SOBRE NOSSAS PROFUNDAS DIFERENÇAS (ou lasciate ogni

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SOBRE NOSSAS PROFUNDAS DIFERENÇAS (ou lasciate ogni
SOBRE NOSSAS PROFUNDAS DIFERENÇAS
(ou lasciate ogni speranza, voi ch'entrate)
Dedicado aos colegas do campus Senhor do Bonfim do If Baiano,
aos que passam pelas mesmas situações em outros campi
e aos interessados de Senhor do Bonfim e região.
por Waldísio Araújo, matrícula siape 1625651
Vapor Barato,
um mero serviçal do narcotráfico,
foi encontrado na ruína
de uma escola em construção.
Aqui, tudo parece
que ainda é construção
e já é ruína...
(Caetano Veloso)
Prezados colegas, sei que o que tenho a dizer aqui, pela época em que o publico, insere-se no
contexto histórico das recentes eleições para a direção do campus Senhor do Bonfim do If Baiano,
mas solicito de todos que o vejam não somente como um posicionamento pessoal sobre a situação
atual, mas como a primeira tentativa de um diagnóstico do que tem sido há duas décadas a vida em
nossa instituição, nossas relações com nós mesmos e com as comunidades que nos sustentam e para
as quais devemos ou deveríamos trabalhar. Ademais, é minha intenção começar um debate em outro
nível, diferente do que temos visto até então, um debate que comece sempre por uma interpretação
do passado e do presente para melhor construir-se um futuro. Como não participarei da próxima
eleição, espero que fique este texto como minha única e provavelmente última contribuição à
história do campus.
Durante as eleições de 2010 duas faixas escritas estendiam-se nas imediações do começo da estrada
de Igara. Uma delas dizia que a Universidade Estadual da Bahia (Uneb) apoiava a candidata Enaide
Maciel; a outra declarava que a Associação de Criadores de Caprinos e Ovinos de Senhor do
Bonfim postava-se ao lado do candidato Aécio “Zezão”. Nada contra nenhuma das instituições,
muito pelo contrário, reconheço a importância e necessidade de ambas e concedo que ambas são
autônomas para dar apoio a quem quiserem. Mas os tipos respectivos de apoio que cada candidato
recebeu – de um lado a mais influente instituição pedagógica da região; do outro, a mais poderosa
associação produtora – fala significativamente do conflito interno e do isolamento externo que
caracterizam o campus Senhor do Bonfim e fazem dele, ao menos até agora, um complexo obsoleto,
arcaico, retrógrado, estéril, ineficiente, em suma, mal administrado.
Que as relações no campus são conflituosas, salta aos olhos de qualquer visitante e é mais que óbvio
para os que nele “convivem”. Professores que atuam em sala de aula e professores que dão aulas no
campo digladiam-se ferozmente; cursos ligados à prática agrícola, pecuária ou alimentar são
tratados de forma radicalmente diferente de cursos de áreas de cunho pedagógico ou tecnológico, de
aplicação majoritariamente urbana; alguns poucos docentes são encarregados há tanto tempo de
funções administrativas que a comunidade sequer concebe que um dia estiveram em alguma sala de
aula; os cargos de alto e médio escalão são em redistribuídos a cada nova direção, mas praticamente
entre os mesmos ocupantes, embora nenhum deles jamais tenha mostrado maior competência que
outros para ocupá-los; certos servidores terceirizados instalam-se há anos em tarefas que os tornam
na prática (ainda que não de direito) tão ou mais estáveis que muitos servidores efetivos, que, aliás,
durante anos têm sido locomovidos para setores alheios àqueles para os quais foram concursados;
certos servidores mal pisam na escola, mas sempre terão álibis caso alguém os questione
administrativamente; outros, depois de anos num setor e após adquirirem valiosa experiência ou
capacitação nas suas áreas de atuação, são enviados para outros setores arbitrariamente ou ao acaso
de decisões obscuras; muitos têm ânsia de migrar para outro campus e se entregam à subserviência
ou à revolta (duas esperanças aparentemente opostas de sonharem com remoção ou com uma
função “cala-boca”); muitos dos que não querem compactuar com tal situação ficam calados e
trabalham para o sistema em regime de “operação-tartaruga”, enquanto os satisfeitíssimos os vigiam
e para eles criam imagens públicas de “vagabundos”, “inimigos da instituição”, “loucos” ou mesmo
“criminosos”; os outros resmungam, escrevem ou gritam, de acordo com o tamanho de sua revolta;
e todos são vigiados ao menos potencialmente por pessoas e câmeras, desde a entrada até a saída
pela portaria... Todo esse ambiente pernóstico pode não implicar em ilegalidade do grupo gestor, e
este texto não foi feito para denúncias de malversações, desvios de verbas ou funções, fraudes etc.
(até porque outros têm produzido tais textos, cuja leitura, análise e apuração factual cabe a
instâncias mais competentes que eu); mas o péssimo ambiente relacional, que dificulta a
possibilidade de qualquer unidade ética a curto prazo no campus pode e deve ser avaliado em suas
raízes e estrutura.
Voltemos às duas faixas eleitorais de 2010. O que elas simbolizam para nós é a excessiva divisão
entre produção e ensino, numa situação que nasceu dos vícios das antigas agrotécnicas. O que
ocorreu historicamente foi que instituições criadas como centros de produção, mas orientados para
objetivos estritamente pedagógicos, acabaram com o tempo por permitir, sub-repticiamente, que os
fins trocassem de lugar com os meios e as escolas-fazenda virassem, na prática, fazendas onde
funcionavam escolas. Destarte, já não se produzia apenas para ensinar a produzir, mas se passou a
perseguir a maximização das quantidades produzidas, com uma corrida pelo incremento das áreas
cultivadas, aclimatações de espécies vegetais a animais, inseminação moderna, engorda e abate de
gado, disputa de títulos em exposições, automatização agrícola, introdução de agrotóxicos, e muitas
outras atitudes que denunciam uma visão de mundo baseada no agronegócio e na pecuária moderna,
tudo isso orientado para os mercados internos ou externos às escolas. Claro que os alunos
continuaram a aprender algo nesse contexto de produção material exacerbada, com alguns bons
professores e técnicos a difundirem vários métodos avançados e eficientes; mas, em geral, sob essa
aparência de prioridade pedagógica os alunos passavam na prática a mera mão-de-obra barata que
se procurava capacitar para renderem o máximo para um sistema cujos fins não mais se divisavam –
fins ainda menos compreendidos pelos professores não orientados profissionalmente para as antigas
disciplinas agrárias, zootécnicas ou agroindustriais. O ideal seria que o campus produzisse,
transformasse, comercializasse e consumisse, sim, produtos vegetais e animais, mas que isso não
fosse considerado na prática como um fim em si, mas mera oportunidade pedagógica de ensinar os
alunos das áreas de atuação rural a produzirem, transformarem, comercializarem e levarem ao
consumidor o que eles produziu. Nesse sentido, vencer importantes prêmios em exposições ou
leilões e ter apoio de importantes empreendedores ou associações não deveria ser ideologicamente
tomado como indício suficiente de um ensino de qualidade, coisa que envolve necessariamente
muito mais do que meras técnicas de produção para o mercado e os donos do mercado.
Nesse ambiente semifeudal das antigas agrotécnicas nasceu, assim, o grande divisor social, político,
econômico e cultural que até hoje assola o campus: de um lado, professores e técnicos ligados ao
campo e com interesses voltados sobretudo para a produção; de outro, professores de salas de aula,
voltados para os problemas da prática e epistemologia pedagógicas; e politicamente os primeiros
passaram a monopolizar os altos e médios escalões da administração, com a ajuda de cargos e
funções técnicos administrativos coniventes com o status quo, quando não ocupados pelos próprios
professores de campo, além de uma multidão de servidores terceirizados, recrutados sem maiores
critérios de seleção para sustentarem com suor ou vigilância todo o sistema. A pressão sobre
auxiliares administrativos e outros cargos mais fragilizados tornou-se insuportável, acentuando a
cisão e jogando cada técnico administrativo para um dos lados do bipolarismo produção-ensino,
sobretudo para o lado mais interessado em que todo o sistema se perpetue. Mas tudo o que no
mundo busca perpetuar-se condena-se a mais cedo ou mais tarde a desabar, como o sabem
perfeitamente os engenheiros que conhecem o balançar necessário à estabilização dos grandes
prédios.
Veio então o processo de criação dos Institutos Federais. Provavelmente com pressa por eleições
iminentes e para não ter que reinventar a roda, o Governo acabou por entrar em acordo com as
agrotécnicas, e em nenhuma parte do Brasil um If foi criado a partir de tantas (foram quatro). Ora,
tal acordo, é claro, teve que ser negociado, dada a grande autonomia das agrotécnicas, e, ao que
parece, o foi à custa da manutenção ao menos provisória das antigas estruturas. Um indício da
irracionalidade e estupidez dos acordos aí envolvidos é o fato de os espaços geográficos dos dois Ifs
(Bahia e Baiano) dividirem o Estado não em duas grandes regiões contíguas, mas se
interpenetrarem, aberração que um critério administrativo baseado na razão, na praticidade,
coerência e governabilidade não teria jamais permitido. E essa aberração tornou-se ainda mais
espantosa quando as antigas agrotécnicas tiveram que começar a introduzir cursos mais “urbanos”
que exigiam alguma modernização não somente pedagógica mas também tecnológica dos campi.
Agora as divisões da comunidade acadêmica se agravavam pela pressão de um novo tipo de aluno –
adulto e de nível escolar superior, com visões de mundo e projetos de vida bem diferentes dos
adolescentes e jovens de famílias ruralizadas e mais preocupadas com um primeiro emprego para os
filhos do que com uma formação a longo prazo. Esta nova clientela e os dispersos alunos de EAD
(Ensino à Distância) formam uma nova massa confusa e pressionada entre a crítica ao sistema
vigente e o fascínio pelos projetos e obras que somente de forma aparente modernizam a escola e
ocultam a fazenda.
Que uma vocação agropecuária deva ser reafirmada no campus Senhor do Bonfim, tudo bem, e não
podemos deixar que algumas conquistas do passado sejam desperdiçadas e esquecidas. Isso não
mais justifica, contudo, que o grupo dirigente continue a valorizar a produção e distribuir o poder
interno apenas para atender à sua própria perpetuação e à das forças interessadas na produção.
Como o antigo Império Austro-Húngaro, que misturava as populações de etnias diferentes dos
Bálcãs no intuito de mantes os conflitos entre elas (e, assim, melhor dominá-las), o grupo dirigente
do campus Senhor do Bonfim, que controla de forma exclusiva a vida da comunidade há quase duas
décadas, apenas se mantém à custa de uma “balcanização” dos comportamentos, pensamentos,
cargos e finalidades, incorrendo com isso em erros lastimáveis e, a longo prazo, perigosos para o
futuro dos indivíduos e comunidade.
Agindo como se a vocação principal da instituição fosse a de manter-se como um centro produtivo
agrícola, pecuário e de produção alimentícia, em suma, como uma fazenda (e não como um núcleo
educacional cuja existência legal visaria realizar fins pedagógicos orientados não só para o trabalho,
mas para a integridade da vida psicológica, social e cultural), orienta-se pedagogicamente o campus
para uma educação voltada demasiadamente para a satisfação das necessidades da produção de
objetos de compra, modificação e venda, transformando os professores e técnicos em meros robôs
da linha de produção, destinados em última instância a criar “cidadãos” sem consciência de suas
próprias potencialidades como indivíduos e membros de grupos. Ao contrário, agem como se boas
notas, a mera participação em eventos e um bom currículo fossem o fim último, e não meios de
avaliação de rendimento, como se o simples fato de aprender (bem ou mal) algumas habilidades
fosse suficiente para fazer do aluno um cidadão consciente e em harmonia consigo mesmo e com
seu ambiente biológico e social. É como se a mera inserção das pessoas na cadeia produtiva, ou
seja, no circuito de exploradores e explorados, dispensasse professores e alunos de suas
responsabilidades éticas e de seu papel difusor e aperfeiçoador da cultura.
Mais grave ainda, além de desestimular o desenvolvimento pessoal dos integrantes da comunidade,
tem-se negligenciado qualquer tentativa de integrar a escola à vida das comunidades da região,
tradicionalmente massacradas pela pobreza, analfabetismo, secas periódicas e exploração pelos
poderosos. É verdade que empreendimentos como os dos grandes empresários individuais ou
associados são importantíssimos na implementação de formas mais modernas, científicas e intensas
de criação e exploração animal. Mas é sabido que o contexto sociocultural da região caracteriza-se
sobretudo por uma maioria de pequenos e pobres proprietários individuais ou de pequenos grupos
de fundo de pasto, que praticam há muito tempo seus métodos extensivos e que se mantêm em
estreita interação, bem ou mal, com o meio ambiente do Semiárido. Ao invés, portanto, de
hipervalorizar os métodos modernos (que aliás merecem ser TAMBÉM incentivados), o If Baiano
tem agido irresponsavelmente (mesmo pela omissão) frente às comunidades que podem ser afetadas
pelos impactos sociais, econômicos e ambientais dessa modernização. Não obstante, se
percorrermos detidamente as localidades envolvidas, veremos que a presença do campus Senhor do
Bonfim é quase invisível ou nula, exceto nas terras ou proximidades dos grandes empreendedores
privados, nas quais alunos do Instituto têm realizado atividades técnicas ou braçais a título de
exercícios escolares mais ou menos dirigidos. Quanto aos pobres urbanos e rurais, mesmo o
povoado vizinho de Capote (que limita-se praticamente com a cerca que isola o campus do resto do
mundo) não apresenta o mínimo resquício de relação com a escola; o povoado de Baraúna ainda
apresenta fortes marcas da existência do If, mas apenas por ser residência de vários técnicos e
professores do Instituto e de grande número de seus servidores terceirizados. Em termos
macroeconômicos, porém, a predileção mais evidente nas redondezas tem-se voltado para o distante
distrito de Quicé, importante produtor de gado e leite e onde se concentram os esforços dos grandes
proprietários e associações locais. Portanto, quase nenhum apoio é orientado para a produção de
subsistência, aos fundos de pasto ou aos pequenos produtores rurais, e na última longa seca eles
perderam propriedades e criações sob os olhos passivos e insensíveis do If Baiano. Tudo isso trai,
aliás, uma ideologia oculta, o mito de que o Semiárido seria uma terra de ninguém à espera de
empreendimentos de ponta que miraculosamente trariam enfim o “progresso”. No entanto, é já por
demais sabido hoje em dia que muitos métodos tradicionais adequam-se aos modos de vida e ao
ambiente da região e que, ao contrário, alguns métodos modernos podem trazer sérios riscos à vida
das comunidades e seu ambiente.
Por especializar-se demasiadamente nas formas e práticas pedagógicas de cunho agrícola e
pecuário, baseadas sobretudo nas ações in loco, no campo, dirigidos unilateralmente pelos
instrutores, a mentalidade e atitudes do campus têm desestimulado a adoção e aperfeiçoamento de
práticas e métodos pedagógicos inovadores e valorizadores da multiplicidade e diversidade de
opiniões, hábitos, crenças e saberes. E tudo ocorre como se bastasse uma infraestrutura cara e
pomposa para automaticamente dar como bem encaminhados ou mesmo resolvidos os problemas do
ensino e da aprendizagem. Paralelamente, a conscientização política e social dos estudantes é
desestimulada pela prática de tomadas de decisões excessivamente verticalizadas, as quais vitimam
os próprios professores e técnicos, que em geral são convidados a reuniões mais para homologar as
decisões de cúpula do que participar ativamente na concepção destas. Por pressões dos novos
tempos de difusão tecnológica, tem-se, é verdade, buscado alguma expansão, com a aquisição de
um bom parque tecnológico, a adoção de laboratórios de informática e implantação de EAD, mas,
por um lado, o parque informatizado tem sido subutilizado e, por outro, o ensino à distância tem
sido na prática mantido literalmente à distância mesmo, tanto no sentido da ineficiência quanto no
da dispersão. Isso se dá porque se preocupam em desenvolver pessoas para realizar as atividades
produtivas exigidas por um mercado tirano, não para realizar pessoas para desenvolver atividades
(produtivas ou não) inovadoras a ponto de questionar a própria tirania do mercado.
O excesso de recursos disponíveis para o campus (eu falei “excesso” mesmo, pois só em 2013 o
orçamento era de mais de 6 milhões, suficiente para matar de inveja os dirigentes de muitas
instituições congêneres dotadas de maior merecimento ou competência) leva a gastar-se com
requintes de pompa e exibicionismo, pulverizando-se recursos com construção de salas para
professores, mobiliário, computadores, veículos, pavimentação de praça e rua de acesso, ginásio de
esportes equipado, piscinas etc. Isso pode ser muito bonito, grandioso e agradável para um monte de
gente adolescente vinda da periferia ou zona rural dos municípios e mesmo para a multidão dos que
acham que o importante são as obras materiais, mas só serve para que, desviando-se do fiasco
pedagógico de que falávamos, o lema ideológico passe a ser o que batizo de “estrutura suficiente”, a
ideia de que o investimento maciço na infraestrutura material seria a condição sine qua non (logo,
não só necessária, mas também suficiente) para resolver os problemas de uma civilização, de uma
cultura, de uma sociedade, de uma comunidade, de um país, de um Instituto, de um campus, de uma
simples família ou até mesmo do mais mínimo indivíduo humano. Então se desviam forças e
recursos coletivos para uma forçada modernização, uma obtenção de edifícios, instalações e
equipamentos, uma informatização generalizada, aquisição de automóveis ou aparelhamento
esportivo, denunciando um pensamento latente de que o resto virá por si. Contudo, uma olhada
pouco mais atenta é suficiente para fazer aparecerem os rasgões... Imensos, caros e sólidos armários
metálicos agora servem de estantes à biblioteca, mas a maioria das prateleiras não contêm livros,
sem contar que alguns setores agora têm problemas de acondicionamento de coisas e pessoas por
conta do espaço ocupado pelos imensos armários. Instalações esportivas (ginásio, piscina, aparelhos
de musculação etc.) pouco ou nenhum impacto têm produzido no sentido de criar uma cultura
física, esportiva e desportiva no campus ou na região, sequer a participação em algum torneio
significativo que pudesse servir de alternativa para o já sofrido esporte local; na verdade, as
instalações parecem que servem quase que apenas para promover eventos intercampi, e assim
reproduzir, no nível das comunidades estaduais, o isolamento que temos em relação às comunidades
da região. Também há uma inegável ampliação do nível de informatização, com bons servidores de
rede, cabeamento, conexões e estações de trabalho bem razoáveis; mas o que se faz com toda essa
parafernália tecnológica é simplesmente ridículo, pois se notarmos bem todo esse aparato tem
servido apenas como uma grande máquina de armazenamento, um imenso backup de arquivos e um
vasto compartilhamento de conexão com a Internet. Como exemplo sintomático, recentemente uma
servidora ainda digitava para uma simples planilha os dados (nomes, endereços etc.) contidos em
todas as fichas de matrícula dos alunos, fichas que num contexto de uso decente deveriam ter sido
originalmente preenchidas já on-line e somente depois (se necessário) impressas, e não manuscrita
antes de passadas para meio digital. Os usuários do campus quase não têm intimidades maiores com
os recursos tecnológicos disponíveis, e o ambiente de utilização apresenta frequentes sintomas de
uso indevido, contraproducente e inseguro da rede, resistência (por má vontade ou ignorância)
frente às possibilidades do software livre, subutilização de pacotes de aplicativos de escritório,
parco conhecimento do funcionamento e manutenção dos equipamentos, quase nenhuma integração
entre os poucos aplicativos voltados para tarefas específicas, falta de incentivo a capacitação nos
mínimos recursos de informática necessários para sobreviver na selva de cabos e micros, nenhum
estímulo a que cada funcionário crie suas listas de demanda por produtos de automatização,
sobretudo software, existência de inúmeras tarefas árduas, monótonas ou meramente burocráticas
cuja informatização tem sido simplesmente ignorada, e muitos outros fatores. Posso afirmar que
com alguma inteligência bastaria a metade dos computadores existentes, cada um com a metade dos
recursos atualmente disponíveis, para fazer uma revolução nas atuais formas de trabalhar em voga,
DESDE que houvesse um esforço para racionalizar o uso dos equipamentos (esforço este que nunca
houve) e integrá-los mediante fluxogramas inteligentemente concebidos e implementados,
fazendo-se a ponte entre o virtual e o real; mas não se encontra em nenhum lugar do campus nem o
conhecimento nem a vontade de realizar tal integração. Destarte, o método comum de
enfrentamento de problemas no dia a dia da instituição tem sido o mero corre-corre para resolver
individualmente e, no máximo, setorialmente os problemas à medida em que vão surgindo, sem
qualquer planejamento que mereça esse nome, sem preocupação maior em tentar prever o que será
o campus no futuro e, portanto, sem a busca de alguma coerência entre o que se esperaria daquele
futuro e os recursos porventura disponíveis no presente. Pode-se até objetar que as obras e
realizações dispendiosas ao menos servirão no futuro; mas temos motivos de sobra para acreditar
que quando tal futuro vier grande parte disso já estará obsoleto e as vacas gordas federais que hoje
oferecem generosamente as tetas à instituição provavelmente já terão morrido.
A subutilização do parque informatizado e a parca racionalidade administrativa só não têm sido
escandalosas para a multidão dos que realmente não sabem das poderosas potencialidades desses
fatores na maximização do trabalho humano para fins coletivos. Mas a própria categoria dos
técnicos administrativos é em sua maior parte ignorante ou desinteressada de tais possibilidades, e
como as outras aceita, segue e reproduz padrões de exploração humana arcaicos, baseados na ideia
de que o trabalho mecânico, burocrático e medido pelo tempo seria a chave para o progresso de uma
coletividade ou de uma instituição, e não o trabalho racional, criativo e avaliado pela satisfação dos
anseios individuais e sociais. Daí a extrema resistência e má vontade com que o grupo gestor reagiu
à implantação das trinta horas semanais para os servidores técnico-administrativos (e às
flexibilizações docentes), só reduzindo a sua resistência por intensa pressão obstinada dos dos
servidores, sindicalmente apoiados, e pela iminência de eleições. A mentalidade vigente (do alto
escalão do Governo Federal ao substituto eventual do sub-carimbador adjunto da mais remota
repartição do país) é tosca o suficiente para não perceber que, num contexto de informatização e
racionalização dos serviços, as atividades que hoje são feitas em duas horas podem vir em sua
maioria a serem realizadas em vinte minutos. No campus Senhor do Bonfim, como, acredito, em
muitos outros campi e institutos, essa mentalidade retrógrada particulariza-se pela insistência em
confundir investimento com compra e substituição de máquinas, prédios ou equipamentos cujo
potencial de transformar as relações das pessoas com as coisas e, sobretudo, com as outras pessoas
permanece intocado. Assim, longe de termos no campus uma rede de pessoas vencendo as
distâncias pelo trabalho em comum, temos uma rede de computadores isolando ainda mais as
pessoas e servindo mais para armazenar o trabalho esparso do que para compartilhá-lo. Sintomático
a esse respeito é que, até dia desses (não sei se perdura), o Almoxarifado assinava fichas
manuscritas de encaminhamentos de produtos para os setores Cooperativa, Agroindústria e
Refeitório sem sequer ter acesso à contagem material, física dos mesmos, o que era (ou é) uma
prática no mínimo questionável. E também é sintomático que as informações que trabalhamos e
lançamos na rede não estão sendo integradas e otimizadas num banco de dados, mas ficam dispersas
pelas pastas de servidores de rede e sequer temos um administrador de banco de dados para suprir
isso, de modo que os programas e arquivos quase não se comunicam entre si e, caso se
comunicassem, provavelmente não se entenderiam da forma devida. Tudo aqui se passa como se a
simples presença das máquinas e da rede por si só fosse o essencial para a solução dos problemas,
como se não se precisasse de outra racionalidade que a embutida de fábrica no próprio
funcionamento de cada computador.
Os indivíduos e bens públicos do campus, em geral, agem não só de forma contraproducente, pouco
racional e muito dispersa, mas também sobre um fundo de silencioso mal-estar psicológico que
torna o clima pouco propício aos que nada têm a ganhar com as relações vigentes, e o assédio moral
não é nada estranho ao sistema, aumentando a pressão. Mas como, mal ou bem, a instituição tem de
funcionar, toda a fauna humana do campus é desestimulada a de alguma forma executar qualquer
coisa para além das tarefas mínimas necessárias, ocasião em que de alguma forma suspender-se-iam
momentaneamente os fins meramente individuais, mas isso é feito aqui de modo a jamais se
instituir uma verdadeira comunidade, mas mera aglomeração de individualidades. Dado o atraso da
cultura administrativa do Brasil, por demais autoritária e baseada em quem manda e quem obedece,
a maioria apenas cumpre ordens, e o faz muitas vezes por prudência, temor, conformismo,
conivência ou conveniência. Muitos técnicos e professores, sobretudo os mais jovens, na esperança
de migrar para campi localizados em regiões mais desenvolvidas, aguardam ansiosamente por
remoção, e sabemos o quanto isso pode ser “politicamente” utilizado. Mesmo os que, dentre estes,
têm tendência a questionar e insurgir-se contra o status quo podem vir a considerar mais prudente
continuarem calados se não quiserem retornar para o campus, caso não tenham conseguido a
suprema alforria de migrar definitivamente para outro ou, melhor ainda, para outra instituição. Por
trás de tudo isso, há os velhos argumentos ideológicos cínicos dos que no fundo reconhecem que as
coisas funcionam mal, mas acabam por sustentar o sistema pela insinuação de que qualquer grupo
que substituísse o atual sempre faria as mesmas coisas ruins (e não as boas), que seria arriscado
mexer em time que (para eles) estaria ganhando ou mesmo a adoção pura e simples do mais ridículo
e conformista ditado popular brasileiro, verdadeira oração dos covardes, o que diz que “manda
quem pode e obedece quem tem juízo” – três tipos de “argumentos” que não se fundamentam em
coisa alguma a não ser no medo de transformar as coisas, de abrir-se ao outro e de enfrentar a
autoridade. Ora, o grupo gestor está no poder há quase vinte anos e foi o primeiro implantado no
atual campus; então, como as pessoas sabem que ele trabalha melhor, se não houve grupos
anteriores com os quais compará-lo? Como se justifica que os ocupantes dos altos escalões são
sempre os mesmos, que apenas se revezam após cada eleição vencida pelo mesmo grupo, a não ser
por uma vontade enraizada de perpetuação? Como se sustenta que os integrantes desses altos
escalões jamais foram reconhecidos como especialmente competentes ou criativos? Alguns deles
visivelmente mal sabem ligar os computadores e localizar os documentos necessários a um bom
andamento dos seus setores, limitando-se a dar ordens para que outros o façam e apenas aguardando
a hora de assinar papéis. Aliás, parte-se do pressuposto implícito de que a atribuição das funções se
fundamentaria na simples necessidade de alguém assinar, e ninguém tem a coragem e boa vontade
de imaginar que seria possível um dia criarmos uma gestão em que a responsabilidade de cada setor
fosse coletivizada e que muitas funções ao menos poderiam ser ocupadas após votação entre os
pares, ao invés de se imporem de cima chefes com pouca experiência nos problemas de cada setor
ou mesmo pessoas antipatizadas pelos chefiados. A comunidade mal percebe, ou finge não perceber,
que a única atribuição de muitos dos “gestores” de facto é mandar, dar ordens, esperar obediência e
aguardar que a comunidade lhes agradeça nas eleições por terem tão bem fingido realizar coisas
que, segundo eles, ninguém mais teria realizado – como se qualquer um dotado de um mínimo de
recursos financeiros e humanos suficientes (o que não falta) não pudesse construir uma piscina ou
pavimentar uma pequena estrada. No mais, os que não concordam com eles são desestimulados de
realizar trabalhos criativos, e (o mais engraçado ou trágico) se não o fazem são acusados de
trabalharem de má vontade, como se se negasse aos escravos o direito de ao menos resmungarem
contra as pedras que são obrigados a arrastar ou os espinhos que os espetam no canavial.
Todos esses fatores negativos (não conto os que ainda não lembrei, mas terei outras oportunidades
antes de ir embora) estão miseravelmente inter-relacionados, e nada parece ser por acaso. Tudo se
encaixa no gigantesco mecanismo do mal funcionamento, que em termos administrativos é
sinônimo de não-funcionamento mesmo: longe de ser uma estrutura ao menos eficaz de ação
pedagógica, o campus tende a ser uma gigantesca máquina de desperdício do dinheiro público e
desvio de recursos materiais e humanos para os esgotos da história. Os integrantes do grupo gestor
são, individualmente, pessoas simpáticas e socialmente muito agradáveis, mas a maioria deles
sequer percebe que suas ações coletivas durante essas quase duas décadas pouco ou nada têm
realizado concretamente sequer para o melhoramento das relações humanas no campus, e sua
perpetuação por todos esses anos apenas se deve ao atiçamento dos conflitos entre os vários tipos de
professores, técnicos e alunos que um dia hão de transformar-se finalmente em verdadeira
comunidade. Dizem alguns que o sistema dura porque seria bom, mas não sabem que muita coisa na
vida não se desmancha facilmente apenas porque fossilizou-se.
Alguns pensam e propagam a ideia de que as pessoas deveriam harmonizar-se, confiar nos
resultados de eleições e trabalharem ativamente para o bem comum etc. Acontece, porém, que esse
pensamento é apenas conformista, não leva em conta a profundidade das divisões existentes e acaba
por beneficiar os beneficiados, que contam justamente com esse silêncio e somente precisam
aguardar os seis meses anteriores às próximas para fazerem alguma coisa visível. Acima de tudo, os
que pensam dessa forma parecem tomar os resultados das urnas como uma espécie de rito de
passagem que desse como sacramentada uma situação, meramente referendando (ou condenando)
uma situação anterior e expressando fielmente tanto a competência (ou incompetência) da gestão
julgada quanto a lucidez (ou alienação) dos que a julgam pelo voto, e começando novo ciclo. Essas
pessoas talvez não percebam que é sob a pressão dos votantes durante TODO esse ciclo que se
submete uma gestão a desafios e provas, mas é sobretudo no interior desse conflito que se
intensifica e aperfeiçoa justamente aquela pressão. Pode-se (deve-se) até manter o cavalheirismo e
cordialidade nas relações, mas o conflito em si está bem localizado e enraizado historicamente, e
sem ele não há verdadeiro questionamento – o qual pode (deve) ser exercido o tempo todo, em
qualquer situação, mesmo quando tudo parece bem, pois assim como não se pode confiar
demasiadamente na qualidade dos gestores (sejam de que lado forem) tampouco se pode acreditar
que as oposições a eles chegaram a um grau satisfatório de consciência e maturidade. Deixar o
grosso das discussões para as proximidades de cada época eleitoral é abandonar as transformações
aos jogos periódicos da manipulação retórica, da propaganda e do alarde excessivo por obras de
fachada, sem contar o clima de “futebolização” no qual se tem aparentemente tentado imergir os
alunos, sobretudo adolescentes, visível na insistência do grupo gestor, nas últimas eleições, em
agredir regulamentos eleitorais na tentativa de romper as proibições CORRETÍSSIMAS de uso de
adesivos em campanha eleitoral (coisa que só serve para desestimular as discussões sérias,
beneficiar as campanhas mais ricas e criar um clima de rivalidade entre torcidas e não entre ideias,
motivos pelo qual chamei a prática de “futebolização, lembro que adesivos são também formas de
os poderes saberem de forma clara quem realmente o apoia e quem são seus inimigos, e não é a toa
que o Nazismo impunha que os judeus usassem nas vestimentas símbolos de sua condição semita).
Os perigos políticos para os cidadãos do futuro são reais e envolvem desde a formação de
“apolíticos” (os que dizem “sim, senhor” sem abrir a boca) até a de seguidores cegos de um Führer
qualquer (os que dizem “Sim, senhor” e matam os que dizem “Não, não tenho senhor”).
Há novas ideias pedagógicas circulando pelo mundo, fora as que poderíamos estar a inventar e
implementar por aqui mesmo. Elas tendem a afirmar e reafirmar que todos nós (técnicos,
professores, alunos, terceirizados, gestores) somos partes ativas do processo de ensino,
aprendizagem e relacionamento humanos. Em outras palavras, somos todos pedagogos de nós
mesmos e dos outros. Mas sem a fé no poder de transformar o futuro, quem em verdade tem o
direito moral de autointitular-se “educador”?
Obrigado a todos pela atenção.
______________
Observação final: coloquei meu número do Siape ao lado do nome não para confrontar os poderes vigentes, mas para
distinguir-me de qualquer personagem fake desprezível e covarde. Como estudante autodidata de Filosofia, escrevo
abertamente o que penso, penso por consciência própria e assumo publicamente o que penso, e olhe que minha
condição no campus é uma das mais frágeis, sujeito a deslocamento de setor a qualquer momento. Posso ser tímido na
minha oralidade medíocre, mas aprendi que a pena pesa mais que a espada, pois se esta pode matar o corpo a primeira
deixa marcas mais duradouras no mais profundo da alma.