Susan Sou Youn Jhun - Universidade Anhembi Morumbi

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Susan Sou Youn Jhun - Universidade Anhembi Morumbi
UNIVERSIDADE ANHEMBI MORUMBI
SUSANA SOU YOUN JHUN
A CERIMÔNIA DO CHÁ COMO ELEMENTO DE
CONVIVIALIDADE NA POPULAÇÃO NIPO-BRASILEIRA
São Paulo
2012
SUSANA SOU YOUN JHUN
A CERIMÔNIA DO CHÁ COMO ELEMENTO DE
CONVIVIALIDADE NA POPULAÇÃO NIPO-BRASILEIRA
Dissertação de Mestrado apresentada à Banca
Examinadora, como exigência parcial para a
obtenção do título de Mestre em Hospitalidade,
área de concentração em Planejamento e
Gestão Estratégica em Hospitalidade da
Universidade Anhembi Morumbi, sob a
orientação da Profª. Dra. Marielys Siqueira
Bueno.
São Paulo
2012
SUSANA SOU YOUN JHUN
A CERIMÔNIA DO CHÁ COMO ELEMENTO DE
CONVIVIALIDADE NA POPULAÇÃO NIPO-BRASILEIRA
Dissertação de Mestrado apresentada à Banca
Examinadora, como exigência parcial para a
obtenção do título de Mestre em Hospitalidade,
área de concentração em Planejamento e
Gestão Estratégica em Hospitalidade da
Universidade Anhembi Morumbi, sob a
orientação da Profª. Dra. Marielys Siqueira
Bueno.
Aprovado em
Profª. Dra. Marielys Siqueira Bueno – UAM (SP)
Orientadora
Profª. Dra. Sênia Regina Bastos – UAM (SP)
Profª. Dra. Célia Sakurai – UNICAMP (SP)
4
AGRADECIMENTOS
Gostaria de agradecer primeiramente à minha orientadora Marielys Siqueira
Bueno pela dedicação, entusiasmo, carinho e principalmente pela excepcional
paciência que teve comigo nos momentos difíceis e árduos que foi o processo de
elaboração e finalização desta dissertação.
Também foi muito importante a participação dos mestres e dos colegas do
curso de Cerimônia do Chá na Universidade de São Paulo. Sem o apoio deles e a
imensa paciência em responder meus questionamentos, a viabilização deste
trabalho não seria possível.
Não poderia esquecer o apoio incondicional de todos os professores do
Mestrado em Hospitalidade, em especial às professoras Maria do Rosário Rolsen
Salles e Sênia Regina Bastos que com toda sua sabedoria contribuíram de forma
sempre positiva para a minha pesquisa.
E claro, à minha família e aos meus amigos que sempre me incentivaram em
todo o processo e principalmente, conseguiram entender a minha falta de
disponibilidade para vê-los e atende-los.
5
“Os seres humanos estão “condenados” a conviver solidariamente e como tal a
identificar-se, isto é, a construir identidade, enquanto seres de relação. Quando duas
subjetividades comunicam, entre um mesmo e o outro surge um “terceiro” que, à
partida, estava ausente”.
(Isabel Baptista)
6
RESUMO
O presente trabalho focaliza a prática da cerimônia do chá na população nipobrasileira da cidade de São Paulo, com o objetivo de apontar os elementos que
indicam a contribuição dessa cerimônia no processo de adaptação do imigrante ao
novo país. O imigrante precisa reconstruir seus papéis sociais e reavaliar seus
valores e condutas para a sua inserção na nova cultura. E para contornar essas
dificuldades eles se agrupam e defendem os traços culturais que os identifica. Essa
dimensão da preservação da cerimônia do chá, tão importante para o imigrante, se
ampliou ao proporcionar uma positiva articulação com os brasileiros não
descendentes através da divulgação do ensino da cerimônia do chá. O segundo
objetivo é apontar a relação direta entre as características da cerimônia do chá com
a concepção da hospitalidade enquanto dádiva do espaço e expansão coletiva da
convivialidade. Comprovou-se que a cerimônia do chá possui uma dupla função;
manter a tradição japonesa e servir de veículo para a integração não só entre os
descendentes de japoneses, bem como entre esses nipo-brasileiros e a população
brasileira.
Palavras-chave:
Hospitalidade.
Cerimônia
do
chá.
Convivialidade.
Imigração
japonesa.
7
ABSTRACT
This paper focuses on the practice of tea ceremony in the population Nipo-Brazilian
of Sao Paulo city, with the objective of identifying the elements that indicate the
contribution of this ceremony for the adaptation of immigrants to the new country.
The immigrant must remake their social roles and revaluate their values and
behaviors for their inclusion in the new culture. And to overcome these difficulties
they group together and defend the cultural traits that identifies them. This aspect of
the preservation of the tea ceremony, so important to the immigrant, was expanded
to provide a positive connection with the Brazilians not descendants through the
dissemination of teaching the tea ceremony. The second objective is to point out the
direct relationship between the characteristics of the tea ceremony with the
hospitality’s concept as a offer of space and expansion of collective conviviality. It
was proved that the tea ceremony has a dual role, maintaining Japanese tradition
and serving as a vehicle for integration not only among the descendants of Japanese
as well, as between those Nipo-Brazilians and the Brazilian population.
Key words: Tea ceremony. Conviviality. Japanese immigration. Hospitality.
8
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 – Matcha ...................................................................................................... 19
Figura 2 - Retrato de Murata Shuko ....................................................................... 20
Figura 3 - Sen-no-Rikyu............................................................................................ 21
Figura 4 – Principais utensílios da cerimônia do chá........................................... 25
Figura 5 – planta de Chashitsu................................................................................ 26
Figura 6 – parte interna da sala de chá.................................................................. 26
Figura 7 - Temae........................................................................................................ 27
Figura 8 - kaiseki........................................................................................................ 27
9
SUMÁRIO
SUMÁRIO ................................................................................................................................................ 9
INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 10
CAPÍTULO 1 A CERIMÔNIA DO CHÁ............................................................................................. 16
1.1 A CERIMÔNIA DO CHÁ OU CHANOYU ............................................................................................. 16
1.2 A ORIGEM DA CERIMÔNIA DO CHÁ, A SUA EVOLUÇÃO E A IDENTIDADE CULTURAL JAPONESA ..... 18
1.3 A CERIMÔNIA DO CHÁ: O RITUAL E SEUS ELEMENTOS .................................................................. 23
1.4 A CERIMÔNIA DO CHÁ E A HOSPITALIDADE ................................................................................... 28
CAPÍTULO 2 A IMIGRAÇÃO JAPONESA ...................................................................................... 33
2.1 O INÍCIO DA IMIGRAÇÃO JAPONESA NO BRASIL E A SITUAÇÃO NO JAPÃO .................................... 33
2.2 A IMIGRAÇÃO JAPONESA: SEU ACOLHIMENTO E DESENRAIZAMENTO........................................... 40
CAPÍTULO 3 A CERIMÔNIA DO CHÁ E A POPULAÇÃO NIPO-BRASILEIRA ...................... 46
3.1 A ORIGEM DO CHANOYU NO BRASIL ............................................................................................. 46
3.2 O CHANOYU E A CONVIVIALIDADE ENTRE OS NIPO-BRASILEIROS ................................................ 49
3.3 O CHANOYU E A CONVIVIALIDADE ENTRE OS NIPO-BRASILEIROS E NÃO DESCENDENTES DE
IMIGRANTES JAPONESES .............................................................................................................. 53
CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................................................ 54
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................................. 58
ANEXO A............................................................................................................................................... 62
ANEXO B............................................................................................................................................... 69
ANEXO C............................................................................................................................................... 52
10
INTRODUÇÃO
A transposição de fronteiras no movimento de imigração implica num
complexo processo de adaptação sociocultural e individual. Seja qual for a forma, as
condições e os motivos da imigração, trata-se de um movimento que envolve
separação, perdas, rompimentos de vínculos e simultaneamente, o desafio de
inserção na nova ordem cultural.
Mesmo que a busca de novos lugares e novas experiências signifique,
implicitamente,
a
esperança
de
novas
oportunidades,
o
imigrante
está
invariavelmente marcado por estranhamentos, pela dificuldade de construção de
uma nova imagem de si mesmo, a inquietação e a dúvida de ser aceito como
cidadão.
Todo imigrante enfrenta um doloroso processo de separação de sua terra
natal e sofre, em maior ou menor grau, com o impacto do confronto perante a nova
situação. Esse fenômeno de traduzir as diferenças para permitir a convivência com
os novos padrões de comportamento, com as novas formas de sociabilidade é difícil
para qualquer imigrante, mas para os japoneses as dificuldades naturais se
intensificam devido ao acentuado grau de diferenças, tanto culturais quanto
geográficas. Para eles a adaptação exige um esforço muito maior para contornar os
hábitos e costumes tão diferentes e muitas vezes em desacordo com suas tradições.
Mas a cultura de um grupo étnico não se perde e nem se funde
completamente nas especificidades locais. Por mais bem sucedido que seja o
processo de adaptação, os traços culturais de origem persistem e se concentram em
alguns traços que são mantidos como um elemento constitutivo da afirmação de sua
identidade. São lembranças retidas como recursos protetores que os permite
suportar a separação e a preservação simbólica dos costumes ausentes num
mecanismo de defesa e de adaptação.
O próprio processo de socialização dos membros do grupo faz com que as
pessoas internalizem os valores, os padrões de comportamento de tal maneira e
com tanta intensidade que, no dizer de Ortiz, se consolida um “nós” que se
contrapõe a “eles”.
11
Os homens se enraízam em seus países cuja espacialidade constitui
os limites míticos e identitários dos grupos sociais que os compõem.
Instaura-se assim a existência de um “nós” fonte permanente de
referencias e identidade ao qual se contrapõe um “eles”, fora de suas
fronteiras, distante, distinto (ORTIZ, 2000, p.137).
Assim, o que é externo configura-se distante, estranho, incompreensível, e
nessas circunstâncias, o imigrante precisa reconstruir seus papéis sociais e reavaliar
seus valores e condutas para a sua inserção na nova cultura e para contornar essas
dificuldades, eles se agrupam e defendem os traços culturais que os identifica. E
dentre as tradições da cultura japonesa que fazem parte desse processo de
preservação dos costumes e tradições, no caso dos imigrantes japoneses em São
Paulo, foi escolhida a cerimônia do chá. Pela sua complexidade e pela sua carga
simbólica, representa aspectos sociais e mesmo filosóficos dessa cultura milenar.
Embora o hábito de tomar chá tenha se originado na China, pode-se dizer que
a cerimônia do chá (Chanoyu) é uma das tradições mais representativas do Japão.
Depois de centenas de anos sendo usado apenas como bebida medicinal, a bebida
oriunda da folha do chá passou a ser o centro das reuniões sociais após ter
ultrapassado os limites dos mosteiros e dos templos e passa a atrair todo povo
japonês.
Hammitzsch (1993, p.92) diz que o sentido original do Chanoyu está “na união
harmoniosa entre o céu e a terra e por isso representa um veículo de paz e também
um meio de preservar a ordem no mundo”. Segundo ele, atualmente, pode constituir
também uma oportunidade para convidar amigos. No entanto, mesmo no sentido
social, Sen (1981) diz que a Cerimônia do Chá, ou Chanoyu, que possui o
significado literal: água quente para o chá, não deve ser considerada apenas como
uma seqüência de gestos, formando um ritual para o simples preparo de uma tigela
de chá verde em pó para o convidado. Deve-se levar em conta que o Chanoyu é
uma confluência das artes tradicionais do Japão.
Por representar um sistema ético, estético e simbólico, o Chanoyu pode ser
considerado um campo privilegiado para se observar o processo da adaptação
étnica do japonês imigrante e do japonês não imigrante.
Além da importância que a cerimônia do chá representa para os japoneses,
uma das hipóteses deste trabalho é que ela permite uma importante dimensão do
convívio entre os descendentes de imigrantes japoneses.
12
Rocha (1996, p.2) mostra que o Chanoyu “foi transformado pelos imigrantes e
seus descendentes no Brasil como representativo de seu ethos japonês”.
Além
disso, a prática da cerimônia do chá é um evento social no qual os descendentes de
imigrantes japoneses aproveitam para socializar-se, além de compartilhar e manter
as tradições culturais.
Assim, o foco será a cerimônia do chá como elemento de convivialidade entre
os praticantes na Casa de Cultura Japonesa (Bunkyo) do Bairro da Liberdade e da
Universidade de São Paulo, ambas na cidade de São Paulo. Pretende-se buscar
elementos que indiquem a contribuição dessa cerimônia para a preservação das
tradições japonesas e se ela facilita a adaptação dos imigrantes japoneses no Brasil.
Outra questão a ser focalizada é a divulgação do ensino da cerimônia do chá sobre
o ponto de vista do acolhimento dos brasileiros não descendentes.
Sabe-se que um dos elementos cruciais para a adaptação do imigrante é o
grau de abertura e de aceitação da sociedade acolhedora. E com o mesmo grau de
importância e de influência, é a forma de acolhimento e abertura com que o
imigrante recebe a sociedade acolhedora, ou seja, o que vai facilitar a adaptação do
imigrante é a hospitalidade com que ambas as partes estão dispostas a oferecer.
Hospitalidade aqui ganha o sentido “maussiano” do termo, ou seja, entende-se
hospitalidade enquanto dimensão da dádiva. Esse conceito foi elaborado por Marcel
Mauss ao mostrar que a vida social se constrói por um constante e interminável ciclo
de dar-receber-e-retribuir. Assim a dádiva como “forma de circulação de bens a
serviço dos vínculos sociais, constitui um elemento essencial a toda sociedade”
(GODBOUT, 1999, p. 29).
Godbout diz ainda que “a dádiva vence a oposição entre o indivíduo e o
coletivo fazendo das pessoas membros de um conjunto concreto mais vasto” (p.29).
É nesse sentido e nessa direção que a hospitalidade enquanto dádiva do espaço,
vai possibilitar a formação de vínculos sociais fazendo a ponte que une o “nós” e os
“outros” eliminando o distanciamento das diferenças.
Caillé (2002) também aponta esse aspecto da dádiva, e consequentemente
da hospitalidade, dizendo que ela sela a aliança entre as pessoas numa
sociabilidade, que ele chama de primária, estruturando as relações.
Dessa forma, a cerimônia do chá está inserida na hospitalidade na medida em
que seu exercício incentiva o convívio entre os praticantes, os nipo-brasileiros. E se
abre, mesmo que timidamente, para a cultura local.
13
Atualmente existem diferentes estudos e publicações sobre a cerimônia do
chá abordando a origem do seu desenvolvimento até os dias de hoje, descrevendo
as técnicas do ritual, revelando os gestos simbólicos, descrevendo a origem e as
qualidades requeridas dos utensílios necessários para a prática. Nesses estudos
também encontramos detalhadamente as prescrições sobre o chá e os alimentos
recomendados. São estudos que abrangem todos os aspectos da cerimônia do chá,
incluindo a decoração do ambiente e as vestimentas dos praticantes. Porque nada é
dispensável, todos os detalhes incorporam uma dimensão, um sentido e um
propósito importante dentro da cerimônia do chá.
Também não há muita dificuldade em verificar estudos sobre a cerimônia do
chá que abordem mais especificamente a cerimônia como uma filosofia de vida.
Ainda é possível encontrar trabalhos cujo objetivo se fixa na identidade cultural dos
japoneses e a situação dos japoneses imigrantes e seus descendentes no Brasil.
Essa dimensão que diz respeito aos aspectos de convivialidade, de
adaptação e de abertura para a sociedade acolhedora vai ser então o primeiro
objetivo desta pesquisa. Buscou-se verificar se a cerimônia do chá é praticada como
uma atividade importante, motivando um maior convívio entre os descendentes de
imigrantes japoneses.
Para a compreensão dos elementos significativos que compõem a cerimônia
do chá, foram consultados vários autores. Soshitsu Sen XV, através de seu livro
Vivência e sabedoria do chá, foi importante por apontar os significados profundos
subjacente aos gestos ritualizados. H. Hammitzsch em Zen na arte da cerimônia do
chá foi igualmente importante por delinear o trajeto evolutivo da cerimônia e por
apontar o verdadeiro sentido dos ensinamentos do chá. Contou-se, também, com a
ajuda esclarecedora de Cristina Moreira da Rocha através de sua dissertação de
mestrado intitulada A cerimônia do chá no Japão e sua reapropriação no Brasil: uma
metáfora de identidade cultural do japonês. Essa dissertação foi apresentada em
1996 na Universidade de São Paulo. O Livro do chá, de Kakuzo Okakura oferece
uma reflexão, a partir da história e da descrição da cerimônia do chá, e de forma
lírica faz considerações filosóficas sobre o antagonismo entre a tradição e a
modernidade. Foi muito útil também, a publicação Chanoyu, arte e filosofia e Chadô:
introdução ao caminho da Cerimônia do Chá, ambos publicados pelo Centro de
Chado Urasenke do Brasil.
14
A questão imigratória foi abordada tendo como principais referências os
trabalhos de Célia Sakurai que trata amplamente a questão da imigração japonesa;
também o artigo de Shuhei Hosokawa que analisa a questão dos nikkeis no Brasil; o
processo de separação analisado por Francisco Hashimoto auxiliou na compreensão
do processo de imigração; Fernando Moraes através de um trabalho investigativo
mostrando toda a dificuldade de uma parte dos imigrantes japoneses em aceitar a
derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial; e o trabalho de Alexandre Ratswo
Uehara para a compreensão do processo de integração e assimilação.
O processo de integração e de assimilação pressupõe um conjunto de fatores
que favorecem ou dificultam a criação de conexões que originam as redes de
relações humanas. Para perceber a dinâmica dos relacionamentos estabelecidos
pelos imigrantes e pelos brasileiros que configurassem o acolhimento e a
hospitalidade, valeu-se dos autores como Isabel Baptista, Jacques Godbout, Alain
Caillé, Luiz Octávio de Lima Camargo, que ampliaram a noção de hospitalidade, de
espaços de hospitalidade e também a dinâmica das relações e da formação dos
vínculos sociais.
Inicialmente a pesquisa teve um caráter exploratório com base numa revisão
bibliográfica e documental visando maior familiaridade com a cultura japonesa e com
a problemática da questão imigratória em São Paulo. Em seguida, foi necessário em
função dos objetivos pretendidos, utilizar a pesquisa de campo, para uma
aproximação com a realidade do grupo e aplicação de entrevistas com base
qualitativa e explicativa. Ainda com o intuito de uma maior aproximação que
ajudasse a compreender o sentido das práticas culturais, foi realizado como aluna,
um curso de cerimônia do chá no Centro Urasenke do Brasil. Esse curso permitiu um
maior conhecimento das implicações simbólicas, culturais e mesmo filosóficas dessa
cerimônia. Mas, permitiu principalmente através do convívio com os colegas, a
oportunidade de realizar entrevistas semi-estruturadas com alunos, professores e
praticantes da cerimônia do chá.
Os entrevistados foram selecionados dentro do grupo de praticantes da
cerimônia do chá nas Casas de Cultura Japonesa (Bunkyo) do Bairro da Liberdade e
da Universidade de São Paulo, ambas na cidade de São Paulo, sendo
preferencialmente descendentes de imigrantes japoneses, sem limitação de idade e
de sexo.
15
A apresentação dos resultados obtidos está distribuída em 3 capítulos. No
primeiro pretendeu-se apresentar o significado, tanto literal como simbólico da
cerimônia do chá ou Chanoyu. Em seguida, para a contextualização da cerimônia,
foram apresentados os aspectos históricos, ou seja, com surgiu a cerimônia, como
ela evoluiu e qual o seu papel e o seu lugar na atualidade, sempre relacionada à
identidade cultural japonesa. Esse capítulo segue com a explicação das etapas do
ritual, nomeando seus agentes e todos os elementos físicos que envolvem a
cerimônia do chá, tais como: sala, arranjos florais, desenho e caligrafia, cerâmica,
chá, alimentos, vestimentas etc. Ainda abrange a Cerimônia do Chá e sua relação
direta com a hospitalidade, principalmente na questão do acolhimento e da
convivialidade.
No segundo capítulo, buscou-se fazer uma caracterização da imigração
japonesa em São Paulo procurando conhecer as motivações para partir a um país
tão diferente, o impacto do confronto com as diferenças culturais e as impressões
que tiveram do acolhimento da sociedade receptora. Evidentemente, para uma
melhor compreensão dos motivos da imigração foi necessário descrever a situação
do Japão e as condições que motivaram a mudança. Além disso, as condições desta
mudança permitiram uma melhor avaliação da situação de integração na cidade de
São Paulo, especialmente no bairro da Liberdade.
O terceiro capítulo se volta inteiramente para a cerimônia do chá buscando a
vinculação da sua essência com a sua potencialidade e com as características
favoráveis aos aspectos de acolhimento e da convivialidade. Nesse aspecto, o
objetivo deste trabalho consiste em compreender as vivencias dos imigrantes na
cerimônia do chá no seu processo de integração, acomodação e convívio.
16
Capítulo 1 A CERIMÔNIA DO CHÁ
1.1 A cerimônia do chá ou Chanoyu
Embora o hábito de tomar chá tenha se originado na China, a cerimônia do
chá tornou-se uma das tradições mais representativas do Japão.
Rocha lembra Paul Varley que o Chanoyu seria “um tipo de recriação em
miniatura de um ideal hipotético do padrão japonês de comportamento” (Varley,
1991, p.189 apud Rocha, 1996, p. 2)
O Chanoyu ou a cerimônia do chá como é conhecida no Brasil, tem como
tradução literal “água quente para o chá” e é o termo utilizado para “[...] designar a
cerimônia como objeto de prática e ensino (ROCHA, 1996, p. 1).”
A Cerimônia, ou Chanoyu (água quente para o chá), apesar de
consistir no simples preparo de uma tigela de chá verde em pó para
o convidado, pela atmosfera de paz e relaxamento, pelo ambiente de
requintada simplicidade, pelo exercício constante das artes
tradicionais do Japão que nela se encontram, pela filosofia e
significado profundo, subjacentes a cada gesto do rígido ritual, é na
realidade muito mais que isso: ela é a “expressão simbólica de toda
uma arte de viver em harmonia perfeita”, esta arte de viver com
simplicidade e bom gosto, tão tipicamente japonesa (SEN, 1981,
p.18).
Outro termo associado à cerimônia do chá é Chado que significa literalmente
“caminho do chá” e se refere a “[...] cerimônia do chá quando encarada de um
ângulo filosófico-religioso (ROCHA, 1996, p. 1).”
A verdadeira compreensão do Caminho do Chá só pode ser
alcançada a partir de suas raízes – através da história das suas
origens e do seu desenvolvimento. Embora o hábito de tomar chá,
mesmo de uma forma cerimoniosa, já fosse conhecido no Japão
desde épocas remotas, o que hoje temos por Caminhos do chá é
mais do que uma particular forma de bebê-lo. [...] só pode ser
realmente compreendida quando estamos cientes de todas as
influências que o fazem crescer e se transformar, no decorrer de um
longo processo de maturação. [...] Um caminho vem de algum lugar e
leva a algum lugar. Seu objetivo é a compreensão dos valores
eternos, a compreensão da Verdade. O Caminho age como um
severo guardião da tradição [...] mantém um vínculo inquebrantável
entre o passado, o presente e o futuro. Esse é o fundamento sobre o
qual se baseia a relação mestre-discípulo, tão importante para o
desenvolvimento das artes japonesas (HAMMITZSCH, 1993, p. 27).
17
Apesar do conceito da cerimônia do chá ser considerado por alguns mestres
uma fusão dos significados e abrangências dos termos Chanoyu e Chado, as
essências de cada termo já determinam diferentes enfoques na prática da cerimônia
do chá. A análise e a pesquisa desta atividade, neste sentido, também podem
apresentar abordagens variadas.
Neste trabalho não será realizada uma análise aprofundada da natureza
religiosa e filosófica da cerimônia do chá. Se tentará verificar o que é Chanoyu em
diferentes âmbitos, no entanto, sem aprofundar a definição de Chado, visto
anteriormente.
Como se verá no decorrer deste capítulo, o Chanoyu não pode ser
considerado apenas como a prática e ensino do simples ato de servir o chá.
Segundo a definição mais abrangente do Centro de Chado Urasenke do Brasil, a
cerimônia do chá alcança diferentes âmbitos, tornando-a num evento complexo e
multidisciplinar.
O Chanoyu é constituído de quatro fatores: o social, o cerimonial, o
do treinamento [...] e o artístico. Estes quatro fatores, embora
possam, via de regra, se contradizer ou se rechaçar mutuamente, e,
podem também se combinar ou se atrair. [...] Os conceitos Social,
Cerimonial ou Treinamento são de fácil compreensão do ponto de
vista do Chá. O conceito treinamento, por exemplo, considera o
Chanoyu como Chado, ou seja, um caminho de aprimoramento
espiritual que exige devolução sem esmorecimento (CENTRO DE
CHADO URASENKE DO BRASIL, 1995, p. 28).
Segundo o Centro Urasenke (1995), a cerimônia do chá concentra a natureza
cerimonial, mas não se restringe apenas a isso. Para compreender o significado de
Chanoyu há que aprofundar-se em outros setores das artes em geral como
arquitetura, decoração, paisagismo, pintura, gastronomia, etc.
A elaboração [e a compreensão] da idéia [do Chá como arte]
necessita do espaço e do momento para sua expressão, e esse
espaço se encontra dentro da relação que compreende [...] a reunião
para o chá, desde as configurações [...] do recinto para o chá e [...]
da passagem do jardim até a escolha dos utensílios e disposição dos
mesmos, bem como a forma de receber os convidados (CENTRO DE
CHADO URASENKE DO BRASIL, 1995, p. 28).
Além dos quatro âmbitos citados anteriormente (social, cerimonial, do
treinamento e artístico), o Grão Mestre Sen Sôshitsu, ampliou ainda mais o conceito
18
do Chanoyu, relacionando também a natureza religiosa e filosófica, defendendo uma
compreensão da Cerimônia do Chá como Caminho do Chá (Chado).
Seja o Chanoyu ou Chado, os conceitos destes demonstram que o chá não é
apenas uma bebida para aplacar a sede ou para fins medicinais, a cerimônia é uma
experiência muito mais complexa. Segundo os preceitos do Centro Urasenke, o
Chanoyu não pode ser visto apenas como meramente cerimonial ou como uma
sucessão de procedimentos, dando origem a um ritual.
A relação entre o anfitrião e o convidado é um dos princípios elementares do
Chanoyu e esta relação será associada à hospitalidade na questão da dádiva e
analisada com mais profundidade no quarto item deste mesmo capítulo (1.4).
O convidado acompanha o temae do anfitrião, ao mesmo tempo que
observa a sua habilidade em adornar o lugar do Chá, escolher e
dispor os utensílios, gozando do ambiente artístico criado com
requinte. O anfitrião, por sua vez, enquanto executa o temae, com os
utensílios preparados por ele mesmo para o convidado, preocupa-se
em transmitir a sua sincera intenção. Se houver algum convidado
que reconheça e valorize a sua arte, pelo seu modo de ser e
reconhecimento, será motivo de satisfação para o anfitrião (CENTRO
DE CHADO URASENKE DO BRASIL, 1995, p. 30).
1.2 A origem da cerimônia do chá, a sua evolução e a identidade cultural
japonesa
A origem do chá no Japão advém da introdução desta infusão vinda da China
pela primeira vez no período Heian (794-1192). No início esta bebida era tomada
apenas como medicamento, provavelmente associada ao sabor ligeiramente amargo
que tinha nos primórdios. Em seguida, devido ao valor do chá, era apreciado
exclusivamente pelo imperador e pela elite japonesa, além dos sacerdotes,
principalmente os praticantes da seita Zen. Os monges zen-budistas o utilizavam
como estimulante para se manterem acordados durante a meditação no período da
noite e como oferenda no altar budista. (SEN, 1981)
O interesse pelo chá aumentou no século XII quando Eisai (1141-1215),
monge zen-budista, difundiu a prática de bebê-lo na forma como é tomada
atualmente na cerimônia do chá, ou seja, o chá verde em pó (matcha) que é batido
com água quente até formar uma espuma na superfície (ROCHA, 1996).
19
Figura 1 – Matcha
Fonte: http://cultura-japonesa.blogspot.com/2011/10/matcha.html
Sen (1981) afirma que só no século XIV, foi possível notar o uso do chá fora
dos palácios e mosteiros, pois acabou tornando-se um hábito entre os samurais,
difundindo-se até as comunidades rurais. Neste período, o ato de beber o chá se
transformou numa forma de entretenimento. Nas reuniões de chá (cha-yorai)
aconteciam algumas competições entre a elite dos samurais, entitulado tocha, com o
intuito de degustar e diferenciar os diversos tipos de chá regionais japoneses.
Juntamente ao serviço do chá, haviam outras formas de diversão como música,
danças, poesia e sake (bebida fermentada de arroz).
Nesta época, durante o período Muromachi (1336-1568), o chá também era
servido com o objetivo de demonstrar poder e refinamento pela nobreza e elite
guerreira. Esta imagem estava associada principalmente à construção de pavilhões
luxuosos com o intuito de sediar as reuniões de chá e ainda, ao uso e à
contemplação de objetos chineses e coreanos como a porcelana, a cerâmica e os
utensílios de chá, altamente admirados na época (SEN, 1981).
É possível verificar ainda uma mudança no comportamento da elite ligado ao
chá no século XV, quando o ato de beber o chá começou a ocupar um lugar de
destaque em reuniões sociais, obtendo um aspecto mais cerimonial que festivo,
característica destacada no século anterior.
Segundo Sen (1981) foi importante a atuação do monge Murata Shukô (14221502) que aproximou ainda mais a cerimônia do chá, vista como Chado, ao Zen.
Durante o seu trabalho junto ao seu patrono, o shogun Ashikaga Yoshimasa,
20
projetou o que é considerado um dos elementos mais importantes da cerimônia, uma
sala de chá de quatro tatami e meio, medida tomada até hoje e considerada pelos
praticantes a ideal.
Figura 2 - Retrato de Murata Shuko
Fonte: http://www.teeweg.de/de/literatur/juko/haupt.html
Shukô foi escolhido por Yoshimasa como o primeiro Mestre do Chanoyu e
como tal, iniciou a valorização do uso de utensílios de chá com procedência
japonesa, antes desvalorizados em relação aos similares chineses e coreanos. Mas
a importância deste monge advém de sua dedicação em adaptar a cerimônia do chá
aos preceitos japoneses, pois elaborou as normas de sua regulamentação baseadas
no código moral e de conduta dos samurais e nas regras de etiqueta exigidas
durante as refeições dos monges zen-budistas.
E ainda com a influência do zen-budismo é possível identificar a propagação
de austeridade e simplicidade aplicadas ao chá, preconizando um novo tipo de
cerimônia. Onde o trabalho de preparação de chá pelo anfitrião representava o
desejo de executar o serviço mais humilde perante aos convidados. Este novo estilo,
chamado de wabi, também é atribuído à Shukô que preconizava o chá como uma
bebida que deveria ir além das funções medicinais e de entretenimento, deveria ser
uma via de iluminação (SEN, 1981).
No entanto, a elaboração da estrutura definitiva de como é a cerimônia do chá
até os dias atuais, é atribuída a Sen-no-Rikyu (1522-1591). Num período
conturbado, quando havia muitas guerras e a tentativa de unificar o país, Rikyu
reiterou o conceito do belo na cerimônia do chá associado ao despojamento e à
21
simplicidade (wabi), qualidades que predominavam no gosto japonês da época
voltado ao essencial.
Figura 3 - Sen-no-Rikyu
Fonte: http://www.newworldencyclopedia.org/entry/Sen_no_Rikyu
Baseado nestas características, este mestre criou o modelo da cabana de
chá, o chashitsu, que passa a imagem da simplicidade de uma cabana de
camponeses. Junto ao chashitsu, também foi estruturado um jardim lembrando uma
paisagem montanhosa, favorecendo a meditação ao longo da cerimônia. Ainda toda
a decoração foi planejada a causar a impressão de um ambiente mais sóbrio para a
realização da cerimônia. Estes elementos tais como foram descritos são
fundamentais e persistem atualmente (SEN, 1981).
Rikyu pregava que o “Caminho do Chá” deveria se sustentar em quatro
pilares: a Harmonia, o Respeito, a Pureza e a Tranqüilidade. Estes quatro princípios
formam atualmente o fundamento filosófico do Chanoyu.
O “homem de chá” (chajin) deve saber criar na sala de chá, através
do rígido ritual e de sua participação total, a atmosfera adequada
para que esses princípios sejam sentidos e vividos intensamente, por
um momento, único e irrepetível, por todas as pessoas participantes
da Cerimônia (SEN, 1981, p. 17).
22
Após Sen-no-Rikyu, sucederam diferentes mestres. Posteriormente seu neto
Sotan e seus três filhos difundiram o estilo wabi (que prega a simplicidade) e no
século XVII, os bisnetos do grão-mestre fundaram cada um a sua própria escola com
estilos distintos: Omotesenke, Mushanokojisenke e Urasenke. Esta última será a
referência para o desenvolvimento deste trabalho, tanto na questão da pesquisa
bibliográfica quanto à definição do objeto de estudo (participação em curso de
cerimônia do chá e entrevistas dos praticantes).
Apenas no final do século XIX, esta arte que era exclusivamente masculina
sofreu uma adaptação. Foi permitido às mulheres praticarem oficialmente e
abertamente a cerimônia do chá, sendo possível obter certificados e até tornarem-se
professoras (ROCHA, 1996).
Posteriormente, o ensino do Chanoyu foi inserido no currículo das escolas
femininas e popularizou-se, sendo ensinado também em templos budistas. Com isso
o ensino e a prática da cerimônia do chá pôde finalmente alcançar todas as classes
sociais, diferente da época de sua origem, quando era voltada à elite japonesa.
O interesse pela cerimônia do chá no ocidente foi despertado quando Kazuko
Okakura publicou nos Estados Unidos em 1906 o seu livro “The Book of Tea”. Além
de ser provavelmente o primeiro texto a ser escrito no idioma inglês que faz
referência exclusiva à cerimônia do chá, também era um dos poucos livros a abordar
o modo de vida e o pensamento do povo japonês de maneira mais aprofundada.
Atualmente o décimo quinto descendente de Rikyu e grão-mestre do Centro
Urasenke, Sen-Shoshitsu XV, se dedica a difundir os princípios da cerimônia do chá
fora do Japão. A sua principal crença é a possibilidade de mesmo inserido no mundo
moderno, o homem é capaz de encontrar “a paz numa xícara de chá”.
O ritual, a concentração, o desenvolvimento rítmico de uma
Cerimônia do chá levam à meditação, à tranqüilidade, à paz interior,
tão almejadas e tão dificilmente alcançadas no mundo agitado de
hoje (SEN, 1981, p. 19).
Segundo Rocha (1996), a cerimônia do chá no Japão passou por uma
evolução ao longo do tempo, refletindo os valores culturais de cada época. A
princípio, usado como medicamento, o chá passou a ter um significado cerimonial. E
de arte destinada apenas à elite e exclusivamente masculina no século XVI, se
transformou em arte das massas e numerosamente feminina no século XX. Os
homens usaram o Chanoyu com o objetivo de fazer política e ascender socialmente
23
enquanto as mulheres desde o século passado o usam para o aprendizado da
etiqueta feminina. E de arte essencialmente religiosa e ritualística acabou assumindo
a forma de transmissão de valores culturais genuinamente japoneses e geralmente
laicos.
A cada nova adaptação – que ocorreu como resposta dinâmica às
mudanças na sociedade japonesa – houve uma tentativa de mantê-lo
no centro da vida cultural japonesa. Devido a estes inúmeros ajustes,
o chanoyu continua ainda hoje sendo visto pelos japoneses como o
principal veículo de transmissão de cultura e valores tradicionais de
seu país (ROCHA, 1996, p.6).
Okakura (2008) buscou transmitir a essência do Chanoyu como forma da vida
cultural japonesa, demonstrando que a cerimônia do chá poderia ser vista como uma
síntese das artes tradicionais. Durante o período medieval, após a queda da casa
imperial com o processo de unificação do país, os mestres de chá eram
considerados os guardiões dos tesouros históricos.
O Chanoyu poderia ser considerado como a arte aglutinadora dos aspectos
mais significativos da vida e da cultura japonesa. O seu estudo incorpora as
diferentes artes tradicionais japonesas: arquitetura, paisagismo, pintura, caligrafia,
arranjo floral, cerâmica, gastronomia, vestimenta, etc.
Devido a todas estas adaptações em sua forma e no público a quem se
destina, além de ser uma arte dinâmica, a cerimônia do chá possui uma forte
simbologia. O Chanoyu, portanto, pode ser o representante legítimo do povo japonês
(ROCHA, 1996).
Em virtude desta qualidade plástica, o chanoyu se naturalizou e
ainda hoje se coloca como um nicho, um lugar privilegiado, no qual
aos olhos do japonês o “verdadeiro espírito japonês”, seu passado
puro, habita intacto. [...] Se os japoneses de hoje ainda vêem o
chanoyu como incorporador e transmissor da “alma japonesa”,
também para os imigrantes japoneses e seus descendentes no Brasil
seu prestígio é inegável (ROCHA, 1996. p.42).
1.3 A cerimônia do chá: o ritual e seus elementos
Para a cerimônia do chá existem dois protagonistas principais: o anfitrião e o
convidado. Caso haja mais de um convidado, há sempre um que será o primeiro ou
o principal em relação aos outros.
24
Normalmente o Chanoyu é planejado e executado para que seja um conjunto
de acontecimentos diferentes do cotidiano, ou seja, eles convergem para um
momento único tanto para o anfitrião como para os convidados. A seqüência de
movimentos (Temae), os utensílios específicos (Dogu) e a sala de chá (Chashitsu)
são planejados em detalhes e esses três itens são os elementos essenciais do
Chanoyu.
O diálogo entre o anfitrião e o convidado, a atenção e o cuidado são
propósitos do cotidiano que foram convertidos em temae, ou seja, os
movimentos foram adequados ao princípio da naturalidade. Portanto,
podemos dizer que o Chanoyu se constitui tendo como premissa a
aquisição do pleno domínio do modo do procedimento do chá
(CENTRO DE CHADO URASENKE DO BRASIL, 1995, P. 29).
Segundo o centro de Chado Urasenke do Brasil (1995), o Chanoyu está
baseado em quatro princípios elementares:
- Harmonia (Wa): faz referência à comunhão entre o anfitrião e o convidado. O
ambiente e os movimentos (gestual) planejados são fundamentais neste princípio.
- Respeito (Kei): princípio fundamentado no respeito aos convidados e aos objetos
escolhidos especialmente para a cerimônia.
- Pureza (Sei): série de atos e gestos pra purificar o ambiente e os objetos.
- Tranqüilidade (Jaku): estado necessário para a devida concentração e a sucessão
correta de atos e gestos durante a cerimônia.
Também foram criadas sete normas para que a cerimônia transcorra bem:
- preparar o chá de maneira correta e que seja saboroso, seguindo temperatura e
qualidade adequadas da água, além do tipo e qualidade do chá;
- colocar o carvão corretamente, de maneira que favoreça o aquecimento da água;
- a flor para decorar o ambiente deve ser escolhida e colocada com o objetivo de
recriar a natureza;
- no Verão, demonstrar frescor;
- no Inverno, demonstrar calor;
- respeitar o horário marcado para o início da cerimônia, recomenda-se chegar antes
do agendado;
- sempre preocupar-se primeiro com o outro.
Os utensílios de uso específico para a cerimônia do chá podem ser apontados
na figura a seguir:
25
Figura 4 – Principais utensílios da cerimônia do chá
Fonte: Ohki (2009)
Com base na Figura 4 é possível listar os principais utensílios usados na
cerimônia do chá:
1- Chaire: recipiente para armazenar o chá;
2- Chasen: batedor de chá;
3- Chashaku: espátula para chá
4- Chashitsu: sala de chá;
5- Chawan: tigela para servir chá;
6- Futaoki: base de bambu para apoiar concha;
7- Hishaku: concha para pegar água;
8- Kama: recipiente para esquentar água;
9- Kensui: tigela para armazenar água a descartar;
10- Mizusashi: recipiente para armazenar água fria;
11- Ro: fogareiro;
12- Tatami: base do piso.
26
Os elementos do Chanoyu podem seguir três categorias distintas: a formal
(Shin), a semi-formal (Gyo) e a informal (So). Isto significa que tanto a seqüência de
procedimentos (Temae), os utensílios específicos (Dogu) e a sala de chá (Chashitsu)
seguirão a categoria adotada pelo anfitrião e pelos convidados, de acordo com a
formalidade da ocasião.
Figura 5 – planta de Chashitsu
http://en.wikipedia.org/wiki/Chashitsu
Figura 6 – parte interna da sala de chá
http://www.artsmia.org/art-of-asia/architecture/japanese-teahouse.cfm
Já a seqüência de movimentos e procedimentos para fazer e servir o chá ou
Temae pode ser de diferentes tipos. A escolha de um tipo específico também
dependerá da ocasião, não só na questão da formalidade, mas também a estação
27
do ano, relação com alguma festividade, o horário, o grau de domínio do anfitrião em
relação às técnicas necessárias para o Temae, etc.
Figura 7 - Temae
Fonte: autoria própria
Também há variações na cerimônia do chá quanto à concentração de chá,
podendo ser Fraco ou Forte. A escolha entre estas duas opções dependerá se o
Chanoyu está inserido ou não numa refeição completa, chamada Kaiseki e também
em qual momento da refeição o chá será servido.
Figura 8 - kaiseki
Fonte: autoria própria
28
O Temae é composto basicamente de seis etapas (para maiores detalhes
vide passo a passo em anexo A):
- organização dos utensílios;
- purificação dos utensílios;
- aquecimento da tigela e do batedor de chá;
- elaboração do chá;
- lavagem da tigela e batedor;
- limpeza da espátula de chá e recolocação dos utensílios.
Antes do Temae quando o chá é servido, usualmente é oferecido um doce.
Este momento também possui um ritual a ser seguido. E terminado o Temae,
portanto após o serviço e a degustação de chá, o convidado principal retribui
admirando e elogiando os utensílios de chá e o ambiente. Durante a cerimônia, tanto
o anfitrião como os convidados devem seguir as normas de etiqueta (vide anexo B).
1.4 A cerimônia do chá e a hospitalidade
A própria natureza da cerimônia do chá é um ato de hospitalidade e ela
constitui um aspecto importante e acolhedor da cultura japonesa.
Na sua estrutura, onde se prescreve uma meticulosa preparação para receber
o outro, atesta a atitude hospitaleira da cerimônia e evidencia todo o seu potencial
para uma expansão coletiva das relações sociais.
‘Respeito’ é a sinceridade do coração que nos liberta para um
relacionamento aberto com o nosso ambiente imediato, com o ser
humano e a natureza, reconhecendo a dignidade inata de cada um.
Antes de tudo, através da etiqueta do chá o ‘respeito’ dá a estrutura a
uma reunião e ordena o intercâmbio entre os participantes (Sen XV
1981, p. 25).
É importante levar em conta o caráter eminentemente simbólico de toda a
cerimônia. Se levarmos em conta que “o ritual é um sistema cultural de comunicação
simbólica. Ele é constituído de seqüências ordenadas e padronizadas de palavras e
atos, em geral expressos por múltiplos meios” (Tambiah, 1985 apud PEIRANO,
2003, p. 11). E nesse sentido, o ritual da cerimônia tem uma importância
fundamental para os imigrantes e seus descendentes, pois é uma maneira eficiente
de manter as tradições.
29
Peirano (2003, p. 10) ainda defende que o ritual hoje é “um fenômeno
especial da sociedade, que nos aponta e revela representações e valores de uma
sociedade, mas o ritual expande, ilumina e ressalta o que já é comum a um
determinado grupo”. E este pode ser utilizado como ferramenta para transmissão de
valores e conhecimentos, propícios nos momentos de conflitos e essenciais para
reproduzir as relações sociais. Portanto, segundo ele, sua prática tem a função
específica de construção e manutenção de laços sociais duradouros. A importância
dele reside no fato de ser um fenômeno de comunicação e produzir valores sociais
durante a sua performance.
Na presença do outro ser humano, estamos face a um outro mundo
interior, povoado de segredos, de memórias, de temores e de
sonhos. O mistério que próprio da subjetividade humana nunca
poderá ser possuído como coisa ou alimento, o que não significa que
não se pode (ou deve) tentar a relação com esse mistério criando
lugares de comunicação, de contato e de proximidade. (Baptista
2002, p. 157).
Quando se considera a cerimônia do chá com todos os seus aspectos
simbólicos e com todo o seu conteúdo voltado para um relacionamento privilegiado
com o ‘outro’, podemos avaliar o papel integrador que ele exerce na condição do
imigrante.
Despojado das suas condições sociais de origem, com os modos de vida
alterados, a cerimônia do chá vai dar para os descendentes e para os não
descendentes uma ligação simbólica com o Japão além de oferecer um lugar, um
espaço, ainda que pequeno, para a aproximação com os brasileiros. Os
depoimentos de vários brasileiros que frequentam o curso de cerimônia do chá
confirmam essa aproximação e acrescentam que o curso lhes permitiu uma maior
valorização da cultura japonesa. Isso aponta para a dimensão importante de
hospitalidade inerentes à cerimônia.
Quando se toma a hospitalidade como um encontro que se caracteriza pelo
acolhimento, é importante ressaltar que nesse aspecto a hospitalidade é vista
enquanto dimensão da dádiva. Ao vincular a dimensão social da dádiva ao conceito
da dadiva amplia-se o valor social dessa prática porque é ela que fundamenta a
sociabilidade. Como ressalta Baptista (2002, p.159) “radicada nesses pressupostos
antropológicos, a hospitalidade surge como um acontecimento ético por excelência,
devendo dizer respeito a todas as práticas de acolhimento.
30
Uma vez que o aspecto mais significativo da cerimônia do chá é justamente o
que se refere à problemática relacional do imigrante é a sua dimensão acolhedora e
hospitaleira, portanto ao associá-lo ao conceito da dádiva como base da
sociabilidade pode-se avaliar o verdadeiro valor dessa cerimônia . Os estudos que
focalizam
a hospitalidade no sentido maussiano da dádiva, convergem para as
mesmas palavras-chave: acolhimento, convivialidade, dádiva e relação com o outro.
Segundo Baptista (2002, p. 157), a hospitalidade pode ser definida “como um modo
privilegiado de encontro interpessoal marcado pela atitude de acolhimento em
relação ao outro”.
Para Bueno (2003. p. 113) “entre as várias tentativas de definí-la
[hospitalidade], o ponto comum seria a abertura para o acolhimento, e
esse
acolhimento já foi um dever sagrado, moral e social e sempre teve aspectos
diversos, porisso ela defende que “as trocas que se estabelecem nessas relações
ocorrem em uma multiplicidade de formas, práticas e estilos de hospitalidade,
formando um campo privilegiado para o entendimento das relações socioculturais”.
Quanto se fala em hospitalidade vinculada ao conceito da dádiva é em
referência à Teoria da Dadiva elabora Marcel Mauss, que através de pesquisas junto
a populações classificadas como arcaicas, analisou as relações humanas numa
dimensão que ele próprio define como dádiva. Segundo ele seria através das
relações de dar, o receber e o retribuir os indivíduos de uma sociedade criariam
vínculos sociais que seria o alicerce da sociabilidade. Ele esclarece que as trocas e
os contratos estabelecidos entre os indivíduos e as comunidades não são
exatamente de bens materiais.
Nas economias e nos direitos que precederam os nossos, não se
observam nunca, por assim dizer, simples trocas de bens, de
riquezas e de produtos no decurso de um mercado passado entre os
indivíduos. Em primeiro lugar, não se trata de indivíduos, trata-se de
coletividade que se obrigam mutuamente, trocam e contratam; [...] o
que eles trocam não são exclusivamente bens e riquezas, móveis e
imóveis, coisas úteis economicamente. São antes de mais,
amabilidade, festins, ritos, serviços militares, mulheres, crianças,
danças, festas, feiras (MAUSS, 2001, p. 55).
Já Godbout (1999), analisa as relações humanas também sob a dimensão da
dádiva, baseado nos estudos de Mauss, mas na ótica do mundo contemporâneo.
Seu primeiro questionamento é sobre a existência da dádiva na atualidade, algo tão
evidente nas populações pesquisadas por Mauss. Ele avalia que mesmo em tempos
31
atuais, quando os vínculos humanos são cada vez mais difíceis e complexos, a
dádiva permanece indo além do simples pólo egoísmo e altruísmo.
[..] a dádiva serve, antes de mais nada, para estabelecer relações. E
uma relação sem esperança de retorno (por parte daquele a quem
damos ou de outra pessoa que o venha a substituir), uma relação de
sentido único, gratuita nesse sentido e sem motivo, não seria uma
relação. [...] é preciso pensar na dádiva não como uma série de atos
unilaterais e descontínuos, mas como relação (GODBOUT, 1999, p.
16).
No caso da cerimônia do chá, é clara a relação humana baseada na
hospitalidade, na dádiva e nas questões relacionadas e elas: o acolhimento e a
convivialidade, principalmente no vínculo estabelecido desde o princípio (já com o
convite) entre o anfitrião e o convidado. Como o Chanoyu se baseia no ritual de
servir o chá todo planejado pelo anfitrião para seus convidados, pode-se dizer que a
cerimônia do chá é um exemplo de hospitalidade, no âmbito da dádiva. As etapas
descritas anteriormente neste trabalho deixam evidentes que todos os elementos
(ambiente, utensílios, gestos/ritual) que compõem a cerimônia foram estabelecidos
para servir o outro. Durante a cerimônia em si e principalmente ao final, os
convidados agradecem este momento específico e elogiam o cuidado e a atenção
do anfitrião, demonstrando a dádiva e seus três pilares (dar, receber e retribuir) tão
defendidos por diferentes pesquisadores
Os próprios praticantes do Chanoyu defendem que uma das principais bases
da cerimônia é a relação do anfitrião-convidado, pois a ética da cerimônia enfatiza o
respeito mútuo, a sinceridade, a confiança e o senso de humildade que faz
desaparecer toda diferença social. É uma atitude especial de respeito que se
estende aos objetos e às palavras
Além dos gestos, também é necessário relacionar a importância das palavras
durante a cerimônia do chá. À medida que se transcorre o serviço de chá e sua
degustação, o anfitrião e os convidados seguem uma etiqueta, gerando um
desencadeamento de palavras e frases para demonstrar o prazer de servir por parte
do anfitrião e também uma série de agradecimentos por parte dos convidados.
Uma parcela não negligenciável de nossas trocas de palavras
consiste em dons rituais de pequenos presentes verbais anódinos e
perfeitamente padronizados. [...] Como os bens preciosos nas
sociedades arcaicas, a circulação da palavra permite estabelecer
relações de aliança e de afinidade. (CAILLÉ, 2002, p.100)
32
Assim a circulação das palavras nos rituais vai permitir as relações de aliança
e de afinidade. Caillé (2002, p.101) diz que ao refletirmos nisso, é bem difícil não
percebermos tal procedimento com perfeito análogo das trocas cerimoniais de
Marcel Mauss.
33
Capítulo 2 A IMIGRAÇÃO JAPONESA
2.1 O início da imigração japonesa no Brasil e a situação no Japão
No século XIX, com a abertura ao “mundo exterior” adotada no período Meiji,
houve uma emigração em massa de japoneses principalmente das camadas mais
pobre da população, rumo a Europa e a América. Nessa época o Japão passava por
uma época conturbada, repleta de conflitos e guerras, deixando o país instável
economicamente. A elite japonesa se aproveitava da situação para aumentar ainda
mais seus patrimônios e os camponeses se desdobravam para sobreviver, enviando
os seus filhos para trabalhar na cidade. É neste contexto que muitos japoneses
saem do seu país e se aventuram para outros países.
O Brasil foi o principal destino dessa imigração japonesa. Segundo Sakurai
(2007) 250 mil japoneses entre os anos 1908 e o final dos anos 1970 chegaram ao
Brasil num fluxo contínuo, excetuando apenas no período da Segunda Guerra
Mundial (entre 1942 e 1945).
A peculiaridade importante da imigração para o Brasil foi que vieram famílias
inteiras. Esse fato beneficiou sua inserção e sua adaptação. Essa característica foi
exigência feita pelo governo do Estado de São Paulo que dessa forma haveria
menor risco de fugas.
Essa característica foi decisiva para a evolução do grupo japonês,
garantindo crescimento populacional normal, continuidade das
gerações e uma relativa estabilidade da vida familial; transmissão de
cultura devido à presença de geração intermediária. (Saito, 1980
apud Uehara, 2008, p.82)
Uehara (2008) vai mostrar que, se por um lado essas ações favoreciam a
manutenção da cultura japonesa, por outro lado, criaram um ambiente de baixa
integração na sociedade brasileira e, por dificultar a comunicação, contribuíram para
uma forte resistência aos japoneses.
No contrato de imigração havia a exigência de que pelo menos três membros
da família fossem aptos para o trabalho e os outros membros não eram impedidos
de acompanhar. Um traço marcante da imigração japonesa é que, de acordo com o
34
Código Civil da era Meiji, os segundo e terceiros filhos não tinham direito à herança.
Isso criou uma massa de cidadãos deslocados do processo produtivo e para eles a
imigração surgia como possibilidade de reabilitação econômica.
Ainda segundo Sakurai (2007) os japoneses começaram a vir em caráter
experimental e havia nessa imigração um interesse mútuo. O Japão queria diminuir
sua taxa demográfica e diminuir os protestos populares por condições de trabalho e
o Brasil estava interessado em exportar café para o Japão, além disso, a
modernização da administração das fazendas, impulsionada pela abolição da
escravatura exigia a introdução de nova força de trabalho.
O sonho dos japoneses era voltar ao Japão com dinheiro para recomeçar
uma vida sem problemas. Uehara (2008) afirma que a maioria dos imigrantes, na
verdade quase a totalidade dos japoneses que chegou ao Brasil no período que
antecedeu a Segunda Guerra mundial tinha como objetivo economizar dinheiro para
regressar ao Japão. Devido a esse objetivo, diz Uehara, havia a preocupação de
preservar as raízes culturais nas terras brasileiras. Mas a realidade era muito
diferente da esperada. Assim, a “identidade dos descendentes de japoneses no
Brasil apresenta uma complexa combinação entre ser brasileiro e ser japonês, com
nuances e dimensões variadas de influências das duas culturas” (UEHARA, 2008,
p.177).
Além disso, como mostra Sakurai (2007), 50% dos imigrantes eram de origem
urbana, fato que aumentou ainda mais as dificuldades de adaptação dos japoneses
em lavouras brasileiras.
A verdade é que a situação econômica do imigrante não era satisfatória.
Depois de dois meses da chegada no Brasil, os imigrantes japoneses apresentavam
as seguintes preocupações apontadas por Rezende:
1- Chegaram ao Brasil quando a metade da colheita do café já havia
sido feita, o ganho também não chegava para suprir as necessidades
da família e muito menos para pagar os empréstimos feitos no
Japão, a juros elevadíssimos, para poder imigrar.
2- Dificuldades de adaptação à língua, ao clima e à culinária [...]
3- O sistema quase de escravidão existente na maioria das fazendas
[...], acordando-os às 4 horas da manhã com o bater do sino. O
trabalho se estendia até o por do sol...
4- A escolha dos imigrantes. Na verdade, nem todos eram
agricultores[...] não afeitos ao trabalho no campo (Rezende apud
Uehara, 2008, p. 186).
35
As diferenças e os contrastes entre as duas culturas eram muito acentuados e
isso vai exigir sacrifícios enormes para adaptarem-se. O clima, as casas onde foram
instaladas, o tipo de trabalho foi uma experiência impactante muito bem descrito por
Sakurai.
A adaptação no novo lar foi difícil para todos. A alimentação teve que
ser adaptada. A língua aprendida. Os hábitos do dia-a-dia, como o do
banho diário, por exemplo, tiveram que ser adaptados. Para ter carne
e gordura, os imigrantes se viram obrigados a passar po cima de
tabus seculares ao matar porcos, o que no Japão era considerado
tarefa impura, limitada aos marginalizados burakumin. O costume
brasileiro de comer feijão salgado contrastava com o feijão doce
apreciado no Japão; o arroz temperado com gordura de porco e sal
estava muito longe da receita japonesa; faltavam várias verduras,
legumes, peixes e algas presentes nas refeições diárias que os
japoneses deixavam para trás (SAKURAI, 2007, p. 246)
Sakurai (2007) mostra que os sacrifícios foram, evidentemente muito
além dos padrões alimentares, para enfrentarem o trabalho nos cafezais. Além da
dificuldade em enfrentar o calor as mulheres tiveram que esquecer do padrão de
beleza da pele clara, pois o trabalho sob o sol as deixava bronzeadas. E tiveram,
também, abandonar a melancolia e o desespero para trabalhar duro e pagar as
dívidas e nutrir a esperança de melhorar de vida. Mas havia pessoas que queriam
deixar o Brasil.
Em seu livro Romanceiro da imigração japonesa, Célia Sakurai (1993) diz que
há na tradição japonesa o costume de marcar através de inscrições, monumentos,
festas e comemorações todas as datas e acontecimentos que são relevantes. E os
imigrantes japoneses mantiveram essa tradição no Brasil. Por isso, desde 1908 a
história da imigração tem sido escrita por várias pessoas, para que todos os
aspectos dessa história fiquem documentados. Mas um aspecto interessante que
Sakurai (1993) documenta é o conteúdo das publicações em forma de biografias
romanceadas e mesmo de romances. E é nessas publicações que mostra-se a
necessidade que esses imigrantes tinham em preservar o máximo possível de seus
costumes, o esforço para continuar japonês mesmo que, concretamente, eles
percebesses as dificuldades. Nas biografias romanceadas, os sacrifícios da primeira
geração de imigrantes são acentuados e devem servir de exemplo e estímulo.
Sakurai (1993) diz que é importante entender a idéia de gambarê (sacrifício) que foi
fundamental para motivar a adaptação dos japoneses no Brasil. Ela esclarece que é
justamente quando o desânimo tomava conta dos imigrantes é que o gambarê
36
surgia, simbolizando o esforço dos japoneses em superar as diferenças e as
dificuldades através do trabalho e dos estudos. Mesmo que os estudos
representassem não terem filhos inteiramente brasileiros. Na verdade, Hasimoto
(2008) também testemunha esse esforço de superação dizendo que “passados os
momentos de angústia e desespero, o fato de dedicar-se ao trabalho e ser
reconhecido pelo empenho tornou-se uma das formas de sentir-se aceito social e
internamente (HASHIMOTO, 2008, p.118). ”
Para Fausto (1991), o número de estudos sobre a imigração em São Paulo é
limitado, principalmente no que se refere a alguns temas nucleares na historiografia
da imigração, tais como a mobilidade social e a integração sócio-cultural e política.
Freitas (2002) também afirma que o estudo da imigração em São Paulo
inserido na historiografia brasileira, é de extrema importância e deve ser mais
explorado. Em seu artigo, descreve a situação dos trabalhos existentes.
Por um lado, há o problema das fontes, que quando existentes, são
esparsas, dispersas em diferentes órgãos públicos, descontínuas,
quando não compostas de dados que ainda não foram totalmente
processados. Por outro lado, existe uma grande concentração de
trabalhos sobre a área rural, onde é dado maior destaque à transição
das relações de trabalho, à ascensão da economia cafeeira, à queda
da monarquia e ao advento da república. Em outros termos, os
estudos já realizados atribuíram maior importância à transição do
trabalho escravo para o trabalho livre, quer numa linha econômica,
quer demográfica. (FREITAS, 2002, p. 113)
Freitas (2002) ainda comenta especificamente que o fluxo imigratório de
japoneses para o Brasil apesar de intenso durante os anos 20 e posteriormente o
fluxo migratório para São Paulo, são questões pouco exploradas.
Em alguns estudos, como de Sakurai (2008), há levantamentos sobre a
ocupação de novos territórios paulistas para os japoneses como a região do litoral
sul, a partir de Santos em direção ao Vale do Paraíba.
O resultado dessa fase pode ser avaliado pela mudança no perfil da
produção agrícola da época, sobretudo em São Paulo. Os imigrantes
japoneses colocaram no mercado novos produtos cultivados em
escala comercial, [...] como arroz, batata, chá e banana, destacaramse entre os que, vindos das terras cultivadas pelos japoneses,
passaram a ser vendidas nos mercados. [...] os japoneses
começaram a ganhar visibilidade pública por sua produção agrícola
37
favorecida pelas condições daquele momento histórico. Com a
mudança na estrutura fundiária e o aparecimento de médias e
pequenas propriedades, quebrou-se o monopólio do café em São
Paulo em favor da policultura pra fins comerciais. (SAKURAI, 2008,
p. 250)
.Assim, como salientou Sakurai, sua produção agrícola ganhou visibilidade e
começou-se a falar sobre sua vocação agrícola. Essa vocação vai se expandir com a
colocação no mercado de produtos avícolas – carne de frango e ovos.
Outra experiência inovadora dos imigrantes japoneses foram as “colônias
dirigidas”. Na realidade essas colônias eram planejadas no Japão de maneira a
facilitar o envio de colonos-proprietários, ou seja, os imigrantes interessados
compravam lotes de terras brasileiras (que já haviam sido compradas pelo governo
japonês).
Na verdade, esses imigrantes que vieram através desse sistema, não
encontravam o que havia sido prometido e só foi com muito trabalho e com muita
determinação que essas colônias ganharam uma infraestrutura e uma organização
que destoava das propriedades vizinhas.
Os japoneses se beneficiaram das formas de proteção ao imigrante elaborado
pelo governo japonês. Essas políticas protetoras não deram certo nos Estados
Unidos que logo colocaram obstáculos à imigração de asiáticos. Mas no Brasil essas
medidas foram importantes e fizeram a diferença.
Com essa política o governo favoreceu e protegeu os imigrantes além de
viabilizar a migração através de subsídios. Essa rede criada pelo governo japonês
para dar apoio ao imigrante se estendia além das condições econômicas até aos
aspectos de saúde e educação.
Com relação à saúde foi necessária uma intervenção organizada. Muitos
japoneses morreram de doenças tropicais que eram desconhecidas por eles por isso
foram organizados livretos para orientar sobre causa, sintomas e tratamentos.
Organizaram, também, caravanas de médicos para cuidar dos doentes e caixas de
medicamentos foram distribuídas nas associações.
Para dar apoio à educação o governo japonês mandava livros didáticos e
enviava professores que estudaram também em escolas brasileiras para serem
38
bilíngues e exercerem melhor suas funções. A intenção desses imigrantes era voltar
para o Japão daí o cuidado em manter a língua e as tradições.
Mas as aulas de educação moral e cívica chamaram a atenção das
autoridades brasileiras pela ênfase no nacionalismo e no militarismo. Isso, aliado ao
sucesso dos japoneses provoca receios na política brasileira. Temem um
expansionismo justamente devido a essa rede criada para dar apoio à saúde e a
educação. Com isso, em 1934, o governo vai restringir a entrada desses imigrantes
estabelecendo cotas para o seu ingresso. Mas apesar disso as discriminações foram
tênues.
O governo nacionalista de Vargas vai limitar bastante as atividades dos
japoneses e com a declaração de guerra ao Japão em 1942 muitos direitos dos
japoneses e descendentes foram cerceados. Mas tudo se normalizou com o fim da
guerra.
Sakurai (2008) relata que aos poucos se distanciava o sonho de voltar para o
Japão e nesse momento os japoneses começaram a criar no Brasil redes de
sociabilidade através de associações. Essas associações compreendiam escolas,
ligas esportivas e espaços de lazer. Havia, no entanto escolas de língua japonesa
pois embora distante, o sonho do retorno ainda era meta de muitas famílias. As
mulheres também se organizavam e, entre outras atividades, cuidavam dos lanches
em festas e eventos. Jovens e idosos também se organizavam para diferentes
atividades.
De diversas maneiras, os imigrantes buscavam oportunidades de encontro,
bem como formas de fazer amigos, de conhecer outros japoneses com quem
estabelecer vínculos, arrumar casamentos e fazer negócios.
Shioda (2008) diz que entre 1943 e 1952, justamente no período da Segunda
Guerra Mundial, foi o momento em que a ideia de volta ao Japão foi substituída pela
ideia de fixação definitiva e diz que “a lealdade para com a pátria e o Imperador
estava mais voltada agora para o país adotivo (SHIODA, 2008, p.208).”
O período de restrições contra a imigração japonesa perdura
até o final dos anos 40 e já nos primeiros anos da década de 50 as
tensões bilaterais reduzem de maneira significativa e há a retomada
das relações Brasil-Japão e foi permitida a volta das publicações em
japonês. (Saito 1980, p.86 apud Uehara, 2008, p.188)
39
A partir daí a visão dos imigrantes passa a focar na educação como o
caminho para a ascensão. Nesse momento começaram, também, as ações de
empreendedorismo buscando adquirir terras no interior do Estado de São Paulo com
o objetivo de ser tornarem agricultores independentes.
E, num segundo momento, alguns imigrantes já viviam em zona urbana como
garçons, copeiros e cozinheiros e Uehara (2008, p. 187) diz que eles eram
“disputadíssimos pela fama de serem honestos, sérios, cumpridores de sua
obrigação e, sobretudo por terem educação e cultura”.
Após o sucesso econômico na agricultura, os imigrantes japoneses
começaram a diversificar suas atividades nas cidades entrando para o comércio.
Assim, diz Uehara (2008, p.187) os imigrantes “não só tinham encontrado uma nova
inserção econômica como também já tinham incorporado alguns hábitos brasileiros,
por exemplo, já consumiam café e comida mais gordurosa e passaram a dormir em
camas”. O autor também aponta para o fato de que as relações entre Brasil e Japão
se intensificaram – a presença de empresas e de capital japonês aumentaram de tal
maneira que em 1960 já haviam 35 empresas japonesas no Brasil. Além disso, o
autor mostra que a até o começo da década de 1950 a renda per capita no Japão
era inferior a US$ 180 e no Brasil era acima de US$ 250 e isso estimulou a retomada
da imigração ao Brasil.
Esses aspectos contribuem para dar aos imigrantes japoneses fossem
valorizados. Uehara aponta dois outros fatores que influenciaram na nova imagem:
1- Os Estados Unidos modificarem sua relação com o Japão no
após Guerra, particularmente, a partir do momento em que as forças
comunistas, liderada por Mao Tse Tung, passam a ganhar espaço
político na China
2- A rápida recuperação da economia japonesa, nesse mesmo
período, gerou admiração nos brasileiros e maior aceitação de
influências culturais japonesas. (UEHARA, 2008, p. 189)
Faz parte dos fatores que contribuíram para a nova imagem dos imigrantes
japoneses o fato de os produtos japoneses eram melhores que os de fabricação
nacional, isto contribuiu para que os brasileiros valorizassem os nipo-brasileiros.
Uehara sintetiza muito bem o caminho conciliatório das relações dos imigrantes
japoneses no processo de integração:
40
No início da imigração japonesa no Brasil nem os imigrantes nem os
brasileiros pensavam numa integração. Os primeiros planejavam
regressar à terra do ‘Sol Nascente’, já os segundos temiam a
inclusão no seio da sociedade brasileira por problemas que
poderiam decorrer dessa tentativa, por causa das diferenças
culturais ou mesmo até por um temor de invasão japonesa. No
entanto, com o passar do tempo, ambas as perspectivas vão se
alterando conduzindo a inserção diferenciada”. (UEHARA, 2008,
p.190)
Em 2008, ao completar cem anos do processo migratório, a população dos
nikkeis foi estimada em torno de 1,5 milhões e segundo Uehara (1979, p.177) a
identidade dos descendentes ainda “apresenta uma complexa combinação entre ser
brasileiro e ser japonês, com nuances e dimensões variadas de influência das duas
culturas”. Por isso diz ele, que no Brasil um Nikkei pode se sentir japonês e que
depois de um período de vivencia no Japão passa a se sentir brasileiro.
2.2 A imigração japonesa: seu acolhimento e desenraizamento
Como vimos, o início da imigração japonesa representou um período difícil e
árduo devido ao trabalho duro realizado em condições adversas da adaptação ao
clima e à comida. A tudo isso se soma a condição psicológica de desânimo pela
frustação das esperanças que traziam ao chegar no Brasil.
Tiveram também que enfrentar doenças desconhecidas, acidentes de
trabalho e as memórias escritas sobre aquela época narram as lutas e os sacrifícios
desses primeiros imigrantes.
Depois de alguns anos, os imigrantes já apresentavam sinais de melhoras
que
mostravam
que
eles
estavam
enfrentando
os
desafios
e
estavam,
gradativamente, mudando o seu perfil.
Começaram a colocar novos produtos no mercado. Começaram, também,
adquirir pequenas propriedades nas quais cultivavam vários produtos entre os quais,
o algodão.
Devido a todos esses aspectos, as relações com os brasileiros começam a
mudar. Conhecidos pelo seu relacionamento distanciado com os brasileiros – ‘como
óleo que não se mistura’ como se dizia na época – começam a se impor no
mercado, introduzindo novos itens.
41
A situação de imigração requer, evidentemente, mecanismos de aceitação da
diferença de ambas as partes.
O imigrante, como bem mostra Raffestin (1997), ao se mudarem para outro
país, tem que enfrentar duas barreiras. A primeira é a barreira oficial, visível e
concreta das políticas imigratórias e segunda. É uma barreira abstrata constituída
pela aceitação ou rejeição dos membros da outra cultura. Segundo ele, todo país
cria, ao delimitar suas fronteiras, uma descontinuidade espacial e cultural com
relação aos outros países. E todo ato preliminar de construção de um país
pressupõe a instauração de limites ou fronteiras que para serem ultrapassados
requerem uma autorização. Portanto, todo imigrante para adentrar na interioridade
de um país deve se submeter a um processo de autorização ou de um convite.
No caso da imigração japonesa, o processo de recepção não foi difícil porque
se deu graças a um acordo mútuo e era de interesse de ambas as partes. Como já
foi dito, o Japão passava por uma série de dificuldades e não conseguia garantir
emprego para a sua inadequada densidade demográfica.
Mas como mostra Raffestin (1997), o imigrante precisa também ultrapassar a
barreira imaterial e aí estamos lidando com as características e os limites impostos
pelos padrões culturais. Ele usa o casal Hestia e Hermes da mitologia grega para
apontar para as características desse movimento. Hestia é a deusa do lar, do
interior, fechada sobre si mesmo e Hermes representa as mudanças de estado, as
transições, os contatos entre elementos estrangeiros. Nesse caso, a hospitalidade é
que vai criar condições de articulação entre a mobilidade e a imobilidade, entre o
sedentarismo e o nomadismo.
Mas nesse sentido ele aponta para o fato de que é absolutamente necessário
repensar a hospitalidade para além daquele que é recebido, embora esta seja sua
identificação fundamental. Na verdade, o que está em jogo fica evidente na própria
raiz da palavra hospitalidade – ‘hostia’ que é a vítima que deve abrandar a cólera
dos deuses. É hostil aquele que está em relação de apaziguamento. Assim, vemos
que a hospitalidade é fundada sobre a ideia de que o homem está ligado ao outro
numa relação de valor recíproco pela obrigação de recompensar a prestação, o
serviço do qual foi beneficiário.
A hospitalidade, portanto, como não poderia deixar de ser, está no centro das
relações de imigração. E o grande problema que se coloca para a hospitalidade na
questão da imigração é o fenômeno da tradução da diferença, pois é justamente
42
essa ‘tradução’ que vai permitir a convivialidade ou vai determinar uma rejeição, uma
recusa da diferença que pode levar ao conflito.
No caso da imigração japonesa este aspecto se mostrou bastante complexo
pela dificuldade em se fazer uma adequada ‘tradução’ das diferenças. Vimos que,
num primeiro momento, a imigração japonesa é de interesse de ambos os países
por isso o imigrante não teve nenhuma dificuldade em adentrar nas fronteias
brasileira, ao contrário, na realidade recebeu amplas facilidades nesse processo.
Mas quando se tratou da fronteira imaterial, cuja travessia depende não mais de
uma questão de autorização material e se trata de uma aceitação intencional e
voluntária, a situação foi outra.
Nesse caso, o ponto de aceitação mútua levou certo tempo para ambas as
partes. A conduta coletiva do grupo de imigrantes era pouco receptiva. Fechados,
arredios pela dificuldade em se comunicar, os imigrantes desenvolveram
gradativamente e com muitos sacrifícios, mecanismos de adaptação criando novos
elementos de convivialidade e novos códigos de conduta que passaram a fazer
parte do novo modo de viver dos imigrantes e foi, aos poucos, favorecendo a
convivência com a sociedade local.
Como nos mostra nos mostra Hashimoto (2008, p.118) passados os
momentos de angústia e desespero, o fato de dedicar-se ao trabalho e ser
reconhecido pelo empenho tornou-se uma das formas de sentir-se aceito social e
internamente.
A política japonesa de imigração se mostrou eficaz. Sakurai mostra quanto
essa política foi boa:
Para os imigrantes, significou a abertura de oportunidades. Ao seguir
a trajetória da maioria das famílias imigrantes japonesas, percebe-se
o quanto essa etapa é importante, especialmente no sentido de
mudar a maneira de encarar o Brasil, que passa a ser visto como um
local de fixação, para muitos encarado como definitivo. O sonho do
retorno passa para um segundo plano, quando se vislumbra que as
possibilidades de ascenção social no Brasil são superiores às
oferecidas no Japão. (SAKURAI, 1999, p. 233)
Embora a época da Segunda Guerra Mundial quando o Brasil se alinha contra
o Japão, venha a romper com o esquema de imigração tutelada, e imponha aos
imigrantes um período de inúmeras restrições que vão impactar o processo de
ascensão social, essas dificuldades logo serão superadas. E, no após guerra, o
43
imigrante japonês volta a se encaixar no modelo de ‘bom imigrante’ e o
estranhamento inicial dá lugar a uma convivência respeitosa que vai aos poucos se
estabilizando.
Quando se fala de hospitalidade deve-se lembrar que sua característica
essencial é, como mostra Godbout (1997), ser um encontro onde os protagonistas
não tem o mesmo status e no qual ela confere papéis bem identificados e diferentes.
Ele mostra que a hospitalidade não é um partilha onde tudo pertence a todos e que
ela cria uma fronteira, cria também limites que obriga um jogo complexo de papéis.
Assim, a hospitalidade, vista como uma dimensão da dádiva, com a assimetria que
lhe é característica, comporta, consequentemente, a dimensão da retribuição. Mas a
retribuição, diz ele, não existe no caso do acolhimento ao estranho como é o caso
do imigrante. Nesse caso a retribuição se situa no que o estranho/ o imigrante
oferece quando é recebido.
Godbout (1997) ainda enumera diferentes situações ocorridas com os
imigrantes e classifica-os:
a) O imigrante econômico: o trabalhador, considerado um ‘bom imigrante’.
b) O imigrante traz sua cultura, que pode ser aceita pela sociedade
acolhedora, ou pode ser tolerada ou simplesmente não ser bem recebida.
c) O refugiado político: considerado, neste caso, como exemplo verdadeiro
de dádiva e de solidariedade. Espera-se do receptor a adesão aos valores
daquele que lhes dá acolhida.
d) A importância da contribuição do imigrante para a sociedade receptora e
este aspecto está diretamente associado à sua aceitação.
Assim, o imigrante econômico traz sua força de trabalho e nesse aspecto os
japoneses são considerados como pessoas particularmente trabalhadoras.
O importante é que o imigrante seja percebido pela sociedade receptora como
alguém que traz alguma coisa e não importa a natureza da sua contribuição.
Aquele que é recebido [...] ele dá sua presença, ele dá a si mesmo. Ele é uma
dádiva. Esta relação social que se chama de hospitalidade é sempre constituída por
esta estranha dádiva da própria pessoa que é recebida”. (Godbout, 1997, p.43)
Quanto ao processo de adaptação do imigrante, Bosi (2004, p. 317) analisa a
dificuldade do processo de desenraizamento. Para a autora, o “enraizamento é
talvez a necessidade mais importante e mais desconhecida da alma humana. O ser
44
humano tem uma raiz [..], ativa e natural na existência de uma coletividade que
conserva vivos certos tesouros do passado e certos pressentimentos do futuro”.
O encontro de culturas diferentes a do imigrante e a da sociedade receptora
é um processo difícil e complexo por ser o encontro de diferentes formas de existir.
Essa experiência se dá quase sempre em situações desvantajosas para uma das
partes. É o imigrante que chega a uma situação de submissão e a uma nova ordem
legal, é o que se submete às novas condições de vida, tão diversa daquela em que
vivera, é a dominação cultural do receptor através do predomínio econômico (BOSI,
2004).
Como vimos, os imigrantes japoneses passam por todas as dificuldades
apontadas anteriormente. Desde o idioma a alimentação, passando por hábitos de
higiene, a adaptação e o processo de desenraizamento dos japoneses foi
extremamente difícil.
Apesar do processo de adaptação, tornou-se essencial para a sobrevivência
destes imigrantes a preservação de alguns costumes e padrões japoneses. Mesmo
com muito sacrifício, eles conseguiram manter algumas tradições, como a cerimônia
do chá ou Chanoyu, que é uma prática que mostra bem a essência da cultura
japonesa.
Ao trazer para o Brasil essa prática, ela vai ser, além de uma das formas de
nutrir e reforçar a identidade dos imigrantes e proporcionar-lhes momentos de
compartilhamento dessa identidade, vai ser também, um ponto de abertura para o
acolhimento dos brasileiros. Todos os preceitos da cerimônia do chá estão em
sintonia com as leis da hospitalidade. Sen XV diz com relação à cerimônia do chá:
Para que se crie uma atmosfera harmoniosa é indispensável que o
anfitrião e seu convidado estejam perfeitamente entrosados; que
exista um relacionamento de absoluta sinceridade e confiança
recíproca e que ambos se sintam em uníssono com a natureza.
(SEN, 1981, p.17)
Rocha (1996) diz que depois da guerra os japoneses sentiram a
necessidade de substituir a imagem belicosa do país por uma mais refinada e
filosófica e é nesse espírito que a cerimônia do chá vai ser um excelente veículo de
representação do espírito de acolhimento.
45
Em virtude desta qualidade plástica, o chanoyu se naturalizou e
ainda hoje se coloca como um nicho, um lugar privilegiado, no qual
aos olhos do japonês o ‘verdadeiro espírito japonês’ seu passado
puro, habita intacto. (ROCHA, 1996, p.42)
Assim, Rocha mostra que o chanoyu não só sobreviveu em ‘terras estranhas’
como floresceu intensificando a identidade tradicional japonesa. Diz ela (Rocha
1996, p.43): “Se os japoneses de hoje ainda vêm o chanoyu como incorporador e
transmissor da ‘alma japonesa’, também para os imigrantes japoneses e seus
descendentes no Brasil seu prestígio é inegável”
46
Capítulo 3 A CERIMÔNIA DO CHÁ E A POPULAÇÃO NIPO-BRASILEIRA
3.1 A origem do Chanoyu no Brasil
Segundo Rocha (1996), o surgimento do Chanoyu no Brasil está associado a
uma série de acontecimentos relacionados aos imigrantes japoneses e sua situação
no Brasil após os anos 1930. Os primeiros imigrantes estavam saindo da vida rural e
da condição de trabalhador braçal, começando a vida nas cidades, preocupados
principalmente com a educação dos filhos neste novo ambiente.
Na fase inicial, quando os imigrantes japoneses chegaram ao Brasil, tinham o
objetivo de acumular riquezas e retornar ao seu país de origem para reconstruir sua
vida. Devido a este fim, a maioria tentava manter inalterados os seus costumes,
valores éticos e principalmente o idioma-mãe, evitando até aprender o português
(SAKURAI, 1993).
As dificuldades apareciam e vencê-las era um desafio enfrentado
com coragem e com muita resignação. Se as promessas que os
trouxeram do Japão não se tinham concretizado, era necessário,
agora, trabalhar a realidade. E trabalho era o que não faltava
(SAKURAI, 1993, p. 53).
Com o início da segunda guerra mundial, a situação muda completamente.
Somada à desilusão sobre a vida rural que não conferia com os aspectos prometidos
antes da imigração, neste período os imigrantes japoneses passam a ser
considerados inimigos tal qual o Japão, forçando-os a uma adaptação aos novos
valores.
As escolas e associações japonesas foram fechadas aumentando o
isolamento da comunidade japonesa. Este fato acabou agravando a falta de
informações sobre a guerra e ocasionou uma divisão entre os imigrantes japoneses
no final da guerra em dois grupos antagônicos, os derrotistas, que aceitavam a
derrota do Japão e os vitoristas, que se recusavam a acreditar na derrota de seu
país de origem, para eles imbatível (ROCHA, 1996).
Com a rendição do Japão às forças aliadas, em agosto de 1945, a
Segunda Guerra Mundial chegava ao fim. Do outro lado do planeta,
em São Paulo, nascia uma organização secreta japonesa, a Shindo
Renmei – ou Liga do Caminho dos Súditos. Para seus seguidores, a
notícia de rendição era uma fraude, um golpe da propaganda aliada
47
para quebrar o orgulho dos japoneses em todo o mundo. [...] Em
poucos meses a colônia nipônica, composta por mais de 200 mil
integrantes, estará irremediavelmente dividida: de um lado os
kachigumi, os vitoristas da Shindo Renmei, apoiados por oitenta por
cento da comunidade japonesa no Brasil. Do outro, os makegumi, ou
derrotistas, apelidados de corações sujos pelos militantes da seita
(MORAIS, 2000, s.p.).
Isto durou dois anos, gerando muitos conflitos e atentados terroristas,
principalmente contra os derrotistas. A derrota do Japão foi finalmente aceita por
todos os imigrantes japoneses e com a difícil situação econômica de seu país de
origem, foi eliminada qualquer esperança de retorno e causando algo inevitável, o
desenraizamento.
No momento em que a derrota do Japão se tornou fato infutável, os
antigos imigrantes tiveram que enfrentar a dor de desistir do sonho
de retornar à terra natal. O Japão estava destruído econômica e
moralmente. [...] Os imigrantes haviam aprendido a acreditar na
superioridade de sua raça e cultura. [...] Afora isso, colocaram-se
numa situação de isolamento, recusando-se a aprender a falar
português e a se misturar aos brasileiros, na vã esperança de
retorno. Logo perceberam que lhes restava apenas voltar-se para a
nova pátria e tentar seguir os passos que os nisseis e senseis
(segunda e terceira gerações) já estavam trilhando: a assimilação
cultural (ROCHA, 1996, pg. 46).
Sakurai (1993) afirma que “a década de 50 é um marco na busca de novos
caminhos pelos imigrantes e seus descendentes”, com a tentativa de resgatar a
auto-estima e também gerar uma nova imagem perante aos brasileiros que os
consideravam muito nacionalistas e violentos devido aos episódios de conflitos entre
derrotistas e vitoristas.
Este era o panorama da situação dos imigrantes japoneses e seus
descendentes.
Na mesma época, o Brasil por sua vez, tentava demonstrar que era um país
industrializado e avançado, um exemplo foi São Paulo, associada à imagem de uma
cidade emergente e cosmopolita, foi preparada para a festa do IV Centenário para
demonstrar tal perfil (ROCHA, 1996).
Para participarem do evento do IV Centenário foram convidadas as diferentes
comunidades de imigrantes, com o intuito de mostrar que a presença deles
aumentava ainda mais a inserção do Brasil na produção industrial e cultural
internacional. Para isto, foi incentivada a criação de marcos representativos de cada
48
uma destas comunidades que deveriam ser inaugurados nas festas do IV
Centenário.
Para o evento, a comunidade japonesa, já devidamente unida, optou em 1952
pela formação de uma comissão para planejar os festejos e decidiu-se pela
construção de um Pavilhão Japonês numa área de um grande terreno que viria a ser
futuramente o Parque Ibirapuera. Os recursos necessários para a construção foram
arrecadados junto à comunidade e ao governo japonês (ROCHA, 1996).
Segundo Rocha (1996), a importância do IV Centenário para o Chanoyu no
Brasil é enorme, pois foi no Pavilhão Japonês que ocorreram as primeiras
demonstrações da Cerimônia do Chá no período de 2 a 16 de outubro de 1954. Para
a ocasião foi convidado o grão-mestre, Sen Soshitsu, sucessor do estilo Urasenke
(vide capítulo 1.2). E o comparecimento da comunidade japonesa foi massivo, já que
puderam verificar a revalorização de sua cultura representada pela Cerimônia do
Chá. Muitos nem tinha familiaridade com o Chanoyu.
Na época em que havia saído do Japão, o Chanoyu era uma arte
essencialmente da elite masculina, e poucos eram os imigrantes que
tinham podido aprendê-la. Se no Japão, durante e depois da
segunda guerra, ela havia se democratizado e se disseminado entre
as mulheres e a classe média em geral, poucos foram os imigrantes
que haviam presenciado este processo. A grande maioria ainda
julgava o Chanoyu distante de suas possibilidades (ROCHA, 1996,
pg. 46).
Após as comemorações, foi fundado um grupo de simpatizantes e
praticantes com o apoio da escola de chá japonesa Urasenke, que viria a ser o
Centro Urasenke do Brasil, escola pela qual foi realizado o curso de Cerimônia do
Chá.
Rocha (1996) diz que terminadas as comemorações do IV Centenário, a
comissão Colaboradora da Colônia Japonesa foi destituída. Mas como ela havia tido
um resultado muito bom, fundou-se a Sociedade Paulista da Cultura Japonesa em
1955. Por isso a colônia japonesa passa a contar com uma instituição que visava
divulgar e valorizar sua cultura. Com essas comemorações, os imigrantes viram sua
cultura valorizada e criou-se uma demanda para coisas japonesas.
Os benefícios decorrentes das comemorações do IV Centenário foram mais
amplas. Além de ter sido palco das primeiras apresentações de chanoyu no Brasil e
da vinda de Sen Soshitsu, foi fundado do ‘Shibu’ (grupo de simpatizantes) brasileiro
49
da escola de chá Urasenke. Diz Rocha (1996) que começa aí a história institucional
do Chanoyu no Brasil.
Depois de ser criado o shibu e o futuro Oiemoto (grão-mestre) ter partido,
chegou ao Brasil o professor Nagai que durante um ano deu aulas diárias às moças
que se tornariam as sete professoras históricas do Chanoyu no Brasil.
Em março do ano seguinte o professor Hayashi começou suas atividades de
divulgação desta arte no Brasil com uma demonstração de Chanoyu no Clube
Pinheiros de São Paulo, que reuniu por volta de quinhentos visitantes. Em setembro
organizou outra apresentação, desta vez em Curitiba, na Universidade do Paraná,
chamada de “Chanoyu Shunju”. Neste mesmo mês de setembro de 1979 começou a
dar aulas na sala que havia sido doada pela fundação Urasenke em 1977, localizada
na Casa de Cultura Japonesa da USP.
3.2 O Chanoyu e a convivialidade entre os nipo-brasileiros
Para análise da cerimônia do chá como elemento contribuinte da
convivialidade entre os nipo-brasileiros, foi realizada uma
série
de
quatorze
entrevistas com os praticantes do Chanoyu. Um dos fatores que facilitou o acesso
aos entrevistados foi a realização do curso de cerimônia do chá oferecido pela Casa
de Cultura Japonesa (Bunkyo) da Universidade São Paulo, além da participação
como aluna, ocasionou um maior contato com os praticantes, reduzindo muito os
obstáculos que poderiam ocorrer principalmente quanto à disposição e inibição no
momento das entrevistas.
Os entrevistados foram selecionados dentro do grupo de praticantes da
cerimônia do chá na Casa de Cultura Japonesa do Bairro da Liberdade na cidade de
São Paulo e da Universidade de São Paulo, sendo preferencialmente descendentes
de imigrantes japoneses, sem limitação de idade e de sexo. Foram sete participantes
de cada local, oito descendentes de imigrantes japoneses e seis não descendentes,
nove do sexo feminino e cinco do masculino.
O roteiro da entrevista foi estruturado utilizando o critério semi-aberto com
perguntas mais dirigidas apenas no início para introduzir as entrevistas, deixando o
entrevistado mais à vontade e o intuito foi a partir destas questões, estimular os
relatos mais livres. As perguntas iniciais eram:
50
1) Quanto tempo vive em São Paulo? Nasceu em São Paulo?
2) Como é a história da família em São Paulo?
3) Como aprendeu a praticar o Chanoyu?
4) Com qual é a freqüência pratica o Chanoyu?
5) Qual é o objetivo de continuar a praticar a Cerimônia do Chá?
As duas primeiras questões foram aplicadas para incentivar o entrevistado a
relatar o histórico familiar, principalmente se lembrava de algum imigrante de
primeira geração na família. Respostas que levavam rapidamente a terceira e quarta
questões, para verificar se os antepassados já praticavam a Cerimônia do Chá. E a
quinta e a última, já era para encaminhar a um relato mais livre e espontâneo sobre
a relação do entrevistado com o Chanoyu, a intenção era extrair relatos que
envolvessem os temas: relações humanas durante a prática da cerimônia e
preservação das tradições culturais, sem induzir diretamente à questão da
convivialidade.
Optou-se por não gravar as entrevistas, que era a intenção inicial, devido ao
claro constrangimento dos envolvidos e explicar desde o princípio que se tratava de
um depoimento anônimo. Então a solução foi anotar em forma de tópicos as
colocações efetuadas nos depoimentos. Foi fácil notar que muitos relatos tiveram
uma maior espontaneidade devido aos critérios adotados. Estes depoimentos estão
registrados no Anexo C.
Além desta etapa em São Paulo, foi feita uma série de duas entrevistas com
praticantes do Chanoyu na cidade de Registro, com o intuito de realizar uma prépesquisa, podendo assim antever qualquer dificuldade relacionada à comunicação e
à disposição para responder as perguntas. As duas entrevistadas (sexo feminino)
faziam parte de um grupo de quatro praticantes da cerimônia do chá na cidade em
questão. E analisando brevemente estas entrevistas, já foi possível verificar um dos
pressupostos comentados na introdução: a prática da cerimônia do chá é um evento
social no qual os descendentes de imigrantes japoneses, os principais praticantes,
aproveitam para sociabilizar-se, além de compartilhar e manter as tradições
culturais.
O curso no Bunkyo da USP teve a duração de um ano e foi realizado em
2009. As entrevistas foram efetuadas na Liberdade e na USP no final de 2010. Para
não perder o contato com o grupo de praticantes, mesmo sem freqüentar mais as
51
aulas de Cerimônia do Chá, foi feita a tentativa de comparecer a alguns eventos
organizados pelo Centro Urasenke do Brasil ao longo do ano de 2010.
Durante um dos eventos foi constatado que justamente nestas ocasiões,
além das aulas freqüentes, os descendentes de japoneses aproveitam para
encontrar-se, sendo claramente um momento de socialização. Aqui já é possível
verificar que a Cerimônia do Chá é um veículo de integração entre os nipobrasileiros.
A cerimônia do chá em São Paulo é praticada pelos imigrantes da primeira
geração, pelos descendentes e pelos brasileiros não descendentes. Dessa maneira
o significado e a função irão variar segundo a situação de cada um, mas como já foi
dito, a própria essência da cerimônia, permite uma harmonização efetiva entre as
diferentes motivações porque ela veicula a fundamentação das relações e dos
vínculos sociais.
Dessa forma observou-se, através das entrevistas, que para os japoneses
(embora apenas uma tenha sido entrevistada) a cerimônia representava um local
para vivenciar o ‘espírito japonês’ para manter a aura da tradição e para cultuar os
valores tradicionais do Japão.
Foi interessante notar que essa única entrevistada nascida no Japão,
iniciou-se na cerimônia do chá por iniciativa de sua filha e, a partir daí passou a
praticar. O principal interesse da mãe era manter o seu contato com as tradições
culturais japonesas e disse acreditar ser fundamental que sua filha conheça a cultura
dos antepassados e aprenda o ritual. Ela valorizava a sofisticação e a sutileza dos
gestos e acredita que a prática da cerimônia desenvolve o cuidado no
relacionamento com os outros, principalmente os mais velhos.
Para os descendentes a cerimônia passa a ser valorizada por permitir o
aprendizado do comportamento e dos valores do “verdadeiro japonês” e dos
padrões tradicionais.
Entre os entrevistados, haviam filhos e netos de japoneses e apresentavam
diferentes motivações para começar a prática da cerimônia. E as idades para iniciar
a prática, também foram diferentes.
Um dos entrevistados diz ter iniciado a prática porque estava buscando
relaxamento e desligamento da rotina e, apesar da mãe japonesa só começou
praticar aos 18 anos. Queria, também, aprender o idioma e conviver com outros
descendentes.
52
É curioso notar que desse traço da cultura, apesar da importância que os
entrevistados apontaram, a prática não está vinculada a um costume da família.
Encontramos um dos descendentes que optou por se reunir e relacionar com os
outros para praticar o idioma mais formal e, ninguém na sua família praticava.
Não há uniformidade na idade para a iniciação. Entre os entrevistados havia
mesmo uma menina de 10 anos que se iniciou na cerimônia aos 4 anos com sua
mãe. Ela disse gostar desses momentos agradáveis com a mãe e, também, que
gostava de vestir kimono e de comer doces.
Tanto entre os descendentes quanto nos não descendentes, muitos se
iniciaram a partir de cursos e práticas da tradição japonesa como o Ikebana e o
origami. Houve um entrevistado que afirmou ter sido motivado por frequentar a Igreja
Messiânica.
Embora as idades, as motivações sejam diferentes, observa-se uma
uniformidade nos aspectos valorizados na cerimônia do chá.
Houve uma unanimidade quanto aos benefícios dessa prática; a prática do
idioma com outros descendentes; a sensação de tranquilidade e de paz; a postura e
o respeito em relação ao outro e às coisas; o aprendizado para a aquisição de
disciplina, concentração e perseverança. Concordavam, também, em dizer que a
essência da estética e as técnicas aplicadas facilitam a convivência e o
relacionamento com o outro. Acham importante a atenção nos pequenos detalhes,
aos gestos e valorizam a sutileza.
Uma das entrevistadas foi divergente quanto aos objetivos – não tinha como
interesse principal a questão da tradição cultural, mas sim, o aprimoramento pessoal
e a sua elevação espiritual. Aliás, ela foi atraída para a cerimônia a partir da prática
da meditação Zen e ficou interessada em aperfeiçoar os aspectos filosóficos
implícitos na cerimônia. Mas concorda, com os outros entrevistados, que a cerimônia
facilita a convivência devido a valorização da relação do anfitrião e os convidados.
De maneira geral, analisando os relatos, está presente entre os
descendentes os objetivos, considerados importantes, de praticar a cerimônia do chá
para a preservação da cultura japonesa e a convivência com outros descendentes e,
também, para praticar o idioma, já que nem sempre é possível praticá-lo com
regularidade no Bunkyo (Casa de Cultura Japonesa).
Viu-se, nos relatos dos descendentes referências ao lado espiritual como
um dos principais objetivos para a prática da cerimônia do chá. O interesse se volta
53
para a filosofia Zen, considerada valiosa por proporcionar, também, relaxamento e
desligamento do cotidiano.
Pode-se, também, deduzir que os entrevistados perceberam e valorizaram a
questão da relação e do respeito entre o anfitrião e os convidados – um dos pilares
fundamentais do Chanoyu.
3.3 O Chanoyu e a convivialidade entre os nipo-brasileiros e não descendentes
de imigrantes japoneses
Os brasileiros não descendentes foram motivados a partir de seus
interesses pelas práticas da tradição japonesa como a arte ikebana e a arte do
origami. A iniciação nessas artes os levaram à prática da cerimônia do chá. Uma
delas, também, foi atraída devido a sua filiação à religião Messiânica.
Já a percepção dos praticantes não descendentes de japoneses é um
pouco distinta. Uma das entrevistadas comentou a dificuldade em relação ao idioma
japonês utilizado frequentemente na cerimônia. No entanto, mesmo com isso, não
acredita que essa dificuldade com o idioma tenha sido um obstáculo ao seu
relacionamento com o grupo e tampouco se sentiu discriminada por não ser
descendente de japonês. Ela explica isso devido aos preceitos aplicados na
cerimonia do chá, principalmente no que se refere ao relacionamento e ao respeito
entre o anfitrião e os convidados.
Já os benefícios apontados não diferem substancialmente daqueles
apontados pelos descendentes. E o interessante foi o fato de declararem que
procuravam aplicar os preceitos aprendidos em suas vidas.
Alguns se interessaram inicialmente pela estética, mas passaram a apreciar
também a filosofia. Concordam que os preceitos facilitam a convivência e o
relacionamento entre o grupo.
Também valorizaram a paz e a tranquilidade. Outro aspecto apreciado foi a
busca da simplicidade. E uma das entrevistadas ressaltou o espírito de
hospitalidade, pois o anfitrião prepara a cerimônia justamente para proporcionar esta
paz e tranquilidade.
54
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O movimento de imigração implica num complexo processo de adaptação
sociocultural e individual. E todo o imigrante enfrentará um penoso processo de
separação de sua terra natal além de ter que enfrentar o impacto do confronto com
uma nova situação e ter que assimilar novos padrões de comportamento, novas
formas de sociabilidade.
Como foi visto ao longo da pesquisa, para os imigrantes japoneses, a
adaptação exigiu um esforço ainda maior para contornar os hábitos e costumes tão
distintos de suas tradições. Para superar essas dificuldades, eles se agruparam e
defenderam os seus principais traços culturais que os identificam. E como resultado
desse esforço Uehara (2008, p,177) diz que a identidade dos descendentes
japoneses “apresenta uma complexa combinação entre ser brasileiro e ser japonês,
com nuances e dimensões variadas de influências das duas culturas.
Por ter havido um distanciamento enorme entre as duas culturas e de ter
havido um sentimento de transitoriedade nos primeiros momentos da imigração, os
imigrantes japoneses ficaram, de certa forma, ilhados na cultura brasileira.
A dificuldade de adaptação se dissolveu gradativamente em consequência
de uma também gradativa abertura de ambas as partes. Do lado dos imigrantes, o
sonho da volta e o caráter provisório de sua estada no Brasil foram se dissipando e,
em consequência, eles foram se abrindo à cultura brasileira, mas é bom lembrar,
que essa abertura não significou o abandono dos traços que os identificava. Do lado
dos brasileiros, a imagem do imigrante, após um período crítico de medo do ‘perigo
amarelo’, foi também ganhando cores positivas e aos poucos não só o imigrante foi
valorizado, mas também a cultura japonesa através das suas tradições e de sua
arte.
Essas razões nos faz lembrar Godbout (1997) que constata que a
hospitalidade é fundada sobre a alteridade e a diferença. Diz ele que a hospitalidade
é o lugar da regeneração constante do social, uma vez que é o lugar onde se vive a
‘prova’ do estrangeiro. Só se fala em hospitalidade a propósito da alteridade. É o
lugar do dom vivo, a prova do social entre o ‘nós comunitário’ e o ‘estrangeiro
desconhecido’.
Godbout (1999) também chama a atenção para o fato de que a hospitalidade
é sempre um estado transitório. Ela (a hospitalidade) termina na partida do
55
convidado ou quando se torna membro ou ainda quando o imigrante se torna
cidadão. Assim, é importante notar que o imigrante, uma vez tornado cidadão não
está mais em situação de hospitalidade.
No entanto, todo o relacionamento que foi estabelecido no período de
acolhimento se solidificou através de mecanismos de apaziguamento e de
acolhimento gerados pelo processo da dádiva dos espaços e de processos
acolhedores.
Esse fato nos lembra Mauss por evidenciar que toda circulação de bens a
serviço dos vínculos sociais, ao vencer a oposição entre o indivíduo e as outras
pessoas, constitui um elemento essencial na formação de toda base social.
Consequemente, os espaços sociais que privilegiam e alimentam o encadeamento
da dádiva, contribuem para a consolidação dos vínculos sociais. Assim, é inegável
ver na cerimônia do chá um espaço que respeita, que valoriza e contribui para a
formação de vínculos com o “outro”.
Se considerarmos que a cerimônia do chá, o Chanoyu representa o
aprendizado da etiqueta japonesa que permite que seus membros entrem em
contato com os valores e posturas da sua tradição, podemos avaliar o papel que
essa cerimônia exerceu no processo de adaptação dos imigrantes. Assim, a
cerimônia do chá se torna depositária da cultura japonesa que possibilita aos
imigrantes manter, ainda que simbolicamente, suas tradições.
Mas na realidade, o Chanoyu representa muito mais que o aprendizado de
uma etiqueta da tradição japonesa. Ficou evidente, pelos depoimentos dos
entrevistados, tanto dos descendentes quanto dos brasileiros que a praticam, que a
cerimônia é, principalmente, uma filosofia de vida que permite o aperfeiçoamento
pessoal e ensina e prepara seus praticantes para a relação com o outro.
Pode se dizer que esse jogo de relações está representado simbolicamente
na cerimônia do chá. “O simples ato de servir o chá e recebe-lo com gratidão é
fundamental para um modo de vida chamado Chado – o Caminho do chá”. (SEN XV
1981, p. 21.)
Além disso, a cerimônia do chá representa de maneira completa as tradições
japonesas. Após a análise dos depoimentos colhidos junto aos nipo-brasileiros,
pôde-se constatar que a cerimônia do chá possui uma grande importância na
questão da manutenção das tradições. Uma das hipóteses levantadas por este
trabalho de que ela permite uma importante dimensão do convívio entre os
56
descendentes de imigrantes japoneses pôde ser comprovada. Durante a freqüência
do curso notou-se que a prática da cerimônia do chá é um evento social, na qual os
descendentes de imigrantes japoneses, os principais praticantes, aproveitam para
socializar-se, além de compartilhar e manter as tradições culturais.
A maioria dos relatos durante as entrevistas também confirma a hipótese
principal da pesquisa, ou seja, a cerimônia do chá como elemento importante de
convivialidade entre os nipo-brasileiros de São Paulo.
É interessante notar que os japoneses e descendentes valorizam, nessa
prática a oportunidade desse convívio com a tradição japonesa para revitalizar os
valores de sua origem. Mas esse aspecto não é conflitivo com os objetivos e os
interesses dos brasileiros que, de certa forma, com exceção do interesse em praticar
a língua, são parecidos e a valorização dessa prática guarda uma estreita
semelhança.
Para todos os entrevistados, os interesses e os benefícios pela cerimônia
transcendiam a apreciação do chá. O que era mais valorizado era o fato dele
veicular valores como o altruísmo, a disciplina, o respeito, a harmonia.
Uma das entrevistadas disse que a prática da cerimônia representava para
ela uma conexão com Deus, mas não com a conotação religiosa, mas enquanto
filosofia de vida.
Enfim, é possível destacar concretamente o valor simbólico da cerimônia
que oferece possibilidades de valorizar as relações sociais através de uma dinâmica
interativa que vence a oposição entre o indivíduo e o “outro”. Para Godbout (1999),
essa dinâmica interativa faz das pessoas membros de um conjunto mais vasto.
Dessa forma, a cerimônia do chá está inserida na hospitalidade na medida em
que seu exercício incentiva o convívio entre os praticantes, os nipo-brasileiros se
abrem, mesmo que timidamente, para a cultura local e, também, os brasileiros são
atraídos pelos valores e práticas japonesas. Pode-se notar também nos relatos dos
praticantes que a dimensão da preservação cultural, tão importante para o imigrante,
se ampliou ao proporcionar uma positiva articulação com os brasileiros não
descendentes através da divulgação do ensino da cerimônia do chá.
Fica evidente, analisando o ritual ao longo da cerimônia do chá, que ela em
si já é uma cerimônia de hospitalidade, de abertura e acolhimento, uma comunhão
entre o anfitrião e os convidados e vai favorecer a circulação da dádiva.
57
Comprova-se, portanto, que a cerimônia do chá possui uma dupla função:
manter as tradições japonesas e servir de veículo para integração não só entre os
descendentes de japoneses, bem como entre estes nipo-brasileiros e a população
brasileira não descendente.
58
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Faculdade de Filosofia e Letras, n.28, 2008.
62
ANEXO A
Elaboração do Chá Fraco - passo a passo do Anfitrião
Fonte: Sendo (2000)
63
64
65
66
67
68
69
ANEXO B
Normas de etiqueta ao degustar o Chá Fraco - passo a passo do Convidado
Fonte: Sendo (2000)
70
71
72
ANEXO C
DADOS – ENTREVISTA:
Local: São Paulo - Bunkyo
Data: 09/11/10
Hora: 16h00
DADOS – ENTREVISTADO:
Entrevistado: 1
Sexo: feminino
Idade: 51 anos
Cidade de residência: São Paulo
ENTREVISTA
- nasceu em São Paulo;
- aprendeu a praticar a cerimônia do chá em junho de 1999, 11 anos de prática;
- em 2010, intensificou a freqüência da prática: 1 vez por semana;
- sempre se sentiu atraída pela cultura japonesa, devido à sua religião: igreja
messiânica;
- o primeiro contato ocorreu quando praticava o Ikebana que iniciou em 1978;
- em 1999 ficou responsável por receber uma autoridade de sua igreja e oferecer-lhe
chá, então decidiu iniciar o curso de cerimônia do chá;
- quando começou a prática, a motivação era apreciar e aprender a estética (ritual)
da cerimônia do chá. Posteriormente com o desenvolvimento da prática, começou
a apreciar a filosofia e atualmente aplica os preceitos filosóficos no seu dia-a-dia,
principalmente o respeito em relação ao outro;
- fala um pouco japonês, não acredita que o idioma seja um obstáculo ao seu
relacionamento no grupo, tampouco não ser descendente de japonês. Para ela, as
diferenças culturais não são obstáculos;
- acredita que a cerimônia do chá aprimorou sua percepção e facilitou o
entendimento de postura e ética japonesa;
- quanto à convivência no grupo, ela ressalta que a essência da estética e as
técnicas aplicadas na cerimônia do chá, facilitam a convivência e o relacionamento
entre todos no grupo.
73
DADOS – ENTREVISTA:
Local: São Paulo - Bunkyo
Data: 09/11/10
Hora: 16h00
DADOS – ENTREVISTADO:
Entrevistado: 2
Sexo: feminino
Idade: 39 anos
Cidade de residência: São Paulo
ENTREVISTA
- nasceu em São Paulo;
- a mãe nasceu no Japão e o pai em Lins (SP), avôs paternos vieram do Japão, não
sabe precisar o ano;
- apesar de sua mãe, já falecida, ser professora de cerimônia do chá, apenas teve
interesse aos 18 anos e iniciou a aprendizagem;
- freqüência da prática: 1 vez por semana, apenas no Bunkyo;
- o interesse atual é pela filosofia zen e considera a prática um momento de
relaxamento e desligamento da correria do dia-a-dia;
- o objetivo de ainda continuar além do lado espiritual é preservar um pouco da
cultura japonesa, principalmente as suas origens. Além disso acredita que é uma
maneira de conviver com outros descendentes de japoneses e praticar o idioma, já
que tem conhecimento mas tem receio de perder.
74
DADOS – ENTREVISTA:
Local: São Paulo - Bunkyo
Data: 09/11/10
Hora: 16h00
DADOS – ENTREVISTADO:
Entrevistado: 3
Sexo: feminino
Idade: 10 anos
Cidade de residência: São Paulo
ENTREVISTA
- nasceu em São Paulo;
- a mãe nasceu no Japão e o pai em São Paulo, avôs paternos vieram do Japão;
- o primeiro contato com a cerimônia do chá foi aos 4 anos no Festival do Japão e
lhe despertou a vontade de aprender;
- iniciou a aprendizagem junto com a mãe, acha que é um momento agradável que
pode passar junto com a mãe;
- freqüência da prática: 1 vez por semana, apenas no Bunkyo;
- acha legal vestir o kimono e preparar o chá e principalmente comer o doce que
acompanha o serviço do chá;
- fala fluentemente o japonês, inclusive em casa com os pais;
- freqüenta colégio brasileiro;
- vai viajar ao Japão no final do ano e acredita que com a convivência e
relacionamento com o grupo e a prática da cerimônia do chá, entende melhor a
cultura japonesa e tem certeza que poderá se virar melhor neste país;
- pretende fazer sempre o curso e praticar a cerimônia do chá.
75
DADOS – ENTREVISTA:
Local: São Paulo - Bunkyo
Data: 09/11/10
Hora: 16h00
DADOS – ENTREVISTADO:
Entrevistado: 4
Sexo: feminino
Idade: 43 anos
Cidade de residência: São Paulo
ENTREVISTA
- nasceu no Japão;
- iniciou a aprendizagem junto com a filha, ela que teve a iniciativa de realizar o
curso de cerimônia do chá;
- freqüência da prática: 1 vez por semana, apenas no Bunkyo;
- se interessa em manter o seu contato com as tradições culturais japonesas e
principalmente, que a filha conheça a cultura de seus antepassados;
- acredita que é fundamental que a filha aprenda o ritual da cerimônia do chá,
ressalta a importância da sofisticação e das sutilezas nos gestos e no
tratamento/relacionamento com os outros, principalmente em relação aos mais
velhos.
76
DADOS – ENTREVISTA:
Local: São Paulo - Bunkyo
Data: 09/11/10
Hora: 16h00
DADOS – ENTREVISTADO:
Entrevistado: 5
Sexo: masculino
Idade: 30 anos
Cidade de residência: Santo André
ENTREVISTA
- nasceu em São Bernardo do Campo;
- mãe nasceu em São Paulo e o pai em Mogi das Cruzes, os avôs paternos e
maternos que vieram do Japão, não sabe o ano;
- iniciou o curso há 15 dias (outubro de 2010);
- iniciou a aprendizagem junto com a esposa que se interessou pela cerimônia do
chá devido à igreja messiânica, que eles frequentam;
- freqüência da prática: 1 vez por semana, apenas no Bunkyo;
- outro motivo para continuar o curso é a sensação de tranqüilidade e paz que ele
sente ao realizar a cerimônia do chá. Ele aprecia o clima ao longo da prática e
acha importante a concentração necessária ao longo do ritual. Acredita que é um
momento de quebrar o ritmo do cotidiano;
- não é seu objetivo maior realizar o curso para manter as tradições culturais de seus
antepassados;
- acredita que a prática da cerimônia do chá facilita a convivência, pois relaciona
com um de seus preceitos que é o respeito em relação às pessoas;
- no início teve algumas dificuldades não associados ao relacionamento e
acolhimento do grupo, mas sim com o ritual, principalmente o modo de sentar e a
seqüência e os detalhes do gestual. Apesar disto, acredita que a sua ascendência
facilitou a sua adaptação.
77
DADOS – ENTREVISTA:
Local: São Paulo - Bunkyo
Data: 09/11/10
Hora: 16h00
DADOS – ENTREVISTADO:
Entrevistado: 6
Sexo: masculino
Idade: 22 anos
Cidade de residência: São Paulo
ENTREVISTA
- nasceu em São Paulo;
- pais nasceram no Japão, não lembra o ano que eles chegaram ao Brasil;
- estudou a vida inteira em escola japonesa, por isso fala fluentemente japonês e
razoavelmente o português;
- iniciou o curso em julho de 2010;
- o interesse em iniciar o curso coincide com seu interesse pela cultura japonesa em
geral, principalmente o pensamento e a filosofia, bem representadas na cerimônia
do chá;
- acredita que é uma opção para se reunir e se relacionar com outros descendentes
de japoneses e praticar o idioma japonês mais formal, o que não ocorre na sua
casa;
- a família não pratica a cerimônia do chá, ele é o único;
- acredita que a cerimônia do chá o ajuda a entender o modo de vida japonês,
principalmente a educação, que ele acredita ser mais rigorosa, e a postura eo
respeito em relação às coisas e às pessoas;
- acha essencial aprender pequenos detalhes na prática da cerimônia do chá como
os gestos e suas sutilezas e agora entende melhor o significado e a importância
deles.
78
DADOS – ENTREVISTA:
Local: São Paulo - Bunkyo
Data: 09/11/10
Hora: 16h00
DADOS – ENTREVISTADO:
Entrevistado: 7
Sexo: feminino
Idade: 50 anos
Cidade de residência: São Paulo
ENTREVISTA
- nasceu em São Paulo;
- em 2006 viajou ao Japão para um congresso de Ikebana, então teve a
oportunidade de visitar a fundação Urasenke, uma das escolas de prática da
cerimônia do chá. E se apaixonou, pois acredita que a cerimônia do chá não é só
um ritual no serviço do chá e sim um caminho para encontrar a si mesma, baseada
na espiritualidade e no sentimento altruísta;
- retornando à São Paulo, procurou o curso no Bunkyo – Casa de cultura japonesa;
- já pratica há 2 anos e a cada 15 dias;
- quanto à convivialidade, acredita que a cerimônia do chá facilita o relacionamento
entre as pessoas do grupo, pois há uma troca intensa e ressalta o espírito da
hospitalidade (palavras dela!);
- acha importante o lado altruísta da cerimônia do chá, pois o anfitrião que prepara o
chá aos convidados proporciona um momento único e oferece um pouco de paz e
tranqüilidade;
- outro motivo para continuar o curso e a prática é sua busca pela simplicidade e a
volta aos elementos da natureza, preconizados pela cerimônia do chá;
- acredita que possui certa dificuldade em praticar a cerimônia do chá devido ao
idioma e às diferenças culturais, ainda mais no que se refere à compreensão
desta.
79
DADOS – ENTREVISTA:
Local: São Paulo - USP
Data: 13/11/10
Hora: 9h00
DADOS – ENTREVISTADO:
Entrevistado: 8
Sexo: feminino
Idade: 27 anos
Cidade de residência: São Paulo
ENTREVISTA
- nasceu no Espírito Santo, está em São Paulo há 2 anos;
- iniciou o curso há 8 meses;
- o interesse pela cerimônia do chá iniciou com seu interesse pelo chá em geral e
seu serviço. Como gostaria de aprender mais sobre o Matchá, o chá verde em pó
utilizado na cerimônia do chá, acabou se matriculando no curso da USP, pois a
parte inicial da aula é uma introdução teórica.
- antes mesmo de iniciar o curso na USP já conhecia alguns praticantes, pois havia
realizado
uma
série
de
entrevistas
sobre
o
tema
para
seu
blog:
www.rotadocha.com.br;
- aprecia o sentimento de progresso que o curso vem oferecendo. Adora o ambiente
e a convivência com as pessoas do grupo. Atualmente a grande motivação não é
mais pelo chá e sim pelo momento de prazer e principalmente a convivialidade
com seus colegas praticantes;
- tudo o que é visto e aprendido ainda mais no que se refere à filosofia, ela leva para
sua vida no cotidiano, além da sala de chá/aula. Estabelece relação do que é
apreendido nas aulas práticas e no seu dia-a-dia quanto ao seu relacionamento
com outras pessoas, com objetos;
- atualmente dá muito valor ao silêncio, ou seja, saber o momento apropriado de
falar com os outros;
- a cerimônia do chá ajuda a se entender como pessoa e mais importante, a
entender e lidar com o outro.
80
DADOS – ENTREVISTA:
Local: São Paulo - USP
Data: 13/11/10
Hora: 9h00
DADOS – ENTREVISTADO:
Entrevistado: 9
Sexo: feminino
Idade: 58 anos
Cidade de residência: Indaiatuba / SP
ENTREVISTA
- nasceu em Lavínia / SP;
- os pais vieram do Japão por volta dos ano 1940;
- única na família que pratica a cerimônia do chá;
- fala fluentemente o japonês, com a morte dos pais tem praticado menos;
- o contato inicial com a cerimônia do chá foi através da meditação Zen. Durante
uma viagem ao Japão participou de retiros, conheceu alguns monges que
ofereceram o matchá para auxiliar a meditação;
- na época morava na Suíça e lá buscou um professor da fundação Urasenke;
- desde então (ano 2000) vem praticando a cerimônia do chá;
- o interesse pela prática da cerimônia do chá é que remete a uma atividade de
meditação diferente do mundo racional, uma forma de equilíbrio da vida intelectual
devido às exigências de seu trabalho com o lado intuitivo e espiritual;
- gostaria de desenvolver outros aspectos relacionados à cerimônia do chá, tais
como: a filosofia implícita à cerimônia, os diferentes tipos de cerimônia, o ato de
tomar chá e especialmente estudar as diversas variedades de chá;
- acredita que a cerimônia do chá facilita a convivência entre os praticantes devido
ao embasamento na inter-relação entre o anfitrião e convidados. Ressalta que a
prática da cerimônia do chá envolve sempre um outro, já que não se aplica a
apenas um indivíduo;
- à princípio não tem como objetivo manter as tradições culturais japonesas e sim na
prática com o sentido de aprimoramento pessoal e elevação espiritual.
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DADOS – ENTREVISTA:
Local: São Paulo - USP
Data: 13/11/10
Hora: 9h00
DADOS – ENTREVISTADO:
Entrevistado: 10
Sexo: feminino
Idade: 57 anos
Cidade de residência: São Paulo / SP
ENTREVISTA
- nasceu em Assaí / PR;
- os avós vieram do Japão por volta dos ano 1910, no 2º navio;
- fala fluentemente o japonês. Morava com os avós até os 13 anos, quando só falava
este idiona;
- já pratica a cerimônia do chá há 30 anos, após uma interrupção, reiniciou em 2008
em São Paulo;
- a prática ocorre 1 vez por semana na USP, às vezes no Bunkyo (bairro Liberdade);
- o contato inicial com a cerimônia do chá foi em Moji das Cruzes, quando estudava
o Ikebana (arte ornamental com flores);
- nesta época já tinha interesse pela cultura japonesa, seu objetivo era ter contato
principalmente com as artes tradicionais japonesas e dar continuidade à cultura de
seus antepassados;
- soma-se atualmente com a busca pela disciplina, postura, respeito e harmonia que
traz a prática da cerimônia do chá;
- acredita que a prática da cerimônia do chá facilita o convívio entre as pessoas
devido aos seus preceitos;
- quando participa da aula no Bunkyo, acredita que existe outro aspecto relevante,
pois é uma maneira de reunir-se com outros descendentes de japoneses.
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DADOS – ENTREVISTA:
Local: São Paulo - USP
Data: 13/11/10
Hora: 9h00
DADOS – ENTREVISTADO:
Entrevistado: 11
Sexo: masculino
Idade: 77 anos
Cidade de residência: São Paulo / SP
ENTREVISTA
- nasceu em São Paulo / SP;
- já pratica a cerimônia do chá há 10 anos;
- a prática ocorre 1 vez por semana na USP;
- o contato inicial com a cerimônia do chá foi através do Ikebana. Na formatura do
curso, presenciou uma cerimônia do chá;
- também lembrou de ter visto uma demonstração numa viajem aos Japão, quando
fez um trabalho pela Unesco;
- estes acontecimentos o deixaram curioso e resolveu iniciar o curso na USP;
- com o tempo descobriu que a cerimônia do chá não é apenas um ritual e sim um
sistema complexo de meditação Zen;
- acredita que no lugar de apenas uma abstração estética, na cerimônia do chá
ocorre a abstração pelo movimento;
- se identifica com a autodisciplina exigida durante a prática e principalmente com o
respeito aos outros e ao meio ambiente;
- conclui que com a prática da cerimônia do chá, é uma maneira de preservação
interior até física.
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DADOS – ENTREVISTA:
Local: São Paulo - USP
Data: 13/11/10
Hora: 9h00
DADOS – ENTREVISTADO:
Entrevistado: 12
Sexo: masculino
Idade: 34 anos
Cidade de residência: Ibaiti / PR
ENTREVISTA
- nasceu em Itapetininga / SP;
- já pratica a cerimônia do chá há 13 anos;
- nos primeiros 5 anos praticava 1 vez por semana no Paraná, atualmente a prática
ocorre 1 ou 2 vezes por mês em São Paulo;
- já possui uma pré-disposição e interesse pela cultura japonesa;
- na época da faculdade iniciou curso de japonês. Nas aulas perguntava à
professora questões sobre a cultura e artes tradicionais japonesas, esta lhe
sugeriu o curso de cerimônia do chá;
- também coincidiu com sua busca em responder questões existenciais, dúvidas
agravadas com a doença de seu irmão e posteriormente sua morte por câncer.
Sentia-se incompleto nas diferentes religiões;
- para ele no início a cerimônia do chá funcionava como conexão com Deus, mas
não exatamente como uma religião, já que acredita que a cerimônia do chá
transcende os preceitos religiosos, sendo uma filosofia de vida;
- é muito grato à cerimônia do chá a atualmente a sua vida gira em torno dela;
- na atualidade já acredita que a cerimônia do chá é uma maneira do praticante
lapidar-se como ser humano;
- preconiza a tentativa de praticar os elementos fundamentais da cerimônia do chá
(Harmonia, Pureza, etc.) também fora da sala de chá. Acredita que estes
elementos facilitam a convivência com os outros dentro e fora da sala de chá.
84
DADOS – ENTREVISTA:
Local: São Paulo - USP
Data: 13/11/10
Hora: 9h00
DADOS – ENTREVISTADO:
Entrevistado: 13
Sexo: masculino
Idade: 27 anos
Cidade de residência: São Paulo / SP
ENTREVISTA
- nasceu no Paraná;
- já pratica a cerimônia do chá há 5 anos, iniciou o curso em Curitiba;
- a prática ocorre 1 vez por semana na USP;
- seu interesse pela cerimônia do chá coincide com seu interesse geral pela cultura
japonesa;
- também estuda japonês;
- acredita que a cerimônia do chá condensa vários aspectos da cultura japonesa,
principalmente as artes tradicionais;
- para ele a cerimônia do chá facilita a convivência entre as pessoas, pois durante a
cerimônia os praticantes aprendem a ser mais tolerantes e devem ter muita
paciência. Acha que os fundamentos aprendidos podem ser aplicados em todos os
aspectos da vida.
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DADOS – ENTREVISTA:
Local: São Paulo - USP
Data: 13/11/10
Hora: 9h00
DADOS – ENTREVISTADO:
Entrevistado: 14
Sexo: feminino
Idade: 28 anos
Cidade de residência: São Paulo / SP
ENTREVISTA
- nasceu em São Paulo / SP. A mãe (falecida) é nissei;
- pratica a cerimônia do chá desde 2008;
- a prática ocorre 1 vez por semana na USP;
- seu interesse pela cerimônia do chá se deve por ser descendente de japoneses e o
desejo de conhecer melhor esta cultura;
- durante o curso de Origami (arte da dobradura em papel), notou que havia curso de
cerimônia do chá também oferecido na USP;
- atualmente também te interesse pela disciplina, meditação, perseverança e maior
concentração necessários á prática da cerimônia do chá;
- acredita que a prática da cerimônia do chá facilita a convivência entre as pessoas
devido aos elementos fundamentais;
- tenta aplicar o aprendizado em sua vida cotidiana.

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