Nossas Ilhas, Nossa História

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Nossas Ilhas, Nossa História
Nossas Ilhas,
Nossa História
D
N
K
L
Diretora, Fundo Nacional e Museu das Ilhas Falkland
FA
Leona Roberts
S
O QUE SÃO AS ILHAS FALKLAND? Quem são os habitantes das Ilhas Falkland e o que significa ser um
cidadão do nosso país? Essas são perguntas feitas com frequência aos habitantes das Ilhas Falkland, para
as quais não há respostas simples.
A nossa história deve ser levada em conta para que se entenda o que significa ser um cidadão das Ilhas
Falkland. Trata-se de uma história bastante curta. A povoção e relativamente recente: começou no século
XVIII, mas passou a ocorrer de forma contínua apenas a partir do início do século XIX. Diferentemente
do que os impérios espanhol e português encontraram quando colonizaram a América do Sul, as Ilhas
Falkland nunca tiveram uma população indígena, motivo pelo qual não temos monumentos antigos nem
mitologias românticas que definam a nossa identidade de habitante das Ilhas Falkland. Outras pessoas
teceram, por conta própria, alguns mitos acerca da nossa história, o que explica as várias concepções
errôneas referentes a quem somos e ao nosso direito de chamar as Ilhas Falkland de nosso lar.
A série de eventos que serve como base sobre a qual as Ilhas Falkland foram construídas constitui o objetivo do livreto “Nossas Ilhas,
Nossa História”. A nossa história testemunhou longos períodos de tranquilidade, interrompidos por surtos de atividade intensa. Os eventos
ocorridos nas décadas de 1760 e 1770 são confusos, mas, com o auxílio da linha cronológica que se estende pelas páginas desta publicação,
esperamos que sejam esclarecidos. O período que vai de 1820 a 1833 também é complexo, complicado ainda mais pela tendência a
encher a narrativa básica de mitos nacionalistas.
Embora não se trate de um documento de referência definitivo, este livreto pretende explicar ao leitor interessado como a nossa
comunidade diversificada amadureceu, absorvendo influências de várias nações através dos navegadores que visitaram o nosso litoral ou
que se estabeleceram nas Ilhas, desenvolvendo uma identidade cultural própria, embora sempre mantendo laços estreitos com o Reino
Unido. Essa afinidade com o Reino Unido, assim como a lealdade para com a Coroa, ainda existe atualmente; talvez não esteja muito na
moda em comparação com o resto do mundo moderno, mas é um elemento genuíno da nossa identidade nacional.
Este livreto não é mais um histórico dos eventos de 1982, pois vários desses registros já foram publicados. Todavia, seremos eternamente
gratos às forças britânicas que libertaram as nossas Ilhas da ocupação dolorosa, embora breve, das forças argentinas; o sacrifício deles
restaurou a nossa liberdade e garantiu o nosso futuro, e jamais será esquecido.
Os habitantes das Ilhas Falkland são mais que apenas o produto de um conjunto de datas e eventos históricos. São famílias cujos membros
já compõem com orgulho a nona geração nascida nas Ilhas. Somos um povo verdadeiramente distinto e independente; orgulhamo-nos
de ser o povo Kelper, apelido adotado pelos nossos ancestrais há várias gerações, inspirado pelos vastos bancos de alga marinha (“kelp”,
em inglês) que cercam o nosso litoral.
O que este livreto não será capaz de explicar, entretanto, é o fator impalpável que nos une de forma inextricável a
esta terra de beleza tão sutil. Para entender melhor esse fator, o leitor deve ler o livreto Nossas Ilhas, Nosso Lar ou,
melhor ainda, visitar as Ilhas Falkland e ver com seus próprios olhos...
A
LA
ND ISL
AS ILHAS FALKLAND, localizadas a
aproximadamente 300 milhas náuticas (560km)
de distância do continente sul-americano,
englobam duas grandes ilhas, a West Falkland
e a East Falkland, além de várias outras, que
vão de ilhas de tamanho considerável, perto da
costa oeste da West Falkland, a ilhotas e recifes
menores, espalhados por todo o litoral.
A identidade dos primeiros descobridores das
Ilhas permanece um mistério. Grupos indígenas
provenientes da Patagônia podem ser trazidos
do continente pelo vento. Além disso, algumas
ferramentas de pedra foram encontradas no
litoral das Ilhas Falkland. Há dois mapas do início
do século XVI nos arquivos de Paris e Istambul
que parecem ilustrar uma conexão das Ilhas
com Portugal. Entretanto, a primeira referência
às Ilhas Falkland foi publicada após a viagem do
explorador inglês John Davis, que, em agosto
de 1592, foi carregado por uma tempestade até
“certas Ilhas nunca antes descobertas”. O registro
de Davis foi publicado em 1600 por Richard
Hakluyt, em Londres.
A visita de Davis foi sucedida pelas visitas do
navegador inglês Richard Hawkins, em 1594, e do
explorador holandês Sebald de Weert, em janeiro
de 1600. O primeiro desembarque registrado nas
Ilhas ainda inabitadas ocorreu na West Falkland,
em 27 de janeiro de 1690, com a chegada do
capitão inglês John Strong. Strong deu o nome
de “Canal de Falkland” à passagem entre as duas
Ilhas, mas, posteriormente, o nome do Visconde
de Falkland passou a ser usado em referência ao
conjunto formado pelas ilhas principais. No início
do século XVIII, navegadores franceses do porto
de Saint-Malo batizaram as ilhas com o nome de
“Les Îles Malouines” (veja a caixa de texto ao lado).
ORIGENS
O mar e as Ilhas
Esboço da Ilha de Saunders feito por Thomas Boutflower,
pesquisador inglês que visitou a West Falkland em 1766 e
desenhou os colonos enquanto caçavam e pescavam. O sul
está no topo do mapa. O povoado inglês, Port Egmont, está
à esquerda (leste) do mapa.
A década de 1760: os primeiros
povoados
Mais de meio século depois, na década de
1760, dois povoados foram estabelecidos quase
simultaneamente nas ilhas East Falkland e West
Falkland por dois países diferentes. O nobre
francês Louis Antoine de Bougainville, durante
um breve capítulo de sua incrível biografia, trouxe
para Port Louis, na East Falkland, colonos que
haviam deixado a Nova Escócia após a conquista
britânica da parte francesa do Canadá, em 1764.
Em janeiro de 1765, o Comandante Byron atracou
na Ilha de Saunders, ao norte da West Falkland, e
reivindicou as ilhas para a coroa britânica. Uma
segunda expedição britânica voltou a Saunders
em 1766 e batizou o povoado de Port Egmont.
PRINCIPALES ACONTECIMIENTOS EN LA HISTORIA DE LAS ISLAS FALKLAND
As Ilhas Falkland são avistadas pelo
navio inglês Desire, comandado pelo
Capitão John Davis.
O Capitão John Strong atraca pela
primeira vez registrada nas ilhas
inabitadas.
Louis-Antoine de Bougainville
estabelece uma colônia francesa
em Port Louis, na East Falkland.
O Comandante Byron toma
posse das Ilhas em nome da
Coroa britânica.
Os britânicos estabelecem um
povoado em Port Egmont, na West
Falkland.
A França entrega Port Louis para
a Espanha. Nome alterado para
Puerto de la Soledad.
DE ONDE VEM O NOME?
Um visconde inglês ou um santo
galês.
Em 1690, o primeiro capitão a atracar nas Ilhas,
John Strong, nomeado o som entre eles de um
patocinador inglês, o Visconde de Falkland, que
havia investido bastante em sua expedição de
caça ao tesouro. O nome Falkland permaneceu
fortemente ligado às Ilhas como um todo desde
então. Anos depois, as Ilhas receberam o seu
nome francês: mercadores da cidade francesa de
Saint-Malo (nome do santo galês Melu, o “apóstolo
dos bretões”, que fundou a cidade no século VII
d.C.) passaram pelas Ilhas em sua rota comercial
rumo aos portos do Chile. Um mapa francês
traçado pelo explorador Frezier em 1716 descreveas como “as Novas Ilhas descobertas pelas
embarcações de Saint-Malo em 1700, cuja parte
ocidental ainda é desconhecida”. Posteriormente,
os cartógrafos passaram a preferir o nome “Îles
Malouines” por ser mais elegante, e os espanhóis
traduziram-no como “Islas Maluinas”, que acabou
virando “Islas Malvinas”.
1767
1766
1765
1764
1690
1592
LOUIS VERNET
o pioneiro ambíguo
A RAPOSA WARRAH
O único mamífero terrestre nativo das Ilhas
Falkland era a raposa (ou lobo) Warrah, Dusicyon
antarcticus, que se aproximou dos primeiros
exploradores com inocente curiosidade. Não se
sabe como os seus ancestrais chegaram às Ilhas;
pesquisas recentes parecem refutar a teoria de
que eram originalmente cães de caça que foram
arrastados por tempestades até as Ilhas nas canoas
dos índios da Patagônia. As raposas Warrah
foram exterminadas pelos caçadores de focas e
fazendeiros; a última delas provavelmente morreu
na década de 1870. Um exemplar empalhado ainda
existe no museu de Bruxelas, tendo visitado as
Ilhas em 1989.
Os colonos construíram casas pre-fabricadas
de bloco de construcção, e também plantaram
jardins. Embora os colonos britânicos e franceses
soubessem das atividades uns dos outros, as
relações eram cordiais, sem dúvidas graças à
distância entre Port Louis e a Ilha de Saunders.
No entanto, em 1767, Bougainville foi forçado
a entregar o seu povoado à Coroa espanhola,
que não aceitava o fato de haver uma colônia
estrangeira dentro do que considerava ser sua
Port Louis em 1833, por Conrad Martens
esfera de influência. Os espanhóis tomaram
Port Louis e mudaram o nome do povoado
para Puerto de la Soledad. A fim de afirmar sua
autoridade, uma frota espanhola chegou à Ilha
de Saunders em 1770 e expulsou a ínfima tropa
britânica. Seguiu-se uma crise internacional,
resolvida somente em 1771, quando a Espanha
concordou que o povoado britânico deveria ser
restaurado; então, em setembro de 1771, três
navios partiram para restabelecer a autoridade
britânica. A empreitada durou pouco tempo,
pois, em 1774, o governo britânico decidiu
desfazer o povoado por motivos econômicos. A
tropa partiu em maio do mesmo ano, deixando
para trás uma placa de chumbo com o intuito de
manter a soberania britânica. A tropa espanhola
permaneceu na East Falkland até 1811, quando,
devido à invasão francesa na Espanha e às
revoluções no seu império sul-americano, a
Coroa espanhola retirou suas forças das Ilhas
Falkland, embora também tenha deixado uma
placa para affirmar sua soberania.
1833 e tudo o que ocorreu
No fim do século XVIII e no começo do século
Quatro navios de guerra espanhóis chegam a Port Egmont e forçam os
colonos britânicos a partir, deixando a Espanha e a Grã-Bretanha prestes a
declarar guerra. Em seguida, Madri nega responsabilidade pelas ações do
comandante local e devolve Port Egmont à Grã-Bretanha.
XIX, as Ilhas constituíam o centro de um
comércio lucrativo de baleias e focas, realizado
por navegadores da Nova Inglaterra, da GrãBretanha e da França. Os baleeiros acampavam
nas ilhas mais afastadas, muitos deles em New
Island, alimentando-se de gansos e outras aves,
e às vezes de gado na East Falkland, consertando
seus navios e extraindo óleo de carcaças de focas,
leões marinhos, baleias e pinguins.
Em 1820, atracou em Port Louis um navio
particular vindo de Buenos Aires, sob o comando
de David Jewett, estadunidense de origem, mas
cedido como coronel à marinha de Buenos Aires.
Jewett, por iniciativa própria, pois jamais foram
encontradas quaisquer instruções, reivindicou
as Ilhas em nome das Províncias Unidas (de
Buenos Aires). Não estabeleceu um povoado e
não revelou que havia reivindicado as Ilhas; foi
apenas em 1821 que o governo de Buenos Aires
descobriu o ocorrido por meio de reportagens
em jornais estrangeiros.
No meio da década de 1820, Louis Vernet,
membro de uma família huguenote francesa,
nascido em Hamburgo e criado em Buenos
Aires (veja a caixa de texto ao lado), organizou
A Grã-Bretanha retira os
colonos de Port Egmont por
motivos econômicos, mas
mantém a posse das terras.
A Espanha retira seus colonos da East
Falkland, mantendo a posse das terras.
As Ilhas ficam sem população e sem
administração.
expedições às Ilhas. A primeira, realizada em
1824, foi um desastre, mas a segunda, em 1826,
foi melhor organizada, resultando na fundação
de um povoado em Port Louis, no mesmo
local da antiga colônia espanhola. Em 1829, ele
foi nomeado comandante do povoado pelo
governo de Buenos Aires. Porém, Vernet foi longe
demais quando confiscou navios pertencentes a
caçadores de focas dos Estados Unidos, alegando
que estavam caçando ilegalmente. Como
já havia caçadores de focas e baleias norteamericanos nas águas das Ilhas Falkland desde a
década de 1770, os donos dos navios confiscados
indignaram-se, o que resultou na chegada da USS
Lexington a Port Louis, em dezembro de 1831,
uma fragata que derrubou as defesas de Vernet
e retirou a maioria dos colonos europeus. Dez
meses depois, em outubro de 1832, o governo
argentino enviou uma tropa a Port Louis, que
logo em seguida rebelou-se e assassinou o seu
comandante.
Os britânicos apenas assistiam aos eventos
à medida que Vernet estabelecia sua colônia,
sendo que a missão diplomática britânica em
Buenos Aires protestara contra a nomeação de
Nos anos recentes, os descendentes de Louis
Vernet uniram-se à delegação argentina nas
Nações Unidas para conferir uma justificativa
histórica ao lado argentino da causa. No entanto, o
papel de seus ancestrais na fundação do povoado
de Port Louis é mais ambíguo que o que alegam.
Nascido em Hamburgo, em 1791, Louis (ou
Lewis, Luis ou Ludwig) Vernet veio de uma família
de protestantes franceses que se mudou para a
Filadélfia e, posteriormente, para Buenos Aires. Em
1823, recebeu permissão do governo de Buenos
Aires para abater gado nas Ilhas Falkland, realizando
uma expedição mal sucedida naquele ano. Em
1828, Vernet recebeu do governo argentino uma
licença que abrangia quase toda a East Falkland. O
representante britânico encontrou-se com Vernet
em 1829 e descreveu-o como “um homem muito
inteligente... (que), creio eu, ficaria muito feliz se o
governo de Sua Majestade oferecesse proteção ao
seu povoado”. A Grã-Bretanha protestou contra a
quebra de soberania por parte da Argentina em
novembro daquele ano, após Vernet ter recebido
o título oficial de comandante.
O povoado de Vernet foi estabelecido com
colonos da Argentina, da Grã-Bretanha e da
América do Norte. Porém, em uma tentativa de
evitar que caçadores de focas exercessem sua
atividade sem permissão, Vernet prendeu várias
embarcações dos Estados Unidos e provocou um
ataque dos norte-americanos ao seu povoado em
1831. Em 1832, o governo argentino posicionou
uma tropa em Port Louis por um breve período,
após o qual o governo britânico reassumiu a
administração, expulsando a tropa em 1833.
O Coronel David Jewett, a serviço do governo de Buenos Aires, mas agindo sem autoridade,
toma posse das Ilhas em nome de Buenos Aires. Porém, não estabelece uma colônia após sua
visita; logo, a Ilha permanece sem governo. As notícias acerca das ações de Jewett chegam a
Buenos Aires um ano depois, por meio de jornais estrangeiros.
Vernet deixou as Ilhas em novembro de
1831, em um dos navios americanos que havia
capturado, e nunca mais retornou. Tentou
obter uma compensação dos governos norteamericano e britânico. Os americanos recusaram
completamente o seu pedido. Os britânicos
rejeitaram os pedidos de edifícios e terras, mas
acabaram concedendo-lhe £2.400 pelos cavalos
que deixara no povoado. É evidente que Vernet
era um homem habilidoso, mas seus objetivos
eram essencialmente pessoais, pois ele preferia
colonos do norte da Europa e dos EUA a colonos
argentinos. Ele teria aceitado a proteção da GrãBretanha, mas o governo britânico não estava
disposto a reconhecer as propriedades que ele
detinha sob permissão argentina.
Morreu em 1871, em Buenos Aires. Seus dois
filhos insistiram nos pedidos referentes às Ilhas
Falkland e à Terra Staten (Isla de los Estados), e
o seu interesse pode ter levado o Presidente
da Argentina Roca a ressuscitar a reivindicação
nacional na década de 1880, depois de mais de
trinta anos após a Convenção de Conciliação
(Tratado Arana-Southern) ter acabado com todas
as disputas.
Após uma tentativa fracassada em 1824,
Louis Vernet lidera uma expedição às Ilhas
e funda Port Louis.
1826
1820
1811
1774
1770
-1771
Charles Darwin visitou as Ilhas em 1833 e em 1834, a
bordo do Beagle.
Sir James Clark Ross, “o homem mais bonito da Marinha”,
passou um inverno em Port Louis com a Expedição
Antártica, em 1842.
Vernet, bem como a do comandante da tropa
que se rebelou em 1832.
Em Londres, o governo britânico temia que
as Ilhas Falkland fossem tomadas pela anarquia
e se tornassem uma base para piratas. Em 1832,
o Capitão Onslow do navio HMS Clio recebeu
instruções para rafirmar a soberania britânica
das Ilhas, mas sem expulsar a população civil.
Chegou a Port Louis em 2 de janeiro de 1833. Na
manhã seguinte, Onslow instruiu com firmeza,
embora também com cordialidade, que a
escuna argentina, cujo capitão havia assumido o
controle de Port Louis, partisse. Não houve tiros;
não houve qualquer tipo de violência. Quatro
civis optaram por partir com a tropa rebelde na
escuna, mas grande parte das duas dúzias de
colonos trazidas por Vernet, gaúchos em sua
maioria, permaneceu sob a guarda da bandeira
britânica.
Onslow não forneceu recursos à
administração das Ilhas, exceto uma bandeira
britânica e 45 metros de corda para hasteá-la,
que presenteou ao mercador irlandês. Charles
Darwin, que, em março de 1833, visitou as
Ilhas com o Capitão Fitzroy a bordo do Beagle,
descreveu o mercador como “o residente inglês”.
Vernet, que ainda administrava sua propriedade
sem sair de Buenos Aires, foi, sem saber, o motivo
de acontecimentos terríveis em agosto de 1833,
quando os gaúchos, liderados por Antonio
Rivero, atacaram e mataram os representantes
de Vernet em Port Louis (incluindo o mercador),
como forma de protesto contra a decisão de
Vernet de não lhes pagar em moeda de valor
real. Um pequeno grupo britânico, liderado
pelo Tenente Henry Smith, atracou em janeiro
de 1834, restaurando a ordem e prendendo os
assassinos. Foram enviados para julgamento
ANTONINA ROXA
a princesa entre os gaúchos
Gaúchos trabalhando: aquarela de uma série feita por Will Dale (1826-1870).
Ninguém sabe onde nem quando nasceu
Antonina Roxa, mas ela é uma das personagens
mais célebres da história das Ilhas Falkland.
Supostamente uma “princesa”, filha de um líder
indígena dos territórios do Rio Prata, chegou a
Port Louis por volta de 1831, durante o governo
de Louis Vernet. Durante os assassinatos de 1833,
escapou de Antonio Rivero e seus seguidores e
refugiou-se com outros colonos em uma pequena
ilha. Em 1834, o oficial da marinha britânica que
estava no comando permitiu que ela se apossasse
de um a cada dois bezerros selvagens que
conseguisse domar. Posteriormente, um outro
comandante descreveu-a como sendo “muito
bondosa e de bom caráter, bastante útil como
professora e parteira”.
Foi a primeira pessoa a fazer um juramento
de lealdade à Coroa britânica, em 1841, e possuía
terras, gado e rebanho em Port Louis. Mudou-se
para a nova capital, Stanley, onde possuía um
terreno. Casou-se com um marinheiro norteamericano chamado Kenney na década de
1830, mas divorciou-se em 1838. Na década de
1850, casou-se com um gaúcho de Montevidéu
chamado Pedro Varela e, em 1866, arrendou 6.000
acres (2.450 hectares) de terra em seu próprio
nome no litoral oeste da East Falkland. Morreu em
1869 e foi enterrada no cemitério de Stanley.
Antonina deixou uma impressão vívida, sendo
reconhecida como uma mulher independente
por todos com quem cruzasse. Foi uma das
personalidades mais fascinantes dos primeiros
dias da colônia.
O governo de Buenos Aires emite um decreto detalhando os seus direitos, supostamente derivados das autoridades coloniais espanholas,
e concede a Louis Vernet o título de comandante. A Grã-Bretanha protesta formalmente, alegando que o decreto infringe sua soberania. O
representante britânico em Buenos Aires relata a Londres que Vernet ficaria satisfeito se a Grã-Bretanha oferecesse proteção ao seu povoado.
O navio de guerra norte-americano Lexington destrói propriedades
em Port Louis, como retaliação pela prisão de três embarcações
americanas feitas por Vernet. Seu capitão, Silas Duncan, remove os
colonos europeus de Vernet e declara que não há soberania nas ilhas.
Uma tentativa de fundar uma colônia penal nas Ilhas
falha quando o comandante recém-nomeado por Buenos
Aires é assassinado pelos seus próprios soldados.
1832
1831
1829
ANTONIO RIVERO
gaúcho e assassino
Antonio Rivero estava entre os gaúchos trazidos da
Argentina por Louis Vernet para trabalhar em Port
Louis. A lista de habitantes de Port Louis feita pelo
Capitão Onslow especifica que Rivero tinha 26 anos
de idade (em 1833) e nacido em Buenos Aires. Antes
de partir das Ilhas, Onslow percebeu que os gaúchos
estavam insatisfeitos com seus salários e, de fato,
Vernet pagava seus homens com notas impressas
por conta própria.
Em 26 de agosto de 1833, Rivero liderou dois
fazendeiros e cinco índios em um ataque contra um
dos agentes de Vernet, Mathew Brisbane, matando
o agente e mais quatro colonos. Os demais colonos
fugiram para outra ilha, e seis meses passaramse até que um grupo de marinheiros britânicos e
gaúchos fiéis encontrasse Rivero e seus seguidores.
Em março de 1834, Rivero entregou os seus próprios
seguidores aos britânicos, que os prenderam e
enviaram à Inglaterra para julgamento. Porém, os
juízes concluíram que não sabiam ao certo se Rivero
e seus homens eram cidadãos britânicos à época
dos assassinatos, e decidiram enviá-los de volta à
América do Sul. Rivero foi solto em Montevidéu.
Rivero tem sido retratado como um rebelde
patriota desde a década de 1950, após a publicação
de um registro fictício dos assassinatos em um
livro, enquanto o Presidente da Argentina Perón
promovia a reivindicação das Ilhas Falkland. Em
1982, após a invasão argentina, Stanley teve seu
nome brevemente alterado para Puerto Rivero,
até que perceberam que Rivero era um exemplo
questionável de conduta. Historiadores argentinos
de grande reputação não se iludem com Rivero nem
com seus motivos: ele já foi descrito como criminoso,
ao invés de herói patriota, em um relatório aprovado
unanimemente pela Academia Nacional de História
da Argentina, em 1966, mas continua a ser elogiado
esporadicamente por políticos menos esclarecidos.
O Capitão Onslow retoma o controle das
Ilhas em nome da Grã-Bretanha. Charles
Darwin visita as Ilhas no Beagle.
na Inglaterra, mas, como somente cidadãos
britânicos podiam ser julgados na Grã-Bretanha
por crimes cometidos fora do país, eles foram
voltados a Montevidéu.
Nos oitos anos que se seguiram, as Ilhas
foram administradas por uma sucessão de
tenentes subordinados à Marinha Real, que
mantinham registros dos acontecimentos como
se estivessem em seus navios, lembrando-se
sempre de registrar os eventos climáticos. A
população de Port Louis cresceu lentamente
durante a administração britânica. Um navio
britânico realizou o primeiro estudo cuidadoso
do litoral das Falklands. Em 1841, o governo
britânico decidiu regularizar a situação e enviou o
jovem engenheiro Richard Moody às Ilhas como
tenente-governador (veja a seção “Administração
e governo”).
O mar e as Falklands
O mar continuou a dominar a vida nas Ilhas.
Com a chegada de Moody em 1842, a expedição
antártica de James Clark Ross atracou em Port
Louis para passar o inverno. O grande explorador
sugeriu a Moody que movesse sua pequena
capital para um porto que fosse mais acessível
para os navios, e Moody acatou a sugestão,
fundando Stanley logo em seguida. A nova cidade
cresceu de forma constante durante a segunda
metade do século XIX, em grande parte devido
ao comércio e às necessidades dos navios que
passavam pelo movimentado porto. À medida
que novos colonos chegavam e se mudavam para
os pastos da East Falkland e da West Falkland, seus
povoados distribuíam-se naturalmente, de acordo
com os portos ou baías que os navios utilizavam
para entregar mercadorias e levar rolos de lã.
A essa época, as Ilhas situavam-se em uma das
É nomeado o primeiro tenentegovernador britânico, Richard Moody:
atraca em Port Louis em janeiro de
1842.
principais rotas comerciais do mundo, que partiam
da Austrália e da Nova Zelândia, ou do litoral oeste
das Américas, dando a volta no Cabo de Hornos, e
seguiam na direção da Europa ou do litoral leste
das Américas. Em 1854, foi construído um farol com
placas de ferro fundido feitas na Inglaterra, ainda
de pé atualmente, e Stanley tornou-se um porto
de refúgio para os navios danificados durante a
passagem pelo Cabo de Hornos. O comércio de
consertos de navio floresceu, e os mercadores
utilizavam os navios que não eram capazes de
consertar como depósitos de carga ou píeres. Foi
assim que Stanley adquiriu os cascos de navios de
madeira que fazem do porto da cidade um lugar
singular hoje em dia. Em 1859, foi inaugurado
o registro oficial de navios de Stanley, ainda em
funcionamento (veja a caixa de texto dereito).
No início do século XX, o cenário começou
a mudar: os novos navios eram mais resistentes,
muitos deles feitos de ferro e, em sua grande
maioria, movidos a vapor, de modo que o
conserto de navios tornou-se um negócio menos
necessário ou lucrativo. Em 1914, foi aberto o Canal
do Panamá, fazendo desaparecer grande parte do
tráfego ao redor do Cabo de Hornos.
Os caçadores de baleias e focas continuaram
com suas atividades nas águas das Falklands,
bem como no maior sul do Atlântico. O governo
tentou controlar ambos os grupos, com o intuito
de proteger principalmente as colônias de
acasalamento de focas e leões marinhos, que
quase foram exterminados pelos caçadores. Os
baleeiros construíram uma estação de caça na
West Falkland nos primeiros anos do século XX,
mas a estação durou pouco tempo, pois a indústria
acabou centralizando-se na Ilha Geórgia do Sul.
JACK SOLLIS
marinheiro
Jack nasceu em Darwin, em 1915, e passou sua
infância nos povoados de Goose Green e Port
Louis. Enquanto criança, desenvolveu um fascínio
por barcos e, quando tinha 15 anos, juntou-se à
tripulação do Perfecto Garcia, que pertencia a Jack
“Cracker” Davis, popularmente conhecido como o
último pirata das Ilhas Falkland. Durante a década de
1930, arranjou um emprego mais convencional, na
Companhia das Ilhas Falkland, cujos navios a vapor,
o Fitzroy e o Lafonia, coletavam e transportavam
lã de todo o litoral das Ilhas até Montevidéu.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Jack serviu
como piloto da embarcação Alert, pertencente ao
governo, sendo condecorado com uma Medalha
do Império Britânico por seus serviços de entrega
de mercadorias e correspondências para os vários
postos de observação distantes, espalhados por
todo o litoral das Falklands, durante a guerra.
Em 1940, casou-se com Maude Duffin. Em 1949,
tornou-se capitão da nova embarcação do
governo, a Philomel, e, quando ela foi substituída
pelo pequeno cargueiro Forrest, em 1967, Jack
passou a comandá-lo, o que fez até o fim de sua
carreira. Em 1982, ele manteve o Forrest fora de
Stanley, rastreando a força invasora da Argentina
por meio do radar do cargueiro. Aposentou-se
em 1983.
Em 1977, Jack Sollis recebeu os agradecimentos
do comandante da pequena missão da Marinha
Real nas Ilhas por seu serviço inestimável, e há
registros de que, mesmo após sua aposentadoria,
investigadores navais visitavam-no em sua casa
para discutir seus programas de trabalho. Morreu
em 1985 e foi enterrado no cemitério de Stanley.
Sollis Rock, perto da Ilha Sedge (ao norte da
West Falkland), recebeu seu nome em
homenagem a ele.
Stanley continuou a depender das ligações
marítimas com Montevidéu e com o Reino Unido.
Após a Segunda Guerra Mundial, os navios da
Companhia das Ilhas Falkland (FIC – Falkland
Islands Company) passaram a navegar de Stanley
a Montevidéu, o que permitia que os passageiros
viajassem de navio ou avião para a Europa. As
embarcações da FIC também atracavam em
portos menores ao redor das Ilhas, para entregar
mercadorias e coletar rolos de lã para exportação.
Em 1971, quando a FIC decidiu que seu último
navio, o muito amado Darwin, não era muito
econômico e preparou-se para vendê-lo, os
habitantes das Ilhas perderam sua conexão com
o mundo externo.
Assim, abriu-se uma porta para que o governo
argentino entrasse com a oferta de uma conexão
aérea para as Ilhas (veja “A reivindicação argentina”).
A administração civil é estabelecida
por uma Lei Parlamentar. Moody é
promovido a governador pleno.
A INSÍGNIA VERMELHA
A sede do governo é transferida de
Port Louis para Stanley. Os Conselhos
Executivo e Legislativo são instituídos.
Em 1859, o Governo das Ilhas Falkland inaugurou
o seu próprio registro de navios com o registro da
escuna Victor, de propriedade de “John Phillips
de Stanley”. Em julho de 1864, o governo britânico
havia preparado a Insígnia Vermelha, utilizada
apenas pela Marinha Real até então, para que
fosse usada por embarcações mercantes de posse
privada provenientes da Grã-Bretanha e de suas
colônias.
Em 15 de setembro de 2003, o registro
único original foi substituído por um registro
quádruplo, similar ao utilizado no Reino Unido
quando as Ilhas Falkland adotaram partes
modificadas da Lei da Marinha Mercante do
Reino Unido, de 1995.
O Registro das Falklands é normalmente
restrito a embarcações mercantes que não
excedam 150 toneladas de peso bruto, embarcações
de pesca e navios pequenos, cujos proprietários
ou locatários tenham uma ligação com as Ilhas
Falkland. Com exceção dos pequenos navios
de posse privada com menos de 24 metros de
comprimento, todas as solicitações de registro
devem ser aprovadas pelo governador (após
consultar o Conselho Executivo). As embarcações
mercantes que ultrapassem a restrição de registro
de 150 toneladas de peso bruto também devem
ser aprovadas pela Secretaria de Transporte do
Reino Unido.
A frota mercante das Ilhas Falkland inclui
dois navios britânicos do conselho de pesquisa do
Reino Unido na Antártida (o British Antarctic
Survey), uma conexão estabelecida em 1925 com o
registro do navio Discovery.
1845
1843
1841
1833
ADMINISTRAÇÃO E
GOVERNO
RICHARD CLEMENT MOODY
o primeiro governador
A tripulação do HMS Good Hope retornando após uma visita a Stanley, em outubro de 1914. No dia 1 de novembro, o
navio foi afundado na Batalha de Coronel. Não houve sobreviventes.
QUANDO O TENENTE MOODY atracou em Port
Louis, em janeiro de 1842, vários colonos britânicos
já se encontravam no povoado, além dos
sobreviventes da colônia de Vernet e da população
itinerante de caçadores de baleias e focas. Moody
estabeleceu uma administração rudimentar,
sugerindo que as Ilhas fossem colonizadas. Pediu
um médico e um padre, que lhe foram enviados,
bem como um juiz de direito. Foi esse o grupo que
se mudou para Stanley em 1845, quando Moody
transferiu a sede do governo.
Os registros do governo de Moody ainda são
mantidos em volumosos tomos nos Arquivos
Nacionais Jane Cameron, em Stanley. A diligência
de sua administração é impressionante. Seu
governo contou com a criação de leis, a coleta
de impostos e a aplicação da lei e da ordem
pública. Além disso, vários censos demográficos
foram realizados periodicamente; as visitas de
navios foram listadas; e os nascimentos, óbitos e
casamentos foram registrados.
Moody recebeu instruções de Londres para
organizar um conselho executivo e um conselho
legislativo, o que concretizou em 1845. Os
primeiros conselheiros foram o próprio Moody
e seus oficiais mais antigos; posteriormente,
alguns proprietários de terra e mercadores foram
adicionados aos conselhos. Era uma administração
representativa, mas não democrática. Os primeiros
membros eleitos tomaram posse somente em
1949.
A defesa e as Guerras Mundiais
A defesa das Ilhas era uma preocupação contínua
para os governadores. Embora pudessem contar
com a Marinha Real, raramente havia navios
dedicados à defesa das Ilhas Falkland, o que
as deixava vulneráveis a revoltas ocorridas no
O governo britânico assina um acordo de venda de
grande parte da East Falkland para os Irmãos Lafone de
Montevidéu e Londres. Os empregados dos Lafone chegam
em maio de 1847.
continente sul-americano. Em 1845, no Rio Prata,
as hostilidades entre as frotas britânica e francesa
e o governo argentino do General Rosas levou o
Governador Moody a pedir armas e reunir uma
tropa, utilizando os seus próprios engenheiros
militares, que não somavam sequer uma dúzia,
como treinadores e oficiais não comissionados.
As armas finalmente chegaram, vindas da
Inglaterra. A ameaça desapareceu e a tropa
foi dispensada, não sendo restituída até 1891,
quando o Governador Goldsworthy se deparou
com a chegada inesperada de navios chilenos
O governo britânico e a República da Argentina ratificam a Convenção de Conciliação (Tratado
Arana-Southern), resolvendo as diferenças existentes e estabelecendo a “amizade perfeita”. Os
protestos da Argentina em relação às Falklands cessam pelos próximos noventa anos (com exceção de
1888).
Richard Moody nasceu em Barbados, em 1813,
filho de um Engenheiro Real que havia ingressado
na administração colonial. Moody seguiu o pai
na área de engenharia militar, que englobava
levantamentos topográficos. Em 1841, quando
era apenas um tenente de 28 anos, foi enviado
às Ilhas Falkland como tenente-governador, para
determinar o que o governo britânico deveria
fazer com as Ilhas. Moody preparou um “relatório
geral” completo acerca das Ilhas, recomendando
que o governo encorajasse a colonização e
propondo a utilização de grandes fazendas para
criação de ovelhas. Recomendou, também, que
cheios de revolucionários nas águas das Falklands.
A tropa recebeu o nome de Força Voluntária das
Ilhas Falkland, e ainda existe atualmente, com o
nome de Força de Defesa das Ilhas Falkland. Foi
mobilizada durante ambas as Guerras Mundiais, e
também durante a invasão argentina de 1982.
A Companhia das Ilhas Falkland (FIC) é
fundada em Londres: adquire os investimentos
dos Irmãos Lafone, tornando-se a maior
proprietária de terras das Ilhas.
Stanley fosse a sede do governo, ao invés de Port
Louis; planejou a nova cidade e supervisionou a
mudança, em 1845.
O governo britânico não estava disposto a
subsidiar a emigração, mas alguns colonos vieram
por iniciativa própria. Os irmãos anglo-uruguaios
Lafone investiram em grandes terrenos, tornandose precursores da Companhia das Ilhas Falkland.
Moody estabeleceu uma administração regular
e, em 1845, nomeou os membros do conselho
legislativo e do conselho executivo; estabeleceu
uma corte jurídica; construiu uma igreja e uma
prisão; e organizou uma tropa.
Como governador, a principal falha de
Moody foi não conseguir se relacionar bem
com seus subordinados (incluindo o seu irmão
desequilibrado James, o padre da colônia) e com
os oficiais navais que visitavam as Ilhas. Entretanto,
estabeleceu os alicerces para os governadores
seguintes. Deixou as Ilhas em 1848 e voltou a
servir na Grã-Bretanha. Casou-se em 1852 e,
em 1858, foi promovido a coronel e nomeado
tenente-governador da Colúmbia Britânica, onde
serviu até 1863. Aposentou-se em 1866 e morreu
em 1887, em Bournemouth.
Moody Brook, a oeste de Stanley, foi nomeado
em homenagem a ele, mas o seu legado real são
os 180 anos de administração britânica e a cidade
de Stanley.
William H. Smyley foi o primeiro representante
estrangeiro nas Ilhas Falkland, após ter sido
nomeado agente comercial dos Estados Unidos,
em 1851, quando visitou o governador trajando
o seu novo uniforme consular. Foi sucedido por
vários cônsules profissionais (de carreira)
norte-americanos até 1908, quando partiu o último
deles. Outras nações nomearam cidadãos ilustres
de Stanley como cônsules honorários no século
XIX. Em 1936, havia representantes do Chile, da
França, da Itália, da Noruega e do Uruguai.
Mesmo com sua localização remota, as Ilhas foram
afetadas por ambas as Guerras Mundiais. Em 1914,
ocorreu a Batalha das Ilhas Falkland, em que o
de navio esquadrão alemão do Almirante Von
Spee, animado com a vitória sobre o esquadrão
britânico na Batalha de Coronel, confrontou os
navios de guerra britânicos sob o comando do
Almirante Sturdee nas proximidades de Stanley. A
frota de Von Spee foi destruída, e a vitória tornouse um feriado público nas Ilhas: o Dia da Batalha
é comemorado em 8 de dezembro, no memorial
localizado na orla de Stanley.
Uma frota espanhola, liderada pelo Almirante
Pinzón y Álvarez, visita Stanley, saúda a bandeira
britânica e trata o governador com as cortesias de
praxe.
Toda a área da West Falkland é aberta para
fazendas: todas as terras são arrendadas até 1869.
A placa do consulado uruguaio em Stanley.
CÔNSULES EM STANLEY
1866
1863
1851
1850
1846
william allardyce
governador e conservacionista
“O SELO MAIS BONITO DO MUNDO”
Os primeiros selos das Ilhas Falkland foram
lançados em 19 de junho de 1878. Com novos valores,
papel com marca d’água e novas impressões, o
conjunto cresceu para oito valores, além dos selos
de valor alto, de 2/6d e 5/-. Aliás, o selo com o
retrato da Rainha Victoria, de
valor equivalente a meia coroa
(2/6d), ganhou uma competição
internacional contemporânea, sendo
declarado o selo mais bonito do
mundo. Todos esses selos foram
substituídos em 1904, assim que o
Rei Edward VII assumiu o trono.
Em 1933, foi lançada a edição
Centenária icônica e ilustrada, um
magnífico conjunto comemorativo
em homenagem aos cem anos
de administração britânica.
A Argentina não gostou nem um pouco, e desde
então suas autoridades postais atrasam, taxam
e interrompem aleatoriamente as correspondências
das Falklands que entram em seu território.
Novas edições, selos definitivos, comemorativos ou
de postagem, cartas aéreas e outros materiais
postais foram somados às primeiras edições, para
o deleite dos colecionadores tanto locais quanto
internacionais. Cada design é cuidadosamente
examinado e impresso. Dentre os mais belos,
destacam-se os “divididos”
de 1891, selos cortados ao meio
para substituir os que haviam
sido encomendados, mas que se
perderam em um naufrágio.
A filatelia teve um papel
importante na economia das
Falklands, e os selos das Ilhas
ainda mantêm o seu estado e a sua
popularidade entre colecionadores
de todo o mundo, sendo que
algumas dessas coleções de selos
das Ilhas Falkland já ganharam
medalhas de ouro em competições internacionais.
Os selos das Falklands têm sido ótimos
embaixadores das Ilhas há mais de 130 anos.
Hoje, as edições mais recentes podem ser obtidas
a partir da Agência de Filatelia de Stanley.
Durante a Segunda Guerra Mundial, as Ilhas
testemunharam as consequências da batalha do
Rio Prata, após a qual os navios britânicos, muito
danificados apesar de vitoriosos, seguiram até
Stanley para reparos. Posteriormente, quando o
Japão entrou na guerra, a tropa foi reforçada por
um batalhão britânico, que protegeu as Ilhas até
o fim da guerra. Durante as Guerras Mundiais,
foram arrecadados fundos nas Ilhas, o que
resultou na doação de uma aeronave Pusher e
dois caças Bristol ao Corpo Aéreo Real, em 191418, e dez caças Spitfire à Força Aérea Real durante
a Segunda Guerra Mundial.
A busca por diversidade
economia monocultural. No início do século XX,
surgiu uma fonte alternativa de emprego, a caça
à baleia, mas a estação baleeira estabelecida
em New Island não durou muito, e a indústria
concentrou-se na ilha Geórgia do Sul. Na década
de 1950, o governo britânico investiu bastante na
usina de processamento de carnes, localizada em
Ajax Bay, o que resultou em uma falha onerosa,
compensada somente quando as ruínas da usina
foram transformadas em um hospital militar, a
“máquina de vida vermelha e verde”, durante o
conflito de 1982.
A diversificação de fato chegou apenas no
fim das décadas de 1980 e 1990, com a pesca, um
novo abatedouro e a descoberta de petróleo (veja
a seção “Conquistando a paz”).
Allardyce nasceu na Índia, em 1861, e ingressou no
serviço colonial aos 18 anos de idade. Serviu por 25
anos em Fiji, tornando-se um grande conhecedor
da cultura fijiana e batizando suas duas filhas com
nomes fijianos. Foi nomeado governador das Ilhas
Falkland em 1904, sendo que o seu mandato de 11
anos coincidiu com o advento da indústria baleeira
no sul, o estabelecimento das Dependências das
Ilhas Falkland e o início da Primeira Guerra Mundial.
Em 1904, os noruegueses estabeleceram estações
baleeiras na Geórgia do Sul, e Allardyce introduziu
leis para licenciar embarcações baleeiras e
estabelecer um regime de conservação. A Geórgia
do Sul e os territórios britânicos na Antártida foram
denominados Dependências das Ilhas Falkland, e
uma administração básica foi introduzida. Allardyce
preocupou-se igualmente com a exploração
exagerada das reservas de acasalamento de focas
ao redor das Falkland. Acima de tudo, ele queria
garantir que a renda oriunda das novas indústrias
fosse investida de modo que protegesse as Ilhas
contra um possível colapso da indústria baleeira.
Infelizmente, as regras introduzidas foram
suspensas em 1914, devido ao início da Primeira
Guerra Mundial e à pressão da demanda por
óleo de baleia, necessário para a fabricação de
explosivos.
A Guerra não demorou a afetar diretamente as
Ilhas Falkland. Após afundar dois navios britânicos
no litoral do Chile, a frota alemã vitoriosa, liderada
por Graf von Spee, seguiu em direção às Falkland.
Allardyce e as Ilhas foram salvos pela chegada
oportuna de uma frota britânica de navios de
guerra, que venceu os alemães após um dia inteiro
de combate no litoral de Stanley. A estação de
rádio inaugurada por Allardyce em 1912 foi crucial
para a proteção das Ilhas Falkland.
Allardyce foi provavelmente o governador
mais impressionante de toda a história das Ilhas.
Durante o seu mandato, o Hospital Memorial Rei
Edward VII foi inaugurado, bem como a prefeitura,
que incluía uma biblioteca e um museu, e também
uma escola secundária. Ele foi transferido em
1915, servindo posteriormente nas Bahamas, na
Tasmânia e em Newfoundland. Allardyce morreu
na Inglaterra, em 1930.
Outra preocupação recorrente do governo era a
economia das Falklands. O sucesso da indústria
de lã no século XIX produziu de forma eficaz uma
Darwin, 1902
Visita de Sua Alteza, o Príncipe Alfred,
Duque de Edimburgo, segundo filho da
Rainha Victoria.
A correspondência entre os governos britânico e argentino sobre um mapa
proposto pela Argentina, que incluía as Falklands, é concluída com um
protesto formal por parte da Embaixada Britânica em Buenos Aires.
O governador da província argentina
de Santa Cruz, Carlos Moyano,
visita as Falklands para recrutar
colonos. Encontra para si próprio
uma noiva.
A Catedral de Stanley é
consagrada pelo Bispo Stirling.
A estação de rádio é
inaugurada.
Na Batalha das Ilhas Falkland, a Marinha Real destrói
a frota alemã do Almirante Graf von Spee e mantém o
controle do Atlântico Sul.
1914
1912
1892
1885
1884
- 1885
1871
POR SER UM ENGENHEIRO MILITAR, O
GOVERNADOR Moody foi capaz de estudar e
planejar a nova capital, Stanley, com auxílio de seu
pequeno grupo de soldados, todos eles sapadores
habilidosos, que realizaram grande parte do
trabalho de construção.
A cidade foi planejada seguindo um
padrão de grade ao longo da orla, pois todas as
mercadorias seriam importadas por meio de
navios e descarregadas onde fossem necessárias.
Voltada para o norte, na direção do sol do meio dia,
a cidade começa no litoral, subindo levemente até
os bancos de turfa no topo da colina; nos invernos
mais severos, as crianças ainda podem esquiar de
trenó pelas ruas cruzadas até a Ross Road, que se
estende pela orla.
Stanley
desenvolveu-se
rapidamente,
contando com o governo e o porto para
sobreviver. Além das cargas destinadas tanto
stanley
A capital das Ilhas Falkland
à cidade quanto aos povoados no Campo (o
interior das Ilhas), havia também um comércio
considerável de conserto de navios. A população
de Stanley cresceu de forma significativa em 1849,
quando um grupo de ex-soldados, os chamados
“pensionistas militares”, estabeleceram-se nas Ilhas
para possibilitar a criação de uma tropa. Com os
pensionistas, em sua maioria irlandeses, vieram
suas famílias e um conjunto de casas de madeira
pré-fabricadas. Muitos dos pensionistas deixaram
as Ilhas após o fim de seus contratos, mas os que
ficaram desempenharam um papel importante
na vida de Stanley. Suas casas ainda podem ser
vistas na Pioneer Row: uma delas foi transformada
em museu, para ilustrar a vida em Stanley à época
vitoriana.
Com o passar do século, foram construídos em
Stanley os edifícios necessários para uma capital
em miniatura. A Casa do Governo (Government
House), projetada pelo Governador Moody, foi
finalizada apenas no fim da década de 1850. O
segundo governador, George Rennie, era escultor
e designer industrial, e projetou o Edifício do
Comércio (Exchange Building) em 1850, incluindo
uma torre nos moldes italianos. O Edifício do
Comércio tinha um espaço para reuniões públicas
e cerimônias religiosas. Em 1854, foi construído
um quarteirão de casas para os soldados; em 1873,
foram construídas uma delegacia e uma prisão. Já
em 1878, a Companhia das Ilhas Falkland construiu
uma grande mansão de tijolos para o seu gerente,
a Stanley House, atualmente um albergue para
crianças do Campo que estudam em Stanley.
Por fim, nos últimos anos do século XIX, três
edifícios religiosos foram finalizados. A catedral
anglicana, uma igreja gótica de tijolos vermelhos,
foi consagrada em 1892; a igreja católica romana
era uma estrutura de madeira inaugurada em 1873,
ORISSA DEAN benfeitora
Nascida em Orissa, na Índia, em 1840, Orissa Watton
casou-se com George Markham Dean em 1862 e
mudou-se com ele para as Ilhas no ano seguinte.
Compraram a Stanley Cottage, supostamente
a primeira casa construída em Stanley, um bela
mansão na beira da praia.
George e seu irmão Charles administravam a
empresa muito bem sucedida fundada pelo pai,
JM Dean, na década de 1840. Além disso, George
foi cônsul da Dinamarca e vice-agente comercial
Stanley Edstados Unidos. Quando a West Falkland
foi aberta para colonização, em 1866, os irmãos
Dean arrendaram duas fazendas do governo,
e mais uma em 1874. Em 1887, para celebrar
o jubileu de ouro da Rainha Victoria, os irmãos
construíram as Mansões do Jubileu (Jubilee Villas),
casas de tijolo construídas perto do píer de Stanley.
Stanley em 1866: aquarela feita por um artista italiano que visitou a cidade, E. de Martino. A torre do Edifício do Comércio destaca-se na paisagem.
Ellaline Terriss, estrela dos teatros do West
End, nasceu em Stanley, em 1871.
Em 1888, George Dean morreu, e a empresa da
família, com exceção das fazendas, foi vendida
para a Companhia das Ilhas Falkland.
Orissa Dean não teve filhos, mas adotou a
família de William Luxton, um marinheiro, quando
ele morreu. Providenciou treinamento para os filhos
do marinheiro e organizou o casamento da filha. A
geração seguinte também era intimamente ligada
a Orissa, sendo que, quando ela morreu, deixou sua
fazenda em Chartres para o jovem William Luxton,
cujos descendentes ainda moram lá. Ela tocava
órgão na igreja do Edifício do Comércio, até que
a igreja foi destruída pelo deslizamento de turfa
de 1886. Posteriormente, tornou-se uma grande
benfeitora da nova Catedral, arcando com os custos
da janela oeste, o relógio da torre e cinco sinos.
A generosidade de Orissa para com as pessoas
foi marcada pelo conjunto de louças e talheres
de prata folheados a ouro presenteado a Orissa
pelos colonos, que ainda se encontra no Museu
de Stanley. Morreu em 1920 e foi enterrada no
cemitério de Stanley. Durante várias gerações,
Orissa era um dos nomes mais populares entre as
meninas das Falklands.
HENRY FELTON
patriarca, pioneiro e pensionista
Catedral da Igreja de Cristo antes de 1902
mas foi movida para uma edifício maior em 1899,
onde se encontra atualmente; a comunidade não
conformista adquiriu uma capela pré-fabricada da
Inglaterra, o Tabernáculo (Tabernacle), montado
em 1891.
As casas residenciais eram geralmente
feitas de madeira, mas algumas das primeiras
habitações eram de pedra (e foram essas as
casas utilizadas como abrigo para civis durante o
conflito de 1982). O comércio era dominado por
duas empresas, a Companhia das Ilhas Falkland e
sua rival, a empresa de JM Dean, com sua loja West
Store. Em 1888, a FIC adquiriu a empresa de Dean,
incluindo a loja, duas tavernas, um hotel, um clube,
casas para os empregados, uma frota de navios,
uma empresa de conserto de navios e serviços
bancários para a maioria dos fazendeiros. A FIC
dominou a vida comercial de Stanley no século
seguinte, dificultando o de outros empresários
aspirando desafia-los.
O conserto de navios era uma área em
expansão, de modo que os poucos técnicos de
Stanley podiam cobrar preços altos. Os capitães
dos navios ficavam surpresos com os preços
de Stanley, mas os governadores garantiam a
Londres que os colonos estavam longe da linha
de pobreza.
O lazer em Stanley era similar ao da Inglaterra
vitoriana: jardinagem, futebol, bares, dardos e
tiro ao alvo (regularmente equipas das Ilhas
competiam com distinção nas reuniões anuais
em Bisley, na Inglaterra). O primeiro cinema foi
inaugurado pelo padre da igreja católica, em
1913. Havia uma certa tradição de entretenimento
que envolvia performances amadoras de teatro e
A TURFA E OS DESLIZAMENTOS DE TURFA
A turfa, um combustível formado por matéria
vegetal não decomposta e comprimida, é muito
comum nas Ilhas, tendo fornecido aquecimento
para quase todos os lares durante o primeiro
século de administração britânica. Embora
seja um combustível gratuito, cortar turfa é,
na verdade, uma tarefa trabalhosa, pois a
turfa perde sua eficácia como combustível
quando seca. Em Stanley, foi declarado um
feriado público dedicado a esse trabalho. Desde
o conflito de 1982, a turfa foi substituída
majoritariamente por petróleo.
Havia um vasto banco de turfa na colina
acima de Stanley que, embora conveniente para
a cidade, não drenava bem. No século XIX,
houve dois deslizamentos de turfa encharcada,
da colina até o porto. No primeiro deslizamento,
em 1878, ninguém se feriu, mas algumas casas
foram danificadas. O segundo, porém, foi
muito mais destrutivo; duas pessoas morreram e
várias casas foram destruídas, e o Edifício do
Comércio, com sua bela torre, teve suas bases
tão abaladas que precisou ser demolido. Após os
deslizamentos, foi introduzido um sistema efetivo
de drenagem, acabando com o risco de novos
deslizamentos.
ópera. A transmissão de rádio foi introduzida em
1929, pelo Governador Hodson (que também era
um ávido produtor de performances amadoras).
Os programas eram transmitidos por meio de
linhas telefônicas para Stanley e arredores.
A introdução da comunicação via radiotelefone
com o Campo, em 1950, representou um grande
passo no sentido de reduzir o isolamento das
famílias no interior.
Mansões do Jubileu, construídas em 1887
Após a batalha do Rio Prata, o
esquadrão britânico vitorioso chega a
Port Stanley para reparos.
É introduzido o sufrágio universal
como forma de eleição de membros
do Conselho Legislativo.
Visita do Duque de Edimburgo como
parte de uma viagem pela Comunidade
de Nações no iate real Britannia.
Primeira incursão por parte de uma
aeronave leve da Argentina.
Henry Felton nasceu em Londres, em 1798, e
ingressou num regimento da Cavalaria (Os Life
Guards) em 1820. Aposentou-se do exército
em 1844, com documentos de dispensa que o
descrevem como sendo um homem exemplar,
honesto e sério, que mantinha suas tropas em
ótimas condições. Casou-se com Martha Ann
Staples em 1838 e, por 1849, já tinha sete filhos.
Nos primeiros anos da colônia, o governador
das Falklands foi recrutar de homens de bom caráter
com treinamento militar: a solução foi encontrar
ex-soldados, os pensionistas militares, tornando
Henry Felton o candidato ideal. Ele recebeu
o título de sargento-mor, sendo responsável,
sob o comando de um capitão, por outros 30
pensionistas, e chegou a Stanley em outubro
de 1849. Uma de suas funções era supervisionar
a construção de casas pré-fabricadas, enviadas
especialmente para os pensionistas (e que ainda
existem em Stanley), sendo que o próprio Henry
mudou-se para uma delas com sua família.
Martha deu à luz mais sete filhos em Stanley;
quando sua casa ficou pequena demais, Felton
adquiriu o bar Queen’s Arms. Ele continuou no
comando dos pensionistas e, mais tarde, da tropa
inteira, tendo servido também como juiz de paz e
como membro do conselho executivo.
Morreu em Stanley, em 1876, seguido por
sua esposa, em 1880. Seus filhos tiveram vidas
prósperas: dois deles tornaram-se fazendeiros de
sucesso, outro tornou-se membro do conselho
executivo e outro ingressou no conselho
legislativo. Em 1994, para comemorar o aniversário
de 150 anos de Stanley, foi lançado um selo com
o retrato de Henry Felton, e ainda há membros da
família Felton em Stanley atualmente.
1964
1957
1949
1939
Os operadores em Stanley eram essenciais
para a sociedade das Falklands, distribuindo
notícias, conselhos e conforto a quem necessitasse.
O grande evento desportivo do ano era o
Stanley Sports, no dia seguinte ao Natal, que
atraía cavalos e cavaleiros dos lados ocidental e
oriental, contando com a participação da cidade
inteira. A pesca da tainha local e da truta marinha,
introduzidas com sucesso nos rios das Falklands
na década de 1950, também era bastante popular.
Os serviços sociais eram modestos. O primeiro
médico mudou-se para as Ilhas em 1843, mas
o Hospital Memorial King Edward VII foi aberto
apenas em 1914. Uma escola primária foi fundada
na década de 1840 para oferecer educação básica,
sendo que a igreja católica romana também
possuía uma escola, em que o ensino era feito por
freiras. Porém, até 1910, as crianças paravam de ir à
escola aos 12 anos. Para que obtivessem educação
secundária ou terciária, os jovens eram enviados
à Grã-Bretanha ou ao Uruguai, mas havia poucas
oportunidades nas Ilhas, sendo que os principais
cargos no governo eram reservados para oficiais
do serviço colonial vindos do Reino Unido.
Contudo, após quase 140 anos de
prosperidade relativa, Stanley tornou-se uma
cidade em declínio antes da invasão argentina.
O acesso às Falklands era controlado pela LADE,
a divisão comercial da força aérea argentina, que
fornecia a única conexão regular com o mundo
externo. A empresa de petróleo da Argentina, a
YPF, fornecia todo o combustível das Ilhas. Parecia
que as Falklands estavam caindo nas mãos da
Argentina. A emigração, tanto para o Reino Unido
ou para a Nova Zelândia, aumentou, enquanto
Stanley Cottage
Baile na prefeitura de Stanley, na década de 1950.
Grupo extremista sequestra um DC4
das Aerolíneas Argentinas, que pousa no
hipódromo de Stanley.
A visita do Ministro Chalfont é
marcada por protestos. Terceira
incursão aérea.
Pista de pouso temporária construída pela
força-tarefa argentina em Stanley, para uso por
parte de aeronaves civis argentinas.
OS ESPORTES DE STANLEY
que a taxa de natalidade caiu. A população das
Ilhas foi reduzida para 1.800. Essa tendência foi
revertida somente após os eventos de 1982.
Embora os primeiros colonos tenham competido
na Copa do Governador, no fim da década de
1840, foi apenas em 1907, cerca de 63 anos após
a fundação da cidade, que se formou um comitê
para organizar um dia dedicado a competições
desportivas na capital. A Associação Desportiva
de Stanley foi formada oficialmente em 1908.
Decidiu-se que o dia seguinte ao Natal, 26 de
dezembro, era o mais adequado para o evento,
mas sua grande popularidade rapidamente levou
a um segundo dia de jogos, sendo que, atualmente,
o evento dura três dias.
As corridas de cavalo sempre tiveram um lugar
de destaque, mas eventos de atletismo e gincanas
também encontraram seguidores. A Copa do
Governador é a corrida de maior prestígio do
evento. Três cavalos já ganharam essa corrida
cinco vezes cada, sendo Dashing Dancer, de
Maurice Davis, o mais recente campeão, tendo
vencido em 2006, 2007, 2009, 2010 e 2011. As
apostas podem ser feitas por meio do totalizador,
administrado sob os auspícios da Associação
Desportiva de Stanley.
O hipódromo de Stanley é reto e mede 900
jardas, com duas arquibancadas pequenas em
ambos os lados da pista, na linha de chegada.
Em 1957, durante sua visita às Ilhas, o Príncipe
Philip, Duque de Edimburgo, participou de
um evento desportivo especial; a Sailors Race
(Corrida de Marujos), competição que venceu
montando o cavalo Itata.
Em 1966, o hipódromo sobreviveu a aterrissagem
(e decolagem) de um avião DC4 argentino
sequestrado. Durante a ocupação argentina de
1982, o campo foi usado como depósito de munições
e heliporto, sendo necessária uma operação de
limpeza de grande porte para preparar a pista
para o tradicional evento de dezembro.
Outro evento social são os Esportes de Natal,
que tradicionalmente unem os habitantes das
Ilhas. O evento não conta com a participação
de tantos cavalos e jóqueis hoje em dia, em
comparação com os números de 30, 40 ou 50
anos atrás, mas ainda tem o seu charme e uma
atmosfera animada, que atrai gente de todas as
idades.
1972
1968
1966
O CAMPO
O interior das Ilhas Falkland
PARA OS HABITANTES DAS ILHAS FALKLAND,
‘“Campo” é o mesmo que interior, ou seja, tudo
exceto a cidade de Stanley. Foi adotada a palavra
“campo” uma adaptação da língua espanhola. O
clima das Ilhas é temperado, com precipitação
moderada (cerca de 25 polegadas por ano, ou
635mm, em Stanley), ideal para pastos. Porém, os
ventos fortes dificultam o crescimento das árvores,
a menos que sejam cuidadosamente protegidas.
Os primeiros agricultores das Ilhas foram os
navegadores (caçadores de focas ou baleias), que
trouxeram porcos ou coelhos, acreditando que
iriam se multiplicar e fornecer carne fresca para
as suas próximas visitas nos verões seguintes, o
que realmente aconteceu. Além disso, os cavalos
abandonados pelas tropas francesas e espanholas
formaram várias manadas selvagens na East
Falkland. O gado, estimado por Richard Moody,
o primeiro governador britânico, em 40.000
cabeças no ano de 1842, foi a grande atração
para os primeiros colonos. Louis Vernet planejou
o abate de grandes números para obter couro e
carne, assim como fizeram os irmãos Lafone, que,
em 1846, assinaram um contrato com o governo
britânico envolvendo uma grande porção de
terra. O gado selvagem só podia ser domado e
explorado por gaúchos sul-americanos; logo, os
irmãos Lafone trouxeram grandes quantidades
de gaúchos do Uruguai quando estabeleceram
suas fazendas de gado na East Falkland, na década
de 1850. Contudo, esse tipo de fazenda não era
sustentável: na realidade, ao abater sem procriar
o gado, os gaúchos estavam consumindo um
recurso finito.
Uma soberania compartilhada é estabelecida, a fim de permitir
a realização de transações comerciais entre as Ilhas Falkland e
a Argentina. É assinado um acordo referente ao fornecimento
de combustível pela empresa estatal de petróleo da Argentina,
a YPF.
O Campo tradicional: ovelhas e lã
O Governador Moody recomendou a criação de
rebanhos de ovelha como a melhor opção para
as Ilhas, com animais de boa qualidade vindos da
Grã-Bretanha e cruzados com as raças locais do
continente sul-americano. Essa fórmula funcionou
bem, e os futuros colonos decidiram adotá-la.
No princípio, a colonização das terras ocorreu
lentamente, mas, no fim da década de 1860, a East
Falkland já havia sido completamente ocupada, e,
entre 1866 e 1869, a West Falkland foi oferecida a
pioneiros, sendo rapidamente colonizada.
As “estações” de rebanho eram compostas
por áreas extensas de terra pobre em nutrientes,
em que cada ovelha necessitava, em média,
cinco acres de pasto. Foram estabelecidas no
litoral, geralmente próximas a portos naturais,
pois as mercadorias só podiam ser importadas
e a lã só podia ser exportada por vias marítimas.
Cada povoado possuía um galpão grande para a
tosa de ovelhas e o empacotamento de velo, um
casarão para o proprietário e sua família, casas
menores para as outras famílias e um alojamento
para os fazendeiros solteiros. No Campo, a maior
parte do ano era dedicada às ovelhas, culminando
no trabalho exaustivo de tosa e empacotamento
da lã em janeiro. Assim que a lã era levada pelos
navios, os fazendeiros tinham tempo livre para
esportes e festas. Durante o ano inteiro, também
havia tarefas de corte e empilhamento de turfa,
conserto de cercas e manutenção da infraestrutura. As grandes empresas construíram
escolas para as crianças, geralmente empregando
seus contadores como professores durante uma
porção do dia. No maior povoado, Goose Green,
a Companhia das Ilhas Falkland providenciou um
A missão de Shackleton visita as Ilhas. Em
seu relatório, ele conclui que as Ilhas podem se
tornar economicamente viáveis.
Um aeroporto permanente é construído
em Stanley, financiado pelo Departamento
Britânico de Desenvolvimento
Internacional.
ELIZA JANE McASKILL a Sra. Mac
A Sra. Mac nasceu em Leicester Creek, na West
Falkland, em 1889. O pai dela, o escocês George
McKay, era um “pastor remoto”, vivendo e
trabalhando longe da colônia principal. Casou-se
com Jack McAskill em 1911, mudando-se com
ele para a Goring House, perto de Chartres. Ficou
conhecida por ser uma mulher de baixa estatura,
enérgica e hospitaleira, além de ser uma excelente
dona de casa e fabricante de manteiga. Contudo,
seu maior talento revelou-se quando, em 1918,
a estação de rádio de Fox Bay foi instalada, e os
outros povoados foram ligados ao centro através
das linhas telefônicas. Todas as quatro linhas
passavam pela Goring House; assim, foi instalado
um painel de controle na casa, que acabou sendo
assumido pela Sra. Mac. Ela virou a operadora não
oficial das linhas telefônicas, ajudando as pessoas
dia e noite, ou quando surgissem emergências
médicas.
A Goring House ficava na principal rota
norte-sul da West Falkland, e todos que passavam
por ela entravam para um “smoko” (chá e bolos),
viajando a cavalo nos velhos tempos ou de Land
Rover ou motocicleta mais recentemente. Em
1961, seu serviço à comunidade foi reconhecido
por um prêmio entregue pelo governador, que
foi pessoalmente até a Goring House, já que a Sra.
Mac achava desnecessário ir a Stanley.
No entanto, após a morte de marido no ano
de 1968, a Sra. Mac mudou-se para Stanley em
Um dos aviões Auster originais
figas
O Serviço Aéreo do Governo das Ilhas Falkland
(FIGAS – The Falkland Islands Government
Air Service) foi fundado em 1948, quando
o Governador Clifford comprou dois aviões
Auster de uso militar por £700 ($2.800) cada
e enviou-os à cidade de Stanley. O primeiro
voo foi realizado na véspera do Natal de 1948,
quando um dos aviões voou até North Arm para
transportar uma menina que sofria de apendicite
até Stanley. Foi uma demonstração marcante do
valor da aeronave.
Após alguns anos, um dos aviões foi adaptado,
tornando-se um hidroavião, já que todos os
povoados encontravam-se perto do litoral. Na
década de 1950, quando os aviões Canadian
Beaver foram comprados para substituir os
1973, levando consigo suas duas vacas prediletas
e seu velho cachorro. Morreu em 1979.
Auster, também foram adaptados para a forma
de hidroavião. Os Canadian Beaver foram usados
por mais de 20 anos, mas sua operação era
onerosa e sua superfície, devido ao contato com a
água do mar, ficava sujeita a corrosão. Quando
o aeroporto de Stanley foi finalizado, o FIGAS
decidiu que era a hora certa de reintroduzir
uma aeronave para uso em solo comum e adquiriu
um avião Islander da Britten Norman, de nove
assentos, entregue em 1979.
Desde então, a frota de aviões Islander tem
prestado um serviço eficiente a quase todos os
povoados das Falklands. Durante o conflito de
1982, um desses aviões foi destruído quando
o aeroporto de Stanley foi bombardeado.
Atualmente, existem três aviões para passageiros,
além do avião que monitora os pescadores.
Com a construção das estradas no Campo e a
introdução de um serviço regular de balsa, as
demandas relativas ao FIGAS diminuíram.
Porém, seus pilotos continuam a fornecer um
serviço inigualável aos turistas e habitantes
das Ilhas em pistas de pouso feitas na grama,
independentemente do clima e do vento.
1977
1976
1974
howARD WICKHAM
(Wick) CLEMENT
agricultor
Wick Clement nasceu na Inglaterra, em 1903, mas
foi batizado na Catedral de Stanley. Cresceu em
Roy Cove, na West Falkland, gozando da liberdade
das crianças do Campo, andando a cavalo,
atirando e velejando em barcos de pequeno
porte. Após ter estudado na Inglaterra, regressou
a Roy Cove para ajudar o pai a administrar a
fazenda. Tornou-se inspetor de gado do governo
em 1933, cavalgando grandes distâncias para
supervisionar a quarentena de ovelhas importadas
e os programas de imersão.
Em 1934, tornou-se gerente da Packe Brothers,
sediada em Fox Bay East, sendo responsável
por três fazendas separadas entre si por vários
quilômetros de campo. Os primeiros anos foram
difíceis, pois não havia capital de investimento e
as ovelhas produziam lã áspera. Por fim, acabaram
importando ovelhas Merino da Nova Zelândia, que
formaram a base das excelentes ovelhas criadas
na estação. Em 1960, com uma certa nostalgia,
Clement afirmou: “gostaria de voltar no tempo e
começar de novo com as ovelhas que tenho hoje”.
Em 1950, ingressou no Conselho Executivo
por quatro anos e, em 1968, após se mudar para
Stanley, entrou no Conselho Legislativo. Casou-se
com Viola (Babs) Luxton e teve duas filhas, que
ainda vivem em Stanley. Morreu em 1979
fazendas de rebanho e o formato dos povoados.
A primeira máquina de prensar lã chegou em
1872, enquanto que os tosquiadores mecânicos
foram introduzidas na década de 1920. No início
da década de 1960, a chegada dos tosquiadores
elétricos possibilitou a redução do número de
trabalhadores empregados nas fazendas, pois
grupos itinerantes de tosquiadores dominaram o
ramo.
Os lucros oriundos do comércio de lã
dependiam bastante do preço mundial do material,
que, por sua vez, dependia da demanda. Os preços
subiam quando a demanda por uniformes crescia,
apesar de os preços da lã terem sido controlados
pelo Ministério do Abastecimento em Londres
até 1953. Grande parte do investimento nas
estações do Campo foi feita durante as duas
Guerras Mundiais e a Guerra da Coréia. Tanto o
governo quanto a Companhia das Ilhas Falkland
tentaram encontrar alternativas para a produção
exclusiva de lã: durante a Primeira Guerra Mundial,
a FIC produziu latas de gordura animal e carne em
Goose Green, mas a produção foi interrompida
quando a situação voltou ao normal. No início
da década de 1950, o governo britânico investiu
bastante na usina de processamento de carne de
Ajax Bay, perto de San Carlos, mas o investimento
falhou após dois anos.
clérigo para os pastores escoceses.
Havia cerca de 35 propietários substanciais
de terra, sendo o maior deles a Companhia das
Ilhas Falkland, que adquiriu as posses dos irmãos
Lafone em 1851 e expandiu-as no anos seguintes.
Em 1964, quando estava em seu ápice, a FIC
possuía quase metade das fazendas das Ilhas.
A produção de lã floresceu, assim como
as Falklands em geral. As Ilhas tornaram-se
autossuficientes financeiramente em meados
de 1885, e o número de ovelhas atingiu o pico
de 807.000 em 1898, em contraste com os 2.000
habitantes humanos. Porém, havia um problema:
os governadores mais esclarecidos preocupavamse com o fato de que a economia das Ilhas era,
na realidade, uma monocultura, e a qualidade do
rebanho diminuía à medida que as quantidades
aumentavam. Além disso, a colonização da West
Falkland não deixou terras disponíveis; assim,
muitos dos habitantes das Ilhas que tinham
ambições de melhorar de vida foram obrigados
a emigrar para a Patagônia, como fizeram vários
deles no fim do século XIX, levando consigo
capital e rebanho das Ilhas.
Vários especialistas vieram estudar agricultura
nas Falklands durante o século XX, mas suas
recomendações não encontraram muito respaldo
entre os fazendeiros conservadores. À mesma
época, uma fazenda experimental fundada pelo
Governador Middleton em 1925 foi fechada por
seu sucessor. Não houve progresso em relação
à subdivisão das grandes propriedades até
que a missão de Shackleton às Ilhas, em 1976,
recomendou fortemente que as propriedades
fossem repartidas. O processo acabara de começar
quando ocorreu a invasão argentina, em 1982.
A modernização afetou a estrutura das
A visita do ministro Nicholas Ridley termina
sem um acordo por parte dos habitantes
das Ilhas em relação às negociações com a
Argentina.
A vida no Campo
A vida nas estações do Campo era difícil,
fisicamente exaustiva e isolada, com uma cultura
de trabalho pesado e montaria árdua. Os serviços
de saúde eram precários: havia um médico em Fox
Bay que viajava para visitar pacientes, mas mesmo
um simples pedido de ajuda podia demorar várias
horas de cavalgada. A introdução da rede de rádio
Em 2 de abril, as forças armadas argentinas invadem as
Ilhas e ocupam-nas ilegalmente por 74 dias. Uma forçatarefa britânica atraca em 21 de maio, forçando a rendição
argentina em 14 de junho.
no Campo, em 1950, reduziu o isolamento, e as
consultas médicas passaram a ser feitas via rádio.
Em 1948, a inauguração do FIGAS, o serviço aéreo
do governo, possibilitou a evacuação médica, e
o primeiro voo realizado serviu para transportar
uma menina com apendicite de North Arm até
Stanley.
Para a maioria das estações e casas isoladas,
o governo fornecia professores itinerantes. Cada
professor era responsável por três ou quatro
famílias. Cavalgavam de fazenda a fazenda, sendo
abrigados pelas famílias e ensinando as crianças,
deixando tarefas de casa sob a responsabilidade
dos pais. Em 1950, assim que a rede de rádio do
Campo foi estabelecida, introduziu-se um serviço
de ensino via rádio.
Até mesmo o dentista viajava de estação
a estação a cavalo, levando consigo sua broca
operada por pedal. O advento do Land Rover, no
fim da década de 1950, facilitou muito tanto a vida
do médico quanto a do dentista.
A vida no Campo crescia em espírito de
pragmatismo, camaradagem e hospitalidade. No
Campo, quando precisavam se mudar, as pessoas
colocavam suas casas em trenós e utilizavam
tratores para carregá-las pela ilha. Nada era jogado
fora; tudo podia ser reutilizado por alguém algum
dia, em algum lugar. Os eventos desportivos no
Campo, como as corridas de cavalo, os eventos
de atletismo, as competições de cães e os torneios
de tosa, serviam como justificativa para grandes
festas organizadas pelas colônias, das quais toda
a comunidade participava. Muitos habitantes das
Ilhas sentem saudades dos velhos tempos no
Campo. Para eles, o Campo era o coração das Ilhas,
sua fonte de riqueza, tradição e identidade.
Competição de tosa de ovelhas no Campo
SYDNEY MILLER
administrador, conselheiro e escritor
Syd Miller nasceu em Hill Cove, na West Falkland,
em 1905. Após ter estudado na Inglaterra,
retornou a Hill Cove. Em 1925, mudou-se para a
estância San Julian, na Patagônia, de propriedade
da família Blake, a mesma família que fundou Hill
Cove. Quando voltou da Patagônia, administrou
Hill Cove por um breve período, mudando-se, em
seguida, para Roy Cove, onde ficou conhecido
por introduzir um rebanho novo e reconhecer
a importância do gramado para melhorar a
produção.
Miller participou do Conselho Legislativo
da West Falkland de 1956 a 1960 e de 1964 a
1971. Participou do Conselho Executivo em
1968, quando, junto com outros três membros
do conselho, quebrou o voto de sigilo para fazer
um apelo direto à Câmara dos Comuns, em
Londres, acerca das conversas secretas entre
o governo britânico e a Argentina, concluído
com um memorando de entendimento (que
nunca foi assinado). Deu seguimento a esse
apelo indo a Londres, onde tentou defender
a autodeterminação das Falklands perante os
membros do parlamento.
Miller aposentou-se em 1970, representando
Stanley no Conselho Legislativo de 1971 a 1976.
De 1975 a 1990, foi editor do Falkland Islands
Journal, uma publicação acadêmica de estudos
relacionados às Falkland, e, em 1990, publicou o
livro A life of our choice, uma retrospectiva das
experiências pelas quais havia passado. Morreu em
Stanley, em 1992, deixando sua esposa Betty, que
morreu em 2004. Os seus quatro filhos têm sido
muito participativos na vida das Falklands.
1982
1980
A REIVINDICAÇÃO ARGENTINA
A REIVINDICAÇÃO DA ARGENTINA EM
RELAÇÃO ÀS ILHAS foi feita por meio de canais
diplomáticos por 17 anos após 1833, mas foi
abandonada completamente após a assinatura
da Convenção de Conciliação (Tratado AranaSouthern), um tratado de paz detalhado que
resolveu todas as diferenças e estabeleceu a
“amizade perfeita” entre o Reino Unido e a
Argentina, em maio de 1850.
Posteriormente, em 1865, o Presidente Mitre
declarou ao Congresso Argentino que não havia
“nada que pudesse evitar a consolidação das
relações amigáveis entre este país e aqueles
governos (o britânico e o francês)”. No ano
seguinte, o Vice-Presidente Marcos Paz disse ao
Congresso que restava apenas uma questão a ser
resolvida entre o Reino Unido e a Argentina: os
pedidos de ressarcimento pelos danos sofridos
por cidadãos britânicos em 1845. É evidente que
as Falklands haviam deixado de ser um problema
entre os dois governos.
Pouco tempo antes dessas declarações, em
fevereiro de 1863, duas fragatas espanholas,
durante uma expedição científica oficial, haviam
atracado em Stanley, onde passaram seis semanas
sob os cuidados do Governador Mackenzie,
reconhecendo a autoridade britânica nas
Falklands. Obviamente, as intenções do governo
espanhol de exercer sua soberania nas Ilhas haviam
desaparecido desde a partida de suas tropas, em
1811, e o almirante espanhol estava preparado
para reconhecer a administração britânica.
Na década de 1880, dois mapas argentinos
revelaram visões conflitantes em relação à
soberania nas Falklands. O mapa de Latzina
(abaixo), produzido em 1882 pelo Instituto
Nacional de Estatística da Argentina, sob direção
de Francisco Latzina, mostra as Falklands e o
Chile em uma tonalidade diferente da Argentina.
Entretanto, em 1884, o Governo Argentino
comissionou um mapa que incluía as Falklands e
informou o representante britânico em Buenos
Aires que a Argentina pretendia ressuscitar sua
reivindicação. Em dezembro de 1884, o governo
britânico fez um protesto formal, mas a resposta
recebida foi a de que a Argentina não assumiria
qualquer responsabilidade por esse mapa, que
ainda não havia sido publicado.
A volta da reivindicação
A disputa permaneceu adormecida, com algumas
exceções, até a Segunda Guerra Mundial e a
chegada do militar Geral Perón como Presidente
da Argentina. As políticas de Perón eram
nacionalistas e anti-britânicas, de modo que a
reivindicação referente às Falklands tornou-se um
tópico de propaganda doméstica, bem como
uma preocupação crescente no campo da política
externa da Argentina. A Argentina resolveu
explorar o crescimento de um sentimento anticolonial perante as Nações Unidas, enfatizando
o status de colônia das Falklands, mas ignorando
o princípio básico do anti-colonialismo: o
direito do povo de determinar o seu próprio
futuro. O discurso da Argentina no Comitê de
Descolonização da ONU, em 1964, foi marcado
O sequestro do DC4, em 1966
A Primeira-Ministra Margaret
Thatcher visita as Ilhas e recebe a
Liberdade das Ilhas Falkland.
A nova constituição entra em vigor.
O aeroporto de Mount Pleasant é
inaugurado.
É estabelecida a Zona
Provisória de Conservação de
Pesca.
A soberania compartilhada é restabelecida,
com o intuito de facilitar a retomada de
relações diplomáticas entre o Reino Unido e
a Argentina.
1989
1986
1985
1983
Visita do Ministro Chalfont, em 1968
O mapa de Latzina, 1882
AG (Barty) Barton
administrador e conselheiro
AG Barton nasceu na Inglaterra, em 1901. Foi
recrutado para trabalhar como cadete em
Chartres, na West Falkland, em 1921. Em 1923,
passou a trabalhar para a Companhia das Ilhas
Falkland, em Lafonia, como gerente-assistente.
Por 17 anos, administrou as propriedades da
família Dean nas ilhas próximas à West Falkland
(Pebble, Keppel e as Ilhas Jason), mudando-se,
em seguida, para Teal Inlet, na East Falkland. Em
1950, tornou-se gerente colonial da FIC, sendo
responsável pelas propriedades da empresa
espalhadas pelas Ilhas, além do abastecimento
das fazendas, transporte e comércio geral.
De 1947 a 1974, Barton foi membro
dos Conselhos Legislativo e Executivo,
desempenhando um papel de liderança na
sociedade de Stanley, presidindo a Associação
Desportiva de Stanley, a Associação dos
Proprietários de Ovelhas e a Associação dos
Horticultores. Durante a crise causada pelo
sequestro do avião DC4 argentino, o governador
da época consultou Barton, que fez uma série
de cinco transmissões para manter o público
informado. Fez o comentário final via rádio
assim que o DC4 partiu do hipódromo, em 4 de
outubro de 1966.
Em fevereiro de 1968, Barton liderou os
outros três conselheiros em um apelo direto
aos membros do Parlamento Britânico contra
o Memorando de Entendimento assinado
entre os governos britânico e argentino. Isso
constituiu uma quebra da promessa de sigilo
que fizera, mas Barton julgou que o apelo
era extremamente necessário. A partir daí,
seguiram-se algumas negociações difíceis com
o Parlamento e a imprensa em Londres, mas
o governo acabou aceitando a supremacia da
vontade dos habitantes das Ilhas.
Barton aposentou-se da Exco em 1974 e
morreu no mesmo ano. John Barton, seu neto, é
o atual Diretor de Recursos Naturais.
por várias asserções historicamente incorretas que
foram reproduzidas durante todos esses anos: de
que o Reino Unido havia expulsado a população
argentina em 1833; de que os habitantes das Ilhas
Falkland podiam ser ignorados, pois compunham
uma população “temporária”; e assim por diante.
Em 1965, a Assembleia Geral da ONU convidou
o Reino Unido e a Argentina para resolver a
disputa, sendo que as negociações continuaram
por 17 anos de vez em quando sem que fosse
encontrada uma solução aceitável para os
habitantes das Ilhas, mesmo com a insistência dos
governos britânicos seguintes de que a população
local devia ser respeitada. Chegou-se a um acordo
para a LADE, a divisão comercial da força aérea
argentina, referente à abertura de uma rota para
Stanley; para tanto, foi construída uma pista de
pouso de metal. Em 1974, introduziu-se uma
“soberania compartilhada” para proteger todas
as transações comerciais possíveis e, por meio
da soberania compartilhada, o fornecimento de
combustível para as Ilhas foi concedido em forma
de monopólio à empresa estatal argentina YPF.
Essas duas soluções proporcionaram benefícios
práticos aos habitantes das Ilhas, mas não foram
suficientes para combater o medo de que o
governo britânico desistisse de sua soberania
sobre as Ilhas. Os ministros britânicos que vieram
oferecer soluções específicas aos habitantes das
Ilhas foram recebidos de forma hostil. Ao mesmo
tempo, os defensores das Falklands no Reino Unido
certificavam-se de que o Parlamento Britânico
estava ciente das preocupações da população das
Falklands, cobrando do governo uma promessa
de que os desejos do povo fossem tratados como
sendo de suprema importância.
Em conjunto com a pressão oficial por parte
da Argentina, houve uma série de intrusões
aéreas independentes, que causaram alarde e
induziram o governo britânico a providenciar uma
tropa mínima de Marinheiros Reais (um pelotão
composto por 37 homens).
Em 1964, um piloto particular argentino,
Miguel Fitzgerald, pousou no hipódromo de
Stanley, hasteou uma bandeira argentina e tornou
a decolar. Um episódio ainda mais perigoso
ocorreu em 1966, quando membros de um
grupo extremista armado sequestraram um
avião comercial e realizaram um pouso forçado,
também no hipódromo. Os passageiros foram
mantidos reféns, sendo necessários vários dias
de negociação até que os sequestradores fossem
enviados de volta à Argentina e o avião pudesse
fazer uma decolagem de risco para retornar ao
continente. Finalmente, em 1968, durante a visita
do Ministro das Relações Externas, o Ministro
Chalfont, outro avião realizou um pouso forçado
perto de Stanley. Os dois últimos incidentes foram
inspirados por um jornalista argentino, Hector
Garcia, que preferia criar notícias a simplesmente
relatá-las. Essas aventuras perturbaram a paz dos
habitantes das Ilhas, e as atividades dos jornalistas
nacionalistas independentes continuaram a
atormentar as relações com a Argentina, mesmo
após o conflito de 1982.
As décadas de 1960 e 1970 foram marcadas
pela depressão crescente dos habitantes das Ilhas.
O governo britânico, que tinha a obrigação de
protegê-los, parecia enxergá-los apenas como um
problema a ser resolvido, não estando preparado
para investir muito dinheiro na autossuficiência das
Falklands. Para os conselheiros eleitos das Ilhas, as
pressões pessoais agravaram-se. Esperava-se que
representassem a população por um lado, mas que
seguissem a política britânica oficial por outro. Em
1968, foram informados pelo governador que um
Memorando de Entendimento havia sido assinado
pelo Reino Unido e pela Argentina em relação ao
futuro das Ilhas. Os quatro conselheiros eleitos
quebraram sua promessa de sigilo e escreveram
diretamente a todos os membros do Parlamento
Britânico, relatando o que estava ocorrendo. O
protesto parlamentar resultante garantiu que os
governos britânicos seguintes levassem em conta
os desejos da população das Ilhas. O Memorando
nunca foi assinado.
À medida que as complexas negociações
entre os dois governos eram feitas, as suspeitas
dos habitantes das Ilhas em relação à Argentina
apenas aumentavam. O governo militar que
tomou o poder em 1976 seguiu uma política
impiedosa de supressão interna, a “guerra suja”,
que não tornou mais atraente a perspectiva de
uma dominação argentina, e a população das
Ilhas sabia muito bem que o acesso às Falklands e
REX MASTERMAN HUNT
governador
Rex Hunt nasceu em Yorkshire, em 1926, e
ingressou na Força Aérea Real assim que terminou
os estudos. Pilotou aviões de guerra na Índia e na
Alemanha até 1948. Quando terminou os estudos,
entrou no serviço colonial e passou doze anos na
Uganda. Em 1951, casou-se com Mavis Buckland,
que o acompanhou em todas as suas missões;
o casal teve dois filhos. Ingressou no Ministério
da Comunidade de Nações, posteriormente
renomeado Ministério das Relações Externas e
da Comunidade de Nações, onde desempenhou
vários cargos. No início de 1980, foi enviado a
Stanley para assumir o cargo de governador e altocomissário dos Territórios Britânicos na Antártida.
Quando chegou, Hunt encontrou-se em uma
posição delicada. O governo britânico esperava
que o novo governador promovesse sua política
entre os habitantes das Ilhas, mas ele também
sabia que a população local desconfiava do
governo em Londres e abominava a possibilidade
de uma dominação argentina. Apesar das relações
difíceis com a Argentina, a invasão de 1982 não
deixou de ser um choque. Com uma tropa ínfima
de marinheiros, Hunt defendeu a sede do governo,
a Government House, até que a chegada de tropas
É estabelecida a Zona Externa de Conservação das Falklands. A Comissão Bilateral de
Áreas de Pesca no Atlântico Sul é fundada, iniciando a cooperação no setor de pesca entre
a Argentina e o Reino Unido, com envolvimento das Falklands. Uma conexão aérea com o
Chile é aberta.
em tanques blindados forçaram-no a desistir.
Quando retornou à Inglaterra, foi recebido como
personalidade pública, sendo bastante admirado
por sua coragem e firmeza na defesa das Falklands.
Após a libertação, Hunt recebeu o título
de cavaleiro e retornou às Ilhas. Auxiliado pela
assistência generosa do governo britânico,
supervisionou a recuperação da sociedade das
Falklands e cuidou das relações com as tropas,
além de administrar a construção da nova base
e do novo campo de pouso em Mount Pleasant.
Aposentou-se no fim de 1985; a zona de pesca,
que defendera com tanta persistência, foi
introduzida no ano seguinte.
Hunt retornou às Ilhas em várias ocasiões,
surpreendendo-se com a nova atmosfera
de confiança que havia se instaurado. Sua
autobiografia, My Falkland Days, é um excelente
registro de sua época nas Ilhas, de sua energia
ilimitada e de sua empatia em relação às Ilhas e
seus habitantes. Quando a invasão ocorreu, Hunt
era o homem certo, no local certo e na hora certa.
Morreu no Dia dos Veteranos, 11 de novembro de
2012.
Definição das áreas de
exploração de petróleo.
As pesquisas sísmicas
são iniciadas.
1993
1991
1990
o fornecimento de combustível estavam nas mãos
do governo argentino.
As Ilhas pareciam estar deslizando de forma
inevitável na direção da Argentina.
CANÇANDO A PAZ
De 1982 até o presente
A invasão de 1982
De qualquer forma, a invasão de abril de 1982
foi uma surpresa. A facção argentina já estava
planejando um ataque para um momento
posterior do mesmo ano, mas sua falta de
popularidade na Argentina levou-os a apressar os
preparativos, o que foi recebido com entusiasmo
pelas multidões em Buenos Aires.
A resistência britânica foi rapidamente
derrotada no dia 2 de abril, e os habitantes das
Ilhas foram sujeitados a 74 dias traumáticos de
ocupação estrangeira. Stanley foi ocupada por
tropas argentinas e, em vários povoados no
Campo, os habitantes foram detidos por várias
semanas, sendo libertados somente após a
chegada das tropas britânicas.
Embora a conduta do exército argentino
tenha sido correta em termos gerais, não melhorou
a imagem da Argentina para os habitantes das
Ilhas, que ficaram chocados com a brutalidade
dos oficiais argentinos para com os soldados, bem
como com a pilhagem e a devastação deixada
pelo exército derrotado. Nas últimas fases da
campanha no interior das Ilhas, vários fazendeiros
auxiliaram o exército britânico, levando provisões
para os soldados com tratores e carroças, além dos
inúmeros atos de resistência em pequena escala
por parte dos habitantes das Ilhas. A vida em
Stanley ficou difícil e assustadora, pois havia várias
armas navais apontadas para as tropas argentinas,
localizadas nos arredores da capital, e, embora
a cidade tenha sido poupada de batalhas, três
civis morreram devido ao bombardeamento nos
Os governos britânico e argentino assinam
a Declaração Conjunta de exploração
de hidrocarbonetos na parte sudoeste do
Atlântico.
Fotografia icônica do Conflito de 1982: Marinheiros Reais chegando a Stanley.
últimos dias da guerra.
Quando as forças argentinas se renderam,
em 14 de junho, que acabou se tornando o
Dia da Libertação, houve muita alegria, alívio e
profunda gratidão às forças armadas britânicas,
que perderam 255 soldados nas batalhas; porém,
A primeira plataforma de
perfuração para exploração de
petróleo começa a funcionar.
também surgiu uma grande preocupação em
relação à escala do trabalho de reconstrução que
se tornou necessário nas Ilhas.
No fim das contas, a recuperação acabou
sendo mais rápida e bem sucedida que o que se
previa em 1982.
A conexão aérea com o Chile é
suspensa, sendo retomada após o
acordo de 14 de julho, firmado entre
o Reino Unido e a Argentina.
Última reunião plenária da
Comissão de Áreas de Pesca do
Atlântico Sul.
2005
1999
1998
1995
A LIBERTAÇÃO, EM 14 DE JUNHO DE 1982,
gerou diversos problemas para as Ilhas: danos
resultantes das batalhas em Stanley e, em menor
grau, no Campo; uma grande tropa acomodada
principalmente em casas particulares ou em
navios no porto; nenhuma perspectiva certa de
obtenção de uma renda adequada; a necessidade
contínua e onerosa de defesa; e uma população
aliviada por estar livre novamente, mas abalada
pela invasão e ocupação.
Antes do fim do conflito, a PrimeiraMinistra Margaret Thatcher dera permissão
a Shackleton, que havia apresentado o seu
relatório relativo à economia das Ilhas em 1976,
para produzir um estudo mais aprofundado,
levando em consideração a nova situação.
Shackleton apresentou um plano para o futuro da
economia das Ilhas, sendo que a maioria de suas
recomendações foram implementadas nos anos
seguintes.
Defendendo as nossas Ilhas
O primeiro requerimento era projetar
uma estrutura de defesa das Ilhas que fosse
relativamente econômica, mas que também
oferecesse a possibilidade de defesa contra
possíveis ataques. A solução escolhida foi um
aeroporto estratégico, construído em Mount
Pleasant, a cerca de 56km de Stanley, com
capacidade de abrigar uma tropa. A primeira
pista de pouso foi inaugurada em maio de 1985,
possibilitando um serviço aéreo regular operado
pela Força Aérea Real para fins militares, mas
também para transportar civis. Isso permitiu que o
número de tropas nas Ilhas fosse minimizado, pois
as tropas poderiam ser rapidamente reforçadas
em épocas de tensão. O custo da construção
da base de Mount Pleasant havia sido orçado
A Argentina repudia o acordo
de cooperação de 1995,
referente à exploração de
petróleo
em £400 milhões, mas, uma vez finalizada, os
custos de manutenção da tropa foram reduzidos,
permitindo que o número de soldados e a
quantidade de equipamentos diminuíssem com
o passar dos anos, não havendo incidentes. Duas
vezes por ano, eram realizados testes das defesas
antiaéreas, que envolviam o lançamento de
mísseis de curto alcance. Esses testes tornaramse rotineiros, sempre precedidos pela publicação
de avisos. De repente, em 2010, a Presidente da
Argentina Cristina Fernández de Kirchner declarou
que esses mísseis (com alcance de pouco mais
de seis quilômetros) constituíam uma ameaça
à Argentina, bem como aos seus vizinhos. As
acusações argentinas de que o Atlântico Sul está
sendo militarizado ignoram a redução progressiva
de forças britânicas nas Ilhas desde 1982.
Demorou um bom tempo até que as relações
com a Argentina melhorassem após o Conflito,
pois Buenos Aires continuava a reivindicar as
Ilhas, insistindo que o futuro das Falklands fosse
negociado com o Reino Unido. Porém, a eleição
do Presidente Menem, em 1989, possibilitou
a discussão acerca da retomada das relações
diplomáticas (finalmente realizada em 1990) e a
abertura de conversas acerca de assuntos técnicos,
como a pesca e a exploração de petróleo.
FUNDO NACIONAL E MUSEU DAS ILHAS
FALKLAND
A Constituição
Embora tenham existido vários museus de tipos
diferentes desde o início do século XX, o Fundo
Nacional e Museu das Ilhas Falkland foi criado
apenas em 1991, com o propósito de abrigar grande
parte da herança cultural das Ilhas. Atualmente,
é uma fundação registrada localmente e apoiada
pelo Governo das Ilhas Falkland.
O objetivo maior do Fundo é promover a
conscientização e o reconhecimento da herança
das Falklands e, sempre que possível, preservála para gerações futuras. O museu possui uma
vasta coleção de mais de 4.000 itens, guardados
e exibidos para fins educativos, bem como para
estudo e entretenimento. As outras funções e
responsabilidades do museu variam, mas incluem
trabalhos relacionados a navios naufragados e
cascos, locais de importância histórica e projetos
diversos, como estudos arqueológicos e história oral.
Uma nova Constituição foi introduzida em
1985, garantindo o direito de autodeterminação
dos habitantes das Ilhas, restaurando o cargo
de governador (que havia sido trocado
temporariamente
por
“comissário
civil”,
aparentemente um título menos “colonial”) e
instituindo a eleição de oito conselheiros, que, por
sua vez, seriam responsáveis por eleger mais três
conselheiros cada, formando o conselho executivo;
instituiu-se, portanto, um gabinete de fato. A
Constituição sofreu algumas alterações, atribuindo
mais responsabilidades aos conselheiros. Em 2002,
o governador renunciou o cargo de presidente do
conselho legislativo, e o novo presidente foi eleito
pelos conselheiros. Com a nova Constituição de
2009, os conselheiros passaram a ser designados
A nova Constituição das
Ilhas Falkland é adotada.
Segunda rodada de
perfurações para
exploração de petróleo.
A pressão da Argentina aumenta com a aproximação do trigésimo
aniversário do Conflito; visita do Príncipe William a Mount Pleasant e à
fragata moderna, a HMS Dauntless. A Rockhopper Exploration anuncia a
descoberta de petróleo comercial e firma uma parceria com a Premier Oil
para explorá-lo. Estima-se que o petróleo comece a jorrar em 2017.
“Membros da Assembleia Legislativa”. Suas
obrigações incluem a decisão de questões e
problemas locais de significância para as Falklands
como um todo. No entanto, eles também
podem representar as Ilhas perante as Nações
Unidas, em Nova York, bem como nas principais
conferências de partidos políticos da Inglaterra e
nas diversas reuniões da Associação Parlamentar da
Comunidade de Nações.
Agricultura: terras para o povo
O primeiro relatório de Shackleton recomendava
que as mais grandes propriedades, principalmente
as que pertenciam à Companhia das Ilhas Falkland,
fossem subdivididas e vendidas ou arrendadas
para outros proprietários. Esse processo havia
acabado de começar quando ocorreu o Conflito,
sendo retomado logo após a Libertação.
Antes do Conflito de 1982, quase 90% das terras
pertencia a pessoas que nem moravam nas Ilhas:
até 2003, 95% das terras pertencia a habitantes
das Ilhas. O Governo das Ilhas Falkland esforçou-se
tremendamente para melhorar a qualidade da lã
das Falklands, importando rebanhos da Tasmânia
e fundando o Criadouro Nacional. Como ocorreu
em todo o decorrer da história das Falklands, os
fazendeiros ficaram expostos às flutuações do
preço da lã, que, por sua vez, era definido pelas
condições globais. Porém, uma fonte alternativa
de renda foi estabelecida no fim da década de
1990, quando um novo abatedouro foi construído
segundo os mais altos padrões europeus. Isso
permitiu que os fazendeiros criassem ovelhas com
duas finalidades distintas, produzindo carne de
alta qualidade para exportação.
A pesca nas Falklands
Shackleton recomendara o estabelecimento
de uma área de pesca, mas o governo britânico
ficou mais cauteloso após o Conflito, evitando
provocar a Argentina e prevendo que os custos
de policiamento da área de pesca excederiam a
renda gerada pela atividade. Todavia, as tentativas
de cooperar com a Argentina no setor de pesca
falharam, de modo que o Reino Unido declarou
uma zona unilateral de pesca em volta das Ilhas.
Em 29 de outubro de 1986, foi introduzida a Zona
Provisória de Conservação das Ilhas Falkland
(FICZ – Falklands Interim Conservation Zone),
estendendo-se por um raio de 240km a partir das
Ilhas, exceto no lado sudoeste, onde foi levado em
conta o litoral argentino.
Apesar da desconfiança geral e da oposição
direta da Argentina e de outros países, a Zona
foi um grande sucesso. A demanda por licenças
para pesca de lulas ultrapassou a oferta e a renda
proveniente dessa atividade era abundante. A
renda total do Governo das Ilhas Falkland subiu
de £6 milhões, em 1985/1986, para £35 milhões,
em 1988/1989. Uma administração rigorosa e com
bases científicas garantiu que as licenças fossem
concedidas por um número limitado de dias, e o
governo não hesitava em fechar a área de pesca se
os cardumes entrassem em risco de sobrepesca.
Mais que qualquer outro evento, a introdução
da FICZ transformou as Ilhas, mas não teria sido
possível introduzi-la sem a segurança militar
garantida pela tropa britânica. O programa de
auxílio britânico foi concluído, e os habitantes
das Ilhas passaram a desfrutar da autoconfiança
resultante de um extrato bancário saudável. A
população entrou na indústria, primeiro como
agentes de empresas estrangeiras, depois em
parceria com essas empresas, e, por fim, como
proprietários independentes dos barcos de pesca.
Durante um certo período, a Argentina
cooperou com o Departamento de Pesca das
Ilhas Falkland em um programa de pesquisa
conjunta e troca de informações sobre a pesca.
Obviamente, isso foi vantajoso para ambos os
lados, pois o principal cardume de lulas flutuava
do mar aberto para as águas da Argentina e das
Ilhas Falkland, de modo que a sobrepesca em
uma área afetaria os dois lados. Infelizmente, em
2005, o governo do Presidente Nestor Kirchner
desfez essa parceria, em protesto contra uma
nova estrutura legal para as empresas de pesca
introduzida pelo governo das Ilhas.
Finanças e economia
Nos anos posteriores à Libertação, foram
concedidos vários fundos de desenvolvimento
pelo auxílio oficial do Reino Unido, administrados
parcialmente pela Cooperativa de Desenvolvimento
das Ilhas Falkland, estabelecida segundo as
recomendações de Shackleton. Contudo, a
situação foi transformada pela renda oriunda
da pesca, sendo criado, consequentemente,
um programa de investimento de capital. Foi
construída a nova Escola Comunitária, capaz de
proporcionar ensino para crianças e jovens de até
16 anos. Uma estação de telecomunicação via
satélite foi estabelecida, funcionando por meio da
empresa Cable and Wireless. O governo das Ilhas
OS ARQUIVOS NACIONAIS JANE CAMERON
O edifício dos Arquivos do Governo das Ilhas
Falkland foi construído de modo a satisfazer
as exigências do Padrão de Arquivos Nacionais
relativo ao Depósito de Registros, sendo
inaugurado no fim de 1998 com a finalidade de
abrigar os registros do governo. A arquivista do
governo, Jane Cameron, era fascinada pela
história das Ilhas, tendo coletado uma grande
variedade de registros não governamentais; após
sua morte trágica, em 2009, seus arquivos foram
transformados nos arquivos nacionais, batizados
em sua homenagem.
Desde então, a nova arquivista nacional,
Tansy Bishop, deu continuidade à expansão
das coleções, e, para garantir a preservação
e a acessibilidade dos registros, limitou sua
utilização. Os arquivos atraem pesquisadores do
mundo inteiro e recebem uma grande variedade
de pedidos de pesquisa todos os anos, além de
oferecer uma sala de leitura para quem quiser
visitar o edifício pessoalmente.
2012
2010
2009
2007
JOHN CHEEK
conselheiro e empresário
John Cheek pertenceu à quarta geração de
habitantes das Falklands, nascido em 1939,
em Hill Cove. Passou quatro anos de formação
trabalhando na Antártida, inicialmente como
observador meteorológico/operador de rádio e,
posteriormente, como guia de trenós puxados por
cães para a equipe de pesquisa das Dependências
das Ilhas Falkland. Usou o dinheiro que juntou para
obter algumas qualificações formais, voltando às
Ilhas em 1966. Quando foi eleito para o Conselho
Legislativo, em 1981, trabalhava para a empresa
Cable and Wireless como engenheiro sênior.
Acabara de completar um curso de gestão no
Reino Unido quando as Ilhas foram invadidas pela
Argentina. Cheek tornou-se o porta-voz oficial das
Ilhas, atuando na área de imprensa da Associação
das Ilhas Falkland, fazendo campanhas e obtendo
informações e contatos para o Ministério da Defesa,
além de compartilhar as poucas informações que
saíam das Ilhas. Fez uma viagem a Nova York, onde
um representante britânico na ONU organizou
uma conferência de imprensa e deixou que Cheek
demonstrasse aos EUA que a guerra envolvia
pessoas, e não apenas territórios. As respostas
abertas e honestas de Cheek foram muito bem
recebidas, pois ele combinou inteligência com
sabedoria diplomática e política. Isso ajudou muito
nas várias ocasiões em que representou as Ilhas,
tanto no Quarto Comitê e quanto no Comitê de
Descolonização da ONU.
Após 1982, Cheek tornou-se um conselheiro
ativo e visionário. Lutou para que o auxílio
britânico investisse em educação. A nova Escola
Comunitária foi construída e o financiamento de
estudos no exterior foi estendido a todos os que
satisfizessem as exigências. Hoje, muitos desses
estudantes dos anos 80 e 90 têm um papel de
grande importância na vida das Ilhas.
Quando foi criada a área de pesca, em 1986,
Cheek e um amigo, Stuart Wallace, perceberam
que grande parte da renda, exceto as taxas de
licença do governo, poderiam ir para o exterior.
Abandonaram a segurança de seus empregos e
viajaram pelo mundo todo, aprendendo como a
fundou a rede de saúde e começou a financiar
estudos no Reino Unido.
Um programa de construção de estradas
reduziu drasticamente o tempo de viagem entre
os diversos povoados. Os salários aproximaram-se
dos níveis britânicos.
Agora, o Governo das Ilhas Falkland possui
uma grande quantia de dinheiro distribuída entre
vários investimentos globais; em junho de 2011,
o valor total desses investimentos chegou a £183
milhões. A perspectiva de exploração de petróleo
aumenta a possibilidade de renda em uma escala
que supera as expectativas anteriores, uma vez
que a renda proveniente dos bancos de petróleo
das Falklands não irá para Londres, mas para o
Governo das Ilhas Falkland. Os habitantes das Ilhas
pretendem usar essa renda de forma prudente,
contribuindo para a sua própria defesa.
Petróleo e minerais
Muitas pessoas acreditam erroneamente que
a perspectiva de exploração de petróleo nas águas
das Falklands seja o motivo por trás do Conflito de
1982. Embora algumas pesquisas tenham sido
realizadas antes de 1982 ao redor das Ilhas, não
geraram resultados positivos. Porém, a segurança
proporcionada pela tropa e o sucesso da zona de
pesca (a FICZ) encorajaram o Governo das Ilhas
Falkland a investir na exploração de petróleo.
Graças à consultoria do Instituto Britânico de
Estudos Geológicos (o British Geological Survey),
começou-se a pensar no regime de taxação,
nas condições de exploração e extração e nas
questões de proteção ambiental. Em espírito
indústria funcionava e criando empreendimentos
conjuntos. Sua empresa, a Fortuna, foi a pioneira,
seguida por várias outras. Isso gerou um aumento
da coleta de impostos, que financiou vários dos
desenvolvimentos realizados nas Ilhas.
Após receber o diagnóstico de câncer em 1990,
dedicou os seus últimos anos ao fortalecimento da
indústria da pesca e à diversificação da economia
das Ilhas, criando as bases para o licenciamento da
exploração de petróleo. Morreu em 1996.
Cheek casou-se com Jan Biggs em 1968;
por muitos anos, ela serviu como membro da
Assembleia Legislativa; tiveram duas filhas, que
ainda vivem em Stanley.
de cooperação cultivado pelo governo das
Ilhas Falkland com todos os seus vizinhos, foram
assinadas, após negociações, várias cartas entre
os governos britânico e argentino, definindo
uma zona compartilhada de exploração na área
sudoeste das Ilhas, no ponto mais próximo entre
os litorais da Argentina e das Falklands (uma Área
Especial de Cooperação). Em 1998, em outra área
de exploração de petróleo não relacionada ao
acordo com a Argentina, a primeira plataforma
de extração de petróleo realizou uma temporada
de perfuração, no norte das Ilhas. Embora não
tenha sido descoberto petróleo comercial, foram
encontrados traços de hidrocarbonetos, o que
torna os resultados promissores. Uma segunda
plataforma chegou em 2010, mas o cenário
internacional já havia escurecido. Em 2007, a
Argentina não honrou o compromisso feito por
meio das cartas de 1995, introduzindo uma série
de medidas feitas para interromper a exploração
das Falklands e intimidar as empresas que
pudessem estar interessadas em participar da
exploração de petróleo.
De qualquer modo, a exploração continuou, e,
em 2012, uma empresa que estava pesquisando
a parte norte das Ilhas, a Rockhopper Exploration,
anunciou que havia encontrado petróleo em
quantidades comerciais. A empresa firmou
uma parceria com outra grande empresa
britânica de igual importância, a Premier Oil,
que estava preparada para investir £600 milhões
na exploração comercial. Atualmente, o plano
é armazenar o petróleo extraído do mar em um
navio-tanque de grandes proporções, que atuará
como tanque flutuante a partir do qual naviostanques menores transportarão as cargas para o
mercado internacional. Espera-se que o “primeiro
petróleo” seja obtido em 2017.
Enquanto isso, nos bancos mais profundos do
sul, a empresa de exploração Falkland Oil and Gas
havia firmado um acordo não convencional com a
Noble Energy para fundar um programa promissor
de perfuração e exploração sísmica.
Comunicações e turismo
As ligações das Ilhas com o mundo externo
foram transformadas pelo Conflito. A abertura
do aeroporto de Mount Pleasant, em 1985,
possibilitou o acesso de aviões de grande porte
às Ilhas, de modo que, embora os primeiros voos
tenham sido realizados por aviões Tristar da Força
Aérea Real, com capacidade limitada para civis, os
voos passaram a ser operados por companhias
charter recentemente. Além disso, existe uma
conexão aérea com o sul do Chile há mais de vinte
anos, operado semanalmente pela empresa aérea
nacional do Chile, a LAN.
Após a década de 1970, quando toda a rede
de transporte aéreo estava nas mãos da Argentina
e os habitantes das Ilhas não tinham permissão
para viajar com seus passaportes britânicos,
surgiu uma relutância compreensível em relação
a depender da Argentina como fonte de conexão
com o mundo externo. Em 2003, a Argentina
proibiu que aeronaves privadas viajando rumo
às Ilhas sobrevoassem o seu território, o que
tornou praticamente impossível o transporte de
passageiros para Stanley por parte das empresas
aéreas comerciais. Vez ou outra, a Argentina solta
ameaças referentes aos voos que passam pelo
Chile, motivo pelo qual, em 1999, após a prisão
do General Pinochet no ano anterior, o serviço foi
temporariamente suspenso. Porém, o serviço foi
retomado quando a crise passou, após um acordo
anglo-argentino de acesso aéreo, assinado em
julho de 1999, que previa uma conferência mensal
na cidade de Rio Gallegos, no sul da Argentina.
O turismo ainda é uma indústria recente nas
Ilhas. O número de turistas que pernoitam nas
Falklands ainda é relativamente pequeno: cerca
de 1.500 por ano. As acomodações são limitadas
e os fazendeiros do Campo trabalham bastante
durante o verão. Ainda assim, para esses turistas
“do continente”, as Falklands representam uma
experiência inesquecível. Sua beleza natural, com
céus, mares e pastos abertos, é intensificada pela
claridade da luz e a pureza das cores, resultantes de
uma atmosfera sem poluição. A vida selvagem é
excepcional, a pesca é excelente e a hospitalidade
dos habitantes das Ilhas é calorosa e genuína.
A maioria dos turistas chega às Ilhas em navios;
HAROLD ROWLANDS
secretário financeiro
Harold Rowlands nasceu em Stanley, em 1931,
e viveu sua vida inteira em uma casa na beira
do mar construída pelo seu avô, um navegador
sueco que naufragou nas Ilhas Falkland, em
1860. Ingressou no banco estatal de Tesouro
e Poupança em 1948, chegando, por meio
de muito trabalho, além de sua aptidão para
a área de contabilidade, ao cargo máximo de
secretário financeiro e comissário de impostos. A
partir de 1974, todas as notas vinham com a sua
assinatura; inclusive, conta-se que, certa vez, foi
preso sem seu passaporte na Argentina durante
o governo da junta, mas convenceu a polícia de
que era quem alegava ser autografando uma
nota de cinco libras.
Durante a invasão argentina de 1982,
Rowlands tornou-se o funcionário público
mais antigo após a expulsão dos funcionários
britânicos. Ajudou a guiar os habitantes das
Ilhas pelos perigos da ocupação e resistiu várias
tentativas de intrusão no tesouro e na poupança.
Obstruiu a introdução do Peso, inflacionado à
época (com taxa de câmbio de 20.000 pesos para
uma libra), dizendo aos argentinos que estava
“velho demais para começar a pensar em tantos
zeros”.
Após o conflito, foi escolhido para conceder
a Liberdade das Ilhas Falkland à Primeira-Ministra
Margaret Thatcher durante sua visita, em 1983.
O orçamento das Falklands, de pouco mais de
meio milhão de libras quando assumiu o cargo,
aumentou para mais de £30 milhões quando se
aposentou, em 1989. Em seguida, foi eleito para o
conselho legislativo, servindo por mais quatro anos.
Reconhecido como um homem bem-humorado,
trabalhador e de bom coração e integridade
absoluta, recebeu o título de Comandante do
Império Britânico (CBE – Commander of the British
Empire) em 1988. Morreu em Stanley, em 2004.
CONCLUSÃO
A PESCA DE LULAS
Antes de 1982, a quantidade de lulas no sul
do Atlântico e o seu valor econômico eram
desconhecidos. Desde a abertura da Zona
Provisória de Conservação das Falklands, em
1987, duas espécies bastante diferentes de lula
foram encontradas nas águas das Ilhas Falkland.
A lula Illex migra para o sul através das
águas argentinas e do mar aberto. Atinge os
bancos de alimento nas águas das Falklands
de março a maio, antes de desovar nas águas
profundas. São pescadas por meio de iscas
artificiais, içadas na direção das luzes
brilhantes dos barcos de pesca. Depois de
capturadas, as lulas são congeladas e vendidas
na Ásia e na Europa. Dentre os animais pescados
ao redor das Falklands, cerca da metade é
composta por lulas Illex, mas suas quantidades
são instáveis e os lucros resultantes de sua
captura variam.
A lula Loligo (agora Doryteuthis gahi) desova
ao redor das Ilhas, com números que chegam à
metade da população de lulas Illex. São pescadas
por meio de redes e exportadas principalmente
para a Espanha, onde são embaladas como
“lula calamari” e vendidas em toda a Europa.
As empresas das Falklands, geralmente em
parceria com as espanholas, atuam bastante nessa
modalidade de pesca.
Vários peixes de barbatana também são
pescados na zona de conservação: bacalhau,
merluza e a valiosa merluza-negra.
As áreas de pesca de lula são voláteis, motivo
pelo qual os cardumes são cuidadosamente
monitorados pelos cientistas do Departamento de
Pesca, e a pesca em si é controlada de perto por
observadores a bordo dos barcos, aviões e navios
de patrulha. Se necessário, as áreas de pesca
podem ser fechadas com antecedência. O sucesso
da pesca de lulas transformou as Ilhas Falkland,
sendo que as taxas de acesso às áreas de pesca
são responsáveis por quase 44% da renda do
governo.
em anos movimentados, o número de turistas que
visitam Stanley pode chegar a 50.000. Além das
atrações da cidade, como a catedral, o museu e os
bares, vários turistas fazem passeios de Land Rover
até as praias de pinguins ou as fazendas, onde
podem ver cães pastores em ação, presenciar a
tosa de ovelhas e andar a cavalo. A impressão que
muitos dos turistas guardam de Stanley é a de
uma cidade muito britânica, limpa, arrumada e
tranquila, em contraste com as cidades maiores e
mais movimentadas do continente.
Os anos após a Libertação também
testemunharam uma modernização completa
das telecomunicações nas Ilhas. A empresa Cable
and Wireless cuida das comunicações por meio
de um acordo com o governo. Uma antena
parabólica foi inaugurada em 1983, possibilitando
que os habitantes das Ilhas desfrutassem de
uma ligação excelente com o resto do mundo,
embora as conexões com a Internet ainda
sejam relativamente lentas. Os celulares foram
introduzidos em 2005. A maioria dos povoados do
Campo adotaram a energia eólica, e atualmente,
seis turbinas perto de Stanley fornecem mais de
um terço da energia consumida na capital.
A televisão também chegou após a
Libertação. No princípio, a população das Ilhas
contava com o Serviço de Transmissão das Forças
Britânicas, que fornecia sinais de televisão para a
tropa, mas um engenheiro empreendedor, Mario
Zuvic, organizou um serviço de transmissão via
satélite para Stanley. Em 2011, a Televisão das Ilhas
Falkland realizou sua primeira transmissão.
O serviço de rádio, inaugurado na década
de 1930, continua a funcionar após uma façanha
épica, em 1982, quando Patrick Watts, o diretor
da estação, conduziu uma transmissão na noite
da invasão, recebendo relatos de todas as partes
de Stanley. O serviço teve seu nome alterado de
Serviço de Transmissão das Ilhas Falkland (FIBS –
Falkland Islands Broadcasting Service) para Serviço
de Rádio das Ilhas Falkland, para evitar a abreviação
irônica (“fibs”, em inglês, significa “mentiras tolas,
sem importância”).
O único jornal das Ilhas, o Penguin News, foi
fundado em 1979, começando como um boletim
informativo escrito por Graham Bound. Seu futuro
foi garantido uma década mais tarde, quando foi
adquirido pelo Fundo de Imprensa, um órgão
voluntário fundado pelo governo. Atualmente, o
Penguin News produz um jornal impresso de 24
páginas, contando com escritores entusiasmados,
sendo reconhecido como a voz autêntica das
Ilhas e citado com frequência por outros veículos
de notícias. Possui a sua própria página: www.
penguin-news.com.
Nos últimos 180 anos, através nove gerações de habitantes das Falklands, as Ilhas mudaram drasticamente. Hoje, não são
mais uma colônia do Reino Unido; somos um Território Britânico Ultramarino, um status que mantemos por escolha própria.
A nossa relação é moderna, baseada em valores compartilhados e no direito mais fundamental de todos: o direito do povo
de determinar o seu próprio futuro. O nosso governo é independente, com exceção da defesa e dos assuntos internacionais.
A população elege democraticamente os membros da nossa Assembleia Legislativa; somos escolhidos pelo povo das Ilhas
Falkland para representá-lo, bem como para determinar e administrar as nossas próprias políticas e leis.
Somos economicamente autossuficientes, exceto pelas despesas de defesa. Por meio dos nossos próprios esforços, a nossa
economia permite-nos gozar de excelentes serviços de saúde e educação, sendo que os habitantes das Ilhas estudam para
os exames de conclusão do ensino secundário e ingressam em universidades no exterior, tendo suas despesas pagas pelo
Governo das Ilhas Falkland. Uma prova do forte laço que os nossos jovens têm com sua terra natal é o fato de que muitos deles
voltam para casa quando se formam, trazendo consigo habilidades, experiência e um novo dinamismo que ajudarão a garantir
o futuro das próximas gerações.
O nosso meio ambiente é o nosso lar e a nossa fonte de sobrevivência; portanto, valorizamos e preservamos os nossos
recursos de forma sustentável e responsável. As práticas dos nossos fazendeiros são, em sua maioria, orgânicas, a nossa
indústria de ecoturismo é famosa em todo o mundo, as nossas zonas de pesca são elogiadas internacionalmente por sua
gestão responsável e sustentabilidade, e a nossa indústria de petróleo, ainda em desenvolvimento, é administrada pelo nosso
próprio governo e regulada de acordo com os mais altos padrões ambientais.
Somos um povo orgulhoso, inovador e trabalhador. Temos muito a oferecer, desejando apenas manter uma relação de
cooperação com todos os nossos vizinhos, para o benefício de todos. Esperamos que, em um mundo moderno e progressivo,
possamos viver em paz e construir o nosso próprio futuro como quisermos.
Através de um governo próprio, autossuficiência, gestão responsável dos nossos recursos e uma comunidade próspera,
orgulhosa e progressiva, temos um excelente futuro adiante.
D
L
K
N
FA
S
A Assembleia Legislativa das Ilhas Falkland
A
LA
ND ISL
Steeple
Jason
Grand
Jason
Pebble Is.
Cape Dolphin
Carcass Is.
Saunders Is.
West Point Is.
Keppel Is.
Dunbar
Port
Howard
KING
GEORGE
BAY
S
Little
Chartres
O
U
Saladero
BERKELEY SOUND
N
A
CHOISEUL SOUND
LAFONIA
Fox Bay (E)
Walker
Creek
Great
Is.
North
Arm
Port
Stephens
Bleaker Is.
Speedwell Is.
Albemarle
George Is.
Barren Is.
Bull Point
Sea Lion Is.
Bertha’s
Beach
Lively Is.
Cape
Pembroke
Stanley
Fitzroy
Darwin
Goose
Green
L
Port Edgar
Bluff
Cove
Mount Pleasant
Airport
New Haven
F A
L K
Fox Bay (W)
Cape Meredith
Long Island
D
Chartres
Weddell Is.
South
Harbour
Volunteer
Point
Murrell
QUEEN
CHARLOTTE
BAY
Beaver Is.
Johnson’s
Harbour
Teal Inlet
San Carlos
D
Dunnose Head
Shallow
Harbour
Spring Point
New Is.
Salvador
Douglas
Station
Port Louis
Roy Cove
N
Passage Is.
Port
San Carlos
Shallow
Bay
Hill Cove
West Falkland
Cape Bougainville
East Falkland
S
D
L
N
FA
K
A
LA
ND ISL
Produzido em nome do Governo das Ilhas Falkland.
Agradecimentos a Robert Headland, Hugh Osborne, John Barton, Joan Spruce, Sally Blake,
Sukey Cameron, Leona Roberts, Tansy Bishop, Patrick Watts, Jan Cheek, Gerald Cheek,
Chris Bradley, Jenny Cockwell e David Tatham.
Agradecemos, também, ao Fundo Nacional e Museu das Ilhas Falkland, à Biblioteca Britânica (pág. 3: Boutflower),
ao Museu Marítimo Nacional de Greenwich (pág. 4: Martens; pág. 6: Ross), à Galeria Nacional de Retratos de Londres
(pág. 6: Darwin; pág. 16: Terriss), ao falecido Rex Hunt, a Julie Halliday, Donald Betts, Jenny Smith, Peter Gilding, Andrea Barlow,
à Companhia das Ilhas Falkland, à Coleção de Joe King, à Coleção de John Leonard, a Gill Aldridge, Sharon Jaffray,
Pete Holdgate e Tony Chater, que contribuíram com fotografias e outras ilustrações.
As biografias resumidas presentes neste livreto são baseadas em estudos mais aprofundados do
Dicionário Biográfico das Falklands; agradecemos ao editor e aos colaboradores.

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