Quer ser - Centro de Voluntariado de São Paulo

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Quer ser - Centro de Voluntariado de São Paulo
19 a 25 de setembro de 2010
Parte integrante da Folha de S.Paulo. Nº 16. Não pode ser vendida separadamente. Foto Paulo Pampolin/Hype/Folhapress
subterrânea
Avenida Paulista
tem 22 galerias
abandonadas
e mais
» ARRIGO BARNABÉ
» BARBARA GANCIA
» JOSIMAR MELO
Já não basta
só querer: ONGs
fazem concorridos
processos de
seleção que podem
durar quase um ano
Quer ser
voluntário?
André Solnik, 23, que
foi reprovado na primeira
tentativa de ser palhaço
68 RESTAURANTES E GULOSEIMAS
97 FILMES
22 BARES
31 PEÇAS
22 EXPOSIÇÕES
Paulo Pampolin/Folhapress
CAPA
26 ┆ ┆ ┆ 19 a 25 de setembro de 2010
O estudante André Solnik, que se
torna o palhaço Doutor Gravisóles
MARATONA
bem
para fazer o
Em busca de voluntários mais preparados, ONGs
profissionalizam seleção e treinamento de candidatos
1 FLÁVIA MANTOVANI
O processo é longo e pode envolver entrevista, dinâmica de grupo,
cursos, estágio supervisionado, prova de conhecimentos gerais e formatura no final. Em muitos casos, quem
falta é eliminado. Em outros, o número de candidatos por vaga chega a 15
–o equivalente à procura pelo curso
de Relações Públicas na Fuvest 2010.
Amaratona,quemdiria,nãoépara
conseguir um emprego ou uma bolsa
de estudos: é para fazer trabalho voluntário. Se antes bastava querer para doar seu tempo em prol de crianças
pobres, pessoas doentes, deficientes
ou das florestas do planeta, hoje não
é bem assim. Organizações não governamentais estão profissionalizando o
recrutamento de voluntários, promovendo seleções e cursos de capacitação que podem durar quase um ano.
Os motivos para a mudança são
muitos. A necessidade de preparar o
voluntário para lidar com a metodologia da ONG, com o público atendido
e com o ambiente de atuação é um deles. Outras razões são a tentativa de
torná-lo mais comprometido –“um
voluntário descompromissado e despreparado mais atrapalha do que ajuda”, dizem alguns– e a inevitabilidade
de ter que selecionar diante de uma
procura maior do que a demanda.
Para Sílvia Naccache, coordenadora do CVSP (Centro de Voluntariado de São Paulo), trata-se de uma tendência, principalmente nas ONGs de
SãoPaulo.“Aspessoasvinhamcheias
de boa vontade, mas queriam fazer
do jeito delas, a qualquer hora. Elas
precisam incluir aquilo na rotina.”
Segundo ela, o perfil dos voluntáriosvemmudando.“Anteseracoisade
mulher, mais velha, aposentada. Hoje
vemos muitos homens, jovens, pessoas que estão no mercado de trabalho.”
O CVSP organiza palestras para candidatos a voluntário. Oferece,
ainda, um curso de gestão de programas de voluntariado para ONGs.
sãopaulo ┆ ┆ ┆ 27
Passo a passo
Visitar um asilo
(carga horária
mínima: oito horas)
As etapas para se tornar voluntário na ONG
G Canto Cidadão
Cumprir o
Caminho do
Protagonista,
composto por
12 tarefas.
Todas exigem
comprovação
de presença.
São elas:
Assistir a uma palestra
no Centro de Voluntariado
de São Paulo
Ilustrações Graphorama
Dar uma palestra sobre
voluntariado para ao
menos dez pessoas
Cadastrar-se como
doador de medula
Doar sangue, se puder,
e levar mais cinco
amigos para doar
Pesquisar os projetos de
seu vereador, deputados
e senador e efetuar uma
reclamação à prefeitura
Responder a uma pesquisa
sobre a ONG (com perguntas
como quando foi fundada,
os objetivos etc.)
Arrecadar a partir de
30 livros infantis e
30 brinquedos, novos
ou em bom estado
Ir com ao menos cinco
amigos a um espaço
público, distribuir “abraços
grátis” e limpar o local
Ir a duas peças
de teatro
Treinamento de
60 horas, com
dinâmicas de grupo,
palestras etc.
Estágio
monitorado no
hospital, fazendo
de seis a oito visitas
com um voluntário
já experiente
Ler três livros (entre eles,
“Antígona”, de Sófocles),
ver dois filmes e ouvir
um audiolivro, todos
indicados pela ONG
Visitar uma organização
social com público
infantil (carga horária
mínima: quatro horas)
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Entrevista
Uma vez
voluntário, é
possível participar
do PQP (Programa
de Qualidade da
Palhaçada), com
oficinas de formação
continuada e apoio
emocional
Os 12 trabalhos
Hoje, a maioria das ONGs organiza
ao menos uma palestra ou entrevista
inicial. Mas há casos bem mais extremos. Um exemplo é o processo seletivo do Canto Cidadão, que tem, entre
outrosprojetos, umgrupodepalhaços
que atua em hospitais. Antes, havia
prova de conhecimentos gerais, entrevista, dinâmicas de grupo, formação teórica de 60 horas e prática de 20.
Desde o primeiro semestre, o processo ficou ainda mais difícil: não há
mais a prova, mas, antes de fazer o
treinamento, é preciso passar pelo
Caminho do Protagonista, com 12
tarefas inspiradas nos 12 trabalhos
de Hércules (leia quadro ao lado).
“Como a procura é grande, poderíamos simplesmente selecionar por
ordem de chegada. Mas o que queremos é formar agentes transformadores. E não deixa de ser também
uma seleção natural. Quem não estiver convencido desiste”, diz Felipe
Mello, um dos fundadores. São mais
de 3.000 interessados aguardando.
Como a procura é alta, nem todos
são aprovados. “Criamos critérios. Há
quem diga: ‘Vocês estão sendo cruéis,
a pessoa só quer ajudar’. Mas sabemosquenãopodemoscolocaralguém
no hospital sem preparo”, diz Mello.
O estudante André Solnik, 23, ouviu um “não” da primeira vez que tentou, em 2007. “Fiquei decepcionado e
com raiva. Pensei: ‘Se não passei num
teste para ser voluntário como palhaço, não sirvo para mais nada’”, brinca.
“As pessoas têm o
desejo genuíno de
ajudar, mas, quando
se exige dedicação,
muitas desistem”
VALDIR CIMINO, do Viva e Deixe Viver
MÃOS QUE FALAM
Patrícia Raymundo,
que é voluntária no
hospital Sepaco
Ele diz, porém, que foi um estímulo para tentar de novo. O treino longo
não o desanimou. “Pelo contrário. É
descontraído, tem atividades ao ar livre, você entende melhor o trabalho.”
Deu certo: hoje, ele é o Doutor Gravisóles, palhaço no hospital Brigadeiro.
Segurança
Uma preocupação de ONGs que
atuamemhospitaisécomasegurança
em relação à contaminação. No VER,
grupo de voluntários do Instituto de
Infectologia Emílio Ribas, há palestras sobre o tema. “O voluntário precisa entender de biossegurança, para
se proteger e proteger os outros”, diz
o diretor-executivo, Renato Terra.
Paulo Pampolin/Folhapress
A Anima, associação que atua há
15 anos com prevenção do HIV e educação, mudou as práticas após participar de um deles. O recrutamento
informal de voluntários foi substituído em março por um processo organizado, com 46 vagas. “Antes as pessoas vinham por indicação de amigos.
Muitas faziam um trabalho bacana,
mas pontual: arrumavam emprego e
saíam. Buscamos mais comprometimento”, diz Lucimar Marques, diretora de comunicação e marketing.
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Lei regula
atividade
Documento deixa claro
que o trabalho voluntário
não é remunerado
Newton Santos/Folhapress
Para ser voluntário, é preciso
assinar um documento
declarando estar ciente de
que se trata de atividade não
remunerada, sem vínculo
trabalhista. O termo de adesão
faz parte da lei nº 9.608,
de 1998, criada para evitar
abusos dos dois lados,
segundo Sílvia Naccache,
coordenadora do Centro de
Voluntariado de São Paulo.
“Havia tanto o voluntário que
não sabia seu papel quanto
organizações que usavam o
voluntariado como subterfúgio
para não ter pessoas
contratadas. Voluntário
não é mão de obra barata.”
APRENDENDO A BRINCAR
Curso para ajudar na formação
de voluntários em São Paulo
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São cinco meses de capacitação,
entre palestras, prática e uma festa de
formatura. Quem não se sentir preparado para atuar com os pacientes pode executar tarefas administrativas.
A palestra de segurança hospitalar é uma das que compõem a seleção
de outra associação, a Viva e Deixe Viver, que atua com contação de histórias para crianças doentes. São todas
aos sábados e, no fim, o candidato
acompanha um contador mais experiente. É preciso pagar R$ 70 para cobrir as despesas. Entre a inscrição e o
fim do processo, passa quase um ano.
Cerca de um quinto dos 500 a 600
inscritos ficam até o final. “Na primeira palestra, [o número] já diminui pela metade. As pessoas têm o desejo genuíno de ajudar, mas, quando se exige dedicação, muitas desistem. É uma
espécie de autosseleção”, afirma Valdir Cimino, presidente da associação.
Cimino decidiu criar o treinamento no início do projeto, quando uma
mulher se ofereceu para contar histórias com ele e, diante de uma criança, começou a chorar. “Tive vonta-
de de jogá-la pela janela! A própria
criança falou para ela não chorar. ”
Em casos excepcionais, a equipe
pode desclassificar alguém. Uma ficha em que o candidato diz como agiria em certas situações críticas ajuda a
identificar quem está fora do espírito
da ONG. “Se não tivermos regras, se
não for olhado como uma empresa,
fica difícil administrar”, diz Cimino.
Voluntários do Viva e Deixe Viver,
Tony Silva e Patrícia Raymundo passaram pelo treinamento. “A gente fica
ansioso, quer começar logo, mas hoje
vejo que é necessário. Não é só aquela
coisa bonitinha de fazer palhaçada,
tem que estar capacitado”, diz Tony.
Cibervoluntários
O cuidado para que o candidato
entenda as regras é ainda maior no
caso do ativismo ambiental. “Quando
a pessoa vai pra rua levando a nossa
causa, tem que estar muito segura”,
diz Pedro Torres, coordenador nacional de voluntários do Greenpeace.
A capacitação trata das campanhas defendidas pela ONG e treina
Paulo Pampolin/Folhapress
FESTA NO HOSPITAL
Tony Silva, contador
de histórias, hoje
ajuda no treinamento
para a abordagem não violenta. Para participar, é preciso passar por um
filtro estreito: em São Paulo, já houve 500 interessados para 30 vagas.
Saber escalar, mergulhar ou dar palestras conta pontos. “Infelizmente,
não conseguimos abarcar todo mundo. Em São Paulo, precisaríamos de
mais de dez Greenpeaces”, diz Torres.
Uma alternativa dada a quem não
passa na peneira é se tornar ciberativista, divulgando a ONG pela internet.
O trabalho on-line também já faz
parte de uma organização tradicional:
oCVV(CentrodeValorizaçãodaVida),
que conforta pessoas em sofrimento.
A ONG planeja formar esses voluntários com ensino a distância,
mas, por agora, todos devem ir a um
encontro de um fim de semana e a oito reuniões de três horas, com treino
prático. Só é permitido ter uma falta.
Alguns desistem antes do final porque não gostam da metodologia. “Eles
imaginam que vão aconselhar as pessoas, e nossa postura não é essa”, diz
Arthur Mondin, voluntário do CVV há
32 anos, que coordena o setor on-line.
Para os já voluntários, a disciplina também é grande: quem falta a um
plantão deve repor na semana seguinte. Há um curso de reciclagem mensal,
e só é permitido ter 25% de faltas por
ano. “É a única maneira. Os momentos de depressão e de aflição não esperam. Estamos lidando com um assunto muito sério”, justifica Mondin.
Tanta exigência não pode desanimar pessoas que poderiam estar fazendo a diferença? “Pode assustar
um pouco, mas tudo é acertado antes,
com clareza. O voluntário sente até segurançaporsaberqueháumprocesso
sério”, diz Sílvia Naccache, do CVSP.
Montar seleções como essas também
pressupõe gastos, mas ela acredita
que vale a pena porque a organização
ganha voluntários mais fiéis.
Para Naccache, por mais que as
ONGs venham profissionalizando a
gestão,aessênciadovoluntariadonão
muda. “Isso não tira a emoção, o coração, a vontade de fazer a diferença.”
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Paulo Pampolin/Folhapress
ajuda
consciente
SE VOCÊ QUER AJUDAR...
Pense no que quer fazer: há
quem prefira tarefas relacionadas
à sua profissão ou algo diferente.
O importante é ter prazer
Leve em conta suas habilidades.
De nada adianta ajudar numa
oficina de artes se você não tem
nenhum talento para a área
PRIMEIRO PASSO
Palestra do Centro de Voluntariado
de SP, que tem cadastro de ONGs
DEPOIMENTO
“Não basta ser bonzinho”
1 FLÁVIA MANTOVANI
No auditório do processo seletivo
da ONG que forma contadores de histórias em hospitais, uma senhora reclama alto: “Que história é essa de fazer curso no sábado? Não pode faltar,
não pode isso, aquilo. E tudo para trabalhar de graça no final!”
Passado o estranhamento inicial,
percebemosqueésóumavoluntáriaantiga, numa cena criada para fazer troça
com o rigor da longa seleção.
Brincadeiraàparte,ofatoéqueela
temrazão.Oque,afinal,reúnealiaquelas 200 pessoas, que poderiam estar
dormindo,brincandocomosfilhos,fazendo uma pós? O que me faz acordar
cedo num sábado de sol sem plantão
para ver uma palestra sobre a morte
–em pleno Dia dos Namorados?
Agora que estou no fim da maratona, arrisco um balanço. Não dá para
negar que o sono que senti, um certo
terrorismo com as faltas e algumas dinâmicas sentimentais demais me fizeram pensar o que, afinal, eu fazia ali.
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Mas também tive lições valiosas.
E se uma criança pedir água? Penso:
daria! Pois um voluntário que fez isso atrapalhou o jejum para um exame. Se ela quiser saber sobre a doença? Não, o papel é dos médicos. E se
não quiser histórias? Vi que, às voltas
com injeções e cirurgias urgentes, é o
único “não” que ela pode dar, e merece respeito. É. Não basta aceitar um
“exército de bonzinhos” que não saiba lidar com situações tão delicadas.
Sim, o treino é longo. Mas perdi
um pouco da timidez, conheci obras
de arte da literatura infantil, saí da
rotina. O processo teve também um
(bom) efeito colateral: manter a persistência. Entrar na ala infantil de um
hospital de câncer pode ser assustador. O receio de falhar vira mesmo
vontade de desistir. Não há curso que
prepare para isso, mas aí penso: “Estou há um ano nessa para nada? Vou
tentar mais”. Sigo tentando.E,porenquanto,estougostandodaexperiência.
Pense no público com o qual quer
atuar. Se não se sentir preparado
para interagir com crianças
doentes ou moradores de rua,
por exemplo, proponha um
trabalho administrativo
Calcule de quanto tempo dispõe.
Algumas ONGs exigem uma
periodicidade fixa, enquanto
outras têm ações mais pontuais
Em São Paulo, é fundamental
levar em conta o deslocamento
até a ONG. Se for muito longo,
pode desestimular o trabalho
Se não puder ir até o local,
tente um trabalho a distância.
Muitas organizações oferecem
essa possibilidade
SE VOCÊ JÁ É VOLUNTÁRIO...
Seja constante. Se precisar faltar,
avise com antecedência
Não abandone o trabalho sem
avisar aos responsáveis pela ONG.
Se tiver algum problema, converse
com eles antes de desistir
Se a ONG oferecer cursos de
reciclagem para voluntários,
tente comparecer
SERVIÇO
Centro de Voluntariado
de São Paulo; tel. 3284-7171;
www.voluntariado.org.br

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