Leia um trecho do livro

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Leia um trecho do livro
DOS BEST-SELLERS “THE CASE FOR GOD” E “A HISTORY FOR GOD”.
“Lisa Miller há muito tem sido a mais dedicada e engajada jornalista cobrindo
a área da religião na América. Em Paraíso, ela realizou o impossível: escreveu
um livro sobre religião que fundamentalistas, moderados, liberais e céticos
podem ler da mesma forma, com extremo prazer.” – SAM HARRIS,
AUTOR DE BEST-SELLERS DO NEW YORK TIMES, “THE
END OF FAITH” E “LETTER TO A CHRISTIAN NATION”.
“Com graça e discernimento, Lisa Miller atingiu o notável: escreveu um
livro maravilhoso que entrelaça repórteres contemporâneos e estudiosos
históricos, com habilidade e energia. O resultado é uma tomada inteligente e
acessível sobre a eterna pergunta: o que é o Paraíso? O livro de Lisa é um bom
começo para a resposta.” – JON MEACHAM, GANHADOR DO PRÊMIO
PULITZER E AUTOR DE “AMERICAN LION” E “AMERICAN GOSPEL”.
“Uma rara combinação de jornalismo, memória e pesquisa histórica, esse
livro inteligente e corajoso, nos leva ao centro de uma das grandes polêmicas
de todos os tempos. Lisa Miller certamente renderia um ótimo bate-papo
sobre o assunto.” – STEPHEN PROTERO, AUTOR DE BEST-SELLERS DO
NEW YORK TIMES, “AMERICAN JESUS” E “RELIGIOUS LITERACY”.
www.nossacultura.com.br
PAR AÍSO
P
ercorrendo a história e a cultura popular, a
pesquisa bíblica e as crenças cotidianas, Paraíso oferece uma nova compreensão de um dos
mais acalentados – e compartilhados – ideais da vida
espiritual. Lisa Miller levanta debates e discussões não
somente sobre nossas visões sobre a pós-vida, mas sobre como nossas crenças influenciaram as sociedades
que construímos e os estilos de vida que adotamos,
explorando as raízes de nossas crenças no paraíso e
como elas evoluíram através de todas as eras para oferecer conforto e esperança. Ela também revela como
a noção de paraíso tem sido usada em manipulação –
para promulgar o bem e o mal – como inspiração para
comportamentos sem identidade e como justificativa
para assassinatos em massa.
Como Miller demonstra neste livro absorvente e esclarecedor, o desejo de uma pós-vida celestial é universal – compartilhado pelos fiéis em todo o mundo e
de todas as religiões. Isso é tão antigo quanto a própria
Bíblia. Enquanto há muitas noções sobre o que o Paraíso é exatamente, e como podemos chegar lá, judeus,
cristãos e muçulmanos, todos concordam em um
ponto, o paraíso é a casa de Deus. Desde o Apocalipse
até a série “Left Behind”, de Santo Agostinho a Osama Bin Laden, dos muçulmanos do West Bank, até os
mórmons americanos, Paraíso é um olhar penetrante
a um dos nossos mais acalentados ideais religiosos.
“Este estudo fascinante, profundo e desafiador nos diz muito sobre o que significa
ser um ser humano.” – KAREN ARMSTRONG, NEW YORK TIMES, AUTORA
NOSS A ET ER N A
FA SCI N AÇ ÃO COM
O PÓS -V IDA
UMA HISTÓRIA INOVADORA E ACESSÍVEL
SOBRE O PÓS-VIDA. DESDE AS MAIS
ANTIGAS CONCEPÇÕES E TEORIAS
BÍBLICAS SOBRE O ASSUNTO ATÉ AS MAIS
SIMPLES CONVICÇÕES E PERCEPÇÕES QUE
ENCARAMOS NO NOSSO DIA A DIA.
PAR AÍSO
LISA
MILLER
“Cheio de insights... fácil de ler e maravilhosamente realizado sobre essa ‘constante esperança’ que compartilhamos...Paraíso nos deliciará e instruirá sob todos os
aspectos.” – PUBLISHERS WEEKLY
(STARRED REVIEW)
PAR AÍSO
NOSS A ET ER N A
FA SCIN AÇ ÃO COM
O PÓS -V IDA
LIS A M ILLER
LISA MILLER é uma jornalista
vencedora de prêmios no campo da religião.
Como editora de religião do Newsweek, ela
escreve uma coluna regular sobre a interseção
da espiritualidade, crença, ética e política.
Anteriormente trabalhando na equipe da revista
New Yorker e no Wall Street Journal. Ela mora
no Brooklyn com seu marido e filha.
ILUSTRAÇÃO DE JACKET SOBRE O
UNIVERSO PTOLOMAICO
CORTESIA DA COLEÇÃO GRANGER
FOTOGRAFIA DA AUTORA POR CARRIE LEVY
DESENHO DE JACKET POR JARROD TAYLOR
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PARAÍSO
NOSSA ETERNA FASCINAÇÃO
COM A PÓS-VIDA
LISA MILLER
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Título Original: Heaven
Copyright © 2010 by Lisa Miller.
Published by arrangement with Harper Collins Publishers.
Todos os direitos reservados pela Editora Nossa Cultura Ltda, 2011.
Editores: Paulo Fernando Ferrari Lago, Claudio Kobachuk, Renata Sklaski
Tradutora: Jeanne Rangel
Revisoras: Claudia Cabral Oliveira, Adriana Gallego Mateos, Valquíria Molinari
Capa: Fabio Paitra
Diagramação: Marline M. Paitra e Cláudio R. Paitra
Nota: A edição desta obra contou com o trabalho, dedicação e empenho de vários profissionais.
Porém podem ocorrer erros de digitação e impressão. Grafia atualizada segundo o acordo
ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, em vigor no Brasil desde 2009.
EDITORA NOSSA CULTURA LTDA
Rua Grã Nicco, 113 – Bloco 3 – 5.º andar
Mossunguê
Curitiba – PR – Brasil
Tel: (41) 3019-0108 – Fax: (41) 3019-0108
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Dados internacionais de catalogação na publicação
Bibliotecária responsável: Mara Rejane Vicente Teixeira
Miller, Lisa.
Paraíso / Lisa Miller ; tradução Jeanne Rangel. –
Curitiba, PR : Nossa Cultura, 2011.
p.388 ; 23 x 16 cm.
Tradução de: Heaven.
Inclui bibliografia.
ISBN 978-85-8066-027-2
1. Vida eterna. 2. Morte – Aspectos religiosos. I. Título.
CDD (22ª ed.)
291.23
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Para Charlie e Joey
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ÍNDICE
INTRODUÇÃO
1
O que é o Paraíso?
2
O milagre
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O reino está próximo
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Pastos verdes, verdes
5Ressurreição
6Salvação
7Visionários
8Reencontros
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O paraíso é entediante?
Epílogo
Nota do autor e agradecimentos
Notas
Bibliografia
Referências
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INTRODUÇÃO
H
á alguns anos, eu escrevi uma história de capa, na revista Newsweek,
chamada “Porque precisamos do paraíso” e, no dia anterior à
publicação concordei em dar uma entrevista ao vivo, para um programa
matinal de televisão, para promover a história. No tipo de coincidência
que nós jornalistas às vezes chamamos de sorte, os eventos anteriores
àquele dia fizeram minha história parecer uma profecia. Dez pessoas
tinham sido mortas e cinquenta feridas por um “mártir” do Hamas,
no norte de Israel, e, enquanto eu falava sobre o papel que as visões do
paraíso desempenham no conflito do Oriente Médio – inspiração para
homens-bomba, consolo para as famílias das vítimas – imagens de um
ônibus destroçado e homens em vestes hazmat pipocavam na tela. Eu
era toda engajada enfatizando minhas respostas. Então, como meus três
minutos estavam se esvaindo, o âncora me fez uma pergunta para a qual
eu não tinha uma resposta. Eu devia saber que ela viria.
“Você acredita no paraíso?”
Fui encostada à parede. “Eu gostaria que você não me perguntasse
isso.” Sorri.
A resposta não era simpática, mas era a verdade. A menos que
estejamos correndo para as repartições públicas ou vivendo às margens,
esquerda ou direita, da sociedade, nós americanos nos sentimos
desconfortáveis discutindo detalhes sobre nossas vidas espirituais,
enquanto falamos sobre as honestas satisfações e insatisfações de
nossas vidas sexuais. Segundo pesquisas com eleitores, muitos de nós
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dizemos acreditar no paraíso – e em Deus e milagres e anjos – mas não
pensamos muito no que queremos dizer com isso. Fale sobre o paraíso
num cocktail – levante o assunto como um tópico sério – e observe um
meneio desconfortável nos rostos das pessoas. Dizemos a palavra paraíso
em voz alta só quando estamos murmurando uma oração. Quando uma
criança nos pergunta sobre a morte de um animalzinho de estimação, de
um amigo ou do avô; ou quando nós mesmos enfrentamos a morte – a
nossa própria ou a morte de um ser amado. E ainda, apesar da percepção
de que falar realmente sobre paraíso é, de certo modo, tolo, quase todos
nós – eu inclusive – temos visões do paraíso em nossas cabeças. Essas
visões têm suas raízes na doutrina oficial, em credos cantados e lições
aprendidas na escola religiosa. Elas também têm raízes na cultura: em
pinturas e canções, em brincadeiras e filmes; e nas histórias que nossos
pais nos contaram. Nossas visões do paraíso podem ser baseadas também
em nossas próprias experiências transcendentes – aqueles momentos
na vida quando vemos que o milagre da existência terrena é maior e
mais perfeito que podemos conceber dia após dia. Como eu poderia –
jornalista, especialista em religião, profissional cética – dizer a um âncora
do jornalismo televisivo que eu acredito ter visto o fantasma do meu avô
falecido? Ou que eu imagino o paraíso como algo como uma explosão
de sentimento de amor que eu tive durante uma tarde, cinco meses após
meu casamento, quando meu marido Charlie e eu fomos à praia depois
de uma semana de trabalho exaustivo e nos ferimos com uma espinha
de peixe na ponta de um píer, bebendo cerveja e observando os barcos
ao sol. Eu refiz aquela entrevista televisiva de agosto mil vezes em minha
cabeça, desejando tê-la realizado com mais finesse. Naquele momento,
antes de trabalhar neste livro com afinco, eu teria dito algo como: “a ideia
de paraíso desafia a lógica, mas em minha mente ela representa esperança
e eu acredito na esperança.”
Sobre o que falamos, quando discorremos sobre o paraíso?
Nós, americanos, vivemos numa sociedade que talvez seja a de maior
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diversidade religiosa de todas. O pluralismo está escrito em nossa
Constituição, reside em nossas personalidades; mesmo aqueles de nós
devotadamente comprometidos com uma fé, vemos os direitos dos
nossos vizinhos de praticar outra fé como sacrossantos. Quando estava
se candidatando à presidência, em 1960, John F. Kennedy defendeu
sua fé Católica Romana contra acusações de que ele era um papista.
Agredir a religião de alguém – católica, quaker ou judaica – era não
americano –, ele disse: “A liberdade religiosa é tão indivisível que uma
ação contra uma igreja é tratada como um ato contra todas.” Perto de
80 por cento dos americanos dizem aos eleitores serem cristãos, mas
a uniformidade para por aí. Os americanos são protestantes liberais e
protestantes conservadores; são católicos romanos e ortodoxos orientais.
(Definições e marcas, como são, carregam muito significado. Escreva
uma história sobre os mórmons chamando-os de “cristãos” e receba uma
caixa de e-mail cheia de explicações evangélicas mostrando que não são
cristãos; escreva uma história que difira os mórmons de outros cristãos
e sua caixa de e-mails estará cheia de mórmons, explicando como eles
são cristãos.) Os americanos também são não cristãos. Graças às ondas
de imigração, nos últimos 150 anos, do Leste Europeu, Ásia, sul da
Ásia, o Oriente Médio, as Índias Ocidentais e África, eles também são
judeus, muçulmanos, hindus, budistas, bahais, zoroastrianos, santerías,
jainistas, pagãos, feiticeiros, new ages, ateus, agnósticos, seculares e
proscritos. Na América, todas essas seitas religiosas vivem pacificamente
– na maioria – juntas.
O direito à liberdade de expressão religiosa que nos foi dado pelos
fundadores protegeu, em primeiro lugar, um tipo de pluralismo paroquial
entre os protestantes, desde o ceticismo racional de Thomas Jefferson até
a teimosa piedade de John Adams. Mas o número de religiões manifestas
na América explodiu nos últimos dois séculos, e a abertura constitucional
americana à crença das outras pessoas significa que a experimentação
religiosa – “experimentar” certas crenças, descartando aquelas que não
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satisfazem – agora está disseminada. Conforme um levantamento de
2007 pelo Fórum Pew sobre Religião e Vida Pública, 28 por cento dos
americanos praticam uma religião diferente daquela onde cresceram (e
se você incluir pessoas que mudaram de uma denominação protestante
a outra, o número aumenta para 44 por cento). Também segundo Pew,
65 por cento dos americanos acreditam que muitos caminhos religiosos
diferentes podem levar à salvação eterna.
Há muito tempo, em 1831, Alexis de Tocqueville reclamava sobre
o que via como a superficialidade da prática religiosa americana. Os
americanos, ele observou, “seguem uma religião do modo como seus
pais se automedicavam – se não fizer bem, pareciam dizer, mal não fará.”
Essa disseminada erosão da ortodoxia – deplorada por todos, desde
o Dalai Lama ao Papa Bento XVI – foi acelerada pelo surgimento dos
mundos espirituais virtuais, onde as pessoas têm fácil acesso a religiões
diferentes das suas, diz Rodger Kamenetz, autor de O Judeu no Lotus.
Muitos americanos de mentes religiosas agora se sentem perfeitamente
confortáveis abraçando mais de uma tradição religiosa ao mesmo tempo.
Assim, um menonita que casa com um judeu e frequenta uma igreja
episcopal progressiva, ou o cristão casado com uma Sikh, que manda
seu filho para uma pré-escola islâmica. “Não estamos mais vivendo numa
vizinhança episcopal ou numa vizinhança judaica,” Kamenetz me disse
uma vez, “É fácil olhar através da cerca e ver o que as outras pessoas estão
fazendo.”
Em boa parte da Europa Ocidental, o cristianismo está em declínio
– as grandes catedrais medievais permanecem vazias, exceto por turistas
– e um tipo de sério secularismo tomou seu lugar. Na França, Bélgica,
Países Baixos e na República Tcheca, em torno de um terço da população
diz ser ateu. Na América é diferente. Valorizamos nossa religiosidade
– mais de 90 por cento dos americanos dizem acreditar em Deus, um
percentual que não mudou significativamente em sessenta anos – mas
a natureza dessa religiosidade muda com os tempos. Denominações
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aumentam e diminuem, enquanto outros movimentos religiosos surgem
para preencher os lugares vazios. Na América, episcopais, metodistas e
batistas estão perdendo membros, enquanto igrejas não denominacionais,
pentecostais, budistas e pessoas que dizem não pertencer a “nenhuma
religião em particular” estão ganhando. Pesquisas como a de Pew
são úteis, mas nem todas são compatíveis, pois não incluem práticas
espirituais populares, mas não convencionais (yoga, programas de 12
passos, cientologia) e não contam com fenômenos como os cinco milhões
de pessoas que compraram O Segredo, o bestseller de 2006 que defendeu
o poder do pensamento positivo.
Tal diversidade apresenta um problema para o paraíso, uma ideia – ou
realidade, dependendo de sua visão – que nunca tenha sido caracterizada
por consenso ou clareza. Mesmo a Bíblia não provê uma visão única,
coerente da pós-vida. Estudiosos, teólogos, escritores, rabinos e poetas
questionam o paraíso – onde fica, como se parece, quem o alcançará
– desde sempre as pessoas começaram a falar sobre ele, às vezes e em
locais onde a prática da religião era muito mais uniforme do que hoje.
Assim, quando 81 por cento dos americanos respondem às pesquisas
acreditando no paraíso, mais do que os 72 por cento de dez anos atrás,
é difícil saber exatamente o que querem dizer – além de uma esperança
automática e compreensível por alguma coisa além da morte, além do
assustador fim de tudo.
Uma vez namorei um cristão evangélico que me disse, já tarde da
noite, num bar, com um conhaque, que ele acreditava que no paraíso
ele veria o menino Jesus. Eu fiquei incrédula. Por que o menino Jesus,
perguntei. Por que não Jesus, à idade de sua morte? Por que não Jesus
como um cordeiro, ou como rei, ou um guerreiro heroico? Meu namorado
insistiu: no paraíso o Senhor Jesus seria uma criança.
Minha boa amiga Katty, uma frequentadora da igreja, uma católica
apostólica romana de mente progressista, uma vez me confidenciou que
sua imagem do paraíso é algo como um apartamento de solteiro com
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paredes de vidro com um interminável tapete fofo branco; quando você
derrama alguma coisa, não mancha o tapete. No bestseller The Lovely
Bones, Alice Sebold pinta um quadro do ambiente do paraíso para uma
garota de quatorze anos: parece um colégio gigantesco, circundado
por campos de flores. Filhotes e cães de todas as raças correm pelos
gramados, e Susie, a garota de quatorze anos, pode tomar sorvete
quando quiser. Sebold cresceu numa família rígida episcopal, indo à
igreja todos os domingos e ela criou especificamente um paraíso que
não tinha regras: sem regras para entrar e sem regras para quando você
chegasse lá.
Antes que os leitores ortodoxos deixem este livro de lado, confortem-se. Apesar de nossa diversidade religiosa e nossa promíscua abordagem
à identidade religiosa, nós americanos somos também profundamente
conservadores e os dados mostram que nosso conservadorismo está
em alta. As mais bem-sucedidas denominações dos dias de hoje são as
que ensinam a Bíblia como a Palavra infalível de Deus – as Assembleias
de Deus, por exemplo, e as Testemunhas de Jeová requerem de seus
membros uma rígida conformidade a certas regras de estilo de vida.
Independentemente de onde se posicionem em questões de infalibilidade
bíblica, muitas visões de americanos sobre o paraíso têm raízes na tradição
judaico-cristã, na Bíblia, especificamente, e nas imagens e interpretações
da Escritura, disseminadas através dos séculos via arte e cultura. Quase
todos concordariam que falar sobre o paraíso cai na categoria de o que
é – ou o que se imagina ser. Os melhores relatos são meras aproximações.
Não é meu trabalho, nem a minha intenção, provar ou desmerecer a
realidade de qualquer visão.
Quando falamos sobre o paraíso, muitos de nós queremos dizer
a mesma coisa. Paraíso é um lugar perfeito. É o lar de Deus e uma
recompensa por viver o tipo certo de vida. No paraíso, vivemos para
sempre. Esse conceito de paraíso foi inventado na Judeia em torno de
200 a.C. Isso mudou com Cristo e novamente com Maomé – então,
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com os estudiosos da Idade Média, os pintores da Renascença, os
revolucionários da Reforma. Para a América, os Puritanos trouxeram
com eles um tipo de paraíso – austero e sinistro – e esse paraíso mudou
durante a Guerra Civil, quando 620 mil homens americanos morreram,
deixando suas filhas, esposas, irmãs e mães sem pais e maridos e irmãos
e filhos. Mudou novamente com o Racionalismo do início do século XX
e novamente com o cataclisma da Segunda Guerra Mundial. Na América,
somos herdeiros de todas essas concepções; quando pensamos sobre o
paraíso, cada um de nós inconscientemente mergulha de volta no tempo,
nos salpicamos, melhoramos o que encontramos lá em nossas próprias
histórias, nossas próprias ideias de perfeição. Ann Dixon, uma amiga
da família por três décadas, cresceu como luterana restrita, mas desde
então abandonou qualquer vida religiosa formal. Ela vive em Vermont
onde se alimenta de sua própria horta e cozinha. Ela me disse que em seu
paraíso, haveria todo o tipo de deliciosos sabores do mundo: “queijos”,
ela disse, “e frutinhas frescas e vinho.” Estamos de acordo, na essência.
Disputamos eternamente os detalhes.
A palavra paraíso seria uma substituição para um mistério
sobrenatural que nunca compreenderemos enquanto vivermos na
Terra? Ou ele é, como a filha de Billy Graham, Anne, diz, um lugar
real, cujas fronteiras poderíamos alcançar se soubéssemos como chegar
lá? Estaremos “nós mesmos” no paraíso? Manteremos nossos corpos?
Poderemos ver nossos seres amados? Poderemos ver Deus? Poderemos
comer, beber, fazer amor? Como se pode chegar lá? Como ele se parece?
Uma cidade? Um jardim? Um lugar estático além dos planetas, como
Dante imaginou, iluminado pela luz de Deus? Ou o paraíso é algum tipo
de jornada abstrata até o amor perfeito, o perfeito conhecimento ou a
perfeita verdade? Com o crescente fundamentalismo e a religião cada vez
mais à frente e no centro da vida pública, algumas dessas questões não
pertencem somente a pensadores, mas estão no coração de um conflito
global rebelde. Os judeus irão para o mesmo paraíso dos islâmicos? Os
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evangélicos “salvos” pertencerão ao mesmo lugar que os católicos da
Páscoa e Natal?
Livros excelentes, ainda que populares, foram escritos antes sobre
o paraíso. Dois destaques, escritos por notáveis estudiosos: um deles,
Heaven: A History, de Colleen McDannell e Bernhard Lang, uma visão
geral do paraíso cristão, como ele mudou em dois mil anos; outro: Vida
após a Morte: uma História da Pós-Vida nas Religiões Ocidentais, de Alan
Segal: um olhar erudito e abrangente à evolução da ideia do paraíso desde
seu início no Antigo Oriente. Para quem estiver interessado na história
do paraíso, esses dois volumes são indispensáveis. Mais recentemente,
apologistas ortodoxos publicaram livros que defendem a ideia do paraíso
como real, contra o que eles veem como a corrosiva influência do ateísmo,
do secularismo e do diletantismo religioso. Entre esses: Jerry Walls, um
cristão evangélico; Jeffrey Burton Russell, um católico romano; e Jon
D. Levenson, um judeu tradicional praticante. Do lado popular, dois
bestsellers – As Cinco Pessoas que Você Encontra no Céu, de Mitch Albom
(mais de seis milhões de cópias impressas) e, de Don Piper, Noventa
Minutos no Céu (mais de três milhões) – mostram como os leitores dessa
corrente estão ansiosos por ideias sobre o paraíso, que possam inspirar
ou consolar.
Este livro é diferente. Não sou uma estudiosa, uma apologista
religiosa ou uma escritora inspiracional; não é meu objetivo dizer
definitivamente com que o paraíso se parece, ou ainda, provar ou não
provar sua existência. Sou uma jornalista no campo da religião e meu
objetivo é escrever um livro que possa guiar as pessoas pela mata cerrada
de suas próprias visões sobre o paraíso, segurando um espelho das
crenças atuais e passadas de outras pessoas. O livro se baseia em três
caminhos, na maior parte do tempo, paralelos. Primeiro: espero mostrar
a dramática amplitude das visões americanas contemporâneas sobre o
paraíso, através de quadros escritos de pessoas reais – desconhecidas e
famosas, ortodoxas ou não, que encontrei em meu trabalho e em minha
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pesquisa para este livro. Segundo: espero mostrar como essas visões
refletem ou não o ensino oficial, qualquer que seja. Por último, espero
mostrar que cada questão que um leitor “cabeça pensante” possa ter
sobre o paraíso já foi feita – e respondida – antes, por outras pessoas em
outros tempos e lugares. A conversação sobre o paraíso no Ocidente vem
de mais de vinte séculos; é um debate turbulento com temas comuns –
esses temas dão nome aos capítulos deste livro – e nenhum consenso
à frente. Com meus olhos mentais, comecei a ver as pessoas que mais
contribuíram para nossas modernas concepções – os autores de certas
passagens bíblicas, Agostinho, Aquino, Michelangelo e Calvino, juntos
com os salmistas, cartunistas do New Yorker, e diretores de Hollywood
– sentados numa sala de jantar de um colégio, em golas olímpicas,
analisando e ponderando sobre questões celestiais. Como sempre, meu
trabalho é ouvir a conversação e relatar o que for interessante.
Espero que os leitores encontrem aqui ideias sobre o paraíso,
novas e surpreendentes. Um cético pode dar um passo atrás com
temor, como eu fiz, diante do número de brilhantes filósofos e poetas
ao longo da história que apaixonadamente acreditaram na ressurreição,
literalmente. Um protestante liberal pode olhar para trás com apreço
por certos católicos romanos medievais para quem as “boas ações”
interessavam no mínimo tanto para o caminho ao paraíso, quanto o
que hoje é conhecido como “um relacionamento pessoal com Jesus
Cristo.” Barack Obama é esse tipo de pessoa; ele é protestante, mas
evita a sabedoria convencional nos círculos evangélicos de que um
relacionamento pessoal com Jesus é tudo que se precisa para chegar
ao paraíso. “Sou um crente sincero, mas não só com palavras, disse
o então Senador Barack Obama ao meu colega da Newsweek, Richard
Wolffe e a mim, no seu plano de campanha, “mas também com
comprometimentos e ações.” Minha sogra, Millicent Lynn cresceu como
metodista em Minnesota. Ela se converteu ao catolicismo quando se
casou e costumava pensar no paraíso como um lugar no céu onde Deus
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se assenta num trono. Agora, após dois divórcios, um infeliz abandono
dos caminhos do catolicismo e alguma exposição ao ritual Celta e aos
ensinamentos de projetos da New Age, como Marianne Williamson,
ela acha que o paraíso é mais parecido com “um lugar onde as almas
vão para serem energizadas.” Ela ficou atônita por aprender que Platão
e certos judeus ortodoxos acreditavam muito na mesma coisa.
Certas pessoas ao longo da história – profetas, visionários, aqueles
que tiveram experiências próximas da morte – afirmam ter visto o
paraíso, e eu trato esses testemunhos como muito importantes ou mesmo
como histórias inspiradas, não como relatos factuais. Não acredito que
saibamos, de algum modo empírico, algo real sobre o paraíso. Sem tal
evidência, a história do paraíso diz tanto sobre os crentes quanto sobre a
crença – pois como as pessoas imaginam, o paraíso muda o que são e como
vivem. No hino de louvor “Swing Low, Sweet Chariot,” a palavra home
[casa], no refrão “vindo nos levar para casa”, significa “paraíso”, claro.
Mas também significa a cidade de Ripley, Ohio. Voluntários rebeldes da
estrada de ferro de Ripley ajudavam a transportar os fugitivos através do
Rio Ohio, da escravatura para a liberdade. Para os escravos americanos,
o paraíso era o lar, o lar era a liberdade, a liberdade estava em Ripley. Em
1950, num pico da prosperidade americana, o evangelista Billy Graham
visualizava um paraíso diferente, um tipo de sonho bucólico, suburbano.
“Nós iremos nos sentar perto de uma fogueira e ter festas, e os anjos nos
protegerão,” ele disse, “e nós passearemos pelas ruas douradas num
Cadillac conversível amarelo.”
No século VII, Maomé deu a seus crestados seguidores, que viviam
num lugar sem água, onde as temperaturas do verão regularmente subiam
a mais de cem graus, um paraíso inundado, entrecortado por rios, fontes
e frutas maduras. Mais de mil anos depois, os homens-bomba suicidas no
West Bank estão colocando suas esperanças num paraíso que inclui não
somente água e sofás para descanso, mas também setenta e dois olhos
negros de virgens prontas a realizarem sonhos eróticos para cada mártir.
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O paraíso é “uma série de símbolos”, diz Kevin Reinhart, professor
associado de religião islâmica em Dartmouth. As setenta e duas amantes
são “o tipo de coisa que você diz para rapazes excitados de dezoito anos
que estão para explodir.”
Este livro focaliza os três monoteísmos ocidentais – judaísmo,
cristianismo e islamismo porque eles compartilham tanta história e
tantos conceitos religiosos, e porque o tópico é grande o bastante sem
tentar englobar tudo. Eu dei maior espaço à história cristã porque essas
imagens tiveram o maior impacto no imaginário coletivo americano. Não
sou tão ingênua a ponto de esperar que este livro venha a ter um efeito
unificador. As pessoas que acreditam terem encontrado o único caminho
verdadeiro para o único paraíso verdadeiro, pouco provavelmente serão
persuadidas a seguir outro, mas talvez este livro venha dar às pessoas que
estão lutando para esclarecer em que acreditam, sobre a pós-vida, alguns
conceitos para considerarem e algum senso sobre o que suas tradições
fazem e não oferecem. Espero que venha dar, mesmo aos leitores
seculares, um senso de conectividade com os crentes do passado e
fornecer-lhes uma ocasião para a autorreflexão. O que as pessoas pensam
sobre o paraíso revela muito sobre quem elas são.
De acordo com as pesquisas, mais americanos acreditam agora no
paraíso do que há dez anos. Um levantamento do Instituto Gallup de 2007
relatou que 81 por cento dos americanos dizem acreditar no paraíso, mais
do que os 72 por cento de 1997. Naquele ano, a revista Time publicou
uma história de capa dizendo que a crença no paraíso estava morta. Os
pregadores não estavam falando sobre o paraíso, o artigo dizia; os jovens
em treinamento para serem pregadores não aprenderam sobre o paraíso
nos seminários. Mesmo os evangélicos tratavam o assunto – perfeição
e justiça eternas – como algo embaraçoso. Além disso, quem precisa
de paraíso quando a vida na terra é tão boa? Em 1997, o baixo índice
de desemprego chegou a seu vigésimo oitavo ano e o índice Dow Jones
excedeu 7.000. Titanic era o filme do ano e Celine Dion arrebanhou o
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Grammy, ganhando três prêmios, inclusive o álbum do ano. “O paraíso,”
disse o artigo da Time, “está EXTINTO.”
Quando comecei a cobrir a religião americana para o Wall Street
Journal, em 1998, o auge era um retrocesso. O direito religioso
fornecia matérias para repórteres políticos, mas por outro lado,
ninguém pensava que a história religiosa tivesse qualquer importância
real; a brincadeira era que quando os jornalistas estavam para serem
detonados, eles recebiam uma coluna sobre jardinagem ou uma sobre
religião. O passo seguinte era um relógio de ouro e uma festa com bebida
de graça e cascatas de camarões. Os crentes americanos ficavam, na
maioria, salvos dentro dos parâmetros definidos para eles pelas classes
dos tagarelas; os escritores religiosos os cobriam como curiosidades
culturais. Havia os fundamentalistas cristãos, que tentavam influenciar
a política pública com questões como aborto e casamento gay. Havia
guetos ortodoxos em cada denominação: judeus, mórmons, anabatistas
que se retiravam da sociedade para viver uma vida pura conforme as
Escrituras. Havia os “buscadores” que deixavam a fé de suas infâncias
para seguirem gurus da Nova Era ou para praticarem um novo tipo
de espiritualidade híbrida: os “jubus” – o plural de jubu, significando
um judeu que praticava o budismo – era a história do momento. De
vez em quando uma pessoa ou grupo religioso fabricava títulos para
novidades ou comportamento incendiário. Os guardiães da promessa
chamaram a atenção do país: milhões de homens evangélicos, na
maioria branca, diziam querer ser melhores maridos e pais. Jerry
Falwell, sempre um agitador, berrava que Tinky Winky (uma grande e
púrpura personagem da TV infantil) era gay. Procurei cobrir a religião
americana pela perspectiva das pessoas comuns lutando com a fé; eu
acreditava apaixonadamente então (e ainda acredito) que as pessoas
queriam falar a respeito – e ler a respeito – das “grandes questões da
vida”. Meus editores me apoiavam, mas em geral a religião não era o
que eles chamariam de uma grande manchete.
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A religião encontrou seu lugar permanente nas páginas frontais, no
“11 de setembro” de 2001. Como não poderia? Nós americanos assistimos
ao vivo pela televisão, enquanto as pessoas acordavam, centenas de
histórias sobre mortes, quando – incrivelmente – aquelas torres enormes
se esmigalharam no chão. Nos dias seguintes imaginamos as três mil
mortes terríveis, uma a uma, enquanto líamos, com lágrimas correndo por
nossas faces, sobre as últimas ligações, mensagens de e-mails, e correios
de voz. “Não se esqueça de pegar Johnny no colégio. Jane precisa de novos
sapatos. Eu te amo.” Mesmo os cínicos que nunca deram um segundo de
seu pensamento a Deus ou ao paraíso estavam agora de joelhos.
Aprendemos, com horror e descrença, que os homens responsáveis
por esse cataclisma imaginavam estar seguindo instruções de Deus. Eles
eram mártires, pensavam que seriam recompensados, após a explosão,
com o paraíso: “vocês estarão começando uma vida mais feliz, uma vida
eterna,” mostrava uma nota escrita à mão, encontrada na bagagem de
Mohammed Atta logo depois que ele pilotou o American Airlines 11 para
dentro das Torres Gêmeas. “Tenha isso em mente se você se encontrar
em um beco sem saída.” Meu antigo colega do Wall Street Journal, Paul
Barrett, se descreve sentado à sua mesa no departamento de editorial, nas
semanas após o ataque, tentando imaginar os significados de palavras
novas estranhas: jihad, sharia, hadith. “Eu nunca realmente tinha
pensado de todo sobre o Islã,” ele disse numa conversa por telefone. “Eu
tinha poucas ideias sobre quem eram os muçulmanos, neste país, ou
como eles adoravam, ou como se relacionavam com outros americanos.”
O que se seguiu foram anos de aprendizado e revisão por jornalistas como
Paul e eu – separando as crenças dos islamitas radicais dos muçulmanos
americanos que viviam na casa ao lado, tentando, como todo mundo,
mandar seus filhos para o colégio. No “11 de setembro”, a religião deixou
as províncias das prioridades culturais americanas e tomou seu lugar ao
centro. Por causa dos ataques terem causado tantas mortes desnecessárias
e inexplicáveis, o paraíso estava sempre por perto.
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Seguiram-se anos de livros populares, filmes e canções que aludiam
abertamente ou obliquamente à morte e à esperança do paraíso. Algumas
eram sobre o “11 de setembro”. Muitas não eram. Havia “Os Amados
Ossos”, claro. Em 2002, Bruce Springsteen lançou um álbum que
eventualmente vendeu dois milhões de cópias, chamado “The Rising”,
um tributo aos que morreram no “11 de setembro”. A canção-título
descreve a própria versão de Springsteen sobre o paraíso, um lugar onde
as crianças – puras em pensamentos – dançam num céu brilhante. Anne
Graham Lotz, a segunda dos cinco filhos de Billy Graham, estava já
escrevendo um livro sobre o paraíso, inspirado na morte de um amado
cunhado com um tumor cerebral, mas após o “11 de setembro”, ela diz,
esses pensamentos assumiram uma nova urgência. Ela, como todos na
América, assistiu à queda das torres pela TV e foi levada a pensar que
muitos dos três mil “subiram para a eternidade sem conhecer Jesus.” Seu
livro “Heaven: My Father’s House” é uma tentativa de consolar a todos os
enlutados com a visão de que um acolhedor e confortante paraíso é uma
certeza, se apenas você conhecer o Senhor Cristo.
O paraíso continua a ser um assunto para escritores e artistas.
Em 2005, o ganhador do Prêmio Pulitzer para ficção foi Gilead, de
Marilynne Robinson. No romance, um ministro ancião escreve uma
carta para seu filho jovem, com plena certeza de sua morte iminente e
medita frequentemente sobre a natureza do paraíso: “Boughton (o melhor
amigo do narrador, também idoso) diz que ele tem mais ideias sobre o
paraíso a cada dia. Ele disse: ‘Em essência, penso sobre os esplendores
do mundo e multiplico por dois. Eu teria multiplicado por dez ou doze se
eu tivesse a energia. Mas dois é mais que suficiente para meus propósitos.’
Assim, ele está sentado lá, multiplicando o sentimento do vento por dois,
multiplicando o cheiro da grama por dois.”
Na academia e no púlpito, os crentes se alimentaram com o que
viram como uma abordagem politicamente correta do tipo algo acontece
à religião em geral e ao paraíso em particular entre seus colegas e alunos,
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empenhados com trabalhos de pesquisa para mostrar que o cristianismo,
o judaísmo e o islamismo – eram sem sentido, sem uma crença real num
paraíso real. Walls, Russell e Levenson são, de um modo ou de outro,
parte desse movimento. Mais recentemente, o bispo anglicano de
Durham, Inglaterra, N T. Wright, escreveu um livro chamado Surprised
by Hope: Rethinking Heaven, the Resurrection, and the Mission of the
Church, em que ele argumenta que a crença em Cristo requer uma crença
que a ressurreição realmente aconteceu – o homem morto voltou à vida
como Deus e deu a salvação a todos que o seguiram. Wright usa a toga
púrpura de um bispo anglicano e fala ironicamente do espanto que seus
ouvintes expressam quando ele lhes conta que precisam pensar sobre a
ressurreição de Jesus como um evento real da história. “As pessoas ouvem
com muita frequência que a ressurreição é só uma metáfora,” ele contou
ao meu editor Jon Meacham e a mim, numa entrevista para a Newsweek.
“Em outras palavras, [Jesus] foi para o céu, o que quer que isso signifique.
E eles nunca perceberam que a palavra ressurreição simplesmente não
quer dizer isso. Se as pessoas [no primeiro século] quisessem dizer que
Ele morreu e foi para o paraíso, elas teriam boas maneiras de dizer isso.”
Falando estritamente por mim mesma, o “11 de setembro” marca
uma fronteira em minha psique e memória. Tudo antes parece brilhante,
tolo, ingênuo. Quase tudo depois – e esses dias mais que nunca –
senti como pesados, com significado e mortalidade. Essa mudança de
perspectiva é parcialmente devida às minhas próprias circunstâncias
mudadas, o inevitável efeito da meia-idade e as responsabilidades da
maternidade. Penso constantemente, como nunca fiz antes, em minhas
preciosas bênçãos e na terrível fragilidade da vida. Novas histórias sobre
mortes cruéis ou ao acaso – meninos pequenos abandonados famintos
nos porões em Newark e acidentes com aviões de passageiros em North
Carolina – me parecem mais assustadores, me afetando mais que antes.
Enquanto acabava de escrever este livro, o filho do meu amigo Jerry,
Max, morreu num terrível acidente. Jerry está aguentando, mas sua dor e
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luto obliteram todo o resto quando estamos juntos. Coisas impensáveis, a
presença de Jerry em minha vida me lembra, podem acontecer a qualquer
um a qualquer momento.
Mas não estou só na minha visão cruel. Não é que meu mundo
pareça mais precário; é que nosso mundo é mais precário – com guerra
no exterior e recessão em casa e tudo ficando cada vez mais quente.
Mesmo antes do colapso da economia global em 2008, um título de
capa da revista Economist dizia “América Infeliz” e mostrava a estátua
da liberdade atordoada. Estamos preocupados com nossos empregos;
nossas economias e contas de aposentadoria; o valor de nossos lares; o
custo da saúde, o cuidado com as crianças, armazém, gasolina e colégio.
Vemos claramente que nossos filhos viverão num mundo muito menos
hospitaleiro do que aquele em que fomos criados. Estamos preocupados
com o destino de outras pessoas, morrendo de fome e doenças e AIDS.
Estamos preocupados com os conflitos no exterior, os inocentes mortos.
Estamos envelhecendo. Mais de 12 por cento dos americanos têm mais de
sessenta e cinco anos, segundo o Censo dos Estados Unidos, um número
que aumentará para 20 por cento por volta de 2030 – e nada focaliza
melhor a mente na pós-vida, para parafrasear um velho ditado, como a
proximidade da morte. Segundo a pesquisa Pew, mais americanos estão
se voltando à oração, do que ocorria há quinze anos.
O escritor, ateu e neurocientista, Sam Harris tem isso como certo.
Acreditar em Deus – e no paraíso – é acreditar no sobrenatural. Ele o
disse de modo ridículo: acreditar em Deus é como crer no “monstro do
espaguete voador, mas você pode colocar isso de outra forma. Acreditar
em Deus requer o que Samuel Taylor Coleridge chamou de “aquela
interrupção por livre vontade da descrença, um abraço no desconhecido,
no inexplicável, no misterioso”. Qualquer cristão, muçulmano ou judeu,
concordaria com essa afirmação. A história de Jesus, da divisão do Mar
Vermelho, a história da visita do anjo a Maomé adormecido na caverna
– o crente toma todos esses relatos como verdade, com V maiúsculo,
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mais verdadeira do que o mundo em que vivemos e podemos ver todos
os dias. Assim é com o paraíso. Harris foi levado a escrever A Morte da
Fé, sua polêmica obra contra a religião e seus aspectos destrutivos, nos
dias após o “11 de setembro”. Tempos difíceis o conduziram a assumir
uma pesada posição contra Deus. Mas outras pessoas olham o estado do
mundo, os milhares de homens e mulheres americanos mortos no Iraque
e Afeganistão, as notícias de pais chineses segurando fotos de seus filhos
mortos, esmagados, quando suas frágeis escolas foram destruídas num
terremoto e eles querem crer numa ajuda sobrenatural. Em benefício do
meu amigo Jerry, quero acreditar em milagres. É o bastante para me fazer
orar.
Logo que comecei a pesquisar este livro, alguns amigos me
convidaram para jantar. “Posso fazer uma pergunta estúpida, mas
importante?” me perguntou Jim, um conhecido escritor de ciência e ateu.
(Oh, não, pensei). “você vai tratar o paraíso como um fato? Ou como
um mito à medida que ele muda ao longo da história?” Eu tomei essa
pergunta do jeito que ela era: uma advertência de que, para ter alguma
credibilidade com os leitores, eu teria que ser clara sobre se eu realmente
acredito no paraíso. Eu não estava mais articulada com Jim do que estava
naquela manhã na televisão.
Eis os fatos relevantes. Eu sou judia. Meus avós maternos e minha
mãe fugiram da Antuérpia, em maio de 1940, no dia que os nazistas
começaram a bombardear a cidade – minha mãe tinha três anos –
então eu cresci num lar tão assimilado que não frequentávamos uma
sinagoga, não tivemos bar ou bat mitzvahs, não aprendemos hebraico,
embora celebrássemos Chanukah, Pessach e normalmente os grandes
Dias Santos. Diferentemente do lado paterno da minha família – judeus
bem estabelecidos do Oriente Médio – não acordávamos na manhã de
Natal com um coração cheio de presentes. Casei-me com um homem
batizado como católico, mas agora não é mais crente. Fomos abençoados
por um pastor episcopal. Ele é um bom amigo e sentimos que seu amor
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por nós nos traria mais significado ao culto (que ele criou fundindo as
tradicionais cerimônias cristãs e judaicas) do que um padre ou um rabino
com quem ele não tinha qualquer ligação – e ele tinha. Consideramos
nossa filha Josephine como judia. Frequentamos um templo da Reforma,
perto de nossa casa, e durante anos nós a enviamos a uma escola ligada a
esse templo; depois da escola, nossa babá pentecostal contou-lhe sobre o
Espírito Santo. Trocamos presentes em Chanukah e no Natal colocamos
mais presentes debaixo da árvore.
Da minha mãe herdei minha identidade judaica, um judaísmo ligado
à preparação das comidas cerimoniais (peito de frango, sopa de galinha) e
a um profundo senso de tradição: se meus avós não tivessem escapado da
Europa, eu não estaria aqui. Do meu pai, um virologista da Universidade
de Yale, eu herdei tanto a impaciência por explicações insuficientes
quanto uma reverência pela beleza e perfeição inexplicáveis do mundo
natural – e pelas habilidades inspiradas dos humanos que vivem nele.
Esse sentimento de reverência é o que eu sempre chamei de Deus.
Como tantos americanos, então, eu abordo a religião de um modo
nada tradicional, e, como muitos, eu lutei com o que acreditava sobre o
paraíso. Quando criança, eu costumava imaginar que via a face de Deus
nas nuvens, no céu, mas quando cresci eu achei esse jogo insatisfatório.
Palavras como eternidade e bem-aventurança não tinham poder sobre
mim. Eu acreditava que as pessoas ruins podiam fazer coisas terríveis
e desfazê-las, então a “justiça cósmica” desafiava meu pensamento
racional. Qualquer visão tradicional do paraíso – anjos flutuando nas
nuvens e dedilhando harpas, reencontros familiares, visões de Deus,
salas do trono, cidades com portais – falharam em me inspirar, embora
pinturas antigas de tais visões me deixem fascinada. Felizmente, na
minha pesquisa para este livro, encontrei respostas – crentes cujas
visões fizeram o paraíso parecer possível, ou no mínimo compreensível,
teólogos e estudiosos cujas explicações foram, para mim, comoventes e
memoráveis. As fontes da minha inspiração eram improváveis, porque
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na maioria vieram de crentes cuja fé religiosa não se entrosa claramente
com a minha. Penso em Jon D. Levenson, o professor de Harvard que me
instruiu a não pensar muito sobre as mecânicas para chegar ao paraíso,
mas colocar minha fé num Deus que pode realizar coisas sobrenaturais.
Penso no padre Dominic Whedbee, um monge trapista que vive em
reclusão no centro de Massachusetts e ora o dia inteiro pela salvação de
todas as almas no mundo, inclusive a minha. Penso no rosto do professor
da Yale, Peter Hawkins, quando descreveu seu paraíso: um concerto de
Bach que o deixa encantado não importando quão pouco você saiba sobre
música clássica. Seu cálice de vinho está ao seu lado, o sol está se pondo
sobre sua varanda no centro de Boston e seu rosto bonito demonstra um
tolo e brilhante sorriso. O ponto inicial para qualquer conversação sobre
paraíso, ele me lembra, é a fé.
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PARAÍSO
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UM
O QUE É O PARAÍSO?
E
nquanto terminamos nossa salada de lula, o padre solta suas piadas
sobre o paraíso. Ele não está usando sua gola clerical, só uma camiseta
de mangas curtas, do tipo que você compra em qualquer loja de roupas
esportivas e faz brincadeiras com a facilidade de uma pessoa que tem o
dom de fazer as pessoas rirem. Se você pode chamar um padre de agitado
– e eu acho que você pode – este é desse tipo. Ele conta uma piada sobre
o papa Bento XVI e os teólogos dissidentes que subiram ao céu para
esperar por seu julgamento. Tem aquela sobre o papa João Paulo II, no
céu, barganhando com Deus sobre qual dom dar ao povo de fé na terra.
E então tem a outra sobre o padre jesuíta e o padre franciscano
que seguem numa viagem para a Flórida e sofrem uma batida de um
caminhão. As nuvens se abrem, os portões perolados aparecem e os dois
padres estão do lado de fora antecipando ansiosamente seus destinos
eternos. Os portões se abrem e um tapete vermelho se desenrola diante
deles magicamente e para aos pés do jesuíta que se coloca nele, enquanto
todos os santos se aproximam pelo tapete e o abraçam. Um coro de anjos
começa a cantar. Então um tapete azul rola por cima do tapete vermelho
e a Virgem Maria aparece. Finalmente, um tapete branco rola sobre os
outros dois e o próprio Jesus se aproxima através dos portões. Juntos, o
alegre grupo – os santos, a Virgem, o Senhor e o feliz jesuíta – se voltam
e entram na Cidade de Deus. Os portões se fecham.
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O franciscano, confuso, é deixado só. Finalmente, uma pequena
porta de madeira em uma das paredes de pedras preciosas se abre e
um monge, vestindo um hábito surrado o chama para entrar. “O que é
isso?” – pergunta o franciscano. “Estou feliz de estar aqui e tudo o mais.
Não estou reclamando, mas meu amigo, o jesuíta, teve tapete vermelho e
tapete azul e tapete branco, foi recebido pelos santos e coro de anjos e foi
cumprimentado pela Virgem Maria e o próprio Senhor.”
Seu hóspede lhe deu alguns gentis tapinhas nas costas e enquanto
os dois entravam na cidade santa, ele disse: “é o primeiro jesuíta que eles
viram por aqui em cinquenta anos.”
Engasguei de tanto rir e meu companheiro, que não se surpreende,
é um jesuíta, sorriu um sorriso amarelo, mas alegre. Padre James
Martin – Jim para seus amigos – sabe bem como a ideia do paraíso
parece louca a qualquer pessoa com uma mente racional. Martin, que
possui um diploma de bacharel da Escola Wharton da Universidade
da Pensilvânia, trabalhou na General Electric antes de ter decidido,
há mais de duas décadas, se tornar padre. Martin veio do trabalho,
numa tarde, insatisfeito e despedido, e ligou a TV na estação PBS para
encontrar um documentário sobre o famoso monge americano e escritor
espiritual Thomas Merton. Ele começou a pensar seriamente sobre
dedicar sua vida a Deus. Agora, o editor de cultura da revista jesuíta,
America, e autor de suas memórias espirituais, My Life With the Saints,
Martin, é um católico urbano, conhecedor da mídia, uma das pessoas
que os jornalistas convidam frequentemente para dar sua perspectiva, ou
citações mordazes, quando o papa vem à cidade ou quando o Vaticano
emite uma afirmação incompreensível sobre uma questão politicamente
explosiva – a adesão oficial de um bispo que nega o Holocausto, ou alguma
outra explicação da reação do Vaticano ao escândalo da pedofilia nos
Estados Unidos. A brincadeira de Martin sobre o paraíso é engraçada,
claro, porque no mundo católico, os jesuítas têm a reputação de serem
mais mundanos que outros padres. Eles tendem a ser irreverentes e
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antiautoritários. Quando um padre arranja problemas por falar contra o
Vaticano ou ensinar uma visão não convencional sobre Jesus, você quase
pode garantir que ele é um jesuíta. Jesuítas bebem, fumam e gostam de
bons restaurantes. A primeira vez que ouvi essa piada, o papel do jesuíta
pertencia a um advogado.
A piada também é engraçada (lembro-me do pensamento da
comediante Sarah Silverman: “se você tem que explicar, Steve, não é
engraçado”), porque invoca cada clichê americano sobre o paraíso que
nós americanos conhecemos e os tornam ridículos. Você tem portões e
nuvens e coro de anjos. Você tem santos e o personagem do próprio Deus.
Você tem um julgamento e uma inexplicável hierarquia paradisíaca.
Acima de tudo, você tem um contador de piadas cuja descrição de cargo,
você deve supor, deve incluir uma crença sincera e considerável no
paraíso, para brincar com a coisa toda. Jim Martim acredita no paraíso.
“É uma linda ideia,” ele diz. Ele pensa nisso o tempo todo.
Quando lhe pergunto como ele imagina o paraíso, Martin pensa nas
respostas. Ele fala, com ansiosa expectativa sobre encontrar os santos,
o que não surpreende. Martin acredita, como os católicos sempre o
fazem, que os santos habitam o paraíso. Martin gosta especialmente do
afresco de Fra Angelico, do início da Renascença Os Justos Encontram
os Anjos no Paraíso, um detalhe de O Último Julgamento, em que
os santos dão as mãos aos anjos e dançam num círculo, num jardim
rochoso e florido. Ele gosta da frase atribuída à freira francesa, Teresa
de Lisieux, do século XIX: “Eu acredito no inferno, mas acredito que
ele esteja vazio.” Como estudante do Jesus histórico, Martin espera que
no paraíso um relato verdadeiro da vida de Jesus lhe será revelado, mas
diz, de um modo embaraçado, que entende que no paraíso ele não mais
se preocupará em saber das coisas que tanto ansiou conhecer em vida.
Ele está convencido de que as identidades individuais e o amor entre
as pessoas serão preservados no paraíso. “De algum modo,” ele diz,
“seremos reconhecidos e bem recebidos por aqueles que conhecemos”.
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“Deus não destruiria ou terminaria relacionamentos.” Jim Martin é uma
prova viva de que você pode acreditar no paraíso – e de que você pode
acreditar que o paraíso é inacreditável ao mesmo tempo.
A C A SA DE DEUS
Antes de mergulhar em séculos de discórdia sobre concepções do paraíso,
sobre os tipos de corpos que teremos e se nossos bichinhos de estimação
podem ir conosco, quero primeiro estabelecer em que concordamos. Do
que estamos falando quando falamos sobre o paraíso? Deus vive lá, claro,
e seus anjos também. Pensa-se que os anjos vivem no paraíso, no mínimo
desde os tempos da Bíblia Hebraica, quando Deus os mandou para a
terra – notavelmente a Abraão e Moisés, e então mais tarde, no Novo
Testamento, para Maria, mãe de Jesus – para enviar suas mensagens. Eles
não eram os querubins dos cartões Hallmark, mas agentes esplêndidos
e aterrorizantes do Senhor que provocam gaguejos de medo e descrença
daqueles que os encontram. “Pois a beleza nada mais é,” escreveu o poeta
Rainer Maria Rilke, ecoando os autores do Antigo Testamento,
“Por conta do terror que o desprezo nos causa, sentimos muito
medo, mas mesmo assim seguimos em frente. Todos os anjos nos
apavoram.”
Os portões de pérolas, paredes de pedras preciosas e ruas de
ouro entraram no imaginário popular através do Livro do Apocalipse,
o último (e mais controvertido) livro da Bíblia Cristã, que muitos
estudiosos acreditam ter sido escrito em torno do ano 95 d.C. São Pedro
de pé, junto aos portões, verificando os nomes dos rebeldes e dos bons,
o homem íntegro em tantas piadas sobre o paraíso – isso tem suas raízes
no Evangelho segundo Mateus, onde Jesus diz a seu discípulo Pedro que
ele está encarregado da igreja a partir dali. “Eu lhe darei as chaves do
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reino dos céus.” Uma sala do trono, um banquete, um casamento – essas
imagens têm suas sementes na Bíblia, assim como em outros escritos
contemporâneos.
Descrições do paraíso têm sempre sido o melhor, mais alto, o máximo
que as pessoas poderiam imaginar. O esteta britânico e pastor anglicano
do século XIX, Sydney Smith, fez uma famosa reflexão de que no paraíso
se pode “comer patê de fois gras com sons de trompetes.” Na década de
1890, quando os industriais americanos estavam construindo grandes
ferrovias, uma canção popular comparava o paraíso a uma estação de
trem. “Você parará na Estação Federal em que seu trem passará; / Lá
você encontrará o superintendente, Deus Pai, Deus Filho.” Essas são as
letras de “Ferrovia da vida para o paraíso”.
Imam Salahuddin Muhammad converteu-se ao islamismo numa
igreja historicamente negra, quando tinha 13 anos, e agora trabalha
como capelão no Bard College, no Estado de Nova York e nas Instalações
Penitenciárias de Fishkill. Quando ensina islamismo aos internos,
ele não descreve o paraíso como faz o Alcorão, com suas fontes e água
corrente. “Nós temos água,” ele me disse num telefonema. “Nós temos
água corrente o tempo todo. Eu uso linguagem de rua para eles. Eu digo:
‘qualquer coisa que pudermos ter na vida, lá será melhor. Cadillacs ou
diamantes ou dinheiro – isso tudo haverá em abundância para vocês. ’”
Segundo uma pesquisa da Newsweek, em 2002, 71 por cento dos
que dizem crer no paraíso o concebem como “um lugar real” e neste
capítulo, eu vou explorar as áreas mais importantes de concordância. É
um lugar para onde você vai após a morte. Desde a infância, muitos de
nós imaginamos o paraíso em termos de direção “para cima”, além do
céu, embora sua localização exata seja assunto de muita polêmica. É o
lar de Deus e dos fiéis. É perfeito. Parece um jardim em uma cidade. E,
embora seja um lugar real, também é eterno e infinito: existirá após o
mundo ter terminado, mesmo depois do fim dos tempos. Assim, embora
o paraíso seja um “lugar”, as noções terrenas de tempo e espaço não se
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aplicam a ele. Quando usamos a palavra paraíso, falamos de todas essas
coisas – e é claro, muito mais.
A língua inglesa torna o falar sobre o paraíso especialmente difícil. A
palavra paraíso em inglês carrega todos os significados acordados – um
lugar aonde você vai após a morte, o lar de Deus, perfeição, eternidade
e assim por diante – mais o que quer que você sonhe, menos o que quer
que você não acredite. Quando dizemos “paraíso”, reunimos todos
os antigos significados teológicos. Significa o lugar onde vivemos com
nossos espíritos ou almas após a morte e o lugar onde habitaremos com
nossos corpos ressurretos. Falamos sobre um lugar que acontece no fim do
mundo e um lugar que existe em tempo real, agora. Essa confusa mistura
causa agonias especialmente em estudiosos bíblicos e historiadores que
desejam que tenhamos mais cuidado com nosso vocabulário e digamos
“ressurreição” quando quisermos dizer “ressurreição”. Quando os
autores bíblicos falaram em “paraíso”, eles não queriam dizer o que
mencionamos hoje. “Toda a conceitualização de paraíso do primeiro
século é tão completamente diferente das suposições ocidentais pósIluminismo que realmente temos que desfazer o modo como ouvimos a
palavra e começar de novo.” O bispo anglicano de Durham, Inglaterra,
N.T.Wright me escreveu em um e-mail. Neste livro, uso a palavra paraíso
no seu sentido mais amplo, desordenado, moderno e a desconstruo
quando posso.
Os antigos rabinos tinham uma palavra diferente para cada conceito
de paraíso. Quando queriam dizer “o lugar no céu onde Deus vive,” eles
usavam uma palavra hebraica – shamayim, que significa, simplesmente,
“céu“ (ou, mais corretamente, “céus”, pois a palavra é plural). Quando
queriam dizer “o bom lugar aonde você vai após a morte,” usavam Gan
Eden, que significa, claro, O jardim do Éden. Quando queriam dizer “a
terra restaurada no fim dos tempos,” usavam a frase olam ha-ba, ou “o
mundo do porvir.” Malchut shamayim significava “o Reino de Deus”, a
comunidade dos seguidores de Deus na terra. (Porque os judeus praticantes
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não escreviam ou diziam o nome de Deus, eles usavam shamayim – céus –
neste caso, para descrever Deus ou paraíso.)
Nenhuma palavra em hebraico ou em inglês carrega o significado
mais potente da palavra paraíso: um universo paralelo que existe em
tempo real, onde Deus vive junto com seus anjos e as almas de nossos
amados que partiram e que inesperadamente se cruzam e afetam nosso
mundo. Quando dizemos aos nossos filhos que a vovó está com Deus
no paraíso, é isso realmente o que queremos dizer – um lugar real, onde
a ação real ocorre em algum outro lugar. Quando imaginamos anjos
flutuando em nuvens no paraíso, tocando harpas e soprando trompetes,
ou nossos mortos sorrindo para nós, enquanto vamos trabalhar, temos
esse significado em mente.
A ficção científica e a fantasia oferecem embelezamentos mais vívidos
e sedutores. Em outro domínio, criaturas boas estão em guerra com as
forças do mal e, embora terráqueos normais não tenham poder para
afetar o resultado, o destino de nosso planeta e tudo que entesouramos,
de nossos filhos à nossa democracia – está de pé. Os filmes Matrix, os
romances de Robert Heinlein, os livros de Harry Potter, a trilogia O
Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, as obras de Madeleine L’ Engle –
todos eles usam o universo paralelo como sua ideia básica. No terceiro
filme de O Senhor dos Anéis, o grande mago Gandalf descreve o paraíso
como um lugar separado da terra por uma cortina climática. Ele conforta
o hobbit Pippin, traumatizado pela batalha, com isso: “A cortina cinza
de chuva deste mundo se encolherá,” ele diz, “e tudo se tornará como
brilho de prata. E então você o verá... praias brancas e do outro lado, um
longínquo país verde sob um rápido nascer do sol.”
“Bem, não é assim tão ruim,” diz Pippin.
“Não, não é,” Gandalf responde.
O amigo de Tolkien, C. S. Lewis, também um estudioso de Oxford,
escreveu As Crônicas de Narnia como uma alegoria cristã. Os principais
personagens de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, que é o primeiro
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livro da série, são quatro crianças inglesas que descobrem outro mundo
por trás de uma fileira de casacos de pele dentro de um quarto de vestir.
Elas são crianças porque, é claro, esse é um livro para crianças – mas
também porque no cristianismo as crianças têm acesso especial ao
paraíso. Como disse Jesus “Deixem vir a mim as criancinhas e não as
detenham; pois é a elas que o Reino dos Céus pertence.” Naquele livro,
há uma poderosa batalha em que as crianças brigam do lado do bem. No
final, Narnia, à beira da destruição, se volta para algo como o paraíso. As
quatro crianças recebem tronos para se sentar e coroas para usar. “Elas
viveram em grande alegria,” escreve Lewis, “e se elas se lembraram de
suas vidas neste mundo, foi somente como alguém se lembra de um
sonho.” (No final de A Última Batalha, o livro final, as crianças são
mortas num acidente de trem e após a destruição e restauração de Narnia
na verdade foram levadas pelo vento ao paraíso: “Toda a sua vida neste
mundo e todas as suas aventuras em Narnia foram apenas a capa e o
título do livro. Agora finalmente elas estavam começando o capítulo que
ninguém na terra ainda leu, o da Grande História, que continua para
sempre e que cada capítulo é ainda melhor que o anterior.”)
Do universo paralelo, anjos – criaturas com poderes dados por
Deus – descem à Terra para interagir com humanos favorecidos. Filmes
populares como Ghost e Cidade dos Anjos mostram anjos (ou, no caso de
Ghost, um espírito), salvando pessoas especiais da morte ou do desespero.
No filme de Frank Capra, A Felicidade Não se Compra, o desanimado
e auto-odiado George Bailey é resgatado do suicídio por Clarence, um
anjo que veio do céu na véspera de Natal para mostrar ao pobre George
como a vida na terra seria sem ele. Clarence é enviada por São José, que
ouviu as preces da família de George. Na América, hoje, 31 por cento das
pessoas acreditam ter respostas às suas preces “definidas e específicas”
pelo menos uma vez por mês.
Pelo menos desde 600 a.C. os judeus realizam a prece diária –
olhando na direção de Jerusalém, sacudindo cabeças e braços com
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tiras de couro e caixinhas chamadas tefilin, recitando o Shema Israel,
a mais antiga declaração do monoteísmo – como uma atividade que os
liga, literalmente, ao Reino de Deus. Alan Segal é professor de Estudos
Judaicos no Barnard College, em Nova York, um especialista em Bíblia
– e, especialmente, nas visões bíblicas da pós-vida. Ele fala (ou lê) em
incontáveis idiomas, antigos e modernos; seu curso de formação, Vida
Após a Morte, é sempre supermencionado. Ele trabalha num estúdio meio
como uma caverna, lotado de livros que ele ostenta, “é relativamente
grande para Barnard.” Ele realiza seminários lá; é fácil imaginar seis ou
oito alunos universitários espremidos em torno de uma mesa pequena,
tomando chá da chaleira elétrica. Segal me lembra que mesmo os judeus
modernos falam sobre “assumir a união com o céu” – quer dizer, fazer
uma conexão direta com o Reino de Deus – quando oram.
Segal me diz que os essênios, uma comunidade ascética de judeus
que viviam num platô do deserto, perto do Mar Morto, em torno da
época de Cristo, deixaram registros de seus rituais e preces religiosas.
Segundo esses documentos, descobertos em cavernas, em meados
do século XX, e conhecidos como os Pergaminhos do Mar Morto, os
essênios acreditavam que quando oravam, estavam encenando “uma
réplica do que estava acontecendo no paraíso,” diz Segal. “Tão exata
que você nunca sabe se eles pensam estar no paraíso ou se os anjos estão
aqui na terra.” (Os essênios estavam tão convictos que suas liturgias na
terra espelhavam o canto dos anjos no paraíso que eles não excretavam
no sábado – Shabbat – pois não era algo que os anjos fizessem. “Deus”,
explica Segal, “não gosta do cheiro de excrementos humanos.” Quando
enviei um e-mail com essa última parte da informação ao meu amigo
David Gates, ele respondeu: “eu nunca pensei que os essênios estivessem
agindo com total cobertura, de um modo ou de outro”.)
Mesmo hoje, os muçulmanos, cristãos e judeus praticantes veem a
prece litúrgica – assim como cantar e versejar durante a adoração – como
atividades que os conectam, em tempo real, com o paraíso. O padre Eugene
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Romano, um padre católico romano que administra uma comunidade de
eremitas no subúrbio de Nova Jersey, disse isso mais explicitamente. Eu
o visitei numa tarde de inverno. Os eremitas de Belém habitam pequenas
cabanas cercadas por altos pinheiros numa grota isolada, a alguns metros
de algumas das mais luxuosas mansões de Nova Jersey. O padre Romano
me contou que ele pensa sobre o paraíso com mais frequência quando
está recitando a Oração do Senhor, algo que ele tem feito alguns milhares
de vezes desde que fez sua Santa Comunhão, quando tinha oito anos de
idade. “Sempre que celebro missa, acredito estar celebrando o eterno
banquete no paraíso. E rezar a missa devagar e reverentemente, pelo bem
das almas e o louvor a Deus, é uma coisa poderosa.”
NO C ÉU
Fui ver Alan Segal porque queria lhe perguntar por que ele acredita que
Deus vive no céu. É a ideia mais fundamental de todas as ideias sobre o
paraíso, embora não me parecesse, de todo, óbvia. Por que não nas folhas
das árvores, ou no oceano, ou, como acreditam os hindus de Bali, em
cada rocha ou grão de arroz? A imagem que ainda permanece nas antigas
pinturas europeias, nos cartões de natal contemporâneos, em desenhos
animados e no pôster icônico do filme de Warren Beatty O Céu Pode
Esperar, é do paraíso como um lugar no firmamento, entre as nuvens.
Alguns pintores medievais até mostraram Jesus subindo ao paraíso num
tipo de elevador invisível – somente Seus pés e quadris estão no topo do
quadro; o resto de seu corpo está presumivelmente acima da moldura.
Quando Michelangelo pintou a visão de Deus no teto da Capela Sistina,
em Roma, o Senhor estava, literalmente, diretamente acima – de modo
que nossos pescoços se machucam ao olharmos para Ele – envolvido em
leve neblina, flutuando contra um fundo de céu azul-acinzentado, cercado
por anjos. Gaste dois minutos no You Tube e você pode descobrir dúzias
de vídeos domésticos de pessoas que registraram os sinais de Deus que
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elas viram no céu. Uma nuvem no formato de uma cruz foi vista perto de
um milhão de vezes.
Mesmo a criança mais novinha entende o paraíso como um lugar
que está acima e além da terra, ao mesmo tempo real e sobrenatural.
Depois que escrevi essa frase, testei-a para ver se era verdadeira. Quando
estava colocando para dormir minha filha Josephine, de quase cinco
anos, perguntei-lhe: “O que é o paraíso?” Estávamos deitadas juntas no
escuro. Ela se sentou e disse, apontando para o teto: “Está lá, no céu.”
Então se deitou de novo. Ela deu uma pausa e continuou: “O paraíso
é mais longe que o espaço, mas está perto do espaço. Está só a alguns
centímetros além do espaço. Deus vive lá.” Os antigos hebreus, como
Josephine, simplesmente supunham que Deus estava “acima.”
Segal achou estranha a minha pergunta. Pegamos alguns sanduíches
para viagem, numa lanchonete de Barnard College, e voltamos ao seu
escritório, onde sentamos, juntos, diante de uma concordância bíblica no
computador, mostrando versículos bíblicos lado a lado, que os oferecia
em algumas traduções em inglês, assim como em hebraico e grego. Segal
é um homem grande, nos seus sessenta anos, que começou a estudar
para ser rabino, mas agora é obstinado sobre Deus (Uma vez tomávamos
alguns drinques numa cafeteria no campus da Universidade de Columbia,
quando ele disse: “Se o Deus de Israel existe como a Torá o descreve, vou
ficar debaixo de minha mesa e esperar até que isso termine.”). Seu rosto
é largo e quadrado. Quando lhe pedi que encontrasse evidências de que
os autores da Bíblia pensavam que Deus habita os céus, ele me olhou de
soslaio: “Não estou certo aonde você quer chegar com isso,” ele disse.
Quase todas as religiões no Ocidente, Segal me disse, tiveram um
deus primário e esse deus vivia acima da terra, no céu ou, como os antigos
gregos acreditavam, num monte chamado Olimpo. Mais de mil anos
antes de Cristo, os ancestrais do povo que agora chamamos de judeus
viviam lado a lado com outros povos, que a Bíblia chama de cananeus. Os
hebreus acreditavam em um único Deus, mas os cananeus, que por séculos
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pareciam com os hebreus em quase todas as suas características (suas
casas e suas fazendas são, segundo registros arqueológicos virtualmente
indistinguíveis), acreditavam em muitos deuses, que adoravam usandoos como ídolos. Eles tinham uma deidade chamada baal, um deus do céu
que controlava o clima, especialmente as chuvas e as tempestades. Como
o Deus de Abraão, ele era inexplicável e cheio de contradições, ambos
seguros e de temperamento explosivo, terríveis e gloriosos. No antigo
Oriente Médio, quando as chuvas de inverno eram imprevisíveis e muitas
vezes acompanhadas de duras tempestades e seguidas por meses de seca,
e quando há três mil anos a maioria eram fazendeiros – um deus do clima
teria tido o poder de dar vida e tirá-la.
Os egípcios, vizinhos dos hebreus ao sudoeste, também acreditavam
que os deuses viviam no céu e que os faraós após a morte, subiam para
encontrá-los. O deus egípcio da imortalidade era Osíris, que vivia entre as
estrelas, na constelação chamada Orion. “As pirâmides,” Segal explica,
“são como espaçonaves gigantes para levá-los ao Senhor.” (Essa ideia de
paraíso como um lugar no espaço existe ainda hoje. No filme South Park:
Maior, Melhor e sem Cortes, o anti-herói Kenny, de olhos esbugalhados
da série de animação, sobe ao céu através de uma galáxia salpicada de
estrelas, vestindo sua tradicional parca. Ele chega a algum lugar com algo
parecido com um portão, feito de nuvens. Uma buzina forte soa e Kenny
cai no inferno.).
Na Torá – os cinco primeiros livros da Bíblia, desde Gênesis até
Deuteronômio – o paraíso é quase sempre só shamayim, os céus. Como
minha filha, o povo da Torá entende Deus vivendo dentro e além dos
céus. Segal descreve o Deus hebraico como o Mestre dos céus e indica
Gênesis 14, em que Ele é “possuidor dos céus e da terra.” Como baal,
o Deus de Abraão é “claramente um deus do clima”, Segal me diz, um
criador que tem o poder de produzir tempestades e levantar os mares. Em
Êxodo, o Senhor ajuda Moisés e os israelitas a cruzarem com segurança
o Mar Vermelho: “Com o resfolgar das tuas narinas, amontoaram-se as
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águas, as correntes pararam em montão; os vagalhões coalharam-se no
coração do mar...” Em Êxodo, Salmos e por toda a parte, Deus age em
benefício de Seu povo, de sua morada acima deles, mandando chuva de
maná, “o milho dos céus.”
Se Deus vive nos céus, então o que as pessoas sabem, ou pensam
que sabem, sobre a arquitetura do universo informa sobre o modo
como visualizam o paraíso. Na Idade Média, a visão predominante
da cosmologia era fundamentada nas ideias de Aristóteles, que foram
refinadas pelo astrônomo do primeiro século, Ptolomeu. Segundo
Aristóteles (século IV a.C.), a terra estava instalada no centro de uma
série de cerca de cinquenta e cinco esferas cristalinas centradas. Cada um
desses corpos celestes – o sol, a luz e todos os planetas – estava situado
sobre uma dessas esferas. Circundando todas as esferas estava uma
esfera-motor chamada de primum mobile. Esse primum mobile era tão
poderoso que fazia todas as outras se moverem.
Por mais de mil anos, esse plano cosmológico permaneceu
inquestionável e os religiosos o repaginaram para reforçar sua teologia.
Estava entendido que o próprio Deus habitava uma esfera imóvel além
de todas as outras; era Ele quem fazia os planetas se moverem. Um texto
judaico do primeiro século d.C. descreve uma jornada de ascensão por
alguém chamado Rabbi Ishmael, através de sete esferas, ou palácios, até
que ele chega, enfim, ao trono de Deus. Na tradição muçulmana, o profeta
Maomé foi numa “Jornada Noturna.” Ele ascendeu através de sete esferas
aos céus, quando afinal encontra Alá, que comanda os muçulmanos a
orarem cinquenta vezes por dia (Na sua volta, ele encontra Moisés, que
lhe diz que cinquenta vezes é demais e ele deveria voltar e renegociar.
Maomé consegue barganhar para cinco vezes.).
Na cosmologia cristã, havia nove esferas e cada esfera correlacionada
com um planeta e com espécies de criaturas celestiais ou uma virtude
cristã. Assim, segundo diagramas desenhados na Idade Média, a esfera
da lua estava ocupada pelos anjos de Deus, cuja energia se movia em torno
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da terra. A esfera de Mercúrio estava ocupada por arcanjos, enquanto os
querubins viviam na esfera das estrelas fixas. A esfera mais externa era
o Império, o lar de Deus: o paraíso. Era estacionário, perfeito e eterno.
O amor de Deus no paraíso provocava a movimentação dos planetas.
Quando Dante ascende ao “paraíso” até o céu mais alto, é aí que ele está
indo: a um lugar de
luz que flui como flui um rio,
dissemina seu dourado esplendor entre as margens,
pintadas com as magníficas cores da primavera.
Cerca do ano 200 a.C., alguns judeus começaram a acreditar que os fiéis
entre eles subiriam aos céus, onde viveriam como eles mesmos, com Deus,
depois de morrerem. Essa era uma mudança radical. Até então, paraíso,
shamayim, era o lar de Deus – não de pessoas. Mas a história e a cultura
começaram a alimentar, em certas seitas judaicas, um senso irresistível de
predestinação; eles estavam tendo premonições sobre o fim. Os judeus que
escreveram as escrituras proféticas começaram a falar sobre a vida eterna com
Deus como recompensa aos que fossem “íntegros.” Vou explorar por completo
essa mudança no próximo capítulo. Por enquanto podemos dizer que até
200 a.C., as pessoas não iam para o paraíso. Depois de 200 a.C., algumas delas
iriam.
Os estudiosos chamam essa visão – certeza sobre o fim iminente
do mundo, combinada com a grande esperança de justiça para os fiéis
na eternidade – de apocalíptica. As linhas limítrofes do pensamento
apocalíptico são as seguintes: Em algum lugar, em outra dimensão,
os anjos do paraíso estão em guerra com as forças do mal. O lado de
Deus por fim vencerá a batalha que produzirá o fim do mundo. Naquele
tempo, o paraíso irá para a terra e tudo que é mau, corrupto e doentio
será renovado e purificado. Os corpos desfeitos dos mortos voltarão à
vida em perfeito estado (Como isso funciona será assunto de um capítulo
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posterior.). O paraíso existirá na terra. Essa visão do mundo teve
defensores entre alguns judeus nos séculos antes de Cristo – incluindo,
provavelmente, o próprio Jesus. Hoje, judeus, muçulmanos e cristãos mais
fundamentalistas, os judeus de Lubavitch que vivem em comunidades
interligadas do Brooklyn até dos jihadis do pós “11 de setembro”, até
os cristãos fundamentalistas que acreditam que o presidente Barack
Obama seja o anticristo – são motivados por suas convicções de que o
mundo terminará logo e que um salvador virá para uma terra restaurada
para reinar a paz. Nesse tempo, como diz o livro do Apocalipse, “Deus
está com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e Deus
mesmo estará com eles. Ele enxugará de seus olhos toda lágrima; e não
haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem lamento, nem dor;
porque já as primeiras coisas são passadas.”
Rivkaj Slonim é uma mulher bonita, nos seus quarenta anos, que
cresceu no Brooklyn, do lado de Crown Heighs. Toquei a campainha de
sua casa, numa noite de dezembro, quando ela estava visitando seu pai e ela
me levou para o vizinho, casa do seu irmão, onde conversamos calmamente
durante uma hora na sua elegante antessala. Sete dos seus nove filhos
ainda não tinham dormido e a atmosfera na porta ao lado, ela disse, estava
agitada. Os pisos da casa do seu irmão eram novos e brilhantes e eu sentei
num pequeno sofá vitoriano, pensando onde colocar meu copo de água na
estreita guarnição da janela à minha direita ou na madeira polida sob meus
pés. À minha frente, numa parede da escada, estava o retrato do falecido
Rabbi Menachem Schneerson, o líder carismático dos lubavitchers, que
morreu em 1994 – e que alguns lubavitchers continuam a acreditar que seja
o Messias (Slonim não adere a essa visão minoritária, diz ela.).
Slonim é uma lubavitcher, um membro de um grupo ultraortodoxo
cujas observâncias religiosas são ao mesmo tempo rígidas e
conservadoras. Ela se veste com modéstia, com um conjunto de jaqueta
e uma saia abaixo dos joelhos. Seu comportamento é gentil e aberto. Ela
administra a Chabad House, na Universidade Estadual de Nova York, em
Binghamton, a três horas e meia de distância. Um centro de propaganda
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judaica interna no campus, conhecido por seus jantares de reuniões em
todos os Sabbath e suas celebrações de Bacchanaliam Purim. Slonim
fala emocionada de sua esperança de que, vivendo uma vida em que
se aproxime o mais possível das 613 mitzvoth ou mandamentos, que
ela entende ser vontade de Deus e que todo judeu obedece, sua alma
adquirirá um tipo de intimidade sobrenatural com Deus. Uma plenitude
física, romântica e um completo entendimento do propósito de sua vida,
que é a esperança de cada judeu lubavitch. “A razão para realizar as
mitzvoth é uma parceria sensível entre Deus e seu povo.”
Entre os judeus, a teologia lubavitch é única e controversa. Como
os essênios e muitos outros crentes apocalípticos desde então, os
lubavitchers acreditam que o fim do mundo está próximo e será seguido
pela redenção do mundo. A vida e a morte de seu rabino, que encorajou
seus seguidores a estarem prontos para o Messias, avivam sua antecipação
do fim – algo que Slonim diz acreditar totalmente. Quando o fim vier,
ela diz, parafraseando o filósofo judeu da Idade Média, Maimônides, “o
conhecimento de Deus encherá a terra como as águas cobrem os mares.”
Até então, ela e outros lubavitchers, como outros judeus religiosos,
continuam a fazer suas mitzvoth e a orar por seus mortos com uma
oração chamada Kaddish. Através do Kaddish, os judeus acreditam que
os membros das famílias na terra podem ajudar a acelerar uma eventual
ascensão de uma alma (através da purificação) a Deus. Dependendo do
comportamento de uma pessoa em sua vida – o rigor de sua adesão às
mitzvoth – cada alma requer purificação com diferente intensidade. Os
onze meses do Kaddish, diz Slonim, são “quando o tempo da alma está
limpo das manchas da sujeira de nossas vidas cotidianas.”
O JA R DI M DO PA R A ÍSO
Os três maiores monoteísmos – judaísmo, cristianismo e islamismo –
defendem que, em mundo novo, quando Deus purifica o que os homens
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corromperam ele tornará o universo e tudo nele perfeito, fundindo ou
reinventando o céu e a terra. As tradições judaicas e islâmicas geralmente
falam sobre esse novo mundo como o Jardim do Paraíso – em hebraico,
Gan Eden; em árabe, Jannah – uma simbólica restauração do Éden, onde
o homem e a mulher uma vez viveram sem pecado, juntos com Deus.
Segundo a pesquisa da Newsweek de 2002, 19 por cento dos americanos
imaginam o paraíso como um jardim. Os cristãos, que herdaram a
tradição judaica e as Escrituras, usam o jardim imaginário quando falam
sobre o paraíso – mas frequentemente usam também imagens urbanas. O
cristianismo era muito novo quando os romanos derrubaram sua cidade
natal, Jerusalém, nos anos 70 d.C. e todos os residentes de lá sofreram
o trauma psíquico daquela destruição. Os judeus dizem que, no novo
mundo, eles terão de volta seu templo sagrado; os cristãos imaginam
a “Nova Jerusalém” – uma nova cidade gloriosa, brilhante, cercada de
paredes, em que o próprio Jesus, segundo o Livro do Apocalipse, é o
templo. Segundo a pesquisa da Newsweek, 13 por cento dos americanos
imaginam o paraíso como uma cidade.
O mundo da Bíblia era, na maioria, um mundo deserto – um mundo
de fazendeiros que ansiavam por chuva e temiam o clima. Jardins com
muros, protegidos de predadores e fenômenos atmosféricos, abundantes
com frutas maduras, com águas fluindo, mel, óleo e vinho – eram o melhor
lugar que um pobre fazendeiro do deserto poderia imaginar. De fato, um
jardim verdejante e protegido, estava quase além da imaginação. Paredes
e portões do Jardim são cruciais para a imaginação bíblica; as ideias do
paraíso, como tinham os poetas do Romantismo e os transcendentalistas
americanos, como de natureza indomada – fileiras de montanhas e campos
abertos – seria possível só quando os humanos tivessem construído paredes
suficientemente isoladas, em torno de si mesmos.
No Éden, segundo o Gênesis, “... o Senhor Deus fez brotar da terra
toda qualidade de árvores agradáveis à vista e boas para comida,” assim
como um rio que seguia para quatro lugares e “... o Senhor Deus formado
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da terra todo o animal do campo, e toda a ave dos céus.” Lá, Ele colocou a
árvore do conhecimento que ainda não havia sido provada. Abundância,
perfeição, inocência, um período antes da contenda e do desapontamento –
Éden é tudo isso.
Os monges cristãos da Idade Média acreditavam que o Jardim do
Éden exista em algum lugar da terra, mas muito longe e impossível de
alcançar. Através ou além do Éden estaria o paraíso. Num esforço de
orientar os crentes cristãos adequadamente, esses monges desenharam
mapas menos com propósitos de navegação, mais para ilustrar a primazia
do mundo de Cristo e do paraíso. Eles colocaram o Éden nesses mapas,
longe, a Leste (o Gênesis descreve o Éden como estando no Leste), e às
vezes por trás de paredes, rios ou fileiras de montanhas. O mapa Ebstorf,
criado no século XIII e destruído pelo bombardeio de Hannover de 1943,
mostrava o Éden além da China, atrás de uma cadeia de montanhas. O
mapa Hereford, na Catedral Hereford, na Inglaterra, desenhado em torno
de 1300, tem mais de um metro de comprimento e de altura e descreve
um mundo bizarro, onde monstros e homens com cabeças de cachorros
residem em continentes sangrentos. A Palestina é desproporcionalmente
grande para acomodar todo o cenário bíblico. O Éden está atrás de uma
parede impassível perto do topo; diretamente acima, Cristo está sentado
para julgar. Éden e o paraíso existem, mas você não pode chegar lá a
partir daqui. Cristóvão Colombo pensou ter encontrado o Éden ou algo
parecido quando aportou na América do Sul, em 1492. “Acredito que
o Paraíso terreno esteja aqui, onde ninguém pode entrar, exceto com a
permissão de Deus,” ele escreveu. Trezentos anos mais tarde, a reclusa
poetisa americana, Emily Dickinson, escreveu que
“Paraíso” – é o que eu não posso alcançar!
A Maçã na Árvore –
Já que ela produz – um enforcamento – sem esperança
Isso é – o que o ‘Paraíso’ é para Mim!”
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Na arte medieval e bizantina, o paraíso é assinalado por pinturas
douradas. Santos e anjos bidimensionais flutuavam em filas ordenadas
contra lonas douradas. Auréolas designavam a divindade. Apropriandose do estilo grego os pintores cristãos emulavam os artistas romanos
que usavam auréolas para coroar as imagens dos seus imperadores.
Na Renascença, quando a arte e a filosofia mudaram seu foco de uma
comunidade cristã idealizada para o indivíduo, as imagens do paraíso
mudaram também e o Jardim do Éden se tornou um assunto popular,
com as pessoas e animais brincando em total inocência. Em A Primavera,
de Sandro Botticelli (1477-1478), o que alguns intérpretes veem como a
Virgem Abençoada fica no centro de um luxuoso bosque, com um prado
cheio de flores esparramadas. Anjos dançam em torno dela, livres de
roupas constrangedoras, seus corpos parecendo muito leves. Os galhos
acima de suas cabeças oferecem frutas abundantes, dentro de fácil alcance
(Nesse paraíso, a maçã de Dickinson é facilmente alcançável.). No afresco
do século XV, de Benozzo Gozzoli, no Palácio Medici-Riccardi em
Florença, o paraíso se parece com a Toscana, com ciprestes enfileirados,
pássaros batendo asas em meio a afloramentos rochosos, árvores de flores
e arbustos de bagas florescendo. Um dos anjos de Deus tem asas como o
rabo de um pavão. “O paraíso,” disse o estadista florentino, Lorenzo de
Medici, “nada significa além do jardim mais prazeroso, abundante com
todas as coisas deliciosas e agradáveis.”
Essa imagem, um jardim luxuoso e pacífico, protegido das
influências corrosivas do mundo, onde as pessoas vivem em harmonia
e inocência, ainda permanece nos conceitos populares de paraíso. Em
E se Fosse Verdade, um filme de 2005 estrelando Reese Witherspoon e
Mark Ruffalo, um arquiteto paisagista de coração partido se apaixona
pelo espírito vivo de uma mulher, cujo corpo comatoso está perto da
morte no hospital. Perto do fim do filme, ele restaura sua consciência
com um beijo, mas ela não consegue se lembrar quem ele é. Ele estimula
sua memória – e ressuscita seu amor – construindo para ela um jardim
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no telhado do prédio, com toldo, florescente e abundante. O jardim é
o paraíso na terra, um lugar longe de tudo e de todos, onde Adão e Eva
contemporâneos podem seguir em frente. Mais sábios por seus encontros
com a mortalidade, mas existindo novamente em total inocência.
A palavra paraíso tem suas raízes na palavra pairidaeza, que significa
“jardim murado” no antigo idioma dos sacerdotes persas e muitas
culturas antigas – os gregos e egípcios – falavam sobre um lugar seguro e
fértil, aonde certas pessoas irão após a morte. No primeiro século d.C., o
poeta grego, Pindar, falou sobre esse lugar como a Ilha dos Abençoados:
Lá, flores de ouro brilham como chamas,
Algumas em árvores brilhantes na terra,
Algumas alimentadas pelo mar.
O paraíso continua a ter conotações de segurança e abundância.
Paradise Valley é uma das comunidades do Arizona mais influentes, com
uma renda média anual das famílias de USD$ 150.000. Paradise Garden
é um dos maiores negócios de pedidos de bulbo de flores do país e é
também o nome de uma casa noturna e restaurante na Baía de Sheepshead,
Brooklyn. Ali imigrantes russos se casam e conduzem animadas festas
regadas a muita vodka e pratos típicos. Compartilha também seu nome
com o bufê livre no Hotel Flamingo em Las Vegas onde são oferecidos
jantares com frutas frescas, saladas, carnes especiais e frutos do mar, tendo
como atração flamingos passeando entre quedas-d’água.
Em nenhum lugar a ideia de paraíso como um jardim paradisíaco
é mais importante do que no islamismo datado do século VII d.C. Não
espanta então que o Alcorão, o livro santo do islamismo, promete que
após a morte os fiéis irão para um jardim. Eles habitarão “além dos jardins
de onde os rios fluem,” e descansarão entre fontes “jorrando em torrentes
ao seu comando.” Há quatro rios no paraíso islâmico: um de leite, um de
mel, um de vinho e um de água. Como convém a uma religião fundada
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num lugar de calor implacável, o Islã promete que no paraíso a comida
não faltará. O jardim do paraíso produz uma variedade de frutas, mas
especialmente romãs (Em algumas tradições místicas judaicas, o paraíso
também é descrito como um jardim de romãs e quando o psicólogo suíço
Carl Jung teve uma experiência de quase morte, ele se imaginou estar
também num jardim de romãs. As romãs – nativas do Oriente Médio –
são significativas porque sua dramática cor vermelha simboliza o sangue
e a fertilidade de muitas sementes.).
No paraíso muçulmano, segundo o Alcorão, há vinho (proibido
aos muçulmanos na terra), mas ele não os deixa bêbados. Os homens
que passaram suas vidas labutando sob um sol escaldante ou lutando
brutalmente por pequenos pedaços de areia se cumprimentarão uns aos
outros com a palavra salaam, ou “paz.” Eles usarão braceletes de ouro
e mantos verdes de seda e se reclinarão em sofás estofados enquanto
garçons passam cálices de bebidas geladas para matar a sede. Prazeres
sensuais de todo o tipo serão garantidos no paraíso, mulheres de seios
fartos e olhos negros, que vivem “confinadas em pavilhões... imaculadas
por humanos ou Jinns.” (“Jinn,” segundo o Alcorão, são espíritos criados
por Alá a partir do fogo, nem anjos nem demônios.). A Bíblia hebraica e
o Novo Testamento podem ser vagos quanto ao paraíso, mas o Alcorão
não é.
A C I DA DE PA R A DISÍ AC A
Lutando por paridade em nossa imaginação está a ideia da “Nova
Jerusalém,” a cidade celestial. Em 1987, a atriz Diane Keaton fez um
pequeno e estranho filme chamado Paraíso, em que ela entrevistava dúzias
de pessoas sobre como elas imaginavam parecer o paraíso. Um número
surpreendente – surpreendente para mim, porque “cidade” nunca entrou
em minhas próprias noções de paraíso – mencionou lugares urbanos.
“Como L.A., Nova York ou Chicago,” disse uma. “Sete milhões de vezes
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maior que Nova York,” disse outra. O padre conservador católico Richard
John Neuhaus, que faleceu em 2009, gostava de imaginar o paraíso como
Manhattan. Um intelectual e esteta dedicado aos seus muitos amigos,
Neuhaus adorava sua cidade natal. “Algumas vezes eu sugeri,” uma vez
ele escreveu, “que acima dos portões celestiais haverá uma faixa: ‘Das
pessoas maravilhosas que produziram Nova York, a Nova Jerusalém.”. .
. e eu acrescento que aquelas que, durante a vida, não gostaram de Nova
York terão outro lugar para ir.”
Jerusalém era o centro da vida judaica (e cristã), no mínimo de
600 a.C. até 70 d.C., quando os romanos a destruíram e dispersaram o
povo que vivia lá. Não era uma cidade grande, ou politicamente muito
importante. Mas no seu centro, num alto morro, o mesmo morro onde se
relata que Abraão empunhou sua faca para matar seu filho amado Isaac,
estava o Templo. Era o lugar mais sagrado do judaísmo, a província dos
altos sacerdotes, local do único altar onde os judeus tinham permissão
legal de fazer seus sacrifícios. Sua destruição – não uma, mas duas vezes, a
primeira em 586 a.C. e depois, em 70 d.C. – criou feridas psíquicas pelas
quais ainda hoje os judeus sofrem. A cidade paradisíaca prometida no
Livro do Apocalipse é Jerusalém, mais magnífica que já foi na realidade.
O narrador vê “a cidade santa de Jerusalém descendo do céu, vinda de
Deus.” Ela tem paredes com pedras preciosas e portões de pérolas e
ruas de ouro. As mais antigas representações do paraíso na arte cristã
descreveram a “Paradisíaca Jerusalém”: um mosaico de 440 d.C. nas
paredes de Santa Maria Maggiore em Roma mostra uma cidade brilhante
azul-dourada, com os apóstolos entregues como cordeiros, esperando
fora dos portões.
Todas as igrejas nas cidades americanas realizam boas obras, de
uma forma ou de outra. Cultos para os sem-teto e distribuição de sopa,
recuperação econômica e programas educacionais. Muitos deles usam a
linguagem da “Nova Jerusalém” para inspirar e motivar seus voluntários.
Em 1993, Anthony Pilla, o então bispo católico romano de Cleveland,
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lançou “A Igreja na cidade,” que ainda dá garantias para projetos de
recuperação urbana. Num discurso, bispo Pilla fez uma ligação entre
uma Cleveland melhor e o paraíso. A Nova Jerusalém, ele disse, “é uma
promessa, um desafio e um convite para começar agora a participar da
vida daquela cidade celestial, praticando a misericórdia e a justiça que
tornarão nossas cidades terrenas um reflexo daquela cidade que está
por vir, mesmo se esperarmos por novos céus e uma nova terra, vamos
começar a construir uma nova cidade de justiça e paz.” Um urbanista
de Salt Lake City, chamado Mike Brown, que é membro da Igreja de
Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, fantasiou em seu blog sobre
as oportunidades no paraíso para um homem com seu conjunto de
competências. “Eu sonho com algum dia estar sentado no fundo de uma
sala e tendo o Próprio Senhor me chamando para fazer parte do comitê
para projetar a Nova Jerusalém.”
Muitos de nós imaginamos que o paraíso é tudo isso – cidades, belos
jardins, banquetes – e ao mesmo tempo nada disso. Isso é, dizemos a nós
mesmos, além da nossa compreensão. Owen Gingerich é um astrofísico
da Universidade de Harvard que passou sua infância numa pequena
comunidade menonita em Iowa e continua, nos seus oitenta anos a
acreditar firmemente num Deus criador, sobrenatural. Gingerich é um
especialista tanto em “céu” – Sol, Lua, estrelas e as forças que os fazem
se mover – e no “paraíso”. Ele participou de inúmeros debates sobre Fé
versus Razão, debates que ele considera, até certo ponto, infrutíferos.
Deus é Deus, ele argumentaria, e natureza é natureza. Eu o visitei porque
esperava ter alguma ideia sobre onde o paraíso poderia estar fisicamente.
Ele respondeu, mas sua ideia não ajudaria ninguém a encontrar o
paraíso numa nave espacial. Gingerich é um homem pequeno com sua
cabeça toda branca e no dia em que eu o encontrei, ele estava usando
jeans e um blazer esportivo. Ele é conhecido como um piadista: ao
ensinar a terceira lei de Newton, sobre movimento, a universitários, ele
costumava lançar a si mesmo fora da sala de aula, usando um extintor de
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incêndio. Na tarde em que visitei Gingerich, após uma manhã úmida e
tempestuosa, o vestuário de cores azul-papagaio do professor – jaqueta
e calças – secava sobre as cadeiras em seu escritório. Quando lhe
perguntei: “onde é o paraíso?” ele se levantou e, sem explicação subiu
numa prateleira alta dentro do seu escritório. De lá ele tirou um pequeno
almanaque inglês, datado de 1592, e ilustrado com desenhos do universo
conforme concepção de Copérnico.
Copérnico visualizava todos os planetas circulando o Sol. Numa
varredura conceitual, ele derrubou todas as convenções aristotélicas
sobre o lugar da terra no universo e, por extensão, o local do paraíso.
A terra (e seus habitantes) não mais estava contida nitidamente além da
esfera das estrelas fixas, protegida e governada por Deus no paraíso.
Copérnico descreveu um universo sem fronteiras. “Houve muito
trauma ao se abandonar o paraíso como um local físico próximo,” disse
Gingerich. “As pessoas tiveram de superar isso.”
Dentro das páginas do panfleto, de quatrocentos anos, havia um
pequeno mapa dobrado que Gingerich me mostrou, manuseando
casualmente seu precioso livro, como se ele fosse a última edição da
National Geographic. Havia o Sol, circundado por Mercúrio, Vênus,
Terra, Marte, Júpiter e Saturno – os únicos planetas descobertos até
então. Em torno deles, marcado por pequenas estrelas estendidas além
dos limites da página, estava o universo infinito. Impressa nas margens
estava essa explicação pelo astrônomo inglês Thomas Digges: [N.T: em
inglês antigo] “Este orbe de estrelas fixas, infinitamente alto, se estende
em altitude esférica.” É lá, além das estrelas e dos planetas em órbita, que
está o paraíso, “a verdadeira corte de anjos celestiais devotados ao louvor
que preenchem com alegria sem fim o habitat dos eleitos.”
Quanto mais sabemos a respeito do universo, mais temos que
reimaginar o paraíso, “o habitat dos eleitos.” Sabemos, com certeza que
não é nos céus, Gingerich me diz, nem em qualquer lugar no universo
conhecido. Para Gingerich, que por profissão imagina lugares que não
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podemos ver, o local não definido do paraíso não apresenta problema
conceitual. Os modernos astrofísicos falam sobre multiversos, universos
paralelos, além dos espaços governados por leis físicas diferentes das
que conhecemos por aqui. “Esses espaços multiversos são muito como o
paraíso,” ele me diz, “algo que podemos conceituar, mas nunca observar.”
O paraíso está simplesmente... em outro lugar. Sua localização é, como
diz Gingerich, “irrespondível” – mas a questão não lhe tira o sono à noite.
Mais desafiadora para Gingerich é a ideia de submeter sua
individualidade à perfeição da eternidade, pois os humanos são
organismos bioquímicos que mudam de uma década a outra – de fato,
de um milissegundo a outro. Crescemos, aprendemos, lembramos,
esquecemos, envelhecemos. Fazemos amor, dormimos, acordamos
levemente diferentes do que éramos ontem, nossas unhas e cabelos
invisivelmente mais longos. Os tendões que movem meus dedos neste
teclado se gastam com o tempo, a pele de minhas mãos cresce mais
delicada. E ainda que o movimento dos meus dedos produza este livro,
enquanto escrevo, eu aprendo. Para Gingerich, a questão mais difícil
sobre o paraíso não é onde, mas como. Como o organismo humano,
assim definido por mudanças, existirá na eternidade?
“Pessoalmente,” diz Gingerich, olhando para mim por cima dos seus
óculos de aro, “digo que o paraíso é um grande mistério. Se tiver uma
quantidade de tempo infinita, o que farei para evitar o tédio? Imagino
que estarei aprendendo árabe e sânscrito e aprendendo e esquecendo
várias vezes. Gostaria de ver minha mãe novamente. Mas será que vou vêla novamente como uma mulher de trinta anos e eu com oitenta anos?...
O que é que me constitui? Como isso pode ser preservado quando somos
parte de uma corrente sempre em mudanças? Estaremos num estado
sem mudanças? Mas se estamos aprendendo, estamos mudando. Todo o
conceito é tão cheio de enigmas; temos que ter esperança de um tipo de
continuidade, mas uma continuidade tão inconcebivelmente diferente do
que somos agora que você pode ter uma dor de cabeça para imaginá-la.”
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Como é mais fácil, diz Gingerich, imaginar o paraíso como o fizeram
na Idade Média, um lugar físico por aí, onde Deus vive com os santos
e anjos, arrumados em filas perfeitas, como um coro de igreja. Como
nossos cartões de natal de anjos e livros infantis com céus azuis que
mostram o paraíso como um lugar lindo “lá em cima,” Gingerich diz,
“ainda estamos parados – com um pé na Idade Média e o outro pé nessa
moderna visão do espaço.” Vou para casa de trem, imaginando como
as pessoas na terra podem usufruir conforto num lugar que não podem
conhecer.
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