- Instituto O Direito por um Planeta Verde

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- Instituto O Direito por um Planeta Verde
Desde a sua fundação, em 1995, o Instituto “O Direito por um Planeta Verde” cumpre um papel fundamental no
desenvolvimento e consolidação do Direito Ambiental brasileiro. Nesse período, o Instituto teve importante participação
na elaboração das leis e normas ambientais aprovadas pelo Congresso Nacional e pelo CONAMA – Conselho Nacional
do Meio Ambiente. Reunindo renomados especialistas do país, o Instituto edita a conhecida Revista de Direito Ambiental
e realiza cursos em todas as regiões do país. Pelo seu trabalho sério e dedicação, tornou-se uma referência nacional e
internacional.
Senadora Marina Silva
Ministra do Meio Ambiente
O Instituto “O Direito por um Planeta Verde” é a maior e mais conhecida instituição jurídico-ambiental do Brasil. Integrado
por especialistas de todo o país, muitos deles professores das melhores universidades brasileiras, o Instituto em poucos
anos se transformou em ator indispensável e sempre presente nos grandes debates ambientais, tanto no Parlamento,
como na academia. Seja propondo inovações legislativas, como a Lei dos Crimes contra o Meio Ambiente de 1998, seja
opondo-se às tentativas de enfraquecimento das leis existentes, o Instituto, pela sua credibilidade científica e
acadêmica, virou ponto de apoio para todos aqueles que se preocupam com a nossa ameaçada biodiversidade.
Deputado José Sarney Filho
Ex-Ministro do Meio Ambiente
O Brasil conta hoje com uma das mais avançadas legislações ambientais do mundo. Por outro lado, publica-se mais
sobre Direito Ambiental aqui do que em todos os países da América Latina somados. Não obstante tantos avanços,
continua a degradação dos nossos recursos naturais. Nesse contexto de boa lei e cumprimento insuficiente, o trabalho
do Instituto “O Direito por um Planeta Verde” é imprescindível. Responsável por muito do que há de bom no Direito
Ambiental brasileiro, o Instituto, pela excelência de seu trabalho, sempre encontra as portas abertas por onde passa. Foi
a primeira instituição brasileira a abordar o tema da implementação ambiental. E, mais recentemente, foi também
pioneira ao iniciar um Projeto Piloto sobre indicadores de implementação ambiental. O Brasil deve muito aos membros
do Instituto “O Direito por um Planeta Verde”.
José Carlos Carvalho
Ex-Ministro do Meio Ambiente
Since it was founded in 1995, the Law for a Green Planet Institute has played a fundamental role in the development and
consolidation of Brazilian environmental law. In this period, the Institute has participated in the drafting of environmental
laws and regulations enacted by the National Congress and the National Council on the Environment. Bringing together
renowned Brazilian experts, the Institute publishes the prestigious Revista de Direito Ambiental (Journal of
Environmental Law) and conducts capacity-building programs in all regions of the country. Due to its serious and
dedicated work, the Institute has become a national and international reference in the field of Environmental Law.
Senator Marina Silva
Minister of the Environment
The Law for a Green Planet Institute is the largest and best known legal-environmental think tank in Brazil. With
members from the entire country, many of them professors at leading Brazilian universities, the Institute in only a few
years has been transformed into an indispensable and always-present participant in the great environmental debates of
our country, as often in Parliament as in the academy. At times proposing legislative innovations, such as the Crimes
against the Environment Act of 1998, or at times opposing efforts to weaken existing environmental laws, the Institute –
with its academic and scientific credibility – has become a resource for all those who are worried about our endangered
biodiversity.
Deputy José Sarney Filho
Former Minister of the Environment
Brazil today has some of the most advanced environmental legislation in the world. And we publish more on
Environmental Law than in all the countries of Latin America combined. Despite such progress, the degradation of our
natural resources continues. In this context of good law and insufficient implementation, the work of the Law for a Green
Planet Institute is crucial. Responsible for much of what is good about Brazilian environmental law, the Institute, because
of its excellent reputation, always finds doors open to it. “Green Planet” was the first Brazilian institution to study the
theme of implementation of environmental legislation. And, more recently, it was again a pioneer in initiating a Pilot
Project on environmental compliance and enforcement indicators. Brazil owes much to the members of the Law for a
Green Planet Institute.
José Carlos Carvalho
Former Minister of the Environment
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Criação de Capa: Armando de Lima Sardinha
Imagem da Capa: Clayton Ferreira Lino
Cover Designer: Armando de Lima Sardinha
Cover Image: Clayton Ferreira Lino
Miolo em papel 100% reciclado (Papel Reciclato® da Suzano)
Pages printed on 100% recycled paper (Reciclato® Suzano Paper)
Coordenadores Científicos/Academic Coordinators
Antonio Herman Benjamin
Eladio Lecey
Sílvia Cappelli
Comissão de Organização do 13º Congresso Brasileiro de Direito Ambiental
Steering Commitee of the 13th Brazilian Conference on Environmental Law
Annelise Monteiro Steigleder, Daisy Engelberg, Eladio Lecey, José Carlos Meloni Sícoli,
José Eduardo Ismael Lutti, Marcia Dieguez Leuzinguer, Paulo de Tarso Siqueira Abrão,
Rogério Hetmanek, Sílvia Cappelli, Solange Teles da Silva,
Vanêsca Buzelato Prestes e/and Vera Lucia Jucovsky
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação
Biblioteca do Ministério Público do Estado de São Paulo
C76m
Congresso Internacional de Direito Ambiental (12.: 2008 : São Paulo, SP)
Mudanças climáticas, biodiversidade e uso sustentável de energia
/ coords. Antonio Herman Benjamin, Eladio Lecey, Sílvia Cappelli. – São
Paulo : Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008.
2v.
Co-patrocínio do Centro de Apoio Operacional de Urbanismo e Meio
Ambiente e Instituto “O Direito por um Planeta Verde”
Conteúdo: v.1 Conferências e teses de profissionais – v.2 Teses de
estudantes de graduação e pós graduação
Trabalhos apresentados no 12º. Congresso Internacional de Direito
Ambiental, 13º. Congresso Brasileiro de Direito Ambiental, 3º. Congresso
de Estudantes de Direito Ambiental, 3º. Congresso de Direito Ambiental
dos Países de Língua Portuguesa e Espanhola , realizados em São Paulo
nos dias 1º. a 5 de junho de 2008
1. Direito ambiental – Congresso internacional. I. Benjamin, Antonio
Herman de Vasconcelos e, coord. II. Lecey, Eladio, coord. III. Cappelli,
Sílvia, coord. IV. São Paulo (Estado) Ministério Público. Centro de Apoio
Operacional de Urbanismo e Meio Ambiente. V. Instituto “O Direito por
um Planeta Verde. VI.Título.
CDU 349.6(100)(063)
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MINISTÉRIO PÚBLICO
DO ESTADO DE SÃO PAULO
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Sustentabilidade:
o que para muitos é só um conceito
para nós é um compromisso.
Acreditamos que o bom desempenho empresarial pode levar prosperidade para todos os elos da
cadeia produtiva, para as comunidades próximas às nossas unidades industriais e florestais e para
o conjunto da sociedade.
Nossos produtos estampam o selo FSC – Forest Stewardship Council (Conselho de Manejo Florestal),
uma garantia de que têm origem em florestas plantadas de forma economicamente viável, com
práticas que respeitam o meio ambiente e as comunidades das regiões onde atuamos.
Nosso compromisso é inovar e trabalhar para as próximas gerações, buscando, no presente, contribuir
para o desenvolvimento econômico, social e ambiental do País.
Mais investimentos, mais competitividade, mais valor, com responsabilidade.
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Nos Caminhos da Biodiversidade Paulista
As preocupações com o meio ambiente, que
praticamente não existiam há 50 anos, fazem
hoje parte integrante do processo de desenvolvimento e do que se entende por “progresso”.
Países que não têm adotado esta estratégia estão pagando caro por não tê-lo feito no passado. Ao que tudo indica, o Estado de São Paulo
está num rumo promissor para compatibilizar a
proteção ao meio ambiente com o rápido crescimento econômico. E é esse o propósito do
livro: permitir que os paulistas – assim como
todos os brasileiros – conheçam um pouco melhor como se deu a difícil interação entre homem e natureza nesse pedaço especial do país e com isso
desanuviem a visão para enfrentar os desafios que o futuro já nos apresenta.
É fácil comprar seu livro
Mais Informações
5013 5108 | 5109 | Grande São Paulo
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11
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AGRADECIMENTOS
O Instituto “O Direito por um Planeta Verde” agradece à Procuradoria-Geral
de Justiça de São Paulo pelo apoio inestimável ao 12º Congresso Internacional de
Direito Ambiental, fazendo-o nas pessoas dos doutores Fernando Grella Vieira (Procurador-Geral de Justiça), Paulo Hideo Shimizu, Walter Paulo Sabella, Wilson Alencar Dores, Vânia Maria Ruffini Penteado Balera e Cristina Godoy de Araújo Freitas.
Outras pessoas e instituições contribuíram, decisivamente, para o sucesso do
evento, cabendo em especial lembrar:
Governo do Estado de São Paulo (José Serra, Luiz Antonio Guimarães Marrey
e Aloysio Nunes Ferreira Filho)
Superior Tribunal de Justiça (Min. Humberto Gomes de Barros, Min. Cesar Asfor
Rocha e Min. Gilson Langaro Dipp)
Ministério da Justiça (Tarso Genro)
Ministério do Meio Ambiente (Marina Silva, João Paulo Capobianco, Luiz
Fernando Villares e Silva e André Lima)
Procuradoria Geral da República (Antonio Fernando Barros e Silva de Souza
e Sandra Cureau)
PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Cristina
Montenegro e Andrea Brusco)
UICN (Sheila Abed e Alejandro Iza)
INECE (Durwood Zaelke e Kenneth J. Markowitz)
CONAMA (Nilo Sérgio de Melo Diniz)
MOA – Fundação Mokiti Okada (Tetsuo Watanabe, Hidenari Hayashi, Rubens
Manzalli, Hajime Tanaka, Agner Bastoni, Fernando Augusto de Souza, Yoshiro
Nagae, Luis Fernando dos Reis, Edson Matsui, Erisson Thompson de Lima Jr.,
Martin Hirai, Yugi Yaginuma, Rosana Cavalcanti e Alessandra Kobayashi)
Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo (Francisco Graziano Neto
e Pedro Ubiratan Escorel de Azevedo)
Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo (Alberto José Macedo Filho,
Marisa Nittolo Costa, Franscisca Tié Sumita, João Paulo Feijão Teixeira e Antonio
Batista Filho)
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Professor Hubert Alquéres, Professora
Vera Lucia Wey, Teiji Tomioka, Edemar Viotto Junior, Manoel Carlos de Oliveira
Novaes, Nanci Roberta da Silva, Alexandra Bernardi Arouca, Fernanda Barbarini,
Maria de Fátima Alves Consales, Marli Santos de Jesus, Vanessa Merizzi, Teresa
Lucinda F. Andrade e Solange Aparecida Couto Brianti)
Consulado-Geral dos Estados Unidos em São Paulo (Lisa Helling, Laura Gould,
Cezar Borsa e Eva Reichmann)
Conselho Nacional de Procuradores-Gerais de Justiça (Marfan Martins Vieira)
AJUFE – Associação dos Juízes Federais do Brasil (Walter Nunes da Silva Júnior
e Fernando Mattos)
AMB – Associação dos Magistrados Brasileiros (Rodrigo Collaço e Airton Mozart
Valadares Pires)
ANPR – Associação Nacional dos Procuradores da República (Antonio Carlos
Alpino Bigonha)
CONAMP – Associação Nacional dos Membros do Ministério Público (José
Carlos Cosenzo)
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ABRAMPA – Associação Brasileira do Ministério Público e Meio Ambiente
(Jarbas Soares Junior)
Associação Paulista do Ministério Público (Washington Epaminondas Medeiros)
Escola Nacional da Magistratura (Luiz Felipe Salomão)
Escola Superior do Ministério Público da União (Rodrigo Janot Monteiro de Barros)
Procuradoria Geral do Município do Rio de Janeiro (Júlio Horta e Arlindo
Daibert Neto)
Procuradoria-Geral do Trabalho (Otavio Brito Lopes)
Procuradoria-Geral de Justiça do Rio Grande do Sul (Mauro Henrique Renner
e Anízio Pires Gavião Filho)
Procuradoria-Geral de Justiça de Minas Gerais (Jarbas Soares Junior)
Procuradoria-Geral de Justiça do Estado de Pernambuco (Paulo Bartolomeu
Rodrigues Varejão)
Procuradoria-Geral de Justiça do Estado do Acre (Edmar Azevedo Monteiro Filho
e Patricia de Amorin Rêgo)
Fundação Escola Superior do Ministério Público do Rio Grande do Sul
(Luiz Fernando Calil de Freitas)
Divisão de Desenvolvimento Sustentável e Assentamentos Humanos da CEPAL /ONU
CNI – Confederação Nacional das Indústrias (Maurício Mendonça, Armando
Monteiro Neto e Grace Dalla Pria)
Companhia Suzano de Papel e Celulose (Luiz Cesar Pizzotti, Edivaldo Eduardo
dos Santos e José Francsico Pinto Amaral)
Caixa Econômica Federal (Antonio Carlos Ferreira)
University of Texas School of Law (William Powers, Lawrence Sager, Mechele
Dickerson e Jolyn Piercy)
Escola Paulista da Magistratura (Desembargador Antonio Rulli Junior)
Escola Superior do Ministério Público de São Paulo (Nelson Gonzaga de Oliveira)
Escola Superior da Magistratura do Rio Grande do Sul (Desembargadora Iris
Helena Medeiros Nogueira e Plínio Caminha de Azevedo)
Procuradoria Geral do Município de Porto Alegre (Mercedes Maria de Moraes
Rodrigues)
FIESP – Federação das Indústrias de São Paulo (Nelson Pereira dos Reis e Anicia
Baptistella Pio)
ANVISA – Agencia Nacional de Vigilancia Sanitária (Luiz Claudio Meirelles e
Leticia Rodrigues da Silva)
Editora Revista dos Tribunais (Antonio Bellinello, Carlos Henrique de Carvalho
Filho, Nívia Rocha e Roseli Cavalcanti)
Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS (Claudia Lima Marques)
Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ (Ricardo Vieiralves)
BRASILCON – Instituto Brasileiro de Política e Direito do Consumidor
(Leornardo Bessa)
GERDAU (Erico Sommer, Rogério Forster e Vera Martini Wanner)
Polícia Militar Ambiental do Estado de São Paulo (Cel PM Ronaldo Ramos,
Cap. PM Walter Nyakas Júnior e Ten. PM Marcelo Robis Francisco Nassaro)
Rede Accor de Hotéis (Gustavo Syllos, Evellyn Nastasi e Lais Almeida)
TAM Linhas Aéreas (Laura Malz e Illan Gomes de Oliveira)
TAM Viagens (Sylvio Ferraz e Anne Kiefer)
INPEV – Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (Rafaella
Antici e Gisele Góes)
Fundação AVINA (Miguel Milano)
Toyota do Brasil Ltda (Edson Orikassa)
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SPECIAL THANKS
The Law for a Green Planet Institute would like to thank the Office of the Attorney
General of São Paulo for its extraordinary support for the 12th International Conference
on Environmental Law, and especially express its gratitude to Fernando Grella Vieira
(Attorney General), Paulo Hideo Shimizu, Walter Paulo Sabella, Wilson Alencar Dores,
Vânia Maria Ruffini Penteado Balera, and Cristina Godoy de Araújo Freitas.
Other institutions and individuals contributed immensely to the success of the
Conference and deserve to be mentioned:
The Governor’s Office of the State of São Paulo (Governor José Serra, Luiz Antonio
Guimarães Marrey, Secretary of Justice, and Aloysio Nunes Ferreira Filho, Secretary-Chief
of Staff)
The High Court of Brazil (Chief-Justice Humberto Gomes de Barros, Justice Francisco
Cesar Asfor Rocha and Justice Gilson Langaro Dipp)
The Ministry of Justice of Brazil (Minister Tarso Genro)
The Ministry of the Environment of Brazil (Minister Marina Silva, João Paulo
Capobianco, Luiz Fernando Villares e Silva and André Lima)
The Federal Office of the Attorney General (Antonio Fernando Barros e Silva
de Souza, Attorney General, and Sandra Cureau)
UNEP – The United Nations Environment Programme (Cristina Montenegro
and Andrea Brusco)
IUCN – The Environmental Law Programme (Sheila Abed and Alejandro Iza)
INECE – The International Network for Environmental Compliance and
Enforcement (Durwood Zaelke and Kenneth J. Markowitz)
CONAMA – The National Environmental Council (Nilo Sérgio de Melo Diniz)
MOA – The Mokiti Okada Foundation (Tetsuo Watanabe, Hidenari Hayashi, Rubens
Manzalli, Hajime Tanaka, Agner Bastoni, Fernando Augusto de Souza, Yoshiro Nagae,
Luis Fernando dos Reis, Edson Matsui, Erisson Thompson de Lima Jr., Martin Hirai,
Yugi Yaginuma, Rosana Cavalcanti and Alessandra Kobayashi)
The Secretariat of the Environment of the State of São Paulo (Secretary Francisco
Graziano Neto and Pedro Ubiratan Escorel de Azevedo)
The Secretariat of Agriculture of the State of São Paulo (Alberto José Macedo Filho,
Marisa Nittolo Costa, Franscisca Tié Sumita, João Paulo Feijão Teixeira and Antonio
Batista Filho)
The Official Press of the State of São Paulo (Professor Hubert Alquéres, Professor
Vera Lucia Wey, Teiji Tomioka, Edemar Viotto Junior, Manoel Carlos de Oliveira
Novaes, Nanci Roberta da Silva, Alexandra Bernardi Arouca, Fernanda Barbarini, Maria
de Fátima Alves Consales, Marli Santos de Jesus, Vanessa Merizzi, Teresa Lucinda F.
Andrade and Solange Aparecida Couto Brianti)
The Consulate General of the United States in São Paulo (Lisa Helling, Laura Gould,
Cezar Borsa and Eva Reichmann)
The National Association of Attorneys General (Marfan Martins Vieira, Attorney
General of the State of Rio de Janeiro)
AJUFE – The National Association of Federal Judges (Walter Nunes da Silva Júnior
and Fernando Mattos)
AMB – The Brazilian Association of State Judges (Rodrigo Collaço and Airton
Mozart Valadares Pires)
ANPR – The National Association of Federal Public Prosecutors (Antonio Carlos
Alpino Bigonha)
CONAMP – The Brazilian Association of Public Prosecutors (José Carlos Cosenzo)
ABRAMPA – The Brazilian Association of Environmental Public Prosecutors
(Jarbas Soares Junior, Attorney General of the State of Minas Gerais)
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The Association of Public Prosecutors of the State of São Paulo (Washington
Epaminondas Medeiros)
The National Judicial School (Dean Luiz Felipe Salomão)
The Brazilian School of Federal Public Prosecutors (Dean Rodrigo Janot Monteiro
de Barros)
The Office of the Attorney General of the City of Rio de Janeiro (Júlio Horta and
Arlindo Daibert Neto)
The Office of the Federal Attorney General for Labor Affairs (Otavio Brito Lopes)
The Office of the Attorney General of the State of Rio Grande do Sul (Mauro
Henrique Renner, Attorney General, and Anízio Pires Gavião Filho)
The Office of the Attorney General of the State of Minas Gerais (Jarbas Soares
Junior, Attorney General)
The Office of the Attorney General of the State of Pernambuco (Paulo Bartolomeu
Rodrigues Varejão, Attorney General)
The Office of the Attorney General of the State of Acre (Edmar Azevedo Monteiro
Filho, Attorney General, and Patricia de Amorin Rêgo)
The School of Public Prosecutors of the State of Rio Grande do Sul (Dean Luiz
Fernando Calil de Freitas)
ECLAC/United Nations
CNI – The National Confederation of Industries (Maurício Mendonça, Armando
Monteiro Neto and Graice Dalla Pria)
Suzano Bahia Sul Papel e Celulose (Luiz César Pizzotti, Edivaldo Eduardo dos Santos
and José Francisco Pinto Amaral)
Caixa Econômica Federal (Antonio Carlos Ferreira)
The University of Texas School of Law (William Powers, Lawrence Sager, Mechele
Dickerson and Jolyn Piercy)
The Judicial School of the State of São Paulo (Dean Antonio Rulli Junior)
The School of Public Prosecutors of the State of São Paulo (Dean Nelson Gonzaga
de Oliveira)
The Judicial School of the State of Rio Grande do Sul (Desembargadora Iris Helena
Medeiros Nogueira and Plínio Caminha de Azevedo)
The Office of the Chief-Legal Counsel, City of Porto Alegre (Mercedes Maria
de Moraes Rodrigues)
FIESP – The Chamber of Industries of the State of São Paulo (Nelson Pereira dos
Reis and Anicia Baptistella Pio)
ANVISA – The National Sanitary Surveillance Agency (Luiz Claudio Meirelles and
Leticia Rodrigues da Silva)
Revista dos Tribunais Publishing Company (Antonio Belinelo, Carlos Henrique
de Carvalho Filho, Nívia Rocha and Roseli Cavalcanti)
The Federal University of the State of Rio Grande do Sul – UFRGS (Professor
Claudia Lima Marques)
The State University of Rio de Janeiro – UERJ (Professor Ricardo Vieiralves)
BRASILCON – The Brazilian Consumer Law and Policy Institute (Leonardo Bessa)
GERDAU (Érico Teodoro Sommer, Rogério Forster and Vera Martini Wanner)
The Environmental Military Police of the State of São Paulo (Cel PM Ronaldo
Ramos, Cap. PM Walter Nyakas Júnior and Ten. PM Marcelo Robis Francisco Nassaro)
Accor Hotels (Gustavo Syllos, Evellyn Nastasi and Lais Almeida)
TAM Airlines (Laura Malz and Illan Gomes Oliveira)
TAM Tourism Operator (Sylvio Ferraz and Anne Kiefer)
INPEV (Rafaella Antici and Gisele Góes)
AVINA (Miguel Milano)
Toyota – Brazil (Edson Orikassa)
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MINISTRO SEPÚLVEDA PERTENCE:
A CONSCIÊNCIA SOCIAL DA JUSTIÇA BRASILEIRA
José Paulo Sepúlveda Pertence, nascido na cidade de Sabará, Minas Gerais, foi ministro do Supremo
Tribunal Federal, de 1989 a 2007. Estudante brilhante
em sua época de Faculdade de Direito, na Universidade Federal de Minas Gerais, participou ativamente,
naquele período, do movimento estudantil, ocupando
cargo de direção na União Nacional de Estudantes.
Professor de Teoria Geral do Direito Público
na Universidade de Brasília, em 1965 foi demitido
sumariamente por pressão do regime militar. Com a
radicalização da ditadura, em 1969, a Junta Militar,
com base no Ato Institucional nº 5, o aposentou, de
forma compulsória, do cargo de membro do Ministério Público do Distrito Federal, para o qual havia sido aprovado em primeiro lugar.
Democratizado o País, foi nomeado Procurador-Geral da República em 1985.
O Ministro Sepúlveda Pertence marcou sua carreira – como professor, advogado, membro do Ministério Público e juiz – pela sua extraordinária sensibilidade
à posição dos vulneráveis no nosso ordenamento jurídico. Mais do que com tudo,
preocupava-se, no período em que integrou o STF, com a efetividade das normas que,
na Constituição de 1988, garantem direitos sociais.
No campo ambiental, o Ministro Sepúlveda Pertence foi sempre uma voz moderna, corajosa e equilibrada nos grandes debates travados no STF sobre a proteção
das florestas, da fauna e, em tudo, da biodiversidade brasileira.
Se um dia, no futuro, nossos descendentes concluírem que a nossa geração teve
algum êxito na tentativa de interromper 500 anos de tradição de exploração predatória dos recursos naturais da Nação, certamente reconhecerão no Ministro Sepúlveda
Pertence um dos artífices, no Judiciário e fora dele, dessa transformação de corações e
mentes. Essa, a dívida de gratidão que todos nós, os de hoje e de amanhã, temos com
o Ministro Sepúlveda Pertence.
O intuito dessa singela homenagem, prestada pelos professores e especialistas
de Direito Ambiental nacionais e estrangeiros, é dividir com a família do Ministro
Sepúlveda Pertence – sua esposa, Suely, e seus filhos, Pedro Paulo, Evandro e Eduardo
José – a nossa admiração por um jurista que nunca esqueceu o grito dos excluídos,
seja quando lecionava o Direito, seja quando aplicava o Direito. E, na América Latina,
todos sabem, o meio ambiente é um desses excluídos.
ANTONIO HERMAN BENJAMIN
Ministro do Superior Tribunal de Justiça
Coordenador-Acadêmico, 12o Congresso Internacional
ELADIO LECEY
Diretor, Escola Brasileira de Direito e Política Ambiental
SHEILA ABED (IUCN/UICN)
Presidente, Comissão de Direito Ambiental da UICN
SÍLVIA CAPPELLI
Presidente, Instituto “O Direito por um Planeta Verde”
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JUSTICE SEPÚLVEDA PERTENCE: THE SOCIAL
CONSCIENCE OF THE BRAZILIAN JUDICIARY
José Paulo Sepúlveda Pertence, born in the city
of Sabará, State of Minas Gerais, was a member of
the Constitutional Court of Brazil (STF) from 1989 to
2007. He was a brilliant student during his years in the
Federal University of Minas Gerais Law School, and
actively participated in the student movement, playing
an important role in the leadership of the National
Student Union (UNE).
The military regime summarily removed him
from his Professorship at the University of Brasilia in
1965, where he taught General Theory of Public Law.
The dictatorship continued to radicalize, and in 1969 the
Military Junta forcibly retired him from the Office of the
Attorney General of the Federal District (Brasília) under the Institutional Act number 5.
In 1985, with the country turning to democracy, he was named Attorney General
of Brazil. Justice Sepúlveda Pertence’s career was marked – as professor, private
attorney, public prosecutor, and judge – by an extraordinary sensibility towards the
weaker party. Above all, during the period in which he served on the Constitutional
Court, he was most concerned with implementing the 1988 Constitutional social
rights.
In the environmental area, Justice Sepúlveda Pertence was always a modern,
courageous, and balanced voice in the great debates within the Constitutional Court,
when the protection of forests, fauna, and above all, the Brazilian biodiversity were
at risk. If one day in the future our descendants were to conclude that our present
management of the environment were at all successful in its attempt to interrupt a 500
year tradition of predatory extraction of the Nation’s natural resources, they would
certainly recognize Justice Sepúlveda Pertence as one of the prime defenders of the
environment, and a key factor in it’s preservation. This is the debt of gratitude that all
of us, today and tomorrow, owe Justice Sepúlveda Pertence.
The goal of this modest homage by national and international professors and
specialists of Environmental Law is to spread among the family of Justice Sepúlveda
Pertence – his wife, Suely, and their sons, Pedro Paulo, Evandro and Eduardo José –
our admiration for a judge who never forgot the weaker, the excluded, and the ones
who could not speak: a judge who championed one of the most excluded of all Latin
America resources: the environment.
ANTONIO HERMAN BENJAMIN
Justice, High Court of Brazil (STJ)
ELADIO LECEY
Director, Brazilian School of Environmental Law and Policy
SHEILA ABED
President, Commission on Environmental Law, IUCN/UICN
SÍLVIA CAPPELLI
President, Law for a Green Planet Institute
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CARTA DE SÃO PAULO
11º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
SÃO PAULO, 27 DE MAIO A 1º DE JUNHO DE 2007
ACESSO À JUSTIÇA E À INFORMAÇÃO: A PARTICIPAÇÃO
POPULAR NOS PROCESSOS DECISÓRIOS E POLÍTICAS
PÚBLICAS AMBIENTAIS
1. O acesso à informação precisa e de qualidade é pressuposto para a existência de maior participação popular nos processos que envolvam questões ambientais, o que lhes atribui maior legitimidade e sustentabilidade.
O reflexo teleológico da concretização desse direito contribui para realização de justiça social.
2. Parcela significativa da sociedade exerce o seu direito de cidadania por
meio de associações civis e organizações não-governamentais (ONGs),
as quais possuem legitimidade para demandar, na medida em que representam interesses de uma coletividade. Assim, tais entidades desempenham papel relevante e contribuem para o acesso à justiça.
3. Faz-se necessária a construção de novos meios de acessibilidade do cidadão (e o aperfeiçoamento dos já existentes) aos processos de implementação de políticas públicas, de forma a valorizar sua participação
direta como protagonista de decisões ambientais para a adequada tutela
do meio ambiente.
4. Para conferir eficácia à Política Nacional do Meio Ambiente, é indispensável
uma unificação e integração entre os órgãos responsáveis pela proteção e qualidade ambientais, pensando-se de forma global, porém atuando nas esferas
locais.
5. A participação popular efetiva é imprescindível para a concretização do
direito fundamental ao meio ambiente.
PAGAMENTO PELOS SERVIÇOS ECOLÓGICOS
OU SERVIÇOS AMBIENTAIS
1. O pagamento pelos serviços ecológicos ou serviços ambientais consiste, sucintamente, na instituição e distribuição de benefícios econômicos
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como meio de compelir/incentivar as pessoas a promoverem ações em
prol da preservação e qualidade ambiental, dentre elas o manejo sustentável dos recursos naturais e a criação de Reservas Legais.
2. Um dos principais estímulos à conservação da cobertura vegetal é a atribuição de valor econômico à floresta nativa existente em espaços privados, como forma de contrapor as atividades agropecuárias, as quais são
as maiores responsáveis pela supressão da mata.
3. O pagamento de serviços ambientais possui duas finalidades: a) conscientizar a sociedade da importância dos serviços ambientais prestados
pela própria natureza, demonstrando os custos de sua substituição por
tecnologias criadas pelo homem; e b) conscientizar grandes empresas poluidoras e proprietários rurais que a proteção ambiental também pode ser
um aspecto relativamente lucrativo de seus negócios.
4. Para que as ações sejam concretamente benéficas ao ambiente, é necessária a implantação de programas de educação ambiental, com vistas à
tomada de consciência das pessoas, principalmente dos potenciais poluidores, acerca dos benefícios advindos dos serviços ambientais gratuitamente prestados pela natureza preservada.
TRATADOS INTERNACIONAIS SOBRE MEIO
AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL:
A INTERNALIZAÇÃO LEGISLATIVA
1. Tendo em conta que o meio ambiente equilibrado é bem comum de todos
os cidadãos do planeta, não respeitando as fronteiras humanamente impostas, e o fato de que as lesões e seus efeitos nocivos são ampliados a
esfera global, nasceram os tratados internacionais sobre meio ambiente e
desenvolvimento sustentável, desprovidos de obrigatoriedade e sustentados pela diplomacia entre as nações.
2. Constata-se que a internalização dos tratados internacionais de defesa do
meio ambiente não está acontecendo, uma vez que não há obrigatoriedade de
os países ratificadores promoverem a adequação legislativa. Nesse sentido,
impõe-se a necessidade de instituir responsabilidades e penalidades a esses
países, exigindo a adequação efetiva de suas leis às diretrizes do tratado a que
estão vinculados.
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ÁREAS DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE E
RESERVA LEGAL: MAPEAMENTO E TUTELA
1. A legislação protetiva das Áreas de Preservação Permanente - APPs
encontra dificuldades relativas à eficácia normativa em decorrência das
dificuldades financeiras e de pessoal enfrentadas pelos órgãos ambientais responsáveis pelo seu monitoramento. A ocupação humana cresce
geometricamente e desordenadamente em relação à disponibilidade de
pessoas capacitadas a exercer a fiscalização das APPs.
2. Frente a tais dificuldades e considerando que, em geral, essas áreas são
constituídas por grandes extensões territoriais, propõe-se sua delimitação
automática, através de um sistema moderno de mapeamento por satélite,
o que permitirá identificar precisamente os locais em que o uso da terra é
legalmente permitido e, por outro lado, proporcionará maior efetividade
na proteção da biodiversidade existente nessas áreas.
3. No tocante à tutela penal das APPs, a imprecisão e a amplitude da redação dos tipos trazidos pela Lei 9.605/98 trazem dificuldades à aplicação
da lei, o que, conseqüentemente, compromete sua eficácia.
A INTERVENÇÃO NAS ÁREAS DE PRESERVAÇÃO
PERMANENTE E A REGULARIZAÇÃO
FUNDIÁRIA SUSTENTÁVEL
1. A Resolução CONAMA 369/2006, ao elencar os casos excepcionais que
autorizam a intervenção nas APPs, delimitou satisfatoriamente os conceitos de “interesse social” e de “utilidade pública”. Deixou de fazê-lo
com relação ao termo “baixo impacto ambiental”, abrindo espaço para
que os Estados e Municípios especifiquem tal conceito, adequando-o às
suas regionalidades. Por outro lado, cumpre destacar que os conceitos
ambientais indeterminados nem sempre são benéficos às suas finalidades, uma vez que podem dificultar o controle jurisdicional dos atos administrativos..
2. A supressão ou a utilização da APP, mesmo quando autorizada, configura
dano ambiental, porquanto é lesiva às suas funções biológicas, de modo
que o dano deverá ser compensado, através de medidas ecológicas que
propiciem a recuperação da capacidade funcional da área degradada.
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3. A ocupação irregular das APPs decorre muitas vezes da falta de conhecimento e fiscalização dos órgãos competentes e, também, de políticas
públicas que tenham por finalidade organizar o processo de urbanização
das cidades. A realidade histórico-fática brasileira acaba por legitimar a
regularização fundiária dessas áreas, como meio de reconhecer cidadania àqueles que a ocuparam desordenadamente.
4. Impõe-se que as medidas de regularização fundiária sustentável, previstas na Resolução CONAMA 369/2006, estejam acompanhadas de
investimentos que previnam novas ocupações em áreas já degradadas,
bem como a ocupação de APPs remanescentes, consoante art. 9º, §5º,
da referida Resolução. Destaque-se que os danos a esses ambientes não
decorrem apenas das ações de classes sociais economicamente desfavorecidas; são provocados também por empreendimentos de alto poder
aquisitivo, o que demonstra a necessidade de programas que promovam
a educação e a conscientização ambiental.
OS ESPAÇOS ESPECIALMENTE PROTEGIDOS E AS
RESTRIÇÕES AO DIREITO DE PROPRIEDADE
1. Constante colisão há entre o direito de propriedade e o direito ao meio
ambiente ecologicamente equilibrado. Ambos são garantias fundamentais, mas não constituem direitos absolutos. Portanto, quando verificado
o conflito entre eles, a preferência é a de que aquele seja relativizado,
visto possuir caráter indiscutivelmente individual, em detrimento deste,
o qual está amparado na supremacia do interesse da coletividade.
2. As Áreas de Preservação Permanente cumprem missão específica e de
fundamental importância para a preservação ambiental. Representam
típica limitação ao direito de propriedade, enquanto que as Reservas
Legais - RLs não constituem hipótese de limitação a esse direito, mas,
antes disso, são aspectos da própria propriedade, ou seja, são elementos
inerentes à sua função ecológica/social, que, aliás, está prevista constitucionalmente.
3. No que diz respeito à relação entre o direito de propriedade e a obrigação
de preservar e recompor as RLs e as APPs, a jurisprudência evolui para a
idéia de que tal obrigação é do proprietário do imóvel independentemente de ter ou não dado causa ao dano ambiental.
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RESPONSABILIDADE PENAL DA PESSOA JURÍDICA
1. No cenário atual, é incontroversa a possibilidade de responsabilização
da pessoa jurídica em matéria ambiental, tendo em vista a superação da
perspectiva clássica de individualização da pena. Tal avanço encontra
fundamento na Teoria da Realidade que afirma que a pessoa jurídica é
dotada de vontade independente de seus gestores/administradores, consoante art. 3º, da Lei 9.605/98.
2. Na hipótese de dificuldade de identificação da pessoa física que
deliberou pela prática do crime ambiental em favor da pessoa jurídica, bem como dos executores do crime, deve ser admitida a denúncia isolada contra pessoa jurídica, apesar de entendimento contrário do STJ.
RESPONSABILIDADE DOS CONSULTORES
POR DADOS INTEGRANTES DE ESTUDOS
DE IMPACTO AMBIENTAL
1. Considerando-se que os estudos técnicos realizados pelas consultorias
ambientais são controlados pela Administração Pública, através do Termo de Referência, e que possuem finalidade pública, pois avaliam os
impactos sobre o meio ambiente, que é bem de uso comum, concluise que a atividade desenvolvida pelos consultores, embora remunerada
pelo empreendedor, também é pública, sendo aqueles enquadrados, por
interpretação extensiva, no conceito do art. 2º da Lei de Improbidade
Administrativa.
2. No âmbito da realização destes estudos, quando observada alguma
fraude e/ou deficiência técnica, no sentido de induzir a Administração
à aprovação dos estudos, baseada em dados inexatos ou falsos, aqueles
que promoveram sua elaboração devem ser responsabilizados por improbidade administrativa.
3. Na esfera criminal, a Lei 9.605/98 em seu art. 69-A, objetivando a proteção da administração ambiental, tipifica a conduta praticada pelos consultores e empresas de consultoria que elaboram ou apresentam estudos
ambientais falsos, consagrando o caráter público das atividades desempenhadas por esses profissionais e pessoas jurídicas.
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TESES DE ESTUDANTES DE GRADUAÇÃO
PAPERS OF LAW STUDENTS (GRADUATE)
01. RESPONSABILIDADES COMUNS, PORÉM DIFERENCIADAS, NA
PROTEÇÃO DO CLIMA GLOBAL - Bernardo Becker Fontana ....................3
02. IMPACTOS AMBIENTAIS CAUSADOS PELA PECUÁRIA EXTENSIVA
Carolina Corrêa Lougon Moulin ..................................................................... 17
03. NATURA E TEORIA DE GAIA: UMA ANÁLISE DO DISCURSO DE
SUSTENTABILIDADE - Clariane Leila Dallazen ...................................... 27
04. ESPECIFICIDADE DO DANO AMBIENTAL E BIODIVERSIDADE NA
ESFERA DA REPARAÇÃO CIVIL AMBIENTAL - Ibrahim Camilo
Ede Campos ....................................................................................................... 37
05. PAGADOR-POLUIDOR: UM NOVO PARADIGMA? - Julyanderson
Teixeira Mijolário, Alisson Machado Ferreira ............................................... 53
06. O NON-COMPLIANCE PROCEDURE E SUA ATUAÇÃO NO
PROTOCOLO DE MONTREAL - Kelly Schaper Soriano de Souza,
Leonardo Estrela Borges................................................................................... 61
07. RESPONSABILIDADE CIVIL AMBIENTAL: ALTERNATIVAS
A REPARAÇÃO DO DANO CAUSADO AO CLIMA - Ladilson
Costa Moita ........................................................................................................ 77
08. A IMPORTÂNCIA DA SOCIODIVERSIDADE PARA A PRESERVAÇÃO
DA DIVERSIDADE BIOLÓGICA - Livia Burgos Lopes ............................ 87
09. RESPONSABILIDADE AMBIENTAL DOS FABRICANTES DE
EMBALAGENS RECICLÁVEIS - Marcos Vinícius Zimmermann,
Elizângela Treméa Fell .................................................................................... 101
10. O CICLO DOS PROJETOS DE MECANISMO DE DESENVOLVIMENTO
LIMPO (MDL) - Miguel Franco Frohlich .................................................. 111
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11. A RECATEGORIZAÇÃO DA APA MATA DO KRAMBECK EM JUIZ DE
FORA, MG: UMA ANÁLISE DAS CATEGORIAS DO SNUC - Natália
Campos Teixeira .............................................................................................. 121
12. A NATUREZA JURÍDICA DA COMPENSAÇÃO AMBIENTAL
PREVISTA NA LEI DO SNUC (9.985/2000) - Natasha Zadorosny
Lopes Bastos..................................................................................................... 139
13. SISTEMA NACIONAL DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO DA
NATUREZA: LIMITAÇÃO AO DIREITO DE PROPRIEDADE E
PROTEÇÃO AMBIENTAL - Raissa Brasil Frick Lopes ........................... 147
14. PRODUÇÃO ANIMAL: ALTERNATIVAS SUSTENTÁVEIS FRENTES
ÀS AMEAÇAS DO AQUECIMENTO GLOBAL - Tatiana Costa de
Figueiredo Amormino ..................................................................................... 157
15. ICMS SÓCIO-AMBIENTAL: UM INSTRUMENTO ECONÔMICO DE
INCENTIVO A PRESERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE URBANO
Wandmery Florêncio Teixeira Cumaru ......................................................... 175
16. REFLEXÕES SOBRE LICENCIAMENTO AMBIENTAL E O EIA/RIMA
DO PROJETO DE CONSTRUÇÃO DA UTE BARCARENA NO ESTADO
DO PARÁ - Wirna Campos Cardoso ......................................................... 189
17. CAMINHOS PARA UM CAPITALISMO NATURAL: COMO
DESENVOLVER UM MODO DE PRODUÇÃO SUSTENTÁVEL
A PARTIR DE INSTRUMENTOS ECONÔMICOS - Yuri Jordy
Nascimento Figueiredo.................................................................................... 205
TESES DE ESTUDANTES DE PÓS-GRADUAÇÃO
PhD AND MASTER STUDENTS‘ PAPERS
18. O COSMOPOLITISMO COMO PRESSUPOSTO POLÍTICO PARA O
DIREITO INTERNACIONAL AMBIENTAL: ANÁLISE CASUÍSTICADO
PROTOCOLO DE QUIOTO E DOSCRÉDITOS DE CARBONO
Adroaldo Junior Vidal Rodrigues .................................................................. 225
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19. COMO PROMOVER O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL,
SENDO QUEO CONSUMO NÃO É? - Alan Rodrigo Bicalho ................. 233
20. A COMPENSAÇÃO FINANCEIRA, NA MODALIDADE
ROYALTIES, POR CONTA DA CADEIA PRODUTIVA DO ÁLCOOL
COMBUSTÍVEL - Álan Rodrigo Bicalho, Heraldo Felipe de Faria
Filho, Paulo Chiaroni ...................................................................................... 247
21. O ESTATUTO DA CIDADE E O PLANO NACIONAL DE
GERENCIAMENTO COSTEIRO: PRESSUPOSTOS PARA
A GESTÃOAMBIENTAL E PARTICIPATIVA DAS CIDADES
LITORÂNEAS SUSTENTÁVEIS - Ana Clarice Sarnícola Pires,
Rafael Burlani .................................................................................................. 259
22. O DIREITO TRIBUTÁRIO AMBIENTALE A ISENÇÃO DE IMPOSTO
TERRITORIALRURAL NA RESERVA PARTICULARDO PATRIMÔNIO
NATURAL - Ana Paula Vasconcellos da Silva ........................................... 273
23. UNIDADES DE CONSERVAÇÃO FEDERAIS DE PROTEÇÃO DAS
FLORESTAS COM ARAUCÁRIAS E NOS CAMPOS NATURAIS
ASSOCIADOS NO ESTADO DO PARANÁ – ANÁLISE DA CRIAÇÃO,
IMPLANTAÇÃO E SEUS REFLEXOS - André Pinto Donadio,
Rogerio Ribeiro Tostes .................................................................................... 287
24. CERTIFICAÇÃO AMBIENTAL COMO ALTERNATIVA PARA O USO
SUSTENTAVEL DA ENERGIA: ESTUDO DE CASO DA LEGISLAÇÃO
APLICÁVEL AO SISTEMA DE GESTÃO AMBIENTAL DA UHE
COARACY NUNES - Ângela do Céu Ubaiara Brito, Alan Cavalcanti
da Cunha, Walcemir Souza Cunha ................................................................ 303
25. CONEXÕES ENTRE RESPONSABILIZAÇÃO AMBIENTAL NA
AMAZÔNIA E COMBATEA MUDANÇAS CLIMÁTICAS:UM
ESTUDODE CASO EM MATO GROSSO - Brenda Brito......................... 317
26. O FRACASSO DA LEGISLAÇÃO AMBIENTALDO MERCOSUL
EM FACE DO CASO DOS PNEUS REMOLDADOS
Bruno Mesquita Valle ...............................................................................................329
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27. O MINISTÉRIO PÚBLICO E A DEFESADO MEIO AMBIENTE:
ESTUDO DE CASO DAS LAVANDERIAS DE JEANS DE TORITAMA/PE
Camila Mendes de Santana, Sérgio Gadêlha Souto ..................................... 347
28. A VINCULAÇÃO DO DIREITO DE CONSTRUIRÀ PROTEÇÃO
AMBIENTAL - Daniel Gaio ........................................................................ 357
29. TRATAMENTO INDIVIDUALIZADO:UM CAMINHO PARA
SOLUCIONARA PROBLEMÁTICA DA PRESENÇADE POPULAÇÕES
RESIDENTES EMPARQUES NACIONAIS - David Leonardo Bouças
da Silva, José Carlos Bastos Silva Filho......................................................... 365
30. PRODUÇÃO DE BIODIESEL NO BRASIL: DESAFIOS AMBIENTAIS,
SOCIAISE ECONÔMICOS À LUZ DACONSTITUIÇÃO DE 1988
Fernando do Rego Barros Filho ..................................................................... 381
31. ZONA DE AMORTECIMENTO E FUNÇÃO SOCIAL DA
PROPRIEDADE - Gabrielle Trombini, Aline Maria Trindade Ramos ..... 395
32. A NATUREZA JURÍDICA DO CO2 - Grace Ladeira Garbaccio,
Daniel Resende Neves ...................................................................................... 409
33. A NATUREZA JURÍDICA DOS CRÉDITOS DE CARBONO:
“COMMODITY”, “COMMODITY” AMBIENTAL OU VALOR
MOBILIÁRIO? - Gustavo Madeira da Silveira ......................................... 421
34. O PAPEL DO GLOBAL ENVIRONMENT FACILITYNO ÂMBITO
DO DIREITO E DA GOVERNANÇA INTERNACIONAL DO MEIO
AMBIENTE - Jeanine Gama Sá Cabral .................................................... 429
35. BIODIESEL E LEI 11.097/05 – IMPACTOS AMBIENTAIS
DESCONHECIDOS, IMPACTOS SOCIAIS RELEVANTES
João Vidal da Cunha ....................................................................................... 443
36. AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS, BIODIVERSIDADE E O USO
SUSTENTÁVEL DE ENERGIA E ASUA CORRELAÇÃO COM
A FUNÇÃOSOCIAL DA INDÚSTRIA - Juliano Nicola Sangalli ............ 453
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37. ELEMENTOS COMPARATIVOS DOS SISTEMAS JURÍDICOS
BRASILEIRO E EUROPEU DE PROTEÇÃO DA BIODIVERSIDADE
Karla Aguiar Kury, Mathieu Pageaux ........................................................... 465
38. EM DEFESA DA MATA SECA (TROPICAL DRY FOREST):
ARTICULAÇÕES ENTRE A SINGULARIDADE ECOLÓGICOFLORÍSTICADA ECO-REGIÃO E AS BASES JURÍDICASPARA SUA
CONSERVAÇÃO - Luciano José Alvarenga, Paulo Pereira
Martins Junior ................................................................................................. 479
39. ARGUMENTOS JURÍDICOS E FITOGEOGRÁFICOS PARA A
CONSERVAÇÃO DAS ÁREAS DE RESERVA LEGAL NO CONTEXTO
AMBIENTAL DO CERRADO BRASILEIRO - Luciano José
Alvarenga, Sérvio Pontes Ribeiro ................................................................... 495
40. BRASIL, MOSTRA TUA CARA! FALTA PRAGMATISMO NO
COMBATE ÀS MUDANÇAS CLIMÁTICAS - Marcos Abreu Torres ... 509
41. PROTOCOLO DE KYOTO NO BRASIL:O PROCESSO
DE CERTIFICAÇÃODE PROJETOS BRASILEIROS
NO MECANISMODE DESENVOLVIMENTO LIMPO
Marília Gouveia Menegotto ............................................................................ 525
42. COMPATIBILIZANDO O DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL E O
PRINCÍPIO DA PRECAUÇÃO NO AMAPÁ - Mário Nunes Torrinha .... 541
43. DIFICULDADES RECORRENTES DA APLICAÇÃO DO SISTEMA
JURÍDICO EUROPEU DE PROTEÇÃO DA BIODIVERSIDADE NA
FRANÇA - Mathieu Pageaux...................................................................... 553
44. DEVER JURÍDICO DE RESTAURAÇÃO AMBIENTAL: ASPECTOS
ECOLÓGICOS - Melissa Ely Melo ............................................................. 563
45. A IMPORTÂNCIA DO ESPAÇODEMOCRÁTICO DIANTE DO
IMPACTODAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS. UM OLHAR SOBRE
A REGIÃO SEMI-ÁRIDA BRASILEIRA - Patricia Maria Carvalho
Valença.............................................................................................................. 581
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46. AS LIMITAÇÕES DA TUTELA JURÍDICADAS ÁGUAS
SUBTERRÂNEAS NO ORDENAMENTO BRASILEIRO
Pilar Carolina Villar ......................................................................................... 595
47. PROPOSTA DE UMA NOVA ESTRATÉGIA PARA A ATUAÇÃO
DO MINISTÉRIO PÚBLICO NA FISCALIZAÇÃO DA GESTÃO
DE RESÍDUOS SÓLIDOS: ESTUDO DE CASO DO MUNICÍPIODE
FLORES, PERNAMBUCO - Rejane Strieder ............................................ 605
48. O RESGATE DA ALTERIDADE COMO FUNDAMENTO DE
UMA SOCIEDADE HUMANA E ECOLOGIMENTE VIÁVEL
Renata Cristina Pontalti Giongo, Rafaela Luiza Pontalti Giongo ................... 615
49. PRINCÍPIO DA PRECAUÇÃO E ESTUDOPRÉVIO DE IMPACTO
AMBIENTAL NA LEIDE BIOSSEGURANÇA - Rodrigo de
Almeida Amoy .................................................................................................. 623
50. AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS E OS REFUGIADOS AMBIENTAIS
Rodrigo Lucietto Nicoletto, Tiago Schneider de Jesus ................................. 633
51. A HARMONIZAÇÃO DA PROTEÇÃO DA BIODIVERSIDADE, DO
CONHECIMENTO TRADICIONAL E DO SISTEMA DE PATENTES
Sabrina Carvalho Verzola ............................................................................... 651
52. O PROTOCOLO DE KYOTO A LUZ DA ECONOMIA INSTITUCIONAL
Sara Gurfinkel Marques de Godoy, Pilar Carolina Villar ........................... 667
53. A NATUREZA JURÍDICA DA COMPENSAÇÃO AMBIENTAL
Sildaléia Silva Costa ........................................................................................ 679
54. A RESPONSABILIDADE CIVIL AMBIENTAL PELOS
RESÍDUOS SÓLIDOS ORIUNDOS DOS SERVIÇOS DE SAÚDE
Suzana Cavalcanti Souza Braz, Gabriela Gonçalves Barbosa,
Maíra Oliveira Lima ....................................................................................... 697
55. MINERAÇÃO EM ÁREA DE PROTEÇÃO AMBIENTAL: O CASO
DA MINERADORA E ARTEFATOS DE CIMENTO SÃO JOAQUIM
NO DISTRITO DE JOAQUIM EGÍDIO, CAMPINAS/SP - Taísa
Cristina Sibinelli .............................................................................................. 713
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56. PRINCÍPIO DO ACESSO EQUITATIVO AOS RECURSOS NATURAIS
E JUSTIÇA AMBIENTAL - Talden Farias ................................................. 725
57. TERMO DE AJUSTAMENTO DE CONDUTA E DEFESA
DO MEIO AMBIENTE NA SOCIEDADE DE RISCO
Talden Farias.................................................................................................... 743
58. BIOPROSPECÇÃO DOS RECURSOS GENÉTICOS NO BRASIL:
AUTORIZAÇÃO OU LICENÇA ADMINISTRATIVA? - Vladimir
Garcia Magalhães, Marcos Perez Messias, Werley Barbosa Leite .............. 763
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Teses de Estudantes de
Graduação
Papers of Law
School Students
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RESPONSABILIDADES COMUNS,
PORÉM DIFERENCIADAS, NA PROTEÇÃO
DO CLIMA GLOBAL
BERNARDO BECKER FONTANA
Graduando em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande
do Sul. Bolsista do programa CAPES – UNIBRAL/DAAD
entre Outubro de 2006 e Setembro de 2007
na Universidade de Giessen, RFA
1. INTRODUÇÃO: AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS SOB A ÓTICA CIENTÍFICA
Famosas e repetidas opiniões de certos cientistas, os quais põem em dúvida
o aquecimento global e sua causação pela Humanidade, não são mais compatíveis com o estágio atual da ciência.1 O Painel Intergovernamental sobre Mudança
do Clima (Intergovernmental Panel on Climate Change, IPCC), criado em 1988
pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e pela Organização
Meteorológica Internacional, publicou recentemente seu quarto relatório.2 Segundo o estudo, não há mais dúvidas de que o clima terrestre está modificando-se;
o aquecimento global, bem como a elevação do nível do mar, intensificaram-se,
assim como o derretimento das geleiras e das calotas polares.3 O nível atual dos
chamados gases de efeito estufa (greenhouse gases) na atmosfera é manifestamente superior ao nível natural nos últimos 650 mil anos.4 Padrões climáticos
modificaram-se, e fenômenos meteorológicos extremos – como ondas de calor,
furações e tempestades – tornaram-se mais freqüentes.5
1
Sobre os céticos quanto ao aquecimento global antrópico ver Childs, David W. The unresolved debates that scorched
Kyoto: an analytical Framework. University of Miami International and Comparative Law Review 13 233, 2005, p.241ss.
Ver também The New York Times, “Feel Good vs. Do Good on Climate”, by John Tierney, 11.09.2007 (http://www.nytimes.com/)
2
Os relatórios são dos anos de 1990, 1995, 2001 e 2007. Cada um é composto de quatro partes: 1) Physical Science Basis;
Impacts, Adaptation and Vulnerability; 3) Mitigation; 4) Synthesis Report.
3
Um estudo financiado pela National Aeronautics and Space Administration, dos Estados Unidos, alerta que o ártico estará
descoberto de gelo no ano de 2040 ou ainda antes, em vez de 2070, como antes previsto (Halvorssen, Anita M.: “Common,
but Differentiated Commitments in the Future Climate Change Regime – Amending the Kyoto Protocol to include Annex C
and the Annex C Mitigation Fund”, in: Colorado Journal of International Environmental Law and Policy 18 (2007), p. 248).
Ver também Reuters, “Arctic sea route opens as ice melts”, 15.09.2007, 5:48am EDT, (http://www.reuters.com/)
4
Lista dos gases de efeito estufa, cf. Anexo A do Protocolo de Quioto: Dióxido de carbono, (CO2), Metano (CH4), Óxido
nitroso (N2O), Hidrofluorcarbonos (HFCs), Perfluorcarbonos (PFCs) e Hexafluoreto de enxofre (SF6).
5
IPCC 2007: Zusammenfassung für politische Entscheidungsträger. In: Klimaänderung 2007: Wissenschaftliche Grundlagen. Beitrag der Arbeitsgruppe I zum Vierten Sachstandsbericht des Zwischenstaatlichen Ausschusses für Klimaänderung
(IPCC), Solomon, S., D. Qin, M. Manning, Z. Chen, M. Marquis, K.B. Averyt, M.Tignor und H.L. Miller, Eds., Cambridge
University Press, Cambridge, United Kingdom und New York, NY, USA. Deutsche Übersetzung durch ProClim-, österreichisches Umweltbundesamt, deutsche IPCC-Koordinationsstelle, Bern/Wien/Berlin, 2007. Ver também Kellersmann,
Bettina, Die gemeinsame, aber differenzierte Verantwortlichkeit von Industriestaaten und Entwicklungsländern für den
Schutz der globalen Umwelt, 2000, p. 135/136.
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4
12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
Em comparação aos três estudos anteriores, o IPCC aumentou a certeza
quanto à contribuição antrópica à causação de tais mudanças, sobretudo através
da queima de combustíveis fósseis, da agricultura e do uso do solo. Enquanto o
terceiro relatório falava em “provável” (likely) que o crescimento das emissões
antrópicas de gases causadores do efeito estufa fosse a causa para o aumento da
temperatura na segunda metade do século XX, o quarto relatório fala em “muito
provável” (very likely).6
Outros estudos também levam a conclusões similares a respeito da parcela
de culpa humana nas mudanças climáticas. Assim o Stern Review sobre os aspectos econômicos das mudanças do clima, publicado na Inglaterra em 2007. O
relatório afirma a seriedade da questão do aquecimento global, o qual ameaça a
própria existência humana sobre a Terra.7
2. A NECESSIDADE DE MEDIDAS PROTETIVAS DO CLIMA: PROBLEMAS GLOBAIS E
SOLUÇÕES GLOBAIS
Tal cenário catastrófico e assustador – porém possível e imaginável – denota
a imediata necessidade de ações concretas e eficazes contra o aquecimento global,
na forma de redução dos níveis de emissão dos gases de efeito estufa.8 A consecução de tal objetivo, contudo, requer a participação de todas as nações – tanto as industrializadas como aquelas em desenvolvimento9 –, através da assunção conjunta
de responsabilidades, de forma cooperativa.10 Assim deve ser, na medida em que
um problema global requer uma solução também global. No que tange à prontidão
e aptidão dos países em desenvolvimento em engajarem-se em tal luta, contudo,
há certos obstáculos: tais países vêem sua participação na solução de problemas
ambientais internacionais com reserva.11
6
IPCC 2007, Wissenschaftliche Grundlagen, 2007. Ver também Weisslitz, Michael, Rethinking the Equitable Principle
of Common but Differentiated Responsibility: Differential Versus Absolute Norms of Compliance and Contribution in the
Global Climate Change Context, 13 Colorado Journal of International Environmental Law and Policy 473, 2002, p.475.
7
O Stern Review investiga a mudança do clima sob uma perspectiva econômica: Stern Review, Der wirtschaftliche Aspekt des Klimawandels: Zusammenfassung der Schlussfolgerungen, http://www.hm treasury.gov.uk/independent_reviews/
stern_review_economics_climate_change/sternreview_ translations.cfm) . Para uma critica ao Stern Review ver Reuters:
OPEC says British climate change report “unfounded”, Tanya Mosolova, 31.10.2006.
8
A fim de restringir o aumento da temperatura ao patamar de 2o C em relação à era pré-industrial, o crescimento das
emissões deve ser paralisado até 2022 e reduzido em 50% a 80% até 2050 (IPCC 2007: Zusammenfassung für politische Entscheidungsträger. In: Klimaänderung 2007: Verminderung des Klimawandels. Beitrag der Arbeitsgruppe III zum
Vierten Sachstandsbericht des Zwischenstaatlichen Ausschusses für Klimaänderung (IPCC), B. Metz, O.R. Davidson,
P.R. Bosch, R. Dave, L.A. Meyer, Eds., Cambridge University Press, Cambridge, United Kingdom und New York, USA.
Deutsche Übersetzung durch ProClim-, österreichisches Umweltbundesamt, deutsche IPCC-Koordinationsstelle, Bern/
Wien/Berlin, 2007.
9
As nações mais pobres são as que mais sofrem os efeitos da mudança climática. Forma-se um círculo vicioso, na
medida em que o nível baixo de desenvolvimento e a pobreza são, ao mesmo tempo, causa e conseqüência da crise
ambiental (Kellersmann, p. 2; The New York Times, “Poor Nations to Bear Brunt as World Warms”, Andrew C. Revkin,
01.04.2007; The New York Times: “The climate divide: Report from four fronts in the war on warming”, Andrew C.
Revkin, 03.04.2007; Reuters, “Developing powers seen critical to climate pact”, Laura MacInnis, 27.01.2007; Reuters:
“Poor at risk, action needed on warming: U.N. draft”, Alister Doyle, 24.09.2007).
10
Weisslitz, p. 475.
11
Kellersmann, p. 03.
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Teses de Estudantes de Graduação/ Papers of Law School Students
5
2.1 A participação dos países em desenvolvimento no combate às mudanças climáticas
A dificuldade reside no fato de que o crescimento econômico, a consecução
de necessidades básicas e a superação de problemas sociais ocupam o primeiro
lugar na agenda das nações em desenvolvimento; elas temem que a persecução de
standards ambientais internacionais represente um empecilho ao desenvolvimento econômico nacional – na medida em que haveria uma realocação de recursos –,
sem que houvesse uma contrapartida direta em seu benefício.
Além disso, a solução de problemas ambientais globais seria, para as nações
mais pobres, uma obrigação exclusiva dos países ricos, já que responsáveis pela
maior parcela de poluição e destruição (leia-se: consumo) das reservas naturais
– através do que atingiram o estado de bem-estar social de que hoje gozam.12 Por
outro lado, é fato incontestável que a conservação ambiental é requisito imprescindível para um crescimento econômico consistente e duradouro.
2.2 Integração entre “desenvolvimento” e “proteção ambiental”: inserção de metas
assistenciais no Direito Internacional Ambiental
Do que foi exposto resulta a necessidade de integração dos objetivos (políticos) “proteção ambiental” e “desenvolvimento”, devidamente reconhecida pela
comunidade internacional. Tal integração permitiria a participação das nações em
desenvolvimento no combate ás mudanças climáticas, sem terem de renunciar à
industrialização e ao crescimento econômico.13
A melhor via à realização conjunta de tais fins – aparentemente conflitantes14
– é, segundo a doutrina ambientalista internacional, a inserção de metas assistenciais no Direito Internacional Ambiental moderno, o qual prima pela proteção
ambiental e, assim, acaba por patrocinar o desenvolvimento sustentável.15
2.2.1 A liderança pelos países desenvolvidos
É nesse cenário que surge a noção das responsabilidades comuns, porém diferenciadas (common, but differentiated responsibilities, CBDR), que estabelece
um critério de repartição dos encargos pertinentes à proteção ambiental entre as
nações. Reclama-se dos países desenvolvidos que tomem a frente no combate a
12
Kellersmann, p. 03-05.
Kellersmann, p. 06.
14
Na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente – United Nations Conference on the Human Environment
– (Estocolmo, 1972), foi expressamente referido que conservação ambiental e desenvolvimento econômico não se contrapõem, senão constituem requisitos irrenunciáveis ao uma ordem mundial justa. Assim, as obrigações ambientais podem
ser arranjadas de tal forma em convenções internacionais que os objetivos de desenvolvimento, sobretudo das nações mais
pobre, não serão ameçados, senão promovidos.
15
Haveria duas maneiras de integrar proteção ambiental e desenvolvimento. A primeira é a integração de metas ambientais
em políticas de desenvolvimento. Esta serve primordialmente ao desenvolvimento e não oferece fundamento suficiente ao
combate de problemas ambientais globais. Proteção ambiental, nesta seara, é não mais que uma condição ao desenvolvimto
sustentável. A segunda, aqui defendida, é a integração de metas de desenvolvimento no Direito Internacional Ambiental
moderno, que dá primazia à proteção ambiental e, assim, fomenta o desenvolvimento sustentável (Kellersmann, p. 18ss).
13
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6
12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
problemas ambientais. Como conseqüência, países em desenvolvimento teriam
condições de colocar-se no caminho do desenvolvimento (sustentável).16 Trata-se
de uma discriminação positiva dos países, traduzindo uma variante moderna do
conceito de justiça.17
A noção da existência de responsabilidades comuns, porém diferenciadas,
não é restrita à temática do clima, sendo aplicável à generalidade dos tópicos do
Direito Internacional Ambiental e tendo sido por vezes expressamente positivada
em instrumentos internacionais. A seguir, analisar-se-ão os aspectos gerais das
responsabilidades comuns, porém diferenciadas, no Direito Internacional Ambiental.
3. O CONCEITO DAS RESPONSABILIDADES COMUNS, PORÉM DIFERENCIADAS, SOB A
PERSPECTIVA LEGAL
3.1 Idéia-base e surgimento do conceito
A responsabilidade pela preservação ambiental é de todos os países, na medida em que se trata de interesse comum, e já que tanto países ricos quanto pobres
contribuem, de alguma forma, para a degradação ambiental. Tal contribuição,
contudo, não é igual: a parcela de culpa das nações desenvolvidas é notoriamente
maior. Além disso, tais países dispõem de melhores condições financeiras e tecnológicas para contribuir à resolução de questões ambientais. Aí reside a justificativa
para que tomem a frente na luta pelo meio ambiente saudável.18O fundamento
para a noção de responsabilidades comuns, mas diferenciadas, é a idéia de eqüidade (equity) no Direito Internacional Ambiental.19 Todavia, no que se refere à
proteção ambiental, eqüidade não se traduz, na prática, em igualdade, senão em
tratamento desigual a cada grupo de países.20
À parte a Conferência de Estocolmo – a primeira vez em que se atingiu um consenso internacional, pelo menos em tese, quanto à aplicação de standards diferenciados a problemas ambientais21 –, é no final dos anos 80 e início dos 90 que se pode encontrar, em diferentes instrumentos internacionais, argumentos favoráveis à noção de
responsabilidades comuns, porém diferenciadas.A Declaração de Haia (Hague Decla-
16
(…) “CDR appreciates the importance of including developing countries in the search for solutions, because as their
economies grow and industrialize, developing countries may cause massive environmental damage in the future” (Bafundo, Nina E.: Compliance with the Ozone Treaty: Weak States and the Principle of Common but Differentiated Responsibility, in: American University International Law Review 21 (2006) 3, p. 467.
17
Kellersmann, p. 32/33.
18
Kellersmann, p. 37/38. A esse respeito ver: Bafundo, p. 461-467; Rajamani, Lavanya, The principle of common but
differentiated responsibility and the balance of commitments under the climate regime, Review of European Community
and International Environmental Law, 9 (2002) 2, p. 120-131.
19
Sands, Philippe, Principles of International Environmental Law, Cambridge University Press, 2003, p. 285.
20
Kellersmann, p. 39. A respeito ver Birnie, Patricia W./Boyle, Alan, International Law and the Environment, 2002, p. 101.
Sobre as diferentes noções de equity que fundamentam o conceito ver Rajamani, p. 122. Sobre o princípio da solidariedade
no Direito Internacional Ambiental ver Birnie/Boyle, p. 102.
21
Weisslitz, p. 480.
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7
ration, 11.03. 1989), ao alertar sobre a necessidade de proteção do clima e da camada
de ozônio reconheceu, em seu princípio d), que os Estados aos quais a proteção da
atmosfera representasse um ônus excepcional deveriam ser proporcionalmente compensados, como forma de reparação; levaram-se em conta seus respectivos patamares
de desenvolvimento, bem como sua responsabilidade pela degradação atmosférica.
Naquele mesmo ano, nos preparativos à Conferência do Rio, a idéia da existência de
responsabilidades diferenciadas apareceu na Resolução 44/228 da Assembléia Geral
da ONU (UN Res. 44/228, de 22.12.1989), sobretudo no que diz respeito às diferentes
contribuições de diferentes países à degradação ambiental. A Declaração de Tóquio,
por sua vez, mencionou a necessidade de novos meios de financiamento à transformação da política econômica dos países em desenvolvimento.22
3.2 Menção expressa: a positivação das responsabilidades comuns, porém
diferenciadas
A positivação das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, em instrumentos internacionais ambientais veio em 1992, por ocasião da Conferência
das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (United Nations
Conference on Environment and Development, UNCED), tanto na ConvençãoQuadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (United Nations Framework
Convention on Climate Change, UNFCCC) – Art. 3 I Nr. 1 – quanto na Declaração do Rio (Princípio 7, 2a Parte). Mais tarde, no art. 10 do Protocolo de Quioto
à UNFCCC, afirmaram-se as obrigações dos Estados-Partes com base em suas
common, but differentiated responsibilities.
3.2.1 A Convenção-Quadro sobre Mudança do Clima (UNFCCC)
Reconhecendo que as mudanças climáticas e seus efeitos adversos são uma
preocupação comum da humanidade23, 154 países assinaram, por ocasião da UNCED, a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a qual
entrou em vigor no ano de 1994. Atualmente, a UNFCCC conta com 192 ratificações. O objetivo da Convenção é atingir a estabilização das concentrações de gases
do efeito estufa em nível tal que impeça o colapso do sistema climático terrestre.
Tal nível deve ser atingido num lapso temporal suficiente à adaptação natural do
ecossistema ao clima modificado, à garantia de que a produção de alimentos não
será ameaçada, bem como a permitir que o desenvolvimento econômico se dê de
forma sustentável (art. 2).
Pela primeira vez na história internacional, o conceito das responsabilidades
comuns, porém diferenciadas, foi expressamente reconhecido como fundamento
de obrigações diferenciadas para cada grupo de países.24 O conceito foi positi-
22
23
24
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Kellersmann, p. 40/41.
Preâmbulo da UNFCCC.
Birnie/Boyle, p. 280.
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vado tanto no preâmbulo, quanto no catálogo de princípios da parte operativa da
Convenção25. Dessa forma, os países em desenvolvimento visaram a dar maior
credibilidade aos princípios ali contidos.26
3.2.2 O Protocolo de Quioto27
Também no art. 10 do Protocolo de Quioto à UNFCCC, surgido no ano
de 1997 e em vigor desde Fevereiro de 2005, o conceito das responsabilidades
comuns, porém diferenciadas, é expressamente mencionado.28 A idéia de uma diferenciação das responsabilidades cunha a estrutura do Protocolo de tal forma que
somente países desenvolvidos, em adição às obrigações oriundas da UNFCCC,
assumem a obrigação de redução das emissões de gases do efeito estufa.
A seguir, será analisada a fundamentação jurídica do conceito das responsabilidades comuns, porém diferenciadas.
3.3 A fundamentação para a existência de responsabilidades diferenciadas na
proteção do clima
O conceito das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, de países em
desenvolvimento e países desenvolvidos na proteção climática fundamenta-se tanto
na maior contribuição histórica e atual dos países desenvolvidos às mudanças climáticas, quanto em sua melhor condição técnica e financeira para resolver o problema29. O conceito é uma soma dessas duas considerações, e exatamente aí reside
sua riqueza.
25
The Parties to this Convention, (…)Acknowledging that the global nature of climate change calls for the widest possible
cooperation by all countries and their participation in an effective and appropriate international response, in accordance
with their common but differentiated responsibilities and respective capabilities and their social and economic conditions.
Article 3 – PRINCIPLES - In their actions to achieve the objective of the Convention and to implement its provisions,
the Parties shall be guided, inter alia, by the following: 1. The Parties should protect the climate system for the benefit of
present and future generations of humankind, on the basis of equity and in accordance with their common but differentiated
responsibilities and respective capabilities. Accordingly, the developed country Parties should take the lead in combating
climate change and the adverse effects thereof.
26
Kellersmann, p. 44.
27
O Protocolo de Quioto será analisado em pormenores na sessão de número 4.
28
Article 10 - All Parties, taking into account their common but differentiated responsibilities and their specific national
and regional development priorities, objectives and circumstances, without introducing any new commitments for Parties
not included in Annex I, but reaffirming existing commitments under Article 4, paragraph 1, of the Convention, and
continuing to advance the implementation of these commitments in order to achieve sustainable development, taking into
account Article 4, paragraphs 3, 5 and 7, of the Convention, shall:(…)
29
A esse respeito ver: Rajamani, p. 121; Bafundo, p. 463 e 467; Weisslitz, p. 476/477; Birnie/Boyle, p. 101; Halvorssen, p.
254/255; Cordonier Segger, Marie-Claire/Khalfan, Ashfaq/Gehring, Markus/Toering, Michelle: “Prospects for Principles
of International Sustainable Development Law after the WSSD: Common but Differentiated Responsibilities, Precaution
and Participation”, in: Review of European Community & International Environmental Law, 12 (2003) 1, p. 56; Harris,
Paul G., “The European Union and Environmental Change: Sharing the Burdens of Global Warming”, in: Colorado Journal
of International Environmental Law and Policy 17 (2006) 2, p. 314/315; Batruch, Christine: “Hot Air as a Precedent for
Developing Countries?”, in: UCLA Journal of Environmental Law and Policy 17 (1998/1999) 45, p. 51/52; Shelton, Dinah,
Equity, in: Bodansky, Daniel/Brunnée, Jutta/Hey, Ellen: The Oxford Handbook of International Environmental Law, New
York: Oxford University Press, 2007, p. 657
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9
3.3.1 Maior contribuição histórica e atual dos países desenvolvidos à
poluição do ar30
No Parágrafo 3o do preâmbulo da UNFCCC, os países desenvolvidos são expressamente reconhecidos como principais causadores das emissões de gases do
efeito estufa, e, assim, alude-se a sua maior responsabilidade para com o combate
ao aquecimento global.31 Tal é a mesma idéia que cunha a aparição expressa do
conceito no Princípio 7 da Declaração do Rio.
Na Conferência do Rio, bem como durante as negociações que levaram
à sua realização, a comunidade internacional gradualmente reconheceu que as
contribuições de países desenvolvidos às emissões de gases do efeito estufa
eram significativamente maiores do que aquelas dos países em desenvolvimento.32 Segundo as conclusões do IPCC, países desenvolvidos são responsáveis
por dois terços dessas emissões. Além disso, como já frisado, esses países lucraram desproporcionalmente mais do processo de industrialização. Ao mesmo tempo, são as nações ricas as que menos sofrem com as conseqüências da
poluição do ar.33 Por tais motivos, segundo os ditames da justiça, é justificável
que aqueles que, através da poluição, atingiram vantagens econômicas e sociais,
agora carreguem o maior ônus para a resolução do problema. Trata-se de uma
reposta afirmativa à questão sobre a geração atual ser ou não responsável pelas
ações de seus antepassados, na forma de uma justiça intergeneracional em sentido inverso.34
Contudo, tal fundamentação do conceito não é pacífica na doutrina. Segundo Kellersmann, a consideração da parcela de culpa por emissões passadas
constitui-se em uma transposição do princípio do “poluidor pagador” (the polluter pays) ao âmbito internacional. O conceito ora em estudo e o referido princípio teriam fundamento na mesma idéia, qual seja a de que o grau de causação
de um problema reflete-se na extensão da obrigação de repará-lo. O princípio
do poluidor pagador, contudo, não deteria obrigatoriedade jurídica como fundamento das responsabilidades comuns, mas diferenciadas. Isso resulta, afirma
Kellersmann, tanto da análise do histórico de negociações da Convenção do
Rio, quanto da construção da UNFCCC, já que tal fundamentação para o conceito (maior emissões dos gases), no preâmbulo da Convenção, está separada de
30
“Common but differentiated responsibility is based on the perception that global environmental risks, such as climate
change, have mainly been caused by and should therefore be tackled primarily by developed countries.”; ““The explicit
assumption (under the UNFCCC) is that the developed states that have contributed most of the greenhouse gas emissions
should also contribute most to tackling the problem, both by providing resources and by taking the lead in adopting control
measures.”(Birnie/Boyle, p. 104; 525)
31
Harris, “The European Union and Environmental Change, p. 314.
32
Ver Rajamani, p. 122
33
Rajamani, p. 123. Ver também Reuters: “Rich must pay bulk of climate change bill”: Oxfam, Jeremy Lovell,
29.05.2007.
34
Ver: Bothe, Michael: “The United Nations Framework Convention on Climate Change – an Unprecedented Multilevel
Regulatory Challenge”, in: ZaöRV 63 (2003) 2, p.252); Weisslitz, p. 479/480. Sobre a incoherence of Intergenerational
equity as an ethical principle ver Mayeda, Graham: “Where Should Johannesburg Take Us? Ethical and Legal Approaches
to Sustainable Development in the Context of International Environmental Law”, in: Colorado Journal of International
Environmental Law and Policy 15 (2004) 1, p. 42-50.
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sua menção expressa, constante na parte operativa. (Art. 3 I). Seu fundamento
jurídico, assim, seria tão-somente as desiguais condições financeiras e tecnológicas de cada grupo de países.35
3.3.2 Melhores condições financeiras e tecnológicas dos países desenvolvidos para o
combate ao aquecimento global
Trata-se, aqui, de “justiça” no sentido da consideração de especificidades de
cada país, de desigualdades na comunidade internacional, de diferentes padrões
econômicos e sociais36, bem como da capacidade de reação a um problema ambiental.37 Países em desenvolvimento carecem de suficiente aparato tecnológico,
bem como de condições econômicas favoráveis à redução de suas emissões.38
Países desenvolvidos, a seu turno, têm abundância de tais recursos, conquistados,
em parte, através de abusos ao ambiente39; têm maiores condições, portanto, de
ocupar-se das conseqüências negativas do aquecimento global. Dessa forma, os
países desenvolvidos têm a obrigação de auxiliar aqueles em desenvolvimento, a
saber no que tange ao cumprimento das obrigações assumidas pelas nações mais
pobres através da assinatura de instrumentos internacionais.40
Na história das negociações que levaram à positivação do Direito Internacional Ambiental, tal conotação do conceito foi sempre preferida pelos países
desenvolvidos, além de ser aceita pelas nações em desenvolvimento.41 Tanto a
Declaração do Rio quanto a UNFCCC são marcadas por essa idéia, a qual está por
trás da noção de compliance assistance, que será vista a seguir.42
3.4 O conteúdo do conceito das responsabilidade comuns, porém diferenciadas
O conteúdo do conceito das responsabilidades comuns, porém diferenciadas,
constitui-se de dois elementos, presentes na UNFCCC e no Protocolo de Quioto.43
Importante frisar, primeiramente, que a idéia de “responsabilidade diferenciada”
não é contrária à idéia de “responsabilidade comum”. Trata-se, na verdade, de um
segunda exigência da mesma responsabilidade.44 Nos referidos instrumentos in-
35
Kellersmann, p. 41-48. Ver também Stone, Christopher D.: “Common but differentiated responsibilities in international
law”, in: The American Journal of International Law, 98 (2004) 2, p. 291/292.
36
Rajamani, p. 123.
37
Weisslitz, p. 478/479
38
Weisslitz, p. 478/479
39
Mayeda, p. 57: “[…] an interpretation of the principle of CBDR that recognizes that the North has received a disproportionate share of the benefits of centuries of environmentally unsustainable development, and the underprivileged
in the South have borne many of its costs. It recognizes that the suffering of humans and natural systems as a result of
industrialization should not have been in vain. Furthermore, it recognizes how those with technological ability, developed
at the expense of environmental degradation and the oppression of peoples in developing nations, have a responsibility to
take action to ensure this.”
40
Halvorssen, p. 255.
41
Kellersmann, p. 41/42
42
Ver UNFCCC, art. 4 (7).
43
Ver Sands, Philippe, Principles of International Environmental Law, Cambridge University Press, 2003, p. 286ss.
44
Kellersmann, p. 49.
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11
ternacionais, essas responsabilidades traduzem-se em diferentes obrigações, para
um ou ambos grupos de países.
3.4.1 A responsabilidade comum a todos os Estados de proteger o clima global e suas
obrigações
Como já referido, a ação contra os perigos do aquecimento global cabe a
toda comunidade internacional. Neste sentido, os países devem tomar medidas
comuns, mas também individuais. A responsabilidade comum, surgida da noção
de common concern of Mankind, tem suas raízes no princípio da cooperação:
todas nações, sob o fundamento da solidariedade, são obrigadas a cooperar com a
redução das emissões de gases do efeito estufa. As conseqüências da poluição atmosférica não respeita fronteiras geográficas, de maneira que alguns países serão
atingidos pelas ações de outros.45
Daí resultam “obrigações ambientais de caráter geral” quanto ao combate
às mudanças climáticas, constantes no texto da UNFCCC. Para os países em desenvolvimento, são as únicas obrigações assumidas pelo instrumentário internacional. Trata-se, em sua maioria, de regras procedimentais, como a obrigação de
informação sobre as emissões nacionais (UNFCCC, art. 12).46
3.4.2 As responsabilidades diferenciadas de cada grupo de Estados e suas respectivas
obrigações
Da tomada da liderança no combate ao aquecimento global, pelos países industrializados, resultam obrigações de duas naturezas: a) “obrigações ambientais
de caráter especial” quanto ao combate às mudanças climáticas (as quais contrapõem-se às obrigações gerais já tratadas); b) obrigação de assistência (compliance
assistance).47
3.4.2.1 Obrigação de assistência (compliance assistance)48
A compliance assistance conecta o elemento “comum” ao elemento
“diferenciado” das responsabilidades.49 Países desenvolvidos devem auxiliar
países em desenvolvimento no cumprimento das obrigações assumidas no âmbito internacional, através da transferência de tecnologia e de recursos financeiros. Trata-se de “ajuda para auto-ajuda”, na forma da chamada capacity
building.50
45
Rajamani, p. 121.
Kellersmann, p. 148-150.
47
Kellersmann, p. 150ss.
48
Ver, sobretudo, Beyerlin, Ulrich: Umweltvölkerrecht. München: Beck Verlag, 2000, p. 255ss.
49
Kellersmann, p. 51.
50
Gündling, Lothar: “Compliance Assistance in International Environmental Law: Capacity-Building Through Financial
and Technology Transfer”, in: ZaöRV, 56 (1996) 3, p. 805ss.
46
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Enquanto a transferência de tecnologia coloca o país em condições de implementar medidas efetivas (materiais) no combate às mudanças climáticas e suas
conseqüências, a transferência de recursos financeiros tem a função de cobrir os
custos oriundos da implementação do instrumento no país assistido. Para tanto, a
UNFCCC prevê um mecanismo de financiamento, qual seja a GEF (Global Environmental Facility).51
A obrigação de assistência pode ser entendida como contraprestação à assunção de obrigações pelos países em desenvolvimento – reciprocidade para a
garantia de efetividade. Neste sentido, importante é a já referida regra do art.
4 VII da UNFCCC, pela qual o cumprimento das obrigações pelos países em
desenvolvimento fica condicionado à prestação de assistência. As obrigações gerais dos países em desenvolvimento são, através dessa afirmação, conectadas às
obrigações dos países desenvolvidos. A idéia por trás disso é que a capacidade de
uma nação em desenvolvimento de cumprir com suas obrigações gerais depende
da disponibilidade de recursos financeiros e tecnologia.52
3.4.2.2 Obrigações ambientais de caráter especial dos países desenvolvidos em relação
à proteção climática
Conforme o art. 4 II a) da UNFCCC, os países desenvolvidos e aqueles em
processo de transição para uma economia de mercado têm a obrigação de adotar
políticas nacionais, bem como de implementar medidas práticas, que visem ao
combate às mudanças climáticas. Uma concretização dessa regra encontra-se no
Protocolo de Quioto, analisado a seguir.53
4. A POSITIVAÇÃO DO CONCEITO DAS RESPONSABILIDADES COMUNS, MAS
DIFERENCIADAS, NO PROTOCOLO DE QUIOTO
4.1 A clara assimetria das obrigações relativas à proteção do clima
Segundo as conclusões do IPCC nos anos 90, a concentração de gases causadores do efeito estufa na atmosfera continuará aumentando pelos próximos 200
anos, ainda que as emissões sejam estabilizadas no patamar atual. Baseada em tal
51
Ver UNFCCC, art. 4 III, IV e V.
Kellersmann, p. 193ss.
53
Sobre a natureza jurídica do conceito das responsabilidades comuns, mas diferenciadas ver Beyerlin, Ulrich, Different
Types of Norms in international environmental law, in: Bodansky, Daniel/Brunnée, Jutta/Hey, Ellen: The Oxford Handbook of International Environmental Law, New York: Oxford University Press, 2007: “(...) differentiated responsibility
itself is not a rule but rather a principle functioning as a source from which subsequent rules may emerge”(p. 442); “the
concept of common but differentiated responsibilities appears to be a principle that has not yet, however, gained customary
legal status”(S. 447). Siehe auch Shelton, Dinah, Equtiy, in: The Oxford Handbook..., p. 657: „The legal status of common
but differentiated responsibilities is, in fact, not entirely clear. It is referred to explicitly and applied in several multilateral
environmental agreements, but whether it is a fundamental principle of international environmental law, a bundle of some
or all of the above factors that lead to equitable decision-making, or itself a rule of equity remains debated”. Sobre sua
validade como regra de direito costumeiro ver Kellersmann, p. 54ss.e Beyerlin, Ulrich, Umweltvölkerrecht. München:
Beck Verlag, 2000, p. 126: „Wegen seines noch wenig konturierten Pflichtgehaltes dürfte es (das Konzept) aber gleichfalls
noch nicht zu einer völkergewohnheitsrechtlichen Regel verdichtet haben“.
52
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assertiva, a primeira Conferência dos Estados-Partes da UNFCCC concluiu, em
1995, em Berlim, que as obrigações constantes no texto da Convenção-Quadro
eram muito modestas no sentido de contribuir, de algum modo, à melhoria da
situação climática. Foi nesta esteira que, em 1997, surgiu o Protocolo de Quioto
à UNFCCC, contendo obrigações concretas de redução das emissões dos países
desenvolvidos.54 O Protocolo entrou em vigor no ano de 2005, depois de ser ratificado por 55 dos Estados listados no Anexo B que representassem 55% das
emissões de CO2.
Conforme o Art. 3 Nr. 1 do Protocolo, as Partes do Anexo B55 obrigam-se,
dentro do período de compromisso de 2008 a 2012 (o chamado first commitment
period), a reduzir suas emissões de gases causadores do efeito estufa em, no mínimo, 5% abaixo do nível de 1990. Segundo o art. 3 Nr. 2, cada Parte do Anexo B
deveria demonstrar, até o ano de 2005, ter atingido progressos significativos neste
sentido.
Países em desenvolvimento não encontram obrigações de tal natureza no
Protocolo; estão, pois, excepcionados do dever de reduzir suas emissões. Reafirmam-se, tão-somente, as obrigações oriundas da UNFCCC, acrescentadas de
novas regras procedimentais. Essa clara assimetria entre as obrigações assumidas
por cada grupo de países é expressão máxima da noção das responsabilidades
comuns, porém diferenciadas.56 Afirma-se que esta construção do Protocolo foi
necessária para angariar uma numerosa participação de países em desenvolvimento no instrumento. Tais nações, do contrário, não o teriam assinado.57
4.2. Os mecanismos flexíveis do Protocolo de Quioto
O Protocolo de Quioto prevê três mecanismos flexíveis a fim de auxiliar os
Estados-Partes no cumprimento das obrigações assumidas, quais sejam joint implementation (art. 6) e emissions trading (art. 17) entre Estados listados no Anexo
B, e o clean development mechanism (CDM, art. 12) entre tais Estados e países
em desenvolvimento.58
Através da joint implementation, todo país listado no Anexo I pode adquirir
ou repassar “unidades de redução” oriundas de projetos de redução das emissões
de gases do efeito estufa em determinado setor da economia. Pela emissions trading, as partes podem comercializar créditos de emissões, cumprindo assim com
seus respectivos percentuais de redução.59 O objetivo do CDM, por sua vez, é
auxiliar países em desenvolvimento a alcançar o desenvolvimento sustentável, ao
mesmo tempo em que países desenvolvidos, com isso, atinjam suas obrigações
quantificadas de redução de emissões. De cada projeto implantado em países em
54
55
56
57
58
59
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Ver Birnie/Boyle, p. 526.
Países desenvolvidos e países em processo de transição para uma economia de mercado.
Kellersmann, p. 155.
Harris, The European Union and Environmental Change, p. 325.
A esse respeito ver Rajamani, p. 127.
Halvorssen, p. 257.
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desenvolvimento com o auxílio de um país do Anexo B resulta um determinado
número de certificados de redução, que contarão como uma parcela no cálculo
final das reduções devidas de acordo com o artigo 3 do Protocolo.60 O CDM é
expressão direta do conceito em estudo: trata-se de uma parceria entre os dois grupos de países, em que cada um tem suas próprias e diversas obrigações, e na qual,
através de auxílio mútuo, contribui-se para a resolução de um problema global.61
4.2.1 Crítica ao Protocolo de Quioto: o Protocolo não é suficiente ao combate do
problema climático
Tomando-se por base as avaliações do IPCC quanto ao estado atual do clima, os
passos previstos pelo Protocolo de Quioto são insuficientes a uma melhora significativa
da situação.62 Mesmo que se atinjam os patamares de redução previstos, isso significaria somente 5% das emissões dos países desenvolvidos. De fato, alguns cientistas
acreditam que as emissões de gases do efeito estufa necessitariam de uma redução de,
no mínimo, 60% para que o estágio atual das concentrações na atmosfera fosse estabilizado e, com isso, fosse evitado um cataclismo no sistema climático terrestre.63
O comércio de certificados de emissão é duramente criticado pela doutrina.
Países em processo de transição a uma economia de mercado estabelecerão como
base, segundo o art. 3 nr. 5, um ano diferente de 1990. Da leitura conjunta do art. 3
Nr. 10 e 11 e do art. 6, conclui-se que países como a Rússia, que, em 1990, já atingira uma redução de 30% em relação a um ano-base anterior (em conseqüência das
transformações políticas e econômicas sofridas à época), podem agora comercializar (leia-se: vender) certificados de emissões que, na verdade, nunca existiram.64
A crítica mais severa ao Protocolo de Quioto diz respeito, notoriamente, à
exclusão de todos os países em desenvolvimento de obrigações de redução, bem
como à não ratificação pelos Estados Unidos. Este país, responsável por ¼ das
emissões mundiais, tem como principal argumento para sua não ratificação exatamente a ausência de obrigações concretas (art. 3) a países em rápido desenvolvimento (fast growing developing countries), sobretudo China e Índia: enquanto
tais Estados, responsáveis por um alto percentual das emissões de gases do efeito
estufa, não estiverem obrigados a qualquer redução, o mesmo deve valer para os
EUA, acreditam estes.65
60
Thoms, Laura: “A Comparative Analysis of International Regimes on Ozone and Climate Change with Implications for
Regime Design”, in: Columbia Journal of Transnational Law 41 (2003) 3, p. 819/820. Sobre o clean development mechanism ver também Childs, p. 247/248.
61
Rajamani, p. 130.
62
Kellersmann, p. 155.
63
Harris, The European Union and Environmental Change, p. 314
64
Kellersmann, p. 155. É a mesma visão de Thoms, p. 821: “The actual reduction achieved will be even lower that it
appears from the face of the agreement due to “hot air” trading. Under the Kyoto Protocol, Russia and the Ukraine are
permitted to increase emissions 50% and 120% respectively from their current depressed levels. Because neither nation
is expected to come closer to such increases, they will automatically achieve surplus “reductions” available for emissions
trading. These “hot air” credits can be purchased by a nation such as Japan as an alternative to reducing emissions; thus,
both nations will meet their Kyoto target without implementing any real greenhouse has reduction measures.”
65
Halvorssen, p. 250. Sobre o processo de rejeição ao Protocolo de Quioto pelos EUA e o significado para o conceito
das responsabilidades comuns, porém diferenciadas ver Kellersmann, p. 326/327; ver também Harris, Paul G.: “Common
but differentiated responsibility: the Kyoto Protocol and United States Policy”, in: N.Y.U. Environmental Law Journal 7
(1999), p. 35ss.
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15
O grupo de países em rápido desenvolvimento, hoje de fato responsável pela
maior parte das emissões de CO2 e outros gases no mundo66, contra argumenta
que, enquanto os EUA não forem Estado-parte do Protocolo, aqueles também não
devem negociar qualquer tipo de redução.67 Além disso, a China continua invocando a responsabilidade histórica dos países desenvolvidos pelo estado climático
atual e, assim, tenta justificar seu processo de industrialização rápido e ambientalmente nocivo.68
Todo e qualquer regime climático que fracassa em incluir os Estados Unidos e as maiores nações em desenvolvimento no roll de obrigados está fadado ao
fracasso, por razões científicas e políticas.69 Não obstante, deve-se levar em conta
que, mesmo que os EUA ratificassem o Protocolo, as reduções alcançadas não teriam efeito significativo sobre o clima: como já referido, o percentual de redução
acordado no Protocolo está muito longe dos 60% a 80% que, segundo o IPCC,
seriam necessários para impedir uma catástrofe climática.70 De qualquer maneira,
a não ratificação pelos EUA continua a deixar a história do Protocolo de Quioto
mais distante de um final feliz.71
5. CONCLUSÕES ARTICULADAS
5.1. Do que foi exposto, denota-se que os atuais instrumentos internacionais não
são suficientes à garantia de sucesso no combate ao aquecimento global, uma
vez que os países desenvolvidos – com ou sem os EUA – não podem, sozinhos,
resolver o problema.72 Tal conclusão afeta a essência do conceito em estudo, da
maneira como positivado na UNFCCC e no Protocolo de Quioto e o qual, assim,
necessita ser repensado.
5.2. Resta claro que as responsabilidades comuns, porém diferenciadas, devem
ser restringidas, limitadas. Em primeiro lugar, o conceito deve valer somente pelo
espaço temporal suficiente a que os países em desenvolvimento atinjam o mesmo
nível de crescimento dos desenvolvidos, ao mesmo tempo em que participam do
instrumentário de proteção ambiental. Isso quer dizer que não deve ser estatuído
um arranjo normativo estático e permanente, senão flexível, em que a discrimina-
66
Ver Harris, The European Union and Environmental Change, p. 315; Reuters: “China says impact of climate change
clearer daily”, 01.06.2007.
67
Halvorssen, p. 250. Ver também Reuters: “India to resist Bush pressure on global warming”, Y.P. Rajesh, 03.06.2007.
68
The New York Times, “China Issues Plan on Global Warming, Rejecting Mandatory Caps on Greenhouse Gases”, Jim
Ardley und Andrew C. Revkin, 05.06.2007; Reuters: “China shrugs off EU calls for climate change action”, 29.05.2007;
Reuters: “China set to confront climate change, defend growth”, Chris Buckley, 03.06.2007; The Guardian: “China unveils
climate change plan”, Jonathan Watts, 04.06.2007; BBC: “China climate stance challenges UK” und “China unveils climate change plan”, 04.06.2007; Reuters: “Experts react to China’s climate change plan”, 04.06.2007.
69
Thoms, p. 250: On a scientific level, emissions from either the United States or a number of developing nations can
easily overcome any progress achieved by the climate change regime. The United States is one of the largest emitters of
greenhouse gases, and the IPCC expects greenhouse gas emissions from developing nations to exceed those from industrialized nations sometime between 2015 and 2020. Politically, without binding limits on either the United States or developing
nations, parties to the protocol will be reluctant to agree to further emissions cuts due to competitiveness concerns.
70
Ver Childs, p. 235.
71
Thoms, p. 821.
72
Harris, The European Union and Environmental Change, p. 315.
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ção positiva persistirá até o momento em que cessarem as diferenças entre os grupos de Estados. Em segundo lugar, o paradigma das responsabilidades comuns,
porém diferenciadas, não pode estar em desacordo com o escopo do instrumento
em que está expresso73: na medida em que a positivação das responsabilidades
diferenciadas, no Protocolo de Quioto, não contribui para uma melhora efetiva
nas concentrações de gases causadores do efeito estufa na atmosfera – objetivo
primordial do Protocolo –, o conceito deve ser estruturado de maneira diversa.
5.3. Uma das soluções praticáveis, referida pela doutrina ambientalista internacional, é naturalmente a inclusão dos países em rápido desenvolvimento no rol
dos obrigados a reduzir suas emissões, através de uma nova lista (Anexo C), bem
como através de um Fundo de Atenuação (Mitigation Fund). Assim, nações como
China, Índia, Brasil, África do Sul, México, Coréia do Sul, Singapura, Israel e
Chile teriam obrigações traduzidas em percentuais a serem alcançados a partir de
2012 – o segundo commitment period. A nova lista de países estaria em harmonia
com a noção das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, além de ser
compatível com os objetivos da UNFCCC e do Protocolo de Quioto. Ao mesmo
tempo, estar-se-ia de acordo com os ditames do desenvolvimento sustentável. Os
principais interesses dos países em desenvolvimento – crescimento econômico e
superação da pobreza – seriam trazidos ao encontro da pauta política dos países
desenvolvidos no que diz respeito à proteção do clima.74
5.4. Através do Fundo de Atenuação, a ser administrado por um banco privado
de abrangência internacional, por exemplo75, dar-se-ia condições às nações em
desenvolvimento para que alcançassem os percentuais previstos, sem ter de renunciar ou frear seu crescimento econômico.76 No momento em que novos países
entrassem no processo de industrialização – e, com isso, aumentassem suas emissões de gases do efeito estufa –, eles seriam incluídos na nova lista, tendo alguns
anos adicionais para atingir as reduções a que se obrigaram.77
5.5. Com a criação dessa nova lista no Protocolo de Quioto, cairia por terra, ainda,
o principal argumento utilizado pelos EUA para a não ratificação do instumento,
uma vez que países como China e Índia não estariam mais excetuados.78 Dos países menos desenvolvidos (least developed countries), por sua vez, esperar-se-á
que contraiam obrigações voluntárias de redução, de acordo com sua capacidade,
e, sobretudo, que tenham acesso e apliquem os recursos financeiros e tecnológicos
disponibilizados para que combatam as conseqüências do aquecimento global.79
73
Halvorssen, p. 255/259.
Halvorssen, p. 251/252.
75
Halvorssen, p. 261.
76
Halvorssen, p. 248.
77
Halvorssen, p. 259/260.
78
Halvorssen, p. 263. Sobre as medidas encontradas nos EUA em nível estadual: Reuters: “New Jersey governor signs toughest U.S. carbon law”, Timothy Gardner, 06.07.2007; Reuters: “Schwarzenegger, Ban call for action on climate”, Deborah
Zabarenko, 24.09.2007; Reuters: “Schwarzenegger urges U.N. to move on climate change”, Jeff Mason, 24.09.2007.
79
Harris, EU, p. 326.
74
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IMPACTOS AMBIENTAIS CAUSADOS PELA
PECUÁRIA EXTENSIVA
CAROLINA CORRÊA LOUGON MOULIN
Graduada em Direito pela Faculdade de Direito Milton Campos em
dezembro de 2007, em Nova Lima, Minas Gerais e estudante da
Rede de Ensino Luiz Flávio Gomes
1. INTRODUÇÃO
Um assunto em voga atualmente é a questão da pecuária extensiva, atividade econômica muito comum no Brasil e que causa vários impactos ambientais não
visíveis aos olhos do Poder Público e do consumidor.
Nos últimos anos a criação de bovinos destinados ao consumo intensificouse no país, tornando-se imprescindível um estudo mais aprofundado acerca do
tema em questão para a evolução do direito ambiental, uma vez que umbilicalmente relacionado a este.
Apesar da bibliografia sobre o assunto ser escassa, o tema é de suma importância tendo em vista que a Organização das Nações Unidas para Agricultura
e Alimentação -FAO- elaborou um relatório intitulado “A grande sombra do gado”
sobre os impactos causados pela pecuária.
A pecuarização da Amazônia se intensificou de maneira sem precedentes
ao longo dos últimos cincos anos, e o fenômeno requer uma atenção nova e especial. Esta região contém o maior rebanho bovino nacional, estimado em 74
milhões de cabeças de gado, ou 3,3 por habitante1.
No decorrer do artigo serão analisados os impactos ambientais causados
por esta atividade, como, por exemplo, emissão de gases poluentes que prejudicam a camada de ozônio, a desertificação do solo causada pelo desmatamento e
pisoteio do gado, perda da biodiversidade e a proteção desses animais.
2. PECUÁRIA E AQUECIMENTO GLOBAL
De acordo com o relatório da FAO, a pecuária é significantemente responsável pela amplificação do efeito estufa, uma vez que é o setor que mais produz
gases componentes do efeito, como o CO2 (dióxido de carbono), cuja produção é
mais elevada que a produzida no setor de transportes; NO2 (óxido nitroso), proveniente do esterco do boi (o setor produz cerca de 65% deste gás presente na
1 SMERALDI, Roberto, MAY, Peter H. O Rei do Gado. Uma nova fase na pecuarização da Amazônia Brasileira.São
Paulo: Amigos da Terra- Amazônia Brasileira, 2008, p. 09.
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atmosfera, e contém cerca de 300 vezes mais potencial de aquecimento global que
o CO2) e o metano, gás 23 vezes mais nocivo que o CO2, produzido pelo arroto
das vacas2.
De acordo com DAJOZ (2005)3, os bovinos produzem de 300 a 500 milhões de toneladas por ano de metano, uma vez que este gás é produzido por seu
aparelho digestivo.
Estima-se que os gases emitidos pelos excrementos e o desmatamento das
florestas para formar pastos, acrescidos na geração de energia gasta na administração do gado respondem por 18% dos gases-estufa emitidos anualmente no mundo.
Na última década, a explosão da pecuária na Amazônia, incluindo a mudança do uso da terra e a fermentação etérica do rebanho, excluído o processamento e
o transporte, foi responsável pela emissão de aproximadamente 9 e 12 bilhões de
toneladas de gás carbônico, volume este emitido durante dois anos pelos Estados
Unidos, país que mais emite gases poluidores do mundo4.
Conforme afirma Henning Steinfeld, chefe da FAO, “O gado é hoje uma das
coisas que mais contribui para os problemas ambientais mais sérios da atualidade.
É preciso tomar uma ação urgente para remediar esta situação”5.
A Convenção de Viena para a Proteção da Camada de Ozônio e o Protocolo
de Montreal sobre substancias que destroem a camada de Ozônio, ambos ratificados pelo Brasil e promulgados pelo Decreto 99.280 de 6.6.1990, estabelecem
que as partes devem adotar medidas legislativas ou administrativas apropriadas e
cooperar na harmonização de políticas adequadas para controlar, limitar, reduzir
ou evitar atividades humanas, caso se verifique que tais atividades têm, efeitos
adversos que resultem de modificações, ou prováveis modificações da camada de
ozônio ( art.2, inc. II, b).
O anexo I desta Convenção enumera algumas substâncias que possuem
presumidamente o potencial de modificar as propriedades químicas e físicas da
camada de ozônio. Dentre elas estão o metano (CH4) e o dióxido de carbono
(CO2) que afeta o ozônio estratosférico ao influenciar na estrutura térmica da
atmosfera.
Especialistas dizem que existem várias maneiras de ajudar a combater o
aquecimento global, como, por exemplo, reciclando os materiais e comprando
alimentos orgânicos. Porém há uma forma bastante eficiente para ajudar o planeta,
qual seja, comer menos carne ou não comer carne. De fato, um acre de floresta,
cerca de 4.046,82 m², seriam salvos todos os anos se cada pessoa se tornasse vegetariana6.
É necessário que o poder público adote medidas para impedir, ou ao menos
2 Informações retiradas do endereço eletrônico: http://www.apolo11.com/mudancas_climaticas.php?posic= dat_2006
1130-093109.inc
3 DAJOZ, Roger.Princípios da Ecologia.Tradução Fátima Murad-7ed. Porto Alegre:Artmed,2005, p.41
4 , SMERALDI, Roberto, MAY, Peter.O Rei do Gado:Uma nova fase de pecuarização da Amazônia Brasileira.São Paulo:
Amigos da Terra- Amazônia Brasileira, 2008,p.08
5 Informações retiradas do jornal O Estado de São Paulo, 30/11/2006.
6 Hur, Robin, and Fields, Dr.David Are High-Fat Diets Killing our Florest? Vegetarian times, 1984, in OUR FOOD OUR
WORLD: Making a Difference with every bite: the Power of the Fork! EarthSave International. New York, NY, p.06
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reduzir, a enorme emissão desses gases na atmosfera, que prejudica a biodiversidade e a qualidade de vida humana.
3. PECUÁRIA E DESERTIFICAÇÃO DO SOLO
A desertificação é um fenômeno de “transformação de áreas anteriormente
vegetadas em solos inférteis devido a ações antrópicas, como mau uso e exploração da terra7”. Atualmente, a destruição da vegetação ocorre pelo desmatamento
ou por grandes pastagens de gado, acarretando a erosão dos solos e à degradação
dos habitats aquáticos, os quais recebem sedimentos em excesso8. Esta perda da
vegetação é causa da salinização dos solos.
De acordo com DAJOZ (2005), “Na Amazônia a transformação da floresta
em pastagem tem dois efeitos. O primeiro é a compactação do solo por máquinas
motorizadas e pelo pisoteio do gado. O segundo é a redução de biodiversidade da
macrofauna do solo.”9
De acordo com alguns apontamentos feitos pelo Núcleo Desert do IBAMA,
em 1992, para a Eco/Rio10, a pecuária extensiva, a qual é feita com a retirada de
plantas ou pela compactação do solo, devido ao pisoteio reiterado do gado, é uma
das causas de desertificação do solo.
O relatório da FAO afirma que a criação de bovinos é uma das causas principais de degradação do solo. Este, que geralmente é queimado para se fazer o
pasto, não recebe adubação nem manutenção, o que os torna susceptíveis de erosão, perdendo, dessa forma, a qualidade.
A natureza do solo amazônico é o húmus da floresta, são os nutrientes que
ela mesma gera. Uma vez destruída a floresta, os nutrientes acabam, de forma que
25% da área devastada é abandonada11.
Uma das conseqüências da desertificação do solo de acordo com relatório
da Organização das Nações Unidas é o não aproveitamento dessas áreas e o elevado custo financeiro, estimado em 10 milhões de dólares por ano, necessário para
a sua recuperação ou simples manuseio12.
Além do custo financeiro, a erosão e a desertificação do solo acarretam
perdas de espécies e destruição de ecossistemas, conforme será estudado a
seguir.
7 Dicionário Brasileiro de Ciências Ambientais.Organizado por Pedro Paulo de Lima e Silvaet. AL. Rio de Janeiro:Thex,
1999, In, MILARÉ Edis. Direito do Ambiente, São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006.p.1071
8 DAJOZ, Roger.Princípios da Ecologia.Tradução Fátima Murad-7ed. Porto Alegre:Artmed, 2005, p.396
9 Ibidem, p.397
10 SILVA, Letícia Borges da, CARVALHO, Patrícia Luciane de, Desertificação e Meio Ambiente.in Direito Ambiental em
Evolução, n.04, Vladimir Passos de Freitas (coord), 1ª ed.(ano 2005),3ª tir./Curitiba: Ed.Juruá, 2007, p.255
11 TRIGUEIRO.André.Mundo sustentável.São Paulo:Globo, 2005, p.152
12 Extraído do Relatório das Nações Unidas Status of Desertification and Implementation of the U.N Plan of Action
to Combat Desertification. In: SILVA, Letícia Borges da, CARVALHO, Patrícia Luciane de, Desertificação e Meio Ambiente.in Direito Ambiental em Evolução, n.04, Vladimir Passos de Freitas (coord), 1ª ed.(ano 2005),3ª tir./Curitiba:
Ed.Juruá,2007, p.255
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4. PECUÁRIA E PERDA DA BIODIVERSIDADE
Na década de 1970 os ecólogos e conservacionistas começaram a perceber
que o desaparecimento de espécies estava se acelerando, surgindo então o conceito de biodiversidade, segundo o qual, de acordo com o art. 2º da Convenção
sobre Diversidade Biológica significa “variabilidade de organismos vivos de todas
as origens, compreendendo, dentre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos
e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte;
compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e de ecossistemas”.
Roger Dajoz diz que o estudo da biodiversidade pode ser abordado em três
níveis de complexidade:
“A diversidade genética é a variabilidade da composição genética
de indivíduos dentro espécies e de populações ou entre estas últimas. A diversidade de espécies corresponde ao número e à variedade de espécies presentes em uma determinada zona. A diversidade
de ecossistemas corresponde à diversidade estrutural e funcional
dos ecossistemas que estão presentes em uma região”.
Para preservar a biodiversidade é necessário resguardar essas diferenças,
uma vez uma vez que as espécies estão interligadas, assim, possibilitando a diversidade de vida e adaptação às mudanças. Ao modificar a variedade de um ecossistema ficam alteradas as suas capacidades de manter a fertilidade do solo, purificar
a água e absorver a poluição.
O primeiro princípio da Política Nacional da Biodiversidade (Dec.
4.339/2002), estabelece que “a diversidade biológica tem valor intrínseco, merecendo respeito independentemente de seu valor para o homem ou potencial para
uso humano”, ou seja, ela merece respeito pelo o que ela é em si mesma.
Em termos de biodiversidade, o Brasil pode ser considerado um país privilegiado, uma vez que a Amazônia continental abriga, em apenas 4% da sua
superfície terrestre, mais de 1/5 da biodiversidade do planeta13.
A destruição das florestas está intimamente ligada à perda da biodiversidade Na América do Sul a pecuária é o fator mais nocivo à floresta. O número de
bovinos duplicou entre 1950 e 1975, fazendo com que desaparecessem 80.000
Km² de floresta no Brasil entre 1966 e 197814.
.Estima-se que, a cada ano, cerca de 200.000 (duzentos mil) quilômetros
quadrados de floresta tropicais são destruídas de forma permanente para se fazer
o pasto para o boi, ocasionando a morte de vários animais que lá habitavam, o que
provoca a extinção de aproximadamente 1000 espécies de plantas e animais devido à destruição do seu ecossistema. Nos arredores de Belém, uma das áreas mais
13 Informações retiradas do endereço eletrônico: http://www.consciencia.net/2006/0128-meirelles-filho-amazonia.html,
acesso em 02/04/2008 às 18:30 minutos
14 DAJOZ, Roger.Princípios da Ecologia.Tradução Fátima Murad-7ed. Porto Alegre: Artmed, 2005, p.423
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comprometidas, por exemplo, um quarto das aves está ameaçado de extinção. O
crescimento da pecuária é a principal causa da extinção de espécie nos Estados
Unidos15.
Na floresta Amazônica, as fazendas de gado são as principais responsáveis pelo desmatamento na região. De acordo com o Centro Internacional de
Pesquisas Florestais, The Center for International Forestry Research (CIFOR),
em 2003, oitenta por cento da produção de gado brasileira estava situada na
região amazônica16.
O problema da criação animal é tão grande que David Pimentel, pesquisador da Universidade de Cornell (EUA), afirma que 80% da devastação das florestas mundiais são provocadas pela pecuária17.
Este assunto é bastante importante tendo em vista que a restauração
de um ecossistema “é um empreendimento caro, difícil e, em certos casos,
impossível”18
5. PECUÁRIA E POLUIÇÃO HÍDRICA
Analisando o gasto de água na pecuária, para produzir um quilo de carne de
boi são gastos 8.938 litros de água, enquanto, para produzir um quilo de tomate
são gastos 39 litros, e um quilo de trigo, 42 litros. A criação de gado é responsável por mais da metade de toda a água consumida para todos os fins nos Estados
Unidos.19
Esses animais produzem resíduos compostos por nitrogênio, os quais, posteriormente, são convertidos em amônia e em nitrato, infiltrando nas águas do
subsolo e da superfície, contaminando poços e rios, além de destruir a vida aquática. Os resíduos criados por um rebanho de 10.000 (dez mil) cabeças são iguais
aos produzidos por uma cidade cuja população é de 110.000 (cento e dez mil)
habitantes.
6. PECUÁRIA E PROTEÇÃO DOS ANIMAIS
O Brasil é um dos poucos países do mundo20 a vedar na Constituição da
República a prática de crueldade para com os animais. De acordo com seu art.
255, §1º, inc. VII incumbe ao Poder Público: “proteger a fauna e a flora, vedadas,
15 Ibidem p.06
16 Informações retiradas do endereço eletrônico: http://news.mongabay.com/2005/0521-rhett_butler.html, acesso feito em
01 de abril de 2008, às 18:15 hrs.
17 OUR FOOD OUR WORLD: Making a Difference with every bite: the Power of the Fork! EarthSave International.
New York, NY, p.06
18 DAJOZ, Roger.Princípios da Ecologia.Tradução Fátima Murad-7ed. Porto Alegre:Artmed,2005, p. 442
19 Informações retiradas do endereço eletrônico: http://www.harekrishna.com.br/veg/ e http://www.vegetarianismo.com.
br/sitio/index.php?option=com_content&task=view&id=445&Itemid. Ambos amplamente baseados em Our Food Our
World – The Realities of an Animal-Based Diet, EarthSave Foundation, Santa Cruz, 1992. Tradução e adaptação de Marly
Winckler.
20 LEVAI, Laerte Fernando. Crueldade consentida- Crítica à razão antropocêntrica. Revista Brasileira de Direito Animal.
Salvador. Nº 1, volume nº1, Salvador: Instituto de Abolicionismo Animal. Janeiro-Dezembro de 2006, p.171-190
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na forma da lei, as práticas que coloquem em risco a sua função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade”.
De acordo com Paulo Afonso (2007)21: “A Constituição teve o mérito de
focalizar o tema e proibir a crueldade contra os animais. O texto constitucional
fala em “práticas”- o que quer dizer que há atos cruéis que acabam tornando-se
hábitos.”
Este preceito constitucional inspirou o legislador ordinário ambiental a criminalizar, no artigo 32 caput da Lei 9.605/98, todo aquele que “praticar ato de
abuso, maus tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos”.
Embora os animais estejam submetidos às regras civis do direito de propriedade,
foram igualmente tutelados pelo legislador, o qual erigiu em cláusula pétrea um
dispositivo de conteúdo moral.
Analisando situação dos bovinos submetidos à criação intensiva, percebe-se que,
na maioria das vezes, esses animais são submetidos à crueldade e alguns atos
do criador configuram maus tratos (art.32 da Lei 9605/98), tais como a retirada
precoce dos chifres, a marcação do animal com ferro incandescente e a castração,
realizada pelos próprios criadores e sem qualquer preocupação com as implicações sensíveis causadas ao animal.
Estudos científicos comprovam que os animais possuem uma seqüência de
estruturas nervosas responsáveis pela recepção e condução dos estímulos causadores da dor até determinadas regiões do cérebro22.Estes se diferenciam do cérebro humano apenas na expressão quantitativa, e não na qualitativa, servindo de
órgão de manifestação da mente23. Vale ressaltar que, nos mamíferos, há a atuação
do sistema ativador reticular ascendente, responsável pela passagem do tronco
encefálico dos estímulos de sensibilidade e dor, da visão do que está ocorrendo e
dos estímulos sonoros.24
Portanto, é notável que o animal tem condição de avaliar e interpretar a adversidade da situação a que se encontra submetido, disso resultando dor física e sofrimento mental25.
Em princípio, estes simples atos feitos corriqueiramente pelo fazendeiro
podem configurar o crime de maus-tratos.
De acordo com a Constituição brasileira, a proteção dos animais impõe aos
agentes públicos e a toda sociedade a proibição de submetê-los a comportamentos
cruéis, de forma que não há restrições ao alcance da proteção, abrangendo os animais que componham ou não a fauna silvestre26
21 MACHADO , Paulo Afonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro, São Paulo: Malheiros,2007, 14 ed, p.132.
22 TUGLIO, Vânia Maria.Espetáculos Públicos e Exibição de Animais. Manual Prático da Promotoria de Justiça do Meio
Ambiente. Vol.I, São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2005, p..485
23 PRADA, Irvênia.A alma dos Animais.São Paulo:Ed. Mantiqueira,2000
24 TUGLIO, op.cit.p.485
25 TUGLIO, op.cit.p.485
26 AYALA,Patryck de Araújo. O novo Paradigma constitucional e a jurisprudência ambiental no Brasil.In:CANOTILHO,
José Joaquim Gomes, MORATO LEITE, José Rubens (organizadores).Direito Constitucional Ambiental Brasileiro.São
Paulo: Saraiva, 2007, p.380
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O Decreto Federal nº 24.645/34 estabelece, em seu art. 1º, que todos os
animais existentes no país são tutelados pelo Estado, considerando maus tratos
(art.3º) a prática de atos de abuso ou crueldade contra eles (inc. I); golpear, ferir
ou mutilar, voluntariamente qualquer órgão ou tecido de economia (inc. IV).
A doutrina brasileira tem evoluído no sentido da proteção dos animais, adotando um posicionamento inovador, conforme leciona José Afonso da Silva:
“Objeta-se que não há direito que não seja humano ou do homem,
afirmando-se que só o ser humano pode ser titular de direitos. Talvez já não mais assim, porque, aos poucos, se vai formando um
direito especial de proteção dos animais.”27
Caberia, então, ao poder público, fiscalizar as fazendas e empreender campanhas de conscientização com os criadores, uma vez que muitos desconhecem as
implicações físicas e psico-sensíveis causadas ao animal.
7. PECUÁRIA E O PRINCÍPIO DO POLUIDOR-PAGADOR
Conforme estabelece o princípio XIV do Dec. 4.339/2002 “o valor de uso
da biodiversidade é determinado pelos valores culturais e inclui valor de uso direto e indireto, de opção de uso futuro e, ainda, valor intrínseco, incluindo os
valores ecológico, genético, social, econômico, científico, educacional, cultural,
recreativo e estético”. Assim, para analisar o valor de todo e qualquer uso, devese primeiro consultar o valor intrínseco da biodiversidade e subordinar a ele os
demais valores elencados neste princípio.
O decreto também estabelece que os ecossistemas devem ser entendidos e
manejados em um contexto econômico (principio XVII), objetivando: “(a) reduzir
distorções de mercado que afetam negativamente a biodiversidade; b) promover incentivos para a conservação da biodiversidade e sua utilização sustentável; e c) internalizar custos e benefícios em um dado ecossistema o tanto quanto possível”.
A internalizarão dos custos ambientais será feita tendo como base o princípio do poluidor-pagador, segundo o qual imputa-se ao poluidor o custo social
da poluição por ele gerada, engendrando um mecanismo de responsabilidade por
dano ecológico abrangente dos efeitos da poluição não somente sobre bens e pessoas, mas sobre toda a natureza.28
Este princípio pode ser entendido como a internalização das externalidades negativas dos custos ambientais, no qual o empreendedor deve, em princípio,
arcar com o custo da poluição, com a devida atenção ao interesse público e sem
provocar distorções no comércio e nos investimentos internacionais.
Tendo em vista este princípio percebe-se que não estão internalizados no
preço da carne os impactos ambientais por ela gerados, como por exemplo, a
27 SILVA, José Afonso.Curso de Direito Constitucional.São Paulo, Ed. Malheiros, 2001, p.176.
28 MILARÉ, Edis. Direito do Ambiente, doutrina- jurisprudência- glossário. 4ª edição, São Paulo, 2005 pg.164
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desertificação do solo ocorrida pelas queimadas e pelo pisoteio do gado, a conseqüente perda da biodiversidade e a poluição dos recursos hídricos.
Dentre os impactos causados por esta atividade, a mais cruel é desflorestamento, o que acarreta a perda de biodiversidade e a extinção de espécies.
Há esperança de que o Poder Público tenha um controle sobre erros e fraudes na utilização da biodiversidade “pois o jogo de interesses nem sempre é claro
quando se trata de preservar a qualidade ambiental com ônus para os exploradores
e empreendedores”29
Apesar desses dados alarmantes, a FAO reconhece que a pecuária, além de
ser responsável por 40% da produção agrícola mundial, é o meio de subsistência
de aproximadamente 1,3 bilhão de pessoas no planeta.
Dessa forma, para que a situação não piore, é necessário que sejam encontradas soluções rápidas para o problema, uma vez que o consumo de produtos
provenientes de animais de criação cresce anualmente.
8. PECUÁRIA E ESTUDO DE IMPACTO AMBIENTAL
A Constituição da República estabelece, em seu art.225, §1º, inc. IV, que,
incumbe ao Poder Público “exigir, na forma da lei, para instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente,
estudo prévio de impacto ambiental, a que se dará publicidade”.
O estudo deve ser prévio, para evitar uma prevenção falsa, ou seja, quando
o empreendimento já iniciou sua implantação.
O objetivo do Relatório de Impacto Ambiental destina-se ao esclarecimento das vantagens e conseqüências ambientais do empreendimento, e refletirá as
conclusões daquele.
Nas palavras de MILARÉ (2006)30: “é certo que muitas vezes, a previsão
dos efeitos nefastos de um projeto pode ser muito delicada, pois algumas modificações do equilíbrio ecológico só aparecem bem mais tarde”.
A Deliberação Normativa do Conselho Estadual de Política Ambiental de
Minas Gerais (COPAM) nº 74, estabelece critérios para a classificação segundo o
porte e potencial poluidor de atividades modificadoras do meio ambiente, enquadrando a pecuária extensiva acima de 3.000 cabeças, como um empreendimento
de grande porte, com um potencial poluidor/degradador geral da atividade 4 (importante lembrar que o potencial poluidor varia de 1 a 6).
Dessa forma, é necessário um estudo de impacto ambiental antes de o pecuarista começar a sua atividade, de forma que se possa reduzir a degradação
causada ao meio ambiente.
29 MILARÉ op.cit. p.725
30 MILARE, Edis. Direito do Ambiente, Revista dos Tribunais, São Paulo, 2006, p.492
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9. PECUÁRIA E DIREITO À INFORMAÇÃO
O art. 5º, inc.XIV da Constituição Federal estabelece que é assegurado a
todos o acesso à informação. Este direito também é um dos objetivos e um dos
instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente (Lei 6938/81), de forma
que a sociedade possa ser informada para ter uma participação ativa na defesa do
nosso patrimônio ambiental.
O Estado Democrático de Direito tem como postulado básico o direito à
informação, essencial para a comunidade zelar pelo equilíbrio ecológico do planeta, de forma que a melhor maneira de tratar questões ambientais á assegurar a
participação de todos os cidadãos interessados.
Estabelece o Princípio 10 da Declaração do Rio, que “cada indivíduo deve
ter acesso adequado a informações relativas ao meio ambiente de que disponham
as autoridades públicas”, de forma que os Estados devem estimular a conscientização e a participação pública, colocando a informação à disposição de todos.
O ser humano, ao compreender o real significado da questão ambiental, é
resgatado de sua situação de passividade31, tornando-se apto a discutir os problemas e propor mudanças.
A situação da pecuária de uma forma geral deve ser informada para a sociedade, de forma que esta esteja apta a analisar os impactos que a criação de bovinos
causa ao meio ambiente, e, conseqüentemente, exigir que os governantes adotem
medidas para diminuir a degradação.
Por derradeiro, o direito à informação deve abranger também aqueles que
lidam diretamente com a criação destes animais, uma vez que são os interessados
mediatos e responsáveis pela questão.
Tendo em vista este importante princípio do direito ambiental, é necessário
que o Poder Público adote políticas de informações à sociedade, de forma que esta
atue de forma eficiente, contribuindo para a preservação e a manutenção de um
meio ambiente ecologicamente equilibrado.
10. CONCLUSÕES ARTICULADAS
10.1 A pecuária é uma atividade econômica típica do Brasil e que acarreta vários
danos ao meio ambiente, como a emissão de gases que prejudicam a camada de
ozônio, desertificação do solo, poluição hídrica, perda de biodiversidade e causa
sofrimento aos animais.
10.2 Dentre os impactos, o desflorestamento é o que merece maior atenção, uma
vez que acarreta a perda de biodiversidade e a extinção de espécies, elementos
essenciais para a manutenção de um meio ambiente ecologicamente equilibrado.
31 MILARÉ, op.cit.p.223
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10.3 É necessário que o Poder Público adote medidas para efetivar o princípio do
poluidor pagador nesta atividade, de forma que os custos da produção de carne
sejam internalizados para os pecuaristas.
10.4 É necessário também que o Poder Público faça campanhas educativas para
que a população se conscientize sobre os impactos ambientais gerados pela pecuária, de forma que a sociedade possa participar efetivamente da proteção do meio
ambiente, em especial, da biodiversidade.
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NATURA E TEORIA DE GAIA: UMA ANÁLISE
DO DISCURSO DE SUSTENTABILIDADE
CLARIANE LEILA DALLAZEN
Acadêmica do 4º ano do Curso de Direito da Unioeste –
Universidade Estadual do Oeste do Paraná
1. INTRODUÇÃO
A proposta central desta tese se caracteriza em analisar o discurso de sustentabilidade utilizado pela empresa Natura, sob a perspectiva das proposições
defendidas pela Teoria de Gaia. Para tanto, é de suma importância que se tenha
um prévio conhecimento do que vem a ser a Hipótese Gaia e quais são os seus
principais argumentos. Em contrapartida a isso, será feita a explanação acerca
do poder de aculturamento que um discurso possui, de formação de opinião e
de manipulação, tudo isso, de acordo com a visão foucaultiana da análise do
discurso. Segundo esta perspectiva da análise do discurso, uma enunciação
produz efeitos no tempo, no espaço, de acordo com seu enunciador, variando
conforme a ideologia e as perspectivas de seus enunciatários. Este processo
cria as verdades que se estabelecem e efetivam no meio social. É também, por
meio do discurso que se torna possível o exercício de poder, sendo ele, quando
convenientemente empregado, formador das verdades de seus enunciatários.
O que se pretende por meio desta pesquisa é demonstrar como o discurso se
exerce na sociedade, de modo que ele é quem define as verdades que serão
práticas sociais e conseqüentemente formarão a cultura e os ideais de um
povo. Objetiva-se também demonstrar que os discursos tornam-se verdades
mesmo que possuam um intuito meramente econômico. Sob este aspecto o
que o possibilitará perpetuar-se é sua estratégia de exercício de poder, o status do enunciador e a fé de seus enunciatários. Partindo desta perspectiva
serão observadas as estratégia de exercício de poder utilizadas pela empresa
Natura, tendo como objeto de análise o seu catálogo de vendas, bem como o
modo como o seu discurso abriu espaço para as proposições defendidas por
Lovelock e Lynn no ano de 1969, quando da elaboração da pouco conhecida
Hipótese Gaia. Ano este que, por coincidência ou não, é o mesmo da fundação
da empresa em voga.
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2. TEORIA DE GAIA: O PLANETA RESPIRA
Em 1969, o britânico James Lovelock1 lançou na academia a Teoria de Gaia,
também conhecida como a Hipótese Gaia2. Sua teoria consiste basicamente na
afirmação de que a Terra funciona como um organismo vivo. Ele afirmava que a
biosfera é capaz de controlar-se e gerir sozinha as condições do meio ambiente,
desde que não sofra agressões, ou seja, desde que cada membro seu cuide de si
próprio. Ele chegou a essa conclusão, em parceria com a bióloga Lynn Margulis,
fazendo uma análise de pesquisas que comparavam a atmosfera da Terra com a de
outros planetas, propondo então que é a vida da Terra que cria as condições para a
sua própria sobrevivência, e não o contrário, como as teorias tradicionais sustentam. Resumidamente, para os idealizadores desta teoria a superfície da Terra e a
biosfera eram consideradas um sistema fisiológico, um “superorganismo”.
Os estudos de que a Terra é viva, são tão antigos quanto a humanidade.
Segundo apresentações de Lovelock, os antigos gregos deram à ela o nome de
Gaia e tinham-na como deusa. Até os cientistas do século XIX sentiam-se confortáveis com a idéia de que a Terra era um organismo vivo. Para os estudiosos
dessa época a Terra era considerada um superorganismo vivo e o estudo à ela
cabível era a fisiologia. O considerado pai da geologia, James Hutton, chegou
a comparar a circulação dos elementos nutrientes da Terra e a forma como se
realiza do ciclo das águas com a circulação de sangue no corpo humano, descoberta por Harvey.
De acordo com os estudos de Lovelock e Lynn, a atmosfera da Terra emitia
gases e sinais infravermelhos vivíveis por qualquer espaçonave e a longa distância, o que comprovaria a existência de vida. Em comparação com a atmosfera
de outros planetas, a do nosso, caracterizava-se instável a capaz de controlar sua
composição química e se manter bem quanto ao ambiente externo (espaço sideral), isso comprovaria seu autocontrole e a tese caracterizadora da Terra como
superorganismo. Diante disso, qualquer comportamento humano, qualquer tipo
de gás ou elemento que se inserisse na vida do ecossistema atuaria influentemente
no funcionamento da Terra, já que esta se regeria por si própria em comunhão com
os seus elementos componentes, segundo a proposição da Teoria e Gaia.
Segundo Lovelock, houve certa rejeição a essa teoria em razão de a evolução
da ciência desfragmentá-la em diversas áreas independentes de conhecimento,
tornando o trabalho interdisciplinar bastante complexo. Sua teoria se embasou
numa vista panorâmica da Terra, ou seja, fotografias tiradas do espaço. Para Lovelock e seus colaboradores esta foi a prova que lhes faltava para fundamentar seus
pensamentos.
1
O texto aqui apresentado constitui um excerto do capítulo 56 do livro Biodiversidade, organizado por E. O. Wilson.
Lançada recentemente no Brasil pela Editora Nova Fronteira, a obra reúne artigos apresentados no Fórum Nacional Sobre
Biodiversidade, realizado em Washington no ano de 1986 e que reuniu alguns dos maiores especialistas mundiais ligados
à questão da biodiversidade. A tradução é de Marcos Santos e Ricardo Silveira.
2
Hipótese Gaia. [on lile] Dispoível na internet em http://pt.wikipedia.org/wiki/Hip%C3%B3tese_de_Gaia. Consultado
em 26/01/2007.
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29
Diante das proposições desse estudo pôde-se compreender em que consiste
a Hipótese Gaia e constatar certa rejeição imediata á suas proposições, porém,
posteriormente, com o desenvolvimento e apresentação de pesquisas ela passou a
ter menos resistência.
O argumento utilizado pelas ciências da época foi o fato de a referida teoria
não possuir a capacidade de comprovação empírica. Um estudo sobre a epistemologia e os métodos científicos me permite dizer que as teorias científicas vigentes
em uma determinada época procuravam na comprovação empírica a fundamentação de suas proposições teóricas. Na prática científica, qualquer nova teoria ou
ciência que viesse a refutar ou substituir alguma existente deveria ser de mais
fácil comprovação, possuir maior precisão, ser mais detalhada, ser capaz de resistir a uma diversidade de testes, etc; “isso tudo porque a maioria das teorias era
presumidamente falsa” (OLIVA, 1990)3. Em síntese, para ser considerada real
e verdadeira uma teoria deveria ser empírica, palpável. Na época, o que não era
comprovável não era verdade (uma realidade refutada pelos estudos do discurso), portanto, de nada adiantaria proposições e hipóteses que não pudessem ser
vistas ou tocadas, que não houvesse dados comprobatórios de sua real existência.
Estudos meramente teóricos ou observatórios não ganhavam espaço no rol das
ciências críveis na época. Essa característica de empirismo não era própria da Teoria de Gaia, ela era meramente observatória e teórica. Apesar de seus defensores
acreditarem que as observações a distância eram comprovação empírica suficiente
para a sua aceitação como verdade, isso não foi suficiente para dar-lhe credibilidade na academia. Ela (Gaia), por ser fruto de observações e suposições, não
possuía conteúdo o suficiente para tornar-se uma verdade, era preciso, que antes
de qualquer coisa ela encontrasse uma maneira empírica de se efetivar.
Atualmente, diante da situação adoecida em que se encontra o planeta, muito valor se dá às suas proposições. A realidade de revolta da natureza deu-lhe mais
credibilidade, pois o senso comum passou a aceitar que a co-atuação de todos os
organismos é que rege e movimenta a vida no planeta, reconhecendo que cada um
tem sua parcela de culpa pelo resultado que a natureza tem nos proporcionado
e também, que cada um tem sua parcela de atuação vindoura, para reverter esse
quadro. É justamente este o elemento mais marcante do discurso de sustentabilidade difundido pela Natura.
3. NOÇÕES SOBRE DISCURSO
Na concepção de Michel Foucault, discursar não se caracteriza em simplesmente fazer o uso de uma boa retórica ou possuir uma boa manipulação da língua.
Para ele, um discurso pode ser visto como uma concepção subjetiva nascida da
observação das práticas e ações ocorridas no meio em que se vive, ou seja, ao se
elaborar um discurso está se partindo de um contexto social formador e destinatá-
3
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OLIVA, Alberto (org). Epistemologia: a cientificidade em questão. Campinas, SP: Papirus, 1990.
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rio do discurso, ao mesmo tempo. Discursar não é apenas falar bem, consiste em
uma criação que tem por objeto, fatos sociais e objetivo, condicionar e padronizar
pensamentos e ações, isto é, o discurso pode ser compreendido como algo formador de verdades. Esta capacidade do discurso é o elemento central da formação
discursiva, pois é por ser formadora de verdades que a arte de discursar permite
o exercício de poder, possibilitando ao o enunciador que, por diversas razões que
não somente seu ato de fala, tente atuar sobre as concepções de seus enunciatários, com o intuito de defini-las e padronizá-las de modo à ele conveniente.
É importante se ter em mente que o discurso em si, uma vez enunciado, não
exerce poder automaticamente sobre os outros; há uma série de elementos a serem
considerados, dentre eles: o status do enunciador, o contexto no qual foi proferido,
os anseios sociais que o motivaram, o público destinatário. É neste sentido que
caminha Foucault em “Arqueologia do Saber”.
Em síntese, podemos compreender os estudos foucaultianos acerca do discurso da seguinte maneira: o discurso consiste em uma enunciação advinda das
necessidades do povo e voltada para elas, com o intuito de exercício de poder
e tentativa de formação de pensamento, sendo que, essa enunciação partiu de
um enunciador detentor de um satuts que permite ao seu discurso ser concebido
como verdadeiro. Além de todo o exposto, o discurso, para que produza os efeitos
desejados, deve considerar a cultura no estado em que está e para isso deve, conseqüentemente, considerar todas as formas discursivas que exerceram poder sobre
os indivíduos até o momento, pois foram elas que definiram o estado atual.
Não existe um discurso que seja formado sozinho, que não nasça de outras
formas discursivas que já exerceram poder em dado momento, que tenham produzido algum efeito de sentido em um determinado público enunciatário, mesmo
que restrito. Um discurso não surge do nada, isolado de um contexto histórico e
cultural, nem livre de conceitos prévios que o possibilitem de efetivar-se.
Não apenas Foucault, mas muitos estudiosos se empenharam em pesquisas
acerca do discurso, isso ocorreu pelo fato de o ato de discursar ser constituidor das
maiores verdades existentes na sociedade, de todas as formas e princípios éticos e
morais, e de ser ainda, o mais poderoso meio de condicionamento e manipulação
de pensamento. Exemplos de verdades criadas por discursos são as promessas
políticas, as formas de governo, a metodologia utilizada na educação, os meios de
comunicação, o Direito, as religiões (as diversas existentes), entre muitos outros.
Como já dito, não apenas Foucault se interessa pelos estudos acerca do discurso. Os estudos sobre o discurso nasceram com Michel Pêcheux4 no final dos
anos 60, dentro de um contexto político e intelectual francês, mas não demorou a
difundir-se e constituir-se como um disciplina transversal.
A exemplo destes outros estudiosos temos a Eni Orlandi5. Ela define o discurso como efeito de sentido entre os interlocutores, o qual ultrapassa a simples
apresentação de uma mensagem por meio do código “linguagem”. Em seu enten-
4
5
PECHÊUX, Michel. Analyse Automatique du Duscour. Paris: Donad, 1969.
ORLANDI, Eni Puccinelli. Análise do discurso: princípios e procedimentos. 3ª ed. Campinas, SP: Ed. Pontes, 2001.
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31
dimento há a emissão de uma mensagem a ser decodificada e analisada por meio
de processos de identificação do sujeito, de argumentação, de subjetividade, de
construção da realidade, etc. Diz ainda: “as relações de linguagem são relações de
sujeito e de sentido e seus efeitos são múltiplos e variados”. (ORLANDI, 2001).
Além de todo o exposto é importante que se considere que o discurso não se
efetiva apenas por meio de enunciados verbais, ele se efetiva através de práticas,
de fotografias, de imagens, de comportamentos, etc.
De modo a exemplificar o que foi dito até o momento, podemos citar a mídia como uma clássica forma de atuação do discurso no sentido de manipular e
influenciar os expectadores. Isso porque essa modalidade discursiva é aceita como
absolutamente verdadeira. A influência da mídia em nossas crenças se inicia desde o objetivo pelo qual buscamos ter contato com ela, ou seja, desde o instante
em que lemos ou assistimos alguma reportagem ou notícia, fazemos isso com o
intuito de nos mantermos atualizados. Fazemos isso, por acreditar que aquilo que
nos é dito é verdade e que esta verdade nos torna informados. Uma vez conhecedores das verdades passamos a difundi-la e até materializá-la em algumas situações, como a moda, a etiqueta, a educação, a linguagem, etc. Estas são algumas
evidências de discursos como formadores de pensamentos e manipuladores de
comportamentos. Com relação a empresa Natura, tal fato não e diferente, conforme aferiremos adiante.
4. DISCURSO SUSTENTÁVEL DA NATURA: TEORIA DE GAIA E EXERCÍCIO DE PODER.
A empresa de cosméticos Natura se destaca na comercialização desses produtos em razão do discurso de sustentabilidade que propaga. A partir de agora
passaremos e ver como ela se utiliza das proposições levantadas pela Teoria de
Gaia no seu método de comercialização e fabricação de produtos, tendo por objeto de análise seus catálogos de venda. Veremos também quais são os elementos de
seu discurso e quais as modalidades discursivas que ela utiliza para exercer poder
sobre os consumidores e provocar os efeitos discursivos desejados.
Em tópico supra, discorremos sobre as proposições da Hipótese Gaia. Em
síntese ela afirma o planeta como um super-organismo capaz de auto gerenciar-se,
desde que não sofra agressões, o que nos conduz a idéia de que, se cuidarmos de
nós mesmos estaremos protegendo a natureza, já que somos parte integrante dela.
Mas, como percebemos isso no discurso da Natura?
Antes de falarmos do discurso verbal (no sentido de escrito) utilizado por
essa empresa avaliaremos a modalidade de discurso manifesta em atitudes discursivas, ou seja, ela não apenas diz que é sustentável, ela demonstra por ações
práticas que realmente o é. A começar por suas publicações serem feitas em papel
reciclado. Se observarmos os catálogos de venda da Natura veremos que são impressos em papel reciclado, isso mostra aos consumidores que, o discurso por eles
difundido não é meramente retórica, mas ações práticas, o que lhe atribui mais
credibilidade e possibilita maior aceitação. Além de o catálogo ser manufaturado
em papel reciclado, todas a suas embalagens também o são, desde embalagens
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que armazenam o produto até as sacolinhas com as quais eles chegam ao consumidor. Outro fato que segue esta linha de raciocínio e que é bastante destacado
pela Natura é a utilização do refil, que, segundo ela, tem 50% menos impacto ambiental que as embalagens comuns. Ainda além, pode-se citar o fato de a empresa
se utilizar de matéria-prima renovável6 e de álcool orgânico7 em suas colônias.
Muito há que se exemplificar acerca deste método da Natura, mas a título de ilustração e a fim de promover o conhecimento intentado pelo trabalho, o exposto até
o momento se faz suficiente para aferirmos como o discurso prático da Natura se
demonstra uma estratégia de poder.
Paralelamente a esse discurso comportamental da Natura, também podemos
observar o poder que exerce o discurso fotográfico da empresa. As fotografias
utilizadas pela empresa sempre demonstram a harmonia dos produtos com a natureza de modo a demonstrar que foi uma parceria do homem com a natureza que
proporcionou a fabricação daquele produto, e não a sua exploração. Fica claramente demonstrada a manifestação das proposições de Gaia nesse ato, pois para
esta Hipótese somente a harmonia do homem com a natureza é que possibilita a
auto-gestão do planeta. Se manusearmos um catálogo de venda da referida empresa, observaremos que os produtos sempre estão expostos À frente, porém ao
fundo há uma paisagem natural (uma cachoeira, uma arvores, frutas, animais, flores, etc.); tudo isso para ilustrar a parceria que a Natura estabeleceu com o Meio
Ambiente, conotando companheirismo e harmonia.
A empresa em voga valoriza muito a relação: Homem X Natureza. Sob este
aspecto, no discurso encontrado em seus catálogos, percebemos a preocupação
que ela direciona aos seus consumidores, mostrando-lhes que são elementos formadores do Meio Ambiente. O que quero dizer e, posteriormente demonstrarei
através de um fragmento do catálogo da Natura, é que ela mostra-se preocupada
com bem estar de seus consumidores porque estes são membros participativos da
natureza (não há como não remeter nosso pensamento à Gaia) e não meros coadjuvantes. Tendo os consumidores essa consciência, logo considerarão que “cuidando de si preservarão a natureza”. Vejamos como isso fica claro no fragmento
a seguir:
“NATURA EKOS – VIVA A SUA NATUREZA
Os produtos da linha Natura Ekos unem a tradição popular ao uso sustentável
de ativos da biodiversidade brasileira, despertando a consciência de que somos
parte de uma só natureza e do quanto somos responsáveis por tudo aquilo que
nos cerca. A linha Natura Ekos busca preservar e difundir nosso patrimônio ambiental, cultural e social, criando riquezas para todos. Imersos nos prazeres das
águas e ns despertar dos toques de cada banho, os produtos Ekos Natura, com
extratos vegetais, óleos essenciais, cores da terra, texturas e fragrâncias da natureza, foram especialmente concebido para proporcionar prazer e bem-estar.”
6
Um exemplo disso, são os sabonetes “Puro Vegetal”, nos quais a Natura só utiliza gordura vegetal em sua formulação,
sendo que esta é uma matéria-prima renovável.
7
Álcool orgânico é aquele produzido sem a utilização de agrotóxicos e sem a realização de queimadas.
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Acompanhando esse fragmento escrito, o catálogo de venda traz a fotografia
de uma mulher “acariciando” uma planta. Tal fato, só vem a reforçar o dito até o
presente.
Ainda pode-se mencionar o nome dos produtos da Natura. Em sua grande
maioria eles se caracterizam por um elemento da natureza ou algo que está ligado
ao equilíbrio entre homem e meio ambiente. Dentre eles temos: Ekos, Homem
Acqua, Erva Doce, Fotoequilíbrio, Sintonia, Águas de Natura, Lua, Sol, Uvplant,
Lumiplant, entre muitos outros. O fato da Natura demonstrar que está sempre em
sintonia e equilíbrio com a Natureza só dá maior credibilidade ao seu discurso,
pois este se mostra muito além das palavras, em ações. É como se, por meio
desta estratégia de exercício de poder por meio do discurso, a referida empresa
demonstrasse certa devoção ao meio ambiente, garantindo-lhe que sua ideologia
se transforme em verdade para seus consumidores.
Por fim, o catálogo como um todo é prova de que o discurso da Natura tem
a mesma essência do discurso da Teoria de Gaia e de que, essa empresa, se utiliza
das suas proposições como estratégia discursiva para o exercício de poder de venda. É inegável que sua estratégia de venda desperta nos consumidores a atenção
para a consciência ambiental, pois o fato da Natura enunciar, mostrar o que enuncia e praticar sua enunciação instiga o consumidor a agir também. Observemos tal
fato no fragmento que segue:
“CUIDADO COM O MEIO AMBIENTE
Cuidar de si, dos outros e do planeta. Essa é a nossa razão de ser. Esta edição
da Revista Natura Homem mostra isso, desde o nosso principal lançamento até
a nossa matéria.
(...)
Cerca de 70 % das colônias e dos desodorantes spray produzidos pela Natura
já são produzidos com álcool orgânico. Essa iniciativa faz parte de um esforço maior nosso, que é nos tornarmos uma empresa carbono neutro ainda em
2007. Isso significa que vamos tanto reduzir, em toda a cadeia produtiva, nossas emissões de dióxido de carbono, entre outros gases que contribuem para o
efeito estufa, quanto compensa-las com o plantio de árvores. È a nossa parte
para combater o aquecimento global e suas conseqüências. Porque cuidar do
planeta faz parte na nossa crença do bem estar bem.
Apreende-se, facilmente, como a Natura demonstra sua atuação sustentável
como incentivo aos consumidores.
Em seu corpo, o catálogo da Natura traz informações não apenas dos produtos, mas também de como podemos cuidar de nosso planeta, mostrando assim
que não visa apenas vender, mas também informar. É claro que este fato deve
ser analisado sob a concepção de estratégia de exercício de poder para produção
de sentido e efeitos do discurso. Em seu catálogo há reportagens como: Pneus
para reciclagem; Crer para ver: para construir um mundo melhor; O cuidado com
o meio ambiente; Questão de escolhas, Carbono e o aquecimento; Importância
do álcool orgânico; etc. Estes são exemplos de algumas reportagens trazidas no
catálogo da Natura que não falam necessariamente da empresa, mas sim trazem
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informação sobre o Meio Ambiente com o intuito de informar os consumidores
e despertar-lhes a consciência ecológica. Podemos perceber, no fragmento abaixo, que a Natura demonstra o que faz e ressalta que só é assim, porque fez essa
escolha. Indiretamente instiga o leitor/consumidor a ponderar em suas escolhas
também, tomando como exemplo as atitudes na empresa em discussão.
NÃO É DE HOJE QUE A GENTE PENSA EM REDUZIR NOSSO IMPACTO
NO M EIO AMBIETE.
Há quase 40 anos, a Natura atua de forma a reduzir ao máximo o seu impacto ambiental. Foi assim com adoção do refil em 1983. Uma embalagem
que usa menos recursos naturais e produz menos lixo. Foi assim em 200,
com a criação de um processo inovador para o USO SUSTENTÁVEL DOS
ATIVOS da nossa biodiversidade. È também com a VEGETALIZAÇÃO dos
nossos sabonetes, seguida pela criação da nossa Saboaria, no Pará. Com a
substituição do álcool utilizado em nossa perfumaria por um similar, O ÁLCOOL ORGÂNICO, que é livre de queimadas e agrotóxicos. E tantas outras
escolhas e decisões que contaram com a participação direta de milhares
de colaboradores, trabalhadores, fornecedores e consumidores. Pensando,
sonhando e fazendo juntos. Para construirmos um futuro melhor para o
nosso planeta. A partir desse ano, a Natura vai neutralizar totalmente suas
emissões de carbono e outros gases que colaboram para o efeito estufa.
Mas são as ESCOLHAS que fizemos ao longo de todos ess4s anos que nos
trouxeram aqui. Um modo de fazer negócios e produtos que não contribui
para o aquecimento global.
Comprovando a afirmação de que o discurso da referida empresa é eficaz,
finalizo este tópico com palavras de seus consumidores:
CARTAS
ESTE ESPAÇO É SEU. ENVIE SUGESTÕES, ELOGIOS, E CRITICAS. PARA
QUE POSSAMOS FAZER UMA NATURA CADA VEZ MELHOR, SUA OPINIÃO É MUITO IMPORTANTE. (...)
UM GRANDE INCENTIVO
A preocupação da Natura com a preservação do meio ambiente é umincetivo.
Hoje, eu reciclo o lixo em casa. Sou muito feliz e realizada por seu uma Consultora Natura.
INFORMAÇÕS LEGAIS
Parabéns pela Revista Natura que, além de oferecer produtos de qualidade,
passa muitas informações sobre cultura e outras coisas legais que nós mulheres
adoramos.
5. CONCLUSÕES ARTICULADAS
5.1. A Natura, inquestionavelmente, se utiliza das proposições da Teoria de Gaia
como discurso prévio para a elaboração do seu próprio discurso. Partindo disso,
sua enunciação não ocorre apenas de modo oral/escrito, ele exerce poder por meio
de fotografias e, principalmente, por demonstração de atitudes.
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5.2. A transmissão de informação e o despertar para atitudes dos enunciatários/
consumidores são formas de exercício de poder. Por meio delas é possível despertar na população uma consciência ambiental, mesmo que fim principal seja
meramente econômico.
5.3. Diante do sucesso da Natura, fica claro que seu discurso, baseado nas proposições da Hipótese Gaia, é eficaz, pois desperta em seus enunciatários a consciência que deveria ser inata a todo o ser humana, que é, em essência membro
formador do Meio Ambiente.
5.4. Esta estratégia discursiva da Natura, por mais que possua cunho econômico, pode servir de exemplo para que outras instituições, governamentais ou não,
exerçam poder discursivo sobre a população, de modo a despertar a consciência
ambiental em sua plenitude.
BIBLIOGRAFIA
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8 - PECHÊUX, Michel. Analyse Automatique du Duscour. Paris: Donad, 1969.
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ESPECIFICIDADE DO DANO AMBIENTAL
E BIODIVERSIDADE NA ESFERA
DA REPARAÇÃO CIVIL AMBIENTAL
IBRAHIM CAMILO EDE CAMPOS
Graduando em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG). Coordenador discente do Núcleo de Estudos
em Direito Ambiental (NEDA/UFMG). Estagiário pelo
Ministério Público do Estado de Minas Gerais
1. MEIO AMBIENTE E BEM AMBIENTAL IN CONCRETO: DIFERENÇAS CONCEITUAIS
O meio ambiente pode ser compreendido como o conjunto de interações físicas,
químicas e biológicas que permite, abriga e rege a vida em todas as formas1, macrobem abstratamente caracterizado, indivisível e intangível2. Sob um prisma mais holístico, o patrimônio ambiental constitui-se das dimensões natural, cultural e artificial3,
transversalmente integrado numa percepção sistêmica dos diferentes elementos da
teia da vida, aí inclusa a vida humana e as características socioambientais.
Assim, o meio ambiente globalmente considerado não se confunde com o
somatório dos bens ambientais, estes caracterizados em especificidade e concretude, tais como os elementos ambientais bióticos (fauna e flora), abióticos (água,
solo e ar), culturais (bens materiais e imateriais de valor histórico, artístico ou
estético) e artificiais (conjunto de edificações e ruas, praças, jardins, espaços livres em geral)4. Nesse sentido, o meio ambiente é unitariamente considerado5, ao
passo que os bens ambientais são específicos, individualmente caracterizados, em
que pese a constante inter-relação dos mesmos.
Segundo Carl Kerenyi (1897-1973), filólogo húngaro, um estudo da história
da língua grega antiga nos remete ao uso, pelos gregos, de duas palavras – bíos e
zoé - para se referirem à vida.6
1
BRASIL. Lei n. 6.938 de 31 de agosto de 1981. In: ______. Vade Mecum Acadêmico de Direito. Organização por Anne
Joyce Angher. 3.ed. São Paulo: Rideel, 2006. p.1101 a 1111.
2
BENJAMIM, Antônio Herman (coord.). Dano ambiental: prevenção, reparação e repressão. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 1993. p. 69 a 80.
3
MILARE, Edis. Direito do ambiente: doutrina, jurisprudência e glossário.5.ed. ref. atual e ampl.São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2007.
4
MILARE, Edis. Direito do ambiente: doutrina, jurisprudência e glossário.5.ed. ref. atual e ampl.São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2007. p.271. Ver também FIORILLO, Celso Antônio Pacheco. Curso de direito ambiental brasileiro. 2.ed. São
Paulo: Saraiva, 2001. p.196.
5
BENJAMIM, Antônio Herman (coord.). Dano ambiental: prevenção, reparação e repressão. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 1993. p. 73.
6
KERENYI, Carl. Dioniso: imagem arquetípica da vida indestrutível. Trad. Ordep Trindade Serra.Rev. Rosana Citino.
São Paulo: Odysseus, 2002.
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Ambas as palavras relacionam-se ao fenômeno da vida, mas com acepções
diferentes. Em um período arcaico da história da língua grega, zoé adquiriu a
ressonância semântica de vida de todos os viventes, “vida em geral, sem caracterização ulterior”7. Já a palavra bíos refere-se aos “traços característicos de uma
vida específica”8, às linhas de fronteira que distinguem um ser vivente do outro.
Bíos sugere um enfoque sobre o indivíduo, não se opondo a thánatos (morte)
de forma a excluí-lo; antes, “uma vida característica corresponde a uma morte
característica”9 [a vida e a morte de um espécime arbóreo, por exemplo]. É zoé
que faz um contraste exclusivo com thánatos; (...) zoé raras vezes tem contornos,
(...) é a não–morte, (...) o fio a que cada bíos individual se pendura”10, não admitindo a experiência de sua aniquilação. Nesse sentido, zoé é experimentada como
sem fim11, uma vida infinita, em contraste com bíos. Assim, aquela (zoé) pode ser
percebida como experiência de vida sem caracterização – é indescritível, pois.
Bíos é vida finita. Zoé não admite a própria destruição12.
Numa aproximação ao estudo acima mencionado, máxime numa perspectiva biológica, o bem ambiental concreto admite sua destruição ou aniquilação;
tem, em si, a fragilidade da finitude. Já o meio ambiente não, sendo caracterizado
como bem difuso, irredutível à especificações.13 O meio ambiente, ainda nessa
perspectiva biológica, seria a vida de todos os viventes, lembrando sempre que os
elementos abióticos são substrato para a existência desses viventes.
Destarte, clarifica-se mais ainda a distinção entre o macrobem e o bem ambiental determinado (água, solo, ar, fauna e flora, e, no plano da cultura, os bens
de valor histórico, artístico e paisagístico), frisando-se que é distinguindo-os que
se percebe a indissociabilidade e inter-relação entre os mesmos.
2. DANO AMBIENTAL
2.1 Especificidades do dano ambiental
Um dos principais pontos da discussão sobre a reparação do dano ambiental
diz respeito ao dano ao bem ambiental corpórea e concretamente determinado
traduzir-se na manifestação sobre os demais elementos ecossistêmicos e intera-
7
Idem, XVIII.
Idem, XVIII.
9
Idem, XIX.
10
Idem, XIX, XX.
11
Idem, XX.
12
Idem, XXII.
13
Sob uma óptica antropocêntrica, argumentar-se-ia que as mudanças climáticas globais e a depleção da camada de ozônio levariam o meio ambiente à “destruição”. Todavia, é o homem que poderia ter sua existência na Terra prejudicada ou
limitada, já que o meio ambiente continuaria abrigando e regendo a vida em inúmeras outras formas de existência, ainda
que alterado, temporariamente ou não, irreversivelmente ou não. Nesse sentido, as palavras de Nietzsche: “só o seu dono
e progenitor [do intelecto] o encara tão pateticamente como se ele fosse o eixo à volta do qual gira o mundo”. (NIETZSCHE, Friedrich. Acerca da verdade e da mentira. Trad. Heloísa da Graça Burati. São Paulo: Rideel, 2005. p.7). Em outras
palavras, a preocupação é com o homem; todos os riscos ambientais com que o homem se depara, direta ou indiretamente,
tem, primordialmente, um enfoque antropocêntrico, ainda que mitigado pela influência de correntes com matiz ecocêntrico
ou biocêntrico.
8
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39
ções que compõem o meio ambiente, considerado como macrobem de caráter
difuso e realidade intangível. O espectro em que se delineia a responsabilidade
civil reparatória14, no que se refere à existência, extensão ou quantificação do
dano perpassa desde a tênue passagem para além da tolerabilidade até o caráter
indenizatório pela irreversibilidade da lesão ambiental15, o que faz com que a
caracterização plena do dano ambiental não se dê de forma exata nem imune a
abordagens interpretativas diversas, cabendo, muitas vezes, ao agente do poder de
polícia administrativo ambiental ou ao juiz definir os contornos numa variável e
intranqüila margem.16
Mirra define, de forma precisa, dano ambiental como
“toda degradação do meio ambiente, incluindo os aspectos naturais, culturais e artificiais que permitem e condicionam a vida, visto como bem unitário imaterial coletivo e indivisível, e dos bens
ambientais e seus elementos corpóreos e incorpóres (sic) específicos que o compõem (...) 17.
Todavia, ainda assim, a definição permite elucubrações em relação à extensão e a natureza mesma do bem e do meio ambiente lesado.
A configuração do dano ambiental pressupõe, outrossim, uma lesão intolerável ao meio ambiente18, mas tal intolerabilidade deve ser compreendida dentro do
atual paradigma econômico-desenvolvimentista inserido no sistema capitalista,
caracterizado pela constante e necessária exploração dos recursos naturais, ainda
que limitada pelo princípio da defesa ambiental, insculpido no art. 170, VI, da
Constituição Federal de 1998 (C.F.). Fala-se, então, de limites que, na prática e na
aplicabilidade dos conceitos jurídico-legais, não são rígidos, em que pese a doutrina jusambiental não atentar com a devida acuidade para essa dimensão fática
do Direito Ambiental. Vale dizer, a atuação do órgão administrativo ambiental, ao
licenciar ou autorizar atividades efetiva ou potencialmente poluidoras, não raro,
restringe-se à imposição de medidas compensatórias e mitigatórias dos impactos
ambientais bem como a condicionantes para concessão de alvará, face à constatação de que a variável ambiental é apenas um dos fatores a serem considerados na
complexa soma de interesses, sobretudo econômicos, que influem nos processos
políticos decisórios.
14
Adotamos a posição doutrinária de Mirra, para quem os efeitos da responsabilidade civil abrangem, além da reparação ao
dano ambiental, a supressão de fato danoso e a pena civil. Ver, a respeito, MIRRA, Álvaro Luiz Valery. Ação civil pública
e a reparação do dano ao meio ambiente. São Paulo: Juruá, 2002.
15
A irreversiblidade do dano ambiental é um tema complexo e polêmico, em que pese não ser trabalhado com a devida
profundidade pela doutrina jusambiental.
16
MILARE, Edis. Direito do ambiente: doutrina, jurisprudência e glossário.5.ed. ref. atual e ampl.São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2007.
17
MIRRA, Álvaro Luiz Valery. Ação civil pública e a reparação do dano ao meio ambiente. São Paulo: Juarez de Oliveira,
2002. p. 89.
18
LEITE, José Rubens Morato; PILATI, Luciana Cardoso. Evolução da responsabilidade civil: 25 anos da lei nº 6.938/81.
[200?]. p. 27
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O dano ambiental propriamente dito ou dano ambiental coletivo19 incidente
sobre os bens ambientais, que, em sua plenitude, compõem o macrobem ambiental, enseja reparação civil. Nesse sentido, o art. 4º, VII, da lei nº 6.938/81, que prevê, como um dos objetivos da Política Nacional do Meio Ambiente, “a imposição,
ao poluidor e ao predador, da obrigação de reparar e/ou indenizar os danos causados” (“grifo meu”). Malgrado o art. 14, § 1º da lei supracitada preveja que “é o
poluidor obrigado [...] a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente
e a terceiros...” (“grifo meu”), tratando-se do uso somente da conjunção alternativa “ou”, há dúvida, no que atine à interpretação sistêmica, em ditar o sentido e o
real alcance da norma. Pergunta-se: ao dano ambiental sobrevem a obrigação de
repará-lo, de forma in natura ou pecuniária (nesta mensurando-se o somatório dos
valores econômicos e não econômicos envolvidos), tão somente, ou somada a tal
reparação, vem à tona, outrossim, a necessidade de indenizar a subtração causada
à coletividade pela perda da qualidade ambiental no interregno entre o dano e a
reparação (dano interino) ou até mesmo por uma ireversibilidade20? Tais reflexos
indiretos do dano ambiental seriam mera decorrência do princípio da reparação
integral do dano?, portanto plenamente aplicáveis no plano da reparação civil? A
questão tem relevo particular no que toca à biodiversidade e aos riscos advindos
da agressão antrópica e contínua aos ecossistemas e às espécies. Nesse sentido,
o alto risco de extinção ou a própria extinção de determinadas espécies perfilamse nessa dimensão própria e distiguível do dano ambiental em relação aos danos
comumente ocorridos na esfera privatística, que, via de regra, são plenamente
quantificáveis monetariamente. A rigor, tanto o bem ambiental individualmente
considerado como o meio ambiente não são valoráveis tão somente em aspectos
econômicos.21
Ressalte-se que a convalescença ou recuperação (total ou parcial) do bem
ambiental e o equilíbrio da respectiva ambiência ecossistêmica dão-se de forma natural, quando muito catalisada pela ação antrópica por manejo adequado.
Destarte, a capacidade regenerativa, funcional e de regulação autônoma do bem
ambiental22 (isso quando é possível) não é fruto da cultura, muito menos da volatibilidade e inventividade das relações humanas, tal como a demolição ou construção um edifício ou a produção incessante de novas tecnologias. Nessa razão, é a
natureza, em última análise, que se autocondiciona, podendo o homem, visto mais
como degradador do que contribuidor na proteção ambiental, auxiliar deveras na
promoção da qualidade ambiental ou, ao contrário, como ocorre na prática, alterar
adversamente condições climáticas globais e, paradoxalmente, retrair a própria
19
MILARE, Édis. Direito do ambiente: doutrina, jurisprudência e glossário.5.ed.rev.ampl. e atual. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2007.
20
Com efeito, a indenização pela irreversibilidade do dano ambiental é um assunto polêmico e pouco discutido em profundidade pela doutrina jusambiental.
21
Conferir, a respeito, FREITAS, Vladimir Passos de. A Constituição Federal e a efetividade das normas ambientais. 2.ed.
rev. São Paulo: RT, 2002. p.182-190.
22
FERREIRA, Heline Sivini. Compensação ecológica: um dos modos de reparação do dano ambiental. In: LEITE, José
Rubens Morato; DANTAS, Marcelo Buzaglo. Aspectos processuais do Direito Ambiental. 2.ed. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2004, p.56 a 72.
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espécie num sôfrego impulso afinalistico voltada para uma exarcebação da dimensão econômica da vida social.23
Assim, incorpora-se a materialização do risco (este, inclusive, fundamento
da responsabilização civil objetiva), na medida em que a lassidão do Poder Público e da coletividade na proteção e defesa do meio ambiente despontam para
a dimensão reparatória do meio ambiente. Daí os objetivos fundamentalmente
preventivos e precaucionais do Direito do Ambiente24, instrumentalizados por
meio do estabelecimento de padrões de qualidade ambiental, pelo procedimento
de licenciamento ambiental, pelo zoneamento ambiental, além de outros meios
preventivos de controle e gestão ambiental (art. 225, §1º, V da C.F.), sem olvidar, claro, da educação ambiental, projeto que permite a transposição do plano
formal e assecuratório das liberdades positivas para um exercício concreto e
viável das mesmas, seja no que diz com a participação da sociedade nas decisões políticas quanto na mudança de padrões insustentáveis de consumo. Em
todos esses instrumentos de proteção ambiental, a biodiversidade deve ser objeto de especial atenção, mormente no que toca ao princípio da prevenção e da
precaução, tendo em vista a oscilação tênue que ora ultrapassa a linha do limite
do risco ambiental (extinção de espécies, por exemplo) ora aproxima-se dela
com inquieta constatação de que a biodiversidade ecossistêmica cada vez mais
perde espaço para a atividade empresarial de agricultura em grandes extensões
territoriais.
Cogitando-se do argumento de que a renovação cíclica dos recursos naturais
obstacularizariam a necessidade da reparação do dano ambiental, tem-se que a
complexidade e a teia ecossistêmica em que o bem ambiental lesado se insere
faz com que a lesão ambiental irradie-se negativamente para outros elementos
/ recursos ambientais constitutivos do local, além de, claro, ter sido agredido o
bem ambiental, fazendo com que o mesmo tenha de se recuperar da lesão. Não
há como uma árvore destocada voltar a realizar fotossíntese, nem reter a umidade
da água que margeia, igualmente proteger o solo da erosão, produzir frutos, para
apenas exemplificar. Demais, nesse particular, a reparação integral do dano – no
sentido de uma suposta volta a status quo ante, teria de ser intensa, detalhada,
constante e prolongada, dependendo do bem ambiental lesado.
2.2 REFLEXOS DO DANO AMBIENTAL NA REPARAÇÃO CIVIL
Nessa pletora de agressões e intervenções ambientais, não raro insustentáveis, sobre o patrimônio ambiental natural e cultural, o verso de Carlos Drummond de Andrade, relativo à cachoeira Sete Quedas25, reflete, metonicamente, um
sinal para possíveis mudanças de rumo no que toca ao atual paradigma.
23
FERRY, Luc. O que é uma vida bem-sucedida? : ensaio. Trad. Karina Jannini. Rio de Janeiro: DIFEL, 2004.
MILARE, Edis. Direito do ambiente: doutrina, jurisprudência e glossário.4.ed.rev.ampl. e atual.São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2005.
25
Sete Quedas era a maior cachoeira do rio Paraná, que foi inundada para a construção da usina hidrelétrica de Itaipu.
24
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(...)
“Sete quedas por nós passaram”.
E não soubemos, ah, não soubemos amá-las,
E todas sete foram mortas,
E todas sete somem no ar (...)”26
Importa frisar o aspecto qualitativo do bem ambiental que, sem dúvida, não
se confunde com a descartabilidade dos produtos inerente à sociedade de consumo, fruto de um paroxismo talvez alentado, ao menos em parte, pela moderna questão ambiental.27 Como já dito, é da dificuldade da recomposição do bem
ambiental natural (ocorrente na maioria das vezes) e da consideração do meio
ambiente como valor ético-jurídico que sobressai o princípio da prevenção e o
princípio da precaução.
Outra questão que deve ser colocada diz com supostos excessos e ônus ao
poluidor ao se inserir na reparação civil a lesão aos bens ambientais indiretamente afetados pelo dano ambiental (solo, fauna, recursos hídricos, aspecto estético
ou paisagístico, dentre outros). Saliente-se que a biodiversidade, no âmbito da
reparação civil, deve ser contemplada de forma subjacente ao dano ambiental
concretamente verificado, pois, justamente pela abstração que comporta, a lesão à
variabilidade de organismos vivos deve ser extraída, de uma só vez, da depleção
dos bens ambientais especificados individualmente. Outrossim, o dano à biodiversidade pode perfeitamente ser um fator a ser considerado na reparação ambiental,
atribuindo-se um maior peso no quantum indenizatório ou no objeto da execução
específica da obrigação. Daí surge mais um ponto na discussão acima citada, vale
dizer, na imposição de obrigações mais ou menos abrangentes no que se refere à
reparação do dano ambiental e seus reflexos.
Inobstante os danos ambientais de maior gravidade serem causados por atividades empresariais de maior vulto, não se nega a constatação de que, mais do
que comumente se acha, pessoas sem propósitos de empresa, pessoas em atitudes
do cotidiano cometem ilícito civil ambiental (por vezes acompanhado de sanções
penais e administrativas). Demais, frise-se o rigoroso sistema de responsabilidade
civil objetiva, calcado na teoria do risco integral, intensificando-se, assim, a negatividade na perquirição do elemento subjetivo e, em certo aspecto, negatividade
até na perquirição de elementos objetivos, como o caso fortuito e a força maior.
Afrontaria o princípio da reparação integral do dano ambiental e o princípio
da isonomia tentar se estabelecer uma pseudojustiça material, no sentido de quem
possua maior condição econômica repara integralmente o dano e quem tem menor capacidade econômica responde em menor proporção, de forma parcial, pois.
26
ANDRADE, Carlos Drummond de. Adeus a Sete Quedas. Disponível em ‹http://www.algumapoesia.com.br/ drummond/drummond30.htm›. Acesso em 29 de março de 2008.
27
Sem dúvida que os produtos utilizados diariamente na vida social tem como matéria-prima os recursos ambientais.
Todavia, o que se quer ressaltar é a qualidade do recurso natural em sua respectiva capacidade funcional ambiental, sem ser
transformado ou utilizado em outra função (esta já cultural). Nessa razão, medidas ambientalmente sustentáveis, tais como
reaproveitamento de recursos hídricos, reciclagem de resíduos sólidos bem como a compostagem, são de alta relevância, a
fim de se atenuar a cultura do desperdício e a escassez dos bens ambientais.
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Ora, a ilicitude de uma mesma base fática, sancionada civilmente pelo Direito
de forma diferenciada, fere o princípio da igualdade. Nos dois casos, de forma
indiferenciada contrariou-se o ordenamento jurídico. Não se trata aqui de apologizar a justiça formal em detrimento da justiça material. Ao revés, é numa ótica
de proteção ao meio ambiente, sem virar as costas para o ser humano, que é possível equacionar as dimensões formal e material da Justiça, conforme se tentará
demonstrar nas linhas seguintes.
Justifica-se muito melhor a justiça material quando se está em plena consonância com o ordenamento jurídico, vale dizer, cingido à liceidade das condutas.
Diga-se, também, para atenuar possíveis distorções, do parágrafo único do art.
944 do Código Civil, in verbis: “Se houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano, poderá o juiz reduzir, eqüitativamente, a indenização”.
Em que pese a sistemática da responsabilidade civil ambiental dar-se no plano da
objetividade, afigura-se razoável aplicar tal dispositivo quando houver desproporção entre o grau da culpa e a gravidade do dano. Por certo, não é necessário o elemento culpa para se configurar a responsabilidade civil ambiental, mas nem por
isso, em circunstâncias adequadas, deixar-se-á de analisá-lo. Além disso, Freitas
ensina que, com base no princípio da razoabilidade, o magistrado, fundamentadamente, poderia adequar de forma justa um valor que considere excessivo.28 É de se
ressaltar que o princípio da reparação integral não comporta necessariamente um
dispêndio tão somente econômico, vale dizer, em vias de execução, pagamento
por quantia certa, mas também pode ser considerado como obrigações de fazer
que possam não onerar sobremaneira o autor do ilícito ambiental, aliás, sendo a
segunda espécie de execução, em regra, mais adequada em se tratando de dano
ambiental. Não faz sentido, nesse caso, atribuir-se um valor indenizatório altíssimo ao causador do dano ambiental quando o mesmo, comprovadamente, não
disponha de meios econômicos para a reparação do dano. Demais, além da boa
doutrina de que nenhum princípio é absoluto, figura o princípio da dignidade da
pessoa humana29, que sempre há de coibir excessos que comprometam o mínimo
existencial da pessoa humana30, para tanto existindo mecanismos processuais tais
como a impenhorabilidade de certos bens e a realização da execução do modo
menos gravoso para o devedor (art. 620 do Código de Processo Civil).
No que concerne às responsabilidades penal ambiental e administrativa ambiental, a capacidade econômica do infrator é levada em conta (na esfera penal
apenas, por evidente, no caso de multa, conforme art.6º, III, da Lei nº 9.605/98).
Ocorre, porém, que ambas se fundam no aspecto repressivo. Ou seja, há certa
atração subjetiva na aplicação da penalidade. Em se tratando de responsabilidade
civil ambiental, o caráter reparatório, de alcance externo ao sujeito, pois, ganha
frente em relação às demais esferas de responsabilização pelo ilícito ambiental,
28
FREITAS, Vladimir Passos de. A Constituição Federal e a efetividade das normas ambientais. 2.ed.rev. São Paulo: RT,
2002. p. 190.
29
C.F. art. 1º, inciso III.
30
BARROSO, Luís Roberto (coord.). A nova interpretação constitucional: ponderação, direitos fundamentais e relações
privadas. Rio de Janeiro: Renovar, 2003.
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prevalecendo a necessidade de se reparar integralmente o dano ambiental, ou melhor dizendo, se aproximar quanto possível do estado pretérito à ocorrência do
fato danoso.
Uma alternativa que se põe para a solução das questões acima expendidas é
considerar a prestação de serviços à comunidade (ou obrigações de fazer em sentido geral, nas quais o dispêndio econômico não obste a realização das mesmas),
especificamente voltadas para atividades socioambientais, dado o baixo nível de
consciência ecológica que se verifica entre as pessoas, além de, claro, ser um
modo da pessoa impossibilitada economicamente reparar integralmente o dano.
Porém, tal alternativa, máxime a prestação de serviços ambientais à comunidade,
harmoniza-se muito mais sob o prisma de um termo de compromisso de ajustamento de conduta (TAC) do que uma obrigação de fazer como objeto de ação civil
pública, dada a intrínseca finalidade educativa.
O dano ambiental, em última análise, nunca é pontual. A manifestação da
danosidade ao bem ambiental em específico é simplesmente um ponto de incidência em que a alteração adversa das características de tal bem implica, proporcionalmente a tal alteração, desequilíbrio ou interferência negativa no conjunto
de inter-relações que permitem, abriga e rege a vida em todas as formas. Em que
pese a manifestação sensorial evidenciar-se no bem ambiental tangível31, a indissociabilidade do meio ambiente em relação a tal bem faz com que uma lesão a
esse interfira direta e negativamente naquele.
Mirra pontifica que a superação do limite de tolerabilidade do dano ambiental deve ser apreciada caso a caso pelo juiz. Não é feita a priori, com normas
pré-estabelecidas, mas leva-se em conta as características do bem ou do ambiente.
Tolerância, nesse sentido, significa a capacidade real e concreta do meio ou do
bem em absorver/reciclar as agressões que sofreu. Se não absorveu, nada importa
o enquadramento no limite de emissão estabelecido pelos órgãos públicos32, corolário da aplicação da teoria do risco integral. Assim, diferenciam-se os termos
absorção e regeneração. Em relação ao primeiro, não se verifica dano ambiental,
já que o bem ou o meio resiste às perturbações sem haver um desequilíbrio ambiental. Em relação ao segundo, pode, sim, haver recuperação do bem, mas houve
a alteração adversa, o estado inicial do bem foi modificado e desequilibrado, aí
incluída a inerente função ecossistêmica do bem.33 Por certo que quando o dano
ambiental ganha também a dimensão de dano à biodiversidade, já se ultrapassou
em muito as raias da tolerabilidade, ensejando, como assevera Milaré, reação jurídica à danosidade ambiental.34
31
MIRRA, Álvaro Luiz Valery. Ação civil pública e a reparação do dano ao meio ambiente. São Paulo: Juarez de Oliveira,
2002.
32
MIRRA, Álvaro Luiz Valery. Ação civil pública e a reparação do dano ao meio ambiente. São Paulo: Juarez de Oliveira,
2002.
33
MIRRA, Álvaro Luiz Valery. Ação civil pública e a reparação do dano ao meio ambiente. São Paulo: Juarez de Oliveira,
2002.
34
MILARE, Edis. Direito do ambiente: doutrina, jurisprudência e glossário.5.ed. ref. atual e ampl.São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2007. p.818-819.
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45
3. BIODIVERSIDADE COMO REFLEXO DA EXTRAPATRIMONIALIDADE DO DANO
AMBIENTAL
3.1 Conceito de biodiversidade
A biodiversidade pode ser conceituada como a variabilidade intra-específica, inter-específica e ecossistêmica dos organismos vivos, conforme expresso na
Convenção da Diversidade Biológica35, aprovada no Brasil pelo Decreto Legislativo nº 2, de 03.02.1994 e promulgada pelo Decreto nº 2.519, de 16.03.1998.
Como assevera Milaré, a biodiversidade é expressão mais conceitual e abstrata do
que concreta. 36
Esses três elementos característicos da biodiversidade, acima citados, devem ser percebidos de forma integrada e inter-relacionada, sendo inadequado, por
exemplo, centrar a proteção em determinada espécie animal herbívora sem valerse de manejo adequado aos recursos florísticos que lhe dão sustento (manejo que
envolve desde as bactérias presentes no solo até o crescimento das plantas). De
igual forma, não é sustentável, do ponto de vista de uma gestão protetiva da biodiversidade, um programa que vise à reprodução de espécimes da fauna, mas que,
por outro lado, não considera a degradação do ecossistema em que os mesmos se
inserem, conseqüência, por exemplo, de uma utilização econômico-empresarial
predatória dos bens ambientais locais.
3.2 Biodiversidade e extrapatrimonialidade do dano ambiental
Segundo Freitas, com base no princípio da reparação integral do dano ao
meio ambiente, ao se estabelecer medidas compensatórias ou alternativas de atenuação ao prejuízo ambiental, inexiste parâmetros fixos e atados. O que há, é e
mesmo desejável que assim seja, é a quantificação econômica do desequilíbrio
ecológico dar-se com base em métodos científicos que levam em conta diferentes
fatores da degradação ambiental: desde o dano interino, passando pela extensão
do impacto ambiental tanto temporal quanto territorialmente, até indenização
pela irreversibilidade do bem e meio ambiente lesado. Deve-se, porém, de plano,
evitar-se imiscuir na ilusão de, via reparação civil, tentar-se recriar todo o locus
pretérito à degradação ambiental. Como assinala o mesmo autor, é praticamente
impossível reconstruir aquilo que a natureza levou milhares, talvez milhões de
anos para construir. Como decorrência, daquele que polui exige-se apenas medidas mitigatórias e compensatórias37. Considerando-se ainda a intraduzibilidade
35
“Art.2 “Diversidade biológica” significa a variabilidade de organismos vivos de todas as origens, compreendendo,dentre
outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem
parte; compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e de ecossistemas”.
36
MILARE, Edis. Direito do ambiente: doutrina, jurisprudência e glossário.5.ed. ref. atual e ampl.São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2007. 1280 p.
37
FREITAS, Vladimir Passos de. A Constituição Federal e a efetividade das normas ambientais. 2.ed.rev. São Paulo: RT,
2002.
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46
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direta do meio ambiente em valores monetários, já que, na esteira de Mirra, a
natureza jurídica do dano ambiental é extrapatrimonial38, é mister a análise tanto
de variáveis quantificáveis economicamente como de análises economicamente
intangíveis39. Nesse sentido, afirma Dias, em relação aos benefícios que a biodiversidade nos oferece:
“a biodiversidade é uma das propriedades fundamentais da natureza, responsável pelo equilíbrio e estabilidade dos ecossistemas e
fonte de imenso potencial de uso econômico[...] possui, além de seu
valor intrínseco, valor ecológico, genético, econômico, científico,
educacional, cultural, recreativo e estético.”40
Com efeito, a dimensão econômica da biodiversidade é apenas mais uma
dentre os vários potenciais que ela nos oferece.
Nessa errante busca de adequação, por vezes inexata, mas mesmo assim
aplicada na valoração econômica do bem ambiental, semelhante é, em se tratando
de obrigação de fazer ou não fazer, a exigência de se estabelecer, como formas
de reparação, adequações que requerem exercício criativo. Nessa razão, assinala
Freitas que “é preciso, portanto, criar. Evidentemente construindo hipóteses que
sejam, dentro do possível, assemelhadas ao que se tinha antes do corte [de uma
árvore].”41
4. IMPORTÂNCIA DA PRESERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE E SUSTENTABILIDADE
AMPLIADA
A preservação da biodiversidade é indispensável para a manutenção dos serviços ambientais que a natureza presta, tais como a polinização, a ciclagem do
solo, a regulação do clima, o controle biológico de pragas, lazer, a utilização de
recursos genéticos, dentre vários outros.42
Impende dizer que não se trata de deixar intocados os elementos da biodiversidade, mas sim de utilizá-los conscientemente43, com ciência dos reflexos e
38
MIRRA, Álvaro Luiz Valery. Ação civil pública e a reparação do dano ao meio ambiente. São Paulo: Juarez de Oliveira,
2002.
39
CARDOSO, Artur Renato Albeche. A Degradação ambiental e seus valores econômicos associados. Porto Alegre: Fabris, 2003.
40
DIAS, Bráulio Ferreira de Souza. Degradação ambiental: os impactos do fogo sobre a biodiversidade do Cerrado. In:
GARAY, Irene; BECKER, Berta K. (orgs.) Dimensões humanas da biodiversidade: o desafio de novas relações sociedade
natureza no século XXI. Petrópolis: Vozes, 2006. p.187-188.
41
FREITAS, Vladimir Passos de. A Constituição Federal e a efetividade das normas ambientais. 2.ed. rev. São Paulo: RT,
2002. p.186.
42
BENSUSAN, Nurit. O que a natureza faz por nós: serviços ambientais. In: BENSUSAN, Nurit.(org.). Seria melhor
mandar ladrilhar?: biodiversidade como, para que, por quê. Brasília: Universidade de Brasília: Instituto socioambiental,
2002, p.117 a 134.
43
BECKER, Bertha K. Da preservação à utilização consciente da biodiversidade amazônica. In: GARAY, Irene; BECKER,
Bertha K.(orgs.). Dimensões humanas da biodiversidade: o desafio de novas relações sociedade natureza no século XXI.
Petrópolis: Vozes, 2006. p. 355 a 379.
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47
alterações nela a incidir, propondo-se mesmo, dependendo da situação fática, à
não interferência quando se sabe do desequilíbrio ecossistêmico que a atividade
interventiva causará.44
Deve-se chamar atenção para o que Garay e Becker chamam de atraso perceptivo. É dizer: a perda dos ecossistemas, assim como o declínio do número de
espécies faunísticas e florísticas, são caracterizados por uma certa gradualidade.
Ou seja, são processos que se delineiam de forma prolongada no tempo. Igualmente, é de se pontuar a “capacidade do humano em se adaptar culturalmente às
mudanças lentas”45(mudanças institucionais, políticas, sociais etc.). Dessa interseção de prismas, resulta que, salvo no que se refere aos recursos indispensáveis
às necessidades materiais humanas (alimentos, materiais de construção, combustíveis, por exemplo), as alterações ambientais podem não ser percebidas rapidamente, levando a um atraso da percepção sobre a escassez e a depleção dos recursos naturais. Nessa razão, é pertinente o questionamento dos autores: “quanto o
ambiente natural deve mudar e qual o período necessário antes que tais mudanças
prejudiciais induzam uma reação/resposta do comportamento humano?”.46
A fim de que se possibilite um acesso eqüitativo dos recursos naturais e dos
benefícios que a biodiversidade nos oferece, bem como evitando-se conflitos sociais em razão de bens ambientais, é imperativo pensar em políticas sustentáveis a
longo prazo, em detrimento de perspectivas de curto prazo, redutivas tão somente
a aspectos econômicos imediatistas. Adota-se aqui a teoria da sustentabilidade
ampliada, a qual aborda uma sustentabilidade não somente ambiental, mas também social, econômica, cultural, política e tecnológica.47
Em outras palavras, há que se traduzir concretamente o princípio do desenvolvimento sustentável na realidade ambiental, política e econômica de cada
país, incorporando as dimensões da equidade intrageneracional e intergeneracional, da utilização durável dos recursos bem como da idéia de integração dos pólos econômico, social e ambiental.48 Ou, como quer Barboult, uma perspectiva
de desenvolvimento sustentável centrado em três exigências, a saber: eficiência
econômica, equidade social e viabilidade ecológica.49 Bem pontua Antunes que
44
Nesse sentido, o item 5 do Anexo do Decreto nº 4.339/02: A Política Nacional da Biodiversidade tem como objetivo
geral a promoção, de forma integrada, da conservação da biodiversidade e da utilização sustentável de seus componentes,
com a repartição justa e eqüitativa dos benefícios derivados da utilização dos recursos genéticos, de componentes do
patrimônio genético e dos conhecimentos tradicionais associados a esses recursos ( “grifo meu”). (BRASIL.Decreto nº
4.339 de 22 de agosto de 2002. Disponível em ‹www6.senado.gov.br/sicon/ExecutaPesquisaLe gislação.action›. Acesso
em 05 de abril de 2008.)
45
YOUNÉS, Talal; GARAY, Irene. As dimensões humanas da biodiversidade: o imperativo das abordagens integrativas.
In: GARAY, Irene; BECKER, Bertha K.(orgs.). Dimensões humanas da biodiversidade: o desafio de novas relações sociedade natureza no século XXI. Petrópolis: Vozes, 2006. p. 64-65.
46
YOUNÉS, Talal; GARAY, Irene. As dimensões humanas da biodiversidade: o imperativo das abordagens integrativas.
In: GARAY, Irene; BECKER, Bertha K.(orgs.). Dimensões humanas da biodiversidade: o desafio de novas relações sociedade natureza no século XXI. Petrópolis: Vozes, 2006. p. 65.
47
AGENDA 21 brasileira: ações prioritárias. Comissão de Políticas de Desenvolvimento Sustentável e da Agenda 21
Nacional. 2.ed. Brasília: Ministério do Meio Ambiente, 2004..
48
BARTENSTEIN, Kristin. Les origines du concept de développement durable. Revue juridique de droit de l’environnement,
setembro de 2005, p.289-297.
49
BARBAULT, Robert. Trad. Irene Garay. A conservação e a gestão da biodiversidade: um desafio para a Ecologia. In:
GARAY, Irene; BECKER, Bertha K.(orgs.). Dimensões humanas da biodiversidade: o desafio de novas relações sociedade
natureza no século XXI. Petrópolis: Vozes, 2006. p. 384.
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o Direito Ambiental possui, além da dimensão natural, as dimensões sociais e
econômicas50. Este é o limite que evita posições extremadas, seja a defesa sectária
e intransigente do meio ambiente natural, seja, no outro vértice, a irracionalidade
ou negligência ao não se utilizar de forma sustentável os recursos ambientais.
Não é outra coisa o desenvolvimento sustentável, conceito abstrato, e talvez por
isso mesmo, apto a contradições e desenlaces econômico-socioambientais que
ora se dão sob uma aparente homogeneidade, concebendo o meio ambiente como
um ente externo às relações sociais, ora implicam em conflitos ambientais entre
grupos de diferentes matizes.51
5. RISCOS AMBIENTAIS E BIODIVERSIDADE
Em relação à biodiversidade, há riscos ambientais que são de alta gravidade,
como, por exemplo, a ameaça ou a própria extinção de espécies e a agressão intensa a biomas pouco estudados, como a Caatinga52.
Canotilho propõe uma “determinação jurídica dos valores limite do risco”,
consubstanciado em princípios jurídico–constitucionais53. A par do princípio da
obrigatoriedade da precaução, que tem a ver com a incerteza do perigo do dano, e
do princípio da proteção dinâmica do direito ao ambiente, este relacionado com a
necessidade de critérios técnico-científicos de segurança constantemente atualizados na aferição dos riscos aceitáveis, figura o princípio da proporcionalidade dos
riscos, formulado pelo autor mencionado nos seguintes termos:
“a probabilidade da ocorrência de acontecimentos ou resultados
danosos é tanto mais real quanto mais graves forem as espécies de
danos e os resultados que estão em jogo”54
Nesse sentido, a proteção à biodiversidade, nos enfoques intra-específico,
interespecífico e ecossistêmico merece especial cuidado por parte da gestão ambiental. Situações-limite, como, por exemplo, o alto risco da extinção de determinada espécie ou a continuidade da degradação de um ecossistema local tendente à
irreversibilidade, torna a probabilidade de materialização do risco superestimada,
dada a gravidade dos bens ambientais em jogo.
Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Ali-
50
ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito ambiental. 8. ed.rev. e ampl. Rio de Janeiro: Lumen júris, 2005. p.09.
ZHOURI, Andréa (org.) A insustentável leveza da política ambiental: desenvolvimento e conflitos socioambientais. Belo
Horizonte: Autêntica, 2005.
52
LEWINSOHN, Thomas Michael; PRADO, Paulo Inácio. Biodiversidade brasileira: síntese do estado atual do conhecimento. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2004. p.77.
53
CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional ambiental português: tentativa de compreensão de 30 anos
das gerações ambientais no direito ambiental português. In: CANOTILHO, José Joaquim Gomes; LEITE, José Rubens
Morato. Direito constitucional ambiental brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2007, p. 1 a 10.
54
CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito constitucional ambiental português: tentativa de compreensão de 30 anos
das gerações ambientais no direito ambiental português. In: CANOTILHO, José Joaquim Gomes; LEITE, José Rubens
Morato. Direito constitucional ambiental brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2007, p.10.
51
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49
mentação), no século XX, 75% da diversidade genética de centenas de milhares
de espécies de plantas desapareceu. Recentemente, chegou-se a construir um banco mundial de sementes, em pleno ártico, a fim de se constituir um “cofre global”
de interesse agrícola.55. Em relação à situação da fauna brasileira, há situações críticas de ameaça de extinção, a exemplo do mico-leão dourado, hoje com menos de
2% de seu habitat original.56 No Cerrado, das 837 espécies de aves de ocorrência
comprovada neste bioma, 29 são exclusivas deste ecossistema, sendo que dessas
29, 14 estão ameaçadas de extinção57. Como dito, o dano ambiental é de difícil
reparação. Porém, como decorrência da indisponibilidade do bem ambiental, o
princípio da reparação integral do dano traz a questão também para o plano da
biodiversidade, o que enseja uma análise concreta e conjunta dos efeitos causados
pelo dano ambiental.
5.1 Proteção da biodiversidade e o princípio da prevenção e da precaução
Com esteio em Antunes58, Machado59 e Milaré60, diferenciam-se claramente,
em que pese a proximidade semântica, o princípio da prevenção e o princípio da
precaução. Pelo primeiro, conforme o próprio étimo latino sugere (praevenire =
tomar a dianteira, antecipar)61, tem-se a característica da previsibilidade do dano
ambiental. Vale dizer, já se sabe da periculosidade ao bem ambiental, exigindo-se,
pois, controle ou eliminação dos riscos decorrentes de empreendimentos e atividades utilizadoras de recursos ambientais consideradas efetiva ou potencialmente
poluidoras62. Já em relação ao princípio da precaução, significa que a ausência de
certeza científica não respalda atividades antrópicas de se proceder a intervenções
no ambiente. Nesse sentido, gravita-se em torno da imprevisibilidade, da incerteza das conseqüências. Agir de modo contrário a tal princípio seria leviano, atentar
contra a prudência e a ética do cuidado63 que, não raro, são opostas a interesses
econômicos imediatistas..Assim, o princípio nº 15 da Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a afirmar que “quando houver ameaça de danos graves ou irreversíveis, a ausência de certeza científica absoluta não
55
SOURANDER, Letícia Fonseca. Noruega inaugura “cofre” global de sementes no Ártico. Folha de São Paulo, São
Paulo, 16 de fevereiro de 2008. Ciência, A 14.
56
RAMBALDI, Denise. Mico - leão - dourado: uma bandeira para a proteção da Mata Atlântica. In: BENSUSAN, Nurit
(org.). Seria melhor mandar ladrilhar?: biodiversidade como, para que, por quê. Brasília: Editora Universidade de Brasília:
Insituto Socioambiental, 2002, p. 61 a 66.
57
BENSUSAN, Nurit. A imposibilidade de ganhar a aposta e a destruição da natureza. In: ______. Seria melhor mandar
ladrilhar? : biodiversidade como, para que, por quê. Brasília: Editora Universidade de Brasília: Insituto Socioambiental,
2002, p. 13 a 28.
58
ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito ambiental. 8.ed.rev. e ampl. Rio de Janeiro: Lumen júris, 2005.
59
MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental brasileiro. 13. ed. rev. e ampl. São Paulo: Malheiros, 2005.
60
MILARE, Edis. Direito do ambiente: doutrina, jurisprudência e glossário.5.ed. ref. atual e ampl.São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2007.
61
BUSSARELO, Raulino. Dicionário básico latino-português. Florianópolis: Editora da UFSC, 2004.
62
LEITE, José Rubens Morato. Dano ambiental: do individual ao coletivo extrapatrimonial. 2. ed.rev. e ampl.São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2003. p.51.
63
BOFF, Leonardo. Os impasses da expressão desenvolvimento sustentável.Disponível em: http://www.mma.gov.br/ estruturas/agenda21_arquivos/CadernodeDebates10.pdf›. Acesso em 14 de novembro de 2007.
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será utilizada como razão para o adiamento de medidas economicamente viáveis
para prevenir a degradação ambiental”.64
No livro Biodiversidade brasileira: síntese do estado atual do conhecimento, Prado e Lewinsohn traçam, como o próprio título do livro diz, uma avaliação
do estado do conhecimento sobre a biodiversidade brasileira. Em relação às estimativas no Brasil, a diversidade total de espécies existentes fica entre 1,3 e 2,4
milhões, sendo que o total de espécies conhecidas fica entre 179.000 e 226.00065.
Em proporção estimativa, consta que a biodiversidade total brasileira é cerca
de dez vezes a que se registra hoje. Quase dois milhões de espécies esperadas face
à aproximadamente 200.000 espécies conhecidas.66
O Brasil é, sem dúvida, um dos países com a maior biodiversidade do planeta. Corroborando o fosso existente entre o atual conhecimento da biodiversidade
mundial e a miríade de seres vivos existentes, afirmam os citados autores que o
Brasil possui a maior biodiversidade de vertebrados do mundo, mas essa diversidade ainda não é pouco conhecida e boa parte dela encontra-se ameaçada pela
atividade humana67 Em conclusão afirma-se que:
“Com uma defasagem tão acentuada entre a biodiversidade registrada e aquela ainda por conhecer, duas conclusões são muito claras: primeiro, não é viável pretender inventariar exaustivamente
a biodiversidade brasileira senão no curso de várias décadas ou
séculos – e, com as pessoas e recursos hoje disponíveis, é impossível chegar mesmo perto disso. Conseqüentemente, a informação
necessária para conhecimento e uso da biodiversidade somente
poderá ser produzida com esforços muito centrados para objetivos
claros.” 68
Emerge à tona o princípio da prevenção e o princípio da precaução. É que,
se por um lado não há como deixar intacto os bens ambientais desconhecidos, até
porque a margem de conhecimento em relação a esses é limitada, a consideração desta escassez de conhecimento sobre a biodiversidade figura como variável
inevitável na consideração das questões político-jurídicas ambientais, traduzidas
em instrumentos de gestão ambiental como zoneamento ecológico-econômico e
licenciamento ambiental, este quando da fase de concessão da licença prévia69. A
inserção ou não de atividades econômicas de altos impactos ambientais, autorizadas/licenciadas pelo poder público, em biomas menos conhecidos, tal como a
64
Assinala Carvalho, concernente aos riscos ecológicos, que esses “apresentam uma complexidade potencializada (ecocomplexidade), no que diz respeito à identificação dos agressores, à determinação temporal dos efeitos da degradação, às
dimensões de seus efeitos, ao número de atingidos (gerações futuras) e, sobretudo, às condições de atribuição das relações
de causalidade” (CARVALHO, Délton Winter de. Dano ambiental futuro: a responsabilização civil pelo risco ambiental.
Revista de Direito Ambiental, São Paulo, nº 45, p.62-91, jan.- mar. de 2007).
65
LEWINSOHN, Thomas Michael; PRADO, Paulo Inácio. Biodiversidade brasileira: síntese do estado atual do conhecimento. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2004. p.94.
66
Idem, fl. 95.
67
Idem, fl. 76.
68
Idem, fl. 96.
69
Resolução nº 237/97, art.8º, do Conselho Nacional do Meio Ambiente - CONAMA
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Caatinga, há de ser alvo de criteriosa consideração, levando-se em conta a localização do empreendimento bem como alternativas que possibilitem um menor
impacto e menor degradação da área.
6. CONCLUSÃO
O meio ambiente, bem jurídico unitário e indivisível, considerado como o
conjunto de interações, leis e influências que permite e rege a vida em todas as
suas formas (art. 225, caput da C.F.), não se confunde com a biodiversidade. Esta
delineia-se de forma especular àquele; já possui contornos teóricos próprios que
juridicamente se distingue do macrobem, seria um campo separado, porém diretamente interligado, do trato conceitual de meio ambiente.
Se a imprecisão e a escassez de conhecimento sobre a biodiversidade brasileira obsta, em parte, uma adequada valoração econômica no que toca à reparação
do dano ambiental (quando não se possa intervir no bem lesado e na respectiva
ambiência ecossistêmica), vislumbra-se também, que há sim, em algumas regiões, biomas e espécies melhor conhecidos, o que permite levar em conta alguns
aspectos importantes, tais como o bioma melhor conhecido (Mata Atlântica) e os
biomas menos conhecidos (Pantanal e Caatinga), auxiliando, dessa forma, o perito ou o técnico na adequada valoração econômica ou na proposição de medidas
compensatórias para a reparação da área degradada.
A danosidade que se manifesta num bem ambiental concretamente determinado, tal como em florestas, corpos d’água, ar ou em recurso pedológico (solo),
atinge, direta ou indiretamente outros organismos bióticos e abióticos. Há situações em que o dano ambiental manifesta-se de tal forma que o dano torna-se
multifário, sendo mesmo impossível ter em conta todos os reflexos negativos ao
meio ambiente, a fim de que incidam na mensuração exata da reparação ao dano
ambiental. Aí não se fala do dano ambiental por intermédio do meio ambiente70,
o que, a rigor, segue uma sistemática privatística em que o meio ambiente não é
diretamente o que se quer proteger; fala-se do próprio dano à biodiversidade. Não
se faz necessário caracterizar-se alto risco de extinção de determinadas espécies
ou a alteração adversa definitiva de biomas para que, só assim, atente-se para a
questão. Por exemplo, queimadas ilegais que se arrastam por milhares de hectares
em áreas em que se desenvolvem processos ecológicos essenciais afetam diretamente a biodiversidade presente no local do dano, o que enseja mais um ângulo
de observação acerca da alteração adversa das características adversas do meio
ambiente. É a variabilidade e a riqueza inerente à biodiversidade que a eleva como
bem jurídico a ser tutelado pelo Direito Ambiental.
70
MIRRA, Álvaro Luiz Valery. Ação civil pública e a reparação do dano ao meio ambiente. São Paulo: Juarez de Oliveira,
2002.
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7. CONCLUSÕES ARTICULADAS
7.1 O dano ambiental comporta especificidades que complexifica sua caracterização exata e a extensão.Tais especificidades repercutem diretamente no âmbito
da reparação civil, o que enseja dificuldades na tutela material do meio ambiente,
tendo-se em vista o princípio da reparação integral do dano ambiental.
7.2 O dano à biodiversidade pode ser considerado como um reflexo do dano ambiental. A extrapatrimonialidade do dano ambiental impende seja contemplada,
no plano da reparação civil, a análise de variáveis econômicas e não econômicas.
7.3 A biodiversidade deve ser tratada sob uma perspectiva sustentável, estabelecendo-se uma gestão dos recursos ambientais de modo a favorecer a utilização
prolongada desses bens e a equidade social no que concerne à distribuição dos
benefícios ambientais e ecossistêmicos que a biodiversidade oferece.
7.4 O princípio da prevenção, da precaução e da proporcionalidade dos riscos
atendem aos objetivos preventivos do Direito Ambiental, máxime no que concerne à proteção da biodiversidade. Os riscos ambientais relativos à biodiversidade
tem particular relevo, dado o risco ou a extinção de espécies e a degradação constante de biomas pouco estudados.
7.5 A imprecisão e a escassez de conhecimento sobre a biodiversidade brasileira é
um entrave à reparação do dano ambiental. Todavia, há biomas e espécies melhor
conhecidos que permitem auxiliar na adequada valoração econômica ou na proposição de medidas compensatórias para a reparação da área degradada.
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PAGADOR-POLUIDOR: UM NOVO
PARADIGMA?
JULYANDERSON TEIXEIRA MIJOLÁRIO
Acadêmico de Direito do 3º ano da
Faculdade Metropolitana de Maringá - PR
ALISSON MACHADO FERREIRA
Acadêmico de Direito do 3º ano da
Faculdade Metropolitana de Maringá - PR
1. INTRODUÇÃO
Ao longo do tempo, o homem ignorou o fato dos recursos naturais, como o
ar, água, rios, oceanos, solo, dentre outros, serem escassos, imaginado serem os
mesmos inesgotáveis. Somente no século XX que a humanidade se deu conta que
estes recursos já não eram mais tão abundantes, e que a sua falta poderia ocasionar resultados alarmantes para toda a população como, por exemplo, a extinção
da vida na terra, fazendo surgir a “economia ambiental”.1
Com base nos estudos acerca da finitude dos recursos naturais, formou-se
a primeira concepção sobre o princípio do poluidor-pagador, cujo fundamento
reside no intento de promover a internalização das externalidades ambientais negativas2, e tem como objetivo evitar a socialização do prejuízo e a privatização
do lucro3 .
O presente estudo tem por objetivo a promover uma analise mais detida
acerca do conteúdo e alcance do princípio em referencia, de forma a evitar que
interpretações equivocadas do comando normativo do preceito que venha legitimar ações lesivas ao meio ambiente, sob os slogans “poluo mas pago” ou “pagar
para poder poluir”.4
Para se entender a questão, basta imaginar uma rede de lanchonetes que se
instale próximo ao acostamento de uma via pública. Será que os produtos que
são ali vendidos têm englobado em seus preços o custo social de um aumento de
trânsito no local, da poluição sonora e da poluição visual gerada, será que é jus-
1
FREITAS, Vladimir Passo de (Coord). Direito Ambiental em Evolução – nº 5. Curitiba: Juruá, 2007, p. 249.
STEIGLEDER, Annelise Monteiro. Responsabilidade Civil Ambiental: as dimensões do dano ambiental no Direito
brasileiro. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2004, pg. 192.
3
RODRIGUES, Marcelo Abelha. Instituições de Direito Ambiental. 1ª ed., Vol.1, São Paulo: Ed. Max Lionad, 2002, pg.
245
4
FIORILLO, Celso Antônio Pacheco. Curso de Direito Ambiental Brasileiro. 7. ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: Saraiva,
2006, p. 30.
2
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54
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to que pessoas que não compram naquele estabelecimento, sejam consumidoras
deste efeito social negativo.5
A partir de um estudo bibliográfico pertinente ao assunto e a legislação,
pretendemos mostrar como que começou a preocupação com o meio ambiente, os
dispositivos legais que elevam o meio ambiente a categoria de bem fundamental, e
sobre o verdadeiro conteúdo e alcance do principio do poluidor-pagador, demonstrando que ele não poderá ser usado como um instrumento ou uma autorização
para se poder degradar ou poluir o meio ambiente.
2. FORMAÇÃO DO BEM JURÍDICO AMBIENTAL
O homem vive em uma sociedade, que deixa sinais por onde passa. Através
de um processo histórico podemos observar cada vez mais estes males deixados
pelos Homo Sapiens, que vem a atingir o ambiente que necessitamos para a nossa
sobrevivência.
O tempo, que fica cada vez mais curto, obriga os homens da atualidade a agir
contra esse avanço desenfreado das irresponsáveis atitudes humanas, que obviamente vão deixar conseqüências tanto para os que praticam estas tais atos, quanto
para aqueles que nada fazem para combater isso.
Assim chegamos a um estado que nossas atitudes se chocam contra nossos
deveres e direitos.
Este é o palco em que se desenrola o drama da vida sobre o Planeta Terra.
A questão ambiental está desenhada nos cenários da humanidade e manifesta-se
através de ações visíveis, que podem ser facilmente constatadas.6
Deste modo passamos a nos deparar a cada dia com diversos problemas
ambientais que nos rodeiam, se bem observar-mos iremos conseguir ver toda a
desconsideração que sofre o nosso ambiente para a valorização de uma super
produção que é dependente dos recursos naturais, assim cada vez mais, para que a
maquina produtora não pare, o homem com sua sede insaciável, vem ameaçando
a condição ambiental de nosso mundo, deixando cada vez mais castigada a paisagem natural da Terra.
Por conta de toda essa destruição em massa, não deixando o Brasil como nenhuma exceção, o planeta chega quase há uma falência de suas riquezas naturais,
onde os lençóis freáticos são destruídos, matas são devastadas, e o clima desequilibrado vem sendo comum nos noticiários que circulam por nosso meio.
Não há duvida, pois, de que a questão ambiental, por esse prisma, é uma
questão de vida ou morte, e não apenas de animais e de plantas, mas do próprio
homem e do planeta que o abriga.7
Por conta disto, na década de 70, surgiram vários organismos em defesa dos
5
Exemplo sugerido no livro: Instituições de Direito Ambiental de Marcelo Abelha Rodrigues. Op. Cit. pg. 45
MILARÉ, Edis. Direito do Ambiente: doutrina prática, jurisprudência, glossário. 2. ed.rev. Atual. E ampl. São Paulo:
Editora Revista dos Tribunais, 2001, pg. 39.
7
MILARÉ, Édis. Direito do Ambiente. pg. 40.
6
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55
direitos humanos, entre eles se destaca a Conferencia das Nações Unidas, que foi
realizada em Estocolmo, em junho de 1972, promovida pela ONU com a participação de 114 países, que reconheceu o direito fundamental do homem à liberdade, à igualdade e às condições satisfatórias de vida, em ambiente cuja qualidade
lhe permita viver com dignidade e bem estar, reunião esta, que teve fundamental
importância para introduzir no universo jurídico internacional o conceito básico
de Direito Ambiental, estabelecendo as responsabilidades de cada país pelos danos que as atividades dentro de seu território possam causar ao ambiente de seus
vizinhos.8
A partir da conferencia de Estocolmo o homem se vê diante da inadiável
necessidade de se criar eficientes e distintas providências de proteção ambiental
em favor das presentes e futuras gerações, e reunindo-se esporadicamente em
conferências (Estocolmo, Rio de Janeiro, Vancouver, Istambul), os governantes e
representantes das nações buscam soluções comuns, como as de fomentar projetos de alcance múltiplo, estimulando a declaração de direitos nesta área, surgindo
diversos diplomas legais destinados a garantir idônea tutela ao meio ambiente.9
Neste contexto é pertinente destacar a citação da obra de José Afonso da Silva: “A necessidade da proteção jurídica do meio ambiente despertou a consciência
ambientalista por toda a parte, até com certo exagero, mas exagero produtivo,
porque chamou a atenção das autoridades públicas para o problema da degradação
e destruição do meio ambiente, natural e cultural de forma sufocante10”.
3. MEIO AMBIENTE COMO DIREITO FUNDAMENTAL DO HOMEM
O meio ambiente é o conjunto de forças e condições que cercam e influenciam os seres vivos e as coisas em geral, inclui todos os fatores que afetam diretamente o metabolismo ou o comportamento de um ser vivo ou de uma espécie.
Segundo José Afonso da Silva, meio ambiente é a interação do conjunto de elementos naturais, artificiais e culturais que propiciem o desenvolvimento equilibrado da vida em toda as suas formas, portanto meio ambiente é o conjunto das
condições, leis, influências e interações de ordem físicas, químicas e biológicas,
que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas.11
Cabe salientar que a Lei nº 6.938/81, que estabelece a Política Nacional do
Meio Ambiente, define o meio ambiente, artigo 3º, inciso I, como: “o conjunto de
condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que
permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas”.
O Meio ambiente representando a nossa qualidade de vida, vem a se tornar
um bem jurídico fundamental ao homem, sendo explicito diretamente em nossa
constituição de 1988.
8
CARVALHO, Carlos Gomes de. Introdução ao Direito Ambiental. Editora Letras e Letras: São Paulo, 1991, pg. 93.
ALVARENGA, Paulo. O Inquérito Civil e a Proteção Ambiental. Leme – SP: BH Editora e Distribuidora, 2001, pg.
189.
10
SILVA, José Afonso da. Direito Urbanístico Brasileiro, São Paulo: Editora RT, 1995, pg. 430
11
SILVA, José Afonso da. Direito Ambiental Constitucional. 5. ed., São Paulo: Ed. Malheiros, 2004, pg. 20
9
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56
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A proteção Ambiental, abrangendo a preservação da natureza em todos os
seus elementos essências a vida humana e a manutenção do equilíbrio ecológico,
visa a tutelar a qualidade de vida, como uma forma de direito fundamental da
pessoa humana.12
A nossa Constituição Brasileira revela uma preocupação intertemporal com
a proteção do equilíbrio ambiental, como se vê nos seus títulos VIII e VI que
relatam sobre o meio ambiente. Com a Promulgação da nossa Carta Magna em
1988, o meio ambiente foi elevado em nosso país à categoria de bem jurídico, e
passou a ser considerado indispensável ao bem-estar geral e essencial à saudável
qualidade de vida, sendo incluído entre nós, como um direito fundamental, buscando assegurar o gozo desse bem às presentes e futuras gerações13. O art. 225
caput da CF/88, reza que todos têm o direito a um meio ambiente ecologicamente
equilibrado, essa abrangência vem nos mostrar, a grande magnitude deste direito,
não discriminando raças, cores ou religiões, onde o legislador pátrio esta se preocupando com o presente e também com o futuro.
O uso do pronome indefinido – “todos” – alarga a abrangência da norma
jurídica, pois, não particularizando quem tem direito ao meio ambiente, evita que
se exclua quem quer que seja.14
Ainda no plano constitucional a defesa ao meio ambiente consubstanciou
destacado princípio geral conformador da ordem econômica, conforme se vê no
art. 170, inciso VI a CF/88, reconhecendo a necessidade de se promover o desenvolvimento sustentável, garantindo desta maneira, a satisfação das necessidades
da presente geração sem comprometer a capacidade das futuras gerações satisfazerem as suas próprias necessidades, podendo concluir que desenvolvimento
econômico e defesa ambiental, podem andar juntas, pois temos que de um lado a
natureza deve prover a economia de modo racionalizado, e de outro é preciso que
a economia leve em conta os limites e a capacidade de regeneração dos recursos
naturais, sendo portanto, indispensável um sistema de controle que tenha o poder
de alcançar esse equilíbrio.15
4. PRINCÍPIO DO POLUIDOR PAGADOR
“Poluidor-pagador” é expressão que sintetiza um dos mais importantes postulados do Direito Ambiental16, assenta-se em sua vocação redistributiva e se inspira na teoria econômica de que os custos sociais externos que acompanham o
processo produtivo, devem ser internalizados pelo empreendedor.17
Oriundo das instruções da OECD (Conselho da Organização de Coopera-
12
Op. Cit. pg. 58.
ALVARENGA, Paulo. O Inquérito Civil e a Proteção Ambiental, pg. 189-190.
14
MACHADO, Paulo Afonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. 13. ed., rev. atual. e ampl, São Paulo: Ed. Malheiros,
2005, pg. 116.
15
Op. Cit. pg. 190.
16
RODRIGUES, Marcelo Abelha. Instituições de Direito Ambiental. pg. 137.
17
MILARÉ, Edis. Direito do Ambiente: doutrina prática, jurisprudência, glossário. 2. ed.rev. Atual. E ampl. São Paulo:
Editora Revista dos Tribunais, 2001, pg. 116.
13
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57
ção e Desenvolvimento Econômico) em 1972, o poluidor pagador foi apresentado
como um dos princípios econômicos, cuja definição era a seguinte:
O princípio a ser usado para alocar custos das medidas de prevenção e controle
da poluição para encorajar o uso racional dos recursos ambientais escassos e
para evitar distorções do comércio internacional e investimentos é denominado
de princípio do poluidor pagador. Este princípio significa que o poluidor deve
suportar os custos das medidas acima mencionadas, decididas pelas autoridades públicas para assegurar que o ambiente possa ficar num nível aceitável.18
Posteriormente, o dito princípio foi recepcionado pelo Ato único Europeu,
onde encontrou, pioneiramente, nas obrigações convencionais internacionais o
espaço para o desenvolvimento dogmático de seu conteúdo.19
Todavia, a derradeira consagração do preceito do poluidor-pagador somente
ocorreu vinte anos depois, na Conferencia Internacional Rio/1992, passando a
integrar a normativa nº 16 da agenda 21.20
No âmbito interno, o ordenamento jurídico brasileiro, incorporou o princípio do poluidor-pagador através do art. 4º, inc. VII da Lei nº 6938/1981, segundo
o qual, a política nacional do meio ambiente visará à imposição, ao poluidor e ao
predador, da obrigação de recuperar e/ou indenizar os danos causados. O mencionado dispositivo legal foi recepcionado pelo sistema constitucional vigente,
haja vista que o art. 225, §§ 2º e 3º da Constituição Federal de 1988, ao se referir
a obrigação de recuperar o meio ambiente em virtude de degradação ambiental
decorrente de mineração e a responsabilização por danos ambientais.21
O princípio do poluidor pagador parte da constatação de que os recursos
ambientais são escassos e que, o uso destes na produção e no consumo desmesurados, acarreta a sua a sua redução e degradação. Porém se os custos da redução
dos recursos naturais não forem considerados no sistema de preços, o mercado
não será capaz de refletir a escassez, sendo, portanto, necessárias políticas públicas capazes de eliminar as falhas de mercado, de forma a assegurar que os preços
dos produtos reflitam os custos ambientais ocasionados22.
A este fenômeno, conforme já referido alhures, se da o nome de internalização das externalidades negativas, e quando esta incorporação dos efeitos negativos do mercado não ocorre, certamente o produtor de um bem, o aço em uma
siderúrgica, por exemplo, terá um produto colocado no mercado que não será
por todos adquiridos, mas cujo custo social será suportado, inclusive por quem
não consumiu ou nunca ira consumir o referido produto. Ocorreria, assim, um
18
RODRIGUES, Marcelo Abelha. Op. Cit., pg. 140.
LEITE, José Rubens Morato; AYALA, Patrick de Araújo. Direito Ambiental na Sociedade de Risco. Rio de Janeiro:
Forense Universitária, 2002, pg. 76.
20
“As autoridades nacionais devem esforçar-se para promover a internalização dos custos de proteção do meio ambiente e
o uso dos instrumentos econômicos, levando-se em conta o conceito de que o poluidor deve, em princípio, assumir o custo
da poluição, tendo em vista o interesse público, sem desvirtuar o comércio e os investimentos internacionais”. (RODRIGUES, Marcelo Abelha. Op. Cit, pg. 140)
21
STEIGLEDER, Annelise Monteiro. Responsabilidade Civil Ambiental. pg. 194.
22
ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito Ambiental. 5. ed., rev. ampl. atual. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, pg. 32.
19
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enriquecimento do produtor a expensas de um efeito negativo, suportado pela sociedade. É devido a este fenômeno que surgiu a expressão “privatização de lucro
e socialização das perdas”.23
Pode-se identificar no princípio do poluidor pagador duas órbitas de alcance:
uma de caráter preventivo, que busca evitar a ocorrência de danos ambientais; e
outra de caráter repressivo, onde as atenções são voltadas para a reparação do
dano já implementado. Desse modo, num primeiro momento, impõe ao poluidor
o dever de arcar com as despesas de prevenção dos danos ao meio ambiente em
que sua atividade possa ocasionar, onde cabe a ele o ônus de utilizar instrumentos
necessários a prevenção dos danos, e num segundo momento, esclarece este princípio que ocorrendo danos ao meio ambiente em razão da atividade desenvolvida,
o poluidor será responsável pela sua reparação, havendo aqui a incidência da responsabilidade civil objetiva, prioridade da reparação específica do dano ambiental
e solidariedade para suportar os danos causados ao meio ambiente.24
Entretanto, cabe ressaltar que a essência do princípio do poluidor pagador é
eminentemente preventiva, onde a reparação e a repressão atuam como ultima ratio (solução ressarcitória25), visando imputar ao poluidor o custo social dos danos
por ele ocasionados, engendrando desta forma, um mecanismo de responsabilidade por danos ecológicos.26
O poluidor passa a ser o primeiro pagador, de modo que é obrigado a integrar plenamente no seu processo de decisão, o sinal econômico que constituiu
o conjunto dos custos ambientais, sendo que as subtrações quantitativas e qualitativas do ambiente que ficariam a cargo da sociedade sejam suportados pelos
empreendedores da atividade como verdadeiros custos de produção, de tal modo
que suas decisões acerca do nível de poluição situem a atividade num ponto mais
próximo do socialmente ótimo.27
Existe uma critica por parte da doutrina, no sentido de que estes custos serão
repassados para o consumidor, mas a nosso ver, esta e a intenção do princípio em
estudo, pois é melhor que este ônus seja suportado pelo consumidor do produto,
do que por toda a sociedade, devendo se levar em conta ainda a concorrência de
mercado, pois se o empreendedor adota medidas de prevenção e uso racional e
responsável dos recursos naturais, terá condições de colocar no mercado um produto mais barato do que àquele empresário que não adotou tais medidas.
Neste contexto, Marcelo Abelha Rodrigues diz que o princípio do poluidor pagador abrange os seguintes aspectos: “a) sobrecarga do preço do produto
que causa a externalidade ambiental negativa, estimulando o uso de tecnologias
limpas; b) publicização no mercado de consumo de quais são os produtos que
causam externalidades ambientais negativas, fixando uma educação ambiental; c)
ação voltada a fazer com que os responsáveis pelos custos sociais sejam, por isso
23
24
25
26
27
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RODRGUE, Marcelo Abelha. Instituições de Direito Ambiental. pg. 142.
FIORILLO, Celso Antônio Pacheco. Curso de Direito Ambiental Brasileiro. pg. 30-31
LEITE, José Rubens Morato; AYALA, Patryck de Araújo. Direito Ambiental na Sociedade de Risco. pg. 80.
MILARÉ, Édis. Direito do Ambiente: doutrina, prática, jurisprudência, glossário. pg. 116.
STEIGLEDER, Annelise Monteiro. Responsabilidade Civil Ambiental. pg. 195.
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59
mesmo, responsáveis pelos custos estatais de prevenção, precaução e correção
na fonte; d) estimulo a uma política de equidade no comércio internacional; e)
incentivo a políticas que proclamem o uso racional dos componentes ambientais,
pois são bens escassos; f) prevenção oriunda da repressão severa, servindo como
estimulante negativo as condutas agressivas ao meio ambiente; g) imputação dos
custos do “empréstimo” dos componentes ambientais àqueles que, embora não
sejam poluidores, mas apenas usuários, causam uma sobrecarga pelo uso invulgar
dos componentes ambientais, devendo pagar pela utilização incomum de bens que
são de uso comum e do povo”.28
4.1 Direito de Poluir?
Pelo que foi exposto até agora, o princípio em questão, se mostra muito
eficiente no combate a preservação a natureza, mas ele deve ser analisado com
reservas, pois é possível extrair conclusões do tipo: “O que paga pode poluir”; “O
pagamento polui”; “Quem contamina e paga, não precisa reparar”29. Como se vê,
tal principio não pode ser interpretado ao pé da letra, pois agindo desta maneira,
estaremos distorcendo o seu verdadeiro alcance.
Neste sentido, parafraseando Marcelo Abelha Rodrigues, mais do que distante é errônea a idéia de que o princípio do poluidor-pagador, seja um passaporte para a poluição, tendo em vista que o meio ambiente não é algo ou coisa
negociável.30
Como já foi dito alhures, o conteúdo do principio referido é muito amplo
e transformou-se em um dos princípios jurídicos ambientais mais importantes
para a proteção ambiental, estando consagrado nas mais destacadas legislações
nacionais e internacionais31, onde o seu objetivo é imputar aos custos de produção
todas as externalidades ambientais negativas, estabelecendo condições que não
permitem que ao operador econômico seja mais vantajoso poluir do que aperfeiçoar medidas de prevenção32, fazendo com que a necessidade de preservação e
conservação dos recursos ambientais seja mais em conta do que a devastação e a
poluição, evitando-se desta maneira a socialização dos prejuízos e a privatização
dos lucros33.
Seguindo esta linha de pensamento esta afastada a interpretação de que se
pode comprar o direito de poluir mediante a internalização do custo social, pois
caso este custo seja insuportável para a sociedade, ainda que internalizado, a interpretação jurídica do poluidor-pagador impede que o produto seja produzido e
socializado o custo da produção, chegando-se a conclusão de que a verdadeira
28
RODRIGUES, Marcelo Abelha. Instituições de Direito Ambiental. pg. 144-145.
ALVARENGA, Paulo. O Inquérito Civil e a Proteção Ambiental, pg. 60.
30
RODRIGUES, Marcelo Abelha. Instituições de Direito Ambiental. pg. 145.
31
ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito Ambiental, pg. 33.
32
LEITE, José Rubens Morato; AYALA, Patrick de Araújo. Direito Ambiental na Sociedade de Risco, pg. 79
33
BENJAMIN, Antonio Herman. O princípio do poluidor pagador e a reparação do dano ambiental. In:___. Dano ambiental: prevenção, reparação e repressão. São Paulo: RT, 1993, pg. 228
29
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pretensão do citado princípio é a redistribuição eqüitativa das externalidades negativas ambientais, pois se estes efeitos negativos de mercado que são suportados
pela sociedade em prol do lucro do responsável pelo produto, que exerce sua atividade degradando o meio ambiente e diminuindo os seus recursos naturais, nada
mais justo de que todos os custos de prevenção, precaução que são empregadas
pelo Estado que tem o poder de gestão dos componentes ambientais sejam suportadas pelo responsável pelas externalidades negativas.34
Cumpre ainda destacar os ensinamentos de Annelise Monteiro Steigleder, que
diz que devemos procurar sempre uma interpretação extensiva deste princípio nos textos legais, enfatizando a sua vocação preventiva, rejeitando-se os comentários ou explicações que procurem entrever no poluidor-pagador uma autorização para poluir.35
Deve-se, portanto, evitar o que Maria Alexandra Aragão denomina de “poluição normativa”, que se verifica quando as normas vigentes são pretensamente
conformes aos princípios do poluidor-pagador, mas na verdade seu conteúdo ou
a sua forma de aplicação, não observam rigorosamente tal princípio, ou então
fazem uso dele incorretamente, abusando-se substancialmente, em verdadeiras
licenças gratuitas de poluição fazendo prevalecer o interesse do particular dos
poluidores que querem reduzir os custos de produção, sobre o interesse publico
que é o de proteger o meio ambiente.36
5. CONCLUSÕES ARTICULADAS
5.1. O princípio do poluidor-pagador tem vocação redistributiva sendo inspirado
na teoria econômica da internalização das externalidades negativas ambientais,
que evita a socialização dos custos pela degradação e extinção dos recursos naturais, imputando-lhes ao empreendedor irresponsável.
5.2. A essência de tal princípio é eminentemente preventiva, sendo que a reparação e a repressão atuam como ultima ratio.
5.3. Não se deve usar o princípio do poluidor-pagador como um passaporte para
a poluição, não podendo intrepretá-lo no sentido de que se pode comprar o direito
de poluir, tendo em vista que o meio ambiente é um bem indisponível, não sendo
algo ou coisa negociável.
5.4. Tal princípio deve ser interpretado de maneira extensiva, enfatizando a sua
vocação preventiva e o seu caráter de redistribuição eqüitativa das externalidades
negativas ambientais, estabelecendo condições que mostre ao empresário que é
mais vantajoso criar um sistema de prevenção e conservação dos recursos naturais, do que poluir e devastar.
34
Op. Cit. 144
STEIGLEDER, Annelise Monteiro. Responsabilidade Civil Ambiental. pg. 194.
36
ARAGÃO, Maria Alexandra Souza. O princípio do poluidor-pagador: pedra angular da política comunitária do ambiente. Coimbra: Universidade de Coimbra, Coimbra Editora, 1997, pg.. 56-57
35
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O NON-COMPLIANCE PROCEDURE E SUA
ATUAÇÃO NO PROTOCOLO DE MONTREAL
KELLY SCHAPER SORIANO DE SOUZA
Graduando em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais,
membro do Grupo de Estudos em Direito Internacional (GEDI),
do Grupo de Estudos em Direito Internacional Ambiental (GEDAI)
e do Núcleo de Estudos em Direito Ambiental (NEDA),
da Faculdade de Direito da UFMG
LEONARDO ESTRELA BORGES
Professor de Direito Ambiental e membro do Conselho Editorial
da Revista Brasileira de Direito Ambiental - Doutrina e
Jurisprudência, professor revisor da presente tese
1. INTRODUÇÃO
Ao longo do século XX, aos poucos os povos passaram a compreender que
o desenvolvimento material das sociedades, tal como potencializado pela Revolução Industrial, trazia consigo um subproduto altamente nocivo para a natureza e,
conseqüentemente, para toda a humanidade1. Neste período expandiu-se a consciência de que a natureza não mais seria capaz de suportar toda a poluição e degradação, conseqüências do desenvolvimento2, e por meio de um processo natural
restabelecer o equilíbrio ecológico.
Em decorrência, surgiram necessidades de proteção ao meio ambiente, que
inicialmente foram regulamentadas em níveis nacionais e até mesmo locais e,
aos poucos, ultrapassaram as fronteiras dos Estados. A chamada interação entre
elementos do meio ambiente global3 fez com que os Estados se tornassem parceiros na tentativa de se restabelecer o equilíbrio ecológico no planeta. A partir de
então o homem foi compelido a buscar em normas internacionais a disciplina de
fenômenos que ultrapassam as fronteiras dos Estados e exigem uma formulação
no âmbito internacional.
Em que pese a ocorrência de fatos relevantes que refletem as primeiras regu-
1
SANDS, P. Principles of International Environmental Law. 2 ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2003, p. 25;
SOARES, G. Direito Internacional do Meio Ambiente. São Paulo: Atlas Jurídico, 2001, p. 35.
2
Mudanças climáticas, chuva ácida, destruição da camada de ozônio, perda considerável de biodiversidade, contaminação de rios e mares por produtos tóxicos são alguns acontecimentos fruto do desequilíbrio que assola o meio ambiente
global.
3
SOARES, supra nota 1, p. 36.
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12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
lamentações em âmbito internacional do meio ambiente no período anterior aos
anos de 19604, esta data é considerada pelos melhores autores mundiais, como
início do Direito Internacional do Meio Ambiente. Desde então, o período que se
estendeu até a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano
realizada em Estocolmo em 19725, foi marcado pela assinatura de grandes tratados e convenções sobre os temas mais relevantes no que tange à proteção do meio
ambiente mundial6.
Vinte anos mais tarde, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO/92)7 adicionou às políticas e normas relativas ao meio
ambiente uma preocupação voltada para o desenvolvimento, introduzindo o conceito de sustentabilidade8, acompanhado da noção de futuridade e do espraiamento da
temática do meio ambiente em todos os campos do Direito Internacional.
Nos dias atuais, por conseguinte, frente às recorrentes catástrofes ambientais e às previsões nada otimistas dos cientistas quanto às conseqüências da ação
antrópica na natureza para as próximas décadas9, tornou-se ainda mais imperioso
recorrer ao Direito Internacional Ambiental para se atingir uma efetiva proteção
ao meio ambiente. Destarte, foram desenvolvidos mecanismos de implementação
4
Dentre tais fatos destacam-se a Convenção de 1883, assinada em Paris, para a proteção das focas de pele do Mar de
Behring; a Convenção de Paris de 1911, para a Proteção das Aves Úteis à Agricultura e a “Convenção para regulamentação
da pesca da baleia e regulamentação anexa à mesma”, adotada em Washington, em 1946. Veja também SOARES, supra
nota 1, pp. 37-44; REI, F. A Peculiar Dinâmica do Direito Internacional do Meio Ambiente. Direito Internacional do Meio
Ambiente.1 ed. São Paulo: Editora Atlas S.A., 2006, pp. 5 e 6.
5
A Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, tida como um dos marcos do Direito Internacional
do Meio ambiente, ocorreu em Estocolmo/Suécia, entre 05 e 16/06/1972, na qual foram adotados três instrumentos não
vinculantes: uma Resolução sobre aspectos financeiros e organizacionais no âmbito da ONU; a Declaração de Estocolmo
(Declaração das Nações Unidas sobre Meio Ambiente) e um plano de Ação para o Meio Ambiente com 109 Recomendações. A Declaração sobre o Meio Ambiente Humano, com seu preâmbulo de sete pontos e os 26 Princípios petrificou, em
texto escrito, aqueles valores que já se encontravam estabelecidos nos sistemas jurídicos nacionais, bem como declarou
outros novos, em conformidade com a emergente consciência da necessidade de preservação do meio ambiente global.
Veja Declaração de Estocolmo da Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano. Estocolmo, 16 jun. 1972.
11 ILM 1416.
6
“Desde 1972, o número de instrumentos jurídicos internacionais sobre meio ambiente aumentou consideravelmente.
Em dezembro de 1998, havia mais de 1000 instrumentos jurídicos cujo foco era o meio ambiente ou que tinham uma ou
mais previsões importantes acerca de questões ambientais; a maioria destes instrumentos têm sido negociada desde 1972.
Além disso, houve também um crescimento considerável no número de instrumentos jurídicos não vinculantes (soft-law)
preocupados com o meio ambiente”. (tradução livre) Veja WEISS, E. Understanding Compliance with International Environmental Agreements: The Baker’s Dozen Myths, 32 U. Rich. L. Rev. 1555-1586, 1999, p.1555.
7
A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento ocorreu entre 03 e 14/06/1992 no Rio
de Janeiro/Brasil, por decisão da Assembléia Geral das Nações Unidas, e culminou na adoção de três instrumentos não
vinculantes: a Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento; a Declaração de Princípios sobre as Florestas
e a Agenda 21. Além disso, foram adotadas duas convenções multilaterais: A Convenção-Quadro das Nações Unidas
sobre Mudança do Clima e a Convenção sobre Diversidade Biológica. (UNGAOR A/RES/44/228. Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, adotada em 22 dez. 1989). A Declaração do Rio, em especial,
representa uma série de compromissos firmados entre Estados desenvolvidos e em desenvolvimento, além de constituir
um verdadeiro balanço entre os objetivos da proteção ambiental e o desenvolvimento econômico. Os 27 Princípios que a
compõem determinam as bases sobre as quais os Estados devem cooperar bem como trabalhar para o desenvolvimento do
Direito Internacional, sempre orientados pela noção de desenvolvimento sustentável. Veja Declaração do Rio sobre Meio
Ambiente e Desenvolvimento, 31 ILM 874, UNCED Doc A/Conf.151/5/Rev.1 (1992).
8
A Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, por meio do Relatório Bruntland, define o desenvolvimento sustentável como “desenvolvimento que atende às necessidades do presente, sem comprometer a capacidade das
futuras gerações atenderem às próprias necessidades”. O Relatório foi publicado no Brasil pela Fundação Getúlio Vargas,
Nosso Futuro Comum. 2 ed. Rio de Janeiro: FGV, Instituto de Documentação, Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1991.
9
As previsões científicas acerca das conseqüências das atividades antropogênicas na natureza foram, em grande parte,
compiladas em quatro relatórios (Assessment Reports) do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC),
disponíveis na Internet em www.ipcc.ch/ipccreports/assessments-reports.htm. Acesso em 20 mar. 08.
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63
e execução das normas internacionais obrigatórias de tutela ambiental bem como
mecanismos de solução de controvérsias10. Além disso, foram exploradas novas
abordagens no que se refere à solução de conflitos internacionais sobre questões
relativas ao meio ambiente, entre eles destacamos os chamados “non-compliance
procedures”11, mecanismos institucionais que evoluíram como a pedra fundamental em alguns acordos multilaterais sobre meio ambiente e que serviram de modelo para vários outros, constituindo o foco do presente trabalho. Como cenário
será abordado o regime de non-compliance procedure no Protocolo de Montreal e
o desenrolar do procedimento no caso específico da Rússia.
2. OBRIGAÇÕES INTERNACIONAIS E MECANISMOS DE SOLUÇÃO DE CONTROVÉRSIAS NO
DIREITO INTERNACIONAL AMBIENTAL
Para melhor compreensão dos non-compliance procedures faz-se necessária
uma breve abordagem sobre as obrigações, bem como os mecanismos para solução de conflitos no Direito Internacional do Meio Ambiente. A princípio, neste,
assim como no Direito Internacional, as obrigações que advinham especialmente
de princípios e normas gerados pelos Estados possuíam caráter predominantemente proibitivo, o que pode ser constatado na regulamentação da proteção ambiental expressa em normas de combate à poluição e proibições de determinadas
atividades lesivas à natureza12.
Entretanto, essa predominância de conteúdos exclusivamente proibitivos na
regulamentação da tutela ambiental, em parte, cedeu lugar, ao longo dos últimos
séculos, a um novo conteúdo mandatório, “obrigando os Estados a comportamentos positivos, expressos em termos de cooperação, seja no estabelecimento de
esquemas normativos de instituição e da administração comum das responsabilidades, seja na prevenção de danos, seja ainda na assistência recíproca em casos de
acidentes ou emergências ambientais”13.
As obrigações em Direito Internacional do Meio Ambiente advém de fontes
comuns ao Direito Internacional Público, regulamentadas pelo Estatuto da Corte
Internacional de Justiça (CIJ) em seu artigo 3814:
“1. A Corte, cuja função é decidir de acordo com o direito internacional as
controvérsias que lhe forem submetidas, aplicará:
a) as convenções internacionais, quer gerais, quer especiais, que estabeleçam
regras expressamente reconhecidas pelos Estados litigantes;
10
SANDS, supra nota 1, p.172.
Em sua tradução literal o termo “non-compliance procedure” significa procedimento de não-conformidade. Entretanto,
seu significado em português não exprime de modo adequado o que de fato vem a ser esse instituto, pois trata-se de um
mecanismo peculiar para solucionar questões relativas ao descumprimento de regras advindas de acordos multilaterais.
Pelo exposto, preferimos utilizar o termo em inglês com o intuito de não distorcer seu verdadeiro significado.
12
Dentre estas destacam-se, especialmente, as proibições de caça, pesca ou captura de animais em perigo de extinção,
bem como a coleta e comércio internacional de espécimes faunísticas ou florísticas protegidas. Veja SOARES, supra nota
1, p. 164.
13
SOARES, supra nota 1, pp. 164 e 165.
14
Statute of the International Court of Justice. Disponível em http://www.icj-cij.org/documents/index.
php?p1=4&p2=2&p3=0. Acesso em 25 mar. 08.
11
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64
12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
b) o costume internacional, como prova de uma prática geral aceita como sendo o direito;
c) os princípios gerais de direito, reconhecidos pelas nações civilizadas;
d) sob reserva da disposição do artigo 59, as decisões judiciárias e a doutrina
dos juristas mais qualificados das diferentes nações, como meio auxiliar para a
determinação das regras de direito.
3. A PRESENTE DISPOSIÇÃO NÃO PREJUDICARÁ A FACULDADE DA CORTE DE DECIDIR
UMA QUESTÃO EX AEQUO ET BONO, SE AS PARTES COM ISSO CONCORDAREM.”
Alguns autores, contudo, acrescentam às fontes mencionadas outras específicas do Direito Internacional do Meio Ambiente15, fruto de atos de órgãos
estabelecidos por alguns tratados e convenções multilaterais16, que se dividem
em dois grupos: órgãos denominados Conferência das Partes, que se reúnem
intermitentemente e são compostos da totalidade das partes contratantes; e órgãos técnicos e científicos, compostos restritivamente pelos Estados-Partes, integrados por peritos e técnicos que emitem normas a serem referendadas pela
Conferência das Partes.
Assim como ocorreu com as obrigações, os mecanismos internacionais de
solução de disputas acerca do meio ambiente evoluíram ao longo dos anos. Recentemente, alguns tratados disponibilizam para as partes contratantes uma gama
extensa de meios para solução pacífica de controvérsias bem como incentivos
à implementação17. A Carta das Nações Unidas, em seu artigo 3318, identifica
os mecanismos tradicionais incluindo negociação, inquérito, mediação, conciliação (meios diplomáticos), arbitragem e solução judicial (meios legais19), além de
mencionar o recurso a entidades ou acordos regionais, ou a qualquer outro meio
pacífico à escolha das partes.
À princípio, a tendência tanto do Direito Internacional Público quanto do
Direito Internacional do Meio Ambiente, era direcionada ao uso de mecanismos
informais e não vinculantes, como a negociação, complementados pelo recurso a
mecanismos mais formais, como conciliação, arbitragem e solução judicial. Mais
recentemente, contudo, tem havido uma mudança direcionada ao desenvolvimen-
15
SOARES, supra nota 1, pp. 169 e 171.
Estes atos são classificados, em sua maioria, como “soft law”, ou seja, disposições genéricas de modo a criar princípios
e não propriamente obrigações jurídicas.
17
A Convenção sobre Mudanças Climáticas de 1992 prevê três mecanismos para amparar a solução de conflitos ou o não
cumprimento de obrigações: um “Órgão Subsidiário para Implementação”, para fornecer assistência na implementação
das obrigações; um processo consultivo multilateral para abordar questões relativas à implementação de uma maneira
não conflituosa; e a resolução dos litígios restantes de maneiras mais tradicionais, por meio de negociação, submissão à
arbitragem ou à CIJ ou conciliação internacional. Veja Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas.
Nova York, 9 maio 1992, em vigor 24 mar. 1994. 31 ILM 849 (1992), arts. 10, 13 e 14. Veja também SANDS, supra nota
1, pp. 200 e 201.
18
A Convenção sobre o Alto Mar de 1958, artigo 9 (1), refere-se especificadamente ao artigo 33 da Carta das nações
Unidas.
19
O caso sobre o Projeto de Gabcikovo-Nagymaros, entre a Hungria e Eslováquia, foi solucionado pela Corte Internacional
de Justiça em 1997. Veja Case Concening Gabcikovo-Nagymaros Project, Hungria/ Eslováquia, Corte Internacional de
Justiça, ICJ Reports (1997).
16
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65
to de novas técnicas para estabelecer mecanismos não contenciosos, contexto no
qual se dá o surgimento dos “non-compliance procedures”.
4. NON-COMPLIANCE PROCEDURES
A emergência dos non-compliance procedures pode ser considerada um dos
mais significativos desenvolvimentos no âmbito do sistema de solução de controvérsias do Direito Internacional Ambiental20. Ocupando uma função que o enquadra entre a conciliação e os meios tradicionais de solução de conflitos, constitui
um mecanismo institucional de controle e supervisão internacional da implementação e cumprimento por parte dos Estados-Partes das obrigações firmadas no
âmbito dos acordos multilaterais sobre meio ambiente21.
Desde os anos 90, um número significativo de tratados passou a estabelecer órgãos subsidiários para lidar com o cumprimento das obrigações bem como os conflitos resultantes do descumprimento das mesmas, de modo que atualmente tais procedimentos de controle no âmbito interno dos tratados se tornaram elementos indispensáveis. Um exemplo pode ser verificado na Declaração Ministerial de Lucerne de 1993,
quando esta urge às partes contratantes de convenções sobre meio ambiente adotarem
os chamados non-compliance procedures tendo em vista que tais mecanismos objetivam evitar complexidades; são não-confrontacionais e transparentes; deixam a competência das decisões para a determinação das partes contratantes; permitem que as
partes contratantes considerem qual assistência técnica e financeira deve ser exigida
no âmbito do acordo específico; e incluem um sistema de informação transparente e
aberto bem como procedimentos conforme o acordo das partes22.
O procedimento em voga pode ser acionado quando alguma das partes contratantes não se mostra mais capaz de cumprir suas obrigações convencionais23.
Contudo, diferentemente do bilateralismo confrontacional característico das soluções judiciais tradicionais, os non-compliance procedures constituem um mecanismo de resolução de conflitos no âmbito interno dos tratados, baseado no
“multilateralismo”, cuja atuação se dá por meio de medidas coletivas tradicionais,
como a persuasão informal e ainda o chamado “poder de embaraço”, implementadas pelas instituições globais que, por sua vez, evitam o recurso a terceiras partes24.
Apresenta-se, portanto, como um mecanismo mais rápido, simples e flexível.
20
SANDS, supra nota 1, pp. 205 e 206.
O controle do cumprimento das obrigações internacionais surgiu antes de ser adotado pelo Direito Internacional Ambiental no seio de tratados multilaterais sobre controle de armas, direitos humanos e relações internacionais de trabalho.
Veja HANDL, G. Compliance Control Mechanisms and International Environmental Obligations. 5 Tul. J. int’l & Comp.
L. 29, [S.l], 29-49, 1997 (HANDL a), p. 30.
22
Declaração dos Ministros de Meio Ambiente da Região da Comissão das Nações Unidas para a Europa (CEE/ONU),
e do membro da Comissão das Comunidades Européias Responsável pelo Meio Ambiente, citada em HANDL, G. Controlling Implementation of and Compliance with International Environmental Commitments: The Rocky Road from Rio.
5 Colo. J. Int’l Envtl. L. & Pol’y 305 [S.l], 305-331, 1994 (HANDL b), p. 327.
23
Protocolo sobre Substâncias que Destroem a Camada de Ozônio. Montreal, 16 set. 1987, em vigor 1 jan. 1989. 26 ILM
154 (1987), art. 8; Protocolo para a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Kyoto, 11 dez.
1997, em vigor 16 fev. 2005. 37 ILM 22 (1998), art. 18.
24
YOSHIDA, O. Soft enforcement of treaties: the Montreal Protocol’s noncompliance procedure and the functions of
internal international institutions. 10 Colo. J. Int’l Envtl. L. & Pol’y 95, [S.l.], 95-141, 1999, p. 99.
21
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Por conseguinte, é notável o número de vantagens oferecidas pelos noncompliance procedures no gerenciamento das relações judiciais que se dão entre
partes de um tratado. Ao invés de impor sanções ou propor soluções para infrações já cometidas, o mecanismo auxilia a parte em iminente violação a cumprir
com sua obrigação perante o tratado, bem como protege a integridade do regime
frente a futuras inadimplências25.
Neste contexto, é importante destacar que, muitas vezes, a violação material
de um acordo pode ser fruto da ausência de capacidade do Estado, estando esta
relacionada à falta de recursos financeiros e/ou técnicos, e não o resultado do
desrespeito negligente ou intencional de suas obrigações26. De tal modo, mesmo
agindo com boa-fé e devida diligência o estado-parte mostra-se inábil a observar
as regras advindas do acordo. Frente a esta situação, os non-compliance procedures trazem uma solução mais apropriada em comparação com os procedimentos
tradicionais na medida em que a instituição encarregada de sua execução pode
oferecer adequada assistência à parte em iminência de violar suas obrigações assumindo um papel preventivo frente às questões ambientais. Observe-se, portanto, que o mecanismo prima pela observância por parte dos Estados contratantes
de suas obrigações perante a convenção, evitando a necessidade de imposição de
obrigações de reparação fruto do inadimplemento das obrigações convencionais.
O papel preventivo exercido pelos non-compliance procedures obedece ao
Princípio da Precaução, consagrado pela Declaração do Rio27 como Princípio 15,
segundo o qual “(...) quando houver perigo de dano grave ou irreversível, a falta
de certeza científica absoluta não deverá ser utilizada como razão para que seja
adiada a adoção de medidas eficazes em função dos custos para impedir a degradação ambiental”. Este, por sua vez, concretiza a máxima “in dúbio pro natura”,
pois evita que uma certa atividade degrade o meio ambiente impedindo que ela se
efetive caso apresente uma mínima incerteza quanto ao seu potencial poluidor.
Por outro lado, os meios tradicionais de solução de controvérsias ambientais internacionais focam não na prevenção do dano, mas sim na reparação do
dano causado à natureza. Desse modo, eles não evitam que o Estado viole suas
obrigações perante o acordo mas priorizam a responsabilização do Estado pela
violação de tais obrigações28 instituindo a obrigação de reparar os danos advindos
do inadimplemento29.
Contudo, a responsabilização do Estado violador do acordo requer o estabelecimento do nexo causal entre o ato ilícito cometido por aquele Estado e o dano
resultante do mesmo30, fato que aponta imensas dificuldades na sistemática do
25
HANDL b, supra nota 22, p. 34.
Ibidem , p. 35.
27
Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, 31 ILM 874, UNCED Doc A/Conf.151/5/Rev.1 (1992).
28
Draft on Responsibility of States for Internationally Wrongful Acts. International Law Commission at the work of its
fifty-third session (2001), art. 1.
29
Ibidem, art 34; Case concerning the Factory at Chorzów, Polônia v. Alemanha, Corte Permanente de Justiça Internacional, Publications of the Permanent Court of International Justice (1928), p. 47.
30
Ibidem, art. 2; Fábrica de Chorzów, supra nota 29, p. 29; Trail Smelter Arbitration, United States v. Canada, 16 abr. 1938,
11 mar. 1941; 3 RIAA 1907 (1941).
26
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meio ambiente, pois que este se apresenta como uma realidade transfronteiriça
envolvendo causas complexas e diversificadas. Além disso, há ainda a dificuldade
em se estabelecer quem é parte legítima para apresentar uma reclamação pela violação de obrigações internacionais. Neste ponto, apenas os sujeitos lesados têm
legitimidade para requerer a responsabilização do Estado autor da violação, mas,
para tanto, devem provar que ocorreu a violação de um ou mais de seus direitos,
não bastando a violação de um mero interesse31.
Por fim, caso os requisitos acima mencionados tenham sido preenchidos resta ainda verificar qual remédio caberia à parte que reclamou a violação de seus
direitos. Segundo artigo 34 do “Draft on Responsibility of States for Internationally Wrongful Acts”, a reparação completa para o dano causado pelo ato ilícito
internacional consiste em restituição, compensação e satisfação, levando em consideração que a referida reparação completa ocorre apenas em casos particulares
quando exigida pelas circunstâncias32. Nesta perspectiva, a restituição requer o
restabelecimento da situação que existia anteriormente ao cometimento do ato
ilícito até o ponto em que este não seja materialmente impossível. Esta solução,
porém, não é de todo adequada, pois acarreta a necessidade de identificação das
condições presentes na situação anterior ao dano, tarefa de extrema dificuldade,
além do fato de normalmente serem os danos ambientais irreversíveis33.
Compensação, por sua vez, levanta o problema de se calcular o valor do dano
ambiental na medida em que consiste no pagamento dos danos financeiramente
avaliados. Neste contexto, o dano ao meio ambiente é impossível de ser calculado
em termos econômicos pelo simples fato de possuir um valor claramente não-econômico34, o que torna esta alternativa também inviável para as questões ambientais. Por último temos a satisfação. Quanto a esta alternativa não restam dúvidas
da sua inadequação ao contexto das violações ao meio ambiente na medida em
que consiste no simples reconhecimento destas ou numa desculpa formal35.
Pelo exposto, podemos concluir que as regras no Direito Internacional relativas à reparação de danos ambientais apresentam-se ainda subdesenvolvidas e, por
tanto, inadequadas à proteção ambiental que se faz necessária. Por outro lado, no
regime do non-compliance procedure, todas estas questões podem ser afastadas
tendo em vista que o mecanismo, como mencionado anteriormente, atua no sentido de evitar que as violações ao meio ambiente ocorram, numa atitude louvável
de prevenção e claramente em consonância com os valores e princípios do Direito
Ambiental.
Insta esclarecer que o recurso aos non-compliance porcedures não impede
a atuação dos mecanismos tradicionais de solução de controvérsias, com relação
aos quais exerce uma função complementar. Em decorrência desta capacidade,
configura-se como um mecanismo indispensável à reivindicação dos interesses
31
32
33
34
35
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SOARES, supra nota 1, pp. 728 e 729.
Draft on Responsibility of States for Internationally Wrongful Acts, supra nota 28, art. 34.
SANDS, supra nota 1, pp. 883-885.
Ibidem.
Draft on Responsibility of States for Internationally Wrongful Acts, supra nota 28, art. 37.
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coletivos dos Estados-Partes, tendo em vista que o procedimento pode ser informalmente invocado - afastando os requisitos acima descritos - sendo razoavelmente transparente e aberto36.
Atualmente, frente à necessidade de se implementar procedimentos internos
de controle de cumprimento das obrigações advindas dos acordos bem como à
pertinência e razoável adequação dos mecanismos estudados até o momento, os
mais recentes acordos multilaterais sobre meio ambiente têm criado procedimentos internos de cumprimento das obrigações, administrados por um mecanismo
institucional especial. O primeiro a estabelecer o non-compliance procedure foi o
Protocolo de Montreal, vindo a ser usado como modelo para vários outros instrumentos internacionais37.
A partir deste ponto faremos uma breve abordagem acerca do funcionamento do referido procedimento no Protocolo de Montreal, e em seguida abordaremos
sucintamente o Caso da Rússia no qual o procedimento foi acionado.
5. NON-COMPLIANCE PROCEDURE NO PROTOCOLO DE MONTREAL
5.1 As Negociações do Non-compliance Procedure no Protocolo de Montreal
As preocupações mundiais acerca das emissões de gases que destroem a
camada de ozônio levaram à adoção, em 1987, do Protocolo de Montreal sobre
Substâncias que Destroem a Camada de Ozônio38 (Protocolo de Montreal). Os
negociadores do Protocolo, todavia, não conseguiram completar o non-compliance procedure ao tempo de sua adoção39. Assim, foi estabelecido no Artigo
8 do Protocolo40:
“As Partes, durante sua primeira reunião, devem considerar e aprovar procedimentos e mecanismos institucionais para determinar casos de não-cumprimento das determinações deste Protocolo e para lidar com Partes em falta”.
As preparações do non-compliance procedure em vigor no Protocolo de
Montreal foram graduais e se estenderam durante vários anos. Em 1989, na
Reunião de Helsinki41, foi estabelecido um Grupo de Trabalho ad hoc (Ad Hoc
Working Group of Legal Experts) composto de peritos jurídicos para avaliar diferentes propostas de non-compliance procedures submetidas por Estados Unidos,
36
HANDL b, supra nota 22, p. 37.
Dentre estes destacamos o Protocolo de Enxofre de Oslo de 1994 e o Protocolo de Kyoto de 1997. Veja YOSHIDA, O,
supra nota 24, p.97.
38
Protocolo de Montreal, supra nota 23.
39
YOSHIDA, O, supra nota 24, p. 101.
40
Protocolo de Montreal, supra nota 23, art. 8.
41
A reunião realizada em Helsink, entre 2 e 5 de maio de 1989, consistiu na Primeira Reunião das Partes do Protocolo de
Montreal. A alínea a da Decisão 8 estabelece um Grupo de Trabalho ad hoc para desenvolver propostas acerca de procedimentos e mecanismos institucionais sobre questões de não-cumprimento das disposições do Protocolo e do tratamento
das partes que incorrerem em inadimplência, a serem aprovadas pelas partes em sua Segunda Reunião. Veja Report of the
Parties to the Montreal Protocol on the Work of their First Meeting, 1989, Helsink/ U.N. Environment Programme, U.N.
Doc. UNEP/OzL.Pro.1/5. Disponível em: http://www.unep.ch/ozone/1mop_hki.shtml. Acesso em 1 abr. 08.
37
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Holanda e Austrália. Após extensas discussões, o grupo acordou sobre as principais características do regime de descumprimento das disposições do Protocolo42,
dentre elas destacamos:
a) o procedimento não deve ser confrontacional;
b) indicações precoces sobre a possibilidade de descumprimento devem ser
resolvidas através de ação administrativa pelo Secretariado e através de negociações diplomáticas entre as Partes;
c) decisões sobre o descumprimento devem ser recomendações, ao invés de
comandos obrigatórios.
Entre as discussões mais relevantes do Grupo ad hoc estão aquelas que estabeleceram os principais atores de execução do non-compliance procedure. Foi
acordado que deveria ser criado um órgão internacional de supervisão denominado
Comitê de Implementação43 (Implementation Committe). Atendendo à demanda
de muitas delegações sobre o fato de não ter o Comitê de Implementação uma função judicial, o Grupo ad hoc determinou que qualquer decisão que versasse sobre
o descumprimento das disposições do Protocolo seria feita pela entidade suprema
do regime, a Reunião das Partes44 (Meeting of the Parties). Por fim, o Grupo ad
hoc aprovou um Projeto sobre Noncompliance Procedures (Draft Noncompliance
Procedure) que especifica as funções básicas do Secretariado do Programa das
Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP Ozone Secretariat) bem como as
funções referentes aos outros dois órgãos já mencionados. A reunião de Londres
de 199045 adotou o Projeto numa base provisória e estabeleceu seu mecanismo
institucional, o comitê de Implementação com caráter permanente46.
Quanto à Segunda Reunião do Grupo de Trabalho ad hoc47, insta destacar
que muitos dos especialistas ali presentes argumentaram que os procedimentos
de solução de controvérsias sob a Convenção de Viena para Proteção da Camada
de Ozônio48 (Convenção de Viena) e o non-compliance procedure sob o Protocolo de Montreal seriam dois procedimentos distintos e separados que poderiam
perfeitamente existir paralelamente49. Do mesmo modo foi afirmado na Reunião
42
As demais características do regime podem ser encontradas em YOSHIDA, O, supra nota 24, pp. 102 e 103. Veja também Report of the First Meeting of the Ad Hoc Working Group of Legal Experts on Non-Compliance with the Montreal
Protocol, U.N. Environment Programme, U.N. Doc. UNEP/OzL.Pro.LG.1/3 (1989), para. 9.
43
Report of the First Meeting of the Ad Hoc Working Group of Legal Experts on Non-Compliance with the Montreal
Protocol, supra nota 41, para. 10.
44
Ibidem, paras. 11 e 17.
45
A reunião realizada em Londres, entre 27 e 29 de junho de 1990, consistiu na segunda Reunião das Partes do Protocolo
de Montreal. Veja Report of the Second Meeting of the Parties to the Montreal Protocol on Substances that Deplete the
Ozone Layer, 1990, London/ U.N. Environment Programme, U.N. Doc. UNEP/OzL.Pro.2/3, Decision II/5 & Annex III.
Disponível em: http://www.unep.ch/ozone/2mlonfin.htm. Acesso em 2 abr. 08.
46
TRASK, J, Montreal Protocol Noncompliance Procedure: The Best Approach to Resolving International Environmental
Disputes? 80 Geo. L.J. 1973, 1973-2001, 1992, p. 1979; SANDS, supra nota 1, pp. 203-205; YOSHIDA, O, supra nota
24, p. 103.
47
Report on the Second Meeting of the Ad Hoc Working Group of Legal Experts on Non-Compliance with the Montreal
Protocol, U.N. Environment Programme, U.N. Doc. UNEP/OzL.Pro/WG.3/2/3 (1991), para. 18.
48
Convenção para a Proteção da Camada de Ozônio. Viena, 22 mar. 1985, em vigor 22 set. 1988. 26 ILM 1529 (1985),
art. 11.
49
YOSHIDA, O, supra nota 24, p. 103.
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das Partes em Nairobi50, em 1991, em sua Decisão III/2; tendo sido declarado na
Reunião de Copenhagen de 199251 que a responsabilidade sobre a interpretação
jurídica do Protocolo restaria unicamente às partes. Assim, a Reunião das Partes
pode instituir recomendações a uma Parte, mesmo se esta houver acionado algum
procedimento disposto no artigo 11 da Convenção de Viena, enquanto estiver pendente a conclusão do mesmo52.
Por fim, o Projeto final sobre o non-compliance procedure no Protocolo
de Montreal, estabelecido na Terceira Reunião do Grupo de Trabalho ad hoc,
foi adotado na Reunião de Copenhagen de 1992 na forma de anexos ao Protocolo53.
Insta notar que o regime do non-compliance procedure no Protocolo de
Montreal gradualmente estabeleceu uma ligação estreita com mecanismos financeiros internacionais como o Fundo Multilateral do Protocolo de Montreal
(MLF)54 e o Global Environmental Facility (GEF). Estes mecanismos reforçam
a chamada execução branda (soft-enforcement) do regime de normas ambientais
internacionais, fornecendo incentivos financeiros para o cumprimento bem como
conseqüências financeiras para o descumprimento55.
5.2 “Non-compliance” no Protocolo de Montreal
O termo “compliance”, em geral, enseja um estado de conformidade com
certo regime normativo. Perante o Protocolo, o termo indica que os Estados membros do regime são induzidos a cumprir suas disposições, em vez de coagidos a
fazê-lo56. De acordo com a Lista Indicativa de Possíveis Situações de Descumprimento do Protocolo, produzida pelo Grupo de Trabalho ad hoc57, o non-compliance procedure pode ser acionado quando houver o descumprimento de algumas das
seguintes obrigações presentes naquele: adotar medidas de controle de substâncias que destroem a camada de ozônio (substâncias controladas), prevista no art.
2, 2A – 2H; restringir o comércio de substâncias controladas com Estados que não
sejam Partes do Protocolo, prevista no artigo 4; cumprir o prazo para transmissão de informações referentes à produção, importação e exportação de cada uma
50
A reunião realizada em Nairobi, entre 19 e 21 de junho 1991, consistiu na Terceira Reunião das Partes do Protocolo de
Montreal. Veja Report of the Third Meeting of the Parties to the Montreal Protocol on Substances that Deplete the Ozone
Layer, 1991, Nairobi. U.N. Environmental Programme, U.N. Doc. UNEP/OzL.Pro.3/11, Decision III/2. Disponível em:
http://ozone.unep.org/Publications/MP_Handbook/Section_2_Decisions/Third_MOP.shtml. Acesso em 3 abr. 08.
51
A reunião realizada em Copenhagen, entre 23 e 25 de novembro de 1992, consistiu na Quarta Reunião das Partes do
Protocolo de Montreal. Veja Report of the Fourth Meeting of the Parties to the Montreal Protocol on Substances that Deplete the Ozone Layer, 1992, Copenhagen. U.N. Environment Programme, U.N. Doc. UNEP/OzL.Pro.4/15, Decision IV/5.
Disponível em: http://www.unep.ch/ozone/4mop_cph.shtml. Acesso em 3 abr. 08.
52
Ibidem, Annex IV (13).
53
Ibidem, Decision IV/5, annexes IV and V.
54
Montreal Second Report, supra note 45, Annex IV.
55
YOSHIDA, O, supra nota 24, p. 100.
56
YOSHIDA, O, supra nota 24, p. 104.
57
Draft Indicative List of Possible Situations of Non-Compliance with the Protocol. Report of the Second Meeting of the
Ad Hoc Working Group of Legal Experts on Non-Compliance with the Montreal Protocol, U.N. Environment Programme,
U.N. Doc. UNEP/OzL.Pro/WG.3/3/3 (1992), Annex II.
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das substâncias controladas, prevista no artigo 7; e transmitir informações sobre
as medidas destinadas à cooperação com outras Partes do Protocolo, prevista no
artigo 9.
5.3 OS PRINCIPAIS ATORES DO NON-COMPLIANCE PROCEDURE
Conforme já mencionado, os principais atores no regime de non-compliance
procedure do Protocolo de Montreal são as três instituições especializadas: a Reunião das Partes, o Comitê de Implementação e o Secretariado do Programa das
Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).
O non-compliance procedure pode ser acionado, independentemente do
nexo de causalidade ou de plena certeza científica58, por qualquer das Partes do
Protocolo contra outra; pela própria Parte que descumpriu ou está na iminência de
descumprir as normas do Protocolo; ou pelo Secretariado. A exaustão dos recursos internos não é condição prévia para se iniciar o procedimento, característica
que faz dele um mecanismo processual efetivo na aplicação das obrigações internacionais erga omnes59, neste caso, a proteção da camada de ozônio.
5.3.1 O Secretariado do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente
O Secretariado do PNUMA poderá acionar o non-compliance procedure em
três situações distintas. No caso de uma Parte elaborar relatórios a respeito do
comportamento de uma outra Parte perante suas obrigações contratuais, o Secretariado, ao receber tais relatórios, deverá enviar uma cópia à parte cuja observância está sendo questionada e transmitir os relatórios submetidos pelas partes ao
Comitê de Implementação60. Insta destacar que tais relatórios apresentados devem
estar apoiados em informações que corroborem o conteúdo dos mesmos61.
Pode ocorrer, contudo, de uma Parte, mesmo investindo todos os seus esforços e agindo de boa-fé, não conseguir cumprir por completo com as suas obrigações perante o Protocolo. Neste caso, ela deverá submeter ao Secretariado uma
explicação escrita contendo as circunstâncias específicas que a levaram ao descumprimento de determinada disposição normativa. Do mesmo modo, esta apresentação deverá ser transmitida ao Comitê de Implementação que deverá analisála assim que possível62.
Finalmente, o próprio Secretariado pode iniciar o procedimento quando notar, durante a preparação de seus relatórios, a possibilidade de descumprimento
58
Ao mesmo tempo em que o mecanismo implementa o Princípio da Precaução ao prescindir de plena certeza científica
para ser acionado, ele também se destaca frente aos tradicionais mecanismos de solução de controvérsias que, por sua vez,
exigem a comprovação do nexo de causalidade entre o ato ilícito e o dano ambiental. Veja YOSHIDA, O, supra nota 24,
p. 110.
59
Obrigações internacionais erga omnes são definidas como obrigações oponíveis e válidas contra todos. Veja YOSHIDA,
O, supra nota 24, p. 98.
60
Montreal Fourth Report, supra note 51, Annex IV(1),(2).
61
YOSHIDA, O, supra nota 24, p. 112.
62
Montreal Fourth Report, supra note 51, Annex IV(4).
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por uma das Partes. Neste caso, ele poderá requerer à Parte que preste informações necessárias acerca do possível descumprimento. Caso o problema não seja
resolvido por ação administrativa ou pela negociação diplomática, o Secretariado
poderá incluir a questão em seu relatório a ser apresentado à Reunião das Partes
bem como informar o Comitê de Implementação63. Neste ponto, vale notar que
este é o primeiro caso em que o Secretariado de um Acordo Multilateral de Meio
Ambiente recebeu poderes suficientes para invocar um procedimento formal de
solução de disputas64.
5.3.2 O Comitê de Implementação
O Comitê de Implementação é formado por 10 representantes de EstadosPartes eleitos pela Reunião das Partes para um mandato de dois anos. A composição do Comitê respeita o princípio da distribuição geográfica eqüitativa que
visa o equilíbrio político ao lidar com questões que envolvem interesses de toda a
comunidade internacional.
Com o propósito de “assegurar uma solução amigável para as disputas, baseada no respeito às disposições do Protocolo”65, o Comitê de Implementação
exerce 4 papéis de extrema relevância. Em primeiro lugar, ele recebe e analisa
os relatórios enviados pelo Secretariado do PNUMA acerca do comportamento
de uma Parte frente às suas obrigações contratuais, à respeito de qualquer informação ou observação quanto ao cumprimento das normas do Protocolo ou
quanto à produção e comércio de substâncias controladas recebidas e enviadas
pelo Secretariado do PNUMA, e ainda sobre qualquer submissão relevante66. Ao
analisar os relatórios, o Comitê deve determinar as razões específicas subjacentes
ao descumprimento para que possa fazer recomendações apropriadas. Em caso
de necessidade, ele pode ainda requerer maiores informações ao Secretariado do
PNUMA67.
Num segundo momento, o Comitê de Implementação deve submeter relatórios incluindo qualquer recomendação sobre casos individuais de descumprimento
à Reunião das Partes68. Além disso, o comitê pode também fazer recomendações
onde e quando considerá-las apropriadas, mesmo que as Partes envolvidas não
possam participar do processo decisório69, desde que observadas as regras de procedimento adotadas na Reunião de Helsink70. Ainda que tais recomendações não
apresentem caráter jurídico obrigatório, elas carregam o chamado “peso político”
e, em muitos casos, são rigorosamente seguidas71.
63
64
65
66
67
68
69
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71
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Ibidem, Annex IV(3).
YOSHIDA, O, supra nota 24, p. 113.
Montreal Fourth Report, supra note 51, Annex IV(8).
Ibidem, Annex IV(7).
Ibidem, Annex IV(7)(c).
Ibidem, Annexes IV(7e), IV(8); Veja também HANDL b, supra nota 22, pp. 327 e 328.
Ibidem, Annex IV(9).
Montreal First Report, supra nota 41, Annex I(26)(6).
YOSHIDA, O, supra nota 24, p. 116.
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Teses de Estudantes de Graduação/ Papers of Law School Students
73
Em terceiro lugar, o Comitê de Implementação pode arrecadar informações
no território nacional de uma das Partes, com o seu consentimento. Esta é um tipo
de verificação denominada “on-the-spot investigation”72.
Por último, tendo em vista que a assistência financeira e técnica, em regra,
está intimamente ligada à capacidade da Parte de cumprir com suas obrigações, o
Comitê de Implementação, então, irá trocar informações com o Comitê Executivo
do Fundo Multilateral para a determinação da assistência73.
5.3.3 A Reunião das Partes
A Reunião das Partes é a última instância decisória no regime do non-compliance procedure no Protocolo de Montreal. Na condição de instituição suprema
do regime, A Reunião das Partes detém controle direto sobre as disputas entre
Estados-membros74.
Ao receber os relatórios enviados pelo Comitê de Implementação, a Reunião
das Partes deverá analisar as circunstâncias do caso, decidir e requerer a tomada
de medidas para trazer o pleno cumprimento do Protocolo, além de incluir medidas direcionadas para auxiliar as Partes no cumprimento de suas obrigações
efetivando os objetivos do Protocolo75. Durante a Reunião de Copenhagen, foi
estabelecida uma Lista Indicativa de Medidas a serem tomadas pela Reunião das
Partes nos casos de descumprimento do Protocolo76:
a) Assistência apropriada, incluindo assistência para a coleta e envio de dados, assistência técnica, transferência de tecnologia e assistência financeira, transferência de informação e treinamento;
b) Emissão de advertência;
c) Suspensão, em conformidade com as normas aplicáveis do direito internacional relativas à suspensão da execução de um tratado, de determinados direitos e privilégios no âmbito do Protocolo.
As decisões emanadas da Reunião das Partes normalmente estipulam que as
Partes devem tomar medidas complementares necessárias para alcançar os propósitos do regime regulamentar de cooperação, mas muitas vezes apenas reiteram
obrigações já previstas nos artigos do tratado. Em decorrência de seu compromisso político com o regime internacional de proteção ao meio ambiente, suas decisões normalmente são vagas e abertas a uma variedade de interpretações77. Como
resultado, o status jurídico de tais decisões resta incerto, sendo questionado se o
descumprimento das mesmas pode ser considerado descumprimento do Protocolo
em si. Neste ponto é importante destacar que os poderes implícitos desta instituição não são bem definidos pelo costume tampouco pelo Direito Internacional
72
73
74
75
76
77
Book.indb 73
Montreal Fourth Report, supra note 51, Annex IV(7-d).
Ibidem, Annex IV(7)(e).
YOSHIDA, O, supra nota 24, p. 117.
Montreal Fourth Report, supra note 51, Annex IV(9).
Ibidem, Annex V.
YOSHIDA, O, supra nota 24, p. 118.
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74
12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
Público, mas se baseiam principalmente no Protocolo de Montreal na condição de
um tratado criador de normas.
Não é correto afirmar, contudo, que instrumentos jurídicos não-obrigatórios
não produzem efeitos legais. Muitas decisões demonstram evidências da existência de consenso entre os atores do regime e têm formado certas normas jurídicas
capazes de criar um direito internacional costumeiro aplicável ao sistema jurídico
internacional do regime do non-compliance procedure no Protocolo de Montreal. Ao mesmo tempo, muitas decisões fornecem indicadores essenciais para uma
compreensão adequada do regime.
Por todo o exposto, nota-se que as soluções multilaterais apresentadas pelo
non-compliance procedure fazem dele um mecanismo apropriado para solucionar
conflitos no âmbito dos acordos multilaterais de proteção ao meio ambiente, tendo em vista o caráter também multilateral destas disputas. A despeito de ser um
mecanismo ainda pouco utilizado, muito provavelmente pela falta de especialistas
neste tipo de procedimento, trata-se de um mecanismo adequado às preocupações
ambientais internacionais, o que é claramente percebido quando observamos a
efetivação dos princípios da prevenção e da precaução, ao contrário do que ocorre nos procedimentos tradicionais de solução de controvérsias ambientais. Para
finalizar nossa explanação acerca do non-compliance procedure no Protocolo de
Montreal faremos breves considerações sobre o caso da Rússia, no qual o mecanismo foi aplicado.
6. O CASO DA RÚSSIA
Em maio de 1995, a Rússia78 submeteu ao Grupo de Trabalho ad hoc uma
declaração conjunta em seu nome e em nome de Bielorrússia, Bulgária, Polônia e
Ucrânia, argumentando que não seria possível cessar completamente a produção e
o consumo das substâncias controladas pelo Protocolo de Montreal até janeiro de
1996 devido, principalmente, à difícil situação econômica enfrentada pelo grupo
de países com economia de transição79.
Na realidade, a Rússia, à princípio, não tinha a intenção de invocar o mecanismo do novo regime de non-compliance procedure do Protocolo de Montreal.
Sua intenção original era conseguir um prazo de 5 anos diretamente da Reunião
das Partes. O pedido foi então enviado ao Comitê de Implementação que considerou a declaração da Rússia como uma submissão referente ao parágrafo (4)
do regime de non-compliance procedure80. Tendo em vista que a Rússia não se
preocupou em desmentir esta interpretação plausível, como resultado, o Comitê
de Implementação viu-se frente à sua primeira oportunidade de solucionar pro-
78
A Rússia é um dos maiores produtores e consumidores mundiais de substâncias que destroem a camada de ozônio, além
de ser o único produtor destas substâncias em sua região. Veja YOSHIDA, O, supra nota 24, p. 134.
79
Report of the Tenth Meeting of the Parties to the Montreal Protocol on Substances that Deplete the Ozone Layer, U.N.
Environment Programme, U.N. Doc. UNEP/OzL.Pro.10/4 (1998), para. 31. Veja também YOSHIDA, O, supra nota 24, p.
135.
80
Montreal Fourth Report, supra note 51, Annex IV(4).
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75
blemas de descumprimento no âmbito do regime de non-compliance procedure
do Protocolo81.
O Comitê de Implementação, então, requereu à Rússia providenciar informações complementares, incluindo dados de produção e consumo de substâncias
que destroem a camada de ozônio e um plano de cumprimento a serem utilizados
no desenvolvimento de suas recomendações82. Estas, por sua vez, foram levadas à
reunião das Partes de 1995 sem o acordo da Rússia83.
Após extensas discussões e frente às objeções da Rússia, a Reunião das Partes adotou a Decisão VII/18 que requereu não apenas o relatório de dados, mas
também informações acerca do planejamento de ações para evitar reexportações
de substâncias controladas da Comunidade de Estados Independentes (CEI) para
qualquer das Partes do Protocolo84.
Contudo, o representante da Rússia, que considerou tais ações medidas discriminatórias e sanções contra uma Parte do Protocolo, fortemente contestou o
parágrafo que versa sobre as restrições futuras no comércio de substâncias controladas85, denotando a persistência do país no descumprimento de suas obrigações.
Este exemplo do non-compliance procedure em ação ilustra perfeitamente
que um conflito de opinião defendido por apenas uma Parte pode eventualmente
ter que ser conciliado com os objetivos do regime. Assim, este caso delineia o lado
coletivo do regime de non-compliance procedure no Protocolo de Montreal86.
7. CONCLUSÕES ARTICULADAS
7.1 O surgimento do Direito Internacional Ambiental demonstra que os efeitos extremamente danosos da atividade humana na natureza acarretaram a necessidade
de se recorrer ao Direito Internacional para se efetivar a urgente proteção ao meio
ambiente global.
7.2 A evolução das obrigações no Direito Internacional do Meio Ambiente denota
o surgimento de um novo conteúdo normativo cujo objetivo é levar os Estados a
comportamentos cooperativos que de fato efetivem a tão almejada tutela do meio
ambiente. Do mesmo modo, quanto aos meios para solução de controvérsias ambientais, novas técnicas vêm sendo desenvolvidas em uma preocupação cada vez
mais direcionada à prevenção de danos à natureza.
7.3 O non-compliance procedure é um mecanismo especial destinado à supervisão e ao controle de obrigações convencionais cujo objetivo maior é evitar que
81
YOSHIDA, O, supra nota 24, p. 135.
Montreal Tenth Report, supra nota 79, para 32.
83
Report of the Seventh Meeting of the Parties to the Montreal Protocol on Substances that Deplete the Ozone Layer, U.N.
Environment Programme, 1995, Vienna. U.N. Doc. UNEP/OzL.Pro.7/12, para. 44. Disponível em http://www.unep.ch/
ozone/7mpviefn.shtml. Acesso em 4 abr. 08.
84
Ibidem, para. 129.
85
Ibidem, paras.123-34.
86
Para uma discussão mais profunda sobre o tema veja YOSHIDA, O, supra nota 24, pp. 135-139.
82
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76
12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
danos graves e irreversíveis ocorram ao meio ambiente como conseqüência de
uma falha no cumprimento destas obrigações.
7.4 Não obstante a falta de êxito do non-compliance procedure estabelecido pelo
Protocolo de Montreal no caso específico da Rússia, trata-se de um mecanismo
adequado às peculiaridades inerentes ao descumprimento das obrigações estabelecidas no Protocolo em virtude de seu caráter multilateral que, todavia, requer
a atuação de um número maior de especialistas para alcançar excelência na sua
efetivação.
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RESPONSABILIDADE CIVIL AMBIENTAL:
ALTERNATIVAS A REPARAÇÃO DO DANO
CAUSADO AO CLIMA
LADILSON COSTA MOITA
Estudante de Graduação em Direito da Universidade Federal do
Amapá – UNIFAP; Bacharel e Licenciado em Geografia – UNIFAP;
Serventuário do Tribunal de Justiça do Estado do Amapá – TJAP
1. INTRODUÇÃO
O relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, sobre o
estado do Meio Ambiente, publicado em 2002, nos Estados Unidos e Inglaterra,
em 2004 no Brasil pelo IBAMA, com o título: Perspectivas do Meio Ambiente
Mundial (GEO-3): Passado, Presente e Futuro1, discorre sobre as perspectivas
para os próximos trinta anos, (denominado doravante somente de GEO-3), afirma
que “a mudança climática é uma das questões ambientais mais importantes e
complexas surgidas nos últimos trinta anos”.
A ausência de políticas eficazes para reduzir as emissões de dióxido de
carbono (CO2) e de outros gases de efeito estufa, assim como a lenta transferência
de tecnologia, levará a um aumento significativo das emissões de CO2 nos
próximos trinta anos, e, por conseqüência, o aquecimento global. Contatamos
ainda, fortes vínculos entre as mudanças climáticas e outras questões ambientais,
tais como a poluição do ar local e regional, o desmatamento, as queimadas, entre
outros danos ambientais locais, com as suas conseqüências globais, levando-nos a
uma reflexão sobre as possibilidades de se estabelecer novas formas de reparação
do dano causado ao meio ambiente.
A questão a ser levantada é saber se é possível, ou se existem alternativas
que possam ser implementadas com o intuito de reduzir as emissões, ou de reparar
os danos causados ao meio ambiente por essas emissões, que levam aos aumentos
na temperatura global, causando mudanças climáticas.
Nesse contexto, faremos preliminarmente uma abordagem sobre a
evolução da responsabilidade civil ambiental, bem como sobre a concepção de
dano ambiental e a sua reparação, para depois apontarmos algumas sugestões
alternativas à reparação do dano ambiental que podem ser objeto de projetos de
lei federais, estaduais e municipais, bem como objeto de Tratados e Convenções
Internacionais.
1
Book.indb 77
Perspectivas do Meio Ambiente Mundial (GEO-3): Passado, Presente e Futuro, Brasília: IBAMA, 2004.
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78
12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
2. A EVOLUÇÃO DA RESPONSABILIDADE CIVIL AMBIENTAL
O vocábulo responsabilidade forma-se de responsável, de responder, do
latim respondere, tomado na significação de responsabilizar-se, vir garantindo,
assegurar, assumir o ato que praticou. A responsabilidade civil, segundo Silva2,
é a expressão usada na linguagem jurídica, em distinção à responsabilidade
criminal ou penal. Designa a obrigação de reparar o dano ou de ressarcir o dano,
quando injustamente causado a outrem. É a que se apura para que se possa exigir
a reparação civil, que é a pena imposta ao agente ou responsável pelo ato ilícito.
Carlos Roberto Gonçalves3 leciona que a responsabilidade civil se assenta,
segundo a teoria clássica em três pressupostos: um dano, a culpa do autor do dano
e relação de causalidade entre o fato culposo e mesmo dano.
Antes de discorrermos sobre a responsabilidade civil ambiental propriamente
dita, para sua compreensão é necessário entendermos o processo histórico de sua
evolução no tempo.
No inicio da História da Civilização Humana, não se cogitava do fator culpa.
A responsabilidade era objetiva, apresentando-se apenas como uma reação do
lesado contra a causa aparente do dano, pois o dano causava a reação imediata,
instintiva e brutal do ofendido. Não havia regras nem limitações. Não imperava
ainda, o direito. Dominava então a vingança privada, em que os homens faziam
justiça pelas próprias mãos, sob a égide da Lei de Talião, da reparação do mal
pelo mal.
Para coibir os abusos, o Poder Público apenas intervinha para declarar
quando e como a vítima poderia ter o direito de retaliação, produzindo na pessoa
do lesante dano idêntico ao que realizou.
Logo depois, surge a composição voluntária, ante a observância do fato de
que seria mais conveniente entrar em composição com o autor da ofensa para que
ele reparasse o dano mediante uma prestação, a critério da autoridade pública, se
o delito fosse público, e do lesado, se fosse o caso de delito privado.
Gonçalves destaca que em um estágio mais avançado, quando já existe uma
soberana autoridade, o legislador veda a vítima fazer justiça com as próprias
mãos. Surge então a composição obrigatória, tarifada, quando o ofensor paga
um tanto ou quanto por membro roto, por morte de um homem livre ou de um
escravo, surgindo por conseqüência, as mais esdrúxulas tarifações.
O autor enfatiza que a diferenciação entre “pena” e a “reparação”, entretanto,
somente começou a ser esboçada ao tempo dos romanos, com a distinção entre
delitos públicos e privados.
Finalmente, na Lei Aquília se esboça um princípio geral regulador da
reparação do dano. A Lex Aquilia no damnum injuria datun, consiste no elemento
caracterizador da culpa como fundamento da responsabilidade, cristalizando a
2
SILVA, De Plácido e. Vocabulário Jurídico - Atualizadores: Nagib Slaibi Filho e Gláucia Carvalho. 26. ed. Rio de Janeiro:
Editora Forense, 2005. p. 1222-1223.
3
GONÇALVES, Carlos Roberto. Responsabilidade Civil. 9. ed. rev. de acordo com o novo Código Civil (Lei n. 10.406,
de 10-1-2002). – São Paulo: Saraiva, 2005. p. 4.
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Teses de Estudantes de Graduação/ Papers of Law School Students
79
idéia de reparação pecuniária do dano, impondo ao patrimônio de quem provocou
a lesão, o ônus da reparação, em razão do valor da res, de tal forma que o agente se
isentaria de qualquer responsabilidade caso agisse sem culpa. Passou-se a atribuir
o dano à conduta culposa do agente. Esta mesma lei estabeleceu as bases da
responsabilidade extracontratual, criando uma forma pecuniária de indenização
do prejuízo, com base no estabelecimento de seu valor.
Nesse contexto, o Estado passa a intervir nos conflitos privados, fixando o
valor dos prejuízos, obrigando a vítima a aceitar a composição, renunciando à
vingança.
O Código de Napoleão inseriu a noção de culpa in abstrato e a distinção entre
culpa delitual e culpa contratual em seus dispositivos, o que serviu de influência
para inserção da responsabilidade civil funda na culpa, na legislação de todo o
mundo.
O desenvolvimento industrial, o surto de progresso, e a multiplicação dos
danos acabaram por propiciar o surgimento de novas teorias, tendentes a possibilitar
maior proteção às vítimas. Sendo que nos últimos tempos vem ganhando terreno
a chamada teoria do risco que, sem substituir a teoria da culpa, cobre muitas
hipóteses em que o apelo as concepções tradicionais se revela insuficiente para a
proteção da vítima.
Na teoria do risco, segundo Gonçalves4, se subsume a idéia do exercício
de atividade perigosa como fundamento da responsabilidade civil. Já a
responsabilidade objetiva funda-se num princípio de eqüidade, existente desde
o direito romano: aquele que lucra com uma situação deve responder pelo
risco ou pelas desvantagens dela resultante. No direito moderno, a teoria da
responsabilidade objetiva apresenta-se sob duas faces: a teoria do risco e a teoria
do dano objetivo.
No campo do Direito Ambiental, Édis Milaré5 aponta que em virtude da
necessidade de se buscar instrumentos legais mais eficazes, aptos a sanar a
insuficiência das regras clássicas de responsabilidade contida na legislação civil,
frente a novidade da abordagem jurídica do dano ambiental, surge a Lei n. 6.938,
de 31.08.81, instituidora da Política Nacional do Meio Ambiente, com o intuito de
dar adequado tratamento à matéria, substituindo o princípio da responsabilidade
subjetiva, fundamentado na culpa, pelo da responsabilidade objetiva fundamentado
no risco da atividade.
Conforme assevera o disposto no artigo 14, § 1º da Lei n. 6.938/81:
Art. 14.
§ 1º. Sem obstar a aplicação das penalidades previstas neste artigo, é
o poluidor obrigado, independentemente de existência de culpa, a indenizar
ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros, afetados por sua
atividade.
4
GONÇALVES, Carlos Roberto. Responsabilidade Civil. 9. ed. rev. de acordo com o novo Código Civil (Lei n. 10.406,
de 10-1-2002). – São Paulo: Saraiva, 2005. p. 7.
5
MILARÉ, Édis. Direito do Ambiente: doutrina, jurisprudência, glossário. 5. ed. ref., atual. e ampl., São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais, 2007, p. 896.
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80
12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
Portanto, temos estabelecido o princípio da responsabilidade objetiva do
poluidor, em virtude da dificuldade, senão da impossibilidade, de enquadrar o ato
de poluir no âmbito da culpa civil.
Milaré discorre que a Constituição Federal de 1988, constitucionalizou
a responsabilidade civil objetiva do poluidor, bem como a responsabilidade
do Estado em matéria ambiental, fortalecendo e materializando o princípio do
poluidor-pagador, fazendo recair sobre o autor do dano o ônus decorrente dos
custos sociais de sua atividade.
Para tornar efetiva a responsabilização, segundo a ótica objetivista nas
palavras de Édis Milaré, basta a prova da ocorrência do dano e do vínculo causal
deste com o desenvolvimento de uma atividade humana.
Podemos citar, como exemplo, nesse caso, o lixo doméstico produzido nas
residências dos centros urbanos, a prova material da ocorrência de dano ambiental é a
coleta do lixo nas residências, com o seu conseqüente depósito em aterros sanitários,
quando não depositados em “lixões” para queima a céu aberto, causando a emissão
de gases na atmosfera, como o dióxido de carbono (CO2) e outros gases de efeito
estufa. Outro exemplo, é a emissão de gases pelo sistema de escapamento dos veículos
automotores (carros, motos, etc), o causador é aquele que coloca o veículo em
funcionamento, aquele que o conduz, pois ao funcionar o motor, injeta na atmosfera
uma certa quantidade, tida como aceitável, de dióxido de carbono (CO2).
Como vimos para se pleitear a reparação há necessidade da demonstração
do nexo causal entre a conduta e a lesão ao meio ambiente. Assim, para haver a
responsabilização imprescindível ação ou omissão, evento danoso e relação de
causalidade. Não importa se determinado ato tenha sido devidamente autorizado por
autoridade competente ou que esteja de acordo com normas de segurança exigidas,
ou que as medidas de precaução tenham sido devidamente adotadas. Se houve
dano ambiental, resultante da atividade do poluidor, há nexo causal que faz surgir
o dever indenizatório. Essas considerações servirão de base para as enumerarmos
alternativas de reparação ao dano ambiental, como veremos a seguir.
Podemos inferir que o Direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado
pertence à categoria dos direitos ou interesses difusos, tendo como titulares pessoas
indeterminadas ou indetermináveis. Uma das peculiaridades dos danos ambientais
é a pluralidade difusa de vítimas. O dano considerado na sua concepção tradicional,
ao contrário, atinge apenas vítimas individualizadas ou individualizáveis. O dano
ambiental, por sua vez, caracteriza-se pela sua dificuldade ou, até mesmo, por sua
impossibilidade de reparação natural, que é a modalidade de reparação que deve
ser buscada primordialmente, e ainda, por ser de difícil valoração econômica,
tendo em vista que qualquer valor a ele atribuído, a título de indenização, será
sempre considerado insuficiente.
3. CONCEPÇÃO DE DANO AMBIENTAL
O dano, em sua acepção clássica, significa todo mal ou ofensa que tenha uma
pessoa, causado a outrem, da qual possa resultar uma deterioração ou destruição à
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81
coisa dele ou um prejuízo a seu patrimônio. Juridicamente, é usualmente tomado
no sentido do efeito que produz: é o prejuízo causado, em virtude de ato de outrem,
que vem causar diminuição patrimonial.
Severo6 afirma que dano, de acordo com a teoria do interesse, é a lesão
de interesses juridicamente protegidos. Para Leite,7 o interesse nesta concepção
representa a posição de uma pessoa, grupo ou coletividade em relação ao bem
suscetível de satisfazer-lhe uma necessidade. Bem deve ser entendido, em sentido
amplo, como meio de satisfação de uma necessidade. Onde podemos apreender
dessa definição que dano abrange qualquer diminuição ou alteração de bem
destinado à satisfação de um interesse. O dano é um elemento essencial à pretensão
de uma indenização, pois sem este elemento não há como articular uma obrigação
de reparar, deve ser visto como pressuposto necessário da obrigação de reparar
e, por conseguinte, elemento imprescindível para estabelecer a responsabilidade
civil.
Leite8 nos lembra que a Lei Federal n. 6.938, de 1981, não definiu expressamente
dano ambiental, destacando que a expressão, por sua vez, constitui uma expressão
ambivalente, na medida em que designa certas vezes, alterações nocivas ao meio
ambiente e outras, os efeitos que tal alteração provoca na saúde das pessoas e
em seus interesses. E continua, afirmando que dano ambiental significa, em uma
primeira acepção, uma alteração indesejável ao conjunto de elementos chamados
meio ambiente, citando como exemplo, a poluição atmosférica; afirmando que
seria, assim, a lesão ao direito fundamental que todos têm de gozar e aproveitar do
meio ambiente apropriado. E em sua segunda acepção, englobaria os efeitos que
estas modificações geram na saúde das pessoas e em seus interesses.
3.1 Características do Dano Ambiental
Milaré9 aponta que o dano ambiental possui características próprias que
acabam por orientar o tratamento que as várias ordens jurídicas a ele conferem,
tais como a ampla dispersão de vítimas; a dificuldade da ação reparatória e a
difícil valoração.
3.1.1 A Ampla Dispersão de Vítimas
A primeira característica é a pulverização de vítimas, em virtude do
tratamento que o Direito dá ao ambiente, como bem de uso comum do povo (art.
225, caput, CF). O dano ambiental afeta, necessariamente, uma pluralidade difusa
6
SEVERO, Sérgio. Os Danos Extrapatrimoniais. São Paulo: Saraiva, 1996. p. 6
LEITE, José Rubens Morato. Dano Ambiental: do individual ao coletivo, extrapatrimonial. 2. ed. rev., atual. e ampl. São
Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2003. p. 93.
8
LEITE, José Rubens Morato. Dano Ambiental: do individual ao coletivo, extrapatrimonial. 2. ed. rev., atual. e ampl. São
Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2003. p. 94.
9
MILARÉ, Édis. Direito do Ambiente: doutrina, jurisprudência, glossário. 5. ed. ref., atual. e ampl., São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais, 2007, p. 814.
7
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82
12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
de vítimas, mesmo quando certos aspectos particulares de sua danosidade atingem
individualmente determinadas pessoas. Difere, pois, do que se chama de dano
tradicional, onde a regra é a lesão a uma determinada pessoa ou um grupo.
Importante frisar que a Lei nº 6.938/81, prevê expressamente duas
modalidades de dano (art. 14, § 1º), o dano ambiental público e o dano ambiental
privado. No primeiro caso, a indenização, quando reclamada, destina-se a um
fundo (Lei nº 7.347/85, art. 13) para a reconstituição dos bens lesados. No segundo,
a indenização destina-se a recompor o patrimônio da(s) vítimas(s).
3.1.2 Dificuldade da Ação Reparatória
O dano ambiental é de difícil reparação. Onde destacamos o papel da
responsabilidade civil, quando se trata de mera indenização, pouco importando o
seu valor, sempre será insuficiente. Observa-se que na maioria dos casos de dano
ambiental, a reparação ambiental jamais será constituída em sua integralidade,
bem assim, a qualidade do meio que for afetado. As indenizações e compensações
serão sempre simbólicas, se comparadas ao valor intrínseco da biodiversidade, do
equilíbrio ecológico ou da qualidade ambiental plena. A melhor solução ainda é
a prevenção.
3.1.3 Difícil Valoração
A estrutura sistêmica do meio ambiente dificulta ver até onde e quando se
estenderá as seqüelas do estrago causado a ele. O dano ambiental é de difícil
valoração. Assim, mesmo que levando adiante o esforço reparatório, nem sempre
é possível no estágio atual do conhecimento, o cálculo da totalidade do dano
ambiental, esta característica do dano é corolário da anterior, na medida em que
há dificuldades em se estabelecer parâmetros econômicos de reparação.
3.2 Reparação do Dano Ambiental
A Lei n. 6.938/81, que dispõe sobre a Política Nacional de Meio Ambiente,
dentre outros objetivos, disciplina que visará à imposição, ao poluidor e ao
predador, da obrigação de reparar e/ou indenizar os danos causados.
Milaré10 leciona que assim, há duas formas de principais de reparação
do dano ambiental: a restauração natural ou o retorno ao status quo ante; e a
indenização em dinheiro. Não estando elas em pé de igualdade.
A primeira modalidade sempre deve ser tentada independentemente de ser
mais onerosa que a segunda. A reversibilidade ao estado anterior ao dano se faz
imperiosa, apesar de nem sempre ser possível. Mais do que nunca, nos últimos
10
MILARÉ, Édis. Direito do Ambiente: doutrina, jurisprudência, glossário. 5. ed. ref., atual. e ampl., São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais, 2007, p. 817.
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Teses de Estudantes de Graduação/ Papers of Law School Students
83
anos, a poluição do meio ambiente, como fator negativo de veloz e tumultuoso
progresso vem assumindo dimensões enormes, já alarmantes e preocupantes, o
que impõe a imprescindibilidade, na medida do possível, de recomposição de
todo e qualquer dano.
A indenização em dinheiro deve ser usada apenas quando a restauração in
natura não for viável, tal modalidade corresponde a um modo de punir o causador
do dano, uma tentativa econômica de recomposição ambiental, mas sabemos que
essa modalidade não consegue reparar o prejuízo ecológico.
As duas modalidades de reparação buscam impor um custo ao poluidor
para, assim, atingir três objetivos básicos: primeiro, dar uma resposta aos danos
sofridos pela vítima, seja indivíduo ou coletividade; segundo evitar a reiteração do
comportamento do poluidor e terceiro dar um bom exemplo para terceiros.
Esses aspectos, no que diz respeito ao dano ambiental, são levantados na
legislação nacional. Entretanto, é necessário fazer um paralelo com as mudanças
ocasionadas pelos danos causados ao meio ambiente que tem um impacto global,
a esse respeito discorremos a seguir sobre os principais problemas detectados
no relatório GEO-3, apontando algumas alternativas de caráter local, regional e
global, na busca de soluções para reparar danos causados ao meio ambiente.
4. ALTERNATIVAS À REPARAÇÃO DO DANO AMBIENTAL AO CLIMA
O relatório GEO-3 enfatiza que os países e as regiões deverão lutar não apenas
contra legados ambientais desiguais, mas também contra problemas ambientais
agudos. Destacando que os impactos antropogênicos sobre o meio ambiente têm
causado uma crescente ansiedade, com a atmosfera, as terras e os recursos hídricos
sendo degradados, sendo que os poluentes orgânicos e as substâncias tóxicas têmse acumulado nos organismos vivos. Têm-se perdido espécies, e os ecossistemas
têm sofrido com isso.
Além disso, os sistemas sociais e ecológicos são vulneráveis a perigos e
catástrofes naturais e antropogênicos. A maneira como os sistemas naturais reagem
a essas pressões, como por exemplo, o ritmo, com que os padrões climáticos
mudam como resultado de concentrações mais elevadas de gases de efeito estufa,
ou a resposta dos ecossistemas costeiros à poluição, podem ter um grande impacto
sobre os sistemas sociais, econômicos e outros sistemas naturais.
O relatório GEO-3 destaca, ainda, que os Estados já perceberam que por si
sós não podem se proteger contra a mudança ambiental, razão pela qual já estão
mudando a base da geopolítica e da gestão de governo mundial.
Objetivando dar uma solução para o problema, muitos países buscam
reestruturar seus sistemas tributários e seus programas de subsídios de forma a
torná-los mais coerentes com as metas sociais e ambientais.
Essas reformas também permitem que os governos adquiram algumas das
enormes quantias necessárias para financiar as mudanças nos sistemas do setor
público, que são imprescindíveis para alcançar as metas determinadas. Em outros
casos, são introduzidas normas mais rígidas e diretas, entre elas restrições ou
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proibições totais sobre atividades em particular, como a exploração madeireira
em parques nacionais, a utilização de certos produtos químicos e mesmo o
uso de automóveis em áreas urbanas. Esses esforços também podem ser muito
dispendiosos, ao menos a curto prazo.
As empresas assumem uma função cada vez mais ativa nos processos de
consulta associados a muitas iniciativas de políticas, uma forma de intervenção
que contribui notavelmente para estimular o desenvolvimento e a transferência de
tecnologia.
Nesse sentido, propomos a criação de um fundo internacional (a exemplo
do Fundo de Defesa dos Direitos Difusos, conforme previsto no art. 13 da Lei n.
7.347/85) destinado a reparação de danos ambientais de efeitos globais no clima,
coordenado e dirigido por um organismo internacional ligado a Organização das
Nações Unidas, podendo inclusive ser incluído como uma extensão do Programa
das Nações Unidas para o Meio Ambiente, que tenha um caráter executivo de
reparação internacional dos grandes danos causados ao meio ambiente, com as
suas conseqüências climáticas.
Observa-se, portanto, a necessidade dos Estados subscritores da criação
do referido fundo internacional, abdicarem-se de parcela de sua soberania e de
seus recursos para atender a um interesse maior da comunidade internacional. As
reparações poderão ter efeito punitivo, para as nações e pessoas que desenvolvam
ou produzam danos ao meio ambiente global.
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, já trabalha com o
relatório que aponta a situação do Meio Ambiente, incluído a situação climática,
uma alternativa a concretização e efetivação de proteção ao meio ambiente global
é que as propostas possam ser incluídas como políticas públicas pelos Estados
Membros da ONU, o problema é que existem países, como os Estados Unidos que
se recusam a subscrever documentos internacional (Tratados, Convenções), como
o Protocolo de Quioto, para a redução da emissão de gases na atmosfera, causando,
assim, desconforto na comunidade internacional, principalmente naqueles países
que se propõem a reduzir seu PIB (Produto Interno Bruto), com o controle da
emissão de gases, para contribuírem com a melhoria climática do globo.
A alternativa é que se possa criar mecanismos de sanção econômica para
aqueles países que se negam a mitigar os danos causados ao meio ambiente
global pela emissão de seus gases, isso acontece principalmente com os países
poluidores. Nossa proposta é que seja feita instituída uma sobre taxa nos produtos
e nas matérias primas importadas e exportadas por esses países.
No âmbito nacional, a criação de uma pensão vitalícia para a reparação do
dano causado por pessoa física, em virtude da difícil reparação ou impossível
reparação do dano ambiental causado, pois, o que se observa é a pouca efetividade
das de reparação no atual modelo legislativo adotado no Brasil, um dos pontos
cruciais onde a reparação tem surtido efeito é no campo econômico, como
exemplo correlato podemos exemplificar as multas de trânsito para as pessoas que
utilizam veículos sem a utilização do cinto de segurança, o poder sancionador do
Estado é auto-aplicável no caso das multas de trânsito, garantindo ao descontente
o direito de recursos nas instâncias administrativas, a sanção para o desperdício
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de água poderia vir na cobrança da conta de água; a sanção pela emissão de gases
de veículos automotivos (carros, motos, etc.) poderia vir inserida com a cobrança
de IPVA.
Os recursos arrecadados com a cobrança reparadora dos danos ao meio
ambiente poderiam ser revestidos para a mitigação dos danos causados, como
por exemplo, a manutenção de áreas verdes pelo Estado e Município (Florestas
Estaduais e Municipais), com a divisão dos recursos arrecadados entre esses entes
federados.
5. CONCLUSÕES ARTICULADAS
5.1 As atuais formas de prevenção, reparação e repressão não são suficientes para
enfrentar a dinâmica global de reparação dos danos ambientais causados pelas
mudanças climáticas em curso, justificando a criação de um fundo internacional
de reparação ambiental, com a colaboração dos países com assento na Organização
das Nações Unidas;
5.2 Propomos que seja instituída uma sobre taxa pela Organização Mundial do
Comércio ou outro organismo internacional, aos produtos e as matérias primas
importadas e exportadas por países potencialmente poluidores e que causem danos
ao clima global e se recusem a subscrever os Tratados e Convenções Internacionais
criados para mitigar o dano ambiental.
5.3 A criação de um fundo municipal, estadual e federal para possibilitar a
instalação e manutenção de áreas ecológicas de preservação ambiental, com a
cobrança de alíquotas nos tributos como o IPI (pela produção industrial), IPVA
(veículos automotores que emitem dióxido de carbono) e IPTU (prédios urbanos
que produzem o lixo doméstico).
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A IMPORTÂNCIA DA SOCIODIVERSIDADE PARA
A PRESERVAÇÃO DA DIVERSIDADE BIOLÓGICA
LIVIA BURGOS LOPES
Graduanda em Gestão Ambiental pela Escola de Artes,
Ciências e Humanidades – Universidade de São Paulo
1. BIODIVERSIDADE
A Convenção sobre Diversidade Biológica, acordo aprovado por 156 países
durante a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento (conhecida como Rio-92), define como biodiversidade “a variabilidade de
organismos vivos de todas as origens compreendendo, dentre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte; compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies,
entre espécies e de ecossistemas”. O Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (Lei nº 9.985/00), adotou exatamente a mesma definição (art.
2º, inciso III).
Resultado de milhares de anos da ação da seleção natural, a diversidade
biológica é essencial para a manutenção de ecossistemas ricos e complexos;
para o bom funcionamento de serviços ambientais fundamentais (formação
de solos, purificação do ar e da água, por exemplo) e conseqüentemente para
um meio ambiente equilibrado e sadio, além de possuir um valor intrínseco,
inestimável.
Locais que abrigam vasta diversidade biológica são chamados “hot spots”
(pontos quentes). Exemplos desses locais são os recifes de coral, ecossistemas de
água doce e as florestas tropicais. Estas últimas, cobrindo apenas 7% da superfície
do planeta, abrigam aproximadamente 50% das espécies conhecidas. Dos 18 hot
spots globais de biodiversidade identificados, 14 ocorrem em florestas tropicais,
dos quais dois terços se encontram em território brasileiro1.
A emergência de novas tecnologias (em especial o ramo da biotecnologia e
bioquímica) mudou o sentido da conservação da biodiversidade. Atualmente, a
importância da variedade de espécies está no potencial econômico que cada uma
pode oferecer.
Uma das formas de explorar o potencial econômico da biodiversidade é
por meio da bioprospecção, método que vem ganhando cada vez mais espaço
no mercado mundial. Consiste em localizar e avaliar a diversidade de vida existe
1
BARRETO FILHO, Henyo Trindade. Utopias Tecnológicas, Distopias Ecológicas e Contrapontos Românticos: “populações tradicionais” e áreas protegidas nos trópicos. Sexta-feira, 2001, p.143.
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em determinada área, objetivando principalmente recursos genéticos, compostos
bioquímicos e demais substâncias para fins comerciais.
2. UNIDADES DE CONSERVAÇÃO
A Comissão de Áreas Protegidas da União Internacional para a Conservação
da Natureza (UICN) conceitua Unidade de Conservação (UC) como sendo “uma
área de terra ou mar dedicada à proteção e manutenção da diversidade biológica
e de recursos naturais e culturais associados e manejados por instrumentos legais
ou outros meios efetivos”2.
O conceito de áreas protegidas não é de todo recente. Em 700 a.C., surgiram
as reservas de caça, destinadas às caçadas reais na Assíria. Na Índia, por volta de
400 a.C., foram estabelecidas as caçadas reais no reino açoca. Na Inglaterra, os
normandos introduziram a mesma idéia, e tal foi o entusiasmo que “no reinado
de Henrique II, cerca de 25% da Inglaterra estavam classificados como área de
caça real”3.
O modelo atual de Unidade de Conservação surgiu nos Estados Unidos, em
1872, com a criação do “Yellowstone National Park”. Destinado a proteger a vida
selvagem (wilderness) e preservar paisagens de notável valor estético, o modelo
de parques nacionais americanos reforça a idéia de incompatibilidade entre a atividade humana e a conservação da natureza. Tal idéia é expressa no “Wilderness
Act”, decreto americano de 1964, no qual a natureza é definida como um lugar
onde “o próprio homem é um visitante que não permanece”.
De acordo com Arruda :
“Ainda que este modelo possa ser relativamente adequado aos EUA, dada a existência de grandes áreas desabitadas, sua transposição para o Terceiro Mundo
mostra-se problemática, pois mesmo áreas consideradas isoladas ou selvagens
abrigam populações humanas, as quais, como decorrência do modelo adotado,
devem ser retiradas de suas terras, transformadas de agora em diante em unidade de conservação de benefício das populações urbanos (turismo ecológico),
das futuras gerações, do equilíbrio ecossistêmico necessário à humanidade em
geral, da pesquisa científica, mas não das populações locais”.4
Interessante considerar que essa idéia de área protegida foi concebida numa
época de intensa urbanização, onde era necessário resguardar grandes espaços
naturais, considerados pela cultura urbana como “vazios”.
2
VEIGA RIOS, Aurélio Virgílio. Populações Tradicionais em áreas protegidas. In: RICARDO, F (Org.). Terras Indígenas
& Unidades de Conservação da natureza : o desafio das sobreposições, São Paulo: Instituto Socioambiental, novembro,
2004, p. 79
3
COLCHESTER, Marcus. Resgatando a Natureza: Comunidades Tradicionais e Áreas Protegidas, 1997. In: DIEGUES,
A. C (Org.). Etnoconservação: novos rumos para a proteção da natureza nos trópicos, São Paulo : Hicitec, 2000, p. 229.
4
ARRUDA, Rinaldo. “Populações Tradicionais” e a Proteção dos Recursos Naturais em Unidades de Conservação. Ambiente & Sociedade, ano II, nº 5, p. 79 -92, 2º semestre, 1999.
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2.1 Unidades de Conservação no Brasil
No Brasil, a criação de espaços territoriais especialmente protegidos é prevista na Constituição Federal, artigo 225, § 1º, III; e também na Lei 6.938/81 (que
dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente), em seu artigo 9º, VI.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que
as áreas protegidas no país correspondem a 18,69% do território nacional.
As diretrizes para a criação, gestão, manutenção e manejo de tais espaços protegidos, são encontradas na Lei 9.985/00, que regulamenta o art. 225, § 1º, incisos
I, II, III e IV da Constituição Federal e institui o Sistema Nacional de Unidades de
Conservação da Natureza (SNUC). Define, Unidades de Conservação como “espaço territorial e seus recursos ambientais, incluindo as águas jurisdicionais, com
características naturais relevantes, legalmente instituído pelo Poder Público, com
objetivos de conservação e limites definidos, sob regime especial de administração,
ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção” (art. 2º, inciso I).
As Unidades de Conservação dividem-se em dois grupos, com características
específicas: Unidades de Uso sustentável e Unidades de Proteção Integral (art. 7º).
As Unidades de Uso Sustentável são: Áreas de Proteção Ambiental, Áreas de Relevante Interesse Ecológico, Florestas Nacionais, Reservas Extrativistas,
Reservas de Fauna; Reservas de Desenvolvimento Sustentável e Reservas Particulares do Patrimônio Natural.
O legislador tomou o cuidado de caracterizar “uso sustentável” como “exploração do ambiente de maneira a garantir a perenidade dos recursos ambientais
renováveis e dos processos ecológicos, mantendo a biodiversidade e os demais
atributos ecológicos, de forma socialmente justa e economicamente viável” (Lei
nº 9.985/00, art. 2º, inciso XI).
As Unidades de Proteção Integral subdividem-se em: Estações Ecológicas,
Reservas Biológicas, Parques Nacionais, Monumentos Naturais e Refúgios da
Vida Silvestre.
O conceito de proteção integral é definido na lei como “manutenção dos
ecossistemas livres de alterações causadas por interferência humana, admitindo
apenas o uso indireto dos seus atributos” (art. 2º, inciso VI).
O uso indireto é “aquele que não envolve consumo, coleta, dano ou destruição dos recursos naturais” (art. 2º, inciso IX).
3. POPULAÇÕES TRADICIONAIS
Estudos indicam que a diversidade cultural está estreitamente ligada à diversidade biológica, especialmente no que diz respeito ao manejo de recursos
naturais e do solo5.
5
Cf. ARRUDA, Rinaldo. 1999; COLCHESTER, Marcus. 1997; GRAY, Andrew. 1991, GOMÉZ-POMPA, Arturo. &
KAUS, Andrea 1992; PIMBERT, Michel P. & PRETTY, Jules, N. 1997; VEIGA RIOS, Aurélio Virgílio. 2004; VIVEIROS
DE CASTRO, Eduardo. 1996.
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Os grupos humanos tiveram que adaptar suas técnicas e costumes de acordo
com o tipo de ecossistema que viviam. Pode-se afirmar que os estilos de vida das
populações humanas são tão numerosos quanto os ecossistemas que as abrigam
Andrew Gray6, aponta um estudo feito pela Universidade Bergen, no qual
estima-se que existem aproximadamente 5.000 culturas diferentes no mundo. Se
comparadas com o número de países, constata-se que as populações tradicionais
constituem de 90 a 95% da diversidade cultural do globo.
3.1 Conceito
O conceito de população tradicional está diretamente ligado a uma forma
particular de organização social, de ocupação do território e do uso de recursos
naturais. A estreita dependência dos ciclos da natureza para a manutenção do seu
modo de vida é também uma característica marcante.
Vianna7, identifica alguns elementos que caracterizam uma “população tradicional”. Entre eles estão: uma relação particular com a natureza, fundada em
grande dependência dos ciclos naturais; conhecimento profundo de processos
bio-ecológicos; posição periférica face à economia de mercado (conseqüência de
processos históricos específicos, porém eventualmente tomada como característica intrínseca); e o fato de ocuparem áreas que se mantém aquém dos processos
acelerados de industrialização e urbanização, ou seja, áreas mais preservadas. Segundo a autora, este último fato por si só, é tomado como confirmação do entrelaçamento entre biodiversidade e sociodiversidade.
Em âmbito internacional, o termo passou a ser aplicado a grupos étnicos
distintos, que têm uma identidade diferente da nacional (não sendo politicamente
dominantes) e se utilizam dos recursos para subsistência adotando técnicas “sustentáveis”. O Banco Mundial define como “tradicionais” grupos sociais “cuja
identidade social e cultural é distinta da sociedade dominante”, o que os torna
“vulneráveis por serem desfavorecidos pelos processos de desenvolvimento”8.
No Brasil, o Decreto nº 6.040 de 2007 (que Institui a Política Nacional de
Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais) conceitua
povos e comunidades tradicionais como “grupos culturalmente diferenciados e
que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização
social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para
sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição” (art. 3,
inciso I).
6
GRAY, Andrew. The Impact of The Impact of Biodiversity Conservation on Indigenous Peoples. In: SHIVA, V., ANDERSON, P., SCHUCKING, H., & GRAY A. Biodiversity: Social & Ecological Perspectives, London, UK; Atlantic
Highlands, 1991.
7
VIANNA, Lucila. 1996 apud BARRETO FILHO, Henyo. Trindade. Populações Tradicionais: introdução à crítica da
ecologia política de uma noção. In: ADAMS, Cristina., MURRIETA, Rui S. S. & NEVES, Walter A. Sociedades Caboclas
Amazônicas: modernidade e invisibilidade. São Paulo: Annablume, 2006, p.105-139
8
BANCO MUNDIAL, 1990 apud COLCHESTER, Marcus. op. cit. p. 230.
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O emprego do termo “tradicional” é criticado por diversos autores por remeter a uma idéia de “arcaico”, “passado”, “primitivo”; por nos remeter a uma
idéia de que essas comunidades estariam estagnadas, aprisionadas no tempo, sem
interagir com a dinâmica do mundo moderno (uma concepção “museológica”).
A expressão tende a agrupar numa só categoria, grupos muito distintos entre
si e simplifica a diversidade de situações e necessidades que envolvem essas populações. Há ainda a tendência de, sem uma reflexão adequada, criar expectativas
de que essas populações permaneçam intactas no tempo e no espaço, ferindo sua
autonomia e seu poder de decisão em relação a seu próprio futuro.
3.2 Populações humanas e áreas protegidas
As populações humanas estão por toda parte, ocupando e os mais diversos
ecossistemas do globo, de florestas úmidas e temperadas, até desertos, montanhas
e áreas geladas.
É certo afirmar que o homem modifica radicalmente a paisagem ao seu redor, mas não se deve estender essa afirmação a todas as populações humanas. É
necessário lembrar que muitas das áreas mais bem preservadas do planeta (Floresta Amazônica e alguns trechos de Floresta Atlântica, por exemplo), são habitadas
por populações que, com seu modo de viver diferenciado, não comprometem a
manutenção do ecossistema como um todo.
Dados recentes sugerem que, na América Latina, 86% das áreas protegidas
são habitadas. Em âmbito mundial, dados da UICN indicam que 70% dessas áreas
são habitadas9.
O reconhecimento de diferentes estilos de vida “tradicionais” em ambientes
muito frágeis, deu-se com a incorporação do conceito de “zoneamento” à definição de parques nacionais, ratificado em 1972 no II Congresso Mundial de
Parques Nacionais, em Yellowstone. Dessa forma, foram reconhecidas, na figura
de “zonas antropológicas”, comunidades humanas que, com suas características
culturais específicas, faziam parte do ecossistema a ser protegido. Definiu-se que
o estabelecimento de áreas protegidas não deveria trazer conseqüências nocivas
para essas populações (povos indígenas e grupos étnicos), quais sejam reassentamento forçado, ruptura de estilos de vida tradicionais ou desagregação cultural e
econômica10.
Em âmbito internacional, Colchester explica que:
“A lei internacional, especialmente as convenções da OIT 107 e 169, claramente aceita o direito dos povos nativos ao uso e propriedade, coletiva ou individual de suas terras tradicionais. A lei estabelece o princípio de que o título
de propriedade nativa se fundamenta na posse imemorial e não depende de
nenhum ato ou documento (Bennet, 1978). A convenção da OIT também estabe-
9
10
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COLCHESTER, Marcus. op. cit. p.232.
BARRETO FILHO, Henyo Trindade. op. cit. 2001.
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lece firmemente que os povos nativos não podem ser transferidos de suas terras,
com exceção dos casos de segurança nacional, desenvolvimento econômico ou
para sua própria saúde. De acordo com a Convenção 107, se eles foram transferidos, ganharão terras com qualidade igual a que ocupavam antes, aptas a
lhes garantir seu modo de vida presente e desenvolvimento futuro.” 11
3.3 O mito do bom selvagem
É curioso e chama a atenção o fato de áreas habitadas por populações indígenas ainda serem chamadas de áreas selvagens. Isto ocorre por causa de uma visão
romântica dos povos indígenas e demais grupos étnicos, na qual esses povos são
considerados “parte da natureza”, “selvagens”, “puros”, “primitivos”.
A idéia de que o modelo da sociedade ocidental industrializada é o fim, o
modelo a ser atingido, e as demais formas de viver e manejar a terra são apenas
etapas iniciais desse processo (uma concepção linear de evolução) ainda está fortemente impregnada no pensamento ocidental.
Por outro lado, por estarem mais “próximas da natureza”, ou com outras
palavras, por manejarem seus recursos de forma menos impactante (ou seja, não
predatória), as chamadas populações tradicionais são erroneamente consideradas
“conservacionistas natas”, “ambientalistas convictas”, ou de forma mais ou menos pejorativa “bons selvagens”.
Agricultores, pescadores ou criadores não são necessariamente conservacionistas; entretanto, é possível encontrar no meio rural indivíduos que dependem
diretamente da terra para sua reprodução física e cultural. Essa dependência gera
um conhecimento sobre aquele local, um conhecimento sobre tentativas, acertos e
erros, transmitido ao longo de várias gerações e que deve ser levado em consideração em estudos sobre o meio ambiente local12.
Redford & Stearman (1993), citados por Colchester (op. cit.), expõem a opinião do índio cuna Nicanor Gonzáles:
“O que eu entendi ao falar com as autoridades indígenas, grupos nativos e
indivíduos, é que eles são familiares com as leis da natureza. Eles não são
conservacionistas... Nesse sentido, então, eu não creio que se possa dizer que
os povos indígenas são conservacionistas, como é definido pelos ecologistas.
Não somos amantes da natureza. Em momento algum os grupos indígenas incluíram conceitos de conservação e ecologia em seu vocabulário tradicional.
Nós falamos mais em Mãe Natureza.” (p. 240).
É interessante lembrar que essa concepção do “bom selvagem” serve como
base para políticas de “primitivismo forçado”, onde as populações têm permissão
de permanecerem em seus locais de origem desde que não modifiquem seu estilo
11
COLCHESTER, Marcus. op. cit. p. 231.
GOMÉZ-POMPA, Arturo. & KAUS, AAndrea. Domesticando o Mito da Natureza Selvagem, 1992. In: DIEGUES, Antônio Carlos (Org.). Etnoconservação: novos rumos para a proteção da natureza nos trópicos, São Paulo : Hicitec, 2000
12
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de vida “tradicionais”. Essas políticas não levam em consideração a dinâmica
econômica, social e cultural desses grupos, condenando-os a permanecerem estagnados no tempo e no espaço.13
4. PARTICIPAÇÃO NA CRIAÇÃO E MANEJO DAS UNIDADES DE CONSERVAÇÃO
Eu não conheço depositário mais seguro do poder mais alto da sociedade que
o próprio povo e se pensamos que não são suficientemente ilustrados para
exercer esse controle com total discrição, o remédio não é tirá-los deles, mas
informá-los disso.14
A sociedade moderna, a chamada civilização industrial, afirma ter a visão do
mundo mais correta possível, baseada na razão e na ciência. Detentora de refinada tecnologia, gaba-se por ter o poder de “dominar a natureza”, de compreender
processos ecológicos complexos de ter explorado desde o topo das montanhas até
o mais profundo oceano.
Essa sociedade vislumbra a preservação da natureza “selvagem” como
parte da salvação do planeta Terra para as futuras gerações. E o faz com tamanha arrogância, que presume saber o que deve ser preservado e como isso deve
ser feito15.
4.1 Modelo Conservacionista e Ecologia Profunda
A idéia de intocabilidade do mundo natural, de áreas virgens, imaculadas,
fora do alcance das ações antrópicas, vem sendo reformulada. Não há como controlar, por exemplo, o alcance de certos poluentes atmosféricos ou mesmo os efeitos das mudanças climáticas. Mesmo de forma indireta, a ação do homem afeta a
“integridade” do ambiente.
A crença clássica de conservação da natureza defende uma relação inversa
entre atividades humanas e bem-estar do ambiente natural. Tal crença é confirmada no supra citado decreto americano “Wilderness Act”, de 1964, onde a
natureza é definida como um local em que “o próprio homem é um visitante que
não permanece”.
Conservacionistas tido como “puros” afirmam que qualquer ação ou mesmo a presença de populações humanas em Unidades de Conservação é prejudicial à conservação do “equilíbrio” do ambiente e da biodiversidade. Reagem
à presença, muitas vezes, com maior vigor do que em relação a invasão de madeireiros, grileiros e outros “predadores”, provavelmente por enxergarem com
mais facilidade aqueles que ali sempre estiveram do que aqueles que, de forma
13
Cf. ADAMS, Cristina. 2000; ARRUDA, Rinaldo. 1999; COLCHESTER, Marcus.1997; GOMÉZ-POMPA, Arturo. &
KAUS, Andrea. 1992.
14
Thomas Jefferson, 1820 apud COLCHESTER, Marcus. op. cit. p. 250.
15
ARRUDA, Rinaldo. op. cit. p. 87.
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mais furtiva, depredam os recursos, não sendo detectados pela frágil fiscalização ambienta16.
Essa ideologia ocidental de “preservação a qualquer custo” é mencionada
por Pimbert & Pretty17 que listam algumas das crenças que sustentam essa ideologia, entre elas os pressupostos de que a conservação do mundo selvagem só pode
ser efetiva ao se adotar uma postura contrária ao uso dos recursos naturais; nos países em desenvolvimento os programas de conservação podem ser eficientes sem
retorno econômico algum para os proprietários da terra ou aqueles que a utilizam
de forma “tradicional”; ou mesmo de que toda população natural é essencialmente
frágil e poderá ser levada à extinção por qualquer uso humano.
A Ecologia Profunda (termo cunhado pelo filósofo norueguês Arne Naess
em 1973), é uma corrente da Ecologia que defende a exclusão de seres humanos
de locais “selvagens”, reforçando o antagonismo homem versus natureza. Afirma
ainda que o valor intrínseco do meio ambiente natural deve prevalecer sobre o
ambiente cultural (humano), e que o movimento ambientalista deve mudar a perspectiva antropocêntrica para a biocêntrica. A distinção entre antropocentrismo e
biocentrismo é aceita como axioma pelos “ecologistas profundos”18.
Daniel Jazen, em seu artigo publicado na conceituada revista Annual Review
of Ecology and Systematics, em 1986, afirmou que apenas os biólogos seriam
aptos para decidir como manejar a paisagem tropical, pois apenas eles contariam
com o conhecimento técnico necessário para determinar “se uma paisagem tropical deve ser habitada somente por humanos, seus mutualistas, parasitas e comensais, ou se ela deve conter também algumas ilhas de natureza “a natureza que deu
origem aos humanos e mesmo assim está sendo destruída por eles” (Janzen, 1986,
p.305 apud Pimbert & Pretty, p. 188).
Excluir a participação de populações humanas do processo de conservação,
além de caracterizar uma postura autoritária e anti-democrática, concentrando a
tomada de decisões nas mãos de técnicos e cientistas; perde-se a oportunidade
de desenvolver em parceria com as comunidades, políticas alternativas de uso e
exploração dos recursos naturais; promovendo, além do tão aclamado desenvolvimento sustentável, o crescimento econômico da região.
4.2 A Importância do Conhecimento “Tradicional”
Atualmente, o conhecimento tradicional tem sido reconhecido e valorizado
principalmdefigomés nição museológicoente por suas aplicações econômicas. O
advento da biotecnologia e o crescimento das indústrias farmacêutica e bioquími-
16
SANTILLI, Márcio. A cilada corporativa. In: RICARDO, Fany (Org.). Terras Indígenas & Unidades de Conservação da
natureza : o desafio das sobreposições, São Paulo: Instituto Socioambiental, novembro, 2004, p. 11-14.
17
PIMBERT, Michel P. & PRETTY, Jules N. Parques, Comunidades e Profissionais: Incluindo a “Participação” no Manejo de Áreas Protegidas, 1997. In: DIEGUES, Antônio Carlos (Org.). Etnoconservação: novos rumos para a proteção da
natureza nos trópicos, São Paulo : Hicitec, 2000, p. 183-218.
18
GUHA, Ramachandra. Radical American Environmentalism and Wilderness Preservation: A Third World Critique.
Envoronmental Ethics, v. 11, nº 1, p 71-83, spring, 1989.
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ca impulsionam pesquisadores a buscar novas fórmulas, novos componentes para
seus produtos, novas substâncias. A participação das populações locais têm sido
decisiva nesse processo.
Aproximadamente um quarto de todos os remédios prescritos provêm de
florestas pluviais, sendo que três quartos destes foram identificados a partir de
informações obtidas das populações locais19. Shiva, afirma que “o uso do conhecimento tradicional aumenta a eficiência de reconhecer as propriedades das plantas
em mais de 400%” 20.
Em geral, comunidades tradicionais desenvolveram relações com o ambiente marcadas por uma certa “sintonia” e um profundo conhecimento sobre as
relações ecológicas locais, já que o sistema de manejo local é voltado para suas
próprias necessidades, aumentando sua capacidade de adaptação às diversas
circunstâncias daquela área. Diversos habitats ocupados por essas comunidades encontram-se menos modificados e mais bem preservados do que em áreas
adjacentes.
Estudos apontam que, ao contrário do que afirma o senso comum, ações
antrópicas podem enriquecer a biodiversidade local, ao invés de simplesmente
extingui-la21. É importante, contudo, levar em consideração a freqüência, a intensidade e os tipos de perturbações no ambiente que são benéficos para a manutenção da diversidade biológica.
Arruda, baseando-se em diversos autores, aponta que a variabilidade induzida pelo homem no ambiente tropical (especialmente por meio da agricultura
itinerante e do adensamento de espécies úteis) favoreceu o processo de especiação
e, conseqüentemente, a diversidade de espécies. Nas palavras do autor: “a floresta
‘primária’ tal como a conhecemos hoje co-evoluiu juntamente com as sociedades
humanas e sua distribuição pelo planeta. É um resultado de processos antrópicos
característicos dos sistemas tradicionais de manejo.”22
Pimbert & Pretty, observam a perda da biodiversidade em áreas onde as
atividades das populações locais foram reduzidas ou restringidas. A expulsão dos
massais na Tanzânia, por exemplo; o Parque Nacional de Serengueti está progressivamente sendo tomado por arbustos e áreas florestadas, pois as áreas de pastagem para antílopes diminuíram.23
Outro exemplo de manutenção da biodiversidade a partir do manejo de recursos por populações tradicionais é citado por Goméz-Pompa & Kaus. Um estudo realizado no deserto de Sonora, em dois oásis, um de cada lado da fronteira
dos Estados Unidos com o México, indica que:
19
SMITH, Eric Alden. & WISHNIE, Mark. Conservation and Subsistence in Small Scale Societies. Annual Review of
Anthropology, vol 29, p. 493-524, 2000.
20
SHIVA, Vandana. Biodiversidade e conhecimento popular. In: SHIVA, Vandana. Biopirataria: A pilhagem da natureza e
do conhecimento, Petrópolis : Editora Vozes, 2001, p. 91-111.
21
Cf. ADAMS, Cristina. 2000; ARRUDA, Rinaldo. 1999; COLCHESTER, Marcus. 1997; GOMÉZ-POMPA, Arturo. &
KAUS, Andrea. 1992; PIMBERT, Michel P. & PRETTY, Jules N. 1997.
22
ARRUDA, Rinaldo. op. cit. p. 87.
23
PIMBERT, Michel P. & PRETTY, Jules N. op. cit. p. 193.
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“as costumeiras práticas de uso da terra dos agricultores papagos (índios) do
lado mexicano da fronteira contribuíram para a biodiversidade do oásis. Por
outro lado, a proteção contra o uso da terra no oásis a 54 quilômetros a noroeste, dentro do Monumento Nacional de Organ Pipe Cactus, nos Estados Unidos,
resultou do declínio da diversidade das espécies durante um período de 25 anos
(Nabhan et al. 1982).”24
A importância do conhecimento tradicional para a manutenção da diversidade biológica é reconhecida e enfatizada em documentos internacionais, como a
Convenção Sobre a Diversidade Biológica (CDB). Em seu preâmbulo, reconhece
“a estreita e tradicional dependência de recursos biológicos de muitas comunidades locais e populações indígenas com estilos de vida tradicionais” e recomenda
que “os benefícios derivados da utilização do conhecimento tradicional, de inovações e de práticas relevantes à conservação da diversidade biológica e à utilização
sustentável de seus componentes” sejam eqüitativamente repartidos.
4.3 Participação ativa das comunidades locais
A implantação de áreas protegidas mostrou-se eficiente para a conservação
de processos ecológicos fundamentais para a sadia qualidade do ambiente, além
de preservar exemplares importantes da flora e fauna nativas, permitindo a manutenção da biodiversidade.
Recentemente, mais uma função foi atribuída a essas áreas: a manutenção da
sociodiverdade, o que quer dizer, dos diferentes modos de fazer e viver. Estudos
apontam que a diversidade biológica está estreitamente ligada à sociodiversidade.
Por meio de formas de manejo específicas ao longo dos anos, o homem molda a
paisagem e, ao que tudo indica, acaba por fazer parte da dinâmica do ecossistema
sem que essa interação resulte em degradação.
Entre os objetivos da criação de uma Unidade de Conservação (UC),
conforme previstos na Lei nº 9.985/00, art. 4º, estão: contribuir para a manutenção da diversidade biológica; proteger as espécies ameaçadas de extinção;
promover o desenvolvimento sustentável; proteger características relevantes
de natureza cultural; e proteger os recursos naturais necessários a subsistência
de populações tradicionais, promovendo-as social e economicamente (incisos
I, II, IV, VII e XIII).
A partir de uma análise dos objetivos é evidente que tanto a criação, como a
administração de uma unidade de conservação, envolve uma série de atores, cada
qual com seu interesse específico na área. Se por um lado é importante preservar
a diversidade de espécies do local, também é importante proteger e assegurar os
direitos daquelas comunidades que ocupavam a área bem antes de criação da Unidade de Conservação, propiciando-lhes condições necessárias para que possam
se desenvolver.
24
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GOMÉZ-POMPA, Arturo. & KAUS, Andrea. op. cit. p. 134.
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Nesse contexto, as populações que ali sempre estiveram (ou seja, que possuem uma trajetória histórica singular na região), muitas vezes participando da
formação da paisagem, conservando estilos de vida e manejando recursos de forma não predatória, devem ser as primeiras a serem consultadas no processo de
criação e gestão da unidade.
Em geral, essas comunidades são ignoradas ou marginalizadas, não sendo levado em consideração o seu papel na conservação daquela área. Em alguns casos,
partindo de uma visão preconceituosa, são apontadas como as principais culpadas
pelos problemas do local. Como elucida Márcio Santilli25, “a sua criminalização,
como se fossem protagonistas – e não vítimas – de práticas predatórias, funciona
como um tiro no pé para qualquer estratégia conservacionista.”
A partir de meados da década de 1980, agências oficiais e organizações nãogovernamentais (ONGs), têm modificado sua opinião acerca da criação de áreas
protegidas, especialmente aquelas com rígidas restrições de uso. Percebeu-se que
a simples criação de uma unidade de conservação por decreto ou lei não garante
a sua proteção efetiva. Não basta cercar porções de biodiversidade sem levar em
conta suas dimensões econômicas e sociais. Desde então, o financiamento vem
sido redirecionado para projetos cujo plano de manejo envolva as comunidades
que vivam dentro ou no entorno dessas unidades.26
Da mesma forma, planos de manejo que se utilizam de regras gerais, inflexíveis e imutáveis, têm sido deixados de lado em detrimento daqueles mais
flexíveis, que se adaptam a diferentes situações, já que as características e circunstâncias variam de um local para o outro.
É importante considerar não apenas as variáveis ecológicas, mas também
as sociais, como o tipo de atividade econômica, o tamanho da população e sua
relação com os recursos. Veiga Rios27 aponta essa insensibilidade às condições
específicas de cada área como a principal justificativa para o fracasso de diversos
planos de manejo.
Incluir as populações locais no processo de tomada de decisão não é apenas uma atitude sensata e democrática. Trata-se do reconhecimento político
dos direitos que essas comunidades possuem de dispor delas mesmas e dos
recursos naturais28. Ao ignorar o potencial de segmentos diferenciados, que
ao longo da história mantiveram a qualidade das áreas que ocupam, pode-se
estar descartando “uma das únicas vias adequadas para alcançar os objetivos
a que se propõe” 29.
O “World Conservation Strategy”, documento elaborado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) em 1980, enfatiza ser necessária a criação de um vínculo entre os Planos de Manejo e as atividades de baixo
25
SANTILLI, Márcio. op. cit. p. 12.
VEIGA RIOS, Aurélio Virgílio. op. cit. p. 79.
27
Ibid. p. 79.
28
ROUÉ, Marie. Novas Perspectivas em Etnoecologia: “Saberes Tradicionais” e Gestão dos Recursos Naturais, 1997. In:
DIEGUES, Antônio Carlos (Org.). Etnoconservação: novos rumos para a proteção da natureza nos trópicos, São Paulo :
Hicitec, 2000
29
ARRUDA, Rinaldo. op. cit. p. 90.
26
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impacto exercidas pelas comunidades locais no interior e entorno das Unidades
de Conservação30.
É importante ter em mente que a principal contribuição das chamadas populações tradicionais para a gestão das Unidades de Conservação, é seu profundo
conhecimento sobre as características da região onde vivem. É presunçoso elevar essas comunidades à categoria de “detentoras do conhecimento absoluto”,
“guardiãs da natureza” ou coisas do gênero. Além disso, as mudanças ocorridas
ao longo do tempo, as influências recebidas do exterior, a pressão do mercado
e o contato com novas tecnologias influenciam profundamente a relação desses
grupos com os recursos naturais.
Adams, esclarece que:
“(...) visando um manejo adequado da área, cada caso deve ser muito bem
estudado sob uma perspectiva interdisciplinar, levando em consideração o grau
de dependência que cada comunidade possui hoje do mercado regional/nacional, e portanto o quanto elas ainda dependem de suas atividades tradicionais
de subsistência e das áreas de cultivo (inclusive em relação ao território). Além
disso, a questão demográfica deve ser seriamente considerada, pois influi diretamente no impacto causado sobre os ecossistemas.” 31
É necessário também estar atento para projetos que envolvam uma participação apenas aparente. Políticas “paternalistas”, geralmente centradas em incentivar
a população a vender seu trabalho em troca de comida, dinheiro ou outros recursos, não sobrevivem a longo prazo. Sem o desenvolvimento das habilidades, sem
a criação do interesse e sem a capacitação da população local, os projetos estão
fadados a desaparecer tão logo cessem os incentivos externos.
Conforme afirma Diegues,
“mais do que repressão, o mundo moderno necessita de exemplos de relações
mais adequadas entre homem e natureza. Essas unidades de conservação podem oferecer condições para que os enfoques tradicionais de manejo do mundo natural sejam valorizados, renovados e até reinterpretados, para torná-los
mais adaptados a novas situações emergentes.” 32
A Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), aprovada em 07 de junho de 1989, é um importante documento, que dispõe sobre
Povos Indígenas e Tribais em Países Independentes. Foi promulgada pelo Brasil
em 19 de abril de 2004 (Decreto nº 5.051/04).
O documento reconhece a particular contribuição dessas populações para
a diversidade cultural, harmonia social e ecológica da humanidade. Reconhece
também que em diversos lugares do mundo, esses povos não podem gozar dos
direitos fundamentais da mesma forma que o restante da população dos Estados
30
VEIGA RIOS, Aurélio Virgílio. op. cit.
ADAMS, Cristina. As populações caiçaras e o mito do bom selvagem: a necessidade de uma abordagem interdisciplinar.
Revista de Antropologia, São Paulo, USP, v.43, nº1, p. 145-182, 2000. p. 170.
32
DIEGUES, Antônio Carlos. 1996 apud ARRUDA, Rinaldo. op. cit. p. 89
31
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onde vivem, e que suas leis, valores costumes e perspectivas têm sofrido “erosão
freqüente”.
A Convenção 169 ainda delega aos governos a responsabilidade de desenvolver juntamente com essas populações, ação “coordenada e sistemática” visando proteger seus direitos e garantir respeito por sua integridade (art. 2º). Essa
ação deve incluir medidas que assegurem-lhes a plena efetividade de seus direitos
sociais, econômicos e culturais.
O art 6º, reforça o tema e a importância da participação das comunidades em
processos que envolvam seus interesses. Recomenda aos governos, consultar os
povos interessados sempre que sejam previstas medidas (legislativas ou administrativas) que possas afetá-los; e também estabelecer meios para que os interessados possam participar do processo de tomada de decisões em relação às políticas
e programas que lhes sejam concernentes.
O art. 7º esclarece que:
“Os povos interessados deverão ter o direito de escolher suas, próprias prioridades no que diz respeito ao processo de desenvolvimento, na medida em que
ele afete as suas vidas, crenças, instituições e bem-estar espiritual, bem como as
terras que ocupam ou utilizam de alguma forma, e de controlar, na medida do
possível, o seu próprio desenvolvimento econômico, social e cultural. Além disso,
esses povos deverão participar da formulação, aplicação e avaliação dos planos e
programas de desenvolvimento nacional e regional suscetíveis de afetá-los diretamente.”
A Convenção nº 169, enfatiza a relação estreita das populações tradicionais
e as terras que ocupam. O art. 13º dispõe que os governos deverão reconhecer a
importância da relação com as terras e territórios que utilizam e tradicionalmente
ocupam, além dos aspectos coletivos dessa relação.
O art. 14º versa sobre o reconhecimento, aos povos interessados, dos direitos
de propriedade e posse das terras que tradicionalmente ocupam, bem como delega
aos governos o dever de adotar medidas que assegurem esses direitos.
O art. 15º dispõe sobre a especial proteção aos direitos de uso dos recursos
naturais existentes em suas terras, esclarecendo que “esses direitos abrangem o
direito desses povos a participarem da utilização, administração e conservação
dos recursos mencionados”.
Por fim, o art. 16º enfatiza que os povos interessados não deverão ser transladados das terras que ocupam. Quando, por motivos excepcionais, a remoção e o
reassentamento desses povos sejam necessários, só poderão ser efetuados com o
consentimento dos mesmos. Sempre que for possível, esses povos terão o direito
de voltar para suas terras tradicionais, assim que as causas que motivaram o seu
translado deixarem de existir.
É evidente e reconhecida por documentos internacionais, a importância da
permanência das comunidades tradicionais nas terras em que habitam.
O Brasil, país de notável riqueza e diversidade, pode contribuir significativamente para o desenvolvimento de uma nova concepção de proteção ao meio
ambiente, em que o homem não é mais um predador, alguém que simplesmente
degrada, mas sim parte do processo de conservação.
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Dessa forma, seria possível conciliar a preservação da diversidade biológica,
a valorização da diversidade cultural e os direitos e interesses humanos, levando a
maior efetividade na conservação do ambiente.
5. CONCLUSÕES ARTICULADAS
5.1 O estabelecimento de áreas protegidas foi um alternativa encontrada pela sociedade moderna para preservar porções de vegetação nativa, locais de notável
beleza cênica e a vida selvagem, assegurando assim a manutenção da biodiversidade. A idéia inicial era preservar a natureza, considerada virgem e intocada, da
degradação e abusos cometidos pelo ser humano.
5.2 Estudos recentes contrariam a velha dicotomia homem versus natureza, e sugerem que determinadas ações antrópicas podem ser positivas para a manutenção
da biodiversidade. Dessa forma, o estilo de vida das populações tradicionais vem
sido estudado e valorizado como possível alternativa para os atuais esquemas de
manejo de recursos.
5.3 Documentos e tratados internacionais reconhecem o direito que as comunidades tradicionais possuem sobre seu território, sobre seus costumes e estilos de
vida. Reconhecem também a estreita dependência desse povos em relação aos
recursos naturais, para sua reprodução física e cultural.
5.4 O conhecimento acumulado ao longo de gerações, baseado em experiências,
erros e acertos e a dependência direta dos ciclos naturais para suas atividades,
permite que essas populações desenvolvam habilidades e formas de manejo específicas para aquele tipo de ambiente; o que explica o sucesso de compatibilizar o
uso dos recursos e a sua conservação.
5.5 Garantir a participação das populações locais no processo de tomada de decisões que envolvem seus territórios e estilos de vida, é, além da garantia de um direito, uma oportunidade para promover o desenvolvimento sócio-econômico local
e para o estudo dos conhecimentos e técnicas utilizados por essas comunidades,
conciliando atividades humanas e conservação ambiental.
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RESPONSABILIDADE AMBIENTAL DOS
FABRICANTES DE EMBALAGENS RECICLÁVEIS
MARCOS VINÍCIUS ZIMMERMANN
Discente do Curso de Direito da Unioeste, campus Marechal
Candido Rondon-PR, bolsista do PIBIC/UNIOESTE/PRPPG
ELIZÂNGELA TREMÉA FELL
Mestre em Ciências Sociais Aplicadas – Interdisciplinar pela UEPG,
Professora de Direito Ambiental e Agrário da UNIOESTE, Campus
de Marechal Candido Rondon, Pesquisadora do Grupo de Pesquisa
Hermenêutica das Ciências e Soberania Nacional da UNIOESTE e
Orientadora de pesquisas no PIBIC/UNIOESTE/PRPPG
1. A ECO-RESPONSABILIDADE EM DEBATE
Com o implemento de novos paradigmas econômicos apercebeu-se que um
desenfreado desenvolvimento redundaria em problemas ambientais de grande
monta. Desta feita, com o intuito de coibir este descontrole, necessário se fez a
elaboração de medidas para guarnecer o meio ambiente, da ação humana.
Neste contexto, surgiu a idéia da conscientização ecológica. Através deste
abalizamento ético a sociedade tende a encarar o respeito à biota como fator primordial para a sobrevivência. Assim, “a importância da preservação dos recursos naturais passou a ser preocupação mundial e nenhum país pode eximir-se de
sua responsabilidade.”1
Dado esta crescente inquietação, a profusão da educação ambiental demonstrou-se um bom caminho para reconectar o homem ao meio, contudo a mesma
demonstra possuir bases com pouca solidificação. Este nosso ponto de vista é de
melhor visualização em uma maior análise dos projetos ligados à preservação da
natureza. Em uma rápida análise dos mesmos, causa nos a impressão que a presença do fator “recursos financeiros” é essencial não só para o desenvolvimento
inicial dos projetos, mas também para sua manutenção.
Assim sendo, o que se quer demonstrar, ainda que de maneira supérflua,
é a de que para uma verdadeira conscientização ecológica, transcorrer-se-á um
grande lapso temporal, haja vista que em grande parte, a consciência ambiental é
“mantida”.
Desta monta, devido a maleabilidade da retidão ambiental, entra em discus-
1
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SIRVINKAS, Luís Paulo. Manual de Direito Ambiental. 5 ed. São Paulo: Saraiva, 2007. p. 3
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são a questão da eco-responsabilidade. Em um prisma geral, eco-responsabilidade
seria a conscientização humana da necessidade de construção de um ambiente
harmônico entre homem e meio. Neste contexto, ao nos tornarmos seres ecologicamente responsáveis, passaríamos do plano da simples conscientização ecológica. Esta passagem, dar-se-ia em virtude de que, a conscientização ecológica pertencer ao mundo próprio do indivíduo, isto é, está apenas em um plano abstrato.
Enquanto isso, na eco-responsabilidade há mecanismos de controle e perpetuação
deste compromisso, papel este delegado ao Direito.
Por isso, nos delineando por parâmetros lógicos, passar-se-á ao desenvolvimento da relação Direito versus Responsabilidade.
2. A RESPONSABILIDADE
Como humanos que somos, tendemos a praticar inúmeras ações. Seja no trabalho, em casa, nas atividades de lazer, estamos a todo o momento agindo. Destas
realizações poderão surgir responsabilidades, e, em alguns casos, conseqüências
jurídicas.
Assim sendo, demonstra-se que apenas algumas ações transmudam para o
campo jurídico. Tal diferenciação ocorre, em conseqüência de que, algumas responsabilizações permanecem abstratas, qual seja, a responsabilidade moral.
Assim, como já demonstramos pequena diferenciação da eco-responsabilidade com a conscientização ecológica, tal distinção dá-se com a responsabilidade,
sendo de um lado moral e de outro civil.
A responsabilidade moral se assemelha à conscientização ecológica, pois em
ambas não há coerção normativa. Já na eco-responsabilidade e na responsabilidade civil, há uma força reguladora, no caso, o Estado, que permeia as relações.
Portanto, para nós continua necessário apenas o esmiuçamento da responsabilidade civil. Entretanto, aproveitando a deixa do capítulo exposto, é insigne uma
rápida passagem sobre as responsabilidades solidária e subsidiária, para melhor
entendimento da tese que se propõe.
Entende-se por solidária a co-responsabilização entre as partes, isto é, quando o dever de assumir as conseqüências jurídicas dos atos é de mais de um ente.
Neste caso, em especial, se opera a responsabilização de qualquer um, independentemente de resposta de um deles.
Assim sendo, de maneira mais precisa, na responsabilidade solidária encontramos uma indivisibilidade da responsabilização com o intuito de reforçar o
vínculo entre os co-responsáveis.
Diferentemente da responsabilidade solidária, na subsidiariedade da responsabilidade, embora mais de um ente assuma o resultado jurídico da ação/omissão,
aqui um dos co-responsáveis responde preferencialmente ao outro, com a conseqüente “complementação” da obrigação.
Desta monta, ainda que também tenha por objeto eventual reforço da coresponsabilidade, na subsidiariedade não se perfaz igualmente a extensão da culpabilidade. Apenas se amplia o leque obrigacional, sendo que o responsável sub-
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sidiário responderá somente após o não cumprimento das conseqüências do ato
pelo agente principal.
2.1 Responsabilidade Civil
Devido à proposta do presente artigo, pretende-se abordar a questão da responsabilidade civil de maneira breve, mas nem por isso improfícua.
De uma maneira simplista, entende-se por responsabilidade, no campo jurídico, como um dever de cuidado, onde que em eventual agressão à norma existente, o agente responderá por sua conduta. Ou melhor,
“.[...] responsabilidade, para o Direito, nada mais é, portanto, que uma obrigação derivada – um dever jurídico sucessivo – de assumir as conseqüências
jurídicas de um fato.”2
Segundo doutrina, distingue-se a responsabilidade civil em objetiva e subjetiva.
Decorre esta de ato doloso ou culposo do ator da ação, sendo que, em princípio, a conseqüência jurídica a ser suportada será uma eventual obrigação de
indenizar. Trata-se de eventualidade não pelo fato de o agente poder optar pela
indenização ou não, mas sim devido ao fato que dependerá da busca do atingido
pelo ato, para que, caso provocado, sustente a conseqüência do seu ato.
Por se tratar de responsabilidade subjetiva, deve decorrer o ato de culpa,
seja por negligência ou imprudência. Para a caracterização da responsabilidade, a
culpa poderá ser direta ou indireta.
Esta decorre de ato do próprio agente, enquanto que naquela, o ato é praticado por terceiro com o qual este possui um dever de cuidado. Assim sendo, na
responsabilidade civil indireta, presume-se a culpa do réu em virtude de inoperância do dever de vigilância. Já na responsabilidade civil direta, a tão só aferição de
culpa ao réu é suficiente para o pedido cominatório.
Afora o já lançado entendimento sobre a responsabilidade civil subjetiva, há
caso em que a culpa não é elemento essencial caracterizador da responsabilidade.
Neste sentido, para que se evidencie a responsabilidade do agente, é preciso que
se estabeleça um nexo de causalidade da conduta do mesmo com o dano surgido.
Este é o contexto necessário para o surgimento da responsabilidade civil objetiva. E, embora na sistemática no Código Civil a opção deu-se pela via subjetiva,
para o desenvolvimento do nosso estudo, voltado ao Direito Ambiental, é de suma
importância a assimilação da teoria objetiva.
De acordo com o Código de Consumo a responsabilidade civil do fabricante, dentro do já explanado, é a objetiva. Tal assertiva advém da propositura legislativa quando adverte que a responsabilidade dos fabricantes, fornecedores existirá
“independentemente da existência de culpa.” Ainda que ligeiramente deslocado
2
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GAGLIANO, Pablo Stolze; FILHO, Rodolfo Pamplona. Novo Curso de Direito Civil. Vol. 3. São Paulo: Saraiva, 2003.p. 3.
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de sua propositura inicial, qual seja, a de responsabilização por fato do produto e
do serviço, é notória a escolha legal.
Nessa senda, é salutar que se frise este aspecto, para análise da responsabilidade ambiental dos entes nas relações de consumo. Contudo, há de se ressaltar,
que no momento oportuno pretendemos esclarecer a ligação entre fato do produto/poluição, tendo em vista a utilização da responsabilidade no consumo como
base de nosso estudo.
Segundo a doutrina pátria, adotou-se na sistemática brasileira a responsabilização objetiva em matéria de dano ambiental. (SIRVINKAS, 2007, p. 155)
Andou bem o legislador neste quesito, haja vista uma maior amplitude de
cuidado que as conseqüências de um eventual dano ambiental requerer. Também,
neste caso fez-se necessário a escolha pela teoria objetiva pela dificuldade de
comprovação da culpa, analisando a partir de então apenas a relação entre o dano
e o nexo causal.
Neste ínterim, conforme abordaremos de melhor monta posteriormente, é
importante a compreensão que a responsabilidade do fabricante de produtos recicláveis no dano ambiental existirá independente da comprovação de culpa.
3. DAS EMBALAGENS
As modificações implementadas no pós Revolução Industrial propiciaram o desenvolvimento das urbes. Dentre as alterações, destaca-se a mudança
gradativa dos hábitos de manuseio dos produtos. Por isso, com o desenvolvimento da humanidade, necessário se fez o acondicionamento de produtos em
embalagens.
Seja para armazenamento, transporte, viabilidade de consumo, etc, o uso de
embalagens tornou-se imprescindível. Esta nova estruturação difere totalmente do
paradigma anterior, onde a comercialização e o transporte davam-se pela existência de mercadorias “a granel.”
Em determinados segmentos comerciais esta espécie de venda ainda é praticada, contudo em menor monta.
Neste contexto, como exposto acima, iniciou-se o desenvolvimento de recipientes que propiciassem o acondicionamento dos produtos. Estes recipientes,
hoje, possuem demasiada importância na relação de consumo, haja vista que o
invólucro dos produtos atrai e/ou motiva a opção do comprador.
Como matéria-prima principal das embalagens descobriu-se inúmeras bases,
como o alumínio, a borracha, a fibra, o papelão, o plástico, etc. Estas bases, não
podem ser utilizadas de maneira indiscriminada. Este cuidado deve ser observado,
pois os componentes da embalagem não podem interferir de maneira brusca no
objeto armazenado, ou seja, alterar os componentes químicos do produto.
Assim sendo, o aprimoramento das embalagens conquistou importância a
ponto de grandes empresas criarem setores específicos para o desenvolvimento
destes recipientes.
Contudo, como nosso objetivo precípuo não é o de identificar as melhores
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espécies de embalagem, nos interessa primordialmente, tomar conhecimento apenas das embalagens advindas de matéria reciclável.
3.1 As Embalagens e a Recuperação Energética
No processo de fabricação de embalagens despende-se demasiada quantidade energética. Ainda que a comparação entre a “ambientalidade” das embalagens
seja bastante abstrata, passar-se-á à abordagem de tal processo.
Como qualquer processo industrial, no procedimento que findará em uma
embalagem, há o dispêndio de carga energética. A análise da quantidade de energia gasta advém da utilização dos recursos hídricos, energia elétrica, matériasprima finitas, etc,
Assim como qualquer outro produto industrial sólido, as embalagens deveriam ter uma destinação específica. A não observância de preceitos básicos de
cuidado para com a aplicação destes resíduos, redunda em inúmeros gastos ambientais.
Os principais danos ambientais ocasionados pela cumulatividade de resíduos sólidos e consequentemente, seu não aproveitamento, são: a poluição hídrica,
poluição do solo, esgotamento dos recursos finitos, etc.
Passar-se-á a análise destes pormenores.
3.1.1 A Poluição da Água
Dentre os recursos naturais de maior valor está a água. Seja a água para
consumo, a água do mar, a água dos lençóis freáticos, ela é essencial para a sobrevivência na Terra.
Entretanto, com o desenvolvimento dos centros urbanos, ampliação das práticas agrícolas e pecuárias e o crescimento da população mundial, tornou-se evidente o desvelo do homem para com a água.
Assim, com esta sobreposição de valores, o bem água versus desenvolvimento, a poluição das reservas aquáticas resta notória. Neste contexto, entende-se
por poluição hídrica
“a degradação da qualidade ambiental resultante de atividade que direta ou
indiretamente lance matérias ou energia em águas em desacordo com os padrões ambientais estabelecido.”3
Como propulsores desta degradação e posteriormente, do esgotamento deste
recurso natural, está o está o depósito de matéria orgânica tanto quanto de inorgânicas.
A matéria orgânica é responsável por parte da degradação ambiental, pois
durante o processo de sua decomposição, proliferam-se as bactérias, responsáveis
3
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SIRVINKAS, Luís Paulo. Manual de Direito Ambiental. 5 ed. São Paulo: Saraiva, 2007. p. 201.
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106
12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
por este processo. Neste ínterim, durante esta proliferação as bactérias competem
por oxigênio com os demais componentes do ambiente aquático. Desta monta, o
desequilíbrio ecológico será grande, ainda mais se pensarmos no crescimento de
seres que se alimentam das bactérias.
Ainda, há o acúmulo de matéria inorgânica. De difícil decomposição pela
ação das bactérias, os resíduos sólidos concentrados em ambiente aquático comprometem os mananciais e os cursos d’água, tornando-se necessário maior dispêndio para que a água seja utilizável.
Nessa senda, boa parte da poluição dos recursos hídricos advém da má destinação das embalagens. Por isso, a eficácia da realocação das embalagens descartáveis, contribui de duas maneiras. Primeiramente, ao contribuir com o resgate
da qualidade do sistema aquático.E, por fim, com a redução do gasto energético e
hídrico na produção de novas embalagens.
3.1.2 A Poluição do Solo
Em virtude do crescimento populacional e, consequentemente, das relações
de consumo, o ambiente natural sofreu uma artificialização. Com o implemento
de novas tecnologias, desenvolveram-se produtos de maior aptidão comercial, porém, em geral, de menor responsabilidade ambiental.
Esta corrida pelo ganho de mercado sem o devido respaldo ambiental contribuiu para o aumento de um dos maiores problemas ambientais, a poluição do
solo.
Há inúmeras causas para a poluição do solo, como o depósito de resíduos
sólidos, utilização de agrotóxicos, atividades de mineração, etc. Devido ao tema,
dissertar-se-á apenas sobre o primeiro.
Os resíduos sólidos são, em regra, materiais com solidez que advém da atividade humana, seja ela industrial, agrícola ou doméstica. Esta espécie de material
é visto como grande agente poluidor não só pela periculosidade dos componentes
dos produtos depositados, mas também pela poluição visual que provoca.
Na categoria dos resíduos sólidos não como deixar de lado a citação das
embalagens, descartáveis ou não. Embora o número de unidades de coleta de
material descartável tenha crescido, ainda que resultado de problemas sócio-econômicos, o descaso é grande.
A importância da coleta e reciclagem é sopesada. Ainda mais, quando se
apercebe que com o incremento desta última, haverá recuperação de água, matéria-prima e, sobretudo, energia.
3.1.3 A Escassez dos Recursos Finitos
A matéria-prima utilizada na maioria das embalagens é finita. Desta monta,
a utilização racional destes recursos é primordial para a continuidade de seu uso.
Ao levar-se em conta o gasto ambiental na produção de embalagens, nota-se que
algumas medidas devem ser tomadas.
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Ou seja, o controle ambiental do desperdício de matéria-prima inicia-se no
combate as causas, consumo desenfreado, artificializaçao dos produtos, etc.
Neste contexto, a sustentabilidade do uso de energia passa pelo uso racional
dos recursos finitos. A não incidência de medidas protetivas acarreta a debilidade
das fontes dos recursos.
Não havendo a correta destinação das embalagens, para que se possa continuar a fazer uso delas, todo o custo ambiental do processo industrial para fabricação de embalagens será somado. Portanto, a razoável utilização e principalmente,
a reutilização das embalagens é um dos caminhos para a sustentabilidade energética do planeta.
4. O PAPEL DO DIREITO NA RESPONSABILIDADE AMBIENTAL DOS FABRICANTES DE
EMBALAGENS RECICLÁVEIS
Com o advento da Lei n 8.078/90 tornou-se clarividente a preocupação com
a proteção das relações de consumo. Seja pela imposição de multas, pela possibilidade de interposição de ações coletivas para a defesa de interesses individuais
homogêneos, etc, a nova codificação abriu novos caminhos para o ordenamento
jurídico.
Dentro deste parâmetro, estendeu-se aos fabricantes dos produtos a responsabilidade sobre algumas condutas.
Contudo, o alcance da responsabilidade, em essência, é limitado. Assim sendo, segundo a disposição legal a reparação por parte dos fabricantes dar-se-á.
Desta monta, a extensão da responsabilidade para o campo ambiental é de
tarefa árdua, que exige o debate. Recentemente, iniciando-se a “jornada” legislativa do assunto, foi proposta pelo deputado estadual do Rio de Janeiro, Carlos
Minc (PT). Trata o projeto, aprovado como lei n 3369/00, das disposições sobre
serviço de coleta, reciclagem e disposição final de garrafas e embalagens plásticas. Segundo o autor do projeto de lei, “responsabilidade pelos produtos é dos
fabricantes, que são obrigados a recomprar as embalagens.”4
Assim, ainda que o projeto esteja voltado apenas para embalagens plásticas,
este é um exemplo a ser estudado quanto a viabilidade de sua aplicação as demais
espécies de embalagens recicláveis.
Para nós, exigir a inteira recuperação das embalagens recicláveis seria um
projeto puramente utópico, sem valor prático algum. Por isso, o ideal seria uma
quantificação mínima, arbitrada por lei, para o recolhimento dos recipientes. Considerar como possível a captura de todas as embalagens deverá necessariamente
passar por uma discussão, também, do papel do consumidor neste projeto.
Nessa senda, para não nos atermos a simples divagações explanaremos dois
exemplos, um em âmbito pátrio e outro internacional de reaproveitamento de embalagens.
4
WERNECK, Felipe. Empresas Lançam Programa Para Estimular Reciclagem. Disponível em << http://www.reciclaveis.
com.br/noticias/0801006amb.htm >> Acesso em: 19 de março de 2008, 14h:30min
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12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
No Brasil, a responsabilidade ambiental dos fabricantes de alguns produtos
está disposta nas Resoluções nº 258/99 e 257/99 do Conselho Nacional do Meio
Ambiente (CONAMA).
Aquela trata da destinação final de pneus usados, enquanto esta trata do destino de pilhas e baterias. Porém, ainda que seja louvável a tentativa de regularizar
o destino destes resíduos, no caso das pilhas e baterias não há um maior comprometimento dos fabricantes.
De acordo com a leitura dos artigos da resolução nº 257/99, não caberá aos fabricantes e seus revendedores captar os materiais usados. A responsabilidade destes
e daqueles se resume a manter unidades de coleta dos materiais e na aceitabilidade
do material independentemente de ter sido revendido por aquela unidade.
Diferentemente, na resolução sobre pneus, as empresas importadoras e as
fabricantes dos pneumáticos estão obrigadas a coletar e a dar destino ambientalmente adequado aos pneus. No caso dos pneus, há especificação legal de proporcionalidade entre pneus fabricados e/ou importados e as unidades coletadas.
Neste sentido, dever-se-ia adotar idêntico procedimento quanto ao destino
das pilhas e baterias. Não se pode apenas manter unidades de coleta que obrigam
o coletor a dar destino final ao produto somente se o consumidor consciente der
fim certo ao mesmo. Ainda mais, quando a própria resolução admite que determinados tipos de pilha e bateria, dependendo do nível dos componentes químicos
possam ser jogados em aterros sanitários.
Por isso, uma mudança na resolução acerca de pilhas e baterias é necessária.
Ela deve modificar não só os parâmetros técnicos da coleta (níveis químicos), mas
principalmente a responsabilidade ambiental dos fabricantes.
Porém, o mote principal deve ser o de transpor esta responsabilidade também para os fabricantes de embalagens. A poluição ocasionada pelas embalagens
é proporcional à poluição provocada por pilhas, baterias e pneus.
Este caso já ocorre na legislação estrangeira. Em Portugal, o Decreto-Lei nº
162/2000 alterou os artigos 4º e 6º do Decreto-Lei nº 366-A/97, que estabelece os
princípios e as normas aplicáveis ao sistema de gestão de embalagens e resíduos de
embalagens. Para deslinde do nosso trabalho, é insigne a citação do quarto artigo.
“Artigo 4.º
[...]
4 - Os embaladores e importadores de produtos embalados são responsáveis
pela prestação de contrapartidas financeiras destinadas a suportar os acréscimos de custos com a recolha selectiva e triagem de resíduos de embalagens.
5 - Os fabricantes de embalagens e de matérias-primas de embalagens são responsáveis pela retoma e valorização dos resíduos de embalagens, directamente ou através de organizações que tiverem sido criadas para assegurar a retoma e valorização dos materiais recuperados.
6 - ...
7 - Os produtores de resíduos de embalagens não urbanas têm de proceder, dentro das suas instalações, à recolha selectiva e triagem desses resíduos e providenciar a sua valorização, directamente em unidades devidamente licenciadas
para o efeito ou de acordo com o disposto no artigo seguinte.”[sic]
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Da análise do referido dispositivo percebe-se deste logo a diferença no tratamento do tema. Na legislação extraterrestre citada, os fabricantes de embalagens
são responsáveis, pela coleta, pela contribuição financeira com os gastos ambientais das embalagens e ainda, com a recuperação destas embalagens.
Assim, torna-se clarividente o atraso legislativo no que diz respeito a assunto
de tamanha relevância. Por mais que a norma adrede também seja nova, a legislação pátria não se pode retardar o tratamento do tema.
A lei, ainda que deva ser encarada como medida final, nos parece ser neste
momento a única medida eficaz para o descaso. A conscientização ecológica desprovida de retorno financeira demonstra-se ineficiente.
Desta feita, a responsabilidade ambiental dos fabricantes de embalagens
merece um controle adequado. Ao acarretar eventuais responsabilizações financeiras, diminuirá consequentemente o desprezo pelos danos ambientais. Acaso o
produtor decida incrementar valor ao produto final, haverá diminuição do consumo. Ao diminuir este, atenua-se a poluição.
Deve-se, pois, especificar o papel de cada um dos entes na relação de consumo, para uma correta responsabilização de todos os envolvidos.
5. CONCLUSÕES ARTICULADAS
5.1 A discussão da responsabilidade não pertence mais apenas ao Direito. A idéia
de culpabilizar as conseqüências dos atos transpassa esta área de estudo. Eis assim, que a noção de responsabilidade ambiental tem sido debatido nas mais variadas esferas do saber, onde não se pode alegar sua ignorância.
5.2 As embalagens possuem função precípua nas relações de consumo. Contudo,
demonstra-se que é louvável uma readequação no modelo de utilização e reutilização deste produto. Esta medida é de suma importância para o uso sustentável
de energia.
5.3 A responsabilidade ambiental dos fabricantes de embalagens está intrinsecamente ligada com a sustentabilidade energética. Assim sendo, é preciso que o
Direito exerça seu papel de coerção.Desta monta, ao ocasionar danos ambientais,
ainda que desprovido de culpa, o fabricante e seus subsidiários responderão, contribuindo com o uso sustentável de energia.
5.4 O princípio do poluidor-pagador poderia englobar o tratamento a este tema.
Todavia, tem se demonstrado de grande brandura, motivo pelo qual medidas coercitivas de maio intensidade são necessárias.
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O CICLO DOS PROJETOS DE MECANISMO DE
DESENVOLVIMENTO LIMPO (MDL)
MIGUEL FRANCO FROHLICH
Graduando em Direito na PUC-RJ, membro do Grupo de Estudos de
Direito Ambiental do Núcleo Interdisciplinar de Meio Ambiente da
PUC-RJ e estagiário do Barbosa, Müssnich & Aragão Advogados
1. INTRODUÇÃO
Após a intensificação das evidências científicas relacionadas às mudanças
climáticas, com a respectiva divulgação do 1º Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC)1 em 1990, a necessidade de estruturação
de um regime de cooperação entre os países para conter a elevação da temperatura
global foi superada no dia 9 de maio de 1992, quando foi adotada a ConvençãoQuadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC)2.
Referido acordo internacional foi posteriormente ajustado e complementado, a fim de estabelecer metas individuais quantitativas aos países desenvolvidos, com base na contribuição histórica destes para o agravamento do efeito
estufa. Desta forma, durante a 3ª Conferência das Partes (COP-3)3, realizada
na cidade de Quioto, em dezembro de 1997, os países presentes no Anexo I da
UNFCCC assumiram a responsabilidade pela redução das emissões globais de
gases de efeito estufa4 em pelo menos 5% dos índices medidos em 1990, durante
o período de 2008 a 2012 (1ª fase de implementação), por meio da aprovação
do Protocolo de Quioto.
Em observância ao princípio das responsabilidades comuns, porém diferen-
1
Em inglês, Intergovernamental Panel on Climate Change (IPCC). O IPCC foi criado em 1988, pelo Programa das
Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA e pela Organização Meteorológica Mundial – OMM e vem desempenhando função relevante na comunidade científica, realizando a análise e a compilação dos principais estudos sobre
as mudanças climáticas e estabelecendo projeções para o comportamento da temperatura global. Em 2007, o IPCC divulgou seu 4º Relatório, estimando em 90% a chance de o aquecimento global observado no último século ter sido causado pela ação antrópica. Para mais informações, acesse <http://www.mct.gov.br/index.php/content/view/50401.html>.
Acesso em 02/04/2008.
2
Em inglês, United Nations Framework Convention on Climate Change (UNFCCC). Para mais informações, acesse
<http://unfccc.int>. Acesso em 02/04/2008.
3
A Conferência das Partes é o órgão supremo da UNFCCC, responsável pela implementação dos acordos firmados, pelo
exame periódico dos mecanismos institucionais estabelecidos e pela tomada de decisões necessárias para reduzir a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, dentre outras atribuições. Após a entrada em vigor do Protocolo de Quioto, a
Conferência das Partes passou a funcionar também como Reunião das Partes (em inglês, Meeting of the Parties – MOP),
permitindo que países signatários da UNFCCC, mas que não ratificaram o Protocolo de Quioto, pudessem comparecer na
qualidade de observadores, sem direito à tomada de decisões.
4
No seu Anexo A, o Protocolo de Quioto prevê os seguintes gases de efeito estufa: (i) dióxido de carbono (CO2); (ii)
metano (CH4); (iii) óxido nitroso (N2O); (iv) hidrofluorcarbonos (HFCs); (v) perfluorcarbonos (PFCs); e (vi) hexafluoreto
de enxofre (SF6).
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ciadas, o Protocolo de Quioto não definiu compromissos formais de redução das
emissões aos países em desenvolvimento, pois estes contribuíram menos historicamente para a elevação da temperatura global. Optou-se, portanto, por conferir
inicialmente o ônus de mitigar os efeitos adversos das mudanças climáticas aos
países desenvolvidos, já que estes têm mais capacidade financeira para lidar com
os custos relacionados à redução das emissões, bem como mais responsabilidade
pelo fenômeno, uma vez que estes iniciaram seu processo de industrialização antes dos países em desenvolvimento.
Para facilitar o cumprimento das metas estabelecidas, o Protocolo de Quioto
desenvolveu três mecanismos de flexibilização5, criados sob a ótica de mercado, possibilitando a identificação pelos países desenvolvidos das oportunidades
com o melhor custo-benefício para a redução das emissões: (i) a Implementação
Conjunta; (ii) o Comércio de Emissões; e (iii) o Mecanismo de Desenvolvimento
Limpo.
A Implementação Conjunta (IC) permite a qualquer país do Anexo I adquirir de outro país do Anexo I unidades de redução de emissão (UREs) resultantes de projetos conjuntos destinados a reduzir as emissões de gases de efeito
estufa.
O Comércio de Emissões (CE), por sua vez, estabelece um sistema global de
compra e venda de emissões entre os países do Anexo I. Desta forma, países que
reduzirem emissões em níveis maiores que os exigidos poderão vender o excesso
para outros que não cumprirem as metas estabelecidas.
Por fim, o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) tem como função
auxiliar os países em desenvolvimento a alcançar o desenvolvimento sustentável
e contribuir para o objetivo final da UNFCCC, pois permite aos países do Anexo
I o cumprimento de uma parte de suas metas de redução a partir da aquisição de
Reduções Certificadas de Emissão (RCEs)6, provenientes de projetos voltados à
redução das emissões de gases de efeito estufa ou à remoção de dióxido de carbono da atmosfera em países em desenvolvimento.
O MDL, previsto no artigo 12 do Protocolo de Quioto, é o único mecanismo de flexibilização que permite a participação dos países em desenvolvimento,
não presentes no Anexo I da UNFCCC, como o Brasil. Dentre as atividades que
podem ser objeto de um projeto de MDL, podemos citar as relacionadas com (i)
energias renováveis; (ii) eficiência energética; (iii) cogeração; (iv) mudanças para
combustíveis de menor impacto; (v) seqüestro de carbono; (vi) gestão de resíduos
sólidos; (vii) redução de perdas de gás natural; e (viii) indústria química.
5
Cf. JAÉN, Monica. Protecting the Oceans from Climate Change: an Analysis of the Role of Selected International
Instruments on Resources and Environmental Protection in the Context of UNCLOS. In: Chircop, A.; Coffen-Smout, S.;
McConnell, M. (orgs.) Ocean Yearbook, Vol. 21, Martinus Nijhoff Publishers / Brill Academic, 2007, p. 105.
6
Em inglês, Certified Emission Reductions (CERs). Também são chamadas genericamente de créditos de carbono. Uma
RCE corresponde a uma tonelada de CO2 equivalente. Com base no índice de Potencial de Aquecimento Global dos gases
de efeito estufa (em inglês, Global Warming Potencial – GWP), definido no 2º Relatório do IPCC, as RCEs são uniformizadas para a unidade CO2 equivalente.
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O presente trabalho tem por escopo7 a análise dos procedimentos para a
elaboração de um projeto de MDL, descrevendo todos os passos necessários para
a sua concretização, com o intuito de gerar as RCEs para posterior negociação no
âmbito do chamado “mercado de carbono”.
2. CICLO DOS PROJETOS NO ÂMBITO DO MECANISMO DE DESENVOLVIMENTO LIMPO
(MDL)
Durante a 7ª Conferência das Partes (COP-7) realizada na cidade de Marraqueche, em novembro de 2001, após extensas negociações, as modalidades e
procedimentos do MDL, nos termos do artigo 12 do Protocolo de Quioto, foram
aprovados pela Decisão17/CP.7.
Referida regulamentação e as outras decisões relacionadas ficaram amplamente conhecidas como os Acordos de Marraqueche, que além de definir o ciclo
pelo qual o projeto precisa se submeter para obter as RCEs, definiu uma estrutura
institucional necessária para viabilizar o MDL, por meio da criação de órgãos
especializados, dentre eles o Conselho Executivo do MDL que, por meio dos seus
membros e do secretariado, bem como através dos painéis e grupos de trabalho
por ele criados, é o responsável pela coordenação, acompanhamento e supervisão
dos procedimentos previstos nos Acordos de Marraqueche.
A seguir, serão descritas todas as etapas do ciclo dos projetos de MDL, desde o seu estudo de viabilidade até a emissão das RCEs. Até o dia 6 de março de
2008, um total de 3.101 projetos encontrava-se em alguma fase do ciclo do MDL
e o Brasil ocupava o 3º lugar em número de atividades de projeto, com 274 projetos, cerca de 9% do total8.
2.1 Estudo de Viabilidade e Elegibilidade do Projeto
Nem toda atividade que promova a redução das emissões de gases de efeito
estufa está apta para a obtenção de RCEs. É necessário verificar previamente a
viabilidade técnico-econômica do projeto e se este atende aos critérios de elegibilidade do MDL.
Por isso, toda atividade identificada como potencialmente capaz de gerar
RCEs deve se submeter a uma avaliação inicial, denominada estudo de viabilidade, a fim de compreender melhor as suas características e analisar a sua
elegibilidade ao MDL, bem como a sua capacidade de gerar um volume de
RCEs suficiente para compensar os custos e riscos envolvidos até a emissão dos
mesmos.
7
Não estão no escopo deste trabalho as peculiaridades relacionadas aos procedimentos para projetos de pequena escala e
projetos de florestamento e reflorestamento.
8
BRASIL – MCT (Ministério da Ciência e da Tecnologia). Status atual das atividades de projeto no âmbito do Mecanismo
de Desenvolvimento Limpo (MDL) no Brasil e no mundo. Última versão: 06/03/2008. Disponível em: <http://www.mct.
gov.br/upd_blob/0023/23473.pdf>. Acesso em: 01/04/2008.
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12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
O artigo 12.5 do Protocolo de Quioto elenca três requisitos essenciais para
auferir a elegibilidade de um projeto de MDL: (i) a participação voluntária; (ii) a
existência de benefícios relacionados com a mitigação das mudanças climáticas;
e (iii) a adicionalidade.
Um projeto elegível ao MDL é aquele desenvolvido por livre iniciativa dos
seus proponentes, inexistindo qualquer imposição judicial, legal ou regulamentar,
tampouco constrangimentos oriundos da administração pública para a sua elaboração. A participação voluntária é caracterizada, portanto, pela demonstração da
opção de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, via projeto de MDL, por
livre e espontânea vontade das partes.
Além disso, a implementação de um projeto de MDL deve promover, comprovadamente, a redução das emissões de gases de efeito estufa, gerando, portanto, benefícios reais, mensuráveis e de longo prazo relacionados com a mitigação
das mudanças climáticas.
Desta forma, a correta quantificação da redução das emissões faz-se necessária para a comprovação dos benefícios atribuídos ao projeto, por isso a obrigatoriedade da verificação e certificação, etapas do processo que serão abordadas
posteriormente. Com elas (verificação e certificação), fica demonstrado que a atividade desenvolvida no projeto atingiu quantidade certa, expressa em toneladas
de redução de emissões de gases de efeito estufa9.
Cumpre salientar que, em relação à perpetuação dos benefícios do projeto, a
expressão “longo prazo” não foi formalmente definida, sendo, portanto, um conceito subjetivo a ser comprovado pelos participantes do projeto no caso concreto,
conforme o princípio da razoabilidade.
Por fim, temos o requisito da adicionalidade10, seguramente o conceito mais
controverso do MDL11. Para atender a este requisito, o projeto deve comprovar
que as reduções de emissões almejadas serão adicionais as que ocorreriam na
ausência da atividade certificada do projeto. A conceituação de adicionalidade
engloba tanto a vertente ambiental quanto a financeira12.
Para a demonstração da adicionalidade, é necessário traçar um cenário de
referência, também chamado de business-as-usual scenario, em que serão quantificadas e qualificadas as emissões de gases de efeito estufa que ocorrem na ausência do projeto. Esse cenário servirá de fundamento para a definição da linha
de base, calculada a partir de metodologia previamente aprovada pelo Conselho
9
Cf. FRANGETTO, Flavia W.; GAZANI, Flavio R. Viabilização Jurídica do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo
(MDL) no Brasil – O Protocolo de Quioto e a Cooperação Internacional. São Paulo: Peirópolis; Brasília, DF: IIEB – Instituto Internacional de Educação do Brasil, 2002, pp. 61-62.
10
Para auxiliar a demonstração da adicionalidade,o Comitê Executivo elaborou um procedimento específico, denominado
“Ferramenta para Avaliação de Demonstração da Adicionalidade”. Para mais informações: <http://cdm.unfccc.int/methodologies/PAmethodologies/AdditionalityTools/Additionality_tool.pdf>. Acesso em: 01/04/2008.
11
Cf. ESPARTA, A. Ricardo J. Energia e Mecanismo de Desenvolvimento Limpo do Protocolo de Quioto no Brasil. In:
Souza, Rafael P. (coord.) Aquecimento Global e Créditos de Carbono. São Paulo: Quartier Latin, 2007, p. 196.
12
Cf. LIMA, Lucila F. A Implementação Jurídica do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo e a Geração de Créditos de
Carbono. Atualização da dissertação de mestrado em Direito Público Internacional, defendida em 13 de abril de 2004, na
Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo denominada “A Moldura Regulatória Internacional do Mecanismo de
Desenvolvimento Limpo do Protocolo de Quioto”, sob a orientação do Professor Guido Fernando Soares Silva. Edição
eletrônica, 2006, p. 124.
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Executivo do MDL, abrangendo as emissões de todos os gases, setores e categorias de fontes listadas no Anexo A do Protocolo de Quioto que ocorram dentro do
limite do projeto13.
O número de RCEs derivados da atividade será, portanto, calculado pela diferença entre as emissões da linha de base e as emissões verificadas em decorrência da atividade do projeto, incluindo as fugas14. A referida diferença representa a
adicionalidade ambiental do projeto.
Além disso, os participantes devem comprovar que a implementação da atividade depende dos recursos financeiros a serem gerados com a comercialização
dos RCEs. Em outras palavras, a adicionalidade financeira está presente quando
demonstrado que a implementação de eventual inovação tecnológica ou a melhoria no processo produtivo, capaz de gerar a redução das emissões de gases de efeito estufa, não seria efetuada sem o incentivo econômico promovido pelo MDL.
2.2 Elaboração do Documento de Concepção do Projeto (PDD)
Para facilitar a apresentação de todas as informações necessárias para a análise dos projetos submetidos, o Conselho Executivo do MDL desenvolveu um
instrumento básico, denominado Documento de Concepção do Projeto15 (PDD),
sendo sua estrutura aprovada na 8ª Conferência das Partes da UNFCCC, realizada
na cidade de Nova Deli em outubro de 2002.
O PDD contém todas as informações relevantes da atividade do projeto e
seus respectivos participantes, sendo também descritas as metodologias aplicadas
para a definição da linha de base, para o cálculo da redução de emissões de gases
de efeito estufa e para o estabelecimento dos limites do projeto e das fugas, bem
como o plano de monitoramento. As justificativas para a utilização dessas metodologias, a demonstração da adicionalidade do projeto, o período de obtenção de
créditos16, os possíveis impactos ambientais oriundos das atividades, os comentários dos atores e as eventuais fontes adicionais de financiamento também são
mencionados no PDD.
Vale ressaltar que os participantes do projeto podem (i) utilizar metodologias previamente aprovadas pelo Conselho Executivo do MDL; (ii) submeter uma
13
Considera-se limite do projeto (em inglês, project boundary) as emissões de gases de efeito estufa sob controle dos
participantes do projeto que sejam, significativas e atribuíveis, de forma razoável, a essas atividades.
14
Fuga (em inglês, leakage) corresponde ao aumento de emissões de gases de efeito estufa que ocorre fora do limite do
projeto do MDL que, ao mesmo tempo, seja mensurável e atribuível a essa atividade de projeto. A fuga é deduzida da
quantidade total de RCEs obtidas pela atividade de projeto do MDL. Dessa forma, são considerados todos os possíveis
impactos negativos em termos de emissão de gases de efeito estufa da atividade de Projeto de MDL. Cf. Mecanismo de
Desenvolvimento Limpo – MDL: Guia de Orientação, Ignez Vidigal Lopes (org.), Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2002. Disponível em: <http://www.mct.gov.br/upd_blob/2634.pdf>. Acesso em 02/04/2008.
15
Em inglês, Project Design Document (PDD). Este documento base está disponível em <http://cdm.unfccc.int/Reference/
Documents/cdmpdd/English/CDM_PDD.pdf>. Acesso em 27 mar. 2008.
16
Os participantes de projeto devem selecionar um período de obtenção de créditos para uma atividade de projeto proposta
entre as seguintes abordagens alternativas: (i) um máximo de sete anos, que podem ser renovados até no máximo duas
vezes, desde que, para cada renovação, uma EOD determine e informe ao Conselho Executivo do MDL que a linha de base
original do projeto ainda é válida ou foi atualizada levando em conta a existência de novos dados, se for o caso; ou (ii) um
máximo de dez anos sem opção de renovação.
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nova metodologia ao Painel de Metodologias do MDL para aprovação; ou (iii)
solicitar um desvio de uma metodologia previamente aprovada, a fim de que esta
se torne aplicável também ao projeto proposto.
2.3 Validação
Após a sua conclusão, o PDD deve ser encaminhado para uma Entidade
Operacional Designada (EOD), pelos participantes do projeto, para a sua validação. A EOD é uma certificadora independente, credenciada junto ao Conselho
Executivo do MDL, que analisará as informações descritas no PDD atestando a
conformidade do projeto em relação ao preenchimento dos requisitos de elegibilidade do MDL, às metodologias para a definição da linha de base, monitoramento
e cálculo da redução das emissões, dentre outros fatores da atividade que necessitem de validação.
A EOD também avaliará se os Estados-partes que participam do projeto
ratificaram o Protocolo de Quioto, se o PDD indicou uma Autoridade Nacional
Designada (AND)17 que procederá a aprovação, bem como analisará os comentários dos atores e os eventuais impactos ambientais relacionados à atividade do
projeto.
Vale ressaltar que o PDD deverá ser exposto ao público pelo prazo de 30 dias
para que os atores e organizações internacionais credenciados junto à UNFCCC
façam os comentários sobre os requisitos de validação das partes18.
Decorridas essas etapas, a EOD emitirá um relatório de validação, em que
será recomendada a aceitação e o registro do projeto perante o Conselho Executivo do MDL ou a fundamentação das razões para o indeferimento da validação.
2.4 Aprovação pela Autoridade Nacional Designada (AND)
No Brasil, compete à Comissão Interministerial de Mudança Global do Clima (CIMGC) a apreciação e a aprovação dos projetos de MDL, considerando que
esta é a Autoridade Nacional Designada (AND).
Por sua vez, os critérios para aprovação dos projetos no Brasil, bem como
os aspectos a serem abordados pelos seus participantes, estão previstos na
Resolução CIMGC n° 1, datada de 11 de setembro de 2003. Com o intuito de
obter a carta de aprovação declarando que a participação no projeto de MDL
proposto é voluntária e que a atividade contribui para o desenvolvimento sustentável, os participantes devem enviar à Secretaria Executiva da CIMGC, em
meio eletrônico e impresso, a documentação prevista no artigo 3º da referida
17
Conforme será exposto adiante, a AND é a responsável por atestar a participação voluntária dos projetos, bem como a
contribuição destes para o desenvolvimento sustentável. Os Governos de países participantes do MDL devem designar uma
AND junto à UNFCCC. Para mais informações: <http://cdm.unfccc.int/DNA/index.html>. Acesso em: 01/04/2008.
18
LIMA, Lucila F. Op. Cit., p. 144.
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Resolução19. Para facilitar o procedimento de aprovação, a referida Secretaria
Executiva elaborou um Manual para a Submissão de Projetos de MDL à CIMGC20.
Vale ressaltar que a CIMGC exige a validação do projeto pela EOD antes de
emitir o seu parecer sobre a aprovação do mesmo. O relatório de validação consta
no rol de documentos a serem apresentados à CIMGC, devendo ter sido emitido
em caráter final.
Por fim, a CIMGC deverá proferir a decisão final sobre o pedido de aprovação do projeto em até 60 dias após a data de sua 1ª reunião ordinária subseqüente
ao recebimento da documentação mencionada.
2.5 Registro
Após a validação e aprovação, o projeto precisa ser aceito formalmente pelo
Conselho Executivo do MDL, por meio do registro, sendo este um pré-requisito
para a verificação, certificação e emissão das RCEs.
A requisição de registro deve ser submetida ao Conselho Executivo pela
EOD, na forma de um relatório de validação que, ao ser transmitido, torna-se
público, incluindo o PDD, a aprovação por escrito da Parte anfitriã e um esclarecimento da EOD referente ao procedimento de análise dos comentários recebidos
relacionados aos requisitos de validação.
Após oito semanas da data de recebimento da requisição, o registro é finalizado, salvo se uma parte envolvida na atividade de projeto ou pelo menos três
membros do Conselho Executivo requisitem uma revisão do projeto de MDL proposto, referente aos requisitos de validação. Nesses casos, a decisão é comunicada
à EOD e aos participantes. Contudo, o projeto proposto pode ser reconsiderado
para validação e subseqüente registro após as revisões apropriadas, desde que siga
19
Art. 3º da Resolução CIMGC n° 1, datada de 11 de setembro de 2003 - Com vistas a obter a aprovação das atividades
de projeto no âmbito do MDL, os proponentes do projeto deverão enviar à Secretaria Executiva da CIMGC, em meio
eletrônico e impresso:
I
– o Documento de Concepção do Projeto (PDD) na forma determinada pelo Conselho Executivo do MDL, estabelecido
no âmbito da UNFCCC e, para fins de aprovação da atividade de projeto pela Comissão, na forma do Anexo II. Adicionalmente, como elemento informativo à CIMGC, deve constar no PDD uma descrição da contribuição da atividade de projeto
para o desenvolvimento sustentável de acordo com o Anexo III a esta resolução e em conformidade com o Artigo 12.2 do
Protocolo de Quioto à UNFCCC.
II
– as cópias dos convites de comentários enviados pelos proponentes do projeto aos seguintes agentes envolvidos e afetados pelas atividades de projeto de acordo com o alínea b do parágrafo 37 do Anexo I referido no Art. 1º, identificando os
destinatários: (i) Prefeitura e Câmara dos vereadores; (ii) Órgãos Ambientais Estadual e Municipal; (iii) Fórum Brasileiro
de ONG’s e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e Desenvolvimento; (iv) Associações comunitárias; e (v) Ministério Público;
III
– o relatório da EOD, autorizada a operar no país, conforme o art. 4º, de validação da atividade de projeto na forma a ser
submetida ao Conselho Executivo do MDL no âmbito da UNFCCC e em português.
IV
– uma declaração assinada por todos os participantes do projeto estipulando o responsável e o modo de comunicação com
a Secretaria Executiva da CIMGC e termo de compromisso do envio de documento de distribuição das unidades de redução
certificada de emissões que vierem a ser emitidas a cada verificação das atividades do projeto para certificação;
V
- os documentos que assegurem a conformidade da atividade de projeto com a legislação ambiental e trabalhista em vigor,
quando for o caso.
20
Disponível em: <http://www.mct.gov.br/upd_blob/0015/15798.pdf>. Acesso em 02/04/2008.
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os procedimentos e atenda os requisitos de validação e registro, incluindo aqueles relacionados com os comentários do público.
2.6 Monitoramento
Todo PDD prevê um plano de monitoramento, fundamentado em uma metodologia previamente aprovada pelo Conselho Executivo do MDL. A implementação desse plano cabe aos participantes do projeto e quaisquer revisões devem ser
justificadas e submetidas novamente à EOD para validação.
O plano de monitoramento deve identificar todas as fontes potenciais de
emissão de gases de efeito estufa dentro do limite do projeto. As fontes que se
encontrarem fora do limite do projeto também devem ser identificadas, desde que
sejam significativas e atribuíveis, de forma razoável, à atividade do projeto durante o período de obtenção de créditos, a fim de serem calculadas as respectivas
fugas.
Com essa identificação, serão aplicados os parâmetros estabelecidos no
plano de monitoramento para a coleta e o arquivamento dos dados pertinentes,
necessários para estimar ou medir as emissões de gases de efeito estufa durante o
período de obtenção de créditos. Todo o procedimento possui garantia e controle
de qualidade e deve ser devidamente documentado.
A documentação relativa ao monitoramento, incluindo as suas eventuais
revisões, servirá de fundamento e condição para as próximas etapas do ciclo do MDL, ou seja, a verificação, a certificação e a respectiva emissão das
RCEs.
2.7 Verificação/Certificação
A verificação é a revisão periódica e independente, realizada por uma EOD,
das reduções monitoradas de emissão de gases de efeito estufa que ocorreram
em conseqüência de uma atividade registrada de projeto de MDL. Por sua vez, a
certificação é a garantia por escrito da EOD de que, durante um período de tempo
especificado, uma atividade de projeto atingiu a redução das emissões, conforme
monitorado e verificado. É importante ressaltar que a EOD contratada pelos participantes do projeto para a verificação e certificação não pode ser a mesma que
participou do processo de validação.
Nos procedimentos de verificação, a EOD analisará o relatório de monitoramento elaborado pelos participantes do projeto e toda a documentação relacionada, além de rever se a metodologia de monitoramento foi aplicada corretamente.
Para tanto, a EOD poderá também conduzir inspeções no local do projeto, conforme o caso, que podem incluir uma revisão dos registros de desempenho, entrevistas com os participantes do projeto e atores locais, coleta de medições, observação
de práticas estabelecidas e teste de acurácia do equipamento de monitoramento,
dentre outras ações.
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Ao final, a EOD fornecerá um relatório de verificação aos participantes do
projeto, às partes envolvidas e ao Conselho Executivo do MDL, sendo que este
relatório servirá de fundamento para a certificação, que deverá ocorrer por escrito. O relatório de certificação, encaminhado ao Conselho Executivo do MDL,
deve conter uma requisição de RCEs igual à quantidade verificada de redução das
emissões derivada do projeto.
2.8 Emissão das RCEs
Após cumpridas todas as etapas descritas acima, o Conselho Executivo do
MDL terá segurança suficiente para declarar que o projeto proposto é adicional,
pois reduziu as emissões de gases de efeito estufa além de seu cenário de referência, ou seja, da linha de base definida, sendo que esta redução foi quantificada
e, portanto, possível de ser convertida em RCEs para posterior comercialização e
auxílio aos países do Anexo I da UNFCCC no cumprimento de suas metas fixadas
no âmbito do Protocolo de Quioto.
A emissão das RCEs ocorre quinze dias após a data de recebimento de sua
requisição pela EOD. Todavia, nos casos de supostas fraudes, mau procedimento
ou incompetência das EODs designadas, uma parte envolvida no projeto ou pelo
menos três membros do Conselho Executivo do MDL podem requisitar uma revisão da emissão das RCEs proposta, hipótese na qual o Conselho Executivo do
MDL terá trinta dias, contados da data de admissão da revisão, para informar aos
participantes do projeto e tornar pública a sua decisão sobre o pleito, que deve ser
devidamente fundamentada.
Uma vez aprovada a emissão, as RCEs são depositadas nas contas abertas
em nome das devidas partes, contudo 2% do total de RCEs emitidas são deduzidos e transferidos para o Fundo de Adaptação às Mudanças Climáticas, conforme
previsto no artigo 12.8 do Protocolo de Quioto. Além dessa dedução, uma outra
parcela das RCEs emitidas também é descontada para cobrir as despesas administrativas do próprio Conselho Executivo do MDL. Esses descontos mencionados
são denominados share of proceeds.
3. CONCLUSÕES ARTICULADAS
3.1 O Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), criado pelo Protocolo de
Quioto, auxilia os países do Anexo I da UNFCCC, já que estes podem adquirir
Reduções Certificadas de Emissão (RCEs) de projetos de redução de emissões de
gases de efeito estufa em países em desenvolvimento para o cumprimento de parte
das metas adotadas.
3.2 O ciclo de um projeto de MDL se inicia com um estudo de viabilidade técnico-econômica, com o intuito de verificar se o potencial de geração de RCEs
compensa os riscos envolvidos na operação e se o projeto possui as características
necessárias para preencher os requisitos de elegibilidade do MDL.
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3.3 O Documento de Concepção do Projeto (PDD) deve ser elaborado, validado por uma Entidade Operacional Designada (EOD) e aprovado pela Autoridade
Nacional Designada (AND), para que o projeto possa requerer o registro junto ao
Conselho Executivo do MDL.
3.4 Uma vez registrado o projeto, as reduções de emissão de gases de efeito estufa
passam a ser monitoradas, conforme o plano de monitoramento previsto no PDD,
para posterior verificação e certificação por uma EOD, sendo esta diferente da que
validou o projeto.
3.5 A EOD certificará as reduções de emissão de gases de efeito estufa que ocorreram em razão da existência do projeto e requisitará a emissão das respectivas
RCEs ao Conselho Executivo do MDL, finalizando o procedimento e concretizando o auxílio financeiro, promovido pelo MDL, aos participantes do projeto.
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A RECATEGORIZAÇÃO DA APA MATA DO
KRAMBECK EM JUIZ DE FORA, MG: UMA
ANÁLISE DAS CATEGORIAS DO SNUC
NATÁLIA CAMPOS TEIXEIRA
Estudante de Graduação do curso de Direito do
Instituto Vianna Júnior, Juiz de Fora, MG
1. INTRODUÇÃO
O homem tem causado grandes modificações no ambiente, em decorrência
do desenvolvimento econômico. Em detrimento da escassez dos recursos naturais, a sociedade inicia a mobilização da ciência e opinião pública em defesa do
meio ambiente, ao perceber a interdependência entre a Natureza e a Sociedade.
As diversas culturas humanas existentes na Terra têm modificado o ambiente
para atender suas necessidades de maneira que coloca em risco não só sua herança
natural, mas também, sua própria herança cultural.
A maior parte dos problemas de degradação ambiental, no Brasil, está interligada com a ausência ou mau planejamento da ocupação dos espaços intertropicais, respeitando as características dos diversos ecossistemas, notadamente sua
riqueza e diversidades
Com o passar do tempo a preocupação com a conservação do meio ambiente excedeu o aspecto da preservação da beleza cênica, na perspectiva de que as gerações futuras possam desfrutar os bens e serviços proporcionais pelas Unidades de Conservação
criadas com finalidades científicas, ecológicas e econômicas, além de estéticas.
A proteção ambiental é um dos maiores desafios de nosso tempo. Ações devem ser desenvolvidas para preservar o ambiente digno de ser vivido hoje e para
futuras gerações.
O presente trabalho visa analisar desde o aspecto histórico das áreas protegidas tanto no Brasil, quanto no mundo, o surgimento do Sistema Nacional de
Unidade de Conservação (SNUC), até chegar ao desenvolvimento da questão –
problema. Tal questão se baseia em qual é a melhor categoria que condiz com a
Mata do Krambeck, localizada na cidade de Juiz de Fora – MG.
A Mata do Krambeck, constituída inicialmente pelas fazendas Retiro Novo,
Retiro Velho e Malícia, é uma reserva de Mata estacional semidecidual, pertencente ao grupo Mata Atlântica na cidade, protegida e criada pela lei 10.943/92.
Com advento da Lei Estadual 11.336/93, retirou-se o Sítio Malícia da Área de
Proteção Ambiental. Dessa forma, será discutida neste estudo somente a melhor
categoria relativa ao Sítio Retiro Novo e Retiro Velho, que atualmente fazem parte
da Área de Proteção Ambiental (APA).
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As categorias do sistema nacional de unidade de conservação foram examinadas tendo como ponto de partida uma série de entrevistas feitas a ambientalistas
da cidade, que deram o seu ponto de vista sobre a categoria que melhor se ajusta
à APA Mata do Krambeck. Chegou-se a conclusão que poderiam ser analisadas
a Reserva Biológica, Parque, Área de Proteção Ambiental (a atual categoria da
área) e Reserva Particular do Patrimônio Natural.
2. MEIO AMBIENTE EM JUIZ DE FORA
2.1 Características Geográficas
A cidade de Juiz de Fora está localizada na região Sudeste na Mesorregião
Geográfica da Zona da Mata Mineira, às margens da Rodovia BR-040, no eixo
Rio de Janeiro – Belo Horizonte. O município aloja-se principalmente na região
da bacia do Rio Paraibuna – que corta a área urbana tendo como seus principais
afluentes, o rio do Peixe, o rio Preto e Cágado, todos integrantes da Bacia do Paraíba do Sul. O relevo é caracterizado pelos chamados “mares de morros”, sendo
bastante diversificado com colinas côncavo-convexas e vales com altitudes compreendidas entre 700 e 900 metros. Encontra-se em ambiente serrano, entre os
contrafortes da Serra da Mantiqueira e da Serra do Mar.
Considerada de porte médio, a população de Juiz de Fora cresceu de 91.119
habitantes, no início do século passado, para 513.348 habitantes, segundo dados da
Contagem Populacional do IBGE 2007.1 A população, em maioria rural no início do
século anterior, encontra-se atualmente, 99% concentrada no perímetro urbano.
O clima é do tipo tropical de altitude, com duas estações: verão chuvoso, com
temperaturas elevadas e inverno seco, com temperaturas amenas, sendo o volume de
precipitação anual em torno de 1.500mm e havendo a predominância de ventos Norte. Há uma sensível tendência ao aumento da ocorrência de anos secos, em relação
aos anos normais, o que reflete a diminuição do volume de água nos cursos d’água e
nas represas que abastecem o município, e consecutivamente a falta d’água, porém,
a intercalação de anos extremamente chuvosos tem sido registrada.
A superfície do município é de 1.429,875 km², situado nas coordenadas Latitude 21º 41’ 20’’ sul e Longitude: 43º 20’ 40’’ oeste.
3. A MATA DO KRAMBECK
A Mata do Krambeck constitui-se, atualmente, um dos últimos e mais importantes patrimônios ecológicos do Município de Juiz de Fora. Com uma área
374,1 ha, é um exuberante fragmento de Mata Atlântica localizada no perímetro
urbano de Juiz de Fora, em frente à Estação Rodoviária da cidade, a margem esquerda do rio Paraibuna que é por ele limitada em grande extensão. Localizado es-
1
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍTICA (IBGE). Disponível em: <http://www.ibge.gov.br>
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trategicamente entre os dois pólos de maior dinamismo econômico da cidade, ou
seja, o centro urbano e a zona industrial é considerado responsável pela descontinuidade da malha urbana. A área da mata é circundada por bairros bem povoados,
como Eldorado, Alto Eldorado e Santa Terezinha, estando a poucos quilômetros
da região central, representando um dos maiores contínuos de mata atlântica do
município causando um belo efeito paisagístico. 2
Considerada pela Lei Municipal 8527/94, como a maior reserva ambiental
urbana tropical particular do mundo, art. 2º, é uma área composta por três propriedades: o Retiro Velho, o Retiro Novo e a Malícia. Apresenta um ecossistema
muito próprio, formando um verdadeiro local de refúgio para várias espécies da
fauna e da flora, muitas das quais ameaçadas de extinção.3
Atestavam as origens da mata, alguns pés de café que foram remanescentes
do ciclo no início do século. Também exibe árvores de madeira de lei, conservados durante anos. Foi o filho de Detlef Krambeck, imigrante que chegou com sua
família à região no final do século XIX junto com uma leva de alemães convocados por Dom Pedro II para ajudar na construção da Estrada União Indústria, que
começou anos mais tarde, a comprar diversos terrenos às margens do Rio Paraibuna, próximos ao curtume que o pai fundara. 4
Com o fim da atividade cafeeira na região, no final do século XIX e início do XX, as terras foram sendo trocadas pelas pastagens, menos exigentes em
produtividade do solo. Nos lugares onde permaneciam cafezais abandonados, a
mata atlântica destruída conseguia ressurgir aos pouco e naturalmente. É esse o
provável quadro da área que tornou a Mata do Krambeck, com amplas pastagens e
fragmentos de cafezais tornando-se capoeira e mata. Dessa forma, com o espírito
conservacionista, Pedro Krambeck, começou o trabalho de plantio de mudas – árvores frutíferas e ornamentais – na área que escolheu fixar residência, conhecida
como Sítio Malícia. Cuidava para que a pouca vegetação nativa que sobrou fosse
conservada e se expandisse pelo local.
Na década de 40, Pedro Krambeck passa parte da propriedade para os sobrinhos. Com isso, a firma Irmãos Krambeck adquire o Sítio Retiro Velho (na época
denominado de Bons Ayres, com 2.185.562 m²), uma área de pastagem destinada
à pecuária, a qual os irmãos Krambeck adquiriram no intuito de florestá - la com
espécies nobres. Devido às condições adversas do solo, os planos mudaram e o reflorestamento foi efetuado com espécies nativas endêmicas da região que, somadas à regeneração natural, ao longo, predominaram na paisagem junto a algumas
poucas espécies exóticas. Poucos anos depois da primeira aquisição, foi adquirida
uma outra área adjacente, o Sítio Retiro Novo (com 734.349 m²) que passou pelo
mesmo processo de reflorestamento, natural e antrópico. 5
2
AGENDA JF. Juiz de Fora, MG. Disponível em: http://www.agendajf.pjf.mg.gov.br. Acesso em: 25/03/08.
FEAM. Fundação Estadual do Meio Ambiente. Mata do Krambeck – Relatório Preliminar – Criação de Unidade de
Conservação. Juiz de Fora, 1991.
4
JORNAL TRIBUNA DE MINAS. Juiz de Fora, MG, Publicado em: 30/10/1989.
5
ALCÁNTARA, Leonardo Alejandro Gomide. Conflito, consenso e legitimidade. Delimitação e análise de embates sociais no Conselho Municipal de Meio Ambiente de Juiz de Fora – MG. Rio de Janeiro, 2007. Tese de Mestrado. Universidade Federal Fluminense, p.286.
3
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Foi constituída a S.A. Curtume Krambeck, no ano de 1927, cujo patrimônio foi incorporado os Sítios Retiro Novo e Retiro Velho. Contudo, em 1938, é
adquirida uma nova área contínua o Sítio Malícia (com 821.771 m²). Esse, em
grande parte não continha vegetação florestal, no qual se pretendia construir um
loteamento popular denominado “Vila de Santo Antônio”. Houve a desistência de
construir o condomínio e dessa forma a família Krambeck transformou o local
em sua residência, fazendo trabalhos de paisagismo, plantando árvores frutíferas,
cafezais e dando continuidade ao reflorestamento nos seus arredores. 6
Ao longo dos anos a família Krambeck cuidou da área e realizou o seu manejo por suas próprias vias e recursos. Pelos benefícios que a Mata do Krambeck
trouxe à cidade e pelo significado da mesma para Juiz de Fora, Pedro Henrique
Krambeck se destacou como principal personagem na história da Mata. Foi ele
quem iniciou o plantio e zelou pela preservação da área, e por esse motivo recebeu o título post mortem de “Honra ao Mérito Comendador Henrique Guilherme
Fernando Halfeld”.
A Mata manteve-se razoavelmente preservada até os dias atuais, possuindo
apenas algumas casas para os empregados, as sedes dos sítios e pequenas culturas
de subsistência. Ocorreram algumas intervenções como: servidões administrativas para tubulações que entraram na Mata, dragagens do rio que também tocavam
a mesma e uma tentativa de extração de areia que não chegou a acontecer. Outrossim, na década de 1980 ocorreu uma queimada que favoreceu o aparecimento de
gramíneas de crescimento rápido (Bambusa taquara) que compete com as espécies nativas; e também o aumento do risco de invasão dado o crescimento urbano
desordenado. A sua posição estratégica faz com que a área seja potencialmente
especulativa.7
O valor simbólico da Mata do Krambeck para a sociedade juizforana é inquestionável. Por se situar a margem esquerda do rio Paraibuna, relaciona-se diretamente com a manutenção do nível de profundidade da caixa coletora do rio,
visto que a cobertura vegetal, facilita a infiltração d’água no solo, impedindo a
erosão e consequentemente o assoreamento do leito do rio. É também responsável
pela ocorrência de inúmeros “olhos d’água”, formando um significativo manancial d’água, oriundo da proteção oferecida ao lençol freático pela mata natural.
Na década de 1980, a prefeitura municipal propôs permutar uma das propriedades, o Sítio Malícia, o qual, por motivos não muito claros, não foi efetuado.
Inclusive um decreto (Decreto nº 3.654/87) declarou o imóvel de utilidade pública, autorizando a sua desapropriação com a justificativa de “proteção de paisagens
e locais particularmente dotados pela natureza” (art. 1º). Tal ato se deu após a empresa proprietária do local (Bonfim Agrícola Industrial S.A., pertencente à família Krambeck) solicitar diretrizes para um loteamento. Até esta época, apesar de
estável e em expansão natural, a mata não vislumbrava nenhuma proteção jurídica
ou manejo público, apenas os sensíveis cuidados de seus proprietários.
6
7
Idem, ibidem, p.286.
Idem, ibidem, p.287.
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A Lei Estadual 10.493 de 27 de novembro de 1992, transformou o local em
Área de Proteção Ambiental, na qual correspondia às três propriedades. Tal lei
tinha como objetivo a manutenção das condições ecológicas locais, a integridade
dos ecossistemas para a estabilidade da flora e da fauna que ali habitam e também
a perpetuidade da sua condição paisagística, da sua beleza cênica, proibindo qualquer atividade que alterasse essas condições. Mencionava também ser uma área
significativa remanescente de Mata Atlântica regenerada.
Surpreendentemente, no ano seguinte, em 21 de dezembro de 1993, é editada uma nova lei que alterou a que criou a APA. A Lei 11.336/93 desafetou uma das
propriedades da APA, o Sítio Malícia (a segunda maior), reduzindo significativamente suas dimensões. A nova lei trouxe também uma menção importante: autorizava o executivo a desapropriar a área correspondente aos limites geográficos da
APA (as duas propriedades restantes), no intuito de se construir um parque. 8
Segundo a proprietária Anna Elisa Surerus9, herdeira das duas maiores propriedades (Retiro Velho e Malícia), em uma carta publicada em um jornal da cidade (26/06/07), a mesma afirma que foi a seu pedido que tal mudança ocorreu.
Justificou como razões para tal o fato de o Sítio Malícia possuir características
peculiares que o tornaria distinto das demais áreas – lagos artificiais, áreas com
bosques, pomares, cultivos domésticos etc. O que não se confirma comparando
com a propriedade de Dona Cely Krambeck, o Retiro Novo, que é tão antropizado
quanto o Malícia, possuindo casas, campos, bosques, cultivos etc. Ainda assim,
em quase totalidade de suas terras, ambos são áreas contínuas de Mata Atlântica,
com as mesmas características, em estágio médio e avançado de regeneração.
Em uma leitura com maior acuidade, permite-se interpretar, que o motivo
real do pedido de desafetação foi a restrição ao usufruto e fruição da propriedade
que a mesma entendeu que a criação da APA lhe causaria. Por ser uma pessoa
influente, ex-mulher do Presidente da República na época – Itamar Franco – sua
demanda (desmembrar a APA) não deve ter encontrado grandes obstáculos para se
concretizar. Ratifica-se a interpretação de que esse foi o real motivo (ter se sentido
prejudicada), pois a outra propriedade que permaneceu na APA, o Retiro Velho,
foi compreendida pela proprietária como “indiretamente desapropriada”, exigindo assim uma indenização judicial e permanecendo apenas com o Sítio Malícia
que não mais pertencia a APA.10
Nesse mesmo diapasão, a sociedade juizforana, sempre considerou a área da
Mata do Krambeck como um todo, não conseguindo distinguir diferenças entre um
sítio e outro. Além de esses sítios estarem interligados de modo ininterrupto, outro
aspecto que comprova de forma incontestável é com relação ao Plano Diretor de Juiz
8
ALCÁNTARA, Leonardo Alejandro Gomide. Conflito, consenso e legitimidade. Delimitação e análise de embates sociais no Conselho Municipal de Meio Ambiente de Juiz de Fora – MG. Rio de Janeiro, 2007. Tese de Mestrado. Universidade Federal Fluminense, p.288.
9
SURERUS, Anna Elisa. Mata do Krambeck, origem e evolução. Juiz de Fora. In. Tribuna de Minas, terça-feira 26 de
junho de 2007.
10
Cf. ALCÁNTARA, Leonardo Alejandro Gomide. Conflito, consenso e legitimidade. Delimitação e análise de embates
sociais no Conselho Municipal de Meio Ambiente de Juiz de Fora – MG. Rio de Janeiro, 2007. Tese de Mestrado. Universidade Federal Fluminense, p.289.
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12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
de Fora (Lei 9.611/2000) que reincorporou o Sítio Malícia à APA Mata do Krambeck,
originando um conflito aparente de normas - Lei 11.336/93, art. 1º, caput, com Plano
Diretor art. 34, parágrafo 1º, quadro 9B do anexo único. Como o Sistema Nacional de
Unidades de Conservação (Lei 9.985/00), embora preveja que para criar uma Unidade
de Conservação basta um ato público, assevera que a ampliação só pode ser efetuada
com um instrumento legal de mesma hierarquia (neste caso outra lei estadual). Ainda
que expressão da vontade social, o Plano Diretor disse mais do que deveria e a interpretação de que a APA apenas corresponde às duas propriedades prevaleceu.
A desafetação do Sítio Malícia tinha um motivo, que posteriormente surgiu,
qual seja, o da construção de um condomínio. Adquirida por um grupo de empreendedores, a especulação imobiliária foi enfatizada e área passou a ser projetada
para um condomínio de luxo, dando início a um significativo conflito de interesse
na cidade. Os danos que poderiam causar não só no local mas também na cidade
como um todo seriam irrecuperáveis, tendo em vista as espécies nativas que lá se
encontram e o notável valor inestimável para a sociedade juizforana. Outrossim,
haveria um grande perda de vegetação nativa, causando uma fragilidade ainda
maior no sistema ecológico.
A população da cidade juntamente com as ONGs ambientalistas, com o passar do tempo foram se unindo, formando um grande movimento social na luta
pelo meio ambiente protegido. Tal movimento incorporou a idéia de que estes
impactos atingiriam todo o município, a todos os seus cidadãos de maneira difusa.
Destarte, com o clamor público, até os dias de hoje, o referido condomínio foi
impedido de ser construído pelo poder público.
É por esse motivo que a APA Mata do Krambeck (sítio Retiro Novo e Retiro
Velho) deve ser protegida de maneira correta, para que no futuro as especulações
imobiliárias nao voltem à afligir o meio ambiente ecologicamente equilibrado,
como ocorreu com o sítio Malícia
Diante de vários debates, surgiu a idéia de desapropriar a área e a transformar
em uma unidade de conservação mais condizente com os anseios sociais. Nesse sentido foram sustentadas algumas propostas como: Parque (principal), Reserva Biológica, Estação Ecológica e um Jardim Botânico (não é unidade de conservação). Mas
a proposta desse trabalho é analisar quatro categorias, que serão discutidas posteriormente, que melhor se adequa a Mata do Krambeck: Parque, Reserva Biológica,
Área de Proteção Ambiental e Reserva Particular do Patrimônio Natural.
4. O SISTEMA NACIONAL DE UNIDADE DE CONSERVAÇÃO – SNUC
4.1 História e conceito
Com o advento da lei de Política Nacional do Meio Ambiente - PNMA-, que
constituiu o Sistema Nacional do Meio Ambiente – SISNAMA-, a questão ambiental foi discutida de maneira mais intensa e extensa. Não obstante, a lei possui
como um de seus princípios a proteção dos ecossistemas, como preservação de
áreas representativas (artigo 2°, inciso IV) e uma das formas para se tutelar esses
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ecossistemas é através da criação, pelo poder publico, de espaços especialmente
protegidos (art. 9°, inciso VI) e dentre eles estão as Unidades de Conservação.
Os espaços territoriais especialmente protegidos constituíram gênero, do
qual as unidades de conservação seriam espécies11, ou, nas palavras de José Afonso da Silva12 “nem todo espaço territorial especialmente protegido se confunde
com unidade de conservação, mas estas são também espaços especialmente protegidos”.
Após a instituição da PNMA, e como não havia lei federal que regulamentasse a matéria, o Conselho Nacional de Meio Ambiente – CONAMA – editou a
Resolução n°011, de 03.12.1987, que declarou como sendo Unidades de Conservação as categorias de Sítios Ecológicos de Relevância Cultural, criadas por atos
do poder publico: Estações Ecológicas; Reservas Ecológicas; Áreas de Proteção
Ambiental, especialmente suas zonas de vida silvestre e os Corredores Ecológicos; Parques Nacionais, Estaduais e Municipais; Reservas Biológicas; Florestas
Nacionais, Estaduais e Municipais; Monumentos Naturais; Jardins Botânicos;
Jardins Zoológicos; e Hortos Florestais.13
Assim, o Brasil chegou à década de 1990 com uma pluralidade de categorias
de áreas naturais protegidas a título ambiental, ao mesmo tempo em que se firmava em escala internacional um consenso em torno da importância da proteção
da biodiversidade e das paisagens nativas, particularmente dos países tropicais.
Esses diferentes tipos de unidades nasceram a partir de vários fatores, inclusive a
sintonia de cientistas e administradores com as mudanças no panorama mundial
da conservação ambiental, o interesse social ampliado pela questão da conservação ambiental, pressões internacionais e a concorrência entre organismos e políticas. Faltavam, no entanto, leis e diretrizes de gerenciamento que garantissem
eficácia a essa variedade de categorias. A situação estava a exigir um esforço de
sistematização. 14
Em 19 de julho de 2000, após quase dez anos tramitando no Congresso Nacional, o Sistema Nacional de Unidade de Conservação foi aprovado, com varias
emendas e modificações. Ressalta-se que foi a primeira normalização nacional
das áreas naturais protegidas por lei.
O objetivo específico da Lei do SNUC foi estabelecer critérios e normas
para a criação, implantação e gestão das UCs. Dessa forma, houve um movimento
no sentido da padronização e da organização das categorias de manejo. Algumas
delas, existentes no âmbito federal, estadual e municipal – com denominações tais
como parques florestais, estações biológicas, reservas ecológicas, parques ecoló-
11
SANTILLI, Juliana. A Lei 9.985/200, que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza
(SNUC): uma abordagem socioambiental. in: ÉDIS MILARÉ E ANTÔNIO HERMAM V. BENJAMIM. Revista de Direito
Ambiental. Ano 10. n°40 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, outubro-dezembro 2005. p. 78-123.
12
SILVA, José Afonso da. Direito Ambiental Constitucional. 4ª Ed. São Paulo: Ed. Malheiros, 2002, p.230.
13
KELECOM, Alphonse e BERNARDO, Christianne. Análise Crítica da Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza. Rede Acadêmica de Meio Ambiente e Desenvolvimento., Rio de Janeiro, p. 16. Disponível em: <http://
www.ebape.fgv.br/radma>. Acesso em: 13 de janeiro de 2008.
14
DRUMMOND, José Augusto; FRANCO, José Luiz de Andrade; NINIS, Alessandra Bortoni. O estado das áreas protegidas no Brasil - 2005. 1ª. ed. Brasília: Centro de Desenvolvimento Sustentável - Universidade de Brasília, p.15.
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gicos, reservas florestais, estradas-parque -, deixaram de ser oficialmente reconhecidas. Elas agora precisam ser recategorizadas para se adequarem ao SNUC.15
As Unidades de Conservação, nos termos do SNUC, constituem estruturas
a serem vistas sob tríplice perspectiva. Primeiramente, como espaços geográficos diferenciados dentro do modo de apropriação predatório que caracteriza a
sociedade contemporânea. Num segundo momento, como instrumentos de planejamento do território nacional. E por fim, como campos para desenvolvimento
técnico - cientifico brasileiro.16
Atualmente, as unidades de conservação são entendidas como um sistema, e
não se considera cada unidade como um fim em si mesmo, ou como um fragmento
isolado, mas como parte de um sistema de ordenamento territorial.
No que concerne o conceito de conservação da natureza, art. 2°, inciso II
da lei do Sistema Nacional de Unidade de Conservação, define como conservação da natureza, o manejo do uso humano da natureza, compreendendo a preservação, a manutenção, a utilização sustentável, a restauração e a recuperação do
ambiente natural, para que possa produzir o maior beneficio, em bases sustentáveis, às atuais gerações, mantendo seu potencial de satisfazer as necessidades
e aspirações das gerações futuras, e garantindo a sobrevivência dos seres vivos
em geral.
A palavra preservação, conceito normativo preceituado no art. 2° V, consiste
no conjunto de métodos, procedimento e políticas que visem a proteção a longo
prazo das espécies, habitats e ecossistemas, alem da manutenção dos processos
ecológico, prevenindo a simplificação dos sistemas naturais.
4.2 Categorias
A lei estabeleceu uma importante distinção das unidades de conservação,
enquadrando em dois grupos:
I – Unidades de Proteção Integral;
II – Unidades de Uso Sustentável.
As unidades de conservação do grupo de Proteção Integral, têm por objetivo, conforme a lei do SNUC, a preservação da natureza, admitindo apenas o
uso indireto dos recursos naturais, ou seja, não envolve consumo, coleta, dano ou
destruição (com exceção dos casos previstos na própria lei), evitando o quanto
possível a interferência humana.
Segundo dicção do art. 8°, compreendem as seguintes categorias: Estação
Ecológica; Reserva Biológica; Parque Nacional; Monumento Natural; Refúgio da
Vida Silvestre.
As Unidades de Uso Sustentável são destinadas a compatibilização entre
15
Idem, op. cit., p.15.
MORAES, Carlos Alexandre; SANTOS, Flávio Augusto de Oliveira. Breve notas sobre o Sistema Nacional de Unidades
de Conservação. Revista Juridica Cesumar, Maringá - PR., v. 2, n. 1, p. 141-159, 2002. Disponível em: <http//: www.
cesumar.br>. Acesso em: 13 de janeiro 08.
16
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conservação da natureza com o uso sustentável de parcela dos seus recursos naturais. Outrossim, visam conciliar a exploração do meio ambiente à garantia da
perenidade dos recursos renováveis, e dos processos ecológicos, mantendo a biodiversidade e os demais atributos ecológicos, de forma socialmente justo e economicamente viável (art. 7°, §2° e art. 2°, XI da lei 9.985/2000).
A intensidade da proteção nas Unidades de Uso Sustentável é menor do que
nas Unidades de Proteção Integral, porque, ao contrário destas, permitem o uso
direto de seus recursos naturais.17
Nos moldes do art. 14 da lei 3.385/2000, compreendem o Grupo das Unidades de Conservação: Área de Proteção Ambiental; Área de Relevante Interesse
Ecológico; Floresta Nacional; Reserva Extrativista; Reserva de Fauna; Reserva de
Desenvolvimento Sustentável; Reserva Particular do Patrimônio Natural.
Cabe destacar que as categorias de manejo listadas acima se emolduram
nos critérios definidos pela União Internacional para Conservação da Natureza –
UICN. Não obstante, permite ao sistema brasileiro uma adequação aos padrões
e às normas internacionais. Facilita a definição de estratégias para a captação de
recursos, a realização de pesquisas, o intercâmbio de informações e experiências,
o diálogo com agências internacionais e de outros países, a adoção de padrões
diferenciados de gestão e a gestão de áreas transfronteiriças.
A seguir, serão analisadas somente as possíveis categorias que melhor se
enquadram na Área de Proteção Ambiental Mata do Krambeck.
4.2.1 Reserva Biológica:
A Reserva Biológica (Rebio), com fulcro no art. 10 da Lei 9.985/2000, é
uma unidade de conservação que visa a preservação integral na biota (fauna e
flora) e demais atributos naturais existentes em seus limites, sem interferência
humana direta ou modificações ambientais, excetuando-se as medidas de recuperação de seus ecossistemas alterados e as ações de manejo necessárias para
recuperar e preservar o equilíbrio natural, a diversidade biológica e os processos
ecológicos naturais. Tal objetivo encontra eficácia nos incisos I e II do 1° do art.
225 da Lei Magna.
São proibidas quaisquer atividades de utilização, perseguição, caça, apanha
ou introdução de espécies da fauna e da flora silvestre e doméstica, bem como
alterações no meio natural, pois a reserva biológica visa proteger amostras representativas do meio ambiente natural, para de um lado, ocorra a realização de
estudos científicos, monitoramento ambiental e educação científica; e, de outro,
a manutenção de recursos genéticos em estágio dinâmico e evolucionário. Dessa
forma, tem como exceção as atividades científicas que deverão ser devidamente
autorizadas pelo órgão competente. No que concerne à visitação pública, a mesma
é proibida, sendo apenas permitida as que possuem finalidade educacional.
17
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SILVA, José Afonso da. Direito Ambiental Constitucional. 4ª Ed. São Paulo: Ed. Malheiros, 2002, p.241.
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É importante salientar que, nas Reservas Biológicas a presença humana é
mais restrita que nos parque nacionais.
Juntamente com a Estação Ecológica, a posse e domínio são públicos, devendo as áreas particulares incluídas em seus limites ser desapropriadas, de acordo com o que dispõe a lei.
Os objetivos primários da Rebio são: a preservação da biodiversidade (população, comunidade, ecossistema) livre de interferências humanas; proteger as
espécies raras, em perigo de extinção; proporcionar a obtenção de conhecimentos
mediante pesquisa; proporcionar educação ambiental. Para critério de seleção de
áreas são relevantes o elevado grau de preservação natural, a presença de espécies
e ecossistemas de relevante valor científico, a fragilidade ambiental, e por fim, a
diversidade biológica e/ou geológica.
Os tamanhos dessas unidades são bastante variados, sendo que o espaço será
determinado de acordo com os objetivos científicos a que se sugere, de modo a
assegurar a proteção. Entretanto, preferencialmente as áreas devem ser grandes
para que acorra a preservação integral das espécies, ou seja, em áreas pequenas
pode acontecer uma perda gradual das espécies. Existem Reservas Biológicas
como a de Guaporé, em nível Federal, em Rondônia, que possui 600.000 hectares,
já a de Alto da Serra de Paranapiacaba (Estadual), no Estado de São Paulo, com
366 hectares.
Com relação ao domínio público da área, acredita Silva18 que esse regime é
o que se impõe, pois sua destinação é incompatível com a da propriedade privada,
por isso é que sua instituição em espaços de domínio particular importa em desapropriação e conseqüente indenização.
Segundo dados do Ministério do Meio Ambiente do ano de 2005, o Brasil
possui atualmente 27 Reservas Biológicas Federais, sendo que a menor unidade
possui 592,40 hectares e a maior com 942.874,54 hectares. Entre elas destacam-se
a de Poço das Antas, no Rio de Janeiro, onde o mico-leão-dourado é protegido;
a de Una, no sul da Bahia, que tem como um dos objetivos preservar o micoleão-de-cara-dourada. Importante salientar que é na Amazônia que se encontra as
maiores Reservas Biológicas em extensão.
4.2.2 Parque
Os Parques Nacionais (Parnas) constituem a mais antiga e popular modalidade de unidade de conservação no mundo. Sejam eles nacionais, estaduais ou
municipais, são considerados importantes segmentos de categorias, sendo correspondente a um determinado padrão de conservação in situ.
Assim, tem como finalidade resguardar atributos excepcionais da natureza,
conciliando a proteção integral da flora, da fauna e das belezas naturais com a
utilização para objetivos educacionais, recreativos e científicos.
18
SILVA, José Afonso da. Direito Ambiental Constitucional. 4ª Ed. São Paulo: Ed. Malheiros, 2002, p.236.
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Os Parnas são uma espécie de unidade básica do SNUC, consistindo no principal elemento dentre as áreas naturais protegidas brasileiras, na qual representa
um grande atrativo turístico para o País.19
São considerados objetivos dos Parques: preservar a diversidade biológica
e os ecossistemas naturais, protegendo espécies raras, vulneráveis e em perigo
de extinção; proteger belezas cênicas; propiciar pesquisa científica e educação
ambiental; contribuir para o monitoramento ambiental; e favorecer a recreação
em contato com a natureza. Já os critérios básicos para a seleção dessas áreas são:
áreas relativamente extensas e pouco alteradas, com atributos biológicos, paisagístico e/ou sítios geológicos notáveis onde existe a possibilidade de compatibilizar a proteção de espécies raras, endêmicas (restrita a uma determinada região),
vulneráveis ou em perigo de extinção, bem como a preservação da diversidade
genética e das belezas cênicas existentes, com o uso indireto dos recursos naturais
em parte da área, mediante atividades recreativas em contato com a natureza e
educação ambiental extensiva.
A lei 9.985/2000, em seu art. 11 §4°, menciona o regime jurídico dos Parques Nacionais, entretanto, seus princípios e normas são também aplicáveis aos
Parques Estaduais e Municipais, como, também, aplicáveis as normas gerais fundadas no art. 24, XI e §§1º e 2º da Constituição Federal.
No que tange a visitação, os Parques Nacionais são abertos à visitação pública, ficando sujeito a normas e restrições estabelecidas pelo Plano de Manejo, e
as normas previamente determinadas pelo órgão responsável pela administração
do local.
Aplica-se ao Plano de Manejo o princípio da precaução, que deverá ser invocado toda vez que houver dúvida ou discrepância de opinião ou entendimento
científico sobre o conteúdo do Plano de Manejo, e sobre as atividades, obras e
zoneamento projetados ou levados a efeito em uma Unidade de Conservação.
Com certeza os Parques Municipais são mais visitados e, por isso mais sujeitos a danos ecológicos, mas é necessário conciliar a fruição pública com a preservação dos atributos dos Parques.20
O regulamento dos Parques Nacionais determina que eles sejam estabelecidos em áreas relativamente extensas nas quais: I – Haja um ou mais ecossistemas
pouco ou não alterados pela ação do homem, onde as espécies vegetais e animais,
os sítios geomorfológicos e os habitats ofereçam interesses especiais dos pontos
de vista científico, educativo e recreativo ou onde existam paisagens naturais de
grande valor cênico; II – tenha o Governo Federal tomado medidas para impedir
ou eliminar, o mais breve possível, as causas daquelas alterações e para proteger
efetivamente os fatores biológicos, geomorfológicos ou cênicos que determinaram a criação do Parque Nacional; III – dependa a visita de restrições específicas,
mesmo para propósitos educativos, culturais ou recreativos.21
19
COSTA, Patrícia Côrtes. Unidades de Conservação: matéria - prima do Ecoturismo. 1ª ed. São Paulo: Aleph Editora,
2002, p.32.
20
SILVA, José Afonso da. Direito Ambiental Constitucional. 4ª Ed. São Paulo: Ed. Malheiros, 2002, p.237.
21
ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito Ambiental. 7ª ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2004, p.641-642.
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Com relação a semelhança entre florestas e parque, os parques, em verdade, constituem florestas ou outras formas de vegetação que, à semelhança das
florestas e vegetação de preservação permanente, se subordinam a um regime
jurídico protecionista, preservacionista. Diferem no que tange à sua formação.
Os primeiros (Parques), quando incidentes sobre florestas de propriedade privada,
dependem de desapropriação por interesse social, nos termos do art.2º, VII, da Lei
4.132 de 1962. Vale dizer, como as florestas nacionais, estaduais e municipais, as
florestas – parques deverão ser constituídas de áreas públicas.22
No Regulamento dos Parques Nacionais, o mesmo é caracterizado como
bens da União destinados ao uso comum do povo, sendo uma área fechada, o acesso ao povo e a visitação pública são dependentes de limitações específicas, mesmo
para propósitos científicos, culturais (museus, exposições, exibições, concertos ao
ar livre, etc.), educativos ou recreativos (passeios, caminhadas, pintura, acampamentos, etc.), proibida a coleta de frutas, sementes, raízes ou animais, salvo com
finalidade precisamente científica.23
O propósito dos Parques Públicos consiste, pelo exposto, na preservação
dos ecossistemas naturais contra qualquer alteração que os desvirtue. E tudo fica
adestro ao Plano de Manejo, que fornece o zoneamento do Parque, com definição
de zonas características (intangíveis, primitivas, histórico – cultural, entre outros)
sujeitas a diversos tipos de restrições e vedações, conforme sua natureza e características.
Os Parques Nacionais, como demonstra o Ministério do Meio Ambiente,
totalizam 57 no território nacional, sendo a menor unidade de conservação no
tamanho de 3.509,49 hectares e a maior com 3.866.179,47 hectares. Alguns são
bastante conhecidos, como o Parque Nacional do Itatiaia, primeiro a ser criado no
Brasil e o Parque Nacional do Iguaçu. Entretanto, existem muitos outros de beleza
infinita e características singulares, como por exemplo o de Ubajara, no Ceará,
onde fica a gruta de Ubajara, e o de Aparados da Serra, na divisa dos estados do
Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, que abriga uma área importante de remanescentes da Mata Atlântica no seu segmento mais meridional, além do canyon do
Itaimbezinho, de esplendorosa beleza cênica.24
4.2.3 Área de Proteção Ambiental
Conforme a lei do SNUC, as APAs são áreas razoavelmente extensas com
certo grau de ocupação humana, dotados de atributos abióticos, bióticos, estéticos
ou culturais especialmente importantes para a qualidade de vida e o bem-estar
das populações humanas. Têm como objetivos básicos proteger a diversidade biológica, disciplinar o processo de ocupação e assegurar a sustentabilidade do uso
dos recursos naturais. (Lei 9.985/2000, art. 15). Essas unidades possuem regime
22
SILVA, José Afonso da. Direito Ambiental Constitucional. 4ª Ed. São Paulo: Ed. Malheiros, 2002, p.237.
23
24
Dados do Ministério do Meio Ambiente (2005).
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jurídico semelhante ao do zoneamento, pois interferem com o exercício do direito
da propriedade, e ainda mais porque tais áreas são divididas em zonas de uso.
Não é difícil perceber que, nos termos na lei, as Áreas de Proteção Ambiental são unidades de conservação que são estabelecidas em regiões que já se
encontram habitadas. Em realidade, a instituição de uma Área de Preservação
Ambiental (APA) tem como um de seus objetivos precípuos o de assegurar o bemestar das populações humanas que nela habitavam. Tal bem-estar deve ser conjugado, evidentemente, com o aprimoramento das condições ambientais existentes
no interior da APA. Bem se vê, portanto, que as Áreas de Preservação Ambiental
são consideradas espaços protegidos que, não obstante a ampla proteção legal que
lhes são atribuídas, não se constituem em áreas intocáveis. 25
Outrossim, entende esse mesmo doutrinador26 que a definição é abstrata,
tendo em vista que se utiliza de termos ambíguos e poucos explícitos, tais como
“área em geral extensa” ou “certo grau de ocupação humana”. Continuando a
tradição do regime anterior, a APA tem como objetivo a garantia da qualidade de
vida do ser humano. Dessa forma, isso implica que ela deve, necessariamente, ser
uma área de ocupação de seres humanos. O grau é absolutamente desconsiderado, no particular, da mesma forma que a extensão da área também é irrelevante.
Conclui-se, portanto, que o importante é o que se pretende proteger, e não a extensão física da área protegida.
Podem ser constituídos por terras públicas ou privadas, sendo determinadas
por certas normas e restrições para a utilização das propriedades privadas, desde
que respeitados os limites constitucionais. Nas regiões sob domínio público, o órgão
gestor da unidade deverá determinar as diretrizes para a realização de pesquisa científica e visitação pública. Com relação as áreas particulares, caberá aos proprietários
estabelecer tais diretrizes, observados as exigências e limitações legais.
Neste sentido, essas unidades devem ser criadas por decreto que conterá, necessariamente, dado da área, como, denominação, limites geográficos, principais
objetivos e proibições e restrições de uso de recursos ambientais. Não existe proibição de habilitação, residência e atividades nas APAs, não obstante, estas devem,
ser orientadas e fiscalizadas pelo órgão ambiental competente e elaboradas pelo
Plano de Manejo. Contudo, há de se firmar que de maneira alguma o exercício de
atividade econômica é proibido nessas áreas. Ao contrário, se a APA for bem instituída, é possível que o seu estabelecimento se transforme em estímulo ao desenvolvimento de atividades econômicas. A única exigência feita pelo Poder Público
diz respeito à conformidade das atividades com o Plano de Manejo da área e que
tais atividades sejam colocadas em prática de forma sustentável.
Cumpre destacar que essas atividades econômicas são permitidas dentro dos
limites determinados pelo órgão responsável por sua gestão, exceto nas suas zonas de vida silvestre, que devem ser integralmente preservadas. Elas foram inspiradas num tipo de área protegida usada na Europa, o parque natural. Este, por sua
25
26
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ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito Ambiental. 7ª ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2004, p.647.
Idem, op cit., p.649.
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vez, está relacionado ao modelo de Reserva da Biosfera proposto pelo programa
O Homem e a Biosfera (MAB), da Unesco, do qual, no Brasil, faz parte a Reserva
da Biosfera da Mata Atlântica.
Essas atividades a serem desenvolvidas no interior das APAs, devem ser,
necessariamente, precedidas de estudo de impacto ambiental (EIA).
Com relação a indenização, em princípio não deve haver, pelo simples estabelecimento de APA. Entretanto, se caso a implementação da APA acarrete no
encerramento de certa atividade econômica, deverá ser paga indenização, tendo
em vista que ocorreu a verdadeira desapropriação indireta. Contudo, isto é matéria de prova judicial.
A Área de Proteção Ambiental disporá de um Conselho deliberativo presidido pelo órgão responsável por sua administração e constituída por representante
dos setores públicos, de organizações da sociedade civil e da população residente,
conforme regulamentação específica.
A idéia básica da APA é permitir todas as atividades produtivas normais na
área, mas possibilitando também a conservação dos recursos naturais. Trata-se de
um tipo de unidade de conservação mais aberto e próprio para áreas que se inserem naturalmente no contexto das cidades e de um desenvolvimento econômico
natural. 27
São critérios para seleção de áreas de proteção ambiental: a existência de
características biológicas e paisagísticas que recomendem proteção e, ao mesmo
tempo, estejam em área com ocupação humana ou utilização humana que possibilitem o estabelecimento de outra categoria mais restritiva de área natural protegida. Esta categoria também se adequa à proteção de áreas naturais particulares
razoavelmente extensas e ecologicamente valiosas, cujos proprietários desejam
protegê-los permanentemente, com apoio institucional do governo.
As APAs Federais somam um número de 29 espalhadas pelo país, segundo
informações do Ministério do Meio Ambiente de 2005, sendo que a menor área
possui 949,89 hectares e a maior APA 1.656.756,03 hectares.28
A mais extensa das Áreas de Proteção Ambiental já declarada abriga o
corpo principal da Serra da Mantiqueira, se prolongando desde a Pedra do Papagaio, ao norte do Parque Nacional do Itatiaia, no estado de Minas Gerais, até
a Pedra do Baú, ao sul do Parque Estadual de Campos do Jordão, no estado de
São Paulo. A APA da Serra da Mantiqueira preserva ecossistemas de encosta da
Mata Atlântica, que propicia sua estabilidade geológica e conserva mananciais
de água de grande significado social, e abriga campos de altitude de importância
genética. Outrossim, nela persistem formas de cultura tradicional de elevado
interesse e beleza, caracterizadas por caboclos, que vivem segundo antigas tradições indígenas e ibéricas de enorme importância cultural e antropológica.
As APAs de Guaraqueçaba e de Cananéia-Iguape-Peruíbe ficam em volta
das Estações Ecológicas de Guaraqueçaba, do Parque Nacional do Superagui e do
27
28
TOSHIO, Mukai. Direito Ambiental Sistematizado. 4ªed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004, p.114.
Dados do Ministério do Meio Ambiente (2005).
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Parque Estadual da Ilha do Cardoso, aumentando a proteção do sistema lagunar
na divisa litorânea dos estados de São Paulo e do Paraná. Tal complexo e as serras
contíguas compõem o mais importante conjunto de remanescentes de Mata Atlântica e tem destaque universal. Abriga também significativos grupos de caiçaras,
que mesclam as principais culturas formadoras da nacionalidade brasileira.
4.2.4 Reserva Particular do Patrimônio Natural
As Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN) possuem fundamento inicialmente no art. 6º do Código Florestal (Lei 4.771 de 1965), porém em
1980 esse artigo foi revogado pelo Decreto Federal n 98.914, estabelecendo procedimentos claros para a criação, administração e proteção de áreas particulares.
Esse decreto foi revogado pelo Decreto n 1922 de 5 de junho de 1996, e trouxe
modificações importante, destacando-se o caráter perpétuo, e limitações de uso e
benefícios conferidos aos proprietários dessas reservas.
Com o advento da Lei 9.985/2000, o SNUC, as RPPNs foram reconhecidas
como Unidade de Conservação, no art. 21. Essas áreas têm como objetivo conservar locais privadas, gravadas com perpetuidade, com objetivo de conservar a
diversidade biológica.29
A RPPN surgiu da idéia de engajar o cidadão no processo efetivo de proteção aos ecossistemas, oferecendo incentivos à sua criação, mediante isenção de
impostos.
Tal unidade é constituída em áreas de domínio privado, por iniciativa do proprietário e mediante reconhecimento pelo poder público. Conforme a legislação
é assegurada a conservação da área por perpetuidade, gravada em cartório, sem
perda de direito de propriedade por parte do proprietário nem ônus para o governo
com a desapropriação de terras para a sua criação.
Ao tornar a área uma RPPN, o proprietário faz com que a natureza continue preservada. Entretanto, ele deve cumprir uma série de requisitos e o uso
da área passa a ser restrito, dessa forma, a melhor opção de uso dessa unidade
é a exploração turística moderada, focando em grupos seletos, ou seja, os
ecoturistas.
A importância das reservas particulares para a conservação da biodiversidade tem sido muito defendida na vasta bibliografia existente sobre o meio ambiente
e desenvolvimento. Apesar das iniciativas já venham ocorrendo, a falta de divulgação e a precariedade dos incentivos têm limitado o interesse da população em
implementar áreas protegidas.
São considerados alguns incentivos para os proprietários de áreas naturais
potenciais que se aderem a esse tipo de categoria: isenção de Imposto Territorial
Rural – ITR; prioridade na análise de concessão de recursos do Fundo Nacional
29
WIEDMANN, Sônia Maria Pereira. Reservas Particulares do Patrimônio Natural: um resgate histórico. IN: II Congresso
Brasileiro de Unidades de Conservação, 2000. Anais.
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do Meio Ambiente; apoio, cooperação e respeito de organizações, instituições de
pesquisa e universidades; o privilégio de pertencer a um pequeno grupo de cidades possuidores de reservas ecológicas. 30
Talvez o avanço mais significativo da Lei nº 9.985 no tocante às àreas particulares protegidas tenha sido o de reconhecer as RPPNs como unidades de conservação, incluídas no grupo de unidades de conservação de uso sustentável. As
restrições de uso impostos às RPPNs de fato fazem delas unidades de conservação
de proteção integral, conforme o art.21 da lei.31
Entretanto, a categoria está deslocada, já que nela somente se permitem atividade de uso indireito. Deveria a reserva particular do patrimônio natural situarse entre aquelas classificadas como unidade de proteção integral.32
Após o SNUC, diversos instrumentos foram criados para regulamentar as
RPPNs, como o Decreto n 5.746 de 5 de abril de 2006, que regulamenta as RPPNs
e substituiu o de n 1.922/96; a Instrução Normativa n 62, de 2005, que estabelece
as normas para a criação de RPPNs; e o Roteiro Metodológico para Planos de
Manejos para essas reservas.
Embora com incentivos tímidos e problemas burocráticos e de divulgação,
a criação de RPPNs cresceu ao longo dos anos. Os motivos dos proprietários ao
criarem suas reservas são vários, mas a análise dos dados de um estudo realizado
pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) revelou que 76% dos proprietários amostrados criaram RPPNs pela possibilidade de obter maior proteção
estatal contra queimadas, caça ou desmatamento, indicando que a fiscalização assegurada pelo Decreto n 5.746/2006 é um atrativo importante; 49% afirmaram ter
criado RPPNs pela possibilidade de valorização do ambiente (trata-se, portanto
de um público interessado em conservar, independentemente de incentivos); 37%
valorizaram a possibilidade de apoio de entidades ambientalistas; 29% interessaram-se pelo reconhecimento do então Ibama e 28%, pela possibilidades de apoio
do manejo.33
O reconhecimento de uma RPPN é perpétuo, significando que o proprietário
poderá vender a área, ou mesmo reparti-la entre seus herdeiros, mas os novos donos não poderão alterar suas características naturais, nem mudar sua destinação à
conservação da natureza. Dessa maneira, quem cria uma RPPN tem a certeza do
seu desejo em deixar para as futuras gerações uma amostra do patrimônio natural
que será respeitado para sempre. 34
30
COSTA, Patrícia Côrtes. Unidades de Conservação: matéria - prima do Ecoturismo. 1ª ed. São Paulo: Aleph Editora,
2002, p.39.
31
COSTA, Claúdia Maria Rocha. RPPN Mata Atlântica. Potencial para a implantação de políticas de incentivo às RPPNs.
Belo Horizonte, Fundação SOS Mata Atlântica, 2006, p.235-236.
32
RODRIGUES, José Eduardo Ramos. Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) (Lei nº9.985, de 18 de
julho de 2000). IN: Moraes, Rodrigo Jorge, et.al. As Leis Federais mais importantes de Proteção ao Meio Ambiente. Rio
de Janeiro: Renovar, 2005, p.333.
33
COSTA, Claúdia Maria Rocha. RPPN Mata Atlântica. Potencial para a implantação de políticas de incentivo às RPPNs.
Belo Horizonte, Fundação SOS Mata Atlântica, 2006, p.p.34-35.
34
NARDES, Antônia Marília Medeiros. Caracterização e zoneamento ambiental da reserva particular do patrimônio natura
Parque Ecológico João Basso (Fazenda Verde, Rondonópolis, MT) São Carlos, SP, 2005. 72 f. Tese Doutorado. - Centro de
Ciências Biológicas, Universidade Federal de São Carlos.
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No Brasil, o número de unidades de conservação criadas como reserva particular do patrimônio natural e reconhecidas pelo IBAMA, chega-se a um total de
425, espalhada por todo o território nacional.
Atualmente, o Estado de Minas Gerais poussi 76 RPPNs estaduais, das quais
36 foram criadas por empresa, muitas delas como medidas compensatória. As
demais originaram da iniciativa de proprietários rurais, motivados pela rapidez e
pela facilidade do processo estadual, em comparação com a tramitação no governo federal.
5. PARQUE: A MELHOR CATEGORIA PARA A MATA DO KRAMBECK
As Áreas de Proteção Ambiental são geralmente extensas, nas quais já se
encontram habitadas, constituída por diversas propriedades, podendo ser pública
ou privada. Com relação às áreas particulares, caberá aos proprietários estabelecer
diretrizes de realização de pesquisa científica e visitação pública.
Desse modo, a Área de Proteção Ambiental Mata do Krambeck é uma região
pequena (374,1 ha) diante das APAs já instituídas no país, com grau de ocupação
humana quase zero, sendo formada por apenas duas propriedades particulares.
Por ser de uso restrito às contingências de seus proprietários, a população de Juiz
de Fora fica privada de qualquer utilização do espaço.
Torna-se necessário à população de Juiz de Fora uma área verde para o desenvolvimento de atividades de lazer, de educação ambiental e observação de
componentes da fauna e flora, assim como aspectos geográficos como parte do
leito do Rio Paraibuna em um meandro abandonado, já que a cidade possui certa
carência de áreas desse tipo.
Por isso, atualmente, a melhor proposta seria a desapropriação da área, transformando em uma unidade de conservação do tipo Parque Municipal. Pela facilidade de seu acesso e proximidade com o centro urbano, tal área seria muito
visitada, principalmente pelo desconhecimento de grande parte da população do
interior do pretendido Parque.
6. CONCLUSÕES ARTICULADAS
6.1 A Mata do Krambeck representa uma das únicas áreas natural preservada dentro da zona urbana do município de Juiz de Fora, ao mesmo tempo que esta proximidade traz as pressões e os impactos das atividades humanas, sua preservação
adequada garantirá uma melhor qualidade de vida à comunidade.
6.2 Sendo uma área privada cujo acesso da comunidade nunca foi permitido, a
interatividade que a mesma exerce com o local sempre foi muito restrita, gozando
apenas dos benefícios ambientais indiretos e da contemplação da paisagem. Destarte, sempre se nutriu a possibilidade de ampliar essa interação, tornando a área
acessível e desfrutável para todos.
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6.3 Torna importante a recategorização da unidade de conservação Mata do Krambeck, que propiciará a (re)integração homem e o ambiente natural, valorizando o
patrimônio natural e o município em termos de planejamento, preservação e desenvolvimento sustentável.
6.4 Considerando a ocupação urbana e os atributos naturais da área, a atividade
proposta de recategorizar a APA em Parque é compreendida como a mais compatível com a área, pois daria ênfase a algumas características peculiares do local,
fazendo com que a população da cidade usufruísse de parte dos recursos naturais
que ali se encontram.
6.5 A idéia de ter dentro da zona urbana uma área diferenciada em relação ao uso
do solo, onde se privilegia a conservação, permitirá a manutenção dos níveis de
qualidade ambiental e um melhor planejamento de usos, interferindo positivamente no planejamento urbano e garantindo à cidade de Juiz de Fora um patrimônio ambiental por tempo indeterminado.
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A NATUREZA JURÍDICA DA COMPENSAÇÃO
AMBIENTAL PREVISTA NA LEI DO SNUC
(9.985/2000)
NATASHA ZADOROSNY LOPES BASTOS
Pesquisadora do Setor de Direito Ambiental do
Núcleo Interdisciplinar de Meio Ambiente da PUC-Rio, coordenado
pelos professores Fernando Cavalcanti Walcacer
e Danielle de Andrade Moreira
1. INTRODUÇÃO
Há alguns séculos já se protegem áreas naturais, tais como as destinadas
à caça pelos nobres europeus. A primeira área com características ambientais
relevantes protegida nos tempos modernos foi o Parque Nacional de Yellowstone,
criado nos Estados Unidos em 1º de março de 18721.
No Brasil a primeira área protegida nesses moldes foi o Parque de Itatiaia,
criado em 19372. Apesar disso, só surgiu uma norma protetora e sistematizadora
dessas áreas em 18 de julho de 2000, com a promulgação da Lei 9.985. Esta Lei
instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação.
Segundo Edis Milaré, esta Lei “(...) ainda com o caráter de obra inacabada,
apresenta grande importância por ser o primeiro instrumento legal que busca
elencar e definir as diferentes categorias de unidades de conservação existentes
no território nacional, sistematizando classificações que anteriormente se sobrepunham ou se confundiam.”3.
A Lei 9.985/2000 trouxe em seu artigo 36 uma nova forma de compensação
ambiental, tema que este estudo abordará um pouco mais profundamente. Para
tanto, trataremos dos aspectos constitucionais e infraconstitucionais dos princípios pertinentes ao novo instituto, do SNUC e, por fim, da natureza jurídica desta
compensação.
2. ASPECTOS CONSTITUCIONAIS
A Constituição brasileira de 1988 foi bastante inovadora por ter sido a pri-
1
NOGUEIRA, Madeira Jorge, SALGADO, Gustavo Souto Maior. Teorias Econômicas e Conservação da Natureza: Compatíveis? Disponível em < http://arruda.rits.org.br/oeco/reading/oeco/reading/pdf/teorias_ economicas_e_conservacao.
pdf>. Acesso em 20 de fevereiro de 2008.
2
Disponível em http://www.ief.mg.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=291&Itemid=139. Acesso em
20 de fevereiro de 2008.
3
MILARÉ, Édis. Direito do Ambiente: doutrina, jurisprudência, glossário. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2007.
p. 654.
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meira a trazer em seu texto um capítulo tratando do meio ambiente4. Este é composto pelo um artigo – art. 225 – que dá as linhas gerais a serem observadas e
obedecidas na relação do homem com o ambiente.
Uma das incumbências impostas pela Constituição ao Poder Público para
proteger o direito das gerações atuais e futuras ao meio ambiente ecologicamente
equilibrado é “definir, em todas as unidades da Federação, espaços territoriais e
seus componentes a serem protegidos”5. Sua criação justifica-se ambientalmente
por estes serem áreas representativas de ecossistemas6.
Os espaços territoriais especialmente protegidos7 caracterizam-se por estarem sob “um regime jurídico especial quanto à modificabilidade e quanto à
fruição”8. Seu objetivo principal é “a manutenção de ecossistemas de peculiar
significado ambiental, em prol, inclusive, das gerações vindouras”9. Eles podem
ser divididos em lato sensu e stricto sensu10.
No primeiro grupo enquadram-se as áreas protegidas pelo Código Florestal – área de preservação permanente11 e reserva legal12 – e as áreas de proteção
especial previstas na Lei 6.766/197913.
Pertencem ao segundo grupo – o dos espaços territoriais especialmente
protegidos strictu sensu – as unidades de conservação típicas, previstas na
Lei 9.985/200014, que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação15.
4
O Título VIII da CF/88 chama-se Da Ordem Social. Seu Capítulo VI é Do Meio Ambiente. Além disso, como nos lembra
Edis Milaré, “a dimensão conferida ao tema não se resume, a bem ver, aos dispositivos concentrados especialmente no Capítulo VI do Título VIII, dirigido à Ordem Social – alcança da mesma forma inúmeros outros regramentos insertos ao longo
do texto nos mais diversos capítulos e títulos, decorrentes do conteúdo multidisciplinar da matéria.” Op. Cit., p. 147.
5
Art. 225, §1°, inc. III, CF/1988. Neste sentido, Helini Silvini Ferreira afirma que “trata-se, sobretudo, de instrumento para
a concretização do próprio direito fundamental ao meio ambiente, direito intergeracional de usufruto de estados ecológicos
essenciais.”. Política Ambiental Constitucional. In: CANOTILHO, José Joaquim Gomes; LEITE, José Rubens Morato
(Orgs.). Direito Constitucional Ambiental Brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2007. p. 273.
6
SILVA, José Afonso da. Direito Ambiental Constitucional. São Paulo: Malheiros Editores. 2007, 6ª edição. p. 230.
7
O professor José Afonso da Silva define brilhantemente ETEPs como “áreas geográficas públicas ou privadas (porção do
território nacional) dotadas de atributos ambientais que requeiram sua sujeição, pela lei, a um regime jurídico de interesse
público que implique sua relativa imodificabilidade e sua utilização sustentada, tendo em vista a preservação e proteção da
integridade de amostras de toda a diversidade de ecossistemas, a proteção aos processos evolutivos das espécies, a preservação e proteção dos recursos naturais.” Op. Cit., p. 232.
8
SILVA, José Afonso da. Op. Cit. p. 230.
9
COSTA NETO, Nicolau Dino de Castro e. Proteção Jurídica do Meio Ambiente – I Florestas. Belo Horizonte: Del Rey,
2003. p. 164.
10
MILARÉ, Edis. Op. Cit., p. 160.
11
Previstas nos arts. 2º e 3º da Lei 4.771/1965.
12
Prevista no art. 16 da Lei 4.771/1965.
13
Para Juliana Santilli “o conceito constitucional de espaços territoriais especialmente protegidos engloba não apenas as
unidades de conservação, com também as áreas de preservação permanente, reserva legal, biomas constitucionalmente
protegidos (Floresta Amazônica, Mata Atlântica, Serra do Mar, Pantanal Mato-Grossense e a Zona Costeira, previstos no
art. 225, §4º da CF/88) e as reservas da biosfera.” In: A Lei 9.985/2000, que instituiu o Sistema Nacional de Unidades de
Conservação da Natureza (SNUC): uma abordagem socioambiental. Revista de Direito Ambiental. São Paulo: Ed. Revista
dos Tribunais, 2005, nº 40, p. 83.
14
MILARÉ, Édis. Direito do Ambiente: doutrina, jurisprudência, glossário. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2007.
p. 160.
15
No mesmo sentido, Nicolau Dino de Castro e Costa Neto afirma que “unidade de conservação é espécie do gênero
espaço territorial especialmente protegido – ETEP. Assim, é de se entender que o diploma legal instituidor do SNUC não
esgota o rol dos espaços territoriais dignos de especial proteção.”. Op. Cit., p. 170. Vide também: FERREIRA, Helini
Silvini. Op. Cit., p. 241.
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3. O SISTEMA NACIONAL DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO
A Lei 9.985/2000, também conhecida como Lei do Sistema Nacional de
Unidades de Conservação (SNUC), estabeleceu as regras para a criação, implantação e gestão das unidades de conservação16. Estas podem ser compreendidas
como todo espaço territorial delimitado com o objetivo de proteger recursos naturais relevantes dos ecossistemas17. Para alcançar o seu fim, aplica-se a elas um
regime especial de administração.
As unidades de conservação dividem-se em duas categorias distintas funcionalmente: Unidades de Proteção Integral e Unidades de Uso Sustentável18.
As Unidades de Proteção Integral visam a preservação máxima da natureza,
admitindo-se apenas o uso indireto dos recursos ambientais existentes na área19.
Nas Unidades de Uso Sustentável busca-se conciliar a conservação do meio com
a utilização parcial dos bens naturais que nelas ocorrerem20.
Cabe aqui distinguir preservação e conservação da natureza. Segundo Juraci Perez de Magalhães preservar é “manter os ecossistemas intactos e com
suas características originais”21, ou seja, é vedar em absoluto a utilização da
área. Já conservar “implica na utilização dos recursos do ambiente, mediante
manejo, com o propósito de se obter a mais alta qualidade sustentável da vida
humana”22, o que permite a utilização razoável e bem planejada dos bens ambientais protegidos.
Um importante instituto criado pela Lei 9.985/2000 é a compensação ambiental prevista em seu art. 36. Ele é cercado por polêmicas, sendo a sua natureza
jurídica, assunto que será mais profundamente analisado neste estudo, uma delas.
Contudo, antes de abordar esta questão propriamente, observemos os princípios
que a cercam.
16
Art 1°, Lei 9.985/2000.
Ecossistema é “qualquer unidade que inclua todos os organismos em uma determinada área, interagindo com o ambiente
físico, de tal forma que um fluxo de energia leve a uma estrutura trófica definida, diversidade biológica e reciclagem de
materiais (troca de materiais entre componentes vivos)”. MILARÉ Edis, Op. Cit., p. 1.244.
18
Para Maurício Mercadante “esta divisão entre estes dois grupos de UCs é uma herança da concepção conservacionista do
SNUC. Para os conservacionistas, o grupo das UCInt é aquele que reúne as verdadeiras UCs, as únicas realmente dignas do
nome, capazes de assegurar a efetiva conservação da natureza. As demais são, no máximo, complementares ao Sistema e
algumas, na verdade, só teriam sido introduzidas na Lei do SNUC por conveniência política.”. O autor vai além, afirmando
que “a divisão entre esses dois grupos é um equívoco. Ela induz a pensar que existe um fosso conceitual entre um grupo e
outro, o que não é verdade, como mostraremos com exemplos mais adiante. Ela reforça a idéia de que nas UCInt nenhuma exploração de recursos é possível, o que enrijece a gestão das UCs desse grupo e dificulta a solução de conflitos. Ela
consolida a visão de que a melhor forma de conservar é separando áreas naturais e expulsando as pessoas, desvalorizando
as estratégias de gestão múltipla, integrada, negociada e participativa dos espaços naturais Enfim, ela retarda o necessário
processo de renovação do conceito de UC no Brasil.”. In: Democratizando a Criação e a Gestão de Unidades de Conservação da Natureza: a Lei 9.985, de 18 de julho de 2000. Revista de Direitos Difusos. São Paulo: Editora Esplanada, vol.
05. pp. 564 e 566.
19
Art. 7º, §1º, Lei 9.985/2000.
20
Art. 7º, §2º, Lei 9.985/2000. No mesmo sentido, José Afonso da Silva afirma sobre as Unidades de Conservação de Uso
Sustentável: “seu objetivo básico não é preservar a Natureza, mas compatibilizar a conservação desta com o uso sustentável de parcela dos seus recursos naturais”. Op. Cit., p. 243.
21
MAGALHÃES, Juraci Perez. Comentários ao Código Florestal. São Paulo: Ed. Juarez de Oliveira, 2001, 2ª edição. p.
55.
22
Ibid. p. 55.
17
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4. PRINCÍPIOS
4.1 Princípio do Poluidor-pagador
Sobre toda situação que gere dano ambiental de origem antropogênica recai
a responsabilidade de impedi-lo e, não sendo possível, a de arcar com as despesas
de sua reparação. O princípio do poluidor-pagador indica o causador como este
responsável, tirando este fardo da sociedade – que já sofre com as conseqüências
da lesão ao meio ambiente.
Como bem nos lembra Érika Bechara, “não apenas os custos, mas também a
própria execução das ações preventivas, neutralizadoras e reparadoras competem,
diretamente, ao responsável pela atividade degradadora.”23.
Este princípio não autoriza a poluição do ambiente, mas sim imputa “ao
poluidor o custo social da poluição por ele gerada, engendrando um mecanismo
de responsabilidade por dano ecológico, abrangendo dos efeitos da poluição não
somente sobre bens e pessoas, mas sobre toda a natureza.”24.
Os princípios do poluidor-pagador e do usuário-pagador são distintos. O primeiro “pode realizar-se tanto através do licenciamento administrativo, da imposição
de multas, da determinação de limpeza ou recuperação ambiental, como pela cobrança de tributos, enquanto fonte de recursos para custeio da proteção ambiental.”25. Já
o último – o princípio do usuário-pagador – pode ser implementado mesmo que não
aja nenhuma ilicitude no comportamento de seu realizador26.
Paulo Henrique do Amaral bem diferencia os princípios do poluidor-pagador
e do usuário-pagador, considerando que o primeiro trata da poluição ambiental
propriamente dita e o segundo do uso dos recursos ambientais27
4. 2 Princípio da Precaução
Apesar da alta velocidade com que a ciência avançou no último século, ela
nem sempre nos expõe certezas e com alguma freqüência somos postos frente a
possibilidades. Quando há dúvida sobre a conseqüência de uma ação ou omissão
sobre um bem ambiental, a ponderação sobre o que deve ser feito nos é dada pelo
princípio da precaução.
23
BECHARA, Érika. Uma contribuição ao aprimoramento do instituto da compensação ambiental previsto na Lei
9.985/2000. São Paulo: PUC-SP, 2007. p. 54. No mesmo sentido: “O princípio do poluidor-pagador (PPP) é definido
como sendo a exigência de que o poluidor arque com os custos das medidas de prevenção e controle da poluição, ou seja,
está relacionado ao princípio retributivo que, no Direito Tributário, o agente não-poluidor seria o não-pagador.”. BRAGA,
Guilherme Doin; Castro, Katiana Bilda de. Apontamentos Gerais do Direito Tributário Ambiental. In: KINGMA, Breno
Ladeira et al. (Coord.). Direito Tributário Ambiental. Rio de Janeiro: Lumen Júris Editora, 2006. p. 192. Para Paulo Henrique do Amaral “sempre se terá que buscar imputar ao poluidor o custo suportado por toda a coletividade em razão das
limitações advindas com a degradação ambiental gerada pelas suas atividades econômicas. Além, é claro, de atribuir ao
poluidor todas as despesas inerentes ao desenvolvimento de novos e adequados sistemas de minimização ou neutralização
da poluição.”. In: Direito Tributário Ambiental. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2007. p. 116.
24
MILARÉ, Édis. Op. Cit., p. 771. Também nessa linha, José Marcos Domingues nos lembra que “há que se descortinar
um sentido seletivo do princípio determinante da graduação da tributação, de forma a incentivar atividades não-poluidoras
e desestimular aquelas nefastas à preservação ambiental.”. Op. Cit., pp. 32 e 33.
25
DOMINGUES, José Marcos. Direito Tributário e Meio Ambiente. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2007. p. 31.
26
MACHADO, Paulo Affonso Leme. Op. Cit., p. 60.
27
AMARAL, Paulo Henrique do. Op. Cit., p. 117.
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Nas palavras de Nicolau Dino de Castro Costa e Neto “a incerteza quanto
à (in)ofensividade de determinada atividade em relação ao meio ambiente deve
apontar para uma atitude compatível com o ideal de proteção ambiental.”28
Entretanto, entendemos que, além da incerteza sobre os danos de uma
atividade, o princípio da precaução só pode impedir a realização de uma atividade se houver indícios razoáveis de que a mesma causará lesão ao meio
ambiente29.
Esta razoabilidade deve ser analisada caso a caso, de acordo com os benefícios sócio-econômico-ambientais30 da atividade potencialmente danosas à natureza e com o possível prejuízo que a mesma virá a sofrer.
4. 3 Princípio da Prevenção
O princípio da prevenção busca evitar que danos conseqüentes de determinadas
ações ou omissões humanas, já conhecidas pela ciência e passíveis de serem previstos,
não ocorram. Nas palavras de Paulo Affonso Leme Machado, este princípio quer concretizar “o dever jurídico de evitar a consumação de danos ao meio ambiente”31.
De acordo com Edis Milaré este princípio “tem como objetivo impedir a ocorrência de danos ao meio ambiente, através da imposição de medidas
acautelatórias”32.
Isso não significa dizer que qualquer atividade causadora de danos ecológicos conhecidos será proibida. Quando o bem social, ambiental e/ou econômico
oriundos de empreendimentos efetivamente prejudiciais ao meio ambiente for
de grande importância, então os mesmos serão autorizados. Nestes casos, haverá
compensação da lesão33.
5. A COMPENSAÇÃO AMBIENTAL PREVISTA NA LEI 9.985/2000
O art. 36 da Lei da SNUC obriga empreendimentos de significativo impacto ambiental a pagarem uma compensação ambiental no valor mínimo, originalmente, de 0,5% de seus custos totais34. Este valor deverá ser aplicado pelo
28
Op. Cit., p. 68. No mesmo sentido, Edis Milaré nos ensina que “a invocação do princípio da precaução é uma decisão
a ser tomada quando a informação científica é insuficiente, inconclusiva ou incerta e haja indicações de que os possíveis
efeitos sobre o ambiente, a saúde das pessoas ou dos animais ou a proteção vegetal possam ser potencialmente perigosos e
incompatíveis com o nível de proteção escolhido.”. Op. Cit., 767.
29
BECHARA, Érika. Op. Cit., p. 46. Segundo Paulo Henrique do Amaral “o princípio da precaução orientará a não tomar
decisões arriscadas quando não se conhecerem cientificamente bem suas possíveis conseqüências.”. Op. Cit., p. 145.
30
Nada impede que uma atividade que venha a causar dano a um bem ambiental beneficie outro.
31
MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. São Paulo: Malheiros Editores, 2005, 13ª edição. p. 80.
32
MILARÉ, Edis. Op. Cit., p. 767. Neste sentido, Érika Bechara afirma “o benefício primeiro produzido pela aplicação do
princípio da prevenção é evitar a deterioração do ambiente e da qualidade de vida humana.”. Op. Cit., p. 41.
33
Neste mesmo sentido, José Marcos Domingues afirma: “Na verdade, confrontado com a dificuldade de conciliar o
princípio do desenvolvimento sustentável com o princípio da preservação ambiental, e constrangido pelo estado da arte
tecnológico, o Estado se vê na contingência, por vezes, em situações-limite, de licenciar certos empreendimentos que
implicam a perda da qualidade ambiental.”. Op. Cit., p. 184.
34
Art. 36, §1°, Lei 9.985/2000. Para José Marcos Domingues “(...) a Lei do SNUC se valeu de conceito jurídico indeterminado (‘grau de impacto ambiental’) para desta feita proceder a pseudovaloração da compensação”. Op. Cit., p. 203. Para
Paulo Affonso Leme Machado “A fixação de percentual acima de meio por cento dos custos totais previstos para a implantação demandará do órgão licenciador clara e fundada motivação, para que não haja arbitrariedade.”. Op. Cit., p. 788.
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órgão ambiental na implantação e/ou manutenção de unidades de conservação
de Proteção Integral35.
No dia 08 de abril deste ano o STF julgou a Ação Direta de Inconstitucionalidade n° 3378, considerando inconstitucionais as expressões “não pode ser inferior
a meio por cento dos custos totais previstos na implantação de empreendimento”
e “o percentual”, constantes do parágrafo 1º, do artigo 36, da Lei 9985/2000. O
IBAMA ainda não se pronunciou sobre qual será a nova forma de cálculo do valor a
ser pago a título da compensação ambiental prevista na Lei do SNUC. 36
O que justifica a compensação ambiental ter sido incluída na Lei do SNUC
é a sua destinação ser totalmente vinculada a unidades de conservação37. O custo
de criação e gestão das pertencentes à categoria de Proteção Integral é muito alto,
principalmente quando há desapropriações a serem feitas. A não-aplicação do valor arrecadado nas mesmas descaracteriza o instituto e pode levar à anulação de
sua cobrança e à devolução do valor pago pelo empreendedor38.
Esta compensação ambiental, também conhecida como compensação
SNUC39, aplica o princípio do poluidor-pagador40. “O pagamento a ser feito
pelo empreendedor não é um salvo-conduto para poluir ou para danificar o meio
ambiente”41, mas sim o adiantamento do pagamento por danos futuros certos,
previstos no estudo de impacto ambiental do empreendimento42.
35
Segundo o art. 8º da Lei 9.985/2000 são unidades de conservação de Proteção Integral: Estação Ecológica; Reserva
Biológica, Parque Nacional; Monumento Natural; e Refúgio da Vida Silvestre.
36
Outra ação também discutiu a compensação ambiental prevista na Lei 9.985/2000 em curso no Supremo Tribunal Federal: a Suspensão de Segurança nº 2875, impetrada pela Associação Brasileira de Concessionárias de Energia Elétrica. Ela
transitou em julgado em 27 de junho de 2007 e sua decisão, a qual não tivemos acesso, foi publicada no Diário da Justiça
em 08 de agosto de 2007. O processo foi consultado em http://www.stf.gov.br/portal/processo/verProcessoAndamento.asp
?numero=2875&classe=SS&codigoClasse=0&origem=AP&recurso=0&tipoJulgamento=M, no dia 06 de abril de 2008.
37
Nesse sentido Paulo Affonso Leme Machado afirma que “Os recursos que o empreendedor pagar tem uma relação inegável com a área em que os prejuízos ambientais possam ocorrer. O órgão licenciador, portanto, não pode indicar unidades
de conservação que não estejam ou na área de influência do projeto, na sua bacia hidrográfica ou na sua microrregião
geográfica, se essas unidades de conservação ali já existirem”. Op. Cit., p. 792.
38
“O instituto da compensação ambiental tem sua origem no direito brasileiro no art 1º, da Resolução CONAMA 10/87,
onde se estabelecia que para contrabalançar ou recompensar ou equilibrar ou reparar as perdas ambientais com a destruição
de florestas e outros ecossistemas nos casos de licenciamento de atividades e obras de grande porte, deveria o empreendedor implantar uma estação ecológica, preferencialmente junto à área de impacto.”. RODRIGUES, Marcelo Abelha. Aspectos jurídicos da compensação ambiental do art. 36, §1° da Lei Brasileira das Unidades de Conservação (Lei 9.985/2000).
Revista de Direito Ambiental. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2007, n° 46. p. 131.
39
DOMINGUES, José Marcos. “A chamada compensação financeira SNUC”. Revista Dialética de Direito Tributário, nº
133. São Paulo: Dialética, 2006. p. 43.
40
Em sentido distinto, Paulo Affonso Leme Machado afirma que “a compensação ambiental é uma contribuição financeira
que aplica o princípio do usuário-pagador.”. Op. Cit., p. 784.
41
MACHADO, Paulo Affonso Leme. Op. Cit., p. 788.
42
O art. 10 da Lei 6.938/1981 – que dispõe sobre a Política Nacional de Meio Ambiente – obriga os empreendimentos
potencialmente poluidores e/ou degradadores do meio ambiente devem submeter-se a prévio licenciamento ambiental.
Este é uma das formas de expressão do poder de polícia do Estado.
Nos
ensina José dos Santos Carvalho Filho que se pode “conceituar o poder de polícia como a prerrogativa de direito público
que, calcada na lei, autoriza a Administração Pública a restringir o uso e o gozo da liberdade e da propriedade em favor do
interesse da coletividade.” In: Manual de Direito Administrativo. Rio de Janeiro: Ed. Lúmen Júris, 2005. 14ª edição. p. 62.
Já para Para Maria Sylvia Zanella Di Pietro “o poder de polícia é a atividade do Estado consistente em limitar o exercício
dos direitos individuais em benefício do interesse público”. In: Direito Administrativo. SP: Atlas, 2004. p. 111.
De
acordo com Érika Bechara “(...) o licenciamento ambiental enquadra o empreendimento na legislação ambiental para
forçá-lo a se desenvolver dentro dos padrões pré-estabelecidos, sem gerar lesões irremediáveis e intoleráveis ao ambiente
e à coletividade”. Op. Cit., p. 112.
Édis
Milaré entende que“(...) o licenciamento ambiental é ato uno, de caráter complexo, em cujas etapas podem intervir vários agentes dos diversos órgãos do SISNAMA, e que deverá ser precedido de estudos técnicos que subsidiem sua análise,
inclusive de EIA/RIMA, sempre que constatada a significância do impacto ambiental.”. Op. Cit., p. 406.
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Segundo Marcelo Abelha Rodrigues “(...) o instituto do art. 36 da Lei do
SNUC tem o seu embrião na finalidade reparatória dos impactos não mitigáveis
gerados pelos empreendimentos de grande porte.”43
Um dos aspectos mais polêmicos sobre a compensação ambiental prevista
na Lei 9.985/2000 é a sua natureza jurídica, e é neste assunto que nos aprofundaremos um pouco no item seguinte.
5.1 A Natureza Jurídica da Compensação SNUC
A compensação ambiental SNUC só cabe após a aplicação de todas as medidas possíveis técnico-cientificamente para evitar a ocorrência de danos ou minorar seus efeitos44. Ela será aplicada sobre os danos certos que ainda assim o
empreendimento causará. Inclusive, o cumprimento da compensação, seja ele in
natura ou in pecunia, é um dos requisitos para a concessão da licença ambiental
prévia45.
Antes de aplicar o instituto da compensação ambiental, devemos lembrar da
sábia lição de Paulo Affonso Leme Machado: “Antes de se perguntar se os danos
ambientais são compensáveis é preciso perguntar se os danos ambientais são admissíveis diante do direito de todos à sadia qualidade de vida e ao meio ambiente
ecologicamente equilibrado”46.
Visto isso, entendemos que a natureza jurídica da compensação SNUC
é indenizatória sobre danos futuros certos47. Seu objetivo é ser um pagamento
antecipado por impactos negativos irreversíveis previstos no Estudo de Impacto
Ambiental que certamente ocorrerão após a aplicação de todas as medidas mitigatórias.48.
Segundo Marcelo Abelha Rodrigues, “(...) o instituto do art. 36 da Lei do
SNUC tem o seu embrião na finalidade reparatória dos impactos não mitigáveis
gerados pelos empreendimentos de grande porte.”49
A compensação não recairá sobre os riscos do empreendimento, pois entendemos que não cabe prévia indenização sobre danos incertos, sobre as conseqüências maléficas ao ambiente que podem, ou não, vir a acontecer. Sendo elas
concretizadas, caberá ao afetados e ao Poder Público acionar o Poder Judiciário
para sua devida reparação.
No mesmo sentido, Érika Bechara afirma que “a compensação ambiental de-
43
RODRIGUES, Marcelo Abelha. Op. Cit., p. 131.
Devemos lembrar que “a inevitabilidade, in casu, é apurada sob uma perspectiva técnica/ tecnológica/ científica e não
sob uma perspectiva econômica. Quer-se assim dizer que se o dano ambiental puder ser tecnicamente evitado, porém a um
custo muito elevado, quase proibitivo, não se estará diante de um ‘dano inevitável’.”. BECHARA, Érika. Op. Cit., p. 103.
45
RODRIGUES, Marcelo Abelha. Op. Cit., p. 137.
46
Oo. Cit., p. 786.
47
“Dano certo é o dano ocorrido ou o que é seguro e evidente que ocorrerá.”. RODRIGUES, Marcelo Abelha. Op. Cit.,
p. 137.
48
Para José Marcos Domingues “No caso da compensação ambiental está-se objetivamente diante de medidas de cunho
retributivo em face da execução de um empreendimento subordinado a licenciamento (polícia ambiental) na forma do
direito posto.”. Direito Tributário e Meio Ambiente. Rio de Janeiro: Editora Forense, 2007. p. 187.
49
Op. Cit., p. 131.
44
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terminada antes da implantação da atividade e antes da concretização de um dano,
é exigida com base na forte e sólida identificação de um dano, cuja ocorrência
está prevista para ocasião futura. Assim, não tem lugar, in casu, a dúvida sobre a
eventual efetivação do dano, pois a sua concretização é certa.”.50.
6. CONCLUSÕES ARTICULADAS
6.1 A Constituição Federal Brasileira de 1988 solidificou a importância da proteção de áreas especiais com o fim de proteção ambiental. A Lei 9.985/2000, ao
criar o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, classificou-as e organizou
a implantação das mesmas.
6.2 A compensação ambiental SNUC é válida e atende aos objetivos da Lei
9.985/2000 porque é um real instrumento auxiliador da criação e gestão das unidades de conservação de uso integral.
6.3 A compensação ambiental prevista na Lei 9.985/2000 obriga os responsáveis
por empreendimentos danosos ao meio ambiente a ressarci-los através da aplicação do princípio do poluidor-pagador.
6.4 A natureza jurídica da compensação ambiental prevista na Lei do SNUC é de
indenização por danos futuros certos não mitigáveis. Sobre riscos da implementação de um empreendimento caberá a aplicação responsabilidade civil por danos
já ocorridos.
50
Op. Cit., p. 240.
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SISTEMA NACIONAL DE UNIDADES
DE CONSERVAÇÃO DA NATUREZA:
LIMITAÇÃO AO DIREITO DE PROPRIEDADE
E PROTEÇÃO AMBIENTAL
RAISSA BRASIL FRICK LOPES
Aluna de graduação de Direito da PUC-Rio,
Pesquisadora PIBIC NIMA-Jur, orientada pelos
professores Fernando Walcacer e Isabella Franco Guera
1. O SISTEMA NACIONAL DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO DA NATUREZA
Nos termos do art. 225, § 1º, III, da CF, incumbe ao Poder Público: “definir,
em todas as unidades da Federação, espaços territoriais e seus componentes a
serem especialmente protegidos, sendo a alteração e a supressão permitidas somente através de lei1, vedada qualquer utilização que comprometa a integridade
dos atributos que justifiquem sua proteção”.
Esse dispositivo constitucional é regulamentado pela Lei 9.985/2000, que
institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC),
estabelecendo os critérios e normas para a criação, implantação e gestão das Unidades de Conservação.
A Lei do SNUC entende como uma unidade de conservação um determinado espaço territorial com seus recursos ambientais, legalmente instituído pelo
Poder Público, que visa a conservação do meio ambiente e de seus recursos e
biodiversidade.
As unidades de conservação integrantes do SNUC dividem-se em dois grupos:
(i) Unidades de Proteção Integral e (ii) Unidades de Uso Sustentável2, o primeiro o
As Unidades de Conservação poderão ser federais, estaduais e municipais3.
As categorias de Unidade de Conservação na modalidade de Proteção Integral, compreendem: a Estação Ecológica, a Reserva Biológica, o Parque Nacional, o Monumento Natural, e, o Refúgio de Vida Silvestre. As três primeiras, no
entanto, implicam na desapropriação,4 enquanto que as demais, comportam áreas
particulares5 nos casos em que há a possibilidade de se compatibilizar os objetivos
específicos da Unidade de Conservação com a atividade privada.
1
Importante ressaltar que, segundo a Lei maior, a alteração e a supressão necessitam de lei, mas a criação pode ser por
outros instrumentos, tais como Decreto, Resolução.
2
Art. 3º, da Lei 9.985/2000.
3
Art. 7º, da Lei 9.985/2000.
4
Conforme dispostos nos arts. 9º, § 1º, 10º, § 1º e 11º, § 1º, da Lei 9.985/2000. Mas, o fato de implicar a desapropriação
não significa que assim tenha sido feito, conforme exposição posterior.
5
Arts. 12º, § 2º e 13º, § 1º, da Lei 9.985/2000.
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As unidades de Uso Sustentável, conforme disposto na Lei do SNUC, compreenderão as Áreas de Proteção Ambiental e de Relevante Interesse Ecológico,
a Floresta Nacional, as Reservas Extrativista, de Fauna, de Desenvolvimento Sustentável, e a Reserva Particular do Patrimônio Natural. Dentre essas unidades, as
Áreas de Proteção Ambiental e de Relevante Interesse Ecológico, comportam tanto propriedades privadas, quanto particulares.6 As categorias de Floresta Nacional,
Reserva Extrativista, Reserva de Fauna, Reserva de Desenvolvimento Sustentável,
são de posse e domínios públicos, comportando a desapropriação.7 Enquanto que,
a Reserva Particular do Patrimônio Natural é, segundo a Lei do SNUC8, uma área
de propriedade privada que é gravada de perpetuidade.
A Lei do SNUC, para as Unidades de Proteção Integral, permite somente o
uso indireto dos recursos naturais, qual seja, aquele em que não nenhum consumo,
coleta, dano ou destruição9 dos mesmos. Enquanto que, em relação às Unidades
de Uso Sustentável há a possibilidade de um uso dos recursos naturais, o qual deverá ser somente parcial visando compatibilizar a conservação da natureza e sua
exploração de forma socialmente justa e economicamente viável.
O SNUC tem dentre os objetivos, a contribuição para a manutenção da diversidade biológica e dos recursos genéticos. O art. 4º da Lei 9.985/2000, dispõe
que o fim desta lei abrange o território nacional e as águas jurisdicionais. Porém,
naturalmente, ao se proteger dentro do território brasileiro, essa riqueza não ficará
restrita a soberania do Estado. Beneficiando também, de forma direta países fronteiriços e indireta todo o planeta.Também objetiva proteger espécies ameaçadas
de extinção da região de estabelecimento da Unidade.
O SNUC deverá ser gerido pelo CONAMA10 - órgão consultivo e deliberativo, responsável em acompanhar a implementação do SNUC; pelo Ministério
do Meio Ambiente - que tem por finalidade de coordená-lo; e como órgãos executores o Instituto Chico Mendes11 e o IBAMA12, em caráter supletivo, os órgãos
estaduais e municipais, com a função de implementar o SNUC, subsidiar as propostas de criação e administrar as unidades de conservação federais, estaduais e
municipais13.
1.1 Particularidades do Parque Nacional
O objetivo básico das Unidades de Proteção Integral, conforme explicitado
no item anterior, é preservar a natureza. Para este fim, admite-se apenas o uso
indireto dos seus recursos naturais, com exceção dos casos previstos no SNUC14.
6
Arts. 15º, § 1º e 16º, § 1º, da Lei 9.985/2000.
Arts. 17º, § 1º, 18º, § 1º, 19º, § 1º e 20º, § 2º, da Lei 9.985/2000.
8
Art. 21, do referido dispositivo.
9
Conforme arts. 2o, IX, da Lei 9.985/2000.
10
CONAMA: Conselho Nacional do Meio Ambiente.
11
Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, criado pela Lei no 11.516/2007.
12
IBAMA: Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis.
13
Art. 6o, da Lei 9.985/2000.
14
Art. 7º, § 1º, da Lei 9.985/2000.
7
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Um dos instrumentos de proteção na modalidade integral é o Parque Nacional15,
que tem como finalidade primordial a preservação de ecossistemas naturais de
grande relevância ecológica, sendo de posse e domínio públicos.
Dentre os seus objetivos, observa-se no art. 11, da Lei 9.985/2000, o fim de
esta área possibilitar a realização de pesquisas científicas e o desenvolvimento de
atividades de educação na área ambiental.
Nos termos do art. 22, da Lei 9.985/2000, as unidades de conservação são
criadas por ato do Poder Público, e devem ser precedidas de estudos técnicos além
de consulta pública que permitam identificar a localização, a dimensão e os limites mais adequados para a unidade16.
O órgão executor proponente de nova unidade de conservação é o competente para elaborar os estudos técnicos preliminares e realizar, quando for o caso, a
consulta pública e os demais procedimentos administrativos necessários à criação
da unidade17.
O Poder Público é obrigado a fornecer informações adequadas e inteligíveis
à população local e a outras partes interessadas, durante esse processo de consulta
pública18, cuja finalidade é subsidiar a definição da localização, da dimensão e dos
limites mais adequados para a unidade. Através de reuniões públicas ou, a critério
do órgão ambiental competente, utilizando-se de outras formas de oitiva da população local e de partes interessadas19.
O Decreto 4.340/2002 expressamente prevê em seu art. 5º, § 1º, que durante
o processo de consulta pública, o órgão executor competente deverá indicar, de
modo claro e em linguagem acessível, as possíveis implicações a populações residentes no interior e no entorno da unidade proposta.
De acordo com o Decreto nº 4.340/2002 – que regulamenta os artigos da Lei
9.985/2000 – o ato de criação de uma unidade de conservação deve indicar20:
I - a denominação, a categoria de manejo, os objetivos, os limites, a área da
unidade e o órgão responsável por sua administração;
II - a população tradicional beneficiária, no caso das Reservas Extrativistas
e das Reservas de Desenvolvimento Sustentável;
III - a população tradicional residente, quando couber, no caso das Florestas
Nacionais, Florestas Estaduais ou Florestas Municipais; e
IV - as atividades econômicas, de segurança e de defesa nacional envolvidas.
Quanto à ampliação dos limites da unidade de conservação, sem modificação dos seus limites originais, exceto pelo acréscimo proposto, apresenta-se suficiente como requisito legal o instrumento normativo de mesmo nível hierárquico
que criou a unidade, sem prejuízo dos devidos instrumentos de consulta popular.
No entanto, a redução dos limites de uma unidade de conservação estará condicio-
15
16
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Art. 8º, III, da Lei 9.985/2000.
Art. 22, § 2º, da Lei 9.985/2000.
Art.4º, do Decreto 4.340/2002.
Art. 22, § 3º da Lei 9.985/2000.
Art.5º, § 1º, do Decreto 4.340/2002.
Art. 2º, do Decreto 4.340/2002.
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nada a lei específica21. Nesse quesito, compreende-se lei específica como lei que
dispõe expressamente sobre a unidade de conservação que se pretende reduzir os
limites geográficos.
Nos termos do art. 22-A22, o Poder Público poderá decretar limitações administrativas provisórias ao exercício de atividades e empreendimentos efetiva ou
potencialmente causadores de degradação ambiental, para a realização de estudos
com vistas na criação de unidade de conservação, quando, a critério do órgão
ambiental competente, houver risco de dano grave aos recursos naturais ali existentes. Ressalva-se, no entanto, as atividades agropecuárias e outras atividades
econômicas em andamento e obras públicas licenciadas, na forma da lei.
De acordo com o § 2o, do art. referido à cima, a destinação final da área que
será (ou não) objeto de unidade de conservação deverá ser definida no prazo de 7
(sete) meses, improrrogáveis, findo o qual fica extinta a limitação administrativa.
A Lei 9.985/2000, em seu art. 25, prevê que determinadas espécies de Unidades de Conservação deverão possuir uma zona de amortecimento e, quando
conveniente, corredores ecológicos. O órgão gestor da respectiva unidade será o
responsável em estabelecer normas específicas, com o objetivo de regulamentar
a ocupação e o uso dos recursos da zona de amortecimento e dos corredores ecológicos de uma unidade de conservação. Os limites podem ser estabelecidos no
momento da criação da unidade, ou posteriormente, conforme conveniência do
Poder Público.
Qualquer atividade ou modalidade de utilização no interior da Unidade de
Conservação ou em sua Zona de Amortecimento deverá estar em conformidade com os objetivos do Plano de Manejo relativo à unidade de conservação em
questão, que deve ser elaborado no prazo de cinco anos, a partir de sua criação.
Conforme o parágrafo único, do art. 28, da Lei 9.985/2000, “até que seja elaborado o Plano de Manejo, todas as atividades e obras desenvolvidas nas unidades de
conservação de proteção integral devem se limitar àquelas destinadas a garantir a
integridade dos recursos que a unidade objetiva proteger, assegurando-se às populações tradicionais porventura residentes na área as condições e os meios necessários para a satisfação de suas necessidades materiais, sociais e culturais”.
O Parque Nacional, como unidade de Proteção Integral, deverá dispor de um
Conselho Consultivo, presidido pelo órgão responsável por sua administração e
constituído por representantes de órgãos públicos, de organizações da sociedade
civil e, quando for o caso, das populações tradicionais23 residentes.
A gestão das unidades de conservação não se limita ao Poder Público, podendo ser feita por organizações24 da sociedade civil de interesse público com
21
Art. 22, §§ 6º e 7º, da Lei 9.985/2000.
Incluído pela Lei nº 11.132, de 2005.
23
A lei 11.428/2006, em seu art. 3o, II, conceitua população tradicional como sendo aquela que vive “em estreita relação
com o ambiente natural, dependendo de seus recursos naturais para a sua reprodução sociocultural, por meio de atividade
de baixo impacto ambiental”.
24
Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) é um título fornecido pelo Ministério da Justiça do Brasil, cuja finalidade é facilitar o aparecimento de parcerias e convênios com todos os níveis de governo e órgãos públicos
(federal, estadual e municipal), desde que os seus objetivos sociais e as normas estatutárias atendam os requisitos da Lei
9.790/1999.
22
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objetivos afins aos da unidade, mediante instrumento a ser firmado com o órgão
gestor responsável25.
O art. 36, § 3o, da Lei 9.985/2000, descreve que quando o empreendimento
afetar unidade de conservação específica ou sua zona de amortecimento, o licenciamento de empreendimento de significativo impacto ambiental, só poderá
ser concedido mediante autorização do órgão responsável pela administração da
unidade de conservação e da unidade afetada, devendo ser esta área uma das beneficiárias da compensação definida neste artigo.
2. O DIREITO DE PROPRIEDADE: CONCEITO ATUAL E AS UNIDADES DE PROTEÇÃO
INTEGRAL
2.1 Breve histórico do direito de propriedade e sua relação com o Meio Ambiente
A doutrina liberal da Revolução Francesa defendia a ausência absoluta de
intervenção do Estado na atividade particular. Osny Duarte Pereira, destaca a
mentalidade predominante na época, no seguinte trecho: “Os proprietários das
matas têm inteiro arbítrio sobre a forma de exploração das mesmas. Podem utilizá-las, como melhor lhes aprouver, sem que o Poder Público tenha o direito de
intervenção, uma vez que o direito de propriedade é total e insuscetível de qualquer limitação, por qualquer pessoa fora o respectivo dono”. Nessa linha o regime
florestal só era aplicado para as áreas verdes de propriedade pública.
A primeira Constituição a tratar da ordem econômica e social foi a Mexicana,
de 1917, inovando ao abolir o caráter absoluto da propriedade privada, submetendo
o seu uso ao interesse público26, o que seria uma função social da propriedade.
A Constituição de Weimar, instituída na Alemanha em 1919, foi a primeira a
abandonar a concepção formalista e individualista oriunda do liberalismo predominante no Século XIX. Estabelecendo em seu art. 15127 que a “(...) ordem econômica deve corresponder aos princípios da justiça, tendo por objetivo garantir a
todos uma existência conforme a dignidade humana. Só nestes limites fica assegurada a liberdade econômica do indivíduo”. Também foi importante no sentido da
defesa da função social, quando defende em seu art. 15328, que a propriedade cria
25
Art. 30, Lei 9.985/2000.
Maiores informações sobre o assunto, vide FIGUEIREDO, Vizeu Leonardo in Lições de Direito Econômico, ed. Forense, Rio de Janeiro, 2006, pág. 32 e seguintes.
27
Artikel 151, Weimar Verfassung
(1)
Die Ordnung des Wirtschaftslebens muß den Grundsätzen der Gerechtigkeit mit dem Ziele der Gewährleistung eines menschenwürdigen Daseins für alle entsprechen. In diesen Grenzen ist die wirtschaftliche Freiheit des Einzelnen zu sichern.
(2)
Gesetzlicher Zwang ist nur zulässig zur Verwirklichung bedrohter Rechte oder im Dienst überragender Forderungen des
Gemeinwohls. (3) Die Freiheit des Handels und Gewerbes wird nach Maßgabe der Reichsgesetze gewährleistet
http://www.documentarchiv.de/wr/wrv.html, acesso em 01º/04/2008.
28
Artikel 153, Weimar Verfassung
(1)
Das Eigentum wird von der Verfassung gewährleistet. Sein Inhalt und seine Schranken ergeben sich aus den Gesetzen.
(2)
Eine Enteignung kann nur zum Wohle der Allgemeinheit und auf gesetzlicher Grundlage vorgenommen werden. Sie
erfolgt gegen angemessene Entschädigung, soweit nicht ein Reichsgesetz etwas anderes bestimmt. Wegen der Höhe der
Entschädigung ist im Streitfalle der Rechtsweg bei den ordentlichen Gerichten offen zu halten, soweit Reichsgesetze nichts
anderes bestimmen. Enteignung durch das Reich gegenüber Ländern, Gemeinden und gemeinnützigen Verbänden kann
nur gegen Entschädigung erfolgen.
(3)
Eigentum verpflichtet. Sein Gebrauch soll zugleich Dienst sein für das Gemeine Beste.
http://www.documentarchiv.de/wr/wrv.html, acesso em 01º/04/2008.
26
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12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
obrigações e seu uso deve ser condicionado ao interesse geral. Esta Constituição
inspirou a brasileira de 1934, que foi a primeira a trazer um capítulo dedicado à
Ordem Econômica.
Estabelece o art. 5º, XXIII, da CRFB de 1988, que a propriedade deverá
atender a sua função social29, subordinando o uso da propriedade a este fim, sentido este, que já havia sido introduzido na Constituição de 1946, (em seu art. 147),
se mantendo na Reforma Constitucional de 1967, (art. 157) e na Constituição de
1969, (art. 160)30. Outros dispositivos constitucionais também fazem referência
a este fim, como pode-se observar nos artigos 170. III e 186, da CRFB de 1988.
No entanto, foi somente com a Constituição de 1988 que no Brasil, tivemos, pela
primeira vez introduzido o termo ‘meio ambiente’, alcançando, finalmente, a amplitude de seu conceito, o que se pode observar através da leitura de diversos
outros regramentos31.
Édis Milaré32 defende que um dos principais avanços da CRFB 1988 é em
relação à tutela ambiental encontra-se no art. 170, caput c/c o inciso VI, quando
diz que a ordem econômica brasileira tem, entre os seus princípios, a defesa do
meio ambiente, capaz assim de limitar a livre iniciativa. Nesse sentido, “a propriedade privada, base da ordem econômica constitucional, deixa de cumprir sua
função social, elementar para sua garantia constitucional, quando se insurge contra o meio ambiente”33.
Acrescenta-se à compreensão da função social da propriedade a partir da exploração econômica, (o qual visa que a terra não seja “improdutiva”, e tampouco,
que esta não seja objeto da especulação fundiária), uma outra compreensão deste
sentido social da propriedade, qual seja a propriedade como meio de proteção ao
meio ambiente, e não mais o de exploração.
A função social da propriedade também se encontra presente no Código
Civil de 2002, neste sentido o art. 1228, em seu §1º dispõe que o uso da propriedade deva estar em concordância com as finalidades sociais e econômicas, acrescentando logo em seguida, que tal uso deve também estar em conformidade com
a preservação do equilíbrio ecológico. O §3º, deste mesmo artigo, dispõe que,
necessidade, interesse social ou disponibilidade pública justificariam os casos de
desapropriação, que é um procedimento administrativo pelo qual o Estado restringir o direito de propriedade dos particulares34.
Este direito do Estado de intervenção à propriedade privada é potestativo,
inerente à própria soberania, e a forma mais marcante drástica desta intervenção
29
Marco Aurélio Bezerra de Melo - Novo Código Civil anotado, volume V, Direito das Coisas, 3ª ed., Ed. Lúmen Juris,
Rio de Janeiro, 2004
30
Sobre conceito de propriedade, Caio Mário da Silva Pereira, in Instituições de Direito Civil, vol. IV, Rio de Janeiro,
Forense, 2005.
31
Nesse sentido, vide Milaré, Edis, in Direito do Ambiente, 4a ed., ed. RT, 2005. pág. 184
32
Op. Cit.. pág. 185
33
Op. Cit. pág. 186
34
Nesse sentido, maiores detalhes in Curso de Direito Civil v. 3, direito das coisas, Washington de Barros Monteiro. - 37ed.
ver. Por Carlos Alberto Dabus Maluf, São Paulo, ed. Saraiva, 2003. pág. 86. Vide também, Maria Sylvia Zanella Di Pietro,
in Direito Administrativo, 20ª ed., ed. Atlas, 2007, pág. 143 e segs.
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apresenta-se com a imposição da pena de perda do bem35, modalidade de desapropriação sancionatória.
Dentre as desapropriações, há a modalidade indireta, que ocorre sem o
procedimento legal , em que a Administração impõe limitações à propriedade
que impedem o proprietário de exercer sobre o imóvel os poderes inerentes ao
domínio.
3. O REGIME DE PROTEÇÃO LEGAL DO SNUC E A EFETIVIDADE DA PROTEÇÃO AMBIENTAL
Segundo Guilherme José Purvin de Figueiredo36, “a instituição de espaços
ambientais protegidos constitui uma das mais relevantes incumbências do poder
público na busca da efetividade do princípio da função social da propriedade”.
Sendo esta, a finalidade do SNUC, ou seja, apresentar formas de proteção ao meio
ambiente, através do implemento de modalidades de conservação, de acordo com
as modalidade de unidade de conservação em questão. As categorias de Floresta
Nacional, Reserva Extrativista, Reserva de Fauna, Reserva de Desenvolvimento
Sustentável, Estação Ecológica, Reserva Biológica, e Parque Nacional são incompatíveis com o domínio privado, devendo ser objeto de desapropriação. Para
que se tenha a efetivação das finalidades das referidas modalidades de Unidade
de Conservação.
Infelizmente, o primeiro Parque a ser fundado no Brasil, através do Decreto Federal nº 1713 de 14/06/1937, não teve a sua regularização fundiária
implementada. O Parque Nacional de Itatiaia, localizado na divisa entre os
Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, na Serra da Mantiqueira37, ainda representada o conceito de exploração econômica, presente no seu
Decreto de criação.
Nesse sentido, cabe observar o expresso no art. 2º, parágrafo único, deste
Decreto: “Das terras devolutas do Domínio da União, existentes nas proximidades do Parque, serão reservas as que forem necessárias para a localização de
hotéis e instalações que facilitem o movimento turístico na região” - ou seja, que
explorem economicamente esta área. Neste dispositivo, identifica-se claramente a
mudança que ocorreu do fim do instituto do Parque Nacional. Mas, mesmo o que
já determinava o referido texto legal da década de 30, em relação à desapropriação, no caput do art. 2º, em que a área do Parque seria acrescida das propriedades
particulares que fossem desapropriadas, ainda não ocorreu.. Ressalta-se, inclusive, que esta desapropriação já era prevista quando ainda não havia o conceito
atual de função social da propriedade como um instrumento de efetivação da proteção ambiental.
35
Novo Código Civil Anotado, 3a ed. direito das Coisas, vol. V, Rio de Janeiro, Ed. Lúmen Juris, 2004, Marco Aurélio
Bezerra de Melo. O autor cita, a título de exemplo, o art. 243, da CRFB.
36
FIGUEIREDO, Guilherme José Purvin, de in A propriedade no Direito Ambiental, Rio de Janeiro, ed. Esplanada, 2004,
pág. 260
37
Localização, fonte: http://www.ibama.gov.br/parna_itatiaia/index.php?id_menu=102 acesso em 06.03.2008
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12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
3.1 Necessidade atual de proteção, mitigação da ação antrópica local e proteção que
ultrapassa a esfera nacional
O SNUC tem dentre seus objetivos, a contribuição para a manutenção da diversidade biológica e dos recursos genéticos. O art. 4º da Lei 9.985/2000, dispõe
que o fim desta lei abrange o território nacional e as águas jurisdicionais. Porém,
naturalmente, ao se proteger dentro do território brasileiro, essa riqueza não ficará
restrita a soberania do Estado. Beneficiando também, de forma direta países fronteiriços, e de forma indireta todo o planeta.Também objetiva proteger espécies
ameaçadas de extinção da região de estabelecimento da Unidade.
Este benefício qualitativo do meio ambiente, ultrapassa a esfera local, na
Lei do SNUC, observa-se no art. 41, que uma das modalidades elencadas é
um modelo adotado internacionalmente, qual seja, a Reserva da Biosfera que
objetiva o desenvolvimento sustentável e a melhoria da qualidade de vida das
populações.
As unidades de conservação apresentam, nesse sentido, um papel fundamental para a preservação ambiental de ecossistemas em que se reduz ao máximo as
interferências antrópicas locais. Mas, não as torna livre destas interferências, pois
é impossível, conforme os conhecimentos científicos atuais38, não relacionar os
fenômenos climáticos globais com as interferências de atividades humanas, como
a título exemplificativo, as emissões de carbono na atmosfera, reduzindo a camada
de ozônio e aumentando, conseqüentemente o efeito estufa.
Dessa forma, fica evidenciado no estudo da Lei do SNUC a discrepância
do inciso VI, do art. 2º, quando diz que proteção integral seria a “manutenção
dos ecossistemas livres de alterações causadas por interferência humana”. Pois,
somente na simples visitação da própria população já haveria indícios de interferência, o que se justifica, inclusive, no próprio dispositivo legal, quando limita a
visitação pública, no caso de Estação Ecológica, no art. 9º § 2º, e a restringe, no
caso dos Parques Nacionais, no art. 11º § 2º.
4. CONCLUSÕES ARTICULADAS
4.1 É indiscutível a importância das unidades de conservação, inclusive as de
proteção integral para a preservação ambiental de ecossistemas em que se reduz
ao máximo as interferências antrópicas locais.
4.2 O possível ônus que pode haver ao proprietário da propriedade particular que
seja atingido em seu direito de disposição de sua propriedade, pelo estabelecimento de uma unidade de conservação é justificado pela importância que esta
limitação aufere à manuntenção da qualidade de vida, da biodiversidade e dos
recursos naturais. Nesse sentido, é necessário a efetividade dos dispositivos legais
38
Vide, para maiores informações, Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), em
que interliga as diversas ações humanas com os diferentes repercussões climáticas, que vem ocorrendo e que possivelmente
ocorrerão, em diferentes níveis de emissões de poluentes, www.ipcc.ch/, acesso em 06/04/2008.
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referentes ao Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza no que
diz respeito aos mecanismos de desapropriação.
4.3 Essa nova concepção de função social da propriedade, que foi introduzida pela
Constituição Federal de 1988, é favorecida inclusive dentro dessa mais intensa
preocupação ambiental devido aos estudos sobre a alteração da temperatura média global. O que implicaria mudanças climáticas mais intensas, ameaça à biodiversidade, aumento do nível dos mares, reassentamento de populações.
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PRODUÇÃO ANIMAL: ALTERNATIVAS
SUSTENTÁVEIS FRENTES ÀS AMEAÇAS DO
AQUECIMENTO GLOBAL
TATIANA COSTA DE FIGUEIREDO AMORMINO
Graduanda do 7º período do Curso de Direito da Universidade
Federal de Minas Gerais e coordenadora discente do Núcleo
de Estudos em Direito Ambiental (NEDA) da
Faculdade de Direito da UFMG
1. INTRODUÇÃO
Em um contexto permeado pelas ameaças dos riscos ambientais, o meio
ambiente é, conforme aduz Carmen Silivia Sanches, “um elemento-chave para
se repensar os valores e as ideologias vigentes e se estabelecer novas formas de
pensamento e ação em todas as práticas produtivas1”.
A relação da humanidade com o meio ambiente sempre foi marcada pela
lógica antropocêntrica, na qual o homem distingue-se da natureza e é elevado ao
título de fonte de todos os demais valores. Sob tal lógica, os homens provocaram
inúmeros impactos ambientais, trazendo para a sociedade atual danos que podem
ser irreversíveis. Todavia, tal visão está sendo cada vez mais criticada e revista.
A tensão mundial frente às mudanças climáticas e às catastróficas previsões para
o futuro do Planeta impulsiona um novo contexto global, que exige uma maneira
diferente de pensar e de agir.
A “produção industrial”, sobretudo dos países desenvolvidos, é a principal
responsável pela emissão dos gases do efeito estufa (GEE)2, como é exaustivamente divulgado pela mídia e nos círculos acadêmicos e diplomáticos. Contudo,
constantemente ignora-se ou não se dá a devida importância a um outro modo de
produção industrial: a dos animais. A produção animal industrial, além de submeter os animais a diversas formas de crueldade, causa inúmeros impactos ambientais e contribui significativamente para as mudanças climáticas.
O presente artigo foi concebido em decorrência da experiência obtida no I
Simpósio Nacional sobre Produção Animal e Ambiente, “em busca de sistemas
sustentáveis”, realizado pela Escola de Veterinária da UFMG em novembro de
2007. Tendo em vista a escassa bibliografia acerca do tema em questão, o trabalho
objetiva alertar para os impactos ambientais da produção animal industrial, so1
SANCHES, Carmen Silvia. Gestão Ambiental Proativa. RAE – Revista de Administração de Empresas/EAESP/FGV
Jan./Mar.2000. São Paulo.
2
De acordo com o Protocolo de Kyoto, são considerados GEE: dióxido de carbono, metano, óxido nitroso, hezafluoreto de
enxofre, e as família dos perfluocarbnono PFCs e dos hidorofluocarbonos HFCs.
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bretudo para aqueles relacionados direta ou indiretamente com as mudanças climáticas e, além disso, acreditando que o futuro do Planeta depende da adoção de
alternativas sustentáveis, apresentamos soluções viáveis para reverter esse quadro
marcado pela negligência ao bem-estar animal e ao meio ambiente.
2. AGROPECUÁRIA INDUSTRIAL
A agropecuária moderna é realizada de forma industrial. Adotada após a
Segunda Guerra Mundial com a finalidade de suprir a demanda de alimentos, a
produção animal industrial pode ser definida como um sistema no qual se utilizam métodos de “linha de produção”, visando à maximização da quantidade de
produtos animais e minimização dos custos. Para tanto, há altos índices de investimento, baixos requisitos de mão-de-obra e uma alta densidade animal e/ou confinamento fechado (animais são amontoados em enormes galpões, ou confinados
em gaiolas ou engradados), de acordo com a Organização das Nações Unidas para
a Alimentação e a Agricultura (FAO). Exemplificam mecanismos adotados por tal
sistema: as baterias de gaiolas para galinhas poedeiras, as jaulas parideiras para
porcas prenhas, os piquetes de terra para gado e os cercados para bezerros visando
à produção da carne de vitela. A alimentação dos animais no sistema de produção
industrial é composta por uma mistura de grãos, sobretudo soja, que apresenta
alto teor protéico, associada a outros ingredientes. Antibióticos, hormônios e diversos produtos químicos são utilizados para medicar os animais.
Na pecuária industrial os animais de consumo são criados de forma violenta,
conforme preconiza Edna Cardozo Dias, em referência à criação de suínos: “eles
não usufruem de pasto e de liberdade de movimento, não podem correr, limpar-se,
sentir a terra em suas patas e nem cuidar de suas crias. A vida lhes é negada e o ar
que respiram é viciado e irritante3”.
Neste sentido, a agropecuária moderna concebe os animais como “máquinas”, “coisas”. Este pensamento reflete o modelo ético-jurídico antropocêntrico.
O antropocentrismo, corrente de grande força no mundo ocidental, parte, nas palavras de Edis Milaré, “do pressuposto que a razão (ratio) é atributo exclusivo do
Homem e se constitui no valor maior e determinante da finalidade das coisas4”.
Distingue-se assim o homem da natureza, sobrepondo-o aos demais seres e ao
meio ambiente como um todo.
Assim, na agropecuária moderna ignora-se o bem-estar animal e a preservação da natureza, vista como sinônimo de prejuízo, o meio ambiente é utilizado
indiscriminadamente, os recursos naturais concebidos como se renováveis fossem
e a poluição é visualizada como um mal necessário, resultado natural do processo
produtivo e conseqüentemente do desenvolvimento de uma nação.
A justificativa para a promoção deste modelo de produção continua sendo
atender a uma suposta demanda de alimentos. Todavia, entendemos que tal em-
3
4
DIAS, Edna Cardozo. A tutela juridica dos animais. Belo Horizonte: Mandamentos, 2000. p.283 e 284.
MILARE, Edis. Direito do ambiente. 4. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1993. p. 87
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basamento é equivocado. A justificativa para os sistemas de produção agroindustriais é, indiscutivelmente, a geração de lucro. Afinal, a fome atinge cada vez um
maior número de pessoas, as quais sobrevivem na miséria absoluta com a ínfima
quantia de US$1,00 por dia. Estes miseráveis que totalizam ¼ da população mundial em nada se beneficiaram com o aumento de 227% na produção industrial de
carnes nos últimos 30 anos.
3. IMPACTOS AMBIENTAIS DA PRODUÇÃO ANIMAL INDUSTRIAL
A agropecuária moderna contribui, devido à sua interação com os recursos
naturais, com inúmeros impactos ambientais5: compactação e degradação do solo,
aumento da erosão, disseminação de doenças, assoreamento e contaminação de
corpos d’água, perda da biodiversidade, redução da camada de ozônio, aquecimento global.
A pecuária exaure reservas de água potável, terra, combustíveis e outros
recursos. A cada segundo, tal indústria despeja 125 toneladas de resíduos que
contaminam as águas e a atmosfera. A irrigação de pastos e o consumo para o
gado é o destino de mais da metade da água consumida no mundo. Por exemplo, a
produção de um quilo de carne requer mais de 20.000 litros de água, ao passo que
para a produção de um quilo de trigo necessitam-se de 227 litros e para a mesma
quantidade de arroz gastam-se 454 litros de água.
O manejo inapropriado da pecuária interfere negativamente nas qualidades
do solo, prejudicam a quantidade e a qualidade da água dos mananciais. O engenheiro agrônomo Enio Resende de Souza alerta para o fato de que a grande concentração de animais acarreta em pisoteio excessivo e conseqüente compactação
do solo, provocando diversos processos indesejáveis, dentre eles o aumento do
escoamento superficial da água da chuva. Outro problema causado pela pecuária,
em especial da bovinocultura, é a retirada da cobertura vegetal nativa visando
o plantio de pastagens em áreas de preservação permanente (APP’s), como as
nascentes e as margens dos corpos d’água. As nascentes são frequentemente utilizadas indiscriminadamente e sem a devida autorização do órgão legal competente. As APP’s, áreas ricas em biodiversidade, são de fundamental importância
ecológica, pois além de auxiliarem na fixação das margens dos cursos d’água,
funcionam como um filtro das águas que escoam para eles, muitas vezes, com
material contaminante6.
A pecuária, realizada nesses moldes, afeta o equilíbrio do meio ambiente
e acarreta em grande perda de nutrientes, tornando-se necessária a utilização de
5
O impacto ambiental de acordo com a resolução 001 de 23/01/86 do CONAMA é “qualquer alteração das propriedades
físicas, químicas e biológicas do meio ambiente causada por qualquer forma de matéria ou energia resultante das atividades humanas que direta ou indiretamente, afetam: I - a saúde, a segurança e o bem estar da população; II - as atividades
sociais e econômicas; III - a biota; IV - as condições estéticas e sanitárias do meio ambiente; V - a qualidade dos recursos
ambientais.”
6
SOUZA, Enio Resende de. Impactos ambientais da pecuária sobre as bacias hidrográficas e soluções possíveis. Palestra
proferida no I Simpósio Nacional sobre Produção Animal e Ambiente – “Em busca de sistemas sutentáveis” – da Escola
de Veterinária da UFMG. Belo Horizonte, 2007.
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processos de adubagem de fertilizantes orgânicos ou inorgânicos, os quais podem
poluir os corpos d’água, se utilizados em excesso.
Além disso, a suinocultura, uma das atividades com maior impacto ambiental, produz um enorme volume de dejetos animais (resíduos sólidos e efluentes),
cujo lançamento no solo e nos corpos d’água sem um adequado tratamento acarreta em sérios impactos ambientais, como a degradação dos ecossistemas aquáticos e geram riscos à saúde humana, sobretudo pela grande carga orgânica e pela
enorme quantidade de nitrogênio e fósforo presente nos dejetos. Carlos Teodoro
José Hugueney Irigaray destaca que esse volume é conseqüência dos “sistemas
de confinamento, onde, frequentemente, o número de animais é superior à capacidade de suporte das instalações, e o volume de dejetos fica, também, acima dos
limites naturais de absorção”7.
A agropecuária moderna contribui também para o aumento do efeito estufa,
e conseqüente aquecimento global, sobretudo devido à sua importância nos processos de desmatamento e à emissão de gás metano, um dos gases do efeito estufa
(GEE), pelos ruminantes.
Todavia, alertamos para o fato de que a contribuição da produção animal
industrial para o aquecimento global não se restringe às conseqüências do desmatamento e da emissão do gás metano pelos ruminantes. De acordo com o pesquisador Luiz Carlos Machado, sistemas e produção animal altamente intensivos
demandam um alto custo energético, sobretudo devido à queima de energia fóssil
para a alimentação e para as instalações8. Por exemplo, o principal material utilizado nas instalações animais, o cimento Portland, é responsável por 5% das emissões de gás carbônico do mundo.
3.1 Desmatamento
A cada minuto derruba-se em todo mundo uma área de floresta tropical
equivalente a 37 campos de futebol. Assim, as florestas tropicais, consideradas as
regiões ecológicas mais complexas do Planeta, têm seus recursos explorados insustentavelmente visando o fornecimento de combustível, madeira de lei, material
de construção de prédios e estradas, matéria-prima para a fabricação de produtos
e de papel, e lugar para áreas agrícolas e pastagens para gado.
No Brasil, predominam nas zonas rurais as monoculturas, principalmente
grãos, e as pastagens a céu aberto para a criação animal destinada à exportação.
Primeiramente, cortam-se as melhores árvores para extração de madeira de serraria, posteriormente utiliza-se o fogo como limpeza da terra visando o estabelecimento de plantações e pastagens para gado.
Neste sentido, os professores Rogério Martins e Rodrigo da Matta Machado
7
IRIGARAY, Carlos Teodoro José Hugueney. A expansão da suinocultura e seu potencial poluidor: aspectos da responsabilidade ambiental. In: Revista Jurídica do Ministério Público do Mato Grosso. Cuiabá: Central de Texto, v.1, n.1, jul./
dez.,2006.
8
MACHADO FILHO, Luiz Carlos Pinheiro; BRIDI, Ana Maria; Hötzel, Ana Maria. Ética na produção animal, p. 11.
Disponível em: http://www.freewebs.com/hotzel/EticaProduAnimal2007.pdf. Acesso em: 05 de fevereiro de 2008.
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resumem o processo de exploração das florestas tropicais: “venda de lenha ou carvão extraído das florestas, pelo uso da terra por atividade agrícola e pelo seu uso
posterior para cultivar um único tipo de gramíneas (...) na formação dos pastos.”
Sendo que há, em alguns casos, a transformação imediata de áreas de florestas em
pastos após o desmatamento9.
Deste modo, a produção de carne e de outros produtos de origem animal é
um dos principais fatores responsáveis pela derrubadas das florestas. A pecuária
extensiva ocupa cerca de 70% da área desmatada da Amazônia. Mais da metade
dos 105 milhões de hectares de pastagens encontram-se degradados ou em processo de degradação.
A importância econômica da pecuária bovina e do monocultivo de soja, sendo o Brasil o maior produtor mundial deste grão, reflete a contribuição de ambas
para o desmatamento de florestas e de outras coberturas vegetais. O agronegócio
nacional é responsável por 33% do PIB, 27% do valor da produção nacional,
37% dos empregos e 42% das exportações totais do país. A pecuária ocupa 851
Milhões hectares do território nacional, correspondentes a 33% das atividades
agropecuárias e a 20% do território nacional10. A produção de carne brasileira
é a segunda maior do mundo, de acordo com a USDA (2006). O efetivo bovino
representa R$45,6 milhões por ano de valor bruto11.
As plantações de soja destinam-se, sobretudo, à produção de alimentação
para animais, sendo muitas vezes exportada para indústrias de ração animal.
Mais de 80% da soja produzida mundialmente possuem esse destino. O consumo de soja pelos homens restringe-se ao óleo de soja e a poucas pessoas que a
consomem.
Segundo relatórios do Greenpaece, em lugares como Santarém (PA), a instalação de um porto graneleiro fez o índice de desmatamento aumentar 86%. No
Mato Grosso, 50 mil hectares em áreas de proteção permanente estão ocupados
pelo plantio de soja12.
O desflorestamento, visando originar pasto para a pecuária extensiva e para
o plantio de soja, contribui para o efeito estufa e para o aquecimento global. A
utilização do fogo como “limpeza” do terreno tem conseqüências devastadoras,
na medida em que as queimadas avançam nas áreas de floresta e transformam-se
em incêndios florestais. Provocam, assim, emissão de gás carbônico, originado da
reação entre o carbono armazenado nas árvores e o oxigênio presente na atmosfera. Além disso, o desmatamento elimina importantes sumidouros de carbono,
ou seja, plantas ou solos com grande capacidade para a absorção e fixação do
carbono presente na atmosfera.
9
MAURÍCIO, Rogério Martins; MACHADO, Rodrigo Pinto da Matta. Sistemas Silvipastoris como alternativa sustentável
para produção animal nos trópicos. Palestra proferida no I Simpósio Nacional sobre Produção Animal e Ambiente – “Em
busca de sistemas sutentáveis” – da Escola de Veterinária da UFMG. Belo Horizonte, 2007.
10
IBGE 2000
11
Ministério da Agricultura, 2004 - Fonte e Elaboração: CNA/Decon. Disponível em: http://www.agricultura.gov.br/anuário2004.
12
Relatório Greenpeace: Mudanças no clima, mudanças no campo - Impactos climáticos da agricultura e potencial de
mitigação Disponível em: http://www.greenpeace.org/raw/content/brasil/greenpeace-brasil-clima/documentos/briefingdo-relat-rio-mudan-as. Acesso em: 12 de dezembro de 2007.
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A perda das florestas e dos ecossistemas que aquelas abrigam, seguida pela
substituição por culturas de plantas alimentícias e pastagem para o gado, provoca
o empobrecimento acelerado da biodiversidade e desregula os ecossistemas, acarretando na perda da capacidade do Planeta de controlar o próprio clima.
Como se não bastasse, o desmatamento e as queimadas ao retirarem a cobertura vegetal nativa, que protege o solo dos desgastes naturais, promovem a exposição do solo a fatores climáticos, causando escoamento superficial das águas
da chuva e favorecendo os processos erosivos. Os sedimentos levados pela chuva
provocam o assoreamento de rios e nascentes, diminuindo a vazão dos cursos
fluviais e poluindo os corpos d’água. Conseqüência disso, além do aumento das
enchentes e de inundações, é a morte de peixes e de plantas aquáticas que se desenvolveram em águas limpas, alterando toda a cadeia alimentar.
Neste sentido, a biodiversidade também é comprometida pelos efeitos do
desmatamento, na medida em que o mesmo destrói ecossistemas, e é um dos principais fatores da extinção de espécies animais e vegetais. Os estragos do desflorestamento ficam ainda mais evidentes ao pensarmos que mais de 50% das espécies
de animais e plantas existentes no planeta ocorrem nos trópicos, sendo que deste
percentual, metade concentra-se na Amazônia.
O desmatamento no Brasil, visando à criação de bois e a plantação de soja,
portanto, dizima as florestas e o cerrado, compromete nossa rica biodiversidade
e ainda assegura ao nosso país a quarta posição no ranking mundial dos países
emissores de gases do efeito estufa.
3.2 Emissão de Metano pelos Ruminantes
As concentrações de metano, o gás orgânico mais abundante na atmosfera,
sofreram um forte aumento nos últimos anos. O metano, além de afetar o equilíbrio de ozônio, hidroxilas e monóxido de carbono na atmosfera, contribui para a
alteração do balanço energético da Terra, devido às suas propriedades radiativas,
conforme expõem Norberto Mario Rodríguez e Warley Efrem Campos13.
Devido a tais propriedades, o metano é um dos gases considerados como responsáveis pelas mudanças climáticas, sendo o potencial de aquecimento global do
metano cerca de 23 vezes maior do que o do gás carbônico devido ao seu “longo
período de resistência” na atmosfera, contribuindo em 15% para o efeito estufa,
além de ser uma das substancias responsáveis pelo empobrecimento da camada
de ozônio, de acordo com o Protocolo de Montreal. A deterioração da camada de
ozônio é um dos fatores influenciadores do aquecimento global.
A produção animal é responsável por 29% da emissão de metano provenientes de atividade antrópicas, sendo 22% em decorrência da fermentação entérica e
7% do esterco animal.
13
RODRÍGUEZ, Noberto Mario; CAMPOS, Warley Efrem. Produção de metano em ruminantes. Palestra proferida no I
Simpósio Nacional sobre Produção Animal e Ambiente – “Em busca de sistemas sutentáveis” – da Escola de Veterinária
da UFMG. Belo Horizonte, 2007.
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Os ruminantes representam uma significativa fonte de emissão de metano
devido ao processo digestivo de fermentação entérica, processo no qual há quebra
de hidratos de carbono no tracto digestivo desses herbívoros. Os animais ruminantes possuem quatro estômagos, sendo que no primeiro, o rúmen, acontece a
digestão do material vegetal através de bactérias, o que não ocorre nas espécies
monogástricas. O metano é, portanto, um subproduto da digestão, sendo 90%
emitido durante a respiração, e 10% liberado na flatulência.
São exemplos de animais ruminantes: os ovinos, os caprinos, os camelos e
os bovinos. Os animais não-ruminantes também produzem metano decorrente da
fermentação entérica no intestino grosso, todavia, tal produção é insignificante
quando comparada à dos ruminantes.
Além da fermentação entérica, a emissão do metano também ocorre a partir
dos resíduos sólidos, durante a decomposição anaeróbica. Norberto Mario Rodríguez e Warley Efrem Campos esclarecem que a produção de metano, decorrente
dessa fonte de poluição, pode ser minimizada com o manejo de sólidos de forma separada e mais seca e conseqüente favorecimento da aeração do material. Isso acontece porque as bactérias metanogênicas, responsáveis pela conversão dos dejetos em
compostos voláteis, como o metano, são facilmente mortas pelo oxigênio.
Importante ressaltar, conforme nos ensina os autores, que em razão da pecuária bovina brasileira ser extensiva, os dejetos produzidos pelos grandes rebanhos
bovinos acabam sendo dispostos como material sólido no campo, no qual secam
e se decompõem, minimizando as emissões de metano provenientes dessa fonte.
Diferentemente do que ocorre no Brasil, nos Estados Unidos, prevalecem as lagoas de tratamento de dejetos animais, as lagoas de esterco, as quais totalizam 13%
da emissão antropogênica de metano do setor agropecuário.
4. ALTERNATIVAS SUSTENTÁVEIS
Diante do exposto, evidente a necessidade de mudanças no sistema agropecuário brasileiro visando à preservação dos recursos naturais e às necessidades do
Planeta, adequando-se a um contexto internacional de alerta às irreversíveis conseqüências das mudanças climáticas. A preocupação torna-se ainda mais evidente, tendo em vista que a importância do país na produção de produtos de origem
animal deve crescer, pois previsões apontam que o Brasil irá se tornar o maior
produtor de carne mundial.
Assim, apresentamos sugestões de medidas ambientais sustentáveis que podem ser adotadas a fim de reverter este quadro.
4.1 Utilização de Biogestores na Suinocultura
Na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Ro de Janeiro, em 1992, e conhecida como ECO-92, adotou-se
a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima, em vigor
desde março de 1994. Nesse tratado foi determinada a criação da Conferência das
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Partes (COP), órgão supremo da Convenção, responsável pela implementação da
mesma, de seus instrumentos jurídicos e pelas decisões visando a promoção da
efetiva implementação da Convenção.
Na Terceira Sessão da Conferência das Partes sobre Mudança do Clima, a
COP-3, realizada em 1997, adotou-se por consenso o Protocolo de Kyoto, o qual
firmou uma política para redução dos gases do efeito estufa (GEE), estabeleceu
índices determinados de controle de emissão de gás carbônico para os países do
chamado “Anexo I14”, e propôs aos países do “Não Anexo I” a adoção de medidas visando o crescimento limitado de suas emissões. Dentre as diretrizes do
Protocolo estabeleceu-se, no artigo 12, o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo
– MDL, o qual estabelece que as partes não incluídas no Anexo I beneficiar-se-ão
de atividades de projetos que resultem em Reduções Certificadas de Emissões
(RCEs), ou “créditos de carbono”, como são usualmente denominadas, e aquelas
incluídas no Anexo I podem utilizar as reduções certificadas de emissões, resultantes de tais atividade de projetos para contribuir com o cumprimento parcial de
seus compromissos15.”
Quando, portanto, os países do Anexo I não atinjam as metas de redução
estabelecidas consensualmente pelas partes, os mesmos visando cumprir parte de
seus compromissos podem adquirir de países em desenvolvimento Reduções Certificadas de Emissões (RCEs) decorrentes de atividades de projetos implementados por estes últimos, em que deixa-se de emitir ou retira-se da atmosfera gases
de efeito estufa. Conforme esclarece Edis Milaré, o objetivo do MDL é assistir
os “Países do Não Anexo I”, incluindo o Brasil, mediante capital fornecido para
financiamento de projetos que visem à redução de gases do efeito estufa16.
Israel José da Silva17 salienta que o Brasil possui baixos níveis de emissões
de gases, e assim acumulará créditos com estas reduções. O preço da tonelada de
gás carbônico irá variar de US$3,00 a US$5,00, sendo que para efeito de quantificação, a emissão de outros gases de efeito estufa serão equiparados ao CO2.
Uma das ações do MDL que pode ser adotada pelos países desenvolvidos é
o financiamento de projetos que limitem as emissões de metano através do gerenciamento de resíduos e a promoção no uso de fontes energéticas limpas.
Nesta perspectiva, surge uma nova possibilidade lucrativa para os dejetos
provenientes da atividade suinícola, uma das atividades agropecuárias com maior
impacto ambiental: a venda de créditos de carbono, através da utilização de biogestores.
Os biogestores aproveitam o biogás, constituído do metano resultante da
fermentação anaeróbica realizada em uma lagoa de dejetos animais. Possibilitam,
14
O Anexo I inclui países desenvolvidos e países em fase de transição. São eles: Alemanha, Áustria, Bélgica, Croácia,
Dinamarca, Eslovênia, Espanha, Finlândia, França, Grécia, Irlanda, Islândia, Itália, Lietchtenstein, Luxemburgo, Mônaco,
Noruega, Países Baixos, Portugal, Reino Unido, Suíça, Suécia, Bulgária, Eslováquia, Hungria, Polônia, República Checa,
Romênia, Rússia, Ucrânia, Estônia, Letônia, Lituânia, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e Japão.
15
MILARE, Edis. Direito do ambiente. 5 ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1993. p. 1159
16
MILARE, Edis. Ob. Cit. p. 1159 e 1160
17
SILVA, José Israel da. Águas residuais de suinocultura e o uso de biogestores. Palestra proferida no I Simpósio Nacional
sobre Produção Animal e Ambiente – “Em busca de sistemas sutentáveis” – da Escola de Veterinária da UFMG. Belo
Horizonte, 2007.
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assim, além da produção de biogás e biofertilizante, a venda de créditos de carbono no mercado internacional.
A relevância da implementação de biogestores, na perspectiva do Protocolo de
Kyoto é evidente ao considerarmos dois fatores. Em primeiro lugar, o MDL e os créditos de carbono “deverão servir como medida de combate ao efeito estufa, além de
servir como moeda de troca geradora de oportunidades a determinados países em desenvolvimento”, conforme ressalta Gabriel Sister18. E segundo, frente ao crescimento
do Mercado de Carbono, formado pelas operações negociais de seus créditos. Tal
Mercado movimentou em 2006 nada menos que 30 bilhões de dólares, de acordo com
o Banco Mundial (Climate Group, United Nations Environment Programme). Promete, assim, movimentar, em um futuro próximo, cifras ainda mais impressionantes.
Júlio César Pascale Palhares alerta para a disponibilidade da venda de créditos de carbono apenas por grandes empreendimentos, na medida em que tal
venda demanda uma quantidade de dejetos economicamente viável para viabilizar
o investimento. Apenas através da centralização do tratamento dos dejetos por
biodigestão seria possível permitir o acesso de pequenos e médios produtores ao
mercado de carbono19.
Outro fator delimitador da possibilidade de implementação de biogestores
visando à venda de créditos de carbono por pequenos e médios produtores são as
exigências documentais e técnicas para certificação das reduções por organismos
competentes. Ressalta-se que a redução na emissão de gases do efeito estufa só
poderão ser negociadas “após terem sido certificadas por entidade operacionais
designadas pela Conferencia das Partes, conforme estabelecido no art. 12, parágrafo 5, do Protocolo de Kyoto20”.
Em termos de questão ambiental, a utilização dos biogestores deve ser vista
com cautela. O professor Israel José da Silva aduz que os biogestores não evitam,
em nenhuma hipótese, a sobrecarga de nutriente no efluente, em especial a presença de nitrogênio e fósforo em rios, córregos e lagoas. Desse modo, os biogestores
não removem o potencial poluidor dos efluentes de suínos e não reduzem o risco
de transmissão de doenças.
Para Silva, “ao se propor uma tecnologia compatível à redução de impacto
ambiental, ela deveria pelo menos remover os elementos que na nossa legislação
são os mais impactantes aos mananciais de água, como patogénos, nutrientes e
lodo21”. A crítica do professor fundamenta-se na visão, difundida especialmente
pela mídia, de que os biogestores resolverão os problemas ambientais decorrentes
da suinocultura e ainda irão gerar créditos de carbono. Tal visão, somada à negligência da fiscalização, resulta na presença de vários biogestores nos quais não há
queima de metano e, ainda, que deixam no terreno um grande volume de resíduo
poluente, o lodo.
18
SISTER, Gabriel. Mercado de carbono e Protocolo de Quioto. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007. p. 04.
PALHARES, Julio Cesar Pascale. Biodigestão anaeróbia de dejetos de suínos: aprendendo com o passado para entender o presente e garantir o futuro.Disponível em: <http://www.infobibos.com/Artigos/2008_1/Biodigestao/index.htm>.
Acesso em: 19/3/2008
20
SISTER, Gabriel. Ob. Cit. 14.
21
SILVA, José Israel da. Ob. Cit.
19
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Retirar da legislação normas visando resolver o paradoxo entre a minimização dos gases do efeito estufa e geração de créditos de carbono, e elementos
impactantes aos mananciais de água seria um retrocesso na proteção do meio
ambiente, não sendo, definitivamente, a melhor solução.
Os biogestores não resolvem por si só todos os impactos decorrentes
da suinocultura. Outras ações baseadas em uma visão holística da produção
devem ser adotadas visando à adequação da atividade suinícola ao modelo
sustentável.
A solução do problema, portanto, só será possível com capacitação da mão
de obra, rigor da fiscalização e a aprovação de inovações tecnológicas junto ao
órgão ambiental local. Nosso país precisa “urgentemente evoluir para aceitar o
tratamento na forma integral, e assim evitar impactos ambientais22”.
4.2 Criação Agroecológica
A Agroecologia integra várias ciências, as quais através da visão da agropecuária como um sistema vivo e complexo objetivam compreender a natureza e os
princípios que a regem. Neste sentido, visa à produção sustentável de alimentos
através da renovação e da reciclagem de nutrientes do solo, da utilização racional
dos recursos naturais e da manutenção da biodiversidade sem a utilização de agrotóxicos e adubos químicos solúveis.
A implementação de biogestores em propriedade suinícolas além de apresentar-se como uma possibilidade restrita a determinados produtores, não soluciona todos os impactos ambientais decorrentes da suinocultura brasileira, a qual se
estima, através de dados da ABIPECS (2004), que acontece em 70% dos casos em
sistema de confinamento. Estes fatores associados ao fato do confinamento desconsiderar por completo o bem-estar animal, evidencia a necessidade de adoção
de um novo modelo de produção. Para tanto, o pesquisador Luiz Carlos Pinheiro
Machado Filho, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), propõe a
adoção da criação agroecológica23. A utilização do termo “criação” ao invés de
“produção” justifica-se pela concepção de que o animal enquanto ser sensitivo é o
sujeito e não o objeto da produção de alimentos.
Na criação agroecológica suinícola, diferentemente do modelo industrial,
os animais devem permanecer ao ar livre durante todo o tempo, desde que haja
condições climáticas favoráveis, como no Brasil. A densidade dos suínos deve
ser considerada, primeiro visando evitar a contaminação ambiental por dejetos.
Segundo, pois a densidade animal adequada permite a maximização do uso da
pastagem na alimentação dos animais e reciclagem de nutrientes diretamente do
solo, evitando-se, assim, a poluição, na medida em que os dejetos são reciclados
através da fertilização orgânica.
22
SILVA, José Israel da. Ob. Cit.
MACHADO FILHO, Luiz Carlos Pinheiro. Produção Intensiva de Suínos em Pastagens. Palestra proferida no I Simpósio Nacional sobre Produção Animal e Ambiente – “Em busca de sistemas sutentáveis” – da Escola de Veterinária da
UFMG. Belo Horizonte, 2007.
23
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Visando à sustentabilidade ambiental, tal forma de criação baseia-se na associação e sucessão animal e vegetal, de forma a dispensar o uso de insumos de
síntese química e a utilizar o pasto como alimento básico, maximizando o uso da
energia solar. O Sol deve, desse modo, ser a base energética, através da integração
de diferentes culturas, da rotação do uso do solo e do reaproveitamento de resíduos. A alimentação deve ser a mais natural possível e em conformidade com o
sistema digestivo dos animais.
A alimentação dos ruminantes domésticos em sistemas de pastoreio melhorado com forragem de melhor qualidade reduz as emissões de metano, na medida
em que a alimentação em pastagens pobres produz mais metano por unidade de
alimento. Enio Resende de Souza alerta para o fato de que a alimentação baseada
em rações balanceadas pode diminuir as emissões diretas de metano, todavia,
acarretam em um aumento na emissão de gases do efeito estufa, decorrentes da
produção e do transporte dos alimentos24.
Importante notar que a criação agroecológica é competitiva e economicamente viável, desde que se avalie os resultados como um todo e não isoladamente.
Os custos da implementação desse sistema são compensados pelo seu marketing
diferenciado e pela possibilidade de exportação para países, como o Japão e Inglaterra, frente às suas restrições ecológicas e ambientalistas.
A criação agroecológica não deve, portanto, ser uma exceção ou um nicho
de mercado, ao contrário, deve ser uma regra. Para tanto, são necessárias leis,
acompanhadas de políticas públicas de auxílio aos produtores rurais, capacitação
de pesquisadores e conscientização da população, que obriguem a adoção de princípios agroecológicos.
4.3 Produção Orgânica Certificada
As normas de gestão pela qualidade ambiental, de modo geral, são importantes ferramentas para a implementação de políticas orientadas para o desenvolvimento de padrões de consumo ambientalmente mais saudáveis. As auditorias e
certificações asseguram aos consumidores acesso a produtos em conformidade
com princípios sustentáveis, de forma a não poluir, degradar ou destruir o meio
ambiente.
Tais normas podem ser aplicadas à pecuária. O manejo orgânico associa a
produção animal e vegetal numa concepção holística da propriedade, na qual a
mesma é considerada com um organismo equilibrado em todas as suas funções. O
modelo exige também o respeito aos princípios do comportamento animal.
O produto orgânico certificado é produzido segundo um programa de planejamento com controles adequados para cada propriedade, conforme normas rígidas que especificam essa atividade em todos seus processos de produção: qualidade da água, do solo, das pastagens, das rações, dos suplementos, da adubação, dos
medicamentos, dos aditivos, dos inseticidas, da genética, do manejo, do conforto
24
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SOUZA, Enio Resende de. Ob. Cit.
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animal, do transporte, do abate, do processamento, da embalagem, da rotulagem
e, finalmente, do selo de identificação da certificadora para a comercialização.
Ressalta-se que a entidade certificadora deve ser credenciada pelo Ministério da
Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
As especificações em cada etapa do processo produtivo consagram princípios e
valores de sustentabilidade ambiental, como o cumprimento obrigatório da legislação
ambiental e do Código Florestal Brasileiro, a preservação das nascentes, das matas
nas margens dos rios e nas encostas de morros, a proibição do uso de fogo no manejo
de pastagens e a proibição do uso de agrotóxicos e hormônios para engorda dos animais. O tratamento veterinário deve ser realizado apenas com produtos fitoterápicos e
homeopáticos. Além disso, os animais são todos registrados, vacinados e monitorados
durante toda a vida, através de fichas individuais de acompanhamento.
No Brasil, a primeira regulamentação jurídica para a produção agropecuária
orgânica foi a Instrução Normativa nº 007/99, a qual estabeleceu regras sobre
produção, processamento, identificação e certificação dos produtos orgânicos. Em
2003 foi publicada a Lei Federal nº 10.831/03, que dispõe sobre a Agricultura
Orgânica no Brasil. Recentemente, em 27 de dezembro de 2007, o advento do
Decreto nº 6.323 que regulamenta a Lei nº 10.831/03 trouxe regras claras para a
produção, armazenamento, rotulagem, transporte, certificação, comercialização e
fiscalização dos produtos orgânicos. Visando facilitar a exportação dos produtos
brasileiros orgânicos, o Decreto nº 6.323 observa diretrizes e regulamentos adotados nos Estados Unidos, Japão e União Européia. As adequações previstas no
Decreto deverão ser efetivadas no prazo de dois anos contados da data de sua publicação, salvo permissão para utilização do uso da marca do Sistema Brasileiro
da Avaliação da Conformidade Orgânica, a partir do décimo terceiro mês da data
da publicação do Decreto.
4.4 Sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Silvicultura
A simplificação e intensificação da produção agropecuária é uma das principais
razões para a degradação ambiental e é, segundo Amilton Antônio Baggio e Moacir
José Medrado, o “maior prejuízo causado à biodiversidade, em nível global25”.
Enio Resende de Souza sustenta que a reversão do quadro da degradação
da pecuária brasileira deve ser feita através da recuperação das pastagens, por via
indireta - integração lavoura-pecuária – e por via direta – recuperação propriamente dita. Além disso, afirma a necessidade do manejo integrado sustentável
das atividades pecuárias submeter-se “ao cumprimento da legislação ambiental,
ao ordenamento do uso ocupação da paisagem e à adoção de boas práticas de manejo e conservação ambiental (...) e sua distribuição espacial na respectiva bacia
hidrográfica26”.
25
BAGGIO, Amilton Antonio; MEDRADO, Moacir José. Sistemas Agroflorestais e Biodiversidade
Disponível em: http://saf.cnpgc.embrapa.br/publicacoes/05.pdf. Acesso em: 22 de janeiro de 2008.
26
SOUZA, Enio Resende de. Ob. Cit.
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Não é apenas o meio ambiente que sofre as conseqüências da dinâmica de
produção, marcada pela lógica estritamente econômica: desmatamento, queimada
e pastagem ou monocultura. O próprio produtor também é atingido, na medida
em que a degradação afeta o bom rendimento da propriedade conduzindo, por
exemplo, a baixos níveis de produção de carne e de leite.
Nesta perspectiva, em conformidade com uma das correntes da Agroecologia, a permacultura, os Sistemas Agroflorestais (SAFs) constituem-se em alternativas sustentáveis para aumentar os níveis de produção agrícola, animal e florestal.
De acordo com a natureza e arranjo dos componentes, os SAFs dividem-se em:
Silviagrícolas, aqueles constituídos de árvores e/ou de arbustos com culturas agrícolas; Silvipastoris, cultivos de árvores e/ou de arbustos com pastagens e/ou animais; e Agrossilvipastoris, cultivo de árvores e/ou arbustos com culturas agrícolas, pastagens e/ou animais. Diante da proposta do presente trabalho, importa-nos
os sistemas Silvipastoris e os Agrossilvipastoris, os quais conciliam a produção
animal com conservação ambiental e benefícios sociais.
As integrações Silvipastoris e Agrossilvipastoris incorporam conceitos e
práticas de uso sustentável dos recursos naturais (máxima biodiversidade possível, uso conservacionista do solo e da água), além de agregar valor aos produtos
agropecuários. Dentre os benefícios da adoção desses sistemas, incluem-se: a redução da pressão para a expansão da fronteira agrícola, através da recuperação e
manutenção da capacidade produtiva das áreas de pastagens e lavouras de grãos;
utilização racional de fertilizantes e agrotóxicos; redução das queimadas; maior
fixação do gás carbônico e conseqüente contribuição para minimizar o aquecimento global; menor incidência de pragas e doenças; maior cobertura do solo
e redução do processo erosivo, do assoreamento e da contaminação dos corpos
d’água e nascentes; diversificação das atividades produtivas na propriedade, com
a minimização dos riscos climáticos e de mercado; conforto animal proporcionado pelas sombras; produção de alimentos seguros e maior inserção social pela
geração de empregos.
O consórcio ou sucessão ou rotação de cultura em uma mesma área, potencializando e complementando os efeitos das diferentes culturas, proporciona uma
alimentação natural para os animais com folhagem e frutas forrageiras e conseqüente diminuição dos gastos com ração, reduz a necessidade de fertilizantes
minerais, e ainda, pode contribui para aumentar a renda da propriedade, através
da diversificação da produção e comercialização de produtos, como grãos, leite,
fibras, madeiras, frutas, castanhas, sementes para programas de reflorestamento e
agroenergia.
Ressalta-se que as práticas Agrossilvipastoris “são o conjunto de tipos de
sistemas de produção que apresentam maior capacidade de comportar biodiversidade e de fixação de carbono”, nas palavras de Amilton Antônio Baggio e Moacir
José Medrado27.
Em defesa pela adoção dos denominados Sistemas Silvipastoris, os pro-
27
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BAGGIO, Amilton Antonio; MEDRADO, Moacir José. Ob. Cit.
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fessores Rogério Martins Maurício e Rodrigo Pinto da Matta Machado alertam
para a necessidade de experimentos e pesquisas acerca dos diferentes sistemas de
produção através de uma visão holística na qual não só a produção animal seja
avaliada, mas também resultados econômicos, sociais e ambientais, adequando-se
assim ao conceito de produção animal sustentável da “Organização para Alimentação e Agricultura” (FAO)28.
Há uma linha de crédito específica, criada pelo Governo Federal, para financiar a adoção de sistemas de integração lavoura-pecuária, o PROLAPEC, cujos
recursos provem do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
(BNDES). O crédito é utilizado em investimentos em infra-estrutura e equipamentos, recuperação de solos e formação de pastagens, aquisição de animais e
outros bens e insumos contemplados em um projeto técnico.
4.5 Instalações e Materiais Ecologicamente Corretos para a Agropecuária
O modelo atual de produção agropecuária demanda, como já destacado, um
alto custo energético, através da queima de energia fóssil, para as instalações.
Uma proposta sustentável para amenizar esse problema é a utilização das cinzas
provenientes da queima controlada de resíduos agrícolas, reforçadas por fibras
vegetais, como o bagaço da cana e a casca de arroz, para substituição parcial do
cimento Portland, material não-renovável que promove a liberação de quantidades
significativas de gás carbônico em sua fabricação.
A partir das fibras vegetais obtêm-se placas e telhas onduladas de fibrocimento sem amianto - fibra natural presente nas fibras tradicionais, que gera riscos
à saúde - para coberturas de moradias e edificações rurais. Tais telhas aprisionam
gás carbônico, contribuindo assim para a minimização do aquecimento global.
Essa alternativa é uma proposta desenvolvida por Holmer Savastano Júnior, professor titular da USP, que realizou diversos experimentos, no período de 2002 a
2007, na região de Pirassununga, SP29.
As experiências comprovaram a viabilidade da telha produzida com fibras naturais no uso de coberturas de instalações rurais, não só do ponto de vista do conforto térmico, mas também do econômico. Observa-se que assim como demais fatores
ambientais, a temperatura pode intervir na produção de leite, carne e ovos.
As telhas de fibras vegetais já estão disponíveis no mercado, mas são de 10%
a 15% mais caras do que as telhas feitas com cimento tradicional. O professor
Savastano Júnior acredita que esse quadro irá reverter-se em cinco anos. Contudo,
observa que, apesar do investimento inicial ser maior, há vantagens competitivas
a médio e longo prazo.
Ressalta-se a necessidade de uma mudança de pensamento acompanhada de
incentivos econômicos que tornem rentável a adoção das telhas propostas.
28
MAURÍCIO, Rogério Martins; MACHADO, Rodrigo Pinto da Matta. Ob. Cit.
SAVASTANO JÚNIOR, Holmer. Materiais e instalações ecologicamente corretos para agropecuária. Palestra proferida
no I Simpósio Nacional sobre Produção Animal e Ambiente – “Em busca de sistemas sutentáveis” – da Escola de Veterinária da UFMG. Belo Horizonte, 2007.
29
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5. LEGISLAÇÕES E TENDÊNCIAS MUNDIAIS
No âmbito da União Européia, o Conselho Europeu de Cardiff (1998) propôs o estabelecimento de estratégias próprias de integração ambiental e desenvolvimento sustentável. Iniciou-se, assim, o processo de Cardiff, marcado pela
reafirmação do compromisso de integração, em todas as políticas comunitárias,
entre as vertentes ambientais e o desenvolvimento sustentável. Tal integração é
estrategicamente estabelecida em conformidade com objetivos específicos, tais
como qualidade e utilização equilibrada da água, redução dos riscos agro-químicos, redução da degradação do solo, alterações climáticas e qualidade do ar e
conservação da biodiversidade e da paisagem.
Neste sentido, as políticas da União Européia, sobretudo a Política Agrícola Comum (PAC), refletem preocupações de caráter ambiental e, cada vez mais,
visam o desenvolvimento de práticas agrícolas que protegem o meio ambiente e
preservam o espaço rural. A PAC, cujos objetivos são o equilíbrio entre produção
agrícola competitiva e respeito à natureza e ao meio ambiente, possui como pilares a política de mercado e rendimento e o desenvolvimento sustentável das zonas
rurais. A integração ambiental na PAC introduz medidas ambientais protetivas e
almeja à coerência entre as políticas agrícolas e o meio ambiente.
Uma importante reforma em 2003 alterou e determinou medidas na PAC visando o reforço à proteção do meio ambiente agrícola. Estabeleceu-se um regime
de pagamento único, o qual acarreta na redução de incentivos à produção agropecuária que implica em riscos ambientais. A obediência às normas ambientais
mínimas é requisito indispensável para o apoio de medidas de desenvolvimento
rural, como as ajudas para investimentos nas explorações agropecuárias.
Além de medidas públicas orientadas para o desenvolvimento sustentável
da agropecuária na União Européia, a conscientização e conseqüente pressão
dos consumidores contrários aos produtos pecuários provenientes do modelo industrial acarretaram em normas restritivas a tal modelo de produção. A exemplo
da Convenção Européia para a Proteção dos Animais Criados para Agricultura
(European Convention for the Protection of Animals Kept for Farming Purposes) criada em 1976 e aditada apenas em 06 de fevereiro de 1992, regulamenta a
criação intensiva e extensiva dos animais para a produção de alimentos. Prevê a
Convenção o fornecimento de alimento, água e cuidados aos animais, atendendo
às necessidades de cada espécie, em conformidade com o seu grau de evolução,
sua capacidade de adaptação e domesticação. Estabeleceu-se também a não submissão do animal à criação intensiva, caso isso afetar sua saúde ou seu bem-estar,
e ao sofrimento na hora do abate realizado em fazendas30.
Contra os mecanismos adotados na agropecuária moderna, outras normas
foram estabelecidas. As gaiolas de porcas estão proibidas a partir de 2013 em
toda a União Européia. Contudo, países progressistas abandonam o sistema antes
da entrada da legislação em vigor. As gaiolas estão proibidas na Grã-Bretanha,
30
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DIAS, Edna Cardozo. Ob. Cit. p. 282 e 283.
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na Suécia e na Dinamarca. As baias estão banidas na Holanda desde 2005 e na
Finlândia desde 2006.
As fazendas industriais de frangos também estão sofrendo avanços. Aprovada em 1999, legislação da União Européia torna ilegal o uso de baterias de gaiolas
a partir de 2010. Na Áustria o governo aprovou lei para banir todas as gaiolas
aperfeiçoadas. A Suíça baniu as gaiolas em 1992, e demonstram que a adoção de
sistemas pecuários mais humanitários não acarreta em prejuízos.
Nos Estados Unidos, a Flórida aprovou em 2002 emenda a constituição
estadual proibindo o uso de gaiolas de porcas. No estado norte-americano do Arizona foram banidas não apenas as gaiolas de gestação de porcas, como também
os cercados de bezerros. Contudo, não existe nos EUA legislação federal para
animais de produção, apenas regras de abate e transporte de carga viva. A situação
da pecuária norte-americana deve se modificar a curto prazo.
Mudanças mercadológicas estão influenciando varejistas, fabricantes e serviços de bufê, os quais começam a adotar políticas contrárias ao modelo industrial. A Burger King, segunda maior cadeia mundial de hambúrgueres, promove,
a partir de 2007, políticas de bem-estar animal e implementou a preferência por
fornecedores de ovos de galinhas não engaioladas e carne suína de porcas criadas
livremente. A produtora de sorvetes Ben & Jerry’s adotou medidas de não utilização de ovos de galinhas engaioladas. A maior produtora de carne norte-americana,
a Smithfield Foods irá, até o ano de 2017, banir as gaiolas de gestação de porcas.
Já a maior produtora de carne suína canadense, a Maple Leaf, também anunciou
que vai abandonar o uso dessas gaiolas.
Percebe-se, portanto, que sistemas de pecuária industrial estão sendo combatidos legalmente e pelas próprias exigências do mercado na Europa e na América do Norte, todavia, tais sistemas industriais estão em movimento ascendente na
América Latina e na Ásia.
No Brasil inexistem leis contrárias aos mecanismos da produção animal industrial, contrariando a tendência apontada pelos países desenvolvidos.
Segundo dados do Instituto Internacional de Pesquisa de Políticas de Alimentos (IFPRI), em 2020, a América Latina será um dos principais líderes de
produtos de origem animal, porém, infelizmente, de acordo com o IFPRI, esses
produtos serão gestados no modelo industrial. Medidas urgentes devem ser adotadas para que tal previsão não se concretize.
6. CONCLUSÕES ARTICULADAS
6.1 O modelo de produção animal contemporâneo obedece a um sistema industrial que causa impactos ambientais e é uma das principais, muito embora pouco
conhecida, causa para o aquecimento global por contribuir para o desmatamento
e com a emissão de metano pelos ruminantes.
6.2 Existem alternativas ao sistema de produção industrial e o Brasil, por sua
posição proeminente de grande produtor mundial de carne, visando adequar-se ao
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contexto mundial de alerta às conseqüências das mudanças climáticas, deveria se
atentar a essas medidas.
6.3 As alternativas sustentáveis devem ser aplicadas de forma integrada e baseadas em uma visão holística da produção na qual resultados econômicos, sociais e
ambientais sejam avaliados.
6.4 As alternativas sustentáveis, além de seus benefícios ambientais, são economicamente viáveis, oferecendo vantagens competitivas a médio e longo prazo e
resultando, principalmente, em um produto diferenciado a atender à uma demanda crescente originada da conscientização da população mundial.
6.5 As alternativas sustentáveis devem ser regra e não exceção ou nicho de mercado, para tanto são necessárias leis, fiscalização rigorosa, políticas públicas, incentivos econômicos, capacitação da mão de obra, conscientização da população,
experimentos e pesquisas.
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ICMS SÓCIO-AMBIENTAL: UM INSTRUMENTO
ECONÔMICO DE INCENTIVO A PRESERVAÇÃO
DO MEIO AMBIENTE URBANO
WANDMERY FLORÊNCIO TEIXEIRA CUMARU
Estudante do 9º semestre do curso de Direito da Associação
Caruaruense de Ensino Superior - ASCES
1. INTRODUÇÃO
Em todas as atividades humanas, o início do século XXI é marcado pela
sustentabilidade1, como forma de buscar um equilíbrio entre as atividades e o
meio ambiente. Até meados do século XX, o meio ambiente não era visto como
um bem comum de todos e justamente por isso não era alvo de interesses que
viessem a protegê-lo. Destarte, os acontecimentos políticos, sociais e econômicos
das últimas décadas foram favoráveis à busca de opções para a continuidade da
existência da vida sem que isto significasse mais devastação, mais poluição ou degradação ambiental2. Dentro desse contexto global, das crescentes preocupações
sobre os rumos do desenvolvimento sustentável, o Estado deve atuar como uma
esfera da Federação que seja capaz de enfrentar esse novo desafio que emerge nos
dias atuais: o de gerar desenvolvimento sem destruir o meio natural.3
Não obstante, nesse novo quadro ambiental onde todos os agentes econômicos são convocados a contribuir com iniciativas e soluções capazes de minorar
o impacto ambiental, os municípios tornam-se parte fundamental, já que competem a eles, entre outras coisas, de acordo com a legislação brasileira4: proteger
o meio ambiente, combater a poluição e preservar as florestas, fauna e flora. O
texto Constitucional, ao atribuir ao município competência para legislar sobre
A idéia de um novo modelo de desenvolvimento para o século XXI, compatibilizando as dimensões econômicas, sociais e
ambientais, surgiu para resolver, como ponto de partida no plano conceptual, o velho dilema entre crescimento econômico
e redução da miséria de um lado e preservação ambiental de outro. O conflito vinha, de fato, arrastando-se por mais de
vinte anos, em hostilidade aberta contra o movimento ambientalista, enquanto este, por sua vez, encarava o desenvolvimento econômico como naturalmente lesivo e os empresários como seus agentes mais representativos. CAMARGO, A.;
CAPOBIANCO, J.P.R.; OLIVEIRA, J.A.P. (Org) Meio ambiente Brasil: avanços e obstáculos pós-Rio-92. 2 ed. rev. São
Paulo: Estação Liberdade : Instituto Sócio-ambiental; Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2004.
2
Com a conferência de Estocolmo 72 (sobre meio humano), consagrando-se com a Eco 92 (sobre meio ambiente e desenvolvimento), vem-se desenvolvendo a idéia de sustentabilidade. Na verdade, a relação homem-natureza foi consagrada
na Conferência das Nações Unidas sobre o meio ambiente e desenvolvimento, realizada em 1992 no Rio de Janeiro, que
reuniu representantes de diversos países para discutirem a responsabilidade de cada um na busca da implementação de um
modelo que levasse em conta a grave crise ambiental, econômica e social pelo qual a humanidade passava. Fazendo surgir
os primeiros conceitos sobre o desenvolvimento sustentável, correlacionando os processos de mudanças políticas, sociais,
econômicas, culturais, administrativas e de cidadania que asseguram o atendimento às necessidades básicas da população
e à eqüidade social.
3
MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. São Paulo: Malheiros, 2003, 11. ed., p. 47/91.
4
Art. 23 e Art. 30 da CF/88
1
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assuntos locais, permite que este possa reunir condições efetivas para atender, de
modo imediato, ás necessidades locais, principalmente porque, no Brasil, existe
uma grande diversidade cultural e populacional. Se assim não fosse estabelecido,
certamente haveria maiores dificuldades em relação a eficácia dos programas e
projetos, sobretudo, os relacionados ao meio ambiente.
Por conseguinte, dentro das competências atribuídas, algumas gestões colocaram em suas pautas de governo o comprometimento de levar adiante uma
administração comprometida com a implementação de políticas atreladas à preocupação com a sustentabilidade ambiental e com a qualidade de vida da população. É através de uma gestão compartilhada entre Estado e Município, que
são implementadas e incentivadas, medidas que possibilitem um maior equilíbrio
entre desenvolvimento econômico e o meio ambiente.
Nesse diapasão, surge a necessidade de um aperfeiçoamento das políticas
públicas ambientais, por meio da avaliação de seus instrumentos de financiamento
(crédito e benefícios fiscais e tributários) e mecanismos de indução de políticas,
visando o fortalecimento dos modos de articulação entre investimentos econômicos e maior sustentabilidade.Em busca de um modelo de gestão ambiental satisfatória, bem como a necessidade de criar novos dispositivos legais que incentivem e
que financiem melhorias ambientais, cria-se um “solo fértil” para a aplicação do
ICMS Sócio-ambiental. Este, por sua vez, surge através da arrecadação do ICMS
(Imposto sobre circulação de mercadoria e serviços), onde parcela desse imposto
é então direcionada para Municípios onde a qualidade ambiental é relevante, ou
seja, municípios que possuem planos, programas, projetos e ações referentes à
recuperação e proteção ao meio ambiente, aprovados pelo Conselho Municipal de
defesa do meio ambiente (CONDEMA) e direcionados a algumas áreas temáticas como: Unidades de Conservação, Parques, Áreas de Preservação Permanente,
Reservas Legais, coleta e destinação final de lixo e esgoto, educação ambiental e
divulgação5, dentre outras.
2. AÇÕES INTEGRADAS EM BUSCA DA PROTEÇÃO AMBIENTAL
Havendo uma valorização dos instrumentos que estimulem a preservação
ambiental urbana, cria-se a necessidade de agregar às funções arrecadatórias e
de redistribuição de riquezas da tributação a utilização das exações como instrumentos de realização da extrafiscalidade6, para a promoção de medidas tendentes
à preservação da natureza, e, em conseqüência, da melhoria na qualidade de vida.
Os instrumentos ambientais tributários dependem de iniciativas legislativas municipais e estaduais, precisamente, na mobilização de autoridades executivas, além
da sociedade civil organizada, viabilizando discussões democráticas, que possibilitem a efetividade e a eficácia desses instrumentos.
5
PERNAMBUCO. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente. ICMS socioambiental:a experiência do Estado de
Pernambuco/Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente. – Recife: Sectma, 2006.
6
A extrafiscalidade significa que o imposto não tem a finalidade de arrecadar fundos para o orçamento público e sim
,incentivar ou desincentivar um determinado comportamento humano.
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177
Harmonizar o acelerado desenvolvimento econômico das cidades com a preservação racional dos recursos naturais é repensar algumas atitudes predatórias e
apontar um novo tipo de comportamento e posicionamento em relação á natureza.
Para isso exige-se mudanças na produção de consumo, no modo de pensar e de
agir das pessoas, bem como uma adequação das políticas públicas ambientais e
seus instrumentos econômicos.
Enquanto o desenvolvimento econômico não for entendido como um desenvolvimento para que todos possam usufruir os resultados, não haverá exatamente
uma sustentabilidade ambiental. Daí a importância de se exigir uma postura ética
baseada na solidariedade. Na verdade, essa idéia pode ser assim sintetizada:
“Uma postura solidária representa uma contribuição para o estabelecimento
de uma vida saudável para a sociedade e também para as gerações que ainda
estão por vir, razão pela qual se fala em dever ético de solidariedade. Assim,
contribuir para a preservação do meio ambiente constitui o exercício de um
dever de responsabilidade comunitária, permitindo envolver o meio ambiente
por uma ética solidária.”.7
Todos têm direito de usufruir um ambiente sadio e equilibrado8, cuja exploração se deve dar de forma ordenada. Portanto, todos devem, igualmente, contribuir para conservá-lo. Sendo assim, faz-se necessário o planejamento de uma
política de incentivo aos instrumentos que buscam o desenvolvimento sustentável
e estimulam o poder público Estadual e Municipal a implantarem políticas que,
além de serem ecologicamente equilibradas, sejam “socialmente justas” e principalmente, “economicamente viáveis”.
Sob este viés, se verifica a necessária interseção entre tributação e meio
ambiente, tendo em vista que ambos possuem entre si uma relação de correspondência, sobretudo, no que diz respeito aos custos com a preservação e restauração
ambiental. Todas as questões a estes relacionadas não podem ser tratadas isoladamente, mas sim trabalhadas sob uma ótica transdisciplinar9, na perspectiva de
equacionar os problemas ambientais, sociais e econômicos, apontando as possíveis soluções, que devem ser discutidas tanto pelo poder publico, quanto pela
sociedade civil organizada.
Como o desafio é equacionar os problemas e buscar soluções que sejam
“ecologicamente corretas, socialmente justas e economicamente viáveis” (bases
para o desenvolvimento sustentável), o homem do século XXI tem que vislumbrar
que suas possibilidades futuras estão vinculadas não só a capacidade intelectual e
7
MARQUES, Clarissa.Ética e Direito ao meio ambiente: A necessidade de uma postura solidária..Revista da Faculdade de
Direito de Caruaru, v.36, n.1. João Pessoa:Idéia, 2005, p.160.
8
Art 225 CF/88.
9
Esclarece a pedagoga Claidi Todescatt: “A qualidade de vida do planeta tem sido rapidamente degradada, deteriorada
e esse prejuízo é provocado não somente pelos aspectos físicos e biológicos, mas principalmente pelos fatores sociais,
econômicos e políticos. No que se refere à interdisciplinaridade, o ambiente não pode ser abordado como objeto de cada
disciplina, isolado de outros fatores. É importante observar as dimensões que sustentam todas as atividades e promovem os
aspectos físicos, biológicos sociais e culturais dos seres humanos”.(TODESCATT, Claidi. Tese de Mestrado: A Educação
Ambiental nos processos de Formação e Capacitação Docente, pela FUNIBER: Fundação Iberoamenricana. Presidente da
ACEMAT - Associação de Cultura, Educação, Meio Ambiente e Tecnologia)
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científica, mas, a uma postura ética em relação à natureza. Ë nessa perspectiva que
abordaremos os reflexos ambientais mais evidentes e como a tributação ambiental
tem sido utilizada para a diminuição da degradação do meio ambiente urbano.
3. POLÍTICA E GESTÃO AMBIENTAL URBANA EM HARMONIA PELA SUSTENTABILIDADE
A gestão ambiental urbana, isto é, a gestão dos processos e meios que tornam nossas cidades mais sustentáveis, é um dos maiores e mais complexos desafios de governo na atualidade. Sendo assim, a gestão ambiental urbana não pode
ser uma tarefa exclusiva dos agentes públicos. Ela não é factível sem a participação da sociedade, estabelecendo e definindo prioridades, construindo consensos e
pactuando soluções. Ela é um sinal do amadurecimento democrático da sociedade
e reflete o aprimoramento de nossa sensibilidade individual e coletiva em relação
ao presente e o futuro de nossas cidades.
Durante muito tempo, a gestão das cidades deparou-se com grandes dificuldades para sua implementação, em função da falta de instrumentos legais que
dessem sustentação a vários fenômenos urbanos. Dentre eles, destaca-se os relativos à especulação imobiliária e à dificuldade de efetivação de operações urbanas
que envolvessem, num mesmo processo, a iniciativa privada e o poder público. Uma situação cada vez mais grave de desigualdade social, de degradação
ambiental progressiva e de redução da qualidade de vida urbana foi determinante
para que surgissem inovações legais ligadas às questões urbanas.
Destarte, o desafio da construção da sustentabilidade é bastante complexo,
pois gerir recursos ambientais, naturais ou sócios econômicos, com uma multiplicidade de atores, em função da ampla competência legislativa e administrativa do governo federal, estadual e municipal, além dos múltiplos e diversos
interesses da sociedade, não é tarefa fácil. Boa parte dos instrumentos, sobretudo urbanísticos, depende dos Planos Diretores; outros de legislação municipal
específica que aplique o dispositivo na cidade. Os cidadãos têm, entretanto, o
direito e o dever de exigir que seus governantes encarem o desafio de intervir,
concretamente, sobre o território, na perspectiva de construir cidades mais justas e sustentáveis.
A intensificação dos problemas urbanos e a necessidade de adaptar as políticas federais e estaduais à realidade local fazem com que gestores municipais
passem a adotar práticas inovadoras em relação à gestão e política ambiental.
Neste sentido, as autoridades deverão esforçar-se por promover a internalização
dos custos ambientais e a utilização de instrumentos econômicos, agindo com
o devido respeito ao interesse público, sem distorcer as relações econômicas 10,
fomentando um equilíbrio sócio-econômico–ambiental.
A literatura especializada (por exemplo, BAUMOL e OATES, JACOBS)11
10
Princípio 16 da Declaração da ECO-92 sobre Ambiente e Desenvolvimento.
BAUMOL, Willian J. e OATES, Wallace E. Apud, SETTE, Marli Terezinha Deon.Direito Tributário e sua aplicação ä
gestão ambiental: Um enfoque econômico. Disponível em: http://www.unb.br/face/eco/jmn/trabalhos/2004/direitotributario.pdf. Acesso em: 11/01/08.
11
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classifica os instrumentos de política ambiental em três grandes grupos: a) Persuasão; b) Comando e Controle; e c) Instrumentos Econômicos.
Os instrumentos de Persuasão recorrem ao sentido dos valores morais ou
do dever cívico de uma pessoa ou de uma instituição para que ela interrompa um
comportamento que degrada o meio ambiente; A característica básica dos instrumentos de Comando e Controle é o estabelecimento de limites físicos ao uso dos
recursos naturais, que serão acompanhados pela autoridade ambiental, através de
fiscalização, que poderá aplicar sanções sobre o infrator, quando esse desrespeitar
aquele limite; Já os instrumentos econômicos (IEs) têm na flexibilidade um dos
seus principais aspectos positivos. Através deles, os custos de uso dos recursos
ambientais são atribuídos àqueles que os usam, pagando por cada unidade usada
do recurso. Isto significa dizer que o poluidor terá um custo adicional (ou incentivo adicional) por unidade produzida.
Assim sendo, o tributo é um dos instrumentos econômicos mais eficazes, por
cobrar direitos de uso dos recursos naturais desde a primeira unidade usada ou consumida. Através dessa cobrança, a autoridade ambiental consegue fazer cumprir
com os objetivos propostos de regular o uso dos recursos naturais e ambientais.12
É mister ressaltar que, o economista inglês Arthur C. Pigou13 foi o primeiro a
apresentar uma análise econômica sistemática de tributos no controle da poluição.
Na sua interpretação Pigou afirma que, uma coisa são os custos privados - os que a
empresa ou o agente privado contabiliza - e outra são os sociais - os que são suportados pela comunidade. Essa diferença é atribuída à existência de externalidade,
que corresponde a custos e benefícios que circulam externamente no mercado.
Pigou, pioneiramente, defendeu o tributo como elemento corretivo de tais
externalidades fazendo com que o agente privado passasse a interiorizar (internalizar) em seu cálculo as externalidades geradas por ele. Contudo, para que essa
internalização seja efetiva, se faz necessário a instituição de um tributo sobre as
atividades poluidoras, colocando seu ônus sobre o poluidor que permite interiorizar nos preços de mercado os demais custos privados dessa atividade, ou seja,
seus custos sociais resultantes de prejuízos coletivos que ele acarreta. Sendo esta,
portanto, a base de um imposto pigouviano.
A utilização dos instrumentos econômicos, em especial os tributos ambientais, como veremos, permite a diminuição do custo social de controle ambiental, podendo ainda fornecer aos cofres do governo local a receita de que tanto
necessitam, caracterizando-se como uma alternativa economicamente eficiente e
ambientalmente eficaz.14
Desta forma, a utilização dos instrumentos econômicos e de alternativas políticas que considerem a importância da participação local, se transforma em uma
meta com crescente legitimidade. Mais do que nunca as cidades brasileiras estão
12
SETTE, Marli Terezinha Deon. Direito Tributário e sua aplicação ä gestão ambiental: Um enfoque econômico.
Disponível em: http://www.unb.br/face/eco/jmn/trabalhos/2004/direitotributario.pdf. Acesso em: 12/12/07.
13
Apud, SETT, Marli Terezinha. Ibidem. p 5.
14
JESUS, Flávia Neves C.de. Instrumentos Econômicos de Gestão Ambiental – Análise do Tributo Ambiental no Contexto
Brasileiro.
Disponível em: http://www.facmais.com.br/artigos/Artigo011.pdf. Acesso em: 12/01/08.
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desafiadas a “casar” a gestão urbana e a gestão ambiental, integrando as políticas
de planejamento urbano e política ambiental. A tarefa de planejar a cidade passa
a ser uma função pública que deve ser compartilhada pelo Estado, Município e
pela sociedade – co-responsáveis pela observância dos direitos humanos e pela
sustentabilidade dos processos urbanos.
Cumpre ponderar, que para o sucesso das propostas, e conseqüentemente,
sua eficácia, é mister que o Poder Publico Municipal, além de possuir vontade política em promover o desenvolvimento sustentável no âmbito local, tenha capacidade administrativa e conte com um quadro de pessoal técnico, capaz de formular
e executar projetos sócio-ambientais.
Ademais, para garantir esse processo, é necessária uma construção de futuro
clara, compartilhada através de uma discussão e detalhamento de qualquer aspecto que seja necessário para a compreensão e implantação das propostas. Isto quer
dizer que, além de criar propostas para a sustentabilidade urbana, é necessária a
difusão de como estas podem ser colocadas em prática.
4. TRIBUTAÇÃO AMBIENTAL E SUA EXTRAFISCALIDADE
A preocupação com a questão da implementação, no contexto mundial, de
uma política de tributação ambiental, foi demonstrada na Conferência das Nações
Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável realizada no Rio de
Janeiro em 1992 (ECO-92). Durante a Conferência, restou-se estabelecido que a
implementação de um sistema de tributos ambientais deve atender a requisitos de
eficiência ambiental (resultados efetivos nessa área), eficiência econômica (não
deve ser oneroso), simplicidade administrativa (não deve onerar a maquina administrativa) e repercussão econômica positiva (para que não prejudique o ciclo de
consumo interno e internacional).15 Destarte, houve a definição de critérios para
que um tributo ambiental seja realmente eficiente.
Em verdade, nota-se hoje, ainda que incipientemente, uma preocupação em
dinamizar o emprego de instrumentos tributários, para que estes possam incentivar a proteção do meio ambiente. Na atualidade, a tributação ambiental brasileira
ainda esta ganhando forças, daí a importância de incentivar a sua aplicabilidade.
Em defesa a essa nova vertente que é a tributação ambiental, Regina Helena
Costa16 a define como: “o emprego de instrumentos tributários para gerar recursos
necessários à prestação de serviços públicos de natureza ambiental, bem como
para orientar o comportamento do contribuinte à proteção do meio ambiente”
O tributo tem sido considerado como termômetro da ideologia política adotada pelos governos, nos quais objetivam-se equilibrar justiça fiscal e arrecadação.17
Podem ser classificados conforme sua finalidade: fiscal, extrafiscal ou parafiscal18.
15
COSTA, Regina Helena. “Apontamentos sobre a tributação ambiental no Brasil”. In TORRES, Heleno Taveira (Org.).
Direito Tributário Ambiental. São Paulo: Malheiros, 2005.
16
Bis, idem. p 313.
17
LAUFENBURGER, Henry.Apud. SEBASTIAO, Simone Martins. Tributo Ambiental: Extrafiscalidade e Função Promocional do Direito.Curitiba: Juruá, 2006.
18
BRITO MACHADO, Hugo de. Curso de Direito Tributário. 23ª ed. São Paulo: Malheiros Editores Ltda, 2003, p.
73.74.
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Os tributos fiscais são aqueles com fins arrecadatórios de recursos financeiros. Explica Oliveira19 que “A fiscalidade e o comportamento do Poder Público
com o único intuito de abastecimento dos cofres público. É o poder de instituição
de tributos, desprovido de qualquer finalidade que não a arrecadatória”. Os tributos parafiscais têm por fim custear as atividades paralelas ás da Administração
Direta. Consiste em titular da competência tributaria conferir a outro sujeito ativo,
a disponibilidade dos recursos.20 No que consiste aos tributos extrafiscais, estes almejam a intervenção na economia mediante estímulos ou desestímulos de certos
comportamentos. Destarte, estes têm por objetivo não apenas arrecadar tributos,
mas identicamente conformar ou desestimular comportamentos contrários a situações socialmente indesejáveis.
Contudo, é de bom alvitre ressaltar que “não há como dissociar os sinais de
fiscalidade e extrafiscalidade de qualquer tributo. Existirá sim, em alguns casos,
o predomínio do caráter fiscal ou extrafiscal, mas nunca haverá apenas um caráter
isoladamente”.21 Neste sentido, Paulo de Barros Carvalho22 considera que: “Há
tributos que se prestam, admiravelmente, para a introdução de expedientes extrafiscais. Outros, no entanto, inclinam-se mais ao setor da fiscalidade. Não existe,
porém, entidade tributaria que possa dizer pura, no sentido de realizar tão só a
fiscalidade, ou, unicamente, a extrafiscalidade. Os dois objetivos convivem, harmônicos, na mesma figura impositiva, sendo apenas lícito verificar que, por vezes,
um predomina sobre o outro.”
É nessa seara que podemos perceber que, no tocante a tributação ambiental,
o que prevalece é o caráter extrafiscal, pois o seu escopo é estimular condutas nãopoluidoras e coibir as agressoras ao meio ambiente, ficando, neste caso, a natureza
arrecadatória em um plano secundário.23
Para evidenciar esse caráter extrafiscal, é oportuno transcrever as lições de
Hely Lopes Meirelles24 :
“A extrafiscalidade é a utilização do tributo como meio de fomento ou de desestimulo a atividades reputadas convenientes ou inconvenientes á comunidade. É
um ato de política fiscal, isto é, de ação de governo para o atingimento de fins
sociais através da maior ou menor imposição tributária. [...] Com efeito, através da agravação do imposto podem-se afastar certas atividades ou modificarse a atitude dos particulares reputadas contrarias ao interesse público, como
pelo abrandamento da tributação pode-se incentivar a conduta individual conveniente á comunidade”.
Nesse diapasão, a tributação extrafiscal apresentou-se como um relevante
implementador de políticas ambientais, com o poder de induzir a comportamentos
19
OLIVEIRA, Regis Fernandes. Receitas públicas tributárias.Revista Tributária e de Finanças Públicas. V58. RT.set.out.,2004.p.215.
20
Idem.Ibidem. p 202-225.
21
AMARAL, Paulo Henrique do.Direito Tributário Ambiental. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007.p 64.
22
CARVALHO, Paulo de Barros.Curso de direito tributário. 14. ed.São Paulo:Saraiva, 2002. p 149.
23
AMARAL, Paulo Henrique. Ibidem. p 64
24
MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Municipal Brasileiro. São Paulo: Malheiros, 1993. p 158.
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e intervir nas atividades econômicas, em beneficio do meio ambiente. Os defensores da tributação ambiental como instrumento de política de meio ambiente
destacam exatamente esse aspecto modificador de comportamento humano. Entre
esses defensores destaque para Allen Kneese – um dos fundadores da economia
ambiental – que escreveu um dos primeiros manuais sobre o assunto em 1977.25
Destarte, o debate recente sobre tributação ambiental tem se concentrado
no aspecto de dividendo duplo (double dividend) do instrumento. A idéia de dividendo duplo é a de que um único instrumento pode alcançar dois objetivos (ou
dois dividendos): 1. alterar o comportamento humano em relação à poluição ou
degradação e 2. gerar fundos que serão gastos para alcançar um outro objetivo
qualquer. É usual distinguir pelo menos duas formas em que pode se manifestar
à hipótese do dividendo duplo. Uma é a de uso da receita obtida com o tributo
ambiental para financiar a redução de outro tributo qualquer existente na economia, por exemplo, a de tributos incidindo sobre o custo da mão de obra. A outra
é usar a receita proveniente do tributo ambiental para financiar a consecução de
objetivos e metas ambientais; isto é, a receita tributária estaria vinculada a um uso
relacionado com a conservação do patrimônio ambiental.26
As palavras de Santana27, abaixo transcritas, reiteram essa importância:
“A tributação ambiental extrafiscal cumpre um significativo papel na implementação das normas ambientais, já que seu caráter não-sancionador permite
aos produtores e consumidores a internalização econômica dos custos ambientais decorrentes da produção e consumo de bens e serviços potencialmente
poluidores, bem como o direcionamento da produção e do consumo para os
bens e serviços ecologicamente sustentáveis”.
Paulo Henrique do Amaral28, ao citar Pedro Molina, nos traz um importante
questionamento: “O uso extrafiscal do tributo se admite pacificamente pela jurisprudência constitucional espanhola, alemã e italiana, sempre que o fim perseguido
tenha relevância constitucional e não desrespeite os direitos dos cidadãos nem a distribuição da competência prevista na norma fundamental”. Ao fazer essa ressalva,
o autor nos alerta que: mesmo que a nossa Constituição Federal não tenha previsto
expressamente a possibilidade de utilizar os tributos na defesa do meio ambiente,
não significa dizer que a tributação ambiental esteja afastada ou proibida. E conclui
afirmando que, ao interpretarmos sistematicamente a Constituição brasileira, percebemos que a tributação ambiental desempenhará excelente papel na realização dos
seus objetivos constitucionais, por exemplo, a proteção do meio ambiente.
Nesse desiderato, as normas tributárias, primordialmente as de função extrafiscal, dão origem a instrumentos econômicos de políticas publicas, cujas finalidades podem ser mais bem exploradas com a busca do bem-estar social e com
a manutenção de um meio ambiente sustentável. Neste sentido é que vem sendo
25
PEARCE, David.Apud, SETTE, Marli Terezinha Deon.Ibidem. p 6.
SETTE, Marli Terezinha Deon.Ibidem. p.5.
27
SANTANA, Heron José de. Meio ambiente e reforma tributaria: Justiça fiscal e extrafiscal dos tributos ambientais.
Revista de Direito Ambiental. V. 33. RT. jan.-mar., 2004. p 30.
28
AMARAL, Paulo Henrique do.Ibidem.p 65.
26
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adotado a partir de 1991, o ICMS Sócio-ambiental. Trata-se da introdução da
dimensão ambiental dentro dos critérios de distribuição dos recursos estaduais
arrecadados pela tributação.
A partir desse mecanismo cria-se uma oportunidade para o Estado influir no
processo de desenvolvimento dos municípios, premiando algumas atividades e coibindo outras. Seguramente, o ICMS (imposto sobre circulação de mercadorias e
prestação de serviços) é o que pode ser utilizado com maior sucesso29. A implementação do incentivo deve considerar as especificidades locais e regionais, além de
incorporar outros critérios que potencializem a conservação do meio ambiente.
5. O QUE É O ICMS SOCIO AMBIENTAL?
Antes mesmo de responder ao questionamento, se faz necessários algumas
colocações que ajudarão a compreender a sua gênese e sua finalidade:
5.1 Uma Análise dos Principios Norteadores do ICMS Sócio Ambiental
Sendo a tributação ambiental uma relação jurídica, é inquestionável a existências de princípios pelos quais a tributação é regida. Embora outros princípios
de direito ambiental interessem à tributação ambiental30, analisar-se-á aqui aqueles de maior relevância ao ICMS Sócio ambiental: princípio do desenvolvimento
sustentável, da premiação e o princípio do protetor-recebedor.
Princípio do Desenvolvimento Sustentável
O grande apogeu da discussão em torno da terminologia do princípio do desenvolvimento sustentável estabeleceu-se inicialmente em 1972, na Conferencia
Mundial de Meio Ambiente em Estocolmo. Posteriormente, na Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Em nosso país, a introdução do
conceito deu-se primeiramente na ECO 92, a qual empregou o termo em onze de
seus vinte princípios. 31 Em nossa Carta Magma, o princípio do desenvolvimento
sustentável está esculpido de maneira implícita no art 225.
O princípio aqui preconizado infere-se da necessidade de um duplo ordenamento - e, por conseguinte, de um duplo direito -, com profundas raízes no Direito
Natural e no Direito Positivo: o direito do ser humano de desenvolver-se e realizar
as suas potencialidades, quer individual quer socialmente, e o direito de assegurar
às gerações futuras as mesmas condições favoráveis. Neste princípio surge, de
maneira evidente, a reciprocidade entre direito e dever, porquanto o desenvolver-
29
FREITAS, Vladimir Passos de. A Constituição Federal e a efetividade das normas ambientais. 3 ed. rev. e ampl. São
Paulo: Revista dos tribunais, 2005. p 159
30
Princípio da Legalidade, da Tipicidade, da Igualdade, da Capacidade Contributiva, da Progressividade, da Seletividade,
dentre outros. AMARAL, Paulo Henrique do.Ibidem.p 71-113.
31
FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de Direito Ambiental Brasileiro. 5a. ed. São Paulo: Saraiva, 2004, p. 24.
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se e usufruir de um planeta plenamente habitável, não é apenas direito, é dever
precípuo das pessoas e da sociedade. Direito e dever como contrapartidas inquestionáveis. Na realidade, o que se busca é um ponto de equilíbrio, que começa
trabalhando melhor o conceito de desenvolvimento, que transcende o de simples
crescimento econômico, de modo que a verdadeira alternativa excludente está
entre desenvolvimento harmonizado e mero crescimento econômico.
Não obstante, o princípio do desenvolvimento sustentável colima compatibilizar a atuação da economia com a preservação e equilíbrio ambiental.
Principio da Premiação
O ICMS Sócio-ambiental foi criado com base em duas funções principais32:
1. Estimular a adoção pelos Municípios de iniciativas de conservação ambiental e desenvolvimento sustentável, seja pela criação de unidades de conservação, ou pela manutenção de áreas federais ou estaduais, seja pela incorporação de
propostas que promovam o equilíbrio ecológico, a eqüidade social e o desenvolvimento econômico.
2. Recompensar os Municípios que possuem áreas protegidas em seu território e que, dessa forma, estão impedidos de destinar a área para atividades
produtivas tradicionais que poderiam gerar uma maior arrecadação e conseqüente
participação na repartição do ICMS.
Em detrimento a segunda função, alvitre-se esclarecer que o termo “recompensa” está ligado a idéia de “premio”. E para elucidar essa idéia, precisamos ter
em mente que: toda norma jurídica pressupõe uma conseqüência, um efeito, pelo
seu cumprimento ou descumprimento. Quando alguém cumpre a norma, recebe
um efeito favorável, por vezes, a norma até estabelece um prêmio, uma compensação vantajosa, pelo seu cumprimento.33
É o caso da “sanção premial”, que consiste em uma reação a boa conduta e
funciona como medida de pressão para fazer nascer um comportamento desejado.
Surge, sobretudo, em razão da função promocional do Estado Intervencionista
Contemporâneo, que oferece um benefício ao destinatário, fazendo-o empenharse em condutas desejáveis e benéficas tornando-as necessárias, fáceis e vantajosas. A “sanção premial” detém um aspecto preventivo ao tencionar promover as
condutas desejadas fazendo surgir uma esperança.34
Destarte, é através da sanção premial que o ICMS Sócio-ambiental torna-se,
além de uma recompensa, um estímulo a adoção pelos Municípios de iniciativas
de conservação ambiental e desenvolvimento sustentável. Não obstante, podemos
concluir que, em decorrência da premiação, estimula-se à adoção, pelos municípios, de empreendimentos que preservam o meio ambiente, aumentando a qualidade na alocação dos recursos e melhorando a qualidade do dispêndio público,
32
PERNAMBUCO. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente. Ibidem.
SEBASTIAO, Simone Martins. Tributo Ambiental: Extrafiscalidade e Função Promocional do Direito.Curitiba: Juruá,2006. p.29-38
34
MELO FILHO, Álvaro, apud. Sebastião...p.33
33
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com o escopo de proporcionar o bem estar das comunidades locais, na medida em
que oportuniza a geração das extrenalidades positivas. Premia-se com mais recursos a quem investe mais e melhor no meio ambiente. Através dessa premiação
adveio o princípio do protetor-recebebor.
Princípio do Protetor-Recebedor
Trata-se de um fundamento da ação ambiental que pode ser considerado
o avesso do conhecido Princípio do Poluidor-Pagador, que por sua vez, “impõe
que o causador do dano ambiental seja através da emissão de agentes poluentes,
seja através da exploração irracional de recursos naturais, fique obrigado a arcar
com os custos necessários á diminuição, eliminação ou neutralização desse dano.
Pois aqui o bem jurídico protegido é toda a coletividade”.35 Em vertente oposta, o
principio do protetor-recebedor postula que aquele agente público ou privado que
protege um bem natural em benefício de toda comunidade deve receber uma compensação financeira como incentivo pelo serviço de proteção ambiental prestado.
Nesse desiderato, o principio do protetor-recebedor, coaduna-se com os princípios de justiça ambiental36, tornando-se um instrumento essencial para reduzir
desigualdades e injustiças e construir um ambiente humano mais solidário.
5.2 DO “ICMS” AO “SÓCIO-AMBIENTAL”
É a movimentação econômica que gera a maioria dos tributos que chegam aos
cofres públicos municipais, em especial o imposto sobre operações relativas a circulação de mercadorias e sobre prestação de serviços de transporte interestadual e
intermunicipal e de comunicação (ICMS). O imposto retorna à população na forma
de serviços públicos e está previsto na art 155, inciso II da Constituição Federal.
O ICMS brasileiro originou-se do imposto francês, que sofreu vários aprimoramentos, dando origem, em 1954, ao imposto não-cumulativo, denominada
Taxe sur la Valeur Ajoutée (TVA). Hodiernamente, o ICMS é considerado o imposto mais importante no âmbito estadual, uma vez que é o maior imposto em
termos de volume da arrecadação37. Conquanto seja um tributo estadual, a Carta
35
SEBASTIAO, Simone Martins. Ibidem. p.210.
O Movimento de Justiça Ambiental constituiu-se nos EUA a partir de uma articulação criativa entre lutas de caráter
social, territorial, ambiental e de direitos civis. Redefiniu-se em termos “ambientais” um conjunto de embates contra as
condições inadequadas de saneamento, de contaminação química de locais de moradia e trabalho e disposição indevida
de lixo tóxico e perigoso. Foi então acionada a noção de equidade geográfica, como “referente à configuração espacial e
locacional de comunidades em sua proximidade a fontes de contaminação ambiental, instalações perigosas, usos do solo
localmente indesejáveis como depósitos de lixo tóxico, incineradores, estações de tratamento de esgoto, refinarias etc.”
ACSELRAD, Henri. Justiça Ambiental e Construção Social do Risco. UFRJ/IPPUR. Disponível em: http://www.abep.
nepo.unicamp.br/docs/anais/pdf/2002/GT_MA_ST5_Acselrad_texto.pdf
37
A sua amplidão está ligada à gama de acontecimentos que onera. São considerados “fato gerador” do imposto três
acontecimentos reais concretos: 1) a circulação de mercadorias ou bens: esta circulação pode ser econômica, quando há
alteração na titularidade da mercadoria, ou não-econômica, quando há transferência de mercadorias entre estabelecimentos
de um mesmo titular; 2) a prestação de serviço de transporte, quando do pagamento pelo serviço prestado; 3) prestação por
serviços de comunicação, sendo aí englobadas todas as possibilidades, alternativas ou não, de comunicação de qualquer
natureza. GERBER JOÁO,Cristina. ICMS- Ecológico:Um instrumento econômico de apoio á sustentabilidade. Tese de
Doutorado do Curso de Pós-Graduação em Engenharia de Produção da Universidade Federal de Santa Catarina. Santa
Catarina, 2004. p.82
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Magma assegura no art 158, inciso IV e no parágrafo único, que 25% do ICMS
arrecadado pelo Estado seja transferido aos Municípios, com base nos seguintes
critérios:
Três quartos (75%), no mínimo, na proporção do valor adicionado nas operações relativas á circulação de mercadorias e nas prestações de serviços realizados em seu território. Esse critério é a diferença entre as notas fiscais de
vendas do município e suas notas fiscais de compra. Portanto ele corrobora
com o privilégio dos Municípios de maior produção econômica, pois eles são
os que conseguem gerar mais renda tributária.38
Até um (25%), de acordo com o que dispuser a lei estadual.
Baseado neste último ditame constitucional, os Estados adquirem autonomia, ou seja, “possuem capacidade ou poder de gerir os próprios negócios, dentro
de um circulo prefixado por entidade superior”.39 Para estabelecer os critérios de
distribuição da parcela do ICMS que cabe aos Municípios, isto é, cabe ao próprio
Estado prever quanto (porcentagem) e quando (em que casos) os entes menores
receberão uma cota desse tributo. Ao Estado é dado o papel de concretizador da
política econômica-ambiental com o intuito de ajustar a produção e de cumprir
o seu dever de gestor ambiental. Destarte, cabe ao Estado (re) organizar as atividades e corrigir as extrenalidades por elas geradas, aproximando das decisões
particulares de investimento ao atendimento das finalidades sócio-ambientais e
procurando alternativas justas para o financiamento público Municipal.
Destarte, os Estados– Federativos passaram a adotar uma nova política no
federalismo fiscal: a de compatibilizar o sistema financeiro e tributário com os
ditames de defesa ambiental. É nessa perspectiva que o ICMS ganhou o adjetivo
“Sócio-ambiental”. A maioria dos Estados que adotam esse instrumento utiliza
o adjetivo “Ecológico”, porém, por seu sentido mais amplo, este é denominado
Sócio-ambiental40. Assim explica Cristina Gerber João 41:
“A proposta dos novos critérios de rateio da cota-parte dos municípios pernambucanos é considerada abrangente e por isto passou a se chamar ICMS
Socioambiental, tendo em vista que abraça tanto critérios ecológicos de rateiodestino de resíduos sólidos e unidades de conservação, quanto critérios sociais
- saúde e educação”.
Neste caso, a denominação ICMS Sócio ambiental faz jus na utilização
de critérios que focam temas ambientais, econômicos e sociais. Abordando-os
sob uma ótica transdisciplinar, capaz de equacionar os problemas e buscar soluções compartilhadas, tanto pelo poder público, quanto pela sociedade, via-
38
MEIRELLES, Hely Lopes. Direito Municipal Brasileiro. São Paulo: Malheiros, 1993.
SILVA, José Afonso da. Direito ambiental constitucional. 2. ed. São Paulo: Malheiros, 1995.p 590.
40
O ICMS Sócio ambiental constitui um avanço em relação ao ICMS Ecológico, na medida em que insere aspectos sociais
como variáveis na distribuição do imposto. Fonte: Pernambuco. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente. ICMS
socioambiental:a experiência do Estado de Pernambuco/Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente. – Recife:
Sectma, 2006. p.5
41
GERBER JOÁO,Cristina. Ibidem.p 103
39
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bilizando discussões democráticas, que possibilitam a efetividade e a eficácia
desse instrumento.
Na verdade, o ICMS Sócio-ambiental não se trata de um novo tributo, mas
sim um novo conceito de redistribuição das receitas: um modo inovador de repasse dos recursos arrecadados pelo Estado, á cuja parte tem direitos os Municípios.
A propósito, atualmente no Brasil, onde vivenciamos o fim da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira), nem seria conveniente a criação de um novo tributo, pois, é suficiente adaptar aqueles que já estão em vigor,
tornando-os mais racionais e lucrativos para toda a sociedade. Para reforçar esse
pensamento, vale a pena transcrever os ensinamentos de Zeola42 :
“A enorme carga tributaria que incide sobre o povo brasileiro impede que se
cogite a criação de novos impostos, ou aumente a alíquota dos já existentes.
Dessa forma, redistribuir o imposto existente de forma adequada, punindo
quem danifica e incentivando quem protege a natureza, é uma das opções que
tem se transformado em importante modelo”.
Devido à autonomia prevista constitucionalmente43 aos Estados da federação
e considerando as especificidades de cada região, o modo operacional do ICMS
Sócio-ambiental difere-se em cada Estado, conforme o estabelecido em suas legislações. Estabelecidos os percentuais de repartição dos 25% do ICMS dos municípios, sujeitos ao poder de arbítrio dos estados, segundo os diversos critérios, é
necessário conceber e construir os indicadores que irão avaliar o atendimento aos
requisitos legais e o desempenho dos governos locais naquelas dimensões que são
objeto dos incentivos.
A nível nacional, o mais importante critério ambiental é a existência de unidades de conservação e o estímulo a criação e manutenção de novas O segundo
critério ambiental analisado é o relativo a manutenção de mananciais de abastecimento público, ou seja, restrições ao uso do solo em mananciais, superficiais ou
subterrâneos, de abastecimento público para sedes urbanas de municípios contíguos. Os indicadores de desempenho procuram aferir a área na bacia do manancial, vazão captada, vazão mínima e a variação na qualidade da água. O terceiro
critério ambiental que vem sendo crescentemente usado aplica-se ao tratamento de
lixo ou esgoto (saneamento ambiental).44 A nível local, os critérios de distribuição
do ICMS Sócio ambiental sofrem algumas alterações conforme as necessidades
estabelecidas, aumentando assim as chances de efetivação desse instrumento.
42
ZEOLA, Senise Freire Chacha. ICMS: Instrumento de proteção e conservação do meio ambiente. Revista de Direito
Ambiental. V.30.RT.abr.-jun..2003.p. 182.
43
O princípio da repartição das receitas tributárias, como é o caso do ICMS, é constitucional. Seus percentuais estão
descritos na Carta Magna, em seu artigo 158. O artigo 161 da Constituição Federal remete a lei complementar a definição
e operacionalização do Valor Adicionado. Assim, a sanção da Lei Complementar n. 63, de 11 de janeiro de 1990, ratifica
a medida constitucional e define os critérios de crédito a que os municípios têm direito. Seguindo a legislação federal, os
estados incorporaram às suas respectivas constituições o mesmo princípio de partilha da receita.
44
JATOBÁ,Jorge. O Icms como Instrumento Econômico para a Gestão Ambiental: O Caso do Brasil. Santiago de Chile,
2003.
Disponível em:http://www.eclac.org/publicaciones/xml/1/20641/LCL-2212.pdf
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12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
6. CONCLUSÕES ARTICULADAS
6.1 A criação do ICMS Sócio-ambiental é, sem dúvidas, um importante instrumento de gestão ambiental, utilizado para proteger e conservar o patrimônio natural, de forma preventiva, pois até então, a maioria das ações dos órgãos ambientais
é de fiscalização e punição.
6.2 Não se trata de um novo tributo, e sim, de uma “reciclagem” do recurso financeiro já arrecadado, mesmo antes da criação deste novo critério de distribuição.
Destarte, quando se discute sobre aplicação do ICMS Sócio-ambiental, a temática
abordada, possibilita uma análise sobre o controle dos gastos públicos e como
estes podem ser melhor aplicados.
6.3 O ICMS Sócio-ambiental precisa está ajustado a um adequado processo de
gestão ambiental local, sendo fundamental a capacitação técnica e administrativa
dos municípios, capaz de executar com eficiência os projetos sociais e ambientais.
Através deste, é possível discutir questões de maneira consensual, reajustando os
critérios na hora de repassar recursos já arrecadados pelo Estado, aos municípios,
funcionando como indutor à ação pro ativa em favor do meio ambiente.
6.4 O ICMS Sócio-ambiental não é um fim em si mesmo, sendo na verdade, um
instrumento meio, não devendo funcionar de maneira isolada, mas em conjunto
com outras ações públicas. O ICMS Sócio-ambiental é acima de tudo, uma manifestação de otimismo, um convite à luta por um modo de vida sustentável.
6.5 Esse importante instrumento econômico não é um caminho já formado que
nos leva a tão sonhada sustentabilidade social e ambiental, porém pode ser considerado um “farol” que ajuda a encontrar o caminho desejado: A vida com qualidade em equilíbrio com a natureza.
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REFLEXÕES SOBRE LICENCIAMENTO
AMBIENTAL E O EIA/RIMA DO PROJETO DE
CONSTRUÇÃO DA UTE BARCARENA
NO ESTADO DO PARÁ
WIRNA CAMPOS CARDOSO
Acadêmica do 5º ano de Direito do Centro Universitário do Pará
– CESUPA, estagiária do Ministério Público do Estado do Pará e
membro da ONG Argonautas Ambientalistas da Amazônia
1. INTRODUÇÃO
O paradigma da sociedade configura a base de sua estruturação, a matriz
que influencia a ciência ou o comportamento social; assim, tanto o primeiro como
o segundo são influenciados por determinada referência, como por exemplo, a
religião, em que antigamente, havia justificação divina para tudo. Com a modernidade, bem como as Revoluções Burguesas, observa-se que a referência passou
a favorecer as ciências sociais, quando então tudo passa a ser pautado na razão
devidamente experimentada e o Direito surgindo da norma que configura a segurança jurídica. Tal modelo pautado na regulação, ou seja, o qual diz que fora da
normatização há o caos, legitima o Estado Liberal, o qual por sua vez conduz a
um Direito individualista, estimulador da resignação e conformismo, provocando o desenvolvimento de uma sociedade indolente, que não se preocupa com os
direitos os quais transcendem a sua vivência. Portanto, era necessário alterar este
paradigma1.
Foi então que o conhecimento passou a ser pautado na emancipação, no
sentido de que se passou a questionar o modelo anterior, ou seja, passou-se a indagar se para o progresso biotecnológico poder-se-ia explorar desenfreadamente
o planeta, e como exemplo disso, tem-se as alterações climáticas. Assim, observase que nesse contexto há o reconhecimento da solidariedade, da proteção metaindividual, coletiva, ou seja, trata-se de um estado mais atuante, mediante poder
compartilhado, e, portanto, o Direito passa a ser pensado em outra perspectiva,
valorizando outras referências na solução dos conflitos, como os princípios, por
exemplo2.
Neste contexto surgem Direitos que se fortalecem, como o direito ambiental, e a partir do momento em que este Direito passou a ser compreendido pelo
paradigma biocêntrico, ou seja, quando a tutela do meio ambiente passou a incluir
1
2
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VERBICARO, Loiane. Nota de aula em 13/02/2008.
SOARES, Dennis Verbicaro. Nota de aula em 11/02/2008.
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o homem, a compreensão desse ramo jurídico tornou-se global. Houve então, a
quebra da falácia de que o Direito Ambiental almeja apenas proteger o recurso natural, posto que o homem faz parte do meio ambiente, no sentido de que necessita
dele para sua sobrevivência.
Sabe-se que a ação humana é essencialmente poluidora e que desde sempre
houve o exaurimento pontual de recursos naturais, no entanto, o que ocorre desde
a Revolução Industrial o aumento da dimensão do problema, pois atualmente há
a destruição maciça do meio ambiente em decorrência da evolução científica e
tecnológica, bem como a geração intensa de resíduos. Assim, o mundo vive o
que se denomina de “crise ambiental”, entendida como sendo o aumento do dano
ambiental, em virtude de acontecimentos agressivos contra o meio ambiente, provocados pelo homem, e que interferem diretamente no modo de viver de todos os
seres vivos.
Num primeiro momento pensou-se que isto poderia estar acontecendo como
conseqüência natural de transição do planeta, mas o mundo já conhece que a
autoria do problema é do homem, principalmente após a divulgação do relatório
do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007; nesse
sentido, é necessário, primeiramente, questionar sobre qual atitude deve-se tomar,
e a partir daí executar a solução. Assim, como primeiro passo acredita-se que
deve ser a identificação do problema e em seguida a definição dos caminhos para
a proteção do meio ambiente.
Chico Mendes alertou o mundo para a emergência de conciliar as necessidades dos grupos sociais e a proteção do meio ambiente, hoje, possui-se um grande
número de tratados, o conceito de desenvolvimento sustentável, relatórios sobre
os danos ambientais, todavia, o mundo ainda não caminha para a proteção ao meio
ambiente, com o mesmo passo que a evolução tecnológica.
Portanto, o presente trabalho procura tratar sobre o licenciamento ambiental,
bem como analisar um caso particular de um projeto de construção de usina termelétrica no Estado do Pará e como sua execução pode repercutir no mundo que
hoje revela grande preocupação com o uso sustentável da energia.
2. BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE O LICENCIAMENTO AMBIENTAL
2.1 Conceito
O licenciamento ambiental está condicionado à previsão legal (Lei 6.938/81)
e trata-se da efetiva demonstração da expressão do poder de polícia, pertencente à
esfera administrativa, a qual por sua vez é competência comum da União, Estados
e Municípios. De acordo com a Resolução 237/97 do Conselho Nacional de Meio
Ambiente (CONAMA), o licenciamento ambiental é:
“procedimento administrativo pelo qual o órgão ambiental competente licencia a localização, instalação, ampliação e a operação de empreendimentos e
atividades utilizadoras de recursos ambientais , consideradas efetiva ou potencialmente poluidoras ou daquelas que, sob qualquer forma, possam causar
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degradação ambiental, considerando as disposições legais e regulamentares e
as normas técnicas aplicáveis ao caso”3.
Portanto, o licenciamento ambiental procura estabelecer restrições, conclusões e medidas de controle ambiental que deverão ser obedecidas sob pena de
agressão ao meio ambiente. Assim, sendo o licenciamento ambiental um procedimento administrativo, e não um processo − uma vez que não há litígio posto − tal
instituto revela-se como um ato administrativo complexo, ou seja, depende de
mais de uma autorização de órgãos diferentes.
A materialização do licenciamento se dá por meio da licença ambiental,
também definida pela resolução acima citada, como sendo o ato administrativo,
concedido ao empreendedor mediante a obediência de condições, restrições e medidas de controle ambiental. Assim, a licença ambiental consiste na “autorização”4
para a possibilidade de alocação, instalação, ampliação e operação do projeto empreendedor.
2.2 Natureza jurídica da licença ambiental
Não se pretende esgotar neste artigo a discussão a respeito da natureza jurídica da licença ambiental, mas sim tratar de maneira suficiente a fim de esclarecer
o problema.
Ocorre que há divergência doutrinária no que tange à natureza jurídica do
licenciamento ambiental; portanto, a fim de elucidar a questão, é necessário dizer
que o termo “autorização” demonstra, no sentido jurídico, a existência de conveniência e oportunidade, logo, discricionariedade da Administração Pública para
conceder o efeito perseguido pelo pedido do empreendedor. Já o termo “licença”,
por outro lado, traduz que, uma vez preenchidas todas as exigências, o Poder
Público é obrigado a conceder a possibilidade de execução do empreendimento,
descaracterizando, assim a conveniência e oportunidade; pois o empreendedor
passa a ter um direito garantido, a ser perdido apenas quando do descumprimento
de alguma regra já estabelecida pelo órgão administrador.
Neste sentido, cabe demonstrar as opiniões divergentes na doutrina pátria,
de Edis Milaré5, o qual entende que a natureza jurídica do licenciamento ambiental consiste em licença propriamente dita, entendida no seu sentido jurídico, pois
em que pese haver prazo de validade estipulado, a mesma não pode ser suspensa
por simples discricionariedade do administrador público, assim, os atos da Administração restringem-se em reconhecer o preenchimento dos requisitos ambientais
necessários para o exercício do direito pleiteado.
3
Artigo 1º, I da Resolução 237/97 do CONAMA. Disponível em: < http://www.mma.gov.br/port/conama/res/res97/
res23797.html >. Acessado em: 20/11/2007.
4
O termo está entre aspas para não ensejar confusão ao leitor no que tange à discussão sobre a natureza jurídica a ser
tratada mais à frente.
5
MILARÉ, Edis. Direito do Ambiente. 2ª Edição. Editora Revista dos Tribunais, 2001. p. 363.
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Já para Paulo Afonso Leme Machado6, o licenciamento ambiental, configura-se com a natureza jurídica de autorização, pois acredita na plena discricionariedade para sua concessão, justificando tal afirmativa pela Carta Magna em seu
artigo 170, que utiliza o termo “autorização” quando se refere a órgãos públicos;
bem como o art. 10 “caput” e §1º da lei 6.938/81, ao revelar que a Administração
Pública pode intervir na atividade licenciada para manter o controle da qualidade
ambiental.
Constata-se então que não é pacífico o entendimento técnico dos termos
aqui reportados, porém concorda-se que a utilização de “licença” é pertinente,
haja vista a intenção do Poder Público em exigir o cumprimento de determinados
comportamentos, para quando de seu devido cumprimento, permitir a execução
do efeito pleiteado.
2.3 Órgãos responsáveis pela concessão da licença
O Sistema Nacional de Meio Ambiente (SISNAMA), foi criado pela Lei
6.938/81, e regulamentado pelo Decreto 99.274/90, o qual se constitui através de
órgãos e entidades da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Municípios e
Fundações instituídas pelo Poder Público, que são responsáveis pela proteção e
melhoria da qualidade ambiental7. Nesse sentido é necessário demonstrar quais
são os órgãos responsáveis pela concessão do licenciamento ambiental, a fim de
que se possa esclarecer melhor como se dá o seu desenvolvimento.
Assim, em âmbito federal tem-se o Conselho Nacional de Meio Ambiente
(CONAMA) o qual é o órgão possuidor da incumbência da regularização, ou seja,
é de onde provêm as resoluções, as quais são gerais no sentido de dar direção aos
embasamentos do licenciamento. Portanto, o CONAMA é um órgão caracterizado
por ser consultivo e deliberativo, configurando, a sua estrutura de órgão de controle social, conforme preleciona o artigo 8º da lei nº 6.938/81.
Há também o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e de Recursos Renováveis (IBAMA) que por sua vez é o órgão possuidor da obrigação de executar
o licenciamento, propriamente dito, tendo um papel supletivo ao órgão estadual
ambiental, com base no artigo 10, caput da lei nº 9.638/81. Segundo a doutrina8,
o IBAMA atuará supletivamente principalmente em duas situações, quais sejam,
quando o órgão estadual ambiental demonstrar-se inepto, ou quando ele permanecer inerte ou omisso.
Por fim, no âmbito dos estados federados, a concessão cabe às Secretarias
Estaduais de Meio Ambiente, por serem órgãos seccionais que executam projetos e programas, e exercem o controle e fiscalização de atividades consideradas
6
MACHADO, Paulo Afonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. 15ª Edição. Editora Malheiros. São Paulo: 2007. p.
275/276.
7
BRASIL. SISNAMA - Sistema Nacional de Meio Ambiente. Disponível em: <http://www.mma.gov.br/port/conama/
estr1.cfm>. Acessado em: 17/01/2008.
8
MACHADO, Paulo Afonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. 15ª Edição. Editora Malheiros. São Paulo: 2007. p.
277.
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destrutivas ao meio ambiente; já os municípios, são órgãos locais que procuram
fiscalizar as atividades já citadas, na esfera de suas competências, através das Secretarias Municipais de Meio Ambiente9.
2.4 Alvos sujeitos ao licenciamento ambiental
O licenciamento ambiental é necessário para aqueles que exercerem atividades envolvidas pelo que prevê o artigo 3º, III, da Política Nacional de Meio
Ambiente (PNMA), ou seja, execução de atos que porventura venham a degradar,
poluir ou promover alterações adversas ao meio ambiente.
Porém, é possível que mesmo com a determinação normativa acima citada,
haja dúvidas a respeito da necessidade ou não da obtenção de licença ambiental
para dar início à atividade empreendedora (poluidora); neste caso é imprescindível, recorrer-se ao Anexo I da Resolução 237 do CONAMA, uma vez que o
mesmo é detentor de um rol extenso de atividades e empreendimentos sujeitos
ao licenciamento ambiental, sendo inclusive bastante específico, didaticamente
disposto por meio de atividades gerais, como por exemplo, indústrias de tratamentos minerais, indústria de material de transporte, de borracha, de couro e peles,
indústrias diversas, dentre outros. Ressalta-se que o rol, tanto do art. 3º da PNMA
quanto do Anexo I da Resolução 237 do CONAMA, são taxativos.
Se após todos esses dispositivos, ainda não for possível estabelecer se será
necessário ou não o licenciamento ambiental, caberá ao Poder Público, discricionariamente analisar a proposta de atividade ou do empreendimento, no sentido de
avaliar qual o nível de dano ambiental será provocado caso a implementação do
projeto aconteça, ou seja, se o mesmo é passível de dispensa ou não de um estudo
prévio de impacto ambiental.
2.5 Trâmite procedimental para concessão
Antes de tratar sobre o processo de concessão do licenciamento ambiental
é necessário conhecer quais tipos de licença existentes no Brasil, nesse sentido
o Decreto 99.274/90 previu tais licenças, as quais estão classificadas no artigo
19 como: licença prévia (LP); licença de instalação (LI) e licença de operação
(LO). A primeira apenas atesta a possibilidade de realização do empreendimento,
ou seja, é concedida mediante os requisitos básicos a serem atendidos nas fases
seguintes; a LI permite o início da implantação do projeto, ou de maneira mais
prática, que somente sejam levadas as máquinas até o local de realização do empreendimento; e a LO é concedida exclusivamente quando da observância das
exigências das demais licenças com relação ao controle de poluição, autorizando
o início da atividade licenciada, sendo ainda possível a realização de novas requisições.
9
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MOREIRA, Eliane. Nota de aula em 14/09/2007.
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Classificadas as licenças, é imperioso avaliar o trâmite procedimental para o
consentimento da execução do projeto. Assim sendo, o procedimento10 para concessão da licença ambiental, de maneira resumida, inicia-se com o pedido do empreendedor ao órgão competente, o qual emitirá um termo de referência. A partir
dai o empreendedor deverá então elaborar o estudo de impacto ambiental (EIA/
RIMA), e após a sua finalização, abre-se um prazo para a ocorrência das audiências públicas, no sentido de obter a opinião da população sobre o empreendimento
que se pretende licenciar.
Posteriormente a estas diligências, o órgão licenciador emite um parecer técnico e o encaminha ao Conselho de Meio Ambiente, o qual realizará deliberações
a fim de conceder ou não a licença. Caso seja deferida, será dado ao empreendedor, a licença prévia, que por sua vez, como já visto, não aprova a realização, ou
seja, ainda não gera direitos, apenas atesta a viabilidade do projeto. Em seguida,
podem ser concedidas as demais licenças, como já visto acima.
3. PRINCÍPIOS NORTEADORES DO LICENCIAMENTO AMBIENTAL
O Direito é uma ciência humana e por essência necessita ser baseado em
princípios, haja vista serem referências teleológicas imprescindíveis para otimização da tutela normativa, nesse sentido, destaca-se como principais princípios norteadores do licenciamento ambiental: o princípio da prevenção, da participação,
do poluidor-pagador e do usuário pagador11. Os quais procurar-se-á tratar mais
especificamente, a seguir:
3.1 Princípio da Prevenção
Desde que o mundo passou a atentar para a destruição do meio ambiente,
inseriu-se a preocupação em prevenir o mal que passou a assombrar o planeta. Tal princípio possui sua origem na Declaração de Estocolmo (1972), porém
a legislação pátria o trata mais especificamente pela Política Nacional de Meio
Ambiente em seu artigo 9º, III12, pois este expõe que a avaliação de impactos
ambientais consiste em instrumento da Política Nacional para prevenção de danos
ambientais, logo, “a aplicação de tal princípio se dá nos casos em que os impactos
ambientais já são conhecidos”13.
Destarte, tal princípio é revelado pela necessidade de uma administração judiciosa com relação ao meio ambiente, ou seja, procura-se evitar o dano ambiental
ao máximo, e caso isto não seja possível, procura-se minimizar seus efeitos e
10
MOREIRA, Eliane. Nota de aula em 14/09/2007.
O princípio do usuário-pagador fora escolhido para compor este tópico em virtude do caso especial do EIA/RIMA do
projeto da UTE Barcarena.
12
MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. 15ª Edição. Editora Malheiros. São Paulo: 2007. p.
64.
13
Princípio da prevenção. Disponível em: <http://www.jurisambiente.com.br/ambiente/principios.shtm#Princípios%20
do%20Usuário%20Pagador%20e%20do%20Poluidor%20Pagador>. Acessado em: 02/03/2008.
11
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indenizar, face a ocorrência do dano, ou seja, a prevenção está relacionada com a
previsão do dano certo, com o ponto de certeza da ocorrência.
Portanto, o licenciamento ambiental, demonstra ser a principal ferramenta para
a prevenção de danos ambientais, uma vez que é através do estudo prévio de impactos
ambientais que se obterão informações sobre os riscos de determinada atividade.
3.2 Princípio da Participação
Paulo de Bessa Antunes14 contempla o princípio da participação juntamente
com o da informação, denominando-os de princípio democrático. Tal princípio
traduz a necessidade de asseverar aos cidadãos o direito de participar da elaboração de políticas públicas ambientais, e no caso do licenciamento, voltadas para o
direito de opinar e participar do processo de tomada de decisões, conforme denota
o artigo 10 da Declaração do Rio de Janeiro (1992)15 seja através de mecanismos
judiciais ou administrativos.
Deste modo, este princípio se pauta na necessidade de empoderamento dos
cidadãos no sentido de os mesmos façam parte da tomada de decisões. O princípio
pode ser materializado através da realização das audiências públicas, as quais impõem ao Poder Público mecanismos de participação igualitária, no sentido de que
seja garantida a participação seja efetiva, ou seja, liberdade de posicionamento.
3.3 Princípio do Usuário-pagador
Os recursos naturais podem ser utilizados de maneira gratuita ou não16, tudo
dependerá de sua abundância ou escassez, assim, de acordo com a Política Nacional do Meio Ambiente, mais precisamente em seu artigo 4º, VII, tal princípio,
revela-se através de uma equação, qual seja, o uso do recurso natural somado à
finalidade econômica17, no sentido de que mediante a utilização do recurso escasso, ou passível de escassez e a necessidade de prevenir com a ocorrência do dano
ambiental, é necessário cobrar o uso destes recursos a serem utilizados.
Assim, toda vez que houver tal equação o usuário deve arcar com a responsabilidade ambiental, devendo pagar pelo uso do recurso natural quando necessitar de
quantidades significativas, como ocorre, por exemplo, como as indústrias de bebidas.
Cabe dizer ainda que as cobranças pelo uso dos recursos não poderão de
maneira alguma ser abusivas, devendo-se manter o seu custo real18. Assim, entende-se que a possibilidade de uso gratuito dos recursos naturais por parte do
14
ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito Ambiental. 6ª Edição. Editora Lúmen Júris. Rio de Janeiro: 2002. p. 32
Declaração do Rio de Janeiro, da Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o desenvolvimento. Disponível em: <http://www.mma.gov.br/index.php?ido=conteudo.monta&idEstrutura=18&idConteudo=576>. Acessado em:
02/03/2008.
16
MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. 15ª Edição. Editora Malheiros. São Paulo: 2007. p.
61.
17
MOREIRA, Eliane. Nota de Aula em 14/09/2007.
18
HENRI Smets apud MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. 10ª Edição. Editora Malheiros.
São Paulo: 2002. p. 248.
15
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12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
empreendedor do projeto configura um contra-senso perante a sociedade, a qual
está sendo obrigatoriamente onerada pelo uso dos mesmos recursos, ainda que em
menor grandeza, enquanto as indústrias surgem como isentas da onerosidade, que
por sua vez configura um patente enriquecimento ilícito.
4. O ESTUDO DE IMPACTO AMBIENTAL (EIA) E O PAPEL DO RELATORIO DE IMPACTO
AMBIENTAL (RIMA)
Como já foi dito no decorrer deste trabalho, o impacto ambiental consiste na
alteração do meio ambiental, seja em máximas ou mínimas proporções; por conseguinte, sendo a ação humana essencialmente poluidora, é necessário que quando
a mesma se configure negativa e em grandes dimensões, seja realizado um estudo
prévio dos impactos que serão causados em decorrência daquela ação poluidora.
Assim sendo, o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) revela-se como condição essencial para o licenciamento de atividade efetivamente poluidora, pois consiste numa avaliação de impactos ambientais decorrentes da construção de determinados empreendimentos; ou seja, está “integrado ao processo de licenciamento
ambiental”19, por sua vez, foi instituído dentro da Política Nacional Do Meio Ambiente, através da resolução N.º 001/86 do CONAMA, de 23 de janeiro de 1986.
Vale ressaltar que a legislação ambiental pátria formulou determinações mínimas para que o EIA contemple, tudo aquilo que for necessário para a concessão
da licença, tais como: alternativas tecnológicas e de implantação, impactos ambientais gerados na fase de implantação e na fase de operação, a área geográfica
a ser diretamente atingida, além da consideração de planos, programas governamentais e impactos sociais e humanos20.
Já o Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), de maneira geral, traduz-se
num resumo do EIA, sendo o instrumento de informação à população sobre as
conseqüências da referida atividade poluidora. Portanto, tais institutos apresentam particularidades que traduzem a sua diferença. O EIA é um estudo maior e
mais completo, trazendo em seu bojo, referenciais teóricos e científicos, além da
legislação relacionada e apresentação de análises provenientes de campo e laboratoriais21, assim, o RIMA deve refletir de maneira generalizada tudo aquilo que
foi contemplado no EIA.
Observa-se que o artigo 225, IV, e ainda, o 5º, XXXIV, ambos da CF/88 garantem constitucionalmente a publicidade do RIMA, ou seja, o mesmo deve ser
efetivamente acessível ao público. A finalidade do RIMA é, portanto, a necessidade
de comunicar à população as conclusões do EIA, de maneira acessível, cujo termo
deve compreender além do acesso ao RIMA em si, mas a sua linguagem mais acessível, menos técnica e rebuscada; além de necessariamente ser público.
O artigo 9º da Resolução 01/86 do CONAMA, traz em seu bojo o conteúdo
que deve ser pautado o RIMA, dentre os quais, objetivos e justificativas do projeto;
19
20
21
ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito Ambiental. 6ª Edição. Editora Lúmen Júris. Rio de Janeiro: 2002. p. 266-267.
ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito Ambiental. 6ª Edição. Editora Lúmen Júris. Rio de Janeiro: 2002. p. 279.
MACHADO. Paulo Affonso. P. 205.
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descrição e alternativas tecnológicas e locacionais; síntese dos resultados dos estudos;
prováveis impactos; caracterização da qualidade ambiental futura; medidas mitigadoras; programas de acompanhamento e monitoramento e por fim, recomendações.
5. O PROJETO DA UTE BARCARENA22
Barcarena é um município localizado no estado do Pará, detentor de belezas
naturais como praias de rio e balneários, habitualmente chamados pelos paraenses, de “igarapés”. Além disso, a cidade de Barcarena consiste em pólo industrial,
onde é realizada a industrialização, beneficiamento e exportação de caulim, alumina, alumínio e cabos para transmissão de energia elétrica, decorrente de outros
grandes projetos tais como ALUNORTE, ALBRAS e IMERYS23.
O projeto de construção da Usina Termelétrica de Barcarena é pertencente à
Companhia Vale do Rio Doce24, e tem como objetivo gerar 600 megawatts, transformando carvão mineral (pulverizado) como combustível em energia elétrica, a
fim de que seja fornecida para o Sistema Eletroenergético – Submercado Norte,
além da inclusão da Vale na matriz de produtores de energia no Sistema Energético Brasileiro. Segundo o Relatório de Impacto Ambiental25, o carvão mineral será
proveniente de minas localizadas na Colômbia ou em Moçambique, chegando ao
Brasil por meio da navegação.
Acredita-se que o município de Barcarena foi eleito pela Vale, uma vez que,
para ser sede de tal empreendimento serão necessárias algumas condições as quais
são encontradas naquela localidade. Ou seja, para a viabilidade da Usina, é necessário que haja um porto próximo, para que o carvão seja recebido; a disponibilidade de grande potencial de água doce a fim de promover fluido de refrigeração;
além de fácil escoamento da energia elétrica produzida, pela proximidade da Rede
Básica Elétrica, dentre outros.
O estudo de alternativas para a implantação do projeto considerou os aspectos técnico, espacial, econômico, socioeconômico e ambiental, levantando que a
tecnologia básica de caldeira operando a carvão pulverizado tem sido otimizada,
principalmente com a utilização de queimadores de baixa emissão de NOx; além
do que o carvão possui comércio em larga escala, possibilitando o estabelecimento de contratos com os fornecedores a curto e médio prazos, sem compromissos
inflexíveis em relação aos montantes a serem adquiridos.
Sabe-se que os subprodutos de uma UTE a carvão são as cinzas e o gesso,
além disso, quando carvão pulverizado é queimado, dióxido de carbono, dióxido
de enxofre, óxidos de nitrogênio, e compostos de mercúrio são liberados; porém
para a Vale, os mesmos não representam problema ambiental, haja vista que a tecnologia utilizada em termelétricas a carvão, ao utilizar precipitador eletrostático
22
Desenvolvido com base no Relatório de Impacto Ambiental da UTE Barcarena. Disponível em: <http://www.sema.
pa.gov.br/>. Acessado em: 07/01/2008.
23
Disponível em: < http://pt.wikipedia.org/wiki/Barcarena_(Par%C3%A1)>. Acessado em: 05/04/2008.
24
A partir de agora chamada apenas de “Vale”.
25
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(filtro de ar de grande potencial) e processo de dessulfurização de gás (redutor da
concentração do gás emitido), permitem o controle de emissões gasosas, de acordo com os parâmetros exigidos pelo Banco Mundial e Resoluções do Conselho
Nacional do Meio Ambiente.
Haverá um pátio de cinzas para abrigar em cerca de 10 anos, o volume de
resíduos sólidos, a serem despejados por meio de aspersão de água regular para
evitar emissão de pó para a atmosfera, além de também ser necessária a umidificação da superfície das pilhas para evitar dispersão de partículas pelo vento.
Com relação aos efluentes líquidos, a Vale informa que os mesmos serão
tratados e reutilizados no sistema de remoção de poeira de carvão, sistema de
transporte de carvão, aspersão de água no pátio de carvão e cinzas, na zona verde
ou em outros locais que não exijam alto padrão de qualidade da água, aqueles que
não puderem mais ser reutilizados serão direcionados à estações de tratamento
antes de seu despejo no rio Pará.
De acordo com o EIA/RIMA, o maior número de impactos decorrentes da
implantação da UTE Barcarena, recairá sobre o meio socioeconômico e cultural.
Dentre os impactos expressivos são apontados aqueles os quais ocorrerão nas
“propriedades atingidas diretamente pela presença da Usina, associadas à pressão
sobre a infra-estrutura local, a ser gerada pelo contingente populacional a ser alocado para as obras da UTE Barcarena”26.
No EIA/RIMA são propostos onze programas ambientais, responsáveis por
monitorar, acompanhar, controlar e mitigar os cinqüenta e dois impactos identificados. No estudo foi verificado que nenhum dos impactos analisados detém
potencial capaz de inviabilizar ambientalmente o empreendimento.
6. ALGUNS ENTRAVES ENCONTRADOS NO EIA/RIMA DA UTE BARCARENA
Na contramão do que afirma a Companhia Vale do Rio Doce, por meio do
EIA/RIMA, o Ministério Público Estadual (MPE), através das audiências públicas27 realizadas no estado, revelou problemas estruturais no EIA/RIMA apresentado, propondo a sua devolução a fim de que os mesmos sejam refeitos.
Num contexto atual em que se busca incansavelmente a utilização sustentável de recursos naturais, o desafio proposto pelo MPE é de que a Vale utilize os
recursos a que está propondo sem que tal projeto se demonstre como sendo mais
um empreendimento poluidor, ou futuramente prejudicial à população que habita
àquela região. Destarte, elegeu-se alguns pontos de discussão, os quais se passa a
tratar especificamente a seguir.
6.1 Não discussão de alternativas tecnológicas
Observa-se que de acordo com o artigo 5º da Resolução 01/86 do CONAMA, o referido EIA/RIMA ofende o inciso I, por não estabelecer alternativas
26
Termelétrica a carvão da Vale em Barcarena deve entrar em operação em 2010. Pará Negócios. Belém, 9 jun. 2007.
Notícia. Disponível em: <http://www.paranegocios.com.br/anterior_cont.asp?id=1466>. Acssado em: 07/01/2008.
27
As audiências públicas foram requisitadas pelo próprio Parquet.
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tecnológicas, alternativas de localização do projeto e não prever hipóteses de
não execução do projeto. É patente que não foi contemplado no referido estudo,
fontes alternativas de energia, tais como, eólica, solar, biomassa dentre outras,
consideradas mais limpas28 que a escolha pelo carvão mineral, o qual consiste
numa “complexa e variada mistura de componentes orgânicos sólidos, fossilizados ao longo de milhões de anos, como ocorre com todos os combustíveis
fósseis”29, quando queimado produz emissões de gases que favorecem a intensificação do aquecimento global, além de gerar a ocorrência de chuvas ácidas e
poluir a água.
O MPE realizou um estudo das fontes alternativas a fim de informar a população durante as audiências públicas, daquilo que deveria ter sido exposto no EIA/
RIMA, haja vista ser necessário para demonstrar a melhor decisão. No caso da
energia eólica, o Atlas do Potencial Eólico Brasileiro30 revela ter a Região Norte
grande possibilidade de implantação, por ter velocidades suficientes para gerar
inclusive mais energia, o dobro do que geraria a UTE, refletindo, assim, que de
fato há alternativas à que fora eleita.
Além disso, sequer foi apresentado justificativa para a escolha do carvão mineral, inviabilizando a avaliação da sociedade, bem como da Secretaria de Estado
de Meio Ambiente, sobre a viabilidade do combustível eleito. Sobre tal combustível, as tecnologias apresentadas (combustão pulverizada) para a sua queima não
são as melhores, haja vista serem consideradas tradicionais e poluentes, conforme
demonstra o gráfico abaixo31:
Situação
Eficiência
%
Custo/
US$/kW
Redução
SOx
Comercial
38 - 47
1300-1500
----
----
38 - 47
Pressão
Atmosférica
Comercial
34 - 37
1450 -1700
90 - 95
60
34 - 37
Circulante
Comercial
37 - 39
1450-1700
90 - 95
60
37 - 39
42 - 45
1450-1700
98 - 99
70
42 - 45
45 - 48
1450-1700
92 - 99
98 - 99
45 - 48
Tecnologia
Combustão
Pulverizada
Redução Eficiência
NOx
%
Combustão
Em Leito
Fluidizado
Pressurização Demonstrado
IGCC
Comercial /
Demonst.
28
Disponível em: <http://www.brasilescola.com/geografia/biocombustiveis.htm>. Acessado em: 07/01/2008.
Carvão Mineral. Disponível em: <http://www.aneel.gov.br/aplicacoes/atlas/pdf/08-Carvao(2).pdf>. Acessado em:
05/04/2008.
30
Disponível em: < http://www.cresesb.cepel.br/ >. Acessado em: 07/01/2008.
31
Disponível em: < www.iea.org/techno/index.htm>. Acessado em: 18/10/2007.
29
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O Ministério de Minas e Energia32 informa que existem três tecnologias demonstradas, a combustão pulverizada, a combustão em leito fluidizado e a gaseificação integrada com ciclo combinado. A primeira encontra-se comercialmente
disponível, é considerada a de maior difusão mundial, aumentam consideravelmente a eficiência da conversão de energia, porém necessitam de tecnologias adicionais para controle de emissão de gases como o SOx e o NOx.
A combustão em leito fluidizado, também se encontra comercialmente disponível, apresentando uma eficiência maior, além de permitir a redução de enxofre e material particulado, bem como a emissão de poluentes e a necessidade de
equipamentos adicionais para controle de emissões. Sua diferença para a combustão pulverizada é a redução do enxofre em até 90%, sem que haja a diminuição
de eficiência térmica33.
Já a gaseificação integrada com ciclo combinado, conforme revela o gráfico,
é uma tecnologia muito mais eficiente na redução da emissão de poluentes, pois
reduz em até 95% o enxofre, sendo considerada uma tendência por ser “limpa”,
reduzindo também as emissões de CO2.
A escolha do projeto da UTE Barcarena, para minimizar as conseqüências
da queima do carvão como já visto, foi a utilização de precipitador eletrostático
e o processo de dessulfurização de gás, o primeiro permite que sejam removidas
substâncias particuladas e o segundo favorece a diminuição da emissão de dióxido
de enxofre34.
Porém, o MPE demonstrou ainda, que as termelétricas americanas e européias associam dois métodos para o controle de emissão de óxidos de nitrogênio,
mais eficientes. Uma delas é a tecnologia de injeção catalítica de amônia, (Redução Catalítica Seletiva - SCR), a mesma “é baseada em uma reação química na
qual a uréia é adicionada aos gases de exaustão do motor, que contém óxidos de
nitrogênio”35.Ou seja, ao injetar amônia gasosa no fluxo dos gases para transformar no contato com a superfície do catalisador, os produtos obtidos serão os NOx
das emissões em dois componentes, quis sejam o nitrogênio e água.
Além desta também surgiu a SNOCOX (Catalytic Absorption System) a qual
por sua vez reduz potencialmente a emissão de monóxido de carbono e de compostos orgânicos voláteis. “O SCONOX é equipado com um catalisador de metal nobre
que no processo de absorção/redução, com uso de carbonato de potássio, permite
que os óxidos de nitrogênio sejam absorvidos na superfície do catalisador na forma
de nitrito e nitrato de potássio36”. Com relação ao controle de emissão do SOx o
MPE afirma que o “WET FGD”, revela-se como um sistema úmido com calcário, o
qual absorve o SO2 e reduz em cerca de 90 a 97% o enxofre dos gases.
32
Disponível em: <www.mme.gov.br/download.do;jsessionid=9D134CD620C5D8CA138A31EBC535EAD0?attachment
Id=6762&download>. Acessado em: 07/01/2008.
33
Carvão Mineral. Disponível em: <http://www.aneel.gov.br/aplicacoes/atlas/pdf/08-Carvao(2).pdf>. Acessado em:
05/04/2008.
34
HOWSTUFFWORKS. O que é a tecnologia de carvão limpo? Disponível em: < http://ambiente.hsw.uol.com.br/carvaolimpo.htm>. Acessado em: 05/04/2008.
35
Disponível em: <http://www.paranashop.com.br/colunas/colunas_notas.php?id=13519>. Acessado em: 07/01/2008.
36
Disponível em: <http://www.riosvivos.org.br/arquivos/1458806615.PDF>. Acessado em: 07/01/2008.
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Por fim, durante a combustão o mercúrio do carvão é vaporizado nas regiões
de alta temperatura das caldeiras. Quando os gases são resfriados ocorrem reações
as quais convertem o mercúrio elementar para fase de mercúrio iônico e também
para a forma de material particulado; sendo necessárias, portanto, tecnologias para o
seu controle. No entanto, o EIA/RIMA do projeto de construção da UTE Barcarena
não apresenta nenhuma forma de controle desse poluente causador de intoxicação.
6.2 Não discussão de alternativas de localização
O município de Barcarena está sofrendo com as conseqüências da implementação de grandes indústrias de caulim e alumínio37, ou seja, a cidade já comporta
grandes impactos ambientais, revelando-se como um potencial de poluição.
Caso o projeto da usina termelétrica seja implantado, dados do Ministério
Público Estadual38 revelam que serão emitidas 2.200.000 toneladas de monóxido
de carbono a cada seis meses de operação, e se a empresa empreendedora procurar compensar a emissão deste gás extremamente poluidor, deverão ser plantadas
4.500.000 árvores a cada ano. Ou seja, a implementação deste projeto certamente
prejudicará maciçamente o meio ambiente, que já se encontra fragilizado, e os habitantes daquele local, os quais serão mais uma vez vítimas da ânsia desenfreada
das empresas pelo lucro e a não responsabilidade socioambiental.
6.3 Omissão e minimização de impactos
Com relação ao inciso II da Resolução 01/86 do CONAMA, também há
ofensas, uma vez que o EIA/RIMA, omite ou não esclarece os impactos na qualidade do ar, água, além de minimizar impactos referentes à estrutura do ecossistema e perda da biodiversidade, minimizar impactos nos recursos ambientais
(floresta, solo, água, paisagem, ar, território) e omitir impactos socioeconômicos,
principalmente no que tange à população diretamente atingida pelo empreendimento.
A qualidade do ar na região do município de Barcarena já é prejudicado
tendo em vista outros grandes projetos que lá já se encontram instalados. Os gases PTS, PI e SO2, estão muito próximos aos limites legais, assim a ocorrência
de doenças respiratórias poderá ser acrescida em virtude da perda de qualidade
do ar com maiores teores de PTS, PI e SO2 quando da operação da UTE; fator
ainda mais negativo está na situação dos hospitais públicos da região, o qual não
é satisfatório, sendo necessário considerar a pressão sobre os órgãos encarregados
da saúde pública, tanto a nível municipal quanto estadual, para que o projeto possa
ser viabilizado.
Com relação à qualidade da água, o Relatório IEC-SEMAM nº 05/2007,
apresentado pelo MPE em audiência pública em Belém, revela que os igarapés
37
38
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Disponível em: <http://www.midiaindependente.org/es/blue/2007/12/406468.shtml >. Acessado em: 17/01/2008.
Informação adquirida em audiência pública realizada em 28/09/2007.
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das regiões do Curuperé (próximas ao estabelecimento da UTE) estão comprometidos, além de ressaltarem que o nível de poluição naquela localidade aumenta
a cada ano, sugerindo ações de vigilância ambiental em saúde. Assim, o pátio de
cinzas previsto no projeto da UTE prejudicaria ainda mais a população, pois seria
muito próximo à nascente do Igarapé do Curuperé. Além disso, os resultados obtidos nas campanhas efetuadas pela equipe técnica do EIA/RIMA demonstram que
as águas superficiais da região de Barcarena estão fora dos padrões estabelecidos
pelo CONAMA para os parâmetros: pH, sólidos totais dissolvidos, oxigênio dissolvido e alumínio dissolvido, além de outros.
6.4 Omissões no uso da água
Relacionada ao principio do usuário-pagador, já visto mais acima, o projeto da UTE Barcarena, prevê a utilização de grandes quantidades no consumo
de água, sem presumir os custos para tal utilização dos recursos hídricos; nesse
sentido, o projeto ofende o artigo 10, §1º da Resolução 237 do CONAMA, por
suprimir a outorga do uso da água, que por sua vez é um recurso natural passível
de escassez e que, portanto, deve ser utilizado de maneira sustentável.
Assim sendo, não prever a outorga do uso da água pode configurar para a
Vale um enriquecimento ilícito, haja vista que pretende utilizar gratuitamente um
recurso que é cobrado de toda a sociedade.
7. CONCLUSÕES ARTICULADAS
7.1 Em que pese a existência do avanço científico e tecnológico, o mesmo não se
coaduna à contemporânea crise ambiental, logo, torna-se imprescindível a ampliação de investimentos em pesquisa voltada para a produção de energias renováveis, no sentido de promover a sustentabilidade do planeta.
7.2 O princípio da participação revela-se como sendo um elemento de suma importância, uma vez que quando aplicado, especialmente no que tange à construção
de grandes empreendimentos por meio de audiências públicas, reflete não somente a opinião da população, mas também consolida seu empoderamento na tomada
de decisões.
7.3 No EIA/RIMA para a construção de grandes projetos, apesar de o Poder
Público possuir discricionariedade, deve atuar de maneira mais criteriosa para
a concessão de licenças, especialmente na Amazônia, no sentido de que não se
caminhe na contramão da busca pela mitigação das mudanças climáticas e do uso
sustentável da energia.
7.4 Constata-se que é imprescindível adotar vigilâncias subsidiárias à lei, no sentido
de exigir que os estudos de impacto ambiental, bem como licenciamento e decisões
governamentais devam obrigatoriamente considerar as mudanças climáticas.
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203
7.5 A opção pelo carvão mineral, ainda que seja a mais econômica para o empreendedor, não reflete a melhor escolha para o planeta, assim deve-se optar pela
utilização de alternativas ecologicamente corretas, mesmo sendo mais onerosas,
para que não se polua ainda mais o meio ambiente.
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CAMINHOS PARA UM CAPITALISMO
NATURAL: COMO DESENVOLVER UM MODO
DE PRODUÇÃO SUSTENTÁVEL A PARTIR DE
INSTRUMENTOS ECONÔMICOS
YURI JORDY NASCIMENTO FIGUEIREDO
Estudante de Graduação da Universidade Federal do Pará - UFPA
1. INTRODUÇÃO
O problema ambiental está presente nos discursos de todos os lados. Por
exemplo, os socialistas dizem que a crise ambiental é promovida pelo excesso de
produção, fomentada pelo excessivo consumo, que por sua vez é o grande objetivo da economia de mercado. Não deixam de estar certos. Mas apenas sob um ponto de vista. A economia socialista, entretanto, também deixa a desejar no aspecto
ambiental, quando se tem o modelo econômico socialista. A exemplo deste, vimos
o grande acidente nuclear de Chernobyl, na então União Soviética, na área hoje
localizada a Ucrânia, que até hoje têm ainda que suportar os danos causados.
A par desta disputa ideológica, iremos ater-nos neste trabalho ao modo de
produção Capitalista, por motivos óbvios. É o modo hoje em dia adotado em quase totalidade dos países e que, com algumas adaptações e correções no tocante ao
modo sustentável de produção e ao Direito Ambiental, poder-se-á, se não salvar
o mundo de um colapso, melhorar a qualidade de vida na Terra por muito mais
tempo, além de salvar futuras gerações.
Partindo disso, temos o grande avanço tecnológico que revolucionou a economia mundial, tornando países então industrializados em grandes potências
econômicas, das quais a maioria se estende até a atualidade. Estas sociedades
– trazendo já para a atualidade – foram acostumadas a um modo de produção e
consumo muito vasto, com muita concorrência, muito desperdício. Esta é a lógica
do Capital: produção em escala, com pouca eficiência dos bens produzidos, o
que diminui os preços finais e estimula a eterna sede de consumo. Adam Smith já
afirmava, na sua obra “A Riqueza das Nações”1 que o preço de mercado de uma
dada mercadoria seria regulado pela proporção entre a quantidade dessa mercadoria existente no mercado e a procura por aqueles que desejassem pagar ao preço
natural, ou seja, a totalidade do valor pago pela renda, trabalho e lucro que seria
necessária para despender para colocar a venda no mercado.
Posto este modelo de produção excessivamente acentuado, surgiram os pro-
1
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SMITH, Adam, A Riqueza das Nações, 1723-1790, Obra OS Pensadores, 1984, pg. 48
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blemas ambientais que hoje, após quase três séculos do momento em que se iniciou esta derrocada, vieram a nos afetar, como habitantes do planeta. A indústria
retira matérias-primas da natureza, produz os bens, que por sua vez são comercializados, usados, e acabam descartados na própria natureza. A mesma quantidade
de material retirado anteriormente é despejada novamente na natureza no fim deste ciclo, em forma de lixo ou qualquer outra forma de poluição.
Por isso, hoje temos a necessidade de rever alguns aspectos. Não necessariamente uma mudança no próprio modo capitalista, mas correções e adaptações
que venham a também proteger o meio ambiente, utilizando a própria tecnologia
que ocasionou todos estes danos para chegarmos a um desenvolvimento sustentável, tendo como parâmetro principal o homem inserido como centro de todas as
políticas para este novo modelo. Para isso, dirigir aspectos econômicos, jurídicos
e políticos para se amenizar os problemas vêm a ser o ponto crucial deste debate.
Como fazer isso? Como adaptar um modelo de produção que atualmente
tem por molde a alta produção conseqüentemente degradante para um mesmo
modelo, por sua vez sustentável? Como transformar o Capitalismo atual em um
Capitalismo Sustentável, Verde ou Natural? Como adaptar princípios próprios do
mesmo modo de produção devastador para se alcançar um modelo respeitável
à natureza? Estas perguntas iremos responder durante o desenvolvimento deste
trabalho, demonstrando passo a passo ser possível e quais são os instrumentos
capazes de realizar esta mudança.
2. DIREITO AMBIENTAL ECONÔMICO
2.1 A Origem do Direito Ambiental Econômico
O pensamento Liberal, preconizado por Adam Smith, oferecia aos próprios
indivíduos o direito de estruturar a sua vida econômica e moral sem se restringir
às intenções do Estado. Além disso, este pensador, tido como criador da teoria
do Laissez-faire, tentou explicar como o mercado, com certas precondições, se
auto-regularia naturalmente por intermédio da agregação das decisões individuais
e produziria muito mais eficientemente do que os pesados mercados regulados. O
surgimento primeiramente do Direito Economico situa-se a partir das falhas que
este Estado Liberal apresentava. Falhas estas materializadas em monopólios, no
exacerbamento do conflito capital x trabalho e, principalmente, a incompatibilidade de se inserir ao valor final dos produtos às suas chamadas “externalidades
negativas”, que são a não equivalência dos preços finais com os custos impostos
pela atividade à coletividade surgidas pela própria atividade produtiva. Isso quer
dizer que alguns produtos circulam sem o respectivo reflexo em seus preços, referentes a vantagens ou malefícios suportados pela sociedade. Falaremos disso
mais adiante.
Por causa destas falhas e ao surgimento dos Direitos Humanos, coube ao Estado o dever de proteger ações que atentavam contra a liberdade, igualdade e fraternidade. Assim, o liberalismo economico não mais se sustentava, tendo o Estado
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o dever de intervir nas políticas econômicas, a fim de regulamentar os mercados
e promover o bem-estar social. A partir desta intervenção estatal na economia,
surge chamado Direito Econômico.
Portanto, o Direito vem trazer para o Estado instrumentos de controle das
atividades econômicas. A utilização destes instrumentos como tal, se faz necessário para a consecução de objetivos para o qual foi investido o poder Estatal. É
a única forma legítima de intervenção estatal às práticas abusivas da economia.
Esta intervenção advém de diversos aspectos históricos já explicitados anteriormente, mas consubstancia-se principalmente nas “imperfeições do liberalismo”,
associadas à incapacidade de auto-regulamentação dos mercados. Além do mais,
“à idealização da liberdade, igualdade e fraternidade se contrapôs à realidade
do poder econômico”2.
A justificativa para o estudo do direito econômico se dá pela influência que
os princípios da ciência do direito em si condicionam a direção de uma política
econômica. Assim, como direcionador da atividade econômica o direito produz
seus efeitos tanto um nível macroeconômico como também em uma área específica de atuação econômica. Logo, o direito atua em duas finalidades básicas: 1ª:
defende valores básicos individuais e sociais observando princípios como liberdade e igualdade e justiça social e, 2ª: dispõe de objetivos de política e prática
econômica.
Já por sua vez, o direito ambiental, seria um conjunto normativo, jurídicodoutrinário, que viria a regularizar a tendência constitucional de promover o bem
estar social, limitando as exceções da política econômica e mantendo os padrões
mínimos de bem-estar e meio ambiente limpo. A implementação deste novo ramo
se deu como braço de uma nova tendência científica jurídica do Pós-guerra (Revolução Francesa). Essa tendência, consagrada como Direitos Humanos, ou mais
especificamente a própria “terceira geração ou dimensão dos direitos Humanos”,
abarca os aspectos sociais, e ambientais, modificando totalmente a concepção de
direitos, interesses e bens. Daí nasceram os interesses Difusos e Coletivos, protegendo uma nova gama de sujeitos, vistos em coletividade. O meio ambiente
(ou natureza) é tido como um bem difuso, assim como o interesse em protegê-lo
também. Difuso é, portanto, pelo fato de não poder ser individualizada a vítima
de danos causados pela degradação ao meio ambiente, visto que qualquer dano
é sentido por um número inimaginável de pessoas, seja pela poluição causada,
como por transmissão de doenças, baixa qualidade de vida e moradia, etc.
Na verdade, a proteção dos recursos naturais não se esgota na vontade de
proteger a natureza, mas objetiva a manutenção de uma prática econômica socialmente desenvolvida, incluindo, desta forma o homem como parte da natureza.
Portanto, ele é o sujeito das políticas ambientais. Esta é a lógica do direito ambiental: Proteção ao Meio Ambiente, incluindo-se o homem neste, como direcionador de políticas públicas, com o objetivo de promover o desenvolvimento3.
2
3
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GRAU, Eros Roberto. A Ordem Econômica na Constituição de 1988, 2003, pág. 15
Entende-se como desenvolvimento a otimização de crescimento econômico e proteção máxima ao meio ambiente
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O Direito Ambiental tem, como direcionador de suas idéias, uma gama muito forte de princípios compreendidos, os quais são: Princípio do Desenvolvimento Sustentável, Princípio da Cooperação, Princípio da Prevenção, Princípio da
Precaução e o mais importante deles para o desenvolvimento deste trabalho, o
Princípio do Poluidor-Pagador.
Estes princípios são regras-base para todo ramo científico do Direito Ambiental. Como tal, são norteadores desta ciência, que por sua vez, fundamentarão
a sua prática. Neste caso específico do Direito Ambiental, estes princípios guiarão
as normas e as políticas públicas tanto já existentes no universo jurídico como
novas políticas que advirão da observância mais profunda destes problemas.
O Princípio do Poluidor-Pagador, como afirmamos, é o princípio mais importante de toda essa gama. Assim o é pelo fato de ser o mais objetivamente concreto,
detentor de instrumentos mais eficazes e diretos no combate a degradação ambiental, ao contrário do primeiro princípio citado, do Desenvolvimento Sustentável, que
não é menos fundamental, mas tem como objeto a aplicação sistemática de todos
os princípios conjuntamente. É muito amplo. O Princípio do Poluidor-Pagador, por
sua vez, consiste em “buscar evitar a ocorrência de danos ambientais e, já ocorrido
o dano, visa sua reparação”4, mas, no entanto, por muitas vezes é interpretado de
forma errônea, quando dão o significado de poder pagar para poluir. Na verdade,
o causador deve arcar com a poluição, que são as externalidades negativas do processo produtivo, que são recebidas e suportadas pela sociedade, enquanto que as
externalidades positivas, recebidas pelo empreendedor. No entanto, a forma como é
posto em prática atualmente este principio, nos dá a idéia antes mencionada, o “pagar para poluir”, pois apenas se vêem práticas, políticas ou punições, quando vêm
à tona grandes catástrofes ambientais que repercutem na mídia. Porém o problema
inicial, as “pequenas” poluições, como a derrubada de algumas árvores na floresta,
a poluição atmosférica por CO2, etc., não são avistados por este princípio.
Portanto, o direito Ambiental econômico, abordado pelo Direito brasileiro, por exemplo, trata a natureza como a base do desenvolvimento das relações
produtivas, como de fato é. O principal fundamento de a natureza estar sendo
protegida desta forma é o fato de sua importância, além de vital, econômica para
a humanidade. Destaco o ensinamento de Cristiane Derani a respeito:
“a Ordem econômica presente na Constituição de 1988 é nitidamente voltada
para a estabilização econômica, através de atividades conjuntamente desenvolvidas pelo Estado e agentes privados, visando cristalizar bases para o desenvolvimento. Isto revela uma opção jurídica pela orientação global da economia, afastando a idéia do Estado como ator pontual das relações econômicas,
prestando (...) socorros emergenciais àquilo que seria do campo exclusivo dos
particulares. É por esta valorização da participação do Estado, que se pode
falar em políticas públicas do desenvolvimento, (...), impondo a salvaguarda de
fatores que asseguram uma relação de mercado sustentável a longo prazo”5.
4
5
FIORILLO, José A. P., Curso de Direito Ambiental Brasileiro, pág. 30
DERANI, Cristiane, Direito Ambiental Econômico, 2008, pág.179
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Assim, desta forma, pode muito bem o Estado impor ou mediar o uso sustentável das relações econômicas. Com políticas públicas eficazes, intermediando
fatores intrínsecos e extrínsecos, fornecendo meios para, tanto o produtor da atividade poluente não cessar a sua atividade econômica, importante para a economia
do país, como para a natureza, incluindo-se aí o homem e a sociedade, para não
custear com seu próprio bem-estar, estes defeitos do mercado.
2.2 Superveniência das ações do Direito Ambiental
Ainda com a presença de todos os instrumentos do Direito Ambiental utilizados contra práticas lesivas à natureza (EIA/RIMA, licenciamento ambiental, Zoneamento Ecológico-Econômico, Áreas de Preservação Permanente e Sistema de Unidades de Conservação, Plano Diretor Urbano, Regime jurídico das Águas, Controle
e produtos tóxicos, etc.) os danos ambientais estão ocorrendo de forma devastadora.
Apesar dos significativos avanços com relação à inserção da preocupação da natureza em relações de produção, ainda são muito precários os resultados advindos
destas políticas públicas, no momento em que não efetivam uma real proteção ao
meio ambiente, que promova, da mesma forma, um avanço produtivo sem penalizar
a população mais carente, tanto com poluição como por aumento de pobreza.
Um dos primeiros pontos a ser estudado na ciência do Direito é que sua
aplicação é sempre posterior ao fato. Não há pena sem o fato social causador de
um dano. Pode, entretanto, prever determinadas sanções para determinadas ações,
porém o direito não pode abranger o colapso mundial sem antes este ocorrer. Por
isso todos os instrumentos legais têm sempre posterioridade ao fato. Prevêem a
política adotada para determinado dano ambiental. “A normatividade é um produto histórico que se acumula através do tempo6”, portanto, dos costumes. Logo, o
papel do Direito ambiental é desempenhado com louvor, no máximo da abrangência de sua competência. Nasce daí, entretanto, as diretrizes para que não ocorram
estes atos definidos pelo direito como pretendentes a uma sanção.
Por isso a extrema importância deste ramo do direito, onde a partir destes
instrumentos supervenientes ao dano ambiental e dos princípios que guiam esta
matéria, observamos a necessidade da implementação de uma reforma ampla nos
procedimentos capitalistas, onde a observânvia de aspectos naturais são de grande
relevância. Esta reforma deve seguir a linha direcionada por estas políticas particulares abrangidas pelo Direito Ambiental, começando pela medida da Internalização dos Custos de Produção, a ser estudado a partir deste momento.
3. A EFETIVA INTERNALIZAÇÃO DOS CUSTOS
A internalização dos custos de produção vem a ser a primeira atitude para
se conseguir alcançar o primeiro objetivo traçado neste trabalho: a exclusão das
externalidades negativas.
6
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SOUZA, Daniel Coelho de. A Introdução à ciência do direito, 1972, pág. 46
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12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
Como o próprio nome diz, a internalização seria uma forma de trazer para
dentro do custo do investimento da atividade poluidora o custo com a própria poluição, sentida por todas as pessoas de alguma forma. A idéia central, neste caso,
seria o produtor primeiramente investir pesado para que a sua atividade não venha
a poluir ou polua o mínimo possível e tolerável, para que assim, posteriormente
ou paraelamente, inicie sua atividade em si.
Entretanto, antes de adentrar no tópico específico sobre como o Direito Ambiental direciona a internalização dos custos em processos produtivos, e analisar
este método cautelosamente, teremos que entender como funciona atualmente o
processo de formação dos preços de serviços e produtos.
3.1 A formação dos preços
Esse novo questionamento sobre a formação dos preços, no entanto, nunca condisse com a preocupação de como esse modelo era realmente praticado.
Portanto, a forma de capitalismo que sempre ocorreu nos séculos anteriores nunca levou em consideração a degradação ambiental como custo para a produção,
deixando este ônus sempre na conta da sociedade. Quando Adam Smith afirmou
sobre a disposição de mercado da matéria-prima que originará determinado bem
industrial, apenas levava em consideração a possibilidade de se comprar este bem
e não essencialmente a sua falta na natureza. O mercado não leva em consideração a falta de uma floresta para o equilíbrio biológico do planeta, mas sim a falta
que o produto advindo dessa matéria causa no mercado. Este posicionamento não
compreende em nada a preocupação com a preservação ambiental.
Smith observou apenas os fatores econômicos para a formação dos preços e
nunca o aspecto social. Estes ensinamentos perduram até hoje. Mesmo com grandes alterações em Cartas Constitucionais da atualidade, que asseveram os aspectos
sociais, estas práticas econômicas ainda ocorrem. Segundo o Instituto de Estudos
Financeiros7 “O preço ideal de venda é aquele que cobre os custos do produto ou
serviço e ainda proporciona o retorno desejado pela empresa. (...) Num mercado
competitivo, os preços são formados pela lei da oferta e procura. Então, dado um
determinado nível de preço no mercado para seu produto ou serviço, a empresa
avalia se seu preço ideal de venda é compatível com aquele vigente no mercado”.
Em suma, o desastre ambiental não está inserido numa possível lista de aspectos negativos, chamados “erros de formação de preços” ou custos de produção. O modelo capitalista atual - onde predomina uma escala de produção efetiva,
gerada por uma incessante sede por consumo, que gera grandes degradações ao
meio ambiente, que por sua vez é o combustível para a manutenção da vida no
nosso planeta, tanto da fauna e flora existente quanto de nós mesmos, seres humanos, que necessitamos de ar puro para respirar, água potável para beber, alimentos
para termos energia às diversas tarefas cotidianas, etc. - não se importa com a
natureza e o meio ambiente em geral.
7
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3.2 A internalização dos custos de produção: O primeiro Passo para uma mudança de
paradigmas
Como observamos, o Direito Ambiental tem instrumentos que diminuíram
bastante estas disparidades entre o custo social com o dano ambiental e o lucro
do empreendedor, que não corresponde ao viés comprometido para a sociedade.
Mesmo assim, visando à implementação de uma proteção ambiental nos aspectos
produtivos e formação dos preços, uma internalização dos custos de produção
mais efetiva vem a ser a medida primária mais justa e necessária para a sociedade,
pois as externalidades negativas ainda ocorrem de forma abundante.
Diminuir estas externalidades é o primeiro passo para se alcançar um
chamado capitalismo Natural. Várias atividades, de grande ou pequeno porte, efetuam a retirada de matérias-primas, misturam com produtos altamente
tóxicos e devolvem em forma de produtos ou lixo industrial. Vejam que em
todas as etapas há poluição: desde a retirada de matérias-primas, afetando o
equilíbrio dos sistemas vivos do planeta e; a forma de lixo, que é a poluição
propriamente dita.
Com a implantação desta nova política, todas as atividades deverão utilizar
matérias advindas do próprio investimento inicial. Por exemplo: para que um lápis
seja fabricado, madeira será necessária, acarretando derrubadas de árvores, fonte
de madeira. Para que uma empresa se habilite a fabricar lápis, deverá primeiramente, investir em plantações da quantidade de madeira exótica que necessitará,
utilizando toda a tecnologia necessária para influenciar a velocidade e abundância
de material necessário para sua atividade. Poderá, também, utilizar outros meios
mais economicos para se fabricar este mesmo produto, não degradante. Já há
tecnologia para isso.
Esta medida é na verdade a primeira dose de um remédio que o sistema capitalista necessita para que possa atender alguns requisitos básicos para qualquer
desenvolvimento social: diminuição da violação dos direitos humanos, da disparidade dentro e entre sociedades, da marginalização de pessoas e países, das instabilidades das sociedades e vulnerabilidade das pessoas, da destruição ambiental, da
pobreza e privação, etc.8, no sentido de que este tipo de mudança acarreta maiores
cuidados em empreendimentos, que devam atender a princípios ambientais nas
etapas produtivas. Ela deve ser adequada para qualquer atividade, devendo ter
como objetivo primordial a proteção do meio ambiente.
A imposição desta medida pode ocorrer mediante dois aspectos, paralelamente. Primeiramente através de uma tributação ambiental, que estimularia economicamente tanto a adequação das etapas produtivas quanto o avanço tecnológico para novas formas produtivas. Além desta, pode ser implementada na própria
Licença Ambiental, que teria como condicionante para qualquer atividade geradora de qualquer forma de poluição/devastação o investimento para supri-las.
8
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FELDMAN, Fábio, Meio Ambiente no Século XXI, 2003, pág. 146
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3.2.1 Entrave para a implementação desta medida
Contudo, Apesar de parecer ter encontrado uma solução para os problemas
de poluição, tanto trazendo os custos para evitar a poluição para dentro do investimento da atividade, como na implicação de uma taxa ou imposto para a atividade
poluente, ocasionará uma conseqüência lógica de natureza econômica: Este custo
naturalmente será repassado aos consumidores. Isto pode parecer óbvio e até mesmo correto, porém devemos ter cuidados para, com a generalização desta prática
e se tornando esta mais custosa para grandes produtores, não aumentar a pobreza
da população, que não terá poder aquisitivo para acompanhar essa elevação de
preços.
Inevitável será, então, que ocorra um significativo aumento dos preços de
determinados produtos que provierem de processos industriais poluentes, mas
esta conseqüência, em partes é benéfica, pois estimula o não consumo excessivo
destes produtos, em favor dos feitos mediante tecnologia limpa. Não é esse aumento que nos preocupa. A intenção é que esta medida seja efetivada plenamente,
de modo que estimule formas limpas de produção, pois se não for feita, apenas
trará conseqüências às pessoas mais necessitadas, com menos recursos financeiros para se adequarem a um novo padrão de vida.
Assim, sem os devidos cuidados para esta implementação, apesar de toda a
sociedade se beneficiar destas melhorias pela diminuição da poluição, apenas parte dela poderá ser economicamente afetada com esta implementação. As pessoas
mais pobres. Com menor poder de compra e de adquirir riqueza, esta parcela da
sociedade será totalmente discriminada pelo repasse dos custos aos preços dos
novos produtos, o que ocasionará uma maior segregação econômico-social. É um
círculo vicioso, onde esta simples medida, em si, auxiliaria um problema, mas
traria outros, por sua vez, sociais.
Portanto, a par das conseqüências sociais graves e imediatas que esta medida em si irá ocasionar, admissível seria concluir em abandonar este projeto, em
que não seria saudável trocar “seis por meia dúzia”. Contudo, a implementação da
internalização dos custos de produção deve ser efetuada sim, mas com a proteção
das conseqüências advindas desse projeto.
Portanto, necessário se faz idealizar uma forma de se anular esta conseqüência, pois a medida em questão, para diminuir a degradação do meio ambiente a
nível global, é essencial. A saída para o entrave, então seria introduzir uma tributação que aliviasse estas conseqüências, tanto protegendo aspectos sociais quanto
ambientais. Implementando conjuntamente a internalização dos custos de produção com uma nova tributação, chamada de tributação ambiental, podemos suprir estes reveses arcados pela sociedade. Tributação esta que não abraça somente
aspectos de proteção ao meio ambiente, como defendia Arthur Cecil Pigou9, mas
9
Pigou defende o estabelecimento do Ótimo de Pareto nas relações econômicas, o que, segundo Cristiane Derani significa
“realizar uma satisfatória relação entre o uso de um recurso natural, encontrando um preço que permita a utilização do
bem ao mesmo tempo em que o conserva”. “Apud”, DERANI, Cristiane, Direito Ambiental Econômico, 2008, pág. 115.
[o imposto Pigouveano justifica um pagamento de um tributo ao Estado proporcional à devastação, para inibi-la. Não está
incorreta, mas não preenche as lacunas sociais criadas.]
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também aspectos sociais, que darão suporte para a efetivação da internalização
dos custos, na medida em que influencia estes custos, encarecendo a atividade
poluente de forma que redirecione o mercado e estimule a “produção limpa”.
4. A TRIBUTAÇÃO AMBIENTAL
O mecanismo tributário deveria se tornar o mais importante dos instrumentos políticos governamentais para a desincentivação de práticas destruidoras do
meio ambiente e, ao mesmo tempo, incentivadora de investimento na preservação da natureza. Mas não o é. Como exemplo do mau uso da tributação, temos
alguns fatores sociais altamente tributados, enquanto algumas atividades ambientalmente danosas são altamente subsidiadas. Ou seja, este sistema, o tributário,
está totalmente invertido, com princípios e objetivos absolutamente econômicos e
não sociais. Além do mais, alguns dos poucos tributos que já estão sendo implementados em atividades poluidoras, estão também sendo feitos de forma errada,
como por exemplo, a taxação na propriedade dos veículos e não no uso, que é o
real poluidor.
A percepção da necessidade de implementação de uma tributação ambiental
se deu e se dá pela ineficácia das ações regulatórias e sancionatórias do Direito.
Apesar de mostrar considerável melhora, apenas a aplicação dos instrumentos do
Direito Ambiental, como está sendo feita atualmente, não se fez capaz de tornar
plena esta proteção, da mesma forma que, concomitantemente, o próprio mercado
desestimula a desconcentração das rendas oriundas das atividades degradantes
para a implantação de políticas sociais. Por isso a importância de se revolucionar
a política tributária no Brasil. De acordo com Lise Tupiassú, esta implementação
(de tributação ambiental), além do incentivo a preservação, incentiva a perfeita
implementação do princípio do poluidor-pagador e traz a enorme possibilidade de
obtenção de um duplo dividendo, em razão, por exemplo, de sua ampla harmonização com as políticas de emprego.10.
Assim, a finalidade da Tributação Ambiental é compactar o sistema tributário nacional com as políticas de preservação de Meio Ambiente, pois este sistema como vem sendo utilizado não vem priorizando os métodos de proteção da
natureza em todos os seus aspectos. A tributação ambiental vem ser o segundo
passo a um objetivo final, ao mesmo tempo em que participa desse objetivo. O
objetivo global final é uma total adequação do modo de produção capitalista, ou
seja, respeitando o meio ambiente. Não seria mera blindagem cega dos recursos
naturais, proibindo seu uso, pois não existe produção sem a utilização destes, o
que ocasionaria, da mesma forma, um colapso econômico. Seria sim uma utilização inteligente, que respeite o ciclo regenerativo da natureza, a fim de continuar
tornando capaz a própria existência e manutenção da vida na Terra, com qualidade
suficiente para se manter a dignidade humana, ou seja, deseja-se atingir o nível
pleno de desenvolvimento sustentável.
10
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TUPIASSU, Lise Vieira C., Tributação Ambiental, 2006, pág. 94
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Seguindo este ponto, o tributo ambiental pode ter um caráter norteador das
atividades econômicas, alterando sua conjuntura, incentivando algumas atividades, desincentivando outras, de acordo com os objetivos constitucionalmente estabelecidos ao Estado.
Sendo a proteção da natureza um objetivo do Estado, um princípio fundamental previsto em nossa Constituição e um direito difuso, a imposição de tributos com
funções extrafiscais vem a ser o equilíbrio para que torne possível a internalização
dos custos de produção e a reformulação do modo de produção degradante que se
encontra o planeta. A alta taxação de atividades ou produtos danosos ao meio ambiente pode ser um remédio a curto prazo para a redução destas atividades.
4.1 A questão dos subsídios
Como conseqüência lógica dos efeitos extrafiscais dos tributos, onde atividades e produtos danosos à natureza deveriam ser altamente taxados para desincentivar seu consumo e seu uso, há de se reformular também o sistema de
subsídios. Atualmente, muitas atividades poluentes, ao invés de serem taxadas
para evitar a poluição, são subsidiadas, a fim de estimular implantação desta atividade, apenas olhando este aspecto sob o prisma econômico. Como exemplo
disso, temos a baixa taxação de água e energia elétrica. Essa baixa taxa no uso
causa um imenso desperdício. Estes produtos poderão sofrer de grande escassez
nas próximas décadas, e sua importância na vida pessoal e social é muito grande.
Se houvesse um aumento proporcional de tributos ao impacto causado ao meio
ambiente e ao poder aquisitivo da sociedade, não veríamos estes desperdícios e
obrigava os cidadãos a terem uma educação ambiental.
Os subsídios se justificam para auxiliar a implementação de atividades necessárias para o desenvolvimento da sociedade como um todo. Devem eles trazer um
resultado positivo para toda a sociedade ao ajudar as pessoas, indústrias, as regiões
ou os produtos que precisam superar o custo, o preço e as desvantagens de mercado.
Porém, por outro lado e com maior incidência no mundo todo, há subsídios perversos que fazem o contrário e, na verdade, funcionam como um desinvestimento,
viabilizando uma acentuada degradação ao meio ambiente, sendo benéfico apenas
aos grupos industriais que o recebem, em troca de mero crescimento econômico
em determinadas áreas, que os cedem, mas não transformam esse crescimento em
desenvolvimento social. Na verdade, os subsídios perversos “deixam a economia
e o meio ambiente em situação pior do que se não houvesse concedido subsídio
nenhum. Eles dilatam os custos do governo, aumentam o déficit que, por sua vez
eleva os impostos e desviam o escasso capital dos mercados que dele necessitam.
Confundem os investidores lançando sinais distorcidos aos mercados; suprimem a
inovação e a mudança tecnológica; oferecem incentivos a ineficiência e ao consumo, não à produtividade e à preservação. São uma forma de previdência para as
grandes empresas, que beneficia os ricos e prejudica os pobres”11.
11
HAWKENS, Paul., LOVINS, Amory e Hunter, Capitalismo Natural: Criando a próxima Revolução Industrial, obra
traduzida por ed. Cultrix, São Paulo, pág. 149
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Enquanto isso, as tecnologias que não poluem ficam por conta do mercado,
sendo empurradas pela famosa “mão invisível do mercado.
4.2 Redirecionamento dos tributos existentes
A tributação deve ir além de estimular a reforma de que nos referimos, mas
promovê-la também. Deve ser efetuada uma aplicação conjunta, no sentido de
inibir economicamente a continuidade deste sistema degradante, ocorrendo concomitantemente com outras imposições tributárias meramente extrafiscais, no
sentido de preencher lacunas deixadas pelo novo corpo tributário ambiental.
Porém, devido aos grandes prejuízos econômico-sociais já trazidos pelas cargas tributárias atuais, observamos ser mais conveniente redirecionar certos tributos
já existentes para a questão ambiental. Como exemplo desta medida, temos o ICMS
ECOLÓGICO, já implantada em alguns estados brasileiros, onde ressalvadas as
suas características de repasse previstas constitucionalmente, que é de, no mínimo,
25% aos municípios, destes, 25% são repassados de acordo com o grau de atitudes municipais protecionistas do meio ambiente. Assim, cada município receberá
o montante proporcional ao compromisso ambiental por ele assumido, o qual será
incrementado pelo grau de melhoria da qualidade de vida de sua população.
4.3 Reforma tributária mundial
Todas as medidas sugeridas acerca da tributação ambiental têm como rumo a
concretização de uma reforma geral tributária ambiental. Para isso, devem-se desonerar algumas áreas altamente tributadas que prejudicam o desenvolvimento social.
Deixando de tributar trabalho e renda, por exemplo, estimula-se a criação de novos
empregos, pois o custo de cada trabalhador para as empresas diminui, em vez de investimentos em tecnologia e maquinário. O preço de mercado do trabalho cai. Isso,
por conseguinte, ocasionaria um aumento da qualidade de vida de muitas pessoas,
além de diminuir a utilização de matérias primas. Isso para todas as pessoas, inclusive as classes mais ricas, produtoras, para que o valor de retorno dos seus produtos
caia também, o que significa uma diminuição geral dos preços.
Assim, necessária se faz uma total reforma tributária para redefinir o “que” e
não “quem” será tributado ou subsidiado. Clara está a conclusão de que os impostos encarecem e os subsídios barateiam artificialmente os preços. Assim, quando
um produto é tributado, o consumo diminui, pois os preços aumentam, e se subsidiado, ocorre o inverso. Daí, um passo prático à implementação da produtividade
radical dos produtos seria afastar o imposto do trabalho e da renda, canalizando-as
para a poluição, o lixo, os combustíveis à base de carbono e a exploração dos recursos, como água e eletricidade, que são altamente subsidiadas no mundo inteiro.
Seria uma forma de aplicação plena do princípio do poluidor-pagador, efetuandose de forma proporcional na medida em que se diminui “impostos errados”.12
12
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Consequentemente, na medida em que aumentam os custos do lixo e dos
recursos, as empresas poderão economizar empregando capital e trabalho, agora
mais baratos, a fim de poupar recursos, agora mais caros. Posteriormente, na mesma proporção em que elas continuam economizando aumentando a produtividade
dos recursos, aumentam-se gradativamente os impostos sobre estes, pois haverá
uma base menor de recursos a se tributar. Este ciclo geraria sempre um estímulo a
novas tecnologias que tornem capazes de aumentar cada vez mais a produtividade
destes recursos, gerando cada vez mais empregos e diminuindo cada vez mais o
uso de recursos naturais13. Antecipamos que a produtividade radical dos produtos
estará inserida em quatro estratégias citadas posteriormente para se desenvolver
um capitalismo sustentável.
Os benefícios visualizados com estes exemplos de como se deve ser estruturado o sistema tributário não só nacional, mas mundial, no entanto, não terminam por aí. A partir deste ciclo, se chegará a um patamar de diminuição de
impostos, pois com a produtividade radical dos produtos, diminuindo a poluição,
não tornará viável a aplicação de parte do orçamento governamental destinado a
reduzir problemas sociais e ambientais, pois estes problemas serão resolvidos indiretamente pelos reflexos da própria política econômica adotada. Estas parcelas
do orçamento não são irrisórias, muito pelo contrário. A cada ano os governos
destinam cada vez mais recursos orçamentários para minorar os problemas sociais
e ambientais.
Tanto a internalização dos custos de produção quanto uma efetiva tributação
Ambiental-social são instrumentos que tornarão capazes de transformar um modo
de produção capitalista degradante em um modo de produção capitalista sustentável. Deste modo vamos falar agora.
5. UM CAPITALISMO NATURAL
Partindo da concepção de agregar o real custo das atividades (advindas do
estudo sistematizado do Direito Ambiental) e produtos poluentes, incluindo neste,
o valor do bem ambiental nas respectivas etapas produtivas, aumentando a renda
da população, sem afetar a lógica do capitalismo, que é o lucro, alcançaremos
o equilíbrio adequado entre capitalismo e segurança ambiental. E é exatamente
isso que estamos defendendo neste trabalho, mostrando algumas formas de se
contemplar isso.
Alguns doutrinadores há muito defendem a necessidade desta reforma capitalista, ente eles, Cristiane Derani, quando afirma o perigo da habilidade rápida
em transformar bens naturais em industrializados. Assim, como solução, ela trata
da urgência em se procurar desenvolver novos e melhores processos (racionalização) e novos produtos (inovação) com novas chances de lucro. Desta maneira,
perpetuar-se-ia não somente o investimento que se torna sempre necessário para
novos produtos e novas formas produtivas, como também se formará um processo
13
Op. Cit, pág. 153
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de acumulação contínua de capital, à medida que se mantém sempre a espiral
lucro-investimento, maior lucro-maior investimento, e assim por diante14.
Portanto, para se implantar esta concepção, necessário é, antes de tudo, curvar-se diante dos problemas ambientais que nossa sociedade está passando, aceitar
que o mundo encontra-se à beira de um colapso ambiental, onde seus resultados já
são visualizados em forma, principalmente, do aumento da temperatura da terra,
que é ocasionada por diversos fatores, todos influenciados pelo modelo produtivoconsumista atual, que derruba florestas, emite gases poluentes e que retém calor,
poluição de rios e lagos, grandes empreitadas que ocasionam imensos impactos
ambientais, etc.
Assim, visando implementar este novo modo econômico, quatro estratégias
centrais guiarão uma reformulação de todo um sistema, analisadas conjuntamente
e que representam uma resposta saudável a todo o repasse de custos econômicos
de todo um processo de produção e consumo, assim como uma efetiva tributação
ambiental: 1 – A produtividade Radical dos Produtos; 2 – O Biomimetismo; 3 – A
implementação de uma Economia de Serviços e Fluxos e; 4 – investimento no
Capital natural15. Este último é o mais importante.
Buscar a maior produtividade dos recursos significa dar maior eficiência a
eles. A ineficiência, entretanto, é um dos fatores que mais proporcionam o elevado
consumo e, por conseguinte, uma vasta e acelerada devastação ambiental. Portanto,
a produtividade maior dos produtos e serviços desacelera o esgotamento da natureza, diminui a poluição, pois menos produtos serão utilizados e descartados, além
de aumentar a geração de emprego, pois se utiliza mais serviços do que produção.
Como resultado disso, temos a principal conseqüência destes fatores: um aumento
da oferta de empregos. Este fator, ainda, não apenas se dirige a afetar a quantidade
de produção estritamente, mas também, contrapondo à diminuição desta, aos serviços fornecidos pelos próprios fabricantes, para os produtos já fabricados e os poucos que deverão ainda ser fabricados, mas desta vez utilizando-se tecnologia limpa.
Por exemplo, um grupo de empresas americanas percebeu um lucro de aproximadamente de duas a quatro vezes na medida em que a eficiência – considere-se atrasos,
erros, defeitos, perdas de material, etc. – diminuiu de quatro a dez vezes16.
O segundo exemplo tem ampla ligação com o nome da estratégia. O significado desta palavra, porém, para o trabalho aqui exposto, vem no sentido observar
os ciclos biológicos de produção e aplicar nos ciclos industriais, onde se possa
conseguir maior eficiência dos bens industrializados e de forma mais limpa. Dessa
forma, devido à grande preocupação com matrizes energéticas e impactos ambientais derivados do sistema produtivo, um grupo de pesquisadores e cientistas
percebeu que é possível manufaturar sistemas e elementos requeridos para oferecer qualidades específicas, como calor, velocidade, força, etc., procurando não
utilizar elementos pesados e altamente poluentes, como carvão, petróleo, etc.
14
DERANI, Cristiane, Direito Ambiental Econômico, 2008, pág. 84
HAWKENS, Paul., LOVINS, Amory e Hunter, Capitalismo Natural: Criando a próxima Revolução Industrial, obra
traduzida por Ed. Cultrix, São Paulo, pág. 10
16
Ibdem, pág. 123
15
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12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
Assim, os processos industriais redesenharão seus métodos e os alinharão a
um processo baseado nos exemplos naturais. Como forma de visualização de um
destes métodos, pegaremos o exemplo da árvore: uma árvore produz celulose a
partir da luz solar, da água e do ar. Esta celulose é um açúcar mais rígido e mais
forte que o náilon. Após, elas prendem este açúcar à madeira, que é um composto
natural com maior poder aglutinante que o concreto e mais rigidez que o aço.
A terceira estratégia é claramente visualizada por nós. O custo social não
está incorporado no ciclo de produção deste novo produto. Vejamos o exemplo
da alarmente guinada nas vendas de celulares e computadores na ultima década.
Muitos processadores cada vez mais potentes, que exercem cada vez mais atividades, chegam ao mercado e são altamente consumidos. Até aí tudo bem, a tecnologia em favor da comodidade das pessoas. Contudo, para onde vão os metais
altamente tóxicos dos processadores e aparelhos que não servem mais? A grande
quantidade de inovações gera também uma grande quantidade de desperdício das
máquinas antigas.
A economia de serviços e fluxo vem tentar minimizar estes danos. Assim,
os próprios produtores se responsabilizarão em dar este novo fim para determinado produto, pois este bem ainda será seu. Esta medida viabilizará ao máximo
a exploração deste produto, cumprindo, assim, a primeira estratégia proposta: a
da eficiência total dos produtos, além maior facilidade de manutenção a minimização do uso de material, diminuindo a degradação ambiental. Ainda, além de
servir para outro fim posteriormente, poderá ser usado em outros fins, a outras
empresas ou outros serviços. Aumentando os serviços pelas empresas, aumentase consequentemente a geração de novas vagas de emprego no mercado, pois estas
empresas substituirão gradativamente investimentos em tecnologia para produção
(agora mais caro) para serviços de manutenção e tecnologias que permitam mais
eficiência (agora mais barato).
À parte de todas estas estratégias, temos uma quarta, que não é necessariamente uma estratégia de mudança de concepções a exemplo das anteriores, mas
apenas nos traz à tona a importância em se recuperar boa parte da nossa condição
ambiental, a fim de reequilibrarmos o planeta e eliminar catástrofes ambientais.
Esta, por sua vez, é mais uma mudança de mentalidade de uma forma geral. É
plantar na cabeça de toda a população mundial que o mundo direciona-se a um
colapso. Não se torna exagero afirmar isso se analisarmos profundamente todas
as outras sociedades que já entraram em colapso. Cito apenas um exemplo: a ilha
de Páscoa, que de um apogeu sustentável histórico chegou a ter sua população
totalmente eliminada por motivos principalmente econômico-ambientais17.
Em resumo, a partir destes quatro pilares que sustentarão a essência deste
capitalismo natural, extraem-se alguns objetivos a serem alcançados, que consistem na fabricação de produtos mais eficiente em energia, onde teremos novos
designs que permitirão este objetivo, novas tecnologias, agora voltadas para uma
produção que não agrida a natureza, novos controles para estas tecnologias, uma
17
DIAMOND, Jared, O COLAPSO, obra traduzida por Ed. Record, 2007 cap. II pág. 105-152
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reformulação da cultura empresarial, novos processos produtivos, desta vez limpos, economia de material e reciclagem geral de materiais já distribuídos.
Veremos agora neste próximo item um exemplo real de como estas estratégias poderão ser implementadas, trazendo benefícios tanto econômicos como
sócio-ambientais.
5.1 A reinvenção dos Carros
Os carros estão dentro de uma lista dos maiores emissores de gases poluentes (27% aproximadamente, segundo dados da Comissão Ambiental Européia),
que promoveram o superaquecimento da Terra. Mesmo assim, os carros ainda
continuam sendo um dos maiores objetos de desejo de todas as pessoas, motivo
justificado pelo degradante sistema de transportes públicos em todos os países. E
isso continuará por um longo período.
Entretanto, não podemos fechar os olhos para os problemas ambientais relacionados à utilização dos automóveis, como está sendo feita atualmente. Não
somente os advindos da poluição do ar, mas o superaquecimento do planeta, os
acidentes de trânsito, poluição sonora, devastação de recursos minerais e petróleo altamente poluentes, tanto para os combustíveis como para a construção de
estradas, etc. Diante disso, várias tecnologias estão sendo implementadas com a
finalidade de emitir cada vez menos partículas poluentes na atmosfera, como, por
exemplo, um combustível “limpo”, no caso, os biocombustíveis ou etanol. Porém
outras inovações vêm merecendo destaque.
Uma análise sistematizada da construção e utilização de um carro convencional nos mostra que, apesar da engenhosidade desta máquina, de um modo geral, ela vai de encontro com todas as estratégias acima descritas. Eles são muito
pesados, necessitam de muita força para se locomover, consumem, por isso, muito
combustível, ocasionando maior emissão de poluição no ar. Todas as leves alterações contra esses fatores feitas recentemente devem-se à alteração nas legislações,
que foram reivindicadas por ativistas.
Sem embargos a esta análise, os carros atuais são cerca de quinze a vinte
vezes mais pesados que os motoristas18 (levando em consideração o citroen C4),
pois são feitos de aço, material mais em conta no mercado para, assim, poderem
ser popularizados. Contudo, para poder movimentar rapidamente este carro, é utilizado um motor tão grande que chega a ser dez vezes maior que o necessário para
uma viagem média. Portanto, este mesmo automóvel utiliza somente cerca de
um sexto de sua potencia para andar em estradas e muito menos ainda para andar
em centros urbanos. Da mesma forma, na hora da frenagem, com maior peso, se
gasta muita força no freio para parar esta máquina. Visualiza-se aí o desperdício
de matéria e energia a cada utilização: aceleração e aquecimento dos freios. Eliminando esses desperdícios proporcionalmente à tecnologia encontrada em dias
atuais, pode-se chegar à redução de 50 por cento, diminuindo assim, além de tudo,
a emissão de carbono no meio ambiente.
18
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Ver www.webmotors.com.br
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A partir desta análise, em 1991, um projeto do Rocky Mountain Institute19
utilizou fibra de carbono (material bem mais denso que o aço, apesar de ser muito mais resistente, não comprometendo, assim, a segurança dos motoristas em
possíveis colisões. Este material é utilizado na fabricação dos carros de Fórmula
1, pois dão mais segurança aos pilotos contra colisões)20 para a produção de novos carros, criando assim o chamado Hypercar, ou “carros híbridos ultraleves”.
Estes automóveis, por serem cerca de duas a três vezes mais leves que o carro
convencional, podem ser impulsionados por propulsão elétrico-híbrida. Assim,
“no acionamento híbrido-elétrico (ou vice-versa), as rodas são movidas (...) por
um ou mais motores elétricos; todavia, essa eletricidade (...) é produzida a bordo
a partir do combustível e conforme a necessidade”, sem gastar energia quando
está em ponto morto21”.
Esta propulsão elétrico-híbrida funcionará parcialmente como os carros movidos a bateria, já utilizados atualmente, mas são bem mais leves (as baterias
usadas naqueles veículos são extremamente pesadas) e utilizam outra fonte de
eletricidade. Os Hypercars, armazenarão biocombustíveis ou gases - o mais eficiente seria o Hidrogênio, usado em células de combustível22 - e transformarão em
eletricidade conforme a necessidade, apresentando vantagens aos veículos à bateria, pois não haverá a necessidade de transportar estes pesadíssimos instrumentos.
Algumas montadoras estão começando a investir nestes modelos, mas não reformulando totalmente este método. Elas apenas direcionam para o assunto-moda do
momento, que é a emissão de carbono. Deveria sim ser modificado toda a estrutura destas máquinas, pois, como vimos, causam muito desperdício23.
O Hypercar oferece assim maior eficiência, maior durabilidade, menor desperdício, além de poluição quase zero. Além disso, deve ser observado outro fator
em favor destes novos modelos. Reduzindo o peso destes veículos, reduzem-se
consequentemente: as estruturas de suspensão, motor, freios e combustível.
Entretanto, apesar destas inúmeras vantagens, inclusive econômicas e ambientais, um fator é preponderante para a falta de investimento nestas máquinas
“limpas”. O peso político das montadoras de automóveis e da indústria siderúrgica, que deverão sofrer um golpe em suas economias. Estas montadoras se defendem, explicando o alto custo da fibra de carbono. Entretanto, nunca se foi
investido em aquisição atacadista deste material. Além do mais, a aplicação da
tributação ambiental e da internalização dos custos de produção referidos neste
trabalho, tornaria possível a implementação desta reformulação nos automóveis,
pois tornarão o modo de produção atual bem mais custoso do que a adaptação a
processos e produtos limpos.
19
Ver www.rmi.org
Ver www.automotor.xl.pt
21
HAWKENS, Paul., LOVINS, Amory e Hunter, Capitalismo Natural: Criando a próxima Revolução Industrial, obra
traduzida por ed. Cultrix, São Paulo, pág. 23
22
Ver www.portalh2.com.br
23
Jornal O LIBERAL de 13 de Janeiro de 2008, Caderno PODER, pág. 16
20
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6. CONCLUSÕES ARTICULADAS
6.1 Atualmente vivemos inseridos numa política econômica global que tem como
causa e conseqüência a sede extrapolada por consumo de produtos industrializados pouco eficientes, o que advém de uma liberdade que os produtores têm em
retirar matérias-primas da natureza e introduzi-las em forma de produtos, estimulando cada vez mais um aumento deste espírito consumista, estimulando, por sua
vez, cada vez mais devastação.
6.2 A internalização dos custos de produção é o primeiro objetivo a se alcançar
para termos uma economia sustentável, na medida em que ela força os produtores
a incluir nos seus custos de produção o bem natural devastado ou poluído, antes
ou paralelamente ao início da atividade.
6.3 Para equilibrar as conseqüências econômico-sociais advindas desta medida,
além de incentivar a própria instalação dela, torna-se necessária uma tributação
ambiental efetiva, que destaca também a área social, subsidiando aspectos sociais e sobretaxando atividades em si poluentes. Assim, torna-se mais barato para
produtores investir em mão de obra para manutenção do que em tecnologia para
produção.
6.4 Protegidos estes aspectos, torna-se também confortável a implementação de
uma reformulação geral do modelo Capitalista de Produção e consumo, viabilizando o lucro para os produtores-assistenciais e protegendo a natureza. Esta redefinição do Capitalismo seria totalmente estimulada e não imposta.
6.5 O fundamento desta tese é a não sustentabilidade do mundo tendo em vista o
modo de como vem tendo seu ambiente devastado. Assim, mostro ser plenamente
possível readequar o sistema sem trazer grandes impactos econômicos mundiais,
mas, por outro lado, protegendo não só a natureza sob uma visão ambientalista,
mas o próprio combustível para o capitalismo.
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O COSMOPOLITISMO COMO PRESSUPOSTO
POLÍTICO PARA O DIREITO INTERNACIONAL
AMBIENTAL: ANÁLISE CASUÍSTICA
DO PROTOCOLO DE QUIOTO E DOS
CRÉDITOS DE CARBONO
ADROALDO JUNIOR VIDAL RODRIGUES
Mestre em Teoria Geral do Direito pela Universidade Federal
do Rio Grande do Sul (UFRGS). Especializando em Direito
Ambiental pela UFRGS. Professor da UniRitter (Canoas) e São
Judas Tadeu (Porto Alegre). Membro do Instituto Brasileiro de
Filosofia do Direito (IBFD)
1. INTRODUÇÃO
O único atributo do mundo que nos permite avaliar sua realidade é o
fato de ser comum a todos nós.
Hannah Arendt
O cosmopolitismo é um pressuposto do Direito Internacional Ambiental,
pois a sua natureza “supra-estatal” considera a nossa humanidade como um fator
de identificação política comum e universal - substituindo as idéias de cidadanias
nacionais (ser brasileiro, argentino ou estadunidense) e continentais (ser membro
do Mercosul ou cidadão europeu). Trata-se da viabilização de uma comunidade
internacional, que reconhece seus problemas como algo a ser resolvido em comum, como por exemplo, no caso das mudanças climáticas.
Por contraste ao cosmopolitismo, o conceito de soberania trabalha com a
necessidade de autonomia nacional, pois “cada Estado soberano individualmente
considerado está por direito acima da comunidade das nações e possui uma independência absoluta em relação a essa comunidade.” 1
E sob esta análise (da soberania) é possível elaborar discursos que tenham
como conteúdo a manutenção da capacidade de autogovernar-se, e conseqüentemente, justificar (de maneira ilusória) que cada nação pode escolher seus rumos
e regras da maneira que melhor lhe interessar.
Por fim, a aplicação destes conceitos à questão do Protocolo de Quioto afirmará que o cosmopolitismo é a proposta superior de tratamento político em detrimento da condição soberana. Nesse sentido, a catástrofe de Chernobyl é um outro
exemplo, que comprova a tese que pretendemos defender.
1
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MARITAIN, Jacques. O Homem e o Estado. Rio de Janeiro: Agir, 1952, p. 63.
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2. ANÁLISE CONCEITUAL
O ano de 2004 terminou com um acontecimento que demonstrou o poder de destruição da natureza e o poder de regeneração da compaixão
humana.
O tsunami que varreu o Oceano Índico deixou mais de 300.000
mortos.
Milhões de pessoas ficaram sem casa. Dias depois do tsunami, uma
das piores catástrofes naturais dos últimos anos tinha dado lugar à
maior ação mundial de assistência internacional, mostrando o que se
pode conseguir através da solidariedade global quando a comunidade
internacional se empenha num grande esforço.
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)
Relatório de Desenvolvimento Humano 2005
As respostas aos grandes problemas ambientais, hoje em dia, são efetivamente pensadas pela comunidade internacional, pois neste âmbito nenhuma nação mais “basta-se a si mesmo”. Esse tipo de raciocínio nós chamaremos de cosmopolitismo.
O cosmopolitismo é o reconhecimento da remoção do obstáculo das fronteiras nacionais para a tomada de decisões, por exemplo, em relação ao Protocolo de
Quioto e a distribuição de água potável no mundo.
É a cristalização da idéia que um corpo político ou nação “reconhece que
não é mais uma sociedade perfeita e auto-suficiente, consentindo então em fazer
parte de uma sociedade política de âmbito mais extenso.” 2 Essa sociedade política
mais extensa seria a comunidade internacional.
Assim, a comunidade internacional teria como finalidade administrar as
demandas e desafios ambientais, que unificam os vários países do nosso globo.
Para tanto, não só as questões ambientais devem ser partilhadas, como também
a nossa humanidade. Para Martha Nussbaum “o fato de dividirmos com outras
pessoas, em partes distantes do mundo, uma humanidade comum significa que
temos para com elas obrigações morais que transcendem o alcance do direito
positivo [interno].” 3
Recentemente, os sociólogos estão explorando o tema da humanidade como
um fator de unificação global, porque é um elemento que substitui a antiga visão
dos chamados “Estados individuais” pela adequada visão da “humanidade dividida em Estados”. 4
A humanidade se torna o quadro de referência das questões globais e do
cosmopolitismo, sendo necessário este diagnóstico, porque viabiliza a busca de
soluções partilhadas. É uma evolução que possui como referências anteriores,
2
MARITAIN, Jacques. O Homem e o Estado, p. 54.
NUSSBAUM, Martha. Cultivating humanity in legal education. In: The University of Chicago Law Review. Chicago:
University of Chicago, 2003, p. 265-279.
4
ELIAS, Norbert. A Sociedade dos Indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994, p. 135.
3
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respectivamente: a família, o clã, a tribo, o Estado (nação) e os Estados continentais. 5
Sendo a humanidade o “novo nível de integração”, fortalece-se o cosmopolitismo como alternativa à visão tradicional de Estados soberanos, porque “no curso
dessa crescente integração, muitos Estados vão perdendo considerável parcela de
sua soberania”6, fortalecendo uma visão global.
Portanto, a identidade e os problemas sociais já não são compreendidos a
partir de uma análise estatal, mas com referência a uma realidade cosmopolita. A
catástrofe de Chernobyl é um exemplo de abrangência ambiental que a “unidade
efetiva de sobrevivência vem agora, visivelmente, deslocando-se mais e mais do
nível dos Estados nacionais para as uniões pós-nacionais de Estados e, além delas,
para a humanidade.” 7
Também poderíamos citar outros exemplos, como: i) a discussão entre
Argentina e Uruguai por uma fábrica de celulose; ii) o embate entre Brasil e
Argentina sobre o período de defeso às margens do rio Uruguai (trata-se de
um lapso temporal do ano em que é proibido pescar ou caçar) demarcados por
cada comunidade nacional que partilham as mesmas águas ou espaço – zonas
de fronteira; 8 iii) terrorismo; iv) tsunami no Oceano Índico; v) o comércio internacional.
Nesse compasso, as instituições internacionais, que reconhecem o cosmopolitismo, adquirem, diariamente, maior força institucional. Como exemplos, a Organização das Nações Unidas (ONU), o Banco Mundial, a Organização Mundial
do Comércio (OMC) – que recentemente tomou uma decisão favorável ao Brasil
em relação à destinação final de pneumáticos e influenciou as decisões internas –
a Cruz Vermelha e a Anistia Internacional.
Além disso, a existência de âmbitos em que não há esfera estatal é, desde
sempre, gerenciada pelo modelo cosmopolita e, por óbvio, pela noção de integração global, por exemplo, a Antártica, o espaço aéreo neutro e o alto mar.
O meio ambiente já começou, há algum tempo, a fazer parte deste processo
de integração, pois é um elemento que ratifica a dimensão animal do homem com
o mundo, esclarece a dependência do homem em relação ao meio em que vive e
afirma o seu caráter de bem comum.
Por outro lado, existe outro tipo de pensamento que sustenta a soberania
como elemento político essencial e indispensável para a tomada de decisões, (não
só relacionadas às questões internas, como também às relativas ao âmbito externo
ou global).
Tal pensamento é a visão tradicional, que sustenta a independência suprema e valoriza demasiadamente o poder estatal. Segundo Nicola Matteucci,
5
ELIAS, Norbert. A Sociedade dos Indivíduos, p. 136.
ELIAS, Norbert. A Sociedade dos Indivíduos, p. 135.
7
ELIAS, Norbert. A Sociedade dos Indivíduos, p. 178.
8
A fronteira entre Uruguaiana e Paso de los Libres, cidades unidas pelo rio Uruguai, convivem com as contradições provocadas pelas legislações brasileira e argentina. No Brasil o período de defeso é de 120 dias e na Argentina é de 40 dias.
6
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soberania significa “o poder de mando de última instância, numa sociedade
política e, consequentemente, a diferença entre esta e as demais associações
humanas em cuja organização não se encontra este poder supremo, exclusivo
e não derivado.”9
A partir deste raciocínio, existe uma modificação em relação ao status do
tratamento das questões ambientais, que passam a ser tratadas como objeto de
interesse – e não de bem comum. Nesse contexto, a expressão bem comum já
não possui sentido, pois é transformada em interesse geral.10 E sua diferença em
relação ao bem comum é, i) a sua disponibilidade, ii) a escolha via consenso,
iii) e a predominância do elemento vontade; já o bem comum é, i) indisponível,
ii) descoberto via análise da realidade, iii) e possui predominância do elemento
racional.
O interesse viabiliza discursos políticos, que invocam o campo da autonomia de cada Estado para poder decidir de maneira soberana. É o caso do recente
pronunciamento do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, quando afirmou que cada país deve escolher a melhor forma de atingir resultados eficazes em
relação à luta “anti-aquecimento”.
Esse discurso somente é possível sob os auspícios do conceito de soberania,
que resguarda de uma maneira excessiva os interesses de cada nação soberana.
Aliás, este é um equívoco que aparece no “princípio vinte e quatro” da declaração de Estocolmo - que ressalta o espírito de cooperação dos países, mas afirma
a necessidade de respeitar a sua soberania e os interesses de todos os Estados.11
São dois elementos diversos que se chocam frontalmente. Em grandes problemas
ambientais existe a necessidade de ignorar a autonomia estatal e recepcionar uma
visão cosmopolita.
Para existir cooperação é necessário interesse, mas se não existe interesse a
cooperação fica prejudicada. É o caso da não adesão dos Estados Unidos ao Protocolo de Quioto – um problema global que de maneira errônea é compreendido
como objeto de escolha de cada Estado - sob o manto da soberania.
A crítica que Jacques Maritain elabora a soberania quando a compara ao absolutismo – um poder absoluto sem restrições – contribui para a análise destes casos, onde o elemento “vontade” aparece. No livro O Homem e o Estado, Maritain
escreve: “para pensar de modo coerente em matéria de filosofia política, temos de
abandonar o conceito de Soberania, que coincide totalmente com o conceito de
absolutismo.”12
9
MATTEUCCI, Nicola et ali. Dicionário de Política. 9 ed. Brasília: editora Universidade de Brasília, 1997, p. 1179.
A nossa Constituição associa a questão ambiental a idéia de “bem de uso comum”, e não de interesse geral. Razão pela
qual escolhemos este vocabulário.
11
Princípio 24 da Declaração de Estocolmo (1972): “Todos os países, grandes ou pequenos, devem tratar as questões
internacionais relativas à proteção e melhoria do meio ambiente com espírito de cooperação e em pé de igualdade. A
cooperação, quer por acordos multilaterais ou bilatérias, quer por outros meios apropriados, é essencial para controlar
eficazmente, prevenir, reduzir ou eliminar os efeitos ambientais adversos que resultem de atividades em qualquer esfera,
de tal modo que a soberania e os interesses de todos os Estados sejam assegurados.”
12
MARITAIN, Jacques. O Homem e o Estado, p. 62.
10
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Enquanto os Estados estiverem em sintonia com o conceito de soberania
é impossível que se ofereça um tratamento adequado à problemática ambiental,
sendo que assim, eles não ingressam em uma comunidade internacional.
Além disso, a soberania valoriza a ótica do centralismo, não só de decisões
como também de ações. Ela promove a rejeição do pluralismo, e de todos os seus
elementos de pluralidade necessários à ampliação do diagnóstico de políticas ambientais.
Maritain termina a sua crítica afirmando que tanto o absolutismo quanto a
soberania “foram forjados na mesma bigorna.”13
3. ANÁLISE CASUÍSTICA: O PROTOCOLO DE QUIOTO
A principal diferença entre o passado e o presente é que nossos problemas são de fato globais;
Crispin Tickell
O mundo e os problemas ambientais são realidades partilhadas. Assim, devemos buscar soluções para nossos problemas ecológicos (cada vez mais próximos
de nós) de maneira coletiva, não só para alcançar maior eficácia, como também
em nome de um futuro comum.
Dentre inúmeras questões ambientais que nos preocupam, destacamos o
Protocolo de Quioto, que busca regular o nível de concentração de gases de efeito
estufa (evitando ou amenizando mudanças climáticas a um nível que impediria
um desenvolvimento sustentável).
Com relação ao Protocolo, o indiano Rajendra Pachauri, presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) e ganhador do Nobel da
Paz (2007), afirmou que: segundo o relatório de 2007 do IPCC a temperatura no
planeta aumentou e aponta a ação humana como a principal causa para o aquecimento global.
Sob a perspectiva política, torna-se possível analisar o caso sob dois enfoques: uma visão cosmopolita e uma visão que privilegia a soberania nacional.
Na visão cosmopolita, o problema suscitado pelo Protocolo de Quioto requer
um tratamento oferecido pela comunidade internacional, em oposição a soluções
propostas por cada Estado (invocando o frágil conceito de soberania).
Assim, um tratamento cosmopolita, aplicado às questões climáticas que o
Protocolo suscita, significa que cada país rejeita a possibilidade de decidir sozinho
e passa a trabalhar de maneira conjunta para buscar a melhor solução em razão da
intensificação do efeito estufa – gerado pelo excesso de gases poluentes.14
Aplicar esta visão política supranacional em relação ao Protocolo é apoiar-se
num importante precedente histórico que, Norbert Elias, oportunamente apresen-
13
MARITAIN, Jacques. O Homem e o Estado, p. 66.
Com o pedido de ratificação da Austrália, em dezembro de 2007, apenas os Estados Unidos, Mônaco e Liechtenstein se
omitem a recepcionar o Protocolo – países que compõem o compromisso de redução ou limitação quantificada de emissões
– “anexo b” do Protocolo de Quioto.
14
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ta: a catástrofe da usina de Chernobyl.15 O problema e a solução não se limitavam
à Ucrânia, pois a destruição da “unidade quatro” resultara em efeitos, no mínimo,
em toda a Europa.16
Ou seja, o referencial para a tomada de decisões políticas na atualidade ocorre da mesma forma que no exemplo da usina de Chernobyl. O problema e a solução não se limitam a um “Estado-nação”; ao contrário, o tratamento se desloca
para uma estrutura “pós-nacional”, atingindo a nossa humanidade.17
Em nosso caso específico, aplicar esses conceitos é somar esforços entre as
pessoas e a nossa humanidade comum espalhada em Estados - para a redução dos
excessivos gases causadores da intensificação do efeito estufa.
Ainda sob a perspectiva política, é possível uma segunda visão: a da soberania nacional. Nesse contexto, as decisões políticas são efetivadas de uma maneira
isolacionista – preconizada no atual cenário internacional.
A insistente recusa em formar alianças em torno do tema ambiental, assumir
compromissos econômicos externos e assinar acordos ou protocolos, pode ser
vista como expressão de alguns países. O exemplo mais evidente na atualidade,
em termos ambientais, são os Estados Unidos, que rejeitam de maneira categórica
a adesão ao Protocolo de Quioto – e aos compromissos que dele derivam.18
Limitar a questão das mudanças climáticas às fronteiras nacionais é simplificar demasiadamente o debate - sobre um tema que não encontra abrigo em uma
determinada nação. Segundo o professor Martin Rock, a “identidade nacional não
indica identidade ecológica. Problemas como poluição do ar ou hidrológica não
são resolvidos com ações nacionais isoladas.”19
4. ANÁLISE CASUÍSTICA: OS CRÉDITOS DE CARBONO
Sob a perspectiva política cosmopolita é possível harmonizar a proposta dos
créditos de carbono com a possibilidade de integração internacional, pois países
industrializados passam a depender, em maioria, dos mecanismos de desenvolvimento limpo (MDL) dos países em desenvolvimento.
Uma pesquisa do Banco Mundial constatou quais são os países que mais
compram créditos de carbono e quais os países que mais vendem. O relatório
refere-se ao período inicial de janeiro de 2005 até março de 2006, e pode ser resumido segundo os seguintes gráficos:20
15
ELIAS, Norbert. A Sociedade dos Indivíduos, p. 178.
Segundo uma pesquisa britânica, coordenada pelos cientistas Ian Fairlie e David Sumner, apresentada ao Parlamento
Europeu diagnosticou-se que 40% do solo da União Européia ainda sofre um alto nível de contaminação radiativa. O Reino
Unido possui 34% do território contaminado, a Alemanha possui 44% e a Áustria e a Suíça possuem 80%. A restrição ao
consumo de alimentos destes países é constante e duradoura, por exemplo, à produção de carnes e frutas.
17
ELIAS, Norbert. A Sociedade dos Indivíduos, p. 178.
18
No entanto, em razão da 13ª Conferência das Partes sobre o Clima (COP-13), em Bali (Indonésia), os Estados Unidos,
por meio da chefa de sua delegação, Paula Dobriansky, decidiu assinar o documento chamado: Mapa do Caminho de Bali
– que irá nortear as discussões sobre mudanças climáticas até o ano de 2009. O Mapa do Caminho de Bali irá substituir o
Protocolo de Quioto, que vigorará até o ano de 2012.
19
ROCK, Martin. A temática ecológica do ponto de vista antropológico e ético. In: Ecologia e Economia. São Paulo:
Fundação Konrad-Adenauer-Stiftung, 1992, p. 11.
20
Relatório do Banco Mundial. State and Trends of the Carbon Market 2006. Washington: maio de 2006.
16
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a) compradores
Analisando o gráfico, podemos notar que o Japão (com 38% do total), o Reino Unido (com 15% do total) e a Itália (com 11% do total) são os países que mais
investem na compra de “créditos de carbono”. Em compensação, os Estados Unidos - país que mais polui no mundo - investe apenas 1% na compra dos créditos.
b) vendedores
Como vemos, o gráfico demonstra que a China (com 66% do total) e o Brasil
(com 10% do total) são os países que mais produzem mecanismos de desenvolvimento limpo – MDL, não significando que tais países não contribuam para a
emissão de gases tóxicos. O Brasil e a China, dentre outros, demonstram a visão
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12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
cosmopolita no sentido de minimizar, com a produção de “créditos de carbono”,
os efeitos nocivos da poluição em geral.
Um exemplo de integração das comunidades internacionais é o caso das
indústrias que utilizam energia da casca de arroz, um MDL, localizadas na cidade
de Itaqui - RS.
Igualmente, a Holanda é uma das nações que estão obrigadas, pelo Protocolo, a diminuir as emissões de dióxido de carbono (CO2) - no período de 2008
até 2012 - além de outros gases tóxicos. Para atingir esse objetivo o país pretende
investir 400 milhões de euros em créditos de carbono, e uma das parceiras para
atingir tal meta é a indústria de alimentos brasileira, pois esta desenvolve mecanismos de desenvolvimento limpo – MDL.
Já procedimentos políticos soberanos impedem uma integração entre os países com preocupações ambientais. Mais do que isso, dificultam a possibilidade de
que sejam resolvidos problemas de relevância política óbvia e de conseqüências
para todos. Os Estados Unidos, a Coréia do Norte, o principado de Mônaco e Liechtenstein podem ser vistos como países que adotam esses procedimentos.
O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, inclusive, já declarou
que o compromisso com a redução da emissão de gases que intensificam o efeito
estufa pode interferir negativamente na economia interna do país.
5. CONCLUSÕES ARTICULADAS
5.1 O cosmopolitismo é um pressuposto político necessário para viabilizar o Direito Internacional Ambiental. A problemática do Protocolo de Quioto e dos Créditos de Carbono são exemplos do tratamento cosmopolita;
5.2 A visão do cosmopolitismo traduz a aplicação de nossa humanidade como
um fator de identificação política comum e universal, superando as identidades
nacionais (por exemplo, ser brasileiro ou ser argentino);
5.3 A visão da soberania trabalha com a necessidade de “autonomia nacional”,
porque os Estados soberanos possuem uma independência absoluta em relação à
comunidade internacional – contribuindo para a rejeição de um Direito Internacional Ambiental;
5.4 A visão cosmopolita significa que cada país rejeita a autonomia nacional e
passa a trabalhar de maneira conjunta para buscar o melhor - em razão do excesso
de gases poluentes – como no emblemático caso da usina de Chernobyl;
5.5 A perspectiva da soberania dependente da identidade nacional e exclui a
“identidade ecológica” e os problemas, como a poluição do ar, não são resolvidos
com ações nacionais isoladas.
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COMO PROMOVER O DESENVOLVIMENTO
SUSTENTÁVEL, SENDO QUE
O CONSUMO NÃO É?
ALAN RODRIGO BICALHO
Advogado, Mestrando em Direito Econômico pela
Universidade de Marília, graduado em Direito pela
Universidade Paulista e em Administração de Empresas pelo
Centro Universitário de Araraquara
1. INTRODUÇÃO
Atualmente, a preocupação com a proteção ao meio ambiente ocupa lugar
de destaque entre aquelas de maior importância para toda a sociedade. As atenções estão se voltando para a inviabilidade da exploração dos bens naturais. Essa
percepção advém de que o desenvolvimento indiscriminado afeta o equilíbrio
ecológico, a qualidade de vida e a própria vida.
Nesse sentido, novas idéias e estratégias de ação visando à preservação e
conservação dos recursos naturais surge e dentro de um quadro de amplos e variados pensamentos, que se focam no chamado bem estar social.
Por isso que, todo e qualquer sacrifício no sentido de preservar o meio ambiente, em nome da qualidade de vida que a Lei Maior deseja aos administrados,
será pouco, diante das dificuldades existentes e, que Sá, as que ainda hão de vir.
2. MEIO AMBIENTE CONCEITO E LEGISLAÇÃO
O direito ambiental é um ramo autônomo e essa independência lhe é garantida porque o direito ambiental possui os seus próprios princípios diretores,
presentes no art. 225 da Constituição Federal de 1988 que consagraram de forma nova e importante a existência de um bem que não possui características de
bem público e, muitos menos, privado, voltado à realidade do século XXI, das
sociedades de massa, caracterizada por um crescimento desordenado e brutal
avanço tecnológico: os chamados direitos difusos. Isso foi realizado por conta
do Art. 225 do, do Capítulo VI ‘Do Meio Ambiente’ na Constituição Federal
Brasileira, o qual disciplina:
Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem
de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao
Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as
presentes e futuras gerações.
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O referido texto constitucional forneceu os fundamentos básicos para a compreensão do instituto, e que é dividido em quatro partes, onde se constata que:
a) todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado;
b) direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado diz respeito à existência de um bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida,
criando em nosso ordenamento o bem ambiental;
c) compete ao Poder Público como à coletividade o dever de defender o bem
ambiental, assim como o dever de preservá-lo;
d) a defesa e a preservação do bem ambiental estão vinculadas não só às presentes como também às futuras gerações.
A preservação do meio ambiente é imprescindível não só a pessoa humana,
mas a toda forma de vida existente na Terra, uma vez que, é sabido que é no meio
ambiente que se encontram todos os substratos necessários para a manutenção e
perpetuação da vida.
Apesar do direito ao meio ambiente ser voltado para a satisfação das necessidades humanas, isso nada impede de que ele proteja a vida em todas as suas
formas, conforme determina o inciso I do Art. 3º da Lei no 6.938/81 (Política
Nacional do Meio Ambiente), cujo conceito de meio ambiente é:
Art. 3º Para os fins previstos nessa Lei, entende-se por:
I – meio ambiente, o conjunto de condições, lei, influências e interações de
ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas
as suas formas;
Em sendo a proteção a vida em todas as suas formas, inquestionável é que
não só o homem é possuidor de vida, portanto todos que a detém são tutelados
e protegidos pelo direito ambiental, sendo certo que um bem, ainda que não seja
vivo, pode ser ambiental, na medida em que possa ser essencial à sadia qualidade
de vida, conforme resta estabelecido na referida Lei que a proteção ambiental
estende-se aos bens ‘materiais e imateriais’, de acordo com o Art. 216, CF/88,
que disciplina:
Art. 216. Constituem patrimônio cultural é composto pelos bens de natureza
material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de
referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores
da sociedade brasileira, nos quais se incluem:
I – as formas de expressão;
II – os modos de criar, fazer e viver;
III – as criações artísticas, científicas e tecnológicas;
IV – as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às
manifestações artístico-culturais;
É evidente que ao buscar a preservação das espécies vivas, inquestionavelmente, o homem incluiu sua própria espécie nesse rol, ou seja, a humana, conforme é ressaltado no Princípio no 1 da Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio
Ambiente e Desenvolvimento de 1992: ‘Os seres humanos estão no centro das
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preocupações com o desenvolvimento sustentável. Têm direito a uma vida saudável e produtiva, em harmonia com a natureza’.
Dessa forma, a vida que não seja humana só poderá ser tutelada pelo direito
ambiental na medida em que sua existência implique garantia da sadia qualidade
de vida do homem, uma vez que numa sociedade organizada este é o destinatário
de toda e qualquer norma.
Constata-se tal intenção no momento em que surgem conflitos entre o direito
constitucional do animal de não ser submetido a práticas cruéis e o de manifestação da cultura do povo, onde, a opção que, esmagadoramente, prevalecem às
atividades culturais.
Fundadas estas no argumento da identidade de um povo, representando a
personificação da sua dignidade como parte integrante de determinada região,
ressalvados os casos que do animal ser uma espécie ameaçada de extinção. Nesse
caso, estaria comprometida a própria perpetuação do costume em tela, e, vedando-se a prática, o animal teria um mínimo de chance de sobreviver na cadeia
ecológica, de forma a se reclamar, na hipótese, a sua preservação, porém trata-se
esse posicionamento de uma visão antropocêntrica.
Contrariamente, há aqueles que compartilham da visão que o direito ambiental tem por objeto a tutela de toda e qualquer vida, embora contrária à visão
antropocêntrica do direito ambiental brasileiro. Nessa linha está Diogo de Freitas
do Amaral, o qual preceitua que:
Já não é mais possível considerar a proteção da natureza como um objetivo
decretado pelo homem em beneficio exclusivo do próprio homem. A natureza
tem que ser protegida também em função dela mesma, como valor em si, e não
apenas como um objeto útil ao homem. (...) A natureza carece de uma proteção
pelos valores que ela representa em si mesma, proteção que, muitas vezes, terá
de ser dirigida contra o próprio homem.
O aludido pensamento é oriundo de uma interpretação literal, pois estariam
os animais assumindo um papel de destaque em face da proteção ambiental, enquanto destinatários diretos do direito ambiental brasileiro, todavia, não parece
razoável tal idéia do animal, da fauna, da vida em geral dissociada da relação com
o homem. Assim, entende-se que a proteção do meio ambiente existe, antes de
tudo, para favorecer o próprio homem.
Aliás, mister se faz ressaltar que a proteção do meio ambiente é uma dos
alicerces dos direitos humanos, devendo ele ser levado em consideração toda vez
que qualquer atividade (política, legislativa, econômica, entre outras), tiver que
ser criada e desenvolvida, pois é tutela cardeal constitucional a vida e a sua qualidade, portanto, tudo que se pretende fazer, criar ou desenvolver deve antes passar
por uma consulta ambiental.
Ao levantar a sua bandeira em defesa do meio ambiente, o direito ambiental
busca ‘a qualidade de vida’, ou seja, ‘a boa qualidade de vida’, objetivo este que
é alcançado através da preservação do meio ambiente.
Neste sentido, não há como negar que a proteção do meio ambiente trata-se
de um direito fundamental, cujas primeiras declarações surgiram nos forais e nas
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cartas de franquia da Idade Média, que continham uma enumeração de direitos.
Com Revolução Francesa as declarações de direitos individuais limitando o poder
do Estado, iniciando assim os traços do Constitucionalismo.
A base inspiradora dos direitos naturais e intangíveis em favor do indivíduo é de ordem filosófico-religiosa, uma vez que, sendo cada pessoa à imagem
e semelhança de Deus; portanto, a igualdade fundamental natural entre todos os
homens.
Ocorre que com as mudanças nos séculos XIX e XX, novas ameaças e novos desafios surgiram levando assim a uma transformação que não findou com o
caráter absoluto, mas que dimensionou novas necessidades ao direito como sendo
princípios constitucionais.
Com a Declaração Universal dos Direitos do Homem, os direitos de grupos
sociais também passaram a ser reconhecidos, o que não só limitou o individualismo extremo, mas criou ordens de direitos individuais os quais Celso Ribeiro
Bastos1 explica:
Logo no início, são proclamados os direitos pessoais do indivíduo: direito à vida,
à liberdade e à segurança. Num segundo grupo encontram-se expostos os direitos
do indivíduo em face das coletividades: direito à nacionalidade, direito de asilo
para todo aquele perseguido (salvo os casos de crime de direito comum), direito
de livre circulação e de residência, tanto no interior como no exterior e, finalmente, direito de propriedade. Num outro grupo são tratadas as liberdades públicas
e os direitos públicos: liberdade de pensamento, de consciência e religião, de
opinião e de expressão, de reunião e de associação, princípio na direção dos
negócios públicos. Num quarto grupo figuram os direitos econômicos e sociais:
direito ao trabalho, à sindicalização, ao repouso e à educação.
A Declaração Universal, na visão de Norberto Bobbio2 ele alerta que ‘sem
direitos do homem reconhecidos e protegidos, não há democracia; sem democracia, não existem as condições mínimas para a solução pacífica dos conflitos’.
Necessário se faz lembrar que os direitos fundamentais cumprem o que Canotilho chama de as funções dos direitos fundamentais, quais sejam: ‘função de
defesa ou de liberdade, função de prestação social, função de proteção perante
terceiros e função de não discriminação’.
Apesar de desejáveis, a maior dificuldade desses Direitos está na sua proteção, pois eles são constantemente desrespeitados e não totalmente reconhecidos,
até porque o conceito individual do que é justo é amplo e diverso.
E essa nova concepção de direitos fundamentais, leva a incorporar à Constituição Brasileira de 1988, elenca os princípios fundamentais da República Federativa do Brasil que por sua vez abrangente os “direitos e deveres individuais e
coletivos”, abrindo inclusive um capítulo sobre os “direitos sociais”, em seu Art.
5º caput e seu inciso XLVII, na alínea a, ela reza:
1
2
BASTOS, Celso Ribeiro. Curso de Direito Constitucional, 21 ed., São Paulo: Saraiva, 2000, p. 166.
BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos, 10 ed., Rio de Janeiro: Campus, 1992, p. 34.
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Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade,
nos termos seguintes:
XLVII – não haverá penas:
a) de morte, salvo em caso de guerra declarada, nos termos do Art. 84, XIX;
E ao se referir ao direito à vida, a Constituição proteger a vida, mas com ‘boa
qualidade’, o que está diretamente ligado a boas condições sociais, psicológicas,
físicas, culturais, profissionais, lazer, portanto, existe uma enorme preocupação
com o meio que o homem vive, com o ambiente que o cerca.
Diante disto, resta claro que o bem que se encontra no ápice da escala hierárquica de bens a serem tutelados é o direito a vida, portanto tudo que influencia
a vida é uma preocupação a ser tutelada.
3. PROTEÇÃO AMBIENTAL COMO PRINCÍPIO DA ORDEM ECONÔMICA
Para toda ação há uma reação, assim diz uma das leis da física orientadas
por ‘Isac Newton’, com o meio ambiente não é diferente até porque compõe ele o
mundo da física. A toda ação humana feita em face da natureza há uma resposta,
o maior problema é que por não serem essas respostas diretas, a grande maioria
não consegue associar sua conduta aos efeitos.
Contudo, mesmo sendo silenciosa ou indireta a resposta da natureza, ela
existe e é diariamente dada, através do aquecimento global, das chuvas ácidas, das
enchentes, das estiagens, das desertificações, da destruição da camada de ozônio,
dos terremotos, das tsunamis, entre outros fenômenos naturais.
Os efeitos oriundos da ocorrência dos referidos fenômenos não afetam apenas as localidades onde estes ocorreram, mas toda a humanidade, afinal ao ser
vitima da longa estiagem de chuvas, as plantações brasileiras não conseguirão dar
suporte a demanda mundial o que faz os preços aumentarem, o poder de compra
diminuir, entre outros efeitos, isso representa danos que deverão e serão suportados e reparados pelas economias.
Assim, diante das conseqüências econômicas a Constituição Pátria é impositiva no que tange a proteção ambiental, como adverte Derani3:
A economia ambiental está assentada na política, e através dela se realiza. Por
isso, um caminho a ser apresentado para conciliação da economia com a natureza localiza-se longe da monetarização do ambiente e é dependente da modificação vinculada as práticas políticas. Esta dualidade economia e ecologia
(transformação de valor e de matéria) resulta num sistema de reação positiva
(maior a atividade econômica, maior a transformação da natureza), que deve
ser modificado de modo a encontrar-se uma produção humana – movimento
da e para a existência humana. Produção é o momento de encontro do meio
3
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DERANI, Cristiane. Direito Ambiental Econômico. São Paulo: Max Limonad, 1996.
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social com o meio natural, da natureza com a cultura. Nesse movimento, não
apenas a natureza é socializada (civilizada), mas a sociedade é naturalizada.
No lugar da unidimensionalidade da lógica da reprodução do capital, na qual
a dimensão material do trabalho – sua dimensão social, ecológica, técnica e
estrutural – só pode se manifestar num contexto de subordinação, reclama-se a
multidimensionalidade da produção humana.
Juridicamente, a ordem econômica tem por finalidade a concretização da
existência digna e da justiça social, tudo que for contrário a esses princípios não
é permitido.
Em face dos objetivos supracitados é que o principio da livre iniciativa não é
ferido, pois quando se fala em livre iniciativa, não está se falando fazer o que quiser, como quiser e quando quiser, mas sim em desenvolver toda e qualquer atividade segundo regras determinadas, cuja a tutela alcança a todos indistintamente.
3.1 Desenvolvimento Econômico e o Meio Ambiente
Muitos acreditam que a quantidade de dinheiro está diretamente relacionada
com a qualidade de vida das pessoas, quanto mais se tem, melhor se vive, todavia,
tal pensamento encontra-se equivocado, uma vez que, apesar do grande poder de
aquisição que detém a moeda, esse pode não é pleno.
Referido pensamento é característico dos ocidentais que crêem que a função
da tecnologia é substituir o que a natureza nos oferece, aliado a isso, há também
o expediente de buscar o desenvolvimento a qualquer custo, conforme a política
brasileira no período da ditadura militar.
A busca pelo desenvolvimento é e sempre foi uma meta a ser alcançada por
todos, afinal, é através dele que se poderá alcançar uma boa qualidade de vida
chegará, ao menos materialmente.
Quando a Constituição Pátria, no Art. 170 caput expressa que: “A ordem
econômica deve ser fundada em valores assegurem a todos existência digna, conforme a justiça social” ela não está impedindo o desenvolvimento, mas ela determina que esse desenvolvimento ocorra buscando o ‘bem estar’ e a ‘boa qualidade
de vida’.
Entre os princípios que permitirão os referidos objetivos se conciliarem está
à proteção do meio ambiente, haja vista que, que, conforme explicações anteriores, seu papel existencial na vida do ecossistema do Plante Terra.
Ao promover o desenvolvimento econômico primando pela proteção do
meio ambiente evita-se a sua degradação, conseqüentemente não será necessário
repará-lo no futuro, mais do que isso, nada e nem ninguém será vitima das conseqüências, a este desenvolvimento dá-se o nome de sustentável.
Sustentável é a sociedade que através de sua ordem econômica consegue
promover a distribuição eqüitativa dos resultados do seu processo de produção,
reduzindo assim as disparidades nos padrões de vida da população, a fim de erradicar a pobreza.
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3.2. A Empresa diante da Ordem Econômica e do Meio Ambiente
O mercado econômico ou a ordem econômica encontra-se alicerçado na
existência dos diferentes tipos de empresas, não se confundindo com a figura do
empresário que é o sujeito que exerce a atividade, nem com a figura dos seus bens
patrimoniais. Assim esclarece Waldirio Bulgarelli4 que ‘a empresa trata-se de uma
Atividade econômica organizada de produção e circulação de bens e serviços para
o mercado, exercida pelo empresário, em caráter profissional, através de um complexo de bens’.
Por exercer uma atividade, conclui-se que a empresa pertença à ordem econômica e por isso deve obediência aos seus princípios orientadores, portanto, a
existência de uma empresa está diretamente relacionada à fomentação de uma
sociedade digna e justa socialmente.
Em sendo assim, inquestionável é o argumento de que toda e qualquer empresa que componha a ordem econômica brasileira, obrigatoriamente, possui caráter ou uma função social, todavia, ressalta-se que a função social de uma empresa não exclui a figura do lucro, este corresponde aos interesses internos e aquele
corresponde aos interesses externos, como bem ilustra Modesto Carvalhosa5:
Tem a empresa uma óbvia função social, nela sendo interessados os empregados, os fornecedores, a comunidade em que atua e o próprio Estado, que dela
retira contribuições fiscais e parafiscais. Considerando-se principalmente três
as modernas funções sociais da empresa. A primeira refere-se às condições de
trabalho e as relações com seus empregados. A segunda voltasse ao interesse
dos consumidores... a terceira volta-se ao interesse dos concorrentes. E ainda
mais atual é a preocupação com os interesses de preservação ecológica urbano
e ambiental da comunidade em que a empresa atua.
Ao mesmo tempo em que a função social está para a empresa, ela também se
estende ao seu patrimônio como bem lembra Ivan Lira de Carvalho6:
Quando assegura a função social da propriedade (art. 170, III), a Constituição
federal lança balizas para a fruição equilibrada do direito material de ter. Dá
força especifica as garantias incidentes sobre o direito de propriedade inseridas
no art. 5º, incisos XXII a XXVI. Assim, é óbvio que desatenderá ao comando
de atuar socialmente o proprietário que, fazendo mau uso do seu patrimônio,
perpetra atos turbativos da natureza, maculando o preceito de que todos têm
direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado (CF, art. 225, caput).
O principio da preservação ambiental limita à atividade econômica, mediante instrumentos como o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e o Relatório de
Impactos ao Meio Ambiente, que concluirão se uma determinada atividade ou
empreendimento é viável ou não. A viabilidade objetiva saber se as externalida-
4
5
6
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BULGARELI, Waldirio. Estudos e pareceres de direito empresarial. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1980. p.29.
CARVALHOSA, Modesto. Comentários à lei de sociedade anônimas: vol. 3. São Paulo: Saraiva, 1977. p. 237.
CARVALHO, Ivan Lira de. A empresa e o meio ambiente. Revista de Direito Ambiental, v.4, n. 13, p. 35.
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des a serem produzidas serão positivas ou negativas, ou seja, se o impacto será
benéfico ou maléfico.
Através do conjunto de legislação existente no Brasil, vê-se que a política de
Estado pauta por um modelo de ordem econômica sustentável e não predatória,
pois ela busca a máxima eficiência econômica conciliada com a preservação ambiental e com a justiça social.
A importância do desenvolvimento consciente, livre e sustentável é muito
bem externada pelo ilustre autor Lafayete Josué Petter7 que registrou que ‘o progresso não pode ser confundido com a industrialização a qualquer custo, ou com
a edificação irrestrita de bens materiais. Deve antes, construir-se em valorização
da condição humana, isto é, em formas concretas que conduzam ao processo
histórico de libertação do homem de todos os modos de opressão existentes’.
4. O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
A relação homem natureza, a cada dia, está se desenvolvendo de uma forma
desrespeitosa e agressiva por parte do homem, e essa se tornou a maior preocupação humana, uma vez que, ao colocar em risco a existência do meio ambiente, o
homem coloca em risco a própria existência.
Visando conter e corrigir os males já causados, bem como evitar a ocorrência de novos males, a sociedade busca alternativas para conciliar a preservação
ambiental com a busca do desenvolvimento social, educacional, político, econômico, enfim, aquele que visa alcançar a melhoria na qualidade da vida humana.
Assim surge a concepção do desenvolvimento sustentável que é o planejamento racional da utilização dos recursos naturais por parte do homem, a fim de
que ele busque melhorar sua qualidade de vida sem degradar o meio ambiente,
para que assim, através de uma gestão racional sejam mantidos e conservados os
recursos naturais.
Aliás, a qualidade de vida está diretamente ligada à qualidade do meio ambiente, pois sendo os recursos finitos e esgotáveis, toda e qualquer atividade a ser
desenvolvida pelo homem deve considerar este fato, principalmente as atividades
econômicas que apesar de ser fundada na livre iniciativa deve regrar-se pelos ditames da valorização do trabalho humano, da justiça social e da defesa do meio
ambiente, contido, no inciso VI, Art. 170, CF/88:
Art. 170. A ordem econômica fundada na valorização do trabalho humano e
na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os
ditames da justiça social, observando os seguintes princípios:
VI – defesa do meio ambiente, inclusive com tratamento diferenciado conforme
o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração
e prestação;
7
PETTER, Lafayete Josué. Princípios Constitucionais da Ordem Econômica: O significado e alcance do Art. 170 da
Constituição Federal. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005.
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Portanto, toda e qualquer atividade de cunho econômico tem por Obrigação
Constitucional a preservação do meio ambiente, não cabendo assim que a simples
alegação de onerosidade permita a abstenção de seu cumprimento, até porque
se trata a preservação ambiental de um interesse difuso, portanto, indisponível e
imprescritível.
4.1 Vida Sustentável - Produção e Consumo
O ser humano é detentor de inúmeras, infinitas e ilimitadas vontades e necessidades, contudo, para a satisfação desses anseios faz-se necessário toda uma
estrutura de produção a fim de suprir o consumo. A cada dia, surgem novas tecnologias objetivando suprir infinitas vontades e necessidades, entretanto, os recursos
naturais que viabilizam são limitados e finitos.
Diante desta dicotomia é imprescindível a revisão e alteração dos processos
de produção para que ele deixe de pautar-se na quantidade e passe a primar pela
qualidade, tornando-se uma produção sustentável. Essa mudança é complicada,
entretanto, o que se está a discutir é a sobrevivência humana, interesse este que se
sobrepõe aos da Economia.
Não obstante, não há como promover a revisão e a alteração dos processos
de produção sem que haja uma mudança na forma de consumo atual, uma vez
que, um é conseqüência do outro, afinal a grande maioria dos problemas ambientais têm sua origem na apropriação e no uso de bens, produtos e serviços.
A absurda quantidade de dióxido de carbono (CO2) emissão na atmosfera
terrestre (veículos, indústrias, etc.), o consumo desmedido de água potável (doce)
e a astronômica produção de resíduos (lixo) compõem um pequeno rol de problemas oriundos da produção e do consumo insustentável.
Uma alternativa para viabilizar essas mudanças está no entendimento e aplicação das normas da série ambiental elaboradas pela ‘International for Standartization Organization’, mais conhecida como ISO-14.000.
As normas ISO 14000 – Gestão Ambiental foram inicialmente elaboradas
visando o ‘manejo ambiental’, que significa “o que a organização faz para minimizar os efeitos nocivos ao ambiente causados pelas suas atividades”.
Essas normas visam prevenir os processos de contaminações ambientais, através da orientação da estrutura, forma de operação e de levantamento, armazenamento, recuperação e disponibilização de dados e resultados que estejam em conformidade as necessidades futuras e imediatas da legislação e do mercado. A norma
ISO 14001 estabelece o sistema de gestão ambiental da organização e, assim:
1. Avalia as conseqüências ambientais das atividades, produtos e serviços da
organização;
2. Atende a demanda da sociedade;
3. Define políticas e objetivos baseados em indicadores ambientais definidos
pela organização que podem retratar necessidades desde a redução de emissões de poluentes até a utilização racional dos recursos naturais;
4. Implicam na redução de custos, na prestação de serviços e em prevenção;
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5. É aplicada às atividades com potencial de efeito no meio ambiente;
6. É aplicável à organização como um todo.
Ressalta-se que as normas do sistema ISO correspondem a padrões de produto, cuja aplicação exige requerimentos de direcionamento desejado pela organização, portanto, a natureza do trabalho desenvolvido na organização e as suas
especificidades em termos de demandas é que determinam os padrões relevantes
do produto ou do serviço.
4.2 Consumo de Energia Limpa
Uma das maiores discussões, senão a maior, é a necessidade da utilização
de energia considerada não poluente, a chamada energia limpa, por isso a escolha do tema ‘consumo de energia limpa’, uma vez que, os processos atualmente
utilizados na obtenção de energia são altamente dispendiosos e poluentes, conseqüentemente degradantes.
Os combustíveis derivados do petróleo, carvão-mineral, entre outros possuem um altíssimo grau de emissão de dióxido de carbono na atmosfera; as hidrelétricas alagam várias dimensões de terras, tornando-as inutilizáveis; as usinas
nucleares possuem enorme radioatividade.
O sol é fonte de energia renovável, por isso o aproveitamento de sua energia
como fonte de calor e de luz é uma das alternativas energéticas mais promissoras
para os desafios ambientais, haja vista que, a energia solar além de abundante é
permanente, renovável, não polui e nem prejudica o ecossistema.
Uma das soluções para a falta de eletrização de áreas afastadas é o uso da
energia solar, especialmente num país como o Brasil onde os índices de insolação
durante o ano são considerados excelentes.
Anualmente, o Sol irradia o equivalente a 10.000 vezes a energia consumida pela população mundial no mesmo período. Para medir a potência é usada
uma unidade chamada quilowatt. O Sol produz continuamente 390 sextrilhões
(390x1021) de quilowatts de potência, recebendo a Terra recebe mais de 1.500
quatrilhões (1,5x1018) de quilowatts-hora de potência por ano.
A energia solar é interessantíssima na preservação do meio ambiente, pois:
não polui, não influencia o efeito estufa, não usa turbinas ou geradores, a cada
metro quadrado de coletor solar instalado evita-se a inundação de 56 metros quadrados de terras férteis, na construção de novas usinas hidrelétricas. Uma parte do
milionésimo de energia solar que nosso país recebe durante o ano poderia nos dar
um suprimento de energia equivalente a:
• 54% do petróleo nacional;
• 2 vezes a energia obtida com o carvão mineral;
• 4 vezes a energia gerada no mesmo período por uma usina hidrelétrica.
A utilização da energia solar pode-se dar das seguintes formas:
1. Energia Fototérmica – energia obtida através da absorção do calor, usa utilização implica na captação e armazenamento. Os equipamentos que se utiliza
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desse processo são conhecidos como coletores solares, que são os aquecedores de
fluídos (líquidos ou gases). Uma vez captado e aquecido, o fluido é mantido em reservatórios termicamente isolados até o seu uso final (água aquecida para banho,
ar quente para secagem de grãos, gases para acionamento de turbinas, etc.).
2. Arquitetura Bioclimática – é o estudo que visa harmonizar as construções ao
clima e características locais, pensando no homem que habitará ou trabalhará
nelas, adotando soluções arquitetônicas e urbanísticas, respeitando às condições
específicas (clima e hábitos de consumo) de cada lugar (aquecedores de água,
circulação de ar e de água, iluminação, conservação de alimentos, etc.).
3. Energia Fotovoltática – é a energia obtida através da conversão direta da luz
em eletricidade, descoberto por Edmond Becquerel em 1839, mediante uma
estrutura de material semicondutor que absorverá o calor e o transformará em
energia a ser armazenados em baterias.
Os altos custos nos investimentos para o seu aproveitamento da energia solar
poderiam ser considerados uma desvantagem para a sua aplicabilidade, no entanto
há projetos no Brasil que visam viabilizar a aplicação de tal sistema.
No Rio de Janeiro, a empresa Ligth está instalando gratuitamente, na baixada fluminense, 2.750 sistemas de aquecimento solar destinados a comunidades
de baixa renda, por meio de um projeto de eficiência energética, aprovado pela
ANEEL, que visa melhorar as condições de fornecimento de energia elétrica para
comunidades de baixo poder aquisitivo. Este exemplo também está sendo seguido
por outras concessionárias como a CELESC, de Santa Catarina, e a AES-Eletropaulo que têm programas semelhantes.
Concomitantemente, instituições financeiras estão criando linhas de créditos
sócio-ambientais, bem como o BNDES está criando uma linha de crédito no mesmo sentido, não obstante, há organizações independentes que ajudam e apóiam a
criação de empresas nacionais que sejam viáveis e que utilizem energia limpa financiando-as mediante empréstimos com juros de cerca de 12% (doze por cento)
ao ano, com carência de até 24 (vinte e quatro) meses e com prazo de amortização
de até 7 (sete) anos ou 84 (oitenta e quatro) meses.
4.3 Coletores Solares Residenciais, uma alternativa de produção e consumo
No Brasil, atualmente, existem cerca de 600 mil coletores solares instalados
objetivando aquecer a água do banho, energia esta que é limpa, renovável. As
cidades brasileiras estão se mobilizando em prol dos coletores solares. Câmaras
municipais de cidades como Porto Alegre, Curitiba e Belo Horizonte discutem a
conveniência de criar benefícios fiscais para quem instalar o equipamento, já no
município de São Paulo, a prefeitura deverá enviar ainda este ano à câmara dos vereadores um projeto de lei sugerindo que todas as novas construções residenciais
com mais de 03 (três) banheiros sejam obrigadas a instalar coletores. A obrigatoriedade vale também para novos hotéis, clubes, academias, creches, orfanatos e
outros estabelecimentos comerciais.
Tal iniciativa é importantíssima, uma vez que, o Brasil ainda não resolveu o
seu problema energético e a ameaça de ‘apagão’ é algo que assombra o país, prova
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disto é que, o governo federal está satisfeito com os baixos índices de crescimento
econômico, posto que, caso os índices fosse altos o sistema energético brasileiro
já teria entrado em colapso.
Como alternativa de preservação ambiental e de redução do consumo energético pode-se optar pelo uso de coletores solares, onde nos dias de hoje, se fosse
incentivada a substituição, apenas, dos chuveiros elétricos residenciais reduzir-seia em 7% (sete por cento) do consumo de toda energia nacional, isso equivale ao
consumo de energia do estado do Rio Grande do Sul.
Notadamente, o alto custo do equipamento, cerca de 10 (dez) salários mínimos, se torna um fator inibitório a efetiva implantação dos coletores solares,
contudo, observada a economia que este proporciona, tal investimento é muito
vantajoso.
Somente a substituição dos chuveiros elétricos representa uma redução de
40% (quarenta por cento) a 70% (setenta por cento) do consumo de energia de
uma residência, beneficio este que faz com que o investimento feito seja pago entre 02 (dois) a 03 (três) anos. Ressalta-se que, excetuando os casos de força maior,
a manutenção do equipamento se dá a cada 10 (dez) anos, porém a redução do
consumo de energia é pra sempre.
Contudo, mesmo ainda não seja possível a instalação do referido equipamento, na cidade de Tubarão – SC foi desenvolvido pelo senhor José Alcino Alano8 um coletor solar reciclável, onde utilizando canos de PVC, garrafas plásticas
brancas (pet), caixas de leite ou suco (tetra park) e isopor (isolante térmico) se
constrói um coletor solar ao custo inferior a 01 (um) salário mínimo atual.
O custo será apenas com o material e mão-de-obra, uma vez que, o sistema
está disponibilizado gratuitamente na rede mundial de computadores (internet)
através do endereço http://josealcinoalano.vilabol.uol.com.br/manual.htm ou
através da solicitação via e-mail [email protected]
Proporcionalmente, poucas são as iniciativas que priorizam o bem-estar da
coletividade em detrimento do interesse individual, poucas são as iniciativas semelhantes ao do senhor José Alcino que enaltecem o ser e não o ter.
5. CONCLUSÕES ARTICULADAS
5.1 O homem é um ser que durante toda a sua existência sempre buscou a felicidade, no entanto, apesar de ser social, o homem também é individualista quando
trata de seus interesses e essa característica foi enaltecida pelos valores consumistas que priorizam o ter e desprestigiaram a figura do ser.
5.2 Esse dualismo, o homem se vê forçado a escolher, todavia, nem sempre opta
pela melhor, pois, a cada dia, mais e mais pessoas passam a acreditar que a fe-
8
ALANO, José Alcimo. Manual Sobre a Construção e Instalação do Aquecedor Solar Composto de Embalagens Descartáveis: Lixo Vira Água Quente. Disponível em: http://josealcinoalano.vilabol.uol.com.br/manual.htm. Acesso em 15out.
2006
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licidade está condicionada a capacidade de consumir, entretanto quanto mais se
consome maior é a expectativa de continuar a consumir e diante disto à felicidade
jamais se completa.
5.3 Diante disto, o homem passou a ser o maior problema na preservação do meio
ambiente, pois, a preservação ambiental está diretamente relacionada com a questão
dos valores e, portanto, não há como condenar uma única pessoa, uma única classe,
ou único seguimento ou um único país, afinal, poucos são os homens conscientes, a
imensa maioria está presa nas teias do individualismo consumerista.
5.4 Assim, responsabilizar exclusivamente as empresas sejam elas privadas ou públicas é enfrentar parcialmente o problema, pois é lógico que um empreendimento
é o reflexo daquele que o comanda, no entanto, é certo que a humanidade está
carente de valores que visam à promoção da dignidade humana através do amor,
do respeito, da dedicação e da solidariedade ao próximo.
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A COMPENSAÇÃO FINANCEIRA, NA
MODALIDADE ROYALTIES, POR CONTA
DA CADEIA PRODUTIVA DO ÁLCOOL
COMBUSTÍVEL
ÁLAN RODRIGO BICALHO
Mestrando em Direito Econômico pela Universidade de Marília –
UNIMAR e Advogado e Administrador de Empresas
HERALDO FELIPE DE FARIA FILHO
Mestrando em Direito Econômico pela Universidade de Marília –
UNIMAR e Advogado e Jornalista
PAULO CHIARONI
Mestrando em Direito Econômico pela Universidade de Marília –
UNIMAR e Assessor Jurídico Legislativo
1. INTRODUÇÃO
A alteração do Texto Constitucional realizada pela Emenda Constitucional
nº 9/95 modificou o modelo da atividade petrolífera no Brasil, afinal abriu a oportunidade do setor privado participar da pesquisa, exploração e refino, fato que
marcou a história da exploração do petróleo com reflexos diretos na composição
da matriz energética nacional.
Atualmente, o Art. 177 determina em seus incisos as atividades que constituem monopólio da União a pesquisa, lavra das jazidas de petróleo e gás natural,
refino e transporte de petróleo e derivados. O § 1º do Art. 177 estabelece que referidas atividades podem ser atividades delegadas a empresas estatais ou privadas
cujas condições devem vir estabelecidas em lei. No § 2º, por sua vez, determina
que lei deve dispor sobre a garantia do fornecimento dos derivados de petróleo
em todo o território nacional, condições de contratação, bem como a estrutura e
as atribuições do órgão regulador do monopólio da União.
Nesse contexto, em 6 de agosto de 1997 foi publicada a lei nº 9.478 que dispõe sobre a política energética nacional, a matriz energética nacional, as atividades relativas ao monopólio do petróleo, institui o Conselho Nacional de Política
Energética e a Agência Nacional do Petróleo. O texto ficou conhecido como a Lei
do Petróleo, vez que a preocupação central do legislador foi regular as questões
relacionadas à pesquisa, produção, transporte e fornecimento de petróleo e seus
derivados e de gás natural.
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Acontece que a existência de área para o cultivo de matéria prima, clima favorável, o conhecimento tecnológico, o fato de se tratar de energia renovável, impacto
ambiental reduzido se comparado ao uso de derivados de petróleo ou outra fonte
energética implicou inclusão dos biocombustíveis na matriz energética nacional.
A inclusão dos biocombustíveis na matriz energética nacional feita a partir
da lei nº 11.097/05, que alterou a lei nº 9.478/97, é o reconhecimento do grande
desafio da modernidade que é aliar produção de energia em bases econômicas
com preservação ambiental, tudo aliado à defesa dos interesses nacionais.
O incremento da participação dos biocombustíveis na matriz energética, por
determinação inserta no Art. 1º, XII, da lei nº 9.478/97, deve ocorrer em bases
econômicas, sociais e ambientais. O planejamento estratégico não pode, portanto,
ser dispensado de modo que a produção, distribuição, utilização de tecnologia
adequada, consumo dos biocombustíveis devem ser bem articulados para fomentar a produção econômica e gerar riqueza para o país.
Cumpre, então, analisar os motivos que levaram à inclusão dos biocombustíveis na matriz energética nacional para delinear o tratamento dispensado à exploração desta atividade econômica, em especial da participação financeira dos
Estados, Distrito Federal, Municípios e órgãos da administração direta da União
conforme estabelece o Art. 20, § 1º da Constituição Federal.
2. INCLUSÃO DO BIOCOMBUSTÍVEL NA MATRIZ ENERGÉTICA
Define a lei nº 9.478, de 6 de agosto de 1997, no seu Art. 6º, XXIV, que
biocombustível é o combustível derivado de biomassa renovável para uso em motores a combustão interna ou, conforme regulamento, para outro tipo de geração
de energia, que possa substituir parcial ou totalmente combustíveis de origem
fóssil.
Do gênero biocombustível duas espécies se destacam, o biodiesel e o álcool,
sobretudo o último, feito a partir da cana-de-açúcar, em vista do uso em larga escala no Brasil que será objeto prioritário do presente estudo. O biodiesel, embora
inegável sua importância, não ocupou o espaço que lhe é reservado na matriz
energética por conta da falta de matéria prima necessária à produção em volume
correspondente à demanda.
Para compreender o surgimento do álcool como combustível, necessário fazer um rápido relato histórico, das crises do petróleo de 1973 e 1979 ao surgimento dos motores bicombustíveis.
Segundo Leite, foi a partir da eclosão da Guerra do Yom Kipur em 1973
entre Israel, de um lado, Egito e Síria, de outro, que os países integrantes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo impuseram embargo à exportação
do produto aos países que apoiaram o Estado judeu no conflito. Naquela época
era grande a dependência dos países industrializados em relação ao petróleo importado do Oriente Médio e o Brasil, em pleno período de expansão industrial,
viu-se em grande dificuldade por conta da elevação do valor do barril praticado
pelos países exportadores.
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Não bastasse, em 1979, a instabilidade política no Irã, grande responsável
pelo fornecimento de petróleo para o Ocidente, colaborou para que o preço internacional praticado fosse novamente elevado. Aliado ao aumento significativo do
preço internacional do petróleo, estudos apontavam que os estoques mundiais de
petróleo tendiam ao esgotamento num curto espaço de tempo, sem contar a crescente preocupação relacionada aos problemas ambientais provocados pelo uso de
fontes minerais de energia como o próprio petróleo e o carvão.1
Foi nesse cenário crítico que se impôs a busca de alternativas ao petróleo
fornecido pelos países membros da Organização dos Países Exportadores de
Petróleo. A exploração de bacias no Alasca, Mar do Norte e em Campos, por
exemplo, foi intensificada, a contenção de consumo e a adoção de tecnologias
mais eficientes de produção de energia também fizeram parte das ações dos países
desenvolvidos, ou em desenvolvimento, para minimizar o problema. No Brasil,
foi instituído em 14 de novembro de 1975 por intermédio do Decreto nº 76.593
o Programa Nacional do Álcool como forma de oferecer um combustível líquido
alternativo à gasolina.
Como observa Lima e Marcondes, dentre as diretrizes do Programa destacaram-se: o estabelecimento de preço final do álcool ao fabricante; definição de prazos
máximos para financiamentos de investimento e custeio da produção; definição de
taxas de juros subsidiados para a fase do processo produtivo do álcool; garantia de
compra, pelo Conselho Nacional do Petróleo, de todo o álcool produzido; exigência
de que todo o crédito do Programa seja canalizado para a expansão do financiamento industrial, pesquisas tecnológicas que viabilizem a maior utilização do álcool para fins carburantes, desenvolvimento da produtividade agrícola, dos insumos
requeridos para a produção de álcool; e definição dos agentes financeiros que podiam repassar os recursos originários do Banco do Brasil S.A. para atendimento da
agroindustrial alcooleira, permitindo a agilização do Programa.2
O principal efeito do uso de álcool como substitutivo à gasolina na primeira década do Programa, segundo Leite, foi reduzir a importação do petróleo, o
que propiciou economia de divisas para o país, melhorando a situação da balança
comercial, justamente num período em que o preço do barril atingiu níveis elevados.3
Aspectos relevantes como o desenvolvimento de tecnologia de produção
e distribuição do álcool, de tecnologia aplicada aos veículos, de capacitação de
mão-de-obra, melhoria de equipamentos, tudo foi determinante ao surgimento de
importante cadeia produtiva no Brasil. Inegável o sucesso do Pró-Álcool, primeiro como aditivo à gasolina e, depois, como combustível de veículos movidos exclusivamente a álcool, tanto que em meados da década de 80 quase toda produção
automobilística era de motores movidos a álcool.
1
LEITE, Rógério de Cerqueira. Pró-Álcool – A única alternativa pra o futuro. Campinas: Editora da Unicamp, 1990, p.
15/16.
2
LIMA, Léo da Rocha e MARCONDES, Aluízio de Abreu. Álcool Carburante – Uma estratégia brasileira. Curitiba:
Editora da UFPR, 2002, p. 54.
3
Ob cit. p. 25/26.
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12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
Justamente por conta do aumento do número de veículos produzidos e da
conseqüente elevação do consumo, a produção se tornou insuficiente o que exigiu
a importação do produto. Esse fato causou uma crise de desconfiança e as montadoras tornaram a fazer automóvel a gasolina. Aliado a isso, o preço do petróleo
praticado no mercado internacional caiu e os recursos públicos para subsidiar a
produção do álcool diminuíram, o que colaborou para que o Pró-Álcool entrasse
em colapso.
Em 1998, como forma de estimular o álcool combustível, elevou-se o percentual de adição de álcool à gasolina por meio da medida provisória nº 1.662. O
motivo da alteração estava baseado em questões ambientais, afinal visava a modificar artigo da lei nº 8.723, de 28 de outubro de 1993, que dispõe sobre a redução
de emissão de poluentes por veículos automotores. A utilização do álcool como
aditivo reduz a quantidade de substâncias poluentes na atmosfera, daí porque o
incentivo.
Esta mistura de gasolina e álcool forçou a indústria a desenvolver tecnologia aplicada aos motores à explosão, surgindo em 2003 os primeiros automóveis
bicombustíveis, gasolina e álcool, fato esse que conquistou os consumidores. A
aceitação foi excelente e em 2006 a participação dessa nova tecnologia já dominava o mercado automobilístico. Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de
Veículos Automotores a produção e comercialização de veículos bicombustíveis
representam 77% do mercado e já atingiu 2 milhões de unidades.4
Importa notar que, ao contrário do início do Pró-Álcool, onde havia incentivo do poder público, o veículo bicombustível foi desenvolvido apenas pela iniciativa privada. Isso fez surgir uma forte produção agrícola de cana-de-açúcar,
produção do álcool, passando pelo setor de equipamentos para as usinas até a
distribuição do combustível. O beneficio gerado a balança comercial com a redução da necessidade de petróleo, a ampliação o mercado de trabalho por conta da
criação de novos empregos, a opção de escolha do combustível pelo consumidor
e os ganhos ambientais são significativos para o País.
Além da tecnologia de produção de álcool combustível, o Brasil dispõe de
conhecimento de produção de biodiesel substituto do óleo diesel derivado do petróleo, fato este que despertou o desejo do poder público em incentivar a produção
deste. Assim, em 13 de setembro de 2004 foi publicada a medida provisória nº
214 para alterar a lei nº 9.478, de 6 de agosto de 1997, e introduzir o biodiesel na
matriz energética nacional.
Iniciada a tramitação legislativa na Câmara dos Deputados, sem que o álcool
combustível tivesse sido contemplado no texto encaminhado pelo Presidente da
República, dezoito emendas foram apresentadas. Segundo o relatório elaborado
pelo Deputado Carlos Alberto Rosado, as primeiras sete emendas parlamentares
objetivavam alterar um texto que tratava exclusivamente do biodiesel.5
4
Fonte: site ANFAVEA em 31.07.2007 - www.anfavea.com.br/noticias/flexfuel.html.
Fonte: site Câmara dos Deputados em 31.07.2007 – http://imagem.camara.gov.br/Imagem/p/2004/014/MPV000214/
P002000018.tif.
5
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251
A partir da emenda nº 8, de autoria do Deputado José Carlos Aleluia, que
propôs alteração da competência da Agência Nacional do Petróleo para regular
e autorizar as atividades relacionadas ao álcool etílico combustível, este aspecto
passou a integrar a discussão da propositura.6
Na justificativa da emenda nº 9, a autora Deputada Mariângela Duarte, ao
tratar das atividades abrangidas pelo abastecimento nacional de combustíveis,
sustenta que biodiesel e álcool etílico combustível devem receber idêntico tratamento em termos de regulamentação.7
As emendas nº 11 e 13, ambas de autoria do Deputado João Herrmann Neto,
propõe que o diesel e o álcool etílico combustível tenham igual tratamento.8
Na emenda nº 17 o mesmo parlamentar João Herrmann Neto pretende que
a agência reguladora implante a Política Nacional para Combustíveis tanto que
em sua justificativa sustenta que o tratamento igualitário dado aos combustíveis
implica criação de milhares de empregos, investimento em pesquisa, incremento
das exportações, desenvolvimento de tecnologia e melhoria econômica e social
para a população.9
O projeto de lei de conversão nº 60, de 2004, oriundo da medida provisória nº 214, foi encaminhado da Câmara dos Deputados ao Senado Federal, onde
foram apresentadas mais seis emendas, todavia a isonomia de tratamento do biodiesel e do álcool combustível não foi alterada, aliás, restou consolidada. Assim,
embora a medida provisória nº 214 pretendesse incluir somente o biodiesel na
matriz energética, o fato é que depois da tramitação legislativa a lei aprovada, lei
nº 11.097, publicada em 13 de janeiro de 2005, terminou por incluir também o
álcool combustível na matriz energética. A vontade do legislador de tratar estas
espécies de biocombustíveis de maneira igual, não só entre eles, mas destes com
os demais integrantes como o petróleo e seus derivados, gás natural e energia
elétrica é manifesta.
Após as modificações trazidas pela lei nº 11.097/05, a lei nº 9.478/97 que dispõe sobre a Política Energética Nacional estendeu seus objetivos, afinal o acréscimo
do inciso XII ao Art. 1º incluiu o incremento da participação dos biocombustíveis
na matriz energética nacional. Subjacente, a agência reguladora do setor passou a
regular a indústria do petróleo, gás natural, seus derivados e biocombustíveis, tanto
que seu nome restou alterado para Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. Este fato exige, portanto, que o tratamento dado à produção de petróleo e gás natural e seus derivados, bem como a energia elétrica produzida a partir de
recursos hídricos não pode ser diferenciado da produção de biocombustíveis.
Assim, importa analisar as características da produção de petróleo e gás
natural e derivados para aplicação também à produção do álcool combustível,
6
Ob.cit. http://imagem.camara.gov.br/Imagem/p/2004/014/MPV000214/P000900001.tif.
Ob.cit. http://imagem.camara.gov.br/Imagem/p/2004/014/MPV000214/P000100001.tif.
8
Ob.cit. http://imagem.camara.gov.br/Imagem/p/2004/014/MPV000214/P001200001.tif. e http://imagem.camara.gov.br/
Imagem/p/2004/014/MPV000214/P001400001.tf.
9
Fonte: site Câmara dos Deputados em 31.07.2007 – http://imagem.camara.gov.br/Imagem/p/2004/014/MPV000214/
P001200001.tif.
7
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focando a análise no instituto da participação financeira prevista no Art. 20, § 1º,
da Constituição Federal.
3. ÁLCOOL COMBUSTÍVEL E PARTICIPAÇÃO FINANCEIRA
Como visto, a publicação da lei nº 11.097 em 13 de janeiro de 2005 marcou
definitivamente a política energética nacional disposta na lei 9.478/97, pois introduziu no rol dos princípios e objetivos para aproveitamento racional das fontes de
energia, o incremento, em bases econômicas, sociais e ambientais, a participação
dos biocombustíveis na matriz energética nacional.
Assim, os instrumentos elencados na lei nº 9.478/97 relacionados à exploração e produção de combustíveis integrantes da matriz energética nacional devem
ser aplicados na cadeia produtiva do álcool. Não importa analisar se a produção de
biocombustível é monopólio da União, mas sim fixar o entendimento de que eles
fazem parte da matriz energética nacional e que os instrumentos programáticos,
de regulação, fiscalização e de intervenção do Estado são aplicados na sua cadeia
produtiva.
O capítulo V da lei 9.478/97 cuida da exploração e produção do petróleo e
do gás natural sobretudo do contrato de concessão que possui, dentre outras características, as participações governamentais. Estas, cujas espécies estão arroladas
no Art. 45, bônus de assinatura, royalties, participação especial e pagamento pela
ocupação ou retenção de área, devem incidir também na cadeia produtiva do álcool combustível, muito embora desnecessário o contrato de concessão.
Para chegar a essa conclusão, antes é preciso analisar o aspecto constitucional da matéria e, depois, o decreto nº 2.705, de 3 de agosto de 1998, que define
espécies, critérios para cálculo e cobrança das participações governamentais aplicáveis às atividades de exploração, desenvolvimento e produção de petróleo e gás
natural.
Importa ressaltar que o Art. 20, § 1º, visa a assegurar aos Estados, Distrito
Federal, Municípios e aos órgãos da administração direta da União participação
financeira em atividades que envolvam bens públicos na sua cadeia produtiva,
cuja exploração provoca prejuízo ambiental e tem duplo objetivo não necessariamente concomitante: produção de energia e bens essenciais ao processo de
industrialização.
Tocante à exploração de petróleo, gás natural e dos recursos hídricos, verifica-se que envolve bens públicos, há prejuízos ambientais e o objetivo é produzir
energia que permita o desenvolvimento das atividades econômicas. Acontece que
do mesmo petróleo de onde se extrai gasolina e óleo diesel, energia, também se
obtém vários subprodutos essenciais ao processo de industrialização, exatamente
como acontece com a exploração de minérios, daí porque o dispositivo constitucional abarcar também essas atividades.
Vale destacar, ainda, que o dispositivo constitucional amplia, segundo Harada, a necessidade de compensação, não só à União, mas também aos Estados,
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Distrito Federal e Municípios, pois os prejuízos são experimentados por todos em
razão de sua natureza difusa.10
No que diz respeito ao álcool, tem-se que a exploração dessa atividade econômica se amolda à hipótese de produção de energia em razão do produto final,
combustível. Sobre a existência dos demais requisitos, verifica-se que há o uso
de bens públicos, do meio ambiente, natural e construído, e que este sofre danos
significativos. Assim, diante de tais características, constata-se que a exploração
da atividade alcooleira é semelhante à da exploração do petróleo, gás natural e dos
recursos hídricos para fins de geração de energia elétrica.
Situações semelhantes implicam, segundo Bonavides, mesma interpretação
da norma jurídica. Se essa norma jurídica determina a participação no resultado
da exploração ou compensação financeira no caso do petróleo, gás natural e recursos hídricos para produção de energia e de outros recursos minerais, necessário
concluir pela aplicação desses institutos na exploração do álcool combustível.11
O objeto de análise do intérprete da norma jurídica inserta no Art. 20, § 1º,
em princípio, alcança a exploração do petróleo, gás natural, recursos hídricos para
fins de produção de energia e outros minerais; entretanto, a produção do álcool
combustível aumentou significativamente na última década, o cultivo da cana-deaçúcar ocupou extensas áreas, multiplicou o número de indústrias de transformação, o produto conquistou o consumidor, agradou os ambientalistas, criou postos
de trabalho a ponto dos biocombustíveis serem incluídos na matriz energética
nacional por meio da lei nº 11.097 em 13 de janeiros de 2005. O cenário mudou
e o trabalho do intérprete, conforme esclarece Barroso, deve acompanhar esta
evolução.12
Não há como ocultar o fato de que o álcool combustível ocupa no Brasil
espaço importante na área de produção de energia tanto que despertou, inclusive,
interesse da comunidade internacional. A colaboração do álcool para a independência energética é estratégica para o desenvolvimento do país, vez que diminui a
exposição aos riscos provocados por instabilidades políticas, econômicas e sociais
nas mais diversas partes do mundo; aliado a isso, o combustível produzido a partir
da biomassa implica ganhos sob o ponto de vista ambiental, pois emite quantidade
muito menor de carbono na atmosfera se comparado ao de origem fóssil.
Isso coloca a exploração do álcool combustível na mesma condição do petróleo, gás natural, carvão mineral e recursos hídricos para fins de produção de
energia elétrica de modo que a interpretação da norma contida no Art. 20, § 1º, da
Constituição Federal não pode excluí-la sob o simples fundamento de que não há
previsão expressa. O formalismo não pode se sobrepuser à realidade.
A dinâmica das relações econômicas, sociais e políticas decorrentes da exploração do álcool combustível fizeram com que um dado novo viesse a participar
do exercício intelectual de interpretação do Art. 20, § 1º. A análise jurídica dos
10
HARADA, Kiyoshi. Direito Financeiro e Tributário. 15ª ed. São Paulo: Atlas, 2006, p. 77.
BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. 18ª ed. São Paulo: Malheiros, 2006, p. 481.
12
BARROSO, Luis Roberto – Organizador. A Nova Interpretação Constitucional – Ponderações, Direitos Fundamentais e
Relações Privadas. 2ª ed. Revista e atualizada. Rio de Janeiro – São Paulo – Recife: Renovar, 2006, p. 3.
11
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institutos da participação no resultado e da compensação financeira deve refletir
as condições de tempo e espaço dessas relações, mais ainda depois da inclusão do
álcool combustível na matriz energética nacional.
O avanço do álcool na última década foi avassalador, de aditivo à gasolina
passou, com a adoção da tecnologia dos motores bicombustíveis, substituindo o
combustível derivado do petróleo. Os olhos do mundo se voltaram para o Brasil
por conta do álcool proveniente de biomassa, renovável e com menor impacto
ambiental. O cultivo da cana-de-açúcar alterou o retrato do interior do país, em
especial das regiões sudeste e nordeste, substituindo culturas tradicionais. O
mercado de trabalho criou novos ofícios voltados para o setor canavieiro, da
agricultura, passando pela indústria de transformação até a prestação de serviços, enfim toda uma cadeia produtiva restou consolidada. Esses fatores mobilizaram a comunidade política brasileira que, em 2005, por meio da lei nº 11.097,
promoveu a inclusão dos biocombustíveis na matriz energética nacional. Esta é
a situação atual.
Posto isso e por guardar semelhança com a exploração do petróleo, gás natural, recursos hídricos para produção de energia elétrica, o disposto no Art. 20,
§ 1º, deve ser interpretado de modo a abranger também a exploração do álcool,
autorizando a incidência dos institutos da participação no resultado e da compensação financeira aos Estados, Distrito Federal, Municípios, bem como aos órgãos
da administração direta da União.
Os argumentos que comprovam a semelhança entre a exploração do petróleo, gás natural e de recursos hídricos para produção de energia elétrica e a exploração do álcool combustível permitem a incidência da participação no resultado
e da compensação financeira para ressarcir os Estados, Distrito Federal, Municípios e órgãos da administração direta da União pelos danos provocados aos bens
públicos. Existe um vínculo razoável entre os motivos, os meios e os fins que
justifica futura lei que estabeleça a obrigação dos entes federativos participarem
do resultado ou serem compensados financeiramente por aqueles que exploram a
atividade econômica de produção de álcool combustível.
Tocante ao decreto nº 2.705, de 3 de agosto de 1998, o Art. 3º, III, define participações governamentais como sendo pagamentos a serem realizados pelos concessionários de atividade de exploração e produção de petróleo e de gás natural.
Forçoso analisar as características das espécies de participação governamental para verificar se sua existência está vinculada a do contrato de concessão ou,
por ser mais abrangente, dele independe e deve ser aplicado da produção do biocombustível.
Das quatro espécies de participação governamental existentes, pode-se destacar um duplo aspecto: primeiro e intrínseco ao contrato de concessão, de remuneração do agente regulador nos casos do bônus de assinatura e do pagamento
pela ocupação ou retenção de área e; segundo e independente do contrato de concessão, de contraprestação pelo uso intensivo dos bens públicos nas hipóteses de
royalties e participação especial.
Os royalties são valores devidos pelos concessionários de exploração e produção de petróleo ou gás natural, em montante correspondente de 5% a 10% da
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produção, recolhidos mensalmente e o montante arrecadado é repartido entre os
entes federados.
Os royalties constituem, portanto, nas lições de Santos, contraprestação por
conta dos prejuízos causados ao meio ambiente, bem de uso comum do povo nos
termos do Art. 225 da Constituição Federal, afinal a exploração da atividade econômica implica danos aos recursos naturais e construídos.13
O pagamento desta participação financeira independe do contrato de concessão, afinal seu fundamento não está a ele atrelado, mas sim aos prejuízos causados
ao meio ambiente, bem público em sentido amplo. Não bastassem os danos ambientais, os Municípios, Estados e União devem fiscalizar direta ou indiretamente
a atividade, cuidar de sua segurança e, ainda, fomentar as pesquisas visando à
melhoria da atividade.
Com efeito, a participação especial tem a mesma natureza dos royalties, de
contraprestação ambiental ampla, diferindo apenas quanto ao aspecto da ocorrência de produção elevada ou aumento do valor do produto, situação ligada mais a
elemento aleatório, imponderável, afinal o pagamento ocorre nessas duas situações excepcionais.
Com respeito à cadeia de produção do álcool combustível, verifica-se que
o prejuízo ambiental é tão grande quanto à exploração do petróleo, gás natural
e dos recursos hídricos para fins de produção de energia elétrica ainda mais se
considerada a matéria prima utilizada para sua produção. O álcool produzido a
partir da cana-de-açúcar, cuja importância para o país é notória, causa enorme
prejuízo ambiental, muito além da fuligem resultante da queimada e esgotamento
dos recursos hídricos, pois sua cadeia produtiva provoca danos ao sistema viário, à
rede de saúde, à rede de ensino, às relações de trabalho, à rede de proteção social,
sendo que todos os problemas devem ser resolvidos pela Administração Pública.
Enfim, a participação governamental, nas modalidades royalties e participação especial, por sua natureza, podem e devem ser aplicadas na cadeia produtiva
do álcool, sendo certo que, os entes federativos que participam do processo devem
ser ressarcidos financeiramente, independente da existência do contrato de concessão próprio da exploração de petróleo e gás natural.
Sensível às características da cadeia produtiva do álcool, aos problemas relacionados ao cultivo intensivo da cana-de-açúcar, transporte de matéria-prima
para usinas de transformação, distribuição de combustível no território nacional
e aos reflexos da comercialização do álcool no mercado internacional, foi apresentado na Câmara dos Deputados, em junho de 2007, projeto de lei de autoria do
Deputado Márcio França objetivando a criação de um programa de certificação
do produto para garantia de sua qualidade e, o que é foco da presente pesquisa,
estabelecer a incidência de participação financeira, na modalidade royalties, sobre
o resultado econômico desta atividade, partilhando os recursos entre os entes da
federação.
13
SANTOS, Sérgio Honorato dos. Royalties do Petróleo à Luz do Direito Positivo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Esplanada, 2002,
p. 84.
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12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
4. PROJETO LEI, PARTICIPAÇÃO GOVERNAMENTAL E ÁLCOOL
Com efeito, os pressupostos para a incidência da participação financeira na
cadeia produtiva do álcool combustível estão presentes, restando necessária lei
para definir a forma, fixar os critérios e estabelecer os valores respectivos.
Nesse passo, em 12 de junho de 2007, portanto bem recente, foi apresentado
no Plenário na Câmara dos Deputados projeto de lei registrado sob o nº 1299/2007,
de autoria do Deputado Márcio França, visando a estabelecer programa de certificação para o etanol e a participação governamental sobre sua produção. Ato
contínuo, a Mesa Diretora determinou em 28 de junho de 2007 o encaminhamento
da propositura às Comissões de Minas e Energia, Desenvolvimento Econômico,
Indústria e Comércio, Finanças e Tributação e Constituição e Justiça. Por ora, a
proposição tramita perante a Comissão de Minas e Energia, restando designado
relator o Deputado Arnaldo Jardim.14
O objetivo do projeto é certificar a padronização, qualidade e sustentabilidade da produção do álcool combustível e, subjacente, a incidência da participação
financeira, na modalidade royalties, na ordem de 5% do valor da produção, cujo
recolhimento será feito pelas usinas.
Sobre a certificação, o projeto estabelece como condições para sua obtenção
a obediência às relações de trabalho, à defesa do meio ambiente e do consumidor
em toda cadeia produtiva do álcool, abrangendo, portanto, desde as atividades
desenvolvidas no campo, na produção agrícola, até a bomba nos postos de abastecimento. Tais condições guardam respeito aos princípios constitucionais arrolados no Art. 170 e, mais específicas, aos objetivos elencados no Art. da lei nº
9.478/97.
A certificação atesta a qualidade do sistema, processo, produto ou serviço, revelando ao consumidor o atendimento a padrões mínimos. Isso induz os
fornecedores ao aperfeiçoamento, pois, em tempos de economia globalizada, a
certificação do álcool combustível, especificamente, permite que os consumidores externos tenham segurança para adquirir o produto, fato este que pode incrementar as exportações e ajudar na balança comercial brasileira. Aliás, é cada vez
mais usual a certificação de produtos e serviços relacionados à saúde, segurança
e meio ambiente.
Tocante à participação financeira na modalidade royalties, a propositura fixa
o percentual de 5% sobre o valor da produção do álcool combustível e como deve
acontecer a partilha dos recursos entre os Estados, Municípios e órgão da administração direta. Pois bem, o percentual inserto no projeto a ser aplicado sobre a
produção de álcool combustível é próximo daquilo praticado na cadeia produtiva
do petróleo, assim como aproximado é o critério de repartição dos recursos entre
os Estados, Municípios e do Ministério da Ciência e Tecnologia.
14
Fonte: site da Câmara dos Deputados em 04.09.2007 - http://www2.camara.gov.br/proposicoes/loadFrame.
html?link=http://www.camara.gov.br/internet/sileg/prop_lista.asp?fMode=1&btnPesquisar=OK&Ano=2007&Numero=1
299&sigla=PL
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Diante da argumentação desenvolvida ao longo deste artigo, verifica-se que
a propositura cuida de assunto de extrema importância, cujo objetivo pode corrigir
grave distorção com relação à produção de energia no País. O petróleo, gás natural
e recursos hídricos para fins de produção de energia elétrica possuem tratamento
diferenciado se comparado ao álcool combustível, pois os prejuízos causados aos
Estados, Municípios, Distrito Federal e órgãos da administração direta da União
são compensados financeiramente na primeira hipótese, mas não são na segunda.
A utilização intensiva de recursos naturais e construídos, bem como a sobrecarga dos serviços públicos deve ser compensada, tanto na exploração do petróleo, gás natural e dos recursos hídricos para produção de energia elétrica, como na
cadeia produtiva do álcool combustível. Os danos causados exigem o pagamento
de contraprestação para realização de políticas públicas que minimizem os problemas sofridos pela população que habitam as regiões em que ocorrem as atividades
dessas cadeias produtivas.
5. CONCLUSÕES ARTICULADAS
5.1 Indiscutível o prejuízo que o cultivo de cana-de-açúcar e sua transformação
em álcool combustível nas usinas provocam. São danos causados pelo cultivo
intensivo que exige de forma exagerada dos recursos naturais; são as queimadas,
o esgotamento do solo e dos recursos hídricos, são os prejuízos à infra-estrutura
urbana com a destruição do sistema viário, rede pública de saúde, rede pública de
ensino e maiores exigências da rede de assistência social.
5.2 A seu turno, importa verificar que a incidência do instituto da compensação financeira na produção de álcool combustível também está contemplada na
Constituição Federal, falta, apenas, a regulamentação necessária à incidência da
compensação financeira aos entes da federação e órgãos da administração direta
da União.
5.3 A aprovação do projeto de lei em tramitação na Câmara dos Deputados deve
solucionar esta situação, permitindo, por meio do pagamento de royalties, o ressarcimento dos prejuízos suportados pelos entes públicos.
5.4 Os problemas ambientais, sociais e econômicos causados aos entes públicos
serão minimizados com a receita proveniente do pagamento de royalties, afinal
financiarão políticas para melhorar as condições de vida da população residente
nas áreas em que existam atividades da cadeia produtiva do álcool combustível.
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O ESTATUTO DA CIDADE E O PLANO
NACIONAL DE GERENCIAMENTO COSTEIRO:
PRESSUPOSTOS PARA A GESTÃO
AMBIENTAL E PARTICIPATIVA DAS CIDADES
LITORÂNEAS SUSTENTÁVEIS
ANA CLARICE SARNÍCOLA PIRES
Graduanda do curso de Direito da Universidade
do Vale do Itajaí/UNIVALI
RAFAEL BURLANI
Doutorando em Gestão do Conhecimento da
Sustentabiliade – EGC/UFSC e Coordenador do Curso de
Pós-graduação em Direito Ambiental da UNIVALI
1. INTRODUÇÃO
O crescimento desordenado das cidades nas áreas litorâneas origina uma
série de problemas que ameaçam o equilíbrio ambiental e em conseqüência, a
qualidade de vida das populações ribeirinhas. Surge, então, a necessidade de harmonizar os instrumentos jurídicos de gestão urbana com os que tutelam o meio
ambiente da zona costeira. A análise da possível implicação de uns e outros, motiva a discussão de perspectivas jurídicas e científicas que possam contribuir para
a efetiva aplicação das normas legais.
Os fundamentos da política urbana brasileira estão definidos na Lei n.
10.257/2001 (Estatuto da Cidade), que visa promover a ordenação do uso e ocupação do solo urbano em prol do bem coletivo.
Por sua vez, a Lei n. 7661/1988 dispõe que o plano nacional de gerenciamento costeiro seja elaborado observando as normas que contemplem aspectos
referentes à urbanização; uso e ocupação do solo e das águas; habitação e saneamento básico; recreação, lazer e patrimônio natural, histórico, étnico, cultural e
paisagístico (art. 5º).
Nessa perspectiva, a pesquisa tem como objetivo principal a analise do Estatuto da Cidade e dos Planos de Gerenciamento Costeiro, como pressupostos
para a gestão ambiental e participativa nas cidades litorâneas sustentáveis.
O primeiro capítulo trata do meio ambiente costeiro, através da análise da
Lei 7661/1988 e do Dec.5300/2004, destacando seus principais aspectos em função do tema em analise. Assim, aborda-se a caracterização, definição e delimitação da zona costeira, bem como do gerenciamento costeiro.
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O segundo capítulo versa sobre a lei 10.257/2001 (Estatuto da Cidade), considerado o mais importante instrumento regulador do meio ambiente artificial.
Dada à pertinência, se enfoca o plano diretor, conteúdo e obrigatoriedade.
Esses capítulos são as bases para a continuação do estudo, uma vez que a resolução das diversas questões jurídicas abordadas na pesquisa será fundamentada
nas Leis 7661/1998 e 10.257/2001.
O terceiro capítulo é o de maior relevância, pois é onde se debatem as diretrizes gerais, os objetivos e instrumentos do estatuto da cidade e do plano de
gerenciamento costeiro, abordando em específico os possíveis reflexos nos Planos
Diretores dos municípios.
O método utilizado no trabalho foi o dedutivo tendo como técnicas de pesquisa a referência bibliográfica e documental e o uso de categorias conceituais.
2. O MEIO AMBIENTE COSTEIRO
2.1 Caracterização do Meio Ambiente Costeiro
A zona costeira constitui um dos mais importantes biomas brasileiros e
está composta de múltiplos e ricos ecossistemas. Entende-se por bioma “o amplo
conjunto de ecossistemas, caracterizados por tipos fisionômicos semelhantes de
vegetação com diferentes tipos climáticos”1. O Meio Ambiente Costeiro apresenta, segundo Milaré uma “função ecológica de transição entre os ecossistemas
continentais e os marinhos num espaço em que os biomas são ricos de recursos
alimentares e paisagísticos”2.
Nas regiões litorâneas brasileiras estabeleceram-se os primeiros núcleos de
colonização. Como conseqüência dos diferentes tipos de ocupação desordenada
do espaço e das atividades produtivas prejudiciais à qualidade ambiental, a zona
costeira apresenta altos índices de poluição e degradação3.
2.2 Definição e delimitação da Zona Costeira
A expressão zona costeira designa a línea de contato entre a terra e o mar,
também denominada litoral, costa e orla marítima. Como lembra Mariana Almeida Passos de Freitas é preferível usar a expressão Zona Costeira por ser mais
abrangente e genérica4.
Todavia, é importante destacar a presença os conceitos jurídicos de mar territorial e plataforma continental, regiões estas que se encontram na zona costeira. A
Lei 8.617/1993 os define, o primeiro em seu art. 1º e o segundo em seu art. 11.
1
MILARÉ, Edis. Direito do ambiente: doutrina, jurisprudência, glossário / Edis Milaré. 5 ed. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2007 p.1229.
2
MILARÉ, Edis. Direito do ambiente: doutrina, jurisprudência, glossário / Edis Milaré. 5 ed. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2007, p.630.
3
MILARÉ, Edis. Direito do ambiente: doutrina, jurisprudência, glossário / Edis Milaré. 5 ed. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2007, p.630.
4
FREITAS, Mariana Almeida Passos de. Zona Costeira e Meio Ambiente. Curitiba: Juruá, 2005, p. 22.
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Nos termos do artigo 20, VI da Constituição Federal, o mar territorial é reconhecido como bem pertencente à União. Porém Mariana Almeida Passos de
Freitas citando Celso Ribeiro Bastos adverte que “a soberania exercida no mar
territorial encontra limites na ordem jurídica internacional”5.
O que diz respeito à delimitação e definição da zona costeira, tal é prevista
no plano de gerenciamento costeiro
No art. 4º do Dec. Federal 5300/04, podem se considera municípios pertencentes à zona costeira não só os ligados diretamente ao mar como também aqueles
que dele dependem ou como ele possuem alguma forma de relação.
A zona costeira brasileira possui aproximadamente 8.500 km. e nesta faixa
concentra-se um quarto da população distribuída em 500 Municípios6. As atividades econômicas costeiras são responsáveis por aproximadamente um 70% do
PIB nacional, devido principalmente à existência de portos que escoam grande
parte da exportação7. No litoral encontram-se a maioria das metrópoles, cidades
de meio porte e pequenos Municípios e vilas.
2.3 Problemática da Zona Costeira
Por ser a zona costeira um espaço com tanta diversidade torna-se mais atraente e vulnerável do que as outras regiões, o que propicia o surgimento de problemas que podem comprometer a sua preservação.
As atividades de explorações dos recursos marinhos sem o devido cuidado podem levar a degradação do meio ambiente como observa Mariana Almeida
Passos8. Também as atividades derivadas da navegação e da existência de portos
podem afetar os ecossistemas oceânicos. Nesse sentido alerta Cíntia Maria Afonso: “É, dessa forma, fácil identificar a importância das regiões costeiras, concentradoras de intensa atividade biológica, e a vulnerabilidade às intensas atividades
humanas, vinculadas a estas”9.
O turismo é uma das principais atividades econômicas das cidades litorâneas. Embora muitas vezes possa apresentar reflexos negativos na área imobiliária
devido a que “a expansão dos loteamentos e a crescente demanda de áreas disponíveis favorece o surgimento de construções irregulares, muitas vezes realizadas
sem a devida autorização do Poder Público”10. O crescimento descontrolado e
desordenado das cidades costeiras multiplica os problemas sociais e ambientais.
Outro aspecto importante e que deve ser protegido como parte do meio
ambiente é a paisagem da região costeira. Em relação a este ponto é oportuno
destacar as palavras de Mariana de Almeida Passos, “merece censura o que vem
5
FREITAS, Mariana Almeida Passos de. Zona Costeira e Meio Ambiente. Curitiba: Juruá, 2005 p.23.
FREITAS, Mariana Almeida Passos de. Zona Costeira e Meio Ambiente. Curitiba: Juruá, 2005p. 25.
7
FREITAS, Mariana Almeida Passos de. Zona Costeira e Meio Ambiente. Curitiba: Juruá, 2005 p. 26.
8
FREITAS, Mariana Almeida Passos de. Zona Costeira e Meio Ambiente. Curitiba: Juruá, 2005 p. 26.
9
AFONSO, Cintia Maria. Uso e ocupação do solo na zona costeira do Estado de São Paulo: uma análise ambiental. São
Paulo: FAPESP, 1999. p.11.
10
FREITAS, Mariana Almeida Passos de. Zona Costeira e Meio Ambiente. Curitiba: Juruá, 2005 p. 27.
6
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ocorrendo no litoral na maioria das cidades medias ou grandes nas quais prédios
enormes por toda a orla tornam a vista da praia e da beleza natural um privilegio
dos poucos que melhor conseguem tirar proveito da especulação imobiliária11.
Segundo Cíntia Maria Afonso são três os principais aspectos que devem ser
considerados no meio ambiente costeiro: o natural que compreende os recursos
abióticos e bióticos; o sócio-econômico que compreendem os campos econômico,
político-administrativo, sociodemográfico e sociocultural, e o uso do solo composto das áreas naturais, seminaturais, rurais e urbanas12.
2.4 O Plano de Gerenciamento Costeiro: Lei 7661/1988 e Dec. Federal 5300/2004
O plano nacional de gerenciamento costeiro - PNGC foi instituído pela Lei
7661/1988, com a finalidade de proporcionar diretrizes para o desenvolvimento
das atividades econômicas e turísticas visando à proteção de valores ambientais,
culturais, patrimoniais e históricos da zona costeira. Seu objetivo encontra-se estabelecido no artigo 2º da referida Lei: “O PNGC visará especificamente a orientar a utilização racional dos recursos na zona costeira, de forma a contribuir para
elevar a qualidade da vida de sua população, e a proteção do seu patrimônio natural, histórico, étnico e cultural”. Da leitura do artigo destaca-se uma primeira
conclusão, o PNGC não só estabelece normas relativas ao meio ambiente natural
como também contempla o meio ambiente artificial e cultural13.
Segundo Paulo Affonso Leme Machado, são “elogiáveis as finalidades do
plano que objetivam dirigir o futuro do litoral através do conhecimento dos problemas do presente”14. O autor assinala que o PNGC, em virtude do artigo 2º, caput da Lei 6.938/1981, subordina-se aos princípios genéricos da política nacional
do meio ambiente15. Esses princípios visam assegurar condições ao desenvolvimento sócio-econômico, aos interesses da segurança nacional e a proteção da dignidade humana. Ainda no exame do PNGC, Paulo Affonso Leme Machado indica
que o mesmo poderá estabelecer “limitações à utilização de imóveis” conforme o
artigo 5º, parágrafo 2º da Lei 7661/1988. Procura-se, mediante este instrumento à
prevenção de danos ambientais e culturais da zona costeira16.
Também Mariana Almeida Passos de Freitas observa que o PNGC procura
instituir “uma proteção sócio-ambiental da zona costeira, tratando conjuntamente
as questões ambientais com as culturais e as sociais e levando em conta o ser humano, uma vez que ele interage diretamente com o ambiente natural”17.
Contudo, a Lei 7.661/1988 e o plano por ela instituído apresentam algumas
lacunas a serem futuramente corrigidas. Ao respeito, Paulo Affonso Leme Ma-
11
FREITAS, Mariana Almeida Passos de. Zona Costeira e Meio Ambiente. Curitiba: Juruá, 2005 p. 31.
AFONSO, Cintia Maria. Uso e ocupação do solo na zona costeira do Estado de São Paulo: uma análise ambiental. São
Paulo: FAPESP, 1999, p. 48.
13
FREITAS, Mariana Almeida Passos de. Zona Costeira e Meio Ambiente. Curitiba: Juruá, 2005 p. 47.
14
MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. 14 ed. São Paulo: Malheiros, 2006, p.887.
15
MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. 14 ed. São Paulo: Malheiros, 2006, p.887.
16
MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. 14 ed. São Paulo: Malheiros, 2006, p.887.
17
FREITAS, Mariana Almeida Passos de. Zona Costeira e Meio Ambiente. Curitiba: Juruá, 2005, p.47
12
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chado critica que faltou “um posicionamento explícito sobre questões complexas
como exploração do solo e do subsolo, exploração de recursos minerais ou atividades para obtenção de petróleo” 18, entre outras. No mesmo sentido manifesta-se
Mariana Almeida Passos de Freitas que acrescenta que o PNGC não estabeleceu
“limites para o aproveitamento de imóveis”19.
O Dec. 5.300/2004 veio regulamentar a Lei 7661/1988 ao estabelecer regras de uso e ocupação da zona costeira, bem como critérios de gestão da orla
marítima e normas e diretrizes para sua execução pelos Estados e Municípios. O
decreto traz importantes contribuições. Entre essas cabe citar “a delimitação da
zona costeira, com o que ficou devidamente assentado o que vem a ser essa zona,
bem como a faixa marítima e a faixa terrestre”20.
Um aspecto importante do decreto é o enquadramento da orla marítima em
três classes genéricas de acordo com suas características físicas e sócio-ambientais. A tais efeitos definem-se estratégias de ação e formas de uso e ocupação
(arts. 25, 26 e 27 do Dec. 5300/2004).
Os Estados e Municípios também poderão instituir Planos Estaduais e
Municipais de Gerenciamento Costeiro, conforme o art. 5º, parágrafo 1º da Lei
7661/1988. Como esclarece Mariana Almeida Passos de Freitas, “fica evidente a existência de competência concorrente dos entes da Federação para legislar acerca do meio ambiente, conforme determina o artigo 24, inc. VI, da nossa
Constituição”21. A participação dos Estados e Municípios é muito importante devido ao conhecimento que estes têm da sua costa e de seus problemas ambientais.
Nesse sentido são oportunas as palavras de José Afonso da Silva: “[...] o envolvimento de estados e Municípios da orla marítima nas malhas do planejamento da
Zona Costeira, por certo, ajudará sua eficácia e aplicabilidade”22.
3. O ESTATUTO DA CIDADE E A GESTÃO AMBIENTAL
3.1 Generalidades
O estatuto da cidade é o mais importante instrumento jurídico brasileiro
em matéria de tutela do meio ambiente artificial. Essa norma regulamenta não
somente o uso puro e simples da propriedade urbana, mas também proporciona
as principais diretrizes do meio ambiente artificial, tendo em vista o equilíbrio
ambiental (parágrafo único do art. 1º do Estatuto) e as disposições dos arts. 182
e 183 da Constituição Federal23. Desta forma, o uso da propriedade urbana, como
oportunamente ensina Celso Antonio Pacheco Fiorillo, “passa a ser estabelecido
18
MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. 14 ed. São Paulo: Malheiros, 2006, p.888
FREITAS, Mariana Almeida Passos de. Zona Costeira e Meio Ambiente. Curitiba: Juruá, 2005 p.51.
20
FREITAS, Mariana Almeida Passos de. Zona Costeira e Meio Ambiente. Curitiba: Juruá, 2005 p.51.
21
FREITAS, Mariana Almeida Passos de. Zona Costeira e Meio Ambiente. Curitiba: Juruá, 2005. p.53.
22
SILVA, José Afonso da, Direito Ambiental Constitucional. 4 ed. São Paulo: Malheiros, 20002. p.158.
23
FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de direito Ambiental Brasileiro/Celso Antonio Pacheco Fiorillo. 7 ed. São
Paulo: Saraiva, 2006 p.268.
19
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12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
em prol do bem ambiental (art. 225 da CF), com todas as conseqüências jurídicas
dele derivadas”24.
O objetivo do estatuto da cidade é ordenar o pleno desenvolvimento das
funções sociais da cidade e da propriedade urbana. Garante-se, portanto, o direito
a cidades sustentáveis, que compreende “[...] o direito à terra urbana, à moradia,
ao saneamento ambiental, à infra-estrutura urbana, ao transporte e aos serviços
públicos, ao trabalho e ao lazer”25.
3.2 Conceito de cidade
O meio ambiente artificial está intimamente relacionado ao conceito de cidade, cuja natureza jurídica ambiental é estabelecida na Constituição Federal e,
particularmente, na Lei n. 10.257/2001. A cidade compreende o espaço urbano
fechado (ou seja, o conjunto de edificações), e o espaço urbano aberto (os equipamentos públicos). O termo “urbano”, do latim urbs, urbis, designa a cidade e seus
habitantes. E, como observa Celso Antonio Pacheco Fiorillo, não é antagônico ao
termo “campo” ou “rural” porque faz referência a todos os espaços habitáveis26.
As primeiras cidades (do latim civitas,civitatem) surgiram por volta do ano
3.000 a.C. como formas de povoação diferentes de outras povoações predecessoras27.
Distinguiam-se pelo tamanho e pelo fato de que uma parte considerável da sua população não participava das atividades agrícolas. Três fatores contribuíram à aparição
das cidades: um meio favorável para a produção de um excedente agrícola, uma tecnologia relativamente avançada e uma estrutura de poder bem estabelecida28.
Na antiguidade greco-romana a cidade comportava uma dimensão política e
jurídica. Era um verdadeiro Estado, cujos membros, os cidadãos, possuíam direitos, prerrogativas e deveres resultantes dessa condição29. Assim, por exemplo, em
Roma, o direito civil ou romano aplicava-se somente aos cidadãos romanos.
Já na Época Moderna, e principalmente a partir da Revolução Industrial, devido à necessidade de concentração da produção no espaço, inicia-se um processo
de urbanização verdadeiramente consistente, com uma grande expansão das cidades30. Em relação a este ponto, comenta Celso Antonio Pacheco Fiorillo que “a
cidade (sede das classes dominantes) ainda se contrapõe ao campo (sede das classes subalternas), mas esse dualismo não mais é inevitável e pode ser superado”31.
Assim surge o conceito de cidade moderna, como um novo estabelecimento que,
24
FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de direito Ambiental Brasileiro/Celso Antonio Pacheco Fiorillo. 7 ed. São
Paulo: Saraiva, 2006 p.269.
25
FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de direito Ambiental Brasileiro/Celso Antonio Pacheco Fiorillo. 7 ed. Paulo:
Saraiva, 2006 p.271
26
FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de direito Ambiental Brasileiro/Celso Antonio Pacheco Fiorillo. 7 ed. São
Paulo: Saraiva, 2006 p.256.
27
SOPENA, Ramón, Nueva enciclopedia Sopena. Barcelona,v.2.
28
SENE, Eustaquío de. Geografia geral e do Brasil: espaço geográfico e globalização. São Paulo: Scipione, 1998.
29
SOPENA, Ramón, Nueva enciclopedia Sopena. Barcelona, v.2.
30
SENE, Eustaquío de. Geografia geral e do Brasil: espaço geográfico e globalização. São Paulo: Scipione, 1998.
31
FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de direito Ambiental Brasileiro/Celso Antonio Pacheco Fiorillo. 7 ed. São
Paulo: Saraiva, 2006 p. 263.
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como a cidade antiga, é completo em si mesmo, mas encontra-se estendido a todo
o território habitado.
3.3 O Plano Diretor e o Estatuto da Cidade
A Constituição Federal no art. 182, parágrafos 1º e 2º, institui o plano diretor
como o instrumento básico da política municipal urbana.
O poder público municipal recebe, em conseqüência, o dever de promover
o ordenamento territorial, de assegurar o desenvolvimento das funções sociais da
cidade e de garantir o bem-estar de seus habitantes, conforme o planejamento e
controle do uso e da ocupação do solo urbano. Sobre esta questão destaca Celso
Antonio Pacheco Fiorillo que “o solo urbano e as funções sociais da cidade estão
atrelados, já que é naquele que esta se projeta, externando-se em formas e ocupação para os mais diversificados fins”32.
A existência de planejamento mediante o plano diretor é condição necessária à ordenação do desenvolvimento da cidade e do campo. Entretanto, e conforme assinala Paulo Affonso Leme Machado “o plano não pode tudo conter e tudo
prever, atrofiando toda a capacidade criadora dos munícipes; mas, de outro lado,
a liberdade de iniciativa social não deve levar à anarquia”33.
Todavia cabe notar que o plano diretor tem potencial prioritário sobre os
outros planos existentes nos municípios, ou sobre os que possam vir a ser estabelecidos. Isto porque também a Lei 10.257/2001, o reconhece como “o instrumento
básico da política de desenvolvimento e de expansão urbana” (art. 40). Nesse
entendimento, Paulo Affonso Leme Machado conclui que o fato de ser chamado
de plano diretor, “tem uma dimensão jurídica considerável, pois é um plano criado pela lei para dirigir e para fazer com que as outras leis municipais, decretos e
portarias anteriores ou posteriores tenham que se ajustar ao plano diretor”34.Por
tanto, e de conformidade com o art. 40, parágrafo 1º do estatuto da cidade, as diretrizes orçamentárias, o orçamento anual e o plano plurianual devem incorporar
as diretrizes e as prioridades contidas no plano diretor.
É importante ressaltar que o mesmo artigo, em seu parágrafo 2º, determina
que “o plano diretor deverá englobar o município como um todo”. Observa-se que
existe a determinação de considerar tanto a parte urbana como a parte rural do
município. O referido parágrafo vai de encontro à diretriz do artigo 2º, VII, da lei
que prevê a “integração e complementaridade entre as atividades urbanas e rurais,
tendo em vista o desenvolvimento socioeconômico do município e do território
sob sua área de influência”. Como afirma Milaré “a partir do plano diretor normas
e outros instrumentos legais podem – e devem – ser elaborados no intuito de atender a objetivos específicos do município [...], numa visão global e holística”35.
32
FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de direito Ambiental Brasileiro/Celso Antonio Pacheco Fiorillo. 7 ed. São
Paulo: Saraiva, 2006 p. 260.
33
MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. 14 ed. São Paulo: Malheiros, 2006, p. 378.
34
MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. 14 ed. São Paulo: Malheiros, 2006, p. 378.
35
MILARÉ, Edis. Direito do ambiente: doutrina, jurisprudência, glossário / Edis Milaré. 5 ed. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2007, p.533.
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12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
3.3.1 Obrigatoriedade e Conteúdo Mínimo do Plano Diretor
O art. 41 da lei do estatuto da cidade estabelece os casos em que a elaboração do plano diretor é obrigatória para as cidades: “Art. 41 (...) I- com mais
de vinte mil habitantes; II- integrantes de regiões metropolitanas e aglomerações
urbanas; III- onde o Poder Público municipal pretenda utilizar os instrumentos
previstos no parágrafo 4º do art. 182 da Constituição Federal; IV- integrantes de
áreas de especial interesse turístico; V- inseridas nas áreas de influência de empreendimentos ou atividades com significativo impacto ambiental de âmbito regional
ou nacional”.
No caso de ocorrer impacto ambiental regional ou nacional referido no inciso V do artigo 41 haverá a necessidade de intervenção do IBAMA conforme
dispõe a Lei 9.985/2000.
O parágrafo 3º do art. 40 determina que o plano diretor seja revisto ao menos
a cada dez anos. Isto porque como explica Milaré deve-se “prevenir a obsolescência da lei e projetar novas situações”36.
No art. 42 da lei 10.257/2001 se estabelece o conteúdo mínimo do plano diretor, a saber: “Art.42. O plano diretor deverá conter no mínimo: I- a delimitação
das áreas urbanas onde poderá ser aplicado o parcelamento, edificação ou utilização compulsórios, considerando a existência de infra-estrutura e demanda para
utilização, na forma do art. 5º desta Lei; II- disposições requeridas pelos arts. 25,
28, 29,32 e 35 desta Lei; III- sistema de acompanhamento e controle”.
Os artigos a que se refere o inciso II contém disposições relativas ao parcelamento, edificação, ou utilização compulsórios, o exercício do direito de preempção, a outorga onerosa do direito de construir, as operações urbanas consorciadas
e a transferência do direito de construir, institutos jurídicos que devem ser avaliados no plano diretor municipal37.
Entretanto, Paulo Affonso Leme Machado opina que a Lei federal é muito
limitada e deixa a desejar ao determinar esse conteúdo mínimo e ressalta o autor
que os municípios devem acrescentar outras exigências, principalmente na questão ambiental, de conformidade com as necessidades ambientais descritas nas
diretrizes gerais no Capítulo I do Estatuto da Cidade38.
4. ESTATUTO DA CIDADE E O PLANO DE GERENCIAMENTO COSTEIRO E A IMPLICAÇÃO
JURÍDICA PARA CIDADES LITORÂNEAS SUSTENTÁVEIS
4.1 Generalidades
Para a análise conjunta da Lei n. 7661/1988 e do Decreto-lei n. 5300/2004,
que a regulamenta, e da Lei n. 10.257/2004, considera-se os tópicos que tenham
36
MILARÉ, Edis. Direito do ambiente: doutrina, jurisprudência, glossário / Edis Milaré. 5 ed. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2007, p.534.
37
MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. 14 ed. São Paulo: Malheiros, 2006, p.380.
38
MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. 14 ed. São Paulo: Malheiros, 2006, p.380.
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Teses de Estudantes de Pós-graduação/ PhD and Master Students’ Papers
267
referências mais diretas à gestão ambiental. Assim sendo, são abordados neste
estudo os temas das diretrizes gerais, os objetivos, e os instrumentos de política
urbana a partir do estatuto da cidade, bem como o plano de gestão da zona costeira. O meio ambiente em geral foi tutelado através do artigo 225 “caput” da
Constituição Federal, que prescreve o direito ao meio ambiente ecologicamente
equilibrado, os titulares deste direito, a natureza jurídica e os princípios de política ambiental. Já o meio ambiente artificial recebeu tutela imediata pelo art. 21,
inciso XX, da CF: “Art. 21 (...) XX- instituir diretrizes para o desenvolvimento
urbano, inclusive habitação, saneamento básico e transportes urbanos”.
O art. 182, por sua vez, acaba por trazer a própria função da política urbana:
“Art.182 A política de desenvolvimento urbano, executada pelo poder público municipal, conforme diretrizes gerais fixadas em Lei, tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes”.
O texto constitucional estabelece, portanto, o verdadeiro objetivo da política
de desenvolvimento urbano: o desenvolvimento das funções sociais da cidade e
o bem-estar dos seus habitantes. O estatuto da cidade regulamenta o capítulo da
política urbana da Constituição Federal (arts. 182 e 183). Como a urbanização é
considerada um dos processos de maior impacto sobre o meio ambiente, o estatuto da cidade, ao determinar os fundamentos da política urbana, torna-se também
um importante instrumento de gestão ambiental39.
4.2 Diretrizes gerais e objetivos da Lei 10.257/2001, Lei 7.661/1988
e Dec.-Lei 5.300/2004
As diretrizes gerais estabelecidas no capítulo I da Lei 10.257/2001 baseiamse no princípio do desenvolvimento sustentável, definido como “o desenvolvimento que atende às necessidades do presente, sem comprometer as futuras
gerações”40.
Roberto Braga entende que o estatuto reforça os princípios ambientais da
atividade econômica presentes desde a Constituição Federal e inova ao incorporar
o conceito de cidades sustentáveis41. Neste sentido, e ainda segundo o mesmo
autor, três seriam os objetivos principais do estatuto, a saber: promover a reforma
urbana e o combate à especulação imobiliária, a ordenação do uso e ocupação do
solo urbano e a gestão democrática da cidade42. A tais efeitos, o artigo 2º define as
diretrizes gerais na execução da política urbana.
Importa ressaltar que neste artigo encontram-se vários dispositivos referentes
à defesa e proteção ambiental. O inciso IV prevê a correção dos efeitos negativos
39
O Estatuto da Cidade à Luz do Direito Ambiental. Disponível em: <http: // www.rio.rj.gov.br> Acesso em: 14/11/2007.
FIORILLO, Celso Antonio Pacheco. Curso de direito Ambiental Brasileiro/Celso Antonio Pacheco Fiorillo 7 ed. Paulo:
Saraiva, 2006. p.26.
41
CARVALHO, Pompeu F. de. BRAGA, Roberto, (Orgs) Perspectivas de Gestão Ambiental em Cidades Médias. Rio Claro:
LPM-UNESP ,2001.p.111-119.
42
CARVALHO, Pompeu F. de. BRAGA, Roberto, (Orgs) Perspectivas de Gestão Ambiental em Cidades Médias. Rio Claro:
LPM-UNESP, 2001.p.111-119.
40
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268
12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
sobre o meio ambiente que possam resultar de distorções do crescimento urbano.
Por sua vez, o inciso VI determina a ordenação e controle do uso do solo para
evitar a poluição e a degradação ambiental (alínea “g”). A proteção, preservação e
recuperação do meio ambiente natural e construído do patrimônio cultural, histórico, artístico, paisagístico e arqueológico (inciso XII), assim como a audiência do
poder público municipal e da população interessada como condição para implantação de atividades de impacto potencialmente negativo sobre o meio ambiente, e
o conforto ou segurança da população (inciso XIII), constituem outras referências
importantes à gestão ambiental. Estas disposições vão de encontro aos objetivos e
princípios do plano de gerenciamento costeiro. Destarte, a Lei n. 7.661/88 dispõe:
“Art. 2º- Subordinando-se aos princípios e tendo em vista os objetivos genéricos
da PNMA, fixados respectivamente nos artigos 2º. e 4º da Lei 6.983/81, o PNGC
visará especificamente a orientar a utilização racional dos recursos da zona costeira, de forma a contribuir para elevar a qualidade de vida de sua população, e a
proteção do seu patrimônio natural, histórico, étnico e cultural”.
O artigo 5º da Lei n. 7.661/88 determina a forma como deverá ser elaborado
o PNGC observando os critérios necessários à manutenção da qualidade do meio
ambiente, atendendo os aspectos de urbanização, ocupação e uso do solo, do subsolo e das águas, sistema aviário de transporte, habitação e saneamento básico,
patrimônio natural, histórico, étnico, cultural e paisagístico, entre outros. Observa-se que a Lei 7.661/1988 atende ao conceito de desenvolvimento sustentável.
Este conceito também vem expresso no Estatuto da Cidade no art. 2º, I, no qual
“a sustentabilidade urbana é alçada ao status de autêntico direito dos cidadãos”43.
4.3 Instrumentos da Política Urbana
O capitulo II do estatuto da cidade estabelece os instrumentos da política
urbana. Desta forma o artigo 4º prevê entre outros instrumentos o planejamento
municipal, que inclui o zoneamento ambiental. O zoneamento urbano com fins
explicitamente ambientais “consiste num avanço na medida em que pressupõe
o estabelecimento de zonas especiais visando à preservação, melhoria e recuperação ambiental, o que inclui as áreas de proteção ambiental e as áreas verdes
urbanas”44. Para Milaré, a introdução do zoneamento ambiental em escala municipal constitui uma inovação, já que o zoneamento ambiental é um dos instrumentos
da política nacional do meio ambiente (Lei 6.93871981) e aplica-se, em grande
escala ao gerenciamento costeiro45. O mesmo autor explica que o zoneamento
ambiental municipal “tem uma dupla relação política-administrativa: com o uso
e a ocupação do solo no âmbito do município e com o zoneamento ambiental em
43
FINK, Daniel Roberto (Coord.). Temas de direito urbanístico. 4 v. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo,
2005. p. 306.
44
CARVALHO, Pompeu F. de. BRAGA, Roberto, (Orgs) Perspectivas de Gestão Ambiental em Cidades Médias. Rio Claro:
LPM-UNESP, 2001.p.111-119.
45
MILARÉ, Edis. Direito do ambiente: doutrina, jurisprudência, glossário / Edis Milaré. 5 ed. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2007p. 535.
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269
âmbito e escala maiores (intermunicipal, metropolitano, microrregional, estadual,
regional e nacional)46.
Por sua vez, o decreto 5.300/2004 que regulamenta a Lei 7.661/1988, define
como uns de seus instrumentos o plano municipal de gerenciamento costeiro que
implementa a política municipal e define responsabilidades e procedimentos tendo
como base o plano nacional e estadual de gerenciamento costeiro, e ainda inclui
outros instrumentos de planejamento municipal (art. 7º, IV do dec. 5.300/2004).
Como pode observar-se ambos os institutos jurídicos comportam a participação
do poder publico municipal na gestão ambiental e a participação da sociedade no
processo de planejamento (art. 4º, parágrafo 3º do Estatuto da Cidade e art. 13 e
14 do dec. 5.300/2004).
Ainda no que tange ao zoneamento, o dec. 5.300/2004 inclui nos anexos I
e II quadros orientadores para a obtenção do zoneamento ambiental costeiro e a
classificação da orla marítima. O anexo I contem a caracterização de cinco zonas,
os critérios de enquadramento de áreas e as metas ambientais respectivas. Já o
anexo II classifica a orla marítima e as estratégias de intervenção predominante.
Desta forma, verifica-se que os quadros orientadores dos anexos poderiam servir
como complementos ao zoneamento municipal.
Outrossim, o estudo prévio de impacto ambiental (EIA), consagrado pela
política nacional do meio ambiente, (Lei 6.938/1981, art. 9º, III) é instituído como
outro instrumento de gestão ambiental urbana no estatuto da cidade (art. 4º, VI
do Estatuto da Cidade). A lei também acrescenta outro instrumento análogo: o
estudo de impacto de vizinhança (EIV). Cada um desses dois instrumentos, “tem
seu peso próprio e sua esfera especifica de alcance e eficácia”47. Ambos os instrumentos visam a preservar a qualidade de vida da população, o equilíbrio ecológico e a proteção ambiental através do estudo dos efeitos positivos e negativos dos
empreendimentos ou atividades a serem realizados.
Por outro lado, a Lei 7.661/1988, reza em seu artigo 6º, parágrafo 2º, que
para o licenciamento para parcelamento e remembramento do solo e instalação de
empreendimentos e atividades na zona costeira o órgão competente deverá solicitar a elaboração do estudo de impacto ambiental e a apresentação do respectivo
relatório de impacto ambiental –RIMA.
Outros instrumentos de gestão ambiental urbana dispostos no estatuto da
cidade como o direito de preempção, a outorga onerosa do direito de construir e
de alteração de uso, as operações urbanas consorciadas e a transferência do direito
de construir podem ser importantes para a proteção do meio ambiente e do patrimônio cultural (art.4º,V,alíneas m,n,o).
O direito de preempção tem o objetivo de facilitar a aquisição de áreas para
realização de projetos de interesse público, como a implantação de áreas de proteção ambiental e áreas verdes e contribuir para preservação de prédios e áreas
46
MILARÉ, Edis. Direito do ambiente: doutrina, jurisprudência, glossário / Edis Milaré. 5 ed. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2007, p.536.
47
MILARÉ, Edis. Direito do ambiente: doutrina, jurisprudência, glossário / Edis Milaré. 5 ed. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 2007, p. 538.
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12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
de interesse ambiental e cultural. Assim, o poder público pode antecipar-se à ação
especulativa do mercado por ter preferência na aquisição de imóvel urbano, objeto
de alienação onerosa entre particulares (arts. 25, 26 e 27). Já a outorga onerosa,
conforme o disposto no art. 31, parágrafo único, tem também uma função de planejamento urbano-ambiental porque os recursos auferidos por esse instrumento
deverão ser aplicados para habitação popular, ordenamento da expansão urbana,
criação de áreas verdes e proteção do patrimônio cultural.
O mecanismo de transferência do direito de construir também é um instrumento de incentivo à preservação do patrimônio cultural e do meio ambiente,
conforme o que dispõe o art. 35. A implementação desse instrumento deve ser
planejada juntamente com o zoneamento e os demais institutos jurídicos de organização urbanística e fundiária que deverão constar obrigatoriamente no plano
diretor do município, conforme o disposto no artigo 42, inciso II, do estatuto da
cidade.
Assim, o plano diretor, como principal referência da política de desenvolvimento municipal, deverá atender às necessidades do município integrando “qualidade de vida, justiça social e desenvolvimento das atividades econômicas” (art. 39
do Estatuto da Cidade), isto na medida em que o plano diretor não é um plano de
urbanização ou de reurbanização, mas sim, “o conjunto de regras e normas legais e
de diretrizes técnicas para o desenvolvimento global e constante do município”48,
para cuja elaboração há de considerar-se os aspectos físicos, econômico-sociais,
administrativos e ambientais, em um planejamento frente ao ecossistema em que
está inserido49.
5. CONCLUSÕES ARTICULADAS
5.1 Não há no Estatuto da cidade nenhuma referência específica às cidades litorâneas e ao meio ambiente costeiro, em particular. Até porque não é essa sua finalidade. Seu objeto é ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade
e da propriedade urbana, trata-se, por conseguinte, de uma política de sentido e
alcance nacionais, isto é, válido para todo o território da União.
5.2 Nesse contexto, sendo o estatuto da cidade uma lei não auto-aplicável, caberá
aos municípios a aplicação efetiva dessa política, atendendo às peculiaridades locais e regionais. A partir do plano diretor, as normas e demais instrumentos legais
deverão ser elaborados, dispostos e implementados.
5.3 No que diz respeito à zona costeira e seus municípios litorâneos, há necessidade de contemplar, na elaboração e na revisão – se for o caso – do plano diretor
municipal, as diretrizes, princípios, objetivos e instrumentos de gestão da zona
48
FINK, Daniel Roberto (Coord). Temas de direito urbanístico. 4 v. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo,
2005, p. 229.
49
MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. 14 ed. São Paulo: Malheiros, 2006, pág.380.
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costeira, previstos na Lei n.7.661/1988 e no Dec. 5.300/2004, que instituem e
regulamentam o plano nacional de gerenciamento costeiro.
5.4 Por último, importa destacar que os instrumentos jurídicos em análise, consideram a gestão ambiental democrática e participativa como um dos pressupostos
para promoção do desenvolvimento sustentável. Várias são as referências do Dec.
5300/2004 à gestão ambiental participativa, a modo de exemplo, as disposições
dos arts. 14 e 32, referentes às competências do poder público municipal na gestão
da zona costeira e da orla marítima, respectivamente. Já no estatuto da cidade,
todo um capítulo trata da gestão democrática da cidade considerada como um
processo essencial e indiscutível (cap. IV, art. 43 a 45).
5.5 Também se verifica a importância dada à criação de órgãos colegiados de política urbana em nível local, como os conselhos municipais de desenvolvimento
urbano que associados aos conselhos municipais de meio ambiente (e dos demais
órgãos colegiados) conformariam a estrutura necessária para a gestão urbana participativa, através da realização de debates, audiências e consultas públicas, com
obrigatória e significativa participação da população e de associações representativas dos vários segmentos da comunidade, em pleno exercício de cidadania.
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O DIREITO TRIBUTÁRIO AMBIENTAL
E A ISENÇÃO DE IMPOSTO TERRITORIAL
RURAL NA RESERVA PARTICULAR
DO PATRIMÔNIO NATURAL
ANA PAULA VASCONCELLOS DA SILVA
Pós-graduanda em Direito da Administração Pública
pela Universidade Federal Fluminense
1. INTRODUÇÃO
A proteção ao meio ambiente é assunto que ganhou grande espaço ao final
do século XX, e recentemente vem aparecendo quase que com estardalhaço na
mídia e nas produções acadêmicas, especialmente devido à urgente – e talvez
tardia – preocupação com o efeito estufa. Tal proteção, contudo, reveste-se de um
caráter especial, visto que é um direito cujo titular não é aquele que efetivamente
será protegido – já que os efeitos da ação humana na Natureza trazem conseqüências nefastas à própria existência humana. De fato, o destinatário é toda a
humanidade, incluindo aqueles que ainda não estão aqui – preceito consagrado
com o princípio da responsabilidade entre gerações, pois as gerações presentes
não podem utilizar o meio ambiente de forma a provocar a sua escassez para as
gerações vindouras.
Juridicamente, a proteção ao meio ambiente ganhou grande reforço em solo
nacional com a Constituição de 1988, que dedicou um Capítulo inteiro para a sua
proteção, além de outros dispositivos esparsos – muito embora já existisse uma
preocupação com a tutela ambiental no Brasil desde meados da década de 60. A
Constituição de 1988, além de consagrar o que Paulo Affonso Leme Machado
chama de ética da solidariedade entre as gerações1, consagra também três tipos
de responsabilidade para o dano ecológico, que são independentes entre si: a
administrativa, a criminal e a civil – o que, segundo José Afonso da Silva, “não é
peculiaridade do dano ecológico, pois qualquer dano a bem de interesse público
pode gerar os três tipos de responsabilidade.”2
Contudo, essas três esferas de atuação para a reparação ao dano ecológico
vêm se mostrando ineficazes para a proteção ao meio ambiente. Sem entrar no
mérito da eficiência da atuação do Poder Público nestas respectivas searas jurídicas – o que fugiria ao escopo deste trabalho –, estes instrumentos protetivos
1
2
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MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. São Paulo: Malheiros Ed. 11ª ed, pgn. 123
SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Ambiental. São Paulo: Malheiros, 2005, pgn. 300.
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não são suficientes justamente porque lidam apenas com a reparação do dano
ambiental – ou seja, a intervenção do Estado só se dará depois que a lesão ao
meio ambiente tiver ocorrido. No entanto, o operador do direito não pode se dar
ao luxo de apenas tentar retornar ao status quo ante, pois, dada a fragilidade e a
complexidade que a questão demanda, restaurar o que foi perdido mostra-se uma
tarefa árdua – e muitas vezes impossível.
Aliás, é em decorrência do Princípio da Efetividade, norteador dos atos da
Administração Pública, que centraremos nossas atenções na prevenção do dano
ambiental. Assim, como didaticamente nos ensina Ruanda Schilickman Michelis
em seu artigo Instrumentos Administrativos de Prevenção ao Dano Ambiental,
publicado na Revista de Direito Ambiental nº 45:
A prevenção do dano é reconhecida unanimemente como sendo o objetivo
fundamental do Direito Ambiental. Isso porque, ocorrido um dano, na grande
maioria das vezes nenhum tipo de reparação terá a capacidade de fazer com
que o meio ambiente volte ao seu status quo ante, isto é, que seja restabelecida,
em igualdade de condições, uma situação idêntica à anterior.3
Destarte, a proteção ao meio ambiente deve mostrar-se não apenas na efetiva
punição daqueles que causaram o dano, mas principalmente na prevenção de lesões. A Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente, reunida em 1992,
consagrou pelo menos dois princípios nesse sentido: o princípio da precaução
e o princípio da prevenção. Em especial em relação a este último, destacamos
que Paulo Affonso Leme Machado defende que os planejamentos ambiental e
econômico integrados são parte integrante do princípio4. E é com esta idéia que
começamos a nos aproximar do escopo deste trabalho.
2. A INTERVENÇÃO DO ESTADO NAS FORÇAS ECONÔMICAS A FAVOR
DO MEIO AMBIENTE
A proteção ao meio ambiente aparece frequentemente associada ao termo desenvolvimento sustentável. Para além das inúmeras discussões acadêmicas sobre o
alcance e interpretação do termo, fiquemos com uma formulação simples, dada pela
Lei 9.082/95, que dispõe sobre as diretrizes para a elaboração da Lei Orçamentária
de 1996, afirmando ser diretriz e meta da Administração Pública Federal:
a promoção do desenvolvimento, buscando conciliar as necessidades do crescimento econômico e da modernização tecnológica do setor produtivo com a
preservação do meio ambiente e a melhoria da qualidade de vida nas cidades
e no campo, garantindo o atendimento dos compromissos firmados na Agenda
21.(art. 2º, V – grifos nossos)5.
3
TUPIASSU, Lise Vieira de Costa. Tributação ambiental: a utilização de instrumentos econômicos e fiscais na implementação do direito ao meio ambiente saudável. Publicado na Revista de Direito Ambiental nº 45. Rio de Janeiro: Renovar,
2006.
4
Opera Citada, pgn 82.
5
Citação retirada do livro de Paulo Affonso Leme Machado. Opera citada, pgn 329.
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Sem dúvida que a proteção ao meio ambiente não pode paralisar as atividades econômicas. Mas justamente a proteção mais eficiente é aquela que conta com
as atividades econômicas, que interfere no plano econômico em busca de uma
maior efetividade de suas ações. Assim como o mercado tem o poder de influenciar as políticas dos governos, como afirma Colin Leys:
Agora, em toda a parte, a política é orientada para o mercado. Não se trata
apenas de os governos não poderem mais ‘administrar’ suas economias nacionais; para sobreviver no cargo, devem ‘1administrar’ cada vez mais a política
nacional, de forma a adapta-la às pressões das forças de mercado multinacional. Essas pressões assumem muitas formas, tais como limites estritos à política macroeconômica, reivindicações de investidores por acordos de regulamentação favoráveis, impacto direto das forças econômicas globais em mercados
específicos e a reforma ‘profunda’ e contínua das relações sociais e idéias por
uma grande variedade de forças de mercado que agem com força cada vez
maior graças à globalização.6
Da mesma forma, o Estado também possui um papel primordial ao delimitar
a atuação das grandes forças de mercado, pois, segundo este mesmo autor,
As obrigações tributárias são especialmente importantes, já que o poder de
cobrar impostos é o fundamento da soberania nacional, mas a complexidade do
financiamento contemporâneo das TNCs [grandes corporações], combinada à
forma de organização em rede, permite-lhes limitar a mordida de qualquer
autoridade tributária nacional, exceto as maiores e mais determinadas.7
Destarte, através da cobrança de tributos, o Estado possui um instrumento
poderosíssimo em mãos, não apenas para delimitar a atuação das grandes forças
de mercado, mas também como forma de as forçar a buscar tecnologias menos
danosas ao meio ambiente, acentuando o caráter de prevenção de lesões que toda
política ambiental séria precisa ter.
3. A ORDEM ECONÔMICA E O MEIO AMBIENTE NO DIREITO BRASILEIRO
Entre nós, a Constituição de 1988 consagrou a proteção ao meio ambiente
como um dos fundamentos da ordem econômica brasileira, no seu art. 170, VI.
Alguns autores, como o professor Diogo de Figueiredo Moreira Neto, criticam a
redação do art. 170 da Carta Magna, ao afirmar que “a redação desse artigo tem o
vício típico dos produtos dos grandes colegiados, que, em áreas de transigências
recíprocas, acabam por sacrificar até a lógica.”8
Para este eminente administrativista, o constituinte originário pecou ao embaralhar os fundamentos da ordem econômica com as suas finalidades, tratando
6
LEYS, Colin. A Política a Serviço do Mercado. Rio de Janeiro : Record, 2004, pgn 13.
Opera Citada, pgn. 31.
8
Diogo de Figueiredo Moreira Neto – Ordem Econômica e Desenvolvimento na Constituição de 1988. Citado por MUKAI,
Toshio. Direito Ambiental Sistematizado. 6ª edição. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007, pgn. 30
7
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12º CONGRESSO INTERNACIONAL DE DIREITO AMBIENTAL
estas como se princípios fossem – porém, como bem afirma Toshio Mukai em
comentário a este tema, “as finalidades estão inspiradas por valores, e, por isso,
elas contêm princípios, mas nem por isso com eles se confundem.”9
No entanto, no nosso assentir, não há que se enxergar vício na interpretação
do art. 170 da Constituição, dado que o texto constitucional nos oferece princípios
que devem ser ponderados diante da prática econômica. Está é a opinião do professor Mukai, com quem concordamos, e que passamos a transcrever a seguir:
Entendemos que não existe possibilidade jurídica de haver ‘conflitos’ entre os
princípios arrolados pelo art. 170 da Constituição de 1988. (...)
A Constituição, ao contemplar no mesmo plano os princípios da livre concorrência e o da defesa do meio ambiente, não admite que este último seja colocado de lado, com privilégio do primeiro.
Há que se compatibilizar, sempre e a todo custo, os dois princípios. E, em caso
de conflito real, há que se efetuar uma ponderação de interesses, para que não
haja o sacrifício total de um ou do outro.10
Aliás, a ponderação de interesses é de especial importância para o nosso trabalho. O professor Ricardo Lobo Torres, na sua magnífica obra Tratado de Direito
Constitucional Financeiro e Tributário, disserta longamente sobre a ponderação no
seu Volume II, Valores e Princípios Constitucionais e Tributários. Inicialmente:
Karl Larenz defende que ‘a ponderação de bens em cada caso é um método de
complementação do direito, que visa a solucionar as colisões de normas’. Este
autor anota que o Tribunal Constitucional Alemão se serve do método da ‘ponderação de bens no caso particular’ para determinar o alcance concreto dos
direitos fundamentais ou princípios constitucionais que colidam entre si nos
casos particulares. A colisão pode ocorrer em virtude de os conceitos e princípios serem abertos e móveis, não estando a sua amplitude previamente fixada.
Para a ponderação de bens, deduzem-se das sentenças da Corte Constitucional
os princípios da proporcionalidade, do melhor meio e da menor restrição possível. 11 (grifos nossos)
E ainda nos será útil as clássicas regras de ponderação de interesse de Ronald Dworkin e Robert Alexy. Segundo este primeiro autor, as regras jurídicas se
diferenciam dos princípios por serem as primeiras de aplicação absoluta (ou são
aplicáveis na íntegra ou não se aplicam) e os segundos podem ser sopesados diante do caso concreto. Já Alexy traz-nos a idéia de que os princípios são mandados
de otimização, e, portanto, podem ser cumpridos em diferentes graus conforme as
possibilidades fáticas e jurídicas.
As contribuições trazidas por estes dois autores são essenciais no momento
da ponderação, nos casos concretos, entre as demandas da ordem econômica, da
9
Opera Citada, pgn 31.
MUKAI, Toshio. Direito Ambiental Sistematizado. 6ª edição. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007, pgns. 32-34.
11
TORRES, Ricardo Lobo. Tratado de Direito Constitucional Financeiro e Tributário. Volume II – Valores e Princípios
Constitucionais Tributários. Rio de Janeiro: Ed. Renovar, 2005, p. 225.
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livre iniciativa e do direito de propriedade e a necessidade de proteção ao meio
ambiente, para que se alcance o tão-propalado desenvolvimento sustentável. E, é
claro, os tributos terão um importante papel nesta construção.
4. O DIREITO TRIBUTÁRIO E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NA
ORDEM JURÍDICA BRASILEIRA
A Constituição de 1988 consagra, como um dos objetivos fundamentais da
República, a garantia do desenvolvimento nacional (art. 3º, III). Esta mesma referência aparece no art. 174, §1º, que comanda que a lei estabelecerá as diretrizes e
bases do planejamento do desenvolvimento nacional equilibrado. Essa expressão
“desenvolvimento nacional” é desenvolvida com maestria por Ricardo Lobo Torres, no mesmo livro citado anteriormente, que passaremos a transcrever por ser
extremamente ilustrativa do pensamento que estamos a defender:
O desenvolvimento econômico deve ser justo para que se torne legítimo. Não
é ele que cria uma ordem econômica justa, senão que o ordenamento justo é
que propicia as condições para o desenvolvimento. Em nome do crescimento
econômico, não se pode postergar a redistribuição de rendas, nem ofender aos
direitos humanos, nem atentar contra o meio ambiente, nem justificar a corrupção dos políticos. Sendo questão de justiça, a problemática do desenvolvimento
econômico não se deixa aprisionar pelo cálculo utilitarista, embora não lhe
seja estranha a consideração do útil, que integra a idéia de justiça. O princípio
do desenvolvimento econômico não é um fim em si mesmo, mas deve se afinar
com o desenvolvimento humano. 12
Conceito mais próximo dos direitos humanos é o de desenvolvimento humano,
que vem sendo discutido sob os auspícios da ONU, especialmente na forma de
desenvolvimento humano sustentável, em íntima relação com o meio ambiente
sadio e com os direitos das gerações futuras.13 (grifos nossos)
É sob essa perspectiva de desenvolvimento econômico, como um direito ao
desenvolvimento sustentável, que trabalharemos o papel dos tributos. Os tributos
possuem um papel fundamental para que se construa um desenvolvimento sustentável, ligado à idéia de desenvolvimento humano que o próprio Ricardo Lobo
Torres defendeu. Essa concepção, já conhecida do Direito Estrangeiro, em especial no Direito Europeu, vem ganhando adeptos em solo pátrio, como veremos no
ponto que passaremos a explicitar a seguir.
5 . O PAPEL DOS TRIBUTOS NA PROTEÇÃO AO MEIO AMBIENTE
Na área da tributação ambiental, temos o pioneirismo de José Marcos Domingues de Oliveira, que, com seu livro Direito Tributário e Meio Ambiente, lan-
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Opera Citada, p. 350.
Opera Citada, pgns. 352-353.
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çou as bases da discussão da matéria no Brasil, há mais de dez anos atrás. Deixemos que as palavras do mestre guiem esta pequena introdução ao tema:
Parece que o desafio posto à doutrina nessa matéria é a conciliação dos princípios, fundados que são ambos na solidariedade social, em face da constatação
de que a apropriação por uns (seja a indústria, seja o consumidor) do Meio
Ambiente (meio de uso comum de todos) configuraria enriquecimento particular,
indicador de capacidade contributiva especial e diferenciada, legitimadora quer
de (novos) tributos ambientais (em sentido estrito), quer de gradações seletivas
de tributos clássicos (tributos ambientais em sentido lato).14 (grifos nossos)
Esse pensamento felizmente parece ter sido recentemente absorvido por normas constitucionais. É o que nos explica Fábio Fraga Gonçalves e Janssen Hiroshi
Murayama, em seu artigo Releitura do Princípio da Capacidade Contributiva sob
a Ótica do Direito Tributário Ambiental, publicado na coletânea Direito Tributário Ambiental, e que passamos a expor:
Recentemente, com a edição da EC 42, de 19 de Dezembro de 2003, o artigo
170 da Constituição Federal de 1988 – que traz os princípios da ordem econômica – passou a ter a seguinte redação:
Art. 170 - A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e
na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os
ditames da justiça social, observados os seguintes princípios:
VI - defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação.
Trata-se da constitucionalização da possibilidade de instituição de tributos
ambientais. È bem verdade que o dispositivo não prevê expressamente que o
‘tratamento diferenciado’ será efetivado mediante uma carga tributária distinta, mas o simples fato de o dispositivo ter sido modificado no bojo da Reforma
Tributária serve como mais um indício de que instrumentos tributários destinados à defesa do meio ambiente serão criados em um futuro muito próximo. Daí
a atualidade e relevância do tema.
É possível, pois, a utilização de tributos para assegurar a preservação do meio
ambiente em consonância com o nosso ordenamento jurídico.
Também é correto supor que, nesse caso, o principal objetivo do tributo não
será aumentar a arrecadação dos cofres fazendários, mas sim evitar – ou ao
menos minimizar – os danos causados ao meio ambiente sem, no entanto, impedir o desenvolvimento econômico do país.
Além do mais, é importante frisar que o tributo ambiental deve ser apenas
uma das armas utilizadas para a preservação do meio ambiente, devendo ser
implementadas outras, em especial uma política de educação da empresas e da
população a ser desenvolvida pelos governos federal, estadual e municipal, de
forma intensa e ininterrupta.15 (grifos nossos)
14
OLIVEIRA, José Marcos Domingues de. Direito Tributário e Meio Ambiente. 2.ª ed. Rio de Janeiro: Renovar, 1999,
pgn xv.
15
GONÇALVES, Fábio Fraga e MURAYAMA, Janssen Hiroshi. Releitura do Princípio da Capacidade Contributiva Sobre a Ótica do Direito Tributário Ambiental, publicado em Direito Tributário Ambiental. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2006, pgns 32-33.
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Somos do mesmo entendimento defendido por Murayama e Gonçalves. A
alteração do dispositivo no bojo da “mini-Reforma Tributária”, como é conhecida, por muitos, a EC 42/03, nos faz refletir se a mens legislatoris não foi mesmo
no sentido de se buscar uma proteção ambiental mais efetiva através de aspectos
atinentes ao Direito Tributário e Financeiro. Quais poderiam ser estes mecanismos, e em especial quais seriam mais eficientes para se buscar a prevenção do
dano ambiental, é o que passaremos a expor a seguir.
6. OS INSTRUMENTOS TRIBUTÁRIOS E FINANCEIROS UTILIZADOS NO BRASIL
PARA A PROTEÇÃO DO MEIO AMBIENTE
Tradicionalmente, o Direito Ambiental traz, na seara administrativa, os seguintes instrumentos preventivos de tutela:
(i)
(ii)
(iii)
(iv)
(v)
Poder de Polícia;
Zoneamento;
Licenciamento;
Estudo de Impacto Ambiental; (EIA/RIMA)
Educação Ambiental.16
Para além dos mecanismos administrativos tradicionais, Breno Ladeira
Kingma Orlando e Daniel Mariz Gudiño17 nos trazem oito instrumentos tributários e financeiros, que, segundo estes autores, os entes federativos vêm utilizando
para proteger e recuperar o ecossistema, a saber:
(i)
Concessão de incentivos fiscais às empresas que investem em meio
ambiente;
(ii) A exclusão de empresas que violam as leis ambientais do gozo de regimes fiscais mais benéficos;
(iii) A concessão de redução de alíquotas ou isenção às atividades e aos
produtos menos poluidores (seletividade ambiental);
(iv) Tributação da propriedade com base em critérios ambientais;
(v) A instituição de tributos ambientais para custear a intervenção pública;
(vi) Repasse de verbas aos municípios que preservam o ecossistema;
(vii) A instituição de fundos ambientais;
(viii) A instituição de compensação e créditos financeiros.
Não é nossa intenção fazer uma extensiva análise sobre cada um desses institutos. Para os fins deste trabalho, analisaremos apenas o instituto da tributação
16
Essa enumeração consta do didático artigo escrito por TUPIASSU, Lise Vieira de Costa. Tributação ambiental: a utilização de instrumentos econômicos e fiscais na implementação do direito ao meio ambiente saudável. Publicado na Revista
de Direito Ambiental nº 45. Rio de Janeiro: Renovar, 2006.
17
ORLANDO, Breno Ladeira Kingma e GUDIÑO, Daniel Mariz. Instrumentos Tributários e Financeiros Utilizados no
Brasil para a Proteção ao Meio Ambiente: Uma Análise Crítica. Publicado em Direito Tributário Ambiental. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2006, p. 82.
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da propriedade com base em critérios ambientais, mas não na sua totalidade. Centraremos nossas análises em uma das modalidades que consideramos ser paradigmática do papel dos tributos como instrumento eficaz de prevenção aos danos
ambientais, fundamental para que se alcance o tão-propalado desenvolvimento
sustentável, ligado à idéia de desenvolvimento humano: a questão da Reserva Particular do Patrimônio Natural e a isenção de ITR concedida aos proprietários que
assim gravarem suas propriedades. As peculiaridades da RPPN e da sua isenção
tributária serão discutidas adiante.
7. A RESERVA PARTICULAR DO PATRIMÔNIO NATURAL NO SISTEMA NACIONAL
DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO
As Reservas Particulares do Patrimônio Natural já existiam desde a década
de 1970, conforme histórico apresentado pela ONG Ambiente Brasil em seu site,
que, pela sua didática e síntese, achamos por bem transcrever:
As Reservas Particulares do Patrimônio Natural - RPPN’s, surgiu em 1977,
quando alguns fazendeiros, principalmente, do Rio Grande do Sul, sentiram a
necessidade de dar Proteção oficial às suas propriedades rurais, face à pressão
de caça incidente sobre as mesmas. Através deste movimento, foi então editada
a Portaria 327/77, do extinto Instituto Brasileiro de Desenvolvimento de Animais Nativos - REPAN’s, que mais tarde foi substituída pela Portaria 217/88
que lhes deu o novo nome de Reservas Particulares de Fauna e Flora. A fim de
aprimorar estas duas portarias, em 1990, foi editado o Decreto 98.941, que
institui as RPPN’s, sendo o Decreto 1.922, de 05 de junho de 1996.18
No entanto, embora já tivessem previsão legal há bastante tempo, as RPPNs
ganharam grande força normativa a partir da Lei 9985/00 – lei que regulamentou
o art. 225, § 1o, incisos I, II, III e VII da Constituição Federal, instituindo o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza. Destaque-se, em primeiro
lugar, que unidades de conservação são:
Espaço territorial e seus recursos ambientais, incluindo as águas jurisdicionais, com características naturais relevantes, legalmente instituído pelo Poder
Público, com objetivos de conservação e limites definidos, sob regime especial
de administração, ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção. 19
Esta lei delimita duas categorias de unidades de conservação: as de proteção integral (art. 7º, I) e as de uso sustentável (art. 7º, II), sendo que as RPPNs
pertencem às categorias de uso sustentável, cujo objetivo básico é compatibilizar
a conservação da natureza com o uso sustentável de parcela dos seus recursos
naturais, sendo permitidas em seus limites as atividades de pesquisa científica e o
18
Retirado, em 24/10/2007, de: http://www.ambientebrasil.com.br/composer.php3?base=./snuc/index.html&conteudo=./
snuc/artigos/rppn.html
19
Art. 2º, Lei 9985/00.
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ecoturismo, feitas dentro das condições legais. As RPPNs estão previstas no art.
21 da Lei 9985/00, que transcrevemos a seguir:
Art. 21. A Reserva Particular do Patrimônio Natural é uma área privada, gravada com perpetuidade, com o objetivo de conservar a diversidade biológica.
§ 1o O gravame de que trata este artigo constará de termo de compromisso assinado perante o órgão ambiental, que verificará a existência de interesse público, e será averbado à margem da inscrição no Registro Público de Imóveis.
§ 2o Só poderá ser permitida, na Reserva Particular do Patrimônio Natural,
conforme se dispuser em regulamento:
I - a pesquisa científica;
II - a visitação com objetivos turísticos, recreativos e educacionais;
§ 3o Os órgãos integrantes do SNUC, sempre que possível e oportuno, prestarão
orientação técnica e científica ao proprietário de Reserva Particular do Patrimônio Natural para a elaboração de um Plano de Manejo ou de Proteção e de
Gestão da unidade.
Segundo a ONG Ambiente Brasil, as vantagens das RPPNs são as seguintes:
As RPPN’s são importantes para a conservação porque :
(1) contribuem para uma rápida ampliação das áreas protegidas no país;
(2) Atuam como zonas-tampão no entorno de parques reservas, constituindo-se
em corredores ecológicos;
(3) Apresentam índices altamente positivos na relação custo-benefício;
(4) São facilmente regulamentadas. Possibilitam a participação da iniciativa
privada no esforço nacional de conservação;
(5) Contribue