E O LEGADO DA COPA DO MUNDO? A água desapareceu do

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E O LEGADO DA COPA DO MUNDO? A água desapareceu do
E O LEGADO DA COPA DO MUNDO?
A água desapareceu do radar e preocupação das pessoas durante este mês da Copa,
apesar da situação ter piorado: no início de julho o nível d’água do Sistema Cantareira
estava em 18,5% (sem o volume morto, o nível seria 0%) e do Alto Tietê em 24%;
diversas cidades da região de Campinas e Sorocaba estão com racionamento; o lago
da usina de Furnas está no nível mais baixo desde 2001, ano do “apagão”.... e a
“disputa a tapa” continua entre a água para gerar energia e para os demais usos...
Mesmo assim, tenho que me render aos fatos e fazer a última coluna sobre a Copa,
que sumirá rapidamente dos noticiários (ainda mais depois do “apagão” do Brasil
contra a Alemanha e baixa energia contra a Holanda), restando o seu legado...do qual
falaremos aqui.
Temos o legado (in)questionável dos estádios... E sua certificação sustentável não é
100% como previsto: em 18/06 a FIFA e o GBC (“Green Building Council”) anunciaram
que somente metade das arenas receberam a certificação LEED: Mineirão (categoria
Platinum - a mais alta), Maracanã/Fonte Nova/Arena Amazônia/Arena Pernambuco
(categoria Silver) e Castelão (certificação simples). Sobre as parcas obras viárias do
entorno: serão úteis, mas longe de ser um grande avanço na mobilidade urbana.
Talvez um legado útil da Copa seja a ampliação dos aeroportos de várias cidadessede.
E no campo social, qual foi o legado? Muito se questionou sobre violações de direitos
humano durante as manifestações contra a Copa... O governo federal falou de
programas sociais paralelos ao evento, mas não parecem ser proporcionais à
importância do evento e dos gastos, para se tornar um legado efetivo. Chamou mais a
atenção o grande envolvimento da seleção alemã com a comunidade no sul da Bahia,
deixando como legado um novo campo de futebol para os moradores, doando
recursos financeiros aos índios Pataxós de Coroa Vermelha para aquisição de
ambulância e para a Escola da Vila de Santo André por três anos.
Sobre o legado social, vale a pena passar um relato feito pelo Instituto Ethos, em seu
boletim de 27/06/14, sobre a gestão sustentável e responsável do futebol da Costa
Rica, que nesta Copa fez história. Começando pela base: aboliu o exército em 1948 e
direcionou as verbas militares para o ecoturismo e manejo sustentável das florestas; é
o único país da América Latina na lista das 22 democracias mais antigas do mundo, e
está à frente do Brasil quanto ao Índice de Desenvolvimento Humano - IDH e à
sustentabilidade (considerado em 2012 o país com melhor desempenho ambiental do
continente americano e o quinto do mundo).
Até os anos 1990, o futebol costarriquenho era um esporte semiamador, quando o
professor Roberto Artavia da Incae Business School, da Costa Rica, elaborou o projeto
“A Indústria do Futebol: Responsabilidade Social e Promoção de Valores”. O projeto
foi adotado pelo empresário mexicano Jorge Vergara (dono do Chivas México/EUA e
da empresa Omnilife), que comprou o Saprissa da Costa Rica no início dos anos 2000.
A partir de então contratou somente jogadores costariquenhos, fortaleceu e lançou
marcas próprias do time, abriu escolinhas de futebol, fez parceria com a Prefeitura da
capital para manutenção de campos e de equipes infantis/juvenis em bairros da
periferia, e fundou a escola e a universidade do futebol para capacitar profissionais.
O Saprissa venceu a Liga de Clubes Campeões da Concacaf em 2005 e participou do
Campeonato Mundial Interclubes, no Japão, influenciando a modernização dos demais
clubes e da federação de futebol do país. A primeira divisão hoje tem como objetivo
específico promover a identidade comunitária e a coesão social, capacitando técnicos,
dirigentes e executivos dos clubes, e estimulando as empresas a usar o investimento
social privado em projetos de futebol. Os estádios estão sendo reformados conforme o
“padrão Costa Rica”: segurança, equipamentos, higiene e acessibilidade, sem luxo.
A Costa Rica também criou as primeiras fundações de times de futebol, iniciando pelo
Saprissa, mobilizando a sociedade junto com ONGs e governos para projetos que
beneficiem jovens e setores carentes da população, incentivo a trabalhos voluntários
de torcedores, inserindo jovens em risco social com o futebol, e operando centros
comunitários de reciclagem de resíduos sólidos.
Espelhando-se no exemplo da Costa Rica, vamos sonhar com um legado além de
estádios e obras, e revolucionar a “indústria” do futebol brasileiro e a inserção das
comunidades num projeto sustentável de longo prazo?

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