como a Guarea guidonia que está
associada à ambiente quente e úmido assemelhados aos da Mata Atlântica.
Porém a grande dominância desta espécie na área (tabela 04) atentam para um
desequilíbrio, quanto a dominância territorial desta espécie, decorrente da
peculiaridade do processo do uso do solo pelas populações carvoeiras.
Tabela 03 – Parâmetros fitossociológicos das dez espécies mais encontradas na
bacia do Caçambe - maciço da Pedra Branca, Rio de Janeiro (RJ), ordenadas pelo
valor de importância. N = número de indivíduos amostrados; DRs = densidade relativa
por espécie (%) e FR = freqüência relativa. Fonte: Solorzano (2005).
N
DRs
FR
Família
Espécie
1. Meliaceae
Guarea guidonia (L.) Sleumer
122 53,5
21,1
2. Leguminosae
Piptadenia gonoacantha (Mart.) J.F.
27
6,6
6,01
Cordia trichotoma (Vell.) Arrab. ex Steud. 25
6,1
3,89
19
4,7
2,83
Macbr.
3. Boraginaceae
4. Melastomataceae Miconia tristis Spring.
5. Solanaceae
Metternichia princeps Mik.
19
4,7
2,47
6. Euphorbiaceae
Senefeldera multiflora Müll. Arg.
18
4,4
2,12
7. Sapotaceae
Chrysophyllum flexuosum Mart.
17
4,2
4,24
8. Sterculiaceae
Colubrina glandulosa Perkins
17
4,2
2,12
9. Flacourtiaceae
Casearia sylvestris Sw.
15
3,7
3,18
10. Lauraceae
Nectandra membranacea (Sw.) Griseb.
13
5,7
7,0
32
Santos (2002), numa área localizada na mesma bacia e com o mesmo
estágio sucessional, atentou para as condições estruturais entre uma área íntegra
e outra afetada substancialmente por uma queimada. A autora avistou as diretas
influências tanto do efeito das queimadas, que na Mata Atlântica persiste
secularmente ora pelo plantio tradicional ou pela cultura festiva de soltar balões.
Conforme tabela abaixo:
Tabela 04 – Principais características vegetacionais nos dois ambientes estudados
do maciço da Pedra Branca, RJ. Fonte: Santos (2002)
Característica
Área
Área
íntegra queimada
Área amostrada (m2)
1000
1000
Indivíduos amostrados (ind./ha)
344
133
Densidade por área (ind. / ha)
3.440
1.330
Dominância por área (49,7 m²/ ha)
49,7
44,9
Diâmetro máximo (cm)
102,9
66,9
Diâmetro médio (cm)
8,7
15,5
Altura máxima (m)
38
30
Altura média (m)
8,5
10
Troncos múltiplos
7%
13,5%
2,9%
27,8%
Indivíduos mortos em pé
Observa-se a correlação entre a biodiversidade da vegetação, ilustradas
pelas características vegetacionais, e as características geomorfológicas de cada
situação topográfica (fundo de vale e divisor de drenagem). Tende a demonstrar
sob esse prisma, a influência das diversas atividades econômicas pretéritas –
tanto as áreas residuais dos carvoeiros quanto as áreas queimadas - na
configuração atual do fragmento remanescente ao processo de uso do solo.
33
Ciclagem de nutrientes pela serapilheira
Em decorrência da escassa disponibilidade de nutrientes nos solos
tropicais, associada à intemperização promovida pelos vetores climáticos
(principalmente, temperatura e umidade), os ambientes tropicais tendem a buscar
mecanismos de subsistência, tais como a ciclagem de nutrientes via serapilheira.
Isto se deve pelo fato dos fluxos hídricos verticais e horizontais carreiarem
para os perfis inferiores ou, até mesmo, para fora do sistema, os nutrientes do solo
(cátions básicos como cálcio, magnésio e potássio), tornando o solo ácido e
carente em nutrientes (Lepsch, 2002). A ciclagem de nutrientes, intimamente
ligada ao ciclo hidrológico, nestes ambientes, torna-se mecanismo fundamental ao
equilíbrio ambiental, designando a serapilheira como locus da efetivação deste
importante processo funcional.
Existem três diferentes vias de entrada de nutrientes nos ecossistemas
florestais: a atmosférica (chuva, orvalho, neblina, etc.), a biológica (incrementos e
perdas da matéria orgânica) e a geológica (decomposição da rocha matriz). Pela
precipitação ocorre o carreamento de partículas contidas tanto na atmosfera
quanto no dossel florestal, trata-se da ação realizada pelas gotículas d’água que
“lavam” a atmosfera carreando poeiras e particulados em suspensão que são
incorporados pela vegetação de forma direta ou ficam depositados na serapilheira,
representando uma importante fonte de entrada de nutrientes para os
ecossistemas tropicais (Martins et al., 2003).
A serapilheira - matéria orgânica, manta morta, litter, liteira, folhedo ou
manta – constituída pela camada húmica de matéria orgânica acumulada oriunda
da biomassa de um sistema ambiental, caracterizada pela eficiência e velocidade
nas trocas de nutrientes entre seus componentes e enquanto compartimento
orgânico capaz de propiciar eficiência e velocidade nas trocas de nutrientes entre
seus componentes bióticos e abióticos (Odum, 1969). Tratam-se dos resíduos
orgânicos acumulados sobre o solo florestal sendo constituídos por folhas, flores,
frutos, sementes, cascas, galhos e resíduos diversos que formam a camada de
detritos vegetais representando o principal reservatório dos ecossistemas
tropicais.
A serapilheira além de ser o locus das relações vegetação/solo e de reserva
34
energética e hídrica (Garay & Silva, 1995), desempenha importante função na
edafização do substrato em regiões em início de sucessão ecológica (Araujo &
Henriques, 1984). Dessa forma, mantém a circulação de nutrientes dentro do
ecossistema, proporcionando transferência de energia entre solo e planta e
funcionando como combustível para os ciclos de nutrientes nos horizontes
superiores do solo, gerando assim, um estrato fonte de umidade e nutrientes
minerais e orgânicos que burlam as condições físico-climáticas.
Possui singular importância quanto à hidrologia das áreas florestadas
(como a interceptação da precipitação que ultrapassa o dossel), pois reveste e
protege o solo de forma a minimizar a ação erosiva do impacto das gotas e a
dispersão de sua energia cinética evitando o escoamento superficial. Gera assim,
condições para a infiltração da água da chuva e, conseqüentemente, possibilita
uma recarga de água subterrânea que abastece o lençol freático (Karmann, 2000).
O fato da serapilheira se constituir em ambiente de infiltração contribui
significativamente para este papel, já que o fluxo de água de chuva na serapilheira
corresponde a uma proporção insignificante em relação à entrada de chuva no
sistema (Coelho Netto, 1995).
Esta mesma autora afirma que o atravessamento é o mecanismo
dominante
na
redistribuição
da
precipitação,
apresentando
uma
grande
variabilidade pontual em função do tipo e densidade da cobertura vegetal. Assim
sendo, a interceptação da chuva pelas copas e seu redirecionamento pelas raízes
modificam sensivelmente a dinâmica hidrológica em ambientes florestados.
Quanto às perdas de nutrientes das florestas, estas podem acontecer por
volatilização para a atmosfera, percolação da água do solo para locais profundos
ou riachos, ou ainda, sob a forma de particulados e solutos perdidos por erosão. A
camada de serapilheira consiste em um compartimento acumulador, onde todos
os elementos bióticos e abióticos do ecossistema estão potencialmente
representados, sendo, portanto, a sua composição química um reflexo do sistema.
Percebe-se que a serapilheira dispõe de estratos que diferem quanto à
umidade, compactação e grau de decomposição, sendo o horizonte inicial
composto por material não decomposto, geralmente, seguido de uma camada
intermediária subjacente caracterizada pela pouca alteração físico-química e, por
35
último, uma camada altamente decomposta preenchida por uma malha de raízes e
microorganismos.
A vegetação, bem como o clima, a disponibilidade de nutrientes no solo e as
características genéticas das espécies são fatores que determinam à produção de
matéria orgânica (Correia & Andrade, 1999). As características da vegetação,
atreladas ao estágio sucessional, possuem fundamental influência na dinâmica da
ciclagem de nutrientes decorrente da diversidade de ciclos peculiares de cada
estágio em que há absorção de nutrientes pelas raízes e sua distribuição pelas
diferentes partes da planta, sendo a taxa de absorção de nutrientes maior no
período em que as árvores se encontram em estádio juvenil, o que corresponde
ao período de maior produtividade dentro do processo de sucessão (Kimmins,
1987, apud Schumacher et al. 2002).
Correia & Andrade (1999) definem a variação climática, sobretudo
precipitação e temperatura, a disponibilidade de nutrientes no solo, a característica
genética das plantas, a idade e a densidade de plantio como os mais importantes
fatores que afetam a quantidade de serapilheira produzida.
Abreu (2006) e Penna Firme (2005) desenvolveram na área analisada,
trabalhos envolvendo a compreensão da ciclagem de nutrientes através da
deposição e decomposição de serapilheira. Atendeu-se a metodologia de litter
traps descrito em Proctor (1993): instalação aleatória de coletores, de tela de
nylon (0,5m de lado), a uma altura de 0,8m (evitar efeitos do salpicamento - rainsplash). O material era recolhido e levado ao laboratório e, após a secagem em
estufa a 80
o
C, é feita a triagem nas frações: folhas, galhos, elementos
reprodutivos (frutos, sementes e/ou flores) e resíduos. Após a mesma, cada fração
é secada em estufa a uma temperatura de 80 oC e, posteriormente, o material
orgânico era triado nas frações folhas, galhos,elementos orgânicos e reprodutivos
e resíduos, finalizado pela pesagem em balança com precisão centesimal, sendo
estes valores convertidos em g/m² e kg/ha.
Abreu (2005) averiguou a influência da distinção geomorfológica (fundo de
vale e divisor de drenagem) na ciclagem de nutrientes no Camorim, enquanto
36
Penna Firme (2003) focou olhar nos efeitos de queimadas e incêndios florestais na
funcionalidade da mesma área de floresta Atlântica secundária.
Observando os trabalhos assemelhados e congêneres no contexto científico
regional, ressalvando os peculiares contextos geográficos e metodológicos de
cada trabalho científico, nota-se que todos os estudos situados na bacia do
Caçambe apresentam relevantes valores de produção total de serapilheira,
conforme tabela 05:
Tabela 05 - Produção de serapilheira (Mg/ha/ano) em algumas florestas da região
Sudeste do Brasil e outras regiões do Brasil e do mundo. Composição de
periódicos científicos.
Local
Tipo de floresta
Produção
autor
total (Kg.ha)
Sul e Sudeste do Brasil
Piracicaba, SP
Estacional decidual
14,7
Oliveira, 1997.
Rio de Janeiro,RJ
Floresta ombrófila densa
11,5
Abreu, 2005.
10.6
Vital et al., 2004.
10,5
Carpanezzi, 1980
Divisor de drenagem
Botucatu, SP
Floresta estacional
semidecidual
Lençóis
Paulistas, mata ciliar
SP
(apud Schlitter et al.,
1993)
Santa Maria, RS
10,4
Cunha et al., 1996
de Floresta Ombrófila Mista
10,3
Backes, 2005
Visçosa/MG
sistema agroflorestal
10,2
Martins et al., 1999
Angra dos Reis, RJ
atlântica de encosta (Ilha
10,0
Oliveira, 1999
9,9
Abreu, 2005.
9,6
Penna firme, 2003.
9.4
Pagano, 1989
São
Francisco
floresta estacional decidual
Paula, RS
Grande, área climácica)
Rio de Janeiro,RJ
Floresta ombrófila densa
Fundo de Vale
Rio de Janeiro,RJ
Floresta ombrófila densa
Área incendiada
Rio Claro, SP
mesófila (semidecídua)
37
Local
Tipo de floresta
Produção
autor
total (Kg.ha)
Sul e Sudeste do Brasil
Campos, RJ
atlântica de encosta
9,4
Mazurec, 1998
(Serra do Imbé - 50 m)
São Paulo, SP
mesófila (secundária)
9,4
Meguro et al., 1979a
Luiz Antônio, SP
cerradão
5,6
Cianciaruso, 2006
Cabe salientar que os ambos projetos desenvolvidos por Abreu (2005)
apresentam uma periodicidade maior que os demais trabalhos científicos
assemelhados. Tais valores representam a média trienal da deposição de
serapilheira, enquanto os demais trabalhos apresentam valores anuais. A duração
deste projeto (3 anos) confere maior pujança científica ao projeto, face às
inconstâncias ambientais, sobretudo, de origem climática.
Tais elevados valores de produção de serapilheira registrados na bacia do
Caçambe são atribuídos – em parte – à disposição da encosta à vertente sul que
segundo Oliveira et al., (1995) a orientação segundo as regiões de maior
luminosidade e de entrada das massas de ar tende geralmente a promover uma
diferenciação ecológica nestas áreas conhecidas como “noruegas” em detrimento
às regiões interioranas ditas “soalheiras” e ao regime climático do local. Tais
análises corroboram com as avaliações de Gonzalez & Gallardo (1982) que relata
regiões com alto índice pluviométrico, em geral, são produtoras de maior
quantidade de serapilheira em comparação com as regiões de baixo índice
pluviométrico.
Apesar dos vários fatores determinantes à deposição de serapilheira e,
consequentemente, à dinâmica ambiental, pôde-se definir como relevante na
dinâmica da ciclagem de nutrientes o caráter secundário da floresta, decorrente do
uso pretérito da floresta, que promoveu uma diversificação dos estratos
vegetacionais (herbáceo, arbustivo e arbóreo);
o regime climático local, bem
como, os fatores sócio-ambientais pertinentes às resultantes ecológicas do uso
pretérito.
38
A partir das análises apresentadas acima, torna-se evidente a resultante
ambiental do uso pretérito dos carvoeiros que a partir das especificidades do
processo de apropriação e utilização do espaço (corte seletivo, confecção das
cavas de carvão, pousio, etc.) influíram na configuração da paisagem local.
Remonta–se assim, a idéia de que estas representações deste território
multifacetado
são
compatibilizada
pela
heterogeneidade
das
condições
sucessionais, tanto estruturais (fitossociologia) quanto funcionais (ciclagem de
nutrientes), geradas pelos usos pretéritos.
Resultante dos usos contemporâneos: poluição pluvial e uso do solo
A entrada de nutrientes por vias atmosféricas, representativo das formas de
intervenção antrópica convencionais ao século XXI, insere-se na ciclagem de
nutrientes ao prover recursos físico-químicos ao ambiente, desta forma, quando a
chuva incide sobre a floresta, sua qualidade é alterada durante a breve interação
com a superfície dos tecidos vegetais e duas situações opostas podem ocorrer: a
água
de
lavagem
do
dossel
pode
sofrer
um
enriquecimento
ou
um
empobrecimento de nutrientes.
A respeito das deposições de metais pesados sobre as plantas, é sabido que
Al, Cd, Cu, Fe, Mn, Ni e Zn apresentam um longo tempo de residência nos
sistemas solo-planta, podendo afetar de forma adversa à fisiologia dos vegetais,
chegando mesmo a alterar os processos de decomposição de matéria orgânica
(Oliveira et. al., 2001). O mesmo autor relata a possibilidade de haver um
enriquecimento ou empobrecimento das chuvas em nutrientes como N, P, K, Ca,
Mg e S ao haver incidência das chuvas sobre o dossel florestal.
Silva (2005) promoveu, na mesma área de análise, estudos que buscavam a
compreensão da incidência das chuvas na região, bem como a participação da
vegetação ao interceptar a pluviosidade. Chegou-se assim, a conclusão de que
havia níveis de poluição elevados em tais precipitações pluviais e que estes, nem
sempre, eram provenientes do entorno urbano e áreas marginais ao maciço e que
essa poluição atmosférica carreada pelas chuvas, em grande parte, eram
barrados pelo dossel florestal. Em suma: a poluição química dos fluxos
39
atmosféricos tendia a influenciar diretamente a dinâmica ambiental ao incorporarse à matéria orgânica e, conseqüentemente, a ciclagem de nutrientes.
O mesmo autor desenvolveu um estudo no referido fragmento florestal do
Camorim, onde buscou a compreensão da relação homem-meio, a partir das
propriedades físico-químicas da chuva em contato com a Floresta. Pode-se
averiguar a função da floresta na interceptação pluvial, bem como, o papel que ela
desempenha de filtro dos elementos químicos e, conseqüentemente, influindo na
alteração do pH, conforme figura abaixo:
pH
área aberta
fundo de vale
divisor de drenagem
0
1
2
3
4
5
6
7
(valores)
Figura 12_ Diferença entre o pH das chuvas na área aberta e ao incidir com a floresta (fundo de
vale e divisor de drenagem). (Silva, 2005).
Tais análises químicas atestam para o incidência diferenciada da
precipitação com relação ao pH e, consequentemente, o papel do dossel florestal
nesta dinâmica: ambas as áreas florestadas (fundo de vale e divisor de drenagem)
apresentaram pH mais básico (acima de 5,6) do que a área aberta. Quanto maior
o pH, menos ácida (mais básica) é a solução. Comparando este resultado ao pH
de um líquido comum, o valor assemelha-se ao pH do vinagre. Vale ressaltar para
a água de chuva com valor de pH abaixo de 5,6 a chuva é considerada ácida
(Apud Silva,2005).
Sant’Anna (2005) averiguou a aparição de elementos inorgânicos, tais como
Co, Cr, Cd e Zn, nas amostras da precipitação atmosférica na referida área de
estudo (bacia do Caçambe). Alegando haver indícios que tais metais pesados
40
seriam procedência da queima de combustíveis fosses na termoelétrica de Santa
Cruz (indústrias de aço do complexo de Sepetiba).
Caracteriza-se assim, a partir da poluição atmosférica (composição química
e pH) averiguado nos aportes pluviométricos da bacia do Caçambe, a influência
de um uso antrópico na configuração da paisagem, sendo estes agentes, não
necessariamente, localizados marginalmente à área assolada. Desta forma, fica
clara a correlação dos agentes climáticos no deslocamento e migração da
poluição que ora é oriundo do entorno urbano (influência direta) ora provem de
regiões longínquas (influência indireta), pelas altas correntes atmosféricas.
Classificação digital do espaço
O bioma Mata Atlântica vem subsistindo através de isolados e
desconectados fragmentos residuais de florestal tropical (land-cover3), bem como,
por meio de sua dinâmica de transformação temporal (land-cover change4), o que
confere a formação florestal um caráter sistêmico-dinâmico representada por um
mosaico sócio-cultural proveniente dos subseqüentes usos antrópicos diretos ou
indiretos, ativos ou inativos, locais ou globais, etc. Dessa forma, o processo de
classificação de imagens orbitais de alta resolução – em termos de acurácia5 e
detalhamento de classes qualitativas de cobertura –proporciona um singular
conhecimento acerca dos atributos econômicos, ambientais e paisagísticos
perdidos e/ou mantidos pós-intervenção antrópica.
Para se extrair informações a partir de imagens orbitais existem dois
métodos básicos: o primeiro, mais difundido e com maior amplitude e acurácia, é
denominado Interpretação Visual, onde o intérprete identifica os padrões de cor,
textura, estrutura, forma, além de informações auxiliares de cunho espacial. Esses
padrões definem as características das classes de cobertura que, então, são
digitalizadas diretamente sobre a imagem em meio digital (Avery & Berlin, 1985).
O segundo método, denominado classificação automática, se fundamenta em
algoritmos que matematicamente definem padrões que caracterizam classes de
cobertura na imagem.
3
Refere-se a cobertura de solo.
Refere-se a mudança na cobertura do solo.
5
Termo físico utilizado para caracterizar proximidade ao verdadeiro, real, verossímil, etc.
4
41
A interpretação visual utiliza várias técnicas de filtragem ou de valorização
de feições que facilitam o trabalho de classificação de imagens, bem como busca
integrar diferentes tipos de informações de cunho geográfico existentes,
fundamentando decisões de classificação desenvolvidas pelo intérprete. Os
métodos utilizados e a estratégia adotada para se chegar a um determinado
conjunto de classes são muito subjetivos, algo que se aproxima da arte e
independente da forte base tecnológica que envolve as ferramentas de
sensoriamento remoto (Patterson & Jensen, 1998).
Estas técnicas alcançam os melhores resultados em termos de precisão e
acurácia, mas, por outro lado, o processo de classificação é bastante lento,
exigindo que cada pedaço da imagem seja analisado individualmente o que pode
demandar muito tempo e custos elevados em função do tamanho da área a ser
classificada (Mas & Ramirez, 1996).
Tal tecnologia tem demonstrado um relevante potencial em sistematizar a
classificação de imagens de alta resolução a partir de processos que segmentam
a imagem em objetos, simplificando a complexidade inerente deste tipo de
imagem (Richards & Jia, 1998). O ambiente de classificação baseado em objetos
permite a extração de várias informações, como, por exemplo, relações
topológicas entre objetos, além das referentes à reflectância do pixel. Estes
objetos ampliam as opções de classificação disponíveis, facilitando a criação de
descrições de classes que utilizam a lógica presente no espaço e geram
classificações automáticas de classes complexas com elevado nível de acurácia
(Rego, 2003).
Santos (2006) manuseou Imagens de sensores remotos de alta resolução
obtidas em junho de 1999 e março de 2001 de uma área total de,
aproximadamente, 13 km2 do maciço da Pedra Branca permeada pelos limites do
Parque Estadual da Pedra Branca e também por sua vizinhança, composta de
áreas urbanas e industriais.
Os dados selecionados compreendem uma imagem IKONOS do ano de 2001
do sensor multiespectral, ou seja, com quatro bandas espectrais: vermelho, azul,
42
verde e infravermelho. Essas imagens têm resolução espacial de 4 m. Com a
análise das imagens, foram geradas classes gerais e que foram se especificando
conforme a necessidade do trabalho. São elas: campo alagado, rocha, água,
campo, urbano, floresta urbana, floresta, sombra e campo urbano, descritas,
caracterizadas e exemplificadas abaixo:
•
Campo alagado
INFRA VERMELHO: quase preto, pode confundir com água porém
depende da vizinhança.
/ REAL: marrom escuro
o Área plana de baixada (declividade 0), sujeito a inundações
o Apresenta vegetação que se adapta a alto nível de umidade
Área próxima ao mar
Área de manguezal ou próxima a ele.
Imagem natural 6
•
Imagem infravermelho 7
Rocha
INFRA VERMELHO: Cinza escuro quase azulado em alguns casos
Textura rugosa
REAL: cinza, confunde bastante com solo exposto;
o Declividade alta na maioria dos casos;
o Pode apresentar vegetação rupícola (plantas que vivem sobre rochas
e que se adaptam às regiões com pouca água e camadas muito fina de
solo existente sobre as mesmas).
6
Imagem natural (RGB)_ Referentes às bandas espectrais (3-2-1) representativas da
visibilidade humana.
7
Imagem infravermelho (NRG)_Referentes às bandas espectrais Infravermelho,
vermelho e verde: passíveis ao realce da vegetação.
43
Imagem natural
•
Imagem infravermelho
Água
INFRA VERMELHO: preto
REAL: preto, esverdeada escuro, varia muito conforme os graus de
resíduos. Na água limpa a luz tem maior penetração, enquanto que na
água com alto nível de poluição a luz não chega com profundidade e a
reflectância nesse caso é baixa, resultando numa cor azul, cinza ou
violeta. Em piscinas, por exemplo, pode ser azul bem claro.
o TEXTURA: uniforme sem rugosidade, lisa a não ser quando tem
vegetação sob a água, pode ser confundida com a poluição.
Imagem natura
•
Imagem infravermelho
Sombra
Sempre preta (bem escura) em qualquer banda
o Pode confundir com água, quando se trata de sombra de árvore.
o Textura uniforme como a água
44
Imagem natural
•
Imagem infravermelho
Floresta
REAL: verde forte denso
INFRA VERMELHO: vermelho forte denso, às vezes brilhante
o Textura lisa e homogênea.
Imagem natural
•
Imagem infravermelho
Floresta urbana
REAL: verde
INFRA VERMELHO: vermelho forte e denso
o Textura: rugosa
o Contexto:
Estar no meio de áreas urbanas, ladeando ruas e formando parques
urbanos e praças.
Geralmente aparecem enfileiradas formando uma reta horizontal ou
vertical, aglomeradas quando fazem parte de parque urbano.
o Incluem:
Árvores que beiram ruas (bem altas)
Parques (bem denso em alguns casos)
o Formato dos objetos:
45
Bordas bem definidas e retas devido à área urbana (ruas)
Nos parques, aparecem num aglomerado mais denso, como se fosse
uma floresta ombrófila densa, porém têm o seu entorno limitado e
circundado por área urbana consolidada.
Imagem natural
•
Imagem infravermelho
Urbano
Bem distinta
INFRA VERMELHO: cinza/branco
REAL: aparece bem claro (branco) e às vezes alaranjado no caso de
construções (muito parecido com solo exposto – distingue pela forma
do objeto e pela sombra)
o Formato dos objetos;
Forma mais reta, retangular;
o As ruas ajudam a definição das áreas;
o Vizinhança
•
Floresta com área descampada com formato bem definido (linear) com
objeto com forma e cor de edificação. Às vezes as construções estão
esparsas, com estradas de terra, sem pavimentação.
Imagem natural
Imagem infravermelho
46
•
Campo urbano:
INFRAVERMELHO: tom do branco para quase azul
REAL: cor branca (areia)
Inclui toda área de campo, localizados na área urbana. Seu entorno é
caracterizado por construções (edificações) e ruas pavimentadas e
não pavimentadas. As áreas em torno de pedreira, também foram
classificadas como campo urbano, por estas se localizarem em área
urbana.
Imagem natural
•
Imagem infravermelho
Campo
INFRA VERMELHO: Tom cinza com pequenas manchas vermelhas
(vegetação)
REAL: tons meio róseos;
o Confunde com rocha quando se trata de campo com solo exposto;
Cinza mais claro que a rocha;
Informação de textura.
Imagem natural
Imagem infravermelho
47
Cabe ressaltar que as classes floresta urbana e campo urbano
diferenciam-se conceitualmente quanto à densidade e porte da vegetação
estabelecida no espaço urbano: floresta urbana_ denso estrato ou aglomerado
arbóreo e campo urbano_ solo exposto ou vegetação degradada , geralmente,
rodeada por construções urbanas.
Posterior a confecção da chave de classificação (disposta acima), foi
possível geral uma classificação geral contendo as classes delineadas, bem como,
prover uma comparação com a imagem digital RGB que se configura por ser mais
próxima da foto aérea. Dessa forma, desenvolveu-se um quadro comparativo e
representativo dos usos de solo no parque da Pedra Branca (figura 13).
Classificação Visual – Imagem
Bacia do
Caçambe
N
W
E
S
Figura 13_ Imagem Digital RGB & Classificação da Imagem Digital Landsat 1999.
48
A contabilização das classes de polígonos, bem como, os respectivos
percentuais de classe de uso do solo no maciço da Pedra Branca demonstrou
haver uma seqüência: floresta (62 %), urbano (18%), Campo (8%), Rocha (6%),
Floresta Urbana (2%), Campo alagado (0,7%) e Água (0,5%). Tais dados atestam
para a preponderância de floresta, sendo esta síntese das vegetações
secundárias, porém demonstram os elevados níveis dos usos antrópicos avistados
nas classes urbanas (22%: urbano, floresta urbana e campo urbano), conforme
ilustração abaixo:
ROCHA
CAMPO
CAMPO ALAGADO
ÁGUA
CAMPO URBANO
FLORESTA
FLORESTA URBANA
URBANO
Figura 14_ Percentuais de classes da Imagem Digital Landsat 1999 (quantidade de polígonos).
Cazes (2005) em estudos comparatório das classificações de imagens
digitais Landsat 1999 e 2001, observou uma contundente transição e,
consequentemente, perda de áreas de floresta para as classes urbanas (urbano,
campo urbano e floresta urbana). Alegando haver um avanço dos usos antrópicos
contemporâneos (edificações e elementos da urbanização) sobre os domínios do
Parque Estadual da Pedra Branca.
A interpretação visual possibilitou a análise de que grande parte do Maciço
da Pedra Branca possui uma peculiar cobertura florestal remanescente de Mata
Atlântica subsistindo, relativamente, em bom estado. Porém, apresenta um
considerável índice de perturbação, fruto da crescente intervenção antrópica
oriundo do espraiamento da malha urbana, sendo avistadas na presença de
diversas classes de usos antrópicos: floresta urbana, campo urbano, campo e
urbano.
49
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise qualificada da paisagem do Camorin se mostrou como uma
fundamental ferramenta para a compreensão da dinâmica florestal a partir dos
usos pretéritos in situ dos carvoeiros e outros usos agrícolas, bem como, no
presente, pelos usos urbanos. A utilização da História Ambiental a partir dos
mecanismos ambientais ciclagem de nutrientes e fitossociologia, da conjectura
ambiental da poluição pluvial e da ferramenta espacial geoprocessamento,
efetivou-se como de suma importância à compreensão da evolução da paisagem
do Maciço da Pedra Branca.
A História Ambiental da baixada de Jacarepaguá nos traz exemplos
históricos que as intervenções e ações urbanísticas e políticas no espaço tendem
a privilegiar uma classe social mais favorecida e detentora das instâncias
decisórias e, consequentemente, relegando e resignando a grande maioria da
população o acesso e utilização do espaço urbano e alocação junto às franjas
marginais do espaço citadino especulado.
Assim como, no início do século XX, Pereira Passos implementou a
grandiosa reforma urbanística – conhecida popularmente pelo "bota abaixo" – que
culminou por propagar o germe das ocupações irregulares junto às áreas de
preservação do maciço da Tijuca. Seu seguidor Lúcio Costa, em meados do
mesmo século, idealizou às principais vias de urbanização da zona oeste
designadas ao atendimento dos interesses fundiários e imobiliários hegemônicos,
potencializando assim, a - já evidente – ocupação das remanescentes áreas
florestadas do maciço da Pedra Branca.
Em função da variação temporal que cerca os dois eventos e a dinâmica de
crescimento sócio-espacial do município, pode-se afirmar que o Maciço da Tijuca
– que hoje se encontra em situação ambiental debilitada e consolidada pela
ocupação irregular, erosão e assoreamento, poluições diversas, etc. – apresenta,
inevitavelmente, o prognóstico para o maciço da Pedra Branca.
As diversas formas de impactação contemporânea do entorno urbano, fruto de
um avanço desenfreado da urbanização, sobre os fragmentos do maciço são
avistados no quadro urbano caótico permeado pela ocupação desordenada das
encostas, incêndios florestais e derrubada de árvores e pela deposição de
50
poluentes e resíduos urbanos. O somatório destes problemas contribui para uma
situação de degradação do ecossistema florestal gerando instabilidade de
encostas, assoreamento e eutrofização das bacias hidrográficas e a degradação
da paisagem, com crescentes conseqüências negativas tanto à sustentabilidade
ambiental quanto à perda dos atrativos turísticos.
Dessa forma, avaliar essa metamorfose espacial que é permeada por usos
diretos e in situ – sob os diversos usos econômicos das populações locais –
porém, também acrescidos da poluição migratória de uma intervenção antrópica
indireta e distante da área de impacto ou degradação.
Exemplos desta
impactação direta tornou-se nítido pela análise da classificação digital do maciço
da Pedra Branca, em que diversos usos antrópicos foram constatados nas áreas
marginais ao parque – agravadas pelas seguidas manchas situadas no meio da
matriz digital – que, em sua maioria, são áreas de alta declividade, de substrato
rochoso e susceptível à ação dos agentes climatológicos, ou seja, altamente
vulneráveis aos deslizamentos.
Pode-se afirmar, após a análise do trabalho aqui exposto, que a intervenção
antrópica pretérita dos carvoeiros foi fundamental na configuração ambiental
observada hoje, já que foi uma das práticas determinantes na configuração
florística, ilustrado pela dominância e densidade da espécie Guarea guidonia na
região de fundo de vale da bacia do Caçambe, avaliada pela fitossociologia, bem
como na dinâmica ambiental da ciclagem de nutrientes pela serapilheira que
atende às estratégias sazonais da vegetação (estresse hídrico).
A intervenção contemporânea, caracterizada pela exponencial expansão da
malha urbana, promoveu a contaminação por substâncias tóxicas na água da
chuva, onde se verificou que 90% da precipitação que incide sobre o Maciço
urbano é constituída de chuvas ácidas. Caracterizando assim, as formas de usos
antrópicos modernas em os elementos químicos ou poluentes ora eram
transferidos das regiões marginais, ora migravam pelas massas atmosféricas de
regiões distantes, além da urbanização in situ que altera profundamente o padrão
de uso do solo, sendo esta perceptível nas imagens e classificações digitais.
Dessa forma, o presente estudo sugere que:
51
• A evolução da paisagem do Camorin espelha os padrões de uso de solo
pretéritos, já que os parâmetros estruturais vinculados às especificidades do
uso dos carvoeiros, cujo método empregado - queimada prévia ao abandono
ou pousio - geraram condições de uma regeneração natural e diferenciada dos
demais usos concomitantes à área.
• A História Ambiental do maciço da Pedra Branca, inscritas nas diversas
escalas temporais e, sobretudo, substancialmente influenciada pelos usos
antrópicos pós-1950 efetivou-se pela íntima relação entre os padrões de uso
do solo, as especificidades ambientais: geomorfológicas, climatológicas,
geológicas, hidrológicas, etc. e as resultantes ecológicas de dinâmicas
ecológicas sistematicamente interligadas.
• As variáveis ambientais (fitossociologia, ciclagem de nutrientes e precipitação
atmosférica) efetivaram-se como essenciais à análise qualificada do ambiente,
pois concatenou os diferentes mecanismos ambientais, tais como: composição
florística, entrada de elementos químicos, decomposição e ciclagem de
nutrientes, etc. essenciais na mensuração dos atributos pertinentes à
sustentabilidade e funcionalidade ambiental.
• O geoprocessamento, enquanto ferramenta essencial à análise dos padrões
espaciais, promoveu uma análise panorâmica dos padrões de uso do solo no
maciço da Pedra Branca no final do século XX (1999) e, com isso, possibilitou
dimensionar os diversos usos contemporâneos e essencialmente urbanos.
A análise digital do espaço, bem como os outros mecanismos ou ferramentas
de diagnóstico da evolução da paisagem, permitiu além da espacialização e
dimensionamento dos diferentes usos antrópicos (ilustrado pelas diferentes
categorias e cores de classes de usos), a delimitação dos agentes que interferem
na resultante ambiental e, em última análise, no mosaico de usos e resultantes
intrínsecos da paisagem. Porém, em função das diversas variáveis ambientais que
estão intimamente atreladas às escalas espaciais e temporais – neste trabalho
focada na pequena escala de análise – faz-se necessário a implementação de
futuros estudos detalhados que validem em campo tais observações. Dessa
forma, consolidou-se como um importante método potencializador da análise
qualificada do ambiente.
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