YORK RIO - Fraternitas In Praxis

Сomentários

Transcrição

YORK RIO - Fraternitas In Praxis
Volume 1, Número 1, Mai/Ago. 2013.
YARON GAL WEIS
Filhos da Luz na Terra Santa: os
Maçons Fundadores da Moderna
Israel
RAFHAEL GUIMARÃES
A Iniciação Maçônica: uma Análise de
sua Mitologia por meio da Jornada do
Herói
JORGE EDUARDO DE LIMA SIQUEIRA
Processo Disciplinar Maçônico:
Elementos Fundamentais de Validade
KENNYO ISMAIL
Maçonaria: Democracia e
Meritocracia no Mundo Ocidental
LUIZ FRANKLIN MATTOS
Uma Luz na História: o Sentido e
a Formação da COMAB (review)
RUBENS CALDEIRA MONTEIRO
Fortalecendo os Laços que nos Unem
como Verdadeiros Irmãos (news)
EDUARDO CEZAR FERREIRA
A Ordem DeMolay na Rio+20 (report)
YORK RIO
Apoio:
Associação
Realização:
Patrocínio:
FinP entrevista: Peter Diaz, Shriner
Volume 1, Número 1, Mai/Ago. 2013.
Missão:
Desenvolver e promover estudos e pesquisas sobre Maçonaria e Fraternidades em geral, com foco em História e Ciências Sociais. Sua dimensão internacional busca promover maior intercâmbio entre pesquisadores de
diferentes culturas, saberes e formação, acessando outros níveis de realidade e contribuindo para o enriquecimento de nosso conhecimento numa proposta transdiciplinar.
Dados Catalográficos:
Maio a Agosto de 2013.
Volume 01.
Número 01.
Periodicidade:
Quadrimestral
Conselho Editorial
Rubens Caldeira Monteiro (Editor-Chefe)
José Roberto Ferreira
Kennyo Ismail
Luiz Franklin Mattos
Contato
Editor-Chefe: [email protected]
Suporte Técnico: [email protected]
Portal: www.fraternitasinpraxis.com.br
Contato geral: [email protected]
Ilustração da Capa:
Furniture of the Tabernacle—BibleRevival
(domínio público)
Fonte: http://masonicrenewal.drupalgardens.com/
Parceiros Institucionais:
Associação YORK RIO
Loja de Pesquisas Maçônicas “Rio de Janeiro”
Grande Oriente Independente do Rio de Janeiro
Aviso:
Os artigos publicados são de inteira responsabilidade de seus autores. As opiniões neles emitidas não exprimem, necessariamente, o ponto de vista da Revista Fraternitas in Praxis—FinP.
Qualquer parte desta publicação pode ser reproduzida, desde que citados o autor e a fonte.
(Espaço destinado à catalogação)
2
Volume 1, Número 1, Mai/Ago. 2013.
Sumário
Prefácio
5-7
Filhos da Luz na Terra Santa: os Maçons Fundadores da Moderna Israel
YARON GAL WEIS
9-13
A Iniciação Maçônica: uma Análise de sua Mitologia por meio da Jornada
do Herói
RAFHAEL GUIMARÃES
15-22
Processo Disciplinar Maçônico: Elementos Fundamentais de Validade
JORGE EDUARDO DE LIMA SIQUEIRA
23-31
Maçonaria: Democracia e Meritocracia no Mundo Ocidental
KENNYO ISMAIL
33-39
Uma Luz na História: o Sentido e a Formação da COMAB (resenha)
LUIZ FRANKLIN MATTOS
41-42
Fortalecendo os Laços que nos Unem como Verdadeiros Irmãos (notícia)
RUBENS CALDEIRA MONTEIRO
43-44
A Ordem DeMolay na Rio+20 (evento)
EDUARDO CEZAR FERREIRA
45-48
FinP entrevista: PETER DIAZ, Shriner
49-53
3
4
Volume 1, Número 1, Mai/Ago. 2013.
Apresentação
cia de publicações periódicas com um perfil mais acadêmico-científico. É neste contexto que nos inserimos.
Fundada por nove irmãos em 1884 e instalada
em 12 de janeiro de 1886, a Loja Quatuor Coronati é
tida como a primeira Loja de Pesquisas do mundo, e
ainda em funcionamento. Sob o número distintivo de
2076 na Grande Loja Unida da Inglaterra – UGLE, seus
membros fundadores tiveram por iniciativa desenvolver estudos de história maçônica e pesquisa da Maçonaria baseados em evidências, e não em textos
fantásticos como já naquela época existiam. Essa
abordagem foi base para uma literatura maçônica
mais autêntica. Suas “Transactions” são publicadas
anualmente, desde 1888, com o título de “Ars Quatuor Coronatorum”, e figuram hoje entre as mais respeitadas publicações maçônicas, tendo decisivamente contribuído para o desenvolvimento intelectual da
Maçonaria, principalmente nos países de idioma inglês.
Buscando criar um laço de união entre estudiosos da Maçonaria, maçons e não maçons, acadêmicos e leigos, a FRATERNITAS IN PRAXIS apresenta-se
como revista eletrônica com periodicidade quadrimestral, publicada pela Associação YORK RIO e pela
Loja Maçônica de Pesquisas “Rio de Janeiro” nº 54 GOIRJ.
Abrindo espaço para compartilhamento de
trabalhos especializados no tema, com base nas práticas de publicação científica seriada, visa divulgar
trabalhos que de outra feita ficariam restritas a apresentações em Lojas ou periódicos pouco acessíveis
para todo buscador.
O objetivo da FRATERNITAS IN PRAXIS é desenvolver e promover estudos e pesquisas sobre Maçonaria e Fraternidades em geral, com foco em História e Ciências Sociais. Aceitando manuscritos em português e espanhol, sua dimensão internacional busca
promover maior intercâmbio entre pesquisadores de
diferentes culturas, saberes e formação, acessando
outros níveis de realidade e contribuindo para o enriquecimento de nosso conhecimento numa proposta
transdisciplinar.
Atualmente, outras publicações se destacam
no cenário mundial como voltadas para o estudo e a
pesquisa maçônica: Philalethes (EUA, desde 1946),
Points de Vue Initiatiques (França, desde 1965),
Phylaxis (EUA, desde 1980), Heredom (EUA, desde
2002), Revista de Estudios Históricos de la Masonería
Latinoamericana y Caribeña - REHMLAC (Costa Rica,
desde 2009) e Journal for Research into Freemasonry
and Fraternalism - JRFF (UK, desde 2010).
No Brasil existe já um sem número de publicações voltadas à divulgação de eventos e trabalhos
maçônicos, entre as quais podemos citar: A Trolha
(PR), Acácia (RS), Ao Zenyte (DF), Arte Real (MG), Astréa (RJ), Engenho & Arte (RJ), Na Sombra da Acácia
(PA), O Pesquisador Maçônico (RJ), O Prumo (SC), O
Vigilante (RS), União de Goiás (GO), Universo Maçônico (SP), além de diversos jornais e informativos de
Lojas, Obediências simbólicas e altos corpos. Porém,
ainda não devidamente explorado, existe uma carên-
São diversos os formatos aceitos para publicação:
Artigo Original: artigo teórico ou empírico que
apresenta uma reflexão e interpretação crítica de algum fenômeno maçônico observado, sustentado por
referências bibliográficas relevantes.
Artigo de Revisão: avaliação crítica sistematizada da literatura, que apresente uma meta-análise
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 5-7, Mai/Ago, 2013.
5
FinP - APRESENTAÇÃO
ou o “estado da arte” de determinado assunto maçônico. Devem ser descritos os métodos e procedimentos adotados para a revisão e o texto deve ser baseado em revisão atualizada da literatura. Tratando-se
de temas ainda sob investigação, a revisão deve discutir as tendências e linhas de investigação em curso.
poderão apreciar um artigo sobre a Maçonaria em
Israel, de um diplomata do Estado de Israel em serviço no Brasil, Yaron Gal Weis. O artigo, traduzido e
comentado pelo nobre irmão Kennyo Ismail, advoga
que “o Estado de Israel foi concebido e fundado por
maçons e por pessoas ligadas a esses.” Bebendo de
fontes judaicas, a Maçonaria mantém em suas lendas
e mitos grande parte da tradição do Judaísmo, principalmente nos graus simbólicos, graus capitulares do
Real Arco e graus inefáveis do Rito Escocês Antigo e
Aceito. Passando por comunidades ascéticas como a
dos “Filhos da Luz”, pelo Egito napoleônico até a 2ª
Guerra Mundial, o autor, baseado exclusivamente na
obra de Leon Zeldis, descreve o nascimento da Maçonaria Especulativa regular em Israel.
Relato Crítico de Evento: documento formal,
específico para informar resultados de eventos em
execução ou concluídos, não apenas descrevendo o
evento em si, mas também opinando sobre sua relevância e avanços.
Resenha de Livro: consiste em análise crítica
de livros, teses, dissertações e monografias, publicadas no Brasil e no exterior sobre Maçonaria.
Entrevista: o foco nas questões ligadas aos
Rafhael Guimarães aborda a jornada arquetíconhecimentos e experiências maçônicas do entrevis- pica perpetrada pelo iniciando no Rito Escocês Antigo
tado, em nível essencialmente técnico.
e Aceito pela ótica do mito do herói, embasado nos
Matéria noticiosa: texto claro e objetivo que estudos de Carl Jung e Joseph Campbell. Mito exclusitransmite informações recentes e contextualizadas, vo da mitologia maçônica a Lenda de Hiram Abbif foi
muito bem retratada por Zé Rodrix no romance histósem a impressão de opinião pessoal do autor.
rico “Johaben: Diário de um construtor do Templo”,
Os artigos são divididos nas seguintes seções: da sua “Trilogia do Templo” (448 p., Editora Record,
1. Simbologia e Filosofia; 2. História; 3. Sociologia, R$ 47,90). Este artigo o conduzirá pelas fases dessa
Antropologia e demais Ciências Sociais; e 4. Teologia. jornada do herói, passando das intempéries das paiNúmeros especiais voltados a tópicos relevantes ou xões até o vislumbre da Luz.
atuais podem ser ocasionalmente publicados, inclusiEntendida como uma organização social, sob
ve reimpressão de obras escassas e valiosas sobre a
o
ponto
de vista civil, a Loja ou Obediência Maçônica
Maçonaria, bem como manuscritos inéditos e tradudeve buscar, em seu processo disciplinar, imputar aos
ção de artigos, mediante autorização.
seus associados em desrespeito as suas normas, sanOs artigos originais são avaliados inicialmente ções que não sejam contrárias às disposições constipelo editor-chefe para validação de adequação ao tucionais, de forma a garantir sua eficácia. O artigo
formato e submetidos a revisores para avaliação anô- de Jorge Eduardo de Lima Siqueira traz relevantes
nima (blind peer review).
comentários sobre a validade dos processos discipliEsta revista oferece acesso livre imediato ao nares maçônicos, sobre o contraditório e a ampla deseu conteúdo, seguindo o princípio de que disponibi- fesa, num ponto de vista prático, inclusive apresenlizar gratuitamente o conhecimento científico ao pú- tando modelos de denúncia, ata de audiência e deblico proporciona maior democratização mundial do poimento.
conhecimento, adotando a Licença de Atribuição (BY)
O artigo de Kennyo Ismail apresenta a Maçodo Creative Commons (CC BY) em todos os trabalhos naria como precursora de práticas como a Democrapublicados, o que permite distribuição, e cópia, des- cia e a Meritocracia, observando as práticas seculares
de que citada a fonte.
de democracia direta e representativa e de nomeaNeste primeiro número da revista os leitores ções realizadas por Lojas e Grandes Lojas, antes mesFinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 5-7, Mai/Ago, 2013.
6
FinP - APRESENTAÇÃO
mo do surgimento das primeiras repúblicas moder- molay e Mestre Maçom Eduardo Ferreira apresenta
nas.
um relato crítico da participação da Ordem DeMolay
A formação da Confederação Maçônica do nesse evento internacional, evidenciando o protagoBrasil – COMAB, em 1973, representando a terceira nismo juvenil dessa organização patrocinada pela
grande cisão do GOB, depois das de 1854 e de 1927, Maçonaria.
é o tema do livro “Uma Luz na História: o sentido e a
formação da COMAB”, de Octacílio Schüler Sobrinho,
resenhado por Luiz Franklin Mattos. O resenhista começa alertando sobre as questões ventiladas durante
o processo eleitoral para Grão-Mestre Geral e GrãoMestre Geral Adjunto do GOB, realizado em 9 de
março de 2013, no qual 734 Lojas não tiveram seus
votos computados pelo Superior Tribunal Eleitoral
Maçônico. Há 40 anos, um processo eleitoral similar
levou à dissidência e à formação da COMAB. A obra é
fartamente documentada e tem grande valor pelo
seu registro histórico.
Esperamos que os leitores possam aproveitar
o conteúdo desse nosso número de lançamento da
revista Fraternitas in Praxis – FinP, e aguardamos a
colaboração de autores que queiram compartilhar
suas ideias, pesquisas e opiniões por meio de nossa
revista.
Fraterna e Sinceramente,
Rubens Caldeira Monteiro
Editor-Chefe
[email protected]
A entrevista da FinP desse número foi com o
Dr. Peter Diaz, médico e Nobre Shriner. O Dr. Diaz
teve sua infância em Cuba, de lá emigrando para a
Espanha, onde se formou em Medicina, e depois para
os Estados Unidos da América, para sua especialização. Foi na terra do Tio Sam que Diaz conheceu sua
esposa, filha de maçom, tendo seu primeiro contato
com a Maçonaria. Acabou apaixonando-se pelo trabalho filantrópico desenvolvido pelos Shriners. Hoje,
o Dr. Peter Diaz é membro do Comitê Acreditador do
Shriners Hospitals for Children e na entrevista à FinP
fala de sua vida e dos propósitos dos Shriners.
Rubens Caldeira Monteiro traz notícia sobre o
reconhecimento de três Grandes Orientes Independentes pela Grande Loja do Distrito de Columbia
(EUA), em novembro de 2012. O Grande Oriente do
Rio Grande do Sul - GORGS, o Grande Oriente Paulista - GOP-SP e o Grande Oriente do Estado do Mato
Grosso - GOEMT recebem no mês de maio de 2013 a
visita do Grão-Mestre Teko Foly, da GLDC, com sede
em Washington, para assinatura dos tratados.
Realizada em junho de 2012, a Conferência
das Nações Unidas para o Desenvolvimento, conhecida Rio+20 contou com a participação da Ordem DeMolay em seu evento paralelo, a Cúpula dos Povos na
Rio+20 por Justiça Social e Ambiental. O sênior DeFinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 5-7, Mai/Ago, 2013.
7
8
Recebido: 08/05/2013
Aprovado: 14/06/2013
FILHOS DA LUZ NA TERRA SANTA:
OS MAÇONS FUNDADORES DA MODERNA ISRAEL
Autor: Yaron Gal Weis¹
Tradução e Comentários: Kennyo Ismail²
Resumo
O presente artigo, baseado no livro homônimo e de autoria do Ir. Leon Zeldis, apresenta um resumo da relação de Jerusalém, do atual Estado de Israel, dos judeus e israelenses com a Maçonaria Especulativa, bem como um breve relato histórico do surgimento da Maçonaria Regular no Estado de Israel, além de apontar maçons que são personalidades históricas que desempenharam papel relevante na criação e formação do Estado de Israel.
Palavras-chave: Israel; Judaísmo; Maçonaria.
Abstract
This article, based on the book with the same name and by Bro. Leon Zeldis, summarizes the relationship of
Jerusalem, the modern State of Israel, Jews and Israelis with the Speculative Freemasonry, as well as a brief
historical account of the emergence of Regular Freemasonry in the State of Israel, besides pointing Freemasons who are historical figures who played important role in the creation and formation of the State of Israel.
Keywords: Israel, Judaism, Freemasonry.
¹ Yaron Gal Weis é cidadão israelense, funcionário do Ministério de Relações Internacionais do Estado de Israel em serviço no Brasil, e membro da Loja Maçônica “Flor de Lótus” n.38 - GLMDF. Apresentou este artigo como exigência parcial do grau de Aprendiz
Maçom.
² Kennyo Ismail teve a honra e o prazer de ser o padrinho maçônico do Ir. Yaron, tê-lo iniciado durante sua gestão como Venerável
Mestre em uma Iniciação bilíngue, e auxiliá-lo com a tradução deste artigo.
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 9-13, Mai/Ago, 2013.
9
WEIS, Yaron Gal. FILHOS DA LUZ NA TERRA SANTA: OS MAÇONS FUNDADORES DA MODERNA ISRAEL
adores afirmam que Jesus de Nazaré tenha pertencido a essa comunidade, também conhecida como dos
Este artigo é baseado no livro "Filhos da Luz essênios.
na Terra Santa", escrito pelo excelentíssimo Irmão
Em Jerusalém, pode-se ainda encontrar vestíLeon Zeldis, Fellow da Philalethes Society, membro da
gios
da
Maçonaria Operativa relacionados a lendas
Sociedade dos Frades Azuis, 33°, Past Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho do Rito Esco- maçônicas. O Muro das Lamentações, situado em Jecês para o Estado de Israel, Grão-Mestre Adjunto de rusalém, é na verdade a única relíquia que sobrou do
Templo de Herodes³. Os registros oficiais indicam que
Honra da Grande Loja do Estado de Israel.
durante escavações arqueológicas feitas em seu subO escritor deste artigo não tem qualquer in- solo, um túnel foi encontrado. Os arqueólogos então
tenção de discutir o escopo completo do profundo e encontraram as pedras da fundação, que aparentesério trabalho histórico do ilustre Irmão Leon Zeldis. mente sustentavam a base das paredes do templo.
Na verdade, opta-se aqui por seguir um argumento Elas tinham sido esculpidas tão perfeitamente, que
específico que sugere que o Estado de Israel foi con- não se pode sequer enfiar uma faca com a lâmina
cebido e fundado por maçons e por pessoas ligadas a mais fina entre elas (p. 28). Isso pode ser uma evidênesses.
cia da existência de pedreiros profissionais há mais
de 2.000 anos.
Os Judeus e a Maçonaria Operativa
Na opinião de vários historiadores, debaixo da
Não é de surpreender que o povo judeu tenha
bela
Cúpula
da Rocha, na Mesquita de Al-Aksa, situasido de alguma forma, e alguns judeus ainda estão,
interligados com a Maçonaria. Como é de conheci- se a pedra fundamental ou pedra santa do Templo de
mento público, alegoricamente a Maçonaria conside- Herodes. De acordo com a Bíblia, a Arca da Aliança
ra Israel, mais especificamente Jerusalém, como seu foi colocada à frente dela (p. 29-30).
berço. Afinal de contas, o Templo de Salomão tem
A importância de Jerusalém para o Judaísmo
uma importância significativa para a Maçonaria em pode ser demonstrado na seguinte antiga crença jutodos os ritos maçônicos regulares (p. 7).
daica: a) a Terra de Israel é o centro do mundo; b)
Embora não há evidência histórica de que Jerusalém é o centro de Israel; c) o Templo é o centro
qualquer tipo de organização dos maçons operativos de Jerusalém; d) O Dvir´ é o centro do Templo; e) A
tenha existido até, pelo menos, a fundação do Reino Arca da Aliança é o centro do Dvir; (f) A pedra fundaLatino de Jerusalém pelos cruzados no século 11 d.C. mental ou pedra santa está na frente da Arca da Ali(p. 8-9), algumas características desse tipo de organi- ança (p. 30).
zação podem ser encontradas na comunidade de Maçonaria Especulativa no Oriente Médio
Qumran, um grupo judaico messiânico que viveu nas
Antes de começarmos a explorar a Maçonaria
proximidades do Mar Morto (p. 8-9). Entre essas características, pode-se notar o termo pelo qual o gru- judaica, é de extrema importância nos situarmos no
po era conhecido, “Filhos da Luz”; o processo de ad- contexto histórico para o desenvolvimento da Maçomissão na comunidade, que correspondia a um lento naria no Oriente Médio. Em 1798, Napoleão Bonaprogresso dos recém-chegados, que eram supervisio- parte conquistou o Egito, seguindo para o Norte e
nados e avaliados periodicamente; e o simbolismo conquistando também Gaza, Jaffa e Ramallah. Muitos
baseado em pilares e pedreiras (ibid.). Alguns histori- oficiais e soldados do seu exército eram maçons. TalIntrodução
³ N.E.: Flavius Josephus (37 d.C. – ca. 100 d.C.), judeu e romano, registra que o Templo de Jerusalém foi totalmente reconstruído
por Herodes, o Grande (ca. 73 a.C. - 4 a.C ou 1 d.C.). Ficou conhecido como Templo de Herodes ou Terceiro Templo de Jerusalém,
após a construção por Salomão (ca. 957 a.C.) e a reconstrução após o cativeiro na Babilônia (ca. 515 a.C.).
´ Dvir, que significa “o lugar mais sagrado”, mais conhecido como Sanctum Sanctorum.
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 9-13, Mai/Ago, 2013.
10
WEIS, Yaron Gal. FILHOS DA LUZ NA TERRA SANTA: OS MAÇONS FUNDADORES DA MODERNA ISRAEL
vez daí a forte predominância da Maçonaria francesa o meu povo”. Ou seja, em outras palavras: “Libertesobre a Maçonaria judaica em Israel durante o início os!”
de sua formação (p. 32-33).
Porém, somente a partir do Século 19 há eviUma das empreitadas mais intrigantes dos
oficiais de Napoleão foi o estabelecimento de uma
loja em Alexandria com o nome de “Isis” (p. 33). Por
que razão esses oficiais escolheriam especificamente
esse nome para a Loja? Alguns céticos provavelmente
podem sugerir que a razão foi, obviamente, a localização da Loja no Egito. Porém, um maçom bem instruído provavelmente levará em consideração que a
deusa egípcia Isis simboliza conhecimento, a ordem
temporal do sacerdócio e do corpo cumulativo de
iniciados. Ela é personificada como o Templo, Ela é a
mãe de todo o bem, a protetora do certo e a patrona
de todo desenvolvimento. É relevante também mencionar que Isis era a patrona das artes mágicas entre
os egípcios, enfatizando que a magia deveria ser usada exclusivamente para o propósito da redenção da
alma humana. Enquanto Isis é identificada com o
Templo, ela representa apenas um dos lados de um
triângulo místico. Os outros dois lados são Osíris, simbolizando a aprendizagem dos ritos antigos, e Hórus,
simbolizando os adeptos que “nasceram de novo”,
fora do útero da mãe Isis, que representa a escola de
mistérios ou a iniciação.
dências de atividades maçônicas na terra de Israel (p.
14). No ano de 1860, a “Alliance Israelite Universelle”
foi fundada na França, com o objetivo de incentivar a
educação judaica no Oriente. Um de seus fundadores
foi eleito em 1869 como Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e
Aceito na França (p. 19). A “Aliança” teve um grande
impacto sobre a educação secular judaica e israelense antes do estabelecimento do Estado de Israel, e
maior importância ainda após a sua criação.
Outra organização com uma extrema importância para a formação de Israel foi o movimento
“Hibbat Zion” (Amor de Sião), que foi fundado em
1889 por intelectuais judeus russos, na cidade de
Odessa (p. 20). O objetivo principal desse movimento
era encorajar os judeus à imigração para Israel e estabelecer assentamentos agrícolas e industriais com
base em princípios democráticos e liberais (ibid.). Esse movimento estabeleceu a Sociedade Secreta
“Bne'I Moshe” (Filhos de Moisés) a qual foi fortemente inspirada pela Maçonaria (p. 21). Um dos seus
principais fundadores era Asher Ginzberg (“Ahad HaAm”), que afetou profundamente a motivação dos
Alguém poderia perguntar por que o autor dá judeus europeus a emigrar para Israel. Asher Ginztanta atenção ao Egito e sua mitologia. A resposta berg tinha conexões com a Maçonaria: sua filha era
encontra-se na conexão entre o Antigo Egito, o povo casada com um maçom ativo (ibid.).
de Israel e a Maçonaria judaica moderna. A Bíblia
O chamado “Caso Dreyfus”⁵, que refletiu em
conta a história do povo de Israel, que serviu gover- violência e antissemitismo na Europa, levou ao surginantes egípcios como trabalho escravo. De acordo mento do líder do movimento sionista, Theodor
com as antigas fontes, o povo de Israel trabalhou na (Binyamin Zeev) Herzl (p. 24). Embora o próprio Herzl
construção das pirâmides. Considerando isso, os ju- não fosse maçom, o seu pai era, e Herzl havia sido
deus foram antigos maçons operativos profissionais “adotado” em um ritual maçônico de adoção de low(infelizmente não podemos acrescentar o termo tons⁶, realizado nas dependências de uma organiza“livres”, nesse caso). A partir daí, pode-se imaginar a ção chamada “Chevra Kadisha” (Sociedade Sagrada)
atratividade da filosofia maçônica aos judeus. Afinal em Budapeste (p. 25). O movimento sionista culmide contas, foi Moisés quem disse ao Faraó: “Deixa ir
⁵ Dreyfus foi um oficial do exército francês, de origem judaica, que, inocente, sofreu um processo judicial coberto de fraudes que
levou a sua condenação. Para reduzir os efeitos públicos do erro judicial, iniciou-se uma campanha nacionalista e xenofóbica na
França, a qual alcançou toda a Europa ainda no final do século XIX.
⁶ Cerimônia pela qual uma Loja Maçônica assume o compromisso de apoiar e orientar na formação moral e intelectual do filho de
um de seus membros, no caso de sua ausência.
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 9-13, Mai/Ago, 2013.
11
WEIS, Yaron Gal. FILHOS DA LUZ NA TERRA SANTA: OS MAÇONS FUNDADORES DA MODERNA ISRAEL
nou em uma onda de imigração de judeus para Israel,
e de uma de suas principais criações, a Organização
Sionista Mundial – OSM, quando surgiram as instituições nacionais iniciais de Israel e seus primeiros líderes políticos.
Seria interessante notar que, em 13 de maio de
1868, o Mui Venerável⁷ Irmão Robert Morris, Past
Grão-Mestre da Grande Loja de Kentucky, dirigiu uma
cerimônia fechada na caverna de Zedequias, popularmente conhecida como “Pedreiras do Rei Salomão”,
numa profundidade abaixo das muralhas da cidade
velha de Jerusalém. O Dr. Morris trabalhou incessantemente para erguer a primeira Loja Maçônica regular em Israel e, em 1873, ele finalmente conseguiu
obter uma carta constitutiva da Grande Loja do Canadá, com sede em Ontário, para a “Royal Solomon
Mother Lodge” n º 293, para trabalhar “na cidade de
Jerusalém ou locais adjacentes”. Esta foi a primeira
Loja Maçônica regular em Israel. A maioria de seus
membros fundadores eram colonos americanos que
viviam em Jaffa (p. 33-37).
Como já assinalado neste artigo, os maçons
judeus tinham desempenhado um papel importante
na formação da educação judaica e israelense. Um
deles foi o Irmão Karl Netter, que estabeleceu a
“Mikve Israel”, a primeira escola a ensinar métodos
de agricultura moderna em Israel (p. 46). Outro famoso educador judeu foi o também maçom David
Yellin (1864-1941). O Irmão Yellin foi um dos primeiros professores de hebraico em Israel, e um dos fundadores da Biblioteca Nacional e do Comitê da Língua
Hebraica (p. 69). Além disso, ele atuou como Vereador da cidade de Jerusalém e Vice-prefeito (ibid.). E
por último, mas não menos importante, é um agradável dever mencionar o Irmão David Yudilevich, que
foi um dos fundadores da cidade de Zichron Yaakov,
e que estabeleceu a escola “Haviv”, a primeira no
mundo a ensinar apenas em língua hebraica. Ele tam-
bém atuou como Vereador, na cidade Rishon Le Tzion
(p. 70-72).
Outra anedota sobre as conexões históricas
entre Jerusalém e a Maçonaria pode ser encontrada
na história do Irmão e Sir Charles Warren. Em 1867, o
General Charles Warren iniciou um período de escavação clandestina, que durou cerca de três anos.
Uma de suas descobertas mais curiosas foi o “Salão
Maçônico” sob as paredes do Monte do Templo⁸, em
Jerusalém. As paredes do “Salão Maçônico” foram
construídas com pedras cortadas e contêm duas colunas quadradas com títulos esculpidos, aros e batentes (p. 42-43).
Apesar de se esperar que os maçons não tratem de questões políticas e religiosas dentro de suas
Lojas, nada impede que um maçom seja engajado
politicamente fora dela. Pelo contrário, um maçom
deve ser, acima de tudo, livre para lutar por aquilo
que acredita. Esse foi o caso de um dos mais importantes e influente ideólogos sionistas, Irmão Vladimir
(Ze'ev) Jabotinsky (1880-1940). O Irmão Jabotinsky
foi o fundador do movimento revisionista na organização sionista, que mais tarde deu origem ao nascimento do partido de extrema-direita sionista: o
“Likud”. Menachem Begin e Benjamin Netanyahu são
os dois Primeiros-ministros israelenses que surgiram
a partir desse movimento (p. 143). Além disso, o Irmão Jabotinsky também foi um escritor, poeta e tradutor (ibid.).
A primeira Grande Loja Nacional em Israel foi
constituída em 1933, mesmo antes da criação do Estado, e reuniu todas as Lojas que estavam trabalhando sob jurisdições egípcias ou francesas. As lojas de
língua inglesa, no entanto, recusaram-se a aderir à
nova Grande Loja e continuaram trabalhando separadamente. A falta de reconhecimento por parte da
Grande Loja Unida da Inglaterra resultou em um quase completo isolamento internacional (p. 156-158).
⁷ Em todo o mundo os Grão-Mestres são chamados pelo termo de tratamento “Mui Venerável”. Já no Brasil, como sempre, modificações ocorreram. Uns são chamados de “Soberano”, outros de “Sereníssimo” e outros de “Eminente”.
⁸ Um dos locais mais sagrados de Jerusalém, tido como sagrado para judeus, cristãos e muçulmanos. Os judeus consideram que se
trata do sagrado Monte Moriá, onde foi construído o Templo de Salomão. Há um aviso para que os judeus não se aproximem, visto o risco de, sem saberem, invadirem o território do Sanctum Sanctorum, o qual, mesmo com o desaparecimento total do Templo, é tido como restrito ao Sumo Sacerdote.
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 9-13, Mai/Ago, 2013.
12
WEIS, Yaron Gal. FILHOS DA LUZ NA TERRA SANTA: OS MAÇONS FUNDADORES DA MODERNA ISRAEL
A 2ª Guerra Mundial teve um efeito tremendo
e desastroso sobre a Maçonaria em todo o mundo e,
especialmente, sobre os judeus maçons. Um caso especial, nesse contexto, é a história das cinco Lojas
Maçônicas de língua alemã, fundadas em Israel em
1931 pelo Grão-Mestre da Grande Loja Simbólica da
Alemanha, o Mui Venerável Irmão Otto Muffelmann.
Ele percebeu que a ascensão de Hitler na Alemanha
poderia significar o fim da existência da Maçonaria
em seu país. Então ele viajou para Israel e, com a ajuda de Irmãos alemães que emigraram para escapar
das leis raciais nazistas, fundou Lojas nas três principais cidades: Jerusalém, Tel-Aviv e Haifa. Logo depois, a Maçonaria foi realmente proibida na Alemanha, as Grandes Lojas alemãs fecharam suas portas, e
muitos Irmãos maçons foram brutalmente assassinados nos campos de concentração. Lojas de língua alemã em Israel e Chile, por exemplo, mantiveram viva a
chama da Maçonaria alemã durante aqueles anos
terríveis e, após o fim da guerra, foram cruciais no
reestabelecimento da Maçonaria na Alemanha (p.
114-116).
serviu como Vereador da cidade de Haifa, Viceprefeito e, finalmente, Prefeito (ibid.). Além disso, o
Irmão Levy assumiu, como já mencionado, como o
primeiro Grão-Mestre da Grande Loja do Estado de
Israel, em 20 de outubro de 1953 (p. 192-200).
Comentários Finais
Em resumo, na verdade muitos maçons estiveram envolvidos na criação do moderno Estado de
Israel. O autor deste artigo gostaria de sugerir ao leitor mais esclarecido que evite se confundir entre Sionismo e Maçonaria. Essas duas instituições filosóficas
não são uma. São claramente diferentes, conjuntos
separados de ideias e ideais. Deve-se ter em mente
que, apesar do fato de muitos maçons terem participado de forma profunda e relevante na criação e formação da Israel moderna, eles fizeram isso como indivíduos e de suas próprias iniciativas. Logicamente
foram positivamente influenciados pelo espírito humanista da Maçonaria, o qual preconiza princípios
como de liberdade, igualdade, fraternidade e verdaApós a 2ª Guerra Mundial, houve a necessida- deira amizade entre as pessoas, independentemente
de da (re)criação de uma Grande Loja em Israel, que de religião, raça, status social ou convicções políticas.
fosse capaz de promover a unidade dentro da MaçoComo se pode facilmente observar, há uma
naria israelense e conquistar reconhecimento inter- virtude fundamental que é incutida pela iniciação
nacional. Esse ideal foi alcançado em 1953, no edifí- maçônica em seus membros, que é auto aperfeiçoacio da YMCA⁹ em Jerusalém, quando, em uma ceri- mento. Todos e cada um dos heróis maçons judeus
mônia impressionante, conduzida pelo Conde de El- começaram com a busca pelo aperfeiçoamento de si
gin e Kincardine, na posição de Past Grão-Mestre da mesmos antes de tentarem melhorar o mundo exteGrande Loja da Escócia, a Grande Loja do Estado de rior em que viviam. Essa é provavelmente a chave
Israel foi instalada e o Mui Venerável Irmão Shabetay que dá acesso ao maior segredo maçônico, a construLevy foi empossado como seu primeiro Grão-Mestre ção de um maçom sério e dedicado.
(p. 189-200).
Este autor opta por concluir este breve artigo
com um modelo humilde e reservado da Maçonaria Bibliografia
israelense: Irmão Shabetay Levy. O Irmão Levy aju- ZELDIS-MANDEL, Leon. B’nai Or Be’Eretz HaKodesh, (Sons of
dou judeus, cristãos e muçulmanos perante as autori- Light in the Holy Land). Israel: E. Narkis, 2009.
dades otomanas10 (p. 149). O Irmão Levy também
⁹ N.E.: YMCA, do inglês Young Men's Christian Association, Associação Cristã de Moços.
10
O Império Otomano foi um dos maiores e mais duradouros impérios da Era Vulgar, durando mais de 600 anos. Entre o final do
século XIX e início do XX, concentrou-se no território correspondente atualmente ao Egito, Oriente Médio e Turquia. Sua queda
ocorreu em 1922.
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 9-13, Mai/Ago, 2013.
13
14
Recebido: 02/05/2013
Aprovado: 10/06/2013
A INICIAÇÃO MAÇÔNICA:
UMA ANÁLISE DE SUA MITOLOGIA POR MEIO DA JORNADA DO HERÓI
Rafhael Guimarães¹
Resumo
O presente artigo visa realizar análise das diferentes etapas da iniciação maçônica no grau de Aprendiz Maçom do Rito Escocês Antigo e Aceito por meio da mitologia existente nos ciclos da jornada do herói, de forma a verificar a mitologia maçônica do primeiro grau com o conceito de monomito e compreender o ritual
de iniciação do Rito Escocês como processo de evolução psicológica do iniciando.
Palavras-chave: mitologia; iniciação; Maçonaria.
Abstract
This article aims at analyzing the different stages of Masonic initiation in the Entered Apprentice degree of
the Ancient and Accepted Scottish Rite through cycles of mythology exists in the hero's journey, in order to
verify the mythology of the first masonic degree with the concept of monomyth and understand the initiation ritual of the Scottish Rite as a process of neophyte’s psychological evolution.
Keywords: mythology; initiation; Freemasonry.
¹ Rafhael Guimarães é Mestre Maçom, membro da GLMEES, e Maçom do Real Arco, filiado ao SGCMRAB. Além de pertencer a outras Ordens Iniciáticas, ministra cursos e palestras sobre Cabala, Astrologia e Tarô.
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 15-22, Mai/Ago, 2013.
15
GUIMARÃES, Rafhael. A INICIAÇÃO MAÇÔNICA: UMA ANÁLISE DE SUA MITOLOGIA POR MEIO DA JORNADA...
Introdução
Este estudo tem por objetivo analisar as influências arquetípicas e, consequentemente, mitológicas sobre a iniciação maçônica no Rito Escocês Antigo e Aceito, por intermédio da teoria conhecida por
Jornada do Herói.
Muitos talvez possam julgar os rituais maçônicos como obsoletos, sem sentido ou mesmo inúteis.
Serão apontadas as evidências de que os rituais maçônicos e a mitologia que os estruturam têm forte
efeito sobre o inconsciente de seus praticantes
(JUNG, 2005).
Há, sem dúvida, inúmeras diferenças entre as
religiões e mitologias da humanidade, e todas essas,
de uma forma ou de outra, podem ser encontradas
em alguma medida, representadas nas alegorias maçônicas (MAXENCE, 2010).
Ao contrário da escola freudiana, que afirma
que os mitos estão profundamente enraizados dentro de um complexo do inconsciente, para Jung, a
origem atemporal dos mitos reside dentro de uma
estrutura formal do inconsciente coletivo. Torna-se
assim uma diferença considerável para Freud, que
nunca reconheceu a autonomia congênita da mente
e do inconsciente, enquanto que, para Jung havia
uma dimensão coletiva inata e com autonomia energética.
a iniciação maçônica sob a luz da jornada do herói.
Compreende-se a validade e relevância de tal abordagem pelo fato da literatura maçônica publicada no
Brasil privilegiar as interpretações ritualísticas que
seguem um raciocínio estrito ao entendimento consciente de seus ensinamentos morais (ISMAIL, 2012),
desconsiderando os efeitos psicológicos produzidos
pela prática ritualística (JUNG, 2005).
Depois do trabalho de psicanalistas que tanto
utilizaram da mitologia para embasar seus argumentos, como Sigmund Freud, Carl G. Jung, Wilhelm Stekel, Otto Rank, e muitos outros, os quais desenvolveram teorias substancialmente fundamentadas de interpretações de mitos, faz-se necessário explorar tais
conhecimentos, empregando-os numa melhor compreensão dos rituais e, finalmente, da Maçonaria em
si.
Há, sem dúvida, inúmeras diferenças entre as
religiões e mitologias da humanidade, e muitas dessas estão de alguma forma presentes nas alegorias
maçônicas (MAXENCE, 2010), seja de forma direta ou
indireta. Conquanto, neste estudo em particular, serão discutidas as semelhanças que há nos rituais maçônicos, em especial no de Iniciação do Rito Escocês
Antigo e Aceito, as demais mitologias do mundo. Nas
palavras ad-referendum do erudito norte americano,
Joseph Campbell (2007):
As ideias apresentadas por Jung foram o embasamento científico que o estudioso das Religiões e
Mitologias Comparadas, Joseph Campbell, adotou
para sustentar as similaridades existentes entre todas
as religiões e mitologias da história. Tal conceito chamado anteriormente de “Monomito”² por Jaymes
Joyce, foi esmiuçado por Campbell, que mostrou todo o roteiro da manifestação arquetípica do herói,
que se encontra presente na sociedade como um arquétipo do Inconsciente Coletivo (JUNG, 2005; JUNG,
2011a).
A esperança que acalento é a de que um esclarecimento realizado em termos de comparação possa contribuir para a causa, talvez não
tão perdida, das forças que atuam no mundo
de hoje, em favor da unificação, não em nome
de algum império político ou eclesiástico, mas
com o objetivo de promover a mútua compreensão entre os seres humanos. Como nos dizem os Vedas: "A verdade é uma só, mas os
sábios falam dela sob muitos nomes” (CAMPBELL, Herói de mil faces).
Dessa forma, o presente estudo se embasará nos trabalhos de Campbell e Jung, analisando e comparando
² O termo “Monomito” é de autoria de James Joyce, da obra “Finnegans Wake”.
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 15-22, Mai/Ago, 2013.
16
GUIMARÃES, Rafhael. A INICIAÇÃO MAÇÔNICA: UMA ANÁLISE DE SUA MITOLOGIA POR MEIO DA JORNADA...
A Jornada Arquetípica do Herói na Mitologia Maçô- lica e não literal (CAMPBELL, 2002; CAMPBELL, 2008).
nica
Conforme descreve Arthur E. Waite, em “A
Jornada do herói X Iniciação Maçônica
New Encyclopedia of Freemasonry”:
O intitulado “Herói” na análise psicológica da sua manifestação, pode ser compreendido como um arquétipo dentro da psique coletiva (JUNG, 1978). Para reforçar tal teoria, Campbell indica sua representação
nas mais conhecidas culturas e religiões ao redor da
terra (CAMPBELL, 2007). Também poderemos encontrá-lo em ordens iniciáticas como a Maçonaria.
Conforme o autor, o herói é encontrado essencialmente nas histórias de Atum, do Antigo Egito;
de Marduk, dos Mistérios Sumerianos; de Apolo, Febo, Héracles, Dionísio e Orfeu, da Mitologia GrecoRomana; de Krishna, da Religião Hinduísta; de Baldur,
dos Mistérios Nórdicos; de Amaterasu, na religião
Xintoísta; de Oxalá, Oxalufã, e Oxaguiã, das Religiões
Afro-brasileiras; de Rei Arthur, Galahad e Persival, na
história mitológica do Santo Graal; na verídica história de Jacques DeMolay, nos Cavaleiros Templários;
em Christian Rosenkreuz, nas Núpcias Alquímicas da
Tradição Rosa Cruz; em vários heróis cinematográficos, como Luke Skywalker, Indiana Jones, James
Bond, Superman, Harry Potter, Frodo Bolseiro e Aragorn; além de Jesus o Cristo, da Religião Cristã (DEL
DEBBIO, 2008). Em todas estas histórias, encontramse similaridades que podem ser compreendidas pelo
conceito de Inconsciente Coletivo. Por fim, na Mitologia Maçônica tem-se a lenda de Hiram Abiff, mito esse exclusivo da Maçonaria (STAVISH, 2011).
Embora a Mitologia Maçônica utilize do contexto contido no Antigo Testamento, pouco se tem
no mito de conteúdo especificamente bíblico, haja
visto que o enredo principal é composto por mitos
elaborados. Malgrado, muitos são os maçons que insistem em fundamentar a maçonaria na bíblia, ou,
pior ainda, fundamentar a história pela Maçonaria
(ISMAIL, 2012). O maior exemplo de elaboração mítica na Maçonaria é a de Hiram Abiff, o protagonista da
lenda do grau de Mestre Maçom. Não há, logicamente, registros históricos de tais eventos, e interpretálos no sentido literal é um erro crasso, pois mitos devem ser interpretados, como já dito, de forma simbó-
A lenda do mestre construtor é a grande alegoria maçônica. Sucede que essa história figurativa baseia-se num personagem mencionado
nas sagradas escrituras, mas o pano de fundo
histórico é acidental e não essencial, assim o
importante é a alegoria e não um ponto histórico qualquer que esteja por trás dela” (1921,
p.366-267)
O Monomito
Assim como a psique humana é dividida em
três partes pela Psicologia Analítica, a Jornada do Herói também o é, podendo ser classificada como: a)
separação ou partida; b) iniciação ou provas e vitórias; e c) o retorno (CAMPBELL, 2007). Esse ternário
constitui a base essencial do mito, bem como dos Rituais de Passagem (VAN GUENNEP, 2011). No que
concerne a Iniciação Maçônica, essa pode perfeitamente ser enquadrada neste postulado, como o estudo demonstrará abaixo.
A teoria da Jornada do Herói teve por base a
ideia do Monomito difundida por James Joyce, vindo
a ser aperfeiçoada por Campbell pela associação com
o conceito freudiano de forças do Inconsciente, alcançando seu embasamento científico com a psicologia analítica ou arquetípica de Jung, que propõe o
conceito psicológico de Arquétipos e Inconsciente
Coletivo. A estruturação dos Ritos de Passagem pelo
antropólogo Arnold Van Guennep possibilitou a análise das diferentes fases da aventura do herói, bem
como as diversas manifestações do mesmo, nas sociedades tribais (VAN GUENNEP, 2011).
Para tanto, será apresentada a constituição
básica da Jornada do Herói, seus significados psicológicos e antropológicos, que estão presentes em formas disfarçadas nos contos e mitos, além é claro, de
exemplificar o contexto maçônico da mitologia, ideia
central deste artigo.
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 15-22, Mai/Ago, 2013.
17
GUIMARÃES, Rafhael. A INICIAÇÃO MAÇÔNICA: UMA ANÁLISE DE SUA MITOLOGIA POR MEIO DA JORNADA...
Partida ou Separação: O chamado da aventura
Eu o proponho, na devida forma, como um
candidato apropriado para os mistérios da
Maçonaria. Eu o recomendo, como digno de
compartilhar privilégios da Fraternidade, e,
em consequência de uma declaração de suas
intenções, feita de forma voluntária e devidamente atestada, eu acredito que ele seguirá
estritamente em conformidade com as regras
da Ordem (Illustrations of Masonry, PRESTON,
1867, p.26)
outros interesses. A recusa à convocação acaba por
aprisionar o herói mitológico, seja pelo tédio, pelo
trabalho duro ou pela ignorância. A recusa é uma negação à atitude de renunciar àquilo que a pessoa
considera interesse próprio, e tal recusa caracterizase, essencialmente, pela identificação da persona³
com seu ego´ o que acarretaria no conceito psicológico de Inflação (HALL; NORDBY, 2010).
Como exemplo, pode-se citar o caso da esposa de Ló, que se tornou uma estátua de sal por ter
olhado para trás, desobedecendo assim a instrução
recebida. A forte emoção que dominou Ló tornar-seA primeira tarefa do herói, no caso maçônico, ia uma “recusa do chamado”, pois poderia efetivao candidato à iniciação, consiste em retirar-se da ce- mente ter rompido com a jornada. ⁵
na mundana, do mundo comum, e iniciar uma jornaA recusa do chamado na maioria das vezes é
da pelas regiões causais da psique (templo maçôni- representada pelo medo em suas várias manifestaco), onde residem efetivamente as dificuldades, para ções. É dessa forma que, muitas vezes, ocorre a
torná-las claras, conscientes e erradicá-las em favor “recusa do chamado” na jornada maçônica. Se por
de si mesmo (CAMPBELL, 2008). Normalmente um algumas vezes o medo do desconhecido ou oculto
problema se apresenta diante do herói a fim de con- impede candidatos de iniciar, outras vezes a própria
vocá-lo a cumprir sua missão, mas também poderá cultura de certas sociedades trata de cumprir esta
ocorrer um fator incisivo para o crescimento do he- função.
rói, como curiosidade, sonhos ou desejos. Deste modo, conforme o procedimento maçônico padrão
(PRESTON, 1867), o candidato é geralmente convida- O auxílio sobrenatural
do a iniciar na Sublime Ordem. O convite parte do
Para aqueles que não recusam o chamado, o
chamado no meio maçônico de padrinho, o qual figu- primeiro encontro da jornada do herói se dá com
ra a função de arauto. E na aceitação do convite resi- uma figura protetora, que fornece ao candidato ajude o “chamado da aventura” (CAMPBELL, 2007), que, da para lhe proteger na jornada que estará prestes a
em outras palavras, é um sinal enviado pelo inconsci- deparar-se.
ente.
As mitologias mais elevadas desenvolvem o
papel na figura de uma espécie de guia ou de mestre.
No mito grego esse guia é Hermes-Mercúrio, e no
A recusa do chamado
mito egípcio sua contraparte é Thoth. Nas tradições
Sempre se tem, tanto na vida real como nos contos
judaicas, Noé contou com uma pomba. Na mitologia
mitológicos, o triste caso do chamado que não obtém
cristã encontramos como guia o Espírito Santo
resposta, havendo, pois, o desvio da atenção para
³ Em grego significa “máscara”.
´ Na visão de Jung, Ego é o nome dado à organização da mente consciente, constituindo-se de percepções conscientes, de recordações, pensamentos e sentimentos. A menos que o Ego reconheça tais percepções elas não chegariam a nossa consciência. Tais
reconhecimentos do Ego são estabelecidos pela função dominante de cada pessoa (sensibilidade, objetividade, etc.). Uma forte
experiência pode forçar entrada pelo ego ocasionando graves consequências (traumas). O Ego passa a falsa ideia de que ele é,
essencialmente, nossa inteira consciência, ou melhor, nossa Psique como um todo. (HALL; NORDBY, 2010)
⁵ Gênesis 19:26: “E a mulher de Ló olhou para trás e ficou convertida numa estátua de sal.”
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 15-22, Mai/Ago, 2013.
18
GUIMARÃES, Rafhael. A INICIAÇÃO MAÇÔNICA: UMA ANÁLISE DE SUA MITOLOGIA POR MEIO DA JORNADA...
(CAMPBELL, 2007).
Na iniciação pelo Rito Escocês Antigo e Aceito
da Maçonaria, fica evidente a figura de auxílio na jornada na função do oficial chamado de Experto, que
conduz o iniciando por caminhos escabrosos, porém,
oferecendo-lhe a devida proteção: “Eu serei o vosso
guia, tendes confiança em mim, e nada receeis”. A
função do Experto durante a iniciação é conduzir o
candidato, que estando privado de certas faculdades,
necessita inexoravelmente do amparo do guia.
leia. O herói é comumente jogado no desconhecido,
dando a impressão de que morreu, ou, em alguns
casos, é submetido a testes e provações, de forma
que aprenda as regras deste novo mundo
(CAMPBELL, 2007).
Como exemplo pode-se citar alguns contos,
como do Chapeuzinho Vermelho, no qual ela é engolida pelo lobo. Da mesma forma, todo o panteão grego, exceto Zeus, foi engolido pelo pai Cronos. Já na
Bíblia e no Alcorão encontramos Jonas, que é engolido por um peixe e passa três dias e três noites em
suas entranhas, e acaba saindo de lá vivo.⁶ Arnold
A passagem pelo primeiro limiar
Van Guennep (2011), salienta que a morte momentâTendo resistido ao medo, muitas das vezes nea ou aparente é tema principal das iniciações tripersonificado como medo de morte, simbolizado no bais.
Rito Escocês pela passagem pela câmara de reflexões,
Na jornada maçônica o iniciando é colocado à
o herói segue em sua aventura até chegar ao conhe- prova por testes simbólicos, para que coloque a moscido na Jornada do Herói por “guardião do limi- tra sua coragem de forma a persistir na senda da virar" (CAMPBELL, 2008). Entende-se psicologicamente tude. Curioso que o ritual maçônico trata tais testes
pelo limiar como a passagem do consciente para o de forma a simbolicamente tentar afastar o candidainconsciente, onde se adentra a um mundo de fanta- to de seu caminho, como, por exemplo, fazendo-o
sias e imagens, semelhantes aos sonhos. Ou seja, um seguir por “caminhos escabrosos”.
mundo mítico.
No âmbito mitológico, esse primeiro limiar é
representado pela presença de um guardião e o mesmo está associado, variavelmente, a um posto que
pode ser uma porta, ponte ou lago, simbolizando o
limiar. Isto posto, na Iniciação pelo Rito Escocês a
passagem pelo primeiro limiar ocorre no momento
em que o candidato é levado à porta do templo e recebido pelo Guarda do Templo, também chamado
em algumas versões de rituais de Cobridor Externo.
Após sua passagem, ou seja, após ser franqueado seu
ingresso, o candidato passa a vivenciar uma nova e
única experiência, simbolicamente sobrenatural.
Provas e Vitórias: A Descida
Tendo sido vitorioso nos primeiros testes e
provas, ao cruzar por completo o limiar, o herói caminha por uma paisagem onírica povoada por formas
curiosamente fluidas e ambíguas, na qual deve sobreviver a uma sucessão de novas provas. O herói continua a ser auxiliado, de forma indireta, por Guias e
Mestres. Porém, aos poucos ele percebe que existe
um poder benigno, presente em toda parte, que o
sustenta em sua passagem sobre-humana
(CAMPBELL, 2008).
Um mito interessante sobre esse caminho de
provas, e um dos mais antigos da história, é o registro
Provações e testes: O ventre da baleia
sumeriano da descida ao mundo inferior pelos porA ideia de que a passagem pelo limiar é uma tais da metamorfose, pela deusa Inana. Tal mito era
passagem para uma esfera de renascimento é simbo- ritualisticamente praticado na antiguidade pelas
lizada na imagem mundial do útero ou ventre da ba⁶ Jonas 1:17: “O Senhor fez que ali se encontrasse um grande peixe para engolir Jonas, e este esteve três dias e três noites no ventre do peixe.”
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 15-22, Mai/Ago, 2013.
19
GUIMARÃES, Rafhael. A INICIAÇÃO MAÇÔNICA: UMA ANÁLISE DE SUA MITOLOGIA POR MEIO DA JORNADA...
Prostitutas Sagradas⁷ (VAN GUENNEP, 2011), que foi
profanado e hoje é categorizado como striptease e
conhecido como a “Dança dos Sete Véus”. Muitas mitologias retratam neste momento uma descida ao
submundo, quando na verdade, tal descida retrata a
descida aos domínios da psique (CAMPBELL, 2002).
Essas novas provas, cada vez maiores em níveis, representam no processo iniciático maçônico a
passagem pelos quatro elementos, onde o iniciando
vivencia e supera, simbolicamente, os elementos. No
passado, relatos indicam que os iniciandos de fato se
colocavam à prova, seja de um incêndio, a nado, ou
tempestade (LEVI, 2012).
ouro e a prata, e, em outras palavras, o encontro do
Cavaleiro com a Princesa, ou a descoberta do elixir da
longa vida dos alquimistas (JUNG, 2012).
A mulher representa, na linguagem pictórica
da mitologia, a totalidade do que pode ser conhecido, e o herói é aquele que a compreende. Segundo
Jung, havendo o equilíbrio total na psique, atinge-se
o si mesmo, ou seja, a totalidade do ser, torna-se
consciente de todo o inconsciente (HALL; NORDBY,
2010). Na mitologia maçônica o iniciando, torna-se
iniciado, havendo completado o processo que Jung
chamou de processo de individuação (JUNG, 2012).
Sobre o encontro com a Deusa - fim do primeiro ciProvação difícil ou traumática: O encontro com a clo da Jornada Maçônica
Deusa
O casamento, união – o supracitado conheciA aventura última, quando todas as barreiras
foram vencidas, aparecerá como a experiência mais
profunda e traumática do enredo mitológico. Normalmente é representado por uma morte efetiva e
momentânea, ou mesmo por um renascimento miraculoso (CAMPBELL, 2007). Em diversos ritos maçônicos e em diferentes graus encontramos encenações
de todo o tipo para representar esta etapa, seja por
mais provas iniciáticas ou por demonstrações fúnebres, funestas e sombrias, de forma que, pela última
vez, é dada a chance ao iniciando de desistir da senda
da virtude, rendendo-se ao medo. .
Sendo persistente, o iniciando compreende
depois o sentido simbólico ou mesmo psicológico de
suas provações e testes, e, no ápice da aventura, é
apresentado diante da Deusa. Tal passagem costuma
ser representada por um “Casamento Místico”, conhecido nos mitos por hierosgamos⁸.
mento da Anima –, representa o domínio total da vida pelo herói. Na Mitologia Maçônica a mulher é o
símbolo da Vida e o herói o seu conhecedor e mestre,
ou, em outras palavras, a mulher é o templo e o herói
seu sacerdote. Daí que muitas representações de
templo em culturas antigas são em forma de uma
mulher grávida dando a luz (MURPHY, 2007), bem
como de sempre se ter sacerdotes, e nunca sacerdotisas.
Assumindo o Templo Maçônico as características e conceitos de Anima, conforme esclarecido, o
iniciando, após ter superado todos os testes e provações do processo iniciático da Maçonaria, recebe como prêmio da jornada o encontro com a Anima, que
nada mais é do que, a “Luz da Maçonaria”, passando
este a enxergar e conhecer o Templo Maçônico e comungar de sua Egrégora. Ele ganha também a sua
completa liberdade, ficando livre da corda e aprendendo a sair e entrar na Loja na devida forma maçônica.
Em termos psicológicos tal casamento representa a união-conhecimento com a Anima ou Animus, contidos em contos da heroína. Esta união reO encontro ou união com a Anima também
presenta o chamado “Casamento Alquímico” dos Al- pode ser chamado de “Encontro com a Verdade”,
quimistas, e retrata uma união indissolúvel entre o pois a totalidade do ser e o completo conhecimento
⁷ O termo Prostituta possuía outro significado diferente do que hoje é associado. Significava “aquelas que se prostram”, em referência a Deusa a qual elas eram oferecidas e tornavam-se sacerdotisas.
⁸ Significa “Casamento Sagrado" e se refere à cópula de um deus ou homem com uma deusa ou mulher.
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 15-22, Mai/Ago, 2013.
20
GUIMARÃES, Rafhael. A INICIAÇÃO MAÇÔNICA: UMA ANÁLISE DE SUA MITOLOGIA POR MEIO DA JORNADA...
do inconsciente, além de libertar, proporciona ao he- sob a ótica da Psicologia Junguiana, como um sonho
rói um conhecimento novo e inexplicável.
grupal, sintomático dos impulsos arquetípicos exisOs testes que o herói passou, preliminares de tentes no interior das camadas profundas da psique
suas experiências e façanhas últimas, simbolizaram as humana (JUNG, 1978). Já numa visão religiosa, a micrises de percepção por meio das quais sua consciên- tologia pode ser tida como a revelação de Deus aos
cia foi amplificada e capacitada a enfrentar. Com isso, seus filhos.
ele aprendeu que ele e sua Deusa, ou ainda, Anima,
são um só, pois se casaram-uniram. Por derradeiro,
seu destino é tornar-se o Mestre, que, variando de
uma cultura para outra, pode ser um filósofo, ancião,
líder político ou religioso, entre outros tipos. Já no
caso maçônico, um Mestre Maçom, representante de
Hiram Abiff.
Tanto a mitologia, como os seus símbolos, são
metáforas reveladoras do destino do homem, e, nas
diversas culturas são retratadas de diferentes formas
(CAMPBELL, 2007). A ideia central da mitologia é de
que a mesma funciona como uma ferramenta para
promover e entender a evolução psicológica do individuo, sendo essa a função principal do mito
Desmistificando a mitologia, percebemos que (CAMPBELL, 2008).
o mistério do universo é retratado como Deus. Se paEm termos de interpretação psicológica da
ra o religioso o infinito é o Deus, para o ateu ou ag- mitologia, sempre vamos encontrar como chave esnóstico, o infinito é o Universo e suas infinitas mani- sencial a questão “Inconsciente = Reino metafísico”.
festações. O ego torna-se a figura do herói, por isso Em outras palavras, “Porque eis que o reino de Deus
quando se encontra com Deus-Deusa, ou seja, seu está dentro de vós”⁹. Assim, a análise para toda quespróprio inconsciente, toma-se conhecimento de todo tão mitológica, é o estudo da psique humana.
o universo ou infinito. O Eu Inconsciente em algumas
Em várias sociedades e cultos primitivos, a
passagens torna-se o velho sábio, que tudo sabe, e prática religiosa consistia em vivenciar a Mitologia de
conhece as fraquezas e desejos reprimidos pelo o he- forma direta, pois o mito o estaria influenciando de
rói (JUNG, 2011).
forma indireta no decorrer das cerimônias, por interDepois deste primeiro ciclo da Aventura do
Herói – ou Jornada Maçônica – o herói ainda é levado
a cumprir outros deveres no universo. Da mesma forma, o Maçom é instruído da existência de outros
graus a serem galgados, onde se encontra a continuidade da Jornada Maçônica. Entretanto, dificilmente
tem-se um final para a mitologia como um todo, pois,
conforme a própria dialética aristotélica, em todo fim
acha-se um novo início (CAMPBELL, 2007). Tendo o
final de cada grau maçônico como um novo começo,
pode-se compreender que, em outras palavras, tornar feliz a humanidade é um processo relativamente
infinito.
médio do inconsciente. Assim, o crescimento e finalidade da Mitologia acontece de forma particular em
cada um, como uma semente que aos poucos iria se
germinando (JUNG, 2005). A tradição maçônica conserva esses costumes como forma de instrução aos
seus membros, sendo, portanto, herdeira pedagógica
dessas antigas culturas (BLAVATSKY, 2009). E ao estudarmos a Maçonaria, seu ritual e simbologia, não podemos desconsiderar ou descartar esse viés, sob o
risco de abrirmos mão do real objetivo de nossos rituais.
Referências Bibliográficas
BLAVATSKY, HELENA P. O ocultismo prático e as origens do ritual
Conclusões a respeito de Mitologia e as razões deste na Igreja e na Maçonaria. São Paulo: Pensamento, 2009.
estudo
CAMPBELL, Joseph. Herói de mil faces. São Paulo: Editora PensaEm síntese, a mitologia pode ser entendida, mento, 2007.
⁹ Lucas 17:21.
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 15-22, Mai/Ago, 2013.
21
GUIMARÃES, Rafhael. A INICIAÇÃO MAÇÔNICA: UMA ANÁLISE DE SUA MITOLOGIA POR MEIO DA JORNADA...
CAMPBELL, Joseph. Isto és Tu. São Paulo: Landy Editora, 2002.
CAMPBELL, Joseph. Mito e Transformação. São Paulo: Ed. Ágora,
2008.
DEL DEBBIO, Marcelo. Enciclopédia de Mitologia. São Paulo:
Daemon Editora, 2008.
HALL, Calvin S.; NORDBY, Vernon J. Introdução à Psicologia Junguiana. São Paulo: Cultrix, 2010.
ISMAIL, Kennyo. Desmistificando a Maçonaria. São Paulo: Universo dos Livros, 2012.
JUNG, Carl Gustav. Interpretação psicológica do Dogma da Trindade. Rio de Janeiro: Vozes, 2011 a.
JUNG, Carl Gustav. O Homem e seus símbolos. Rio de Janeiro:
Editora Nova Fronteira, 2005.
JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Rio
de Janeiro: Vozes, 2011b.
JUNG, Carl Gustav. Psicologia do Inconsciente. Rio de Janeiro:
Vozes, 1978.
JUNG, Carl Gustav. Psicologia e alquimia. Rio de Janeiro: Vozes,
2012.
JUNG, Carl Gustav. Psicologia e religião. Rio de Janeiro: Vozes,
2011c.
JUNG, Carl Gustav. Símbolos e interpretação dos sonhos. Rio de
Janeiro: Vozes, 2011d.
LEVI, Eliphas. Dogma e Ritual da Alta Magia. 20ª Edição. São
Paulo: Pensamento-Cultrix, 2012.
MAXENCE, Jean-Luc. Jung é a aurora da Maçonaria. São Paulo:
Madras, 2010.
MURPHY, Tim Wallace. O código secreto das catedrais. São Paulo: Pensamento, 2007.
PRESTON, William. Illustrations of Masonry. New York: Masonic
Publishing and Manufacturing Co., 1867.
STAVISH, Mark. As origens ocultas da Maçonaria. São Paulo:
Pensamento, 2011.
VAN GUENNEP, Arnold. Os Ritos de Passagem. Rio de Janeiro:
Editora Vozes, 2011.
WAITE, A. E., A New Encyclopaedia of Freemasonry, 2 vols. Londres: William Rider and Son Limited, 1921.
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 15-22, Mai/Ago, 2013.
22
Recebido: 14/05/2013
Aprovado: 24/06/2013
PROCESSO DISCIPLINAR MAÇÔNICO:
ELEMENTOS FUNDAMENTAIS DE VALIDADE
Jorge Eduardo de Lima Siqueira¹
Resumo
Este trabalho trata da necessária observância de preceitos fundamentais à validade dos procedimentos administrativos disciplinares maçônicos, cuja inobservância pode resultar na anulação, pelo Poder Judiciário,
dos feitos e penalidades aplicadas, máxime pelo devido respeito aos princípios processuais mínimos previstos na Constituição Federal, decorrência lógica e jurídica do Estado Democrático de Direito.
Palavras-chave: Processo disciplinar maçônico, preceitos fundamentais, validade.
Abstract
This work deals with the necessary observance of precepts fundamental to the validity of administrative disciplinary Masonic whose failure could result in voiding, the Judiciary, the deeds and penalties imposed, celling due respect to the minimum procedural principles contained in the Federal Constitution, and logical consequence legal democratic state.
Keywords: Disciplinary proceedings Masonic, precepts fundamental, validity.
¹ Bacharel em Direito e Especialista em Direito Civil e Processo Civil pela Faculdade Vale do Criraré – FVC, professor universitário e
advogado, é Mestre Instalado, Venerável da ARLS “Luzes da Ilha” n. 59 – GLMEES.
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 23-31, Mai/Ago, 2013.
23
SIQUEIRA, J. E. L. PROCESSO DISCIPLINAR MAÇÔNICO: ELEMENTOS FUNDAMENTAIS DE VALIDADE
Introdução
na vida cotidiana dos brasileiros, o diploma constitucional entregou ao Poder Judiciário essa responsabilidade, outorgando-lhe a imperatividade de suas decisões sobre qualquer procedimento extrajudicial, principalmente quando desrespeitada ou não observada
qualquer disposição constitucional ou da legislação
em vigor.
Por expressa disposição constitucional a República Federativa do Brasil tem como destacado fundamento a dignidade da pessoa humana (BRASIL, 1988),
preceito este que os constituintes originários buscaram garantir através de direitos individuais mínimos,
dentre os quais os do contraditório e da ampla defePreconiza a Carta Magna, através de seu artisa, tanto para procedimentos judiciais, como para
go 5°, inciso LV (BRASIL, 1988, p. 13), que aos acusaadministrativos.
dos em geral são assegurados o contraditório e a amA Maçonaria, distribuída por Obediências e pla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes,
Lojas Maçônicas, tem seus corpos constituídos na sejam os processos judiciais ou administrativos.
maioria das vezes sob a forma legal de associação.
Deve restar claro primeiramente que se consiDiante da quebra de deveres morais, principiológicos
dera
administrativo
todo processo que não esteja sob
ou administrativos por um determinado irmão, os
dirigentes maçons veem-se muitas vezes diante de o crivo do Poder Judiciário. Sendo as Lojas Maçônicas
um cenário a que não estão habituados, devendo jul- pessoas jurídicas constituídas sob a forma de associagar o membro da Ordem Maçônica pelos atos supos- ção, os procedimentos disciplinares de seus membros
tamente praticados. Mas isso não é tarefa tão sim- devem ser tidos como administrativos para os efeitos
ples, pois os julgadores precisam ter, além de bom legais, ainda que a Obediência Maçônica envolvida
senso e sentimento de justiça, o conhecimento míni- tenha dentro de sua estrutura administrativa órgão
mo necessário a tal ato, especialmente pela existên- maçônico cuja denominação advém do termo “poder
cia de elementos sem os quais poderão ver nulifica- judiciário”, como é o caso do Grande Oriente do Brados pelo Poder Judiciário todos os atos praticados, sil, por exemplo (GOB, 2007, p. 09).
lançando por terra todo o trabalho empenhado e,
Além disso, é preciso que se compreenda o
com consequência, a condenação e a pena que se campo de abrangência dos princípios constitucionais
tenha aplicado, o que pode levar a prejuízos não so- invocados, além de outros importantes aspectos que
mente fraternais, mas também financeiros e de ima- devem ser observados para um julgamento adminisgem à instituição.
trativo válido, pelo que se passa à análise em separaEste artigo, portanto, objetiva auxiliar os res- da de cada ponto.
ponsáveis por conduzir tais processos administrativos
nessa tarefa, por meio da exposição de princípios e Contraditório e Ampla Defesa
regras constitucionais obrigatórios que, se atendidos,
O estudo dos princípios do contraditório e da
tornará remota a possibilidade de anulação do processo disciplinar, garantindo assim a eficácia da medi- ampla defesa parte da concepção primária de que o
primeiro refere-se ao direito que o acusado tem de
da.
se defender de todo e qualquer ato processual praticado contra si, ou seja, “a todo ato produzido pela
Princípios Processuais
acusação, caberá igual direito da defesa de opor-se,
Conforme destacado, a Constituição Federal de apresentar suas contrarrazões” (ALEXANDRINO,
se realiza através do princípio da dignidade da pessoa 2011, p. 185). Já a ampla defesa vai além, garantindo
humana, sendo um dos objetivos do Estado brasileiro ao indivíduo a utilização de todos os meios legais e
promover o bem geral de todos. Visando garantir que moralmente admitidos, inclusive recurso à instância
tais direitos escapem ao seu texto e se concretizem superior contra decisão originária que tenha sido proFinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 23-31, Mai/Ago, 2013.
24
SIQUEIRA, J. E. L. PROCESSO DISCIPLINAR MAÇÔNICO: ELEMENTOS FUNDAMENTAIS DE VALIDADE
ferida contra si.
prática se torna menos tortuosa e o caminho pode
De toda sorte, o Prof. Marcelo Novelino ser trilhado com mais facilidade. Para melhor elucida(2011, p. 501) esclarece que tais direitos não abrem ção do procedimento, bom que se utilize o método
ensejo ao abuso na utilização desses meios e, em da exemplificação.
qualquer procedimento, poderá a autoridade conduTomando conhecimento o dirigente de uma
tora negar a produção de provas que se mostrem Loja Maçônica que determinado irmão praticou coninúteis à elucidação dos fatos. Ensina o doutrinador duta proibida pela legislação interna, deverá proceque “não caracteriza uma violação a esta garantia o der à abertura do procedimento disciplinar para apusimples indeferimento de uma diligência probatória ração da verdade. Antes de tudo deve se certificar de
considerada desnecessária ou irrelevante”.
que a conduta tida como reprovável é realmente puAinda que no seio de associações não se pres- nível pela legislação que rege as Lojas de sua Obedite aos feitos administrativos rigor legal tal qual se exi- ência Maçônica, caso contrário o procedimento será
ge nos processos judiciais de natureza criminal, deve- inútil, pois mesmo que se processe regularmente não
se recordar que, quanto maior a penalidade adminis- haverá medida punitiva a ser aplicada.
trativa a ser aplicada, diante de fatos de igual proporção, mais cautela deverá ser adotada para aplicação
da medida. Por essa razão determina o art. 57 do Código Civil que “a exclusão do associado só é admissível havendo justa causa, assim reconhecida em procedimento que assegure direito de defesa e de recurso, nos termos previstos no estatuto” (BRASIL, 2002,
p. 13).
A justa causa será verificada diante da comprovação de que determinado associado transgrediu
regras e/ou princípios da associação, ou mesmo porque praticou conduta proibida por seu estatuto ou
outras normas internas que venha a ter. Como exemplos, pode-se tomar o Regulamento Geral da Grande
Loja Maçônica do Estado do Espírito Santo - GLMEES
(2009, p. 52), que determina a aplicação da pena de
suspensão ao maçom que promove ou propicia a desarmonia entre os irmãos; ou o Código Penal Maçônico do Grande Oriente do Brasil, que considera “delito
maçônico do 2° grau: *...+ IV – perturbar a regularidade dos trabalhos da Oficina ou de qualquer Corpo
Maçônico, faltando com o respeito devido á Luzes²
ou aos Irmãos” (1979, p. 26).
Procedimento – Aspectos Práticos
Conhecidas as regras essenciais expostas, a
Constatada a possibilidade, caberá ao ofendido redigir queixa ou representação, ou ainda encaminhar o relato a quem deva elaborar a denúncia que,
normalmente é o Orador da Loja Maçônica, o qual
exerce uma função similar ao do Ministério Público
(GOB, 2012, Lei n. 132, p. 02, art. 3°; GLMEES, 2009,
p. 49, art. 380).
Dedicação especial deve ser dada à redação
da queixa ou denúncia (vide modelo sugerido no
Anexo I). Isto porque, seja qual for a legislação maçônica aplicável, a queixa ou denúncia deverá conter:
qualificação do denunciado; exposição clara dos fatos
puníveis, indicando as datas em que se deram, ainda
que próximas; indicação das regras infringidas, citando o dispositivo legal que proíbe ou prevê punição
para o ato; pedido de aplicação da pena cabível,
apontando o artigo de lei correspondente; pedido de
produção das provas com que se pretende comprovar as alegações, podendo ser testemunhal, documental e até pericial, desde que legítimos. Aliás, importa mencionar que a imprescindibilidade da exposição cronológica e clara dos acontecimentos decorre
do fato de que o acusado se defenderá do que está
exposto na representação, garantindo assim a plenitude de sua defesa, pois não poderão embasar condenação futura a quaisquer fatos que tenham sido
omitidos ou que não possam ter sido confrontados
² Termo maçônico utilizado para se referir aos três principais oficiais de uma Loja Maçônica: Venerável Mestre, Primeiro Vigilante
e Segundo Vigilante.
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 23-31, Mai/Ago, 2013.
25
SIQUEIRA, J. E. L. PROCESSO DISCIPLINAR MAÇÔNICO: ELEMENTOS FUNDAMENTAIS DE VALIDADE
pela defesa.
Redigida a denúncia ou representação a mesma deve ser entregue ao responsável para admissão
e convocação da comissão julgadora³ para o processamento. O responsável pela condução do feito deverá proceder à notificação do acusado para que, caso
queira, se defenda no prazo previsto na legislação, o
que lhe permitirá o exercício do contraditório e da
ampla defesa. Neste ponto, é importante considerar
que o princípio constitucional permite que o acusado
se defenda por si mesmo ou contrate advogado para
tanto, não podendo ser imposta qualquer restrição
ao exercício de sua defesa, tampouco impedido o
pleno acesso do defensor aos autos do processo (STF,
RE 201819 / RJ).
sugeridos no Anexo II). Na mesma sessão, produzidas
as provas e oportunizada a última sustentação às partes´ – defesa e acusação – será iniciado o julgamento,
no mesmo ato ou em momento distinto, nesse último
caso previamente agendado e com notificação dos
envolvidos.
A fase de julgamento também exige cautela,
especialmente quando for possível a aplicação da pena de exclusão, pois, conforme visto anteriormente,
o Código Civil exige justa causa para tanto.
Em um primeiro momento cada julgador deverá se preocupar em expor detalhadamente cada
uma das provas que o levaram à sua convicção punitiva ou absolutória. Em seu voto deverá expor os motivos de seu convencimento, apontando nos autos os
documentos e/ou depoimentos que o levaram à conclusão acerca da ocorrência ou não das infrações processadas. Ato imediato terá de encaixar os fatos na
norma, aplicando-lhe a pena correspondente. A título
de exemplo, suponha-se que o acusado traiu juramento maçônico ao expor em entrevista televisiva o
toque do grau de Mestre Maçom. Imagine-se também que o julgamento se passa em Loja jurisdicionada ao Grande Oriente do Brasil. Comprovado o ato,
ao emitir seu voto o julgador deverá expor que a conduta do acusado está prevista no art. 74 do Código
Penal Maçônico como “delito do 4° grau” (1979, p.
31) e que, diante da abrangência da entrevista e das
consequências negativas e avassaladoras na exposição pelo acusado de sigilo guardado pelos maçons
por força de juramento, deverá ser aplicada a pena
correspondente em seu grau máximo, qual seja: expulsão, na forma do art. 44 do mesmo Código (1979,
p. 16).
Após apresentação da defesa ou término do
prazo correspondente, passar-se-á à fase de provas,
onde deverá ser permitida, em equivalentes condições, sua produção tanto pelo acusador como pelo
acusado, atendendo-se assim a plena defesa do acusado, com observância do primeiro e mais importante direito constitucional. Importa reprisar que poderão ser negados os pedidos de prova que se mostrem
inúteis à elucidação dos fatos em questão. Dificuldade, no entanto, pode ser encontrada quando a prova
for testemunhal, diante da necessidade de procedimento solene para oitiva das testemunhas indicadas
tanto pela defesa quanto pela acusação. Essa fase
exige profícuo estudo das regras relativas à instrução
do procedimento conforme a Obediência Maçônica a
que pertença a Loja. Em geral, os regulamentos maçônicos preveem a designação de uma audiência ou
sessão (GOB, 2012, Lei n. 132, p. 05, art. 9°, §2°) para
que sejam ouvidas as testemunhas, sempre em presença dos responsáveis pelo julgamento, do acusado
O voto condenatório exemplificativo guarda
e do acusador. Caso o julgamento se dê na mesma estrito respeito ao princípio da razoabilidade e prosessão, sugere-se a redação dos termos de depoi- porcionalidade da pena. Referido princípio deve normento independente da ata da sessão. (vide modelos tear todo e qualquer julgamento, devendo a punição
³ No Grande Oriente do Brasil forma-se uma “Comissão Processante” para julgamento (2012, Lei n. 132, p. 02, art. 3°). Outras Obediências adotam a formação de uma Comissão Permanente de Justiça (GLMEES, 2009, p. 49, art. 379).
´ Esta última sustentação é utilizada para defesa ou acusação já com base nas provas produzidas. Regulamentos em geral preveem
tal direito, inclusive como corolário do contraditório e da ampla defesa (GOB, 2012, Lei n. 132, p. 05, art. 9°, §2°; GLMEES, 2009, p.
50, art. 380, XVI).
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 23-31, Mai/Ago, 2013.
26
SIQUEIRA, J. E. L. PROCESSO DISCIPLINAR MAÇÔNICO: ELEMENTOS FUNDAMENTAIS DE VALIDADE
se mostrar adequada à finalidade a que se destina a GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Constituição. Brasília, 2007.
norma e necessária à manutenção da ordem, neste GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Lei n. 132. Brasília, 2012.
caso interna corporis.
NOVELINO, M. Direito Constitucional. 5. ed. São Paulo: Metodo,
Por fim, lembrando o brocardo: “não se abatem pardais com balas de canhão”, deve-se ressaltar
que a pena deve ser proporcional à gravidade da conduta. A punição maçônica não deve ser tão branda a
ponto de promover o sentimento de impunidade e a
desordem entre os maçons, nem tão grave a ponto
de disseminar o sentimento de injustiça. Deve, outrossim, ser equilibrada, resultado daqueles que se
dizem justos, “entre o esquadro e o compasso”.
2011.
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Jurisprudência. RE 201819 / RJ.
Relatora Ministra Ellen Gracie. Brasília, 11 out. 2005. Disponível
em:
<http://www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/
listarJurisprudencia.asp?s1=%28201819%
29&base=baseAcordaos&url=http://tinyurl.com/cakf4jt>. Acesso em: 14 jun. 2013.
TARTUCE, F. Direito Civil 1 – Lei de Introdução e Parte Geral. 8ª
Ed. São Paulo: Metodo, 2011.
Considerações Finais
Diante dos apontamentos feitos, vê-se como
essencial à validade dos procedimentos disciplinares
maçônicos, especialmente quando possível a aplicação da pena de exclusão, a escorreita observância
dos princípios constitucionais do contraditório e da
ampla defesa, além da demonstração da presença de
justa causa para a medida punitiva, através da reunião de fatos, provas, conduta ilícita prevista em legislação maçônica e punição razoável e proporcional à
gravidade da conduta do acusado. Obedecidos estes
preceitos, será remota a possibilidade de o condenado reverter judicialmente no “mundo profano”⁵ a punição que lhe foi imputada, especialmente porque,
no conjunto de posturas, foi atendida a garantia
constitucional de respeito à sua dignidade em plenitude.
Referências
ALEXANDRINO, M., PAULO, V. Direito Constitucional Descomplicado. 7. ed. São Paulo: Metodo, 2011. 183/185 p.
BRASIL. Constituição Federal de 1988. Vademecum Compacto. 6.
ed. São Paulo: Saraiva, 2011. 13 p.
GRANDE LOJA MAÇÔNICA DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO.
Regulamento Geral. Vitória, 2009.
GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Código Penal Maçônico. Brasília,
1979.
⁵ Termo utilizado para designar a vida e o cotidiano fora da Maçonaria.
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 23-31, Mai/Ago, 2013.
27
SIQUEIRA, J. E. L. PROCESSO DISCIPLINAR MAÇÔNICO: ELEMENTOS FUNDAMENTAIS DE VALIDADE
ANEXO I
MODELO DENÚNCIA
ILUSTRÍSSIMOS IRMÃOS DA COMISSÃO DE JUSTIÇA DA AUGUSTA E RESPEITÁVEL LOJA SIMBÓLICA (nome distintivo da Loja) N° (número da Loja) DA JURISDIÇÃO DA (nome da Obediência Maçônica).
AUTOR: ORADOR DA A.: R.: L.: S.: (nome distintivo da Loja) N° (número da Loja)
IR.: ACUSADO: (nome do Irmão acusado)
A A.: R.: L.: S.: (nome distintivo da Loja) N° (número da Loja) DA
JURISDIÇÃO DA (nome da Obediência Maçônica), por seu ORADOR em exercício para o mandato de ____/
____, (nome completo do Orador), (qualificação do Orador, como nacionalidade, estado civil, profissão, cadastro maçônico), domiciliado na (endereço completo do Orador), e no uso de suas atribuições que lhe conferem a Constituição e demais Leis da (nome da Obediência Maçônica), na forma do art. (citar o(s) artigo(s)
que tratam das atribuições do Orador) do (Regulamento Geral ou Código Penal ou de Processo Penal da Obediência), vem oferecer
DENÚNCIA
contra o Irmão (nome do Irmão acusado), (qualificação do acusado: nacionalidade, estado civil, profissão,
cadastro maçônico), domiciliado na (endereço completo do acusado), pela prática da seguintes condutas que
atentam contra os princípios maçônicos:
I. Em Sessão Econômica do dia __/__/__, concedida a palavra pelo Venerável Mestre ao Ir.: FULANO DE TAL, o mesmo relatou que assistiu a filmagem onde o Ir.: Acusado ensinava ao entrevistador o toque do grau de Mestre Maçom;
II. Narrou ainda que a entrevista já está nos sites de transmissão online de vídeos (youtube e outros), além de ter sido veiculada a entrevista na TV estadual. Estampou até mesmo a capa do jornal deste Oriente;
III. Acessando o site do youtube, bem como as páginas virtuais do jornal e TV mencionados constatei
a veracidade dos fatos narrados em sessão, razão pela qual apresento anexo a esta peça um DVD
onde consta a filmagem respectiva, além dos impressos dos portais, onde também está ainda disponível acesso ao vídeo;
IV. Por derradeiro, considerando que o Ir.: (nome completo do acusado), praticou gravíssimo delito
maçônico que se sujeita à pena de EXCLUSÃO, tem o dever esta oratória de denunciar o Ir.: para
que, após devidamente comprovados os fatos acima, venham a sofrer a pena respectiva. Isto porque o referido Irmão TRAIU JURAMENTO MAÇÔNICO (citar artigo e legislação da Obediência),
bem como tem praticado atos no mundo profano que ATENTAM CONTRA A INTEGRIDADE DESTA OBEDIÊNCIA MAÇÔNICA E DA MAÇONARIA UNIVERSAL (citar artigo referente a essa acusação).
Ante o exposto, esta Oratória requer:
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 23-31, Mai/Ago, 2013.
28
SIQUEIRA, J. E. L. PROCESSO DISCIPLINAR MAÇÔNICO: ELEMENTOS FUNDAMENTAIS DE VALIDADE
a) o recebimento e autuação desta denúncia instaurando-se o competente processo disciplinar;
b) seja juntada aos autos cópia da ata da reunião do dia ___/___/_____, bem como os documentos e
mídia que segue anexo;
c) a NOTIFICAÇÃO do Denunciado para se defender no prazo de XX dias, indicando as provas que pretende produzir, bem para que compareça à Sessão de Julgamento a ser designada pela Respeitável
Comissão de Justiça, oportunidade em que serão ouvidas testemunhas, tomado seu depoimento e
apresentadas as últimas alegações;
d) a requisição das testemunhas arroladas a seguir;
e) após os votos dos Irmãos membros dessa Comissão de Justiça, seja o Denunciado CONDENADO à
pena de EXCLUSÃO pela prática das infrações capituladas no art. Xxxxxxx do (código, regulamento,
lei), por ser esta a pena prevista no art. Xxxxxxx, da Lei xxxxx, nos termos dispostos.
Nestes termos,
Espera deferimento.
Oriente de (nome da cidade), XX de (mês) de XXX.
FULANO DE TAL
ORADOR
ROL DE TESTEMUNHAS
1. Ir.:____________________________________________
2. Ir.:____________________________________________
3. Ir.:____________________________________________
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 23-31, Mai/Ago, 2013.
29
SIQUEIRA, J. E. L. PROCESSO DISCIPLINAR MAÇÔNICO: ELEMENTOS FUNDAMENTAIS DE VALIDADE
ANEXO II
MODELOS - SESSÃO JULGAMENTO E TERMO DE DEPOIMENTO
ATA DE AUDIÊNCIA
Aos ___ dias do mês de ____de ____ da E.: V.:, às __h, na sede da
A.: R.: L.: S.: ____________ n° ___, da jurisdição do(a) Grande ________________, neste Or.: de ______, Estado de ______, em Sessão de Instrução e Julgamento do Processo Disciplinar n. _____/____, convocada pela Comissão de Justiça constituída na forma do art. _____ da Lei n. ______ (citar de qual regulamento, Constituição) do(a) Grande ____________, pelo V.: M.: _____________, para o mandato de ____/_____, que recebeu denúncia escrita no dia ___________ do Orador, Ir.: FULANO DE TAL, feita na forma do art.
___________ da Lei n. ______ (citar de qual regulamento, Constituição) do(a) Grande ____________, estando secretariada pelo Ir.: _______________ e presidida pelo Ir.: ___________________, presentes os demais
membros da Comissão de Justiça, IIr.: ______________, ________________ e ______________, bem como
os IIr.: Orador (autor da denúncia), além do Ir.: ________________, delator dos fatos narrados na denúncia,
e IIr.: _____________, __________ e _____________, testemunhas arroladas e requisitadas, e, por fim, presente / ausente o Ir.: denunciado ________________, passaram a tratar e deliberar o que se segue. Fica destacado desde já que as testemunhas arroladas compareceram ao ato, mas não participaram das deliberações da Comissão, tendo sido ouvidas neste ato, conforme termos de depoimento anexos. Foi lida a denúncia e apresentados os documentos que constam nos autos aos presentes e, logo após, ouvido o acusado e as
testemunhas (caso não tenha comparecido nem enviado defesa redija-se: “o Presidente decretou a revelia do
Acusado considerando o que dispõe o art. ___ da Lei n. ____”). Após as oitivas, a palavra foi concedida por
____ minutos ao Ir.: Orador para sua alegações finais, tendo se manifestado nos seguintes termos:
“considerando que, pelos documentos juntados aos autos e depoimentos prestados neste ato ficou definitivamente comprovado que o Acusado traiu juramento maçônico (art. xxxxxx, xxxx da Lei xxxxx), divulgando
segredo da Ordem, consistente no toque de M.: M.: e que, com isso, também atentam contra a integridade
desta Obediência Maçônica e da Maçonaria Universal (art. xxxxxx, xxxx da Lei xxxxx), deve ser a ele aplicada
a pena de EXCLUSÃO, nos termos do art. _____ da Lei n. ______”. Ato imediato a palavra foi concedida ao
Ir.: Acusado pelo mesmo tempo, tendo o mesmo se manifestado nos seguintes termos: “sou inocente, não
me expulsem, peço minha absolvição”. Passou-se, em seguida, ao julgamento mediante proferimento de
votos dos membros da Comissão de Justiça, que se manifestaram na seguinte ordem e nos seguintes termos
(art. _____ da Lei n. ______): Ir.: ____________________: “Eu até gosto muito do Ir.: __________________,
mas, infelizmente, cometeu _______________________________. Está tudo provado no processo (fls. XX/
XX, XX/XX e XX/XX) e restou confirmado pelas testemunhas ouvidas neste ato. Assim sendo, voto pela EXPULSÃO do Ir.: _______________da Maçonaria, por aplicação dos arts. _______ da Lei n. ______ (citar regulamento,
Constituição)
do(a)
Grande
____________.”
Ir.:
______________________:
“_________________________. Assim, considerando que estão provados todos os fatos trazidos pelo Ir.:
Orador na denúncia de fls. XX/XX, voto para que o Ir.: ____________________ seja excluído da Ordem Maçônica, definitivamente, sendo isto o que determinam os arts. _______ da Lei n. ______ (regulamento, ConsFinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 23-31, Mai/Ago, 2013.
30
SIQUEIRA, J. E. L. PROCESSO DISCIPLINAR MAÇÔNICO: ELEMENTOS FUNDAMENTAIS DE VALIDADE
tituição) do(a) Grande ____________. É como voto.”; Proferidos os votos o Presidente votou nos seguintes
termos: “_________________________. Assim, considerando que estão provados todos os fatos trazidos
pelo Ir.: Orador na denúncia de fls. XX/XX, voto para que o Ir.: ____________________ seja excluído da Ordem Maçônica, definitivamente, sendo isto o que determinam os arts. _______ da Lei n. ______
(regulamento, Constituição) do(a) Grande ____________. É como voto.”. Em seguida anunciou o resultado
do julgamento, tendo sido o Ir.: ______________________, por unanimidade CONDENADO à pena de EXCLUSÃO, consoante expressa disposição dos arts. ___ da Lei n. ______ (regulamento, Constituição) do(a)
Grande ____________, ficando o Ir.: Acusado notificado nesta data e, após transcorrido o prazo de ___ dias
para recurso (art. _____ da Lei n. ______), havendo ou não recurso, sejam remetidos os autos deste procedimento à instância superior para apreciação e publicação de editais. Nada mais havendo deu-se por encerrada a sessão, estando subscrita pelos presentes.
(ASSINATURAS)
DEPOIMENTO
Aos ___ dias do mês de ____de ____ da E.: V.:, às __h, na sede da
A.: R.: L.: S.: ____________ n° ___, da jurisdição do(a) Grande ______________, neste Or.: de ______, Estado de _______, em Sessão de Instrução e Julgamento do Processo Disciplinar n. _____/____, convocada pela
Comissão de Justiça constituída na forma do art. _____ da Lei n. ______ (citar regulamento, Constituição) do
(a) Grande ____________, pelo V.: M.: _____________, para o mandato de ____/_____, que recebeu denúncia escrita no dia ___________ do ORADOR em exercício, Ir.: FULANO DE TAL, feita na forma do art.
___________ da Lei n. ______ (regulamento, Constituição) do(a) Grande ____________, estando secretariada pelo Ir.: _____________ e presidida pelo Ir.: _________________, presentes os demais membros da Comissão de Justiça, IIr.: ____________, _____________ e ______________, bem como os IIr.: Orador (autor
da denúncia), além do Ir.: ________________, delator dos fatos narrados na denúncia, e IIr.: _____________
e _____________, testemunhas arroladas e requisitadas, e, por fim, presente / ausente o Ir.: denunciado,
________________, foi colhido o depoimento do Ir.: ______________ que, perguntado pelo Presidente respondeu nos seguintes termos: “___________________”.
(ASSINATURAS)
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 23-31, Mai/Ago, 2013.
31
32
Recebido: 17/05/2013
Aprovado: 17/06/2013
MAÇONARIA: DEMOCRACIA E MERITOCRACIA
NO MUNDO OCIDENTAL
Kennyo Ismail¹
Resumo
O presente trabalho tem por objetivo abordar a participação histórica da Maçonaria nos movimentos libertários, seja por vias institucionais ou por intermédio de seus membros, além de evidenciar sua vocação democrática e meritocrática, apresentando como esses dois princípios justos ocorrem na organização maçônica,
em seus diferentes níveis, e que podem ter inspirado ou influenciado os primeiros sistemas democráticos e
meritocráticos implementados nas repúblicas pioneiras.
Palavras-chave: Maçonaria; Democracia; Meritocracia.
Abstract
This work aims to address the historic role of Freemasonry in the libertarian movement, either by institutional channels or through its members, in addition to demonstrating their commitment to democracy and meritocracy, showing how these two principles occur in the Masonic organization, in their different levels, and
that may have inspired or influenced the first democratic and meritocratic systems implemented in the pionners republics.
Keywords: Freemasonry; Democracy; Meritocracy.
¹ Kennyo Ismail é bacharel em Administração pela UnB, Especialista em Gestão de Marketing pela ESAMC, e Mestrando em Administração pela EBAPE-FGV. Mestre Instalado, membro da GLMDF e atual Grande-Mestre Adjunto da Maçonaria Críptica do Brasil, é
também membro da Philalethes Society e da The Masonic Society e autor do livro “Desmistificando a Maçonaria”, São Paulo: Editora Universo dos Livros, 2012.
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 33-39, Mai/Ago, 2013.
33
ISMAIL, K. MAÇONARIA: DEMOCRACIA E MERITOCRACIA NO MUNDO OCIDENTAL
Introdução
rio compreender a estrutura maçônica.
A Maçonaria, anteriormente às democracias contemporâneas, já praticava uma forma de governança democrática, na qual o voto já era bem do indivíduo e não
por propriedade ou localidade (JACOB, 1991; MOREL &
SOUZA, 2008), o que reforça a teoria da Maçonaria como
uma instituição emancipadora do indivíduo e uma das
precursoras do ideal democrático.
A Maçonaria está presente nos cinco continentes
por meio de quase 200 Grandes Lojas internacionalmente
reconhecidas, consideradas independentes, autônomas e
soberanas entre si (LIST..., 2012). É importante esclarecer
que a instituição não possui um poder ou liderança mundial constituída, como explicado por Christopher Hodapp
(2005):
Um dos vários exemplos que relacionam Maçonaria e democracia é a indiscutível participação da Fraternidade na independência dos Estados Unidos (BULLOCK,
1996), tida como a primeira e a maior nação democrática
do mundo. Na Revolução Americana de 1776, conforme
Morel e Souza (2008) atestam, “é inegável a militância
maçônica de líderes como Benjamin Franklin, George Washington e La Fayette”. Essa militância maçônica também
pode ser constatada pela declaração de independência
americana na qual, conforme Gomes (2010), “dos 56 homens que assinaram a declaração de independência, cinquenta eram maçons”.
Uma coisa de suma importância para entender
sobre a Maçonaria é que não há um único
organismo mundial que rege a fraternidade.
(...) Nenhum homem fala pela Maçonaria, e
nunca falará. (...) Cada Estado dos Estados
Unidos, cada província do Canadá, e quase
todos os países do mundo tem uma Grande
Loja - muitas vezes mais de uma. Cada Grande
Loja tem regras e regulamentos que regem as
Lojas dentro de sua jurisdição, e cada Grande
Loja tem um Grão Mestre, que é essencialmente o presidente naquela jurisdição. Mas
Grão Mestres não têm nenhum poder para
fazer regras ou tomar decisões fora de suas
fronteiras. Não existe nenhum grupo nacional
ou internacional que controla ou dirige as
Grandes Lojas (Freemasons for Dummies, HODAPP, 2005, p. 15).
Com base em tais passagens, torna-se plausível a
proposição de que a Maçonaria, munida do mais profundo
princípio de igualdade entre os homens, realmente colaborou, por intermédio da liderança libertadora de seus
membros, para a implementação dos primeiros regimes
Desse modo, os maçons se reúnem em Lojas, sendemocráticos.
do que três ou mais Lojas de um mesmo Distrito, ProvínPorém, além da democracia, a era contemporâ- cia, Estado ou Nação formam um Grande Corpo Maçônico,
nea, que a Maçonaria ajudou a inaugurar, trouxe outro comumente chamado de Grande Loja, mas que pode receimportante conceito, também presente nos ensinamentos ber outra denominação, como Grande Oriente. E como
maçônicos, no qual o valor do indivíduo não é reflexo de Hodapp (2005) bem observou, uma mesma região pode
seu nome, bens ou berço, mas sim de suas atitudes: a me- possuir mais de uma Grande Loja, seja por origens distinritocracia (LIPSON, 1977). Há evidências de um forte con- tas ou cisões históricas. Esse é o caso no Brasil, no qual
ceito de meritocracia igualitária na Maçonaria Escocesa já pode haver até três organizações maçônicas regulares em
nos primeiros anos do século XVII (SCHUCHARD, 2002). um mesmo Estado.
Essa meritocracia, presente em todas as Lojas Maçônicas
O organograma que se segue colabora para uma
do século XVIII, contrastava com as sociedades engessadas melhor compreensão da estrutura administrativa de uma
pelas tradicionais hierarquias familiares, nas quais elas Loja Maçônica e sua relação com sua Grande Loja². Trataestavam inseridas, mas com as quais não estavam satisfei- se de um modelo simplificado, que apresenta de forma
tas (BILLINGTON, 1980).
resumida a estrutura maçônica, desconsiderando departamentos secundários, como tribunais maçônicos, grandes
Estrutura da Organização Maçônica
comissões, assessorias, delegacias e outros. Importante
Sendo a Maçonaria uma das precursoras das prátiregistrar que, sendo cada Grande Loja autônoma, variacas de democracia e meritocracia herdadas pela Idade
ções estruturais podem existir. Porém, a estrutura da Loja
Contemporânea, torna-se interessante observar a prática
Maçônica em todas as organizações maçônicas é basicadesses conceitos em seu seio. Para tanto, faz-se necessámente a apresentada.
² Grande Loja, Grande Oriente ou qualquer outra denominação. Optou-se pelo termo Grande Loja por ser o mais antigo e mais
utilizado no meio maçônico, conforme se pode verificar no List of Lodges.
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 33-39, Mai/Ago, 2013.
34
Figura 1: Organograma - Lojas & Grande Loja
ISMAIL, K. MAÇONARIA: DEMOCRACIA E MERITOCRACIA NO MUNDO OCIDENTAL
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 33-39, Mai/Ago, 2013.
35
ISMAIL, K. MAÇONARIA: DEMOCRACIA E MERITOCRACIA NO MUNDO OCIDENTAL
Em resumo, o organograma possibilita uma
visão clara de um sistema que abrange tanto a democracia direta, para a escolha das lideranças, como a
democracia representativa, para a gestão do governo
da Fraternidade. Esse sistema misto, com poucas variações, já era utilizado pelas primeiras Grandes Lojas
há algumas décadas antes do surgimento das primeiras Repúblicas, as quais trataram de desenhar sistemas muito similares ao maçônico, mas tendo, em alguns casos, suas democracias representativas sido
influenciadas pelo sistema bicameral britânico.
Democracia Maçônica
Um mínimo de sete maçons compõe uma Loja
Maçônica. Os membros elegem entre si seus três dirigentes: o Venerável Mestre, correspondente ao presidente da Loja; o 1º Vigilante, que corresponde a um
1º vice-presidente; e o 2º Vigilante, como um 2º vicepresidente. Outros cargos podem também ser eletivos numa Loja Maçônica, conforme legislação da
Grande Loja e costumes do rito maçônico adotado,
como o de Tesoureiro ou de Orador. Ao término de
cada gestão, o Venerável Mestre que deixa o posto,
então chamado de Ex-Venerável Mestre ou pelo termo em inglês de Past Master, passa a servir como Meritocracia Maçônica
uma espécie de conselheiro do novo Venerável MesPode-se também observar no organograma
tre. O Venerável Mestre então nomeia os demais apresentado que nas Lojas Maçônicas há, além dos
membros para ocupar os cargos nominativos, com- cargos eletivos, cargos de livre nomeação do Venerápondo assim o corpo de Oficiais da Loja.
vel Mestre. O mesmo ocorre também na estrutura
Já uma Grande Loja é composta por um míni- das Grandes Lojas, com postos nomeados pelo Grãomo de três Lojas. Adotando um modelo de democraMestre. Porém, tal nomeação não costuma ocorrer
cia direta, todos os membros das Lojas jurisdicionadas à Grande Loja votam na assembleia que elege sua de forma descriteriosa ou subjetiva. No caso dos carDiretoria, composta principalmente pelo Grão- gos nominativos da Grande Loja, um fluxograma do
Mestre, Grão-Mestre Adjunto, Grande 1º Vigilante e processo de nomeações da GL da Nova Zelândia
Grande 2º Vigilante. O Grão-Mestre Adjunto, figura (FREEMASONS..., 2012) ilustra e colabora para uma
que não possui correspondente nas Lojas, representa
melhor compreensão de como as nomeações podem
a Grande Loja em eventos que o Grão-Mestre não
possa comparecer e atua como Grão-Mestre em sua ocorrer no meio maçônico:
ausência. Tal cargo pode receber atribuições secundárias, como administrar fundos de assistência e de
filantropias, por exemplo. Todos aqueles que passaram pelo posto de Grão-Mestre também atuam como
algo similar a conselheiros do atual Grão-Mestre. E o
Grão-Mestre nomeia membros experientes das Lojas
para ocuparem os cargos nominativos de Grandes
Oficiais.
Os Veneráveis Mestres, 1º e 2º Vigilantes e,
em algumas Grandes Lojas, o Past Master mais recente representam suas Lojas nas assembleias deliberativas da Grande Loja, apresentando, opinando e
votando as mudanças de legislação, propostas, prestações de contas e demais conteúdos que constem
nas pautas. Nesses casos, trata-se de uma forma de
democracia representativa.
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 33-39, Mai/Ago, 2013.
36
ISMAIL, K. MAÇONARIA: DEMOCRACIA E MERITOCRACIA NO MUNDO OCIDENTAL
Figura 2: Fluxograma Nomeações - Grande Loja de Nova
Zelândia.
e, em seguida, realizando entrevistas, quando necessário. O Grão-Mestre então realiza a nomeação daqueles membros recomendados pela comissão avaliadora, independente de suas preferências pessoais.
Esse procedimento sugere a predominância de
um senso de meritocracia na instituição, obviamente
necessário para definir titulares de funções consideradas mais técnicas numa Ordem que prima pelo
princípio de igualdade entre seus membros. Igualdade essa preservada não somente no modelo de escolha, mas principalmente na oportunidade ofertada às
Lojas de apresentar suas indicações.
Evidentemente que, quando do início das primeiras Grandes Lojas, a meritocracia presente na
Maçonaria não era objeto de procedimentos formais
como o apresentado. Até mesmo hoje muitas Grandes Lojas ainda não os têm. Porém, a prática da meritocracia no meio maçônico é atestada desde, por
exemplo, os primeiros anos da primeira Grande Loja,
quando John Desaguliers convida James Anderson
para redigir as Constituições, considerando para isso
as habilidades e experiência do mesmo (COIL &
BROWN, 1961). Seria, inclusive, razoável supor que
tal meritocracia é herança da Maçonaria Operativa,
quando delegar uma função a um maçom não competente para tal poderia acarretar em desabamento!
Conclusões
O fluxograma evidencia um procedimento claro
para nomeações em que as organizações-base da instituição, as Lojas Maçônicas, realizam indicações de
candidatos aos cargos nominativos, devendo apresentar currículos que justifiquem tais submissões.
Dessa forma, cargos relacionados a atividades jurídicas são preenchidos por maçons com formação e experiência na área, o mesmo ocorrendo em outras
áreas internas, como de assistência social ou educação.
A Maçonaria é, sem sombra de dúvidas, um dos
assuntos mais discutidos e debatidos nas pesquisas
históricas, desde sua origem até sua participação nos
momentos históricos do mundo ocidental moderno e
contemporâneo (WAITE, 1921; YATES, 1972; KIRBY,
2005). Porém, essa participação histórica, algumas
vezes como protagonista e outras como coadjuvante,
gera oposições daqueles que têm seus interesses prejudicados de alguma forma com tais ações, como, por
exemplo, o nazismo, a Igreja e ditaduras (ROBERTS,
1969).
Compreender tais perseguições não é tarefa
Ao receber os currículos, uma comissão avalia o difícil. Ao ter na Maçonaria uma defensora do princíperfil dos candidatos, promovendo uma pré-seleção pio de igualdade entre os homens, independente de
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 33-39, Mai/Ago, 2013.
37
ISMAIL, K. MAÇONARIA: DEMOCRACIA E MERITOCRACIA NO MUNDO OCIDENTAL
raça, o confronto com as ideias nazistas fica nítido.
Quando se tem na Maçonaria uma escola de sanidade, e não de santidade, colocando indivíduos de diferentes credos lado a lado, chamando uns aos outros
de irmãos, se compreende algumas das motivações
do Vaticano. E sendo a Maçonaria, historicamente,
palco de debates de ideias libertadoras e de problemas sociais para dignos cidadãos e líderes, vê-se o
cenário temido por ditaduras de esquerda.
Entretanto, a democracia e a meritocracia, essas duas práticas genuinamente maçônicas, não são
realidade em todas as Obediências Maçônicas espalhadas pelo mundo, nem mesmo unanimidade entre
as regulares. A começar pela Grande Loja Unida da
Inglaterra, considerada por muitos como o paladino
da moral e da regularidade maçônica, que experimentou a democracia apenas nos seus primeiros
anos de existência, jogando-a fora, ou melhor, vendendo-a na primeira oportunidade que surgiu de receber em pagamento um punhado de status junto à
família real inglesa. E não se faz necessário atravessar
o oceano para ver de perto outros casos de
“Monarquia Maçônica”, tendo aqui mesmo no Brasil
alguns absurdos como, por exemplo, um GrãoMestre há mais de 40 anos no poder, ou Obediências
cujas legislações permitem cargos de livre nomeação
do Grão-Mestre terem direito a voto em assembleias
deliberativas, o qual deveria ser restrito aos representantes eleitos das Lojas, manipulando dessa forma
a democracia representativa.
Alguns estudos cumpriram com o objetivo de
apresentar as colaborações da Maçonaria nas importantes mudanças mundiais ocorridas no final do século XVII e início do século XVIII, as quais influenciaram
diretamente os modelos de governos e sociedades no
mundo de hoje (BARATA, 2006; ELLIOT & DANIELS,
2006; HARLAND-JACOBS, 1999; YORK, 1993). Entre
tais colaborações, tem-se a defesa dos princípios de
liberdade e igualdade, os quais, sem dúvida alguma,
estão presentes nas práticas da democracia e da meritocracia. A proposta do presente estudo foi cooperar com o tema, apresentando uma breve análise interna de como essas duas práticas estão presentes no
meio maçônico. Espera-se com isso incitar os leitores
à reflexão e estimular outros estudos que colaborem
com o tema.
Referências Bibliográficas
BARATA, Alexandre Mansur. Maçonaria, Sociabilidade Ilustrada
e Independência do Brasil: 1790-1822. Juiz de Fora/São Paulo:
Ed. UFJF/Annablume/Fapesp, 2006.
BILLINGTON, James H. Fire in the Minds of Men: Origins of the
Revolutionary Faith. New York: Basic Books, 1980.
BULLOCK, S. C. Revolutionary Brotherhood: Freemasonry and the
Transformation of the American Social Order, 1730–1840, Chapel Hill, 1996.
COIL, Henry Wilson & BROWN, William Moseley. Coil’s Masonic
Encyclopedia. New York: Ed. Macoy, 1961.
ELLIOTT, Paul; DANIELS, Stephen. The “school of true, useful and
universal science”? Freemasonry, natural philosophy and scientific culture in eighteenth-century England. Science. The British
Journal for the History of Science, Vol. 39, Issue 02, 2006.
FREEMASONS New Zealand. Grand Secretary Newsletter Issue
2012/6. 07 de maio de 2012. In: http://www.freemasons.co.nz/
cgi/dada/mail.cgi/archive/grandsecnews/
20120507170459/.
Acesso em: 05 de Novembro de 2012.
GOMES, Laurentino. 1822: como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a
criar o Brasil, um país que tinha tudo para dar errado. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 2010.
HARLAND-JACOBS, Jessica. “Hands Across the Sea”: The Masonic Network, British Imperialism, and North Atlantic World. Geographical Review, Vol. 89, Issue 2, p. 237–253, 1999.
HODAPP, Christopher. Freemasons for Dummies. Hoboken, NJ:
Wiley Publishing Inc., 2005.
JACOB, M. C. Living the Enlightenment: Freemasonry and Politics
in Eighteenth-Century Europe. New York: Oxford University
Press, 1991.
KIRBY, Dianne. Christianity and Freemasonry: The Compatibility
Debate Within the Church of England. Journal of Religious History. Vol. 29, N. 1, 2005.
LIPSON, Dorothy Ann. Freemasonry in Federalist Connecticut.
Princeton, N.J.: Princeton University Press, 1977.
LIST of Lodges (2012). Ed. Pantagraph. Illinois, USA.
MOREL, Marco & SOUZA, Françoise Jean de Oliveira. O poder da
maçonaria: a história de uma sociedade secreta no Brasil. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
ROBERTS, John M. Freemasonry: Possibilities of a Neglected
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 33-39, Mai/Ago, 2013.
38
ISMAIL, K. MAÇONARIA: DEMOCRACIA E MERITOCRACIA NO MUNDO OCIDENTAL
Topic. The English Historical Review, Vol. 84, No. 331 (Apr.,
1969), pp. 323-335.
SCHUCHARD, Marsha Keith. Restoring the Temple of Vision: Cabalistic Freemasonry and Stuart Culture. Leiden: E. J. Brill, 2002.
WAITE, Arthur Edward. A New Encyclopaedia of Freemasonry, 2
vols. London: William Rider and Son Limited, 1921.
YATES, Frances A., The Rosicrucian Enlightenment. London:
Routledge & Kegan Paul, 1972.
YORK, Neil L., Freemasons and the American Revolution. Historian, Vol. 55, Issue 2, p. 315–330, 1993.
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 33-39, Mai/Ago, 2013.
39
40
Recebido: 18/05/2013
Aprovado: 07/06/2013
Resenha do Livro:
SOBRINHO, Octacílio Schüler. Uma Luz na História: o sentido e a formação da COMAB. Florianópolis: Ed. O PRUMO, 1998; pp. 568.
três grandes cisões do GOB: 1854, 1927 e 1973. Trata
2013. Ano eleitoral no Grande Oriente do -se de uma omissão histórica que é desvendada nesta
Brasil. Dúvidas relacionadas ao processo eleitoral surgem aqui e ali. Não cabe aqui julgá-las procedentes
ou não. Esses questionamentos são, no mínimo, um
alerta sobre o processo antiquado, lento, não informatizado e pouco transparente. Em outras palavras,
um processo não condizente com as tecnologias que
experimentamos neste século XXI.
1973. Ano eleitoral no Grande Oriente do
Brasil. O candidato da oposição, Irmão Athos Vieira
de Andrade, recebeu 7.166 votos, enquanto o candidato da situação, Irmão Osmane Vieira de Resende,
recebeu apenas 3.824 votos. Porém, durante o processo eleitoral foram anulados cerca de 70% dos votos, contando o candidato Athos Vieira de Andrade
ao final com apenas 1.107 votos, contra 2.129 votos
de Osmane Resende, agora eleito.
Essa é a obra de Octacílio Schuber, “Luz na
Maçonaria: a Formação e o Sentido da COMAB”. Ela é
uma obra rara. Não naquele sentido de que é difícil
de achar, mas no sentido de que é rica, ampla, detalhista e baseada em fontes primárias: em diversos
atos, decretos, manifestos e boletins oficiais do próprio GOB. Muitos desses documentos são transcritos
na íntegra e, à medida que vamos lendo e analisando
cada um deles, com a devida calma e isenção, não há
como negar os fatos.
Após a leitura da primeira parte do livro, identificamos as verdadeiras Lojas que devem e podem
ser consideradas “primazes” do Brasil. Além disso,
somos conduzidos com maestria a páginas fartamente documentadas, que contradizem as “alegadas”
obra ímpar, como o próprio autor declara:
“Afirmamos que, em 151 anos de história do GOB,
1822-1973, muitas defecções aconteceram, chegando
a um total de 22”.
Uma Luz na História tem como autor Octacílio
Sobrinho, que, além de maçom, foi professor titular
da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC,
sendo Mestre pela Georgetown University
(Washington, DC), e foi Diretor do Centro de Educação da UDESC. Esse breve currículo evidencia a seriedade do autor no imenso trabalho de pesquisa cientificamente estruturada que foi realizado, complementado por entrevistas com inúmeros personagens que
vivenciaram o momento da cisão de 1973. Não é uma
obra emocional, rancorosa ou eivada de pinceladas
de vingança (como algumas que vemos por aí), mas
um trabalho científico, tecnicamente embasado, chegando mesmo a ter trechos densos como, por exemplo, as petições aos Tribunais Maçônicos.
O autor, com toda isenção de um homem das
ciências, afirma “Registre-se que esta publicação,
analisando a cisão de 1973, seus erros, suas confusões e suas inconsequências, sirva de lição para o futuro e não para reacender a luta fraterna”.
“Uma Luz na História: Formação e Sentido da
COMAB” mostra a trajetória de uma candidatura, a
do Irmão Athos Vieira de Andrade, que foi pactuada e
construída em consenso entre os Grão-Mestres dos
Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas
Gerais, Paraná, São Paulo, Goiás, Rio de Janeiro e Pernambuco, em detrimento da candidatura do Irmão
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 41-42, Mai/Ago, 2013.
41
MATTOS, Franklin Luiz de. UMA LUZ NA HISTÓRIA: O SENTIDO E A FORMAÇÃO DA COMAB (review)
Osmane Resende, que contava apenas com o apoio Colégio de Grãos Mestres da Maçonaria Brasileira,
do Grão-Mestre do Maranhão. E mesmo com a oposi- que mais tarde se transformaria na COMAB.
ção contando com o apoio dos maiores Estados brasiPara encerrar, nada melhor do que um trecho
leiros, a chapa da situação, por meio do “milagre” da dessa Proclamação, citada na página 277 do livro:
anulação de votos, venceu! E com essa vitória eivada
de factoides, expulsões, punições e perseguições, a
Por estas razões, os signatários que represenruptura foi inevitável.
E nesse processo de libertação, medidas extremas foram tomadas pelos governantes da situação. Em certos momentos de leitura nos lembramos
da tão cruel e temida inquisição: expulsões, perdas
de direitos, julgamentos sem defesa e contraditório
(e tudo isso documentado), fechamento de Lojas ou
destituições de administrações inteiras.
Athos Vieira teve anulado 5.190 de seus votos. As atas indicam que, realmente, não havia qualquer fundamento legal para tanto. Tratou-se apenas
revanchismo e perseguição. E tudo isso é narrado pelo autor com extrema neutralidade acadêmica, mesmo frente à tão descabida situação.
tam mais de dois terços das Lojas e maçons
brasileiros, em obediência aos princípios maiores da Ordem, conclamam os Irmãos para que
se congreguem em torno dos respectivos Orientes Estaduais e das autênticas lideranças
regionais, objetivando o fortalecimento dessas
unidades para que, de sua AUTONOMIA e INDEPENDÊNCIA, possam, como Potências Simbólicas e Soberanas, com dignidade e altivez,
exercer as prerrogativas e os direitos maçônicos que lhes são inerentes, tanto no seio da
Ordem como no relacionamento com as autoridades e órgãos constituídos de nossa Pátria.
Os irmãos da COMAB devem sentir-se orgulhosos dessa história, pois o movimento de 1973 não
“Nunca antes na história desse país” tantos foi nebuloso e nem malfadado, senão extremamente
atos de um Grão-Mestre Geral foram expedidos: per- claro, transparente, inequívoco, inteligível, com objedão de dívidas, reconversão de dívidas, autorizações tivos certos e definidos. Já outros...
de iniciações sem pagamento de placets, quebras de
interstícios. Parecia uma versão maçônica do
Luiz Franklin Mattos
“mensalão”, que abalou as estruturas de poder do
VM da Loja “Acácia de York” nº 52 - GOIRJ
nosso país recentemente.
MRA, MEM, KT, 26º do REAA – SC33REAARFB
É neste contexto de intrigas palacianas e conspirações mundanas que surge o imenso sentimento
de revolta contra o que vulgarmente chamaríamos de
“furto maçônico”. Em vários Estados, maçons condecorados, elogiados e citados como exemplo de dedicação à Ordem Maçônica perderam seus direitos maçônicos da noite para o dia. Sobre esse assunto, o livro apresenta a relação sequencial de todos os atos
que cometem tantas injustiças. Um excelente registro
histórico.
Grande Secretário de Planejamento Estratégico - GOIRJ
Uma infinidade de fatos e acontecimentos
antecedentes estão narrados e fartamente documentados, conduzindo o leitor até a Proclamação assinada pelos Grão-Mestres, no Hotel Ambassador, Rio de
Janeiro, em 27 de maio de 1973, que consolidaria o
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 41-42, Mai/Ago, 2013.
42
Recebido: 29/05/2013
Aprovado: 19/06/2013
Notícia:
FORTALECENDO OS LAÇOS QUE NOS UNEM COMO VERDADEIROS IRMÃOS
Os Grandes Orientes Independentes vem há
algum tempo conquistando o devido reconhecimento
internacional, inicialmente junto à CMI – Confederação da Maçonaria Interamericana, e agora junto à
Grande Loja do Distrito de Columbia (GLDC). Em maio
e junho deste ano seu Mui Venerável Grão-Mestre,
Irmão Teko Foly, visitou o Brasil e assinou tratados de
reconhecimento com o Grande Oriente do Rio Grande do Sul (GORGS), Grande Oriente Paulista (GOP-SP)
e Grande Oriente do Estado do Mato Grosso
(GOEMT).
Catarina (GOSC), Paraná (GOP-PR) e São Paulo (GOPSP).
Criada a partir de uma conferência maçônica
latino-americana em 1947, a CMI agrupa atualmente
74 Obediências maçônicas de toda a América Latina,
além de França, Espanha e Portugal, assumindo assim
um papel ainda polêmico de Confederação Maçônica
Internacional.
Este ingresso dos Grandes Orientes Independentes é um dos frutos colhidos da cooperação entre
os entes que compõem as três Obediências regulares: os Grandes Orientes Estaduais federados ao
Grande Oriente do Brasil, as Grandes Lojas confederadas à CMSB e os Grandes Orientes Independentes
confederados à COMAB. Essa união é mais nítida nos
Estados do Rio Grande do Sul (GOB-RS, GLMERGS e
GORGS), de São Paulo (GOB-SP, GLESP e GOP-SP) e
de Minas Gerais (GOB-MG, GLMMG e GOMG).
Surgida em 1973 como o Colégio de GrãoMestres da Maçonaria Brasileira, dez potências desfederadas do Grande Oriente do Brasil se confederaram, propugnando pela unificação da Maçonaria Brasileira. Em 1991, os Grandes Orientes, mantendo sua
autonomia, independência e soberania, congregamse no que ficou conhecida como Confederação Maçônica do Brasil – COMAB, a qual conta hoje com 21
Essa coexistência de três Obediências nas
Grandes Orientes Independentes.
principais Unidades Federativas do país à primeira
Mais de trinta anos depois, em dezembro de vista pode parecer um tanto quanto incomum para a
2007, quatro desses Grandes Orientes Independentes realidade estadunidense, onde teoricamente existe
foram aceitos como participantes da Confederação somente uma Grande Loja por Estado e mais uma no
Maçônica Interamericana - CMI, contando para isso distrito federal de Columbia, onde fica a capital Wacom o apoio do então Sereníssimo Grão-Mestre da shington. Porém, deve-se registrar a presença das
GLMERGS, Irmão Rui Silvio Stragliotto, na época exer- Grandes Lojas Prince Hall, as quais mantêm bom relacendo a vice-presidência da 5ª Zona da CMI, e ainda cionamento com as Grandes Lojas originais nos princom aquiescência do então Soberano Grão-Mestre cipais Estados norte-americanos, similar ao que ocorGeral do GOB, Irmão Laelso Rodrigues. Reunida em re aqui no Brasil.
Assembleia na cidade de Buenos Aires, Argentina, em
Sediada em Washington, D.C., nos Estados
dezembro de 2008, a CMI aceita por unanimidade a Unidos, a Grande Loja do Distrito de Columbia
admissão, filiação e integração dos Grandes Orientes (http://www.dcgrandlodge.org) foi fundada em 1811,
Independentes do Rio Grande do Sul (GORGS), Santa tendo hoje 40 Lojas e cerca de 4.500 membros, apreFinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 43-44, Mai/Ago, 2013.
43
MONTEIRO, Rubens Caldeira. FORTALECENDO OS LAÇOS QUE NOS UNEM COMO VERDADEIROS IRMÃOS
sentando assim uma média de 116 obreiros por Loja.
Tal média parece gigantesca para o modelo maçônico
brasileiro, porém é a realidade da Maçonaria dos
EUA.
çônicas aliadas, como Societas Rosicruciana, Shriners;
entre tantas outras organizações que compõem a família maçônica e que ainda podem se desenvolver
em nossas terras, um país com grande potencial de
Em novembro do ano passado a GLDC, em sua expansão da Arte Real.
O reflexo desse trabalho árduo dos maçons
202ª reunião anual, aprovou a recomendação do Codos
Grandes
Orientes Independentes para o engranmitê de Reconhecimento e Relações Fraternais de
outorgar seu reconhecimento ao GORGS, GOEMT e decimento da Maçonaria Regular está surgindo na
GOP-SP. Nesses meses de maio e junho de 2013 o forma do tão esperado reconhecimento internacioMui Venerável Irmão Teko A. Foly, Grão-Mestre da nal, o qual parte justamente da capital do maior país
Grande Loja do Distrito de Columbia, esteve em Por- maçônico do mundo: os Estados Unidos. Evidenteto Alegre, São Paulo e Cuiabá para firmar esses trata- mente que pressões de alguns adeptos da Maçonaria
dos. O Grão-Mestre estava acompanhado de seu as- feudalista no Brasil estão e serão feitas para frear essessor, Irmão Don Holliday, e dos nobres irmãos dos se reconhecimento. Caberá às nossas lideranças não
Shriners International, o braço filantrópico da Maço- se sujeitarem a essas pressões, honrando assim os
naria, reconhecido pela ONU como mais importante esforços daqueles que, há 40 anos, defenderam a
nossa autonomia e independência.
entidade desse gênero no mundo.
A Antiga Ordem Árabe de Nobres do Santuário Místico (Ancient Arabic Order of the Nobles of the
Mystic Shrine - A.A.O.N.M.S.), mais conhecida simplesmente por Shriners, é uma fraternidade formada
por aproximadamente 300 mil membros e voltada à
diversão e à caridade, tendo por foco a saúde de crianças de famílias desfavorecidas. Fundada em 1872,
possui hoje 195 templos espalhados pelos Estados
Unidos, Canadá, Alemanha, México, Filipinas, Porto
Rico e Panamá e oferece atendimento gratuito para
crianças de até 18 anos em seus 22 hospitais próprios, especializados em ortopedia, queimadura, lesões da coluna vertebral e lábio leporino/fenda palatina. Destinando cerca de US$ 589 milhões para atendimento hospitalar e US$ 30 milhões em pesquisa no
ano de 2012, os Hospitais Shriners para Crianças provê atendimento a mais de 120 mil crianças por ano.
Rubens Caldeira Monteiro
VM Loja de Pesquisas “Rio de Janeiro” nº 54
Grande Secretário de Relações Exteriores - GOIRJ
Geólogo, Doutor em Geociências e Meio Ambiente
Consolidando sua participação no cenário nacional e internacional, os membros da COMAB têm
participado ativamente e colaborado para o desenvolvimento de diversas organizações além da Loja
Simbólica (Blue Lodge ou Craft Masonry), tais como
ordens juvenis (DeMolay, Arco-Íris, Filhas de Jó); altos
graus de corpos reconhecidos internacionalmente,
como Real Arco, Maçonaria Críptica e Ordens de Cavalaria e o Rito Escocês Antigo e Aceito; e ordens maFinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 43-44, Mai/Ago, 2013.
44
Recebido: 24/05/2013
Aprovado: 19/06/2013
Relato de Evento:
A ORDEM DeMOLAY NA RIO+20
taduais, escolhem um tema anual para que todas as
organizações afiliadas à Ordem DeMolay brasileira se
A Ordem DeMolay é uma instituição internaci- empenhem durante suas atividades de mobilização
onal patrocinada pela Maçonaria, que tem por objeti- social.
vo o desenvolvimento do caráter de jovens homens
Considerando que um dos princípios éticos da
para que, ao atingirem os 21 anos de idade, eles possam contribuir com a comunidade em que estão inse- Ordem DeMolay é a formação de lideranças, a Orridos. A Ordem DeMolay proporciona um ambiente dem DeMolay brasileira aproveitou duas oportunidafraternal, seguro e sadio, composto por garotos do des distintas de expor, de forma organizada, seus vasexo masculino, entre 12 e 20 anos. Todo processo lores como grupo social, disseminando sua postura
de aprendizagem baseia-se na prática de ações vo- em defesa de valores humanos para a sociedade Essa
luntárias, filantrópicas e na transmissão de técnicas exposição tomou forma concreta durante a II Confede liderança, oratória, resolução de conflitos, gestão rência Nacional da Juventude, e foi concluída na Cúorganizacional, além de estudos filosóficos baseados pula dos Povos da Rio+20.
em sete virtudes básicas de um DeMolay, que são:
Amor Filial, Reverência pelas Coisas Sagradas, Corte- Conferência Nacional da Juventude
sia, Companheirismo, Fidelidade, Pureza e PatriotisA II Conferência Nacional de Juventude ocormo.
reu no período de 1º de junho a 12 de dezembro de
A Ordem DeMolay recebe o suporte da Or- 2011, passando por etapas municipais, estaduais e
dem Maçônica, muito embora a admissão na Ordem nacionais. O evento teve por objetivo possibilitar que
DeMolay não garanta a admissão na Maçonaria. Pre- a juventude brasileira deliberasse acerca dos
sente em diversos países, mais de um milhão de jo- “direitos da juventude, as políticas e programas priovens já passaram pela Ordem DeMolay. Somente no ritários para garanti-los, além de apontar mecanisBrasil, o Supremo Conselho da Ordem DeMolay para mos de participação, assegurando o envolvimento do
a República Federativa do Brasil - SCODRFB declara
maior número possível de jovens brasileiros, respeique existem mais de 30 mil membros ativos.
tando sua pluralidade e incluindo as comunidades
No período de julho de 2011 a julho de 2012 a tradicionais”.²
Ordem DeMolay esteve oficialmente engajada no teTendo em vista o tema do Ano DeMolay,
ma “Conscientização Política: a força da ideia coleti- “Consciência Política: A força de uma ideia coletiva”,
va”. Esse tema foi escolhido segundo o projeto anual o Capítulo “Perfeita União” nº 115 da Ordem DeMochamado “Ano DeMolay”. Desde 2005, os membros lay, em conjunto com o Gabinete Nacional da Ordem
da Ordem DeMolay, por meio de suas lideranças es- DeMolay, organizou o Projeto “DeMolay & JuventuIntrodução
² JUVENTUDE.GOV.BR. 2ª Conferência Nacional de Juventude. Disponível em: <http://www.juventude.gov.br/conferencia/2aconferencia-nacional-de-juventude>. Acessado em: 22 de Junho 2013.
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 45-48, Mai/Ago, 2013.
45
FERREIRA, E. C. C. X. A ORDEM DeMOLAY NA RIO+20
de+20”, a fim de contribuir com os valores e virtudes
DeMolay para a formulação de políticas públicas de Meio Ambiente
juventude na II Conferência Nacional de Juventude.
1. Em defesa das florestas, não à aprovação do novo
A participação no projeto se deu nos moldes
código florestal;
da Resolução 003/2011 da Comissão Organizadora
Nacional Sobre as Conferências Livres, que, dentre 2. Substituição do modelo energético baseado no
petróleo por energia e tecnologias limpas e não
outras providências, considera como válidas a elabopoluentes;
ração de conferências livres virtualmente e suas respectivas contribuições. Com este propósito, foi criado 3. Desenvolvimento de programas de agroecologia,
em agosto de 2011 o fórum virtual no qual os textos
ampliação do controle de agrotóxicos e do destibase da II Conferência Nacional de Juventude foram
no final de embalagens;
discutidos. No dia 22 de setembro de 2011, por meio 4. Redução da destinação final de resíduos sólidos;
da plataforma de Educação à Distância da Universidade DeMolay, foi realizada a Conferência Livre que, ao 5. Manifestamo-nos contrários a construção de novas usinas nucleares e a favor da redução gradaticabo de um mês, contou com a representação de 131
va das existentes, além de amplo debate sobre o
Capítulos DeMolays, espalhados por 119 municípios
adequado armazenamento de resíduos nucleares;
de mais de 20 Estados mais o Distrito Federal.
As ideias aprovadas nessa conferência³, e nas 6. Ampliação da utilização de energia solar e eólica
no Brasil;
quais a juventude deve se apoiar, são:
Educação
7. Reflorestamento com essências florestais nativas
e nas margens e nascentes dos rios;
8. Programa de moradia popular com esgotamento
1. Melhoria da remuneração dos profissionais de
sanitário e tratamento adequado;
educação, com imediata incorporação de gratifi9. Cumprimento da legislação vigente e agilidade
cações ao salário;
em processos de punição e recuperação;
2. Destinação de 10% do PIB para a educação com a
10. Programa de educação para a sustentabilidade
desvinculação das Receitas da União (DRU);
com participação comunitária;
3. Universalizar o acesso ao ensino público em todos
11. Proteção da biodiversidade, do patrimônio genéos níveis da pré-escola até a universidade;
tico de nossas espécies e da soberania nacional,
4. Qualificar os profissionais de educação, com inampliando ou consolidando as unidades de concentivo a pós-graduação;
servação.
5. Facilitar o ensino profissional e tecnológico, respeitando-se as diferenças regionais e a experiênDireito à Participação
cia comunitária;
6. Garantir acesso e a universalização para os jovens 1. Imediata implementação do projeto de lei “Ficha
Limpa” para as próximas eleições;
de todas as regiões do país as novas mídias e a
informação eletrônica, por meio da liberação dos 2. Aprovação do Projeto de Lei 253/06 do Senador
recursos do Fundo de Universalização dos ServiCristovam Buarque, que torna crimes hediondos
ços de Telecomunicações (FUST).
o peculato, a inserção de dados falsos em sistema
³ GABINETE NACIONAL DA ORDEM DEMOLAY PARA A REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. Relatório da 1° Conferência Livre DeMolay & Juventude+20. 2011. Disponível em: <http://www.slideshare.net/demolaybrasil/relatrio-1-da-conferncia-livre-demolayjuventude-20>. Acessado em: 23 de Junho 2013.
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 45-48, Mai/Ago, 2013.
46
FERREIRA, E. C. C. X. A ORDEM DeMOLAY NA RIO+20
de informações, a modificação ou alteração não mos”, reconhecida pelos 188 representantes de paíautorizada de sistema de informações, a corrup- ses presentes na conferência. ´
ção passiva e a corrupção ativa;
Paralelo à Rio+20 ocorreu, no Aterro do Fla3. Implementação da Comissão da Verdade para mengo, a Cúpula dos Povos na Rio+20 por Justiça Soapuração da história da Ditadura Militar e dos cial e Ambiental⁵, durante os dias 15 a 23 de Junho
de 2012. A Cúpula dos Povos foi organizada pela socipresos políticos;
edade civil organizada e por movimentos sociais de
4. Aumento do percentual de vagas nos partidos e diversos países, que consideraram a pauta principal
coligações para 35% de jovens a todos os cargos para a Rio+20, a economia verde, como insuficiente
eletivos;
para lidar com a crise ambiental. A Cúpula dos Povos
foi dividida em três eixos. O primeiro eixo discutiu o
5. Acesso a educação e garantia de universalização poder de influência das grandes corporações e da
dos serviços de saúde para os jovens da cidade e iniciativa privada nas negociações da Rio+20. O Terrido campo;
tório do Futuro, segundo eixo, foi o espaço em que
6. Consolidação e efetiva estruturação dos conse- comunidades e entidades puderam apresentar e trolhos de juventude em todas as esferas adminis- car soluções viáveis para a crise ambiental. O terceiro
trativas;
eixo foi um espaço criado para que entidades e movi7. Assegurar a liberdade de expressão e manifesta- mentos sociais pudessem integrar agendas e campação artística, política e cultural da Juventude, in- nhas a fim de impulsionar suas lutas sociais após a
Rio+20. Na Cúpula dos Povos houve 21 mil inscrições,
cluindo o direito à diversidade sexual;
sendo 15 mil representantes de organizações da Soci8. Criminalizar todo tipo de discriminação ou pre- edade Civil.
conceito de gênero, etnia, e violência doméstica;
Após o sucesso na mobilização e elaboração
9. Ampliar e garantir acesso público às discussões a de contribuições dos valores DeMolay para II Conferespeito do aborto e das células tronco.
rência Nacional de Juventude, o projeto DeMolay &
Juventude+20 organizou-se para debater essas propostas na Cúpula dos Povos. Ainda utilizando o fórum
Rio+20 e Cúpula dos Povos
virtual como base para constante reavaliação e conEntre os dias 20 e 22 de junho de 2012 ocor- tribuição da juventude DeMolay para desenvolvimenreu no Rio de Janeiro a Conferência das Nações Uni- to ecologicamente sustentável e socialmente justo, o
das para o Desenvolvimento, a Rio+20, a fim de avali- projeto chegou, nos meses anteriores à Rio+20 e à
ar os resultados da Conferência Rio 92 e traçar novas Cúpula dos Povos, a envolver 500 lideranças da judiretrizes para o desenvolvimento sustentável do ventude DeMolay, representando 26 Estados, 193
mundo. A Conferência reuniu representantes dos Es- Municípios brasileiros e 400 Capítulos;
tados-membros da ONU, que tentaram encontrar um
Além da discussão através do fórum virtual, o
modo de conciliar o desenvolvimento econômico,
projeto
Juventude+20 conseguiu uma tenda na Cúpuhumano e a preservação do meio-ambiente, além de
reconhecer responsabilidades entre os países para a la dos Povos. O espaço cedido pela organização do
promoção do desenvolvimento sustentável. A confe- evento encaixou-se nas atividades autogestionadas
rência teve como resolução “O Futuro que Quere- de articulação e aconteceu às 16h30min na tenda
´ ONU. ONU Brasil na Rio+20. Rio+20 Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável. Disponível em:
<http://www.onu.org.br/rio20/>. Acessado em: 23 de Junho 2013.
⁵ CÚPULA DOS POVOS. Cúpula dos Povos na Rio+20 por Justiça Social e Ambiental. Disponível em: < http://cupuladospovos.org.br/
>. Acessado em: 23 de Junho 2013.
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 45-48, Mai/Ago, 2013.
47
FERREIRA, E. C. C. X. A ORDEM DeMOLAY NA RIO+20
Manuel Congo no dia 15 de Junho de 2012. Lá foi
apresentado como os valores DeMolay contribuíram
para realização de atividades desenvolvidas ao longo
do Ano DeMolay e qual o papel dos DeMolays, como
membros da Sociedade Civil, na construção de um
futuro mais sustentável e socialmente justo para diversas pessoas que participavam da Cúpula dos Povos.
tendência a esse papel de liderança ficar restrito à
organização DeMolay. Assim sendo, esse projeto pode ser considerado um pequeno esforço no sentido
de estimular a reflexão da Juventude DeMolay acerca
de seu papel enquanto juventude responsável pela
constituição de um mundo mais justo. Demonstrando
que os valores DeMolays são compatíveis com instâncias de decisão além da sua própria organização. Embora a participação nesses eventos tenham tido sucesso quanto a mobilização e discussão, acredito que
Comentários Finais
ainda representa um passo tímido em relação a conHá um discurso recorrente na Maçonaria que, tribuição que os DeMolays podem oferecer.
principalmente nesses tempos de agitação popular,
torna a circular. Baseado na concepção de que a Maçonaria é uma instituição progressista e composta de
Eduardo Cezar C. X. Ferreira
homens idôneos, considera-se esta instituição como
PMC Capítulo “Perfeita União” da Ordem DeMolay
Mestre Maçom Loja “Francisco Cândido Xavier” nº 55
capaz de guiar a humanidade em crise para a sua reGrande Secretário Adj. de Assuntos Paramaçônicos - GOIRJ
denção. Dessa forma rememora-se os tempos
“áureos” em que a Maçonaria era capaz de influenciar de forma direta os rumos dos países e das grandes
mudanças sociais ou políticas. Esse discurso ecoa
também nas reuniões DeMolays e não é de se admirar que, por vezes, ele possa ser acolhido por setores
dessa organização. Entretanto o que mais frustra os
entusiastas desse discurso é o fato de que o mundo
não é mais o mesmo.
A organização DeMolay, inspirada na filosofia
maçônica, tem como missão contribuir para formação do caráter dos jovens. Os jovens que uma vez absorveram e desenvolveram os preceitos da ordem
seriam capazes de auxiliar a comunidade que estão
inseridos, contribuindo significativamente no desenvolvimento da mesma. Como se pode notar, nessa
concepção o único meio de mudança que a organização DeMolay pode oferecer a comunidade da qual
faz parte é aquela realizada em seus membros e não
através de comando de instituições políticas. Os jovens DeMolays, na nossa visão, devem sim estar envolvidos em diversas instâncias de participação política. Porém quando presentes nelas devem agir não
como redentores, mas sim como cidadãos.
É nesse escopo que se desenvolveu o projeto
DeMolays & Juventude+20. Considera-se que há uma
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 45-48, Mai/Ago, 2013.
48
Recebido: 03/06/2013
Aprovado: 10/06/2013
FinP entrevista: PETER DIAZ
Entrevista realizada no dia 01 de Junho de 2013 com Peter Diaz, cubano radicado nos Estados Unidos, médico ginecologista e obstetra há 33 anos, professor de medicina, membro do Board of Trustees do Shriners
International. Dr. Diaz é membro da Loja Mokanna nº 329 da Grande Loja de Orlando e, desde 2002, é um
Nobre Shriner. É professor de cirurgia laparoscópica e tem ensinado esse procedimento nos Estados Unidos,
América Central e América do Sul.
FinP - Você poderia contar um pouco de sua história? eu casei com minha esposa, seu pai explicou-me soDe como se interessou pela Medicina, pela Maçonaria bre a Maçonaria e eu quis me tornar um maçom. E eu
me tornei um maçom há 20 anos. Ele era também um
e pelo Shriner?
Shriner e eu me envolvi com Shriners logo após eu
Peter Diaz - Eu queria ser médico desde criança. me tornar maçom.
Quando terminei o Ensino Médio, eu tive a oportunidade de estudar em uma das melhores escolas de FinP - Antes do ano 2000?
medicina do mundo, na Universidade de Santiago de Peter Diaz - Sim. Antes de 2000.
Compostela, onde meus avós viviam. Eu tinha 17 FinP - Então na época você era um Grau 32?
anos de idade quando fui para lá e aos 23 anos eu já
era um médico. Quando me graduei na Espanha, vol- Peter Diaz - Sim. Eu sou um Grau 32. E eu amo a fratei para os Estados Unidos para fazer minha Especiali- ternidade e a amizade no Shriners. Eu gosto muito
zação. Eu pratico a medicina na Flórida, em Orlando, disso. Eu fui presidente de um clube de carros antifaz 42 anos. Eu trato de crianças, já foram mais de 9 gos. Uma vez por semana nós nos reuníamos e planemil crianças tratadas. Gasto boa parte do meu tempo jávamos viagens para os finais de semana. E esse foi
com crianças. A outra parte de meu tempo me dedico o meu envolvimento com o Shriners por 7 ou 8 anos.
a laparoscopia. Eu aprendi cedo a prática e a tenho Até que um dos membros do Board do Shriners International, Irmão Gary, disse a mim: "Peter, eu tenho
ensinado nos Estados Unidos.
um problema. Há uma vaga aberta no Board. Já tem
FinP - A prática foi desenvolvida na Flórida?
três ou quatro irmãos brigando pela vaga. Mas você é
Peter Diaz - Não. Desenvolvida na Alemanha. Eu fui um médico e nós não temos um médico no Board.
para a Alemanha e tive a oportunidade de aprendê-la Nós administramos 22 hospitais sem um médico. Encom seu criador. Hoje a prática é utilizada nos mais tão você tem boas chances de ser eleito para a vaga."
diferentes tipos de cirurgias, tendo muitas e diferen- Então eu disse: "Ok. Eu farei o meu melhor." E ele me
tes aplicações. E tem a vantagem de não haver perda perguntou: "Quanto tempo você tem para se dedicar
de sangue, sem riscos de infecção, a cicatrização é aos hospitais?" Eu disse: "Dois dias por mês". Ele resmuito mais rápida, a dor é muito menor e a recupera- pondeu: "Dois dias? Não é tão ruim." E agora, eu fico
ção de modo geral é rápida. .
na minha casa dois dias por mês. Eu fui enganado!
Com respeito à Maçonaria, eu me casei com uma mu- (risos). De qualquer forma, eu fui eleito um membro
lher americana, de Baltimore. Seu nome é Victoria. E do Imperial Board em Denver, Colorado, dois anos
seu pai era um maçom. Eu cresci no conceito da famí- atrás. Isso porque sou médico, estou envolvido muito
lia e eu não sabia o que era Maçonaria, mas quando profundamente nas atividades de todos os Hospitais
Shriners. E esses hospitais têm realidades muito difeFinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 49-53, Mai/Ago, 2013.
49
FinP ENTREVISTA: PETER DIAZ
rentes. O que todos têm em comum é que, quando
uma criança chega para nós, por exemplo, uma que
perdeu uma perna, nós cuidamos dessa criança até
ela completar 18 anos de idade. Nós garantimos todos os cuidados médicos; as próteses, que vão mudando com seu crescimento; se a criança quer jogar
basquete, é uma prótese própria pra isso. Nós somos
tão envolvidos com nossos pacientes que eles retornam para, por exemplo, se casarem em nosso hospital. Eles têm o Shriners como parte de suas vidas. Isso
é sobre cuidar. Nós cuidamos de tudo. Nós temos
dentistas nos hospitais. Nós temos professores, pois
algumas crianças vêm para ficar no hospital por um
mês ou mais e não queremos que eles percam a escola. Enfim, fazemos um monte de coisas diferentes
dos demais hospitais.
FinP - Em sua opinião, qual a importância dos Hospitais Shriners para a sociedade?
Peter Diaz - Nós apenas nos envolvemos quando parte da sociedade não está recebendo os devidos cuidados. Em 1922 nós abrimos nosso primeiro hospital,
na Louisiana. Um grupo de Shriners se reuniu para
combater uma epidemia de pólio que ocorreu nos
EUA. Muitas crianças não recebiam socorro. Então os
Shriners se juntaram para abrir o primeiro hospital
para crianças. Foi assim que Shriners Hospital começou, tratando de crianças com poliomielite. Mas pólio
não é mais um problema. Então nós nos envolvemos
em outras especialidades, como má formação óssea,
musculares, paralisia, lábio leporino etc. Em 1960,
houve uma grande crise de queimaduras nos EUA e
ninguém cuidava das crianças. Em 1960, uma criança
com 40% do corpo queimado morria. Nos anos 80,
com 70% de queimaduras. Hoje, com 90% do corpo
queimado há 50% de chance de sobrevivência. Foi
um grande avanço nas pesquisas sobre tratamento
de queimaduras. Nós temos 4 Hospitais especializados em queimadura nos EUA. Nós fazemos a maioria
das cirurgias de queimadura dos EUA. Nós treinamos
a maioria dos cirurgiões de queimaduras dos EUA por
conta da nossa excelência.
ners inventaram. Deixe-me dizer uma coisa sobre
bancos de pele que é importante sobre nossa cultura,
a cultura latino-americana. Os anglo-saxões não têm
problema em doar partes dos seus corpos quando
eles morrem. Ter no testamento que seu corpo será
doado para a ciência não é um problema. Isso é muito comum. Pele é muito preciosa para nossos pacientes queimados. E a única forma de termos peles é por
meio de doadores. Na América Latina isso é um grande problema, porque na América Latina o povo não
quer que mexam em sua pele mesmo depois da morte. Isso é preocupante, pois se você tem uma catástrofe, um grande incêndio, pessoas poderão morrer
por você não tiver peles o bastante para atendê-las.
Isso aconteceu no México, quando houve um grande
incêndio em uma escola há 10 anos. Nós perdemos
em torno de 100 crianças. Os hospitais do México
não estavam preparados para queimaduras de crianças, então nós colocamos as crianças em nossos Hospitais Shriners para queimados nos EUA. Depois disso, eles criaram bancos de peles no México. Hoje parecem ser 16. Infelizmente, parece que às vezes é necessário ocorrer um grande evento para que as coisas
mudem.
FinP - Qual a responsabilidade do Board of Trustees
no Shriners?
Peter Diaz - Nós temos dois Boards no Shriners, cada
um com 11 membros. O Board da Fraternidade trata
das relações maçônicas e dos assuntos da Ordem
Shriners. Já o nosso Board of Trustees é responsável
pelos 22 Hospitais e os cuidados médicos que eles
realizam, o que significa investir 500 milhões de dólares por ano, que são necessários para fazer nossos
hospitais funcionarem sempre no maior nível de excelência. Para isso nós controlamos de perto tudo
que ocorre nos 22 hospitais. Essa é a nossa responsabilidade, do Board of Trustees.
FinP - Qual é a principal fonte de renda dos Shriners
para a manutenção dos hospitais?
Peter Diaz - Nós recebemos recursos dos Templos.
Nós temos 205 Templos nos EUA. Além do auxílio adFinP – E vocês têm banco de pele?
vindo dos Templos, nós temos circos, fazemos shows,
Peter Diaz - Nós inventamos o banco de pele. Os Shri- que também geram recursos para os hospitais. TamFinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 49-53, Mai/Ago, 2013.
50
FinP ENTREVISTA: PETER DIAZ
bém recebemos doações. E nós temos um departamento que investe esses recursos de forma a multiplicá-los. Temos postos de gasolina, cassinos, supermercados, hotéis e restaurantes. Nós temos vários
departamentos que trabalham juntos para fazer tudo
funcionar. Com isso, nós temos atualmente algo em
torno de 9,3 bilhões de dólares, sendo aproximadamente 7,9 bilhões investidos no mercado financeiro.
O importante é que nós investimos as doações nos
hospitais. Os Shriners não mexem no montante principal porque entendemos que é um legado deixado
por aqueles Shriners que vieram antes de nós, por
muitos e muitos anos atrás.
FinP - Peter, você sabe que as referências hoje mudam muito rápido. O que é referência hoje não costuma ser amanhã. Como os Hospitais Shriners se mantêm referências por tantos anos?
Peter Diaz - Nós cuidamos de nossos hospitais. Nossos membros não precisam saber cuidar de crianças,
mas precisam estar perto dos hospitais o tempo todo. Ajudar a cuidar dos hospitais. Ocorreram muitas
crises nas últimas décadas. Nós nunca fechamos um
hospital. Nós nunca cogitamos a possibilidade de fechar um hospital. Nós criamos hospitais, mas não voltamos atrás. Além disso, nossos hospitais funcionam
sobre um tripé: tratamento, pesquisa e ensino. Temos um legado de investimento em pesquisa. Ensinamos nossos médicos, enfermeiras, técnicos e mantemos convênios com universidades de forma que seus
estudantes de medicina frequentem nossos hospitais.
Nossos hospitais não tratam de tudo e sim de nossas
especialidades e apenas para crianças. Isso nos torna
muito bons no que fazemos. Por isso médicos nos
procuram para aprender conosco, para saber o que
fazemos, como fazemos.
trabalham juntos todos os dias para garantir que o
hospital funcione efetivamente.
FinP - Peter, além dos hospitais nos EUA, nós temos
um hospital no México, outro no Canadá, o que significa que lidamos com diferentes culturas, diferentes
leis, diferentes realidades. Como isso impacta os hospitais? O hospital mexicano, por exemplo, tem diferentes conceitos do que os americanos?
Peter Diaz - Nossos hospitais trabalham de forma
igual. Nós somos a única organização médica em todo o mundo cujo sistema trabalha em três línguas:
espanhol, inglês e francês. Todos os computadores
dos hospitais dos três países estão conectados à nossa sede, num banco de dados único de todos os pacientes e atendimentos. É claro que alguns traços locais podem impactar, mas nós temos em mente que
temos um modelo que funciona e que isso não pode
mudar. Assim, as pessoas que quiserem trabalhar conosco se adequam ao nosso modo, pois nós não mudamos por elas.
FinP - Você já fez muitas cirurgias no Brasil, então
você sabe um pouco como é a realidade da saúde pública brasileira. Em sua opinião, como os Clubes Shriners brasileiros podem agir em suas regiões de forma
a atender a causa Shriner?
Peter Diaz - Acho que o melhor que vocês no Brasil
têm a fazer é se organizarem e trabalharem com todos os clubes juntos. É uma coisa que vocês têm que
aprender a fazer. Depois disso feito, vocês têm que
começar a trabalhar em projetos de pequena escala.
Comecem fazendo clínicas para depois querer um
hospital. Encontrem primeiro voluntários que desejam ajudar crianças e então façam funcionar uma Clínica Shriner. A partir daí, vocês crescem. Não se pode
colocar o carro na frente dos bois. É muito difícil queFinP - E como fazer tudo isso funcionar, tantos hospi- rer pular isso. Não posso dizer que é impossível, mas
tais em diferentes lugares? Como administrar tudo o certo é que se você inicia com passos pequenos,
isso?
você é capaz de fazer um trabalho melhor.
Peter Diaz - Cada hospital tem três principais indivíFinP - Peter, nos EUA você tem leis que incentivam a
duos: o administrador, que é a pessoa responsável doação. Lá os tributos sobre o espólio são altos, enpelo hospital; o chefe dos médicos, que é o responsá- tão é preferível doar. Já no Brasil é o oposto, nossas
vel por todos os médicos; e o diretor da enfermagem, leis praticamente punem o doador com impostos. Coque dirige todas as enfermarias. Esses três líderes
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 49-53, Mai/Ago, 2013.
51
FinP ENTREVISTA: PETER DIAZ
mo você acha que devemos lidar com essa diferença? tura. Então ele se colocou contra os Shriners no ArPeter Diaz - É exatamente a mesma situação que te- kansas, dizendo aos membros da Grande Loja do Armos na Cidade do México. Lá não temos doadores. A kansas que eles não podem ser Shriners. Isso vai conintenção é realizar uma campanha de doação no Mé- tra o princípio maçônico da Liberdade. Nosso Potenxico porque acho que muitos mexicanos querem do- tado do ano passado o procurou para resolver a situar, mas não sabem como fazer legalmente isso da ação, mas não conseguiu. Este ano, nosso Potentado
melhor forma possível. Então nós temos um time de esteve duas vezes frente a frente com ele e também
advogados dos EUA trabalhando com advogados me- não conseguiu. Então estamos numa situação difícil
xicanos procurando uma solução para o problema. E porque os Shriners do Arkansas estão sofrendo com
isso. Eles estão numa situação difícil. Tivemos um
creio que conseguirão até o final deste ano.
problema similar na Grande Loja da Carolina do Sul,
FinP - Os Hospitais Shriners investem muitos recursos mas foi resolvido quando houve a mudança de Grãoem pesquisa e desenvolvimento. Que tipo de retorno Mestre. Mas na maioria dos Estados, as Grandes Lose obtém desses investimentos?
jas sabem que investir nos Shriners é investir em seu
Peter Diaz - Nós investimos todos os anos algo perto próprio crescimento, pois muitos homens ingressade 30 milhões de dólares em pesquisa. Isso não é ram na Maçonaria por conta do Shriners.
muita coisa. Nós poderíamos estar investindo mais. FinP - Última pergunta: Nos anos 60 a Maçonaria nos
Mas essa é a realidade do que estamos fazendo hoje. EUA era enorme, contando com mais de 4 milhões de
Pesquisadores dos Hospitais Shriners e de fora de membros. Hoje há algo em torno de 1,3 milhão de
nossos hospitais uma vez por ano apresentam proje- membros. Os Shriners aparentemente também sentitos ao Shriners. Nós temos um departamento de pes- ram essa mudança, tanto que mudou os requisitos
quisa que acompanha o desenvolvimento das pesqui- para ingresso no Shriners. Antes você precisava ser
sas. E nós temos um PhD que dirige a estrutura de um Grau 32 do Rito Escocês ou um Cavaleiro Templápesquisa. Os projetos são avaliados e patrocinamos rio do Rito de York para ser Shriner. Agora você apeos melhores projetos conforme suas necessidades. nas precisa ser Mestre Maçom para ser um Shriner. O
Há projetos de 500 mil dólares por ano, outros de Shriners International está preocupado com o futuro
100 mil dólares e por aí vai. Os projetos podem ser da instituição, visto a redução da Maçonaria?
apresentados por qualquer um, mas devem estar relacionados com as áreas de especialização trabalha- Peter Diaz - Claro que estamos sentindo o impacto e
estamos preocupados. Nós já tivemos mais de 1 midas por nossos hospitais. .
lhão de membros e agora temos menos de 300 mil. O
FinP - Recentemente algumas Grandes Lojas norte- problema maior que vemos é que Shriners está ligaamericanas apresentaram posturas contra Shriners. do a pessoas velhas e elas estão morrendo. PrecisaO que Shriners International está fazendo quanto a mos renovar os Templos. Nós temos que mudar isso.
isso? Shriners pretende mudar suas diretrizes?
A liderança dos Templos é formada geralmente por
Peter Diaz - Apenas relembrando que sou um admi- maçons velhos. Então os jovens entram no Templo e
nistrador de hospitais, não sou membro do Board da dizem: "Isso aqui não é pra mim. Só tem velho." Isso
Fraternidade. Eu administro os recursos, mas acho precisa mudar. Nós precisamos envolver os jovens,
que posso dizer o que está havendo. A Grande Loja trazê-los para os Templos. Ainda há a questão do sedo Arkansas tem um Grão-Mestre que não gosta dos cretismo envolvendo a Maçonaria. Muitas pessoas
Shriners. Shriners é diversão e caridade, mas ele não não sabem o que fazemos. Se soubessem, se juntarigosta de nossa diversão! (risos). Mas os Shriners não am a nós. Mas não temos boas relações públicas e
dizem o que seus membros devem fazer, a Ordem dá nem fazemos propaganda do que fazemos. Talvez
liberdade aos membros e isso faz parte de nossa cul- seja a hora de mudar, mostrando o trabalho dos Shriners na televisão, fazendo campanhas em nível nacioFinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 49-53, Mai/Ago, 2013.
52
FinP ENTREVISTA: PETER DIAZ
nal. Nós já conseguimos mudar a visão de muitas pessoas acerca da Maçonaria nos últimos anos, mas é
algo muito difícil de se fazer.
FinP - Peter, muito obrigado pelo seu tempo.
Peter Diaz - Foi um prazer.
FinP | Rio de Janeiro, Vol. 1, n.1, p. 49-53, Mai/Ago, 2013.
53
54
Diretrizes para Autores
A submissão de trabalhos deverá ser feita através da página da revista.
Formato:
Os originais deverão ser apresentados no seguinte formato:
- Arquivo de texto: Microsoft Word,
- Tabelas: coladas como gravura “jpg” ou utilizando a ferramenta detabelas do Word,
- Gráficos e figuras: acrescentadas ao arquivo word como “jpg”, com mínimode 200 dpi,
- Página tamanho A4, margem esquerda e superior de 3cm, direita einferior de 2cm, espaço entre linhas “simples”;
- fonte: Calibri;- texto principal: tamanho 11;
- citação superior a 3 linhas do original: tamanho 9;
- notas de fim: tamanho 9, separado do texto por linha de 5 cm;- parágrafo: 1,25 cm da margem;
- alinhamento: justificação inteira;
- bibliografia: no final do documento, formato conforme ABNT.
Obs.: Permite-se, com a finalidade de facilitar aleitura, a nota de fim. Mas é vedado o uso de nota de rodapé.
Referências Bibliográficas e/ouBibliografia, Citações, Notas de Fim:
A Revista FRATERNITAS IN PRAXIS adota como critério orientador para elaboração das referências bibliográficas dos artigos nela
publicados asseguintes formas:
- NBR-6023:2002 - Referências bibliográficas;
- NBR-10520:2002 – Citações;
- NBR-6022:2003 - Artigo em publicação periódica cientifica.
O não respeito as NBR's no que se refere à apresentação do artigo acarretará na sua imediata devolução para correção por parte
do(s) autor(es). Exceção será feita aos autores não brasileiros que não residem no país, cujos textos serão adequados às normas da
ABNT acima citadas.
Apresentação dos textos
Estabelece-se, ainda, uma padronização para a apresentação de textos, que deverá seguir o seguinte critério quanto à sua forma:
Título: centrado, todo em maiúsculas, negrito, fonte Calibri,tamanho 14.
Subtítulo: Em linha imediatamente abaixo do titulo, todo em minúsculas, negrito, fonte Calibri, tamanho 13.
Resumo: em português, justificação inteira, máximo de 100 palavras, fonte Calibri, tamanho 11, não tabulado. Em parágrafo único.
O título “Resumo” deverá ser em negrito, fonte Calibri, tamanho 12, somente primeira letra em maiúscula, não tabulada.
Palavras-chave: em português, à esquerda, justificação inteira, até 4 palavras, fonte Calibri, tamanho 11, não tabulada. O título
“Palavras-chave” deverá ser em fonte Calibri, tamanho 12, negrito, somente primeira letra em maiúscula, não tabulada.
Logo abaixo, Resumo em inglês, no mesmo formato do resumo em português. O título “Abstract” terá o mesmo formato do título
“Resumo”.
Palavras-chave em inglês seguindo o mesmo formato das em português. O título “Keywords” terá o mesmo formato do título
“Palavras-Chave”.
Em seguida, Resumo em espanhol, no mesmo formato do resumo em português.O título “Resumen” terá o mesmo formato do
título “Resumo”.
Palavras-chave em espanhol seguindo o mesmo formato das em português. O título “Palabras clave” terá o mesmo formato do
título “Palavras-Chave”.
Resumos e Palavras-Chave não serão exigidos de resenhas, relatos de eventos, entrevistas e notícias.
Texto principal do artigo/ensaio/resenha: justificação inteira, parágrafo com tabulação de 1,25 cm, espaço entre linhas simples.
Chamadas dos blocos: sem numerar, somente inicialmaiúscula, Calibri, 12 pontos, negrito.
Páginas enumeradas: no canto inferior direito.
Notas: notas apenas de fim, fonte Calibri, tamanho10, separadas do texto por linha de 5 cm.
Citações: as citações bibliográficas no corpo do texto devem seguir o estipulado pela NBR 10520:2002.
Ao elaborar as Referências Bibliográficas, adotar o critério do itálico para o titulo da obra. Não usar sublinhado. Não usar negrito.
Tamanho do artigo: seguindo os parâmetros anteriormente mencionados, um artigo deve se enquadrar em no mínimo 02 e nomáximo 15 páginas, já incluindo as notas de fim e/ou bibliografia.
Importante: o arquivo submetido não deve conter o nome ou qualquer forma de identificação do(s) autor(es). Nem no corpo do
artigo, nem nas propriedades do arquivo. Para remover os dados pessoais das propriedades do arquivo, clique com o botão direito
sobre o arquivo, vá em “propriedades” e, na aba “Detalhes”, clique em “Remover propriedades e informações pessoais”.
55
56
Patrocínio:
YORK RIO
Apoio:
Realização:
Associação