GALERIA EDUARDO FERNANDES

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GALERIA EDUARDO FERNANDES
GALERIA EDUARDO FERNANDES
CRISTINA SÁ
Uma Viagem Poliglota
Os antigos diziam – chinoiserie.
Mas os traços, a ornamentação e a serenidade orientais que emanam da arte de Cristina Sá, como aparecem aí, não dizem tudo do que
é capaz a sua pintura, muito pessoal e ampla no seu mosaico de citações e inspirações assumidas, Matisse com barroco, arabescos
islâmicos com iconografia eslava, tributo talvez inconsciente ao seu primeiro mestre o romeno Maciej Babinski. Cristina abre suas
Fusões na Galeria Ricardo Camargo, em São Paulo, neste domingo 21. É uma viagem. Como a de Marco Pólo pela Rota da Seda. Mas a
arte é sempre muito mais rica do que a realidade – mesmo aquela, como a de Pólo, que incluía a fantasia
Revista Carta Capital – Novembro 2004
Ornamentos Silenciosos de Cristina Sá
Cristina Sá, que atualmente expõe uma série inédita de trabalhos na Galeria Ricardo Camargo, parece estar em busca permanente de
equilíbrio, que se dá tanto no jogo entre os vários elementos que compõem sua obra como na tentativa de compor uma poética
pessoal a partir de um conjunto amplo, e muitas vezes contrastante de referências.
Aluna de Maciej Babinski, formada em decoração de interiores, neta de chinês (O que talvez explique a presença constante em suas
obras de elementos orientais, como a escrita chinesa, os belos papéis ornamentais que coleciona nas viagens que faz, ou a sutil
representação dos bambus que estruturam o fundo das telas), ela parece tentar retirar de cada um desses substratos de sua formação
elementos necessários para compor sua obra.
As técnicas são variadas, indo do registro mais tosco das monotipias (que apenas sugerem figuras, como a de leques abertos) à leveza
das aguadas, passando pelas já mencionadas colagens. Surgem aqui e ali elementos tipicamente femininos, formas de mandalas – o
que, segundo Angélica de Moraes, ativam na memória a obra em voga de Beatriz Milhazes. No entanto, ao contrário do exagero um
tanto psicodélico e assumidamente tropicalista da pintora carioca, Cristina apenas pontua suas telas silenciosas com esses ornamentos.
É curiosa sua relação com a figura. Ela está presente em quase todos os trabalhos. Mas, com exceção de China Tropical – que destoa um
pouco do restante da exposição -, serve apenas como mais um elemento de pontuação do espaço, de composição de planos silenciosos e ao mesmo tempo sedutores do olhar.
É possível notar o mesmo tipo de preocupação com o equilíbrio da composição no que se refere ao contraste entre opacidade e
transparência (as aguadas contrastam com massas mais veladas de tinta, muitas vezes em sedutores tons de dourado) e no uso
cuidadoso das cores. Além da pontuação delicada dos tons mais intensos na maioria dos trabalhos, Cristina parece ter resolvido melhor
os trabalhos em que lida com tons mais rebaixados.
As telas mais grosseiras ou os papéis em tons de terra são mais repousantes e harmônicas.
Texto de: Maria Hirszman
Estadão Novembro 2004
GALERIA EDUARDO FERNANDES
CRISTINA SÁ
Ultrapassar fronteiras é somar alteridades
O mercador e diplomata veneziano Marco Pólo desbravou a Rota da Seda no século XIII.
Percorreu um sinuoso caminho marítimo e terrestre que passou a ligar o comércio das cidades-estado de Veneza às vastidões até então
inexploradas da China, singrando o Mar Mediterrâneo e ultrapassando a barreira de montanhas do Himalaia. Foi quando o Ocidente,
espantado, afinal tomou contato com uma cultura de vastidões tão grandes quanto a distância geográfica que nos separa do Oriente.
Um fascínio que, muitos séculos depois, ainda e sempre emociona, como demonstram as pinturas-colagens-monotipias de Cristina Sá
A artista harmoniza dois mundos. Funde, em gramática visual própria, elementos culturais extraídos tanto da tradição oriental da
gravura em madeira (xilogravura) quanto da expressão pictórica ocidental contemporânea. Suas delicadas urdiduras compositivas
ecoam o mundo plano da gravura chinesa, isenta dos códigos de representação da perspectiva. Ecoam motivos gráficos, sinetes
heráldicos e finas caligrafias de ideogramas vindos da antiga Catai. A organização compositiva, ortogonal e modular, se faz sobre
amplos espaços brancos e cuidadosa distribuição de elementos, frisando uma educação visual feita sob a influencia inalienável da
historia da arte ocidental.
O encontro oriente-ocidente promovido por Cristina atrai pelo equilíbrio que a artista alcança também ao promover a fusão de outros
universos aparentemente opostos: a pintura e a gravura em madeira (xilo). Enquanto na pintura há a fluidez da tinta e do gesto, na
gravura há a incisão exata da matriz, que elege e determina sem hesitações todos os elementos e todos os lugares que esses elementos vão ocupar. Na xilogravura não costumam coexistir o antes e o depois: o resultado final deve estar previsto e nítido. A goiva,
obediente, aprofunda em sulcos o trajeto previamente riscado na madeira. A pintura, ao contrário, só ganha feição definitiva a partir de
um exercício de aproximações sucessivas dos assuntos, o que permite o apagamento do indesejado, a sobreposição de idéias, o
sentimento. Na pintura, a cor é fundamental. Na gravura, é supérflua.
Em seus trabalhos, a artista pincela algumas poucas formas (vasos de porcelana, potes, bambus) como suporte e trama de fundo para
uma série de acontecimentos gráficos, dispostos ou sobrepostos em primeiro plano. São monotipias e colagens de belos papéis
impressos chineses, em composições organizadas pelo contraponto entre formas fechadas e abertas. Há sinuosidades que sintetizam
formas vegetais e verticalidades definidas pela disposição de blocos de ideogramas. A cor age em contraponto com a sobriedade do
preto das interferências de origem gráfica. Há sintonia entre a gestualidade da pintora que esboça com leveza as figuras da
composição e o ritmo igualmente gestual e leve da caligrafia oriental da fina trama de golpes de pincel dos ideogramas.
É possível observar em Cristina Sá uma certa filiação à pintura de Beatriz Milhazes, o que é uma qualidade e não uma limitação. Afinal, a
boa escolha de influencias está na base de toda elaboração de uma linguagem própria. É bom observar, no entanto, que Cristina não
faz mimetismo. Ela estabelece uma sintonia que deixa largo espaço livre para sua expressão pessoal. Assim como, por sua vez, a pintura
de Milhazes não perde as digitais pelo fato de estar sintonizada com Matisse e sua profissão de fé na pintura sedutora. Aquela pintura
que escancara a beleza das cores em motivos decorativos. Algo que o pintor francês foi buscar, é bom frisar, na tapeçaria oriental e nos
temas árabes.
Assim como Beatriz Milhazes, Cristina Sá adota sem preconceitos nem tabus auto-limitadores, essa vertente da arte que tem seu fulcro
na ornamentação e raízes tanto na tradição barroca quanto nos arabescos islâmicos. Uma arte que corteja a retina. Mas, ao contrário de
Milhazes, Cristina exercita uma paleta de tonalidades sutis e rebaixadas. A exuberância explode nos grafismos extraídos da tradição
gráfica chinesa, que se multiplicam na superfície plana da composição e determinam o ritmo agitado mas contido e equilibrado de
todo o conjunto.
Ao fazer sua síntese de experiências visuais e fragmentos culturais cuidadosamente recolhidos em diversas viagens à China e
retrabalhados no isolamento de seu ateliê em São Paulo, Cristina Sá criou este conjunto de trabalhos que nos convidam a mergulhar
em uma herança ancestral. Herança que, uma vez alcançada por Marco Pólo, passou também a nos pertencer para sempre. Desde que,
sem verdades fixas nem horizontes imutáveis, estejamos dispostos a enxergar a espessura de mundo que habita a alteridade.
Texto de: Angélica de Moraes