Programa de beatificação

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Programa de beatificação
Para que o vosso fruto
permaneça
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Para que o vosso fruto
permaneça
Materiais da Comissão Geral para a Beatificação
do Servo de Deus Padre Estanislau Papczyński,
Fundador da Congregação dos Padres Marianos
Cúria Geral da Congregação dos Padres Marianos
Roma, 2007
e Associação dos Auxiliares Marianos
Varsóvia, 2007
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Tradução do polonês
Mariano Kawka
Projeto da capa
Cezary Urbański
Ilustração na I página da capa
Com base no retrato do Pe. Estanislau Papczyński, execução de Janis Balabon, EUA – 2006
Ilustração na IV página da capa
Sua Eminência o Cardeal Tarcisio Bertone em oração diante do sarcófago do bem-aventurado
Estanislau Papczyński (segundo o projeto de Tiago Fontana, séc. XVIII).
Ao fundo, baixo-relevo de Witold Czopowik, representando Nossa Senhora,
o Pe. Papczyński e os marianos (2003). Cenáculo em Marianki, Góra Kalwaria.
Redação científica
Andrzej Pakuła MIC
Editoração
Mieczysław Jastrzębski MIC
Mariusz Mikołaj Janiszewski MIC
Composição eletrônica e redação técnica
Eliza Wiśniewska
Para uso interno
Nihil obstat
Pe. Jan M. Rokosz MIC
Superior Geral
Roma, 10 de novembro de 2007, n. 374/07
Impressão e encadernação:
Tipografia J. J. Maciejewski, Przasnysz
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INTRODUÇÃO
Celebrai a Iahweh, porque ele é bom,
porque o seu amor é para sempre!
(Salmo 118, 1)
Caros Marianos, nunca nos mais de trezentos anos de história da Vossa Congregação houve uma necessidade mais urgente de vos debruçardes novamente
sobre a vida e o carisma do Vosso Fundador. [...] Alegrando-vos com o dom dessa
beatificação, escolhei novamente o caminho para o qual vos chama o Evangelho
e que vos foi apontado pelo Fundador. (Cardeal Franc Rodé, Prefeito da Congregação dos Institutos de Vida Consagrada, durante a missa de ação de graças pelo
dom da beatificação, em Góra Kalwaria, no dia 17 de setembro e 2007).
Permanecem vivos em nossa memória os acontecimentos assinalados pela
bondade e misericórdia do Senhor e relacionados com a beatificação do nosso
Padre Fundador, o bem-aventurado Estanislau Papczynski. O nosso Fundador foi
apresentado a todos os cristãos como um modelo a ser imitado, e a atenção da
Igreja encaminhou-se ao carisma da nossa Congregação. Igualmente o ano de
preparativos para a beatificação foi muito frutuoso. Além de muitos outros frutos,
o programa preparado pela Comissão Geral de Beatificação e realizado em nossas
comunidades ajudou-nos a redescobrir o rico caminho de fé do nosso Fundador
e nos estimulou à reflexão a respeito do significado e da atualidade do nosso carisma. Talvez nunca até hoje a comunidade mariana em todo o mundo se tenha
sentido tão unida na experiência do amor de Deus e no desejo de dar o máximo de
si, a fim de responder a esse amor através de uma vivência mais radical do Evangelho e do espírito do Fundador.
Conscientes da grandeza do dom recebido, queremos agradecer por ele a Deus,
porquanto todo bem precioso e toda dádiva perfeita vêm do alto, descendo do
Pai das luzes (Tg 1,17). Desejamos também empreender o esforço de reconhecer
o significado desse dom e ao mesmo tempo de nos fortalecermos na vocação mariana, cujo início advém da vida e da obra do novo bem-aventurado.
Com esse objetivo, a partir do dia 1 de janeiro de 2008 iniciaremos o Ano
de Ação de Graças a Deus Uno e Trino pelo dom da beatificação do Padre
Estanislau Papczynski. Seja esse também um tempo de ação de graças pela
instituição da nossa Congregação e de glorificação pessoal de Deus pelo dom
da vocação religiosa de cada um de nós. Espero que dessa forma toda a Congregação se anime a assumir as novas tarefas que hoje a Providência Divina
nos apresenta.
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Apresento-vos aqui o livro Para que o vosso fruto permaneça, contendo
uma coleção de materiais úteis para uma proveitosa vivência do Ano de Ação
de Graças. O livro é publicado nas versões espanhola, inglesa, polonesa e portuguesa, para que dele possam utilizar-se todas as comunidades na Congregação.
Chamo a especial atenção às propostas de conferências, juntamente com textos
da Bíblia e das nossas Constituições, para utilização comunitária e individual durante os dias mensais de recolhimento. As conferências foram preparadas principalmente com base nos escritos e no caminho de fé do nosso Fundador. Esses
materiais foram selecionados de forma a servirem de ajuda no aprofundamento
de conteúdos importantes da nossa vocação religiosa e mariana. Os documentos,
homilias e discursos, que se encontram na segunda parte, fornecem uma perspectiva teológica mais ampla e ao mesmo tempo atualizam o carisma de fundador do
nosso bem-aventurado. Os textos litúrgicos anexos constituem uma espécie de
interpretação da Pessoa e da obra do bem-aventurado no contexto da Palavra de
Deus e uma inspiração que provém do Espírito Santo, abalizados pela autoridade
e pelo mandato da Igreja.
Peço que sejam observadas nas comunidades as mesmas datas e a forma de
realização do dia mensal de recolhimento que foi praticada durante o ano de preparação para a beatificação. Se ocorrer que alguma comunidade não possa realizar
o dia de recolhimento no dia assinalado, poderá fazê-lo numa outra data.
Agradeço cordialmente ao padre Miguel Kozak MIC pela elaboração das conferências e pelas perguntas para reflexões que as acompanham, bem como pela
escolha de trechos adequados da Bíblia e das Constituições. Esse trabalho exigiu
dele um considerável esforço. Agradeço a toda a Comissão Geral de Beatificação
pelo trabalho até agora realizado. Sei, de relatos pessoais de seus membros, que
para muitos deles o trabalho relacionado com o programa dos preparativos para
a beatificação mudou a sua maneira de ver não apenas o beato Padre Fundador,
mas também o carisma mariano e a própria vocação religiosa. Expresso a minha
gratidão ao padre André Pakula, presidente da Comissão de Beatificação, pela
redação desta publicação e pela sua preparação para a edição em quatro versões
lingüísticas. A sua contribuição visando à preparação espiritual e pastoral da Congregação para a beatificação é um grande dom da Divina Providência.
Rezo para que o Ano de Ação de Graças pelo dom da beatificação produza
abundantes frutos na vida de cada um de nós e de toda a nossa comunidade.
Roma, 24 de novembro de 2007,
no 308º aniversário da aprovação pontifícia
da Congregação dos Marianos.
Jan M. Rokosz MIC
Superior Geral
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INDICE DE ABREVIATURAS
CP —
Christus Patiens, Septem Discursibus Quadragesimali Paenitentiae accomodatis, Devotae Piorum considerationi Propositus per Patrem Stanislaum
a Iesu Maria Sacerdotem Polonum, Cracoviae 1670
FDR — Fundatio Domus Recollectionis [Eremo Corabieviensi 1675]
IC —
Inspectio cordis, Stanislai a Iesu Maria Congregationis Immaculatae Conceptionis Clericorum Recollectorum, ex Scholis Piis Praepositi – Recollectiones
pro Dominicis et Festis totius anni et Menstruis exercitiis tumulturaria opera
consutatae [Cenaculum - Góra Kalwaria 1679-85]
NV — Norma Vitae Religiosae Congregationi B. V. Mariae Sine labe Conceptae Eremitarum Marianorum fi delibus defunctis praecipue Militibus et peste sublatis
Suffragantium Proposita et ab Eminentissimo et Reverendissimo Domino Domino Leandro Cardinali Colloredo ex Commissione Sacrae Congregationis
Regularium et Episcoporum Correcta Romae Anno Domini 1694
Oblatio — Oblatio [Casimiriae ad Cracoviam, 11 XII 1670];
OC — Orator Crucifi xus sive Ultima Septem Verba Domini nostri Iesu Christi, totidem piis discursibus exposita per R. P.Joannem Papczyński, Presbyterum Polonum, Cracoviae 1670
PRA — Prodromus reginae artium sive informatio tyronum eloquentiae Varsaviae
1663; 1664; 1665; Cracoviae [1669]
Secreta Conscientiae — Secreta Conscientiae ad Reverendum Patrem N.N. Poloniae
V[icarium] meum in Spiritualibus Magistrum
TDM — Templum Dei Mysticum quod in homine christiano demonstravit R.P. Stanislaus a Iesu Maria Presbyter Polonus, Cracoviae 1675
VW — Vita Venerabilis Servi Dei Patris Stanislai a Iesu Maria Qui Congregationem
Religiosorum Marianorum (...) instituit, Composita per Patrem Casimirum
Wyszyński (1754)
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PARTE I
DATAS DOS DIAS DE RECOLHIMENTO,
TEXTOS LITÚRGICOS, ORAÇÕNES
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PROGRAMA DOS DIAS DE RECOLHIMENTO PELO
DOM DA BEATIFICAÇÃO DO PADRE FUNDADOR
DIAS DE RECOLHIMENTO QUE CABEM
ÀS COMUNIDADES MARIANAS
1. dia de cada mês
2. dia de cada mês
3. dia de cada mês
4. dia de cada mês
5. dia de cada mês
6. dia de cada mês
7. dia de cada mês
8. dia de cada mês
9. dia de cada mês
10. dia de cada mês
11. dia de cada mês
12. dia de cada mês
13. dia de cada mês
14. dia de cada mês
15. dia de cada mês
16. dia de cada mês
17. dia de cada mês
18. dia de cada mês
19. dia de cada mês
20. dia de cada mês
21. dia de cada mês
22. dia de cada mês
23. dia de cada mês
24. dia de cada mês
25. dia de cada mês
26. dia de cada mês
27. dia de cada mês
28. dia de cada mês
29. dia de cada mês
30. dia de cada mês
Roma, Malbourne, Adelaide
Varsóvia-Stegny
Chicago, Puszcza Marianska
Curitiba I, Marijampole
Nyakinama, Kibeho, Marianapolis, Kenosha
Plano, Darien + Yorkville, Gora Kalwaria + Marianki
Gozlin, Avellaneda
Rosário, Kaunas + Ponevezis
Varsóvia-Praga, Borisov + Zhodino
Varsóvia-Marymont, Vilani
Skórzec, Washington
Grudziadz + residência Eclesiástica, Chicago III
Lichen, Rio de Janeiro
Stoczek Warminski, Rezekne, Izvalta
LublinWSD + MSD
Lublin II, Rdzawka
Elblag, Vilnius
Sulejówek, Éden-Hill + Portland
Zakopane, Rzepiska, Atok
Steubenvill, Grzybowo
Fawley-Court, Curitiba II + Adrianópolis
Curitiba III + Novo Mundo + Mafra
Manoel Ribas+Barra Santa Salete
Orsza, Druia + Rosica
Balsamão, Hradek + Praga
Fátima, Brumovo-Bylnice + Dudince
Chmielnicki, Vilgertshofen
Czerniowce + Sevastopol, Obermedlingen + Dilingen
London, Karaganda, Mogiliv
Gorodok, Charkiv, Turvo
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ESQUEMAS LITÚRGICOS
DOS DIAS DE RECOLHIMENTO
Variante I
a. Início do dia de recolhimento (de acordo com os costumes das diversas
casas).
b. Leitura comum dos textos.
c. Adoração do Santíssimo Sacramento (pelo menos 30 minutos) e, durante
a adoração, leitura dos textos bíblicos indicados.
Observação: A adoração pode realizar-se imediatamente após a leitura dos
textos, mas pode também ser feita numa outra ocasião favorável à comunidade, p.
ex. para o encerramento do dia de recolhimento.
Variante II (nos lugares em que por alguma razão não seja possível a adoração
do Santíssimo Sacramento)
a. Início do dia de recolhimento.
b. Leitura comum dos textos.
c. Orações matutinas comuns com meditação. No decorrer da meditação
lêem-se os textos bíblicos.
ORAÇÕES PARA O INÍCIO E O ENCERRAMENTO DO
DIA DE RECOLHIMENTO
Para o início
Pelos abençoados frutos da beatificação do Padre Fundador para a Congregação por ele fundada e pelo seu dinâmico desenvolvimento espiritual e seu
devotado ministério na Igreja
Rezemos pelos abençoados frutos da beatificação do nosso padre Estanislau
Papczynski. Peçamos também a sua intercessão por nós, para que generosamente
respondamos ao chamado divino decorrente dessa graça e empreendamos o caminho da conversão espiritual para a nossa santificação no serviço à Igreja e ao
mundo.
Deus Pai de misericórdia, que chamastes o bem-aventurado Estanislau para
a fundação da Ordem da Mãe Imaculada de nosso Senhor, permiti que ele seja
canonizado e fazei com que experimentemos a sua constante proteção e que a sua
obra possa, sem obstáculos, desenvolver-se em todo o mundo.
Senhor, escutai a nossa oração.
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Senhor Jesus, que no bem-aventurado Padre Estanislau nos destes um modelo de devoção a Vossa Imaculada Mãe Maria, concedei-nos, pelo seu exemplo,
o desejo e a força para imitar as Suas virtudes.
Senhor, escutai a nossa oração.
Espírito Santo, que sois a inspiração dos pastores da Igreja, a exemplo do
bem-aventurado Padre Estanislau, que diligentemente se dedicou a ensinar a doutrina cristã ao povo simples e abandonado, ensinai-nos a proclamar com fidelidade e zelo o Evangelho de Cristo, especialmente nos lugares onde isso seja mais
necessário.
Senhor, escutai a nossa oração.
Deus, Juiz Justo e Misericordioso, que enchestes o coração do bem-aventurado Padre Estanislau do amor aos agonizantes e aos falecidos que sofrem no
purgatório, concedei-nos o zelo para a ajuda aos agonizantes e falecidos, através
da oração, da penitência e do sacrifício.
Senhor, escutai a nossa oração.
Senhor da messe, que chamais operários à Vossa vinha, com confiança Vos
suplicamos, enviai também à nossa comunidade novos irmãos, para que, respondendo às necessidades da Igreja, possamos cumprir as Vossas obras para a Vossa
glória e em honra de Maria Imaculada.
Senhor, escutai a nossa oração.
Deus, que em Vossa insondável misericórdia não rejeitais a ninguém, mas
com amor envolveis a todos, pela intercessão do bem-aventurado Padre Estanislau, concedei-nos a graça de empreendermos o esforço da conversão pessoal
e comunitária, para Vos glorificarmos, para a nossa salvação e a santificação do
mundo.
Senhor, escutai a nossa oração.
Que o exemplo de sua vida, total e confiantemente entregue a Vós em todas as circunstâncias, o desvelo pelos mais pobres e privados da ajuda espiritual
e material, o fiel amor a Cristo Crucificado e a imitação de Sua Imaculada Mãe
sejam para nós um estímulo para a renovação da graça da nossa vocação e à fiel
perseverança na Família Religiosa a que ele deu início.
Senhor, escutai a nossa oração.
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Que o seu ardor apostólico anime o nosso zelo pastoral, que o seu desejo de
santificar todos os filhos da Igreja estimule o nosso esforço e a sua perseverante
oração pelas almas que sofrem no purgatório fortaleça os nossos empenhos, para
que todos os fiéis possam chegar à pátria eterna e com alegria contemplar a Vossa
face. Que viveis e reinais pelos séculos dos séculos. Amém.
Para o encerramento
Pela Congregação, segundo as palavras do bem-aventurado Jorge Matulaitis
Senhor Jesus Cristo, Salvador nosso, olhai propício para esta Congregação,
reunida em Vosso Nome e de Vossa Mãe Imaculada. Vede-a, visitai-a e realizai
o que a Vossa mão direita plantou. Multiplicai o seu número e concedei a alegria. Congregai-nos de todas as tribos, povos e nações. Esta casa é a Vossa casa,
Senhor Jesus. Não se encontre nela uma pedra que não tenha sido colocada pela
Vossa santa mão. E a nós chamados, conservai-nos e santificai-nos, para que glorifiquemos o Vosso santo Nome, realizemos as Vossas obras e lutemos corajosamente em Vossos combates. Vós que viveis e reinais pelos séculos dos séculos.
Amém.
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TEXTOS LITÚRGICOS
SANTA MISSA SOBRE O BEM-AVENTURADO
ESTANISLAU PAPCZYNSKI, PRESBÍTERO1
ANTÍFONA DA ENTRADA
Lc 4,18
Repousa sobre mim o Espírito do Senhor; Ele me ungiu para levar a boa-nova
aos pobres E curar os corações contritos.
ORAÇÃO DO DIA
Deus, que na vossa providência chamastes o bem-aventurado Estanislau, presbítero, a promover a honra da Imaculada Conceição da Bem-aventurada Virgem
Maria e a auxiliar as almas do purgatório, concedei-nos, vos pedimos, que, também nós, seguindo o seu exemplo de vida e apostolado, proclamemos a plenitude
da graça e da santidade da Mãe do vosso Filho e, suplicando a vossa misericórdia
para os irmãos defuntos, mereçamos ser conduzidos à pátria verdadeira. Por nosso
Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito
Santo. Amém.
PRIMEIRA LEITURA
Chamado do profeta.
Jr 1, 4-10
Leitura do Livro do Profeta Jeremias
Foi-me dirigida a palavra do Senhor, dizendo:
“Antes de formar-te no ventre materno,
eu te conheci;
antes de saíres do seio de tua mãe,
eu te consagrei e te fiz profeta das nações”.
Disse eu: “Ah! Senhor Deus,
eu não sei falar, sou muito novo”.
Disse-me o Senhor:
“Não digas que és muito novo;
a todos a quem eu te enviar, irás,
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Atençăo: Todos os textos da liturgia da missa que se encontram aqui, com exceçăo da oraçăo
do dia (coleta), foram retirados do textos do comum dos pastores e foram apresentados como proposta;
podem ser mudados.
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e tudo que eu te mandar dizer, dirás.
Não tenhas medo deles,
pois estou contigo para defender-te”,
diz o Senhor.
O Senhor estendeu a mão,
tocou-me a boca e disse-me:
“Eis que ponho minhas palavras em tua boca
Vê! Constituo-te hoje
sobre nações e reinos,
para arrancar e abater,
para arruinar e derrubar,
para construir e plantar”
Palavra do Senhor
SALMO RESPONSORIAL
Ps 96 (95), 1-2. 3 e 7. 8a e 10
Refrão: Anunciai entre as nações a glória do Senhor.
Cantai ao Senhor Deus um canto novo,
cantai ao Senhor Deus, ó terra inteira!
Cantai e bendizei seu santo nome,
Dia após dia anunciai sua salvação.
Refrão:
Manifestai a sua glória entre as nações,
e entre os povos do universo seus prodígios.
Ó famílias das nações, daí ao Senhor,
Ó nações, daí ao Senhor poder e glória.
Refrão:
Daí-lhe a glória que é devida ao seu nome.
Publicai entre as nações: “Reina o Senhor!”
Jamais vacila o mundo que firmou,
ele governa os povos com justiça.
Refrão:
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ACLAMAÇÃO DO EVANGELHO
Jo 15, 5
R. Aleluia, Aleluia, Aleluia
V. Eu sou a videira e vós sois os ramos;
quem em mim permanece e no qual permaneço,
dará muito fruto.
R. Aleluia, Aleluia, Aleluia.
EVANGELHO
Vos designei para irdes e para que produzais fruto.
Jo 15, 9-17
† Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo João
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
“Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu
amor. Se guardares os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim
como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor. E eu
vos disse isto, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena.
Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei.
Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos. Vós sois
meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando. Já não vos chamo servos, pois
o servo não sabe o que faz o seu senhor. Eu vos chamo amigos, porque vos dei a
conhecer tudo o que ouvi de meu Pai. Não fostes vós que me escolhestes, mas fui
eu que vos escolhi e vos designei para irdes e para que produzais fruto e o vosso
fruto permaneça.
O que então pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo concederá. Isto é o que
vos ordeno: amai-vos uns aos outros”.
Palavra da Salvação.
ORAÇÃO DOS FIÉIS
Celebrante
Unidos na fé e na oração com bem-aventurado Estanislau, que intercede por
nós, encaminhemos as nossas orações comuns a Deus de toda santidade e graça:
1. Rezemos pelo papa, pelos bispos, presbíteros e diáconos, para que, imitando a Cristo, o Bom Pastor, sejam verdadeiras testemunhas e anunciadores da
Palavra de Deus e para que a sua pregação, proveniente do poder do Espírito Santo, contribua para a salvação do mundo. Rezemos ao Senhor.
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2. Rezemos pela Congregação dos Padres Marianos, fundada pelo bemaventurado Estanislau, para que, fiel ao carisma do Fundador, produza novos santos, reconheça os sinais do tempo e cresça no fiel serviço à Igreja. Rezemos ao
Senhor.
3. Rezemos por novas e zelosas vocações para a Congregação dos Padres
Marianos, para que, empreendendo corajosamente novas tarefas, leve o Evangelho especialmente aonde ocorrem as maiores necessidades e introduza o seu
carisma nas comunidades locais da Igreja. Rezemos ao Senhor.
4. Rezemos por todos que de diversas formas participam do carisma mariano: pelos parentes, amigos, benfeitores e colaboradores leigos associados com
Congregação; que o Espírito Santo lhes conceda a Sua graça no cumprimento da
vocação de vida que cumprem, e que Maria Imaculada seja para eles um modelo
de serviço a Deus e ao homem. Rezemos ao Senhor.
5. Rezemos por todos que participam desta Eucaristia, para que o exemplo
de vida do bem-aventurado Estanislau nos estimule a diligentemente buscarmos
a santidade e para que a sua dedicação a Cristo e à Igreja frutifique em nós com
o amor ao Reino de Deus. Rezemos ao Senhor.
6. Rezemos pelos fiéis falecidos, que ainda aguardam a plenitude da alegria
decorrente da contemplação da face de Deus, para que os inumeráveis méritos de
Cristo e dos santos intercedam por eles, de maneira a alcançarem a plena participação na vida de Deus. Rezemos ao Senhor.
Celebrante
Senhor Jesus Cristo, que nos chamais para que sejamos o sal da terra e a luz
do mundo, concedei-nos a força que brota da fé, para que possamos- a exemplo do
bem-aventurado Estanislau- cumprir a nossa vocação cristã e ingressar na alegria
do Vosso Reino. Que viveis e reinais pelos séculos sos séculos. Amém
SOBRE AS OFERENDAS
Deus de majestade, nós vos suplicamos
que estas oferendas em honra de vossos santos,
manifestando a glória do vosso poder,
nos tragam os frutos da redenção.
Por Cristo, nosso Senhor.
PREFÁCIO
V. O Senhor esteja convosco.
R. Ele está no meio de nós.
V. Corações ao alto.
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R. O nosso coração está em Deus.
V. Demos graças ao Senhor, nosso Deus.
R. É nosso dever e nossa salvação.
Na verdade, é justo e necessário,
É nosso dever e salvação
dar-vos graças, sempre e em todo lugar,
Senhor, Pai santo,
Deus eterno e todo-poderoso,
por Cristo, Senhor nosso.
Vós nos concedei a alegria
de celebrar a festa (memória) de bem-aventurado Estanislau,
e fortaleceis a vossa Igreja
com o exemplo de sua vida,
o ensinamento de sua pregação
e o auxílio de suas preces.
Enquanto a multidão dos anjos e dos santos
se alegra eternamente na vossa presença,
nós nos associamos a seus louvores,
cantando (dizendo) a uma só voz:
Santo,...
ANTÍFONA DA COMUNHÃO
Eis que estou convosco todos os dias
até o fim dos tempos, diz o Senhor.
Mt 28,20
DEPOIS DA COMUNHÃO
Alimentados, ó Pai, à vossa mesa,
fazei que, seguindo o exemplo de bem-aventurado Estanislau,
celebremos com amor o vosso culto
e sirvamos a todos com incansável caridade.
Por Cristo, nosso Senhor.
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OFICIO DE LEITURA
18 de Maio
BEMAVENTURADO ESTANISLAU PAPCZYNSKI, PRESBÍTERO
Estanislau de Jesus Maria nasceu na Polónia em 1631, na aldeia de Podegrodzie. Em
1654 entrou na Ordem das Escolas Pias (Padres Escolápios), na qual fez a profissão religiosa e foi ordenado presbítero. Em 1670 deixou a Congregação dos Escolápios e, três anos
depois, fundou a Congregação dos Padres Marianos da Imaculada Conceição da Bem-aventurada Virgem Maria para promover a honra da Imaculada Conceição da Bem-aventurada
Virgem Maria, auxiliar as almas do Purgatório e ajudar os párocos na pastoral. A autoridade
eclesiástica designou-o superior geral vitalício da Congregação por ele fundada. Nos seus
escritos sobre retórica e espiritualidade promoveu a vocação universal à santidade quer dos
religiosos quer dos leigos. Morreu com fama de santidade no dia 17 de Setembro de 1701.
SEGUNDA LEITURA
Dos escritos do Bem-aventurado Estanislau Papczynski, presbítero
(Norma vitae, cap. II: De caritate)
Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus
De modo perfeito, o Mestre das Nações comparou ao bronze que soa ou ao
címbalo que tine o servo de Deus que não possua o verdadeiro amor. Com efeito,
a conquista da vida eterna e o valor dos méritos dependem do amor. Por isso,
cada um de vós procure conquistar para si da forma mais eficaz, mais que todos
os bens, essa pérola preciosíssima, esse tesouro escondido no campo. Porque, embora o amor de Deus seja um dom, ele é recebido e conservado através da oração
incessante e da mortificação. Portanto, que, entre vós, tudo se faça com amor.
Os mandamentos de Deus e os conselhos evangélicos, as leis da santa Igreja
Católica Romana, as suas normas, decisões, ritos, costumes e também esta Regra
e outras disposições que um dia possam ser promulgadas, sejam observados por
amor a Deus. Assim, de facto, esclama o Mestre Celeste: Se alguém me ama,
guardará a minha palavra, o que deve ser entendido não apenas em relação à
sua santa doutrina e à Sagrada Escritura, mas também em relação às disposições
e aos documentos da sua santa Igreja, que Ele mesmo, através do Espírito Santo,
instrui e dirige, e em relação às decisões dos superiores, que dela, isto é, da Igreja,
provêm ou por ela são confirmadas.
Além disso, por amor a Deus, deveis cumprir tudo que é bom e evitar todo
o mal. Deveis praticar toda a virtude possível, deveis abominar quaisquer trans20
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gressões e o pecado. Por amor a Deus, deveis de bom grado e corajosamente
suportar as mortificações, as aflições, as repreensões, as injustiças, as calúnias,
as dificuldades, os sofrimentos, a penúria, a severidade e outras coisas do gênero.
Por amor a Deus, deveis realizar com a máxima perfeição possível as vossas práticas de piedade, as vossas obrigações e as tarefas que vos forem confiadas, bem
como tudo o que se relaciona com o vosso estado e a vossa vocação. Ao amor de
Deus deveis dedicar todas as acções e experiências difíceis de toda a vossa vida,
especialmente aquelas do dia-a-dia, bem como todos e cada um dos momentos,
circunstâncias ou mudanças de todas e de cada uma dessas atividades e experiências. Com submissão, confiança e piedade, deveis oferecê-las, por toda a eternidade, no altar do amor, com coração puro, juntamente com os méritos de Cristo Senhor e de Sua Mãe Imaculada, bem como de todos os Santos e da Igreja universal.
Enfim, a vossa regra comum e o caminho mais seguro para o céu deve ser aquela
que em ambos os Testamentos a Sabedoria divina quis reconhecer como a mais
digna de recomendação: Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração,
com toda a tua alma e com toda a tua mente.
No que diz respeito ao amor mútuo, saibei que, entre vós, o mais caro à Divina
Majestade é aquele que mais se distingue no amor aos irmãos. Cada um lembre-se
de que a alma do seu Instituto é o amor e de que, na medida em que dele se afastar,
na mesma medida também se afastará da vida. Por conseguinte, da mesma forma
que diligentemente se empenhar em contribuir para o bem, para a fama, para a pureza e santidade de toda a Congregação, também a cada um dos seus membros
demonstrará o mesmo que desejaria para si. Evite, portanto, a peste perniciosa,
que mais se opõe ao amor, constituida de: inveja, ódio, obstinação, rivalidade,
desconfiança, difamação, antipatia, simpatia, ciúme, delação, injúrias, mexericos,
maledicências, perseguição, parcialidade, desprezo dos outros, perturbação, confusão, brigas e disputas. E, como pela paz da própria alma, assim se empenhe
pela paz dos outros e da casa, como um zeloso vigia do amor. Enfim, seja de toda
a Congregação seja de cada um dos seus membros, procure afastar todo o mal.
Lembrai-vos do amor da Igreja primitiva, a respeito da qual o autor dos Actos dos
Apóstolos diz: A multidão dos que haviam abraçado a fé tinham um só coração
e uma só alma.
Além disso, em todas ocasiões que se apresentem não negligencieis a demonstração de todas as formas de amor às pessoas que não pertençam à Congregação,
e manifestai um amor generoso não apenas em relação àqueles cuja benevolência
experimentastes, mas também em relação aos adversários e inimigos (aos quais
nosso Senhor justamente nos recomenda que amemos). Lembrai-vos sempre das
obras de misericórdia que são feitas ao Chefe Supremo – Cristo – nos seus membros, e que serão as únicas a triunfar no seu severo julgamento.
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RESPONSÓRIO
1 Jo 4, 9-10; 3, 16
R. O amor de Deus manifestou-se desta forma no meio de nós: Deus enviou ao
mundo o seu Filho Unigénito, para que, por Ele, tenhamos a vida. * Foi com isto
que ficamos a conhecer o amor: Ele, Jesus, deu a sua vida por nós; assim também
nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos. (T. P. Aleluia).
V. É nisto que está o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele
mesmo que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos
pecados. * Foi com isto que ficamos a conhecer o amor: Ele, Jesus, deu a sua
vida por nós; assim também nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos. (T. P.
Aleluia).
ORAÇÃO
Deus, que na vossa providência chamastes o beato Estanislau, presbítero,
a promover a honra da Imaculada Conceição da Bem-aventurada Virgem Maria
e a auxiliar as almas do purgatório, concedei-nos, vos pedimos, que, também nós,
seguindo o seu exemplo de vida e apostolado, proclamemos a plenitude da graça
e da santidade da Mãe do vosso Filho e, suplicando a vossa misericórdia para
os irmãos defuntos, mereçamos ser conduzidos à pátria verdadeira. Por Nosso
Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito
Santo. Ámen.
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NOVENA
NA INTENÇÃO DE ALCANÇAR
UMA GRAÇA ESPECIAL PELA INTERCESSÃO DO
BEATO ESTANISLAU PAPCZYNSKI
Com a máxima confiança na ajuda divina, despertemos a intenção de alcançar
a graça pela intercessão do Beato Estanislau, concordando ao mesmo tempo em
aceitar a vontade divina.
PRIMEIRO DIA
Pois o Todo-Poderoso fez grandes coisas por mim (Lc 1, 49).
Senhor, Deus Todo-Poderoso, em razão de Vosso Servo Bem-avenurado Estanislau, que com tanto entusiasmo assumiu na congregação por ele fundada a obra
da difusão do culto da Imaculada Conceição da Mãe de Vosso Filho, concedei-nos
essa graça, para que possamos incessantemente Vos glorificar por todas as coisas
que fizestes aos Vossos santos e concedei-nos levar uma vida em estado de amizade convosco e em ilibada castidade.
Pai nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...
Oração pedindo uma graça especial
Deus Pai, que em Vossa imensurável Providência nos destes no bem-aventurado Estanislau um eficaz intercessor junto ao Vosso trono, dignai-Vos concederme (nos), pela sua intercessão, a graça..., que Vos peço (pedimos) e concedei-me
(nos), a seu exemplo, cumprir fielmente a Vossa santa vontade. Por Cristo Senhor
nosso. Amém.
Oração pedindo a canonização do beato Estanislau
Santíssima e indivisível Trindade, que escolheis a Vossa morada nos corações
dos Vossos fiéis servos, e após a morte recompensais os seus méritos com a glória
do céu, fazei, nós Vos pedimos, com que o Vosso servo bem-aventurado Estanislau, que, contemplando o mistério da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, com
tanta fidelidade e tão diligentemente buscou a santidade, empenhando-se pela vinda e pela consolidação do Reino de Deus no coração dos semelhantes, seja com a
máxima brevidade incluído no rol dos santos. Por Cristo Senhor nosso. Amém.
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SEGUNDO DIA
E sua misericórdia perdura de geração em geração (Lc 1, 5).
Deus, Juiz imparcial, em razão do Vosso Servo bem-aventurado Estanislau,
que generosamente e de todas as formas se apressou em prestar ajuda aos falecidos que sofrem no purgatório, fazei com que o imitemos zelosamente nessa
sublime obra de caridade, especialmente diante dos falecidos que nos são mais
próximos e daqueles que mais necessitam da nossa ajuda espiritual.
Pai nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...
Oração pedindo uma graça especial e a canonização do bem-aventurado
Estanislau.
TERCEIRO DIA
Agiu com a força de seu braço, dispersou os homens de coração orgulhoso
(Lc 1, 51).
Ó Jesus, nosso Salvador e Mestre, em razão de Vosso Servo Estanislau, que
se utilizou de todas as ocasiões para proclamar a palavra de Deus e prestar ajuda
espiritual aos desprovidos de assistência pastoral, concedei-nos a graça de atrairmos os outros a Deus pela palavra e pelo exemplo da nossa própria busca da
santidade.
Pai nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...
Oração pedindo uma graça especial e a canonização do bem-aventurado
Estanislau.
QUARTO DIA
Depôs poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou (Lc 1,52).
Deus Espírito Santo, em razão de Vosso Servo Estanislau, que durante a vida
toda promoveu a defesa da fé católica e expressou a prontidão para professá-la
através do martírio, concedei-nos a graça de cada vez mais crescermos na fé e a
professarmos corajosamente em todas as circunstâncias da vida.
Pai nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...
Oração pedindo uma graça especial e a canonização do bem-aventurado
Estanislau.
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QUINTO DIA
Cumulou de bens a famintos, e despediu ricos de mãos vazias (Lc 1,53).
Deus Pai, em razão de Vosso Servo bem-aventurado Estanislau, que, confiante
na ajuda da Vossa Providência, apesar dos muitos obstáculos, por Vossa inspiração fundou e confirmou a Congregação da Imaculada Conceição da Beata Virgem
Maria, concedei-nos a graça de nos distinguirmos por uma inabalável confiança
em Vossa onipotência, especialmente quando nos conduzis por um caminho de
espinhos às maravilhosas promessas do Vosso amor.
Pai nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...
Oração pedindo uma graça especial e a canonização do bem-aventurado
Estanislau.
SEXTO DIA
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia (Mt
5,7).
Deus, Pai de misericórdia, em razão de Vosso Servo bem-aventuradoo
Estanislau, cujo amor para convosco expressava-se da forma mais eloqüente
na prática cotidiana e devotada de atos de misericórdia, concedei-nos a graça
de podermos sempre e generosamente imitá-lo no amor ativo ao próximo.
Pai nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...
Oração pedindo uma graça especial e a canonização do bem-aventurado
Estanislau.
SÉTIMO DIA
Quem vos ouve a mim ouve (Lc 10,16).
Senhor, que sois um Deus fiel, em razão de Vosso Servo bem-aventurado
Estanislau, que moldou sempre a sua vida e as suas obras em filial submissão
diante do Sucessor de Pedro, concedei-nos a graça de preservarmos a fidelidade
a Deus, à Cruz e ao Evangelho, através de uma perfeita obediência à Igreja.
Pai nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...
Oração pedindo uma graça especial e a canonização do bem-aventurado
Estanislau.
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OITAVO DIA
Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus (Mt
5, 3).
Senhor, que nos amais, em razão do Vosso Servo bem-aventurado Estanislau,
que voluntariamente assumiu uma vida severa e mortificada na máxima pobreza
para poder entregar-se a Vós com todo o coração e toda a alma, concedei-nos
a graça de resistirmos valorosamente à avidez do dinheiro e das predileções pecaminosas, buscando a liberdade do espírito na Vossa verdade e amor.
Pai nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...
Oração pedindo uma graça especial e a canonização do bem-aventurado
Estanislau.
NONO DIA
Tende confiança, sou eu, não tenhais medo (Mt 14, 27).
Deus, de quem tudo se origina e a quem tudo se encaminha, em razão de Vosso Servo bem-aventurado Estanislau, que pelo exemplo da sua vida forneceu-nos
um modelo de total entrega à Vossa santa Providência, concedei-nos a graça de
confiantemente depositarmos em Vossas misericordiosas mãos o nosso passado
e o nosso futuro, e toda a nossa vida, permitindo que nos conduzais pelo caminho
evangélico à Vossa morada no céu.
Pai nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...
Oração pedindo uma graça especial e a canonização do bem-aventurado
Estanislau.
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PARTE II
Michał Kozak MIC
CONFERÊNCIAS RELIGIOSAS
PARA OS DIAS DE RECOLHIMENTO
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CONFERÊNCIA I
O DOM DA VIDA RELIGIOSA
“Apenas o estado religioso não salva a ninguém, mas sim a vida religiosa” (IC
13r). Não foi por acaso que escolhi essa frase do Padre Estanislau, de Inspectio
Cordis, como lema deste livro. De forma sucinta e muito acertada, ela descreve
o anseio fundamental de sua vida: entregar-se inteiramente a Deus através da
prática dos conselhos evangélicos e do crescimento nas virtudes próprias dos religiosos. Essa era a chama que lhe dava força, que determinava as escolhas feitas,
que iluminava os caminhos por ele trilhados. Com essa chama ele queria inflamar
os corações dos irmãos, tanto na Ordem inicialmente escolhida das Escolas Pias
como na comunidade mariana por ele fundada. Para a realização desse anseio,
o nosso Beato Fundador não dava margem a nenhum tipo de acomodações ou delongas, à preguiça, à escolha de meios ou ao descanso sobre os louros alcançados.
Exigia isso, em primeiro lugar de si mesmo, mas também esperava o mesmo dos
seus coirmãos religiosos. O estado espiritual de alguém que escolhe o caminho
religioso mas que não o segue era, para o Padre Estanislau, o mais trágico e digno
de lástima, pior que o das pessoas “que perambulam pelos maus caminhos do
mundo”, como muitas vezes descrevia a vida dos leigos. Apenas a presença morta
na vida religiosa de nada serve: “O que lucrarás se exteriormente fingires ser um
religioso, mas interiormente fores pior que os piores mundanos?” (IC 146r). Essa
intransigência não lhe facilitava a vida, pelo contrário, foi justamente em razão
dela que teve problemas com os escolapios e no eremitério de Korabie, mas a esse
respeito jamais cedeu nem renunciou ao seu ideal. Defendeu a fidelidade e o zelo
religioso como a sua própria vida, e a apreciação que lhes devotou foi maior ainda. Efetivamente assim foi, porque ele não teve e não quis ter uma outra “vida”.
Antes que, à luz dos escritos do Padre Fundador, comecemos a contemplar os
diversos aspectos da nossa peregrinação pelos caminhos dos conselhos evangélicos, vale a pena formular uma pergunta a partir de uma perspectiva mais ampla:
o que era para ele a vida religiosa em geral, de que imagens se utilizava para descrevê-la, quais elementos seus ele considerava como primordiais.
O nosso Beato possuía extraordinárias aptidões oratórias e utilizava-se de
uma linguagem pitoresca e rica em comparações. Aquelas de que se utilizava
para apresentar a beleza da vida religiosa exalam uma atmosfera de calor, de segurança, de ternura e de proximidade divina. Muitas vezes elas são construídas
com base no contraste diante do “mundo”, que se governa por outras leis e, em
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conseqüência, vegeta na insegurança, na idolatria, na perdição, e até no ódio diante de Deus. O “mundo” é a Babilônia, a prostituta bíblica, o foco do orgulho, da
arrogância, das forças do mal: aqueles que nele permanecem são vistos como
extraviados num mar revolto e perigoso. A vida religiosa é a Jerusalém, a santa
cidade de Deus firmemente fortificada. Aquele que nela reside encontra-se em
sua pátria, na casa de Deus, na Sua tenda, num ancoradouro e num porto seguro,
como se fora uma árvore plantada no belíssimo jardim de Cristo, ou a ovelha no
aprisco, envolvida pela carinhosa proteção do Bom Pastor. A cela é como o céu,
e a vida religiosa é uma terra de felicidade, o paraíso, o verde jardim elísio, a pérola mais preciosa pela qual vale a pena entregar tudo (cf. IC 60rv, 134, 14v, 29v,
70v, 76r, 78v, 124v, 136v, 164rv, 169v, 171r; NV V 9). A vocação religiosa torna
o ser humano como que herdeiro dos Apóstolos, não pela função, evidentemente
– embora o Padre Papczynski utilize também essa formulação – mas pelo vínculo
especial com o Evangelho e pela proximidade direta de Jesus. O religioso sentase “à mesa de Jesus” e partilha o Seu destino juntamente com os apóstolos (cf. IC
54r, 110v, 132v, 142v).
Se neste ponto interrompêssemos a análise dos pensamentos do nosso Fundador relacionados com a vida religiosa, a imagem que ficaria em nossos corações
e em nossas mentes seria drasticamente incompleta, privada da tensão escatológica entre o “já” e o “ainda não”, bastante evidente nos pronunciamentos do Beato.
A casa religiosa não é um território de despreocupada felicidade, a vida aí não
é uma “dolce vita” espiritual, e os religiosos não são pipas de bom vinho que descansam nos porões dos conventos à espera do dia dos esposais com o Cordeiro.
O Padre Papczynski relaciona indissoluvelmente as comparações assinaladas pela
paz, pela segurança, pela cálida luz da proximidade de Deus com o apelo à luta
contra o demônio, ao combate contra os defeitos e ao crescimento nas virtudes,
à oração e à incessante conversão, à real participação na cruz de Cristo. Diz a cada
um de nós: De fato, resides num paraíso, mas aí está continuamente presente
a serpente, que, “invejando a tua felicidade, inocência e futura glória, incessantemente te espreita, esperando com a boca aberta para te agarrar, amordaçar, matar
e engolir” (C 169v). Se te livraste da “Babilônia” e chegaste até tua casa e tua
pátria, foi para romper com a idolatria e edificar ao Senhor um santuário (cf. IC
134r). És uma árvore plantada em Seu jardim, mas ameaçada de ser cortada se não
cresceres e não produzires frutos (cf. IC 70v). Pertences ao aprisco, no entanto
lembra-te de que em tua volta espreitam lobos e mercenários infernais (cf. I 29v).
És cercado pelas “muralhas” e “fortificações” da santa Jerusalém defendida pelo
poder de Deus, mas o inimigo infernal reconhece em ti o pior inimigo e com todas
as forças procura “expulsar-te”, ou ainda “ali mesmo te minar, subjugar e aniquilar” (IC 29v). Passeias pela feliz plaga não para recreação, mas para – através da
oração e da mortificação – colher dons para Cristo (cf. IC 97v-98r).
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O Beato Estanislau não tem a mínima dúvida: a vida religiosa é o lugar mais
adequado para conquistar o céu e a santidade, para a íntima convivência com
Deus, mas ali se pode também perecer, perder a vida eterna. O religioso não trilha
um caminho reto, livre de curvas e encruzilhadas. Todos os dias ele se vê diante
da necessidade do discernimento e da escolha. Os dois caminhos, tão nitidamente
apresentados pela Bíblia e pela tradição cristã (cf. Dt 30, 15-20; Sl 1; Jr 21, 8; Pr 4,
18-19; Mt 7, 13-14, todo o Sermão da Montanha; cf. Regra da União de Qumran,
Carta de Barnabé, Pastor de Hermas e outros) têm a sua bifurcação no próprio cerne da vocação religiosa. O religioso é chamado para – incessantemente rejeitando
o que é o amor do mundo, a preguiça, a negligência, a indolência, e na realidade
o ódio diante de Deus – de todo o coração servir a seu Senhor pela aceitação do
“jugo suave” da vida religiosa, no zelo, na humildade, na renúncia à sua vontade,
no amor à oração e à mortificação (cf. IC 33v-34r, 49rv, 78v-79r, 170v-171r). Uma
profunda análise das próprias escolhas e a indagação do caminho que se está trilhando são práticas que o Padre Papczynski recomenda para os retiros semanais:
“Reflete a respeito das causas a que mais te dedicaste e devotaste durante a tua
permanência neste estado religioso: às mortificações ou aos confortos? A respeito
daquilo a que mais inclinaste o teu espírito: à superação da tua vontade ou ao seu
cumprimento? À satisfação dos desejos alheios, especialmente dos superiores, ou
à satisfação das tuas aspirações? Se estiveste mais ocupado com o cumprimento
das tuas aspirações, fica convencido de que te guiaste pelo espírito da falsidade.
Se aconteceu o contrário, não tenhas dúvidas de que te guiaste muito bem e fica
sabendo que o que fizeste estava de acordo com a tua vocação. A fim de lhe corresponder, aumenta e amplia agora também essas menores e novas fagulhas de amor
divino com o objetivo de praticar as virtudes, buscando-as com diligente esforço
e com o desejo de realmente progredir. Se desprezares a ti mesmo, então sentirás
como é doce o Senhor! Se todo te afastares do mundo, perceberás como o mundo
é amargo! Porquanto qual é o gosto, qual é o perfume que sentem aqueles que não
apenas degustam, mas sorvem os prazeres corporais, as delícias do mundo e as
bebidas babilônicas? Oh! Eles poderão haurir e beber doçuras efêmeras, em razão
das quais serão, no entanto, lançados no abismo sem fundo dos eternos amargores. Pelos séculos lamentarão essa satisfação da sua natureza e jamais apagarão
a sua culpa. E, pelo contrário, quanta permanente doçura se encontra na cruz,
na paciência, nas mortificações, nas labutas, nas desgraças e injustiças sofridas e
suportadas em espírito de imitação do Deus-Homem! Nessas coisas os amantes da
cruz e do sofrimento encontram a abundância de infindáveis alegrias, de eternos
consolos, de santos e perpétuos prazeres, ainda que seja somente após uma renhida luta e de escaramuças com o mundo, o inferno e as suas más concupiscências.
Tens a liberdade de escolher uma dessas duas opções, porque possuis o livre
arbítrio e a livre vontade. Vê, no entanto, com quanta prudência e com qual proveito já escolheste uma delas e ainda tens de escolher” (IC 170v).
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Tanto no trecho citado da meditação como em outros pronunciamentos a respeito da vida religiosa, o Padre Papczynski dá ênfase especial a duas questões.
A primeira é a dimensão passional, ou antes, pascal do caminho da vida religiosa.
De forma evidente esse é o caminho da cruz: a mortificação, a penitência, a humildade em suportar o desprezo e as ofensas, o esforço que não espera a recompensa
– tudo isso indica que nos encontramos no caminho dos verdadeiros imitadores de
Cristo, que somos filhos e não mercenários, porque o mercenário rejeita a cruz (cf.
IC 35v-36r, 49v, 80v, 110r, 130v-131r, 136v). No entanto esse caminho é também
iluminado pelo esplendor da ressurreição: “O bondosíssimo Senhor, com mais freqüência do que seria oportuno, na Santíssima Eucaristia concede à tua alma a Sua
glória e somente a reconforta com verdadeiros consolos para que, estimulado pelo
gosto das alegrias imortais, das delícias, das honras e dos bens imortais, suportes
com alegria e de bom grado qualquer tipo de desprezo, injustiça, desgraça e o jugo
suave da vida religiosa, e para que saibas que pelos mais intensos esforços deves
atingir a mais doce paz, pelas dores e pelas maiores opressões – o descanso, pela
luta e pela morte – a vida” (IC 33r).
A segunda questão especialmente enfatizada pelo Padre Estanislau é a necessidade de renunciar à própria vontade e a maneira conseqüentemente séria de tratar o voto da obediência. Quem segue “a sua vontade, conduzida pela razão ditada
pela mentalidade do demônio”, ainda que seja um religioso, é cego e erra (C 34r).
O caminho da vocação é como a caminhada de Abraão e exige a obediência em
grau heróico. “Porquanto Abraão quis oferecer a Deus, atendendo a Seu pedido,
o próprio filho em holocausto. Tu, seguindo o seu exemplo, também deves oferecer algo a esse mesmo Senhor. Abraão, atendendo à voz divina, abandonou a sua
terra natal e todos os seus parentes. Tu também abandonaste a terra natal em troca
do ancoradouro que pela vocação religiosa te indicou o dedo do Espírito Santo
e, como a teus parentes e companheiros, deves também abandonar os teus maus
hábitos e as tuas paixões indomáveis. Deves também dedicar, entregar e depositar
em sacrifício ao Deus bondosíssimo e onipotente no monte Moriá, isto é, na vida
religiosa, o teu filho único Isaac, isto é, a tua vontade única. E em todos os empreendimentos e propósitos dize: Seja feita a Vossa vontade, assim na terra como
no céu. Quanto a mim, seja feita, Senhor, a Vossa vontade em todos os momentos,
horas e dias e na eternidade”. (IC 31r-14v; cf. também IC 60rv, 75r, 170v; TDM
VI3).
Somente o religioso que com zelo se entrega à oração, que é obediente e que
não se afasta da regra, envolvido no “serviço divino, isto é, na vida ativa e no
sofrimento” (C 131r), verdadeiramente merece esse nome. Caso contrário, traz
apenas um nome vazio e o traje religioso. Finge ser um religioso e, embora pelo
traje dê a impressão de estar imitando a Cristo, os seus costumes são pérfidos.
Repetidas vezes e com muita veemência o Padre Papczynski enfatiza a necessi32
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dade de uma profunda mudança nos costumes e da autenticidade da vida religiosa
(cf. IC 13r, 115v-16r, 130v, 135v). Ao lermos esses trechos, ouvimos como que
o eco da exclamação do Apocalipse: “Tens um nome que diz que vives, mas estás
morto”, ou o anseio de S. Inácio de Antioquia, que a caminho da morte de mártir,
escrevia na carta aos romanos a respeito do seu anseio: “para que eu não apenas
me chame cristão, mas também demonstre que o sou”.
Na tentativa de apresentar um esboço geral da imagem da vida religiosa que
trazia em seu coração o nosso Beato Fundador, devemos abrir mais dois documentos. O primeiro é o livro da vida do Padre Estanislau, que comprova de forma irrefutável que para ele a verdadeira vida religiosa era – como ele mesmo
escrevia – a pérola mais preciosa, merecedora de todos os empenhos e esforços.
Sem a mínima hesitação, por toda a sua vida, entregou tudo a fim de a conquistar
a preservar na plenitude do seu brilho. O segundo documento é a Norma vitae,
a regra que ele mesmo escreveu para a sua comunidade. Trata-se, se assim nos
podemos expressar, de um aperfeiçoamento mariano da regra de S. Agostinho.
Para o Bispo de Hipona, o modelo da comunidade monástica era a vida da comunidade primitiva de Jerusalém. Esse ponto de referência, com uma ênfase especial
ao amor mútuo, parece ser atual também para o nosso Fundador. A comunidade
religiosa que no propósito do Padre Papczynski devia surgir da Regra de vida
era uma comunidade compacta e repleta de amor, crescendo conjuntamente, com
todas as forças, para a salvação.
Se o anseio do Beato Estanislau pela vida religiosa fosse apagado do seu coração, se fosse esquecido e eliminado dos seus escritos, então o Padre Estanislau
deixaria de ser o que é, e as suas escolhas, peripécias da vida, tudo o que fez e escreveu se tornaria incompreensível.
Se hoje nos alegramos com a sua beatificação, empenhemo-nos para que essa
alegria seja criativa, para que implique a imitação. Se a gloria celeste do Padre
Estanislau é hoje a alegria dos marianos, é preciso fazer tudo para que os marianos de hoje sejam a alegria e a glória do Padre Estanislau no céu. Creio que,
segurando nas mãos a Regra, ele olha para nós e reza com as palavras de S. Paulo:
“Assim, irmãos amados e queridos, minha alegria e coroa, permanecei firmes
no Senhor, ó amados!” (Fl 4, 1). Que este livro permita a nós todos que façamos
a nós mesmos esta pergunta: Onde me encontro, onde me encontra a palavra de
testemunho do nosso Fundador e será que realmente vivo a vida religiosa? Uma
pergunta extremamente séria, visto que “apenas o estado religioso não salva a ninguém, mas sim a vida religiosa”.
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TEXTOS PARA MEDITAÇOES
Texto bíblico básico: Gn 12, 1-4.
[...] 1 O Senhor disse a Abrão: “Sai de tua terra, do meio de teus parentes,
da casa de teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar. 2 Farei de ti uma
grande nação e te abençoarei: engrandecerei o teu nome, de modo que ele se
torne uma bênção. 3 Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que
te amaldiçoarem. Em ti serão abençoadas todas as famílias da terra”. 4 Abrão
partiu, como o Senhor lhe havia dito, e Ló foi com ele. Abrão tinha setenta e cinco
anos ao partir de Harã.
Referências bíblicas para o aprofundamento da leitura do texto
versículo 1: At 7, 1-8; Hb 11,8 ss; Ex 12,37-51; Ex 13,17-22; 1Rs 19,15-21;
Mt 4,18-22; Lc 9,57-62;
versículo 2: Gn 15,1-21; Gn 17,1-8; Gn 28,10-15; Gn 35,1-12; Gn 46,1-7;
versículo 3: Gn 27,29; Ex 23,20-27; Nm 24,1-9; Jr 4,2; Eclo 44,19-21; Sl 72,1617; At 3,19-26; Gl 3,7-9.
Outros textos bíblicos relacionados com o tema
Rm 6,3-11
[...]? 3 Acaso ignorais que todos nós, batizados no Cristo Jesus, é na sua
morte que fomos batizados? 4 Pelo batismo fomos sepultados com ele em sua
morte, para que, como Cristo foi ressuscitado dos mortos pela ação gloriosa do
Pai, assim também nós vivamos uma vida nova. 5 Pois, se fomos, de certo modo,
identificados a ele por uma morte semelhante à sua, seremos semelhantes a ele
também pela ressurreição. 6 Sabemos que o nosso homem velho foi crucificado
com Cristo, para que seja destruído o corpo sujeito ao pecado, de maneira a não
mais servirmos ao pecado. 7 Pois aquele que morreu está livre do pecado. E, se
já morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele. 9 Sabemos que
Cristo, ressuscitado dos mortos, não morre mais. A morte não tem mais poder
sobre ele. 10 Pois aquele que morreu, morreu para o pecado, uma vez por todas,
e aquele que vive, vive para Deus. 11 Assim, vós também, considerai-vos mortos
para o pecado e vivos para Deus, no Cristo Jesus.
1 Cor 1,22-31
[...]22 Pois tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria. 23Nós, porém, proclamamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus
e loucura para os pagãos. 24 Mas para os que são chamados, tanto judeus como
gregos, Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus. 25 Pois o que é loucura de
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Deus é mais sábio que os homens e o que é fraqueza de Deus é mais forte que
os homens. 26 De fato, irmãos, reparai em vós mesmos, os chamados: não há
entre vós muitos sábios de sabedoria humana, nem muitos poderosos, nem muitos
de família nobre. 27 Mas o que para o mundo é loucura, Deus o escolheu para
envergonhar os sábios, e o que para o mundo é fraqueza, Deus o escolheu para
envergonhar o que é forte. 28 Deus escolheu o que no mundo não tem nome nem
prestígio, aquilo que é nada, para assim mostrar a nulidade dos que são alguma
coisa. 29 Assim, ninguém poderá gloriar-se diante de Deus. 30 É graças a ele que
vós estais em Cristo Jesus, o qual se tornou para nós, da parte de Deus, sabedoria, justiça, santificação e libertação, 31 para que, como está escrito, “quem se
gloria, glorie-se no Senhor”.
1Pd 1, 3-9
[...] 3 Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Em sua grande
misericórdia, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, ele nos fez nascer de novo para uma esperança viva, 4 para uma herança que não se desfaz, não
se estraga nem murcha e que é reservada para vós nos céus. 5 Graças a fé, e pelo
poder de Deus, estais guardados para a salvação que deve revelar-se nos últimos
tempos. 6 Isso é motivo de alegria para vós, embora seja necessário que no momento estejais por algum tempo aflitos, por causa de várias provações. 7 Deste
modo, o quilate de vossa fé, que tem mais valor que o ouro testado no fogo, alcançará louvor, honra e glória, no dia da revelação de Jesus Cristo. 8 Sem terdes
visto o Senhor, vós o amais. Sem que agora o estejais vendo, credes nele. Isto
será para vós fonte de alegria inefável e gloriosa, 9 pois obtereis aquilo em que
acreditais: a vossa salvação.
Mt 5, 1-12
[...] 1 Vendo as multidões, Jesus subiu à montanha e sentou-se. Os discípulos
aproximaram-se, 2 e ele começou a ensinar: 3 “Felizes os pobres no espírito,
porque deles é o Reino dos Céus. 4 Felizes os que choram, porque serão consolados. 5 Felizes os mansos, porque receberão a terra em herança. 6 Felizes os
que têm fome e sede da justiça, porque serão saciados. 7 Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8 Felizes os puros de coração, porque
verão a Deus. 9 Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos
de Deus. 10 Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles
é o Reino dos Céus. 11 Felizes sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem
e, mentindo, disserem todo mal contra vós por causa de mim. 12 Alegrai-vos e
exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus. Pois foi deste modo que
perseguiram os profetas que vieram antes de vós.
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Jo 15, 1-11
[...] 1 “Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o agricultor. 2 Todo ramo
que não dá fruto em mim, ele corta; e todo ramo que dá fruto, ele limpa, para que
dê mais fruto ainda. 3 Vós já estais limpos por causa da palavra que vos falei.
4 Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar
fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto se não permanecerdes em mim. 5 Eu sou a videira e vós, os ramos.
Aquele que permanece em mim, \como eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim,
nada podeis fazer. 6 Quem não permanecer em mim será lançado fora, como um
ramo, e secará. Tais ramos são apanhados, lançados ao fogo e queimados. 7Se
permanecerdes em mim, e minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que
quiserdes, e vos será dado. 8 Nisto meu Pai é glorificado: que deis muito fruto e
vos torneis meus discípulos. 9 Como meu Pai me ama, assim também eu vos amo.
Permanecei no meu amor. 10 Se observardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu observei o que mandou meu Pai e permaneço
no seu amor. 11 Eu vos disse isso, para que a minha alegria esteja em vós, e a
vossa alegria seja completa.
OS ATUAIS ESTATUTOS RELIGIOSOS MARIANOS
A vocação é apresentada nas nossas Constituições como uma escolha de Deus,
livre e realizada por amor. A consagração nos direciona para os caminhos da busca da santidade, através da imitação de Cristo e pela Sua transformação no único
centro da nossa vida. Essa escolha e esse caminho estão enraizados na graça do
batismo e têm por objetivo fazer com que ela produza frutos mais abundantes.
Com santo entusiasmo, recomeçando todos os dias, devemos buscar a Deus, amáLo e com Ele nos identificar da forma mais perfeita. Um objeto especial da nossa
solicitude deve ser a fidelidade pessoal à graça da consagração e o apoio às novas
vocações religiosas.
Artigos das Constituições: 1, 4-5, 20-21, 24, 36-38, 65, 153-154.
1 A Congregação dos Padres Marianos da Imaculada Conceição da Virgem
Maria é no seio da Igreja, uma comunidade fraterna de clérigos e leigos que, unidos pela caridade mútua e missão apostólica, promovem a glória de Deus e tendem à perfeição evangélica. Os membros, respondendo livremente à vocação do
amor divino, assumem as obrigações da vida comum e do testemunho da perfeita
caridade, a fim de que, dedicados a Cristo e à sua Igreja por uma nova e peculiar
consagração, mediante a profissão dos conselhos evangélicos, produzem frutos
mais abundantes da graça do batismo. [CM 1; LG 44; PC 1]
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4 Renunciando a tudo quanto permite a fragilidade humana, os membros se
ofereçam, entreguem, consagrem totalmente a Deus e àquilo que é de Deus, de tal
modo que Deus seja plenamente o centro da vida de cada um dos membros e de
toda a Congregação. [CM 4]
5 Os membros tendem à própria perfeição evangélica e santificação dos outros, seguindo fiel e virilmente a Jesus Cristo, Salvador do mundo; perscrutando
e meditando diligentemente o seu Evangelho, procurem cada vez mais conhecer,
amar e imitar a Cristo, deixar-se imbuir e conduzir pelo espírito de Cristo, com
todo empenho e esforço dilatar o reino de Cristo levar Cristo a tudo. Assim Cristo
seja o guia e o modelo tanto de toda a Congregação quanto de cada um dos seus
membros. [CM 3; Instr. I, 12; PC 5]
20 Lembrados de que pelo batismo da fé se tornaram verdadeiramente filhos
de Deus e participantes da natureza divina, os membros são obrigados a conservar
e aperfeiçoar a santidade, que então receberam de Deus, conforme a exortação do
divino Mestre: “Portanto, deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito”
(Mt 5,48). [LG 40]
21 A santidade da Igreja de Cristo aparece e se fortifica de modo especial na
observância dos conselhos evangélicos que, sendo fundamentados nas palavras
e exemplos do Senhor, são recebidos pelos membros com gratidão e são usados
como meios eficazes para a purificação do coração, para conseguir a semelhança
no amor com Cristo e também com Maria Imaculada. Portanto, a vida deles apareça no mundo como sinal do Reino celeste, que pode e deve atrair eficazmente os
outros cristãos a cumprirem diligentemente os deveres da própria vocação. [LG
44]
24 Seguindo as pegadas de Cristo e tornando-se conformes à sua imagem,
cumprindo em tudo a vontade do Pai, entreguem-se totalmente à glória de Deus
e ao serviço do próximo. Tendo sempre em grande apreço a perfeição própria,
fomentem em si o contínuo desejo dela, e dediquem-se a consegui-la com esforço
persistente e contínuo, como aqueles que sempre começam de novo; e ponham
todos os esforços e meios para progredir nele cada vez mais, valendo-se de todas
as ocasiões para se santificarem, jamais considerando suficiente aquilo que até
agora fizeram. [CM 162; LG 40] Guerra ao pecado
36 Cada um, em tudo e por tudo, se esforce por tender a uma estreita união
com Deus; com Ele intimamente unido, tanto na oração, como em todas as suas
ações e no trabalho, procure ser magnânimo e até sumamente generoso e liberal.
[CM 176]
37 O zelo, que é ardor da caridade, deve informar toda a vida dos membros
e seja:
1) sobrenatural: animado de uma fé firme e viva e de uma invencível confiança em Deus, unida à desconfiança de si mesmo;
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2) puro: procure não as suas coisas, mas aquelas que visam a maior glória de
Deus, a salvação das almas redimidas pelo tão elevado preço do Sangue de Jesus
Cristo e de sua Vida, e o proveito da Igreja;
3) ardente e suave: arda no amor à justiça e no ódio à iniqüidade; seja manso, que saiba compadecer-se da fraqueza, benigno e misericordioso para com os
que erram;
4) universal: que com o coração dilatado pela caridade, se estenda a todos os
homens, e a todos os recursos que estão em seu poder, e anseie inflamar no fogo
do amor, o maior número possível de almas;
5) prudente e bem ordenado: examine oportunamente com cuidado e antecipadamente as coisas que devem ser feitas, perscrutando à vontade de Deus em
todas as coisas; que se valha do exemplo e da experiência dos outros, e que peça
conselhos a peritos, sobretudo aos superiores; que escolha os meios oportunos
e eficazes que produzam mais frutos; que proceda com ordem e método, nunca
descuidando de si, enquanto ajuda os outros;
6) criativo e ativo: procure ocasião de trabalhar quando o trabalho faltar;
procure novos e oportunos meios e métodos, para acudir às novas necessidades
que os tempos criam; que não adie as coisas que devem ser feitas; que se evidencie pelas boas obras conforme o cargo que lhes foi confiado, esforçando-se por
fazê-las no maior número e o melhor possível;
7) forte, generoso e constante: estimule a deixar as próprias comodidades, a
sacrificar a si mesmo, a empreender coisas grandes e difíceis, a trabalhar e a sofrer
infatigavelmente; que não seja abalado por nenhuma adversidade que o dever e a
obediência exigem e seja superior a todas as vicissitudes; que seja perseverante no
esforço e conduza até o fim aquilo que começou;
8) disciplinado: jamais ultrapasse os limites de seu estado e dever, sujeitando-se total e docilmente à direção dos superiores. [CM 177]
38 Cada membro estime grandemente o dom da vocação, que é origem e fonte de tantas e tão grandes graças, bens e merecimentos; por ela dê graças a Deus
incessantemente. Aquele que já professou se esforce por despertá-la em si, pela
renovação freqüente e piedosa dos seus votos; coopere com ela constantemente
e seja-lhe fiel e, à medida que avança nos anos da profissão, esforce-se, quanto
puder, por progredir na observância das Constituições, na caridade fraterna, na
humildade, na piedade, na obediência e nas demais virtudes e assim em toda perfeição. [CM 106]
65 Os membros antes de tudo procurem e amem a Deus, que primeiro nos
amou, e em todas as circunstâncias cultivem a vida escondida com Cristo em
Deus, donde emana e se estimula o amor ao próximo, para a salvação do mundo e
edificação da Igreja. Ainda que a caridade seja um dom de Deus, contudo é obtida
e conservada pela assídua mortificação e oração. Por isso os membros cultivem
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com contínuo empenho o espírito de oração e a oração mesma, haurindo-a das
genuínas fontes da espiritualidade cristã. [Jo 4,10; Col 3,3; NV II, 1; PC 6]
153 Meditemos, freqüentemente, as palavras do Senhor: “A colheita é grande, mas poucos os operários” (Mt 9,37). Por isso, a nossa Congregação, desejando ir ao encontro das necessidades apostólicas do nosso tempo, oferece-se, com
todos os meios possíveis, por recrutar para si e para toda a Igreja candidatos idôneos que, dotados de boa índole e convenientemente educados no seio da família,
sejam aptos para receber a formação sacerdotal e religiosa. Todos e cada um dos
membros saibam que lhes compete procurar, descobrir e cultivar obreiros para
a vinha do Senhor. [PC 24; RF 10]
154 Os membros exprimam o seu cuidado no recrutamento das vocações,
sobretudo pela oração cotidiana e fervorosa ao “Senhor da colheita para que envie
operários para a sua colheita” (Mt 9,37). Lembrem-se também que o exemplo
da própria vida, levada com espírito humilde e alegre, e também a mútua caridade fraterna são a melhor recomendação da Congregação e o melhor convite
para abraçar a vida religiosa. Procurem também atrair os ânimos dos jovens para
o serviço de Deus, pelo seu trabalho apostólico realizado com zelo e ardor.
PROPOSTAS DE PERGUNTAS PARA REFLEXÃO OU PARTILHA
1. Onde Deus te encontrou? Quais foram os primórdios da tua vocação? De que
“terra natal” saíste e como era então a tua situação de vida?
2. Que “promessa” te fez Deus ao chamar-te ao caminho da vida religiosa? O que
escolhias, por que ansiavas no momento do teu ingresso na vida religiosa? Até
que ponto esses anseios estão em ti vivos hoje?
3. Em que momentos da história da tua vocação vivenciaste a vida religiosa
como um dom especial, uma fortaleza segura, vestíbulo do céu, jardim do
Senhor?
4. Como em tua história vivencias a verdade de que a vida religiosa é uma vida
perigosa, incessantemente ameaçada pela fraqueza do “homem velho” e pelos
ataques do demônio?
5. O que em tua vivência da vida religiosa apresenta um traço passional e pascal
especialmente visível ? O que é a tua maior “cruz religiosa”? Será que em tua
experiência ela é iluminada pelo esplendor da ressurreição?
6. Será que na dimensão mais simples e cotidiana da vida realiza-se em ti
a “transformação dos costumes”? Em que e até que ponto eles se distinguem
da forma de vida “deste mundo”?
7. De que forma és hoje um anunciador da boa nova sobre a vida religiosa, especialmente diante dos jovens?
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CONFERÊNCIA II
O AMOR FRATERNO NA COMUNIDADE
Sintetizando a sua vida, S. Francisco, fundador de uma das maiores ordens
religiosas na história da Igreja, rememora os primórdios franciscanos numa frase simples: O Senhor me deu irmãos e me confiou a solicitude por eles. Entre
os fundadores houve aqueles que, como Carlos de Foucauld, durante a sua vida
não puderam contar com irmãos. Outros fugiam desse “dom divino” a cavernas
cada vez mais distantes, até o coração do deserto. No entanto para todos, sem
exceção, o relacionamento com os irmãos era um dos elementos fundamentais do
seu caminho, o espaço onde de forma muito direta eles vivenciavam a verdade
a respeito do pecado do homem, e onde com uma intensidade maior ainda percebiam o misericordioso amor de Deus. Sem dúvida era justamente na comunidade
em que viviam, pela qual ansiavam ou da qual fugiam que eles ouviam a voz de
Deus, o chamado a que buscavam atender. Do relacionamento com os irmãos se
originava uma das principais vertentes de sua história da salvação.
Também a vida do nosso Fundador não pode ser imaginada fora da comunidade religiosa. Ele a buscou nas Escolas Pias e mais tarde, quando teve de enfrentar as dificuldades relacionadas com a fundação da sua “Pequena Congregação”,
como ele mesmo muitas vezes chamava os marianos. Esse anseio de Estanislau
Papczynski por uma vida em fraterna comunidade apresenta alguns traços essenciais. O primeiro e o mais evidente é que essa busca de uma comunidade brota de
um chamado primitivo e fundamental que ele traz no fundo da alma. Deseja ele
de todo o coração servir a Deus, entregar-Lhe toda a sua vida e com todas as suas
forças buscar a perfeição nesse serviço. Essa vocação é como um fogo que arde
dentro dele incessantemente e não se apaga nem nos momentos mais difíceis da
vida. Uma chama que faz com que ele ingresse nas Escolas Pias e das Escolas Pias
se afaste. O zelo, que o faz rejeitar as dignidades propostas pelo bispo e os cargos eclesiásticos e nas dificuldades da incerteza e da incompreensão buscar uma
comunidade em que possa partilhar esse anseio interior. Recordando a fundação
da casa de retiros no Eremitério de Korabie, o padre Papczynski escrevia: “Mas
aconteceu por providência divina que, sem solucionar a questão, fui chamado
a Varsóvia por um especial Protetor, o Preclaro e Excelentíssimo João Gebicki,
na época bispo de Plock e, mais tarde, de Cracóvia. E justamente nessa ocasião
foi-me oferecida a dignidade de Cônego da Catedral de Plock, que não aceitei, impelido pelo amor de Deus e pelo meu propósito de honrar Sua Mãe, ainda que com
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tal procedimento tivesse pago mal ao Protetor que ficou zangado comigo e que
nitidamente com essa dignidade queria manter-me a seu lado. Não faltaram Santíssimas Ordens que me convidavam para delas fazer parte, e na realidade contra
isso eu não me indispunha, visto que justamente buscava ardentemente a maior
perfeição; no entanto aquela visão divina, que estava gravada em minha alma
e relacionada com a fundação dessa Congregação da Imaculada Conceição da
S.V.M., sem dar atenção a outras questões e após ter impedida igualmente a volta
às Escolas Pias, conduzia-me ao meu objetivo”. (Fundação da casa de retiros dos
Padres da S.V.M. Imaculada, n. 7).
No pronunciamento acima já se percebe a vocação para fundar uma nova
congregação. Parece, no entanto, que anterior a isso e mais fundamental era no
padre Estanislau o desejo de servir a Deus numa comunidade religiosa. Somente
quando a vida nas Escolas Pias não atendeu às suas expectativas é que começou
a compreender cada vez mais nitidamente que Deus o chamava para trilhar um
novo caminho.
Da marca acima descrita decorre o traço característico seguinte da busca de
uma comunidade, que se realizava na vida do nosso Fundador. Contemplando
o seu caminho, pode-se claramente definir os tipos de “comunidades” que ele não
buscava, das quais até fugia ou contra as quais lutava. Toda forma de vida na versão soft-light-easy, todo afastamento da ardente busca de Deus e do serviço a Ele
em prol de uma vida mais confortável era por ele categoricamente rejeitada. O Padre Papczynski não buscava na comunidade a companhia, mas irmãos no caminho
da salvação. Foi justamente essa a razão dos seus problemas, tanto nas Escolas
Pias como em Korabie. Assim ele recorda os primeiros dias passados nesse eremitério: “De manhã bem cedo eu me levantei e acordei esses eremitas para irem
à oração, mas no segundo e no terceiro dia eles se queixaram diante de Krajewski,
que já havia voltado, dizendo que eu os estava forçando à oração, quando seria
preciso antes chamar a atenção ao trabalho. Eles não eram absolutamente pessoas
de oração, mas guiavam-se pela vontade própria, nem residiam no eremitério entregues à penitência ou à busca da perfeição, mas para viver na abastança com as
esmolas com que, vistos como santos, eram generosamente ajudados por pessoas
dentre a nobreza que visitavam a residência de Krajewski. Por esse motivo decidi afastar-me, tendo feito um retiro de pelo menos um mês [...]” (Fundação da
casa de retiros dos Padres da S.V.M. Imaculada, n. 18). Neste ponto vale a pena
assinalar que o Padre Estanislau é capaz de falar com profundo respeito e amor
a respeito das comunidades de que se afastava, como se acima da pecaminosidade
humana percebesse nelas a presença de Deus. A respeito dos escolápios, onde
havia sido vítima de muitos sofrimentos, ele escreverá: “Muitos sabiam quem eu
era em minha vida naquela dulcíssima Associação dos meus mui caros Padres das
Escolas Pias de Nossa Senhora, e o mais difícil de explicar é quanto eu apreciava
a minha vocação, que não provinha de outra parte senão de Deus. Além disso, fui
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retido nessa Santíssima congregação não apenas forçado pelos laços do amor, mas
também obrigado pelo Sacramento do juramento de nela perseverar para sempre.
Eu queria que esse primeiro juramento fosse indissolúvel; no entanto dispensoume aquele a quem foi confiado o poder de atar e de desatar, o Vigário do Santíssimo Jesus Cristo e o Sucessor legal de São Pedro, o Papa Clemente Décimo, embora o caminho para chegar até aí tenha sido uma verdadeira via-sacra”. (Fundação
da casa de retiros dos Padres da S.V.M. Imaculada, n. 2).
Ao contemplarmos as expectativas e as aspirações comunitárias do nosso
Fundador, devemos ter a consciência de que não se trata aqui de algum tipo de aspecto periférico da vocação mariana, de algo que basicamente não é mencionado
entre os elementos do nosso carisma e pode permanecer num plano secundário.
A Palavra de Deus e também o que a Igreja fala hoje a seu respeito e a respeito da
vida religiosa aponta para o fato de que ocorre justamente o contrário. O caráter
comunitário (de comunhão) da vida consagrada atinge tanto o próprio cerne da
história do pecado e da salvação como o mistério da Igreja, e pode-se dizer que
em certo sentido tem um significado fundamental, mais essencial e mais primitivo que todos os carismas singulares. Deus criou o ser humano homem e mulher.
O primeiro ADÃO é uma pessoa inteiramente mergulhada no vivificante amor de
Deus, permanecendo ao mesmo tempo num profundo (necessário e pretendido
por Deus) relacionamento diante de Eva, a outra pessoa que o Criador colocou
diante dele, face a face, como o mais precioso dom e “auxílio”. Essa comunhão
do jardim do paraíso fixa-se com suas raízes no mistério da Santíssima Trindade,
dele brota e tira força, antecipando ao mesmo tempo de certa forma o mistério da
Igreja. O pecado dos primeiros homens, ao romper o vínculo com Deus, provoca
uma profunda destruição nas relações mútuas entre eles. A expulsão do Paraíso é
a expulsão da comunidade. A espada cintilante do anjo fecha o caminho e torna
impossível a volta do homem ao paraíso da comunhão, impossível para a natureza
humana ferida pelo pecado. Entre os homens levanta-se o “muro da hostilidade”,
que provoca a falta de unidade e de compreensão, as lutas, as desforras, os homicídios, numa palavra, cobre a humanidade com a profunda sombra da morte
amplamente entendida. Jesus demoliu esse muro devolvendo-nos a unidade com
o Pai. No Seu corpo crucificado infligiu a morte à hostilidade. A boa nova da
ressurreição é uma nova a respeito do amor e do perdão, que são mais fortes que
a morte. O novo e Último Adão abriu as portas de um novo paraíso. A comunhão
torna-se possível por força do Espírito do Senhor Ressuscitado como fruto da
Sua Páscoa. Nas chamas do Pentecostes brilha para o mundo pela primeira vez
o mistério da Igreja-comunidade, que na riqueza das variadas línguas alegra-se
com a unidade que vem do alto. Os Atos dos Apóstolos demonstram nitidamente
que um só espírito e um só coração, bem como o amor que rompe as divisões
e as barreiras, foram as primeiras marcas da Igreja. Somente Deus tem o poder
de devolver ao homem a força de um amor que pode fazer com que esse “outro”
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e “diferente” já não seja “estranho” e “inimigo”, mas irmão e irmã em Cristo. No
cerne desse mistério da salvação insere-se a comunidade religiosa, a respeito do
que, com especial ênfase, falam os documentos da Igreja dos últimos anos (cf. p.
ex. Vita consecrata, cap. 2; Vida fraterna em comunidade, n. 8-10; Recomeçar
com Cristo, 28-29).
Dentro da perspectiva acima esboçada, vale a pena indagar a respeito do papel
que o nosso Fundador atribuía à vida comum e ao amor fraterno. Entre os seus
escritos preservados, nenhum é integralmente dedicado à vida comum ou ao amor
entre os irmãos, no entanto em cada um deles podemos encontrar pensamentos,
estímulos ou reflexões inteiras a respeito desse tema. O amor tem para o Padre
Estanislau um significado absolutamente fundamental. Quem não possui a virtude
do amor não possui nenhuma virtude e é um verdadeiro ignorante. Em Inspectio
cordis escreve: “Não te enganarás se considerares que aquele a quem falta o amor
não possui nenhuma virtude. Vã e infrutífera é a ciência que não procede do amor.
Falsa e inútil é a obediência que é empreendida e praticada sem o amor. Vã e falsa
é a humildade que possui a mescla do ódio. Insignificante e enfatuada é a castidade à qual falta, como companheiro e protetor, o santo amor. Ignóbil e abjeta é
a pobreza praticada sem o amor. Defeituosa é a afabilidade que não foi gerada pelo
amor. Fria é toda perfeição, virtude ou atividade que não seja aquecida pelo amor”
(IC 166v; cf. também 28v). Na dimensão social e comunitária o amor mútuo
é a condição da persistência e do desenvolvimento, ao passo que o seu oposto,
o ódio, é a maior ameaça: “O amor é a alma, a luz, a vida das comunidades religiosas e de toda coletividade humana. Por isso aquele que destrói o amor é como se
destruísse a vida, como se apagasse a luz, como se matasse a alma. Isso acontece
porque a falta de amor em um dos membros reflete-se em todo o corpo. Podemos
perceber isso no exemplo do corpo humano: se um dedo se machuca com um
ferro envenenado, o veneno, espalhando-se pela mão, aos poucos dominará todo
o corpo, e todas as partes do corpo sentirão a ferida de um único membro. Graças
ao amor, das diversas pessoas religiosas como membros – superiores, pessoas
iguais entre si e inferiores – surge o corpo único da comunidade religiosa. E o que
se opõe ao amor é o ódio, que é um veneno mais prejudicial que qualquer outro
veneno, mais pernicioso que qualquer peste” (IC 165r; cf. também 152r). O amor
a Deus e o amor aos irmãos constitui para o Padre Estanislau algo inseparável.
O amor fraterno é a pedra de toque do amor a Deus e determina a salvação e a vida
eterna. Repetidas vezes ocorre a afirmação de que aquele que não possui o amor
ao próximo, aquele que não está inflamado desse amor não possui o amor a Deus
e dele não é digno (IC 68v; 83r; 152r). Trata-se simplesmente de uma questão de
vida ou de morte interior: “Quanto ao amor mútuo, aquele dentre vós sabe que é
o mais caro à divina majestade que for reconhecido como o que mais se distingue
no amor mútuo. Cada um se lembre de que a alma do seu instituto é o amor. Na
medida em que dele se afastar, na mesma proporção também se afastará da vida.
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Por isso, da mesma forma que apoiará diligentemente os bens, a fama, a inviolabilidade e a santidade de toda a congregação, também a cada uma das pessoas
a ela pertencentes demonstrará o mesmo que espera para si. Evitará, portanto,
aquela peste perniciosa, que mais se opõe ao amor: a inveja, o ódio, a obstinação,
a malevolência, a suspeita, a difamação, a antipatia, o ciúme particular, a delação,
os sarcasmos, as maledicências, as injustiças, a vã ambição, o desprezo dos outros, a perturbação, a confusão, as brigas e as disputas. E, como se fosse da paz
da própria alma, cuidará da paz da alma dos outros e de toda a casa como um
zeloso guardião do amor, e finalmente, tanto de toda a congregação como de cada
um dos seus membros, afastará de forma apropriada todo o mal. Lembrai-vos do
amor da Igreja primitiva, a respeito do qual o autor dos Atos dos Apóstolos diz
no capitulo quarto: E a multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma” (NV
II 4). É importante essa alusão à Igreja primitiva, permitindo supor que o Padre
Papczynski percebia a vida comum como uma especial concretização do mistério
comunitário da Igreja.
No entanto, a referência fundamental para o amor fraterno é Jesus Cristo. Somos a ele chamados pelo Seu mandamento: “Ousarás agora ladrar contra o bom
nome de alguém, destruir a vida, a obra e os costumes alheios, vingar-te das ofensas, alimentar ódio ao irmão, se Cristo, Juiz de nós todos, recomenda algo contrário, se a Palavra imutável exclama: Este é o meu mandamento, que vos ameis
uns aos outros?” (IC 37v). Sem a concórdia e o amor não se pode falar da presença de Cristo na comunidade, como em belas e fortes palavras escreve o Padre
Papczynski em Inspectio cordis: “Observa como o Senhor aprecia a unidade e a
concórdia, porque, quando viu que os discípulos se reuniram e estavam juntos,
logo apareceu entre eles, porquanto a unidade cresce com a concórdia. Onde reina
a unidade, ali também se encontra o amor. E, quando existe o verdadeiro amor, ali
não pode faltar Jesus, que é o próprio Amor. Por isso, todas as vezes que rompes
o laço do amor ou perturbas a unidade, tantas vezes excluis a Cristo e O afastas do
círculo dos Seus discípulos, e teus irmãos” (IC 46r).
Cristo não apenas conclama ao amor, mas também é o seu modelo, de maneira
especial pelo fato de nos ter amado como Seus inimigos e ter entregado por nós
a Sua vida. O mariano é chamado a uma participação especial nesse caminho.
Deve partilhar os tormentos, os insucessos, suportar as coisas mais desagradáveis,
servir aos irmãos, justificar os seus erros e carregar os seus pesos (cf. Ic 29v; 38r;
111v; 116r; NV II 4-5; Testamento Espiritual I 3). A recomendação do amor serviçal comum é uma das últimas orientações do nosso Fundador. No seu Primeiro Testamento Espiritual ele escreveu: “Sobretudo desejo, caríssimos meus, que
entre vós se encontrem em desenvolvimento a paz, a concórdia e o amor mútuo;
carregai os pesos uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo”.
Ao lermos as palavras do Padre Papczynski a respeito do amor e as suas recomendações aos irmãos, reencontramos o Espírito de que estava repleto Jesus
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quando na Sua “oração de Sumo Sacerdote”, durante a última ceia, transmitia aos
discípulos o amor mútuo, o Espírito que pela boca de São João Evangelista repetida incessantemente: “filhinhos, amai-vos” e do qual estava repleto São Paulo
quando escrevia o capitulo 13 da Primeira carta aos coríntios. Sem dúvida o nosso
Fundador desejava ardentemente viver numa comunidade repleta de ardente amor
a Deus, entre irmãos que, respeitando a observância religiosa, diligentemente servem ao Senhor e se apóiam no caminho da vida eterna. Ansiava por uma comunidade onde reina o amor e o perdão, onde o fraco e o que cai recebe apoio e onde os
irmãos, sem buscar a si mesmos e servindo-se mutuamente, nessa entrega de vida
encontram a Jesus, que reside entre eles. Com tais comunidades sonhava também
para todo mariano. Vale a pena perguntar se ele gostaria de hoje fixar residência
conosco em nossas casas, ou se, como outrora em Korabie, “resolveria afastarse”? Não se trata de voltarmos ao cilício e à flagelação, mas de algo mais essencial e fundamental. Se as nossas comunidades são para nós um lugar cuja função
principal é garantir-nos certa segurança existencial, a satisfação das necessidades
fundamentais (e não somente destas), assegurar uma “base” no trabalho pastoral,
etc. Ou se são um dom de Deus, um espaço onde Deus se encontra presente e nos
conduz. Se o nosso caminho de peregrinação na fé passa pela comunidade, e na
comunidade com os irmãos, ou se a nossa vida e o nosso coração se encontram
em outro lugar. E preciso incessantemente fazer-se essa pergunta e incessantemente rezar juntamente com o Padre Estanislau: “Ó amor, príncipe mais sublime
das virtudes e mestre de perfeição! Ó santo amor, fogo eterno, chama salvífica,
alimentador das almas, pai da paz, laço que une as nações e as almas, espírito que
nos une com Deus! Jamais te extingas e jamais te apagues em meu coração – para
com Deus, o Bem Supremo, e para com o próximo! Sê sempre o meu companheiro, em todo instante, em cada propósito, intenção e ação! Não te afastes de mim
pelos séculos! Afastem-se de mim a ciência, as profecias e os oráculos, mas tu não
me abandones (cf. 1Cor 13, 8-13). Possa eu entrar juntamente contigo naquelas
moradas dos santos e no reino do amor, de onde, ó mais poderosa das virtudes,
trouxeste o Menino Jesus ao reino terrestre! Amém.” (IC 166v).
TEXTOS PARA MEDITAÇÕES
Texto bíblico básico: Rm 12, 1-21
[....] 1 Eu vos exorto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a vos oferecerdesem
sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso verdadeiro culto. 2 Não
vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira
de pensar e julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, a saber, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito. 3 Pela graça que me foi dada,
recomendo a cada um de vós: ninguém faça de si uma idéia muito elevada, mas
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tenha de si uma justa estima, de acordo com o bom senso e conforme a medida da
fé que Deus deu a cada um. 4 Como, num só corpo, temos muitos membros, cada
qual com uma função diferente, 5 assim nós, embora muitos, somos em Cristo um
só corpo e, cada um de nós, membros uns dos outros. 6 Temos dons diferentes, segundo a graça que nos foi dada. É o dom de profecia? Profetizemos em proporção
com a fé recebida. 7 É o dom do serviço? Prestemos esse serviço. É o dom de ensinar? Dediquemo-nos ao ensino. 8 É o dom de exortar? Exortemos. Quem distribui
donativos, faça-o com simplicidade; quem preside, presida com solicitude; quem
se dedica a obras de misericórdia, faça-o com alegria. 9 O amor seja sincero. Detestai o mal, apegai-vos ao bem. 10 Que o amor fraterno vos una uns aos outros,
com terna afeição, rivalizando-vos em atenções recíprocas. 11 Sede zelosos e diligentes, fervorosos de espírito, servindo sempre ao Senhor, 12 alegres na esperança, fortes na tribulação, perseverantes na oração. 13 Mostrai-vos solidários com
os santos em suas necessidades, prossegui firmes na prática da hospitalidade.
14 Abençoai os que vos perseguem, abençoai e não amaldiçoeis. 15 Alegrai-vos
com os que se alegram, chorai com os que choram. 16 Mantende um bom entendimento uns com os outros; não sejais pretensiosos, mas acomodai-vos às coisas
humildes. Não vos considereis sábios aos próprios olhos. 17 A ninguém pagueis
o mal com o mal. Empenhai-vos em fazer o bem diante de todos. 18 Na medida do
possível e enquanto depender de vós, vivei em paz com todos. 19 Caríssimos, não
vos vingueis de ninguém, mas cedei o passo à ira de Deus, porquanto está escrito:
“A mim pertence a vingança, eu retribuirei, diz o Senhor”. 20 Pelo contrário, se
teu inimigo estiver com fome, dá-lhe de comer; se estiver com sede, dá-lhe de beber. Agindo assim, estarás amontoando brasas sobre sua cabeça. 21 Não te deixes
vencer pelo mal, mas vence o mal pelo bem.
Referências bíblicas para o aprofundamento da leitura do texto
versículo 1: Jo 4, 21-24; Rm 1, 9; Rm 6, 8-14; At 10, 34-43; 1Cor 3, 11-17; 1Pd
2, 1-9;
versículo 2: Rm 8, 5-11; Rm 14ss; Rm 26ss; Ef 5, 8-14; Fl 1, 9-11; 1Pd 1, 13-16;
1Jo2, 15-17;
versículo 3: Fl 2, 1ss; 1Cor 13, 1ss; 2Cor10, 12-18;
versículos 4-8: Ef 4, 7ss; 1Cor 12, 1ss; Tt 1, 5-12; Mt 6, 1-3;
versículo 9: 1Pd 1, 22; Jo 13, 34-35; Fl 2, 3-4; Am 5, 14-15; 1Jo 2, 9-11; 1Jo 3,
10-24;
versículo 10: 2Pd 1, 5-9; Fl 2, 3-4;
versículo 11: Ap 3, 14-16;
versículo 12: 1Cor 13, 13; At 1, 14; 1Ts 5, 16-22; Hb 10, 32-36;
versículo 13: Rm 15, 26-27; Hb 13, 1-3;
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versículo 14: Mt 5, 38-48; Lc 6, 27-36; At 7, 56-60; 1Cor 4, 11-13;
versículo 15: Sl 35, 12-15;
versículo 16: 1Cor 12, 15-27; Pr 3, 7; Is 5, 21; Rm 15, 5;
versículo 17: Pr 3, 4; 2Cor 8, 21; 1Ts 5, 15; 1Pd 3, 8-9;
versículos 18-21: 1Cor 6, 1-8; Dt 32, 35; Pr 25, 21ss; Rm 14, 18; Mt 5, 38-48; Lv
19, 18; Tg 5-4.
Outros textos bíblicos relacionados com o tema
Gl 5, 13-25; 6, 1-10
[...] 13 Sim, irmãos, fostes chamados para a liberdade. Porém, não façais da
liberdade um pretexto para servirdes à carne. Pelo contrário, fazei-vos escravos
uns dos outros, pelo amor. 14 Pois toda a lei se resume neste único mandamento:
“Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. 15 Mas se vos mordeis e vos devorais
uns aos outros, cuidado para não serdes consumidos uns pelos outros! 16 Eu vos
exorto: deixai-vos sempre guiar pelo Espírito, e nunca satisfaçais o que deseja
uma vida carnal. 17 Pois o que a carne deseja é contra o Espírito, e o que o Espírito deseja é contra a carne: são o oposto um do outro, e por isso nem sempre
fazeis o que gostaríeis de fazer. 18 Se, porém, sois conduzidos pelo Espírito, então
não estais sob o jugo da Lei. 19 São bem conhecidas as obras da carne: imoralidade sexual, impureza, devassidão, 20 idolatria, feitiçaria, inimizades, contenda,
ciúmes, iras, intrigas, discórdias, facções, 21 invejas, bebedeiras, orgias e outras
coisas semelhantes. Eu vos previno, como aliás já o fiz: os que praticam essas
coisas não herdarão o reino de Deus. 22 O fruto do Espírito, porém, é: amor,
alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, lealdade, 23 mansidão, domínio
próprio. Contra estas coisas não existe lei. 24 Os que pertencem a Jesus Cristo
crucificaram a carne com suas paixões e seus desejos. 25 Se vivemos pelo Espírito, procedamos também de acordo com o Espírito.
1 Irmãos, no caso de alguém ser surpreendido numa falta, vós que sois
espirituais, corrigi esse tal, em espírito de mansidão (mas não descuides de ti
mesmo, para não seres surpreendido, tu também, pela tentação). 2 Carregai os
fardos uns dos outros; assim cumprireis a lei de Cristo. 3 Pois, se alguém juga
ser uma pessoa importante, quando na verdade não é nada, está se iludindo a
si mesmo.4 Cada um examine suas próprias ações; então, poderá ter de que
se gloriar, mas somente por referência a si mesmo e não se comparando com
outrem. 5 Pois cada qual tem de carregar seu próprio fardo. 6 Aquele que recebe o ensinamento da Palavra torne quem o ensina participante de todos os
bens. 7 Não vos iludais, de Deus não se zomba; o que alguém tiver semeado,
é isso que vai colher. 8 Quem semeia na sua própria carne, da carne colherá
corrupção. Quem semeia no Espírito, do Espírito colherá a vida eterna. 9 Não
esmoreçamos na prática do bem, pois no devido tempo colheremos o fruto, se
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não desanimarmos. 10 Portanto, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos,
principalmente aos da família da fé.
Ef 4, 25-32
[...] 25 Portanto, tendo vós todos rompido com a mentira, que cada um diga
a verdade ao seu próximo, pois somos membros uns dos outros. 26 Podeis irarvos, contanto que não pequeis. Não se ponha o sol sobre vossa ira, 27 e não deis
nenhuma chance ao diabo. 28 O que roubava não roube mais; pelo contrário, que
se afadigue num trabalho manual honesto, de maneira que sempre tenha alguma
coisa para dar aos necessitados. 29 De vossa boca não saia nenhuma palavra
maliciosa, mas somente palavras boas, capazes de edificar e de fazer bem aos ouvintes. 30 Não entristeçais o Espírito Santo de Deus, com o qual fostes marcados,
como por um sinal, para o dia da redenção. 31 Desapareça do meio de vós todo
amargor e exaltação, toda ira e gritaria, ultrajes e toda espécie de maldade. 32
Pelo contrário, sede bondosos e compassivos, uns para com os outros, perdoando-vos mutuamente, como Deus vos perdoou em Cristo.
1 Jo 2, 7-11
[...] 7 Caríssimos, não vos escrevo um mandamento novo, mas um mandamento antigo, que recebestes desde o princípio. Este mandamento antigo é a palavra que ouvistes. 8 No entanto, o que vos escrevo é um mandamento novo – que
é verdadeiro nele e em vós –, pois que as trevas estão passando e já brilha a luz
verdadeira. 9 Aquele que diz estar na luz, mas odeia o seu irmão, ainda está nas
trevas. 10 O que ama o seu irmão permanece na luz e não corre perigo de tropeçar. 11 Mas o que odeia o seu irmão está nas trevas, caminha nas trevas, e não
sabe aonde vai, porque as trevas ofuscaram os seus olhos.
1 Jo 3, 14-24
[...] 14 Sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os
irmãos. Quem não ama permanece na morte. 15 Todo aquele que odeia o seu
irmão é um homicida. E sabeis que nenhum homicida conserva tem a vida eterna
permanecendo nele. 16 Nisto sabemos o que é o amor: Jesus deu a vida por nós.
Portanto, também nós devemos dar a vida pelos irmãos. 17 Se alguém possui
riquezas neste mundo e vê o seu irmão passar necessidade, mas. 18 Filhinhos,
não amemos só com palavras e de boca, mas com ações e de verdade! 19 Aí
está o critério para saber que somos da verdade; e com isto tranqüilizaremos
na presença dele o nosso coração. 20 Se o nosso coração nos acusa, Deus é
maior que o nosso coração e conhece todas as coisas. 21 Caríssimos, se o nosso
coração não nos acusa, podemos dirigir-nos a Deus com corajosa confiança. 22
E qualquer coisa que pedirmos, dele a receberemos, porque guardamos os seus
mandamentos e fazemos o que é do seu agrado. 23 Este é o seu mandamento: que
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creiamos no nome do seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, de
acordo com o mandamento que ele nos deu. 24 Quem observa os seus mandamentos permanece em Deus, e Deus permanece nele. E que ele permanece em nós,
sabemos pelo Espírito que nos deu.
At 2, 42-47
[...] 42 Eles eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na
comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações. 43 Apossava-se de todos o
temor, e pelos apóstolos realizavam-se numerosos prodígios e sinais. 44 Todos os
que abraçavam a fé viviam unidos e possuíam tudo em comum; 45 vendiam suas
propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de cada um. 46 Perseverantes e bem unidos, freqüentavam diariamente
o templo, partiam o pão pelas casas e tomavam a refeição com alegria e simplicidade de coração. 47 Louvavam a Deus e eram estimados por todo o povo. E, cada
dia, o Senhor acrescentava a seu número mais pessoas que seriam salvas.
At 4, 32-35
[...] 32 A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava suas as coisas que possuía, mas tudo entre eles era posto em comum. 33
Com grande poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor
Jesus, e sobre todos eles multiplicava-se a graça \de Deus. 34 Entre eles ninguém
passava necessidade, pois aqueles que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro 35 e o depositavam aos pés dos apóstolos. Depois, era distribuído
conforme a necessidade de cada um. 32 A multidão dos fiéis era um só coração
e uma só alma. Ninguém considerava suas as coisas que possuía, mas tudo entre
eles era posto em comum. 33 Com grande poder, os apóstolos davam testemunho
da ressurreição do Senhor Jesus, e sobre todos eles multiplicava-se a graça \de
Deus. 34 Entre eles ninguém passava necessidade, pois aqueles que possuíam
terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro 35 e o depositavam aos pés dos
apóstolos. Depois, era distribuído conforme a necessidade de cada um.
OS ATUAIS ESTATUTOS RELIGIOSOS MARIANOS
De todos os artigos das nossas Constituições que falam do amor fraterno, os
artigos 94 e 95 soam, no meu entender, como se tivessem saído da pena do Padre
Papczynski. A alusão à Igreja primitiva e o fato de ele perceber no amor a “alma”
da vida comum eram especialmente próximas do seu coração. A obrigação de demonstrar o amor perfeito, bem como de viver na comunidade e na unidade, fazem
parte da missão da nossa Congregação e das características da vocação mariana.
Trata-se dos dons do Espírito Santo, e no seu desenvolvimento desempenha um
papel especial a celebração da Eucaristia. Veja:
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Artigos das Constituições: 1, 12, 31, 69, 91, 94-95;
1 A Congregação dos Padres Marianos da Imaculada Conceição da Virgem
Maria é no seio da Igreja, uma comunidade fraterna de clérigos e leigos que, unidos pela caridade mútua e missão apostólica, promovem a glória de Deus e tendem à perfeição evangélica. Os membros, respondendo livremente à vocação do
amor divino, assumem as obrigações da vida comum e do testemunho da perfeita
caridade, a fim de que, dedicados a Cristo e à sua Igreja por uma nova e peculiar
consagração, mediante a profissão dos conselhos evangélicos, produzem frutos
mais abundantes da graça do batismo. [CM 1; LG 44; PC 1]
12 Procurem distinguir-se, principalmente, pelo espírito de abnegação e sacrifício; pela humildade, piedade, laboriosidade; pela fé viva e firme e pela caridade ardente; pela mútua união fraterna e perfeita obediência aos superiores; pelo
espírito apostólico e pelo zelo atuoso. [CM 10]
31 Perdoem de coração as injúrias; não retribuam o mal com o mal a ninguém, mas procurem vencer o mal com o bem, e orem pelos inimigos, pelos perseguidores e pelos caluniadores. [Mt 5,44; Rom 12,21; CM 173]
69 Cultivem interna e externamente, conforme a mente da Igreja, a vida sacramental, pela qual se exerce o múnus sacerdotal de Jesus Cristo, e se realiza,
pelos sinais sensíveis, a santificação do homem; participem principalmente no
Mistério Eucarístico, que é vínculo da unidade e da caridade; desta riquíssima
fonte alimentem a vida espiritual. [PC 6; SC 7] Sacramento da penitência
91 Todos estimem e favoreçam grandemente, como mãe nutrícia de todos os
bens espirituais, a instituição da vida comum, que seja inflamada do espírito da
família de Deus e da caridade fraterna, da santa e verdadeira amizade e de afeto
cordial, de mútua solicitude e solidariedade. Sejam um só corpo e um só espírito
como foram chamados a uma só esperança da vocação. [Ef 4,4; CM 278]
94 Os membros estendam a todos os confrades, com quem estão unidos pela
mesma vocação e regra de vida, a caridade “que foi derramada nos nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado” (Rm 5,5), e pela qual nos unimos com
Cristo pelo batismo e pela participação da Eucaristia. Fomentem entre si com a
mente, o coração e o trabalho a mútua caridade que é alma da vida comum e de
tudo aquilo que se faz na Congregação; antecipem-se em estimar-se reciprocamente, sejam mutuamente condescendentes e perdoem-se uns aos outros; corrijam uns aos outros no Senhor e estimulem-se em fazer o bem. [NV II,4; CM 288,
292; PC 15]
95 À maneira da Igreja primitiva na qual “a multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma” (At 4,32), os membros vivam não somente com os outros,
mas também pelos outros em espírito de serviço fraterno, esquecendo-se de si
mesmos. Prestem-se mutuamente ajuda, obséquios, defesa e consolação. Unindo
forças e conselhos, esforcem-se por conseguir os fins da Congregação em fraterna
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emulação, harmonia e unanimidade. Cada um alegre-se pelo feliz êxito do trabalho dos outros e ajude-os para que desenvolvam plenamente suas aptidões no
serviço de Deus. [CM 288; PC 15]
Itens do Diretório: 58.
58. Estimem muito a verdadeira amizade e a fomentem entre si; acautelem-se,
contudo, de não excluir alguns membros da conversa comum e evitem tudo o que
tem ressaibo de leviandade e de sensualidade. Reine o amor mútuo, o qual seja
espiritual, ativo e universal, isto é, se estenda a todos os irmãos e a todos abrace.
(C.95)
PROPOSTAS DE PERGUNTAS PARA REFLEXÃO OU PARTILHA
1. Qual a tua experiência de comunidade na história da tua vocação? O que
avalias positivamente e o que vês negativamente? Será que no teu entender
essa avaliação estaria de acordo com os critérios com que se guiava o Padre
Papczynski?
2. O que mudaria em tua vida interior e exterior se residisses numa casa religiosa
sozinho?
3. Quais as virtudes religiosas que possuis? Quanto há nelas de amor?
4. Em que situações, no caminho da vida em comunidade, vivenciaste o amor
fraterno, que é colocado em primeiro lugar, que aceita e que perdoa? Como
essas experiências frutificaram em tua vida?
5. Será que a comunidade religiosa é para ti um lugar de peregrinação na fé e de
crescimento na santidade, ou antes um “hotel”, onde te alimentas e resides?
O que mais influencia esse estado de coisas?
6. Qual a decisão que mais freqüentemente tomas quando tens de efetuar uma
escolha entre os teus planos, os teus prazeres e o teu apostolado e o bem
espiritual e material da comunidade? Quais são as motivações disso e que
sentimentos acompanham essa postura?
7. De que forma a comunidade em que atualmente vives dá testemunho do fato
de que, por força do Espírito do Senhor Ressuscitado, o amor e a unidade são
possíveis? O que mais deve ser mudado para que esse testemunho seja mais
visível? O que podes fazer para que isso aconteça?
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CONFERÊNCIA III
INSTRUMENTOS PARA
A CONSTRUÇÃO DA COMUNIDADE
A comunidade religiosa é um dom de Deus. Aquele que a edifica é o Espírito
do Ressuscitado. A “koinonia” (comunidade) que vem do alto, sendo oferecida,
é ao mesmo tempo imposta ao homem. Pode ser aceita ou rejeitada, pode crescer
e pulsar com a vida divina ou desaparecer até a inanição, a indiferença, a frieza
da morte. O fato de a história de uma determinada comunidade religiosa se encaminhar na direção do desenvolvimento ou do entorpecimento depende essencialmente de cada um dos seus membros. Existem defeitos que de maneira especial
destroem a comunidade e existem virtudes que – praticadas – dinamizam o seu
crescimento. A multissecular tradição de vida comunitária elaborou igualmente
práticas religiosas concretas que permitem mais profunda e autenticamente ser
comunhão em Cristo, segundo o Espírito divino, não segundo o corpo e o mundo.
Os documentos da Igreja dos últimos anos, ao darem primazia absoluta à espiritualidade da comunhão, falam também dos instrumentos exteriores da comunhão,
das realidades e dos meios que contribuem para a sua edificação. Mencionam
igualmente certas posturas que de maneira especial favorecem a comunidade:
a autêntica e profunda amizade, o sentir junto, o ceder o lugar ao irmão, o carregar os pesos dos irmãos, e aquelas que a destroem: o egoísmo, a desconfiança, a
inveja, a rivalidade, a busca indiscriminada da carreira (cf. Novo millenio ineunte,
43-44; Reiniciar, 29). Nos escritos do Padre Estanislau Papczynski podem ser encontrados muitos pensamentos relacionados com as virtudes e os defeitos comunitários. Entre as práticas religiosas que podem ser chamadas de instrumentos de
construção da comunidade, o nosso Fundador atribui um papel especial ao perdão
das culpas, à admoestação fraterna, à oração comum, à Eucaristia e ao ministério
dos superiores.
Defeitos e virtudes
Com relativa freqüência, nos escritos do Padre Fundador, podemos depararnos com uma espécie de catálogos de boas e más posturas, que contribuem para
o crescimento no caminho da vocação ou para o seu definhamento. Ao enumerar
as virtudes e os defeitos religiosos, o Padre Papczynski menciona muitos que de
maneira mais ou menos direta relacionam-se com a vida comum, mas, para evitar
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análises demasiadamente detalhadas, vamos restringir-nos àqueles pronunciamentos que aparecem num contexto nitidamente comunitário. O que edifica a comunidade é o amor mútuo, que pode manifestar-se de diversas formas, no entanto
a mais importante delas é a postura serviçal diante dos irmãos e a de suportar,
justificar e perdoar os erros, visto que carregar os pesos mútuos é um sinal de perfeito amor ao próximo (cf. IC 83r). O papel da virtude do amor na vida religiosa
foi amplamente analisado na conferência anterior, no entanto vale a pena lembrar
também aqui que para o Padre Estanislau essa virtude tem um significado fundamental. “E o que se opõe ao amor é o ódio, que é um veneno mais prejudicial
que qualquer outro veneno, mais pernicioso que qualquer peste” (IC 166r). Na
avaliação desse defeito o Padre Estanislau é muito categórico e constantemente
utiliza-se de formulações tão rígidas como a acima citada. O ódio, juntamente
com a inveja e o ciúme, constitui a mortífera tríade que fecha os caminhos da
cura, afastando das fontes da comunidade que brotam na Eucaristia: “Tua alma
também não será curada pelo mais benéfico remédio do Corpo Divino se sofres
de doenças como o ciúme, a inveja ou o ódio. Queres, então, expulsar do teu coração o soberano do mundo – Cristo? Se não queres, antes expulsa dele todo o mal
que se encontra no interior da alma” (IC 134v). O ódio tem alguns companheiros
próximos, a tal ponto nocivos à edificação da comunidade que o Padre Fundador
não deixou de mencioná-los todos na nossa primeira regra religiosa: “Cada um
deve lembrar-se de que a alma do seu instituto é o amor. Na medida em que dele
se afastar, na mesma proporção também se afastará da vida. [...] Por isso evitará
aquela peste perniciosa, a mais contrária ao amor: a inveja, o ódio, a obstinação,
a malevolência, a suspeita, a difamação, a antipatia, o ciúme particular, a delação,
as zombarias, as maledicências, as injustiças, a vã ambição, o desprezo dos outros, a perturbação, a confusão, as brigas e as disputas” (NV II 4; cf. também IC
166r).
Perdão das culpas
A capacidade de perdoar, mencionada pelo Padre Estanislau entre as posturas apropriadas às comunidades em que reside o amor cristão, foi por ele mais
amplamente analisada em Templum Dei Mysticum. No capítulo 21, dedicado à
renovação do Templo Místico que se encaminha à ruína em razão de atos ímpios,
o Fundador comenta catorze atos de piedade que o reconstroem e pelas quais
tudo se pode alcançar de Deus. Entre os sete relacionados à alma, encontra-se o
“perdão aos culpados” (TDM XXI) e o “perdão das culpas” (TDM XXI). Tanto
a primeira postura, que diz respeito ao perdão da culpa, quanto a segunda, que
se caracteriza pela desistência da vingança e da desforra, são para o Padre Papczynski um caminho de assemelhar-se a Cristo e de imitar a misericórdia do Pai
Celestial: “O perdão aos culpados que contra nós praticaram o mal, a reconci53
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liação com os inimigos, direi eu que propriamente isso é uma coisa não apenas
cristã, mas simplesmente divina. Porquanto, em que mais expressamos a bondade
divina senão no perdão das ofensas e no amor aos inimigos? Com efeito, a bondade de Deus mais para nós resplendeceu porque, quando éramos Seus inimigos,
não apenas nos reconciliou consigo pelo Filho, que nos alcançou a graça no lugar
dos pecados, mas, para satisfazer a justiça, quis oferecê-Lo por nós em sacrifício
(TDM XXI). A prática do perdão na comunidade é um sinal infalível de que o
amor que une os irmãos é realmente o amor cristão, que traz em si nitidamente
os traços pascais e que haure a sua força do amor do Pai, que amou a nós pecadores e ofereceu Seu Filho para que tivéssemos a vida. O Padre Papczynski tem
consciência disso quando afirma que aquele que persegue o próximo junta-se aos
algozes do próprio Cristo, ao passo que aqueles que suportam as perseguições e
perdoam a culpa tornam-se semelhantes ao Cristo sofredor (cf. TDM XXI). Mais
nitidamente ainda aponta para isso o fato de que, para o nosso Fundador, a falta
do perdão apresenta-se em nítida contradição com a recepção da Eucaristia, como
escreve a esse respeito, algumas vezes com palavras muito ásperas. Vale a pena
citar pelo menos um desses rígidos pronunciamentos: “Ouvi vós, que alimentais
ódios eternos e sustentais na alma a contínua obstinação, aguardando apenas uma
ocasião para a desforra, e nesse ínterim, na Santíssima Eucaristia, juntamente
com Judas beijais o Cristo Senhor: se as vossas culpas fossem perdoadas como
vós costumais perdoá-las aos vossos inimigos, a questão da vossa salvação estaria
definida: pereceríeis. Por isso amai os vossos inimigos – como o recomenda Jesus
Cristo – para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus (cf. Mt 5, 44-45)”.
(TDM XXI; cf. também IC 46r; IC 68r). A Eucaristia é a celebração do perdão e
da reconciliação com Deus. Ao bebermos o Sangue de Cristo, como dizia S. Ambrósio, estamos bebendo o nosso perdão dos pecados e nos tornamos repletos do
Espírito Santo. A rigidez do pronunciamento do Padre Estanislau lembra-nos que,
ao nos aproximarmos da Mesa do Senhor com o coração repleto do espírito do
ódio e da dissensão, não bebemos o perdão, mas sim a nossa sentença.
A falta do perdão é para o Padre Papczynski um sinal de loucura, porquanto
nos torna diante de Deus mentirosos e nos prepara uma sentença condenatória no
juízo final. A esse respeito escreve belas palavras analisando as palavras de Cristo que da cruz perdoa aos Seus algozes: “Ao passo que nós somos levados pela
loucura a tal ponto que preferimos cair no inferno a com serenidade de espírito
perdoar alguma palavra mordaz, um pequeno desprezo, uma insignificante ofensa
a nós infligida, mergulhando isso nas chagas do Salvador, apesar de todos os dias
exclamarmos ao Pai celestial: Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido (Mt 6, 12). Portanto, ou é preciso perdoar ou,
se não perdoamos, é preciso mentir diante de Deus. Mas visando a qual proveito?
Para multiplicar o número das dívidas? Isso é absurdo e [é] prova da maior tolice!
É preciso perdoar até àqueles que não o pedem, para que, pedindo, alcancemos
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o perdão de Deus. É preciso perdoar para que também a nós seja perdoado” (IC
6-7). Vale a pena lembrar-se também de que o apelo à vida no perdão não diz respeito apenas ao relacionamento intracomunitário, mas, como claramente ordena
o Padre Fundador em sua regra, deve irradiar-se igualmente para fora da comunidade religiosa (cf. NV II 5).
O perdão das culpas na comunidade é um dos sinais fundamentais do Espírito
do Senhor Ressuscitado dentro dela. Apenas Ele dá ao ser humano aquele amor
que tem o poder de derrubar o muro da hostilidade que brota do pecado. Apenas
o amor que vem do alto não busca o seu proveito e não se lembra do mal.
Admoestação fraterna
O instrumento seguinte da edificação da comunidade, e também um índice especial de que ela goza de uma verdadeira saúde cristã, é a prática da admoestação
fraterna. Todo grupo de pessoas, e também a comunidade religiosa, dispõe de
toda uma gama de formas como pode funcionar. Essas formas podem ser classificadas, descrevendo-se a natureza do relacionamento que une as diversas pessoas.
Seguindo esse caminho, podemos distinguir, igualmente na vida religiosa, p. ex.
os grupos de “comunidades de interesses”, “consoladores-aduladores”, “círculos
de adoração mútua”, “comitês eleitorais”, “associações de lobbistas”, “máfias”
que se associam no que é mau e “panelinhas de companheiros” que se aliam no
que é medíocre. “grupos de comadres-mexeriqueiras”, de “convertedores”, “desencorajadores”, etc. No pólo extremo dessa lista encontra-se a comunidade dos
“Cains” homicidas, que dizem em seu coração: acaso sou guarda de meu irmão?
(Gn 4, 9), e no pólo positivo a comunidade dos irmãos que buscam a salvação e se
preocupam com a vida de cada um dos seus membros. O bom funcionamento da
“admoestação fraterna” é um sinal de que os membros da comunidade querem
crescer e buscar um relacionamento mais profundo com Deus e consigo mesmos
mutuamente.
Para o Padre Papczynski, a capacidade de aceitar a admoestação fraterna tem
um significado absolutamente fundamental. Aquele que não a possui ilude-se apenas pensando que busca a vontade divina, mas na realidade é incapaz de a buscar
e aceitar. Tal postura costuma não anunciar um bom futuro “religioso”. Na reflexão para a solenidade dos santos apóstolos Simão e Judas, o nosso Fundador
escreveu: “Presta atenção como a um sinal infalível de que aquele não negligencia
a vontade divina quem não menospreza as admoestações dos servos de Deus, especialmente dos superiores. E, pelo contrário, absolutamente não é capaz de cumprir as ordens divinas aquele que rejeita as admoestações fraternas e não apenas
não lhes presta ouvido, mas, além disso, murmura, ou ri delas. Por isso, quando
te opões às admoestações de alguém, em vão exclamarás e rezarás: Fala, Senhor,
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que o teu servo escuta (cf. 1Rs 3, 9). Em vão pedirás: Faça-se comigo a tua vontade (cf. Mt 6, 10; 26, 42; Lc 22, 2), se és tão sensível que não és capaz de ouvir
com gratidão, ou pelo menos com paciência, sequer uma palavra de crítica de alguém a ti dirigida, para a tua emenda. E o que vai resultar de tal postura, o tempo
mostrará” (IC 138r). Pela primeira constatação o nosso Fundador inscreve-se na
corrente central da mais pura tradição da vida de fé e da vida religiosa. Esse foi o
caminho pelo qual peregrinou Abraão obediente a Deus, do povo escolhido que
todos os dias rezava com as palavras “ouve, ó Israel” (Dt 6,4), esse é o caminho
da Igreja que vive pela fé que brota do ouvir (cf. Carta aos romanos, cap. 10). Por
essa trilha caminha toda a tradição da vida religiosa, desde os padres do deserto,
dos quais se aproximavam discípulos pedindo uma palavra de vida e de conversão. Por esse caminho andou e esse foi o caminho que indicou aos seus filhos S.
Bento, pai do monasticismo ocidental, que inicia a sua regra com as palavras:
“Ouve, filho, os ensinamentos do mestre e presta-lhe o ouvido do teu coração.
Aceita de bom grado as admoestações do bom pai e firmemente a elas te acomoda, para que pela laboriosa obediência voltes até Aquele de quem te afastaste pela
indolente desobediência” (Regra de Bento, Prólogo, 1). Bento recomenda que se
ouçam as admoestações até dos recém-chegados e dos mais jovens.
Ao escrever a respeito da admoestação, o Padre Estanislau, geralmente muito
categórico e inflexível em suas opiniões, demonstra uma extraordinária delicadeza e moderação. A admoestação deve ser bondosa, prudente e paciente, pois todo
zelo exagerado, ira ou violência acarreta prejuízo, e não traz proveito. Os defeitos
adquiridos no decorrer de anos demoram para ser extirpados (cf. TDM XXI).
Sem a admoestação fraterna realizada “face a face”, não é permitido revelar os
erros alheios. “Quando a transgressão de alguém individualmente, e tanto mais
de muitas pessoas ou da comunidade, é revelada a muitas pessoas, então costuma
ser obstinadamente defendida. Embora isso seja muito imprudente, na realidade
.alguns mais facilmente suportarão um prejuízo na sua saúde do que em seu bom
nome” (TDM XXI). Na admoestação, é preciso que sejam levados em conta a natureza e o caráter daqueles a quem a dirigimos. Nesse sentido tem um significado
primordial também a oração pelo admoestado. “Vê quão lentamente, quão cuidadosamente convém proceder na admoestação fraterna! Uns se emendam todas as
vezes que ouvem que outros são censurados pelos erros cometidos; outros, quando vêem as suas culpas, não querem reconhecê-las e em espírito estão convencidos de que não são eles, mas os outros que devem ser corrigidos; outros ainda, em
conseqüência da freqüente admoestação, tornam-se piores; e finalmente existem
aqueles que desejam ser corrigidos, inclusive nos mínimos detalhes. [...] Volto
novamente à prudência na repreensão e não sem razão digo: é preciso que sejam
levados em conta a natureza e o caráter daqueles que devem ser admoestados, que
sejam escolhidas prudentemente a ocasião e a forma adequada. Além disso, pelos
obstinados e por aqueles que vivem sem a graça, é preciso rezar a Deus, para que
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Deus opere pela Sua luz o que ultrapassa a nossa prudência e possibilidade, visto
que, por ela, Deus algumas vezes transforma em pessoas santíssimas até os maiores transgressores. Neste ponto mais ajuda a oração do que a severa admoestação
ou a rígida censura” (TDM XXI).
A Eucaristia, a oração e outras praticas comuns
Torna-se difícil buscar nos escritos do Padre Fundador algum tipo de reflexão desenvolvida a respeito da dimensão comunitária da celebração da Eucaristia
ou do papel das orações ou outros encontros comuns (reuniões, confissões de
culpas, etc.) na edificação da comunhão religiosa. Mas isso seria um erro clássico de aistoricidade. Outro era o tempo, outra a piedade e a forma de vivenciar
a liturgia, e a “communio” não era então uma categoria eclesiológica prevalente.
A principal “vivência” durante a santa missa era a recepção da Comunhão, direcionada para o mais profundo, pessoal e íntimo encontro com Cristo. A edificação
e a celebração da unidade fraterna não era naquele tempo o objetivo primordial
da Eucaristia, das orações comuns ou de outros encontros, ou pelo menos não era
um objetivo clara e conscientemente definido. Assumia o primeiro plano antes
o serviço a Deus, a busca da perfeição religiosa e moral. No entanto podem ser
encontradas menções em que o Padre Estanislau relaciona as mencionadas práticas com a vida comum ou, mais concretamente, com o nível do amor fraterno. Da
exclusão mútua da falta do perdão e da recepção da santa Comunhão, já falamos
acima. A recepção de Cristo cura da ganância e confere forças para a reparação
das injustiças, a exemplo de Zaqueu, que após ter recepcionado Jesus deu uma
recompensa quádrupla a todos que havia prejudicado (cf. IC 157r). No contexto
próximo da Eucaristia, ao refletir sobre o aparecimento de Cristo aos discípulos após a Ressurreição, o nosso Fundador enfatiza que a unidade e o amor dos
irmãos reunidos ocasiona a presença do Ressuscitado: “Jesus veio (Jo 20, 19).
Observa como o Senhor aprecia a unidade e a concórdia, porque, quando viu
que os discípulos se haviam reunido e estavam juntos, logo apareceu entre eles,
porquanto a unidade cresce com a concórdia. Onde reina a unidade, ali também
está o amor. E quando existe o verdadeiro amor não pode faltar ali Jesus, que é
o próprio Amor. Por isso, todas as vezes que rompes o laço do amor ou perturbas
a unidade, excluis a Cristo e O afastas do círculo dos Seus discípulos, e teus irmãos. Lembra-te, então, de como o seráfico patriarca São Francisco não permitiu
que um irmão cuja alma era atormentada por uma queixa contra um outro irmão
fosse descansar antes que expulsasse de seu coração esse vírus de inoportuno
zelo, ou talvez até de ódio. Muito mais apropriado, e até indispensável, é que te
aproximes da mesa de Jesus sem semelhante amargor. Por isso, vai e reconcilia-te
primeiramente com teu irmão” (IC 46rv). A ausência nos exercícios comuns é,
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por sua vez, causa de muitas desgraças e fraquezas. Um exemplo disso é o apóstolo S. Tomé, cuja ausência no aparecimento de Cristo resultou em descrença: “Um
dos doze [...] não estava com eles quando veio Jesus (Jo 20, 24). Podes imaginar
como S. Tomé estava em certo sentido infeliz em razão de não estar com os outros
Apóstolos, quando lhes apareceu o Senhor. Por isso, talvez justamente essa ausência, em razão da qual não participou da reunião comum, tenha sido a causa da
sua delonga, hesitação e descrença. Quantas vantagens espirituais perdes quando
muitas vezes, seja por negligência, seja por imprudência, abandonas os exercícios
comuns, isto é, orações, reuniões e confissões públicas de culpas. Disso se originam em ti a tibieza de espírito, as névoas da ignorância, as ondas dos pensamentos
inoportunos. Por isso, para que não caias nessa borrasca e não te encontres quase
no desespero quando à recuperação da graça da piedade, da libertação das tuas
imperfeições e da emenda dos teus defeitos, procura estar presente nos exercícios
comuns e com o Rei Salmista reza hoje ao Senhor: Devolve-me o júbilo da tua
salvação e que um espírito generoso me sustente (Sl 50, 14)”. (IC 145r).
Ao falarmos da edificação da comunidade, não podemos deixar de lado o importantíssimo papel do superior, no entanto essa questão merece um ensaio especial.
Vale a pena algumas vezes – ouvindo a voz do Fundador – fazer um exame
de consciência da nossa solicitude pela vida comum, seu nível e seu crescimento.
Vale a pena indagar se as nossas comunidades são realmente um lugar de perdão
e reconciliação, se nelas funciona a admoestação fraterna e se ela é uma real
manifestação da busca da vontade divina. Vale a pena também indagar a respeito de uma série de posturas concretas que afetam o amor fraterno: “Quanto ao
amor ao próximo, deves refletir se não foste dominado por defeitos como a ira,
a murmuração, a aversão, a inveja, o ódio, a desconfiança, a falta de respeito, de
bondade ou de caridade, a suspeita, a perversidade, a calúnia e até a difamação
dos mortos? Se talvez esses defeitos não reinavam em ti, enquanto acusavas injustamente os outros e toleravas essa situação, sordidamente expunhas alguém
ao escárnio, impacientemente te irritavas, não desejavas o bem aos outros, não te
alegravas com o sucesso alheio, não ajudavas na necessidade, não proporcionavas
alívio na desgraça, menosprezavas ou negligenciavas a demonstração do devido
respeito, não suportavas as fraquezas dos outros ou não rezavas por eles? Talvez
tenhas invejado aos outros os bens conquistados em razão da sorte ou dos talentos
que lhes foram dados por Deus, destruindo-os ou diminuindo-os? Talvez tenhas
diminuído ou denegrido não apenas a boa fama de outras pessoas, mas também as
suas obras? Talvez não tenhas sustentado a palavra, trabalhado em comunidade?
Talvez num grande perigo que ameaçava a salvação de alguém não tenhas aplicado em alguma medida até meios extraordinários a fim de livrar o próximo desse
perigo? Leva em consideração que entristecer alguém injustamente, e ainda por
motivos fúteis, é contrário ao amor, como por exemplo, por algum motivo pouco
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importante, causar dissabor aos superiores, aos iguais ou inferiores a ti, provocar
a confusão em toda a congregação, província ou casa onde te encontras, ou ainda
criar problemas por tua causa. Talvez estejas ferindo os olhos e as almas dos outros através de uma vida e de costumes não muito religiosos e exemplares e dessa
forma prejudicas – para não dizer destróis – o laço da mais nobre, mais valiosa
e mais divina virtude? Diante disso, não te tornaste causa de alguma confusão?
Não perturbaste a paz e o silêncio dentro da casa religiosa, ou exteriormente, entre os leigos ou pessoas pertencentes a outro estado? Ou talvez em tua atividade
não negligenciaste a partilha de tudo aquilo que existe em ti de bom, e que com
esse objetivo alcançaste em razão da graça divina e da própria iniciativa? Examina se, apesar das forças e das aptidões possuídas, não evitaste os danos gerais
que te ameaçam? Talvez de acordo com a quantidade e a qualidade dos talentos
que te foram dados por Deus e recebidos da natureza não te tornaste o adorno da
congregação e da casa em que permaneces, e sobretudo da Igreja do Senhor, não
contribuindo para a sua difusão e não lhe prestando ajuda quando com razão podias e devias fazê-lo? E quando os outros o faziam, será que lhes ajudaste ou, pelo
contrário, lhes estorvaste? Refletindo a respeito das acima mencionadas e muitas
outras transgressões contrárias ao amor, de que o Espírito Divino te acusa, expressa o teu mais perfeito arrependimento pelas falhas percebidas e faze o propósito
de prestar reparação por elas, procurando voltar à prática de ações de santo amor”.
(IC 165v-166r).
TEXTOS PARA MEDITAÇÃO
Texto bíblico básico: Gl 5, 13-26; 6, 1-10
[...] 13 Sim, irmãos, fostes chamados para a liberdade. Porém, não façais da
liberdade um pretexto para servirdes à carne. Pelo contrário, fazei-vos escravos
uns dos outros, pelo amor. 14 Pois toda a lei se resume neste único mandamento:
“Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. 15 Mas se vos mordeis e vos devorais
uns aos outros, cuidado para não serdes consumidos uns pelos outros! 16 Eu vos
exorto: deixai-vos sempre guiar pelo Espírito, e nunca satisfaçais o que deseja
uma vida carnal. 17 Pois o que a carne deseja é contra o Espírito, e o que o Espírito deseja é contra a carne: são o oposto um do outro, e por isso nem sempre
fazeis o que gostaríeis de fazer. 18 Se, porém, sois conduzidos pelo Espírito, então
não estais sob o jugo da Lei. 19 São bem conhecidas as obras da carne: imoralidade sexual, impureza, devassidão, 20 idolatria, feitiçaria, inimizades, contenda,
ciúmes, iras, intrigas, discórdias, facções, 21 invejas, bebedeiras, orgias e outras
coisas semelhantes. Eu vos previno, como aliás já o fiz: os que praticam essas
coisas não herdarão o reino de Deus. 22 O fruto do Espírito, porém, é: amor,
alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, lealdade, 23 mansidão, domínio
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próprio. Contra estas coisas não existe lei. 24 Os que pertencem a Jesus Cristo
crucificaram a carne com suas paixões e seus desejos. 25 Se vivemos pelo Espírito, procedamos também de acordo com o Espírito. 26 Não busquemos vanglória,
provocando-nos ou invejando-nos uns aos outros.
1 Irmãos, no caso de alguém ser surpreendido numa falta, vós que sois
espirituais, corrigi esse tal, em espírito de mansidão (mas não descuides de ti
mesmo, para não seres surpreendido, tu também, pela tentação). 2 Carregai os
fardos uns dos outros; assim cumprireis a lei de Cristo. 3 Pois, se alguém juga
ser uma pessoa importante, quando na verdade não é nada, está se iludindo a
si mesmo. 4 Cada um examine suas próprias ações; então, poderá ter de que
se gloriar, mas somente por referência a si mesmo e não se comparando com
outrem. 5 Pois cada qual tem de carregar seu próprio fardo. 6 Aquele que recebe o ensinamento da Palavra torne quem o ensina participante de todos os
bens. 7 Não vos iludais, de Deus não se zomba; o que alguém tiver semeado,
é isso que vai colher. 8 Quem semeia na sua própria carne, da carne colherá
corrupção. Quem semeia no Espírito, do Espírito colherá a vida eterna. 9 Não
esmoreçamos na prática do bem, pois no devido tempo colheremos o fruto, se
não desanimarmos. 10 Portanto, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos,
principalmente aos da família da fé.
Referências bíblicas para o aprofundamento da leitura do texto
versículo 5, 13: Rm 6, 15-23; 1Pd 2, 15-17; 1Cor 9, 19-23;
versículo 5, 15: Is 9, 17-20; 2Cor 11, 19-20;
versículo 5, 19-21: Rm 1, 26-31; 1Cor 6, 9-11; 2Cor 12, 20; Ef 5, 1-9;
versículo 5, 22-23: Ef 5, 1-9; 1Cor 13, 4-7; Rm 13, 8-14; 1Cor 6, 9-11; 2Pd 1, 5-7;
1Tm 1, 5-11;
versículo 5, 26: Fl 2, 1-11; 1Cor 10, 23-24;
versículo 6, 1: Sl 141, 3-5; Mt 18, 12-19; 2Ts 3, 14-15; Tg 5, 19ss;
2Tm 2, 24-26; 1Cor 10, 12;
versículo 6, 2: Rm 15, 1-6; 2Cor 11, 26-30; Jo 13, 34-35;
versículo 6, 4: 1Cor 11, 28-32; 2Cor 10, 12-18;
versículo 6, 9-10: Sl 126; Mt 24, 9-14; 1Cor 15, 54-58; 2Ts 3, 7-15; Jo
9, 4; Rm 12, 9-13; Tt 3, 8.
Outros textos bíblicos relacionados com o tema
Rm 12, 1-21
[...] 1 Eu vos exorto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a vos oferecerdesem
sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso verdadeiro culto. 2 Não
vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira
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de pensar e julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, a
saber, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito. 3 Pela graça que me foi
dada, recomendo a cada um de vós: ninguém faça de si uma idéia muito elevada, mas tenha de si uma justa estima, de acordo com o bom senso e conforme
a medida da fé que Deus deu a cada um. 4 Como, num só corpo, temos muitos
membros, cada qual com uma função diferente, 5 assim nós, embora muitos,
somos em Cristo um só corpo e, cada um de nós, membros uns dos outros. 6
Temos dons diferentes, segundo a graça que nos foi dada. É o dom de profecia?
Profetizemos em proporção com a fé recebida. 7 É o dom do serviço? Prestemos
esse serviço. É o dom de ensinar? Dediquemo-nos ao ensino. 8 É o dom de
exortar? Exortemos. Quem distribui donativos, faça-o com simplicidade; quem
preside, presida com solicitude; quem se dedica a obras de misericórdia, faça-o
com alegria. 9 O amor seja sincero. Detestai o mal, apegai-vos ao bem. 10 Que
o amor fraterno vos una uns aos outros, com terna afeição, rivalizando-vos em
atenções recíprocas. 11 Sede zelosos e diligentes, fervorosos de espírito, servindo
sempre ao Senhor, 12 alegres na esperança, fortes na tribulação, perseverantes
na oração. 13 Mostrai-vos solidários com os santos em suas necessidades, prossegui firmes na prática da hospitalidade. 14 Abençoai os que vos perseguem,
abençoai e não amaldiçoeis. 15 Alegrai-vos com os que se alegram, chorai com
os que choram. 16 Mantende um bom entendimento uns com os outros; não sejais
pretensiosos, mas acomodai-vos às coisas humildes. Não vos considereis sábios
aos próprios olhos. 17 A ninguém pagueis o mal com o mal. Empenhai-vos em
fazer o bem diante de todos. 18 Na medida do possível e enquanto depender de
vós, vivei em paz com todos. 19 Caríssimos, não vos vingueis de ninguém, mas
cedei o passo à ira de Deus, porquanto está escrito: “A mim pertence a vingança,
eu retribuirei, diz o Senhor”. 20 Pelo contrário, se teu inimigo estiver com fome,
dá-lhe de comer; se estiver com sede, dá-lhe de beber. Agindo assim, estarás
amontoando brasas sobre sua cabeça. 21 Não te deixes vencer pelo mal, mas
vence o mal pelo bem.
At 2, 42-47
[...] 42 Eles eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na
comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações. 43 Apossava-se de todos
o temor, e pelos apóstolos realizavam-se numerosos prodígios e sinais. 44 Todos
os que abraçavam a fé viviam unidos e possuíam tudo em comum; 45 vendiam
suas propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de cada um. 46 Perseverantes e bem unidos, freqüentavam diariamente
o templo, partiam o pão pelas casas e tomavam a refeição com alegria e simplicidade de coração. 47 Louvavam a Deus e eram estimados por todo o povo. E, cada
dia, o Senhor acrescentava a seu número mais pessoas que seriam salvas.
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Cl 3, 5-17
[...] 5 Portanto, mortificai os vossos membros, isto é, o que em vós pertence à terra: imoralidade sexual, impureza, paixão, maus desejos, especialmente a ganância, que é uma idolatria. 6 Estas coisas é que provocam a ira de
Deus. 7 Foi assim que vós também procedestes outrora, quando vivíeis nessas desordens. 8 Agora, porém, rejeitai tudo isto: ira, furor, malvadeza, ultrajes, e não
saia de vossa boca nenhuma palavra indecente; 9 também não mintais uns aos
outros, pois já vos despojastes do homem velho e da sua maneira de agir 10 e
vos revestistes do homem novo, o qual vai sendo sempre renovado à imagem do
seu criador, a fim de alcançar um conhecimento cada vez mais perfeito. 11 Aí
não se faz mais distinção entre grego e judeu, circunciso e incircunciso, bárbaro,
cita, escravo, livre, porque agora o que conta é Cristo, que é tudo e está em todos. 12 Portanto, como eleitos de Deus, santos e amados, vesti-vos com sentimentos de compaixão, com bondade, humildade, mansidão, paciência; 13 suportaivos uns aos outros e, se um tiver motiovo de queixa contra o outro, perdoai-vos
mutuamente. Como o Senhor vos perdoou, fazei assim também vós. 14 Sobretudo,
revesti-vos do amor, que une a todos na perfeição. 15 Reine em vossos corações
a paz de Cristo, para a qual também fostes chamados em um só corpo. E sede
agradecidos. 16 Que a palavra de Cristo habite em vós com abundância. Com
toda a sabedoria, instruí-vos e aconselhai-vos uns aos outros. Movidos pela graça, cantai a Deus, em vossos corações, com salmos, hinos e cânticos inspirados
pelo Espírito. 17 E tudo o que disserdes ou fizerdes, que seja sempre no nome do
Senhor Jesus, por ele dando graças a Deus Pai.
Tg 3, 13-18
[...] 13 Quem dentre vós é sábio e inteligente? Mostre, por seu bom procedimento, que suas ações são feitas na mansidão inspirada pela sabedoria. 14 Mas,
se fomentais, no coração, amargo ciúme e rivalidade, não vos ufaneis disso, mas
deixai de mentir contra a verdade. 15 Essa não é a sabedoria que vem do alto.
Ao contrário, é terrena, egoísta, diabólica! 16 Onde há inveja e rivalidade, aí
estão as desordens e toda espécie de obras más. 17 A sabedoria, porém, que vem
do alto é, antes de tudo, pura, depois pacífica, modesta, conciliadora, cheia de
misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade e sem fingimento. 18 O fruto da
justiça é semeado na paz, para aqueles que promovem a paz.
OS ATUAIS ESTATUTOS RELIGIOSOS MARIANOS
À vida comum é dedicado todo o capítulo terceiro das Constituições e do
Diretório da nossa congregação. Esses documentos apresentam o amor fraterno
numa perspectiva mais geral e teológica, mas fornecem também uma série de
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orientações concretas e práticas. É muito enfatizada a necessidade do serviço
mútuo, da solidariedade, da solicitude (especialmente pelos doentes e pelos que
passam por crises), do perdão e da hospitalidade. A presença nas orações comuns
e nas práticas religiosas é categoricamente exigida, e a correspondente dispensa
pode ser obtida apenas em circunstâncias excepcionais. O papel da Eucaristia na
edificação da comunidade é fragilmente assinalado, e também é difícil encontrar alusões mais amplas à admoestação fraterna (no caso dos superiores existe
a função do “monitor”). Menciona-se, no entanto, o papel que na vida fraterna
desempenha a recreação (parece que nos escritos do Padre Papczynski esse tema
está completamente ausente) e o convento doméstico. Veja:
Artigos das constituições: 12, 91-100, 102, 107, 113-114;
12 Procurem distinguir-se, principalmente, pelo espírito de abnegação e sacrifício; pela humildade, piedade, laboriosidade; pela fé viva e firme e pela caridade ardente; pela mútua união fraterna e perfeita obediência aos superiores; pelo
espírito apostólico e pelo zelo atuoso. [CM 10]
91 Todos estimem e favoreçam grandemente, como mãe nutrícia de todos os
bens espirituais, a instituição da vida comum, que seja inflamada do espírito da
família de Deus e da caridade fraterna, da santa e verdadeira amizade e de afeto
cordial, de mútua solicitude e solidariedade. Sejam um só corpo e um só espírito
como foram chamados a uma só esperança da vocação. [Ef 4,4; CM 278]
92 Observem todos, exatamente, a vida comum nas casas da Congregação,
quanto à oração em comum, apostolado, mesa e habitação e toda a regra da vida.
Por conseguinte ninguém deve ser livrado facilmente de qualquer exercício comum e, muito menos, seja deixado só, por longo tempo fora da comunidade. [CM
279; PC 15]
93 O superior maior, com o consentimento do seu conselho, pode permitir ao
membro que permaneça fora da casa religiosa, mas não além de um ano, salvo se
por motivo de estudos, de doença ou de apostolado exercido em nome da Congregação. [CM 280; CDC 665/1] Capítulo II
94 Os membros estendam a todos os confrades, com quem estão unidos pela
mesma vocação e regra de vida, a caridade “que foi derramada nos nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado” (Rm 5,5), e pela qual nos unimos
com Cristo pelo batismo e pela participação da Eucaristia. Fomentem entre si
com a mente, o coração e o trabalho a mútua caridade que é alma da vida comum
e de tudo aquilo que se faz na Congregação; antecipem-se em estimar-se reciprocamente, sejam mutuamente condescendentes e perdoem-se uns aos outros;
corrijam uns aos outros no Senhor e estimulem-se em fazer o bem. [NV II,4; CM
288, 292; PC 15]
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95 À maneira da Igreja primitiva na qual “a multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma” (At 4,32), os membros vivam não somente com os outros,
mas também pelos outros em espírito de serviço fraterno, esquecendo-se de si
mesmos. Prestem-se mutuamente ajuda, obséquios, defesa e consolação. Unindo
forças e conselhos, esforcem-se por conseguir os fins da Congregação em fraterna
emulação, harmonia e unanimidade. Cada um alegre-se pelo feliz êxito do trabalho dos outros e ajude-os para que desenvolvam plenamente suas aptidões no
serviço de Deus. [CM 288; PC 15]
96 Haja cuidado especial dos membros que estão doentes, idosos, inválidos.
Todos, e principalmente os superiores, usem de caridade e de solicitude para com
eles, e procurem criar-lhes tais condições, que possam se sentir sempre úteis. [CM
394]
97 Carregando o peso uns dos outros, os membros suportem com paciência
as falhas e as fraquezas dos confrades, inevitáveis na vida humana. Procurem
tolerar e compreender, em caridade, as opiniões diferentes das suas e outras dissensões, provenientes da diversidade da índole, da idade ou nacionalidade. Assim
seja conservada na Congregação a unidade de espírito no vínculo da paz. [Gal
6,2; Ef 4,3]
98 Em todo o corpo da Congregação, quer entre a casa principal e todas as
províncias e casas, quer reciprocamente entre si, reine uma estreitíssima união,
concórdia, conformidade e a maior caridade; fomentem-nas mediante freqüentes
relacionamentos, através de comunicações e notificações daquilo que estão fazendo e é para edificação, e também mediante obras empreendidas comunitariamente. Havendo ocasião de ajudar outras casas ou províncias, os membros não faltem
a esse dever de caridade. [CM 295]
99 Demonstrem grande caridade para com os membros provenientes das outras casas; hospedem-nos com carinho, prestem-lhes conselhos e auxílios na realização dos negócios, e, se o necessitarem socorrem-nos. Os hóspedes, por sua
vez, procurem mostrar-se agradecidos aos confrades e deixar-lhes na casa, com
o exemplo de sua vida, um estímulo para seguir à perfeição. [CM 289]
100 Se acontecer que algum membro estiver em perigo de perder a vocação, a comunidade está obrigada a prestar-lhe ajuda necessária para vencer este
perigo.
102 Os membros, assumindo conscienciosamente a responsabilidade pelo
bem da casa, empreguem uma cuidadosa diligência em observar a ordem diurna
estabelecida, em cumprir os seus deveres, em prestar as prescritas contas e fazer
relatórios. Os superiores, por sua vez ajudem-nos no fiel cumprimento dos deveres, promovendo e favorecendo a unânime colaboração e procurem que os assuntos de maior importância sejam discutidos em comum; contudo cabe ao superior
com seu conselho discernir o que se deve fazer. [CM 321; CDC 26; PC 14]
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107 Na ordem do dia seja prescrito, cotidianamente, algum tempo livre, a fim
de restabelecer as forças, para um novo trabalho. O recreio favoreça não somente
o corpo, mas também o espírito, nutra e fomente a mútua caridade entre os membros; recomenda-se a todos a paz, o bom humor e a alegria no Senhor.
113 Nas conversas sejam afáveis e simples, mas cautelosos, circunspectos
e prudentes; na conversação conservem moderação, discrição e também singeleza
e veracidade. Acautelam-se de não falar mal de alguém ou de lesarem sua fama,
nem introduzam assuntos que possam desunir os ânimos. Empreguem todos os esforços para estabelecer entre todos o reino e a paz de Cristo, fomentar a concórdia
e o senso da fraternidade e promover a salvação de todos. [CM 182, 189-191]
114 A humildade, a mansidão, a modéstia, as boas maneiras, a delicadeza e a
maturidade religiosa, a gravidade unida à afabilidade devem ornar de tal modo os
membros que pelo porte exterior e decoro, sirvam de exemplo aos outros, edifiquem aqueles que encontrarem ou deles se aproximarem e tornem seu ministério
mais eficaz. [CM 187]
Itens do diretório: 58-69, 73, 182, 283.
58. Estimem muito a verdadeira amizade e a fomentem entre si; acautelem-se,
contudo, de não excluir alguns membros da conversa comum e evitem tudo o que
tem ressaibo de leviandade e de sensualidade. Reine o amor mútuo, o qual seja
espiritual, ativo e universal, isto é, se estenda a todos os irmãos e a todos abrace.
(C.95)
59. Assim como é repreensível a demasiada preocupação com aquilo que se
refere ao corpo, assim recomenda-se a todos um cuidado moderado e prudente
das forças e da saúde do mesmo corpo, como preciosos dons de Deus, a fim de
que possam aplicar-se melhor e por mais tempo ao serviço de Deus; procurem
observar prudentemente a salubridade e os preceitos higiênicos. Quem perceber
que alguma coisa prejudica gravemente a sua saúde, confesse-o com simplicidade
e humildade ao superior (C.96)
60. Todos os anos seja concedido aos membros tempo suficiente de férias, que
seja passado do modo estabelecido com o superior. (C.96)
61. Tendo cuidado dos confrades, cada uma das comunidades pode recorrer às
leis sociais da assistência e pensões.(C.96)
62. As províncias procurem, quando possível, possuir algumas casas em lugares salubres, para a recuperação das forças e da boa saúde dos membros. (C.96)
63. Em cada casa, quando possível, seja designado um dos membros para
prestar todas as atenções e serviços aos enfermos. (C.96)
64. Pertence ao Superior da casa juntamente com o enfermeiro vigiar para que
o médico seja chamado a tempo para os doentes, para que os remédios receitados
por ele lhes sejam administrados cuidadosamente, atendidas as justas necessi65
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dades e comodidades deles. Todos os enfermos sejam ajudados com peculiares
preces da comunidade e sejam-lhes dados alimentos espirituais. (C.96)
65. Os enfermos moderem as suas exigências em espírito de penitência e de
pobreza, aceitem a pr6pria doença como dom de Deus, recebam-na de sua mão
como meio especial da santificação e, com paciência e total submissão à divina
Providência, suportem-na tranqüilamente. Não rejeitando os recursos humanos
e a esperança de recuperar a saúde, desejem todavia, a cima de tudo, que se faça
perfeitamente a seu respeito à vontade de Deus. Os enfermos mais gravemente
doentes preparem-se para a morte, com animo intrépido. (C.96)
66. Surgindo alguma controvérsia entre os membros, seja, ordinariamente,
resolvida dentro da casa em paz, com caridade e justiça; tanto mais se evitem,
quanto possível; todas as controvérsias e processos judiciais, com estranhos.
67. Se algum se sentir verdadeiramente lesado em alguma coisa por alguém,
mesmo pelo próprio superior, suporte isso com paciência, como mérito à vida
eterna, ou com modéstia exponha, candidamente, ao mesmo superior, por si ou
por outrem, aquilo em que está sendo lesado. Se o superior não quiser ou não
puder remediar o caso, é lícito, observadas as instancias, recorrer aos superiores
maiores que, segundo a sua prudência, resolverão o caso e lhe darão remédio no
Senhor. Nas coisas ordinárias deve-se acatar o preceito do superior imediato, até
que o superior maior determine outra coisa.(C.97)
68. Se da conversação de algum membro resultar escândalo ou grave perturbação da ordem, o superior advirta-o ele mesmo ou por outrem, ou também por
carta. Se a advertência e a correção não surtirem efeito, seja dada ordem com
ameaça de castigo em caso de transgressão. (C.97)
69. Nos litúrgicos, nos processos e nas penas a serem infligidas observe-se
os preceitos do direito universal e seja visada não tanto a punição do delito, mas
muito mais a correção e a emenda do membro, como também o restabelecimento
e edificação da comunidade. (C.97)
73. Façam cada mês uma reunião local, em que, sob a presidência do superior,
tendo diante dos olhos os preceitos do santo Evangelho e as leis da Congregação,
revejam a sua vida comum com os seus defeitos e suas deficiências. Nessa ocasião
o superior acrescente exortações e admoestações, a fim de que na comunidade
floresça e aumente continuamente o espírito religioso. (C.102)
182. Cada superior designe para si um monitor que vele pelo seu modo de vida
e, sendo necessário, o admoeste. (C.213)
283. Com toda a diligência fomente a união fraterna entre os membros e não
tolere entre eles mútuas iras e dissensões; se algo disso acontecer procure que
imediatamente, com a devida satisfação, façam as pazes entre si (C.269)
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PROPOSTAS DE PERGUNTAS PARA REFLEXÃO OU PARTILHA
1. A que caminhos concretos de edificação da comunidade chama-te a palavra
ouvida? Que tipo de boa nova a respeito da vida fraterna te traz?
2. Quais dos traços do teu caráter podem de maneira especial contribuir para
a edificação da comunidade, e quais servem para destruí-la? Será que realmente fazes uso dos bons e combates os maus?
3. Será que podes dizer a respeito de ti que és um servo da comunidade, que
serves aos irmãos? Em que concretamente isso se manifesta?
4. Qual é a tua experiência da “alegria do perdão” na comunidade religiosa?
Como influem no teu relacionamento com os irmãos as suas culpas diante de
ti, e como o fazem as reconciliações vivenciadas? Será que não existem irmãos a quem por algum motivo eliminaste da tua vida há muito tempo e pelos
séculos?
5. Que lugar em tua vida ocupa a oração pelos irmãos, especialmente por aqueles difíceis? Que experiência tens do poder e da eficácia dessa oração?
6. És capaz de ir e dizer abertamente ao irmão o que tens contra ele ou pedir-lhe
perdão? Praticas a admoestação fraterna, procurando edificar uma comunidade de amor cristão, ou antes escolhes a renúncia a isso, a maledicência ou
a indiferença “de Caim”?
7. Será que os encontros comunitários têm para ti algum valor ou os tratas antes
como um mal necessário? Será que envidas esforços para participar das orações e das refeições comuns? Qual é a principal motivação desses esforços ou
qual a razão da sua falta?
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CONFERÊNCIA IV
O SUPERIOR NA COMUNIDADE RELIGIOSA
Pessoas bondosas que foram nossos superiores e que conosco se preocuparam
são por nós recordadas de bom grado mesmo depois de muitos anos. Se os superiores se empenharam pela nossa conversão e salvação, falamos deles às gerações
seguintes. A respeito daqueles de antigamente... a respeito das pessoas bondosas
que são atualmente nossos superiores dizemos coisas diversas. O carisma da obediência é um dos dons mais importantes numa comunidade religiosa. Pode-se afirmar sem medo de exagerar que é um dos seus elementos constitutivos – pois sem
um superior ela não pode existir. A comunidade que não conta com a presença de
um superior em pouco tempo começa a perder a dimensão sobrenatural e a evoluir
na direção de um grupo em que predominam leis puramente sociológicas e tomam
a dianteira os interesses de indivíduos mais fortes ou de variados “grupos de influência e pressão”. O ministério do superior fica sujeito a ataques de lados diversos. Vivemos numa época fortemente assinalada pela falta da paternidade, pela
imaturidade e muitas vezes pelo extremo individualismo, o que necessariamente
se relaciona com o ataque a qualquer autoridade e com a sua rejeição. Trazemos
esse mundo dentro de nós e juntamente conosco ele “ingressa” na vida religiosa. Junta-se a isso a dimensão espiritual, nesse ponto essencial, e que determina
o relacionamento entre o superior e cada um dos irmãos, que diz respeito à nossa
conversão e ao nosso nascimento para uma nova vida. O “homem velho”, que
reside em cada um de nós, pela sua própria natureza dedica aos superiores uma
pura e desinteressada aversão. O demônio os persegue de acordo com o princípio
“agride o pastor e serão dispersadas as ovelhas”, sabendo como o papel deles é
importante para o caminho religioso da salvação, o que da sua parte sempre significa uma só coisa: a plenitude do ódio.
Além dos numerosos pronunciamentos espalhados por diversos escritos, o Padre Papczynski dedica aos superiores todo o capítulo VII da Norma vitae. Apesar
da passagem do tempo, a maior parte das suas orientações preservou a sua atualidade, e algumas clamam em altos brados para serem postas em prática. A exigência
principal e fundamental imposta aos superiores é a presença na comunidade. Nas
Recomendações aos irmãos Marianos, escritas pouco tempo antes da sua morte,
em palavras muito fortes ordena: “O superior não ouse afastar-se da Casa, a não
ser que isso aconteça mui raramente e por uma razão séria. Para o tempo da sua
ausência, de acordo com a lei, deve ele instituir para o seu lugar um outro, a quem
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todos devem ser obedientes no Senhor”. Não há por que estranhar que ele coloque
essa questão de forma tão rígida. O lugar que o Beato Estanislau atribui aos superiores é excepcional. Se fizermos uma leitura atenta da Regra, facilmente perceberemos que quase todo elemento da via religiosa dos primeiros Marianos dependia
do consentimento, da autorização ou da bênção dos superiores. Era o superior que
velava pela prática da pobreza e da castidade (cf. NV III 2, 3), que cuidava da alimentação e do vestuário deles (cf. NV 2, IV 2), do silêncio (cf. NV 4), da clausura
(cf. NV V 8), da flagelação (cf. NV IV 6), do estudo e do trabalho (cf. NV I 2, 3),
do descanso (cf. NV V 9), da oração (cf. NV V 5) e de toda a programação do dia
(cf. NV VI 7). Ao superior cabia a solicitude por aqueles que se encontravam em
perigo que ameaçasse a castidade (cf. NV III 3), pelos doentes e agonizantes (cf.
NV IX 5) e pela edificação da vida comum através da convocação de reuniões (cf.
NV IX). Faz-se necessário assinalar que tão ampla extensão de obrigações e esse
controle incrivelmente profundo da vida dos irmãos não resulta absolutamente da
convicção de que o nível da incapacidade e da imaturidade deles exige a contínua e solícita presença de uma “babá” e o olhar vigilante do ‘Grande Irmão” na
pessoa do superior. Os motivos dessa sua posição têm as suas raízes na convicção
decorrente da fé no sentido de que as recomendações, as ações e os conselhos do
superior são uma obra de Deus, que o dirige, que o estimula e conduz (cf. IC 8r).
O nosso Fundador escreve a esse respeito muitas vezes e de formas diversas. O religioso deve obedecer aos superiores, visto que as palavras deles são as palavras
de Deus, de quem eles são substitutos (cf. IC 27r, 39r). É o próprio Espírito Santo
que lhes aponta os caminhos pelos quais devem conduzir as ovelhas que lhes são
confiadas (cf. IC 60v). Por isso o Beato ordena ao religioso: “Tu, portanto, respeitarás os superiores como se fosse o próprio Cristo que se encontra em tua casa,
e às suas ordens, aos seus desejos e às suas intenções sê obediente como se fosse
às ordens do Espírito Santo, estando piamente convencido de que, se lhes fores
obediente, no futuro não permitirás que ninguém te engane” (ibidem; cf. também
IC 97v, 129r, 136v, 138r, 144r, 150v). Naturalmente alguém poderia observar
com razão que o que era bom outrora não necessariamente tem o mesmo valor
hoje. Os Marianos eram diferentes, com um nítido traço eremítico, e os tempos
eram diferentes. Enfatizava-se menos a dimensão comunitária da vida religiosa,
a necessidade do diálogo na busca da vontade divina, o condicionamento individual das diversas pessoas e a preocupação com o seu desenvolvimento e a sua
maturidade. Tudo isso é verdade, o que no entanto não atinge de forma essencial
o papel que o superior cumpre na comunidade na perspectiva da fé. O Santo Padre
João Paulo II confirma isso em sua exortação: “Na vida consagrada a função dos
superiores, inclusive dos superiores locais, teve sempre um grande significado,
tanto para a vida religiosa como para o cumprimento da missão. Nos últimos anos
de buscas e transformações, algumas vezes tem sido possível sentir a necessidade
de uma reavaliação do cargo de superior. No entanto é preciso reconhecer que
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quem exerce a autoridade não pode renunciar à sua função de primeiro chefe da
comunidade, que dirige os irmãos e as irmãs pelo caminho espiritual e apostólico.
Nos ambientes em que são fortes as influências do individualismo, não é fácil
induzir ao reconhecimento e à aceitação da função que a autoridade desempenha
para o bem de todos. É preciso, portanto, confirmar o significado dessa tarefa,
que é indispensável justamente para fortalecer a comunhão fraterna e não frustrar
o voto da obediência. Ainda que a autoridade deva ter um caráter principalmente fraternal e espiritual – e com isso aqueles que a exercem devem estabelecer
o diálogo com os coirmãos e as coirmãs no processo da tomada de decisões –,
importa ao mesmo tempo lembrar que à autoridade cabe a última palavra e que
é ela que deve cuidar da execução das decisões tomadas” (Vita Consecrata 43).
Nesse contexto vale a pena indagar se nas nossas comunidades os superiores estão
realmente presentes? E se estão presentes como superiores, isto é, com direito de
decisão e ingerência em nossa vida, em nossos planos e caminhos? Quantos são
os superiores “fugitivos”, cuja vida e engajamento se encontram fora da comunidade e que por diversos motivos não têm tempo, força e disposição para cumprir
de forma real a função que lhes foi confiada? Quantos são os superiores “dominados” pelas obrigações, pelos compromissos, pela vontade de agradar aos irmãos,
pelas pressões emocionais da comunidade, pelas “vacas sagradas” religiosas que
em razão dos seus cargos e missões especiais a eles se sujeitam “não de forma
direta” e apenas “em certos aspectos”? Quantos dos nossos superiores são justamente aqueles que são os “primeiros a ouvir” (a Deus e aos irmãos), os “segundos
a discernir” e os “últimos a decidir”? Será que não estamos “frustrando o nosso
voto da obediência”?
O ministério de superior é uma função e um carisma e faz parte, em grande
medida, daquela camada da realidade religiosa que só pode ser compreendida na
perspectiva da fé. No entanto é exercido por pessoas, e por isso todo fundador
procura definir as características que deve possuir o candidato a essa função. Da
leitura dos catálogos das virtudes do superior, inseridos nos estatutos religiosos,
esboça-se por vezes a figura de uma pessoa com a milagrosa estrela de um xerife, ou que assume a forma de um super-homem ou de uma Madre Teresa de
Calcutá. Existem superiores convencidos de que eles são o exemplar mais perfeito dessa espécie, no entanto a maioria trata isso como a indicação de um ideal,
de certo caminho que devem procurar trilhar. Qual o caminho que lhes aponta
o Padre Papczynski? Uma descrição bastante detalhada disso pode ser encontrada
no capítulo VII da Norma vitae, dedicado aos superiores: “E cada superior deve
lembrar-se da admoestação do Espírito Santo: puseram-te como presidente? Não
te envaideças, mas sê com os convivas como um dentre eles (Eclo 32, 1). Por
isso, não como senhor, mas tornando-se o modelo do rebanho (cf. 1Pd 5, 3), dê
primeiramente o exemplo daquilo o que pretende ordenar pela palavra, observando a lei em igualdade com todos, e não apenas como o seu guardião; dotado
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de piedade, sobriedade, prudência, mitigue o zelo com a bondade, e a bondade
com o zelo, para que pelo excessivo rigor ou condescendência antes não prejudique a congregação que lhe ajude. Não sobrecarregue os seus subalternos com
severas penitências ou ordens, impondo a cada um tarefas de acordo com as suas
forças, capacidades e aptidões. Porque, embora os subalternos estejam obrigados
à obediência sem se escusar, aquele que dá as ordens deve cuidar de lhes impor
apenas aquelas obrigações de que coma glória divina e mérito próprio cada um
possa dar conta” (NV VII 2). Nesse mesmo capítulo o Beato Estanislau apresenta
as exigências apresentadas aos formadores dos noviços, que também podem ser
interpretadas como certas orientações quanto às características que devem possuir
os superiores. Afinal o mestre do noviciado é como que o primeiro e o exemplar
superior do jovem religioso: “Para educadores dos noviços sejam destacados religiosos exemplares, prudentes, laboriosos, dotados da sobriedade de espírito, tais
que sobretudo lhes ensinem perfeitamente todos os exercícios, tanto na renúncia
a si mesmos como a seus amigos. Exercitem-se eles na imitação de Cristo Senhor,
no desprezo das questões temporais, no desejo das eternas, na paciência, na humildade, na modéstia, no silêncio, na penitência, na ardente oração e na observância
religiosa, e sobretudo no amor a Deus, tendo em vista sempre que lhes foi confiado o cuidado daquele que devem ser moldados em primeiro plano para alcançar
a salvação da alma e, a seguir, para o adorno e o proveito da congregação (NV
VII 7). Sintetizando, pode-se dizer que o Padre Estanislau aceitaria para o cargo
de superior apenas o candidato que se distinguisse pelo zelo e pela autenticidade
na vida religiosa, que fosse prudente e equilibrado, sensível às necessidades e
às fraquezas dos irmãos e que buscasse o seu verdadeiro bem. A grande ênfase
conferida à maturidade, à paciência e à serenidade decorre de um profundo conhecimento da vida religiosa e possui uma longa tradição nos estatutos religiosos.
Trata-se aqui tanto da defesa dos subalternos, porque é importante que o superior “[...] não estrague a vasilha quando dela quer eliminar a ferrugem” – como
escrevia S. Bento (Regra, capítulo 64, da escolha do abade), como do próprio
candidato, “visto que o violento, o inquieto, o invejoso ou o desconfiado jamais
experimentará a paz” (cf. ibidem). As descrever as formas de escolha do provincial, o Padre Papczynski menciona uma característica que desqualifica o candidato a superior: “Se alguém com isso mostrar-se claramente uma pessoa desejosa
de fama, que para sempre seja reconhecido como incapaz para o cumprimento de
quaisquer obrigações” (NV IX I).
O papel excepcional do superior na comunidade faz com que ele possa defrontar-se com situações especialmente difíceis, tanto na dimensão exterior como na
interior. Por exemplo, com muita freqüência deve lidar com a murmuração. Não
se trata aqui, evidentemente, do ruído do riacho que corre ao lado do convento ou
do vento da tarde nos ramos das árvores, mas do sussurro repleto de insatisfação,
de sarcasmo e de mordacidade por trás das costas do superior. Esse fenômeno
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é muito destrutivo para o ministério por ele exercido e para toda a comunidade
e pode levar até a uma franca revolta. O Beato Estanislau muitas vezes se pronuncia de forma muito enfática contra as murmurações e as revoltas. Numa carta aos
coirmãos Marianos lembra que de maneira especial “[...] abominem o desacordo,
a revolta e a murmuração contra os superiores”. Tais posturas são, para o nosso
Fundador, uma séria violação do voto da obediência e até um sinal de incapacidade para o cumprimento da vontade divina (cf. IC 138r, 145v, 162r). Além
dos atritos exteriores e das pressões na comunidade, os superiores estão expostos
a dois tipos de situação que atingem diretamente o seu relacionamento com Deus.
A primeira delas é o descuido de si mesmos. O Padre Papczynski escreve a esse
respeito com grande sensibilidade na Regra: “E, se algum superior parecer a alguém demasiadamente indolente ou pouco exemplar, por essa razão não deixe de
respeitá-lo, em razão do Senhor, porquanto o próprio Senhor admoesta: Portanto,
fazei e observai tudo quanto vos disserem. Mas não imiteis as suas ações, pois
dizem mas não fazem (Mt 23, 3). Com efeito, de grande compaixão são dignos
os superiores que, servindo a todos, são forçados algumas vezes a descuidar de si
mesmos. Por isso os membros da congregação devem sempre rezar pelos superiores, para que Deus os ilumine, conduza, apóie e preserve em Sua graça” (NV
VIII 3). Uma outra situação difícil relacionada com a vida interior é a experiência
da tentação e do pecado. É muito significativo que o nosso Fundador reconhece
isso como uma regra, e parece que se pode supor que ele retira essa convicção da
prática da vida religiosa e do ministério de confessor. Em Inspectio cordis escreve: “Por isso, também tu, aprende a ter mais compaixão pelos pecadores do que
com eles zangar-te. Existe, com efeito, uma regra da Providência de também no
caso de pessoas justas e muito desejosas de perfeição, e também em outras, p. ex.
nos superiores, permitir graves tentações ou até uma queda, para que, após caírem
em si, ajudem os outros e saibam prestar auxílio aos infelizes que não têm experiência na área do pecado” (IC 121v). Como se percebe, a função de superior não
é uma tarefa fácil, e àqueles a quem coube exercê-la é devido o amor, o respeito
e a oração (cf. IC 60v, NV III 1).
Quando se desvenda diante dos nossos olhos ao menos uma pequena parcela
do propósito que teve Deus ao abrir na Igreja o caminho da santa obediência,
quando começamos a compreender como viam o ministério dos superiores os
fundadores de diversas ordens e congregações, resta-nos bater no peito e, parafraseando, as palavras do profeta Baruque, exclamar: “A Vós, Deus, cabe a justiça
e a glória, e a nós a vergonha do rosto” (Br 1, 15; 2, 6). E certamente cada um
de nós reconhecerá que deve fazê-lo, sem considerar se é superior ou subordinado. Estou convencido de que o Padre Estanislau Papczynski, seja em razão das
difíceis experiências com os superiores das Escolas Pias e com Krajewski em
Korabie, seja levado pelo anseio de uma autêntica vida religiosa, faria tudo o que
estivesse ao seu alcance para que entre os superiores da sua amada congregação
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não houvesse pessoas que exercessem esse ministério por acaso, de má vontade,
além ou “à margem” de outras tarefas, pelo desejo de autoridade e de independência. A definição de quem e por que é superior é um determinante real da verdadeira solicitude pela vida religiosa em determinado instituto. Visto que o peixe se
estraga pela cabeça, talvez também da cabeça venha a salvação.
TEXTOS PARA MEDITAÇÕES
Texto bíblico básico: 1 Pd 5, 1-11
[...] 1 Aos anciãos entre vós, exorto eu, ancião como eles e testemunha dos
sofrimentos de Cristo, participante da glória que está para se revelar: 2 sede
pastores do rebanho de Deus, confiado a vós; cuidai dele, não por coação, mas
de coração generoso; não por torpe ganância, mas livremente; 3 não como dominadores daqueles que vos foram confiados, mas antes, como modelos do rebanho.
4 Assim, quando aparecer o pastor supremo, recebereis a coroa imperecível da
glória. 5 Igualmente vós, os jovens, sede submissos aos anciãos. Revesti-vos todos de humildade no relacionamento mútuo, porque Deus resiste aos soberbos,
Mas dá a sua graça aos humildes. 6 humilhai-vos, pois, sob a poderosa mão de
Deus, para que, na hora oportuna, Le vos exalte. 7 Lançai sobre ele toda a vossa
preocupação, pois ele é quem cuida de vós. 8 Sede sóbrios e vigilantes. O vosso
adversário, o diabo, anda em derredor como um leão que ruge, procurando a
quem devorar. 9 Resisti-lhe, firmes na fé, certos de que iguais sofrimentos atingem também os vossos irmãos pelo mundo afora. 10 Depois de terdes sofrido um
pouco, o Deus de toda graça, que vos chamou para a sua glória eterna, no Cristo
Jesus, vos restabelecerá e vos tornará firmes, fortes e seguros. 11 A ele pertence
o poder, pelos séculos dos séculos. Amém.
Referências bíblicas para o aprofundamento da leitura do texto
versículo 1: Cl 3, 1-4; Lc 24, 44-49; Rm 8, 14-17; 1Pd 1, 3-9;
versículo 2: Jo 10, 11-14; At 20, 24-35; 1Cor 9, 13-23; Tt 1, 7-9; 1Tm 3, 8-10;
versículo 3: Ez 34, 1-16; 2Cor 1, 23-24; Fl 3, 17-21; 1Ts 1, 6-10; Tt 2, 7-8;
versículo 4: 1Cor 9, 24-27; 2Tm 4, 6-8; Hb 13, 20-21; Is 40, 9-11;
versículos 5-6: Pr 3, 34; Jo 13, 12-17; Is 57, 15; Mt 23, 1-12; Jô 22, 29; Tg 4, 610; Fl 2, 1-11;
versículo 7: Sl 55, 23; Sl 37, 5-6; Eclo 2, 1-18; Mt 6, 25ss; Fl 4, 4-7;
versículos 8-9: Jô 1, 6-12; Sl 22, 13-14; Lc 18, 3; Ef 6, 10-20.
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Outros textos bíblicos relacionados com o tema
Hb 13, 1-17
[...] 1 Perseverai no amor fraterno. 2 Não descuideis da hospitalidade; pois,
graças a ela, alguns hospedaram anjos, sem o perceber. 3 Lembrai-vos dos presos, como se estivésseis presos com eles, e dos que são maltratados, pois também
vós tendes um corpo! 4 O matrimônio seja honrado por todos, e o leito conjugal,
sem mancha; pois Deus julgará os libertinos e os adúlteros. 5 Que vossa conduta
não seja inspirada pelo amor ao dinheiro. Contentai-vos com o que tendes, porque ele próprio disse: “Eu nunca te deixarei, jamais te abandonarei”. 6 De modo
que podemos dizer, com segurança: “O Senhor é meu auxílio, jamais temerei;
que poderá fazer-me um ser humano?” 7 Lembrai-vos de vossos dirigentes, que
vos pregaram a palavra de Deus: considerando o fim de sua vida, imitai-lhes a fé.
8 Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e sempre. 9 Não vos deixeis extraviar por
qualquer espécie de doutrina estranha. Pois é bom que o coração seja fortificado pela graça, e não por regras alimentares das quais nenhum proveito tiraram
aqueles que as seguem. 10 Nós temos um altar do qual não se podem alimentar os
que servem à Tenda. 11 Pois os corpos dos animais cujo sangue o sumo sacerdote
leva ao Santuário, para a expiação do pecado, são queimados fora do acampamento. 12 Por isso também Jesus sofreu do lado de fora da porta, para, com
seu sangue, santificar o povo. 13 Vamos, portanto, sair ao seu encontro, fora do
acampamento, carregando a sua humilhação. 14 Porque não temos aqui cidade
permanente, mas estamos à procura da que está para vir. 15 Por meio de Jesus,
ofereçamos a Deus um perene sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que
celebram o seu nome. 16 Não vos esqueçais da prática do bem e da partilha, pois
estes são os sacrifícios que agradam a Deus. 17 Obedecei aos vossos dirigentes
e segui suas orientações, pois eles velam por vós como quem há de prestar contas. Que possam fazê-lo com alegria, e não com queixas, o que não seria vantajoso para vós.
Mt 23, 1-12
[...] 1 Depois, Jesus falou às multidões e aos discípulos: 2 “Os escribas e os
fariseus sentaram-se no lugar de Moisés para ensinar. 3 Portanto, tudo o que
eles vos disserem, fazei e observai, mas não imiteis suas ações! Pois eles falam
e não praticam. 4 Amarram fardos pesados e insuportáveis e os põem nos ombros
dos outros, mas eles mesmos não querem movê-los, nem sequer com um dedo.
5 Fazem todas as suas ações só para serem vistos pelos outros, usam faixas bem
largas com trechos da Lei e põem no manto franjas bem longas. 6 Gostam do
lugar de honra nos banquetes e dos primeiros assentos nas sinagogas, 7 de serem
cumprimentados nas praças públicas e de serem chamados de ‘rabi’. 8 Quanto
a vós, não vos façais chamar de ‘rabi’, pois um só é vosso Mestre e todos vós sóis
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irmãos. 9 Não chameis a ninguém na terra de ‘pai’, pois um só é vosso Pai, aquele que está nos céus. 10 Não deixeis que vos chamem de ‘guia’, pois um só é o vosso Guia, o Cristo. 11 Pelo contrário, o maior dentre vós deve ser aquele que vos
serve. 12 Quem se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado.
Lc 22, 24-27
[...] 24 Ora, houve uma discussão entre eles sobre qual deles devia ser considerado o maior. 25 Jesus, porém, lhes disse: “Os reis das nações dominam sobre
elas, e os que exercem o poder se fazem chamar benfeitores. 26 Entre vós, não
deve ser assim. Pelo contrário, o maior entre vós seja como o mais novo, e o que
manda, como quem está servindo. 27 Afinal, quem é o maior: o que está à mesa
ou o que está servindo? Não é aquele que está à mesa? Eu, porém, estou no meio
de vós como aquele que serve.
Jo 13, 1-17
1 Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora,
\hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no
mundo, amou-os até o fim. 2 Foi durante a ceia. O diabo já tinha seduzido Judas
Iscariotes para entregar Jesus. 3 Sabendo que o Pai tinha posto tudo em suas
mãos e que de junto de Deus saíra e para Deus voltava, 4 Jesus levantou-se da
ceia, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a à cintura. 5 Derramou água
numa bacia, pôs-se a lavar os pés dos discípulos e enxugava-os com a toalha
que trazia à cintura. 6 Chegou assim a Simão Pedro. Este disse: “Senhor, tu vais
lavar-me os pés? 7 Jesus respondeu: “Agora não entendes o que estou fazendo;
mais tarde compreenderás”. 8 Pedro disse: “Tu não me lavarás os pés nunca!”
Mas Jesus respondeu: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo”. 9 Simão
Pedro disse: “Senhor, então lava-me não só os pés, mas também as mãos e a cabeça”. 10 Jesus respondeu: “Quem tomou banho não precisa lavar senão os pés,
pois está inteiramente limpo. Vós também estais limpos, mas não todos”. 11 Ele
já sabia quem o iria entregar. Por isso disse: “Não estais todos limpos”. 12 Depois de lavar os pés dos discípulos, Jesus vestiu o manto e voltou ao seu lugar.
Disse aos discípulos: “Entendeis o que eu vos fiz? 13 Vós me chamais de Mestre
e Senhor; e dizeis bem, porque sou. 14 Se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés,
também vós deveis lavar os pés uns aos outros. 15 Dei-vos o exemplo, para que
façais assim como eu fiz para vós. 16 Em verdade, em verdade, vos digo: o servo
não é maior do que seu senhor, e o enviado não é maior do que aquele que o enviou. 17 Já que sabeis disso, sereis felizes se o puserdes em prática.
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OS ATUAIS ESTATUTOS RELIGIOSOS MARIANOS
As nossas Constituições apresentam ao superior dois modelos pessoais, que
são Jesus, o Bom Pastor, e Maria, plena de maternal solicitude. Espalhados nos
diversos capítulos das Constituições, os artigos que falam do papel e das tarefas
dos superiores podem ser reunidos em dois grupos: pastoral e paternal. O superior
é aquele que é chamado a realmente conduzir a comunidade. Ele deve discernir
a vontade divina, buscar o verdadeiro bem da comunidade e dos seus diversos
membros, rezar pelos irmãos, cuidar da fidelidade à vida religiosa e à disciplina.
Deve também envolver os irmãos de amor e solicitude, apoiar a iniciativa e a coresponsabilidade, atender às necessidades dos irmãos e prestar assistência àqueles
que são afetados por fraquezas. Veja
Artigos das Constituições: 52, 55, 59, 60,62-64, 78, 82, 102, 221-223.
52 Os superiores procurem com paterna solicitude que se satisfaçam suficientemente, quanto for possível, as justas necessidades dos membros, sem favoritismos, de acordo com a idade, saúde, cargos e outras condições de cada um. Ouçam
de boa vontade os pedidos e propostas dos membros, recebam de cada um a devida prestação de contas do uso do dinheiro e da administração de outros bens; mas
nas suas decisões e licenças, sobretudo gerais, acerca das coisas concedidas para
o uso dos membros, vigiem para que não se introduza neles algo de contrário à
própria pobreza, ao bem comum ou à índole e finalidades da Congregação. [CM
237, 286]
55 Assim como Jesus Cristo nosso Senhor e Mestre não veio a este mundo
para fazer a sua vontade, mas sim a vontade do Pai, e “assumiu a condição do
servo” (Fl 2,7), pela sua submissão ao Pai serviu aos irmãos e entregou sua vida
pela redenção de muitos, assim também os membros se submetem na fé aos superiores, que fazem as vezes de Deus e, por eles são conduzidos ao serviço de todos
os irmãos em Cristo. [Mt 20,28; CM 195; PC 14]
59 Os membros dependerão com docilidade dos superiores no que diz respeito: à ordem dos exercícios de piedade e das ocupações, aos cargos e ofícios, à relação com os externos, às mortificações públicas, aos estudos das letras, à aceitação
de algum ministério de maior importância, na própria Congregação ou fora dela.
[CM 202; CDC 671]
60 Esforcem-se os membros por reconhecer em seus superiores ministros da
comunidade fraterna, enquanto lhes prestam humildemente veneração segundo
a norma das Constituições. Estimem muitíssimo a obediência ativa e responsável
como a principal razão da unidade, solidariedade e vigor da Congregação. [CM
194, 207, 210; PC 14]
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62 Os superiores, que hão de prestar conta das almas que lhes foram confiadas, procurem primeiro, eles mesmos conhecer bem e amar a vontade de Deus,
que em espírito de serviço fraterno devem transmitir aos outros, diga ela respeito
tanto à Congregação inteira, como a cada um dos membros a quem presidem.
[Hbr 13,17; DE I 1911; PC 14]
63 Seguindo as pegadas do Divino Mestre e Bom Pastor, e participando do
maternal afeto da Virgem Imaculada, os superiores dirijam a comunidade com
respeito, tanto pela pessoa humana, quanto pela dignidade cristã de cada um dos
membros, promovendo neles, com a palavra e com o próprio exemplo, a obediência voluntária e a solicitude pelo bem comum. Esforcem-se, num espírito de
discreta igualdade e benevolência, em tratar a todos como companheiros e irmãos,
a fim de que exprimam desse modo a caridade com a qual Deus nos ama, e estimulem seus corações e suas mentes a pagar a Deus amor com amor num serviço
fiel. [CM 213; PC 14] Formação
64 Todos os membros sejam formados, desde o início da vida religiosa, no
espírito da obediência ativa e responsável, a fim de que com ela, tanto como superiores, quanto como membros de qualquer comunidade, conselho ou capítulo,
estejam prontos e idôneos, a cooperar colegialmente no vínculo da caridade, para
o bem da Congregação e de toda a Igreja. [DE 17 XI 1910, 25 I 1911, 7 III 1911;
PC 14]
78 Cuidem os superiores para que a cada um seja concedido conveniente
tempo livre, para fazer os exercícios de piedade, para que ninguém seja privado
da leitura espiritual e da oração, principalmente mental. Com muito esmero promovam entre os membros a piedade e a fidelidade na vida espiritual e sacramental, principalmente a plena e, quanto for possível, comunitária participação da
Eucaristia. Acautelem-se de introduzir na comunidade exercícios de piedade ou
devoções particulares que em nada favorecem o verdadeiro progresso na vida de
oração dos membros. [CM 254]
82 É obrigação do superior rezar freqüentemente pelos confrades a si confiados e de quando em vez aplicar a santa Missa por eles.
102 Os membros, assumindo conscienciosamente a responsabilidade pelo
bem da casa, empreguem uma cuidadosa diligência em observar a ordem diurna
estabelecida, em cumprir os seus deveres, em prestar as prescritas contas e fazer
relatórios. Os superiores, por sua vez ajudem-nos no fiel cumprimento dos deveres, promovendo e favorecendo a unânime colaboração e procurem que os assuntos de maior importância sejam discutidos em comum; contudo cabe ao superior
com seu conselho discernir o que se deve fazer. [CM 321; CDC 26; PC 14]
221 Os superiores se esforcem por ajudar os membros para que saibam conjugar a humildade e perfeita obediência com a iniciativa própria. [DE 25 I 1911]
222 Os superiores sejam para os membros um exemplo de vida intimamente
unida a Deus, de amor à Igreja e à Congregação, de observância religiosa, de zelo
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apostólico, de mútua estima e de cooperação fraterna tanto na oração, quanto na
ação. [CM 516]
223 Todos os superiores:
1) cuidem continuamente de cumprir fielmente o múnus que lhe foi confiado,
cientes de que deverão dar contas a Deus de sua gestão;
2) vigiem cuidadosamente pela fiel observância das Constituições, do Diretório e Estatutos, e pela execução das ordens;
3) distribuam os cargos e deveres de tal modo que os dotes, a ciência ou arte de
cada um se desenvolvam e produzam para a Igreja de Cristo os maiores frutos;
4) exerçam a sua autoridade de tal maneira que seja flexível, onde for necessário, seja firme, quando as circunstâncias o exigirem, seja clemente e sempre
aberta e sincera.
5) examinando com esmero as opiniões e os projetos dos membros e aceitando-os com gratidão, favoreçam a deliberação comum a respeito das questões
apresentadas;
6) exijam de todos que, a seu tempo, prestem conta da vida externa e dos
deveres;
7) cuidem para que os membros sejam devidamente informados acerca do estado, da vida e atividade da Congregação, da província e da própria casa, para que
seja fomentada a união fraterna e seja promovida mais eficazmente a cooperação
de todos, para o bem comum;
8) procurem, quanto puderem, conquistar e conservar a benevolência das pessoas externas e mostrar-se agradecidos aos benfeitores;
9) cada um, segundo o seu ofício, esforce-se, com toda a diligência, para que
em toda a Congregação, províncias e casas, a vida se harmonize perfeitamente,
conforme o Evangelho e as leis das Constituições, aumente a disciplina religiosa,
o fervor e o zelo, para que os bens temporais sejam devidamente administrados,
para que floresçam os estudos das letras e os trabalhos aceitos para a glória de
Deus e a salvação das almas, para que as casas, províncias e a própria Congregação se conservem em bom estado, cresçam em perfeição, a fim de que a Congregação aumente em número e em mérito. [Lc 16,2; CM 518]
PROPOSTAS DE PERGUNTAS PARA REFLEXÃO OU PARTILHA
1. Os superiores no caminho da tua vocação. Como eles têm sido? O que por
eles Deus fez em tua vida? Que características mais neles tens apreciado,
e o que tem sido difícil para ti?
2. Será que podes definir o teu relacionamento com os superiores como aberto
e submisso? Que âmbito da tua vida é realmente submisso aos superiores? Em
78
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3.
4.
5.
6.
que áreas procuras de maneira especial “defendê-los” diante da sua ingerência? Quais são as causas disso?
Até que ponto percebes nos superiores os transmissores da vontade divina?
Será que buscas a ajuda deles no discernimento dos caminhos da tua vocação?
Achas que és (ou serias) um bom superior? Em caso afirmativo, em que baseias essa convicção? Que virtudes ou defeitos “típicos de um superior” possuis?
O superior é para ti um irmão que proporciona apoio, ou alguém que constitui
uma ameaça? Como apóias o teu superior?
Acreditas que na tua comunidade o relacionamento superior-subordinado
é suficientemente envolvido pela oração mútua?
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CONFERÊNCIA V
O PAPEL DO ESPÍRITO SANTO
NA VIDA DO RELIGIOSO
Na exortação pós-sinodal Vita Consecrata João Paulo II desenvolve a teologia
da vida religiosa, adotando como ponto de partida o mistério da Transfiguração
do Senhor. O esplendor do Tabor ilumina todo cristão, no entanto as pessoas religiosas são chamadas de maneira especial à sua contemplação. A amorosa voz
do Pai, a glória de Cristo que caminha em direção à Páscoa, a luminosa Nuvem
que representa o Espírito Santo – tudo isso encerra em si a mais profunda verdade
a respeito de cada um de nós. Os conselhos evangélicos são um dom da Trindade,
e a vida do religioso, “[...] a anunciação daquilo que realiza o Pai pelo Filho no
Espírito Santo pelo Seu amor, pela Sua bondade, pela Sua beleza” (VC 20). Parece que no decorrer dos séculos a Igreja, na sua reflexão sobre o mistério da vida
religiosa, não hauriu plenamente dessa fonte trinitária. Sem especiais investigações, parece que se pode arriscar a afirmação de que no caminho religioso ao Pai
a figura central sempre tem sido Jesus Cristo, ao passo que o Espírito Santo, ainda
que não tenha sido o “Grande Ausente”, com certeza tem permanecido à sombra.
No entanto sem a Sua ajuda ninguém tem condições de ingressar nesse caminho
nem de trilhá-lo. É o Espírito Santo que faz com que as pessoas descubram a sua
encantadora beleza, é Ele que desperta nelas o desejo de uma resposta plena à voz
da vocação, é Ele que forma as almas dos chamados, dá a graça da fidelidade e os
molda a exemplo de Cristo (cf. VC 19).
Podemos encontrar nos escritos do Fundador pronunciamentos que apresentam a morada e a ação de Deus no homem na perspectiva trinitária, ainda que eles
não sejam muito numerosos (cf. IC 56v, 62rv, TDM II). De forma muito explícita
e decidida, no relacionamento do religioso com Deus o Padre Papczynski reserva
o lugar mais elevado a Cristo. É Ele que deve ser o objeto da nossa contemplação
e das nossas reflexões e o primeiro modelo a ser imitado. No entanto essa referência fundamental à pessoa do Salvador está mergulhada numa intensa e variada
presença do Espírito Santo. O Beato Estanislau escreve com muita freqüência
sobre a ação da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Segundo ele, a vida religiosa, a vida do mariano não é possível sem a incessante ajuda do Paráclito. Ele
é o nosso maior tesouro: “Ó suprema graça! Ó Dom acima do qual não se pode
alcançar outro maior! O que de mais maravilhoso dentre os benefícios, as graças
e os carismas o Senhor podia ter concedido a Seus discípulos além do Espírito
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Santo? Quando alguém O possui, considera-se que tem tudo! Quando alguém por
Ele é guiado, não pode desviar-se e trilha um caminho seguro e reto em direção
à Pátria celestial!” (IC 47r)
Quais são as fontes desse benefício? De onde, segundo o autor de Inspectio
cordis, vem a nós esse Dom do alto? Do amor de Jesus Cristo, que entregou
por nós a vida e concordou em afastar-se ao Pai para que pudesse descer sobre
os apóstolos o Consolador, a Luz Celestial, o Mestre da Verdade, e Espírito de
toda ciência (cf. IC 51v-52r, 59r, 165r). Além desse grande Pentecostes, que se
realizou uma vez na história da salvação, o Padre Papczynski aponta para várias
ocasiões em nossa vida diária em que recebemos de maneira especial o Espírito
Santo e os Seus dons. Isso se realiza sobretudo no momento em que recebemos
a Eucaristia. Já no IV século do cristianismo S. Efrém escrevia: “No Teu pão vive
oculto o Espírito, que não pode ser consumido; no Teu vinho arde o fogo que não
pode ser bebido” (S. Efrém, O fogo e o espírito). O Beato Estanislau certamente
lhe daria a mais plena razão. A Eucaristia não apenas destrói em nosso coração
o que produziu ali o demônio, reconstruindo em nós as obras do Espírito Santo
(cf. IC 12r), mas é Ele mesmo que vem a nós com os Seus dons, quando recebemos a Cristo no banquete sacramental (cf. IC 51v-52r, 55rv, 146r). Nesse traço
eucarístico da pneumatologia do Beato pode também ser inscrito o fato de que
de forma necessária ele relaciona a presença do Espírito Santo no homem com
a postura de ação de graças (cf. IC 34rv). Uma outra fonte que abunda em dons
espirituais é para o nosso Fundador a Palavra Divina. Recomenda ele que antes de
cada reflexão seja feita a invocação do Espírito Santo (cf. IC 160v). Sem dúvida
isso diz respeito também às reflexões baseadas na Bíblia, que sem o Divino Iluminador permanece para nós um livro fechado (cf. IC 52r, 57r). O Padre Papczynski
está profundamente convencido de que através da Sagrada Escritura fala-nos diretamente o Espírito Santo. Muitas vezes, ao citar um trecho da Palavra Divina,
não cita o livro concreto de onde ele provém, mas introduz o texto escolhido
unicamente com uma afirmação do tipo: O Espírito Divino ensina, afirma, esclarece, anuncia, etc. (cf. TDM IV, VI, XXI, XXIII, IC 44v, 162r). Uma especial
assistência do Paráclito acompanha não apenas aqueles que ouvem a Palavra, mas
também, de maneira especial, os seus anunciadores. O Beato Estanislau escreve
a esse respeito estas belas palavras em Inspectio cordis: “Anunciar o Evangelho
aos pobres é, sem nenhum mérito da nossa parte, abundar em dons do Espírito
Santo e receber do Rei – unicamente pela Sua graça – tesouros de ciência e de
virtudes, e tendo-os recebido – possuí-los, e possuindo-os – prudente e generosamente distribuí-los para a salvação dos semelhantes, bem como servir-lhes com
proveito para a própria alma” (IC 6v; cf. também IC 52r). Os ensinamentos do
Espírito atingem-nos igualmente pela palavra da Igreja, especialmente através dos
superiores (cf. IC 8rv, 50v, 60v).
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Diversos são os caminhos pelos quais vem à alma humana o mais amável dos
Hóspedes e diversos são os objetivos da Sua presença. O Padre Papczynski menciona três, de acordo com as necessidades das pessoas visitadas:
“Considera que por três motivos vem a nós o Espírito Santo: 1) para inflamar,
2) para consolar, 3) para censurar. Inflama os frios e os tíbios, para que progridam
com mais ânimo no caminho da virtude. Consola os aflitos, para que mais amem
o Deus bondosíssimo, tendo consciência do Seu grande desvelo por eles e da Sua
bondade. Censura os desobedientes, os pecadores, os malfeitores, para que mais
rapidamente caiam em si, abandonem as más ações, evitem a mentira e se apeguem à verdade” (IC 54v). Diversas pessoas, diversas razões, no entanto a direção
básica de ação é a mesma: conduzir o homem a um conhecimento mais pleno de si
mesmo, à conversão e ao ardente amor a Deus. Em seus escritos, o Beato Estanislau confere ênfase especial a três pontos cruciais nesse caminho, que ao mesmo
tempo são para ele uma prova convincente da ação do Espírito Santo. O primeiro é
o amor à verdade, especialmente àquela difícil e dolorosa, que diz respeito à nossa
fraqueza e pecaminosidade. Segundo o autor de Inspectio cordis, aquele que tem
o Espírito do Senhor é um amante da verdade e guia-se pela verdade: “Não procede de Deus aquele que nem diz a verdade aos outros nem permite que ela lhe
seja dita; que nem ouve as palavras de Deus, que são a verdade, nem as anuncia
aos outros. Por isso, se aceitas as censuras que te são feitas como preciosas, possui
o Espírito Divino. Se reconheces as transgressões da tua vida passada e as tuas
falhas atuais, por elas fazes penitência e delas te emendas, possuis o Espírito Divino. Se também levas os outros ao conhecimento das suas transgressões, ao arrependimento por elas, à emenda e à reparação, possuis o Espírito Divino. Porquanto todo desejo de virtude, toda aversão aos defeitos procede do Espírito Divino,
porque essas são as coisas melhores: E todo o bem e toda dádiva perfeita provém
do Pai das luzes [cf. Tg 1, 17].” Justamente a rejeição do pecado e o desejo de
conversão é o segundo fruto da ação do Espírito Santo, especialmente enfatizado
pelo nosso Fundador. Ele permanece apenas naqueles que buscam a emenda dos
seus erros e preferem morrer a pecar novamente (cf. IV 57v, 165v-166r). O fato
de o Espírito da Verdade permanecer no homem pode ser igualmente conhecido
pela profunda humildade. A inveja, a excessiva ambição, a negação dos outros
e a exaltação própria excluem a presença do Paráclito (cf. IC 124r, 126v, 146r).
Um dos sinais mais significativos da Sua ação é para o Beato Estanislau a vontade
de imitar a Jesus Cristo, especialmente no mistério da Sua cruz. Na capítulo da
exortação Vita consecrata dedicado à dimensão pascal da vida consagrada, João
Paulo II escreve: “Nas diversas formas de vida, despertadas pelo Espírito Santo
no decorrer da história, a pessoa consagrada tem a experiência da verdade do
Deus-Amor, e essa experiência é tanto mais direta e profunda quanto mais ela deseja permanecer junto à Cruz de Cristo” (VC 24). A vida gerada pelo Espírito no
resplendor do Tabor, por Ele guiada, encaminha-se em direção ao Calvário. O Pa82
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dre Papczynski está disso profundamente convencido. Em Inspectio cordis afirma
claramente: “Considera como coisa certa que no Santíssimo Sacramento da Eucaristia recebeste o verdadeiro Espírito do Senhor, se em teu coração permanece
o desejo de imitar a vida de Cristo, e especialmente a Sua Santíssima Paixão. Com
efeito, é um sinal infalível de que o Espírito Santo inflamou o teu coração se ele
não apenas quer ardentemente contemplar a vida e as ações do Senhor, mas também, na medida do possível, imitá-las. Por isso também os Apóstolos, fortemente
estimulados por esse Espírito celestial, imediatamente e sem temor anunciaram
a glória de Jesus e, açoitados por essa proclamação, deixaram o Sinédrio, muito
alegres de terem sido julgados dignos de sofrer ultrajes pelo Nome [At 5, 41), de
terem levado uma surra por haverem dado testemunho” (IC 55r, cf. também IC
52r, 146r).
O Espírito Santo vem ao homem para abrir seus olhos à verdade, agraciá-lo
com a humildade, com a vontade de conversão e da imitação de Cristo. Ao moldar
tais posturas, derrama sobre nós ao mesmo tempo uma inaudita riqueza de dons.
Ornamenta o templo místico da alma humana com o candelabro de sete pontas,
que brilha com o esplendor dos carismas: da sabedoria, da inteligência, do conselho, da fortaleza, da ciência, da piedade e do temor de Deus (cf. TDM X). Ensina-nos a oração e Ele mesmo reza nos corações humanos (cf. TDM VII), fornece
a alegria, a paz, a bondade, a humildade, a ponderação, a fidelidade, a generosidade, a felicidade, a unidade e o amor a toda a Igreja e às diversas comunidades (cf.
IC 51v, 56v, 57v, 154r, 165r). Todos os dons do Espírito relacionam-se, segundo
o Padre Papczynski, com uma dupla responsabilidade. Em primeiro lugar, a graça
do Espírito Santo não suporta a delonga. É preciso ser sensível às inspirações
e colocá-las em prática, para que os dons que nos foram concedidos não se tornem como que pérolas jogadas aos porcos (cf. IC 101v, 54v). Em segundo lugar,
é preciso lembrar-se de que os carismas não são propriedade nossa: “Os dons do
Espírito Santo devem ser distribuídos. Não querer indicar o caminho justo a quem
nos pede algo é uma questão de inveja ou de maldade, e exigir pagamento pelo
conselho é uma manifestação de ganância” (TDM XXI).
É difícil superestimar o espaço e o significado que o Beato Estanislau atribui
ao Espírito Santo na vida do religioso. Apenas Ele tem o poder de realizar a grande transformação, de renovar aqueles que nasceram para o estado do velho Adão,
de transformar a morada do demônio em morada de Deus, de inundar as almas
frias e pecadoras de um grande amor, de transformar os fracos e os tímidos em
apóstolos incansáveis, prontos para as dificuldades e o martírio (cf. IC 55r, 57v,
52r). O religioso é para o nosso Fundador uma pessoa verdadeiramente “espiritual”, mergulhada nessa “nuvem luminosa” do Paráclito. N’Ele devemos viver, agir
e morrer. Parece que não é um verdadeiro mariano aquele que não aceita como
suas as ardentes palavras da oração do Padre Papczynski: “A Santíssima Virgem
Maria concebeu em Seu seio o Filho de Deus. Isso é um mistério, uma graça, um
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artigo de fé. Por isso com razão foi dito que justamente conceberá do Espírito
Santo Aquela que foi cheia de graça, repleta do Espírito Santo.
Oh, se fosse possível dizer das tuas ações que elas procedem do Espírito Santo, que foram realizadas no Espírito Santo! Realmente é uma grande felicidade possuir o Espírito Santo, uma felicidade ainda maior agir segundo o Espírito
Santo, e a máxima – completar os seus dias no Espírito Santo. O que devo dizer,
o que pensar a respeito d’Aquela que traz em Seu seio virginal o Filho concebido
do Espírito Santo?
Ó mais feliz das Virgens! Ó mais abençoada dentre as Mães! De coração Te
felicito por tal distinção, concedida unicamente a Ti dentre o coro universal das
santas mulheres. Faze com que vivamos e morramos segundo o Espírito Santo”
(IC 107r).
TEXTOS PARA MEDITAÇÕES
Texto bíblico básico: Gl 5, 16-25
[...] 16 Eu vos exorto: deixai-vos sempre guiar pelo Espírito, e nunca satisfaçais o que deseja uma vida carnal. 17 Pois o que a carne deseja é contra o Espírito, e o que o Espírito deseja é contra a carne: são o oposto um do outro, e por isso
nem sempre fazeis o que gostaríeis de fazer. 18 Se, porém, sois conduzidos pelo
Espírito, então não estais sob o jugo da Lei. 19 São bem conhecidas as obras da
carne: imoralidade sexual, impureza, devassidão, 20 idolatria, feitiçaria, inimizades, contenda, ciúmes, iras, intrigas, discórdias, facções, 21 invejas, bebedeiras,
orgias e outras coisas semelhantes. Eu vos previno, como aliás já o fiz: os que praticam essas coisas não herdarão o reino de Deus. 22 O fruto do Espírito, porém,
é: amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, lealdade, 23 mansidão,
domínio próprio. Contra estas coisas não existe lei. 24 Os que pertencem a Jesus
Cristo crucificaram a carne com suas paixões e seus desejos. 25 Se vivemos pelo
Espírito, procedamos também de acordo com o Espírito.
Referências bíblicas para o aprofundamento da leitura do texto
versículos 16-18: Rm 8, 1ss; Rm 7, 14ss; 1Pd 2, 11; Rm 6, 12-14; 2Cor 3,17-18;
versículos 19-21: Rm 1, 18-32; 1Cor 6, 8-11; 1Cor 3, 1-3; 2Cor 12, 20-21; Ef 5,
1-5;
versículos 22-23: Ef 5, 8-14; 2Cor 6, 1-10; 1Tm 4, 12-16; 2Pd 1, 5-7; 1Cor 13,
4-7; 1Tm 1, 5-11;
versículo 24: Rm 6, 1-14; Gl 2, 19-20;
versículo 25: Rm 8, 13-17; Rm 6, 8.
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Outros textos bíblicos relacionados com o tema
Ez 36, 23-28
[...] 23 Santificarei o meu grande nome, profanado entre as nações no meio
das quais o profanastes. As nações saberão que eu sou o SENHOR – oráculo do
Senhor DEUS – quando por meio de vós mostrar minha santidade à vista delas. 24 Eu vos tomarei dentre as nações, recolhendo-vos de todos os países, e vos
conduzirei à vossa terra. 25 Derramarei sobre vós água pura e sereis purificados.
Eu vos purificarei de todas as impurezas e de todos os ídolos. 26 Eu vos darei
um coração novo e porei em vós um espírito novo. Removerei de vosso corpo
o coração de pedra e vos darei um coração de carne. 27 Porei em vós o meu espírito e farei com que andeis segundo minhas leis e cuideis de observar os meus
preceitos. 28 Habitareis na terra que dei a vossos pais. Sereis o meu povo e eu
serei o vosso Deus.
Rm 8, 1-18
[...] 1 Agora, portanto, já não há condenação para os que estão no Cristo
Jesus. 2 Pois a lei do Espírito, que dá a vida no Cristo Jesus, te libertou da lei
do pecado e da morte. 3 Com efeito, aquilo que era impossível para a Lei, em
razão das fraquezas da carne, Deus o realizou enviando seu próprio Filho em
carne semelhante à do pecado, e por causa do pecado. Assim, Deus condenou
o pecado na carne, 4 a fim de que a justiça exigida pela Lei seja cumprida em
nós, que não procedemos segundo a carne, mas segundo o Espírito. 5 Os que
vivem segundo a carne se voltam para o que é da carne; os que vivem segundo
o Espírito se voltam para o que é espiritual. 6 Na verdade, as aspirações da carne levam à morte e as aspirações do Espírito levam à vida e à paz. 7 Portanto,
as aspirações da carne são uma rebeldia contra Deus: não se submetem – nem
poderiam submeter-se – à Lei de Deus. 8 Os que vivem segundo a carne não podem agradar a Deus. 9 Vós não viveis segundo a carne, mas segundo o Espírito,
se realmente o Espírito de Deus mora em vós. Se alguém não tem o Espírito de
Cristo, não pertence a Cristo. 10 Se, porém, Cristo está em vós, embora vosso
corpo esteja morto por causa do pecado, vosso espírito está cheio de vida, graças à justiça. 11 E, se o Espírito daquele que ressuscitou Cristo dentre os mortos
habita em vós, aquele que ressuscitou Cristo dentre os mortos vivificará também
vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós. 12 Portanto, irmãos,
estamos em dívida, mas não com a carne, como devendo viver segundo a carne.
13 Pois, se viverdes segundo a carne morrereis; mas se, pelo Espírito, matardes
o procedimento carnal, então vivereis. 14 Todos aqueles que se deixam conduzir
pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. 15 De fato, vós não recebestes espírito
de escravos, para recairdes no medo, mas recebestes o Espírito que, por adoção,
vos torna filhos, e no qual clamamos: “Abbá, Pai!” 16 O próprio Espírito se
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une ao nosso espírito, atestando que somos filhos de Deus. 17 E, se somos filhos,
somos também herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo, se, de fato,
sofremos com ele, para sermos também glorificados com ele. 18 Eu penso que
os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que há de ser
revelada em nós.
Rm 12, 1-13
1 Eu vos exorto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a vos oferecerdesem sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso verdadeiro culto. 2 Não vos
conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de
pensar e julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, a saber,
o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito. 3 Pela graça que me foi dada,
recomendo a cada um de vós: ninguém faça de si uma idéia muito elevada, mas
tenha de si uma justa estima, de acordo com o bom senso e conforme a medida da
fé que Deus deu a cada um. 4 Como, num só corpo, temos muitos membros, cada
qual com uma função diferente, 5 assim nós, embora muitos, somos em Cristo um
só corpo e, cada um de nós, membros uns dos outros. 6 Temos dons diferentes,
segundo a graça que nos foi dada. É o dom de profecia? Profetizemos em proporção com a fé recebida. 7 É o dom do serviço? Prestemos esse serviço. É o dom
de ensinar? Dediquemo-nos ao ensino. 8 É o dom de exortar? Exortemos. Quem
distribui donativos, faça-o com simplicidade; quem preside, presida com solicitude; quem se dedica a obras de misericórdia, faça-o com alegria. 9 O amor seja
sincero. Detestai o mal, apegai-vos ao bem. 10 Que o amor fraterno vos una uns
aos outros, com terna afeição, rivalizando-vos em atenções recíprocas. 11 Sede
zelosos e diligentes, fervorosos de espírito, servindo sempre ao Senhor, 12 alegres na esperança, fortes na tribulação, perseverantes na oração. 13 Mostrai-vos
solidários com os santos em suas necessidades, prossegui firmes na prática da
hospitalidade.
1Cor 12, 1-11
1 Agora, a respeito dos dons do Espírito, irmãos, não quero que vivais na
ignorância. 2 Sabeis que, quando ainda pagãos, éreis como que desviados e levados para o culto dos ídolos mudos. 3 Por isso, agora eu vos declaro que ninguém,
falando sob influência do Espírito de Deus, vai dizer: “Jesus seja maldito”, como
também ninguém será capaz de dizer: “Jesus é Senhor”, a não ser sob influência
do Espírito Santo. 4 Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. 5 Há
diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. 6 Há diferentes atividades,
mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos. 7 A cada um é dada a manifestação do Espírito, em vista do bem de todos. 8 A um é dada pelo Espírito uma
palavra de sabedoria; a outro, uma palavra de conhecimento segundo o mesmo
Espírito. 9 A outro é dada a fé, pelo mesmo Espírito. A outro são dados dons de
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cura, pelo mesmo Espírito. 10 A outro, o poder de fazer milagres. A outro, a profecia. A outro, o discernimento dos espíritos. A outro, a diversidade de línguas.
A outro, o dom de as interpretar. 11 Todas essas coisas as realiza um e o mesmo
Espírito, que distribui a cada um conforme quer.
OS ATUAIS ESTATUTOS RELIGIOSOS MARIANOS
Se não fosse o fato de a frase “nas atuais Constituições o Espírito Santo está
ausente” soar mal para o ouvido católico, ela poderia ser reconhecida como reflexo de uma situação real. Nominalmente, a Terceira Pessoa da Trindade é mencionada três vezes e uma vez surge numa citação da Bíblia, e é tudo. Por inspiração
do Espírito Santo, os marianos devem servir às pessoas que lhes são confiadas
e ser obedientes aos superiores. Com cuidado, vigilância e submissão, devem
submeter-se à direção do Espírito Santo. O dom do amor proveniente do Espírito
Santo é uma fonte de solicitude e fraternidade na comunidade. Veja
Artigos das Constituições: 3, 32, 54, 94.
3 A Congregação, no exercício da sua missão, não exclui nenhuma obra,
a piori, mas sob a ação do Espírito Santo, serve com todo o zelo e empenho aos
homens, que em Cristo lhe foram confiados, principalmente:
1) adquirindo e promovendo o saber e instruindo os outros;
2) exercendo o sagrado ministério e prestando auxílio ao clero diocesano.
[CM 2]
32 Procurem conformar plenamente a própria vontade com a vontade divina,
submetam-se a ela, façam-na e cumpram-na pela observância fiel e generosa dos
mandamentos de Deus, da Igreja e também dos conselhos evangélicos e das leis
próprias; cooperando fielmente com as graças divinas, seguindo atenta, discreta
e docilmente a moção do Espírito Santo; suportando e vencendo as adversidades
e levando a sua cruz com Cristo, com paciência, fortaleza e alegria. [CM 174]
54 Os membros já consagrados a Deus pelo batismo, pelo voto de obediência evangélica, sob a moção do Espírito Santo, oferecem de modo especial,
a oblação plena da própria vontade a Deus, como sacrifício de si mesmos, unindo-se deste modo mais constante e seguramente à vontade salvífica de Deus.
[CM 194; PC 14]
94 Os membros estendam a todos os confrades, com quem estão unidos pela
mesma vocação e regra de vida, a caridade “que foi derramada nos nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado” (Rm 5,5), e pela qual nos unimos
com Cristo pelo batismo e pela participação da Eucaristia. Fomentem entre si
com a mente, o coração e o trabalho a mútua caridade que é alma da vida comum
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e de tudo aquilo que se faz na Congregação; antecipem-se em estimar-se reciprocamente, sejam mutuamente condescendentes e perdoem-se uns aos outros;
corrijam uns aos outros no Senhor e estimulem-se em fazer o bem. [NV II,4; CM
288, 292; PC 15]
PROPOSTAS DE PERGUNTAS PARA REFLEXÃO E PARTILHA
1. Como aceitas a palavra sobre a ação e os frutos da presença do Espírito Santo na comunidade da Igreja e da vida do cristão? O que é para ti a promessa
e a esperança que mais chama à conversão?
2. Como vivencias em tua vida religiosa a presença do Espírito Santo como
aquele que é o Consolador e Defensor? Quando com mais freqüência sentes
o desejo da Sua presença? Em que situações com mais freqüência O invocas?
3. Como vivencias a ajuda do Espírito Santo no teu apostolado de pregação, catequese, confissão e diversos serviços pastorais? Será que pedes a Sua presença e ajuda? Será que procuras ser sensível e obediente às Suas inspirações?
4. Será que vês em tua vida os frutos do Espírito Santo a respeito dos quais escreve S. Paulo na Carta aos Gálatas: o amor, a alegria, a paz, a generosidade,
a benignidade, a bondade, a fidelidade, a mansidão, o autodomínio? De quais
deles mais sentes falta e o que, na tua opinião, é a causa disso?
5. Com a presença do Espírito Santo no religioso o Padre Estanislau relaciona
estreitamente posturas como o amor à verdade, especialmente àquela difícil
a respeito da nossa fraqueza e pecado, a humildade e a sincera vontade de
conversão, bem como o amor a Deus e o desejo de imitar a Cristo, especialmente no carregar a cruz. Em quais dessas posturas experimentas mais
nitidamente a ajuda do Espírito Santo, e em qual tens mais dificuldade para
submeter-te à Sua ação?
6. Quais são os carismas especiais com que Deus te cumulou? Será que os desenvolves, e como o fazes? Até que pontos serves com eles à Igreja e aos
irmãos? Que frutos traz esse teu serviço?
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CONFERÊNCIA VI
O DEMÔNIO  ESTRATÉGIAS DE ATAQUE E DEFESA
O que acontece neste mundo é que em cada janela senta-se um demônio e,
como afirmam os especialistas, nos parapeitos religiosos sentam-se dois. Lembrome dessa doutrina dos meus anos de noviciado. Provavelmente alguém inventou
essa tese para evitar que os jovens religiosos olhassem para o longe, o que – como
ensina a história do rei Davi – pode terminar mal. A maioria de nós olha para esse
tipo de “demonologia de parapeito” com desconfiança, no entanto o tema é extremamente sério. Os ancestrais da vida religiosa dirigiam-se ao deserto, que era
o território dos demônios, para empreender com eles uma luta de vida ou morte.
A convicção de que todo religioso é um tapa andante desferido contra o demônio
e de que este investe contra ele com especial obstinação encontra-se presente,
desde o início, na reflexão sobre a vida segundo os conselhos evangélicos. Hoje,
ao falarmos do demônio, muitas vezes caímos em extremos. Pode acontecer que,
como fonte de todas as desgraças e tormentos, ele esconda a alguém quase todo
o horizonte da reflexão religiosa ou que, ao contrário, expulso do mundo real,
resida juntamente com as bruxas e os dragões nas nebulosas regiões das lendas
e contos de fadas. No entanto vale a pena lembrar que o mal a que o homem está
exposto e do qual busca junto a Deus a salvação não é uma abstração, mas uma
pessoa (CIC 2851). Aquele que desde o início é um mentiroso e assassino tenta
envolver o homem na sua própria revolta contra Deus. Embora subjugado por
Cristo, até o fim do mundo permanecerá como um adversário dos homens, com
pleno ódio lutando contra aqueles que observam os mandamentos divinos e dão o
testemunho de Cristo (cf. Ap 12, 9.17).
O Padre Papczynski estava distante de menosprezar esse inimigo. Tinha também a nítida consciência de que todos que desejam servir a Deus no caminho da
vida religiosa serão tentados e atacados com especial obstinação: “[...] no mundo
há muitas pessoas que não sentem tentações, visto que o espírito mau já as considera como suas e por isso contra elas não manifesta as suas forças, não desfere projéteis, não afia cunhas e não prepara armadilhas. Mas aos que residem no
convento, na santa e fortificada cidade de Deus, ele ataca com grande obstinação.
É por isso que os religiosos, apesar da prática de muitas mortificações, jejuns
e abstinências, são atormentados e submetidos a incomuns tentações. Porque o
inimigo infernal, comum a todos, considera-os como os seus mais encarniçados
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inimigos e por isso lança mão de todos os artifícios, utiliza-se de todas as forças para os expulsar dali, como de um acampamento firmemente fortificado pelo
poder e pela defesa divina, ou para ali mesmo os solapar, subjugar e aniquilar”
(IC 29rv). O nosso Fundador assumiu essa luta e, pela graça divina, saiu dela
vencedor. No entanto para cada um de nós, seus filhos espirituais, a luta continua,
e o seu resultado é sempre incerto. Por isso vale a pena lançar mão da experiência
e da sabedoria do Beato.
A Sagrada Escritura transmite-nos diversas informações sobre o espírito mau
já nos próprios nomes que lhe atribui (p. ex. inimigo, mentiroso, assassino, besta).
O mesmo ocorre nos escritos do Padre Estanislau. Ele não se restringe ali a algumas definições básicas, tais como “diabo”, “espírito mau” ou “satanás”. Ele vive
na época do Barroco, é um excelente orador, possui uma sólida instrução e erudição, e por isso utiliza-se também de nomes dos quais provavelmente ele mesmo
é o autor, e que dizem muito da natureza e das características do nosso inimigo.
O grupo de definições mais estranho aos ouvidos do leitor de hoje é o daquelas
cujas raízes se encontram nas obras de Homero, Horácio ou Ovídio e fazem alusão à mitologia e à história da Grécia antiga. O diabo é o esperto e astuto “Ulisses
infernal” (IC 12r, 30r), a cruel e alada “harpia” (IC 25v), ou o “infernal Gias” (IC
30r), ou seja, um gigante e monstro de cem braços, bem como o “astuto e esperto
Apeles” (OC VII). Este último foi uma personagem histórica, excelente pintor,
e nisso reside a sua “semelhança” com o demônio, que na descuidada imaginação do religioso pinta as imagens da “Diana caçadora”, da “ciumenta e orgulhosa Juno” ou da “devassa Vênus” (OC 35). Se a essas definições acrescentarmos
a comparação do pecado ao ato de beber a água turva de lagrimas e choro dos
rios do Hades, ou ao néctar mágico da ninfa Circe que transformou os companheiros de Ulisses em porcos (OC), ou a comparação dos que procedem mal aos
templos de inúmeros ídolos pagãos (TDM XVII), podemos dizer que o “inferno
do Padre Estanislau” tem um nítido traço clássico. Esse inferno pode despertar
associações com o que descreve Dante na “Divina Comédia”. No entanto, ainda
que muito mais pobre, é decididamente mais “cristão” do que aquele criado pelo
poeta florentino, visto que o Padre Papczynski não coloca nele ninguém dos seus
contemporâneos e não acerta nenhuma conta atrasada.
Um outro grupo de nomes do diabo pode ser criado a partir das definições que
o nosso Fundador utiliza no contexto próximo de narrativas e imagens bíblicas
concretas. Na reflexão sobre a parábola do joio (Mt 13, 24-30), surge o “infernal
inimigo, velhaco agricultor” (IC 22rv) que semeia o joio dos maus pensamentos no campo da alma do religioso. As conotações bíblicas da definição “serpente infernal” parecem dispensar comentários, no entanto uma gama mais variada
de nomes demoníacos aparece na meditação sobre a imagem do Bom Pastor do
Evangelho segundo S. João (Jo 10, 1-18). O demônio é apresentado pelo Padre
Estanislau como a antítese do pastor, que ama e alimenta suas ovelhas. Assim, ele
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é “mercenário pronto a fugir, distribuidor do prazer passageiro, doador de uma
doçura amarga, fornecedor de alimento envenenado” (IC 49).
No terceiro grupo podem ser localizadas as definições restantes espalhadas
por diversos lugares, que enfatizam algumas características do demônio e da sua
atividade, p. ex. “infernal arquiteto” (IC 12r), “infernal inimigo” (IC 29v), “o pior
dos inimigos” (IC 31v), “astuta raposa” (IC 48v), “inimigo da alma” (IC 88r),
“vassalo do inferno” (OC VII), “infernal bandido” (OC VII), “incansável caçador
da tua alma” (OC VII), “autor da morte” (OC IV). Todas as definições agrupadas
acima sugerem que para o Padre Papczynski o diabo é o pior e o mais obstinado
inimigo dos religiosos, que de forma astuta e perversa deseja enganar-nos a fim
de semear no nosso coração o mal, saquear e destruir o que é bom e finalmente
devorar a nossa alma acarretando a morte. Afirma isso ele mesmo, de forma sucinta e clara, em Inspectio cordis: “Então o que achas? A quem é mais necessária
a prudência senão a ti, que abandonaste os caminhos do mundo e te ocultaste nas
muralhas da vida religiosa como se fora num paraíso, onde a antiga serpente,
invejando-te a tua felicidade, inocência e futura glória, incessantemente espreita
contra ti, esperando com a mandíbula aberta para te agarrar, dominar, matar e
engolir?” (IC 169v).
A fim de atingir o seu objetivo, o espírito mau adota diversas táticas de ação
que devemos conhecer para poder adotar os adequados meios de defesa. As
descrições das formas de tentação que podemos encontrar nos escritos do nosso Fundador dizem respeito basicamente às pessoas religiosas, ou seja, àquelas
que escolheram em sua vida a Deus e tentam procurá-Lo. A fim de afastá-las de
Cristo, satanás, na opinião do Padre Estanislau, recorre em princípio a formas de
tentação muito sutis e astutas. Não tenta a grandes pecados, começa por coisas
pequenas, insinua-se através do pensamento e da imaginação fingindo-se de anjo
da luz. Adapta a tentação à pessoa concreta. Pode atacar a qualquer momento,
e propriamente em nenhum momento da vida o religioso não pode ter a certeza de
que a tentação não o ameaça. Tentemos analisar todos esses elementos da “tática
diabólica” pelo olhar do Beato.
É preciso evitar os pequenos defeitos, imperfeições e pecados. O Padre Papczynski sabe perfeitamente que raramente o diabo se aproxima de um religioso
piedoso com um revólver, propondo o afastamento do superior e dos irmãos incômodos ou uma excursão comum de três dias a um clube social. “O espírito mau
costuma proceder com as pessoas espiritualizadas de tal forma que não lança de
imediato contra elas a rede através de pecados graves, porque elas os abominam.
Ele o faz através de pequenas imperfeições, quanto às quais sabe o que fazer para
que as menosprezem, e então as conduz até às quedas mais graves” (IC 22v, cf.
também IC 87v-88r). Especialmente exposto ao ataque do inimigo está aquele que
não cuida dos pensamentos e da imaginação. A seqüência das ações é normalmente a seguinte: “Porquanto o demônio primeiramente sugere um mau pensamento,
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esse pensamento envenena ou remove a pureza do coração, e após a sua perda
segue-se uma grande tristeza que, debilitando as forças do espírito, torna-o incapaz de qualquer coisa e muitas vezes lança algumas pessoas num tal abismo de
desespero que, após abandonarem o salutar jugo de Cristo, afastam as mãos do
arado e interrompem o cultivo do campo da alma que haviam iniciado” (IC 45, cf.
também OC 35). O gosto dos pensamentos pecaminosos é para o Padre Estanislau
uma “conversa com o tentador” e conduz à amizade com a serpente (cf. IC 144).
Os pensamentos sugeridos pelo espírito mau muitas vezes trazem em si a aparência do bem, são como que um alimento amargo e envenenado, coberto com o mel
de inúmeros prazeres, são lobos em pele de ovelha. “Deves aqui refletir a respeito
da retidão dos teus pensamentos, examinar a sua qualidade, pois quantas vezes,
sendo muito repugnantes, insinuam-me no interior da alma como muito belos? São
eles que, muitas vezes, admitidos sob o pretexto de piedade, provocam um efeito
desastroso. Apresentam-se, na verdade, sob a máscara do zelo, mas muitas vezes
escondem a cólera. Apresentam-se sob o manto do bom amor, mas trazem o mau
amor. Apresentam-se sob o pretexto de justiça, mas na realidade trazem consigo
a vingança. Apresentam-se sob a capa da discrição, mas na realidade são pensamentos indolentes. Finalmente apresentam-se como portadores de santidade, mas
após o seu afastamento deixam a decepção. Por isso, toma muito cuidado para não
permitires que entrem em ti lobos em pele de ovelha (IC 69v-70r, cf. também IC
49r, IC 92r). O diabo é como um monstro de cem braços, visto que para cada um é
capaz de escolher a tentação mais adequada: “Assim costuma proceder o infernal
Ulisses, e desse método de tentação utiliza-se também diante dos servos de Deus.
Aproveita-se de qualquer ocasião, por mínima que seja, que sirva para os seduzir:
nos famintos a gula, nos cansados a indolência, nos impacientes as explosões de
ira; a alguns fornece estímulos para a lascívia, a outros – de insolência, orgulho
e arrogância” (IC 30r). Na opinião do nosso Fundador, o ataque do inimigo pode
ocorrer a qualquer momento, no entanto estamos especialmente expostos a ele
quando deixamos de vigiar e nos entregamos à preguiça e à inatividade: “Deves
ficar atento ao fato de que os demônios justamente armam contra nós as suas redes
e nelas nos prendem justamente quando nos vêem vadiando e em certo sentido
adormecidos. A causa de todo pecado nada mais é do que justamente a vadiagem.
Porque, segundo a opinião de muitos santos padres, o inimigo infernal tem medo
de aproximar-se de pessoas laboriosas e que cuidam do seu progresso” (IC 22v,
cf. também IC 169v). O Padre Estanislau apresenta três momentos especiais em
que o demônio gosta de nos assediar. Vale a pena lembrar-nos dessas valiosas
orientações para evitarmos muitas quedas inesperadas e dolorosas. O diabo gosta
de nos assediar logo após a santa Comunhão, quando menos esperamos alguma
armadilha. Ele o faz porque o pecado cometido logo após a recepção do Corpo do
Senhor assume um peso especial e se assemelha à traição de Judas (cf. IC 23r).
O outro momento é aquele em que à nossa alma são concedidas certas inspirações
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piedosas. O espírito mau ataca com grande tenacidade a fim de afastar e abafar
essas sementes divinas e não permitir que produzam qualquer fruto em forma de
ações (cf. IC 26r). O demônio se aproxima também em momentos difíceis, principalmente na luta derradeira no fim da vida, a fim de induzir a alma à arrogância
ou lançá-la no desespero (IC 177v). Enfim, devemos estar preparados para uma
luta que nunca tem fim (IC 31v).
No entanto o nosso beato Fundador estimula-nos a termos confiança, a nos
entregarmos a Deus e alimentarmos com a Eucaristia. A vitória nos está predestinada, e o diabo é um cão que tem menos força do que aparenta. Nas reflexões para
os religiosos das Escolas Pias, o Padre Papczynski assim escrevia: “Tu, no entanto, não cedas aos maus espíritos, mas, ao contrário, enfrenta-os com cada vez mais
coragem, ainda que por toda a vida isso te impeça de experimentar a paz. Existem
justamente tantas lutas para que haja muitas vitórias; as batalhas se repetem para
que se multipliquem os louros da glória. É por isso também que o Senhor te admite com freqüência à santa Mesa, para te fortalecer contra os ataques cada vez mais
freqüentes dos inimigos” (IC 31v). E numa outra passagem: “Não percas também
a esperança de alcançar a ajuda d’Aquele que te conduziu para fora das muralhas
de Babilônia, para o santo deserto. Não percas a confiança então e não percas a
esperança de que vencerás o infernal inimigo todas as vezes que contra ti investir,
armado de tantos e tão imundos pensamentos, defeitos e maus estímulos, visto
que as suas forças são muito menores do que se possa imaginar. Esse cão pode
ladrar, mas não pode morder. E tu, todas as vezes que te fortaleces com o alimento
da Santíssima Eucaristia, conquistas sempre novas forças e recursos. Evidentemente, a Eucaristia é a mais poderosa arma contra qualquer tentação” (IC 29v).
Além da Eucaristia, nas lutas contra o adversário o Padre Papczynski atribui um
importante papel à postura da vigilância e da fuga da inatividade e da preguiça. Os
estímulos e as advertências relacionadas com essas posturas são muito freqüentes
em seus escritos, e as citações poderiam ser multiplicadas, mas seja-nos suficiente
a apresentada acima (cf. também IC 45v, 169v). Como arma eficaz na nossa luta
com o mal, o Beato Fundador recomenda igualmente: manter-se na proximidade
da cruz de Cristo (IC 49r, 177v; TDM XIII), recorrer à proteção da Santíssima
Virgem Maria (IC 141v), evitar a prática da vontade própria (TDM VI) e praticar
a oração (IC 31v).
No final a vitória na luta contra o espírito mau é uma graça de Deus, e não um
fruto dos nossos esforços, das nossas qualidades ou aptidões. Por isso, para que
ela nos possa ser concedida, devemos aceitar profundamente em nosso coração
as palavras do Padre Papczynski: “Para ti decorre disso a lição de que não deves
contar excessivamente com as tuas forças, mesmo fortalecido com esse eficacíssimo Sacramento, de que não deves prometer-te a segurança, ainda que disponhas
de tão numerosos dons e graças sobrenaturais, mas permanece sempre vigilante
e reza sempre, para que não caias numa tentação invencível. O infernal tentador
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não poderá ser vencido pela grande ciência, pela experiência ou pela mortificação,
mas ele será forçado a afastar-se e a fugir, e a vitória te será assegurada através
do domínio dos sentidos, da espada da oração, da grande confiança depositada em
Deus, da paciente humildade e da humilde paciência” (IC 30r).
TEXTOS PARA MEDITAÇÕES
Texto bíblico básico: Mt 4, 1-11
1 Jesus foi conduzido ao deserto pelo Espírito, para ser posto à prova pelo
diabo. 2 Ele jejuou durante quarenta dias e quarenta noites. Depois, teve fome.
3 O tentador aproximou-se e disse-lhe: “Se és Filho de Deus, manda que estas
pedras se transformem em pães!” 4 Ele respondeu: “Está escrito: ‘Não se vive
somente de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus’”. 5 Então, o diabo
o levou à Cidade Santa, colocou-o no ponto mais alto do templo 6 e disse-lhe:
“Se és Filho de Deus, joga-te daqui abaixo! Pois está escrito: ‘Ele dará ordens a
seus anjos a teu respeito, e eles te carregarão nas mãos, para que não tropeces em
alguma pedra’”. 7J esus lhe respondeu : “Também está escrito: ‘Não porás à prova o Senhor teu Deus’!” 8 O diabo o levou ainda para uma montanha muito alta.
Mostrou-lhe todos os reinos do mundo e sua riqueza, 9 e lhe disse: “Eu te darei
tudo isso, se caíres de joelhos para me adorar”. 10 Jesus lhe disse: “Vai embora,
Satanás, pois está escrito: ‘Adorarás o Senhor, teu Deus, e só a ele prestarás culto’”. 11 Por fim, o diabo o deixou, e os anjos se aproximaram para servi-lo.
Referências bíblicas para o aprofundamento da leitura do texto
versículos 1-2: Dt 8, 2-6; Hb 2, 14-18; Hb 4, 14-16; Ex 24, 15-18; Ex 34, 28-29;
1Rs 19, 1-14;
versículo 3: Gn 3, 1-13; Mt 27, 39-41; 1Ts 3, 1-5;
versículo 4: Dt 8, 1-11; Sb 16, 26; Jo 4, 33-34;
versículo 5: Is 52, 1-2; Ap 21, 1ss; Ap 22, 19;
versículo 6: Sl 91, 11-12;
versículo 7: Dt 6, 16; 1Cor 10, 1-13; Ex 17, 1-7;
versículos 8-9: Dt 34, 1-4; Dn 3, 1ss;
versículo 10: Dt 6, 13; Mt 16, 21-23;
versículo 11: Mt 26, 53; Lc 22, 39-46; Jo 1, 51; Hb 1, 6.14.
Outros textos bíblicos relacionados com o tema
Ef 6, 10-20
10 Enfim, fortalecei-vos no Senhor, no poder de sua força; 11 revesti-vos da
armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do diabo. 12 Pois a nossa
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luta não é contra o sangue e a carne, mas contra os principados, as potestades,
os dominadores deste mundo tenebroso, os espíritos malignos espalhados pelo
espaço. 13 Por isso, protegei-vos com a armadura de Deus, a fim de que possais
resistir no dia mau, e assim, empregando todos os meios, continueis firmes. 14 Ficai, pois, de prontidão, tendo a verdade como cinturão, a justiça como couraça
15 e os pés calçados com o zelo em anunciar a Boa-Nova da paz. 16 Em todas as
circunstâncias, empunhai o escudo da fé, com o qual podereis apagar todas as
flechas incendiadas do Maligno. 17 Enfim, ponde o capacete da salvação e empunhai a espada do Espírito, que é a palavra de Deus. 18 Com toda sorte de preces e súplicas, orai constantemente no Espírito. Prestai vigilante atenção neste
ponto, intercedendo por todos os santos. 19 Orai também por mim, suplicando
que a palavra seja colocada em minha boca, de maneira que eu possa anunciar
abertamente o mistério do evangelho, 20 do qual, em minhas algemas, sou embaixador. Que eu o proclame com toda a ousadia, como é de meu dever.
2 Cor 12, 7-10
7 E para que a grandeza das revelações não me enchesse de orgulho, foi-me
dado um espinho na carne, um anjo de Satanás, para me esbofetear, a fim de que
eu não me torne orgulhoso. 8 A esse respeito, roguei três vezes ao Senhor que ficasse longe de mim. 9 Mas o Senhor disse-me: “Basta-te a minha graça; pois é na
fraqueza que a força se realiza plenamente”. Por isso, de bom grado, me gloriarei
das minhas fraquezas, para que a força de Cristo habite em mim; 10 e me comprazo nas fraquezas, nos insultos, nas dificuldades, nas perseguições e nas angústias
por causa de Cristo. Pois, quando estou fraco, então é que sou forte.
2Ts 2, 1-12
1 Quanto à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e à nossa reunião junto dele,
nós vos pedimos, irmãos, 2 que não vos deixeis abalar, assim tão depressa, em
vossas convicções, nem vos alarmeis com alguma pretensa revelação do Espírito
ou alguma instrução ou carta atribuída a nós e que desse a entender que o dia
do Senhor já está chegando. 3 Que ninguém vos iluda de nenhum modo. É preciso que, primeiro, venha a apostasia e se revele o Iníquo, destinado à perdição,
4 o Adversário, aquele que se levanta contra tudo o que se chama deus ou que se
adora, a ponto de se assentar no Santuário de Deus, proclamando-se deus. 5 Acaso não vos lembrais que eu já vos dizia essas coisas, quando ainda estava entre
vós? 6 E sabeis o que atualmente retém o Adversário, de maneira que ele se
revele somente na hora devida. 7 Pois o mistério da iniqüidade já está em ação.
Basta que o obstáculo atual seja afastado. 8 Então, ele se revelará, o Iníquo, que
o Senhor Jesus matará com o sopro de sua boca e destruirá com a manifestação
da sua vinda. 9 Ora, a vinda do Iníquo se dará pela ação do Satanás, com toda
espécie de milagres e sinais e prodígios enganadores, 10 e com todas as seduções
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da iniqüidade para aqueles que estão a se perder, por não terem acolhido o amor
da verdade que os teria salvo. 11 Por isso, Deus lhes envia uma força que os
extravia, fazendo-os crer na mentira, 12 de modo que sejam condenados todos
aqueles que não creram na verdade, mas se comprazeram na iniqüidade.
1Pd 5, 5b-11
Revesti-vos todos de humildade no relacionamento mútuo, porque Deus resiste aos soberbos, Mas dá a sua graça aos humildes. 6 humilhai-vos, pois, sob
a poderosa mão de Deus, para que, na hora oportuna, Le vos exalte. 7 Lançai
sobre ele toda a vossa preocupação, pois ele é quem cuida de vós. 8 Sede sóbrios
e vigilantes. O vosso adversário, o diabo, anda em derredor como um leão que
ruge, procurando a quem devorar. 9 Resisti-lhe, firmes na fé, certos de que iguais
sofrimentos atingem também os vossos irmãos pelo mundo afora. 10 Depois de
terdes sofrido um pouco, o Deus de toda graça, que vos chamou para a sua glória
eterna, no Cristo Jesus, vos restabelecerá e vos tornará firmes, fortes e seguros. 11 A ele pertence o poder, pelos séculos dos séculos. Amém.
1Jo 3, 7-10
7 Filhinhos, que ninguém vos desencaminhe. O que pratica a justiça é justo,
assim como ele é justo. 8 Aquele que pratica o pecado é do diabo, porque o diabo
é pecador desde o princípio. Para isto é que o Filho de Deus se manifestou: para
destruir as obras do diabo. 9 Todo aquele que nasceu de Deus não comete pecado, porque a semente de Deus fica nele; é impossível que ele peque, pois nasceu
de Deus. 10 Nisto se revela quem é filho de Deus e quem é filho do diabo: todo
aquele que não pratica a justiça não é de Deus, como também não \é de Deus
quem não ama o seu irmão.
Ap 12, 7-12
7 Houve então uma batalha no céu: Miguel e seus anjos guerrearam contra
o Dragão. O Dragão lutou, juntamente com os seus anjos, 8 mas foi derrotado;
e eles perderam seu lugar no céu. 9 Assim foi expulso o grande Dragão, a antiga
Serpente, que é chamado Diabo e Satanás, o sedutor do mundo inteiro. Ele foi
expulso para a terra, e os seus anjos foram expulsos com ele. 10 Ouvi então uma
voz forte no céu, proclamando: “Agora realizou-se a salvação, a força e a realeza
do nosso Deus, e o poder do seu Cristo. Porque foi expulso o acusador dos nossos
irmãos, aquele que os acusava dia e noite perante nosso Deus. 11 Eles venceram
o Dragão pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu próprio testemunho,
pois não se apegaram à vida: até deixaram-se matar. 12 Por isso, alegra-te, ó
céu, e todos os que nele habitais.Mas ai da terra e do mar, porque o Diabo desceu
para o meio de vós e está cheio de grande furor; pois sabe que lhe resta pouco
tempo”.
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OS ATUAIS ESTATUTOS RELIGIOSOS MARIANOS
Nas nossas Constituições e no Diretório o demônio não é mencionado uma
vez sequer. Não ocorre também nenhuma menção à tentação e à luta contra as
tentações.
PROPOSTAS DE PERGUNTAS PARA REFLEXÃO OU PARTILHA
1. Como percebes a presença e a ação do demônio em tua vida? Que “nome” lhe
darias baseando-te em tua experiência?
2. O demônio está “presente” na tua pregação e no seu ministério pastoral e de
que forma isso ocorre? Será que sabes preservar a esse respeito a moderação
e o equilíbrio de acordo com a doutrina da Igreja?
3. Será que és testemunha e advogado da vitória de Cristo sobre o mal? Nos
pronunciamentos relacionados com o demônio proclamas o poder do Ressuscitado, ou antes o poder do demônio? Que tipo de ajuda te proporciona nesse
ponto o mistério da Imaculada Conceição?
4. De onde geralmente provêm os ataques do demônio direcionados contra ti?
Onde, em que área da tua vida com mais freqüência és derrotado? Quais são
os teus pontos fracos nessa luta?
5. O que te dá mais forças na luta com o diabo? O que proporciona a cura? Qual
é a tua experiência do poder da Palavra Divina na tua luta contra as tentações?
6. Que objetivo pode ter Deus ao permitir em tua vida essas formas de tentação?
Que mudanças devem ocorrer em ti para que ocorra a vitória nessa luta?
7. Que estratégias de ataque adota diante de ti o demônio? Quais são geralmente
os seus passos sucessivos? Serias capaz de apontar as pequenas transigências
e concessões pelas quais geralmente lhe abres a porta para que entre em tua
vida? Em que momento deves dizer ao diabo um categórico “não”? Se não o
fazes, qual a razão disso?
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CONFERÊNCIA VII
O PECADO
Deparei-me certa vez com uma descrição engraçada dos valores gustativos
que deve possuir o bom café. De acordo com essa descrição, a infusão nobre deve
ser negra como a noite, quente como o amor e doce como o pecado. Brincadeiras
à parte, mas o fato de o conceito do “pecado” aparecer num contexto misterioso,
saboroso e sem dúvida positivo já é um problema bem sério, que extrapola em
muito as receitas do café. Se olharmos mais atentamente para as propagandas, se
nos lembrarmos das expressões em curso e tentarmos analisar a imagem do pecado
que funciona na consciência geral, com facilidade constataremos que surge nele
antes o eco da tentação da “serpente do paraíso” do que o eco da palavra divina.
As mulheres dignas de pecado não fazem parte daquelas com as quais cruzamos
na rua, sem chamar a atenção ou virar a cabeça. O inferno é mais interessante, tem
calor, gosto e cor, ao passo que no céu predomina a fria brancura e a monotonia
de algumas notas gregorianas cantadas sem ritmo nem acompanhamento musical.
O pecado se apresenta à nossa porta agitando simpaticamente a cauda, e nós retribuímos assobiando para ele, estalando os lábios e piscando o olho. No entanto
o diabo não é um sujeito simpático que conhece o gosto da vida nem um engraçado cãozinho. A Bíblia o chama de mentiroso e assassino, e S. Martinho de Tours,
ao vê-lo no momento da morte, dirige-se a ele: “O que estás esperando, besta
cruel? Em mim nada encontrarás, maldito [...]” (da carta de Sulpício Severo, leitura do breviário da memória de S. Martinho, 11 de novembro). A respeito do que
realmente é o pecado devemos indagar os santos, não os pecadores, porque estes,
embora muitas vezes sofram em razão do pecado, pouco sabem a seu respeito.
Paradoxalmente Aquele em quem não havia nenhuma culpa, na solidão e no sofrimento da cruz “conheceu” o escuro abismo do pecado até o fundo e mostrou
a sua verdadeira face. Dirijamo-nos, então, com a pergunta a respeito do pecado
ao nosso beato Fundador.
As definições de que se utiliza o Padre Papczynski para descrever a realidade
do pecado distinguem-se diametralmente das imagens comuns que o nomeiam. Se
analisarmos sob esse ponto de vista a mais ampla obra do Beato, Inspectio cordis,
constataremos que o pecado é geralmente visto como sujeira e doença. A gama
dos matizes é aqui muito ampla. Estende-se desde a pequena e insignificante mancha ou defeito (cf. IC 16rv, 17rv, 19r, 24v, 43r, 73r, 96r, 173v), através das fétidas,
repugnantes e monstruosas sujeiras (cf. IC 4r, 22r, 51r), até a comparação da alma
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conspurcada pelo pecado com uma estrebaria repleta de fétidos excrementos (cf.
IC 147r). A variedade das unidades doentias que representam a realidade do pecado é semelhante. A impureza do pecado infecta as almas, exala mau cheiro e provoca o bafio (cf. IC 4r, 6rv, 12v, 43r, 171v), é semelhante à lepra ou até pior que
ela (cf. IC 17rv, 77v), é comparada à hidropisia, que, ao atingir o coração sufoca
a pessoa (cf. IC 81v). A doença do pecado encaminha à morte. Dessa comparação
o Padre Papczynski utiliza-se com muita freqüência, simplesmente identificando
o pecado grave com a morte espiritual (cf. IC 6v, 38v, 61r, 62rv, 80r-81r, 91r). Outras definições de que se utiliza o nosso Fundador são, por exemplo: erva daninha
(cf. IC 22rv, 23r, 26v), sono (cf. IC 37r), escuridão e noite (cf. IC 51r), 98rv),
destruição e ruína (cf. IC 72r), desolação e seca (cf. IC 91r). O pecado deve ser
sinceramente odiado, abominado (cf. IC125r) e dele é preciso fugir: “Em nenhum
lugar e nunca é preciso apressar-se tanto como na fuga do pecado e na busca da
emenda” (IC 23v). A pressa excepcional é aqui compreensível, visto que permanecer nessa doença ou morte é em sua essência uma profunda privação do homem
daquilo que é mais essencial, uma extrema dessacralização, despersonalização
e alienação. Sabe disso o Padre Estanislau e por isso aconselha aos religiosos que
a exemplo do jovem ressuscitado de Naim (cf. Lc 7, 11-17) reflitam sobre o milagre da graça divina que devolve ao pecador tesouros inestimáveis: “Tu também,
começa a conversar, mas com Deus e contigo mesmo. Senta-te, tu, que estavas
morto, e voltando-te para Ele dize: Onde estive? Com que morte fui castigado?
Até que ponto o pecado me fez afastar-me da vida, de Deus, de mim mesmo?! Eis
que pela graça divina estou de volta do próprio inferno!” (IC 81r).
A breve análise dos efeitos do pecado feita no contexto da ressurreição de
Naim diz mais da sua essência dos que as diversas definições e imagens anteriormente mencionadas, espalhadas nos escritos do Padre Papczynski. O afastamento
da vida, daquilo que realmente somos, como que a perda do próprio “nome” conferido pelo Criador e inscrito com o Seu dedo no fundo do nosso coração, e finalmente o rompimento dos laços com o próprio Deus – eis a essência do mistério
do pecado. O nosso Fundador fala simplesmente de um “violento” rompimento
da amizade, da familiaridade e intimidade com Deus (IC 80r, 102r, 144v), e até
da Sua “expulsão” da alma (IC 51rv). Essa perspectiva e essa maneira de falar do
pecado têm um significado capital, visto que o localizam no âmbito do relacionamento pessoal entre o homem e Deus. Não se trata aqui de uma transgressão da
lei ou de alguma norma moral externa ou interna, não se fala da negligência ou
do descumprimento da regra ou da constituição religiosa, o jogo não se desenrola
primordialmente em torno da maturidade psíquica ou do crescimento espiritual.
Aqui se trata do drama do amor desprezado, da rejeição da vivificante “communio”, do ferimento de uma Pessoa que nos ama! Pensam e falam assim do pecado
apenas os santos, aqueles que conhecem o “gosto” do vínculo com Deus e sabem
como é precioso o tesouro que o pecado arrebata ao homem.
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Infelizmente, o drama da nossa revolta não termina nisso, como observa
o Beato Estanislau. O afastamento de Deus da alma é terrível e perigoso, “[...]
visto que existem premissas de que aquele que então entra na alma é o espírito
infernal” (IC 51v). Fala disso mais detalhadamente em Orator crucifixus: “Por
duas razões Deus costuma afastar-se do homem. Em primeiro lugar, quando quer
verificar de que ele é capaz com as suas próprias forças, ou ao menos do que [quer
ser capaz] o homem que conta com as próprias possibilidades, embora saiba que
nada pode sem a ajuda do céu. Em segundo lugar, quando o homem, cometendo
o pecado mortal, afasta a Deus de si e se transfere voluntariamente à lei do espírito
infernal. Disso se queixava outrora o Bondosíssimo Senhor, falando pelo profeta
Jeremias: Porque meu povo cometeu dois crimes: Eles me abandonaram, a fonte
de água viva, para cavar para si cisternas, cisternas furadas, que não podem
conter a água (Jr 2, 13). Somos todos povo de Deus enquanto somos obedientes
aos Seus mandamentos, enquanto nos submetemos à Sua vontade. Mas, todas as
vezes que através de algum imundo pecado desfiguramos a nossa alma, afastando-nos do Criador para as criaturas, tornamo-nos logo em relação a Ele rebeldes
e entregamo-nos ao poder do terrível soberano do inferno. Os teólogos dizem
que bebemos da fonte de todos os bens enquanto permanecemos na graça; tendo
perdido a graça pelo pecado, haurimos a água inteiramente mortal do Aqueronte
e do Estige (rios do Hades, de choro, gemidos e veneno). Em que águas imundas
mergulhamos a boca quando não nos opomos aos estímulos dos demônios!” (OC
IV). Assim, pois, o pecado não é apenas a falta do vínculo com Deus, mas também uma forma de mortífera “comunhão” com o diabo, mentiroso e assassino,
que uma coisa apenas faz com toda a sinceridade: odeia a ti e a Deus.
Isso, no entanto, desta vez graças a Deus, também não encerra o drama da
nossa revolta, porquanto a história do pecado chega ao seu fim e, se assim nos
podemos expressar, ao seu complemento em Jesus Cristo. Em Sua cruz a nossa
sujeira, doença e morte atingem a sua “maturidade”. O Padre Estanislau tem
a profunda consciência de que, como diz um antigo hino cristão, a cruz é uma
árvore que atinge com as suas raízes as profundezas da alma humana. “Eis que
o Justíssimo Senhor, Salvador do mundo, não traz em Sua consciência nenhum
crime, nenhuma transgressão. Por que então foi preso como um malfeitor? Por
que foi acusado, condenado e conduzido à morte como se fosse um ladrão? Por
que – pior que algum bandido ou o maior patife dentre os homens – foi crucificado e eliminado através de uma morte tão cruel e infame? A causa disso foram
os teus pecados. Foi ferido pela transgressão do seu povo [cf. Is 53, 8]” (IC
37r). Na própria Inspectio cordis encontramos um grande número de citações
semelhantes, e nos textos passionais clama isso quase toda página, com uma linguagem colorida e sugestiva, como se pode ver através deste exemplo extraído
de Christus patiens: “Embora vejamos que o Filho de Deus que se encaminha
ao lugar da morte esteja feliz sob o enorme peso da cruz, não podemos deixar de
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participar sem lágrimas desse cruel espetáculo, porquanto somos justamente nós
aqueles que fabricamos essa cruz dura e cruel e sem compaixão a impusemos nos
Seus santíssimos ombros. Através da boca de Davi, de cada um de nós queixa-se
o bondosíssimo Cordeiro: Os lavradores lavraram minhas costas e alongaram
seus sulcos (Sl 128, 3). Sejam quais forem as transgressões que no mundo inteiro
tenham sido cometidas ou ainda serão cometidas, desde a expulsão do primeiro
homem do paraíso até o dia de hoje, até este momento em que estou falando, tudo
isso descansa nos santíssimos ombros daquele santíssimo e valorosíssimo Atlas
e está depositado na cruz que Ele arrasta. Localizados estão nela todos os sacos
de todas as nossas transgressões. Nós também somos os executores desse cruel
patíbulo, nós também somos os carrascos desse bondosíssimo Soberano” (CP V).
Mas na Cruz de Cristo manifestou-se ao mundo não apenas a verdade a respeito
do pecado. A cruz é o lugar onde se realizou a luta encerrada com a Ressurreição!
É a cruz do inaudito amor e da vitória! Escreve a esse respeito o Padre Papczynski na meditação VI em Christus patiens, obra que na sua totalidade pode ser
vista como uma reflexão sobre o Cristo glorioso. Nesse lenho digno da maior
veneração encerra-se a história do pecado, iluminada pelo esplendor da aurora
pascal: “Ó feliz culpa, que foi eliminada por tão grande Redentor!” (Mensagem
de Páscoa). Todo pecado do homem é predestinado para que seja cantado sobre
ele o Exultet! Essa alegria da Páscoa pode ser nitidamente ouvida nas palavras
do beato Estanislau quando fala do perdão dos pecados de Madalena: “Ó dia de
todos o mais feliz e repleto das maiores alegrias! Porque, se olhares para o céu,
ali reina uma grande alegria, como testemunha o próprio Rei celestial: Maior é a
alegria no céu por um só pecador que se converta, do que por noventa e nove
justos que não precisam de conversão [cf. Lc 15, 7]. Terás até dificuldade para
compreender a alegria que experimentaram os habitantes do céu em razão da conversão da pecadora Madalena. E, se olhares para a terra, esta também se alegra
com uma alegria semelhante vendo que já lhe foi enviado o verdadeiro Messias,
que não veio salvar os justos, mas os pecadores. [...] Quem dos pecadores aqui
mostrará desespero se levar em conta que, aos que verdadeiramente fazem penitência, Jesus não apenas perdoa com muita facilidade as culpas, mas também
assume a defesa dos pecadores? Verdadeiramente, é com razão que o profeta
muitas vezes estimula: Celebrai a Iahweh, porque ele é bom, porque o seu amor
é para sempre! [Sl 105, 1]. Em Orator crucifixus o nosso Fundador sintetiza
brevemente esse fato do perdão: “[...] é difícil definir qual obra da onipotência
e da bondade do Senhor foi mais maravilhosa: a criação do mundo e de todas
as coisas ou a conversão de Madalena?” (OC IV). E isso ressoa como se – para
a resposta - ele nos encaminhasse à oração que a Igreja eleva na noite da Páscoa,
após a primeira leitura do livro do Gênesis: “Deus todo-poderoso e eterno, que
sois digno de admiração em Vossas obras, fazei com que todos os que por Vós
foram remidos compreendam que maravilhosa foi a obra da criação do mundo,
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e mais maravilhosa ainda é a obra da salvação, que se realizou pelo sacrifício
pascal de Cristo, Senhor nosso”.
Voltemos, finalmente, ao jovem de Naim que desperta do sono mortal e que
nos seus desvarios vê a Jesus, que lhe devolveu a vida e o entrega à mãe. Essa
é uma imagem de que o Padre Estanislau de bom grado se utiliza para descrever
a realidade do pecado e a graça do perdão das culpas. O Beato, que – como confirmou a Igreja – de forma milagrosa devolveu a vida a um filho no seio da mãe, quer
nos dizer que o pecado é a morte, é a expulsão de Deus e a troca da comunhão com
o Doador da vida pelo vínculo com o assassino. E a conversão é a volta a Deus,
a nós mesmos, à vida, à luz e ao amor.
TEXTOS PARA MEDITAÇÃO
Texto bíblico básico: 1Jo 3, 4-9
4 Todo aquele que comete o pecado, pratica a iniqüidade, e o pecado é a iniqüidade. 5 Vós sabeis que ele se manifestou para tirar os pecados e que nele
não há pecado. 6 Todo aquele que permanece nele não continua pecando, e todo
aquele que continua pecando mostra que não o viu, nem o conheceu. 7 Filhinhos,
que ninguém vos desencaminhe. O que pratica a justiça é justo, assim como ele
é justo. 8 Aquele que pratica o pecado é do diabo, porque o diabo é pecador desde o princípio. Para isto é que o Filho de Deus se manifestou: para destruir as
obras do diabo. 9 Todo aquele que nasceu de Deus não comete pecado, porque a
semente de Deus fica nele; é impossível que ele peque, pois nasceu de Deus.
Referências bíblicas para o aprofundamento da leitura do texto
versículo 4: Mt 7, 21-23; Rm 4, 15; 1Jo 5, 17.
versículo 5: Is 53, 1-12; 2Cor 5, 17-21; 1Pd 1, 19-20; Hb 9, 24-28; Jo 1, 29; Jo 8,
42-47; Hb 7, 26-27;
versículos 6-7: Rm 6, 8-14; 1Jo 1, 3; 1Jo 2, 1.14.26.29; Mt 7, 15-20;
versículo 8: Gn 3, 1ss; Jo 8, 44; Jo 16,11; Jo 12, 31-32; Hb 2, 14-15; 1Jo 3, 12;
versículo 9: 1Pd 1, 23; 1Jo 5, 1.18; 1Jo 2, 14; Jo 1, 12-13.
Outros textos bíblicos relacionados com o tema
Is 1, 10-18
10 Ouvi a palavra do Senhor, magistrados de Sodoma! Prestai atenção à Lei
do nosso Deus, povo de Gomorra! 11 “De que me serve a multidão dos vossos
sacrifícios? – diz o Senhor. Estou farto de holocaustos de bodes, de gordura de
touros. Detesto sangue de novilhos, de cordeiros, de cabritos. 12 Quando entrais
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para ver a minha face, quem vos pediu para fazer isto, passear nos meus átrios?
13 Parai de trazer oferendas sem sentido! Incenso é coisa aborrecida para mim!
Lua-nova, sábado, celebração solene..., não suporto maldade com festa religiosa.
14 Odeio vossas luas novas e dias santos. Tudo isso é um peso que não agüento
carregar. 15 Quando estendeis as mãos para mim, desvio o meu olhar. Ainda que
multipliqueis as orações, de forma alguma atenderei. É que vossas mãos estão
sujas de sangue. 16 Lavai-vos, limpai-vos, tirai da minha vista as injustiças que
praticais. Parai de fazer o mal, 17 aprendei a fazer o bem, buscai o que é correto,
defendei o direito do oprimido, fazei justiça para o órfão, defendei a causa da
viúva. 18 Depois, vinde, podemos discutir, – diz o Senhor. Se vossos pecados forem vermelhos como escarlate, ficarão brancos como a neve, se vermelhos como
a púrpura, ficarão iguais à lã.
Jr 2, 4-13
4 Escutai a palavra do SENHOR, casa de Jacó, todas as tribos da casa de Israel.
5 Assim diz o SENHOR: “Que injustiça encontraram em mim vossos pais, para de
mim se afastarem e irem atrás da tolice, tornando-se tolos também eles? 6 Não se
perguntaram: “Onde está o SENHOR, que nos fez sair da terra do Egito, que nos fez
atravessar o deserto, lugar ermo e sem caminhos, terreno estéril e tenebroso, região que ninguém atravessa, onde não mora ninguém?” 7 Depois eu vos introduzi
numa terra cultivada, para comerdes seus produtos e suas delícias. Mal chegastes, porém, e já profanastes a minha terra, fizestes da minha herança uma coisa
abominável. 8 Os sacerdotes nunca perguntaram: “Onde está o SENHOR?” Os
estudiosos da Lei jamais me reconheceram, os dirigentes voltaram-me as costas,
os profetas profetizaram por Baal, indo atrás do que proveito não traz. 9 É por
isso que ainda tenho uma demanda convosco – oráculo do SENHOR – :vou demandar contra os filhos dos vossos filhos. 10 Atravessai às ilhas de Cetim para ver,
a Cedar mandai mensageiros prestar muita atenção, a ver se já aconteceu coisa
igual, 11 se as nações mudaram de deuses – e esses nem deuses são! O meu povo,
porém, trocou o que é sua glória por coisa que não traz proveito. 12 Ó céu, fica
pasmado, tomado de grande susto – oráculo do SENHOR. 13 Duplo crime cometeu
o meu povo: abandonou-me a mim, fonte de água viva, e para si preferiu cavar
cisternas, cisternas defeituosas que não retêm a água.
Rm 6, 3-11
3 Acaso ignorais que todos nós, batizados no Cristo Jesus, é na sua morte
que fomos batizados? 4 Pelo batismo fomos sepultados com ele em sua morte,
para que, como Cristo foi ressuscitado dos mortos pela ação gloriosa do Pai,
assim também nós vivamos uma vida nova. 5 Pois, se fomos, de certo modo,
identificados a ele por uma morte semelhante à sua, seremos semelhantes a ele
também pela ressurreição. 6 Sabemos que o nosso homem velho foi crucificado
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com Cristo, para que seja destruído o corpo sujeito ao pecado, de maneira a não
mais servirmos ao pecado. 7 Pois aquele que morreu está livre do pecado. 8 E, se
já morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele. 9 Sabemos que
Cristo, ressuscitado dos mortos, não morre mais. A morte não tem mais poder
sobre ele. 10 Pois aquele que morreu, morreu para o pecado, uma vez por todas,
e aquele que vive, vive para Deus. 11 Assim, vós também, considerai-vos mortos
para o pecado e vivos para Deus, no Cristo Jesus.
1Jo 1, 5-10; 2, 1-2
5 A mensagem que dele ouvimos e vos anunciamos é esta: Deus é luz e nele
não há trevas. 6 Se dissermos que estamos em comunhão com ele, mas caminhamos nas trevas, estamos mentindo e não praticamos a verdade. 7 Mas, se
caminhamos na luz, como ele está na luz, então estamos em comunhão uns com
os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado. 8 Se dissermos que não temos pecado, estamos enganando a nós mesmos, e a verdade não
está em nós. 9 Se reconhecemos nossos pecados, então Deus se mostra fiel e justo,
para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. 10 Se dissermos
que nunca pecamos, fazemos dele um mentiroso e sua palavra não está em nós.
1 Meus filhinhos, escrevo isto para que não pequeis. No entanto, se alguém
pecar, temos junto do Pai um Defensor: Jesus Cristo, o Justo. 2 Ele é a oferenda
de expiação pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas também pelos pecados do mundo inteiro.
Ef 5, 1-14
1 Sede, pois imitadores de Deus como filhos queridos. 2 Vivei no amor, como
Cristo também nos amou e se entregou a Deus por nós como oferenda e sacrifício
de suave odor. 3 A imoralidade sexual e qualquer espécie de impureza ou cobiça
nem sequer sejam mencionadas entre vós, como convém a santos. 4 Nada de palavrões ou conversas tolas, nem de piadas de mau gosto: são coisas inconvenientes;
entregai-vos, antes, à ação de graças. 5 Pois, ficai bem certos: nenhum libertino
ou impuro ou ganancioso – que é um idólatra – tem herança no reino de Cristo e
de Deus. 6 Que ninguém vos iluda com palavras fúteis: é isso que atrai a ira de
Deus sobre os rebeldes. 7 Não sejais cúmplices destes. 8 Outrora éreis trevas, mas
agora sois luz no Senhor. 9 Procedei como filhos da luz. E o fruto da luz é toda
espécie de bondade e de justiça e de verdade. 10 Discerni o que agrada ao Senhor
11 e não tomeis parte nas obras estéreis das trevas, mas, pelo contrário, denunciai-as. 12 O que essa gente faz em segredo, é vergonhoso até dizê-lo. 13 Mas
tudo que é denunciado é manifestado pela luz; 14e tudo o que é manifestado
torna-se \claro como a luz. Eis por que se diz: “Desperta, tu que estás dormindo,
levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará”.
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OS ATUAIS ESTATUTOS RELIGIOSOS MARIANOS
A necessidade uma luta sem tréguas contra o pecado é fortemente enfatizada nos atuais estatutos da nossa Congregação. Devemos evitar todo pecado, por
mínimo que seja, odiá-lo, excluí-lo da nossa vida e abominá-lo. As Constituições
relacionam nitidamente a luta contra o pecado com o mistério da Imaculada Conceição. A nossa principal Padroeira é a fonte de força e de esperança e o estímulo
para essa luta. Para o afastamento da ilusão do pecado e a volta a Deus serve-nos
de ajuda a penitência e o domínio do amor-próprio desordenado. O documento
fala também do papel da confissão e estimula à diligente assistência no confessionário. Veja
Artigos das Constituições: 6, 19, 23, 25, 70, 83, 87, 91
6 No seguimento de Cristo mostra-nos o caminho e nos ajuda a nossa Padroeira peculiar, a Imaculada Virgem Maria. O mistério de sua Imaculada Conceição
é desde o princípio da Congregação um sinal próprio, força e alegria da vocação
mariana; por este mistério, Maria convoca os membros a confiar na infinita fecundidade da obra da redenção, a evitar todo pecado até o mínimo, a amar o mais possível a pureza de coração, a impregnar plenamente a vida da graça e da caridade
divinas, a edificar de tal modo a Igreja na unidade, “que seja santa e imaculada”
(Ef 5,27). [LG 65]
19 A união dos que peregrinam neste mundo com os irmãos que descansaram
na paz de Cristo, de modo nenhum se interrompe; pelo contrário, é fortalecida,
pela comunicação dos bens espirituais, segundo a fé da Igreja primitiva. Assim,
a nossa Congregação, seguindo a fé perene da Igreja na comunhão dos Santos
no Corpo Místico de Cristo, desde o seu berço, com muita piedade cultiva dos
defuntos a memória e lhes oferece sufrágios. Procurem os membros, portanto,
ajudar com orações e sufrágios as almas dos fiéis defuntos, que estão detidas no
Purgatório pelas penas expiatórias, principalmente pelo sacrifício da Santa Missa, pelas indulgências e mortificações, oferecendo também por elas as obras de
zelo e outras suas boas obras, pois “é um santo e salutar pensamento rezar pelos
mortos, para que sejam livres dos seus pecados” (2 Mc 12,46). Igualmente não
descuidem de socorrer aqueles que se encontram em grave perigo de morte. [NV
I, 2; CM 16; Instr. XVI, 8; LG 49,50]
23 Para que, vencedores do pecado, cresçam na santidade, os membros levantem seus olhos a Maria, que brilha para toda a comunidade dos eleitos como
modelo das virtudes; e no ministério apostólico, animados pelo amor da Mãe
Imaculada para com Cristo e para com a Igreja e ajudados pela sua poderosa
intercessão, esforcem-se por conduzir o maior número de homens à união com
Deus. [LG 65]
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25 Fujam inteiramente do pecado, como do maior dos males, evitem-no, abominem-no, detestem-no, e tenham cada dia mais horror a ele. Empreguem todo
o esforço possível em diminuir e destruir o reino do pecado; arrependam-se sincera e continuamente dos pecados cometidos e, tendo consciência deles, tornem-se
mais humildes e desconfiantes de si mesmos, mais vigilantes e cautelosos nos perigos, ocasiões e tentações, mais prontos e fervorosos em se arrepender e satisfazer, em resguardar o tempo e pagar a Deus amor com amor; procurem ter sempre
a consciência pura. [CM 163]
70 Os membros, solícitos pela união com Deus, aproximem-se frequentemente do sacramento da penitência, a fim de que, da divina misericórdia, obtenham
o perdão das injúrias feitas a Deus e ao mesmo tempo se reconciliem com a Igreja,
que tinham ferido com seus pecados, e se confirmem cada vez mais na caridade
e na graça do Pai das misericórdias. [CM 245; LG 11; PO 18; CDC 664]
83 Os membros abracem, com toda coragem, a penitência, que é a aversão às
seduções do pecado e a conversão para Deus, para que neles não prevaleça o homem velho sobre o homem novo, “criado segundo Deus, na justiça e santidade da
verdade” (Ef 4,24). Estejam persuadidos de que ao Reino de Cristo se pode chegar
apenas mediante a “metanóia”, isto é, pela íntima mudança do homem todo, pela
qual ele começa a pensar, a julgar, a ordenar a sua vida, impelido pela santidade
e caridade de Deus que, no seu Filho, nos foram ultimamente reveladas e plenamente outorgadas. [Hbr 1,2; Paen. I]
87 Cada um procure principalmente moderar o desordenado amor próprio,
que é causa de todo pecado, vencendo a si mesmo com coragem e constância.
Tendo abandonado todas as coisas, cada um renegue e abandone também a simesmo, o seu desordenado sentir e querer, a fim de que, morto para si e para o mundo, viva totalmente para Cristo. Ponha-O acima de tudo e não hesite em se dedicar
completamente a Cristo e à sua Igreja. [CM 167]
91 Todos estimem e favoreçam grandemente, como mãe nutrícia de todos os
bens espirituais, a instituição da vida comum, que seja inflamada do espírito da
família de Deus e da caridade fraterna, da santa e verdadeira amizade e de afeto
cordial, de mútua solicitude e solidariedade. Sejam um só corpo e um só espírito
como foram chamados a uma só esperança da vocação. [Ef 4,4; CM 278]
PROPOSTAS DE PERGUNTAS PARA REFLEXÃO OU PARTILHA
1.
Será que na tua vida religiosa vivencias o pecado como “feliz culpa”, o lugar
onde deve manifestar-se a vitória de Cristo? Como recordas os momentos em
que Deus fez que sobre o teu pecado cantasses o Exulet?
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2. Em que momentos da tua vida e do teu ministério pastoral o pecado manifestou-se de forma nítida como a maior desgraça do homem, como uma doença
que conduz à morte?
3. Que sentimentos te dominam na tua vivência do pecado: a inquietação, a vergonha e o temor relacionado com a consciência de teres transgredido os mandamentos e as normas morais, ou antes o aspecto pessoal decorrente do arrependimento provocado pelo rompimento da comunhão com Deus, abnegação
de ti mesmo e estabelecimento de relações com o diabo?
4. Será que existem em tua vida pecados “domesticados”, aos quais te acostumaste e que tratas como ninharias insignificantes e com os quais aprendeste
a viver?
5. Em que medida podes reconhecer como teu o lema dos santos: “antes morrer
que pecar”?
6. Que verdade a respeito do pecado transmites em tuas conversas com os irmãos e conhecidos? Que verdade a respeito do pecado trazem em si as tuas
piadas e os teus pronunciamentos avulsos e informais?
7. Que imagem do pecado decorre da tua experiência do confessionário, tanto
como quem confessa quanto como confessor? O que podes fazer para que a
confissão se transforme em mais um lugar de proclamação e aceitação da boa
nova sobre o pecado e o perdão?
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CONFERÊNCIA VIII
DISCERNIMENTO E DIREÇÃO ESPIRITUAL
A vida do homem é uma luta. No entanto nesse campo de batalha, que é o seu
coração, não luta apenas ele mesmo. Deseja fixar ali a Sua residência o grande
Deus, cuja glória é o homem vivo. Obstinadamente procura perturbá-Lo nisso o
diabo, que desde o inicio é mentiroso e assassino. Aquele envia-nos as Suas inspirações e os Seus consolos, com a Sua graça fortalecendo e defendendo a alma
humana. Este, o inimigo, tenta e seduz, assumindo muitas vezes a figura do anjo
da luz. O religioso deve ser submisso às inspirações do Espírito Divino e resistir
às tentações do diabo. O primeiro passo nesse caminho é a distinção entre um
e outro. Um grande apoio nesse sentido, desde os primórdios da vida religiosa,
tem sido o conhecimento das regras do “discernimento dos espíritos” e a ajuda
de um experiente diretor espiritual. Para aqueles que desejam buscar a Deus, esse
discernimento do caminho é uma necessidade absoluta. Todo aquele que pretende
realizar uma longa e perigosa viagem busca um bom guia e aprende a escolher
o caminho, a fim de não se perder. A mesma coisa acontece com a peregrinação
da fé. Se aos pensamentos que brotam em teu coração não fizeres a pergunta “de
onde vocês provêm?”, se na direção espiritual não desejas a ajuda dos mais experientes, provavelmente a tua vida não se encaminha a parte alguma e apenas te iludes pensando que buscas a Deus. Permites passivamente que os acontecimentos te
conduzam a um porto que não foi assinalado por ti nem por Deus ou permaneces
sentado numa pedra, à beira do caminho, enquanto a vida passa a teu lado.
O Padre Papczynski atribuía grande importância a ambas essas “ajudas” na
caminhada do religioso. Breves observações relacionadas com a avaliação dos
pensamentos e das inspirações e com a necessidade de tomar cuidado com eles
estão espalhadas por diversas passagens dos seus escritos. Por diversas vezes ele
aborda mais amplamente essa questão, e vale a pena examinar esses pronunciamentos mais de perto. Todos eles provêm de Inspectio cordis e estão localizados
no contexto das leituras litúrgicas.
A admoestação de Jesus contra os falsos profetas, que se apresentam em pele
de ovelha, mas por dentro são lobos ferozes (cf. Mt 7, 15-20), constitui para o
Beato Fundador uma ocasião de estímulo para que examinemos os nossos pensamentos e as inspirações que vêm ao nosso coração, bem como para que os
avaliemos pelos seus frutos, e para que não nos deixemos iludir pelas impressões
iniciais, muitas vezes enganosas. “Deves aqui refletir a respeito da retidão dos
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teus pensamentos e examinar a sua qualidade, pois quantas vezes, embora eles
sejam muito repugnantes, insinuam-se no interior da tua alma como muito belos?
São eles que, muitas vezes, admitidos sob o pretexto de piedade, provocam um
efeito infame. Apresentam-se, na verdade, sob o véu do zelo, mas muitas vezes
escondem a cólera. Apresentam-se sob o manto do bom amor, mas trazem o mau
amor. Apresentam-se sob a aparência da justiça, mas na realidade trazem consigo
o desejo de vingança. Apresentam-se sob o disfarce da discrição, mas na realidade são pensamentos indolentes. Finalmente, apresentam-se como trazendo a
santidade, mas após o seu afastamento deixam a desilusão. Por isso, toma cuidado
para não permitires que entrem em ti lobos com pele de ovelha [...]. Dessa forma
também costuma [o espírito mau] enganar agora: a muitos convence da doença
para que não se dediquem às mortificações; ou ainda, a pretexto do cuidado da
boa fama, não permite suportar o menosprezo dos outros; outras vezes assegura
a alguém que já está predestinado ao céu, para que por ele não mais se empenhe.
Mas, oh!, isto é um lobo, não uma ovelha! Por isso pede ao Senhor junto à santa
mesa para que te conceda a luz para distinguir as ovelhas dos lobos, as coisas
boas das más. Eis que já te foi fornecida pelo Senhor a forma de reconhecer os
falsos profetas, isto é, a direção da atividade dos sentidos, dos pensamentos e das
inspirações, quando ensina que pelos efeitos, pelas conseqüências e pelo frutos é
que eles devem ser avaliados. Porquanto, como Ele mesmo diz: Uma árvore boa
não pode dar frutos ruins, nem uma árvore má dar bons frutos (Mt 7, 18). Assim
também o resultado das boas inspirações e dos bons pensamentos será o melhor
possível, e o dos maus – o pior possível. Não julgues, portanto, que foi Deus que
te concedeu uma contemplação ou uma iluminação que te priva da contrição,
da submissão e do desprezo de ti mesmo. Não consideres que são bons aqueles
enlevos, aqueles êxtases ou aquelas visões que não te fazem bom ou melhor. Não
acredites que é verdadeira a santidade que não encerra em si o amor e à qual falta
a humildade” (IC 70r).
Na meditação sobre a parábola do Bom Pastor (Jo 10, 1-19) encontramos a
contraposição de Jesus, o verdadeiro “Pastor Celestial’, e do espírito mau, “mercenário predisposto à fuga”. As suas formas de agir são diametralmente distintas.
O diabo se aproxima e sussurra à alma coisas aparentemente justas, sugere variadas doçuras e delícias, que são unicamente iscas por trás das quais vem a amargura, os remorsos de consciência, a mais profunda tristeza e a morte. Ele busca
unicamente o seu proveito, não o bem da alma. “Suga o leite, isto é, priva a alma
da vontade de praticar as virtudes; tosquia a lã, isto é, afasta-a do cumprimento
das boas ações, e depois, como um leão a rugir, devora-a inteira” (IC 48v). Deus,
ao contrário, permite as tribulações, apresenta a cruz, introduz no difícil caminho
da penitência, e faz isso a fim de fortalecer a alma e conduzi-la à salvação. Para o
nosso Fundador, a escolha é clara: “Agarra-te, então, ao verdadeiro Pastor Celestial e foge do infernal mercenário: rejeita as suas delícias, doçuras e negaças para
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o mal e apega-te à severa doutrina da cruz e da mortificação das tuas paixões”
(IC 48v-49r).
Por ocasião das reflexões relacionadas com o Pentecostes, o Padre Estanislau
fornece as características que assinalam no homem a vinda e a permanência do
Espírito Divino. Encontra uma grande ajuda para o discernimento dos estímulos
do coração na descrição dos Atos dos Apóstolos: “Podes considerar como milagrosas a vinda do Espírito Santo e as circunstâncias que a precederam :
1) visto que ela foi precedida pela tristeza, segundo as palavras do Senhor: A
tristeza encheu os vossos corações (Jo 16, 6);
2) quando o Espírito Santo vinha, foi possível ouvir um grande ruído;
3) Ele não vinha de nenhum lugar senão do céu.
Essas coisas constituem o critério para o reconhecimento dos espíritos divinos.
Se eles vêm precedidos pela opressão, esse é um sinal apropriado da graça divina
que deve ser concedida à alma humana [...]. O Espírito vem ao homem com barulho e ruído quando a alma fica abalada, atemorizada e contrita. Finalmente, vem
também do céu, enviado por Cristo Senhor, daquela imortal fortaleza do triunfante Soberano Celestial. Visto que os sopros que se originam do pântano infernal
dos maus espíritos – repito – vêm à alma em forma de suaves sussurros, fazemlhe suaves agrados, mas após o seu afastamento deixam milhares de remorsos de
consciência, milhares de ferrões, milhares das dores mais cruéis. Ao contrário, é
claro, o Espírito do Senhor, precedido de tormento, vem em meio a um ruidoso
turbilhão; após Ele, no entanto, permanecem vestígios em forma de alegria, milhares de consolos, milhares de frutos e milhares de bens” (IC 56v-57r). O espírito
que guia o homem pode também ser reconhecido através de muitos outros sinais.
O espírito que procede de Deus ama a verdade, faz com que o religioso aprecie as
admoestações, reconheça as suas transgressões e falhas, busque a emenda e deseje
a virtude, seja capaz de dizer a verdade aos outros e os estimule à penitência (IC
55r). O bom Espírito dá a humildade, a obediência e a capacidade de carregar a
cruz (IC 146r). O espírito mau não concede a palavra à verdade, não quer ouvi-la
e não quer anunciá-la aos outros (IC 55r), faz com que a pessoa siga as próprias
paixões, que se oponha aos superiores, que queira guiar-se pela arrogância, que
queira governar os outros e busque a sua glória. O Padre Estanislau termina essas distinções com um estímulo: “Tu, portanto, deves sempre seguir esse espírito
[bom], se queres ser um verdadeiro discípulo de Cristo. De que te servirá se exteriormente fingires ser um religioso, mas interiormente fores pior que o pior dos
mundanos?” (C 146r).
Essa última frase do Beato é essencial para a apropriada compreensão do sentido e da importância dos pronunciamentos relacionados com o discernimento dos
espíritos. É difícil saber se e até que ponto o Padre Papczynski conhecia a doutrina de Evárgio de Ponto e de Cassiano, os primeiros mestres monásticos nessa
área. Mas podemos supor que conhecia as regras fornecidas por Santo Inácio de
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Loyola, uma vez que devia aos jesuítas uma boa parte da sua formação. Parece, no
entanto, que o que escrevia a esse respeito não é uma tentativa de criar uma teoria
desenvolvida e exaustiva sobre o assunto, fruto de aprofundados estudos. Tratase antes de uma partilha da sua experiência, adquirida na trilha da vida religiosa
com aqueles que tentavam seguir o mesmo caminho. Uma partilha decorrente
da convicção de que, sem um exame dos pensamentos e das inspirações que se
apresentam, a vida do religioso está continuamente ameaçada de resvalar para o
abismo das ilusões, do vazio espiritual e da extrema hipocrisia.
O Padre Estanislau muitas vezes defrontou-se com a necessidade de escolha,
e em questões muito importantes, relacionadas com a direção básica da sua vida
e com o destino da congregação que desejava fundar. Ele mesmo nos dá um belo
testemunho da dificuldade de buscar a vontade divina ao recordar os primeiros
tempos da casa de retiros na floresta de Korabie: “[...] eu na verdade inicialmente
estava muito inclinado a lançar mão dessa forma de resolver o assunto, mas numerosos motivos me detinham, entre os quais a coragem de uma pessoa [Krajewski]
que desconhecia a obediência, a sua vontade de atribuir a si esse título de Fundador, o espírito inconstante, as palavras diversas, a natureza violenta, a grosseria,
a astúcia, a teimosia que, diante da impossibilidade de apresentar isso de forma
mais adequada, que assim sejam chamadas. Para tudo que eu fazia, elevava súplicas a Deus, e fiz quanto suportavam os meus pecados, mas na oração recebia
respostas opostas, e fui inteiramente demovido da idéia de entrar em associação
com essa pessoa. Se eu pedia o conselho de varões experientes e sábios? Eu não
podia contar com eles. Um veio da Ordem do Descalço Francisco, e ele absolutamente não me desaconselhava; e um outro, que um dia, quando lhe perguntei em
Cracóvia a respeito da fundação dessa associação, respondeu-me que essa era a
vontade divina, que eu me juntasse a essa obra e, tendo vindo a Studzianna para
a festa da Imaculada Conceição, no próprio ato da confissão aconselhou-me que
eu me dirigisse ao Eremitério e com a ajuda divina desse início a algo, deixando
a Deus a conclusão de toda a obra” (Fundação de Casa de Retiros). Eis um exemplo concreto de discernimento com base no exame da intenção, da oração e da
busca do conselho junto a pessoas experientes. Chama a atenção a necessidade
da direção espiritual, especialmente presente nesse pronunciamento do Fundador.
Raramente ele escreve a esse respeito de forma tão direta. E enfatiza muito a necessidade da obediência e da renúncia à vontade própria. A desobediência é para o
Padre Estanislau “um sinal muito seguro da condenação do homem” (IC 37rv), ao
passo que aquele que segue a vontade alheia “jamais pode ser enganado pelo espírito mau” (TDM VI). A palavra dos diretores espirituais é uma das formas pelas
quais nos fala o Senhor e devemos ouvi-los e ser-lhes submissos como se fosse ao
próprio Deus, se os seus conselhos seguem a linha dos mandamentos divinos (IC
129r, 148v). A grande importância que o nosso Fundador atribuía à direção espiritual transparece igualmente na orientação da Regra de vida, na qual recomenda
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que os marianos sejam argutos confessores e diretores de almas: “Quando ouvem
em confissão, procurem conciliar a bondade com a prudência, sejam cuidadosos
no exame das consciências dos penitentes, especialmente das pessoas simples,
moderados na determinação da penitência, distantes de estabelecer amizades,
espontâneos na solução de dúvidas e de escrúpulos, conhecedores dos pecados
reservados à Santa Sé, aos bispos e superiores. Saibam também que não se deve
conceder a absolvição sempre e a todos” (NV VIII, 4).
Marko Iwan Rupnik, em seu livro sobre o discernimento espiritual, assim
apresenta a tática que o diabo escolhe diante das pessoas que seguem os passos
de Cristo: “O inimigo de alguma forma gostaria de fazer com que o perdão e a
salvação divina (cf 2PD 2, 17-22) se transformem para nós em algo inútil. No
entanto não pode fazer isso propondo alguma forma banal, comum de egoísmo
[...]. Por isso investe contra essa pessoa de uma forma que ela volte à postura do
pecado: à postura de alguém que dirige por conta própria a sua vida, de alguém
que escolhe como seu fundamento de vida o próprio ‘eu’, que se preocupa consigo – mas tudo isso num clima espiritual, no âmbito do caminho percorrido com
Cristo. Aos poucos e devagar, o inimigo vai levar essa pessoa a na realidade já
não estar com Cristo, mas a pensar que com Ele se encontra. Cristo deixará de
ser para ela alguém vivo, deixará de ser seu Senhor e Salvador. Será substituído
por numerosos pensamentos a Seu respeito, por alguma doutrina bem formulada
ou mesmo por um intenso sentimento que parece dirigir-se a Ele. No entanto, na
realidade essa pessoa novamente se verá fechada no círculo do seu próprio ‘eu’, e
o seu Cristo será apenas uma espécie de fantasia”. (Marko Iwan Rupnik, Discernimento espiritual, parte 2, 20-23). Fiz essa citação visto que estou convencido
de que era justamente diante desse perigo que queria advertir-nos o nosso Beato
Pai quando escrevia que sem o discernimento e a escolha do Espírito Divino,
mesmo vestindo o hábito, podemos ser piores que os piores “dos mundanos”.
Quando após a sua libertação no deserto os israelitas fundiram um bezerro com os
seus brincos de ouro e lhe prestavam homenagem, estavam convencidos de que
o faziam diante de um deus que os havia retirado da terra egípcia (cf. Ex 32, 4).
Um destino semelhante podemos ter nós, que seguimos os passos de Cristo, se
não examinarmos as nossas intenções, motivações e inspirações, que nos guiam,
se não as submetermos à avaliação da Palavra Divina e de experientes diretores
espirituais. O inimigo fará com que o homem velho que em nós reside, de diversas
bugigangas, construa para si um deus segundo a sua própria medida. Talvez seja
lindo, polido, e talvez resplandeça com a beleza dos sermões, dos argumentos
morais e dos elevados princípios, mas não será o Deus da vida, o Deus da Páscoa,
o Deus do amor que não hesita diante do sacrifício final. Com quanta freqüência
permitimos ser apanhados nessa armadilha e nos apresentamos na mesa pascal
como um belo ovo de Páscoa, mas na realidade, apesar da beleza dos desenhos e
das cores, somos apenas um ovo podre! O Padre Papczynski nos convoca a um
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outro caminho. Se lhe dermos ouvido, se nos submetermos à direção espiritual e
voltarmos ao caminho do discernimento das inspirações, dos pensamentos e das
motivações que nos guiam, com certeza desaparecerão muitos problemas que nos
afligem na nossa vida religiosa ou com os irmãos..., e aos futuros marianos talvez
proporcionemos alguns “problemas” e “diligências” pela nossa beatificação.
TEXTOS PARA MEDITAÇÃO
Texto bíblico básico: 1Jo 4, 1-3.
1 Caríssimos, não acrediteis em qualquer espírito, mas examinai os espíritos
para ver se são de Deus, pois muitos falsos profetas vieram ao mundo. 2 Este é o
critério para saber se uma inspiração vem de Deus: de Deus é todo espírito que
professa Jesus Cristo que veio na carne. 3 E todo espírito que se recusa a professar Jesus não é de Deus: é do Anticristo. Ouvistes dizer que o Anticristo virá; pois
bem, ele já está no mundo
Referências bíblicas para o aprofundamento da leitura do texto
versículo 1: 1Cor 12, 10. 1Ts 5, 12-22; Dt 13, 1-6; Dt 18, 20-22; 1Jo 2, 18; 1Pd 2,
1-3; 2Jo 7-11; Mt 7, 15-20; Mt 24, 23-28; Lc 12, 54-57;
versículo 2: 1Cor 12, 3; 1Jo 2, 22-23;
versículo 3: 1Jo 2, 22-23; 2Ts 2, 3-12; 2Jo 7.
Outros textos bíblicos relacionados com o tema
Dt 30, 15-20
15 Vê que eu hoje te proponho a vida e a felicidade, a morte e a desgraça.
16 Se obedeceres aos preceitos do Senhor teu Deus, que hoje te prescrevo, amando ao Senhor teu Deus, seguindo seus caminhos e guardando seus mandamentos,
suas leis e seus decretos, viverás e te multiplicarás, e o Senhor teu Deus te abençoará na terra em que vais entrar para possuí-la. 17 Se, porém, o teu coração se
desviar e não quiseres escutar, se te deixares arrastar para adorar e prestar culto
a outros deuses, 18 eu vos declaro hoje que certamente perecereis. Não vivereis
muito tempo sobre a terra onde ides entrar, depois de atravessar o rio Jordão,
para ocupá-la. 19 Cito hoje o céu e a terra como testemunhas contra vós, de que
vos propus a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para
que vivas, tu e teus descendentes, 20 amando ao SENHOR teu Deus, obedecendo à
sua voz e apegando-te a ele – pois ele é tua vida e prolonga os teus dias –, a fim de
que habites na terra que o SENHOR jurou dar a teus pais, Abraão, Isaac e Jacó”.
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Is 55, 6-9
6 Procurai o SENHOR enquanto é possível encontrá-lo chamai por ele, agora
que está perto. 7 Que o malvado abandone o mau caminho, que o perverso mude
seus planos, cada um se volte para o SENHOR, que vai ter compaixão, retorne para
o nosso Deus, imenso no perdoar. 8 Pois os meu pensamento não são os vossos
pensamentos, e vossos caminhos não são os meus – oráculo do SENHOR. 9 Pois
tanto quanto o céu acima da terra, assim estão os meus caminhos acima dos vossos e meus pensamentos distantes dos vossos.
Sl 1
1 Feliz quem não segue o conselho dos maus,
não anda pelo caminho dos pecadores
nem toma parte nas reuniões dos zombadores,
2 mas na lei do SENHOR encontra sua alegria
e nela medita dia e noite.
3 Ele será como uma árvore plantada à beira de um riacho,
que dá fruto no devido tempo;
suas folhas nunca murcham;
e em tudo quanto faz sempre tem êxito.
4 Os maus, porém, não são assim;
são como a palha carregada pelo vento.
5 Por isso não poderão enfrentar o julgamento
e os pecadores não têm vez na reunião dos justos.
6 Pois o SENHOR protege a caminhada dos justos,
mas o caminho dos maus leva à desgraça.
Rm 12, 1-2
1 Eu vos exorto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a vos oferecerdesem sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: este é o vosso verdadeiro culto. 2 Não vos
conformeis com este mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de
pensar e julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, a saber,
o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito.
Gl 5, 16-25
16 Eu vos exorto: deixai-vos sempre guiar pelo Espírito, e nunca satisfaçais
o que deseja uma vida carnal. 17 Pois o que a carne deseja é contra o Espírito,
e o que o Espírito deseja é contra a carne: são o oposto um do outro, e por isso
nem sempre fazeis o que gostaríeis de fazer. 18 Se, porém, sois conduzidos pelo
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Espírito, então não estais sob o jugo da Lei. 19 São bem conhecidas as obras da
carne: imoralidade sexual, impureza, devassidão, 20 idolatria, feitiçaria, inimizades, contenda, ciúmes, iras, intrigas, discórdias, facções, 21 invejas, bebedeiras,
orgias e outras coisas semelhantes. Eu vos previno, como aliás já o fiz: os que praticam essas coisas não herdarão o reino de Deus. 22 O fruto do Espírito, porém,
é: amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, lealdade, 23 mansidão,
domínio próprio. Contra estas coisas não existe lei. 24 Os que pertencem a Jesus
Cristo crucificaram a carne com suas paixões e seus desejos. 25 Se vivemos pelo
Espírito, procedamos também de acordo com o Espírito.
Hb 5, 11-14
11 A este respeito teríamos muito a dizer, coisas bem difíceis de explicar, dada
a vossa lentidão em compreender. 12 A julgar pelo tempo, já devíeis ser mestres!
Contudo, de novo necessitais que alguém vos ensine os primeiros rudimentos
das palavras de Deus. Tendes necessidade de leite em lugar de alimento sólido.
13 Ora, quem se alimenta de leite não é capaz de compreender uma doutrina profunda, porque é ainda criança. 14 O alimento sólido é para os adultos, aqueles
que a experiência já exercitou para distinguir o bem e o mal.
OS ATUAIS ESTATUTOS RELIGIOSOS MARIANOS
Nas nossas Constituições não aparece a definição “discernimento dos espíritos”. No entanto podem ser encontrados fortes estímulos à busca e ao cumprimento da vontade divina, à submissão ao Espírito Santo e à procura da reta
intenção e do amor sobrenatural. Menciona-se também o papel dos confessores
e dos diretores espirituais, bem como do discernimento comunitário na busca da
vontade divina. Veja
Artigos das Constituições: 32, 65, 73, 62, 77, 102.
32 Procurem conformar plenamente a própria vontade com a vontade divina,
submetam-se a ela, façam-na e cumpram-na pela observância fiel e generosa dos
mandamentos de Deus, da Igreja e também dos conselhos evangélicos e das leis
próprias; cooperando fielmente com as graças divinas, seguindo atenta, discreta e
docilmente a moção do Espírito Santo; suportando e vencendo as adversidades e
levando a sua cruz com Cristo, com paciência, fortaleza e alegria. [CM 174]
65 Os membros antes de tudo procurem e amem a Deus, que primeiro nos
amou, e em todas as circunstâncias cultivem a vida escondida com Cristo em
Deus, donde emana e se estimula o amor ao próximo, para a salvação do mundo e
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edificação da Igreja. Ainda que a caridade seja um dom de Deus, contudo é obtida
e conservada pela assídua mortificação e oração. Por isso os membros cultivem
com contínuo empenho o espírito de oração e a oração mesma, haurindo-a das
genuínas fontes da espiritualidade cristã. [Jo 4,10; Col 3,3; NV II, 1; PC 6]
73 Em tudo os membros devem-se dirigir por uma intenção reta e pura, que
devem procurar renovar frequentemente: isto é, procurar a Deus em tudo, fazer
tudo por amor a Deus, agradar a Deus em tudo, referir tudo a Ele e à sua maior
glória com Cristo, em Cristo e por Cristo. [CM 240, 241]
62 Os superiores, que hão de prestar conta das almas que lhes foram confiadas, procurem primeiro, eles mesmos conhecer bem e amar a vontade de Deus,
que em espírito de serviço fraterno devem transmitir aos outros, diga ela respeito
tanto à Congregação inteira, como a cada um dos membros a quem presidem.
[Hbr 13,17; DE I 1911; PC 14]
77 Os membros não menosprezem o piedoso exercício de renovar frequentemente os votos feitos. Solenemente e em comunidade renovem os seus votos na
festa da Imaculada Conceição da Bem-aventurada Virgem Maria; cada um, em
particular, ao menos todas as vezes que fazem o retiro mensal. [CM 251]
102 Os membros, assumindo conscienciosamente a responsabilidade pelo
bem da casa, empreguem uma cuidadosa diligência em observar a ordem diurna
estabelecida, em cumprir os seus deveres, em prestar as prescritas contas e fazer
relatórios. Os superiores, por sua vez ajudem-nos no fiel cumprimento dos deveres, promovendo e favorecendo a unânime colaboração e procurem que os assuntos de maior importância sejam discutidos em comum; contudo cabe ao superior
com seu conselho discernir o que se deve fazer. [CM 321; CDC 26; PC 14]
PROPOSTAS DE PERGUNTAS PARA REFLEXÃO OU PARTILHA
1. Será que podes dizer a teu respeito que te encaminhas a algum objetivo, que
realmente buscas a Deus? Onde em tua vida manifestam-se concretamente a
labuta e o esforço relacionados com essas atitudes?
2. Como geralmente procura enganar-te o diabo? Entre os pensamentos, sentimentos e imagens dos últimos dias, serias capaz de apontar aqueles que
provinham do demônio e os que provinham do Espírito Santo? Será que empreendes o esforço de estabelecer a distinção entre eles e de que critérios te
utilizas?
3. Que experiência tens da vinda de Deus na palavra do semelhante que te abre
os olhos, retira das trevas, dá esperança e faz voltar do caminho errado?
4. Como descreverias a história da “direção espiritual” em tua vida? Que frutos
ela tem trazido? Como ela se apresenta hoje? Será que possuis um diretor
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permanente tu mesmo e será que concordas em cumprir essa tarefa diante dos
outros? Quais são as causas disso e as motivações com que te guias?
5. Será que o relacionamento superior-subordinado é para ti um lugar de discernimento e de busca da vontade divina? Que dificuldades sentes a esse respeito
e de que elas resultam? Será que avalias esse relacionamento como repleto de
abertura e oração?
6. Será que te envolves no esforço comunitário de buscar o caminho divino e
de que forma o fazes? Será que nos encontros domésticos realmente partilhas
com os irmãos e os ouves? Com que motivações te guias geralmente quando
tomas a palavra?
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CONFERÊNCIA IX
A ORAÇÃO
Podemos encontrar na Igreja comunidades religiosas que cuidam dos pobres,
podemos encontrar aquelas que se debruçam sobre os doentes e aquelAs que se
concentram na busca da sabedoria e no estudo dos livros. Existem aquelas que
andam pelo mundo inteiro anunciando o Evangelho, e aquelas que o fazem jamais abandonando os muros dos seus conventos. Houve aquelas que construíam pontes, lutavam com a espada, resgatavam escravos. Talvez haja aquelas que
será possível encontrar apenas na internet ou em Marte e aquelas que hoje não é
possível inventar... No entanto não houve, não há e não haverá uma comunidade
religiosa que não reze. A busca da proximidade de Deus na oração incessante e
a mais perfeita possível é uma das primeiras sementes das quais brotou a vida
religiosa. É também o caminho da Igreja para o terceiro milênio, como lembra o
Santo Padre João Paulo II: “A oração e a contemplação constituem o lugar onde
se aceita e ouve a Palavra Divina. Sem a vida interior de amor, que atrai a si a
Palavra, o Pai e o Filho (cf. Jo 14, 23), não existe o olhar da fé; em conseqüência
disso a própria vida aos poucos perde o sentido, a face dos irmãos torna-se inexpressiva e impossível torna-se descobrir neles a face de Cristo; os acontecimentos
da história tornam-se ambíguos, quando não privados inteiramente de esperança,
a missão apostólica e caritativa transforma-se numa atividade caótica. Toda vocação à vida consagrada nasce da contemplação, de momentos de intensa comunhão
e profunda amizade com Cristo. Por isso a vossa primeira tarefa” – lembra João
Paulo II às pessoas consagradas – “deve ser a contemplação. A vida consagrada
nasce e continuamente se renova através da incessante contemplação da face de
Cristo. A Igreja também extrai o seu entusiasmo do confronto diário com a infinita
beleza da face de Cristo.” (Reiniciar com Cristo, 25).
O espaço que o Padre Papczynski atribui à oração na vida do religioso corresponde em igual medida aos anseios dos monges egípcios do deserto como
à doutrina da Igreja do terceiro milênio. Dos apóstolos herdamos os conselhos
evangélicos, e juntamente com eles as promessas relacionadas com a oração e a
obrigação de lhe sermos fiéis (cf. IC 54r, 34v). A oração é o fundamento em que
se baseia a vida de todos os religiosos e a existência de comunidades religiosas
inteiras. A sua falta é uma profunda deformidade, uma desgraça que anuncia a
perdição. “Considera que existem duas grandes deformidades repletas da maior
desgraça, a saber, quando alguém é surdo e mudo ao mesmo tempo. Simbolica118
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mente, através dessas deformidades da boca e do ouvido definem-se as pessoas
desobedientes e ímpias. É a respeito delas que o rei salmista diz: Têm boca, mas
não falam; têm olhos, mas não vêem (Sl 113, 5). Oh, que grande deformidade na
pessoa religiosa é essa surdez, isto é, a desobediência! Que grande desgraça é esse
prejudicial fechamento da boca, isto é, a total falta da prática da oração. Porquanto, visto que toda comunidade religiosa floresce e perdura por longos anos apoiando-se nesses dois elementos, isto é, na virtude da obediência e no amor à oração,
quem com horror não exclamará que perecerá aquele religioso que é desobediente
e que não se dedica à oração?” (IC 75rv). Quando desaparece a capacidade de
ouvir e de rezar, a pessoa fecha-se no mundo vazio do próprio “eu”. O templo místico de Deus, que devia ser, respira o vazio, visto que no seu altar não se queima
o incenso da incessante oração (cf. TDM VII). No entanto o coração humano não
permanece por muito tempo desabitado. Privado do aroma que afastava o demônio, sem espada, escudo, remédio e defesa, cede ao inimigo e encaminha-se em
direção ao inferno: “Por isso agarra-te firmemente a essa santa e proveitosa prática da oração. Fica sabendo também que, se em alguma ocasião a negligenciares,
darás um passo em direção à condenação infernal, porquanto aquele que se afasta
da oração aproxima-se do inferno: tantos passos dá em direção ao inferno quantas
vezes negligencia a oração. E ao contrário: com quanto mais zelo e freqüência
nos devotamos à oração, com tanto mais freqüência convivemos com Deus. Nada
mais dissemina os defeitos e provoca as imperfeições do que a negligência da oração, e isso a tal ponto que, se examinasses a ti mesmo, perceberias que cometeste
muitas transgressões sempre pela razão de que por preguiça negligenciaste algo
das orações costumeiras” (IC 54r, cf. também IC 19v-20r, 31r, 53v-54r; OC IV).
Parafraseando o conhecido pronunciamento de S. Irineu de Lyon, pode-se dizer
que, segundo o nosso Fundador, todo cristão, e principalmente religioso, compõese de corpo, alma e oração. Sem esse último componente, foge à essência da sua
vocação, torna-se um foco de defeitos e brinquedo do demônio.
A localização da oração no lugar que S. Irineu propõe ao Espírito Santo é de
alguma forma justificada igualmente pelo fato de ser ela estreitamente ligada com
a Sua presença. Aquele que não permanece em oração e ação de graças, segundo
o Beato Estanislau, não possui o Espírito Divino, visto que isso é basicamente
uma obra muito mais Sua do que do homem: “Porquanto, se fores humilde, como
dizia certo santo, o Espírito Santo te ensinará a oração. Ele mesmo te fornecerá o
incenso, Ele mesmo o acenderá, Ele mesmo atiçará as chamas e Ele mesmo assumirá o mais doce aroma” (TDM VII; cf. também IC 34v). Nesse tipo de contexto
pneumatológico é compreensível o extraordinário valor, o poder e a eficácia da
oração, bem como o seu relacionamento com a presença de Cristo Ressuscitado e
a postura de ação de graças de que se torna repleto o coração do homem.
A contemplação é o maior e o mais valioso dom do religioso. Com grande fervor, que pode ser atribuído unicamente à experiência pessoal, fala a esse
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respeito o Padre Papczynski em Inspectio cordis, ao fazer uma reflexão sobre o
evangelho que fala do cego (Lc 18, 35-43): “Se aquele homem cego pediu que
lhe fosse devolvida a visão, para que pudesse ver o mundo e as coisas criadas,
com quanta ânsia tu deves pedir a luz da alma, com quanta insistência na oração
e – se assim me posso expressar – com santa impertinência exigir que possas
olhar para o próprio Criador e O contemplar? Verdadeiramente, estão privadas
de um bem muito grande aquelas pessoas que não conhecem o caminho da santa
contemplação, porque graças a ela chega-se ao conhecimento de si mesmo e ao
conhecimento de Deus, bem como a uma estreitíssima união com o Criador de
todas as coisas, com o Bem Supremo. Verdadeiramente não existe um bem e um
dom divino melhor entre aqueles que são concedidos aos homens do que o dom
e o bem da contemplação. Porquanto da contemplação de Deus provém toda a
santidade dos santos. É por isso que aqueles que com a mente muito aplicada
e muito cuidadosa contemplam a Deus, a si mesmos e as obras divinas, de alguma forma experimentam aquela felicidade, têm o seu antegozo e tornam-se
seus participantes. A santa contemplação é o olhar da alma: busca-a de todo o
coração, exige-a com todas as forças, pede-a em incessantes orações. E quando
a alcançares, cuida para não a perderes. Toma cuidado para que na sobrecarga
das excessivas tarefas não a percas. Lembra-te, portanto, de a preservares com
a diligência com que as pessoas costumam cuidar dos seus olhos corporais” (IC
29r). A felicidade, a abertura do olhar à verdade a respeito de si mesmo e do
mundo, o conhecimento de Deus e a união com Ele, são os mais profundos, os
mais “primordiais” anseios do coração humano, e ao mesmo tempo o objetivo
básico dos conselhos evangélicos. No entanto os frutos da contemplação podem
ser mais abundantes ainda. Se a oração é fervorosa, humilde, perseverante, se
não foge da dificuldade e da luta, se é elevada com o coração puro, então ela
se torna uma defesa e um consolo em todas as dificuldades, ajuda a superar as
tentações, confere a saúde à alma, purifica-a e devolve a união com Deus, bem
como possibilita a realização de grandes coisas (cf. IC 17v, 19r-20v, 29r, 53v54r, 75rv, 131v-132r; TDM VII; OC IV). Na opinião do Beato, ninguém faz mais
pela Igreja do que aqueles que rezam: “Almas dessa espécie, que se dedicam à
fervorosa oração, num só momento podem ajudar mais à Igreja do que todos os
pregadores com os seus sermões, os doutores com as suas aulas, os confessores
com o ministério do sacramento da penitência. Eles podem despertar os mortos
para a vida, chamar os maus de volta para o caminho do bem, podem aniquilar
exércitos inteiros, afastar a fome, remover a peste, fazer tudo com as duas mãos,
apoiadas durante a oração pela fé e pelo amor” (TDM VII).
A necessidade e a eficácia da oração decorrem igualmente do apelo e da promessa de Cristo. Se nos ajoelhamos e apelamos ao céu em Seu nome, o nosso
pedido tem um poder que “força a Deus”. Na opinião do Beato Estanislau, da
mesma forma que Jesus, durante a Sua vida aqui na terra, defendeu e envolveu de
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afetuosa proteção os Seus discípulos, também após o Seu afastamento ao Pai deixou-lhes a oração, para que não ficassem sem defesa e proteção (cf. IC 52-v-53r).
A oração é para o nosso Fundador um lugar de encontro com Senhor Ressuscitado. Quem abandona os exercícios espirituais comuns é semelhante ao apóstolo S.
Tomé, que sofre de descrença, visto que esteve ausente na ocasião em que Jesus,
após a ressurreição, apresentou-se aos discípulos. Em todos os momentos de aflição devemos apressar-nos para ir à Galiléia, ou seja, ao lugar da oração, visto que
o Ressuscitado nos precedeu no caminho e já ali se encontra à nossa espera (cf.
IC 42v, 145rv).
Vale a pena ainda perceber alguns traços essenciais da imagem da oração que
se esboça dos escritos do Padre Estanislau. Ele introduz uma clara hierarquia entre as súplicas e os pedidos elevados a Deus. Existem coisas que não podem ser
pedidas, visto que se opõem à justiça, ao amor e à caridade. Delas fazem parte:
exigir que alguém leve prejuízo em sua vida, sua saúde ou seus bens, ou pedir que
Deus castigue os nossos inimigos. Por alguns bens, como por exemplo a saúde e o
sucesso, podemos suplicar apenas condicionalmente, se essa for a vontade divina.
Ao passo que por bens espirituais como: a graça, a conversão, a correção dos costumes, o perdão dos pecados, a graça da perseverança, a gloria imortal, é preciso
insistir sem descanso, com insistência, simplesmente exigi-los à força, porque são
os violentos que arrebatam o reino do céu (cf. IC 53rv, 17v).
No entanto não é a oração de súplica a forma predileta do Beato de apresentarse diante de Deus. Ele traz em seu coração profundamente gravado o preceito de
S. Paulo: Sempre e em tudo dai graças a Deus, o Pai, em nome de nosso Senhor
Jesus Cristo (cf. Ef 5, 20). À oração em espírito de ação de graças, assim estimula
os religiosos: “De acordo com a natureza das necessidades dos pedintes, a oração assume diversas formas. Uns, rezando, expressam a contrição pelos pecados;
outros, pedindo, exigem o seu perdão; alguns solicitam com os mais ardentes anseios os dons do Espírito Santo e as santas virtudes; mas existem também aqueles
que com a maior ânsia e constante impertinência exigem de Deus a ciência, a riqueza, os haveres e outros bens naturais ou que a sorte lhes sorria. Mas tu, dedica
à ação de graças o tempo presente que pela Providência da Eterna Sabedoria te
foi destinado à oração, seja pelos outros inúmeros benefícios, como a criação, a
preservação na vida, a justificação, a redenção, a iluminação e a dupla vocação,
ou ainda pela instituição do abundantíssimo dom deste santo alimento, porquanto
vês com quanta magnanimidade tratou hoje a tua alma junto à Sua Mesa. Não
tenhas dúvida de que, se com profunda gratidão aceitares a presente graça e por
ela expressares digna ação de graças, o Senhor te concederá ainda muitas outras
graças. Com efeito, toda ação de graças oferecida ao bondosíssimo e supremo
Deus prepara o homem para receber dons maiores ainda e para alcançar carismas.
Quem expressa ação de graças ao Deus supremo, torna-O devedor do mais seguro
pagamento” (IC 53v; cf. também IC 34v). Essa dimensão “eucarística” e de ação
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de graças da oração merece uma especial atenção, visto que é um dos traços mais
essenciais de um profundo e amadurecido cristianismo.
Nos escritos do Padre Fundador podem também ser encontrados estímulos à
oração intercessora. Ela deve envolver as intenções “[...] da Vossa santa Igreja,
do Santo Padre, do imperador cristão, do nosso rei e do nosso Reino e de todos os
reis e reinos cristãos; as intenções dos assuntos meus e dos meus pais, parentes,
afins, benfeitores, amigos, inimigos [...] e daqueles pelos quais em qualquer ocasião decidi, prometi ou devo rezar, e a Vossa Majestade quer que eu reze, estejam
eles vivos ou mortos, mas que ainda não gozam da Vossa glória. Pela conversão
dos pecadores e hereges e pela iluminação dos infiéis e cismáticos” (TDM IV). É
excepcionalmente próxima ao Beato Estanislau a intercessão pelas almas que se
encontram nas chamas do purgatório; essa oração faz parte do gênero máximo de
amor (cf. TDM XXI).
Por muito tempo poderíamos refletir a respeito dos pronunciamentos do Padre
Papczynski relacionados com a contemplação e as diversas formas de apresentarse na presença de Deus, mas talvez valha a pena neste ponto indagar a respeito
do que a sua oração nos diz a respeito dele mesmo? Todos a quem foi dado ver
o Santo Padre João Paulo II mergulhado em oração ficavam profundamente impressionados, tendo a consciência de estarem descobrindo não apenas a fonte da
sua força, mas igualmente uma verdade muito importante a respeito dele mesmo...
A oração é o espelho da alma. Que face do nosso Fundador podemos ver nesse
espelho? Com certeza ele era um homem da mais profunda oração. Conceitos
como fervor, contemplação ou êxtase são no seu caso extremamente fundamentados. Não temos muitos testemunhos ou descrições detalhadas da sua vida. Ele
rezava já na infância, depois fazia-o em situações difíceis, e antes de tomar decisões importantes buscava a luz e a força junto a Deus. Tinha momentos de visões
e enlevos. Se examinarmos os seus escritos, podemos encontrar as orações que
escolhia, recomendava ou ele mesmo elevava a Deus. Algumas vezes uma conferência por ele pronunciada transforma-se, por instantes, de palavra anunciada aos
religiosos em palavra elevada ao céu (cf. p. ex. IC 20rv, 113v, 115v, 116rv, 118v119r, 125v, 161r, 174r-176r; TDM IV, XVI, XXII). Trata-se sempre de orações de
um pecador que confia em Deus, de uma pessoa humilde, que deseja submeter-se
à Sua vontade. Esboça-se a partir delas um coração amoroso e súplice, para poder
amar mais, até o fim.
S. Teófano Recluso, em sua conferência a respeito da oração lembra “[...] o
sábio costume dos antigos Padres, de acordo com o qual, ao se cumprimentarem
num encontro, não perguntavam a respeito da saúde ou de qualquer outra coisa,
mas a respeito da oração, dizendo: E a oração – como vai indo? O ato da oração
era para eles a medida da vida espiritual – e chamavam-na de respiração do espírito. Se o corpo respira – é porque vive; se a respiração cessa – a vida termina.
A mesma coisa acontece com o espírito. Se existe a oração – o espírito vive;
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se falta a oração – falta a vida no espírito (citação de acordo com S. Teófano
Recluso, Palavras sobre a oração, Tyniec, 2003, 10). Penso que o nosso Beato
Fundador de todo o coração aprovaria tal forma de cumprimento. Se visitasse
hoje as nossas comunidades, a pergunta a respeito da oração estaria entre as
primeiras saudações do dia... Qual seria a tua resposta?
TEXTOS PARA MEDITAÇÃO
Texto bíblico básico: Mc 14, 32-42
32 Chegaram a uma propriedade chamada Getsêmani. Jesus disse aos discípulos: “Sentai-vos aqui, enquanto eu vou orar”. 33 Levou consigo Pedro, Tiago
e João, e começou a sentir pavor e angústia. 34 Jesus, então, lhes disse: “Sinto
uma tristeza mortal! Ficai aqui e vigiai”! 35 Jesus foi um pouco mais adiante,
caiu por terra e orava para que aquela hora, se fosse possível, passasse dele.
36 Ele dizia: “Abbá! Pai! tudo é possível para ti. Afasta de mim este cálice! Mas
seja feito não o que eu quero, porém o que tu queres”. 37 Quando voltou, encontrou os discípulos dormindo. Então disse a Pedro: “Simão, estás dormindo?
Não foste capaz de ficar vigiando uma só hora? 38 Vigiai e orai, para não cairdes
em tentação! O espírito está pronto, mas a carne é fraca”. 39 Jesus afastou-se
outra vez e orou, repetindo as mesmas palavras. 40 Voltou novamente e encontrou-os dormindo, pois seus olhos estavam pesados de sono. E eles não sabiam
o que responder. 41 Ao voltar pela terceira vez, ele lhes disse: “Ainda dormis e
descansais? Basta! Chegou a hora! Vede, o Filho do Homem está sendo entregue
às mãos dos pecadores. 42 Levantai-vos! Vamos! Aquele que vai me entregar está
chegando”.
Referências bíblicas para o aprofundamento da leitura do texto
versículos 32-33: Jo 18, 1; Mt 17, 1-8; Mc 5, 37; 9, 2; 13, 3; Lc 9, 28ss; At 1, 1214;
versículos 34-35: Sl 42; Sl 43; Jn 4, 7-11;
versículo 36: Mc 10, 35-40; Mt 11, 25-27; Jo 5, 19-20; Rm 8, 14-17; Gl 4, 6-7;
versículos 37-38: Rm 7, 18-24; Gl 5, 16-18;
versículo 41: Mc 14, 35; Jo 13, 1.
Outros textos bíblicos relacionados com o tema
Gn 18, 22-33
22 Partindo dali, os homens se dirigiram a Sodoma, enquanto Abraão ficou
ali na presença do SENHOR. 23 Então, aproximando-se, Abraão disse: “Vais real123
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mente exterminar o justo com o ímpio? 24 Se houvesse cinqüenta justos na cidade,
acaso os exterminarias? Não perdoarias o lugar por causa dos cinqüenta justos
que ali vivem? 25 Longe de ti proceder assim, fazendo morrer o justo com o ímpio,
como se o justo fosse igual ao ímpio! Longe de ti! O juiz de toda a terra não faria
justiça?” 26 O SENHOR respondeu: “Se eu encontrar em Sodoma cinqüenta justos,
perdoarei por causa deles a cidade inteira”. 27 Abraão prosseguiu e disse: “Sou
bem atrevido em falar a meu Senhor, eu que sou pó e cinza. 28 Se dos cinqüenta
justos faltarem cinco, destruirás por causa dos cinco a cidade inteira?” O SENHOR
respondeu-lhe: “Não a destruirei se achar ali quarenta e cinco justos”. 29 Insistiu ainda Abraão e disse: “E se forem só quarenta?” Ele respondeu: “Por causa
dos quarenta, não a destruirei”. 30 Abraão tornou a insistir: “Não se irrite o meu
Senhor, se ainda falo. E se não houver mais do que trinta justos?” Ele respondeu:
“Também não o farei se encontrar somente trinta”. 31 Tornou Abraão a insistir:
“Já que me atrevi a falar a meu Senhor: e se houver apenas vinte justos?” Ele
respondeu: “Não a destruirei, por causa dos vinte”. 32 E Abraão disse: “Que
meu Senhor não se irrite, se falar só mais uma vez: e se houver apenas dez?”
E ele respondeu: “Por causa dos dez, não a destruirei”. 33 Tendo acabado de
falar a Abraão, o SENHOR partiu, e Abraão voltou para sua tenda.
1Rs 19, 1-14
1 Acab contou a Jezabel tudo que Elias tinha feito e como tinha passado ao
fio da espada todos os profetas \de Baal. 2 Então Jezabel mandou um mensageiro
a Elias para lhe dizer: “Os deuses me cumulem de castigos, se amanhã, a esta
hora, eu não tiver feito contigo o mesmo que fizeste com a vida desses profetas”.
3 Elias ficou com medo e, para salvar sua vida, partiu. Chegou a Bersabéia de
Judá e ali deixou o seu servo. 4 Depois, adentrou o deserto e caminhou o dia
todo. Sentou-se, finalmente, debaixo de um junípero e pediu para si a morte, dizendo: “Agora basta, Senhor! Tira a minha vida, pois não sou melhor que meus
pais”. 5 E, deitando-se no chão, adormeceu à sombra do junípero. De repente,
um anjo tocou-o e disse: “Levanta-te e come!” 6 Ele abriu os olhos e viu junto à
sua cabeça um pão assado na pedra e um jarro de água. Comeu, bebeu e tornou
a dormir. 7 Mas o anjo do SENHOR veio pela segunda vez, tocou-o e disse: “Levanta-te e come! Ainda tens um caminho longo a percorrer”. 8 Elias levantou-se,
comeu e bebeu, e, com a força desse alimento, andou quarenta dias e quarenta
noites, até chegar ao Horeb, o monte de Deus.9 Chegando ali, entrou numa gruta,
onde passou a noite. Então a palavra do SENHOR veio a ele, dizendo: “Que fazes
aqui, Elias?” 10 Ele respondeu: “Estou ardendo de zelo pelo SENHOR, Deus dos
exércitos, porque os israelitas abandonaram tua aliança, demoliram teus altares,
mataram à espada teus profetas. Só eu escapei; mas agora querem matar-me
também”. 11 O SENHOR disse-lhe: “Sai e permanece sobre o monte diante do SENHOR”. Então o SENHOR passou. Antes do SENHOR, porém, veio um vento impetuoso
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e forte, que desfazia as montanhas e quebrava os rochedos, mas o SENHOR não
estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o SENHOR não estava
no terremoto. 12 Passado o terremoto, veio um fogo, mas o SENHOR não estava no
fogo. E depois do fogo ouviu-se o murmúrio de uma leve brisa. 13 Ouvindo isto,
Elias cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta. Ouviu, então,
uma voz que dizia: “Que fazes aqui, Elias?” 14 Ele respondeu: “Estou ardendo
de zelo pelo SENHOR, Deus dos exércitos, porque os israelitas abandonaram tua
aliança, demoliram teus altares e mataram à espada teus profetas. Só eu escapei.
Mas, agora, querem matar-me também”.
Mt 6, 7-15
7 Quando orardes, não useis de muitas palavras, como fazem os pagãos. Eles
pensam que serão ouvidos por força das muitas palavras. 8 Não sejais como eles,
pois o vosso Pai sabe do que precisais, antes de vós o pedirdes. 9 Vós, portanto,
orai assim: Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome; 10 venha o
teu Reino; seja feita a tua vontade, como no céu, assim também na terra. 11 O pão
nosso de cada dia dá-nos hoje. 12 Perdoa as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos que nos devem. 13 E não nos introduzas em tentação, mas livra-nos
do Maligno. 14De fato, se vós perdoardes aos outros as suas faltas, vosso Pai que
está nos céus também vos perdoará. 15Mas, se vós não perdoardes aos outros,
vosso Pai também não perdoará as vossas faltas.
Lc 10, 38-42
38 Jesus entrou num povoado, e uma mulher, de nome Marta, o recebeu em
sua casa. 39 Ela tinha uma irmã, Maria, a qual se sentou aos pés do Senhor e
escutava a sua palavra. 40 Marta, porém, estava ocupada com os muitos afazeres da casa. Ela aproximou-se e disse: “Senhor, não te importas que minha irmã
me deixe sozinha com todo o serviço? Manda pois que ela venha me ajudar!”
41 O Senhor, porém, lhe respondeu: “Marta, Marta! Tu te preocupas e andas
agitada com muitas coisas. 42 No entanto, uma só é necessária. Maria escolheu
a melhor parte e esta não lhe será tirada”.
Jo 15, 1-11
1“Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o agricultor. 2 Todo ramo que
não dá fruto em mim, ele corta; e todo ramo que dá fruto, ele limpa, para que
dê mais fruto ainda. 3 Vós já estais limpos por causa da palavra que vos falei.
4 Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar
fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto se não permanecerdes em mim. 5 Eu sou a videira e vós, os ramos.
Aquele que permanece em mim, \como eu nele, esse dá muito fruto; pois sem mim,
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nada podeis fazer. 6 Quem não permanecer em mim será lançado fora, como um
ramo, e secará. Tais ramos são apanhados, lançados ao fogo e queimados. 7 Se
permanecerdes em mim, e minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que
quiserdes, e vos será dado. 8 Nisto meu Pai é glorificado: que deis muito fruto e
vos torneis meus discípulos. 9 Como meu Pai me ama, assim também eu vos amo.
Permanecei no meu amor. 10 Se observardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu observei o que mandou meu Pai e permaneço
no seu amor. 11 Eu vos disse isso, para que a minha alegria esteja em vós, e a
vossa alegria seja completa.
Tg 1, 5-8
5 Se a alguém de vós falta sabedoria, pe-ça-a a Deus, que a concede generosamente a todos, sem impor condições; e ela lhe será dada. 6 Mas peça com fé,
sem duvidar, porque aquele que duvida é semelhante a uma onda do mar, impelida e agitada pelo vento. 7 Não pense tal pessoa que receberá alguma coisa do
Senhor, 8 ambígua como é e inconstante em todos os seus caminhos.
OS ATUAIS ESTATUTOS RELIGIOSOS MARIANOS
A aprofundada vida de oração, que tem por objetivo a mais estreita união
com Deus, é localizada pelas nossas Constituições e pelo nosso Diretório bem
no centro da vocação mariana. Devemos buscar isso com todas as nossas forças.
É justamente o espírito de oração, cultivado com base nas autênticas fontes da
espiritualidade cristã, que nos abre à aceitação do dom do amor divino e permite
preservar esse dom. O capítulo sexto das Constituições é dedicado no seu todo à
vida de oração e à piedade. Essa dimensão da vida mariana deve ser, de acordo
com as orientações dos nossos estatutos religiosos, especialmente defendida e
envolvida de proteção. Os superiores devem preocupar-se em fazer com que cada
um disponha do tempo adequado para a oração. As tarefas assumidas não podem
prejudicá-la. A observância da ordem, do silêncio, do recolhimento e da clausura
tem por objetivo criar condições para o seu desenvolvimento. Um dos objetivos
fundamentais da formação no noviciado e no seminário é o desenvolvimento da
vida de oração. As Constituições e o Diretório fornecem igualmente uma série
de intenções concretas nas orações confiadas à especial solicitude dos coirmãos.
O mais freqüente é o apelo à oração pelos falecidos, pela Igreja, pela sua unidade
e sua hierarquia, pela congregação e pelos superiores, pelos coirmãos subordinados, pela conversão dos pecadores, pelos pais e benfeitores, pelos doentes e pelos
que se encontram em situações difíceis e problemáticas, pelas vocações. Veja
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Importância e significado da oração: 36, 65,73-75, 66, 92, 166, 192;
36 Cada um, em tudo e por tudo, se esforce por tender a uma estreita união
com Deus; com Ele intimamente unido, tanto na oração, como em todas as suas
ações e no trabalho, procure ser magnânimo e até sumamente generoso e liberal.
[CM 176]
65 Os membros antes de tudo procurem e amem a Deus, que primeiro nos
amou, e em todas as circunstâncias cultivem a vida escondida com Cristo em
Deus, donde emana e se estimula o amor ao próximo, para a salvação do mundo e
edificação da Igreja. Ainda que a caridade seja um dom de Deus, contudo é obtida
e conservada pela assídua mortificação e oração. Por isso os membros cultivem
com contínuo empenho o espírito de oração e a oração mesma, haurindo-a das
genuínas fontes da espiritualidade cristã. [Jo 4,10; Col 3,3; NV II, 1; PC 6]
73 Em tudo os membros devem-se dirigir por uma intenção reta e pura, que
devem procurar renovar frequentemente: isto é, procurar a Deus em tudo, fazer
tudo por amor a Deus, agradar a Deus em tudo, referir tudo a Ele e à sua maior
glória com Cristo, em Cristo e por Cristo. [CM 240, 241]
74 Todos valorizem muito as ações litúrgicas e os exercícios de piedade, que
são os principais alimentos da vida espiritual e instrumentos de perfeição; tenham
sempre presente a sua importância e a sua finalidade e esforcem-se por aprender
o método, a maneira e as praxes, tanto na teoria, como na prática, para que eles
próprios possam usá-los com fruto e ensinar os outros desejosos de perfeição; no
seu uso, porém, conservem a santa liberdade dos filhos de Deus e procurem, ao
máximo, a familiaridade com Deus. [CM 256]
75 Façam todos os dias, com diligência, os seguintes atos litúrgicos e exercícios de piedade:
1) Os sacerdotes ofereçam o Sacrifício eucarístico, e os outros, se for possível,
participem no Sacrifício e recebam o Santíssimo Corpo de Cristo;
2) Visitem e adorem o mesmo Senhor, presente no Santíssimo Sacramento;
3) Os sacerdotes e diáconos recitem dignamente a liturgia das horas, e os
outros alguma parte, segundo as determinações dos Estatutos provinciais; este
dever da oração pode ser cumprido também por outro modo, determinado pelos
mesmos Estatutos; de manhã e à tarde recitem em comum, o quanto puderem, as
convenientes partes da Liturgia das Horas ou outras orações;
4) Apliquem-se à meditação durante meia hora;
5) Façam o exame de consciência duas vezes por dia;
6) Por tempo conveniente dediquem-se à leitura espiritual;
7) Recitem o terço do Rosário, meditando devotadamente os mistérios convenientes;
8) Rezem antes e depois das refeições. [CM 22; SC 96, 99; CDC 276/2;
266/2-4]
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66 Desejosos de viver segundo a forma do Evangelho em primeiro lugar,
todos os dias, tenham nas mãos a Sagrada Escritura, de cuja leitura e meditação
aprendam a “excelência do conhecimento de Jesus Cristo” (Fl 3,8). Lembrem-se
os membros que a oração deve acompanhar a leitura da Sagrada Escritura, para
que se estabeleça um colóquio entre Deus e o homem; pois falamos a Ele quando
rezamos, e a Ele escutamos quando lemos os divinos oráculos. [DV 25; PC 6]
92 Observem todos, exatamente, a vida comum nas casas da Congregação,
quanto à oração em comum, apostolado, mesa e habitação e toda a regra da vida.
Por conseguinte ninguém deve ser livrado facilmente de qualquer exercício comum e, muito menos, seja deixado só, por longo tempo fora da comunidade. [CM
279; PC 15]
166 Sejam inculcados nos noviços, principalmente:
a) a reta e pura intenção de procurarem em tudo a Deus e aquilo que Lhe
agrada;
b) o amor a Jesus Cristo e a toda Igreja que deve ser alimentado continuamente tanto pela leitura e meditação da Sagrada Escritura, bem como pela participação ativa da Eucaristia e dos outros mistérios da Igreja;
c) a vida de oração e de íntima união com Deus, principalmente pelos exercícios de piedade recomendados pela tradição cristã e imbuídos do espírito da
sagrada liturgia;
d) a devoção verdadeiramente cristã e filial à Imaculada Virgem Maria, formada no culto e ensinamento da Igreja;
e) o cuidado em sufragar os fiéis defuntos;
f) a fortaleza para extirpar radicalmente as sementes dos vícios, para controlar
os movimentos do espírito, para formar o caráter e para adquirir as virtudes.
192 O programa da formação espiritual seja organizado e executado de tal
maneira que os alunos, no tempoda formação, aprendam a seguir Jesus Cristo
mais de perto, progridam no espírito de oração e no ardor apostólico, e também
adquiram uma constância de ânimo, certa aptidão de viver e trabalhar com os
outros e uma liberdade baseada no domínio de si mesmos. É necessário que eles,
num esforço contínuo, transformem sua formação em educação de si mesmos.
[OT 4,8-11]
Solicitude pela oração: 35, 78, 101-105;
35 Preparem-se com solicitude e diligência para executar qualquer cargo e
ministério; tendo Deus diante dos olhos, entreguem-se, de coração, a qualquer
trabalho, com fervor e constância, diligente e conscienciosamente, mas sem o
prejuízo da oração e da saúde do corpo. Se alguém se sentir demasiadamente
sobrecarregado de trabalho, ou pelo excesso de ocupações, não podendo cumprir
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devidamente seus deveres de piedade, confesse isso cândida e sinceramente aos
superiores. [CM 355]
78 Cuidem os superiores para que a cada um seja concedido conveniente
tempo livre, para fazer os exercícios de piedade, para que ninguém seja privado
da leitura espiritual e da oração, principalmente mental. Com muito esmero promovam entre os membros a piedade e a fidelidade na vida espiritual e sacramental, principalmente a plena e, quanto for possível, comunitária participação da
Eucaristia. Acautelem-se de introduzir na comunidade exercícios de piedade ou
devoções particulares que em nada favorecem o verdadeiro progresso na vida de
oração dos membros. [CM 254]
101 Todos e cada um, principalmente os superiores, dentro de seus ofícios,
apliquem-se para o bem e progresso de sua casa pela devida instituição da vida
comum; pois pela reta organização, pela ordem e observância da disciplina, pelo
espírito religioso, pela devoção e fervor, cada membro terá um eficaz auxílio na
vida espiritual, especialmente para adquirir o domínio de si e conseguir uma sólida maturidade. E assim as próprias obras de apostolado que eles assumem, estarão
sustentadas por um sólido e seguro alicerce. [CM 322; 737; OT 11]
102 Os membros, assumindo conscienciosamente a responsabilidade pelo
bem da casa, empreguem uma cuidadosa diligência em observar a ordem diurna
estabelecida, em cumprir os seus deveres, em prestar as prescritas contas e fazer
relatórios. Os superiores, por sua vez ajudem-nos no fiel cumprimento dos deveres, promovendo e favorecendo a unânime colaboração e procurem que os assuntos de maior importância sejam discutidos em comum; contudo cabe ao superior
com seu conselho discernir o que se deve fazer. [CM 321; CDC 26; PC 14]
103 Levando uma vida recolhida, reconheçamos Deus presente em toda a
parte, adoremo-No e bendigamo-No, procurando andar sempre modesta, fiel e
piedosamente na sua presença, como convém a filhos portar-se na presença do
Pai. Procuremos contemplar Deus em todas as criaturas, já que “n’Ele, com efeito,
que temos a vida, o movimento e o ser.” (At 17,28) [NV V,1]
Silêncio
104 Sabendo que a moderação no falar é a guarda do recolhimento e favorece
muito o espírito de oração, os membros não falem senão quando o exijam: a utilidade, a cortesia ou a caridade. Tenham todos o cuidado em não perturbar algum
dos confrades na oração, no trabalho ou no descanso. Evitem todo o barulho em
casa e cuidem que reine uma religiosa tranqüilidade. [CM 310, 312]
Clausura
105 Para poder mais facilmente levar a vida de recolhimento espiritual, em
todas as casas reserve-se uma parte do edifício para os membros. [CM 296; CDC
667/1]
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Intenções: Constituições: 19, 80-82, 154.
19 A união dos que peregrinam neste mundo com os irmãos que descansaram
na paz de Cristo, de modo nenhum se interrompe; pelo contrário, é fortalecida,
pela comunicação dos bens espirituais, segundo a fé da Igreja primitiva. Assim,
a nossa Congregação, seguindo a fé perene da Igreja na comunhão dos Santos
no Corpo Místico de Cristo, desde o seu berço, com muita piedade cultiva dos
defuntos a memória e lhes oferece sufrágios. Procurem os membros, portanto,
ajudar com orações e sufrágios as almas dos fiéis defuntos, que estão detidas no
Purgatório pelas penas expiatórias, principalmente pelo sacrifício da Santa Missa,
pelas indulgências e mortificações, oferecendo também por elas as obras de zelo e
outras suas boas obras, pois “é um santo e salutar pensamento rezar pelos mortos,
para que sejam livres dos seus pecados” (2Mc 12,46). Igualmente não descuidem
de socorrer aqueles que se encontram em grave perigo de morte. [NV I, 2; CM 16;
Instr. XVI, 8; LG 49,50]
80 Os membros orem frequentemente pela Santa Mãe Igreja e pelo Sumo
Pontífice, pela conversão dos pecadores, pela propagação e unidade da Igreja,
pelo bispo diocesano e por todo o clero, pelos próprios superiores, confrades,
alunos, por toda a Congregação e seus benfeitorese, frequentemente, ofereçam a
Deus, na mesma intenção, as suas preces costumeiras, suas mortificações e outras
boas obras. [CM 410]
81 Todos em suas preces recomendem à misericórdia de Deus tanto os membros defuntos, bem como todos os fiéis defuntos. Além disso, procurem os membros ganhar as indulgências concedidas pela Igreja e apliquem-nas, quanto possível, às almas do Purgatório. [CM 416, 418]
82 É obrigação do superior rezar freqüentemente pelos confrades a si confiados e de quando em vez aplicar a santa Missa por eles.
154 Os membros exprimam o seu cuidado no recrutamento das vocações,
sobretudo pela oração cotidiana e fervorosa ao “Senhor da colheita para que envie
operários para a sua colheita” (Mt 9,37). Lembrem-se também que o exemplo da
própria vida, levada com espírito humilde e alegre, e também a mútua caridade
fraterna são a melhor recomendação da Congregação e o melhor convite para
abraçar a vida religiosa. Procurem também atrair os ânimos dos jovens para o
serviço de Deus, pelo seu trabalho apostólico realizado com zelo e ardor.
Intenções: Diretório: 37-43, 54.
37. Façam todos os meses, em comum ou separadamente, um dia de recolhimento, e todos os anos exercícios espirituais que devem durar cerca de uma
semana, segundo os Estatutos provinciais. (C.76)
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Substituir os atos impedidos
38. Se a algum membro, alguma vez, acontecer omitir algum ato de liturgia ou
de piedade, por causa de trabalho consagrado a Deus, procure substitui-lo mesmo
durante o trabalho, ao menos por uma mais freqüente recordação da presença
de Deus e por orações e jaculatórias; ofereça a Deus com mais ardor as próprias
obras que faz. (C.76)
Oração Individual
39. Procure, além disso: rezar individualmente com freqüência, com fervor e
com confiança, sobretudo antes de começar uma coisa ou obra de grande importância; alimentar dentro de si o espírito de oração contínua, pelas várias maneiras que a discreta piedade sugerir; andar continuamente na presença de Deus e
fomentar zelosamente a vida interior; fazer também o exame de previsão; entrar
freqüentemente em si e refletir sobre si e seus atos- elevar com freqüência sua
mente a Deus com jaculatórias, praticar atos de virtude e abrasar-se em santos
desejos de ser melhor. (C.76)
Por toda a Congregação
40. Cada sacerdote todos os anos celebre uma Missa por toda a Congregação,
para que esta aumente em mérito e em número. Os superiores, porém, celebrem a
Missa com a comunidade nessa intenção no dia da festa da Imaculada Conceição
da Bem-aventurada Virgem Maria. Uma vez no mês, se for possível no dia do
recolhimento mensal, cada um dos membros ofereça na mesma intenção todas as
suas preces e exercícios de piedade do dia. (C.80)
Pelo superior geral
41. Uma vez no ano em cada casa seja celebrada uma Missa com a participação dos membros na intenção do superior geral. (C.80)
Pelos vivos e defuntos
42. Igualmente todos os anos em todas as casas sejam celebradas duas Missas pelos pais e parentes vivos e defuntos dos membros e uma pelos benfeitores.
(C.80)
Por todos os defuntos
43. Todos os sacerdotes ofereçam uma Missa, anualmente por todos os membros defuntos da Congregação; para todos os fiéis defuntos, uma vez no ano, em
cada casa celebre-se uma Missa. (C.81 )
54. Os membros doentes ou em situações difíceis e angustiantes sejam com
solicitude ajudados pelas preces dos confrades. igualmente, por causas justas, os
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superiores podem recomendar às orações dos confrades os diversos trabalhos,
bem como cada um dos membros e também estranhos. (C.82)
PROPOSTAS DE PERGUNTAS PARA REFLEXÃO OU PARTILHA
1. Que lugar em tua hierarquia religiosa de valores ocupa a oração? Será que
essa sua posição é apenas declarativa ou realiza-se em tua vida? Que situações
e escolhas concretas comprovam isso?
2. Quando geralmente vivencias a oração como um dom, como presença do Espírito Santo que reza em ti? Quais são os frutos de tal oração?
3. Como se relacionam com a tua prática da oração definições como: “luta espiritual”, “exercício na oração”, “luta na oração”?
4. A oração é o espelho da alma. Como te refletes nesse espelho? O que a tua
oração te diz a teu respeito (sua temperatura, seu objeto, distribuição da ênfase entre o pedido, a veneração e a ação de graças, etc.)
5. Quais são as fontes da tua oração? De que ela decorre e com que se alimenta?
6. Que experiência tens da oração comunitária? O que é o maior obstáculo e
dificuldade na sua prática e o que nisso te ajuda?
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CONFERÊNCIA X
ASCESE E MORTIFICAÇÃO
O ser humano necessita de cuidados. Gostamos de vez em quando de cuidar
um pouco de nós mesmos, consertar a saúde, participar de um bom retiro para remendar os buracos espirituais. O melhor seria se fosse derramado sobre nós algum
espírito, para que pudéssemos receber alguns dons, ou que algum dos conhecidos
“jesuítas das quatro semanas” ouvisse as nossas confidências e escavasse a nossa
horta... Mal não deve fazer, e no final talvez cresça alguma coisa. Imaginemos
que neste ano veio nos visitar um religioso vestido de hábito branco, de nome
Estanislau, e que nos tenha convidado para passar uma semana no eremitério de
Korabiewice... não para logo participar de um estrito retiro, mas para passar ali
uma semana de vida comum. Uma proposta irrecusável... que seria preciso aceitar
com um sorriso. Ficaríamos um pouco atrapalhados se na nossa cela, ao lado de
um feixe de feno servindo de cama, encontrássemos o programa do dia. Acordar
logo após a meia-noite! Duas horas de meditação diariamente! Além do ofício,
as três partes do rosário, e a primeira refeição somente após as onze? Devem ter
ficado loucos, mas afinal uma semana não é uma sentença, de alguma forma vou
agüentar, e é preciso agradecer a Deus porque não vim aqui na Quaresma ou para
algum retiro! Bem, e mesmo que sobrevivêssemos até as onze horas com o cilício
imposto ao nosso dorso, e se de alguma forma, piscando os olhos de falta de
sono, nos arrastássemos em tamancos de madeira até o refeitório, aqui com certeza os nossos nervos não resistiriam: alguns legumes, algumas raízes, um caldo
sem tempero e água para beber... A maioria de nós bateria a porta e voltaria para
carregar o peso da vida religiosa por caminhos menos íngremes. Aqueles poucos
que agüentassem até a noite fariam as suas malas após a proposta de flagelação e
deixariam Korabiewice com a convicção de que o prior daquele lugar, que redigiu
a “Regra de vida”, deve ser enviado a uma terapia, porque tem tendências autodestrutivas, é um maníaco religioso e trata com agressividade o próprio corpo.
Certamente muitos de nós receberam com um sorriso esse espirituoso relato
de “um dia em Korabiewice”. No entanto, como julgo, a maioria concordará com
a constatação de que temos um problema com a mortificação. E o pior é que não se
trata aqui da busca da moderação e do equilíbrio, nem da preservação da adequada
proporção entre a ascese e a graça. Tenho até medo de pensar no que diria o Padre
Estanislau de uma comunidade religiosa onde 70% dos “monges” têm excesso de
peso, e jejua sistematicamente talvez uma pequena porcentagem, a maioria dos
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quais são considerados, não sem razão, como excêntricos. Quem de nós não deve
bater no peito ao ouvir palavras como: programa do dia, clausura, silêncio, laboriosidade, controle dos sentidos, etc.? Basta lembrar como o nosso sangue se agita
quando falta alguma coisa em casa e temos de suportar pequenos desconfortos e
deficiências, sem falar de renúncia a coisas necessárias, mas não indispensáveis.
Acredito que, no caso de alguns de nós, provocaria uma reação mais rápida e
brusca a privação do acesso à internet do que o fechamento da porta da capela.
Os olhos, os ouvidos, os pensamentos e a imaginação passeiam sem restrições por
caminhos onde não há imagens de santos à beira da estrada... Reconheçamos que
tudo isso se afasta de alguns preceitos das constituições religiosas e certamente
é preciso falar do desaparecimento da ascese e da mortificação em nossa vida. E
mesmo que o quadro acima apresentado seja uma imagem um tanto exagerada dos
marianos do tempo da beatificação, parece que a situação é alarmante.
Na reflexão do Advento sobre o endireitamento das veredas para o Salvador
que vem, o nosso beato Fundador enfatiza que justamente a penitência e a mortificação preparam o caminho ao Senhor. Por isso ardentemente admoesta o seu leitor
para “que antes estejas pronto a despedir-te do mundo e do corpo do que separarte da penitência, que antes estejas pronto a morrer do que negligenciar a mortificação” (IC 9v). Será que o Padre Papczynski era um “fanático por mortificação”?
Será que a ascese ocupava em sua vida a posição frontal? Que objetivo tinha ela
e quais eram os seus limites? Vale a pena buscar respostas a essas perguntas e a
outras semelhantes. O programa do dia, as orações, a forma de vida recomendada
pelo autor de Norma vitae apontam para o fato de que ele não fazia parte das pessoas que andam “vestidas de trajes macios”. Sem dúvida levava uma vida severa,
dedicada à penitência e à mortificação. Mas provavelmente ele mesmo não via em
si mesmo e em seus irmãos religiosos algum tipo de grandes ascetas. Ao meditar
sobre a paixão de Cristo, após citar exemplos de séria penitência (por exemplo
de Domingos Encouraçado, que na Quaresma desferia contra si três milhões de
golpes com a disciplina, ou de Gaspar Druzbicki, que com uma disciplina armada
de pontas de ferro golpeava-se quinze mil vezes por dia), constata: “Quem com
palavras será capaz de mencionar outras semelhantes [mortificações]? Com razão
um poeta disse: Compara as flagelações dos antepassados com as atuais; dirás
que aquelas são verdadeiras, e as nossas, mesmo sérias, chamarás de brincadeira.
Compara, meu cristão, a tua penitência com a penitência de João, Paulo, Antônio,
Onofre e tantos outros eremitas; com a penitência de Bento, Francisco, Domingos, Bernardo e tantos outros nossos predecessores; com a penitência de Teresa
de Ávila, Catarina de Sena, Rosa de Lima, Cunegundes da Polônia, Madalena da
Itália e tantas outras esposas de Cristo; e dirás que são algo verdadeiro, e que as
nossas são uma brincadeira” (OC VI). Vale a pena chamar a atenção para o fato de
que as práticas ascéticas não são para o Beato um fim em si mesmo, mas sempre
se referem ao relacionamento com Deus, são um sinal de verdadeira conversão e
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nos tornam imitadores de Cristo. Em Inspectio cordis o Padre Estanislau escreve
a esse respeito com muita ênfase: “Essa verdade foi pronunciada pelo Profeta: Retornai a mim de todo vosso coração, com jejum, com lágrimas e com lamentação
[Jl 2, 12]. Eis a bebida dos que se convertem a Deus: choro e lamentação! Eis o
sadio e salutar alimento: o jejum. Tu, portanto, da mesma forma deves dominar
a glutonaria da barriga se realmente e de todo o coração desejas converter-te a
Deus” (IC 103r). E numa outra passagem: “Seguir os passos de Cristo significa justamente, sem perder uma ocasião de sofrer por Ele, desejar ardentemente
carregar a cruz. E tu, envergonha-te por seres tão sensível que te esquivas até da
mínima mortificação, e suportas palavras apenas um pouco desagradáveis com o
rosto franzido e grande murmuração, tanto interior como exterior. Ó tu, eminente
imitador de Cristo! Como te comportarias durante a flagelação? Naturalmente,
não sabes que o caminho que está aberto para o céu passa apenas por espinhos?”
(IC 131r; cf. também IC 130r-130v). Os tormentos e a cruz, que produzem a paciência, bem como a mortificação, que fornece a submissão da vontade diante de
Deus, são os dois mensageiros que antecedem a vinda de Cristo à alma humana
(cf. IC 39r). O corpo e o sangue não podem conduzir ao conhecimento de Deus,
e todo aquele que nesse caminho baseia-se neles, e negligencia a ascese, é considerado pelo Beato Estanislau como psiquicamente doente: “Considera que para a
compreensão das coisas celestiais não são aptos aqueles que mergulham nos assuntos do corpo e do sangue. Porque os assuntos divinos são compreendidos não
tanto pelo diligente estudo quanto pela zelosa mortificação. É por isso que o Sábio
diz: A sabedoria não entra numa alma maligna, ela não habita num corpo devedor
ao pecado [Sb 1, 4]. Por isso, da mesma forma que apenas um doente mental prefere a ciência terrena à celestial, também não possui a mínima prudência aquele
que se dispõe ao conhecimento dos mistérios divinos, mas com esse objetivo não
tenta adotar a mortificação. Ao primeiro Príncipe dos Apóstolos não foi o corpo e
o sangue que revelaram a Divindade de Cristo, e o outro Apóstolo, a fim de conhecer os mistérios divinos, diz: Trato duramente o meu corpo e reduzo-o à servidão
[1Cor 9, 27]” (IC 122r). Na opinião do Padre Estanislau, a mortificação protege a
alma da morte, mas em si mesma, da mesma forma que a ciência e a experiência,
não tem condições de vencer o demônio. Nessa luta desempenha um papel crucial
a confiança depositada em Deus, a oração, a humildade, a paciência e o domínio
dos sentidos (cf. IC 87r, 31r). O coração da mortificação é o amor, sem o qual ela
não é um sacrifício agradável ao Senhor (TDM I).
Segundo o nosso Fundador, a mortificação deve: ser exterior e interior, envolver todos os sentidos, estender-se até aos limites da resistência e jamais terminar,
mas perdurar até a morte (cf. IC 111r, OC VI, TDM VI, NV IV3). Além do capítulo IV da Regra de vida, que normatiza a mortificação na congregação dos marianos que estava sendo fundada, é muito importante a esse respeito o capítulo VI
de Templum Dei mysticum, que fala do sacrifício místico do templo. Encerra um
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bom número de conselhos concretos e aponta variadas áreas de ascese, como por
exemplo: mortificação do julgamento e da vontade, da língua, da imaginação, do
olhar, do gosto, do corpo, das paixões. O Beato Estanislau fala ali igualmente de
certos limites da mortificação. É preciso exercitar-se no silêncio, mas não ao ponto de numa discussão desistir da defesa da verdade; é preciso refrear a imaginação, mas não de uma forma que isso provoque uma lesão do cérebro ou da cabeça;
é preciso mortificar o corpo, mas levar em conta a sua saúde, se isso não for uma
ameaça à perdição da alma. É muito significativa uma passagem desse capítulo
que trata da mortificação das paixões: “Além disso, não julgues que deixarei de
lado o que é o melhor e que é a única coisa que torna o homem sábio e santo, a
saber, como se diz, o domínio das paixões. Permito-te que te irrites, mas sem pecado; que te alegres, mas no Senhor; que te entristeças, mas porque algumas vezes
ofendeste a Deus, o Bem Supremo, ou ao próximo; que vivas com a esperança,
mas de alcançar o Reino Celestial; que mergulhes em tristezas, mas fazendo penitência pelas más ações cometidas, ou pelas boas negligenciadas; que temas, mas
apenas a Deus, como o filho teme o pai; que ames, mas unicamente esse mesmo
Deus ou – em razão d’Ele – o próximo, e mais ainda o inimigo” (TDM VI). Percebe-se aqui claramente que na base dos esforços ascéticos do Beato e das suas
orientações relacionadas com a mortificação não se encontra a rejeição da natureza humana com toda a sua riqueza de pensamentos, sentimentos e sonhos. Ele se
preocupa unicamente em subordiná-la plenamente ao amor de Deus e do homem
e, com isso, em devolver-lhe a beleza a perspectiva da vida eterna pretendida por
Deus. O Padre Estanislau sabe que “[...] a comida é destinada ao estômago, e o
estômago, aos vermes” (NV IV 2) e que o objetivo da vida nesta terra não é o consumo, mas a glória de Deus: “Não insisto que te habitues ao pão seco e duro, ou
que para lhe tirar o gosto o cubras de cinza (embora, por grande piedade, alguns
santos o tenham feito); não quero também que o teu mel esteja misturado com fel,
porque assim mesmo, digo-te, ao coração não faltam amarguras, a não ser que
para isso Deus te estimule e ajude. Mas o que decididamente recomendo é que não
tanto te deleites com esses dons, mas antes que glorifiques e ames Aquele que te
dá o alimento e a bebida no tempo adequado; não para que vivendo comas, mas
para que comendo vivas” (TDM XIII). A mortificação está de certa fora inserida
nas dores do parto do novo homem, que vive unido com Deus: “Assim, pois, procuremos antes pela morte dos sentidos buscar a Deus, e então O encontraremos.
Eles morrem quando são prudentemente dirigidos, isto é, quando são privados
daquelas coisas com que apenas os animais são atraídos. Por isso, com a morte do
homem animal surge o homem espiritual, que, tendo encontrado em si a Deus e
d’Ele tendo tomado posse, com Paulo docemente vai suspirar: Eu vivo, mas já não
sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim [Gl 2, 20]”. (TDM XV).
Nos dias de hoje a ascese e a mortificação não gozam de popularidade. Como
termos, desapareceram quase que por completo da linguagem comum e, mesmo
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quando surgem, é num sentido decididamente negativo. É difícil admirar-se disso,
porquanto são diametralmente opostos aos princípios segundo os quais vive “este
mundo”. Igualmente nos documentos da Igreja relacionados com a vida religiosa
não se apresentam em primeiro plano. Em Redemptionis Donum estão completamente ausentes, e Vita Consecrata dedica à ascese e à luta espiritual uma seção
(38), que encontra o seu desenvolvimento na instrução Reiniciar com Cristo (27).
É difícil encontrar nos documentos da Igreja análises exaustivas das práticas ascéticas. Eles nos apresentam a consagração religiosa na perspectiva teológica, e
à luz dos sinais do tempo apontam-nos os caminhos do envolvimento no serviço
a Deus e ao homem. No entanto vale a pena levar muito a sério uma breve constatação dos mencionados documentos: “A ascese [...] é absolutamente necessária
à pessoa consagrada, para que ela possa preservar a fidelidade à sua vocação e
seguir os passos de Cristo pelo caminho da Cruz”.
Quando o Beato Estanislau mencionava as mortificações dos antigos padres, a
penitência dos seus contemporâneos parecia-lhe pequena e insignificante. Se nós
compararmos a sua forma de vida com a ascese por nós praticada, ela nos parecerá
ridícula ou simplesmente inexistente. Isso lembra um pouco a pequena historieta
relacionada com a oração. O pai rezava fervorosamente e, quando o gato o atrapalhava na meditação, amarrava-o à mesa. Seu filho, quando recitava as orações,
e seguindo o exemplo do pai, amarrava o gato, embora não soubesse por que o
fazia. O neto já amarrava o gato à mesa apenas de vez em quando... Transferindo essa imagem à prática da mortificação em nossa congregação, perguntemos
se não somos por acaso essa “terceira geração”? Será que o gato não bagunceia
livremente pelas nossas casas? E se já não está na hora de não apenas pegar o
malandro e amarrá-lo, mas também de perguntar por que o fazia nosso pai?
TEXTOS PARA MEDITAÇÃO
Texto bíblico básico: Fl 3, 4-16
[...] . 4 Bem que eu poderia pôr minha confiança na carne. Se algum outro
pensa que pode confiar na carne, eu mais ainda: 5 fui circuncidado no oitavo dia,
sou da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu filho de hebreus; quanto à
observância da Lei, fariseu; 6 no tocante ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à
justiça que vem da Lei, irrepreensível. 7 Mas essas coisas, que eram ganhos para
mim, considerei-as prejuízo por causa de Cristo. 8 Mais que isso, julgo que tudo
é prejuízo diante deste bem supremo que é o conhecimento do Cristo Jesus, meu
Senhor. Por causa dele, perdi tudo e considero tudo como lixo, a fim de ganhar
Cristo 9 e ser encontrado unido a ele. E isto, não com a minha justiça que vem
da Lei, mas com a justiça que vem pela fé em Cristo, a justiça que vem de Deus,
com base na fé. 10 É assim que eu conheço Cristo, a força da sua Ressurreição e
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a comunhão com os seus sofrimentos, tornando-me semelhante a ele na sua morte, 11 para ver se chego até a Ressurreição dentre os mortos. 12 Não que eu já
tenha recebido tudo isso, ou já me tenha tornado perfeito. Mas continuo correndo
para alcançá-lo, visto que eu mesmo fui alcançado pelo Cristo Jesus. 13 Irmãos,
eu não julgo já tê-lo alcançado. Uma coisa, porém, faço: esquecendo o que fica
para trás, lanço-me para o que está à frente. 14 Lanço-me em direção à meta,
para conquistar o prêmio que, do alto, Deus me chama a receber no Cristo Jesus.
15 É assim que nós, os “perfeitos”, devemos pensar. E se tiverdes um outro modo
de pensar, nisto também Deus vos esclarecerá. 16 No entanto, qualquer que seja
o ponto a que tenhamos chegado, continuemos na mesma direção.
Referências bíblicas para o aprofundamento da leitura do texto
versículo 4: Rm 7, 5ss; 2Cor 11, 18ss;
versículo 5: Gn 17, 10ss; Lc 1, 59; Lc 2, 21; Mt 3, 7ss;
versículo 6: At 8, 1-3;
versículo 7: Mt 13, 44-46; Lc 14, 25-35; Rm 10, 1-4;
versículos 8-9: Mt 16, 26; Is 53, 11-12; Jr 9, 23-24; Rm 1, 16-17; Gl 2, 15-21;
1Cor 2, 1-5; Cl 2, 2-3;
versículo 10: Rm 6, 3-5; Rm 8, 5-17; 2Cor 4, 7-14; Gl 6, 17; 1Pd 4, 12-13;
versículo 11: At 4, 2; At 26,7; 1Ts 4, 13-18; Ap 20, 5-6; Fl 2, 16;
versículo 12: Gl 5, 1-7; Mt 5, 48; At 9, 5-6; 1Cor 13, 10-12; 1Tm 6, 11-16;
versículo 13: Lc 9, 62; Hb 11, 26; 1Cor 9, 24-27; Cl 3, 1-4.
Outros textos bíblicos relacionados com o tema
Rm 6, 3-11
[...] 3 Acaso ignorais que todos nós, batizados no Cristo Jesus, é na sua
morte que fomos batizados? 4 Pelo batismo fomos sepultados com ele em sua
morte, para que, como Cristo foi ressuscitado dos mortos pela ação gloriosa do
Pai, assim também nós vivamos uma vida nova. 5 Pois, se fomos, de certo modo,
identificados a ele por uma morte semelhante à sua, seremos semelhantes a ele
também pela ressurreição. 6 Sabemos que o nosso homem velho foi crucificado
com Cristo, para que seja destruído o corpo sujeito ao pecado, de maneira a não
mais servirmos ao pecado. 7 Pois aquele que morreu está livre do pecado. 8 E,
se já morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele. 9 Sabemos
que Cristo, ressuscitado dos mortos, não morre mais. A morte não tem mais poder
sobre ele. 10 Pois aquele que morreu, morreu para o pecado, uma vez por todas,
e aquele que vive, vive para Deus. 11 Assim, vós também, considerai-vos mortos
para o pecado e vivos para Deus, no Cristo Jesus.
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Cl 3, 1-17
[...] 1 Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas do alto, onde Cristo está
entronizado à direita de Deus; 2 cuidai das coisas do alto, não do que é da terra.
3 Pois morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. 4 Quando
Cristo, vossa vida, se manifestar, então vós também sereis manifestados com ele,
cheios de glória.
[Cristo tudo em todos]
5 Portanto, mortificai os vossos membros, isto é, o que em vós pertence à terra: imoralidade sexual, impureza, paixão, maus desejos, especialmente a ganância, que é uma idolatria. 6 Estas coisas é que provocam a ira de Deus. 7 Foi assim
que vós também procedestes outrora, quando vivíeis nessas desordens. 8 Agora, porém, rejeitai tudo isto: ira, furor, malvadeza, ultrajes, e não saia de vossa
boca nenhuma palavra indecente; 9 também não mintais uns aos outros, pois já
vos despojastes do homem velho e da sua maneira de agir 10 e vos revestistes
do homem novo, o qual vai sendo sempre renovado à imagem do seu criador, a
fim de alcançar um conhecimento cada vez mais perfeito. 11 Aí não se faz mais
distinção entre grego e judeu, circunciso e incircunciso, bárbaro, cita, escravo,
livre, porque agora o que conta é Cristo, que é tudo e está em todos. 12 Portanto,
como eleitos de Deus, santos e amados, vesti-vos com sentimentos de compaixão,
com bondade, humildade, mansidão, paciência; 13 suportai-vos uns aos outros e,
se um tiver motiovo de queixa contra o outro, perdoai-vos mutuamente. Como o
Senhor vos perdoou, fazei assim também vós. 14 Sobretudo, revesti-vos do amor,
que une a todos na perfeição. 15 Reine em vossos corações a paz de Cristo, para
a qual também fostes chamados em um só corpo. E sede agradecidos. 16 Que a
palavra de Cristo habite em vós com abundância. Com toda a sabedoria, instruí-vos e aconselhai-vos uns aos outros. Movidos pela graça, cantai a Deus, em
vossos corações, com salmos, hinos e cânticos inspirados pelo Espírito. 17 E tudo
o que disserdes ou fizerdes, que seja sempre no nome do Senhor Jesus, por ele
dando graças a Deus Pai.
Mt 16, 24-28
24 Então Jesus disse aos discípulos: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. 25 Pois quem quiser salvar sua vida
a perderá; e quem perder sua vida por causa de mim a encontrará. 26 De fato,
que adianta a alguém ganhar o mundo inteiro, se perde a própria vida? Ou que
poderá alguém dar em troca da própria vida? 27 Pois o Filho do Homem virá na
glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com
a sua conduta. 28 Em verdade, vos digo: alguns dos que estão aqui não provarão
a morte sem antes terem visto o Filho do Homem vindo com o seu Reino”.
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Mt 9, 14-17
[...] 14 Aproximaram-se de Jesus os discípulos de João e perguntaram: “Por
que jejuamos, nós e os fariseus, ao passo que os teus discípulos não jejuam?”
15 Jesus lhes respondeu: “Acaso os convidados do casamento podem estar de
luto enquanto o noivo está com eles? Dias virão em que o noivo lhes será tirado.
Então jejuarão. 16 Ninguém põe remendo de pano novo em roupa velha, porque
o remendo novo repuxa o pano velho e o rasgão fica maior ainda. 17 Também
não se põe vinho novo em odres velhos, senão os odres se arrebentam, o vinho se
derrama e os odres se perdem. Mas vinho novo se põe em odres novos, e assim os
dois se conservam”.
Jo 12, 24-28
[...] . 24 Em verdade, em verdade, vos digo: se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só. Mas, se morre, produz muito fruto. 25 Quem se apega à sua
vida, perde-a; mas quem não faz conta de sua vida neste mundo, há de guardá-la
para a vida eterna. 26 Se alguém quer me servir, siga-me, e onde eu estiver, estará
também aquele que me serve. Se alguém me serve, meu Pai o honrará. 27 Sinto
agora grande angústia. E que direi? ‘Pai, livra-me desta hora’? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. 28 Pai, glorifica o teu nome!” Veio, então, uma
voz do céu: “Eu já o glorifiquei, e o glorificarei de novo”.
OS ATUAIS ESTATUTOS RELIGIOSOS MARIANOS
À penitência e à mortificação é dedicado todo o capítulo sétimo das nossas
Constituições. Esse capítulo define o objetivo da mortificação e o seu âmbito. Os
esforços ascéticos devem conduzir o mariano a domar tudo que é desordenado na
natureza humana e fazer com que sejamos inteiramente submetidos a Deus e vivamos unicamente por Cristo. A mortificação deve ser exterior e interior, no entanto
os nossos estatutos dão mais ênfase à segunda. As nossas Constituições e o nosso
Diretório dedicam grande espaço à postura que pode ser chamada de “ascese de
vida”. Somos chamados para suportar as dificuldades e tribulações da vida, para
aceitar com paciência o cansaço e as doenças, para na modéstia e na sobriedade
levar uma vida repleta de trabalho, carregando a cruz com coragem e disposição.
A ascese deve ser praticada de tal forma que não prejudique a saúde e não subtraia
a força para o trabalho. Devemos lembrar-nos do descanso e do significado que
para o corpo, o espírito e a vida religiosa possui a recreação. Veja
Artigos das Constituições: 4, 26, 32, 34, 44, 65, 84-90, 107;
4 Renunciando a tudo quanto permite a fragilidade humana, os membros se
ofereçam, entreguem, consagrem totalmente a Deus e àquilo que é de Deus, de tal
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modo que Deus seja plenamente o centro da vida de cada um dos membros e de
toda a Congregação. [CM 4]
Seguimento de Cristo
26 Seguindo com fidelidade e coragem a Jesus Cristo, esteja cada um pronto,
onde a necessidade o exigir, a sofrer e suportar o calor, o frio, a sede, a fome, a
penúria, os trabalhos, as injúrias, o desprezo e as humilhações, todas as vezes que
isso pareça contribuir para a maior glória de Deus, para a utilidade espiritual dos
outros e para a salvação da própria alma. [CM 168]
32 Procurem conformar plenamente a própria vontade com a vontade divina,
submetam-se a ela, façam-na e cumpram-na pela observância fiel e generosa dos
mandamentos de Deus, da Igreja e também dos conselhos evangélicos e das leis
próprias; cooperando fielmente com as graças divinas, seguindo atenta, discreta e
docilmente a moção do Espírito Santo; suportando e vencendo as adversidades e
levando a sua cruz com Cristo, com paciência, fortaleza e alegria. [CM 174]
34 Amem a vida laboriosa, valorizem ao máximo o tempo que lhes foi concedido por Deus e procurem empregá-lo racional, útil e frutuosamente, bem e
ordenadamente, com méritos cada vez maiores. Atendam ao que fazem e tomem
cuidado para não desperdiçar a mínima parcela de tempo não fazendo nada ou
fazendo outra coisa ou fazendo-a malfeita; evitem absolutamente a ociosidade,
fonte de tantos males. Enquanto estão bem de saúde, sempre tenham algo em que
se ocupar utilmente de acordo com suas forças, suas capacidades, seu ofício e o
beneplácito dos superiores. [CM 353]
44 Aderindo somente a Deus e confiando na sua bondade e providência, os
membros estejam satisfeitos com o necessário e alegrem-se quando lhes acontecer
experimentar de fato a pobreza e as privações. Afastem longe de si toda a espécie de avareza; nada usem como coisa própria; não conservem consigo nenhuma
coisa supérflua; sejam inclinados, quanto o permite a santa discrição, a preferir as
privações à abundância e a escolher para si as coisas inferiores para o uso. Lembrem-se sempre que, para a verdadeira pobreza, não é suficiente submeter-se aos
superiores no uso dos bens, mas importa que sejam pobres na realidade e no espírito, possuindo os tesouros no Céu. [Mt 19,21; Lc 12,33; CM 233-235; PC 13]
65 Os membros antes de tudo procurem e amem a Deus, que primeiro nos
amou, e em todas as circunstâncias cultivem a vida escondida com Cristo em
Deus, donde emana e se estimula o amor ao próximo, para a salvação do mundo e
edificação da Igreja. Ainda que a caridade seja um dom de Deus, contudo é obtida
e conservada pela assídua mortificação e oração. Por isso os membros cultivem
com contínuo empenho o espírito de oração e a oração mesma, haurindo-a das
genuínas fontes da espiritualidade cristã. [Jo 4,10; Col 3,3; NV II, 1; PC 6]
84 Pelo contínuo exercício da mortificação procurem tirar, purificar e subjugar tudo aquilo que na natureza humana existe de desordenado, de tal modo que
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neles nada fique de imoderado e indisciplinado e assim tornados senhores de si
mesmos, orientem e empreguem todas as energias, que Deus lhes deu, para alcançar o bem que lhes convém. [CM 166]
85 Os membros são obrigados, em primeiro lugar, às obras de penitência
prescritas para todos os fiéis na Igreja universal e local. Cada um acrescente para
si também mortificações externas, que o desejo de perfeição e o zelo discreto lhe
sugerem; não deve ser negligenciado o uso das mesmas, visto que muito ajudam
no progresso da vida espiritual; proíbem-se, contudo, as mortificações que possam prejudicar a saúde ou as tarefas. [CM 271]
86 Sem negligenciarem a mortificação externa do corpo e dos sentidos, os
membros, contudo, estejam muito atentos para praticar a mortificação interna,
moderando e temperando as suas paixões, concupiscências, afetos, desejos e inclinações, vigiando assiduamente sobre a sua mente, a sua imaginação e o seu
coração. [CM 273]
87 Cada um procure principalmente moderar o desordenado amor próprio,
que é causa de todo pecado, vencendo a si mesmo com coragem e constância.
Tendo abandonado todas as coisas, cada um renegue e abandone também a simesmo, o seu desordenado sentir e querer, a fim de que, morto para si e para o mundo,
viva totalmente para Cristo. Ponha-O acima de tudo e não hesite em se dedicar
completamente a Cristo e à sua Igreja. [CM 167]
88 Aceite cada um, de boa vontade, o trabalho e o encargo que lhe é confiado,
quer seja para o bem comum, quer particular; não considere nenhuma ocupação
indigna de si, se for útil e honesta, fixando os olhos no exemplo de Jesus Cristo
que trabalhava com as suas próprias mãos, e de tantos santos que encontravam
suas delícias até exercendo ofícios humildes. [CM 276]
89 Em espírito de penitência, suportem com fortaleza, paciência e alegria no
Senhor as desventuras da vida, os cansaços dos trabalhos e ocupações, as moléstias e dificuldades, as dores e enfermidades do corpo, as tribulações do espírito, as
perseguições do mundo e outras cruzes que Deus permitir. [CM 277]
90 A alimentação seja simples e modesta, mas suficiente e sadia; tanto a
qualidade quanto a quantidade dos alimentos seja fornecida conforme o uso dos
lugares, tendo em consideração o trabalho, a saúde e a maior necessidade. Em
qualquer lugar, os membros pratiquem a temperança e a sobriedade; abstenhamse ordinariamente das bebidas alcoólicas. Proíbe-se de modo especial o uso do
fumo, a não ser por causa grave e com a licença especial, dada por escrito, pelo
superior maior. [CM 236, 274]
107 Na ordem do dia seja prescrito, cotidianamente, algum tempo livre, a fim
de restabelecer as forças, para um novo trabalho. O recreio favoreça não somente
o corpo, mas também o espírito, nutra e fomente a mútua caridade entre os membros; recomenda-se a todos a paz, o bom humor e a alegria no Senhor.
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Itens do Diretório: 2, 3, 55, 65.
2. Os membros não somente são obrigados a amar profundamente a vida casta, mas também, confiando no auxílio de Deus e na intercessão da Imaculada
Virgem Maria, a evitar, com todo o esforço e diligência, tudo aquilo que possa
empanar, manchar e ofuscar seu esplendor, e a empregar os meios oportunos para
a guardar Integra e perfeitamente, de modo a apresentarem seus corações e seus
corpos como hóstia viva, santa o agradável a Deus Não omitam também os meios
naturais que favorecem a saúde da alma e do corpo. (C.41)
3. Os membros sejam solícitos em observar, proteger e cultivar a castidade
evangélica; para o que grandemente ajudarão: a contínua mortificação do corpo,
dos sentidos, da imaginação, a contínua guarda dos afetos e da mente, a fuga das
ocasiões e do ódio, a modéstia e do pudor, a constante oração a Deus, a assídua
recordação da sua presença, a freqüente santa comunhão, a ardente invocação à
Imaculada Virgem Maria, ao Anjo da Guarda, a São José, e nas tentações e nos
perigos, o confiante refúgio ao próprio Salvador Jesus Cristo e às suas santas
chagas. (C.42)
55 O vestuário e a arrumação do quarto de cada um dos membros devem ser
apropriados para as suas ocupações, salvaguardada, porém, a modéstia a qual convém a todos aqueles que “crucificaram a carne com suas paixões e seus desejos”
(Gal 5,24). (C.90)
65. Os enfermos moderem as suas exigências em espírito de penitência e de
pobreza, aceitem a pr6pria doença como dom de Deus, recebam-na de sua mão
como meio especial da santificação e, com paciência e total submissão à divina
Providência, suportem-na tranqüilamente. Não rejeitando os recursos humanos e
a esperança de recuperar a saúde, desejem todavia, a cima de tudo, que se faça
perfeitamente a seu respeito à vontade de Deus. Os enfermos mais gravemente
doentes preparem-se para a morte, com animo intrépido. (C.96)
PROPOSTAS DE PERGUNTAS PARA REFLEXÃO OU PARTILHA
1. Sem a morte e a ressurreição de Cristo a mortificação perde o seu sentido, e
sem a primazia da graça descamba para a heresia. De que forma o mistério
pascal e a presença do Espírito Santo, que traz a graça, ilumina as dificuldades
da tua vida e os teus esforços ascéticos?
2. Como se apresenta a prática da ascese em tua vida e com que assuntos concretamente se relaciona? Que objetivos propões à tua mortificação e aos teus
esforços ascéticos?
3. Como aceitas as restrições relacionadas com a vida religiosa, tais como o silêncio, a clausura, o programa do dia, os traços difíceis dos coirmãos?
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4. Quais são as tuas reações quando em conseqüência de incômodos e de acontecimentos do dia-a-dia experimentas a falta de várias coisas, tens de mudar
os teus planos, dedicar a alguém o teu tempo, renunciar aos prazeres e ao
descanso?
5. Qual é a tua visão das tradicionais práticas ascéticas, tais como o jejum e a
esmola? Com quanta freqüência acontece jejuares por escolha própria, e não
por imposição da Igreja? Como reages aos que pedem esmola?
6. Como praticas a mortificação interior, que envolve os sentimentos, os pensamentos, a imaginação, etc.? Será que serias capaz de apontar em tua vida
algumas formas de ascese relacionadas com filmes, leituras, música, internet
e outros meios de comunicação?
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CONFERÊNCIA XI
O CAMINHO DOS VOTOS RELIGIOSOS
Com a vida religiosa, quase que desde os seus primórdios, encontra-se ligada
indissoluvelmente a prática dos conselhos evangélicos, que é assumida por força
dos votos. Os documentos da Igreja dos últimos anos analisam com muita profundezaerspicácia o significado teológico da obediência, castidade e pobreza, os três
compromissos básicos assumidos na maioria das atuais formas de vida comunitária e religiosa. A profissão dos conselhos evangélicos vincula de forma especial o
homem com Cristo, faz d’Ele o sentido da vida e a Ele assemelha. É uma expressão de reconhecimento para a beleza de Deus Pai, Filho e Espírito Santo e testemunha a Sua amorosa bondade diante de todo ser humano (Vita consecrata, 16).
É um dom da Trindade e um reflexo da Sua vida interior (ibidem, 20-21). Todo
aquele que professa os votos religiosos une-se com Deus por uma aliança de amor
conjugal de esposo e mergulha novamente no mistério da morte e ressurreição de
Cristo (cf. Vita consecrata, 24; Redemptionis donum, 7-8), sendo também diante
do mundo um sinal profético e escatológico do Reino de Deus.
Nos tempos do Padre Estanislau Papczynski, a Santa Sé não dedicava muitos
pronunciamentos aos aspectos teológicos dos votos religiosos, no entanto o nosso
próprio Fundador, em seus escritos, aborda essa questão com muita freqüência.
Ele analisa os votos do ponto de vista da espiritualidade e da ascética, e os seus
pronunciamentos relacionados com os diversos votos são assinalados por um
grande fervor e zelo por um lado, e pelo conhecimento da vida, da prática religiosa e da natureza, por outro. Ouçamos o que ele diz a respeito dos diversos votos
na seqüência adotada por nós por ocasião da profissão:
“Não existe nada de mais valioso, mais eminente e mais agradável a Deus que
a castidade” – afirma o Beato. “Entre todas as bem-aventuranças, é por ela que é
prevista a maior recompensa: a visão de Deus [cf. Mt 5, 8]”. Devemos apreciá-la
mais que a vida, e um exemplo disso para nós é S. Casimiro, que, acometido de
uma doença mortal, não deu ouvido aos médicos, que com o objetivo de alcançar
a cura recomendavam-lhe um decente matrimônio e, rejeitando o infame remédio,
disse que preferia morrer a manchar-se (cf. IC 105v). O valor da castidade é enorme, e aqueles que não a observam serão merecedores deespera um severo castigo,
porquanto somos obrigados a observá-la não apenas em razão da lei natural e da
lei estabelecida por Deus. Obriga-nos a isso também o voto, e a sua transgressão
é um sacrilégio. Por isso o nosso Fundador compara o pecado da impureza ao
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pecado de Lúcifer, que desejou sentar-se no trono que cabia a Deus (cf. IC 163r).
O Padre Papczynski partilha a opinião do autor da Imitação de Cristo, que afirma
que o combustível para o fogo infernal serão os pecados e que aqueles que seguem
os apelos do corpo e levam uma vida dissolutamais se permitem terão material
mais abundante para queimar, e os devassissolutos serão queimados no piche e no
fétido enxofre e uivar de dor como cães raivosos (cf. IC 164r).
Para a nossa luta pela preservação da castidade, o Beato Estanislau fornecenos uma série de orientações concretas. Devemos ter cuidado com os defeitos que
destroem a castidade e que são os “saqueadores da castidade”: o olhar distraído
(foi o olhar para Betsabé que levou Davi ao adultério e ao assassinato), o descontrole das mãos (o tato pode ser como uma cobra venenosa), a impureza dos
pensamentos (que mata a alma da mesma forma que o ato impuro), o amor a trajes
macios e à alimentação requintada (a vontade de experimentar a maçã levou Eva
ao pecado), a vadiagem, a leitura indecente (cf. IC 163rv).
Os pecados contra a castidade podem originar-se da negligência ou da permissão de Deus. O primeiro caso ocorre quando menosprezamos pequenas negligências e os ataques iniciais e insignificantes do mal, o que é, na opinião do
Padre Papczynski, especialmente perigoso nessa área. Ao passo que contra aqueles que são soberbos, desobedientes, altivos, espiritualmente preguiçosos e tíbios,
exageraddemasiadamente confiantes em suas forças, sua ponderação e prudência,
o próprio Deus muitas vezes permite os pecados impuros (cf. 163v). Na Regra
de vida o nosso Fundador relaciona a castidade com os demais votos e fornece
orientações práticas, tanto a superiores como a todos os irmãos: “E visto que a
obediência preserva a castidade, e a pobreza a alimenta, é necessário que o espírito desejoso de castidade se exercite em ambas, e possuirá aquela. Ainda que
na preservação dessa virtude angelical o que mais pode ajudar a cada um seja a
modéstia do olhar e a elevação mais freqüente possível da alma a Deus, a fuga
da inatividade, da tagarelice, da supérflua leitura, a prudente fuga dos contatos
perigosos, o amor à cela e o respeito à clausura, a ardente oração ao Espírito
Santo, à Virgem Mãe de Deus, ao Anjo da Guarda, a São José e às santas virgens.
Os superiores, por sua vez, deverão empenhar-se para não expor alguém a algum
perigo que ameace tão grande virtude, nem abandonar o ser humano que nele se
encontra, especialmente porque dos assuntos a eles confiados prestarão diante de
Deus as mais severas contas” (NV III 3).
Em espírito semelhante o Padre Papczynski pronuncia-se a respeito do voto
da pobreza, porém enfatiza mais claramente que ele nos assemelha a Jesus, a Maria e aos Apóstolos. Por isso não devemos ter vergonha da miséria, e mesmo da
mendicância, visto que a nossa pobreza segue o modelo de Maria, que depositou
Seu filho numa manjedoura, e o modelo de Jesus, que, ao vir a um mundo que Lhe
pertencia, não tinha onde reclinar a cabeça (cf. IC 71v-72r, 138v, 165r; NV III 3).
Ele mesmo escolheu para si pais pobres e evitou os fariseus, que eram ricos (cf.
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IC 165r). Os Apóstolos, que receberam a graça da pesca milagrosa, deixaram tudo
e acompanharam a Jesus. Assim deve ser também a nossa resposta aos benefícios
que recebemos de Deus (cf. IC 66r). Igualmente na nossa missão devemos ser
semelhantes a eles: “Tu, no entanto, segue os passos dos Apóstolos, que, partindo
para diversos lugares do mundo, tinham a recomendação de passar até sem a bengala e o saco de viagem. Praticando a estrita pobreza, não receies que te falte algo
– como diz aquele conhecido autor – O monge nu é o senhor do mundo inteiro”
(IC 138v; cf. também IC 164r; o autor citado é provavelmente João Cassiano).
Sobre todos aqueles que querem seguir os passos de Cristo repousa a absoluta
necessidade de abandonar tudo: o mundo, as honras, os bens, as amizades, o amor,
as pessoas próximas, os parentes, os pais e a sua vida; se não fizerem isso, demasiadamente sobrecarregados em seu caminho, jamais alcançarão a Cristo (cf. IC
66r, 131r, 164v).
Não apenas a posse das coisas é incompatível com o voto da pobreza. Ainda
que, se temos em nossa cela alguma coisa que a ela se oponha – segundo OSP
– devemos tratá-la como uma cobra venenosa (cf. IC 164r). No entanto devemos
examinar não apenas a nossa cela, mas também o nosso coração: se não temos
apego aos bens (ibidem), se não os desejamos e se a nossa vontade não os persegue (cf. IC 164v). Todas as vezes que alguém oculta presentes recebidos, introduz
coisas no convento ou pressiona os superiores ou irmãos para ter alguma coisa
como propriedade sua, ou quando deseja utilizar-se de algo de forma exclusiva,
pratica atos incompatíveis com a virtude da pobreza (cf. IC 164rv). O voto da
pobreza dá a paz e a liberdade, proporciona uma liberdade que permite compreender e contemplar as coisas celestiais e desejá-las (cf. IC 165r, 164v). O religioso,
ao contemplar a pavorosa queda de Judas provocada pela cobiça, deve preferir a
morte a ceder à pior das concupiscências, a da conquista e posse das coisas materiais (cf. IC 165r).
A vinda de Jesus ao mundo na pobreza e de uma Mãe pobre realiza-se também na mais profunda obediência. Foi justamente graças à submissão da Sua
vontade a Deus no momento da anunciação que Maria abriu o caminho a Cristo
(cf. IC 7v). Ele mesmo, desde a mais tenra idade, foi submisso aos pais e sempre
seguiu a vontade do Pai (cf. IC 14rv), e justamente isso, segundo o Padre Estanislau, foi a essência da obra da salvação, como afirma em Inspectio cordis: “Cristo
não salvou o mundo porque, tendo deixado o céu, desceu à terra e assumiu a figura de um homem, mas porque, cumprindo a vontade do Pai, foi sacrificado” (IC
162v). Seguiram o caminho da obediência não apenas Jesus e Maria, mas também
Abraão, Isaac e muitos outros. Esse é o caminho mais freqüentado que conduz ao
céu (cf. IC14rv, 133r). A obediência é mais agradável a Deus que os sacrifícios,
visto que – como a exemplo de S. Gregório Magno afirma o nosso Fundador –
nos sacrifícios oferecemos carne alheia, ao passo que na obediência entregamos a
Deus a nossa própria vontade (cf. IC 162r, 30v). Deus não tolera a desobediência,
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que é sinal certo de condenação (cf. IC 37v, 26rv, 39v). O Padre Papczynski considera-a como uma grave deficiência do religioso, como uma espécie de cegueira
e, se a ela se adicionar a falta de oração, tornando-o surdo-mudo, transforma-se
num sinal de iminente e inevitável perdição (cf. IC 75r). A obediência é a mãe
de todas as virtudes, e os dois votos restantes dela dependem (cf. IC 133v, 162r).
Na meditação dedicada a esse voto, o nosso Fundador fornece seis características
do verdadeiro cumprimento da obediência. Devemos cumpri-la de forma especial
(com a máxima perfeição, sem prejuízo, com especial espírito empreendedor,
diligência e exatidão), com amor (por Deus e pelo homem, não pela vanglória ou
pelo pela recompensa temporal), de boa vontade (rapidamente e sem pressões e
insistências, de imediato), coerentemente (sem murmuração, cansaço ou dando
ouvido ao espírito mau), corajosamente (sem fugir das coisas pesadas e difíceis)
e fielmente (exercitado-se com perseverança nessa virtude, extirpando os defeitos
a ela contrários, sem levar em conta a quem és subordinado) (cf. IC 162v-163r).
A obediência é a fonte da felicidade e traz muitas graças: “Pensa que felizes são
aquelas almas que de bom grado assumem o leve jugo da obediência. Com efeito,
ser obediente é o mesmo que voar com asas alheias, que apoiar-se nos ombros de
uma outra pessoa; é o mesmo que permitir ser carregado nos braços de outrem;
é passear sempre por um paraíso muito agradável e embriagar-se com a paz interior; é ter o antegozo do céu já nesta vida terrena; é, finalmente, domar as paixões
e conquistar as virtudes. Como alguém disse, a obediência incute na alma todas
as outras virtudes, vigia as que são incutidas e coroa as que são vigiadas. Ser obediente, enfim, é ser um anjo em corpo humano e um verdadeiro imitador de Cristo
Senhor. Além disso, caminha com mais segurança aquele que dá os passos guiado
por alguém, e é justamente isso que fazem os obedientes. Também não se exporá
a nenhum perigo de perda da salvação nem vai temer isso aquele que entregou
a sua consciência nas mãos de um outro e que se guia pelos julgamentos dessa
pessoa. De tal felicidade gozam os obedientes” (IC 163r; cf. também 143v-144r).
Da mesma forma que em relação aos outros dois votos precedentes, também aqui
o Padre Papczynski está profundamente convencido de que é melhor estar pronto
a morrer do que ser desobediente (cf. IC 40r).
Essa breve apresentação dos pensamentos do Padre Estanislau relacionados
com os três conselhos evangélicos mostra claramente que os votos eram para
ele um dom inestimável, mais caro que a vida. Eram um caminho de liberdade
e de alegria, pelo qual ele buscava a Deus e procurava a semelhança com Cristo
Crucificado e Ressuscitado; o lugar onde morria o homem velho e nascia o novo,
que vivia segundo o Espírito. Ele escolheu esse caminho de todo o coração, sem
reconhecer a esse respeito nenhum tipo de concessões ou transigências. Por esse
caminho chegou ao céu. No entanto as coisas não precisam ser necessariamente
assim. A consagração religiosa não garante de forma automática a participação no
reino do céu. Como qualquer dom do Espírito, exige a aceitação e a cooperação.
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Ela pode ser rejeitada ou desperdiçada e, no lugar da esperada justificação, trazer
a sentença condenatória. Isso é manifesto no caso de uma evidente transgressão dos votos, mas parece ser possível igualmente sem uma drástica violação do
direito canônico e das constituições religiosas. Podemos adoçar essa “biga de
Elias” com a nossa própria covardia e, em vez de corcéis de fogo, sermos conduzidos pela terra pelo matungo do nosso egoísmo. A partir de autorizações gerais
e presumidas, de variados “engajamentos” e cargos, de manipulações psíquicas
e chantagens emocionais podemos construir um muro que deterá a obediência na
epiderme da nossa vida. Podemos transformar a pobreza, que devia depositar-nos
nas mãos de Deus e permitir a experiência do seu amoroso desvelo, numa satisfeita estagnação. Podemos fazer da castidade um bem-conservado egoísmo, privado
dos sentimentos dos relacionamentos profundos, revestido dos enganosos trajes
da piedade. Dois são os caminhos, inclusive para aqueles que professaram os votos: um conduz à vida e o outro – à perdição. Qual deles estás trilhando? Será com
certeza aquele pelo qual caminhou o Padre Estanislau?
TEXTOS PARA MEDITAÇÃO
Texto bíblico básico: Sl 116, 12-19
[...] 12 Que retribuirei ao SENHOR
por todo o bem que me deu?
13 Erguerei o cálice da salvação
e invocarei o nome do SENHOR.
14 Cumprirei meus votos ao SENHOR
diante de todo o seu povo.
15 É preciosa aos olhos do SENHOR
a morte dos seus fiéis.
16 SENHOR, sou teu servo,
sim, sou teu servo, filho de tua serva:
quebraste as minhas cadeias.
17 Vou te oferecer um sacrifício de louvor
e invocarei o nome do Senhor.
18 Vou cumprir minhas promessas ao SENHOR
diante de todo o seu povo,
19 nos átrios da casa do SENHOR,
no meio de ti, Jerusalém.
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Referências bíblicas para o aprofundamento da leitura do texto
versículo 13: 1Cor 10, 14-21; Sl 16, 5-11; Sl 23, 5-6; Sl 105, 1-3;
versículo 14: Sl 66, 13-14; Sl 22, 24-27; Sl 50, 14-15;
versículo 15: Is 43, 1-7; Sl 72, 12-15; Sl 97, 10-12;
versículo 16: Sl 86, 14-17; Sl 107, 14-16; Sl 143, 11-12; Sb 9, 4-6; Lc 1, 38.48;
versículo 17: Lv 7, 11ss; Sl 50, 14-15; Sl 107, 22;
versículo 19: Sl 96, 8; Sl 135, 2.
Outros textos bíblicos relacionados com o tema
Mt 5, 1-16
1 Vendo as multidões, Jesus subiu à mon-tanha e sentou-se. Os discípulos
aproximaram-se, 2 e ele começou a ensinar: 3 “Felizes os pobres no espírito,
porque deles é o Reino dos Céus. 4 Felizes os que choram, porque serão consolados. 5 Felizes os mansos, porque receberão a terra em herança. 6 Felizes os
que têm fome e sede da justiça, porque serão saciados. 7 Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. 8 Felizes os puros de coração, porque
verão a Deus. 9 Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos
de Deus. 10 Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles
é o Reino dos Céus. 11 Felizes sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem
e, mentindo, disserem todo mal contra vós por causa de mim. 12 Alegrai-vos e
exultai, porque é grande a vossa recompensa nos céus. Pois foi deste modo que
perseguiram os profetas que vieram antes de vós. 13 “Vós sois o sal da terra.
Ora, se o sal perde seu sabor, com que se salgará? Não servirá para mais nada,
senão para ser jogado fora e pisado pelas pessoas. 14 Vós sóis a luz do mundo.
Uma cidade construída sobre a montanha não fica escondida. 15 Não se acende
uma lâmpada para colocá-la debaixo de uma caixa, mas sim no candelabro,
onde ela brilha para todos os que estão em casa. 16 Assim também brilhe a
vossa luz diante das pessoas, para que vejam as vossas boas obras e louvem o
vosso Pai que está nos céus.
Sl 56, 9-14
[...] 9 Contaste os passos da minha caminhada errante, minhas lágrimas
recolhes no teu odre; acaso não estão escritas no teu livro? 10 Então vão recuar meus inimigos, quando eu te invocar, sei que Deus está do meu lado. 11 Em
Deus, cuja promessa eu louvo, no SENHOR, cuja promessa eu louvo, 12 em Deus
confio, não temerei: o que um homem me pode fazer? 13 Mantenho, ó Deus, os
votos que te fiz: vou te render ações de graças, 14 porque me livraste da morte,
preservaste meus pés da queda, para que eu caminhe na presença de Deus, na
luz dos vivos.
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Rm 6, 3-11
[...] 3 Acaso ignorais que todos nós, batizados no Cristo Jesus, é na sua
morte que fomos batizados? 4 Pelo batismo fomos sepultados com ele em sua
morte, para que, como Cristo foi ressuscitado dos mortos pela ação gloriosa do
Pai, assim também nós vivamos uma vida nova. 5 Pois, se fomos, de certo modo,
identificados a ele por uma morte semelhante à sua, seremos semelhantes a ele
também pela ressurreição. 6 Sabemos que o nosso homem velho foi crucificado
com Cristo, para que seja destruído o corpo sujeito ao pecado, de maneira a não
mais servirmos ao pecado. 7 Pois aquele que morreu está livre do pecado. 8 E,
se já morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele. 9 Sabemos
que Cristo, ressuscitado dos mortos, não morre mais. A morte não tem mais poder
sobre ele. 10 Pois aquele que morreu, morreu para o pecado, uma vez por todas,
e aquele que vive, vive para Deus. 11 Assim, vós também, considerai-vos mortos
para o pecado e vivos para Deus, no Cristo Jesus.
1Cor 1, 22-31
[...] 22 Pois tanto os judeus pedem sinais, como os gregos buscam sabedoria. 23 Nós, porém, proclamamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e
loucura para os pagãos. 24 Mas para os que são chamados, tanto judeus como
gregos, Cristo é poder de Deus e sabedoria de Deus. 25 Pois o que é loucura de
Deus é mais sábio que os homens e o que é fraqueza de Deus é mais forte que
os homens. 26 De fato, irmãos, reparai em vós mesmos, os chamados: não há
entre vós muitos sábios de sabedoria humana, nem muitos poderosos, nem muitos
de família nobre. 27 Mas o que para o mundo é loucura, Deus o escolheu para
envergonhar os sábios, e o que para o mundo é fraqueza, Deus o escolheu para
envergonhar o que é forte. 28 Deus escolheu o que no mundo não tem nome nem
prestígio, aquilo que é nada, para assim mostrar a nulidade dos que são alguma
coisa. 29 Assim, ninguém poderá gloriar-se diante de Deus. 30 É graças a ele que
vós estais em Cristo Jesus, o qual se tornou para nós, da parte de Deus, sabedoria, justiça, santificação e libertação, 31 para que, como está escrito, “quem se
gloria, glorie-se no Senhor”.
1Pd 1, 3-9
[...] 3 Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Em sua grande misericórdia, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, ele nos fez
nascer de novo para uma esperança viva, 4 para uma herança que não se desfaz,
não se estraga nem murcha e que é reservada para vós nos céus. 5 Graças a fé,
e pelo poder de Deus, estais guardados para a salvação que deve revelar-se nos
últimos tempos. 6 Isso é motivo de alegria para vós, embora seja necessário que
no momento estejais por algum tempo aflitos, por causa de várias provações.
7 Deste modo, o quilate de vossa fé, que tem mais valor que o ouro testado no
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fogo, alcançará louvor, honra e glória, no dia da revelação de Jesus Cristo. 8 Sem
terdes visto o Senhor, vós o amais. Sem que agora o estejais vendo, credes nele.
Isto será para vós fonte de alegria inefável e gloriosa, 9 pois obtereis aquilo em
que acreditais: a vossa salvação.
OS ATUAIS ESTATUTOS MARIANOS
O tema dos votos religiosos é uma das questões básicas abordadas pelos nossos estatutos. A cada um dos três conselhos evangélicos é dedicado um capítulo
das Constituições. Os votos têm a sua fonte na consagração batismal e o seu objetivo é a imitação de Jesus e da Imaculada. A sua fundamentação básica deve ser
o amor de Deus e a vontade de consagrar-se inteiramente ao serviço da Igreja.
A vida de um mariano que cumpre os votos professados é também um sinal do
reino celestial para o mundo. Veja
Votos em geral – Constituições: 21, 22, 77, 173, 221;
21 A santidade da Igreja de Cristo aparece e se fortifica de modo especial na
observância dos conselhos evangélicos que, sendo fundamentados nas palavras
e exemplos do Senhor, são recebidos pelos membros com gratidão e são usados
como meios eficazes para a purificação do coração, para conseguir a semelhança
no amor com Cristo e também com Maria Imaculada. Portanto, a vida deles apareça no mundo como sinal do Reino celeste, que pode e deve atrair eficazmente os
outros cristãos a cumprirem diligentemente os deveres da própria vocação. [LG
44]
22 Os votos públicos, pelos quais os membros se obrigam, na profissão, à
prática dos conselhos evangélicos, tornam mais firme e estável a sua consagração,
já feita a Deus e à Igreja pelo batismo e, ao mesmo tempo, constituem vínculos
pelos quais os professos se unem em fraterna caridade à comunidade de toda a
Congregação. Impelidos por essa caridade não somente devem observar fielmente
os votos evangélicos que fizeram, mas também ordenar toda a sua vida interior e
exterior conforme o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, e conforme as leis
da própria Congregação, e assim tender à perfeição de seu estado. [CM 161; CDC
598/2]
77 Os membros não menosprezem o piedoso exercício de renovar frequentemente os votos feitos. Solenemente e em comunidade renovem os seus votos na
festa da Imaculada Conceição da Bem-aventurada Virgem Maria; cada um, em
particular, ao menos todas as vezes que fazem o retiro mensal. [CM 251]
173 A profissão religiosa é um ato pelo qual o membro, mediante um voto
público, assume a observância dos três conselhos evangélicos de castidade, po152
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breza e obediência e consagra-se todo, de maneira peculiar, a Deus sumamente
amado e, por causa de Deus, entrega-se à Igreja de Cristo e na Igreja à Congregação, com direitos e deveres determinados pela lei. A Congregação, por sua vez,
recebe firmemente esta entrega, em nome da Igreja, com a obrigação de ajudar e
sustentar o professo no caminho de sua vocação e tratá-lo e dele se servir conforme sua índole. [CM 83; CDC 654]
221 Os superiores se esforcem por ajudar os membros para que saibam conjugar a humildade e perfeita obediência com a iniciativa própria. [DE 25 I 1911]
Castidade – Constituições: 39-42.
39 Pelo voto de castidade os membros se obrigam a uma vida no celibato e
na perfeita continência por causa Do reino dos Céus, para que sejam mais inflamados na caridade para com Deus e para com os homens, e para que se dediquem
com entusiasmo ao serviço de Deus e às obras de apostolado. [Mt 19,22; CM 214;
PC 12]
40 A castidade consagrada a Deus deve ser muito estimada em toda a Congregação e cultivada como dom precioso da graça divina sempre honrado na Igreja,
pelo qual os membros se tornam, em íntima união com Cristo e a sua Virgem Mãe,
um sinal vivo daquele mundo futuro, já presente pela fé e pela caridade, no qual
os filhos da ressurreição não se casam nem se dão em casamento. [Lc 20,35-36;
PO 16]
41 Os membros poderão tanto perseverar e crescer na castidade quanto seguirem a Cristo como o único necessário e, conjugando a contemplação das coisas
divinas ao zelo apostólico, fomentarem o amor a Deus. [Lc 10,42; PC 5]
42 Visto que a observância da continência perfeita atinge intimamente as inclinações mais profundas da natureza humana, vigiem os superiores e os educadores para que os candidatos não se aproximem à profissão da castidade e sejam
admitidos, senão após uma prova verdadeiramente suficiente e com a devida maturidade psicológica e afetiva. Durante o tempo da formação, os alunos sejam
convenientemente instruídos sobre a doutrina da Igreja a respeito da excelência da
castidade evangélica e da dignidade do matrimônio, sob o aspecto teológico, psicológico, social e pastoral, para que assumam o celibato consagrado a Deus como
um bem tanto da integridade da pessoa, quanto da ação apostólica. [PC 12]
Castidade – Diretório: 2-6.
2. Os membros não somente são obrigados a amar profundamente a vida casta, mas também, confiando no auxílio de Deus e na intercessão da Imaculada
Virgem Maria, a evitar, com todo o esforço e diligência, tudo aquilo que possa
empanar, manchar e ofuscar seu esplendor, e a empregar os meios oportunos para
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a guardar Integra e perfeitamente, de modo a apresentarem seus corações e seus
corpos como hóstia viva, santa o agradável a Deus Não omitam também os meios
naturais que favorecem a saúde da alma e do corpo. (C.41)
3. Os membros sejam solícitos em observar, proteger e cultivar a castidade
evangélica; para o que grandemente ajudarão: a contínua mortificação do corpo,
dos sentidos, da imaginação, a contínua guarda dos afetos e da mente, a fuga das
ocasiões e do ódio, a modéstia e do pudor, a constante oração a Deus, a assídua
recordação da sua presença, a freqüente santa comunhão, a ardente invocação à
Imaculada Virgem Maria, ao Anjo da Guarda, a São José, e nas tentações e nos
perigos, o confiante refúgio ao próprio Salvador Jesus Cristo e às suas santas
chagas. (C.42)
4. Os membros evitem o demasiado cuidado do próprio corpo e qualquer sua
efeminação, sobretudo a liberdade dos olhos e as desenfreadas divagações da imaginação, o indistinto uso dos meios de comunicação que poderia colocar a castidade em perigo; igualmente todo o afeto desordenado, toda a incauta e mais ainda
perigosa conversa, as diversões e leituras, as visitas e diálogos supérfluos e inúteis
e mais ainda ociosos, os sinais particulares de afetuosidade e a demasiada familiaridade, sobretudo com as pessoas de outro sexo, e também tudo aquilo que possa
ter a aparência do mal ou escândalo, causar detrimento ao bom nome, ou suscitar
suspeitas junto dos seculares, que nisto facilmente se escandalizam. (C.42
5. Pela profissão da castidade os membros não somente se consagram totalmente a Deus, a Jesus Cristo e à sua Igreja, mas também se ligam pelo vinculo da
família religiosa. Lembrem-se todos, principalmente os superiores, de que a castidade se guarda com mais segurança quando entre os membros reina verdadeira
caridade fraterna na vida comum e quando se conserva o espírito de família e de
amizade. (C.42
6. A verdadeira caridade religiosa impõe a obrigação de, em qualquer caso de
perigo externo que possa ameaçar a virtude da castidade de algum confrade, ou
por motivo dele ameaçar a virtude de qualquer outra pessoa, esse membro seja
advertido com seriedade e, se isso não bastar, sejam informados os superiores.
Os superiores, levados pela mesma caridade, opõem-se ao mal sem demora com
remédios oportunos e eficazes e quanto antes impeçam todo o escândalo, mesmo
o mais pequeno. (C.42)
Pobreza – Constituições: 43-53;
43 Os membros tenham em grande apreço a pobreza evangélica, que é a participação e o testemunho da pobreza de Cristo perante o mundo. Seguindo a Cristo que por nós se fez pobre, e Maria que ocupa o primeiro lugar entre os humildes
e pobres do Senhor, os membros, depois de ter abandonado as coisas terrenas e
excluído todo o desejo desordenado delas, procurem com mais avidez o reino de
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Deus. Na verdade, “bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus.” (Mt 5,3) [2Cor 8,9; CM 220; LG 42,55; PC 13]
44 Aderindo somente a Deus e confiando na sua bondade e providência, os
membros estejam satisfeitos com o necessário e alegrem-se quando lhes acontecer
experimentar de fato a pobreza e as privações. Afastem longe de si toda a espécie de avareza; nada usem como coisa própria; não conservem consigo nenhuma
coisa supérflua; sejam inclinados, quanto o permite a santa discrição, a preferir as
privações à abundância e a escolher para si as coisas inferiores para o uso. Lembrem-se sempre que, para a verdadeira pobreza, não é suficiente submeter-se aos
superiores no uso dos bens, mas importa que sejam pobres na realidade e no espírito, possuindo os tesouros no Céu. [Mt 19,21; Lc 12,33; CM 233-235; PC 13]
45 Pelo voto de pobreza os membros renunciam ao direito de dispor licitamente de qualquer coisa temporal que tenha valor material, sem licença dos legítimos superiores. [CM 221; CDC 600]
46 Todo professo, quer de votos perpétuos, quer de votos temporários, conserva a propriedade de seus bens e a capacidade de adquirir outros por título
legítimo, mas sem a possibilidade de ajuntar os seus frutos ao seu patrimônio.
Todavia, todos os professos, que pela força do voto de pobreza abdicam da livre
administração dos seus bens, cedam esta antes da primeira profissão a quem preferirem e disponham livremente do uso e usufruto destes bens. Antes da profissão
perpétua, devem fazer o testamento, válido também perante a lei civil, com respeito aos bens adquiridos ou a adquirir. [CM 77, 79, 221, 222; CDC 668/1]
47 Os professos não podem mudar arbitrariamente a cessão de administração
dos bens, nem a disposição do uso e usufruto deles, nem o testamento (dos quais
fala o C. 46), mas somente com a licença do superior maior e por justa causa. [CM
225, 226; CDC 668/2]
48 Os membros de votos perpétuos podem, com o consentimento do superior
geral e do seu conselho, renunciar inteiramente aos seus bens patrimoniais adquiridos ou a adquirir, de preferência em favor dos pobres, para que assim apoiados
na exortação evangélica possam mais de perto seguir a Cristo. [Mt 19,21; PC 13;
ES II, 24; CDC 668/4]
49 Tudo o que é adquirido pelo professo, por atividade própria, como remuneração de trabalho, ou dádiva oferecida e legitimamente aceita em consideração
à comunidade, ou de obra pertencente à comunidade é adquirido em proveito da
Congregação. Também aquilo que os membros ganham como aposentadoria, subvenção e seguro, pertence à Congregação. [CM 222-224; CDC 668/3]
50 Além da pobreza individual dos membros, a própria Congregação, tendo
em consideração a situação de cada lugar, procure dar um como que testemunho
coletivo de pobreza. Evitando toda a espécie de luxo, de lucro imoderado e de
acumulação de bens, contribuam com alguns dos próprios bens para as demais
necessidades da Igreja e o sustento dos pobres, que, por mandamento evangélico
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e advertência dos Apóstolos, os membros devem amar não com palavras e com a
língua, mas sim com obras e na verdade. [Mt 19,21; 25,34-36; 1Jo 3,18; PC 13]
51 Como convém às pessoas que professam a pobreza, no cuidado e manutenção dos utensílios comuns, nas coisas que lhes forem concedidas para o seu
uso, empreguem a devida diligência para conservá-las integralmente, limpamente
e, quanto possível, por muito tempo, procurando, por um lado, prudentemente em
tudo a parcimônia, e por outro, evitando a sórdida avareza; os ornamentos da sua
pobreza sejam em tudo a ordem, a limpeza, o brilho, o religioso meio termo e a
simplicidade, e principalmente uma sensibilidade cristã e beneficência para com
todos os indigentes. [CM 238]
52 Os superiores procurem com paterna solicitude que se satisfaçam suficientemente, quanto for possível, as justas necessidades dos membros, sem favoritismos, de acordo com a idade, saúde, cargos e outras condições de cada um. Ouçam
de boa vontade os pedidos e propostas dos membros, recebam de cada um a devida prestação de contas do uso do dinheiro e da administração de outros bens; mas
nas suas decisões e licenças, sobretudo gerais, acerca das coisas concedidas para
o uso dos membros, vigiem para que não se introduza neles algo de contrário à
própria pobreza, ao bem comum ou à índole e finalidades da Congregação. [CM
237, 286]
53 Todo o dinheiro e todos os títulos sejam depositados na caixa comum;
proíbe-se a disposição pessoal e livre do dinheiro; nem é lícito aos superiores
permiti-la ou tolerá-la. Permite-se a cada membro ter consigo uma pequena importância de dinheiro para os eventuais gastos, com a obrigação de prestar contas
aos superiores. [CM 238]
Pobreza – Diretório: 7-15;
7. Geralmente não é lícito aos membros, a seu arbítrio, sem a licença dos legítimos superiores, possuir qualquer coisa temporal ou conservá-la consigo, por
qualquer razão, quer junto de si, quer junto dos outros, administrá-la, usá-la, dispor dela, aliená-la de qualquer maneira, receber, emprestar, trocar, transformar,
dispensar. (C.45)
8. Os membros procurarão obter, para todos aqueles atos, a licença especial
dos legítimos superiores; mas para alguns deles podem obter licença geral por
certo tempo. (C.45)
9. Nos casos mais urgentes e imprevistos, basta mesmo a licença presumida,
na qual qualquer membro pode descansar, tendo antes ponderado o assunto maduramente diante de Deus; do que, depois faça ciente o superior. (C.45)
10. Tudo o que os membros recebem deve se considerar como dado à Congregação a não ser que se prove o contrário. Se, porém, esta patente que algo foi
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doado para o membro e para seu uso, pode-se respeitar tal intenção do doador,
mas somente no espírito da nossa pobreza. (C.49)
11. A doação ou oferta de maior import9ncia feita à Igreja ou comunidade, ou
na intenção de ambas não se pode recusar, a não ser por justa causa aprovada pelo
superior maior. Contudo os membros não procurem obter demasiadas doações.
Procurem adquirir com o próprio trabalho as coisas necessárias para o sustento e
para as obras. Os donativos legitimamente confiados a um membro para causas
pias não pertencentes à Congregação, sejam gastos fielmente, segundo a intenção
do doador. (C.49)
12. Os membros, não obstante o voto de pobreza, podem realizar atos jurídicos de propriedade prescritos pela lei civil, com a licença dos legítimos superiores. (C.49)
13. Aquele que é transferido de uma casa para outra, além dos pertences que
são de estrito uso pessoal, não leve nada consigo, a não ser aquilo que o superior,
tendo em consideração as circunstancias, permitir. (C.49)
14. As casas e províncias repartem entre si os bens temporais, de tal maneira que aqueles que mais possuem ajudem aqueles que passam por necessidades;
demonstrando a consagração religiosa, procurem elas mesmas viver antes com
pequena quantia de dinheiro não visando maiores rendimentos, provenientes do
trabalho ou de outra fonte. (C.50)
15. Em tempo oportuno apresente-se às considerações comuns dos membros
o orçamento, isto é o cálculo de receita e despesa a serem efetuadas, a situação
econômica da casa e também o modo de fazer os gastos para o sustento dos membros. Todos devem querer e vigiar para que na nossa convivência com os outros
seja observado um profundo senso de justiça e de caridade social, e para que não
se procurem privilégios especiais, devidos ao nosso estado. (C.60)
Obediência – Constituições: 54-64.
54 Os membros já consagrados a Deus pelo batismo, pelo voto de obediência evangélica, sob a moção do Espírito Santo, oferecem de modo especial, a
oblação plena da própria vontade a Deus, como sacrifício de si mesmos, unindose deste modo mais constante e seguramente à vontade salvífica de Deus. [CM
194; PC 14]
55 Assim como Jesus Cristo nosso Senhor e Mestre não veio a este mundo
para fazer a sua vontade, mas sim a vontade do Pai, e “assumiu a condição do
servo” (Fl 2,7), pela sua submissão ao Pai serviu aos irmãos e entregou sua vida
pela redenção de muitos, assim também os membros se submetem na fé aos superiores, que fazem as vezes de Deus e, por eles são conduzidos ao serviço de todos
os irmãos em Cristo. [Mt 20,28; CM 195; PC 14]
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56 Na imitação da vida do Senhor Jesus e na participação do mistério da redenção, os membros tenham diante dos olhos a Virgem Maria, a humilde Serva do
Senhor, que é na Igreja modelo da perfeita união com Cristo; com efeito servindo
subordinada a Ele e com Ele ao mistério da redenção, tornou-se pela obediência
causa da salvação, para si e para todo o gênero humano. [Lc 1,38.48; LG 56,63]
No serviço da Igreja
57 Submissos ao governo universal do Sumo Pontífice, a quem devem obedecer também em força do voto da obediência, e também submissos à autoridade
pastoral dos bispos, os membros estejam persuadidos de que assim se ligam mais
fortemente ao serviço da Igreja e correspondem intimamente à própria vocação
apostólica. [CM 484; 448; LG 45]
58 Pelo voto de obediência os membros, em espírito de fé e de amor à vontade
de Deus, assumem a obrigação de cumprir as ordens e disposições dos legítimos
superiores, naquelas coisas que dizem respeito à vida religiosa na Congregação,
segundo as suas leis. [CM 196, 199; PC 14]
59 Os membros dependerão com docilidade dos superiores no que diz respeito: à ordem dos exercícios de piedade e das ocupações, aos cargos e ofícios,
à relação com os externos, às mortificações públicas, aos estudos das letras, à
aceitação de algum ministério de maior importância, na própria Congregação ou
fora dela. [CM 202; CDC 671]
60 Esforcem-se os membros por reconhecer em seus superiores ministros da
comunidade fraterna, enquanto lhes prestam humildemente veneração segundo a
norma das Constituições. Estimem muitíssimo a obediência ativa e responsável
como a principal razão da unidade, solidariedade e vigor da Congregação. [CM
194, 207, 210; PC 14]
61 Não queiram ver quem é aquele a quem obedecem, mas antes quem é
aquele por causa do qual devem prestar perfeita obediência, isto é, Jesus Cristo, Filho de Deus, “feito obediente até a morte e morte na cruz” (Fl 2,8); façam
sua aquela expressão do Santo Apóstolo: “Servindo-os não quando vigiados, para
agradar a homens, mas como servos de Cristo que diligenciam por fazer a vontade
de Deus.” (Ef 6,6-7) [CM 208]
62 Os superiores, que hão de prestar conta das almas que lhes foram confiadas, procurem primeiro, eles mesmos conhecer bem e amar a vontade de Deus,
que em espírito de serviço fraterno devem transmitir aos outros, diga ela respeito
tanto à Congregação inteira, como a cada um dos membros a quem presidem.
[Hbr 13,17; DE I 1911; PC 14]
63 Seguindo as pegadas do Divino Mestre e Bom Pastor, e participando do
maternal afeto da Virgem Imaculada, os superiores dirijam a comunidade com
respeito, tanto pela pessoa humana, quanto pela dignidade cristã de cada um dos
membros, promovendo neles, com a palavra e com o próprio exemplo, a obediência voluntária e a solicitude pelo bem comum. Esforcem-se, num espírito de
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discreta igualdade e benevolência, em tratar a todos como companheiros e irmãos,
a fim de que exprimam desse modo a caridade com a qual Deus nos ama, e estimulem seus corações e suas mentes a pagar a Deus amor com amor num serviço
fiel. [CM 213; PC 14] Formação
64 Todos os membros sejam formados, desde o início da vida religiosa, no
espírito da obediência ativa e responsável, a fim de que com ela, tanto como superiores, quanto como membros de qualquer comunidade, conselho ou capítulo,
estejam prontos e idôneos, a cooperar colegialmente no vínculo da caridade, para
o bem da Congregação e de toda a Igreja. [DE 17 XI 1910, 25 I 1911, 7 III 1911;
PC 14]
Obediência – Diretório: 16-24.
16. A ordem é formal, isto é, impõe obrigação grave se como tal é dada expressamente pelo superior geral ou provincial com o consentimento dos seus
conselheiros, por escrito, ou ao menos perante duas testemunhas; os superiores,
porém, mandem rara, cautelosa e prudentemente em virtude da ordem formal, e
só por causa grave. (C.58)
17. Na medida do possível cumpram perfeitamente, tanto quanto à coisa e ao
modo, como quanto à intenção da mente, as ordens dos superiores e igualmente
às prescrições das Constituições e outras leis da Igreja e Congregação, sempre visando a sua finalidade e espírito e não só a letra “pois a letra mata, mas o espírito
comunica a vida”. (2Cor 3,6). (C.60)
18. Cada um procure assumir e cumprir diligentemente sem recusa, os cargos
e ofícios que lhe foram legitimamente confiados, como “boas obras que Deus já
antes tinha preparado para que nelas andássemos” (Ef 2,10). Acontecendo, porém,
que a alguém sejam impostas coisas demasiadamente pesadas, ou se alguém achar
que algo é nocivo a ele ou a outros, ou se precisar de algum auxílio, ou a mesma
ordem carecer de fundamento adequado, manifeste isso com respeito e humildade
ao superior, aceitando com submissão o que o superior dispuser. (C.60)
19. Os membros cuidem para não fazer ou dizer algo contra os superiores, ou
reprovar seus atos ou disposições, com escândalo dos demais. (C.60)
20. A seu tempo exponham espontaneamente aos superiores as informações,
considerações, conselhos e intenções úteis para promover a gl6ria de Deus e o
bem do próximo, a fim de que eles possam dirigir melhor toda a atividade da
comunidade. (C.60)
21. O membro a quem o superior imediato tenha negado alguma coisa, pode
recorrer a um superior de grau mais elevado, fazendo, porém, menção da recusa e
expondo as razões do recurso. O superior, a quem recorreu, não conceda o favor,
sem antes ter consultado o superior anterior. (C.60)
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22. A ninguém é lícito ambicionar ou procurar obter quer diretamente ou indiretamente, alguma promoção na Congregação ou alguma dignidade ou cargo fora
da Congregação. Cada um está obrigado a recusar cargos eclesiásticos ou seculares que lhe forem oferecidos, a não ser que pelo superior maior e seu conselho,
por graves razões, seja obrigado a aceitar. (C.60)
23. No governo da família de Deus os superiores tenham diante dos olhos a
índole e a missão da pr6pria comunidade na Igreja. Procurem examinar com cuidado as capacidades dos membros, seus dotes, as necessidades e as dificuldades,
segundo as circunstancias do tempo e lugar, e estabeleçam um fraterno diálogo
para ouvir as opiniões dos membros, sobre os assuntos da comunidade. (C.63)
24. Conscientes de que podem errar, os superiores tenham sempre diante dos
olhos, a doutrina do Evangelho e da Igreja e as prescrições das Constituições;
examinem bem, no Senhor, os motivos e as razões das disposições e, na medida
do possível, dêem-nas a conhecer aos membros; na execução do dever que lhes foi
confiado, de acordo com a maturidade e capacidade de cada membro, dêem-lhe
com prudência, a liberdade conveniente. Contudo lembrados da responsabilidade
diante de Deus e da Congregação empreguem a fortaleza necessária para resolver
e ordenar aquilo que deve ser executado. (C.63)
PROPOSTAS DE PERGUNTAS PARA REFLEXÃO OU PARTILHA
1. Quando, na história da tua vocação religiosa, vivenciaste mais fortemente a
profissão dos conselhos evangélicos como aliança de íntimo amor com Deus?
Qual é a tua atual experiência a esse respeito?
2. Qual das categorias abaixo do relacionamento inter-humano mais corresponde à tua atual vivência dos votos: o noivado, o matrimônio recente, o matrimônio adulto, a rotina matrimonial ou o celibato adulto?
3. Será que vivencias os teus votos na perspectiva pascal? Como a prática dos
conselhos evangélicos mergulha em ti novamente no mistério da morte e da
ressurreição de Cristo?
4. Até que ponto aprecias o dom da castidade? Ela é para ti um lugar de encontro
com Deus e de Sua contemplação?
5. Como vivencias os pecados contra a castidade? Consideras aqui adequada a
definição “sacrilégio”? Será que lutas contra os “saqueadores da castidade” e
como o fazes? De que meios auxiliares te utilizas para a preservar? Será que
se encontra entre eles a ardente oração ao Espírito Santo, a Nossa Senhora e
a outros padroeiros?
6. O teu tesouro se encontra onde está o teu coração. O que o relacionamento
com os bens materiais te diz a respeito do teu coração? Até que ponto é um
sinal de amor Àquele que nasceu, viveu e morreu na pobreza?
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7. Será que o interior e o mobiliário da tua cela testemunha que reside nela alguém que renuncia às coisas supérfluas e dispensáveis?
8. Até que ponto vivencias o voto da obediência como “doce jugo” que inscreve
a tua vida no centro do mistério da salvação e ata o teu destino ao destino de
Cristo?
9. Quais das formas de praticar a obediência mencionadas pelo Padre Estanislau
(devemos cumpri-la de maneira especial, com amor, de bom grado, coerentemente, corajosamente e fielmente) é para ti a mais próxima, e qual a mais
difícil?
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CONFERÊNCIA XII
RADICALISMO CRISTÃO
O radicalismo não tem hoje uma boa fama. Em tempos de pluralismo, liberalismo e correção política, não convém ser radical. Entram nos salões deste mundo
aqueles que são capazes de levar uma vida despreocupfolgada, que não tratam os
princípios morais com muita seriedade e em nome da boa convivência são capazes até deixar passar despercebido um grave mal. Afinal o radicalismo, na opinião
geral, é parente próximo do fundamentalismo, e tal relacionamento é suficiente
para torná-lo suspeito aos olhos do mundo. No entanto o sadio radicalismo está
necessariamente inscrito no cristianismo. São os violentos que se apoderam do
Reino de Deus (cf. Mt 11, 12), ao passo que o cristão tíbio provoca em Jesus ânsia
de vômito (cf. Ap 3, 16). Se quiséssemos remover da Bíblia todos os trechos que
estimulconvidam à luta intransigente contra o pecado e à ardente busca de Deus,
teríamos de arrancar dela a maioria das páginas, a começar pelo sermão da montanha. Uma operação semelhante, visando a remover o radicalismo das regras e das
constituições religiosas, faria com que em nossas mãos permanecessem apenas os
capítulos sobre a estrutura e a administração, senão apenas as cappáginas desses
respeitáveis documentos. A vida religiosa que não busca o “mais”, o “profundamente”, o “inteiramente” é uma vida desperdiçada. À estação “santidade” não
chegou ainda e não chegará jamais o trem puxado pela locomotiva das concessões, da tibieza e da mediocridade. Os próprios procedimentos legais da Igreja
mostram que ninguém pode ser elevado aos altares sem o heroísmo das virtudes
oficialmente confirmado através de um decreto, o que na realidade é a confirmação de que o candidato viveu o cristianismo de forma radical.
O Padre Estanislau Papczynski possui o seu decreto sobre o heroísmo das
virtudes, e sem dúvida foi um homem em quem ardia o fogo. Basta ler um trecho
qualquer da sua biografia ou um parágrafo das suas obras para nos convencermos
de que nele residia um espírito ardente. Quando buscava a vida religiosa, queria
seguir esse caminho até o fim, sem levar em conta as dificuldades ou a má-vontade dos coirmãos, tanto nas Escolas Pias como no eremitério de Korabiewice.
Queria entregar a Cristo a vida toda, não apenas um pedaço dela, e não voltou
atrás nem diante da perspectiva do martírio, apresentando a cabeça para ser cortada pela espada sueca. Querendo defender a verdade a respeito da Imaculada
Conceição da Santíssima Virgem Maria, não promete escrever algumas conferências e pregar sermões, mas promete fazer tudo, inclusive derramar o próprio
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sangue, e toda a sua vida faz crer que ele o teria feito sem hesitar. Em todos os
aspectos da vida religiosa, do serviço a Deus e aos homens, o nosso Fundador
é um inimigo intransigente de qualquer preguiça ou indolência: “Livra-te, portanto, de toda apatia e negligência e põe-te a trabalhar! Por que te entregas à
inatividade? Por que cedes à fraqueza? Os filhos deste mundo, com o objetivo
de alcançar bens passageiros, atravessam inúmeros mares, expõem-se a muitos
perigos, suam dia e noite, arriscam-se a tantas situações perigosas, enfrentam
tantos trabalhos e sofrem tantos incômodos apenas para poder sustentar esta
vida mortal. E tu, que és o filho da luz, negligenciarás os bens eternos? Não te
empenharás por alcançar a vida eterna empreendendo as diligências para isso
necessárias? És indolente? Pois fica sabendo que o Reino dos Céus sofre violência dos que querem entrar, e violentos se apoderam dele (cf. Mt 11, 12). Fazem
isso os heróis, não os asnos, não os preguiçosos, mas as pessoas laboriosas!” (IC
24r). O Padre Papczynski pertenceu ao número daqueles que nunca permanecem
parados. Queria seguir sempre adiante no caminho da fé. Incessantemente queria
estar mais perto de Deus, fazer penitência com mais zelo e amar com mais ardor.
A sonolência espiritual e a preguiça são algumas das enfermidades religiosas por
ele mais estigmatizadas. Muitas vezes se repete em seus escritos a exclamação
“levanta-te!” (cf. IC 49r, 50v, 58rv, 76v, 87v, 91r, 97r, 101r, 102v, 128v, 135r,
146v, 151r), com a qual deseja arrancar os irmãos da indolência do espírito e estimá-los a um amor mais ardente. Devemos todos os dias tomar esse caminho e,
de acordo com o desejo do nosso Fundador, antes correndo com todas as forças
do que arrastando-nos devagar, para não suar.
Ao falarmos do radicalismo na vivência do cristianismo por parte de uma
pessoa concreta, deparamo-nos com uma dificuldade especial. Com efeito, os traços característicos dessa postura – o fervor, a intransigência, o heroísmo – não
constituem uma virtude singular que possa ser analisada separadamente, como
por exemplo a pobreza ou a obediência. Trata-se antes de uma forma de praticar
todas as virtudes. Também na vida do Padre Estanislau todos os caminhos por
ele trilhados são íngremes, e toda porta que ele escolhe é estreita. Por isso, uma
apresentação completa do radicalismo do nosso Fundador teria de levar em conta
quase tudo que o Beato fez e escreveu. Parece que não há sentido em provar ou
convencer alguém de que o Padre Papczynski vivenciou o cristianismo de forma
radical, o que seria escancarar uma porta aberta, mais ainda – aberta pública e
solenemente pela Igreja no momento da beatificação. No entanto vale a pena examinar mais de perto três manifestações selecionadas na realização da sua vocação
cristã e religiosa que estiveram presentes na vida do Padre Estanislau e que – ao
que parece – muitas vezes nos faltam hoje: a mudança dos costumes, a renúncia
ao mal e a escolha de Deus feita de todo o coração. São elas, no meu entender,
especialmente importantes e significativas, visto que se relacionam estreitamente
com o momento do nosso batismo e com as palavras que então pronunciamos nós
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mesmos ou pela boca dos nossos pais e padrinhos, rejeitando o pecado e tudo que
a ele conduz e professando a fé em Deus.
A transposição da clausura relaciona-se com o abandono do “mundo” juntamente com as suas concupiscências e com a busca da perfeição religiosa. Nessa
decisão, desde os primórdios da tradição da vida consagrada, inscreve-se o postulado de uma radical mudança de costumes. S. Bento, que lançou os fundamentos do monasticismo ocidental, fez da conversio morum um dos elementos da
profissão monástica (cf. Regra de S. Bento, cap. 58). Todo aquele que ingressava
na vida religiosa obrigava-se solenemente a uma luta constante com os defeitos
e as paixões, a renunciar ao mundo e à sua forma de pensar (cf. Miroslaw Daniluk SCJ, Enciclopédia dos institutos de vida consagrada e associações de vida
apostólica, Lublin, 2000, 81; cf. também Dizionario degli istituti di perfezione,
106-110). Essa radical mudança de forma de vida é para o Padre Estanislau uma
condição indispensável para ingressar nos caminhos religiosos da imitação de
Cristo. Ele escreve a esse respeito de forma sucinta e enfática: “[...] aqueles que
seguem os passos de Cristo ou aqueles que querem segui-Lo tem de abandonar
tudo: o mundo, as honras, as riquezas, as amizades, os amores, as pessoas próximas, os parentes, os pais e além disso a sua vida (cf. Lc 14, 26), submetendo a sua
vontade à vontade de uma outra pessoa. Tal é, em síntese, o caminho daqueles que
ingressam nos passos de Cristo” (IC 66r). A radical mudança de costumes deve
ser o objeto da nossa incessante solicitude, e a sua negligência é uma hipocrisia
que, em vez de frutos da vida, traz a condenação. Ao refletir sobre o evangelho
que narra o encontro de Jesus no templo, o Fundador parece perguntar a cada um
de nós: “E agora, como passas os teus anos na casa de Deus? Com quanta tibieza,
com quanta indolência, com quanta arrogância! Cuida para que não aconteça que
com o traje religioso pareças imitar a Jesus, mase pelos teus costumes te comportes como um devasso e te apresentes pior que uma pessoa do mundo. O estado
religioso não salva ninguém, mas sim a vida religiosa. Talvez tenhas ouvido falar
daquele soldado condenado que ingressou num instituto religioso e trocou o uniforme religioso pelo hábito, mas não mudou os seus costumes. Por isso, após a
morte apareceu vindo do inferno e devolvendo o traje religioso no rabo do cavalo.
Deus te livre de seres um religioso apenas de nome, e não também na realidade.
Se não abandonasses os maus costumes mundanos e se não correspondesses à tua
vocação, terias um fim igualmente muito infeliz. Não pôde o castíssimo José, com
sua esposa, a Santíssima Virgem, encontrar o Menino Jesus nas conversas, na leitura de curiosidades, no mundo, nas ruas, nas convicções contrárias ao teu gênero
de vida e no estilo de vida das pessoas do mundo” (IC 12v-13r).
Qual é a situação hoje em nossas casas religiosas? Será que realmente tratamos com tanta seriedade e tão radicalmente o apelo à mudança dos costumes?
Será que não consideramos essa exigência como um postulado da vida do noviciado, que tem uma morte silenciosa e suave alguns anos após a primeira profis164
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são? Ou talvez a negligência dessas manifestações mais simples da “ordem” dos
costumes religiosos faz com que desçamos aos baixios espirituais nas questões
mais importantes? Em seus diários, Tomás Merton registra o pronunciamento do
monge-poeta vietnamita Thi Nha Hanh, que num encontro com os trapistas, indagado a respeito das práticas da meditação, disse: “No início os monges budistas
não podem meditar. Antes que possas meditar, tens de aprender a não bater a
porta”. Creio que entre a nossa forma de vida, sem excluir as coisas mais simples,
como bater a porta, e a profundeza da nossa oração e do nosso relacionamento
com Deus existe um vínculo mais forte do que somos propensos a julgar. Não
nos espantemos, então, que o nosso espírito claudique, porquanto – embora vivendo entre os muros do convento – vivemos à maneira deste mundo. Será que
algumas vezes não nos assemelhamos um pouco ao aquarista que se admira que
os peixinhos por ele criados morreram, mas não percebe que, em vez de deixá-los
no aquário, mantinha-os na gaiola dos canários?... Toda vida pode desenvolver-se
apenas no ambiente que lhe é adequado.
Com a mudança dos costumes estão estreitamente relacionados os dois outros
postulados. O religioso é chamado para pronunciar um categórico “não” diante
do mal e de forma decidida submeter a sua vontade a Deus. Na vida e nos escritos
do Padre Estanislau, tanto esse “fiat” dito a Deus como o “ápage” lançado contra
o demônio têm uma natureza radical.
A intransigência na luta contra tudo aquilo que é mau manifesta-se em diversos traços. Em primeiro lugar, para o Padre Papczynski não existe um pecado
tão leve que possa ser menosprezado, não existe um defeito tão pequeno que não
mereça o esforço de ser extirpado com as raízes. Isso é especialmente importante,
como observa o nosso Fundador, quando se leva em consideração o fato de que o
ataque do diabo contra as pessoas religiosas inicia-se normalmente a partir de coisas aparentemente pequenas e sem importância. “Com a máxima diligência deves
evitar as pequenas imperfeições e até os mínimos pecados. Sem dúvida eles não
são percebidos quando os semeia o infernal malfeitor. Quando, no entanto, após
quedas maiores e após uma grande quantidade de pecados graves os perceberes
e sobre eles refletires, compreenderás que essas mínimas imperfeições, que com
menosprezo admitiste, deram início àquelas graves. [...] Evita as pequenas imperfeições a fim de impedires o acesso aos pecados maiores, ou, caso já se tenham
propagado, afasta-os, a fim de preservares o teu coração puro a muito pura a tua
alma, e para fazer que pelo bem da tua salvação não pratiques no futuro transgressões maiores. Porquanto o espírito mau costuma proceder com as pessoas espiritualizadas de tal forma que não lança de imediato contra elas a rede através dos
pecados graves, porque os abominam. Ele o faz através de pequenas imperfeições,
quanto às quais sabe o que fazer para que as menosprezem, e então as conduz
até aos pecados mais graves” (IC 22v). O Padre Papczynski está profundamente
convencido de que as pequenas e desprezadas imperfeições do dia-a-dia é que
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pavimentam o largo caminho que conduz à condenação eterna e de que a sua tênue e delgada rede é inteiramente suficiente para o demônio enlear um religioso
(cf. IC 88r). O radicalismo dessa intransigente luta com o mal é apresentado pelo
Beato Fundador de forma concisa, e com ele certamente concordarão todos aqueles a quem Deus permitiu alcançar a santidade: “[...] Se não estás pronto a antes
morrer do que voltar a pecar, fica sabendo que o Espírito Santo não reside em ti”
(IC 57v).
No entanto o categórico “não” diante do mal não é suficiente para chamar
aquele que o pronuncia um radical imitador de Cristo. Afinal Ele mesmo nos adverte que o “terreno inculto” do coração humano, quando limpo e arrumado, é de
bom grado novamente ocupado pelos infernais inquilinos (cf. Mt 12, 43-45). Toda
conversão verdadeira não é apenas a rejeição do pecado, mas também, e sobretudo, a escolha de Deus. Os caminhos daqueles que buscam o perfeito amor sempre
passam pela alternativa inflexivelmente colocada: amar o mundo até a rejeição de
Deus ou seguir a Sua vontade até a rejeição do mundo. O nosso Fundador pronuncia o seu “fiat” ao Pai Celestial “com todo o seu coração, com toda a sua alma e
com toda a sua força” (cf. Dt. 6, 5). Em suas reflexões escreve: “Tendo ingressado
na vida religiosa, agora te entregaste a um Senhor melhor. Deves, portanto, proclamar e declarar a guerra contra o outro. Tem certeza de que, para bem a conduzires, poderás contar com a ajuda celestial, no entanto com a condição de que lutes
como se deve lutar. Deus abençoa nas batalhas aqueles a quem convocou para a
luta. Ataca, portanto, o que é do mundo, o que faz parte das más concupiscências,
tudo aquilo que tens em ti de amor-próprio ou que novamente se insinua no teu
coração, já dedicado a um outro Senhor: arranca isso ou decididamente afasta isso
de ti. E fica convencido de que deves possuir aqueles anseios que estão de acordo com a tua vocação, que te estimulam ao desprezo de ti mesmo, à propagação
da glória divina e ao zelo religioso. A seguir, deves de tal forma extinguir em ti
o amor-próprio que não sobre dele uma centelha sequer. Muitas vezes acontece
que, depois de apagado o incêndio, o fogo em alguma parte escondido novamente
se acende. Da mesma forma, alguma centelha de amor-próprio que tenha sido
deixada em algum lugar costuma provocar um incêndio maior que o inicial. [...]
Lembra-te de que, quando servias ao mundo, tratavas a Deus com a máxima aversão. Tu na verdade não percebias isso, mas aquele oculto amor ao mundo não era
outra coisa senão um ódio declarado à Divina Majestade. Porquanto não podias
amar os dois ao mesmo tempo: Deus e o mundo; porque, da mesma forma que
o Olimpo não admite a existência de dois sóis, também o coração não pode ter
dois amantes. Por isso, amando o mundo, ao qual servias, odiavas a Deus, o que
não percebias. E quando agora espontaneamente te tornaste um escravo de Deus,
deves entregar-Lhe todo o teu coração e odiar já para sempre o mundo, teu senhor
anterior. Procura, portanto, através de ações, provar que amas a Deus” (IC 78v79r). A ausência da vontade própria e a verdadeira imitação de Cristo e a busca da
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vontade de Deus, através da submissão à obediência, é um dos motivos que mais
freqüentemente aparecem nos escritos do Padre Estanislau. Buscai primeiramente o Reino de Deus e o resto vos será acrescentado; não trilheis os caminhos do
mundo, que busca sobretudo o “resto”, e nunca a Deus (cf. IC 132r) – exclama Ele
dirigindo-se a nós através da sua vida e do que escreveu. Será que realmente imitas a Cristo? – pergunta às mais profundas camadas da nossa consciência. O fato
de teres professado os votos e de vestires o hábito não faz necessariamente de ti
um discípulo de Cristo, mas pode acontecer que te inscreva apenas no número dos
imitadores de Judas. “Disse-lhe: Segue-me. Leva em consideração o fato de que o
testemunho da verdadeira conversão é a verdadeira imitação de Cristo. Judas não
se converteu, porque, embora tenha seguido os passos de Jesus, acompanhou-O
traiçoeiramente e cheio de falsidade O seguiu pensando nos seus interesses materiais. De outra forma, como podes imaginar, procedeu São Mateus. Ele foi um
verdadeiro imitador de Cristo, visto que, levantando-se, seguiu os Seus passos.
Do que se levantou? Do pecado. Aonde seguiu a Cristo? À prática das virtudes.Eis
que tens aqui uma boa regra que te é fornecida para a imitação de Cristo: levantarse e seguir os Seus passos. Se não te levantares, não serás capaz de acompanháLo, ainda que te pareça que estás seguindo os Seus passos. Se nos recônditos do
teu amor-próprio escondes os interesses do amor a ti mesmo e outros semelhantes,
não segues a Cristo, não imitas verdadeiramente a Cristo, ainda que vistas o traje
religioso, ainda que tenhas professado os votos da obediência, castidade e pobreza
e disso te vanglories. Por isso levanta-te e segue-O, porque, se não te levantares,
jamais O acompanharás” (IC 135v).
Como foi mencionado acima, o radicalismo da imitação de Cristo pode ser
encontrado em muitos, senão em todos os aspectos da vida do nosso Fundador.
Os três apresentados nesta conferência, ou seja: a categórica rejeição do mal, por
menor que ele seja, a mudança dos costumes e a busca de Deus de todo o coração,
vontade e inteligência, não foram escolhidos ao acaso, porquanto são, em sua
essência, a realização das promessas do batismo. É o início e o ápice de todo o
caminho cristão, a sua própria essência – essa renúncia ao demônio, ao pecado
e tudo que a ele conduz, bem como o ingresso no mundo pascal da vontade e do
amor de Deus. O dom da vida religiosa nos foi proporcionado para que possamos
ser cristãos. Chamando-nos ao caminho dos conselhos evangélicos, Deus mostrou
a cada um de nós aquele lugar melhor, onde podemos ser plenamente cristãos.
Santo Inácio de Antioquia, ao seguir ao lugar do seu martírio, numa carta aos
cristãos de Roma escreve que deseja ser cristão, e não apenas dizer que o é. Com
grande fervor procura convencê-los de que unicamente na experiência radical do
cristianismo, que é o martírio, ele pode tornar-se verdadeiramente um homem e
discípulo de Cristo. Podemos dizer, mantendo as devidas proporções, que o Padre
Papczynski faz um apelo semelhante aos seus irmãos na vocação: não é suficiente
falar; é preciso ser. E, para ser, o nosso compromisso deve ser total e definitivo.
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TEXTOS PARA MEDITAÇÃO
Texto bíblico básico: Ap 3, 14-22
[...] 14 “Ao anjo da igreja que está em Laodicéia, escreve:
‘Assim fala o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de
Deus: 15 Conheço a tua conduta. Não és frio, nem quente. Oxalá fosses frio ou
quente! 16 Mas, porque és morno, nem frio nem quente, estou para vomitar-te de
minha boca. 17 Tu dizes: ‘Sou rico e abastado e não careço de nada’, em vez de
reconhecer que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu! 18 Dou-te um conselho:
compra de mim ouro purificado no fogo, para ficares rico, e vestes brancas, para
vestires e não aparecer a tua nudez vergonhosa; e compra também um colírio
para curar os teus olhos, para que enxergues. 19 Eu repreendo e educo os que eu
amo. Esforça-te, pois, e converte-te. 20 Eis que estou à porta e bato; se alguém
ouvir minha voz e abrir a porta, eu entrarei na sua casa e tomaremos a refeição,
eu com ele e ele comigo. 21 Ao vencedor farei sentar-se comigo no meu trono,
como também eu venci e estou sentado com meu Pai no seu trono. 22 Quem tem
ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas’.”
Referências bíblicas para o aprofundamento da leitura do texto
versículo 14: Ap 1, 5ss; 2Cor 1, 19-20; Jo 1, 1-5; Pr 8, 22-31; Is 65, 16;
versículos 15-16: Rm 12, 9-13; Ap 2, 1-5; A 3, 1-3; Mt 5, 13-16; 2Tm 3, 1-8;
versículo 17: Os 12, 8-9; Zc 11, 4-6; 1Cor 3, 18; 1Cor 4, 8;
versículo 18: Sl 12, 7; Is 55, 1-3; 1Pd 1, 7; Mt 22, 12; Lc 15, 22;
versículo 19: Pr 3, 11-12; 1Cor 11, 32; Hb 12, 4-11;
versículo 20: Ct 5, 2; Is 50, 2; Jo 14, 23; Mt 24, 33; Mc 13, 28-37; Lc 12, 36; Lc
22, 29-30;
versículo 21: Ap 20, 4; Mt 19, 28; Ap 1, 6; 1Cor 15, 28;
versículo 22: Ap 2, 7.
Outros textos bíblicos relacionados com o tema
Fl 3, 4-16
[...] 4 Bem que eu poderia pôr minha confiança na carne. Se algum outro
pensa que pode confiar na carne, eu mais ainda: 5 fui circuncidado no oitavo dia,
sou da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu filho de hebreus; quanto à
observância da Lei, fariseu; 6 no tocante ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à
justiça que vem da Lei, irrepreensível. 7 Mas essas coisas, que eram ganhos para
mim, considerei-as prejuízo por causa de Cristo. 8 Mais que isso, julgo que tudo
é prejuízo diante deste bem supremo que é o conhecimento do Cristo Jesus, meu
Senhor. Por causa dele, perdi tudo e considero tudo como lixo, a fim de ganhar
Cristo 9 e ser encontrado unido a ele. E isto, não com a minha justiça que vem
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da Lei, mas com a justiça que vem pela fé em Cristo, a justiça que vem de Deus,
com base na fé. 10 É assim que eu conheço Cristo, a força da sua Ressurreição e
a comunhão com os seus sofrimentos, tornando-me semelhante a ele na sua morte, 11 para ver se chego até a Ressurreição dentre os mortos. 12 Não que eu já
tenha recebido tudo isso, ou já me tenha tornado perfeito. Mas continuo correndo
para alcançá-lo, visto que eu mesmo fui alcançado pelo Cristo Jesus. 13 Irmãos,
eu não julgo já tê-lo alcançado. Uma coisa, porém, faço: esquecendo o que fica
para trás, lanço-me para o que está à frente. 14 Lanço-me em direção à meta,
para conquistar o prêmio que, do alto, Deus me chama a receber no Cristo Jesus.
15 É assim que nós, os “perfeitos”, devemos pensar. E se tiverdes um outro modo
de pensar, nisto também Deus vos esclarecerá. 16 No entanto, qualquer que seja
o ponto a que tenhamos chegado, continuemos na mesma direção.
Rm 6, 3-11
[...] 3 Acaso ignorais que todos nós, batizados no Cristo Jesus, é na sua
morte que fomos batizados? 4 Pelo batismo fomos sepultados com ele em sua
morte, para que, como Cristo foi ressuscitado dos mortos pela ação gloriosa do
Pai, assim também nós vivamos uma vida nova. 5 Pois, se fomos, de certo modo,
identificados a ele por uma morte semelhante à sua, seremos semelhantes a ele
também pela ressurreição. 6 Sabemos que o nosso homem velho foi crucificado
com Cristo, para que seja destruído o corpo sujeito ao pecado, de maneira a não
mais servirmos ao pecado. 7 Pois aquele que morreu está livre do pecado. 8 E,
se já morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele. 9 Sabemos
que Cristo, ressuscitado dos mortos, não morre mais. A morte não tem mais poder
sobre ele. 10 Pois aquele que morreu, morreu para o pecado, uma vez por todas,
e aquele que vive, vive para Deus. 11 Assim, vós também, considerai-vos mortos
para o pecado e vivos para Deus, no Cristo Jesus.
Mt 16, 24-28
[...] 24 Então Jesus disse aos discípulos: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. 25 Pois quem quiser salvar sua vida
a perderá; e quem perder sua vida por causa de mim a encontrará. 26 De fato,
que adianta a alguém ganhar o mundo inteiro, se perde a própria vida? Ou que
poderá alguém dar em troca da própria vida? 27 Pois o Filho do Homem virá na
glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com
a sua conduta. 28 Em verdade, vos digo: alguns dos que estão aqui não provarão
a morte sem antes terem visto o Filho do Homem vindo com o seu Reino”.
Lc 9, 57-62
[...] 57 Enquanto estavam a caminho, alguém disse a Jesus: “Eu te seguirei
aonde quer que tu vás”. 58 Jesus respondeu: “As raposas têm tocas e os pássaros
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do céu têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”.
59 Então disse a outro: “Segue-me.” Este respondeu: “Permite-me primeiro ir
enterrar meu pai”. 60 Jesus respondeu: “Deixa que os mortos enterrem os seus
mortos; mas tu, vai e anuncia o Reino de Deus”. 61 Um outro ainda lhe disse:
“Eu te seguirei, Senhor, mas deixa-me primeiro despedir-me dos de minha casa”.
62 Jesus, porém, respondeu-lhe: “Quem põe a mão no arado e olha para trás,
não está apto para o Reino de Deus.”
OS ATUAIS ESTATUTOS RELIGIOSOS MARIANOS
As nossas atuais Constituições não são, sem dúvida, um documento que estimule à mediocridade e à baixeza. Em cada página podemos defrontar-nos nelas
com quantificadores: inteiramente, todo, em tudo, quanto mais, de todas as formas, exclusivamente, perfeitamente, etc. Geralmente eles acompanham o apelo
ao amor de Deus, à união com Ele, à dedicação ao serviço por Cristo e pela Igreja.
Todo mariano é igualmente chamado à intransigência na luta com o pecado a na
busca da santidade. Trata-se de um caminho pelo qual devemos enveredar a cada
novo dia. Veja
Artigos das Constituições: 4, 5, 7, 20, 24, 25, 36, 37.
4 Renunciando a tudo quanto permite a fragilidade humana, os membros se
ofereçam, entreguem, consagrem totalmente a Deus e àquilo que é de Deus, de tal
modo que Deus seja plenamente o centro da vida de cada um dos membros e de
toda a Congregação. [CM 4]
5 Os membros tendem à própria perfeição evangélica e santificação dos outros, seguindo fiel e virilmente a Jesus Cristo, Salvador do mundo; perscrutando
e meditando diligentemente o seu Evangelho, procurem cada vez mais conhecer,
amar e imitar a Cristo, deixar-se imbuir e conduzir pelo espírito de Cristo, com
todo empenho e esforço dilatar o reino de Cristo levar Cristo a tudo. Assim Cristo
seja o guia e o modelo tanto de toda a Congregação quanto de cada um dos seus
membros. [CM 3; Instr. I, 12; PC 5]
7 Tenham para com a Igreja, que é o reino de Deus na terra e a esposa de
Cristo, toda a veneração, amor e devoção; dirijam-se pelos seus princípios e pelo
seu espírito, adiram fielmente à sua Hierarquia; correspondam aos seus anseios e
desejos e, segundo as forças, sirvam-na com todo o empenho e de todos os modos,
vencendo com fortaleza todos os obstáculos e perigos, sem hesitar, quando o exigir a necessidade e o bem da Igreja, enfrentar coisas árduas e adversas e gastar-se
e sacrificar-se completamente. [CM 5]
20 Lembrados de que pelo batismo da fé se tornaram verdadeiramente filhos
de Deus e participantes da natureza divina, os membros são obrigados a conservar
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e aperfeiçoar a santidade, que então receberam de Deus, conforme a exortação do
divino Mestre: “Portanto, deveis ser perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito”
(Mt 5,48). [LG 40]
24 Seguindo as pegadas de Cristo e tornando-se conformes à sua imagem,
cumprindo em tudo a vontade do Pai, entreguem-se totalmente à glória de Deus
e ao serviço do próximo. Tendo sempre em grande apreço a perfeição própria,
fomentem em si o contínuo desejo dela, e dediquem-se a consegui-la com esforço
persistente e contínuo, como aqueles que sempre começam de novo; e ponham
todos os esforços e meios para progredir nele cada vez mais, valendo-se de todas
as ocasiões para se santificarem, jamais considerando suficiente aquilo que até
agora fizeram. [CM 162; LG 40] Guerra ao pecado
25 Fujam inteiramente do pecado, como do maior dos males, evitem-no, abominem-no, detestem-no, e tenham cada dia mais horror a ele. Empreguem todo o
esforço possível em diminuir e destruir o reino do pecado; arrependam-se sincera
e continuamente dos pecados cometidos e, tendo consciência deles, tornem-se
mais humildes e desconfiantes de si mesmos, mais vigilantes e cautelosos nos perigos, ocasiões e tentações, mais prontos e fervorosos em se arrepender e satisfazer, em resguardar o tempo e pagar a Deus amor com amor; procurem ter sempre
a consciência pura. [CM 163]
36 Cada um, em tudo e por tudo, se esforce por tender a uma estreita união
com Deus; com Ele intimamente unido, tanto na oração, como em todas as suas
ações e no trabalho, procure ser magnânimo e até sumamente generoso e liberal.
[CM 176]
37 O zelo, que é ardor da caridade, deve informar toda a vida dos membros
e seja:
1) sobrenatural: animado de uma fé firme e viva e de uma invencível confiança em Deus, unida à desconfiança de si mesmo;
2) puro: procure não as suas coisas, mas aquelas que visam a maior glória de
Deus, a salvação das almas redimidas pelo tão elevado preço do Sangue de Jesus
Cristo e de sua Vida, e o proveito da Igreja;
3) ardente e suave: arda no amor à justiça e no ódio à iniqüidade; seja manso,
que saiba compadecer-se da fraqueza, benigno e misericordioso para com os que
erram;
4) universal: que com o coração dilatado pela caridade, se estenda a todos os
homens, e a todos os recursos que estão em seu poder, e anseie inflamar no fogo
do amor, o maior número possível de almas;
5) prudente e bem ordenado: examine oportunamente com cuidado e antecipadamente as coisas que devem ser feitas, perscrutando à vontade de Deus em
todas as coisas; que se valha do exemplo e da experiência dos outros, e que peça
conselhos a peritos, sobretudo aos superiores; que escolha os meios oportunos
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e eficazes que produzam mais frutos; que proceda com ordem e método, nunca
descuidando de si, enquanto ajuda os outros;
6) criativo e ativo: procure ocasião de trabalhar quando o trabalho faltar; procure novos e oportunos meios e métodos, para acudir às novas necessidades que
os tempos criam; que não adie as coisas que devem ser feitas; que se evidencie
pelas boas obras conforme o cargo que lhes foi confiado, esforçando-se por fazêlas no maior número e o melhor possível;
7) forte, generoso e constante: estimule a deixar as próprias comodidades, a
sacrificar a si mesmo, a empreender coisas grandes e difíceis, a trabalhar e a sofrer
infatigavelmente; que não seja abalado por nenhuma adversidade que o dever e a
obediência exigem e seja superior a todas as vicissitudes; que seja perseverante no
esforço e conduza até o fim aquilo que começou;
8) disciplinado: jamais ultrapasse os limites de seu estado e dever, sujeitandose total e docilmente à direção dos superiores. [CM 177]
PROPOSTAS DE PERGUNTAS PARA REFLEXÃO OU PARTILHA
1. O radicalismo é o amor de um coração que não é dividido. Qual é a tua experiência de tal amor? A que resposta Deus te chama?
2. Como se apresenta o teu empenho pelo Reino do Céu diante das dificuldades
e dos esforços que para a conquista dos bens temporais enfrentam os “filhos
deste mundo”? Compara o teu esforço espiritual com o que empreendem os
teus semelhantes, a fim de ganhar o sustento material.
3. Que sentimento desperta em ti a definição da vida religiosa como “busca da
perfeição cristã” ou “caminho para a santidade”? Será que a tua vida pode ser
descrita com essas definições e até que ponto se pode fazê-lo? A que passo te
chama agora Deus no teu caminho de te tornares um religioso, ou seja, uma
“pessoa de um único amor”?
4. Até que ponto a tua jornada pelo caminho da vocação é assinalada pelo abandono do mundo, dos amigos, dos parentes, das conversas, dos próprios interesses, do estilo de vida das pessoas do mundo?
5. Não existe pecado tão leve e defeito tão pequeno que não justifiquem a luta
contra eles. Será que no fundo do teu coração estás convencido de que é melhor cortar um braço ou arrancar um olho do que pecar? Serias capaz de apontar em tua vida tais exemplos de luta contra o mal?
6. A vida religiosa é uma radical e intransigente escolha de Deus. Será que Deus
é em tua vida o primeiro amado, o primeiro “servido”, o primeiro procurado,
aquele a quem dedicas o melhor do teu tempo e das tuas forças? O que podes
fazer para que a dádiva com que respondes ao Seu amor sejam as primícias,
e não os restos?
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PARTE III
DOCUMENTOS, HOMILIAS, DISCURSOS
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DECRETO QUE RECONHECE O MILAGRE
PELA INTERCESSÃO
DO SERVO DE DEUS PADRE ESTANISLAU PAPCZYNSKI
Da Arquidiocese de Poznan,
Causa da Beatificação e Canonização
do Venerável Servo de Deus
Estanislau de Jesus e Maria
(no mundo: João Papczynski),
Sacerdote e Fundador
da Congregação dos Padres Marianos
da Imaculada Conceição da SVM
(1631-1701)
DECRETO RELACIONADO COM O MILAGRE
O Venerável Servo de Deus Estanislau de Jesus e Maria (no mundo: João
Papczynski) nasceu no dia 18 de maio de 1631 na localidade de Podegrodzie, na
Arquidiocese de Cracóvia, na Polônia. Tendo ingressado na Ordem dos Padres
Regulares dos Pobres de Nossa Senhora das Escolas Pias, fez a profissão religiosa
e recebeu a ordenação sacerdotal. Após ter deixado a Ordem, fundou a Congregação dos Padres Marianos sob a invocação da Imaculada Conceição da SVM, para
divulgar o culto da Imaculada Mãe de Deus, para ajudar aos párocos no trabalho
pastoral e recomendar a Deus, na oração, os falecidos que permanecem no purgatório. Adormeceu no Senhor no dia 17 de setembro de 1701.
No dia 13 de junho de 1992 o Papa João Paulo II proclamou que o Servo de
Deus praticou as virtudes em grau heróico.
A Postulação da Causa apresentou à análise da Congregação das Causas dos
Santos a cura de uma criança – reconhecida previamente como extraordinária
– que a senhora X, residente na Polônia, na cidade X, trazia em seu seio. No ano
2000 essa mesma senhora fiou grávida pela primeira vez, e a gravidez terminou
em aborto espontâneo. Em fevereiro do ano seguinte ficou novamente grávida,
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e no dia 22 de março por pouco a gravidez também não terminou em aborto.
Por essa razão foi internada num hospital, onde foram feitos três exames ultrasonográficos, o último dos quais, do dia 30 de março, demonstrou claramente
a vitalidade do feto e o estado normal da vesícula fetal. Nesse mesmo dia ela
recebeu alta do hospital. No entanto no dia 1 de abril, em razão da ocorrência de
dores abdominais, viu-se forçada a voltar ao hospital. Os exames ultra-sonográficos demonstraram que o feto estava privado de atividade cardíaca, e por isso
foi apresentado o diagnóstico de “aborto interno”. Além disso, observou-se a
diminuição da vesícula fetal em comparação com as dimensões que havia apresentado nos dias anteriores. Nesse ínterim, isto é, a partir do dia 28 de março,
alguns membros da família da senhora X e outras pessoas começaram a invocar
a ajuda divina pela intercessão do Servo de Deus Estanislau de Jesus e Maria,
pedindo uma solução favorável desse problema. No dia 4 de abril, um novo exame ultra-sonográfico inesperadamente demonstrou que o feto havia recuperado
a atividade do coração. Foi reconhecido imediatamente que esse fato ocorreu
acima da ação das forças da natureza. No dia 17 de outubro nasceu uma criança
viva e sadia.
Com relação a esse pretenso milagre, nos anos 2003-2004, por iniciativa da
Cúria de X, foi realizada uma investigação diocesana, cuja validade jurídica foi
confirmada por esta Congregação através de um decreto publicado no dia 7 de
maio de 2004. Na sessão do dia 12 de maio de 2005, a Consultoria Médica da
Congregação proclamou que pelas leis da ciência, após a interrupção espontânea
da gravidez através de aborto interior – confirmado por documentação ultra-sonográfica – não se pode explicar a inesperada cura do feto, cujo desenvolvimento transcorreu normalmente até terminar em parto natural, sem conseqüências
negativas para o feto. No dia 20 de setembro do mesmo ano ocorreu a Reunião
dos Consultores Teólogos, e no dia 2 de maio de 2006, a Sessão Ordinária dos
Cardeais e Bispos, na qual foi relator da Causa Sua Excelência Dom Lino Fumagalli, Bispo de Sabina-Poggio Mirteto. A seguir, no dia 3 de outubro realizou-se
a segunda Sessão Ordinária. A respeito da dúvida apresentada, se é certo que
um milagre se realizou por disposição divina, ambos os Grêmios – tanto o dos
Consultores como o dos Cardeais e Bispos – deram uma resposta afirmativa.
Após ter sido apresentado ao Papa Bento XVI um relatório detalhado de todas essas questões pelo abaixo assinado Cardeal Prefeito, Sua Santidade aceitou
e confirmou as resoluções da Congregação das Causas dos Santos e no dia de
hoje proclamou: Fica reconhecido o milagre realizado por Deus pela intercessão do Venerável Servo de Deus Estanislau de Jesus e Maria (no mundo João
Papczynski), Sacerdote e Fundador da Congregação dos Padres Marianos da
Imaculada Conceição da SVM, a saber “a inesperada revitalização da gravidez
da senhora X, na sua 7-8 semana, após a sua interrupção espontânea através de
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‘aborto interior’ documentado por ultra-sonografia, o seu posterior desenvolvimento até o correto desfecho por parto, sem conseqüências negativas para o feto,
que nasceu vivo e sadio no dia 17 de outubro de 2001”.
O Santo Padre ordenou que esse Decreto fosse apresentado ao conhecimento
público e incluído nos arquivos da Congregação das Causas dos Santos.
Dado em Roma, no dia 16 de dezembro do Ano do Senhor 2006.
JOSÉ CARDEAL SARAIVA MARTINS
Prefeito
L. + S.
+ EDUARDO NOWAK
Arcebispo titular de Luna
Secretário
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CARTA APOSTÓLICA
Nós,
atendendo ao desejo
do nosso Irmão
Estanislau Gądecki,
Arcebispo de Poznań,
de muitos outros Irmãos no Episcopado
e de muitos fiéis,
após uma consulta
à Congregação das Causas dos Santos,
pela nossa autoridade Apostólica
permitimos
que o Venerável Servo de Deus
Estanislau Papczyński, presbítero,
fundador da Congregação dos Clérigos Marianos
da Imaculada Conceição da Beatíssima Virgem Maria,
que se dedicou à oração do sufrágio pelos defuntos
e à formação cristã do povo,
doravante seja chamado Beato
e que a sua festa,
nos lugares e na forma estabelecida pela lei,
todos os anos possa ser celebrada
no dia dezoito de maio.
Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo,
Amém.
Dada em Roma, junto a São Pedro,
no dia doze do mês de setembro,
do ano do Senhor dois mil e sete,
terceiro do Nosso Pontificado.
Bento XVI, Papa.
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LITTERAE APOSTOLICAE
Nos,
vota Fratris Nostri
Stanislai Gądecki,
Archiepiscopi Posnaniensis,
necnon plurimorum aliorum Fratrum in Episcopatu
multorumque christifidelium explentes,
de Congregationis de Causis Sanctorum consulto,
auctoritate Nostra Apostolica
facultatem facimus ut
Venerabilis Servus Dei
Stanislaus Papczyński, presbyter,
conditor Congregationis Clericorum Marianorum
sub titulo Immaculatae Conceptionis Beatissimae Virginis Mariae,
qui suffragii orationi pro defunctis se dedit
atque populi christianae institutioni,
Beati nomine in posterum appelletur,
eiusque festum
die duodevicesima Maii
in locis et modis iure statutis
quotannis celebrari possit.
In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti.
Amen.
Datum Romae, apud Sanctum Petrum,
die duodecimo mensis Septembris,
anno Domini bismillesimo septimo,
Pontificatus Nostri tertio.
Benedictus PP. XVI
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DE PASTOR DE OVELHAS
A EVANGELIZADOR DE NAÇÕES
Beata Zajaczkowski entrevista Sua Eminência o Cardeal Tarcisio Bertone, Secretário de Estado da Santa Sé e legado do Santo Padre para a beatificação do
Padre Estanislau Papczynski.
Vossa Eminência é o legado para a beatificação do Pe. Estanislau Papczynski. O que hoje, no início do terceiro milênio, significa ser santo?
É primeira vez que sou legado para uma beatificação, embora tenha participado de muitas solenidades desse tipo. Para mim, a santidade é como que o acender
de luzes no caminho dos homens e na história de cidades, aldeias ou países particulares. Sem dúvida é um dom para cada época da Igreja. Um dom de Deus, visto
que Ele, gratuitamente, acende essas luzes, que iluminam até os mais escuros,
os mais trágicos períodos na história da humanidade. Pensemos, por exemplo,
nos mártires do século XX que iluminaram a época dramática do nazismo e do
comunismo.
Os santos são ao mesmo tempo sinais de que estamos respondendo ao convite
de Deus. Aos dons e talentos que Deus oferece a cada um de nós. Isso comprova
que a santidade sempre existiu e jamais passará. Sempre entre nós há e haverá
santos. E isso em todas as nações. Volto à minha viagem ao Peru. A população
daquele país recorda especialmente S. Rosa de Lima, uma pessoa muito simples.
Não esteve envolvida na vida pública ou acadêmica como o Pe. Papczynski, que
ensinou, pregou sermões, escreveu livros. Isso é um sinal de que todos somos
chamados à santidade.
O fato de as beatificações não se realizarem agora no Vaticano não restringe a mensagem dos novos beatos apenas à Igreja local?
Por vontade de Bento XVI, com algumas exceções essas cerimônias se realizam onde viveram os beatos. Acredito que em certa etapa da história, como
ocorria durante o pontificado de João Paulo II, era bom que a beatificações se
realizassem no centro do cristianismo, no Vaticano. Mas, a longo prazo, isso poderia significar a “privação” daquilo o que é característico das diversas Igrejas
locais, dos movimentos carismáticos ou apostólicos, das congregações religiosas
que surgiram de uma determinada necessidade em algum lugar. A beatificação na
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cidade ligada com o futuro beato também proporciona glória a esse lugar. O culto
com certeza não será limitado a determinada área. Quando o beato for proclamado santo, ele se tornará um dom para toda a Igreja. Evidentemente nem todos os
santos têm a mesma influência e significado para a vida de toda a Igreja. Alguns
foram necessários para determinada área e é justo que o seu culto se desenvolva
especialmente naquela região. E que dali se irradie.
Da mensagem do Pe. Papczynski, o que Vossa Eminência considera atual
para o homem de hoje?
O culto do Pe. Papczynski desenvolve-se desde a Ruanda até os Estados Unidos. Isso mostra que não se pode esquecer – como infelizmente muitas vezes
acontece – dos santos que viveram em épocas distantes. Muitas vezes os substituímos “com santos mais modernos”. Lembro-me da decepção quando, durante
a minha formação salesiana, S. Luís Gonzaga foi substituído pelo mais moderno
S. Domingos Sávio. A diversidade de santos presentes em cada época – visto que
cada época possui os seus dons e carismas especiais – não deve ocultar ou até
expulsar da memória os “santos mais velhos”. O Pe. Papczynski viveu no século
XVII, mas, se analisarmos a turbulenta história daquele tempo e a vida do Pe.
Estanislau, perceberemos muitas analogias com o mundo de hoje. Ele, de pastor
de ovelhas tornou-se pastor de nações, um grande evangelizador. Num momento
crucial da história da Polônia e de toda a Europa, intransigentemente proclamou
o Evangelho e introduziu a sua mensagem na vida pública. Com obstinação lembrava que a semente do Evangelho não pode ser guardada apenas para nós, que
ela deve ser levada aos outros, para que produza frutos, para que transforme a sociedade. Não serão essas palavras válidas para hoje? E não apenas para a Polônia,
mas para toda a Europa?
O Cardeal Tarcisio Bertone, Secretário de Estado da Santa Sé.
Em setembro de 2006 substituiu nesse cargo o cardeal Angelo Sodano. Anteriormente foi arcebispo de Gênova. É um excelente teólogo e eminente especialista na área do direito canônico. Participou dos trabalhos da reforma do Código
do Direito Canônico, promulgado em 1984. Por muitos anos foi secretário da
Congregação da Ciência e da Fé. Foi ele que no ano 2000 anunciou o conteúdo
do terceiro segredo de Fátima. Anteriormente, diversas vezes conversou com a Irmã Lúcia, na época a única testemunha viva das aparições de Fátima em 1917.
Como legado pontifício, participou do sepultamento dela em 2005. É considerado
um dos mais eminentes teólogos contemporâneos, aberto ao mundo e perfeito
conhecedor das necessidades da Igreja atual. Fala fluentemente as línguas francesa, alemã, espanhola e portuguesa. É salesiano e tem 73 anos de idade.
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S.E.R. Tarcisio Bertone,
Secretário de Estado da Santa Sé
ALOCUÇÃO
DURANTE AS VÉSPERAS
em Lichen no dia 15 de setembro de 2007
Caros Irmãos e Irmãs no Senhor!
Na véspera da beatificação do Servo de Deus Padre Estanislau Papczynski,
reunimo-nos nesta noite nesta Basílica, Santuário de Nossa Senhora de Lichen,
que é também venerada pelos peregrinos como Nossa Senhora das Dores, Rainha
da Polônia. Hoje justamente se comemora a festa da Santíssima Virgem Maria
Dolorosa, e a bela imagem de Lichen ajuda-nos a compreender o misterioso papel
que Maria desempenhou ao lado de Jesus no Calvário. Com efeito, a Santíssima Virgem, profundamente identificada com a missão do Redentor, co-participou
com o Seu maternal sofrimento na obra da salvação. Num momento de grande
provação, Jesus A confiou a João, proclamando-A dessa maneira Mãe de todos os
crentes, de todos os homens (cf. Jo 19, 25-27). Como Mãe de Cristo, Maria é Mãe
da Igreja, Corpo místico de Cristo, chamada para distribuir a dádiva da salvação
aos homens e às mulheres de todos os tempos.
Detemo-nos esta noite para meditar sobre o mistério do sofrimento e do amor,
da misericórdia e da paz, que a face de Nossa Senhora das Dores nos transmite
com o seu eloqüente silêncio. A lembrança de hoje do amor de Maria, que se
origina de uma piedade popular muito antiga na Igreja, foi introduzida na liturgia
pelo papa Pio VII para recordar os sofrimentos que Napoleão infligiu à Igreja na
pessoa do seu chefe. Atualmente essa festa concentra-se mais em Nossa Senhora
das Dores e na Sua participação no sacrifício em que Cristo ofereceu a si mesmo
ao Pai para a redenção do mundo. A arte apresenta esse afetuoso gesto materno
no motivo da “Pietà”, que expressa a maternidade interior da Mãe do Crucificado.
A Santíssima Virgem Maria Dolorosa apresenta-nos Jesus Cristo e nos conduz
a Ele, o único Salvador do mundo, que morreu por nós na cruz. Como, diante de
tão grande sofrimento e de tão grande amor, deixar de abrir os corações em compaixão? Como não se converter para o perdão e o amor? A Mãe de Misericórdia
nos introduz no mistério da Divina Misericórdia; abre os nossos corações para
ouvirmos a Palavra de Deus e humildemente imitarmos a Cristo.
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O Servo de Deus, o amado João Paulo II, lembrava-nos neste lugar, no dia 7
de junho de 1999, que o santuários marianos são lugares de especial Graça, onde,
da mesma forma que na visitação de Isabel por Maria, pode-se entrar em contato
com Jesus, encontrando Sua Mãe. Maria, que graças à fé foi Sua Mãe antes ainda
de concebê-Lo para a vida terrena, estimula os devotos a seguirem o Seu exemplo.
Ela é “bem-aventurada, visto que acreditou” (cf. Lc 1, 45). Que a nossa piedade
mariana se expresse sobretudo pela imitação de Maria na Sua obediência à fé,
no Seu ardente amor e na Sua esperança inquebrantável. Com esses sentimentos
saúdo a vós todos aqui presentes e agradeço-vos pela cordial recepção. De maneira especial saúdo o vosso Bispo, os outros Bispos que aqui vieram, o Reitor e os
outros Padres Marianos a quem cabe o cuidado do santuário. Saúdo cordialmente
as religiosas, os religiosos e todos os devotos de Nossa Senhora de Lichen. Nesta
noite vamos pedir a Maria que seja a nossa Guia e o nosso apoio na tarefa de levarmos uma vida cristã. Que Ela nos fortaleça na nossa vida diária e nos conduza
pelo caminho da plena fidelidade a Deus e do sincero amor aos irmãos. Que Maria
nos ajude a sermos santos.
Sermos santos! Esse foi o constante anseio do Servo de Deus Pe. Estanislau
Papczynski, que amanhã será proclamado beato. Ele se entregou a Maria, escolhendo-A como Mãe e Guia na busca da santidade. Fascinou-se principalmente
com o mistério da Sua Imaculada Conceição e fez dele a inspiração carismática
e o sinal distintivo da Congregação dos Padres Marianos por ele fundada. Nesta
noite, caros Irmãos e Irmãs, vemos como se entrelaçam admiravelmente estes
dois mistérios marianos: a Virgem Imaculada e a Mãe Dolorosa. Ambos esses
mistérios apresentam-nos o poder da salvífica graça divina e o amor misericordioso, que renova a alma do pecador contrito. Eis a santidade! Acreditar no Amor,
que transforma a nossa vida; acreditar na onipotência divina como o fez Maria.
Aceitemos essa doce e santa Mãe em nossa vida, em nossas famílias e em nossas
comunidades como o fez o apóstolo João! Reservemos lugar para Ela em nossos
corações, e Ela – estamos certos disso – nos ajudará a conhecer cada vez mais de
perto Seu Filho Jesus e a estimulante bondade do Pai Celestial. “Olhando para a
face de Maria – disse o Santo Padre Bento XVI em sua homilia para a festividade
da Assunção da Santíssima Virgem Maria no ano passado – podemos melhor que
de qualquer outra forma ver a beleza de Deus, Sua bondade, Sua misericórdia”
(15.08.2006, “L’Osservatore Romano”, ed. pol., 27 (2006), n. 12, 11).
Para sermos santos, hoje mais que no passado, num mundo que facilmente se
esquece de Deus e rejeita o caminho dos Seus mandamentos, é preciso que testemunhemos a presença de Cristo e o poder do Seu amor misericordioso. Pelo nosso
exemplo, devemos apresentar a beleza da vida com Jesus, de sermos Seus amigos
e discípulos como Maria, humilde serva e fiel discípula do Redentor. Nesse esforço espiritual e apostólico pensava João Paulo II quando, expressando a sua alegria
pela construção desta Basílica como voto da nação polonesa para o encerramento
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do Jubileu do Ano 2000, disse: “Olho com admiração para esta enorme construção, que em seu ímpeto arquitetônico é a expressão da fé e do amor a Maria
e a Seu Filho”. Este vosso belo santuário, cuja construção congregou milhões de
devotos de Nossa Senhora, constitui portanto, para vós, um apelo para a expressão
da fé e do amor a Jesus e a Maria.
Todo santuário mariano é por sua natureza uma escola de piedade mariana.
Seja ela mais ainda este santuário, que ocupa um lugar especial no caminho da
pastoral mariana da Igreja na Polônia. Que seja um centro de autêntica espiritualidade mariana, segundo o Evangelho e a doutrina da Igreja. No decorrer dos
séculos podemos admirar muitas formas de os poloneses demonstrarem a veneração a Nossa Senhora. Também a história da imagem de Lichen apresenta a permanente presença de Maria na vida deles e nas escolhas por eles realizadas. Essa
salutar experiência foi lembrada pelo Primaz do Milênio, o inesquecível Servo
de Deus Cardeal Estêvão Wyszynski, durante a coroação da imagem no dia 15 de
agosto de 1967: “Maria, abençoada por todas as nações e pela Nação Polonesa
– disse o Primaz – acolheu ao Seu peito a Águia, como sinal da Sua maternidade
diante da nossa Pátria. Esse sinal foi acompanhado pelos inimigos nos tempos do
cativeiro. Esse sinal inquietava os invasores, inimigos de Deus e da Pátria [...].
Acaso isso não é hoje para nós eloqüente?! Eis que o símbolo da nossa Pátria está
seguro no peito que amamentou o Salvador do mundo! Que esse vínculo da nossa
mãe terrena – a Pátria com a Mãe do Deus-Salvador seja o nosso programa para
o futuro!” (“Coleção de sermões do Primaz do Milênio”, dat., n. 7675).
Portanto, caros Irmãos e Irmãs, que este vosso santuário, sinal da residência
de Deus em meio ao Seu povo, seja um estímulo para os devotos de Maria e para
os peregrinos, para que sejam “pedras vivas” na construção da edificação espiritual que é a comunidade cristã, casa de comunhão, perdão e reconciliação. Para
cumprir essa missão de todo batizado, recorramos a Maria, que foi o primeiro
Santuário de Deus, para que nos ajude a viver na graça santificante, a nos tornarmos o “templo místico de Deus”, ao que com tanta ênfase estimulava o Padre
Estanislau Papczynski (Templum Dei mysticum).
Que a Mãe do belo amor, que aqui contemplamos no mistério da Sua silenciosa participação na Paixão de Cristo, seja para todos um estímulo para que fiquem atentos aos sofrimentos do mundo atual, para que façam companhia aos
sofredores e necessitados, para que defendam aqueles que são pequenos e frágeis,
protegendo e apoiando de todas as formas a dignidade de todo ser humano, desde
a concepção até a sua morte natural.
Que Maria, ícone da liberdade e da libertação do homem, alcance para as pessoas escravizadas pelo vício e pelo pecado a força para se libertarem do pecado e
abrirem os seus corações ao Divino Libertador, que na Cruz venceu para sempre
os poderes das trevas.
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Que Nossa Senhora de Lichen, Padroeira da felicidade familiar, seja o apoio
e a Guia das famílias que se deparam hoje com grandes desafios; que alcance para
elas a luz e a sabedoria do coração, para poderem superar a crise que infelizmente
hoje muitas famílias vivenciam.
Que a Padroeira da liberdade e da unidade da nação polonesa, Mestra do solidário amor e do desvelo pela Igreja e pela Pátria, ilumine as consciências de todos
os cidadãos da vossa nobre nação, para que, apoiados pela Sua maternal proteção,
preserveis e fortaleçais a vossa identidade cristã e possais enriquecer com esse
vosso dom as outras nações da Europa.
Na imagem de Nossa Senhora de Lichen encontra-se a inscrição: “Rainha da
Polônia, concedei a paz aos nossos dias”. Como é atual essa oração no mundo
contemporâneo, onde se fala continuamente em paz, mas quase em toda a parte
são observados atos de violência e conflitos! Somente Deus pode dar-nos a verdadeira paz, a Sua paz: a paz entre as nações, a paz nas famílias, a paz nos corações
humanos! Sede para todos, Maria, a Mensageira da divina paz!
Caros Irmãos e Irmãs, caros devotos da Mãe de Deus! Estamos nos preparando para vivenciar amanhã um dia de grande alegria pela beatificação do Servo
de Deus Pe. Estanislau Papczynski, zeloso devoto da Imaculada Conceição, que
dedicou a sua vida à veemente proclamação da Boa Nova e foi um apóstolo da
oração, bem como da intercessão pelos falecidos que sofrem no purgatório. Que
a sua mensagem espiritual continue a ser anunciada e que dela seja dado testemunho com fidelidade e entusiasmo neste santuário, no qual exerceis o ministério
sacerdotal vós, seus filhos espirituais – Padres e Irmãos Marianos. Que o dom do
novo Beato vos fortaleça mais ainda na devoção à Mãe de Deus e faça com que divulgueis a mensagem do vosso Fundador na Igreja da Polônia e em todo o mundo.
Alcance-nos isso Maria, a Dolorosa Mãe da Igreja e da humanidade! Amém.
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S. E. R. Tarcisio Bertone
HOMILIA
DURANTE A MISSA DE BEATIFICAÇÃO DO
PE. ESTANISLAU PAPCZYNSKI
(Lichen, 16 de setembro de 2007)
Eminentíssimos Cardeais, Veneráveis Irmãos Bispos e Sacerdotes,
Prezados Representantes das Autoridades civis e militares,
Caros Membros da Família religiosa fundada pelo novo Beato,
Caros Irmãos e Irmãs!
Antes de mais nada, agradeço a Deus por me ter dado pela segunda vez no
decorrer de alguns meses a feliz possibilidade de visitar a vossa querida pátria, pátria do Beato Estanislau Papczynski e do Servo de Deus João Paulo II, que oxalá
possa igualmente – como todos confiamos – ser logo elevado à glória dos altares.
Agradeço também a Deus porque justamente neste santuário, no qual ontem à noite nos encontramos na liturgia das Vésperas, hoje posso presidir a solene Eucaristia, durante a qual, em nome de Sua Santidade Bento XVI, foi-me dado proclamar
Beato o Padre Estanislau Papczynski. É eloqüente e até comovente o fato de que
tudo isto se realiza neste famoso santuário de Nossa Senhora de Lichen, onde há
muitos anos os Padres e os Irmãos Marianos, filhos espirituais do novo Beato,
exercem o ministério pastoral, realizando fielmente o carisma do seu Fundador.
Com esses sentimentos de profunda gratidão a Deus eu gostaria de saudar
cordialmente os Cardeais, Arcebispos e Bispos que para cá vieram. Com especial
gratidão saúdo Sua Excelência Wieslaw Mering, Pastor desta Diocese, que em
espírito de verdadeira fraternidade recebeu a mim e as pessoas que me acompanham. Saúdo respeitosamente as Autoridades civis e militares locais, regionais
e nacionais, a começar pelo Presidente da República da Polônia, o Senhor Lech
Kaczynski. Hoje se cumpre o desejo da Dieta da República das Duas Nações, que
no ano de 1764 enviou uma petição à Santa Sé pedindo que fosse elevado aos
altares “o polonês Estanislau Papczynski, famoso pelos seus milagres” (Volumina
Legum, volume VII, Petersburgo, 1860, p. 168, n. 105). Saúdo todos os presbíteros e diáconos, as pessoas consagradas, e entre elas de maneira especial os Padres
e Irmãos Marianos com o seu Superior Geral, Padre João Rokosz. Saúdo os pere186
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grinos, vindos muitas vezes de lugares distantes. Encaminho finalmente a minha
saudação àqueles que graças à televisão e ao rádio – penso sobretudo nas pessoas
idosas, doentes e prisioneiras – podem participar espiritualmente desta eloqüente
solenidade litúrgica.
A Palavra de Deus que nos propõe a liturgia de hoje, do XXIV Domingo do
Período Comum, desvenda-nos o mistério do homem, que é pecador, e o procedimento de Deus, assinalado pela mais elevada e infinita misericórdia.
“O Senhor, então, desistiu do castigo com o qual havia ameaçado o povo”
(Ex 32, 14). A primeira leitura, há pouco apresentada, mostra-nos Moisés, que
após estabelecer uma aliança com Deus sobe ao monte Sinai, a fim de receber
a tábua da Aliança, e detém-se para um diálogo com Ele por 40 dias. Os israelitas,
cansados da longa espera pela sua volta, afastam-se de Deus, esquecendo-se dos
milagres que realizou para os retirar da escravidão no Egito. A cena descrita pelo
autor bíblico torna-se comovente: Moisés, a quem Iahweh revela o pecado dos israelitas e o propósito de castigá-los, torna-se o defensor deles e começa a suplicar
fervorosamente o perdão para esse povo infiel e pecador. Não busca junto a Deus
a justiça, embora saiba que Israel manchou-se com a mais grave culpa ao ceder
à tentação da idolatria, mas recorre à divina misericórdia e à Aliança que Deus
por iniciativa própria estabeleceu com Abraão, Isaac e Jacó. E Deus ouve a oração de Moisés: paciente e misericordioso, abandona o propósito de castigar o Seu
povo, que d’Ele se afastou. Quanta coisa nos ensina essa página do Livro do Êxodo! Ajuda-nos a descobrir a verdadeira face de Deus. Permite-nos compreender
o mistério do Seu bondoso e misericordioso coração. Ainda que o nosso pecado
tenha as maiores proporções, sempre é maior a divina misericórdia, porque Deus
é Amor.
Um maravilhoso testemunho desse mistério é a experiência humana e espiritual do apóstolo Paulo. Na segunda leitura, extraída da sua Primeira Carta a Timóteo, ele confessa que Deus o atingiu no fundo da sua alma e que, de perseguidor
dos cristãos, fez dele um instrumento da divina graça para a conversão de muitos.
Jesus, o verdadeiro Bom Pastor, não abandona as Suas ovelhas, mas quer conduzir
todas ao aprisco do Pai. E porventura não é esta, caros irmãos e irmãs, igualmente
a nossa experiência? Quando pelo pecado nos afastamos do caminho reto, perdendo a alegria da amizade com Deus, se contritos a Ele voltamos, não sentimos
a severidade do Seu julgamento e da Sua condenação, mas a doçura do Seu amor,
que interiormente nos renova.
“Eu vos digo que, do mesmo modo, há alegria diante dos anjos de Deus por
um só pecador que se converte” (Lc 15, 10). Essas palavras de Jesus, que são citadas pelo evangelista Lucas na perícope há pouco lida, confirmam em nós mais
ainda a certeza do misericordioso amor do Senhor. A Divina Misericórdia é a boa
nova que devemos incansavelmente anunciar, dando o seu testemunho nestes nossos tempos difíceis. Unicamente Cristo, que conhece o homem a fundo, pode falar
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ao coração humano e devolver-lhe a alegria e a dignidade do homem criado à imagem de Deus. E por isso necessita de colaboradores fiéis e de confiança. Necessita
de santos, a conclama-nos a sermos santos, ou seja, verdadeiros amigos de Cristo
e anunciadores do Seu Evangelho.
Um autêntico amigo de Cristo e Seu incansável apóstolo foi o Beato Estanislau de Jesus e Maria Papczynski. Nascido em Podegrodzie, numa pobre família
de aldeia, viveu em tempos em que a Polônia, atormentada por numerosas guerras e pestes, mergulhava num caos e numa miséria cada vez maiores. Educado
de acordo com os sadios princípios do Evangelho, o jovem Estanislau desejava
entregar-se inteiramente a Deus e já desde os anos da juventude sentia-se encaminhado à Virgem Imaculada, Mãe de Cristo. Com o tempo Deus transformou
o pequeno pastor, tão resistente ao estudo e doentio, num pregador que atraía
multidões com a sua erudita sabedoria e seu profundo misticismo; num confessor cujos conselhos espirituais buscavam até os dignitários eclesiásticos e civis;
num professor profundamente erudito, autor de numerosos livros, muitas vezes
editados; no fundador da primeira congregação masculina polonesa, justamente
a Congregação dos Padres Marianos da Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria.
Durante a vida toda foi guiado justamente por Maria. No mistério da Sua
Imaculada Conceição o novo Beato admirava o poder da Redenção de Cristo.
Na Imaculada percebia a beleza do novo homem, inteiramente dedicado a Cristo e à Igreja. Encantou-se com essa verdade da fé a tal ponto que estava pronto
a entregar a vida em sua defesa. Sabia que Maria, a obra-prima da criação divina,
é a confirmação da dignidade de todo homem, amado por Deus e destinado à vida
eterna no céu. Queria que o mistério da Imaculada Conceição fosse um sinal especial da comunidade religiosa que fundou; que fosse constantemente sua força
e verdadeira alegria. Quantas vezes justamente aqui, neste santuário de Nossa Senhora das Dores, onde se reúnem para a oração multidões de peregrinos, ressoou
e continua sendo repetida esta comovente invocação do Beato Estanislau: “Aos
oprimidos, aos que gemem, que são tentados e que se mostram deprimidos, Tu,
Maria, consolas e fortaleces, ajudas e elevas. [...] Ó Doce Virgem! Mostra-nos
Jesus, bendito fruto do Teu ventre!”.
Animado pelo amor de Deus, o Beato Estanislau estava imbuído do ardente
desejo de salvar as almas e dirigia-se aos seus ouvintes com estas palavras cheias
de solicitude: “Volta, pois, volta a teu Pai! Por que perambulas pelo distante país
das paixões, privado de sentimentos de amor para com o Supremo Bem? Dirige-te ao Pai! Cristo te chama, encaminha-te a Ele!” (Inspectio cordis, 1, 25, 2).
Seguindo o exemplo do Misericordioso Samaritano, detinha-se diante do feridos
na alma, suavizava os seus sofrimentos, consolava-os, infundia em seus corações
a esperança e a paz, conduzia-os à “estalagem do perdão” que é o confessionário,
ajudando-lhes dessa forma a recuperar a dignidade cristã perdida ou rejeitada.
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O amor de Deus estimula o Beato Estanislau a proclamar o Evangelho sobretudo aos pobres, às pessoas simples, aos socialmente injustiçados e aos abandonados espiritualmente, aos que se encontravam em perigo de morte. Consciente da
praga do alcoolismo que então se intensificava, pela palavra e pelo exemplo ensinava a sobriedade e a liberdade interior como um escudo eficaz contra todas as
dependências. E amando profundamente a Pátria, República das nações polonesa,
lituana e ucraniana, severamente se pronunciava contra os interesses particulares
dos governantes, o abuso da liberdade da nobreza e a instituição de leis injustas.
Ainda hoje o novo Beato apresenta à Polônia e à Europa, que com dificuldade
busca os caminhos da unidade, o apelo continuamente atual: somente quando se
põem firmes fundamentos em Deus é que se torna possível a reconciliação das
pessoas e das nações. Sem Deus não pode existir a verdadeira justiça social nem
a paz permanente.
Caros irmãos e irmãs! O amor do Beato Estanislau ao ser humano envolvia
também os falecidos. Após uma mística experiência do sofrimento daqueles que
se encontram no purgatório, rezava por eles com profundo fervor e estimulava os
outros a fazer o mesmo. Além da propagação do culto da Imaculada Conceição
e da proclamação da Palavra de Deus, a oração pelos falecidos tornou-se dessa
forma um dos mais importantes objetivos da sua Congregação. A lembrança da
morte, a perspectiva do paraíso, do purgatório e do inferno ajudam a utilizar sabiamente o tempo que passamos na terra. O Beato nos estimula a considerar a morte
como uma etapa necessária do nosso caminho a Deus. Ele nos estimula a aceitar
e respeitar sempre a vida como um dom de Deus, desde a concepção até o fim
natural. Que sinal significativo é para o mundo de hoje o milagre “da inesperada
reanimação da gravidez na sua sétima-oitava semana”, realizado pela intercessão
do Padre Papczynski. Somente Deus é o Senhor da vida humana!
O segredo da vida é o amor: o indizível amor de Deus, que ultrapassa a fraqueza humana, estimula o coração do homem para que ame a vida, para que ame o
próximo e até os inimigos. Aos seus filhos espirituais, o novo Beato deixou desde
o início esta mensagem: “Uma pessoa sem amor, um religioso sem amor é uma
sombra sem o sol, um corpo sem a alma, simplesmente um nada. O que na alma
é o corpo, na Igreja, nas comunidades e nas casas religiosas é o amor”. Não é de
admirar, por isso, que em meio a tantas adversidades e cruzes muitos dos seus
discípulos se tenham distinguido pela perfeição evangélica. Basta lembrar o Venerável Servo de Deus Padre Casimiro Wyszynski (1700-1755), digno promotor
do culto mariano; o Beato Arcebispo Jorge Matulaitis-Matulewicz (1871-1927),
providencial renovador e reformador da Congregação dos Padres Marianos, patrono da reconciliação das nações polonesa e lituana; os beatos mártires de Rosica
(Bielo-Rússia) Jorge Kaszyra (1904-1943) e Antônio Leszczewicz (1890-1943,
que durante a Segunda Guerra Mundial voluntariamente entregaram a vida pela
fé em Cristo e por amor aos homens. Até nos dramáticos momentos das persegui189
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ções a obra do Beato Estanislau não sofreu a extinção. O Beato Jorge MatulaitisMatulewicz conferiu-lhe um novo impulso, dando mais uma vez o testemunho de
que o amor supera tudo.
Caros Padres e Irmãos Marianos! A vós é confiada hoje a preciosa herança espiritual do vosso Fundador. Aceitai-a e sede em toda a parte, como ele,
incansáveis anunciadores do misericordioso amor de Deus, que contemplam
continuamente Maria Imaculada, para que em cada um de nós se realize o plano
divino.
Caros devotos e peregrinos! A Igreja da Polônia alegra-se com a elevação
aos altares deste seu filho escolhido. O exemplo da sua santa vida e a sua celestial intercessão sejam para todos um estímulo para que em todos os momentos
abram confiantemente seus corações à onipotência do divino amor. Repletos
de alegria e de esperança, demos graças a Deus pelo dom do novo Beato e
glorifiquemo-Lo com as palavras do apóstolo Paulo: “Ao Rei dos séculos, ao
Deus incorruptível, invisível e único, honra e glória pelos séculos dos séculos.
Amém!” (1Tm1,17).
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S.E.R. Cardeal Franc Rodé, C.M
Prefeito da Congregação dos Institutos de Vida Consagrada
e Associações de Vida Apostólica
ALOCUÇÃO
DURANTE AS MATINAS
em Lichen no dia 16 de setembro de 2007
Beatificação do Servo de Deus
Padre Estanislau Papczynski
Reflexão de Sua Eminência o Cardeal Franc Rodé, C.M.
Se com ele morremos, com ele viveremos.
Se com ele sofremos, com ele reinaremos.
Se nós o renegamos, também ele nos renegará.
Se lhe somos infiéis, ele permanece fiel. (2Tm 2, 11-13)
O trecho da Carta de São Paulo a Timóteo, que agora ouvimos, serve perfeitamente para nos introduzir no ambiente do dia de hoje, de alegria e festa pela beatificação do Servo de Deus Padre Estanislau Papczynski; pai dos pobres, defensor
dos oprimidos, Fundador da Congregação dos Padres Marianos. Nele podemos
encontrar a encarnação do ideal próprio de todo batizado e, de maneira especial,
de toda pessoa consagrada.
As palavras que ouvimos foram extraídas por São Paulo de um hino litúrgico
das primitivas comunidades cristãs, mas os “condicionamentos” que o Apóstolo
aponta são igualmente importantes para os cristãos de todos os tempos. Tratase de um convite para viver em perfeita união com Cristo; de um convite para
participar da Sua morte e da Sua ressurreição, ou seja, de Suas dificuldades e de
Seus sofrimentos, e do Seu triunfo, que é a ressurreição para a vida verdadeira
e a alegria autêntica.
Vivemos numa época de contínuas perguntas e permanente incerteza. Parece
que os homens e as mulheres dos nossos tempos perderam todos os constantes
pontos de referência, mas Cristo sem cessar dirige o Seu convite a todos, para que
se assemelhem a Ele. Especialmente nós, pessoas consagradas, devemos evitar
as vaidades, hoje tão vulgarizadas, e que fazem com que a fé não penetre a vida,
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e a vida se prive da fé. O ser e toda a existência do cristão devem concentrar-se em
volta de um ponto central: a adesão total a Jesus Cristo.
Cristo Senhor convida as pessoas consagradas a ser as testemunhas no mundo,
instrumentos visíveis do Evangelho, provas fidedignas da Sua salutar presença,
sinais do Seu amor diante de todo homem e toda mulher. Não apenas pela palavra, mas sobretudo por um estilo de vida particular, um coração livre e um espírito criativo, permiti que aqueles que encontrardes em vosso caminho descubram
o misericordioso amor de Deus. Para poder fazer isso, é preciso, como escreve
o Padre Papczynski aos seus religiosos, “levantar-se e segui-Lo”. “Eis que tens
fornecida para ti uma boa regra de imitação de Cristo: levantar-se e segui-Lo.
Se não te levantares, não serás capaz de acompanhá-Lo, ainda que te pareça que
estás seguindo os Seus passos. Se nos recônditos da tua vontade própria ocultas
os interesses do amor-próprio e outros semelhantes, não segues a Cristo, não imitas verdadeiramente a Cristo, ainda que uses o traje religioso, ainda que tenhas
professado os votos da obediência, castidade e pobreza, e disso te vanglories. Por
isso levanta-te e segue-O, porque, se não te levantares, jamais seguirás os Seus
passos” (cf. Inspectio cordis).
Levantemo-nos e imitemo-Lo, para renovar as nossas forças interiores (cf. Ef
3, 16) como diz o Apóstolo Paulo, buscando a intimidade com o Senhor da vida,
estando sempre prontos a que Ele cumpra em nós a Sua obra. Através da oração,
do conhecimento da Palavra de Deus, de encontros eucarísticos e do sacramento
da Reconciliação. Através de um autêntico testemunho de vida fraterna em comunidade, da prontidão para a obediência, da coragem para a pobreza a da fortaleza
da castidade. Apenas dessa forma podemos dar um testemunho claro e verdadeiro da Ressurreição de Cristo, praticando, como o fazia o Servo de Deus Padre
Estanislau Papczynski, concretos sinais de amor diante dos oprimidos e pobres,
para que todos saibam em quem depositar a confiança, pois de fato “o amor em
sua pureza e em seu desinteresse – como escreveu o Santo Padre Bento XVI na
Encíclica Deus Caritas est – é o melhor testemunho a respeito de Deus, em quem
acreditamos e que nos estimula ao amor” (DCE,31).
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S.E.R. Franc Rodé, C.M.
HOMILA
DURANTE A MISSA DE AÇÃO DE GRAÇAS PELA
BEATIFICAÇÃO DO PE. ESTANISLAU PAPCZYNSKI
JUNTO AO SEU TÚMULO
em Góra Kalwaria no dia 17 de setembro e 2007
(no dia da morte do Beato)
Excelentíssimo Senhor Arcebispo Metropolitano,
Excelentíssimos Arcebispos e Bispos,
Reverendíssimo Padre Superior Geral, juntamente com todos os Padres e Irmãos
da venerável Congregação dos Padres Marianos,
Irmãos Sacerdotes, Pessoas Consagradas,
Prezados representantes das Autoridades de todos os níveis e dignidades,
Amados em Cristo Senhor Irmãos e Irmãs
O Senhor é o meu pastor (Sl 23, 1). Com as palavras de um dos mais belos
salmos da Bíblia bendizemos a Deus nesta alegre liturgia. Elevamos a Ele ações
de graças por tudo que fez por todos nós em Seu Filho Jesus Cristo. Neste dia,
aguardado por vós, Irmãos e Irmãs, com tanta ansiedade e oração, agradecemos
especialmente pelo fruto maduro da graça de Cristo que a Igreja apresenta diante
de nós elevando aos altares o Padre Estanislau Papczynski.
Setenta anos, repletos de uma ardente e intransigente busca de Deus na
oração, na mortificação e no serviço aos semelhantes, conduziram o Beato Estanislau à alegria do céu. Com o alegre salmo dos peregrinos que atingiram o seu
objetivo, pode-se descrever esse seu caminho desde Podegrodzie, onde nasceu
numa numerosa família de aldeia do simples ferreiro Tomás e de Sofia, até
o lugar da nossa celebração de hoje, onde descansam os seus restos mortais. Que
caminho percorreu? Quantas dificuldades superou? Quantas lutas pela fidelidade
à voz interior do Espírito e da própria consciência? Apenas Ele mesmo, o bom
Pastor, cujos passos seguiu até o final dos seus dias, conhece as respostas a essas
perguntas. Conhece a fidelidade e a labuta de Seu servo, a quem conduziu à casa
do Pai (cf. Jo 14, 2).
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O descanso dos santos é um laborioso amor. Sabeis disso perfeitamente vós,
fiéis devotos do novo Beato, que há anos vindes até aqui, a Marianki, de diversos recantos da terra polonesa e de distantes regiões do mundo. Muitos dentre
vós e dos vossos conhecidos tiveram a experiência do poder da sua intercessão.
Alguns anos antes da sua morte, em seu primeiro testamento espiritual, o Padre
Estanislau escreveu que estava deixando este mundo com apenas uma dívida,
dívida de gratidão diante dos habitantes desta cidade e de todos os seus benfeitores, amigos e inimigos. Afastou-se para Deus, mas permaneceu aqui conosco
como um amoroso devedor, para ouvir e socorrer aqueles que dele se aproximam.
A sua intercessão abre as portas dos corações humanos à ação da graça divina,
em razão da qual rompem-se os laços dos pecados, despedaçam-se as cadeias dos
vícios, e a vida que nasce, e que já foi envolvida pelas sombras da morte, floresce
novamente.
Muito tempo tivemos de esperar pela alegria da ação de graças de hoje. Para
vós, estimados Padres e Irmãos Marianos, foram três séculos de orações e empenhos para que o esplendor da santidade do Padre Fundador, da qual sempre
estivestes convencidos, resplandecesse para o mundo todo. Nessa expectativa,
durante anos acompanhou-vos a família espiritual mariana e numerosos devotos
do Beato Estanislau. Em muitos corações pode surgir a pergunta: por que tanto tempo? Lembremo-nos de que a Providência Divina nem sempre anda pelos
caminhos dos anseios humanos e de que os dons da Sua graça muitas vezes não
vêm quando os pedimos, mas no tempo mais oportuno. Se agora nos alegramos
com a elevação de Estanislau Papczynski aos altares, com todo o vigor podemos
dizer que hoje é o dia em que o testemunho da sua vida é mais necessário à Igreja
e ao mundo. A beatificação é o final de um caminho, mas é muito mais um desafio apresentado por Deus para que novamente sigamos adiante. Caros Marianos,
nunca nos mais de trezentos anos da história da vossa Congregação houve uma
necessidade mais urgente de debruçar-vos novamente sobre a vida e o carisma
do vosso Fundador. Voltai à fonte da qual brotou a vocação de cada um de vós.
Voltai à vida repleta de consagração religiosa, de um coração indivisível, quando
com confiança confiastes a vossa vida, as vossas forças e fraquezas à misericórdia
d’Aquele que por vós morreu e ressuscitou (cf. 2Cor 5, 15).
Tanto a leitura de hoje da Carta aos Efésios como o trecho do Evangelho de
João constituem um único apelo a uma profunda e amorosa comunhão. Quando
ouvimos essas palavras, que são como que o testamento de Jesus e o Seu último
ensinamento transmitido aos discípulos, é difícil deixar de lembrar orientações
semelhantes que vos deixou o vosso Fundador. Na Regra de vida ele escreveu:
Aquela, finalmente, deve ser a vossa regra comum e o caminho mais seguro ao
céu que em ambos os Testamentos a Divina Sabedoria quis reconhecer como
a mais digna de recomendação: “Amarás ao Senhor teu Deus com todo o teu
coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento”. E no que diz ao
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amor mútuo, aquele dentre vós saiba que é mais caro à Divina Majestade quem
for considerado como o que mais se distingue no amor mútuo. Que cada um se
lembre de que a alma do seu Instituto é o amor e de que, na medida em que dele
se afastar, na mesma proporção também se afastará da vida.
Caros Marianos! Alegrando-vos com o dom desta beatificação, escolhei novamente o caminho para o qual vos chama o Evangelho e que vos apontou o Fundador. Apenas aquele que cumpre o testamento do Pai é digno de levar o nome de
filho. O dom espiritual e a missão que o Beato Estanislau recebeu de Deus foram
por ele transmitidos a vós quando definiu o objetivo da congregação por ele
fundada com as palavras: Mas, para que não permaneçais inativos na vinha do
Senhor, propagareis a honra da Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Mãe
de Deus na medida das vossas modestas forças, e com o máximo esforço, piedade e zelo pela oração prestareis socorro às almas dos fiéis falecidos e submetidos
aos castigos do purgatório. [...] E àqueles que forem agraciados com esse tipo de
aptidões não será proibido humildemente ajudar aos párocos nas tarefas eclesiásticas, se alguma vez, com a prévia autorização dos ordinários e dos superiores,
por eles forem convocados. Esse é um campo muito amplo e rico de atuação.
Envolve muitas questões teológicas e oculta em si inúmeros apelos pastorais. Diz
respeito às origens da pessoa humana e ao fim da peregrinação do homem, apresentando o poder da graça e da misericórdia d’Aquele que nos amou até o fim (cf.
Jo 13, 1). Com certeza não é um acaso que o milagre atribuído à intercessão do
Beato Estanislau e confirmado pela Igreja realizou-se no seio de uma mãe, com
uma criança concebida que se encontrava entre a vida e a morte. É uma obra da
Divina Providência que a beatificação com a qual agora nos alegramos é dada ao
mundo de hoje em tempos em que com tanta freqüência se rejeita a presença de
Deus e a ação da Sua graça no limiar da existência humana. A vinha do Senhor
necessita dos filhos espirituais do Padre Papczynski, que produzirão frutos assumindo e desenvolvendo o carisma que Deus lhe concedeu.
A Igreja e o mundo necessitam também de vós, estimados colaboradores leigos, que de diversas formas participais da espiritualidade e da missão da Congregação dos Marianos. Do carisma que resplandeceu no Beato Estanislau retirai
forças e inspiração para proclamar o Evangelho de Cristo ao homem contemporâneo. É também graças a vós que as obras realizadas hoje pela Congregação em
muitos países do mundo produzem maravilhosos frutos. Recebestes de Deus uma
vocação especial. Sede fiéis a ela.
A Igreja e o mundo necessitam também de vós, devotos do Beato Estanislau. Fascinados pelo seu caminho de fé e tendo experimentado a sua eficaz
intercessão junto a Deus, procurai ser no mundo testemunhas do amor de Deus,
imitadores de Sua Mãe, zelosos advogados dos falecidos e sobretudo apóstolos
da caridade.
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De maneira especial penso aqui a respeito de vós, habitantes desta cidade,
Góra Kalwaria, onde desde o início se encontra o túmulo do Beato. Vós sempre
envolvestes de extraordinário respeito e cordial proteção os seus restos mortais,
recorrendo à sua intercessão nos momentos difíceis da vida pessoal e na história
convulsionada da vossa Pátria, tratando o Padre Estanislau como o vosso santo
e padroeiro da vossa cidade. E assim, graças ao vosso amor, ele se torna um beato
de toda a Igreja.
Caríssimos Irmãos e Irmãs, por muitos vínculos unidos com o Beato Estanislau! Cada um de vós, da forma que lhe é própria, é o herdeiro do espírito com
que ele viveu, rezou e trabalhou. Em uma de suas obras, intitulada Templum Dei
mysticum, ele escreveu que todo cristão é um templo de Deus e ensinou como
fazer para que esse templo não fique abandonado, sujo e descuidado, mas para
que resida nele Deus, cercado pela beleza do amor, da oração e da virtude. Abrindo-vos à luz e ao poder do Espírito Santo, empreendei o esforço de construir em
vós esse templo. Que em vossos corações resida Cristo. Sede os servos da Sua
presença em todos os lugares aonde vos enviar e tende a certeza de que nesse
esforço não vos faltará a intercessão do Beato Estanislau e de Maria Imaculada,
cuja honra com tanto zelo propagou.
O Senhor é o bom Pastor que dá a vida pelas Suas ovelhas (cf. Jo 10, 11).
Ele conduz o homem pelos melhores caminhos e o retira do vale da morte, para
lhe dar a morada em Sua casa pelos séculos. A Ele damos graças hoje, festejando
a memória da Sua Páscoa. Por força da morte e da ressurreição de Cristo, a graça
de Deus alcançou plena vitória na vida do Padre Estanislau Papczynski e lhe
permitiu participar da glória do céu. Que as palavras do Beato, que bendizem
o triunfo de Cristo sobre a morte, inflamem os nossos corações para a continuação
da celebração litúrgica e para toda a nossa vida: A morte morreu no momento em
que no lenho morreu a Vida. Quando Jesus, dando o sinal da morte, tendo inclinado a cabeça, entregou o espírito, então voltou a nós o sopro da vida. Quando
morreu, Ele nos fortaleceu. Quando superou a morte, preparou para nós a alegria
em razão do infindável triunfo. Que triunfo foi esse? “Consumida está a morte
na vitória” – alegremente exclamou Paulo. Zomba da morte: “Onde está a tua
vitória, ó morte? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? [...] Mas graças a Deus, que
nos deu a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo” (Christus Patiens VII).
No Beato Padre Estanislau Papczynski resplandeceu a vitória do Senhor
e a plenitude da Sua vida, decorrente da Páscoa. Que resplandeçam também em
nós. Para a vida eterna. Amém!
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S.E.R. José Glemp, Primaz da Polônia
VIGIAR COM MARIA EM TODAS
AS CIRCUNSTÂNCIAS DA VIDA
Apelo mariano pronunciado em Lichen
na véspera da beatificação
de Estanislau Papczynski, 15 de setembro e 2007
O apelo de Monte Claro do dia de hoje eleva-se ao céu em honra de Maria
de Lichen, grande santuário dos tempos modernos. Apresentamo-nos diante de
Maria, nossa Mãe e Rainha, com multidões de peregrinos, com bispos, sacerdotes
e irmãos da Congregação dos Padres Marianos, com um grande número de irmãs
religiosas e pessoas de vida consagrada, e sobretudo com o Fundador da Congregação da Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria – dos Padres Marianos, o Padre Estanislau Papczynski. Sim, o Padre Papczynski encontra-se conosco de maneira especial, porque aguarda o ato solene de ser proclamado um beato
habitante do céu. A sua beatificação em Lichen confirma o dinamismo pastoral
dos seus filhos espirituais e a vitalidade religiosa daquelas regiões da Polônia que
abrangem uma parte da Grande Polônia, de Kujawy, da Pomerânia e da Masóvia.
A essa comunidade espiritual do Apelo juntam-se o beato arcebispo Jorge Matulewicz e o Servo de Deus Pe. Casimiro Wyszynski, bem como os meus predecessores na dignidade de primazes – os cardeais Edmundo Dalbor, Augusto Hlond
e Estêvão Wyszynski. O conteúdo do Apelo Mariano é a declaração extraída do
texto da oração da noite, cantada solenemente em Monte Claro: “Maria, Rainha
da Polônia, estou junto a Ti, lembro, vigio”.
“Estou junto a Ti” significa a permanência junto a Maria em todas as circunstâncias, nas felizes e nas dolorosas, na saúde e na doença, em meio a pessoas benevolentes e invejosas, na consciência do estado de graça e nas tentações, na vida
sóbria, e tanto mais em estados sombrios, quando é preciso manter-se firmemente
a bordo para não cair nos turbilhões. A essas nossas exigências relacionadas com
a permanência junto a Maria, adicionamos hoje aquelas situações de permanecer
junto a Ela que caracterizaram o Padre Papczynski. Ele amou Maria desde a infância. Não se abalou na confiança n’Ela depositada quando foi expulso da escola,
e tanto mais permanecia junto a Ela quando tinha de cumprir tarefas comuns e
apascentar vacas. Estava estudando em Varsóvia quando teve início a ocupação
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sueca. Agredido por um soldado sueco, não se abalou. Perseverou até o final da
ocupação sueca, não fugiu, embora visse Varsóvia destruída – destruída de forma
semelhante àquela dos tempos do Levante de Varsóvia em 1944. Permaneceu junto a Maria e confiou quando vieram provações difíceis para a nova Congregação,
localizada na Floresta Mariana, outrora chamada Floresta de Korabiewice, e os
noviços que se apresentavam fugiam, escolhendo antes o estilo de vida mundano
que o mundo da oração e da contemplação. O Padre Papczynski permanecia em
contemplação, interrompida muitas vezes pela participação na vida pastoral nas
paróquias da região.
A segunda palavra do Apelo é “lembro”. O Servo de Deus Estanislau Papczynski permanecia com toda a sua lembrança junto a Maria. A sua lembrança era animada pela recordação da milagrosa defesa de Monte Claro, da obstinada defesa
das fronteiras da Polônia diante da pressão do exército turco nas diversas lutas em
Chocim, e ainda pela famosa vitória no socorro a Viena. Lembrava o que tinha
incutido pelo cultivo do estilo da vida religiosa, que havia adquirido como membro da comunidade das Escolas Pias. Ouvia dos padres jesuítas relatos a respeito
dos sacrifícios que tinham de suportar em defesa da fé. Embora naquela época
houvesse muitos mártires da fé, certamente a lembrança das torturas infligidas ao
padre André Bobola estava gravada em sua memória. A obrigação do religioso era
ensinar. O Padre Papczynski não se esqueceu de ensinar, através da redação de
dissertações e de aulas, bem como através de sermões – e esse era o seu “lembro”
diante de Maria.
A terceira palavra do Apelo é “vigio”. O Padre Papczynski sabia vigiar na
oração. Era capaz de fechar-se na cela e permanecer em oração, afastado do mundo, em êxtase. Essa era a sua forma de vigiar. Estando perto de Deus, estava sempre perto de Maria, perto do mundo em que vive Deus com os santos e os anjos.
O Padre Papczynski estava muito perto das almas que permanecem no purgatório.
Via muitas pessoas afastando-se deste mundo após terem participado de batalhas
e durante a peste que grassava. Estava convencido de que as almas dessas pessoas
afastavam-se para o purgatório e de que elas continuamente vigiavam.
Seguindo o exemplo da vida do Beato Padre Papczynski, vigiemos com Maria
em todas as circunstâncias da nossa vida. Amém.
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S.E.R. Estanislau Dziwisz,
Metropolita de Cracovia
HOMILIA
DURANTE A MISSA DE AÇÃO DE GRAÇAS PELA
BEATIFICAÇÃO DO PE. ESTANISLAU PAPCZYNSKI
na capela dos bispos de Cracóvia
no dia 19 de setembro de 2007
1. Immaculata Virginis Conceptio sit nobis salus et protectio – “A Imaculada
Conceição de Maria seja a nossa salvação e proteção”.
Caros Padres Marianos! Essa invocação, a cuja repetição estimulava os seus
filhos espirituais o beato Estanislau Papczynski, seja o lema da nossa ação de
graças por essa extraordinária figura na história da Igreja na Polônia e da nossa
Pátria. Como fundador dos Padres Marianos e grande devoto da Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria, ele se inscreve para sempre no panteão dos
santos da Igreja na Polônia e no mundo.
Por disposição da Divina Providência, o Beato Estanislau Papczynski esteve
ligado com a diocese de Cracóvia, visto que nasceu em seu território. Ligou-se
com Cracóvia através da Ordem das Escolas Pias de Cracóvia, quando residiu na
casa dessa Ordem no bairro de Kazimierz. Nos momentos difíceis da sua vida
buscou ajuda em Cracóvia junto ao bispo Nicolau Oborski. Foi aqui que finalmente amadureceu nele o pensamento carismático da fundação de uma nova congregação.
Também não podemos esquecer que foi justamente o Papa de Cracóvia,
o Santo Padre João Paulo II, que reativou a causa da beatificação de Estanislau
Papczynski e no dia 13 de junho de 1992, no consistório em Roma, proclamou
o decreto sobre o heroísmo das suas virtudes. Dessa forma o processo de beatificação, que durou quase 300 anos, ingressou num novo caminho.
Na capela da casa dos bispos de Cracóvia queremos hoje agradecer a Deus
pelo Beato Estanislau Papczynski e pela obra que ele nos deixou.
2. Como na vida de muitos santos daquela época, também nas vicissitudes da
vida do Beato Estanislau Papczynski encontramos muitos paradoxos.
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Sem entrar nos detalhes da sua vida, que vos é bem conhecida, gostaria de
apontar apenas para alguns fatos que confirmam a minha constatação. O Beato
era filho de um camponês de Podegrodzie, na região de Nowy Sacz, e no entanto
concluiu o colégio jesuíta em Lvov. Iniciou a sua carreira espiritual nas Escolas
Pias, e concluiu-a como fundador da Congregação dos Marianos, a primeira congregação masculina polonesa. Como religioso das Escolas Pias, foi confessor do
rei João III Sobieski e do núncio apostólico na Polônia, Antonio Pignatelli, mais
tarde papa Inocêncio XII. Ainda no seio materno, Estanislau Papczynski foi confiado à proteção de Nossa Senhora. Graças à Sua intercessão, muitas vezes livrouse milagrosamente de perigos graças à Sua mão protetora.
3. O Beato Estanislau Papczynski tornou-se famoso em seu tempo como eminente pregador, zeloso anunciador do Evangelho e grande devoto do mistério da
Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria. A respeito do seu grande amor
a Nossa Senhora falou em sua homilia o cardeal Tarcisio Bertone, durante a solene beatificação em Lichen, no domingo passado: “No mistério da Sua Imaculada
Conceição o novo Beato admirava o poder da Redenção de Cristo. Na Imaculada
percebeu a beleza do novo homem, totalmente dedicado a Cristo e à Igreja. Fascinou-se com essa verdade da fé a tal ponto que estava proto a entregar a vida em
sua defesa. Sabia que Maria, a obra-prima da criação divina, é a confirmação da
dignidade de todo ser humano, amado por Deus e destinado à vida no céu” (Homilia em Lichen, 16.09.2007). Pelo ministério de pregador e confessor, e especialmente pelo seu envolvimento na luta contra o alcoolismo, que já naquela época
era uma grande praga nacional, o Beato Estanislau Papczynski conduzia o homem
à beleza e à dignidade, que lhe foram dadas pelo Criador e Redentor.
4. Caros Padres Marianos, alegro-me porque posso hoje, juntamente convosco, agradecer a Deus pela graça da beatificação do vosso Fundador, o Beato
Estanislau Papczynski, que foi uma personalidade extraordinária no seu tempo.
Quando participava da sua beatificação – tão bem preparada que pode servir de
modelo para posteriores acontecimentos eclesiásticos desse tipo na Polônia –, em
meu coração surgiram três pensamentos, que desejo convosco partilhar.
O Beato Estanislau Papczynski foi um grande devoto do mistério da Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria. Eu vos peço que proclameis a glória
de Maria Imaculada com todo o fervor. O vosso Fundador confiou a Nossa Senhora a Congregação dos Padres Marianos. A exemplo do Beato, aprendei a plena
confiança em Deus e o zeloso cumprimento da Sua vontade, repetindo o “fiat”
mariano - faça-se em mim!
O Beato Estanislau tinha uma grande devoção às almas do purgatório. Fiéis ao
Fundador, buscai o reavivamento da oração pelas almas do purgatório. A prática
dessa oração desperta nos corações das pessoas a fé na vida eterna e o anseio pela
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plena felicidade no céu. O materialismo enfraquece hoje o nosso desejo do céu
e faz com que nos satisfaçamos com as coisas terrenas, esquecendo as celestiais.
Isso conduz à cultura do consumismo, que priva as nossas almas do anseio pela
vida e pela felicidade eterna. Despertai, portanto, o desejo do céu nos corações
dos crentes e estimulai à oração na intenção das almas do purgatório.
O terceiro pensamento que desejo hoje convosco partilhar é a solicitude pelo
culto da Divina Misericórdia, que nos foi confiado pelo Santo Padre João Paulo II,
grande Apóstolo da Divina Misericórdia. Agradeço-vos a solicitude pelo culto
da Divina Misericórdia e peço que continueis a propagar esse culto no mundo,
especialmente nos Estados Unidos e na Inglaterra, como o tendes feito até agora.
Muito vos peço que não vos esqueçais de que a essência do mistério da Divina
Misericórdia expressa-se igualmente no sacramento da penitência, da qual o vosso Fundador foi um zeloso incentivador. Por isso estimulai à freqüente confissão
e servi ao homem de hoje com o vosso sacerdócio.
Nesta ocasião desejo agradecer-vos pela contribuição para a vida da Igreja
de Cracóvia através do desenvolvimento da pastoral paroquial, bem como pela
valiosa e responsável contribuição no Semanário Universal e pela cooperação
intelectual com o Santo Padre.
O Beato Estanislau Papczynski foi sempre fiel a Deus, tanto nos momentos de
alegria como nos momentos de experiências difíceis e de adversidades. Por isso
tudo, demos hoje graças ao Pai misericordioso, pedindo a vossa fidelidade a Deus
e à Igreja através da fidelidade à herança espiritual do vosso Beato.
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Pe. Jan M. Rokosz MIC,
Superior Geral dos Padres Marianos
DISCURSO
PARA A SAUDAÇÃO DO LEGADO PONTIFÍCIO,
SUA EMINÊNCIA CARDEAL TARCISIO BERTONE,
NA VÉSPERA DA BEATIFICAÇÃO DO
PADRE ESTANISLAU PAPCZYNSKI
Lichen, 15 de setembro de 2007
Quão graciosos, sobre os montes, são os pés do mensageiro, do que anuncia
a paz, do que proclama boas novas e anuncia a salvação... (Is 52, 7).
Com essas palavras do profeta Isaías, com profunda alegria, emoção e humildade, em nome dos Padres e Irmãos Marianos saúdo Vossa Eminência em nossa
casa. Peço-Lhe que aceite de nós as expressões do mais profundo devotamento,
respeito e amor. Por disposição da Divina Providência, Vossa Eminência é realmente para nós um mensageiro da Boa Nova, por nos trazer a Carta Apostólica do
Santo Padre Bento XVI anunciando a inclusão do nosso Fundador, do Venerável
Servo de Deus Estanislau Papczynski, no rol dos beatos. Por essa feliz notícia a
nossa comunidade tem esperado mais de trezentos anos.
Vendo as coisas à maneira humana, a Congregação dos Padres Marianos já
não deveria existir. Com efeito, nos lugares onde fundávamos casas religiosas,
ocorriam perseguições da parte das autoridades civis (Portugal, Roma, Polônia,
Lituânia). Em 1908, em Mariampol, Lituânia, havia restado um único mariano,
idoso e doentio, que estava convencido de que com a sua morte a comunidade deixaria de existir. Mas Deus não permitiu que a obra que Ele mesmo havia iniciado
com o Padre Estanislau Papczynski fosse condenada à extinção. Um educando
dos marianos de Mariampol e professor da Academia Religiosa de São Petersburgo, o pe. Jorge Matulewicz-Matulaitis, agindo na clandestinidade e arriscando
a própria vida, renovou e reformou a ordem religiosa, conferindo-lhe um novo
dinamismo apostólico. Isso nos confirma na convicção de que o nosso carisma é
hoje necessário à Igreja. Hoje mais de 500 padres e irmãos marianos trabalham
por Cristo e pela Igreja em 18 países e em todos os continentes.
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Saúdo com a máxima cordialidade os digníssimos hóspedes, Cardeais, Arcebispos e Bispos da Polônia e do exterior. Entre eles seja-me permitido mencionar
o ordinário do lugar – Dom Wieslaw Mering, o Primaz da Polônia Cardeal José
Glemp e o presidente do Episcopado Polonês, o Arcebispo Dom José Michalik.
Saúdo os superiores gerais e provinciais, os representantes de diversas comunidades de vida consagrada na Polônia e no exterior, de maneira especial o superior
geral da Ordem das Escolas Pias, comunidade com a qual o Padre Papczynski
esteve ligado por vínculos de votos e de amor.
A todos e a cada um em particular, agradeço profundamente por quererem
partilhar conosco a alegria e a ação de graças pelo dom da beatificação do nosso
Fundador. Desejo-lhes uma agradável estada no santuário de Nossa Senhora de
Lichen, proveitoso para o corpo e o espírito.
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Pe. Jan M. Rokosz MIC
DISCURSO
PARA O ENCERRAMENTO
DA MISSA DE BEATIFICAÇÃO
PADRE ESTANISLAU PAPCZYNSKI
Lichen 16 e setembro de 2007
Mas felizes os vossos olhos, porque vêem, e os vossos ouvidos, porque ouvem.
(...) muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes e não viram, e ouvir o que
ouvis e não ouviram (Mt 13, 16).
Essas palavras de Jesus Cristo, ditas às multidões nas margens do lago de
Genesaré, são como que dirigidas a nós. O nosso fundador, Padre Estanislau Papczynski, foi elevado à glória dos altares. Por esse momento, a Congregação dos
marianos e os devotos do Beato esperaram cerca de trezentos anos. Hoje foram
ouvidas as orações daqueles que sempre acreditaram que ele é santo e que o exemplo da sua vida deve ser apresentado a todos os cristãos como inspiração e modelo
a ser imitado. Simboliza isso de forma eloqüente a sua imagem, localizada nesta
basílica, construída como lugar de oração e de evangelização para o terceiro milênio do cristianismo.
Para nós é uma grande honra que o Santo Padre Bento XVI seja representado
pelo Secretário de Estado da Santa Sé, o Cardeal Tarcisio Bertone. Agradeço a
Vossa Eminência por ter proclamado o Padre Estanislau beato e pela comovente
mensagem a nós dirigida. Ainda hoje o cardeal Bertone, como o primeiro dos
peregrinos, prestará uma homenagem ao novo Beato e junto ao seu túmulo rezará
pela Igreja na Polônia e pela Congregação dos Marianos. Entregamos nas mãos
de Vossa Eminência as expressões do mais profundo devotamento a Bento XVI.
Ao amado Santo Padre, agradecemos pelas palavras de saudação a nós dirigidas
durante a oração do Ângelus e pelo eloqüente donativo para o Santuário, que é
um Evangeliário com uma dedicatória manuscrita: Caros Padres Marianos, ouvi
e proclamai o Evangelho seguindo o exemplo da Imaculada Mãe de Cristo. Esse
donativo nos inspira a uma zelosa evangelização, a exemplo do bem-aventuradoo
Estanislau, que como pregador incansável anunciou a Boa Nova aos pobres e aos
ricos.
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O Padre Papczynski estimulava os compatriotas ao amor à Pátria e com vigor estigmatizava os defeitos nacionais poloneses. Ele é considerado por muitos
como um segundo Pedro Skarga. Hoje o Presidente da República da Polônia, Lech
Kaczynski, juntamente com representantes do governo, participa desta solenidade de beatificação. Senhor Presidente, agradecemos por esta eloqüente presença!
Fazemos votos que o novo Beato apóie Vossa Excelência na Sua tarefa de guiar o
nosso barco nacional para tempos melhores.
Agradeço cordialmente aos hóspedes vindos do Vaticano, representantes de
diversos dicastérios, tendo a frente o Prefeito da Congregação dos Institutos de
Vida Consagrada e Associações de Vida Apostólica, Sua Eminência o Cardeal
Franc Rodé, cuja presença nos é especialmente cara.
Expresso a minha gratidão a todas as pessoas envolvidas no processo de beatificação do nosso Fundador, das dioceses de Poznan, Varsóvia e Elk, bem como
de diversos dicastérios da Santa Sé.
Agradeço ardentemente pela sua vinda aos Cardeais, Arcebispos, Bispos
e Sacerdotes de diversos países onde trabalham os marianos: da Europa Oriental
e Ocidental, da América do Norte e do Sul, e mesmo da Ásia e da África. Constitui para nós uma enorme alegria a presença de tantos Pastores da Igreja da nossa
Pátria, tendo à frente o Primaz da Polônia, Cardeal José Glemp e o presidente do
Episcopado, Arcebispo José Michalik. Encaminho a minha cordial gratidão ao
ordinário do lugar, Dom Wieslaw Mering, que nos envolve com a sua solicitude
pastoral. Alegramo-nos pela numerosa presença de pessoas consagradas, com os
seus Superiores gerais e provinciais. Esse é um sinal eloqüente de fraternidade
e comunhão das pessoas consagradas.
Saúdo todos os devotos do bem-aventurado Estanislau vindos de perto e de
longe. Seja-me permitido mencionar os peregrinos das paróquias marianas da Polônia e do exterior, bem como os peregrinos das dioceses e paróquias ligadas de
maneira especial com o novo beato: da diocese de Tarnów e de Podegrodzie,
onde nasceu o Padre Papczynski; da diocese de Lowicz e de Puszcza Marianska,
onde o Beato fundou a Ordem dos Marianos; da arquidiocese de Varsóvia e de
Góra Kalwaria, onde se encontra o túmulo do Beato; da diocese de Elk, onde se
realizou o milagre pela intercessão do Padre Estanislau e que lhe abriu o caminho
aos altares.
Note-se também a presença dos devotos de Nossa Senhora de Lichen e dos
paroquianos locais, que, ao construírem esta basílica, expressaram a sua fé e o seu
amor a Deus e à Imaculada. Saúdo cordialmente os cooperadores leigos da Congregação dos Marianos, que de diversas maneiras realizam o carisma do Padre
Papczynski. Saúdo a todos que estão ligados conosco através do rádio e da televisão. Do fundo do coração agradeço a todos que prepararam esta solenidade,
porquanto despenderam nisso muito esforço e amor.
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Com especial emoção saúdo os caros Coirmãos Marianos aqui presentes, bem
como aqueles que não puderam vir para esta solenidade. A fé na comunhão dos
santos permite que nos unamos com os Coirmãos que não viveram até este dia,
mas que agora, juntamente conosco, alegram-se com a alegria do céu. Hoje, mais
do que em qualquer outra ocasião, estamos unidos numa grande alegria, em ação
de graças e no desejo de viver a nossa vocação com um novo entusiasmo e zelo.
Que a alegria do dia de hoje frutifique na santidade da nossa vida e num novo
vigor na proclamação do Evangelho.
O Padre Estanislau viveu há mais de três séculos. Por isso nos perguntamos:
por que justamente somos nós que alcançamos a graça da sua beatificação, embora antes de nós tenham esperado por ela tantas gerações? Se Deus previu para
agora a elevação do Padre Papczynski à glória dos altares, isso significa que ele
é uma personalidade especialmente atual para os nossos tempos; que esse bemaventurado tem algo importante a nos dizer. Aceitemos, portanto, o Padre Papczynski e a sua profética mensagem como um dom divino para a Igreja, a Polônia
e o mundo.
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Pe. Jan M. Rokosz MIC
DISCURSO PARA O INÍCIO
DA MISSA DE AÇÃO DE GRAÇAS
PELO DOM DA BEATIFICAÇÃO
DO PADRE ESTANISLAU PAPCZYNSKI
no 306º aniversário da sua morte
Góra Kalwaria (Marianki), 17 de setembro de 2007
Esgotado pela labuta por Deus e pela Sua Igreja, pela penitência voluntária,
debilitado por uma febre alta que durou cerca de um mês, após o encerramento
do grande Jubileu, depois de ter recebido todos os sacramentos, em meio a anseios e suspiros mais freqüentes para já romper com o mundo e estar com Cristo,
na presença dos irmãos, num indizível clima de amor e piedade, ou seja, em suspiros de oração, abraçando a cruz do Senhor, tranqüilamente entregou a alma a
Deus no dia 17 de setembro, após o pôr do sol, no ano de 1701.
Quando um dia após a beatificação do Padre Estanislau reunimo-nos junto
ao seu túmulo, não posso deixar de lembrar a descrição da morte do Beato, que
nos foi transmitida pelos seus primeiros companheiros. Celebrando a Eucaristia
de ação de graças pela graça da elevação do Padre Estanislau Papczynski à glória
dos altares, reunimo-nos exatamente no mesmo lugar, no mesmo dia e quase que
na mesma hora em que, há 306 anos, pela morte ele entrou na glória do céu. Seria
difícil deixar de perceber nisso um sinal da Divina Providência, à qual o Padre
Papczynski confiou o destino da Congregação dos Padres Marianos. Essa Providência nos conduziu por três séculos, encontra-se conosco neste momento e lugar
excepcional da história da salvação e sempre nos acompanhará.
Com especial alegria saúdo os hóspedes do Vaticano, de diversos dicastérios,
tendo à frente o Prefeito da Congregação dos Institutos de Vida Consagrada e Associações de Vida Apostólica, Sua Eminência Cardeal Franc Rodé, que representa entre nós o Santo Padre Bento XVI. Agradeço cordialmente por ter aceitado
o nosso convite. A presença de Vossa Eminência é para nós um dom extremamente eloqüente. Um dom que nos fornece coragem e nos obriga a fielmente seguir
o carisma e a fielmente perseverar na vida religiosa.
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Alegro-me muito por estar entre nós o Pastor da arquidiocese, o Arcebispo
Casimiro Nycz, bem como pela presença de todos os Arcebispos e Bispos que
vieram das dioceses em que nós, marianos, exercemos o nosso ministério na Polônia e no mundo. Saúdo os Superiores das congregações masculinas e femininas e
todas as pessoas religiosas. De maneira especial saúdo a delegação da Ordem das
Escolas Pias, presidida pelo seu superior geral. Através do nosso Fundador, unemnos com essa comunidade laços especiais de fraternidade. Saúdo cordialmente
os habitantes de Marianki e de toda a Góra Kalwaria, que com solicitude têm
cuidado do túmulo do Padre Estanislau e difundido a sua memória, e hoje dão testemunho do seu amor ao Beato. Torna-se difícil deixar de perceber os sacerdotes
de Góra Kalwaria, tendo à frente o vice-superior geral dos marianos – pe. Marcos
Szczepaniak. Entrego nas mãos da Senhora Prefeita, Bárbara Samborski, o cordial agradecimento às autoridades da cidade pelo seu empenho nos preparativos
da solenidade de hoje. Saúdo cordialmente os colaboradores leigos e os benfeitores da Congregação, especialmente os membros da Associação dos Auxiliares
Marianos, que também colaboraram na preparação desta solenidade. Saúdo todos
os devotos do Padre Estanislau vindos de perto e de longe, e de maneira especial
os fiéis de Podegrodzie, lugar de nascimento do Beato.
Com enorme alegria saúdo os Coirmãos Marianos, representantes de comunidades no mundo inteiro. Hoje nós, marianos, mais que em qualquer outra
oportunidade, estamos unidos numa oração de ação de graças. Nas pessoas do
postulador geral, pe. Adalberto Skóra, e do pe. Casimiro Krzyzanowski, agradeço
àqueles que no decorrer de 250 anos despenderam muito esforço e dedicação na
condução do processo de beatificação. Na pessoa do pe. João Kosmowski MIC,
guardião do Cenáculo, e do pe. Paulo Naumowicz MIC, superior da província,
saúdo os coirmãos da Polônia que têm aos seus cuidados o túmulo do Padre Papczynski, bem como aqueles que juntamente com leigos prepararam as solenidades
de ontem e de hoje.
Durante três séculos, multidões de fiéis eram atraídas ao túmulo do Padre Estanislau pela sua santidade, pela fé na sua intercessão junto a Deus e pelo desejo de
pedir através de orações a sua beatificação. Finalmente chegou esse esperado dia!
Sentimo-nos repletos de alegria e gratidão diante de Deus e de Maria Imaculada.
Hoje prestamos uma homenagem ao Padre Estanislau como beato. Juntamente
com ele, peçamos ao bondosíssimo Deus abundantes frutos da sua beatificação
em nós mesmos e no mundo. Juntamente com o bem-aventurado e a Imaculada
Virgem Maria, peçamos a graça da santidade para cada um de nós, o discernimento e a aceitação da essência do carisma do Padre Estanislau, o desenvolvimento
da Congregação dos Padres Marianos e santas vocações sacerdotais e religiosas.
A Imaculada Conceição da Maria Virgem seja a nossa salvação e defesa.
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Pe. Wojciech Skóra MIC,
Postulador Geral
BIOGRAFIA DO PADRE ESTANISLAU PAPCZYNSKI
Rito de beatificação
Lichen, 16 de setembro de 2007
O Venerável Servo de Deus Estanislau Papczynski nasceu no dia 18 de maio
de 1631 em Podegrodzie, na Polônia, na então diocese de Cracóvia. Faleceu em
Góra Kalwaria, nos arredores de Varsóvia, na antiga diocese de Poznan, no dia 17
de setembro de 1701.
A sua vida constitui um extraordinário testemunho da misericórdia e da sabedoria divinas, as quais – como ele mesmo muitas vezes lembrou – lhe foram proporcionadas durante a sua longa e difícil vida. Ele descobria o amor de Deus, de
maneira especial, na face de Cristo sofredor. A si mesmo, muitas vezes chamava
de pecador e servo de pouco valor, encontrando unicamente em Cristo a esperança da sua salvação. Escrevia ele: Arrependo-me do fundo do coração e por amor
de Deus desejo arrepender-me com a máxima perfeição dos meus pecados, que
mergulho todos nas salvíficas chagas do meu Senhor e Redentor Jesus Cristo
(Testamento I).
A experiência do amor de Deus despertou no Servo de Deus o desejo de viver
na perfeição evangélica, de maneira que aos 23 anos de idade ingressou na ordem
das Escolas Pias. Como religioso e sacerdote – distinguindo-se pelo espírito da
oração e da mortificação – ele mesmo atingiu uma profunda união com Deus
e conduziu muitas pessoas à perfeição. À vocação universal dos cristãos para
a santidade ele dedicou o livro Templo místico de Deus, lembrando essa verdade
especialmente aos fiéis leigos.
Educado na devoção a Nossa Senhora, tinha um amor especial ao mistério
da Sua Imaculada Conceição, descobrindo nele o cerne do cristianismo, isto é,
o dom gratuito do imensurável amor de Deus para com o homem, alcançado por
Jesus Cristo e aceito por Maria como a primeira entre os crentes, com total amor
e submissão a Deus. Nesse mistério depositava uma grande esperança de alcançar
os bens eternos, muitas vezes exclamando: A Imaculada Conceição da Maria
Virgem seja a nossa salvação e defesa. Percebia a forma fundamental do culto
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à Imaculada Conceição na imitação da vida evangélica de Maria, compreendida
como cooperação com a graça divina concedida por Cristo.
Da contemplação do mistério da Imaculada Conceição surgiu a obra da vida
do pe. Papczynski, a Congregação dos Padres Marianos, que – como ele mesmo
muitas vezes repetia – fundou por inspiração do Espírito Santo. Após obter a dispensa legal dos votos simples na ordem das Escolas Pias no dia 10 de dezembro
de 1670, iniciou a obra da fundação da comunidade dos marianos. Apesar das
muitas dificuldades, graças à sua extraordinária confiança no poder da Providência Divina, coroou a sua vocação de fundador, tendo obtido em 1699 a aprovação
pontifícia para a sua congregação, com base na Regras das Dez Virtudes da SVM.
Três meses antes da sua morte professou os votos solenes na presença do núncio
apostólico na Polônia, bem como aceitou esses votos de seus filhos espirituais.
Antes de morrer confiou a pequenina comunidade dos marianos ao Senhor Jesus
Cristo e à seletíssima Virgem Mãe Maria [...] como a seus verdadeiros e únicos
Fundadores, Guias, Defensores e Padroeiros.
O Fundador dos Marianos passou a ser conhecido como “Pai dos pobres”. Em
meio ao povo simples e espiritualmente abandonado, com grande empenho desenvolveu o seu trabalho apostólico. Dedicou-se também com zelo a outras obras
de caridade, relacionadas com corpo e a alma. Através da sua fervorosa oração,
para muitos alcançou a saúde e a graça da salvação. Por essas razões, ainda em
vida era considerado um santo.
Entre os pobres do seu tempo, tratou com especial amor os agonizantes e os
mortos em conseqüência da miséria e de numerosas guerras e epidemias. O ardente amor do pe. Papczynski aos falecidos tinha uma origem divina, moldada
durante visões místicas do purgatório. Profundamente convencido de que todo ser
humano é destinado à glória, ele mesmo, sem descanso, dedicou-se a essa obra
de nobre amor, recomendando-a aos seus irmãos na vocação e estimulando a ela
multidões de pessoas leigas. Escrevia ele: Porquanto, qual caridade pode ser
maior do que a demonstrada aos falecidos, dos quais não podes esperar nenhuma
recompensa, nenhuma gratidão e nenhum elogio? (Templo místico de Deus).
Em seu Testamento espiritual escreveu: A todos os presentes e a cada um dos
meus futuros irmãos e companheiros, para sempre entrego a mais maravilhosa
fundação: a Providência do Deus Bondosíssimo. Aos curiosos, deixo a minha
imagem para contemplar, e a imagem da vida de meu Senhor Jesus Cristo para
imitar.
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APÊNDICE
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Andrzej Pakula MIC
ESTANISLAU PAPCZYNSKI
POR CRISTO
E PELO SER HUMANO EM NECESSIDADE1
Estanislau de Jesus e Maria (nome de batismo João) Papczynski, presbítero
e fundador da primeira congregação masculina fundada na República das Duas
Nações2, é um criativo representante da escola polonesa de espiritualidade, especialmente do seu traço passional e mariano. Distinguiu-se por uma especial sensibilidade às injustiças sociais. A sua beatificação realizou-se no dia 16 de setembro
na Polônia, no santuário mariano de Lichen. As solenidades foram presididas pelo
Secretário de Estado, cardeal Tarcisio Bertone.
Crescimento em virtudes e instrução
“Dois são os adornos com que muito resplandecem os institutos religiosos:
a virtude e a instrução” – assim no ocaso de sua vida (1690) escreveu o padre
Papczynski em uma de suas cartas, caracterizando com isso também a sua própria
vida. Ele nasceu numa família numerosa em Podegrodzie, perto de Nowy Sacz,
no dia 15.5.1631, numa época em que a República da Polônia, naquela época um
dos maiores Estados da Europa, com um território de quase um milhão de quilômetros quadrados, com orgulho ostentava o seu poder e o seu esplendor e quando
ainda não era dada maior atenção a acontecimentos que hoje avaliamos como
sinais precursores de tragédias nacionais e cujos tristes efeitos, em breve, também
ele teve de sentir. Seu pai, Tomás, era um camponês e perito ferreiro, por alguns
anos foi prefeito de aldeia e cuidou da igreja em Podegrodzie. A mãe, da famí1
A presente biografia, com pequenas mudanças introduzidas pela redação, foi publicado em L’Osservatore Romano nas línguas: polonesa (6 (294) 2007, p. 43-55), italiana no dia 16.09.2007 (CXLVII
– n. 211 (44.654), p. 10) e espanhola no dia 21.09.2007 (Año XXXIX, n. 38 (2.021), p. 12-14).
2
A República das Duas Nações foi um Estado federado, cujo regime era a democracia da nobreza
e cujo chefe de Estado era o rei eleito. Composto pela Coroa do Reino da Polônia e do Grão-Ducado
da Lituânia, existiu nos anos 1569-1795 e se estendia pelo território da atual Polônia, Lituânia, BieloRússia e Letônia, e parcialmente também da Ucrânia, Estônia, Eslováquia, Rússia e Moldávia. Atingiu a
sua extensão territorial máxima em 1618 (990 mil km2). O número dos habitantes variou de 6,5 milhões
em 1569 a 14 milhões em 1772.
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lia Tacikowski, era uma mulher piedosa e trabalhadora. Seus pais, relativamente
abastados para a posição social que ocupavam, não poupavam forças nem recursos para uma sólida educação e instrução do filho, que com certas dificuldades
estudou nas Escolas Pias e com os jesuítas, por diversas vezes interrompendo os
estudos, inicialmente em razão de dificuldades nos estudos e, mais tarde, em razão
das guerras e epidemias que assolavam o país. Assim, em 1648, em conseqüência de uma epidemia que grassava em Lvov, contraiu uma grave doença, da qual
– graças à ajuda de pessoas estranhas – foi salvo de forma quase que miraculosa;
em 1650 interrompeu os estudos em Podoliniec (hoje Eslováquia), visto que uma
epidemia que se aproximava do lado da Hungria forçou as autoridades a fechar
o colégio das Escolas Pias; a seguir, em 1651, juntamente com outros alunos do
colégio jesuíta teve de fugir de Lvov, visto que após a derrota dos exércitos reais
em Batoh aproximavam-se da cidade os exércitos cossacos; da mesma forma teve
de interromper os estudos de teologia, quando em maio de 1656, em conseqüência
da guerra com a Suécia, travou-se uma batalha pela posse de Varsóvia. Ele utilizava as interrupções nos estudos para executar trabalhos físicos na propriedade
da família. Mais tarde confessou em Secreta conscientiae: “Por isso agradeço
a Deus porque foi por vontade Sua que fui então obrigado pelos pais a apascentar
o rebanho, visto que (ouso informar isso com a consciência tranqüila), permanecendo nas pastagens em meio ao rebanho, preservei a consciência pura e santa!
Meu Senhor! O que humildemente Vos suplico é que essa mesma providência da
Vossa Majestade – o que espero para o futuro e no que acredito – me conduza
até o final da minha vida, para que Vós sejais glorificado em todos os meus atos,
pensamentos e palavras”. As dificuldades na busca da instrução e o desvelo pessoal pela fidelidade a Deus exigiam a generosidade e têmpera de espírito. Essas
virtudes suas fizeram com que ele apreciasse o estudo e a instrução e fosse um
bom professor e educador da juventude.
A primeira vocação
Após concluir a retórica e dois anos de filosofia no colégio jesuíta em Rawa
Mazowiecka, com a idade de 23 anos ingressou na Ordem das Escolas Pias, contrariando os insistentes apelos da mãe e da família para que se casasse. As Escolas
Pias, que na Polônia haviam iniciado a sua atividade em 1642 e já haviam conseguido granjear o reconhecimento da população, haviam sido por ele conhecidas
anteriormente, quando nos anos 1649-1650 estudara num colégio dessa Ordem
em Podoliniec. A sua decisão fora bem pensada e decorria da fé. Não se pode
excluir que também possa ter sido fortalecida em razão da vontade de opor-se aos
familiares, que viam de outra forma o seu futuro. Anos mais tarde ele confessaria:
“É muito difícil expressar quanto eu apreciava a minha vocação, que em mim
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havia sido despertada apenas pelo próprio Deus”. Pela possibilidade de ingressar
na Ordem teve de esperar alguns anos, visto que em 1646 as Escolas Pias haviam sido reconhecidas como uma Associação sem o direito de professar votos,
e tal estado de coisas perdurou ate 1656. Essa ordem religiosa de caráter mariano
também combinava perfeitamente com o seu amor a Maria, no que havia sido
educado desde a infância. Além disso, o envolvimento na educação da juventude
abandonada e pobre, inclusive daquela de origem camponesa, bem como o ideal
da máxima pobreza, que fazia parte da espiritualidade da ordem, faziam com que
João se sentisse completamente à vontade nessa comunidade e a ela se apegasse
de todo o coração. Ele chamava a sua ordem de “Congregação santíssima, mais
cara que a vida e a mais estimada”. No noviciado recebeu o nome religioso Estanislau de Jesus e Maria. No primeiro ano do noviciado fez tais progressos na vida
religiosa, que no início do segundo foi encaminhado a estudos de teologia em Varsóvia, onde no dia 22.7.1656 professou os três votos religiosos – da castidade, pobreza e obediência, bem como fez o juramento de perseverar na ordem até o final
da vida. Tendo recebido alguns dias mais tarde as ordens menores e o subdiaconato, teve de abandonar o convento juntamente com os outros religiosos, visto que
nos arredores de Varsóvia se desencadeara uma batalha com os exércitos suecos.
Os religiosos fugiram a Rzeszów, no entanto em breve tiveram de fugir também
dali, visto que do lado de Siedmiogrod aproximavam-se os exércitos de Rakoczy,
que como aliado da Suécia atacou a Polônia do lado sul. Refugiaram-se então em
Podoliniec, onde no início do ano 1658 foi confiado ao irmão Estanislau o ensino
da retórica no colégio local. No dia 12 de março de 1661 foi ordenado sacerdote
pelo bispo de Przemysl, Estanislau Sarnowski. Após três anos de trabalho como
professor de retórica em Rzeszów, foi transferido a Varsóvia.
Em busca da perfeição evangélica
Após a ordenação sacerdotal, Estanislau de Jesus e Maria envolve-se na pastoral com todo o zelo e com o entusiasmo que caracterizava o seu caráter. Ao mesmo tempo, busca incessantemente as fontes da perfeição evangélica e da santidade própria da espiritualidade das Escolas Pias. Começou a ensinar retórica ainda
antes de ser ordenado. Com o tempo, para atender às necessidades dos alunos,
redigiu e publicou o Prodromus reginae artium, um manual de retórica que depois
teve várias edições. O ensino, que lhe possibilitava o contato com a juventude, era
por ele tratado ao mesmo tempo como uma perfeita forma de educar a nova geração de cidadãos da Polônia. Procura não apenas apresentar a forma de pronunciar
belos discursos, mas também orientações para uma vida boa e honesta, para que
com o decorrer dos anos, com a aquisição da sabedoria e de todas as virtudes, os
educandos se tornassem um dia um autêntico adorno da sua família, um autêntico
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adorno da República. Ele tinha consciência da trágica situação do país: das incessantes e extenuantes guerras que envolviam toda a nação, do aprofundamento
da miséria social, da falta de recursos no tesouro real, da negligência na área da
fé e da moral, dos exagerados privilégios da nobreza, das lutas partidárias, da
paralisia parlamentar. Por isso inclui no seu ensino elementos de crítica contra as
desigualdades e as deturpações sociais e publica as suas idéias em duas edições
do manual. No entanto, na edição seguinte esses trechos são eliminados, em razão
da forte reação da nobreza. Hoje, olhando da perspectiva da História, parece que
as suas idéias não tiveram uma influência significativa sobre o curso dos acontecimentos. Com certeza também o pe. Estanislau devia ter a mesma impressão, visto
que, aceitando com submissão a censura dos seus livros, com o decorrer do tempo
volta-se mais a questões espirituais, à oração e ao sacrifício, tentando alcançar
junto a Deus o que anteriormente havia buscado pela atividade de escritor. Toma
o propósito de oferecer a Deus todas as dificuldades e sofrimentos, e até a própria
morte, se ela ocorresse, pelos seus pecados e unicamente por amor a Deus e para
afastar as desgraças da minha Pátria. Tomou a palavra em público mais uma vez
em 1669, com a esperança de melhorar o destino da República, após a eleição
do rei Miguel Korybut Wisniowiecki, no o qual – como monarca genuinamente
polonês, e não estrangeiro – o país depositava grandes esperanças. Em nome da
comunidade das Escolas Pias, escreveu então em sua homenagem um panegírico,
que foi publicado em 1669.
Já a partir de 1663 o pe. Papczynski tornou-se famoso em Varsóvia, não apenas como professor de retórica, mas também como mestre de vida espiritual – pregador e confessor. Alguns dos seus sermões foram publicados, por exemplo, em
Orator crucifixus (1670), em forma de reflexões a respeito das últimas sete palavras de Cristo.Entre os seus penitentes estava o núncio apostólico Antonio Pignatelli, mais tarde papa Inocêncio XII, bem como – na opinião de muitos historiadores – o senador João Sobieski, que mais tarde seria rei. Era também um incansável
propagador do culto da Imaculada Conceição de Maria, inclusive dirigindo uma
irmandade em Sua honra na igreja das Escolas Pias em Varsóvia.
Apesar das numerosas e importantes tarefas relacionadas com o ensino e a pastoral, o pe. Estanislau era muito dedicado à vida religiosa do seu instituto. A sua
sincera busca da santidade evangélica, suas idéias, sua fidelidade à oração e à
ascese e a sua forma de proceder contavam com o reconhecimento da maior parte
dos coirmãos. Na ordem foi-lhe confiada a tarefa de prefeito de colégio e o trabalho de recolher cartas postulatórias pedindo a beatificação de José Calasans.
Foi também escolhido para ser delegado no capítulo provincial. Mas ao mesmo
tempo começaram a surgir controvérsias. O pe. Estanislau, imbuído no espírito
do fundador, defendia zelosamente a observância primitiva da Ordem das Escolas
Pias e o direito de escolha dos superiores provinciais dentro da província. Juntamente com alguns coirmãos que buscavam o mesmo objetivo, de forma decidida
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e inflexível posicionava-se contra pessoas que tendiam ao laxismo. No entanto,
da parte de outros coirmãos começaram a surgir acusações de arruaça e rebeldia.
Ele chama esse período de tempo de longo martírio. Busca força e apoio na cruz
de Cristo. Dessas experiências surgiu o livro Christus patiens, meditações sobre
a paixão do Senhor com base em apropriados trechos do Evangelho. No final,
estimulado pelo verdadeiro amor e desejando devolver a paz à província dividida
em razão das controvérsias surgidas, pediu em 1669 a autorização para se afastar
da Ordem das Escolas Pias, que obteve com base num breve apostólico do dia
11.12.1670.
Fundador dos marianos
Enquanto aguardava o indulto do afastamento, na residência das Escolas Pias
em Kazimierz, nos arredores de Cracóvia, inesperadamente o pe. Estanislau leu,
diante de todas as pessoas reunidas, a sua Oblatio, isto é, um ato previamente preparado de oferecimento a Deus Uno e Trino e à Mãe de Deus Maria Imaculada,
e anunciou o propósito de fundar a Sociedade dos Padres Marianos da Imaculada
Conceição. Ao mesmo tempo professou a fé na Imaculada Conceição e fez o chamado voto de sangue, isto é, expressou a prontidão para defender essa verdade da
fé até a entrega da vida. Nos planos da Providência Divina, a Ordem das Escolas
Pias foi para o pe. Estanislau uma escola de vida religiosa, um lugar de preparação
para ingressar numa nova vocação. Mais tarde confessaria que havia feito o ato de
Oferecimento por inspiração divina, e que a visão da nova comunidade religiosa
havia sido moldada em sua mente pelo Espírito Divino. Logo após deixar a Ordem das Escolas Pias, começou a buscar formas de realização desses propósitos
e por essa razão não aceitou os convites de algumas ordens religiosas que queriam
aceitá-lo em suas comunidades, bem como rejeitou os benefícios que lhe haviam
sido propostos por alguns bispos. Com o apoio do bispo de Poznan, EstêvãoWierzbowski, fixou residência na área da sua diocese na herdade da família Karski, em
Lubocza, na Masóvia, e em 1671 vestiu o hábito branco em honra da Imaculada
Conceição. Nesse ínterim, redigiu para a futura congregação uma nova regra,
que chamou de Norma vitae. Para dar início ao seu instituto, dirigiu-se a uma
pequena comunidade de eremitas em Puszcza Korabiewska (hoje Puszcza Marianska) e lhes propôs a sua visão de vida religiosa. Os eremitas marianos receberam a aprovação eclesiástica no dia 24.10.1673, através de um decreto do bispo
Estanislau Swiecicki, durante a visitação da arquidiaconia de Varsóvia na diocese
de Poznan. Em 1677 o bispo Estêvão Wierzbowski ofereceu aos marianos a igreja
do Cenáculo do Senhor em Nova Jerozolima (hoje Góra Kalwaria), junto à qual
surgiu um segundo convento, e no dia 21.4.1679 erigiu canonicamente a Ordem
dos Marianos no território da sua diocese. E, embora o formato inicial da ordem
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não fosse aquele que o pe. Estanislau pretendia, ele buscava continuamente formas de consolidá-la, de assegurar a sua existência e o seu futuro desenvolvimento.
Ao mesmo tempo não deixava de se empenhar por lhe conferir uma forma nãoeremítica, na qual havia surgido o primeiro convento, mas apostólica, a exemplo
das Escolas Pias, que ele conhecia e tinha em alto conceito.
A moldagem do carisma dos marianos e o desenvolvimento da ordem
Antes que o pe. Estanislau Papczynski fundasse a Congregação dos Marianos, cujo primeiro objetivo era a propagação do culto da Imaculada Conceição da
SVM, toda a primeira metade do século XVII esteve impregnada pela espiritualidade mariana, que se expressava em formas variadas e bastante originais, entre
as quais a mais significativa era a escravidão mariana. Elaborada teologicamente
e bastante popular em meio à sociedade, com certeza influenciou os votos de João
Casimiro e a entrega da República da Polônia à escravidão de Maria. Mas, ainda
que a espiritualidade da Ordem dos Marianos refletisse de alguma forma a espiritualidade e a mentalidade da Igreja polonesa, ao mesmo tempo percebe-se que
o fundador dos marianos não queria ser um simples continuador de tal piedade
mariana. Ele concentra mais a sua atenção no mistério da Imaculada Conceição,
em certo sentido reencontrando ali o núcleo do cristianismo: o dom merecido
por Cristo do imensurável amor de Deus para com o homem, dado gratuitamente
e aceito por Maria como a primeira dentre os crentes, em total amor e submissão a Deus, durante toda a Sua vida. Era por isso que Papczynski depositava
no próprio mistério uma grande esperança de alcançar os bens celestiais, muitas
vezes exclamando: “Immaculata Virginis Conceptio sit nobis salus et protectio”,
ou seja, “A Imaculada Conceição da Virgem seja a nossa salvação e defesa”. Ele
percebia a forma básica de culto da Imaculada Conceição na imitação da vida
evangélica de Maria.
A sua sensibilidade à ação do Espírito Santo e aos sinais do tempo, e especialmente à sorte dos mais pobres, fez com que em 1676 adicionasse ao objetivo
primitivo da ordem ainda a oração pelos falecidos, principalmente soldados que
pereciam nas guerras e vítimas da peste. Os biógrafos do pe. Estanislau descrevem várias experiências místicas relacionadas com o purgatório, durante as quais
teria experimentado os sofrimentos dos falecidos submetidos à purificação e após
as quais não apenas ele intensificava a sua oração e praticava diversos atos penitenciais na intenção deles, mas também estimulava a isso os seus coirmãos. Essas
iniciativas tinham fundamento, visto que o século XVII, e especialmente a sua
segunda metade, foi um período em que – em razão de guerras, da miséria e das
epidemias que grassavam – em algumas regiões morriam até 60% da população.
Com efeito, enquanto antes dessas guerras havia na Polônia daquele século cerca
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de 10 milhões de habitantes, depois disso esse número diminuiu para cerca de
7 milhões. As pessoas muitas vezes morriam despreparadas para a morte. Os primeiros biógrafos do pe. Estanislau informam também que ele mesmo freqüentava
os campos de batalha, prestava assistência aos soldados feridos, sepultava os mortos e rezava por eles. São significativas a esse respeito as lembranças a respeito
do seu trabalho assistencial durante as lutas contra os turcos na região da Ucrânia,
nos anos 1675-1676.
O fundador dos marianos desejava também ajudar aos párocos no trabalho
pastoral e a essa atividade apostólica dedicava-se com muito zelo. A crise geral
que atingiu a Polônia daquele tempo não poupou também a Igreja e manifestou-se
não apenas no desleixo religioso, especialmente entre as camadas sociais inferiores, mas também na falta de padres. Por exemplo, na Polônia central, apenas na
diocese de Plock, para um número geral de 320 paróquias, 70 estavam abandonadas e desprovidas de sacerdotes. Depois que em 1677 o rigor da clausura foi
suavizado pelo bispo Wierzbowski, no seu segundo convento, em Góra Kalwaria,
os marianos iniciaram com maior engajamento o trabalho pastoral, especialmente
em meio ao povo simples e pobre. Preocupado com a santificação dessas pessoas,
o pe. Estanislau escreveu e publicou em 1675, em Cracóvia, o livro intitulado
Templum Dei mysticum, em que apresentou aos fiéis leigos a forma de buscar
a santidade com base nas palavras de S. Paulo, quando diz que o cristão é um
“templo de Deus” (cf. 1Cor 3, 16).
O pe. Estanislau dedicava-se também zelosamente a obras de caridade, tanto
de caráter espiritual como material. Livrava as pessoas que dele se aproximavam
de diversas doenças e lhes ajudava – conforme relata a tradição – também de forma milagrosa. Por essas razões, ainda durante a vida era considerado santo e era
chamado de “Pai dos pobres, apóstolo da Masóvia”. Quando percebeu que uma
das conseqüências da miséria moral e material daquele tempo era o alcoolismo,
tratado como uma forma de abrandar o desespero em razão das incessantes calamidades e desgraças daquele tempo, tanto públicas como pessoais, e em conseqüência da propinação, ou seja, da obrigação que a nobreza impunha aos camponeses de comprar bebidas alcoólicas como forma de sair da crise econômica –,
começou a estimular os fiéis a uma via sóbria, e aos marianos proibia severamente
o consumo da aguardente. Com todo o zelo se empenhava para – com a palavra
e o exemplo – conduzir os coirmãos aos ápices da perfeição evangélica, que ele
percebia no puro e sobrenatural amor a Deus e ao próximo. Apresentou a visão de
tal estilo de vida na Norma vitae, muitas vezes melhorada, e em Inspectio cordis,
meditações concentradas em torno da Eucaristia, baseadas em trechos do Evangelho para os domingos, dias santificados e dias comuns da semana.
Com o objetivo de obter a aprovação pontifícia, em 1690 viajou a Roma,
mas infelizmente a sua viagem coincidiu com a morte do papa Alexandre VII.
Enquanto esperava a eleição do novo papa, ficou doente e teve de voltar à Po219
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lônia. Conseguiu apenas obter o acordo dos franciscanos observantes para eles
aceitarem a agregação da Ordem dos Marianos e o apoio a ela, que solicitou em
1691, empenhando-se pelo desenvolvimento seguro e estável da nova comunidade. Tendo voltado à Polônia, e convencido da morte iminente, escreveu o seu
Testamento. No entanto recuperou a saúde e continuou a dirigir a congregação
em desenvolvimento. Na primavera de 1698, visto que ele mesmo se sentia com
a saúde debilidade, enviou a Roma o procurador geral pe. Kozlowski, com a tarefa
de obter a aprovação pontifícia, e no outono daquele ano aceitou uma outra fundação em Gozlin, na Masóvia. O pe. Kozlowski conseguiu a aprovação pontifícia
para os marianos em 1699, após a aceitação da Regula decem beneplacitorum
(Regra das dez virtudes). No dia 24 de novembro de 1699 o papa Inocêncio XII
aprovou legalmente os marianos como historicamente a última ordem do clero
regular na Igreja, ordenando ao núncio em Varsóvia que aceitasse da parte deles
os votos religiosos.
Papczynski foi superior geral até a morte. Tendo consciência de ter cumprido
a sua missão, muitas vezes repetia as palavras: “Agora, Senhor, permiti que Vosso
servo se afaste, segundo a Vossa palavra”. Preservou a lucidez de espírito até os
últimos instantes da vida. Faleceu no dia 17 de setembro de 1701 no convento de
Góra Kalwaria, tendo pronunciado as palavras: “Em Vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito”. Antes disso deu a bênção aos seus companheiros, estimulando-os à observância da regra e das constituições e expressando o ardente desejo
de unir-se a Cristo.
A congregação por ele fundada desenvolvia-se sem maiores dificuldades. Mas
pouco tempo depois da morte do Fundador sobreveio uma crise que por pouco
não a levou à extinção. Após ter superado essa crise, a comunidade saiu dela fortalecida e teve um desenvolvimento dinâmico no território da Polônia, em Portugal
e em Roma. O século XIX trouxe o tempo de pesadas perseguições da parte das
autoridades civis e a conseqüente cassação dos conventos em todos os países em
que a ordem existia. No entanto, no início do século XX Deus salvou a Sua obra
através da pessoa do Beato Jorge Matulaitis-Matulewicz, que com a aprovação
da Santa Sé e em cooperação com o superior geral ingressou clandestinamente
na Congregação e em segredo diante das autoridades civis realizou a reforma.
O rápido desenvolvimento dos marianos que a ela se seguiu fez com que fossem assumidas novas obras em novos lugares. Hoje a comunidade conta mais de
500 membros em diversos países e em diversas regiões do mundo.
História do processo de beatificação
Estanislau Papczynski faleceu com fama de santidade, que aliás se fazia presente já durante a sua vida terrena. No entanto, em razão das dificuldades por
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que após a sua morte passou a ordem dos marianos, não foram tomadas providências visando à sua beatificação. Uma ação intensa nesse sentido foi iniciada
apenas pelo Servo de Deus Casimiro Wyszynski, mariano, em meados do século
XVIII. O Processo Informativo, iniciado na diocese de Poznan, estendeu-se de
1767 a 1769. O processo foi enviado à Santa Sé, juntamente com cartas de postulação, dentre os quais vale a pena mencionar uma resolução da Dieta de Coroação da República de 1764, intitulada Requerimento à Cúria Romana pedindo
a canonização e beatificação de Estanislau Papczynski. No dia 22 de julho de
1775 a Congregação dos Ritos publicou o decreto super scriptis, atestando que
nos escritos do pe. Papczynski não há nada incompatível com a fé e a moral. No
entanto, no mesmo ano o processo, que teve um início favorável, foi interrompido, visto que não foi possível esclarecer as acusações apresentadas pelo promotor
da fé. Infelizmente, os acontecimentos bélicos que se seguiram, que obrigaram os
marianos a abandonar a Procuradoria Geral anexa à igreja de S. Vito em Roma
(1798), e a crise política da Polônia, que culminou nas partilhas, e a posterior
cassação dos conventos marianos, levaram à interrupção do processo. No entanto
não desapareceu a memória da santidade do pe. Estanislau. Em Góra Kalwaria,
junto ao seu túmulo, era sempre solenemente comemorado o aniversário do seu
nascimento (18 de maio) e da sua morte (17 de setembro), e muitas pessoas escreviam lembrando a sua figura e apontando para a sua autoridade religiosa e moral,
enquanto os fiéis experimentavam a sua milagrosa intercessão.
No início do século XX, logo após o renascimento da Ordem dos Marianos,
durante o capítulo geral realizado sob a direção do Beato Jorge Matulewicz em
1923, foi decidido que seriam retomados os empenhos pelo processo de beatificação. Mas formalmente o processo foi instaurado apenas em 1953. Em 1992
a Congregação das Causas dos Santos publicou o decreto sobre o heroísmo das
virtudes, e no dia 16 de dezembro de 2006, o decreto que reconhecia um milagre
realizado pela intercessão do pe. Estanislau.
Mensagem para o século XXI
Pode parecer que as circunstâncias da vida de Estanislau Papczynski, que viveu há mais de 300 anos, não dizem muita coisa ao homem de hoje. No entanto
a vontade da Divina Providência, na qual durante a vida toda ele depositou uma
confiança ilimitada e permanente, é voltar o olhar do homem de hoje à figura
desse religioso, que se empenhou por uma coisa apenas: que o homem, remido
pelo sangue de Cristo, aceitasse plenamente o Evangelho e a graça divina e a ela
respondesse com toda a sua vida. Com esse objetivo ele fundou uma ordem religiosa e foi essa a realidade que apresentou aos homens. E extraiu a inspiração para
as suas convicções do mistério da Imaculada Conceição, no qual percebia quanto
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Deus ama o homem desde o início da sua existência e sem mérito algum da sua
parte. Incansavelmente se empenhou também para que o homem se encontrasse
com esse amor imensurável, se não nesta vida, então após a morte, na eternidade.
Essa mensagem é especialmente atual numa época que – como observou João
Paulo II – em muitos lugares é assinalada “pela forma de uma autêntica cultura
da morte” (Evangelium vitae, 12). A beatificação de Estanislau Papczynski evoca
a necessidade da lembrança do ser humano necessitado, diante da face de Deus,
fonte de vida e amor. Em relação aos vivos, essa lembrança se expressa na proclamação do Evangelho da vida e do eterno amor, e na apresentação da Imaculada
Conceição, prova e fruto desse amor. E em relação àqueles que já encerraram
esta peregrinação terrena, essa mesma lembrança transforma-se na oração e no
sacrifício na intenção deles, de tal forma que por toda a eternidade o homem possa
alegrar-se com a plenitude da vida e do amor de Deus.
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Andrzej Pakula MIC
A CONGREGAÇÃO DOS PADRES MARIANOS 
HISTÓRIA E ESPIRITUALIDADE1*
A Congregação dos Padres Marianos da Imaculada Conceição da Santíssima
Virgem Maria (Congregatio Clericorum Marianorum ab Immaculata Conceptione BVM: MIC) é uma congregação religiosa clerical fundada na Polônia em 1673
pelo Servo de Deus Estanislau de Jesus e Maria Papczynski. No dia 24 de novembro de 1699 foi aprovada por Inocêncio XII (breve Exponi nobis nuper) com
base na “Regra das dez virtudes da SVM”, como a última ordem do clero regular
de votos solenes na Igreja, e nos anos 1909-1910 foi renovada e reformada pelo
Beato Jorge Matulaitis-Matulewicz (+ 1927).
História
Papczynski expressou pela primeira vez o ideal da nova comunidade no dia 11
de dezembro de 1670, quando estava deixando a Ordem das Escolas Pias, tendo
previamente obtido o indulto de saída, e quando realizou a Oblatio, ou seja, um ato
de oferecimento de si mesmo a Deus e a Maria Imaculada, e prometeu observar
os votos religiosos na Sociedade dos Padres Marianos da Imaculada Conceição.
Ele estava convencido de “uma visão divina que estava gravada em [sua] alma,
relacionada com a fundação da Congregação da Imaculada Conceição da SVM”.
Fez ao mesmo tempo o chamado “voto de sangue”, isto é, da prontidão de defender a verdade da Imaculada Conceição da SVM até a entrega da vida. O objetivo
específico ao qual queria dedicar a sua nova comunidade era sobretudo a difusão
do culto da Imaculada Conceição da SVM. Alguns anos depois adicionou outros
objetivos: a ajuda aos falecidos, especialmente aos falecidos repentinamente e
sem preparação, isto é, aos soldados e vítimas da peste, e a ajuda aos párocos no
ministério pastoral, especialmente entre o “povo simples” e religiosamente abandonado.
1
Uma versão abreviada deste artigo foi publicada em Encyklopedia Katolicka, vol. XI, Lublin,
2007, 1353-1355.
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Com o apoio do bispo de Poznan, Estêvão Wierzbowski, Papczynski fixou
residência na propriedade da família Karski em Lubocza, na Masóvia, e em 1671
vestiu o hábito branco em honra da Imaculada Conceição. Ao mesmo tempo dedicou-se a escrever para a nova congregação a sua regra, que chamou de Norma
vitae. A fim de dar início ao seu instituto, em 1673 dirigiu-se à comunidade de
alguns eremitas que viviam em Puszcza Korabiewska (hoje Puszcza Marianska)
e lhes propôs a sua visão de vida religiosa. Os “eremitas marianos” obtiveram a
aprovação eclesiástica no dia 24 de outubro de 1673 por força de um decreto do
bispo Estanislau Swiecicki, durante a visitação da arquidiaconia de Varsóvia, na
diocese de Poznan. No dia 22 de novembro de 1677 o bispo Estêvão Wierzbowski,
ordinário de Poznan, ofereceu aos marianos a igreja do Cenáculo do Senhor em
Nowa Jerozolima (hoje Góra Kalwaria), junto à qual surgiu um outro convento, e
no dia 21 de abril de 1679 promoveu a ereção canônica da Ordem dos Marianos
na área da diocese de Poznan.
Os marianos obtiveram o primeiro reconhecimento legal da parte da Santa
Sé, juntamente com a concessão de diversas graças, no dia 20 de março de 1681
(breve de Inocêncio XII Cum sicut accepimus). A ordem obteve a aprovação pontifícia em 1699, no entanto os marianos não conseguiram obter a autorização para
a profissão dos votos perpétuos sem a aceitação da regra religiosa e permanecendo
apenas com as constituições da Norma vitae redigidas por Papczynski. Embora inicialmente esperassem tal aprovação (constitutiones pro regula), tiveram de
aceitar uma das regras aprovadas pela Santa Sé. Foi escolhida a “Regra das dez
virtudes da SVM”, escrita pelo Beato Gilbert Nicolas († 1532), sob a supervisão
direta de S. Joana de Valois e utilizada na época pela Ordem da Virgem Maria
(OVM), por ela fundada, popularmente chamada das Irmãs da Anunciação. Visto
que essa regra se encontrava na jurisdição da Ordem dos Irmãos Menores Observantes, em conseqüência da sua escolha os marianos foram a ela agregados. No
entanto já anteriormente, isto é, 1691, Papczynski, preocupado com o seguro e estável desenvolvimento da nova Ordem, havia pedido também aos observantes que
exercessem a jurisdição sobre os marianos, com o que eles concordaram naquele
mesmo ano. Depois que no dia 21 de setembro de 1699 os observantes autorizaram a profissão dos votos perpétuos com base na “Regra das dez virtudes”, no dia
24 de novembro de 1966 Inocêncio XII aprovou legalmente a Ordem dos Marianos, tendo recomendado ao núncio em Varsóvia que aceitasse os votos deles.
Naquela época a ordem contava cerca de 20 membros em 3 conventos (o terceiro
havia sido fundado no dia 15 de outubro de 1699 em Gozlin). Os marianos vestiam o hábito branco em honra da Imaculada Conceição da SVM e debaixo dele
usavam um escapulário branco, com a imagem bordada ou gravada da Imaculada
Conceição de Maria, adornado de cor azul, e no cinto traziam uma décima, ou
seja, dez contas pretas do rosário, que simbolizavam as dez virtudes evangélicas
da Santíssima Vigem Maria.
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Papczynski foi superior geral até sua morte († 17.11.1701). Seu vigário, e
mais tarde também assistente, era o pe. Joaquim Kozlowski († 1730), eleito para
o cargo de superior geral, escolha que foi confirmada ainda pelo Fundador.
Em 1710 os marianos assumiram mais uma fundação, em Skórzec, perto de
Siedlce. Em breve, porém, o seu desenvolvimento deparou-se com obstáculos.
Em conseqüência de tensões internas da jovem comunidade religiosa e da falta
generalizada de sacerdotes, o bispo Adão Rostkowski, agindo em nome do bispo
de Poznan Szembek, fechou o noviciado e ordenou que a partir de 1716 os marianos deixassem os conventos e se transferissem ao trabalho pastoral nas paróquias.
Nos conventos permaneceram apenas 8 religiosos. Na realidade a crise também
se tornava grande porque, após 1699, a Ordem dos Marianos estava aprovada pela
Santa Sé, mas permanecia sem constituições aprovadas. Por essa razão, quando
em 1722 saiu da crise da chamada “dispersão de Rostkowski”, o pe. J. Kozlowski
viajou a Roma, onde em 1723 obteve de Inocêncio XIII a aprovação pontifícia da
Ordem, bem como a aprovação das constituições redigidas com base na Norma
vitae e adaptadas à “Regra das dez virtudes da SVM”.
A nova aprovação da Ordem contribuiu para o seu gradual desenvolvimento.
Os anos 1725-1750 foram assinalados pela personalidade dominante do Servo
de Deus Casimiro Wyszynski († 1755), que exerceu diversas funções, inclusive
por duas vezes a de superior geral (1737-1741, 1747-1750). Ele iniciou e levou
adiante a permanente renovação espiritual da Ordem, dando ênfase especial à
estrita fidelidade ao espírito do Fundador, aliada à observância da Regra e à imitação das dez virtudes da SVM. Ele também deu início aos preparativos para a
beatificação do pe. Papczynski. Nos tempos de Wyszynski ocorreu um verdadeiro desenvolvimento da Ordem, com a fundação de novos conventos: na área do
Grão-Ducado da Lituânia em Rasna (1749) e em Mariampol (1749), na Volínia
em Berezdow (1750), e a seguir em Portugal – em Balsamão (1754), onde também o pe. Wyszynski permaneceu e onde faleceu com fama de santidade, no dia
21.10.1755.
Na segunda metade do século XVIII ocorreu um desenvolvimento bastante
rápido da Ordem, que com o tempo tornou-se uma comunidade internacional.
Em Portugal foram abertos dois novos conventos, no território da República da
Polônia (hoje Polônia, Lituânia, Bielo-Rússia e Ucrânia) eram fundados novos
conventos, e em 1779 os marianos estabeleceram-se também na Itália, onde em
Roma adquiriram dos cistercienses o convento e a igreja de S. Vito. Um sensível
desenvolvimento da Ordem era perceptível durante o governo do general Raimundo Nowicki (1776-1788): em 1781 os marianos contavam 147 membros em
13 conventos. No dia 10 de março de 1786 os marianos obtiveram de Pio VI a
independência dos franciscanos observantes, e no dia 27 de março de 1787 – uma
nova aprovação da regra e das constituições adaptadas à nova situação legal. Nesse período, em resposta a pedidos dos bispos, os marianos intensificaram a sua ati225
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vidade na pregação de missões populares, na atividade caritativa (hospitais para
os pobres) e na fundação de escolas paroquiais junto a cada convento. Muitas
vezes as suas paróquias transformavam-se em centros de novas paróquias.
No final do século XVIII, em conseqüência de contratempos e condicionamentos políticos, bem como em razão de perseguições da parte de governos adversários da Igreja, os marianos entraram num período de declínio. O primeiro
convento fechado em 1798 pelas autoridades de Napoleão foi o de S. Vito, em
Roma. Os três conventos em Portugal foram fechados pelo governo português
em 1834. Também no território da Polônia, em conseqüência das suas partilhas,
a partir do século XIX iniciou-se um período em que a Ordem ia perdendo um
significativo número de membros e de conventos.
As mudanças territoriais ocorridas após a divisão da Polônia e a severa política
de isolamento adotada pelos ocupantes levaram ao surgimento de novas estruturas
administrativo-eclesiásticas dos marianos, dependendo do lugar da localização
dos conventos. Dessa forma, em 1797 surgiram as províncias russa e prussiana.
Os marianos que se encontravam no território de ocupação austríaca (até 1809)
não constituíam uma estrutura provincial, talvez porque ali se localizasse a casa
central da Ordem (Skórzec). As dificuldades intensificaram-se mais ainda após a
criação do Reino da Polônia, e especialmente após a queda do Levante contra a
Rússia em 1830.
Na realidade, em 1835 já havia apenas 63 religiosos em 7 conventos. Da mesma forma, em 1860 mencionam-se 71 religiosos em 8 conventos. No entanto,
após o fracassado Levante de 1863, o tzar Alexandre II iniciou em 1864 a gradual
cassação de todos os institutos religiosos no Reino da Polônia. Para os marianos,
essas iniciativas foram catastróficas, visto que diziam respeito à maioria das casas possuídas, e em conseqüência levaram à total extinção da Ordem. Nos anos
1864-1866 fora fechados 7 conventos marianos, e 11 marianos foram enviados à
Sibéria, entre eles também Cristóvão Szwernicki († 1894), missionário de Irkutsk
e da Sibéria. Nas igrejas anteriormente pertencentes à Ordem, para a continuidade
do seu funcionamento foi deixado um sacerdote mariano em cada uma, enquanto
os demais foram transferidos à força ao convento de Mariampol, na Lituânia.
Submetidos ao estrito controle da polícia, os marianos viviam em Mariampol
como se fosse numa prisão superlotada. Por isso não é de admirar que, diante das
condições muito difíceis de vida, muitos tenham deixado o convento em Mariampol e tenham sido incardinados a diversas dioceses, envolvendo-se no trabalho
pastoral. Os restantes iam morrendo aos poucos e, visto que era praticamente
impossível aceitar noviços, o número dos marianos começou a decrescer violentamente. Em 1865 eles ainda eram 40, em 1897 haviam restado apenas 3, e em
1908 permaneceu vivo um único mariano com a plenitude dos direitos canônicos,
o pe. Vicente Sekowski, anteriormente eleito superior geral.
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Com o objetivo de salvar a Ordem da extinção, tornava-se necessário transformá-la num instituto clandestino. Tal proposta foi apresentada ao pe. Vicente
Sekowski em 1908 por um educando dos marianos em Mariampol, o Beato pe.
Jorge Matulaitis-Matulewicz, professor da Academia Religiosa de São Petersburgo. Tendo obtido a aceitação de tais iniciativas, no verão de 1909 ele viajou a
Roma e, com plena procuração obtida do pe. Sekowski, pediu à Santa Sé a autorização para substituir o hábito branco dos marianos por uma simples batina,
utilizada pelos padres diocesanos (enquanto que os irmãos religiosos deviam usar
trajes civis) e que fosse aberto um noviciado clandestino em S. Petersburgo. Era
preciso também adaptar as constituições marianas (Statuta) à nova situação em
que se encontrava a comunidade, bem como às Normae, publicadas pela Santa
Sé em 1901. Finalmente, para evitar a extinção da Ordem no caso de uma morte
inesperada do pe. Sekowski, foi apresentado o pedido de Matulaitis-Matulewicz
poder rapidamente professar os votos religiosos, sem a necessidade de passar pelo
noviciado.
Após ter recebido uma resposta positiva da Santa Sé, no dia 29 de agosto de
1909 Matulaitis-Matulewicz professou os votos religiosos, e um amigo seu, o pe.
Francisco Buczys (+ 1951), iniciou o noviciado canônico. Esse dia é considerado
como a data do renascimento da Ordem dos Marianos. A renovação e a reforma
foram canonicamente aprovadas no dia 28 de novembro de 1910, isto é, no dia
em que Pio X aprovou as Constituições sensivelmente modificadas dos marianos,
a saber: os votos solenes foram transformados em simples, no lugar do ofício
diário pelos falecidos foi imposta aos marianos a obrigação de uma especial devoção às almas que permanecem no purgatório (sem ser apresentada a sua forma
estritamente definida), a atividade apostólica foi estendida à utilização de todos
os meios apostólicos, e o hábito religioso foi substituído pelo traje dos padres
diocesanos.
O então superior geral, pe. Sekowski, faleceu no dia 10 de abril de 1911, depois de ter dirigido a Ordem renovada por 19 meses e 12 dias. No momento da
morte do pe. Sekowski a comunidade religiosa contava 2 professos e, quando no
mesmo ano o pe. J. Totoraitis (+ 1941) concluiu o noviciado, o pe. Matulaitis-Matulewicz foi eleito para o cargo de novo superior geral (14.07.1911).
O desenvolvimento da Congregação dos Marianos renovada prosseguiu de
forma dinâmica. Crescia constantemente o número dos candidatos, no início principalmente lituanos e poloneses. Com o objetivo de organizar a formação religiosa canônica, em 1911 Matulaitis-Matulewciz – com a autorização da Santa Sé
– abriu uma casa religiosa e um noviciado em Friburgo, na Suíça. Naquele mesmo
ano iniciaram o noviciado 10 noviços: 7 sacerdotes, 1 seminarista e 2 leigos. No
entanto em 1918 essa casa foi fechada, visto que, em conseqüência das mudanças
políticas, já era possível organizar a vida religiosa na Polônia e na Lituânia, e o
grande número de candidatos exigia a fundação de novos noviciados.
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A primeira casa religiosa a atuar abertamente nos Estados Unidos surgiu em
Chicago em 1913. Já antes disso, em 1912, os marianos haviam iniciado o trabalho em Varsóvia, onde em 1915 Matulaitis-Matulewicz abriu no bairro de Bielany
uma casa religiosa e um ginásio. Em 1918 foi reativado o convento mariano em
Mariampol como o núcleo principal da comunidade lituana. Em 1918 os marianos
contavam 57 religiosos em 3 núcleos, dos quais mais da metade encontrava-se
na Polônia. Após ser nomeado bispo de Vilnius em 1918, Matulaitis-Matulewicz
continuou no cargo de superior geral, até a sua morte. Ele havia nomeado vigáriosgerais para os diversos países em que a comunidade atuava. No relatório sobre o
estado da Congregação de 1923, apresentado à Santa Sé, Matulaitis-Matulewicz
informa que os recursos humanos abrangiam 94 religiosos, que se encontravam
na Polônia (48), na Lituânia (31) e nos Estados Unidos (15). Naquele mesmo
ano os marianos assumem a igreja e o convento dos bernardinos em Druia, com
o propósito de assumir o trabalho entre os bielo-russos, e um ano depois abrem o
convento em Welony, na Letônia, para a pastoral entre os letões. Em 1925 a Cúria
Geral foi transferida de Mariampol a Roma, onde também foi aberto um colégio
internacional para estudantes marianos.
Em 1928 os marianos assumiram uma missão do rito bizantino-eslavo para
os russos em Harbin, na Mandchúria. Com esse objetivo foi fundada uma casa
religiosa, e foi nomeado superior do ordinariato o arquimandrita Fabiano Abrantowicz († 1946). Essa fundação, juntamente com as escolas anexas, foi fechada
à força em 1948, e os marianos que naquele tempo se encontravam no convento
foram detidos e enviados a campos de trabalhos forçados soviéticos. Alguns deles
tiveram morte de mártires, ao passo que outros, após recuperarem a liberdade, foram transferidos a outros lugares e exerceram o ministério no rito oriental na GrãBretanha, nos Estados Unidos, na Polônia e na Austrália. Em 2003 teve início o
processo de beatificação dos servos de Deus Fabiano Abrantowicz e André Cikoto
(† 1952), superiores da missão de Harbin, martirizados pelo regime comunista.
Com a aprovação das novas Constituições em 1930, foram instituídas 3 novas províncias: a americana de S. Casimiro, a polonesa da Providência Divina e
a lituana de S. Jorge. Naquele tempo a Congregação contava 319 religiosos em
17 conventos.
Em 1939 os marianos instalaram a primeira casa religiosa na Argentina. Inicialmente eles se concentravam no trabalho em meio aos imigrantes lituanos, e
com o tempo assumiram novos desafios pastorais entre os argentinos, isto é, a
direção de paróquias e de escolas católicas. Em 1987 foi fundado o vicarianto
argentino sob o patronato de Nossa Senhora de Luján, na época dependente da
província de S. Casimiro.
Em 1940 foi instituída a província leta sob o patronato de S. Teresa do Menino
Jesus. Em 1948 surgiu uma outra província nos Estados Unidos, a de S. Estanislau Kostka, na qual – em oposição à província de S. Casimiro, onde a atividade
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fundamental concentrava-se na direção de paróquias e na atividade editorial e
educacional (p. ex. Chicago, Thompson) – foi dada atenção sobretudo à difusão
da mensagem da Divina Misericórdia. Com o tempo isso levou ao surgimento do
Santuário Nacional da Divina Misericórdia em Stockbridge e à associação dos fiéis no âmbito da Associação dos Auxiliares Marianos, dos Apóstolos Eucarísticos
da Divina Misericórdia e da Irmandade da Imaculada Conceição.
Em 1954 foi recuperado o convento de Balsamão (Portugal), e posteriormente
foram fundadas novas casas religiosas (Fátima, Lisboa). Também em Portugal,
além do trabalho paroquial, surgiu o ministério no santuário mariano (Balsamão),
desenvolveu-se o apostolado da Divina Misericórdia e foram criados centros de
recreação e descanso. Em Portugal, em 1993, foi instalada a vice-província, transformada em 2005 em vicariato geral.
Com o objetivo de prestar assistência pastoral aos emigrantes poloneses, em
1950 foi fundada a primeira casa religiosa na Grã-Bretanha. Com o tempo surgiram novos núcleos, como o de Londres (Ealing), com formas bastante diversificadas de apostolado, incluindo a direção sazonal de instituições educativas
e culturais em Fawley Court, a tal ponto que em 1970 foi instituída a Província
de Nossa Senhora Mãe de Misericórdia, transformada em 2002 em delegação da
província polonesa.
Na Austrália, em 1951, os marianos iniciaram a assistência aos russos do rito
bizantino-eslavo, e em 1962 – a assistência religiosa aos lituanos.
A partir de 1964 a Congregação dos Marianos iniciou a atividade apostólica
no Brasil. Inicialmente em forma de assistência missionária no norte do país, na
diocese de Propriá, Estado do Sergipe. No entanto alguns anos depois, em razão
das difíceis condições climáticas, o ministério nesse local foi encerrado, e a partir
de 1967 foi iniciada a atividade no sul do país, no Estado do Paraná. Inicialmente
os marianos concentraram-se na atividade paroquial em cidades grandes (Curitiba, Rio de Janeiro) e no interior, mas com o tempo foram assumidas diversas formas de atividade extraparoquial, p. ex. foi instituída a Associação dos Auxiliares
Marianos, o santuário da Divina Misericórdia, um hospital para os pobres, um
seminário menor e maior. Em 1998 foi criada a província brasileira sob o patronato da Divina Misericórdia.
A primeira paróquia na Alemanha, na diocese de Augsburg, foi assumida pelos marianos em 1968 e, em resposta a pedidos dos bispos, foram sendo assumidos novos núcleos, o que levou, em 1994, à criação da delegação alemã.
Durante a Segunda Guerra Mundial e no período da União Soviética, os marianos sofreram significativas perdas humanas, em especial nos territórios do leste, onde vários deles sofreram morte de mártires. Dentre eles, em 1999 foram
beatificados dois: Antônio Leszczewicz († 1943) e Jorge Kaszyra († 1943), e em
2003 foi iniciado o processo do Servo de Deus Janis Mendriks († 1953).
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Após a dissolução da União Soviética, nos territórios da Lituânia, Letônia,
Bielo-Rússia e Ucrânia teve início o renascimento dos marianos. Nessas áreas a
Congregação permaneceu na clandestinidade, tendo sofrido pesadas perdas. Voltando à vida ativa nesses países, os marianos começaram a organizar estruturas
religiosas normais, retomando as antigas ou iniciando novas formas de atividade
apostólica.
Na Lituânia, além do trabalho nas paróquias (p. ex. Vilnius), os marianos atendem no santuário do Beato J. Matulewicz em Mariampol. Depois que esse país
recuperou a independência, foi criada uma escola média católica em Mariampol e
instituída a Associação dos Auxiliares Marianos (Kaunas). No entanto, em razão
das grandes perdas humanas sofridas nos tempos soviéticos, em 2007 foi reorganizada a província e instituiu-se um vicariato.
Da mesma forma na Letônia, sem desistir da direção de paróquias (p. ex.
Daugavpils, Rezekne, Welony), foi recuperada a tipografia mariana de antes da
guerra, iniciada a publicação de periódicos católicos e instituída a Associação dos
Auxiliares Marianos.
Os primeiros marianos chegaram à África em 1984, convidados à diocese de
Ruhengeri, na Ruanda, a fim de propagar o culto mariano. Inicialmente concentrados na direção de paróquias, em 2004 iniciaram o ministério no Santuário de
Nossa Senhora do Verbo em Kibeho (diocese de Gikongoro), onde instituíram o
Centro de Formação Mariana. Em 1999 estabeleceram-se em Camarões, na diocese de Doumé, Abong-Mbang. Após três anos de trabalho em Doumé e no seminário menor, assumiram a paróquia de Atok, onde fundaram um santuário da
Divina Misericórdia.
Em 1990 foi criado o vicariato ucraniano do Imaculado Coração da SVM, cuja
atividade – além da direção de paróquias (como Charków, Chmielnicki, Sewastopol, Górdek Podolski, Czerniowce) – leva em conta a reconstrução material de
igrejas, a publicação de livros e periódicos e obras caritativas.
Em 1991, em resposta à falta de clero, os marianos assumiram o trabalho na
Eslováquia e na República Checa. A primeira casa religiosa foi instalada em Drietomie (Eslováquia), e em 1993 em Brumovie-Bylnice (República Checa). A atividade pastoral concentrou-se ali principalmente na direção de paróquias (p. ex.
Praga) e em algumas formas de atividade extraparoquial, como a administração
do santuário mariano (Hradek, proximidades de Praga) e retiros, tanto individuais
como grupais e paroquiais. Em 1994 foi criado o vicariato checo-eslovaco sob o
patronato dos santos Cirilo e Metódio.
Em 1993 foi criada a delegação bielo-russa, cuja atividade, no início, esteve
relacionada principalmente com a reconstrução e construção de centros de culto, mas com o tempo deslocou-se na direção de atividades pastorais: direção de
paróquias (como as de Borysów, Druja, Minsk, Orsza), de centros de retiro e do
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santuário dos mártires marianos em Rosica. Em 1991 foi aberto o primeiro núcleo
missionário no Cazaquistão (Karaganda).
Na província polonesa, além da direção de paróquias, a atividade pastoral dos
marianos concentrou-se em variadas formas de atividade extraparoquial, p. ex.
na direção de santuários marianos (Lichen, Stoczek Warminski) e do Centro de
Formação Mariana com eles ligado, atividade editorial, científica e especializada
– relacionada com a direção do albergue para pessoas agonizantes (Varsóvia),
centros de aconselhamento para famílias e pessoas com dependência (Lichen,
Varsóvia), casas de retiro, Associação dos Auxiliares Marianos e Irmandade da
Imaculada Conceição.
As transformações pelas quais a Congregação passou nos Estados Unidos levaram, em 2006, à união de ambas as províncias americanas e à instituição de
uma única, sob o patronato de Nossa Senhora da Misericórdia.
No início de 2007 os marianos contavam 491 membros distribuídos por 59
casas religiosas em 18 países, dos quais os poloneses constituíam mais que a
metade.
Espiritualidade dos marianos
A espiritualidade dos marianos moldou-se sob a influência da situação religiosa e social, em parte também como reação a ela, na Polônia do século XVII.
A influência positiva das correntes mariana (inclusive do ideal com ela relacionado da escravidão mariana e do privilégio da Imaculada Conceição) e cristológica
(com ênfase passional), bem como os efeitos negativos das incessantes guerras
daquele tempo e dos processos sociais (crescente desmoralização da vida social,
alcoolismo, a questão do “liberum veto”) e a negligência na área da assistência
pastoral ao “povo simples” resultaram na idéia de uma nova comunidade religiosa, cuja realização foi iniciada por E. Papczynski em 1670. Interpretando os sinais
do tempo, ele reuniu e ordenou integralmente essas idéias básicas na Norma vitae,
baseada na sagrada Escritura e moldada na regra de S. Agostinho e conferiu-lhes
o formato de estatutos religiosos. Nessa mesma regra destacou de forma especial
o capítulo De charitate (Sobre o amor), reconhecendo o “amor de Deus” como
a essência e o meio fundamental para atingir os objetivos da vida espiritual, envolvendo todas as áreas da vida dos marianos (omnia apud vos in charitate fiant,
NV, II, 1). Na sua atividade de fundador e nos seus escritos Papczynski encerrou
as dimensões fundamentais da espiritualidade dos marianos: a trinitária – com
forte ênfase à imitação (sequela) e à próxima e amorosa presença de Cristo, DeusHomem, que sofre pelo pecador e pela sua salvação, e a busca da semelhança
com Ele (Orator crucifixus, Cracoviae 1670; Christus patiens, Varsaviae 1690);
a mariana – imaculatista, que situa Maria Imaculada, Mãe de Deus (Deipara, Dei
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Mater) como especial Padroeira e modelo de vida dos marianos (imitatio Mariae); a difusão do Seu culto devia ser o objetivo específico da nova comunidade,
e a entrega a Ela em escravidão (pro mancipio) foi inserida por Papczynski na
primeira versão de Norma vitae (Varsaviae 1687), o que foi omitido nas edições
subseqüentes dos estatutos marianos; a escatológica – que diz respeito à oração
pelo falecidos em conseqüência das guerras e da peste e não preparados para a
morte, bem como a correspondente lembrança permanente das coisas derradeiras; a apostólica – que impõe a pregação das verdades da fé ao “povo simples” e
religiosamente abandonado, a sua formação e condução à santidade evangélica
(Templum Dei mysticum, Cracoviae 1675 – onde o pe. Papczynski encerrou a sua
concepção integral da santidade das pessoas leigas). O Fundador incluiu o aprofundamento dos elementos da espiritualidade da Congregação dos Marianos também em outros escritos, especialmente no manuscrito Inspectio cordis (ed. crítica
– Roma 2000), que apresenta meditações para os domingos, os dias santificados,
os diversos dias da semana e temáticas, bem como em Prodromus reginae artium
(Varsaviae 1663), onde inseriu sermões marianos e uma crítica às desigualdades
e às injustiças sociais. A aceitação da Regula decem beneplacitorum, baseada em
trechos do Evangelho que descrevem a vida de Maria em forma de Suas virtudes/beneplácitos (virtutes/beneplacita) como objeto para meditação, fortaleceu
a dimensão eclesiotípica da espiritualidade mariana e a convicção a respeito das
fontes evangélicas dessa concepção.
A espiritualidade dos marianos foi desenvolvida e aprofundada teologicamente pelos sucessores e discípulos do Fundador em duas direções: fundamentação
da imitação de Maria Imaculada e fortalecimento da dimensão apostólica dos marianos, localizando-a num contexto cristológico e eclesial mais amplo. Um representante da primeira direção é sobretudo o Servo de Deus Casimiro Wyszynski
e a sua Estrela matutina de 1749, onde na Introdução o autor assim fundamenta
a imitação de Maria: “Quem se ligou com Maria deve imitar as Suas virtudes e
trilhar o caminho que Ela trilhou seguindo os passos de Cristo, que nos deixou o
primeiro e o mais perfeito exemplo da imitação da Sua vida em Maria – Sua Mãe
diletíssima” e procura demonstrar a continuidade desse ideal, aludindo constantemente, em sua doutrina e em sua atividade, à pessoa do Salvador, e na biografia de Papczynski destaca o caráter mariano desse ideal. A segunda corrente foi
representada pelo Beato J. Matulewicz. Pela reforma da Ordem dos Marianos e
nos seus escritos – como as Constituições da Congregação dos Padres Marianos
(Cracóvia 1933), Diário espiritual (Varsóvia 1988), Ideal condutor e espírito da
Congregação (Varsóvia 1988) – ele conferiu à espiritualidade dos marianos um
novo dinamismo e uma nova interpretação, adaptada aos seus tempos. Enfatizou o
universalismo da Igreja e da Congregação e conciliou harmonicamente o estilo de
vida mariano com o ideal do apostolado universal, a exemplo de S. Paulo Apóstolo. No lugar de “instrução do povo pobre” introduziu “todas as formas que lhes
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sejam sugeridas pelo zelo, para a salvação e a santificação das almas”, destacando
“a aquisição e a difusão da ciência e a instrução dos outros”, inclusive o apostolado no rito oriental e entre os não-católicos, em especial “onde haja as maiores
necessidades”. Expressou os elementos essenciais da espiritualidade mariana na
nova forma – do Ideal condutor: “O lema da Congregação é: ‘Por Cristo e pela
Igreja’. Por isso, os irmãos que desejarem imbuir-se do espírito de Cristo e da
Igreja procurem em tudo buscar a Deus, por tudo agradar a Deus, tudo fazer para
a maior glória de Deus, em tudo introduzir Deus, de maneira que Deus se torne
realmente o centro da vida, tanto de toda a Congregação como de cada um dos
seus membros. [...] E assim, que Cristo seja o guia e o modelo, tanto para toda a
Congregação como para cada um dos seus membros, e o caminho nos seja indicado e sejamos ajudados pela nossa especial Padroeira, a Imaculada Virgem Maria:
para com Ela vivermos e morrermos, cooperarmos e sofrermos, para juntamente
com Ela reinarmos com Cristo”. A interpretação da espiritualidade elaborada por
Matulewicz tornou-se o ponto de referência para os marianos no último século,
o que se refletiu também nas mais recentes Constituições, que levam em conta as
diretivas do Concílio Vaticano II.
Nos últimos tempos percebe-se, em conexão com ações pastorais, o desenvolvimento da reflexão teológica sobre o mistério da Imaculada Conceição como
fruto da Divina Misericórdia e da interpretação do carisma no contexto do apostolado, o que resultou na aceitação de novas obras, relacionadas com pessoas
dependentes e agonizantes (albergue), formação mariana, apostolado da Divina
Misericórdia no aspecto doutrinário e prático. Um novo reconhecimento do ideal
existente desde o início na espiritualidade dos marianos da partilha do carisma
com todos, para que por intermédio deles “todos aqueles que ainda realizam a
sua peregrinação terrestre, bem como aqueles que após esta vida estão sujeitos à
purificação alcancem juntamente com todos os santos a plenitude da maturidade e
da eterna felicidade em Cristo” (das Constituições) resultou no surgimento da Associação dos Auxiliares Marianos, isto é, homens e mulheres associados formalmente com a Congregação e que participam de diversas formas da espiritualidade,
da missão e do apostolado dos marianos; trata-se, no total, de mais de um milhão
de pessoas em todo o mundo. Essa Associação assume também as formas de vir
aggregatus, Irmandade da Imaculada Conceição e Apóstolos Eucarísticos da Divina Misericórdia. Além disso, a dimensão apostólica da espiritualidade envolve,
igualmente, a direção de paróquias e santuários marianos (p. ex. Brasil, Polônia, Portugal, Ruanda) e o apostolado da Divina Misericórdia (Brasil, Camarões,
Grã-Bretanha, Estados Unidos), a atividade editorial (Lituânia, Polônia, Estados
Unidos), a direção de escolas católicas (Estados Unidos, Argentina, Lituânia) e o
trabalho científico em universidades.
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Conferência V
O papel do espírito santo na vida do religioso . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 80
Conferência VI
O demônio – estratégias de ataque e defesa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89
Conferência VII
O pecado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 98
Conferência VIII
Discernimento e direção espiritual . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 108
Conferência IX
A oração . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 118
Conferência X
Ascese e mortificação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 133
Conferência XI
O caminho dos votos religiosos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 145
Conferência XII
Radicalismo cristão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 162
PARTE III
DOCUMENTOS, HOMILIAS, DISCURSOS
Decreto que reconhece o milagre pela intercessão do Servo de Deus
Estanislau Papczynski . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 175
Carta Apostólica de Sua Santidade Bento XVI proclamando beato
o Servo de Deus Estanislau Papczynski . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 178
Cardeal Tarcisio Bertone
De pastor de ovelhas a evangelizador das nações – entrevista . . . . . . . . . . 180
Cardeal Tarcisio Bertone
Alocução durante as Vésperas em Lichen no dia 15 de setembro
de 2007 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 182
Cardeal Tarcisio Bertone
Homilia durante a Missa de beatificação do Pe. Estanislau Papczynski em
Lichen no dia 16 de setembro de 2007 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 186
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Cardeal Franc Rodé CM
Alocução durante as Matinas em Lichen no dia 16 de setembro
de 2007 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 191
Cardeal Franc Rodé CM
Homilia durante a missa de ação de graças pela beatificação
do Pe. Estanislau Papczynski junto ao seu túmulo em Góra Kalwaria
no dia 17 de setembro e 2007 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 193
Cardeal José Glemp
Vigiar com Maria em todas as circunstâncias da vida – apelo mariano . . 197
Cardeal Estanislau Dziwisz
Homilia durante a missa de ação de graças pela beatificação
do Pe. Estanislau Papczynski na capela dos bispos de Cracóvia no
dia 19 de setembro de 2007. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 199
Pe. Jan M. Rokosz MIC, Superior Geral dos Padres Marianos
Discurso para a saudação do Legado Pontifício, Sua Eminência Cardeal
Tarcisio Bertone, em Lichen no dia 15 de setembro de 2007 . . . . . . . . . . . 202
Pe. Jan M. Rokosz MIC
Discurso para o encerramento da missa de beatificação em Lichen
no dia 16 de setembro de 2007 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 204
Pe. Jan M. Rokosz MIC
Discurso para início da missa de ação de graças pela beatificação
do Pe. Estanislau Papczynski em Góra Kalwaria (Marianki)
no dia 17 de setembro de 2007 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 207
Pe. Wojciech Skóra MIC, Postulador Geral
Biografia do Padre Estanislau Papczyński. Rito de beatificação.
Lichen, 16 de setembro de 2007 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 209
APÊNDICE
Pe. Andrzej Pakula MIC
Estanislau Papczyński. Por Cristo e pelo ser humano em necessidade . . . 213
Pe. Andrzej Pakula MIC
A Congregação dos Padres Marianos. História e espiritualidade . . . . . . . 223
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