Rosana Palazyan - Museu de Arte do Rio

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Transcrição

Rosana Palazyan - Museu de Arte do Rio
Linguagens do corpo carioca
[a vertigem do Rio]
Body discourses
[the vertigo of Rio]
Em Linguagens do corpo carioca [a vertigem do Rio], o Rio de Janeiro se desvela na
intensidade dos muitos corpos que habitam e diariamente inventam nossa cidade que, tendo
sido sucessivamente capital da colônia, do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, do
império e da república, se construiu a partir da contribuição de homens e mulheres de todos os
quadrantes do país e de estrangeiros de todas as rotas do mundo com uma vocação
cosmopolita.
Os núcleos da mostra apresentam um corpo plural, constituído pelo cruzamento de amplas
referências culturais tecidas desde o Brasil colonial até os dias de hoje. Inconstantes,
insustentáveis que se equilibram em sua própria voracidade, cordialmente cosmopolitas ou
violentos, melancólicos ou dissolvidos na água ao ritmo de um telecoteco único: assim
evoluem os corpos cariocas em permanente invenção da vida social. Um imaginário histórico e
contemporâneo revela as práticas, as coreografias e os conflitos desses corpos, principais
protagonistas na construção de uma identidade carioca.
Explorando os meios audiovisuais, a exposição reúne desenhos, gravuras, fotografias, filmes e
obras numa montagem de simultaneidades e diferenças, à semelhança das dinâmicas urbanas,
da complexa convivência e dos agrupamentos sociais. O escopo de imagens apresentadas vai
da iconografia clássica do século XVI às imagens mais atuais, ilustrando, principalmente, a
história da construção das concepções contemporâneas do “corpo carioca”, dos anos 1950 em
diante.
Deste modo, o Museu de Arte do Rio, sob a gestão do Instituto Odeon, oferece nesta mostra
uma experiência de vertigem com, a partir e através do corpo situado e contaminado pela
dinâmica urbana do Rio de Janeiro, com uma agenda ligada à resistência cultural e às práticas
da cidadania, ao improviso e à reinvenção de si, aos conflitos radicais, à cordialidade cotidiana,
à alegria coletiva, à negociação e ao trabalho, mas também aos guetos da prisão e às drogas.
Enfim, a tudo aquilo que faz do Rio uma cidade especial no mundo pela forma de vida de seus
moradores.
Sol, sal, suor, som, azul sem-fim e verde profundo, alturas, frescor de mato, águas que rolam,
malemolência, ziriguidum e borogodó, pele com pele, luz e vento são palavras-chave para se
chegar bem perto da vertigem do que é ser carioca.
Paulo Herkenhoff e Milton Guran
Corpos cosmopolitas e locais
Célebres ou anônimos que povoam a cidade pelos tempos e marcam, na vida cotidiana, uma
maneira de ser carioca, reconhecida no mundo. Essa experiência encontra, muitas vezes,
indivíduos que no corpo e no comportamento buscam um papel distintivo entre todos. Fazem a
graça da cidade contra a normatividade social e a biopolítica que define os corpos.
Cinematógrafo afrodescendente
O Rio de Janeiro, que foi o maior porto do tráfico atlântico de escravos, busca inverter esse
legado trágico. A formação social do Rio plural é um território social ímpar de contradições em
que o racismo escravocrata convive com uma floração cultural e de práticas sociais críticas
como processos dinâmicos de construção da cidadania afrodescendente.
Homem cordial
Camaradagem e violência, sinuca e arrastão. A praia, a cachaça e a pólvora, a afetividade e o
corpo, a proximidade e o estranhamento entre as classes sociais habitam o âmago do homem
cordial carioca em suas particularidades e em seus abismos como cidade partida.
Corpo telecoteco
A ginga, o balanço, o passo, o batuque e outras derivações do corpo apresentam as
singularidades desse modo musical de existir socialmente, entre o parangolé e o borogodó, fios
condutores da cultura do corpo, da arte e da língua do Grande Rio. A cidade fala em sons afro e
em gíria verbal de onomatopeias e aliterações, numa espécie de corpo telecoteco, manhoso e
esperto.
Corpos vorazes
A ideia das práticas canibais indígenas gerou uma teoria da cultura brasileira enriquecida pela
absorção produtiva das diferenças na formação cultural do país, como hipótese antropofágica.
No oposto, a voracidade contra a alteridade socialmente mais frágil e a violência moral e física
urbana do tráfico à milícia, do trânsito às remoções, formam um canibalismo social destrutivo.
Em contraponto, a voracidade da libido, em suas múltiplas aparições do desejo como uma
fantasia de devoração.
Corpos inconstantes
Os jesuítas do Descobrimento classificaram os indígenas como “inconstantes” já que eles
trabalhavam um dia e, no dia seguinte, pareciam ter-se esquecido de tudo o que fizeram no
anterior. Esses padres não perceberam que tal comportamento, longe de ser uma característica
de personalidade ou uma limitação de espírito, era uma estratégia de enfrentamento face ao
poder colonial – que hoje permanece sob outras formas violentas de investidas físicas,
religiosas e ideológicas na opressão dos valores culturais desses povos. O Rio, nascido sobre os
escombros de uma forte civilização tupi e sustentado nos seus primeiros anos por uma
população esmagadoramente indígena, será sempre simbolicamente tributário dessa cultura.
Corpos coletivos
Grandes aglomerações eventuais e espontâneas, o Carnaval e o Réveillon, torcidas, procissões
e marchas, manifestações políticas históricas, protestos organizados, shows, a praia, a rodinha,
o carioca aprecia estar junto no espaço coletivo. O Rio foi a cidade-capital que construiu a
unidade simbólica e política do Brasil. A psicologia das multidões atravessa do exercício de
cidadania à folia coletiva carioca.
Corpos metropolitanos
Antes de sua fundação em 1565, o Rio já havia surgido sob o signo do cosmopolita. O
navegador Américo Vespúcio se refugiava na Baía da Guanabara. O porto sempre foi esse
ponto de passagem e encontro. O Rio simboliza o Brasil no mundo. É a cidade global que
precisa ser a cidade de todos. Sempre uma metrópole num país hoje dominado por forças de
colonialismo interno, aqueles que nela vivem resistem com improviso e informalidade. Antes
de tudo, o carioca é um estado de espírito que une toda a região metropolitana do Rio, capaz de
zombar do poder e rir de si mesmo. A dimensão do corpo numa metrópole do século XXI
repercute a representação simbólica da emancipação e da individuação por meio da ocupação
política da cidade.
Corpos melancólicos
O Rio de Janeiro, como toda grande cidade, também é o lugar da solidão, do medo da morte,
do trauma, da melancolia, do apagamento do sujeito que, de certa forma, contradiz a euforia e a
festa contidas na ideia de cidade maravilhosa.
Corpos água
Cercada pelo mar, cortada por riachos que presenteiam o carioca com pequenas cascatas,
vivendo temperaturas escaldantes em boa parte do ano, a cidade do Rio mantém com a água
uma relação privilegiada.
Corpos insustentáveis
“Calção corpo aberto no espaço...”
In Body discourses [the vertigo of Rio], Rio de Janeiro is unveiled in the intensity of the many
bodies that inhabit and invent our city on a daily basis, which having been in succession the
capital of the colony, the United Kingdom of Portugal, Brazil and the Algarves, the empire and
the republic, was built starting from the contributions of the men and women from every corner
of the country and foreigners from all over the world with a cosmopolitan vocation.
The sections of the exhibition present a plural body, consisting of the crossing of the broad
cultural references that have been woven from colonial Brazil until nowadays. Inconstant and
unsustainable, balancing on their own voracity, cordially cosmopolitan or violent, melancholic
or dissolved in water to the rhythm of a lone telecoteco beat, Carioca bodies evolve in
permanent invention of social life. A historic and contemporary imaginary reveals the
practices, choreography and the conflicts of these bodies, the main protagonists in the
construction of a Carioca identity.
Exploring audiovisual medias, the exhibition unites drawings, engravings, photographs, films
and artworks in a montage of simultaneities and differences, similar to urban dynamics,
complex coexistence and social groupings. The scope of the images presented go from classic
iconography from the 16th century to more current images, mainly illustrating the history of the
construction of contemporary conceptions about the “Carioca body”, from the 1950s onwards.
Therefore, in this exhibition the Museu de Arte do Rio, under the management of Instituto
Odeon, offers an experience of vertigo with, starting from and through the body located and
contaminated by the urban dynamic of Rio de Janeiro, with an agenda linked to cultural
resistance and the practices of citizenship, the improvisation and reinvention of itself, the
radical conflicts, the everyday cordiality, the collective joy, business and work, but also to the
ghettos of prison and drugs. In fact, to everything that makes Rio a special city in the world for
its residents’ way of living.
Sun, salt, sweat, sound, endless blue and deep green, heights, the freshness of the forest, rolling
waters, listlessness, ziriguidum and borogodó, skin on skin, light and wind are all keywords in
order to get really close to the vertigo that is to be Carioca.
Paulo Herkenhoff and Milton Guran
Cosmopolitan bodies and places
The famous or anonymous have populated the city through the ages and have marked, in dayto-day life, a way to be Carioca, which is recognised around the world. This experience so
often finds individuals who in body and behaviour are searching for a distinct role amongst
everybody. They grace the city against social norms and the biopolitics that define the bodies.
Afro-descendant cinematography
Rio de Janeiro, which was the largest port in the Atlantic slave trade, aims to reverse this tragic
legacy. The plural social formation of Rio is a unique social territory of contradiction, in which
the enslaving racism lives together with a cultural flowering and critical social practices as
dynamic processes in the construction of Afro-descendant citizenship.
Cordial man
Camaraderie and violence, snooker and collective urban robbery. The beach, the cachaça and
the gunpowder, affectivity and the body, the closeness and strangeness between the social
classes all live in the heart of the cordial Carioca man in his specificities and his abysses as a
divided city.
The telecoteco body
The swaying hips, swing, footsteps, drumbeat and the other derivations of the body present
singularities of the musical way of existing socially, between parangolé and borogodó, the
conducting wires of body culture, art and the language of Greater Rio. The city speaks in Afro
sounds and in verbal slang with onomatopoeia and alliteration, in a kind of body telecoteco, sly
and clever.
Voracious bodies
The idea of indigenous cannibal practices created a theory of Brazilian culture enriched by the
productive absorption of the differences in the country’s cultural formation, like an
anthropological hypothesis. On the other hand, the voracity against socially weaker otherness
and the moral and physical urban violence of drug trafficking by militias, from traffic to forced
removals, make up a destructive social cannibalism. As a counterpoint, the voracity of the
libido, in its multiple appearances of desire as a devouring fantasy.
Inconstant bodies
The Jesuits of the Discovery classified the indigenous people as “inconstant”, as they would
work one day and on the following day they seemed to have forgotten everything they did on
the previous one. These priests didn’t realise that behaviour like this, far from being a
characteristic of personality or a limitation of spirit, was a strategy to cope in the face of the
colonial power – which nowadays remains in other violent forms of physical, religious and
ideological investments in the oppression of the cultural values of these people. Rio, born
under the shadows of a strong native Tupi civilisation and sustained in its first years by an
overwhelmingly indigenous population, will always be a symbolic tributary of this culture.
Collective bodies
Large occasional and spontaneous gatherings, Carnival and New Year’s Eve, sports fans,
processions and marches, historical political manifestations, organised protests, shows, the
beach and samba circles, the Carioca enjoys being together in the collective space. Rio was the
city-capital that constructed the symbolic and political unity of Brazil. The psychology of the
crowds goes through the exercise of citizenship towards collective Carioca revelry.
Metropolitan bodies
Before its founding in 1565, Rio had emerged under the sign of the cosmopolitan. The explorer
Américo Vespúcio took shelter in Guanabara Bay. The port was always the point of passage
and meeting. Rio symbolises Brazil in the world. It is the global city that needs to be the city
for everyone. Always a metropolis in a country nowadays dominated by forces of internal
colonialism, its population resist through improvisation and informality. Above all, Carioca is a
state of spirit that unites all of the metropolitan area of Rio, able to mock power and laugh at
themselves. The dimension of the body in a 21st century metropolis echoes the symbolic
representation of emancipation and individuation through the political occupation of the city.
Melancholic bodies
Rio de Janeiro, like every big city, is also the place of solitude, fear of death, trauma,
melancholy, and the deleting of the subject who, in a way, contradicts the euphoria and the
party contained in the idea of the marvellous city.
Water bodies
Surrounding by the sea, crossed by streams that present the Carioca with small waterfalls,
experiencing scorching hot temperatures for the best part of the year, the city of Rio has
a privileged relationship with water
Unsustainable bodies
"Shorts, body open in space..."
Gangland é um retrato de uma cidade chamada Rio de Janeiro.
Este Rio é sem maquiagem ou cirurgia plástica, nem é bombado nas academias da zona sul. É
o Rio diário dos milhões de cariocas, a maioria negros ou mestiços, mas também dos brancos
pobres que a novela das 8 teima em não mostrar.
É um Rio dos tiroteios entre grupos de jovens fortemente armados, de uma polícia mal paga e
treinada para matar a mando de políticos que andam em carro blindado e mandam vir pizza de
helicóptero para a ilha onde passam os fins de semana.
O Rio onde os corpos se amontoam no IML, em que mortos pela polícia são chamados de
bandidos pela imprensa, sem que se investiguem essas mortes. Só em 2007, a polícia matou
1.330 pessoas, e uma parte da sociedade (em sua maioria das classes média e alta) grita que
bandido bom é bandido morto.
O Rio de quem trabalha, o Rio dos bambas, o Rio que sente na carne a escravatura trazida por
nós, os portugueses, os que cá ficaram e hoje se dizem cariocas, os que voltaram com os bolsos
cheios de dinheiro para fazer igrejas em talha dourada e os que nunca cá vieram mas vivem do
outro lado do Atlântico o sonho da cidade maravilhosa, cheia de gente de sorriso aberto
achando que tudo é maravilhoso.
É o meu Rio, aquele que não me faz rir, mas me faz chorar.
Gangland is a portrait of a city called Rio de Janeiro.
This Rio has no makeup or plastic surgery; it’s not the fashion in the gyms of the city’s south
zone. It is the everyday Rio of millions of Cariocas, the majority black or of mestizo origin, but
also of poor white people that the 8 o’clock soap opera stubbornly doesn’t show.
It is a Rio of shootouts between heavily armed groups of youths, of a badly paid policeman
trained to kill on the orders of the politicians who ride in armoured cars, and get pizzas
delivered by helicopter to the island where they spend their weekends.
The Rio where the bodies pile up in the morgue in which those killed by police are called
criminals in the press, without investigating the deaths. Only in 2007, the police killed 1,330
people, and a section of society (mainly from the middle and upper classes) screams that a
good criminal is a dead one.
The Rio of those who work, the Rio of the samba stars, the Rio that feels in the flesh the
slavery that was brought by us, the Portuguese, those who stayed here and nowadays called
themselves Cariocas, those who returned with pockets full of money to make churches in
carved gold, and those who have never been here, but on the other side of the Atlantic
experience the dream of the marvellous city, full of grinning people believing everything is
marvellous.
It is my Rio, the one that makes me laugh, but also makes me cry.
João Pina, May 2016.
João Pina, maio de 2016.
Durante 2 anos (2000-2002), visitei adolescentes (de 12 a 17 anos) internados¹ em instituição
no Rio de Janeiro (Escola João Luiz Alves)² destinada à recuperação de jovens em conflito com a lei. O
que pretendia ser, no início, uma pesquisa passou a caracterizar meses de convivência diária, diálogos,
trocas culturais e afetivas e, por fim, minha inserção como voluntária na instituição.
Experimentando uma proposta inédita e completamente desconhecida por mim, várias obras³
surgiram durante esse processo. Todas com base nas conversas e trocas estabelecidas com os
adolescentes. Entre elas, os objetos/instalação e os desenhos da série: “…uma história que você nunca
mais esqueceu?” (2000-2007).
Diante de tantas histórias vividas (desde a violência doméstica e a do dia a dia nas ruas,
traumas, sentimentos de traição, agressões e até mesmo alegrias e acontecimentos envolvendo amizade
e solidariedade), minha curiosidade era se eles haviam guardado aquela história que nunca conseguiram
esquecer. Depois de muitos encontros, essas histórias foram surgindo recuperadas de suas memórias e,
a cada dia, mais adolescentes tinham interesse em me conhecer e conversar.
Nos trabalhos dessa série, inicialmente em forma de objetos que compunham uma instalação,
criei cenas baseadas nas respostas dos jovens. Após várias tentativas e estudando cada movimento,
encontrar aquele instante correto para a cena fazia-me sentir muito próxima do cinema e da fotografia.
Na instalação, esses objetos foram alinhados tendo como referência a altura das camas dos adolescentes
nos dormitórios da instituição. E a iluminação foi pontuada de forma a projetar sombras nas paredes,
trazendo da memória de infância as histórias contadas com o "jogo de sombras" à luz de velas.
Em seguida, como se fosse necessário contar mais uma vez aquelas histórias para que nunca
fossem esquecidas, surgiram os desenhos dessa mesma série (2000-2002).
Conheci mais de cem meninos. E ouvir cada história individualmente me fez perceber o quanto
estava sendo importante nossa troca. Naquele lugar, sozinha, entendi que, se houvesse uma verdadeira
intenção de transformação pelas instituições, estudar cada caso separadamente, cada história de vida,
seria a grande oportunidade para que eles pudessem ter suas vidas reconstruídas.
De minha parte, depois de criar vínculos e estar tão presente no cotidiano daqueles meninos,
não poderia ir embora e desaparecer de repente. Decidi então continuar na instituição até que o último
adolescente que eu havia conhecido individualmente tivesse sido posto em liberdade. Para que mais
uma vez eles não experimentassem o sentimento de abandono constante em suas vidas.
Após a realização das obras, já envolvida e inserida naquele contexto junto aos adolescentes e
profissionais que lá trabalhavam, continuei frequentando a instituição, desta vez como voluntária e
criando propostas inéditas que surgiam de nossas trocas. Como, por exemplo, a criação do Projeto
Roupa de Marca, que desenvolvi em parceria com os adolescentes.
Experimentar este processo na arte e na vida foi inesquecível e pretendo dar prosseguimento à
proposta de viver a arte como o encontro com o Outro, na tentativa de transformar as relações das
pessoas diante de universos e questões ainda tão desconhecidos.
Rosana Palazyan, 2004
¹ O prazo de internação de cada adolescente em cumprimento de medidas socioeducativas naquela
instituição variava de três meses a três anos, mediante a avaliação da Justiça.
² No período em que frequentei essa instituição, percebi que sua direção era diferenciada das outras
existentes no Rio de Janeiro e que existia a intenção de levar adiante o real sentido de ressocialização,
mesmo diante das dificuldades. Após a mudança da direção e com as modificações ocorridas nesse
sentido, não me senti à vontade para visitar novamente a instituição. Em 2003, dando continuidade ao
processo, por cinco meses passei a frequentar o Centro de Recursos Integrados de Atendimento ao
Adolescente (Criaad/Penha, antigo Criam/Penha), onde estão internados adolescentes em cumprimento
de medidas socioeducativas em sistema de semiliberdade.
³ Obras criadas nesse período: “... um pedido para estrela cadente...” (2000-2004); Retratos (20002004); Escola João Luiz Alves (2000); “... para Valéria, Luciana, Patrícia, Maria, Mônica...” (20002004); “... minha mãe tem o perfume doce da rosa...” (2002); Medo (2002-2004); Projeto Roupa de
Marca (2000-2002).
Over the course of 2 years (2000-2002), I visited teenagers (aged 12 to 17) who were detained1 at an
institution in Rio de Janeiro (The João Luiz Alves School)2 aimed at the rehabilitation of young people
in trouble with the law. What was supposed to be research at the beginning ended up characterising
months of daily coexistence, dialogues, cultural and emotional exchanges, and by the end, my inclusion
as a volunteer at the institution.
Experiencing a proposal that was unprecedented and completely unknown to me, several works3
emerged during the process. All based on the conversations and exchanges established with the
teenagers. Amongst them, the objects/installation and the drawings from the series: “… a story that you
will never forget?” (2000-2007).
Faced with so many stories they lived (from domestic violence to the day-to-day of the streets, trauma,
feelings of betrayal, aggressions; and even happiness and events involving friendship and solidarity),
my curiosity was if they had kept the story they would ever be able to forget. After many meetings
these stories were emerging, recovered from their memories, and, every day, more teenagers were
interested in meeting me and talking.
In the works from this series, initially in the form of objects that make up an installation, I created
scenes based on the responses of the young people. After several attempts and studying every
movement, to find the correct moment for the scene, it made me feel very close to cinema and
photography. In the installation, the objects were aligned using the height of the teenagers’ beds in the
dormitories of the institution as a reference. The lighting was punctuated in a way that projected
shadows on the walls, bringing back from the memory the childhood stories told through a “game of
shadows” in the candlelight.
Next, as if it was necessary to tell the stories again, so they would never be forgotten, came the
drawings from the same series (2000-2002).
I met more than 100 children. And to hear each story individually made me realise just how important
our exchange was. There, alone, I understood that if the institutions really had a true intention to
transform, to look at each case separately, that would be the great opportunity for them to rebuild their
lives.
For my part, after creating bounds and being so present in the daily lives of those children, I couldn’t
simply leave and disappear suddenly. So I decided to continue in the institution until the last teenager
that I had known individually had been freed. So that they didn’t, once again, have that feeling of
constant abandonment in their lives.
After producing the works, already involved and inserted into the context together with the teenagers
and the professionals who worked there, I continued visiting the institution, this time as a volunteer and
creating unpublished proposals that came from our exchanges. Like for example, the creation of Project
Branded Clothing, which I developed in partnership with the youngsters.
1
The period of detention of each teenager, in the fulfilling of socio-educational measures at
this institution, varied from three months to three years, depending on the evaluation of the
Court.
2
During the period that I visited the institution, I realised that its direction was different from
the others that existed in Rio de Janeiro and that there was a real intention to carry forward a
true sense of re-socialisation, even faced with the difficulties. After a change in direction and
with the modifications carried out to these ends, I did not feel a desire to visit the institution
again. In 2003, giving continuity to the process, for 5 months I began to attend the Centre of
Integrated Resources for Care for Adolescents (Criadd/Penha, formerly Criam/Penha), where
teenagers, who were meeting socio-educational measures, were detained in a system of
semi-freedom.
3
Works created in this period: “… a request for a shooting star…” (2000/2004); Portraits
(2000/2004); João Luiz Alves School (2000); “…for Valéria, Luciana, Patrícia, Maria,
Mônica…” (2000-2004); “… my mother smells like the sweet perfume of a rose…” (2002);
Fear (2002-2004); Branded Clothing Project (2000-2002).
To experience this process in art and in life was unforgettable and I intend to proceed with the proposal
of experiencing art as a meeting with the Other, in an attempt to transform the relationships of people
faced with universes and questions that are still so unknown.
Rosana Palazyan, 2004