O Casarão da Serra

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O Casarão da Serra
LIMITES, REGIÕES E RIOS DO PARANÁ
O Estado do Paraná limita-se a leste com o Oceano
Atlântico; ao norte e nordeste com o Estado de São Paulo,
pelo rio Paranapanema, quase em toda sua extensão; a noroeste com o Estado de Mato Grosso do Sul e a oeste com
a República do Paraguai, pelo rio Paraná; ao sudoeste com
a República Argentina e ao sul com Santa Catarina.
O território paranaense situa-se no planalto Meridional sul-brasileiro.
As grandes regiões do relevo do Paraná são:
Litoral, distingue-se por duas áreas: a planície litorânea, que é uma estreita faixa de terras rebaixadas, próximas ao mar, e a zona montanhosa que é a área mais alta
marcada por morros e pelas encostas da Serra do Mar.
O primeiro planalto constitui-se do altiplano de Curitiba com 950 metros acima do nível do mar, limitado a
leste pela Serra do Mar e a oeste pela escarpa Devoniana.
O segundo planalto ou de Ponta Grossa, limita-se a
leste com a escarpa Devoniana e a oeste com a Serra da
Esperança ou Serra Geral.
O terceiro planalto ou de Guarapuava, localiza-se a
oeste da Serra da Esperança, apresentando-se como um
grande plano inclinado para o oeste, de topografia ondulada, cortado por vales e rios, ocupando dois terços do território paranaense. Na região da serra da Esperança, chega a
atingir 1.250 metros, enquanto no vale do rio Paraná possui
altitude de apenas 100 metros.
Todos os planaltos, exceto a faixa litorânea, têm um
declive para o oeste como degraus de um imenso anfiteatro
e possuem diferentes climas. No litoral o clima é tropical.
No primeiro, segundo e parte do terceiro planalto, o clima
é subtropical.
A Orografia paranaense divide-se em três sistemas:
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Marítimo, constituído pela Serra do Mar.
Central, constituído pela Serrinha, Serra de Paranapiacaba e Serra das Furnas. Serrinha prolonga-se ao norte
com a ramificação denominada de Serra de Paranapiacaba e
outra na direção da Serra de Apucarana. As diversas colinas
são ramificações da Serra da Esperança, ligadas a Serra de
Apucarana, dispostas em cordilheira de leste a oeste entre
os rios Ivai, Tibagi e Paranapanema. Os quatro degraus não
apresentam uma situação regular, mas formam cadeias de
montanhas, permeadas de rios.
Ocidental tem a Serra da Esperança como eixo do
conjunto de serras, espigões e morros que o constituem,
destacando-se o Cerro do Relógio, perto de Prudentópolis.
No Paraná, há dois tipos de bacias hidrográficas. Os
rios do litoral, de pequena extensão, correm do oeste para o
leste e deságuam no oceano Atlântico. Os rios dos planaltos
correm do leste para o oeste e a maioria deságua no rio Paraná. Os rios de planalto têm os seus trajetos marcados por
saltos, cachoeiras, quedas e corredeiras.
Os principais rios que banham o Estado do Paraná,
são: o rio Paraná, que percorre nesse Estado 400km, desde
a foz do Paranapanema até a foz do rio Iguaçu. Nesse trajeto, tem como afluentes, o Tietê, o Grande, Paranapanema,
Ivai, Piquiri, Iguaçu e o rio Pardo.
O rio Paraná é formado pela junção de duas majestosas correntes, o rio Grande que nasce na serra da Mantiqueira, e o rio Paranaíba, que desce da serra da Mata da
Corda, ambos em Minas Gerais. Divide Mato Grosso do
Sul do Estado de São Paulo e do Paraná, serve de divisa
entre Brasil e a República do Paraguai, e entre esta República e a da Argentina, onde recebe os rios Paraguai e Uruguai, separa o Uruguai da Argentina. Deságua no Oceano
Atlântico, com o nome de rio da Prata, sua extensão é de
aproximadamente 4.390 quilômetros.
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O rio Paranapanema nasce na Serra de Paranapiacaba, atravessa o Estado de São Paulo, separa este do Estado do Paraná e deságua no rio Paraná.Tem um curso de
950 quilômetros, recebe os afluentes Itararé, Cinzas, Tibagi,
Pirapó e outros rios menores.
O rio Ivai é formado pelo encontro dos rios São João e rio dos Patos, que nascem no município de Prudentópolis, seu percurso é de 685 quilômetros.
O rio Piquiri nasce na serra da Esperança e tem um
percurso de 485 quilômetros, seus afluentes principais são
o Cantu e o Goioerê.
O rio Tibagi nasce nos Campos Gerais, tem 550 quilômetros de extensão e deságua no rio Paranapanema.
O rio Iguaçu é o mais importante do Paraná. Formase da junção das águas de diversas nascentes que surgem na
encosta da Serra do Mar no município de Piraquara e ribeirões da região metropolitana de Curitiba; dos rios Piraquara, Irai, Palmital, Atuba, Barigüi e muitos outros no seu
longo percurso.
Corre do leste para o sul pelo planalto, em amplas
curvas sobre o leito de pedras, contorna outeiros, foge dos
morros, some nas grotas e surge em cachoeiras. Além das
altas margens, estendem-se os áridos e infindos campos,
cobertos por capim “barba de bode”.
Por muitos quilômetros o rio serpenteia espremido
entre rochedos, mas aos poucos as barrancas vão se modificando, vão se rebaixando por completo e começam a aparecer a mata e os extensos pântanos adiante, rio abaixo.
Ao receber as águas do rio Negro, toma o rumo do
oeste num voltear caprichoso. A região se modifica totalmente e surgem florestas de pinheiros, imbuías, cedros e
canela, entremeados de arbustos de erva-mate.
O rio Iguaçu cortava uma grande extensão do sertão,
por onde estava sendo construída a Estrada de Ferro São
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Paulo-Rio Grande. O Porto Amazonas é um porto fluvial e
ao mesmo tempo estação da Estrada de Ferro, que se encontra a meio caminho entre Curitiba e Ponta Grossa.
De Porto União em diante a navegação é prejudicada pelas muitas quedas, saltos e corredeiras que existem ao
longo do rio. Em 1882, foi lançado às águas o vapor “Cruzeiro”, o primeiro a navegar no rio Iguaçu. Desenvolveu-se
ali uma navegação regular pelo leito do rio, desde Porto
Amazonas até Porto União.
O Iguaçu aumenta as águas após receber o rio Negro
na altura do Porto Pereira. Em União da Vitória atinge 300
metros de largura. Adiante para o sudoeste existem diversas
quedas, que constituem hoje as represas de Foz do Areia,
Salto Segredo, Salto Santiago, Salto Osório, Salto Caxias.
Seus afluentes da margem direita são: o rio Vargem, Turvo,
Putinga, Claro, Prata, Jordão, Cavernoso. Na margem esquerda são o rio Negro, o Chopim e outros rios menores.
Antes de engrossar as águas do rio Paraná, o Iguaçu
forma as “Cataratas do Iguaçu” com 62 metros de altura.
Rolam às volumosas águas do rio, num precipício com uma
faixa de 4km de extensão. É uma das mais belas cataratas
do mundo. O Iguaçu tem um curso de 1.320 quilômetros.
As Cataratas do Iguaçu, o maior referencial turístico de Foz do Iguaçu, foram descobertas e registradas por
Dom Alvãr Nuñez Cabeza de Vaca, governador do Paraguai, no ano 1542, que denominou as majestosas quedas
d´água Salto de Santa Maria. Nessa época o território paranaense pertencia à Espanha.
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FLORESTAS DO SUL DO PARANÁ
As magníficas florestas da Província do Paraná, que
existiam no final do século XIX, eram povoadas de pinheiros (araucária), imbuías, cedros, canelas, gameleiras
(figueiras bravas), ipês, marfim, cabriúva, canjerana, canafístula e pelos mais variados espécimes da rica flora subtropical, nos vastos e cerrados matagais das planícies e dos
vales dos rios Negro, Iguaçu, Piquiri, Ivaí e Paraná.
O clima temperado favoreceu a formação de florestas de araucárias que se encontravam na parte oeste da Serra do Mar, espalhando-se pelo primeiro e segundo planalto,
centro e sul do terceiro planalto, nas altitudes de 500 metros
e de clima frio. Além de araucárias, distinguia-se nessas
matas a presença de erva-mate, cuja extração foi de grande
importância para a economia da região.
O pinheiro é nativo do Paraná, pertence à espécie
Araucaria angustifolia. Ele tem o porte majestoso; de tronco reto e delgado. Atinge no tronco de um a dois metros e
meio de diâmetro e pode atingir até trinta metros de altura
sem ramificações, só a partir daí é que os ramos aparecem.
No topo da árvore há um grupo de ramos cada um com folhas duras nas pontas em forma de escamas pontiagudas.
Os ramos mais baixos são maiores, reduzindo o tamanho em direção ao ápice. O conjunto assume o aspecto
de um grande guarda-sol. Seus frutos chamados de “pinhões”, guardados em grandes pinhas, parecem com castanhas alongadas; quando maduros, caem no chão e são alimento de animais silvestres. O fruto assado ou cozido é
excelente alimento. Os indígenas e caboclos alimentavamse dele normalmente.
As matas de araucária são, em geral, mais abertas e
por isso menos úmidas, pois mais iluminadas e ventiladas
quando em bosques nos campos, no entanto, algumas são
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bastante úmidas quando compõem as florestas fechadas. Há
pinheiros esparsos, cujas copas se colocam bem acima da
floresta; mas a grande maioria das árvores, que são aproximadamente da mesma altura, forma um dossel contínuo e
bastante uniforme.
Em baixo, no chão úmido, vicejam urtigas de folhas
enormes, tenras, cobertas de pêlos, cuja base tem um líquido irritante, que penetra na pele pelo mero contato das pontas e provoca dor picante. Concorrem palmitos-juçara (Euterpes edulis) e palmáceas diversas, caraguatás, pacovas,
orquídeas e bromélias. Grupos de fetos arborescentes e aráceas epifíticas e um grande número de espécies e indivíduos, que se aglomeram num pequeno espaço limitado na
mata, determinam um pronunciado agravamento da luta
pelas principais condições de sobrevivência.
A luz torna-se escassa para cada um individualmente. Além disso, inúmeros arbustos e cipós junto com raízes
adventícias de suporte, com ramos e troncos caídos tornam
difícil a penetração nessa mata. No seu interior ocorre um
emaranhado de vegetais herbáceos, arbustos e árvores jovens. Plantas que trepam fixando-se por meio de raízes,
lianas com caules retorcidos são freqüentes; vários tipos de
bambus existiam na mata primitiva do sul do Brasil, destes
brotam rebentos longos de até 10 metros de comprimento.
Os mais diversos epífitos, barba-de-velho e musgos
pendem dos galhos retorcidos e troncos seculares. Crescem
entre as pedras, na grande camada pedregosa, solidamente
aprisionadas pelas raízes, penetrando fundo lateralmente,
em cada torrão de solo, sugando cada gota de umidade,
samambaias diversas, balançando as folhas de múltiplos
formatos, por todo correr dos tempos, por entre a névoa dos
pântanos e rios do sul do Paraná.
Em setembro, havia nessas terras do sul uma explosão de primavera. Todo o campo florescia, das trepadeiras
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do chão às copas das árvores. É a época dos bandos de periquitos, araras, maritacas, uma infinidade de pássaros de
todas as espécies e cores, que rodopiavam no ar aos bandos.
Chamam a atenção, especialmente, inúmeras belas
orquídeas e as flores de colorido vivo das bignoniáceas e
marias-sem-vergonhas, na beira das trilhas, que atraem milhares de borboletas multicoloridas. Colibris minúsculos,
graciosos, voando em volta dos cálices abertos das flores, a
extrair o néctar com os bicos compridos.
Aqui ou acolá havia árvores solitárias, cujos galhos
ressequidos apontavam para o céu; somente as copas conservavam-se verdes. Estendidos de todo lado, ramos iguais
a mãos peludas, cheias de musgos, pareciam vigilantes a
espreitar. Noutro lugar havia troncos deitados das árvores
arrancadas pela ventania, criando enormes crateras no solo.
Quem conheceu o sertão do Sul do Paraná, do final
do século XIX, como os imigrantes poloneses que aqui
chegaram em 1889-1891, que viram um sertão inóspito,
inacessível, mesmo para a luz do sol; de matas cerradas,
intransponíveis, não permitindo dar um passo a dentro por
densos taquarais, juncos espinhosos, lianas, urtigas; quem
admirou essas belíssimas e gigantescas árvores e, mesmo
assim, com dor no coração, precisou derrubar essa floresta.
Quem não participou dessa odisséia, não pode avaliar quanto trabalho, quanta obstinação e sacrifício de si
mesmo, quanta têmpera da alma precisava ter o imigrante
desbravador, para que esse sertão fosse conquistado e dessa
selva surgissem campos produtivos.
Durante as derrubadas das matas, os mais insistentes
inimigos dos imigrantes, que mais perturbavam, eram os
mosquitinhos-pólvora, pernilongos, borrachudos, micuins e
carrapatos. Esses insetos apareciam em verdadeiros enxames e atacavam sem piedade. Alguns eram hospedeiros e
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transmissores de leishmaniose, malária, febre amarela, dengue e outras doenças endêmicas.
Existe também uma espécie de formiga, a saúva,
que é cortadeira e carregadeira, devasta as plantações de
cereais, verduras, flores e parreirais. Ocasiona grandes prejuízos aos colonos. É uma praga agrícola.
Prolifera também, nos campos e na mata, um tipo de
formiga pequenina, de cor marrom, a “formiga-correição”.
Faz grandes migrações, em que milhões delas percorrem
vastas extensões de território por alguns dias. Quando seu
exército organizado em filas invade uma moradia, a melhor
coisa a fazer é abandoná-la por algumas horas.
Essas formigas são benéficas, eliminam todos os insetos, baratas, percevejos, pulgas, mosquitos. Não causam
nenhum dano na sua passagem. A única coisa desagradável
e quando realizam essa marcha de noite, pois avançam sobre o leito, paredes, mesas, louça, alimento, telhado. Parecem um dilúvio de seres em marcha.
Em baixo das folhas e dos galhos podres, na floresta, escondem-se as cobras venenosas, como a cascavel,
urutu, coral e aranhas. O sertão era também habitado por
macacos, tamanduás, preguiças, tatus, pacas, capivaras,
graxains, antas, onças, veados, queixadas, raposas.
Nas copas das árvores e pelo chão, abrigavam-se as
aves; papagaios, araras, jacus, nambus, sabiás, gralhas, periquitos barulhentos, tucanos, gaviões, andorinhas e uma
imensidão de insetos que vivem dentro da mata. Nas grutas
escondiam-se legiões de morcegos. Nos ocos de árvores
caídas havia enxames de abelhas e vespas.
Durante o dia, as florestas desta região são silenciosas. Os animais escondem-se entre raízes e ramos no chão,
ou próximo a ele. Os mamíferos parecem raros, mas isso é
devido ao fato de serem noturnas quase todas as espécies.
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Mas, quando chega a noite, a mata acorda e começa
um contínuo coro de cigarras, grilos, sapos, gritos de macacos e piar das corujas. Vez ou outra ouve-se o rugido da
onça pintada à procura de caça. Passa correndo, grunhindo,
uma vara de queixadas, rumo ao córrego. Um veado, desconfiado, arrisco, espreita pelo meio dos arbustos. Cobras
venenosas, sucuris, jibóias, cobras d‟água deslizam por
entre os galhos ou arrastam-se pelo chão à procura de roedores, sapos ou filhotes de passarinho.
A floresta vive, respira, luta e agita-se no afã da
conservação da vida. O espírito da mata murmura com o
vento fresco, balançando as folhas e galhos. Namora, brinca com os raios do luar que se infiltram pelo meio dos ramos e vai pousar no tapete de grama luxuriante.
Da encosta do morro desliza um fio d‟água, que se
dirige para o sul. Uma nascente de água límpida desce saltitando de cascata em cascata, esconde-se entre as pedras,
surge, corre em ziguezague, enroscando-se como uma serpente, desenha sua trilha; adiante junta-se a um córrego
maior, engrossando com os mananciais que recebe no seu
curso e forma o rio Taquaral que deságua no rio Iguaçu.
A vegetação luxuriante dessas paragens ostenta todo
o seu encanto. Florestas virgens se estendem ao longo das
margens do rio, que corre no meio das galerias de folhagens
e dos capitéis formados pelos leques dos buritis. Plantas
aquáticas debruçam-se em volta, espelhando-se nas águas
cristalinas.
De mansinho aparece a cabeça do tatu que veio beber água. Vez ou outra surgem manadas de antas, capivaras e bandos de macucos, mutuns-açus, saracuras e os mais
variados habitantes desta imensa reserva verde para saciar
a sede, nas águas límpidas do Iguaçu.
Miríades de borboletas amarelas e azuis levantam
vôo da margem barrenta, onde nesse momento o veado
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galheiro inclinava-se para matar a sede, ao seu lado uma
onça de pele luzidia, malhada em preto e ouro, bebericava
tranqüila. O grande felino bebia ronronando mansinho, satisfeito com o repasto que caçara momentos antes. Seu ventre proeminente denunciava a prenhez avançada.
Reinava a paz na natureza.
A tarde ia caindo. O sol declinava no horizonte e
debruçava-se sobre as grandes florestas de araucárias. A luz
frouxa e suave do ocaso deslizava pelo verde tapete de folhagens. Os buritis (Maurítia vínifera), palmeira altaneira,
dotada de folhas em forma de leque, butiás (Copernicia
australis), jarivás e as mais variadas palmáceas, abriam as
folhas mais novas, para receber no seu cálice o orvalho da
noite. Animais procuravam a sua toca, enquanto os pássaros
se empoleiravam nos galhos, entre as folhagens.
A floresta despedia-se do dia. Um concerto de sons
saudava o pôr-do-sol; juntava-se ao coro o murmúrio da
cascata, que caia do alto das pedras. Como é profundo e
solene, no coração das matas brasileiras, o momento místico do crepúsculo, em que a natureza toda dobra-se aos pés
do Criador, a sussurrar a oração da noite...
O vento suave, roçando as folhas, traz um débil
murmúrio, que parece o último eco dos rumores do dia e o
derradeiro suspiro da tarde que morre. Tudo respira uma
poesia solene que enche a alma. Por fim, o sol esconde-se.
O horizonte tinge-se de raios rubros e dourados que vão se
desvanecendo devagarinho.
Cai a noite.
O que mais espantava os emigrantes eram os enxames de vagalumes, gênero de insetos coleópteros (Pyrophorus spp.) que voavam da floresta ao anoitecer; piscavam
com luz fosforescente verde-azulada, que emitiam de órgãos luminosos situados de cada lado do tórax, com aspecto
de olhos, e cujo brilho se avistava de grande distância. Era
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um espetáculo maravilhoso, parecia que miríades de estrelas estavam caindo do céu. Eram as fêmeas dos insetos emitindo sinais para atrair os machos.
No meio da campina, um gigantesco pinheiro crescia sozinho, firme, sobranceiro, era o rei da planície. Os
seus galhos enormes não tremiam de medo do vento e o
tronco não se dobrava. A copa igual coroa, alçava-se acima
de toda floresta, olhava soberano para as grandes baixadas,
para os picos das montanhas e vales.
Pinheiro secular, lembrava ainda, quando na primavera da sua mocidade, havia ali uma floresta maciça de araucárias, nas planícies e baixadas, na região de São Mateus, Água Branca, Água Clara, Rio Baio, Cruz Machado,
União da Vitória, desde rio Negro até Foz do Iguaçu, por
todo sul e sudoeste do Paraná.
Desapareceram todas as matas, durante sua vida, pelo machado do colono ou do madeireiro nas serrarias. Secaram os terrenos úmidos, barrentos, os brejos intransponíveis onde cresciam os samambaiaçus (xaxim) e capinzais
sem fim.
Tudo isto sumiu em nome do progresso, sob devastação sem regras. Agora só o vento sibila por entre os galhos secos. As derrubadas entraram floresta a dentro, como
lagartas vorazes a corroer a cobertura da mata e, ano após
ano, subiram mais alto, até as encostas das montanhas cobertas de pedras e só ali pararam.
Às árvores cortadas depois de secas era ateado fogo, que consumia não só a madeira, mas também o húmus
fertilizante que cobre a terra vermelha; ficaram somente as
pedras expostas ao sol. Só as samambaias do campo, que
brotam rápido, conseguem cobrir a sua nudez e as feridas.
Cada vez menos, a onça pintada esfrega o seu dorso
soberbo, no tronco enorme do velho pinheiro. Cada vez
mais raro, vem sonhar na sombra dos seus galhos o veado
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matreiro. Também sumiram, a porca-queixada com a fileira
de leitões da última ninhada, grunhindo atrás dela, que
vinham se alimentar dos pinhões nutritivos.
Nem a gralha azul, que plantava as sementes do pinheiro, e é símbolo do Paraná, não se vê entre seus galhos,
e só de tempos em tempos vem olhar de cima, com horror,
o seu domínio devastado.
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O pinheiro é um componente importante, já por seu
valor econômico, já por sua fisionomia característica. A
madeira de pinho é excelente para construção, e a sua extensiva exploração ocasionou a devastação das imensas
reservas existentes no Paraná, até o meado do século XX.
Atualmente, os campos e vales dos três planaltos paranaenses, até nas encostas da Serra do Mar, da Ribeira e
às margens fronteiriças dos rios Paranapanema, Paraná e
Iguaçu, através da Serra da Esperança, aparecem grandes
extensões de terra cultivados com milho, feijão, soja e outros cereais, cafezais, ou pastagens para o gado.
Todo espaço onde vicejavam florestas luxuriantes
que foram sacrificadas, foi remanejado, para melhor aproveitar a terra. Restaram algumas áreas de capoeiras com
arbustos e pinheiros novos, tigüeras, ou extensos campos
devastados, de terra estéril, pobre, coberta inteiramente por
samambaias.
Da mesma maneira feroz que se substituíram os povos autóctones por portugueses-brasileiros e imigrantes dos
mais diversos países, em nome do progresso, foram destruídas as ricas florestas de araucária, no Sul, e as densas matas onde vicejavam as árvores centenárias de peroba-rosa e
cedro na fértil terra-roxa do Norte do Paraná.
CAMINHOS - DO PEABIRU, GRACIOSA E VIAMÃO
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O Caminho do Peabiru era utilizado pelos Incas peruanos e pelos índios brasileiros. Era uma estrada feita de
pedra, pré-colombiana. Começava no litoral paulista, em
São Vicente na costa Atlântica, atravessava o território paranaense no sentido leste-oeste, atingindo o rio Paraná na
Redução do Guayrá, passava por Paraguai, Bolívia, dali até
os contrafortes andinos, rumo à costa do Pacífico, no Peru.
Da rota principal, havia ramificações tanto para o
norte quanto para o sul do país.
O atual território dos municípios paranaenses de
Campo Mourão e Peabiru foi amplamente percorrido a partir da segunda metade do século XVI, por expedições ibéricas, que objetivavam atingir Assunção no Paraguai, por
via terrestre, vindos do litoral brasileiro e utilizando-se deste milenar caminho indígena.
Antes da chegada do primeiro homem branco, o Paraná estava longe de ser área despovoada. Aqui era o império das nações indígenas, de grande e variado número de
tribos, espalhados pelos campos e sertões paranaenses.
O início do povoamento da Província do Paraná, pelo europeu, se deu no litoral de Paranaguá em 1549. Mas
há milênios, neste litoral, habitou o “Homem do Sambaqui”, que pertencia a uma raça já extinta. Mais tarde foi
ocupado pelos índios Carijó, da grande nação TupiGuarani, também extintos, que dominavam o território que
ia do Superagüi até Laguna em Santa Catarina.
Os bandeirantes, vindos do litoral paulista em busca de ouro e de índios Carijó, estabeleceram-se inicialmente
na orla da baía, mais tarde fixaram-se no continente, de lá
subindo para povoar os planaltos paranaenses, neles fundando núcleos populacionais, vilas e cidades como Curitiba, Ponta Grossa, Palmeira e muitas outras.
Diogo de Unhate, participante de uma bandeira de
preadores de índios, requereu, em 1614, e obteve uma ses13
maria de terras, do governo português, onde se instalou. Foi
o primeiro proprietário em território paranaense.
Em 1617, foi fundada uma povoação na ilha da
Cotinga por Gabriel de Lara, componente de uma bandeira
de faiscadores de ouro. Em 1640, Gabriel de Lara chegou a
Paranaguá, e, a 29 de junho de 1648, foi nomeado, pelo
Governador do Rio de Janeiro, capitão Fundador e Povoador de Paranaguá. Fez erguer o Pelourinho, símbolo máximo da justiça e poder lusitano.
Em 1660, Paranaguá foi transformada em Capitania
e Gabriel de Lara, procurador e representante do Marquês
de Cascais, nomeado como governador. A Ouvidoria de
Paranaguá abrangia todo o sul do Brasil até o Rio da Prata
até 1832, quando as ouvidorias foram extintas.
Em 5 de dezembro de 1765, o governador da Capitania de São Paulo determinou a formação de uma povoação na enseada de Guaratuba, pois os espanhóis rondavam a
costa brasileira e, ante a tentativa de ocupação, houve por
bem precaver-se na costa meridional.
A vila de São Luís de Guaratuba foi fundada em 24
de abril de 1771, erigiu-se aí o pelourinho com a presença
do Tenente Coronel Afonso Botelho Sampaio e Souza. É
um dos mais antigos municípios do Estado, seus primeiros
moradores se estabeleceram por aqui em 1656, por conta
do capitão-mor Gabriel de Lara.
No ano de 1726, colonos açorianos se estabeleceram
na ilha de Santa Catarina, dando início à vila de Nossa Senhora do Desterro, hoje Florianópolis.
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O atual território paranaense foi ocupado pelos portugueses, em meados do século XVII. O ouro encontrado
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nos riachos do litoral e na região de Curitiba foi que incentivou a colonização. Formaram-se diversos núcleos de garimpeiros, morando em palhoças de pau-a-pique cobertas
de folhas de palmeira.
Essa população esparsa de faiscadores, vindos do litoral de Cananéia, Iguape, Santos ou Paranaguá, embrenhava-se pelos sertões vasculhando o cascalho dos riachos e
dos leitos dos rios à procura de pequenas pepitas de ouro.
Alguns fixaram-se nas campinas de Curitiba, fundando pequena povoação de nome Vilinha, mais tarde Curitiba.
Com o passar do tempo, várias outras famílias juntaram-se a este incipiente núcleo de população. Construiu-se
uma capela sob a invocação de Nossa Senhora da Luz dos
Pinhais, e logo havia diversas casas em torno da capela tosca. Em 4 de novembro de 1668, solicitaram a Gabriel de
Lara, capitão-mor de Paranaguá, a elevação do Pelourinho,
símbolo de posse por El-Rei D. Afonso VI.
Gabriel de Lara indicou como seu representante no
núcleo Vilinha, o cidadão Mateus Leme, a quem outorgou o
título de Capitão Povoador. O povoado de Nossa Senhora
da Luz dos Pinhais de Curitiba foi elevada à categoria de
vila, no dia 29 de março de 1693, trinta anos depois da chegada dos primeiros povoadores.
A população da vila recém-instalada vivia em sítios
próximos ao núcleo central, suas casas eram construídas de
pau-a-pique preenchido com barro. Não tinham assoalho,
sendo o chão de terra batida. Plantavam e criavam quase
somente aquilo de que necessitavam para seu consumo.
O pouco que sobrava, arroz, feijão, milho, ervamate e carne seca, era transportado pelos escravos, que iam
a pé ao litoral, e ali era trocado por sal, farinha, algodão e
ferragens.
Curitiba era o ponto de trânsito entre Campos Gerais
e o litoral. O transporte de cargas era feito no lombo de
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mulas. Só mais tarde essa modalidade de remessa de mercadoria passou a ser feita em carros de boi. E só foi possível com a abertura do Caminho da Graciosa.
O caminho da Graciosa fora antigamente uma picada pela qual os índios localizados no planalto, desciam ao
litoral paranaense. Posteriormente os faiscadores de ouro,
do litoral de Paranaguá, alargaram a trilha fechada pela vegetação ao subirem pela Escarpa do Mar, em direção ao
planalto.
Em 1721, o famoso tropeiro Manoel Teixeira de
Carvalho determinou o seu melhoramento e fez por ela a
primeira travessia de muares para o litoral. A abertura definitiva foi ordenada pelo Governador da Capitania de São
Paulo, Antônio Franca e Horta, em 1808.
Na nova Província do Paraná, é investido no cargo
como 1° presidente o Conselheiro Zacarias de Góes e Vasconcelos. Depois de sua posse no cargo, ordenou aos engenheiros para que procedessem a uma análise das estradas
que desciam para o litoral, que oferecessem condições de
trânsito aos carros de boi. Após detalhados estudos, foi
decidido que seria utilizado o antigo caminho da Graciosa,
para a construção da nova estrada. A obra só foi concluída
em 1873, isto é, 20 anos depois.
Os caminhos do litoral e dos Campos Gerais eram
percorridos diariamente por cavaleiros de malas nos tentos
e por comitivas de tropeiros. A eles se devem as trilhas feitas pelos divisores de águas, as descobertas de vaus nos rios
que depois foram aproveitadas para locação das estradas.
Esses tropeiros de então desempenhavam por conta
própria o trabalho do correio, num tempo em que o mesmo
era praticamente inexistente no interior dos sertões; era o
homem que trazia as notícias dos últimos acontecimentos
aos vilarejos por onde passava; era também o portador de
bilhetes, recados, encomendas e o intermediário de muitos
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negócios. Serviam como elemento de ligação entre os núcleos, povoados, vilas e freguesias, no transporte de mercadorias, de uma região para outra, onde fosse necessária, e
fosse viável comercializá-la.
Inclusive, eram os tropeiros que se encarregavam de
transportar e comercializar o sal adquirido no litoral, para o
consumo da população, que era difícil e caro, pois o transporte era precário e a mercadoria deteriorável com o tempo
úmido, nas demoradas marchas do litoral para os centros
consumidores. As tropas que o traziam, as mais ligeiras,
gastavam dois meses do litoral até as terras centrais.
Os animais silvestres e a alimária viviam do cloreto de sódio da terra, o sal-gema. Sendo o sal necessário à
vida, os animais cavavam o solo salobro com as patas e
lambiam a terra à procura do sal.
O tropeiro foi um personagem típico daquela época.
Em geral ele adotava um traje específico. Vestia roupas de
couro curtido, botas de cano longo e chapéu de palha. Trazia um facão comprido e largo, com bainha de couro na
cinta, uma espingarda a tiracolo e pistolas no coldre.
Levava mais, preso à sela e suspenso nas ancas do
animal, o largo machado que lhes servia no caso de necessidade, para abrir a picada na mata virgem, ou improvisar
uma ponte sobre o rio cheio; utensílio indispensável ao viajante naquele tempo, que muitas vezes era obrigado a utilizá-lo como arma de defesa.
Adiante da tropa, e bem distante desta, ia o dono e a
cavalgada dos viajantes que o acompanhava. Na frente da
longa fila de cargueiros tocados por peões, a passo lento e
monótono, ia a égua madrinha com um cincerro ao pescoço,
e atrás dela caminhava a tropa de mulas, enfileirada, seguindo pelos caminhos por onde só podiam transitar tropas.
Em 10 de outubro de 1730, a Coroa portuguesa autorizava a abertura da estrada do Viamão, ligando os cam17
pos do Rio Grande do Sul com Sorocaba e a cidade de São
Paulo, através dos Campos Gerais paranaenses. Iniciam-se
as obras da construção aproveitando os antigos caminhos,
que transitavam por picadas já existentes há muito tempo,
mas precários e perigosos em conseqüência dos atoleiros
na mata fechada, e pela presença de índios hostis.
O caminho que vinha do Viamão não tinha pontes,
nem aterros, as tropas passavam no vau dos rios ou a nado.
Era largo nos campos e estreito nas florestas. Os animais de
carga, com fardos pesados, tinham que atravessar por desfiladeiros estreitos e ravinas de pedra, pulavam obstáculos, e
muitas vezes encalhavam nos pântanos.
Condições assim difíceis no comércio de gado perduraram por muito tempo. Foi encarregado da abertura do
Caminho do Viamão, o sargento-mor Francisco de Souza e
Faria. Já em 1731, desce de São Paulo a primeira tropa, que
retornará meses depois trazendo cerca de duas mil cabeças
de mulas, muitas carregadas de charque e fumo, tangidas
por uma centena de tropeiros.
Foi de grande importância a ligação entre as regiões
sul do Brasil e São Paulo, o Caminho do Viamão, era a única alternativa para os tropeiros que conduziam gado bovino, cavalos e mulas dos pampas gaúchos, uruguaios e argentinos, para a feira de Sorocaba em São Paulo, grande
centro abastecedor de carne bovina e de animais de carga.
Levavam, também, bruacas cheias de charque, fumo e couros para o consumo dos povoados de Minas Gerais e para
o Nordeste açucareiro.
No caminho que ligava o Paraná ao Rio Grande do
Sul, o trecho mais perigoso era entre o Registro de Rio Negro e Curitibanos em Santa Catarina. A estrada atravessava
a região que era habitada pelos índios Xokleng, ou Botocudos. Estes indígenas freqüentemente atacavam as populações do litoral e as tropas que se dirigiam ao sul.
18
Era a mais antiga estrada de tropas do sul. Ligada
por diversos caminhos aos campos rio-grandenses e platinos, a estrada partia de Viamão, subia pela região serrana
de Vacaria, atravessava o planalto catarinense por Lages e
Curitibanos até o Registro de Rio Negro. Passando por
Lapa, por Campo Largo, subia a serra de São Luís do Purunã, alcançava Palmeira, Ponta Grossa, até Castro.
Outra estrada de tropas vinha da região missioneira
do Rio Grande do Sul, ligada à de Corrientes, na Argentina,
atravessava o atual planalto catarinense em Chapecó, cortava o Campo Erê, atingia Palmas, donde seguia para o norte
atravessando o Rio Iguaçu. Seguindo pelo vale do rio Jordão, chegava à Guarapuava e, daí em frente por Imbituva,
alcançava Ponta Grossa e Castro onde se entrosava com a
estrada principal, a do Viamão.
Os tropeiros atravessavam a caravana de muares no
vau do rio Iapó em Castro,. de onde, continuando para o
norte e passando pelo rio Itararé, por Itapeva, Piratininga
chegavam à feira de Sorocaba, daí seguiam à São Paulo,
Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Os viajantes da vila de Curitiba, de Viamão e de Sorocaba, que transitavam pelo Caminho das Tropas, durante
as enchentes do rio Iapó, em Castro, eram obrigados a pousar em sua margem. A “Paragem do Iapó” em Castro transformou-se em ponto de pouso estratégico para os tropeiros,
pelo fato de ser entroncamento da Estrada de Viamão.
O povoado que se formou à margem do rio transformou-se em freguesia em 1774, com o nome de Sant´Ana
do Iapó. Erigida em vila com o nome de Vila Nova de Castro em 24 de janeiro de 1789, por Francisco Leandro de
Toledo Rondon, Ouvidor Geral e Corregedor da Comarca
de Paranaguá, por ordem da rainha D. Maria I (a Louca) de
Portugal. Desmembrada da vila de Curitiba, a vila recém-
19
criada tinha um território vastíssimo, abrangendo todo o
interior do Paraná e do atual Estado de Santa Catarina.
A vila de Curitiba era centro comercial de uma zona
criadora, não menos importante que estes, embora ainda um
núcleo pequeno, jamais viu diminuir seu predomínio no
primeiro e segundo planaltos. Primeiro centro administrativo criado acima da Serra do Mar, ela foi, naquele tempo,
um ponto de difusão de povoadores.
A colonização dos Campos Gerais de Curitiba teve
impulso no início do século XVIII. Até 1704, as expedições
dos bandeirantes paulistas tinham por objetivo a descoberta
de minas de ouro, a preação dos índios e posse da terra.
Os colonos portugueses com seus escravos africanos
ocuparam os Campos Gerais de Ponta Grossa, Castro, Palmeira e Lapa, os Campos de Guarapuava e de Palmas,
campos esses de pastos nativos próprios para criação de
gado, que era comercializado em São Paulo e Minas Gerais.
São chamados de Campos Gerais, os extensos faxinais de uma estreita e alongada faixa de terras no segundo
planalto paranaense, formada de campos de pastagem,
entremeados de pequenos bosques de matas e pinheiros,
apropriados à exploração pastoril, como a criação de gado,
que se estende de Jaguariaíva até a margem direita do Rio
Negro, passando por Lapa.
Eram habitados por povos indígenas da nação Kaingang, chamados de “Coroados”.
O planalto adquiria, nessa época, a supremacia econômica e social sobre o litoral. Em 1812 a sede da Comarca
foi transferida de Paranaguá para Curitiba. Embora esta se
tenha mantido, até a criação da Província do Paraná, em 20
de agosto de 1853, pela lei Imperial n.° 704.
O Paraná foi desmembrado do território de São
Paulo, fazia parte da 5ª Comarca de São Paulo. A instalação
da nova Província se deu em 19 de dezembro de 1853.
20
A vila de Curitiba foi elevada à categoria de cidade
e capital da nova Província em 26 de julho de 1854. Havia
a antiga vila de Paranaguá e mais sete vilarejos, Guaratuba,
Antonina, Morretes, São José dos Pinhais, Lapa, Castro,
Guarapuava e as freguesias, de Campo Largo, Palmeira,
Ponta Grossa, Jaguariaíva, Tibagi e Rio Negro.
Ao chegar em Curitiba os tropeiros invernavam o
gado por alguns meses nos Campos Gerais, para recuperarem-se da longa jornada, sendo mais tarde vendido na grande feira anual de Sorocaba, para onde afluíam fazendeiros
paulistas, fluminenses e mineiros.
Com a instalação das primeiras pousadas para os
tropeiros e currais para recolher o gado em trânsito, e as
diversas atividades ligadas à pecuária e ao tropeirismo, foram criadas às margens do histórico Caminho do Viamão
inúmeras cidades, povoados, vilas e núcleos agropastoris,
dos quais muitos conservam a denominação dada pelos
antigos tropeiros. Os próprios tropeiros que por ali circulavam procuraram estabelecer nesse local as suas fazendas,
comprovando, assim, a boa qualidade do pasto para a criação e engorda do gado.
Os lucros com a fazendas de invernada e com a
criação de gado impeliram fazendeiros, portugueses de origem, a requererem grandes áreas de terras da Coroa e ocupar os Campos Gerais. Formaram-se imensos latifúndios
constituídos por famílias importantes de paulistas, de grande poder político e riqueza.
De 1710 em diante, as sesmarias iam sendo requeridas em número cada vez maior e os “currais” foram se
formando ao longo do caminho das tropas. As concessões
de terra beneficiavam pessoas chegadas ao poder político.
Os antigos sesmeiros e seus descendentes viriam a
formar a influente aristocracia campeira, da qual saiam os
homens destinados aos postos elevados das classes arma21
das, do clero e do governo. As sesmarias constituíam um
sistema de apropriação da terra correspondente à aplicação
no Brasil do Código Português de 1375.
As Cartas de Sesmaria eram doadas a quem tinha influência junto ao governo. Para se obter uma propriedade
nos Campos Gerais, alegava-se posse, requeria-se a El-Rey
a concessão da sesmaria. As propriedades concedidas possuíam entre 4 a 8 mil alqueires paulistas.
Para se fazer a posse, o interessado escolhia uma paragem, fazia um rancho e soltava algumas cabeças de gado.
Deixava um capataz tomando conta, e algum tempo mais
tarde requeria-se a posse.
Interessada em ampliar o domínio do território da
Colônia, a Coroa portuguesa concedia e demarcava grandes
áreas de terras aos requerentes de sesmarias, sob a exigência e obrigação de cultivar e povoar a terra. A sesmaria requerida tinha que estar localizada em áreas devolutas.
(Sesmaria - lote de terra inculta, devoluta, que os
reis de Portugal cediam a sesmeiros que se dispusessem a
cultivá-la. A légua de sesmaria tem 6.600 metros. Posse área de terra correspondente a uma légua quadrada.)
O ciclo do tropeirismo vai se extinguindo desde o
início do século XX, com a construção das rodovias e ferrovias no Centro-Sul do país (São Paulo, Minas, Rio de
Janeiro, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul).
CAFÉ – A PRECIOSA RUBIÁCEA.
22
O café cultivado no Brasil é originário da Abissínia
(Etiópia), país localizado a leste do continente africano.
Seguiu um longo e sinuoso caminho que o levaria, no decorrer dos séculos à Europa e dali às possessões francesas
na Martinica e Guiana Francesa no início do século XVIII.
Conta a história que o comerciante português Francisco de
Mello Palheta, em 1727, numa expedição à Guiana, teria
trazido algumas mudas de café para o Brasil.
A cultura desta rubiácea (Coffea arabica) disseminou-se pelos estados, desde Maranhão até Minas Gerais,
difundindo-se por todas as regiões tropicais e subtropicais,
pelo vale do rio Paraíba na direção a São Paulo, sem, contudo, na época, representar atividade econômica expressiva,
perdendo para a produção de açúcar, o comércio de couros,
mineração de ouro e pedras preciosas.
Mas é só a partir do início do século XIX que a cafeicultura ganha o interesse dos grandes proprietários. Obtém a primazia entre as monoculturas exportadoras e tornase rapidamente a principal atividade agrícola do país, responsável por mais da metade da renda obtida com exportação. A crescente importância econômica faz dos produtores
de café de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais o centro da elite dirigente do Império e da República, até quase a
metade do século XX.
O trabalho nos garimpos, nas lavouras de cana-deaçúcar e de café requeria mão-de-obra abundante e barata
O índio era rebelde e não se sujeitava ao trabalho, portanto
os fazendeiros optaram pelo braço escravo africano.
O comércio de escravos negros entre a África e o
Brasil ocorre ao longo do período colonial e até a metade
do século XIX. Dominado por portugueses, espanhóis, ingleses e holandeses o tráfico existe desde o século XV e
cresce junto com a economia colonial no Brasil. Entre 1530
e 1850, chegam ao Brasil cerca de 3,5 milhões de escravos
23
trazidos do continente africano, especialmente da Guiné,
Senegal, Costa do Marfim, Mali, Congo, Angola, Moçambique e Benin.
Trazidos em navios superlotados, eles são vendidos
em escala crescente por traficantes. No decorrer de 400
anos, eles são a grande massa trabalhadora da agricultura,
da mineração e das atividades econômicas. Trouxeram consigo suas crenças, seus costumes e sua culinária.
A partir de 1800, crescem as pressões contra o tráfico negreiro. No âmbito interno, germinavam os ideais de
liberdade nascidos com a Revolução Francesa; pela oposição à Monarquia e como maior incentivo as injustiças e os
maus tratos cometidos contra o negro escravizado, que era
obrigado a trabalhar arduamente nas lavouras de cana-deaçúcar, algodão e no cultivo do café.
Os escravos resistem à escravidão fugindo das fazendas para os quilombos nos sertões e rebelam-se nas cidades; são caçados como bichos pelos capitães do mato e
açoitados nos pelourinhos, muitas vezes até a morte.
Quando a escravidão é extinta, em 1888, permanece
sua herança na sociedade brasileira em forma de discriminação racial, social e econômica dos negros e mulatos.
A campanha abolicionista desenvolveu-se paralelamente à expansão da cultura do café no Brasil. Como a lavoura de cana-de-açúcar e café demandavam muitos braços
para o trabalho, facilmente se configura a correlação entre o
movimento abolicionista e a expansão destas lavouras.
É evidente que produções de baixo custo, feitas no
Brasil graças ao braço escravo, constituíam uma ameaça
para o comércio europeu. E aos contrariados comerciantes
ingleses de chá é que se deve atribuir o empenho da Inglaterra em deter o tráfico de escravos destinados a abastecer
de mão-de-obra os produtores brasileiros de café.
24
Em 4 de setembro de 1850, é aprovada a Lei ” Euzébio de Queiroz”, severa contra o tráfico negreiro. Com as
leis restritivas à entrada de escravos africanos no Brasil,
principalmente após 1854, vem a conseqüente dificuldade
em atender à crescente demanda de mão-de-obra agrária,
sobretudo para as lavouras de cana-de-açúcar, algodão e de
café, como também para a agricultura de subsistência.
Para remediar esse grave problema, o governo imperial de D. Pedro II recorreu a uma alternativa onerosa, mas
que se lhe afigurava como a única capaz de resolver os problemas dos fazendeiros. Então, o Imperador regulamenta e
oficializa a emigração européia.
Foi incentivada a importação de emigrantes para o
trabalho braçal, como também para povoar os extensos espaços vazios, do imenso país, que no seu interior era escassamente habitado por caboclos e tribos errantes ou seminômades de índios.
No século XIX, deu-se uma grande emigração européia, especialmente alemã e irlandesa, para os Estados Unidos. Italiana e espanhola para a Argentina, italiana, alemã e
do leste europeu para o Brasil. No ano de 1847, chegaram
os primeiros imigrantes, sendo 177 famílias alemãs e suíças, selecionados na Europa e para aqui trazidos sob contrato para trabalharem nas lavouras de café.
Em 1869, no governo de Adolfo Lamenha Lins, governador do Paraná, vieram mais algumas centenas de famílias européias. Fundam-se as três primeiras colônias, bemsucedidas, em terras em redor de Curitiba, destinadas ao
abastecimento da cidade.
Por volta de 1875, o contingente imigratório italiano
passa ser o mais numeroso nas continuas levas de estrangeiros aqui chegados. Os imigrantes passam a trabalhar como
assalariados, surgem as primeiras colônias de casas nas
25
fazendas. E às vésperas da Abolição, é nítida a mudança
que se processa no regime de trabalho nas fazendas de café.
O movimento social, ocorrido entre 1870 e 1888,
defendia o fim da escravidão no Brasil. Muitos liberais brasileiros do Império declaram-se contra a escravidão. Fazendeiros, políticos, jornalistas e intelectuais lançam no Rio de
Janeiro o Manifesto Republicano.
É o sinal do declínio da Monarquia. As idéias republicanas disseminam-se pela população. Enquanto isso,
o Império titubeia na questão do trabalho escravo, incompatibilizando-se com a aristocracia escravista e levando os
abolicionistas a se unirem aos republicanos.
Mas é só a partir da Guerra do Paraguai (1865-1870)
que o movimento abolicionista ganha impulso. Por ordem
de D. Pedro II, os escravos que se alistassem como soldados seriam libertos. Não fosse essa providência benfazeja
de Sua Majestade, milhares de ex-escravos que retornavam
da guerra corriam o risco de voltar à escravidão.
A Guerra do Paraguai teve importância decisiva no
destino da nação brasileira; marcou o apogeu do Império,
mas também trouxe as causas principais da sua queda. Agrava-se a crise política e o governo imperial rende-se às
pressões. No dia 13 de maio de 1888, a princesa Isabel
assina a Lei Áurea, que extingue o regime escravagista,
originário desde o início da colonização do Brasil.
As fazendas abandonadas pelos escravos requeriam
com urgência mão-de-obra para o trabalho. O problema
social transforma-se em questão política para a elite dirigente brasileira.
A abolição desagrada os fazendeiros, e, vendo-se
privados de seus trabalhadores pouco dispendiosos, muitos
atribuem seus prejuízos ao Imperador e exigem indenizações pela perda que consideram suas propriedades.
26
As oligarquias rompem com o regime, deixando de
lhe dar sustentação. Os fazendeiros, abastados e politicamente poderosos, exercem sua influência para que o governo incentive e subvencione a imigração, fazendo propagando nos países europeus, financiando as passagens marítimas, alojando as famílias em hospedarias e distribuindo-as
em fazendas. E que eles necessitam de trabalhadores em
substituição ao braço escravo em suas lavouras.
Entretanto, essas primeiras iniciativas no campo da
imigração não lograram êxito esperado, por diversas razões.
O fazendeiro estava habituado a lidar com escravos submissos, afeitos às rudes condições de moradia e alimentação
vigentes nas senzalas, aos castigos corporais, acostumados
a trabalhar sem nada receber. De repente, o dono da fazenda viu se obrigado a pagar pelo trabalho, ouvir reivindicações de melhores condições de vida, por parte do imigrante.
O fim da escravatura não melhora a situação social
e econômica do negro. Analfabetos e sem uma profissão
definida, em nada muda a sua condição subalterna. Permanece sua herança servil na sociedade brasileira, na forma de
discriminação social. Ao passar do tempo, os imigrantes
europeus assalariados substituem os escravos no mercado
de trabalho.
O último abalo da monarquia é o fim da escravidão.
O Império perde o apoio dos escravocratas, que aderem à
República. Liderados pelos republicanos, civis e militares
conspiram contra o Império. Um movimento políticomilitar acaba com o Brasil imperial.
É proclamada a República do Brasil, em 15 de novembro de 1889, pelo marechal Manoel Deodoro da Fonseca, que assume a chefia do novo Governo Provisório e
intima o deposto Imperador D. Pedro II e a família real
para que deixem o Brasil e embarquem para Portugal no
prazo de 24 horas. Dois dias depois D. Pedro deixa o Brasil.
27
IMIGRANTES EUROPEUS
A colonização européia introduziu na América do
Sul o elemento branco, portugueses no Brasil e espanhóis
na maior parte do continente. Nos primeiros tempos do
Brasil colonial, numerosos degredados, fugitivos, criminosos, ladrões, desertores e réus de diversos crimes, foram
trazidos de Portugal e deixados na Bahia, Pernambuco e nas
praias de S. Vicente.
À sua chegada, esses homens de má índole não encontravam senão mulheres índias para esposas. Com esses
pais de natureza criminosa, não podia haver descendência
boa, muitos deles eram perversos. Os filhos que resultaram
das relações entre homens brancos com mulheres índias
foram chamados de mamelucos. Os portugueses, espanhóis,
holandeses e franceses se misturaram com a raça indígena.
Tendo contato diariamente com os índios, os trabalhadores agrícolas portugueses que vieram para colonizar o
Brasil adotaram deles muitos usos e costumes. Trocaram os
alimentos tradicionais de Portugal pelos desta terra. Fumavam folhas de tabaco, usavam redes de dormir e tomavam
banhos diários nos rios.
A formação étnica da região Sul do Brasil difere
das demais áreas do território brasileiro. Enquanto o português, o africano e o índio constituem o tripé étnico da nacionalidade, no sul predominou a colonização efetuada a
partir do século XIX, por italianos, alemães, poloneses,
ucranianos e outros imigrantes de procedência européia.
O clima subtropical, ameno, contribuiu para a fixação do emigrante europeu. No sul não existiam resquícios
do sistema escravocrata de exploração da terra, que ainda
vigorava em outras regiões do país.
Os espanhóis foram expulsos do oeste paranaense
pelos bandeirantes paulistas, mas a região permaneceu a28
bandonada, continuou pouco povoada. Havia grandes áreas
de terras devolutas, ainda não apropriadas, das quais o Governo Imperial e o Governo do Paraná podiam dispor para
colonização. As férteis regiões do norte e oeste do Paraná
permaneceram isoladas e não foram ocupadas pelos colonizadores, pois eram cobertas por florestas difíceis de explorar e não havia estradas de acesso.
A ocupação da Província tomou impulso após a emancipação política, em 1853. No entanto, o território paranaense ainda não estava definido, pois o Estado de Santa
Catarina reclamava para si uma área de 48.000 quilômetros
quadrados.
Essa área ficou conhecida como “Contestado” e foi
palco de confrontos armados entre latifundiários pecuaristas
que disputam a posse dos campos de pastagens e ervais
situados entre os rios Iguaçu e Uruguai. A questão só foi
resolvida no ano de 1916, com uma intervenção militar,
quando os dois Estados dividiram a área pela metade.
Nas duas últimas décadas do século XIX, o governo
Imperial de D. Pedro II continuou estimulando a imigração
de colonos europeus para as lavouras cafeeiras. Começaram
chegar imigrantes europeus: alemães, italianos, franceses e
espanhóis.
***
A Revolução Francesa em 1789 e a ação de Napoleão Bonaparte aceleraram a emancipação do campônio
polonês das suas obrigações ainda feudais para com seus
senhores, estrutura esta que ainda perdurava nos países do
leste europeu. Os movimentos sociais na Europa e América
do Norte despertaram maiores exigências do povo.
No ano de 1871 vieram os primeiros imigrantes poloneses ao Paraná. Formavam um grupo de 32 famílias.
Provinham do sul da Polônia, região ocupada pela Áustria,
29
foram assentadas na localidade de Pilarzinho. Com a vinda
de centenas de famílias polonesas, surgiram outras colônias
nas proximidades de Curitiba: Abranches, Tomás Coelho,
Lamenha, Murici, Cristina, Taunay e dezenas de outras. Os
colonos foram localizados nas áreas de matas. As regiões
de campos já estavam ocupados por grandes fazendas de
criação de gado.
Nessa época, o maior problema existente na Polônia
ocupada pelas três potências, Áustria, Prússia e Rússia, era
o agrário; não havia terra suficiente para o lavrador. As
promessas de reformas iam sendo adiadas indefinidamente.
Após a emancipação dos servos em 1861, e com o
decreto do czar Alexandre II, em 2 de março de 1864, foi
concedido o direito à propriedade aos camponeses e distribuídas pequenas glebas de 2 a 5 hectares, por família.
Esse parcelamento da terra foi uma das causas
mais relevantes que levaram à emigração em massa, pois os
aldeões não sobreviviam de tão pequeno quinhão de terra,
teriam de voltar a trabalhar nas fazendas como assalariados,
por um ordenado aviltante, que teve como conseqüência a
grande miséria da população.
Também, a superpopulação contribuiu ainda mais
para a luta do povo por sua liberdade, por mais espaço e
mais direitos. Seguiram-se a esse problema, a excessiva
oferta de mão-de-obra nas aldeias; as difíceis condições de
trabalho da população rural; o atrativo espalhado pelos povoados, muitas vezes falacioso, de um futuro melhor em
outros países no além-mar, principalmente nas Américas,
do Norte e do Sul, com preferência ao Brasil.
Em 1886, foi fundada a Sociedade Promotora da
Imigração, que tinha por objetivo enviar agentes a serviço
do governo brasileiro, aos países da Europa onde havia
excesso de população, falta de trabalho e grande pobreza.
30
Foram abertos inúmeros escritórios, principalmente
na Europa Central, com a finalidade de recrutamento de
trabalhadores. Para angariar maior número possível, o governo brasileiro oferecia transporte de navio gratuito, alimentação e facilidade na aquisição de terra.
Nesse suscetível terreno foi semeada uma propaganda maciça e convincente. E no início de 1889, começou
a dar resultados positivos, além dos esperados. Em 28 de
junho de 1890, foi assinado o decreto n.º 528, pelo marechal Deodoro da Fonseca, que regulariza o serviço da introdução e localização de imigrantes no país.
Entretanto, o governo não estava preparado para receber a avalanche humana que tais ofertas impulsionaram.
Milhares de imigrantes desembarcavam nos portos brasileiros. As autoridades brasileiras viram-se então com dificuldade para alojar, alimentar e transportar tamanhos contingentes humanos, nas hospedarias, ou nas colônias nas quais
iriam ser assentados.
Para o bom andamento do projeto, tudo isso requeria planejamento e organização antecipados, mas, como
pouco até ali havia sido programado, trabalhou-se com
improvisação.
Alfredo de Escragnolle, Visconde de Taunay, militar e político brasileiro, presidente da Província do Paraná,
numa carta dirigida aos padres Francisco Gorowski e Ludwig Przytarski, em 1890, dizia entre outras coisas:
“Os poloneses aqui radicados gozam de toda proteção da lei, segurança, liberdade individual e religiosa. Seria
conveniente que, de imediato, escrevam cartas aos seus
compatriotas na Polônia, informando-os que o nosso Império pode-se tornar para eles a “ Terra Prometida ”.
Essa carta causou grande ressonância nos centros de
emigração e foi usada pelos agentes dos navios, de colonização e seus engenhosos intermediários, aproveitando o
31
estado de emergência, da situação difícil dos camponeses e
o constante chamamento da força de trabalho para o Brasil.
Um dos agentes recrutadores para o Brasil, era Eugênio Bendaszewski, um comerciante, que residia no Paraná, transferindo-se para Hamburgo, onde os seus agentes
em Hamburgo e Bremen orientavam os emigrantes poloneses para o território paranaense. Os imigrantes que aqui
aportaram nos anos 1890-1891, segundo as listas oficiais da
Comissão de Imigração, eram de 38.125 pessoas.
Na Polônia, os agentes e seus representantes divulgaram manifestos, volantes, cartas e promessas fantásticas
pelas aldeias e em todos os recantos; mas papel preponderante tiveram as promessas de terra, ajuda, transporte
gratuito nos navios, alimentação e proteção; garantia de
segurança pessoal e liberdade. Incentivados, o camponês, o
operário e o pequeno agricultor se deslocavam através dos
mares para este encantado Brasil.
O resultado dessas manobras foi o surgimento da
“1ª febre brasileira”, que se alastrou como epidemia pelos
povoados e intensificou o deslocamento de massas humanas, sem paralelo na história. Foi a que colonizou os Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Igual à febre que sacode o organismo humano, assim a aldeia polonesa ficou profundamente abalada pela
emigração de milhares de camponeses, mantidos no atraso e
obscurantismo pelos governos de ocupação.
O povo ignorante, confuso, crê cegamente na propaganda ampliada secretamente pelos elementos interessados, e vê no outro lado do oceano o sonho do paraíso terrestre, a possibilidade de se libertar do sofrimento que o
afligia e a melhorar a sua condição social e econômica.
Não acreditava nas advertências dadas por pessoas
esclarecidas, que avisavam das dificuldades e dos perigos
que os esperavam nas terras a serem desbravadas.
32
A psicose da emigração que tomou conta dos aldeões, e que estava fadada a despovoar as aldeias, inquietava
o governo e também os proprietários de terras, diante do
perigo de perderem a mão-de-obra barata.
Com a emigração em massa dos camponeses e em
conseqüência deste fato, foi iniciada a política de repressão
pelo governo russo, dirigido pelo general Hurko, governador da província de Plock, e pelo burgomestre Tykocin.
Toda a província foi percorrida pelo comandante da
polícia militar do general Brokk, para sustar o movimento
emigratório. O manifesto de nove de setembro de 1890 qualificava o abandono voluntário do país como contravenção,
ferindo o artigo 325-326, do código disciplinar, sendo motivo para o exílio na Sibéria.
O general suspendeu a emissão de matrículas e passaportes e bloqueou as passagens de fronteira. As autoridades policiais certificaram-se que o principal agenciador para
a emigração, na província de Plock, era Piotr Konarzewski,
que foi preso e condenado a dois anos de prisão.
A grande incidência de emigração do território sob o
domínio russo na Polônia, nos anos de 1889, 1890 e 1891
afetou, além das demais províncias, principalmente os powiat (distritos), localizados ao longo da fronteira da Prússia,
como Rypin, Lipno, Mazowsze, Golub-Dobrzyn, Sierpc,
Mlawa, Ciechanow, Plonsk, Dzialdowo e outras localidades
da gubernia (província) de Plock. Essa região ficou praticamente despovoada.
Os camponeses emigravam fugindo da fome, da miséria e perseguição racial, política e religiosa, praticada
pelos ocupantes do país. Fugiam também do serviço militar
russo, que era de cinco anos, prestado na Criméia, Cáucaso
e nos confins da Rússia Imperial. A situação nas regiões de
domínio russo era de exploração econômica e tentativa de
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despolonizar as populações anexadas, com o agravante do
grande índice de analfabetismo, que era de 60%.
Emigrava todo tipo de elemento, até respeitáveis
proprietários de terras, atraídos por uma vida com mais
liberdade e facilidade na aquisição de terras. Veio também
um número expressivo de intelectuais, jornalistas, cientistas, sacerdotes, militares, artistas, escritores, engenheiros,
médicos e estudiosos, que muito colaboraram para o progresso material e intelectual do Brasil.
Muitos deles, envolvidos com insurreições contra o
governo de ocupação na sua pátria, fugiam das perseguições políticas. Entretanto, na sua maioria, os emigrantes
eram camponeses pobres, ignorantes e analfabetos. Todos
seguiam com destino ao sul do Brasil, principalmente à
Província do Paraná, por causa do seu clima ameno.
No final de 1890, da região de Mazowsze (Mazóvia), província de Plock, vieram a São Mateus 1.225 pessoas e a colônia Água Branca, 685.
Muitos dos que fugiram através da fronteira, eram
proprietários rurais que deixaram seus bens para trás e saíram sigilosamente. Os clandestinos atravessavam a fronteira verde a pé ou de carroça; levavam os pertences, roupas, calçados, tudo que podiam esconder em trouxas ou
pacotes. Pagavam aos guardas corruptos, russos de um lado,
e prussianos, do outro lado da fronteira, para que os deixassem passar. Pagavam também aos impostores, chantagistas
e trapaceiros, que nesse trajeto estavam à espreita dos incautos transeuntes.
Os emigrantes enfrentavam toda sorte de dificuldades nessa trajetória por um país estranho, neste caso, Alemanha. Podiam se perder; precisavam sobrepujar os obstáculos; transferir-se em Berlim do trem procedente de Torun
para outro, que os levaria à Bremem e ao porto de Bremerhaven ou Antuérpia.
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Outros, atravessando a fronteira se dirigiam à cidade de Grudziadz, onde embarcavam no trem que os levaria,
via Berlim, ao porto de Hamburgo.
Tinham de trocar dinheiro, procurar o agente da
Companhia de Viagens Marítimas, encontrar o navio certo,
não perder os pertences e os pacotes, enfim não perder nada
e nem alguém da família. A cada passo, vigaristas os assediavam com propostas mirabolantes, como passagens de
navio mais baratas, acomodações pela metade do preço,
enfim, tudo o que é oferta miraculosa, com claro propósito
de engodo, visto que os camponeses eram pessoas crédulas,
ingênuas e de boa-fé.
Os emigrantes que chegavam aos portos ficavam
nos albergues, por conta das Companhias de Emigração, até
o embarque nos navios. Os passageiros, cujo transporte era
pago pelo governo brasileiro, viajavam na 3ª e 4ª classe
dos transatlânticos superlotados da Companhia “Hamburg
América Line” e outras, com até 3.000 mil pessoas a bordo.
Chegando ao Brasil os imigrantes desembarcavam
na Ilha das Flores, no Rio de Janeiro. Depois de uma quarentena na Ilha, eram transportados por navios do Lloyd
brasileiro. Os que se dirigiam à Província do Paraná ficavam em Paranaguá, outros iam à Santa Catarina e desembarcavam no porto de São Francisco, ou em N.S. do Desterro (Florianópolis), outros iam à Porto Alegre, no Rio
Grande do Sul.
Foram instalados em terras colonizadas pelo governo Federal. No Paraná ocuparam áreas nos vales dos rios
Iguaçu, Negro e nascentes do rio Ivai, fixando-se no sul.
Nessa época vieram aproximadamente 68.000 mil
pessoas para o sul do Brasil. Os imigrantes poloneses distinguiam-se pela laboriosidade, probidade e religiosidade.
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JAKÓB GRYCZYNSKI
Foram diversas as causas que levaram à singular epopéia que o emigrante polonês escreveu, com sangue,
sacrifício e heroísmo, privado de qualquer orientação ou
amparo, apesar das promessas feitas pelos agenciadores.
Jakób Gryczynski era proprietário da herdade
Gryczynszczyzna, na aldeia de Chumecin, próxima da cidadesinha de Mazowsze, na província de Plock, a pequena
distância da fronteira da Prússia. Saiu de casa com a família
e parentes, um grupo composto de 16 pessoas, no dia 14 de
outubro de 1890, isto é, 10 dias antes do embarque no navio, foram de carroça, conduzidos pelos amigos e vizinhos.
Ao passar a fronteira verde, eles tiveram que pagar
2 rublos por pessoa ao guarda russo e outro tanto em marcos ao guarda alemão, que revistou as bagagens. O fiscal
quis confiscar um par de botas novas, de couro, do filho
Alexandre, afirmando ser contrabando.
- O senhor queria - respondeu-lhe o jovem dono das
botas - que todos nós calçássemos botas furadas?
O alemão enrugou a testa, pensou por um instante e
fechou a bagagem intacta. Seguiram, então, em direção à
cidade de Grudziadz onde embarcaram no trem que passava
em Berlim, com destino ao porto de Hamburgo.
Jakób trocou ali um pouco de dinheiro em marcos
alemães, para custear as despesas; o câmbio era um rublo
por um marco. Comprou na agência J. CH. Paulsen, quinze
bilhetes de passagem de 3ª classe, com direito a cinco camarotes, com três beliches em cada um, no navio Darmstadt de passageiros, que ia atracar dentro de três dias. Precisava procurar um hotel para acomodar a família. A hospedagem custou cinco rublos por dia, por pessoa.
Como o transporte da bagagem no navio era gratuita, levaram baús de madeira com roupas, pacotes com
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sapatos, panelas, pratos e colheres, cobertores, acolchoados
de pena de ganso (pierzyna), travesseiros, lençóis, ferramentas de carpinteiro, duas espingardas de cano duplo e
munição, sementes de verduras, de trigo, de trigo sarraceno, centeio, cevada e ervilha.
Comprou cestos grandes com tampas, colocou neles
tudo o que coubesse e amarrou-os bem; escreveu o seu nome em letras grandes nos baús, pacotes e cestos com tinta
preta. Numa cesta separada foram colocados os objetos e
chás, de uso diário. Não deixou de levar o violino, o clarinete, o violoncelo e a ocarina. Jakób aventurou-se pela
cidade de Hamburgo para comprar um bom relógio despertador e um quadro de Nossa Senhora de Czestochowa.
Finalmente, no terceiro dia o navio atracou no porto.
Foi uma correria tremenda na hora do embarque. Choro,
gritos, pessoas que se perdiam umas das outras, crianças
aos berros chamando as mães; foi um enorme alvoroço. No
dia 24 de outubro de 1890, embarcaram 3.000 mil passageiros no navio Darmstadt, rápido transatlântico a vapor.
A família Gryczynski compunha-se de 16 pessoas:
Jakób Gryczynski - com 57 anos (nasc. 1833)
Jozepha Drazkiewicz - com 55 anos (nasc. 1835)
Ksawera Antônia– filha, com 26 anos (nasc. 1864)
Aleksander Kowalski – genro, com 31 anos.
Konstantim, neto, com 2 anos.
Mariana, - neta, com 3 anos de idade.
Stephania – filha, com 20 anos (nasc. 1870).
Alexandre – filho, com 18 anos (nasc. 1872).
Ladislau - filho, com 16 anos (nasc. 1874).
Maria Jozepha- filha, com 23 anos (nasc.1867).
Francisco Krenski – genro, com 26 anos.
Juliana – neta, com 4 anos e Anna de dois meses.
Vicente – neto, com 2 anos de idade.
Anton Krenski e Mariana – pais de Francisco.
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Jakób e a esposa Jozepha estavam enfrentando problemas com a filha Stephania, que não parava de chorar,
revoltada, pois não se conformava com a idéia de emigrar
contra vontade própria, precisando deixar na Polônia, a vida
de conforto, seu trabalho e o noivo a quem amava muito.
O navio, depois de sair de Hamburgo, porto situado
no estuário do Rio Elba, no Mar do Norte, navegou por 24
horas, próximo à costa, chegou à Antuérpia, cidade portuária da Bélgica, onde ancorou e permaneceu por 48 horas.
Foi abastecido de carvão, água e víveres frescos.
Dois dias de navegação, com ventos firmes e uma
corrente favorável, levaram o navio para o alto mar. O céu
mostrava-se nublado, as ondas açoitadas pelo vento franjavam-se de uma escuma borbulhante. O aspecto severo do
mar, que se estendia além da vista, assustava os viajantes.
Em vez do burburinho da partida, um silêncio relativo e tristeza reinavam a bordo do Darmstadt. Sentados no
chão, nos molhos de cordas enroladas, homens, mulheres e
crianças, com o olhar fixo, as feições transtornadas, enxugavam continuamente as lágrimas que lhes escorriam pelas
faces. Com o balanço do navio, o enjôo fizera suas vítimas
que, deitadas, entregaram-se ao desânimo.
O sol estava no zênite e o mar era como um vasto
espelho ondulante, salvo onde as ondas se quebravam em
volta do navio e subiam em torno do casco. O mar estava
vazio, a não ser num ponto em que um bando de aves marinhas se agitava sobre um cardume de peixes acossado por
um grupo de tubarões.
Dois deles deixaram o cardume e começaram a circular perto do navio, chegando cada vez mais perto, até que
podia-se ver-lhes o brilho azulado do dorso e, quando se
viravam, a brancura das barrigas. Eram grandes e deviam
ter seis metros de comprimento no mínimo. Estavam fartos
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dos peixes do cardume e nadavam tranqüilamente. O oceano imenso, o seu mundo, estava resplandecente.
Esse pequeno drama predatório interessou à Stephania por um momento. Mas logo se cansou dele e voltou
a sentar no convés da frente e ali ficou sentada durante muitas horas, fechada num silêncio tangível como uma parede.
As lágrimas lhe escorriam pela face pálida. No seu desespero, parecia que se despedia da vida.
E num trágico momento subiu na amurada e, balançando os braços, tentou pular para o precipício das ondas
revoltas. O marinheiro Karl que passava naquele momento
viu o seu tresloucado gesto, correu e conseguiu pegá-la no
arremesso final.
- Deixe eu ir – gritava ela, debatendo-se.
- Não seja louca, não tem esse direito. Só Deus,
que nós deu a vida poderá tirá-la.
Depois dessa tentativa de fuga, ela trancou-se na
cabina, não comia e não atendia a ninguém. Em vão sua
família tentava consolá-la, ela fechou-se para todos e para o
mundo. Não tolerava que alguém se aproximasse dela. Naquela noite, quando estava deitada no beliche a escutar o
bater das ondas no casco do navio, o sussurrar do vento
pelo convés e os queixosos acordes do violino que chegavam do fundo do navio onde estava acomodada a multidão
de emigrantes, o pai lhe procurou.
- Filha, fale comigo, diga o que a desespera tanto, a
ponto de tentar contra a própria vida?
Ela escutou em silêncio, depois afastou-se um pouco
dele, cruzou as mãos sobre o peito e ficou a olhar para o
teto. Quando o pai tentou abraçá-la, ela o repeliu e gritou
em desespero:
- Você me arranca do lado do meu marido, do grande amor da minha vida, pai do filho que estou esperando,
me leva a força numa viagem para um mundo desconheci39
do, numa mudança traumática na minha vida e ainda fica
chocado quando quero acabar com esse sofrimento?
- O que você disse? Eu te arranquei do lado do marido? Pelo que eu sei, o tenente Zbigniew Orlowski era seu
noivo, não seu marido. Explique-se melhor, minha filha!
- Pai, estou toda dilacerada internamente, sem vislumbrar o presente e nem o futuro. Estou presa totalmente
ao passado. O que é que você pode fazer? – perguntou ela.
- Dar-lhe-ei todo meu amor de pai, apoio e compreensão. Se assim preferir, autorizarei o teu retorno para a
Polônia. Conte-me tudo.
Stephania sentou-se na amurada do navio, perto do
pai e, aos soluços, começou a desfiar o seu drama.
- Quando o senhor exigiu que eu deixasse o emprego de dama de companhia, da condessa Maria Poniatowska,
em Warszawa, porque você pretendia emigrar com toda a
família para o Brasil, eu e Zbigniew ficamos desesperados.
Pensamos numa solução, mesmo que fosse um procedimento radical.
- Não podíamos casar oficialmente, era proibido,
pois ele ainda tinha dois anos de serviço militar para cumprir no exército russo, que era de cinco anos. A punição por
desobediência era o fuzilamento, ou a deportação para a
Sibéria. Portanto, a solução ideal seria casarmos em segredo, numa cidade, fora da jurisdição russa.
- Meu noivo pediu uma licença de quinze dias do
exército, eu pedi o mesmo prazo à condessa Maria. No dia
combinado encontramo-nos na estação. Embarcamos no
trem da linha Bialystok - Warszawa -Torun, com destino a
Torun, cidade fronteiriça, mas de domínio prussiano, onde
morava a tia Helena, viúva, irmã da mãe de Zbigniew. Ela
apoiava o nosso romance, juntos acharíamos uma solução.
Esta apareceu na pessoa de Wilhelm, um grande amigo do
falecido marido da tia Helena.
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Como Torun, pertencia ao Império da Prússia não
seria nada difícil, com um bom suborno, conseguir novos
documentos para o casal, que, em verdade, não seriam tão
falsos assim, pois Zbigniew era filho adotivo do casal Laurenti Orlowski, e no processo de adoção fora registrado
com o novo nome de Zbigniew. Seu verdadeiro nome era
Mathaei Kuczynski. Então era só fazer os novos documentos com seu nome verdadeiro. E assim foi feito.
Os noivos, Stephania, filha de Jakób Gryczynski e
Josepha Drazkiewicz, naturais de Chumecin, província de
Plock, de domínio do Império Russo, e o jovem Mathaei
Kuczynski,. filho de Boris e Marfa Kuczynska casaram-se
no dia 10 de agosto de 1890.
O casamento foi assistido somente pela tia e o amigo que os ajudou a realizar o sonho de felicidade. Passaram
a lua-de-mel em Torun, na casa da bondosa tia. Após o
vencimento das suas licenças, cada um voltou ao seu compromisso, mas não sem antes jurar o amor eterno, guardando segredo absoluto deste matrimônio proibido.
Stephania enxugou as lágrimas que teimosamente
lhe escorriam pela face e continuou:
- Despedimo-nos na estação de Warszawa, com um
prolongado beijo, Mathaei prometendo ir ao meu encontro
no Brasil, assim que terminasse o seu período de engajamento militar e fosse liberado do exército russo, e eu jurei
que ia esperá-lo. Mas o destino impiedoso ia pregar uma
peça dolorosa em nossos sonhos.
- Você meu pai, obrigou-me a deixar a minha vida
para trás, acompanhando a família nessa tresloucada fuga,
sem me perguntar se era esse o meu desejo. Você é autoritário e desumano, é ainda o patriarca medieval que controla
a família com mão de ferro. Imagine o meu desespero
quando soube que estava grávida, como iria justificar o meu
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estado? - murmurou ela com a voz estrangulada por um
soluço angustiado.
O pai atônito ante a revelação do segredo da filha,
perdeu o controle e esbofeteou-a, gritou insultos sobre insultos. Depois, condoído do seu sofrimento, colocou a sua
cabeça no colo e, passando a mão suavemente sobre os
seus cabelos, fez com que adormecesse profundamente.
Questionava-se. Teria agido certo ao exigir o embarque de toda a sua família, nessa viagem arriscada, sem
perspectiva e horizontes definidos? Sem outra alternativa,
já arrependido, entregava tudo na mão de Deus, o seu futuro e o da sua família.
Resolveu mandar Stephania de volta para Polônia,
na primeira ocasião, junto com algum casal que estivesse
retornando à pátria. Assim solucionaria o problema. Daí
em diante deixou de pensar no assunto.
Na superfície lisa do mar, acabava de aparecer a
bombordo do Darmstadt uma massa escura que se assemelhava, de longe, com o casco de um navio, virado de borco,
isto é, com o fundo para cima. Um cheiro insuportável de
maresia empestava ao mesmo tempo o navio.
Durante alguns minutos aquele vulto pareceu imóvel; depois a água agitou-se em torno dele e a extremidade
de um maxilar gigantesco apareceu, com dois jatos de água
salgada que subiam a uma altura de dois metros, caindo
depois numa chuva fina.
Ao mesmo tempo o dorso inteiro da baleia mostrouse por um instante acima da superfície, para mergulhar novamente. Mais cinco baleias foram vistas então ao longe,
saltando sobre a água e nadando uma após outra, como se
brincassem. À tarde navegaram entre bandos de golfinhos
que, confiantes, colocavam-se ao lado do vapor, pareciam
apostar que corriam mais do que ele.
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A viagem transcorria tranqüila, quando ao cair da
tarde, morna, sufocante, o mar começou a agitar-se e apareceram nuvens escuras no horizonte. Aproximava-se uma
borrasca. O navio balançava violentamente ao embate das
rajadas fortes do vento. Desabou o aguaceiro, semeando
pedras de granizo do tamanho de pedras de gude.
Acordaram cedo na manhã seguinte, com um céu
carregado. Um mar lerdo e um silêncio sem vento que prenunciava um grande temporal. A tempestade era iminente, e
quando desabou com toda a fúria, durou o dia inteiro e
continuou pela noite. Foram vinte horas de ventos impetuosos, chuva torrencial e mar enfurecido.
O navio balançava perigosamente. As pessoas se agruparam dentro dos porões. Alguns passavam mal com os
fortes enjôos e vômitos. Enfraquecidos, febris, caiam ao
chão, e ficavam pisoteados pelos demais. Mortos, eram
jogados ao mar.
Muito depois do cair da noite a tempestade ainda
rugia, continuava o gemer do vento, e o incessante turbilhão
agitado das águas do mar revolto. O convés foi tomado pelas águas. O pânico desordenado estabeleceu-se entre os
passageiros. Gritavam e corriam de um lado para outro.
Depois, pouco a pouco, tudo foi passando. O vento amainou, a chuva cessou, e a lua apareceu pálida e triste por
entre uma cortina irregular de nuvens, acima das águas do
oceano, agora já calmo.
O crepúsculo passou rapidamente e a noite caiu toda
estrelada sobre o mar vazio. Quem nunca esteve em alto
mar durante uma tempestade, não é capaz de imaginar o
horror e o perigo que a cada passo acumulam-se diante da
tripulação e dos passageiros do navio.
O enjôo ataca principalmente os mais fracos, mas
estão sujeitos a ele também os mais fortes.
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Stephania, como os outros, passou mal durante a
tempestade, alguém na corrida impetuosa pelo convés derrubou-a ao chão, na queda bateu o ventre contra uma ponta
de viga saliente; logo depois começou a sentir fortes dores,
veio a hemorragia, e com ela o feto que mal tinha começado a se formar. Horas depois, abortou o fruto do seu infeliz
amor. Sofreu e chorou desesperada, os soluços vinham-lhe
do âmago do ser.
Com o correr dos dias, pareceu que ela estava conformada e, como se tivesse voltado do túmulo, ela reapareceu no convés. Novamente olhava para o mar com o olhar
perdido na imensidão das águas, desanimada e triste, e muitas vezes era encontrada perto da amurada, ou no canto
mais remoto do convés a chorar convulsivamente.
O pai atribuiu isso a uma depressão natural, depois
da perda prematura do filho e do rompimento dos laços
afetivos na terra natal. Procurou sem êxito arrancá-la desse
estado mórbido ao qual Stephania se entregara.
O navio começou a balançar novamente. De instante a instante empinava sobre a crista de uma enorme onda,
para depois rolar para o abismo das águas revoltas. Havia
outro temporal a caminho. O ar estava muito parado. Para
os lados do leste, as nuvens se estavam amontoando numa
compacta massa escura. O mar já estava se encapelando e
as aves marinhas voavam alarmadas crocitando desenfreadamente. Houve a princípio escuridão, como se um manto
negro tivesse caído sobre o mar.
Do centro da escuridão surgiram os relâmpagos,
longos clarões em zigue-zague que desciam do céu ao mar
e, instantes depois, raios e trovões rugiam ensurdecedores
enchendo o espaço. A chuva desabou em torrentes, açoitada
pelo furacão que subia com espiral em torno do costado do
navio. O uivo fantástico do vento, o estrondear das ondas e
do fervilhar do mar, que subia até o tombadilho invadindo o
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convés, rugia e espumejava, a fúria do vento redobrava,
arrojava o navio no dorso dos vagalhões, que se abriam em
desnivelamentos imensos.
Parecia que iam engolir a grande embarcação. A luta
tornava-se encarniçada. O mar queria vencer. O comandante e a tripulação faziam o possível para salvar o navio e os
passageiros. Mas, de repente, como por encanto, tudo mudou, o vento amainou, o mar antes tão agitado foi se acalmando, a tempestade tinha se consumido. O navio estava
salvo. De tempos em tempos chegavam vagalhões atrasados, trazendo à deriva madeiras e entulhos, talvez de barcos
ou embarcações destroçados pela fúria das águas.
Nos dias seguintes o mar continuava calmo. O
Darmstad singrava serenamente as águas. A cadência da
música tocada pelos emigrantes era como o ritmo da velha
vida, lânguida, monótona, infinitamente triste, cheia de
saudade. A viagem decorreu sem mais contratempos. O
capitão, homem calmo e seguro da sua capacidade de comando, tranqüilizou os passageiros e os tripulantes.
Gaivotas! Albatrozes!
Aves marinhas que habitam as costas dos continentes, voam longe pelo mar à procura de alimento. Primeiro
só se ouviram os gritos, porque era noite ainda, em seguida
eram as próprias aves, voando em volta do navio. Os passageiros observavam o horizonte o dia todo. Nenhum indício
de terra próxima. A lua cheia se levanta no momento em
que o sol se deita. Essa lua tropical é tão brilhante que sua
reverberação incomoda os olhos. Lá pela meia noite, percebe-se no horizonte, muito distante, iluminada pela luz forte
da lua, uma linha negra.
- É terra, com certeza – diz o marinheiro.
- Estamos chegando – gritaram todos em uníssono.
Madeiras e galhos verdes flutuando, indicavam terra
próxima. As próprias aves, andorinhas do mar, fragatas,
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atobás e maçaricos migratórios, apontavam o rumo da terra
ainda distante. As ondas do mar se quebravam nos recifes.
Do seu posto ao leme, o capitão olhou para o canto
do convés, onde os passageiros cantavam baixinho ao som
do violino tocado pelo emigrante Jakób Gryczynski, deu
volta ao convés, falou com o operador, depois desceu para a
casa das máquinas a fim de verificar o livro do maquinista.
Tinha de fazer anotações no diário de bordo.
Após uma dura odisséia, navegando 22 dias pelo
Oceano, o transatlântico alemão Darmstad, cortando os
vagalhões da costa brasileira, finalmente aportou na baía
de Guanabara, no Rio de Janeiro. A grande embarcação
demandou o porto, onde fundeou. O capitão mandou lançar
a âncora a cerca de um quilômetro de distância do cais. Ouviu-se o ranger dos ferros arremessados na água.
.Dezenas de barcos manobravam nas águas, indo e
vindo. A comissão sanitária subiu a bordo, com a finalidade
de avaliar as condições de saúde dos passageiros. O desembarque só e permitido após o cumprimento de todas as formalidades alfandegárias. Um rebocador, puxando enormes
lanchas, transportou os imigrantes para a Ilha das Flores,
que se situa na Baía de Guanabara, diante da praia do Paiva,
no município de São Gonçalo.
Via-se o lado esquerdo da baía pontilhado por morros alcantilados. É o Pão de Açúcar, o morro do Botafogo,
Corcovado e outros. A beleza do lugar é incontestável.
O vento sopra forte, os barcos lançados para o mar
enfrentam as ondas. O balanço é incômodo e perigoso. A
viagem para a Ilha das Flores dura duas horas, os barcos
ladeiam ilhas e contornam grandes navios. Do lado da praia
reboava o mugido das vagas que rolavam e vinham jogar
espumas no parapeito do cais. De qualquer maneira, chegaram todos vivos, a salvo das ondas. Desembarcaram em
terra firme no dia 16 de novembro de 1890.
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Funcionava ali a organização federal “Hospedaria
dos Imigrantes”, que tinha por finalidade acolher e selecionar os imigrantes que chegavam. Ficavam alojados na Ilha
a fim de passarem a quarentena, e ao mesmo tempo era feita a triagem pelas autoridades brasileiras.
A Ilha das Flores é uma pequena extensão de terra,
com morro de pedra, saliente e alongado. A residência do
diretor da Estação é um palacete situado no centro da ilha.
A casa para alojamento dos imigrantes estende-se ao longo
do morro. É uma construção extensa, alta e coberta de zinco, que se perde no verde das árvores tropicais, seguem-se
os depósitos abarrotados com os pertences dos viajantes.
Em outras construções alongadas, todas as salas estão ocupadas por gente. As camas consistem de beliches,
sobre o qual é posta uma esteira de capim, servindo como
colchão. As pessoas repousam, passeiam pelas varandas,
visitam a ilha, maravilhados com a profusão de flores que
dá nome ao lugar, ou simplesmente vagueiam pela praia, a
beira-mar.
O porto situa-se ao lado da cidade. Na encosta do
morro localizam-se o hospital, as cozinhas e os armazéns.
No refeitório, uma sala enorme com mesas onde são servidas as refeições. Diariamente recebiam carne, pão, chá,
café, feijão preto, arroz e farinha de mandioca. Numa ocasião, houve uma grande mortandade na Ilha, causada pela
aglomeração e falta de higiene; grassaram a febre amarela
e tifo. Morreram centenas de crianças e velhos.
Era dado aos imigrantes o prazo de oito dias para
escolherem o destino, para onde queriam ser encaminhados.
Como maioria dos seus conterrâneos, Jakób Gryczynski
optou por Colônia Água Branca, no sul da Província do
Paraná, em fase de colonização, de acordo com o projeto do
governo. Ali o clima subtropical úmido, mesotérmico, com
verões brandos e geadas severas, era parecido com o da
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sua pátria e a terra era fértil, barata e abundante. Todos
desejam fixar-se em terras próprias como agricultores.
Navios da Companhia Lloyd Brasileiro faziam o trajeto entre o Rio de Janeiro e Paranaguá. Após 10 dias de
descanso na Ilha das Flores, Jakób Gryczynski com a família e outros imigrantes que optaram por Paraná, embarcaram no vapor “Pará”, que navegou por três dias pela costa,
ladeou várias ilhas, o farol e finalmente adentrou a baía de
Paranaguá numa manhã nebulosa do dia 29 de novembro
de 1890. (Fato registrado no livro de entrada de imigrantes
de 1888 –1890, página 140, Arquivo Público do Paraná.)
A beleza da baía, cercada por morros, mal podia ser
vista por causa das nuvens. Foi preciso embarcar em canoas, que os levou para a terra firme, no porto. Descansaram
por um dia na Hospedaria dos Imigrantes em Paranaguá.
Seguiram, então, para Curitiba, formando grupos de famílias, que, juntas, foram transportadas no lombo de mulas, ou
carroções puxados por bois de canga; as mudanças em
cestos de bambu dependurados no dorso dos animais.
Subiram a Serra do Mar, pelo caminho da Graciosa,
que ligava o porto de Paranaguá a Curitiba, capital da Província. Assustados, os imigrantes temiam sobremaneira as
montanhas, pois na região deles elas não existem.
As famílias ficaram em Curitiba, por diversas semanas, alojadas em hospedarias, as quais geralmente estavam
superlotadas, ocasionando problemas de doenças e mortes.
O acampamento estava montado onde hoje é a rua Sete de
Setembro, próximo à estação da estrada de ferro. Desde a
madrugada, passavam pela calçada de pedras, ruidosamente, os carros de boi, levando palha, lenha, carvão, verduras,
frutas e mercadorias diversas.
Mais tarde, com o pesado rumor das carroças, misturavam-se os sininhos dos bondes, depois, rápido e ameno
o ruído das carruagens, e de tempos em tempos, nervosas
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buzinas dos ainda muito raros automóveis. Pela calçada
passavam pessoas apressadas, sempre querendo chegar rápido nalgum lugar, nervosas e impacientes. Em cada porta
havia uma loja de alimentos, frutas, verduras, calçados,
panelas, roupas; e na rua ao lado, estavam armadas, em
duas filas, as barracas dos feirantes.
De Curitiba, eram os imigrantes transportados com
suas famílias e bagagens em grandes carroções puxados
por quatro parelhas de bois. Viajaram na direção sul, passando por Campo Largo, subiram a Serra de São Luís do
Purunã e, em direção à vila de Palmeira, onde se localizava
um dos escritórios da Comissão Colonizadora.
Até ali tinham percorrido 80 quilômetros, por caminhos de tropeiros, estreitos e esburacados, serpenteando
em campos compostos por vegetação baixa e gramíneas,
principalmente a chamada “barba de bode”, avistando-se
aqui e acolá capões de pinheiros nas baixadas. Das colinas e
plataformas de pedra surgiam nascentes de água que adiante formavam córregos velozes, precipitando-se em cavernas abertas entre as rochas no campo.
De Palmeira seguia uma rota de tropeiros; era uma
picada aberta no mato, que levava a São João do Triunfo,
Rio dos Patos (hoje Palmira), Água Branca e São Mateus.
A comitiva continuou a viagem rumo ao sul por esse caminho, que adentrava, do começo, por um mato ralo,
povoado de erva-mate, depois cada vez mais denso, fechado por imensas árvores de araucárias e imbuías.
Faziam-se 30 quilômetros por dia, acampando ao
entardecer, para preparar a comida e descansar a tropa. A
viagem transcorria tranqüila, os bois puxando a carroça,
com seu passo cadenciado e com o tinir dos cincerros de
latão, pendentes dos pescoços dos animais.
Atravessando rios no vau ou por pontes improvisadas de troncos, dentro da floresta de pinheiros, os carroções
49
rodaram por picadas recém-abertas e, ao anoitecer do quinto dia, chegaram à localidade onde seria fundada a Colônia
Água Branca; distante 20 quilômetros da vila de São Mateus, que se situava à margem direita do rio Iguaçu.
No local viam-se na encosta do morro algumas casas de caboclos; mas a caravana de carros de boi só parou
na proximidade do mato, à beira de uma lagoa. Antecipadamente, ali fora construído o acampamento composto de
diversos ranchos e compridas barracas de madeira lascada.
Os homens descarregaram os baús, pacotes e fardos,
soltaram os bois para pastarem e descansarem depois desta
longa viajem. As mulheres e crianças olhavam assustadas
ao redor. Algumas choravam desesperançadas, debruçadas
em tocos de árvores.
A selva parecia não ter princípio nem fim. Atrai e
amedronta ao mesmo tempo. Os pinheiros chegam a dois
metros de diâmetro na base e até trinta metros de altura, as
imbuías medem até três metros de grossura.
Em toda parte vêem-se as altaneiras palmeiras jarivá, que alimentam os porcos selvagens, pássaros, insetos e
os nativos, que ficam à espera dos frutos amarelos, doces,
quando maduros, que se desprendem dos cachos. Além dos
palmitos-juçara, as matas e os campos são ricos em árvores
frutíferas silvestres, como as jabuticabeiras, cerejeiras, pitangueiras, guabirobeiras, ariticum, ingazeiros, tarumãzeiros e ameixeiras amarelas.
As pessoas acenderam uma grande fogueira, aproveitando as grimpas e os galhos secos dos pinheiros, para
espantar os animais da floresta que podiam oferecer perigo.
Ao cair da tarde, na lagoa, entre o capinzal, começou o coro de sapos. Os pernilongos, borrachudos e os
mosquitinhos-pólvora começaram o seu banquete de sangue. Era a amostra do que os imigrantes iam passar.
50
COLÔNIA ÁGUA BRANCA
A Colônia Água Branca tomou o nome do rio, de
águas límpidas, que serpenteia pelos vales da região. As
enormes áreas de terras despovoadas, as chamadas terras
devolutas, pertenciam às Províncias ou ao Governo Imperial ou ainda a particulares que as receberam, em sesmarias,
do Imperador.
Em 1889, após a proclamação da República, todas
as províncias passaram a denominar-se “Estado”. O Governo Federal, com sede no Rio de Janeiro, ajuda os Estados
para a fundação de povoados e colonização, mediante créditos e outras facilidades.
Na Colônia Água Branca, fundada em 1890, a colonização estava sendo efetuada ordenadamente. Das primeiras levas que aqui chegaram foram assentadas 200 famílias nos lotes de terra demarcados. Vieram depois mais
imigrantes poloneses, ucranianos e alemães, na sua maioria
camponeses.
As famílias ficaram em grandes barracas esperando
a demarcação dos lotes rurais, que mediam 250 metros por
1.000 metros (25 hectares) de terra e custavam setenta e
cinco mil réis, para pagamento em 12 anos, em prestações
anuais. A demarcação dos lotes e o assentamento dos imigrantes ficaram a cargo do agrimensor polonês Edmundo
Sebastião Wos Saporski, que inclusive foi nomeado como
administrador-chefe da Colonização do Vale do Iguaçu.
O governo fornecia quinhentos réis por pessoa para
alimentação. Como a família de Jakób Gryczynski era de
seis pessoas, recebiam três mil réis por dia, o valor era pago
diariamente, isto era suficiente para comprar o açúcar mascavo, o sal, a carne de boi, feijão, farinha de trigo, uma melancia e banha de porco. Com o dinheiro recebido podiam
51
comprar o que faltava para completar a alimentação. As
mulheres cozinhavam as refeições nas barracas da família.
Os homens enquanto esperavam a demarcação do
seu quinhão de terra, trabalhavam na construção das estradas de acesso aos lotes. O governo da Província pagava
dois mil réis por dia, pelo trabalho.
O governo custeou, também, a condução até o local da fixação, financiou: a construção da casa no lote demarcado e forneceu pregos, fechaduras e dobradiças, além
das ferramentas, isto é, duas foices, duas enxadas, duas
vangas, duas picaretas, facão, sabre e serra.
Tudo isso custava duzentos mil réis, para pagamento
em 12 anos. Deu mais, enquanto os colonos não colhiam a
primeira safra, a administração da imigração garantia a alimentação. Os colonos ressarciam ao governo todos os gastos com assentamentos e abastecimento, em prestações anuais, em seis anos.
No começo passaram por grandes dificuldades. A
localidade, nessa época, foi assolada por uma epidemia de
tifo, que se alastrou nas barracas. Muitos morreram, especialmente os recém-chegados do Rio de Janeiro, que tinham
permanecido por algumas semanas na Ilha das Flores. A
situação era grave, pois não havia médico na sede da colônia, apenas uma pequena farmácia e um farmacêutico que
desempenhava a função de médico.
Criaram-se Núcleos de Colonização Oficial. Ao colono, após a demarcação da área, é entregue um título de
terra provisório, até que sejam saldadas todas as prestações, depois é entregue o título de propriedade, definitivo.
Caso o colono quisesse vender, bastava ir ao delegado da
colônia e este anotava a transação num livro apropriado.
Como auxiliar, na demarcação dos lotes de terra na
colônia Água Branca, foi designado o agrimensor Antenor
Tavares. Era uma pessoa singular; alto, de talhe delgado,
52
tinha a pele bronzeada pelo sol, de bigodes finos, olhos
negros vivos e cintilantes, simpático e sedutor, representava
bem o verdadeiro tipo do homem brasileiro.
De resto, ele conquistara praticamente toda a população; extrovertido, loquaz, fazia amigos com facilidade.
Levou os imigrantes pela mata adentro, onde cada um escolheu o seu pedaço de terra. Todos queriam assentar-se logo
no seu quinhão.
Jakób Gryczynski ficou com um lote de 25 hectares,
próximo ao acampamento, no caminho que levava à floresta. Demarcada a área, fincaram em cada canto, os marcos
feitos do cerne de troncos de árvore. Deixaram as carroças
na estrada e foram alargar as picadas da medição, para que
a condução pudesse passar. Levaram os pertences e depositaram no chão, em baixo dos pinheiros seculares.
A mãe e as irmãs não se conformavam. Tinham
medo da escuridão, dos animais selvagens e das cobras. Só
o pai, enfrentava tudo com a maior coragem. Tinha esperanças no dia de amanhã, acreditava no seu trabalho.
Parou diante da floresta, olhou em volta e comentou:
- Há tanta árvore e tanta vegetação aqui, como é que
vamos domar esse imenso sertão, derrubar tudo e plantar?
Em seguida ajoelhou-se no chão, fez o sinal da cruz
e comentou: “ Uma viagem de mil léguas começa com o
primeiro passo. Que Deus nos ajude. É para esse primeiro
passo que se precisa de energia. Como é que vamos limpar
isto? Cortaremos primeiro uma moita, depois outra, até que
tenhamos o espaço para uma casa e para a horta. Coragem
meus filhos, peguem os machados e vamos ao trabalho”.
Jakób cuspiu na mão e pegou o machado. Começou a cortar o mato. A vegetação era densa e o chão se
cobria de uma camada alta de folhas mortas, troncos apodrecidos, cipós e bambus gigantescos.
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O ar estava pesado e cheio de insetos, a luz do sol
escoava através de uma cobertura espessa de folhas, galhos
e frondes de palmeiras. Ouviam cantos de pássaros e avistavam de relance asas irisadas de um beija-flor que batiam
no ar, a colher o néctar das flores.
Derrubaram um canto da mata virgem e retiraram
os troncos grandes do espaço onde iam fazer o rancho. As
mulheres puxaram os galhos carbonizados para o lado e
limparam o lugar. Todos trabalhavam com afinco.
E muito antes do pôr-do-sol a cabana estava acabada
e todos a olhavam com uma sensação de triunfo. Mesmo
que as armações de bambu estivessem tortas, que o teto de
folhas de palmeira fora colocado muito grosseiramente, a
casa estava ali. Teriam onde passar a noite. Pode-se imaginar que casa era essa, construída sem pregos e sem ferramentas certas. Tudo estava trançado e amarrado com cipós.
Só depois de dois meses e que conseguiram ter uma
moradia decente. Foi preciso procurar um lugar adequado
para construir a casa definitiva, num lugar plano e perto
dum córrego. Queriam ter novamente uma casa decente.
Um lugar só deles. Estavam cansados da peregrinação, das
carroças, dos acampamentos, da vida nômade sem teto.
Os homens lascaram a madeira, com cunhas de ferro, dos pinheiros derrubados na floresta, fizeram vigas,
tábuas, tabuinhas para o telhado, levantaram e cobriram a
casa que era construída em dois pavimentos; em cima ficavam os quartos e embaixo a cozinha e a sala.
Os móveis rústicos foram feitos, também, por eles.
Mesa, cadeiras, bancos, camas e armários. Jakób fez o fogão de pedra com trempe de ferro e forno de barro para
assar o pão.
Agora, precisavam com urgência fazer a plantação
de subsistência. Chegou a hora de derrubar a mata virgem e
preparar a terra para o plantio. Nas mãos fortes do imi54
grante desde a manhã até a noite as foices e os machados
cortavam as árvores menores, arbustos e taquaras. Esta nesga de mata derrubada, depois de seca, foi queimada.
Seguindo o costume dos caboclos locais, plantaram
as sementes, abrindo covas com vangas (vara comprida
com lâmina de ferro na ponta) no solo coberto de cinza, da
queimada, entre os tocos alguns ainda fumegantes, a cada
dois passos, jogavam na cova três grãos de milho ou feijão, cobrindo-a de terra com o pé.
Nessas queimadas, as ervas daninhas não proliferavam tão rapidamente, a terra estava mais livre das pragas.
Não era preciso nem capinar, só passar o facão para cortar
os brotos do taquaruçu, tipo de bambu grimpante (Bambusa
tagoara), que cresce mais rápido, e esperar a colheita.
É urgente e necessário afastar tudo que atrapalha o
homem no seu desejo de vencer. Não há tempo de admirar
a natureza. Ninguém olha para a bela orquídea de flores
purpúreas, que cai junto com a árvore. Os cálices alongados, de cores fantásticas, brilham entre os entrelaçados galhos, cipós, folhas e bambus.
Os cipós gigantes às vezes com 60 centímetros de
espessura sobem e enrolam-se nos troncos altos, servem de
caminho para os animais trepadores. Muitas plantas e grande variedade de orquídeas e caraguatás (bromélias) aumentam a exibição do colorido das flores silvestres.
Derrubar a mata ! O quanto antes! Embrenhar-se depressa no maciço do sertão secular. Cortaram as árvores
menores, deixando em pé as gigantes. Precisavam de uma
passagem e fizeram um túnel com três metros de largura e
cinco quilômetros de comprimento no meio da floresta indevassável, que não tinha sido ainda tocada por mãos humanas. Aparecera uma abóbada de galhos, cipós e lianas,
entrelaçados, três metros acima do chão. Por dentro deste
túnel Jakób fez a estrada, que levava até o final do seu lote.
55
Os filhos não diziam uma só palavra de reclamação.
Era preciso levantar as quatro horas da manhã, calçar as
botas de cano alto, levar as foices, machados, a serra e ir
enfrentar o sertão. Caminharam, com o senhor Juca na frente, caboclo acostumado na lida, que os ajudava na derrubada, fumando cigarro de palha para espantar os pernilongos,
conversando, mesmo contra a vontade.
Estavam percorrendo uma trilha batida, pelo meio
da plantação de milho, que carregado de espigas, já amarelando, prometia uma colheita farta. Curvados para a terra,
os cachos floridos de centeio alcançavam até os ombros, e
em cada um deles estavam suspensos grandes gotas de orvalho.Com prazer, Jakób passava a mão pelos cachos molhados e permitia que lhe batessem no rosto. Que perfume
gostoso... Lembrava-lhe a sua terra natal.
De vez em quando soprava uma brisa morna, vinda
do rio Iguaçu, como um sopro úmido da terra escondida nas
brumas. Não agita as paredes de centeio, mas balança-as em
ondas, afaga, toca-as levemente como num longo beijo.
Então as espigas, sonolentas oscilam, e silencioso murmúrio corre entre os trigais. Sacudidas, as gotas soltam-se da
superfície dos cachos e caem aos pés das plantas, amarelados pelo pó, ficam suspensas aí até de madrugada.
A pequena plantação de milho e centeio pertencia a
um imigrante polonês que tinha chegado a Água Branca
numa leva anterior, no meado do ano, e já conseguira domar um pedaço do seu quinhão.
De longe, do centro da mata, na beira do rio, ouvese o canto do sabiá madrugador; corre pelo orvalho seu
terno chamado para a companheira. De repente, o silêncio
prolongado; até que surgem novos acordes extasiantes,
apaixonados, um melodioso canto de amor...
E este também silencia nos campos distantes...
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Então, surpresos, os pinheirais ouvem a fragmentada
e alegre explosão do canto da fêmea, cheio de ternura e
saudade... Vem mesclados ao murmúrio das águas do Iguaçu e o farfalhar das folhas das plantas ribeirinhas e das
esguias palmeiras que circundavam a margem do rio.
***
A comunidade de Água Branca crescia e se estruturava.Organizavam-se festejos, leilões, comemorações, tudo,
com a finalidade de angariar fundos dirigidos para a construção e sustento da escola e término da igreja. Precisavam
também cercar a área de terreno destinada ao cemitério. O
trabalho era voluntário, portanto, dependia de tempo e muita dedicação da população.
Um mês depois de construída a escola, veio uma
tempestade violenta e derrubou a casa. Levou mais três meses e uma nova escola estava em pé. Desta vez era uma
construção sólida, agüentaria qualquer tormenta mais forte.
Anexo fora construída a habitação para o professor.
Uma pequena dependência, com um quarto de dormir, onde
havia uma mesa, lamparina a querosene e uma cama grande feita de madeira bruta. Uma salinha com mesa e bancos
de madeira. Cozinha, com fogão de pedra e chapa de ferro,
em cima a chaleira, caneca de ágata e algumas panelas de
ferro. No terreiro cercado, o poço com sarilho e balde.
Providenciaram também lenha para queimar, colocaram-na embaixo da cerca da escola. Construíram no pátio
duas casinhas, com fosso, para servir como sanitários.
O professor Stanislaw Slonina veio de São Mateus
e procurou por Jakób Gryczynski. Este levou-o até a escola.
Abriu a porta; o interior da sala obscuro cheirava a mofo,
abriu as janelas e a luz do sol clareou o ambiente.
Na sala havia duas carreiras de bancos escolares,
com assento para quatro alunos. Um grande quadro negro
57
dependurado na parede. Giz branco e apagador. No canto
uma talha de barro para água.
Jakób estava preocupado. Transmitiu a sua inquietude ao professor, informando-o:
- Há muita criança para alfabetizar, mas não sei se
todos vão mandá-las à escola. Custará três mil réis por mês
por aluno, mas nem todos podem pagar.
Fato inédito que, mesmo os colonos sendo na maioria analfabetos cuidavam para que seus filhos soubessem ao
menos ler e escrever. Quando não havia professor, os colonos mais instruídos alfabetizavam as crianças. Desde a
fundação das colônias, muitos professores e padres passaram por ali, alfabetizando, educando, aconselhando, dando
assistência espiritual ao povo, que muitas vezes estava desesperado com a situação, sem ter a quem recorrer.
Em 1897 na escola que funcionava em Água Branca lecionou o padre Ignacy Wróbel. Também é digno de
nota o trabalho dedicado, dos professores Feliks Krzyzanowski, Jan Lech, Stanislaw Slonina, Konrad Jeziorowski,
Eugeniusz Radlinski, Stanislaw Borecki, Stefan Radecki,
dos padres Wladyslaw Smolucha, Ludwig Przytarski, Franciszek Zdzieblo, e outros heróis anônimos.
Eles viajavam a cavalo, por picadas no meio da floresta, por falta de estradas. Os rios transbordavam na época
das chuvas e eram obrigados atravessá-los a cavalo. Aumentavam ainda mais as dificuldades quando surgiam tormentas inesperadas, e o temporal derrubava árvores e galhos nas picadas recém-abertas e trancava o caminho.
Era preciso desimpedir a passagem ou procurar
uma trilha alternativa no meio da mata. As pessoas ficavam
expostas à chuva o dia todo, chegavam molhados até o
último fio, e nem sempre havia roupas para trocar.
***
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Estavam sentados, à tarde, na varanda da casa nova,
o colono Jakób Gryczynski, sua mulher e alguns vizinhos,
tomando chimarrão. Conversavam...
- É singular – disse Jakób - Minha Jozepha disse
uma noite destas que a única coisa de que ela sente falta
aqui é da igreja e da missa de domingo. Apesar de que algumas pessoas não tenham qualquer espécie de religião. Eu
penso que cada homem vai para o seu Deus por sua própria
estrada e que todos os deuses são imagens de um só Deus
“O Criador do Universo”. Tenho veneração, tenho respeito
pela religião. Uma oração dá segurança como um bordão,
no caminho da vida. Há sempre um medo no coração do
homem e é só a Deus que se podem confiar esses receios,
pois as pessoas nunca deixam de ser crianças – completou.
Com a colaboração dos colonos, sem demora, foi
construída uma capela no alto da colina. Logo abaixo foi
cercado o terreno para o cemitério. Em 1900, o governador
do Paraná, Francisco Xavier da Silva, passou a posse definitiva para a Irmandade de São José de um terreno de
214.000 metros quadrados, lugar onde já tinham sido construídos a igreja, a escola, o cemitério e a casa paroquial.
Em 4 de setembro de 1891, chegou o padre Ludovico Przytarski, que foi designado pelo bispo da diocese de
Curitiba, para atender aos habitantes de Água Branca.
Trouxe consigo a correspondência destinada à colônia.
Entre estas havia diversas cartas para Stephania
Gryczynska. Trêmula, ela pegou as cartas acumuladas por
meses, em Curitiba, que eram do seu marido Mathaei
Kuczynski (Zbigniew Orlowski).
Uma carta distinguia-se entre as outras, encimada
com o brasão do conde Poniatowski. Stephania, nervosa,
prevendo algo terrível, abriu-a primeiro. O envelope continha um bilhete afetuoso da condessa Maria, sua madrinha,
dizendo-se constrangida em dar-lhe esta triste notícia, mas
59
que sinceramente compartilhava da sua dor. Explicava ter
recebido àquela carta dos Orlowski, pais do seu noivo
Zbigniew e achou mais acertado enviá-la dentro do mesmo
envelope. Stephania leu a carta que estava com tarja preta e
emblema do governo russo. A missiva com o timbre oficial
vinha, assim redigida:
Bialistok, 28 de março de1891.
Caros amigos, Laurenti Orlowski e esposa Delfina.
O Comando Geral do Exército Russo de Bialistok,
encarregou-me de transmitir-lhes a infausta notícia de falecimento do vosso filho. O tenente Zbigniew Orlowski
morreu em combate, como herói, cumprindo o dever de um
soldado devotado à pátria. Comandava um destacamento
de bravos soldados cossacos, no extremo sul da Sibéria,
defendendo nossas fronteiras invadidas por mongóis.
Ao casal amigo, envio sinceras condolências.
General Aleixo Nikolayewicz Kuropatkine.
Stephania, ao inteirar-se do conteúdo da carta, olhou desvairada para o pai e com um gemido de dor, desmaiou. O destino não a deixava em paz, truncava mais uma
vez o seu caminho, não lhe permitia ser feliz. Agora não
tinha mais motivos para voltar à Polônia. A vida não tinha
mais sentido para ela. Uma febre persistente manifestou-se
e tomou conta do seu corpo enfraquecido, por longos dias.
Stephania delirava, e na sua inconsciência chamava pelo
marido e pelo filhinho que perdera para o mar.
A família preocupava-se com sua saúde. Chamaram
o boticário, único na colônia que poderia medicá-la. Depois
veio o pajé dos índios Kaingang efetuar os rituais de cura.
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Fez defumações com ervas, cantou e dançou em volta dela, batendo o tambor, gesticulou com as mãos para
espantar os maus espíritos. Veio o padre para exorcizar,
confessar e orar por ela. Recriminou o pai por ter recorrido
à pajelança dos índios. Parece que alguma coisa adiantou,
pois no outro dia ela acordou do seu desvario.
Levantou da cama, lívida. Parecia mais um fantasma. A camisola branca ressaltava a palidez do rosto, o encovado dos olhos e o ricto de dor na boca. Não falava com
ninguém, trêmula, sofria em silêncio. Mas, com o correr
dos dias esta tristeza passou, e ela retomou a vida, ajudando
a mãe nos afazeres da casa.
O padre Ludovico Przytarski trabalhou na colônia
até 1896. Foi substituído pelo padre Jakób Wróbel, que
atendia também, as colônias de São Mateus e Rio dos Patos,. sendo substituído pelo padre Francisco Komander.
O padre Jakób Wróbel visitava a família com freqüência, gostava de discutir com Gryczynski os assuntos
da comunidade. Permaneceu em Água Branca desde 1891
até 1914, portanto, durante vinte e três anos, trabalhou junto à população de Água Branca, assistindo também as
1.600 famílias de fiéis da Colônia Rio Claro.
Um dos maiores legados deixados pelos imigrantes
poloneses que vieram entre os anos de 1890 e 1892 é a igreja da Colônia Água Branca. Esta igreja foi projetada em
forma de cruz, concluída em 1900. Toda a madeira utilizada
na construção foi serrada a mão pelos colonos. Além do
altar central, nas laterais existem quatro altares, todos trabalhados com entalhes em madeira de imbuía. Os quadros da
Via-sacra e dos Santos vieram da Polônia e da Bélgica.
Em 1916 chegou a Água Branca o padre Estanislau
Piasecki, que ficou até 1920, sendo substituído pelo padre
João Wróbel. Em março de 1922 assumiu a paróquia o
padre João Zygmunt, que ali ficaria por 30 anos. Pessoa
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progressista, tratou de restaurar e pintar a igreja. Contratou
o trabalho artístico do pintor Ewaldo Dukat, de Irati.
A Igreja Polonesa de Água Branca é um dos importantes pontos turísticos da época da colonização, é admirada
pela sua arquitetura em madeira e beleza da pintura interna
dos seus cinco altares. Com a proibição do funcionamento
das escolas em língua estrangeira, também foram proibidas
as missas e os sermões em polonês, fato que causou danos
irreparáveis à coletividade polonesa .O povo ficou descontente e deixou de freqüentar a igreja.
Água Branca, antigamente, uma rica e renomada paróquia, hoje é uma colônia solitária e abandonada. No alto
da colina situam-se a antiga igreja e o convento religioso,
cercados de ervais e pinheiros novos. Adiante, espalhadas
algumas casas, uma ferraria, uma bodega, um depósito de
erva-mate fechado. A colônia decaiu com a queda dos preços da erva-mate. Depois de 110 anos, nem a escola paroquial, nem a igreja conseguiram manter-se.
A uns cem metros da igreja, no declive da elevação
fica, a beira da estrada que leva de São Mateus a São João
do Triunfo, o velho Cemitério dos Imigrantes. Cercado de
muro em ruínas, coberto de mato, em túmulos antigos e
bastante danificados repousam os corpos das vítimas de
epidemias de disenteria bacilar e tifo, doenças que se alastraram pelos acampamentos, ceifando a vida de crianças e
velhos. Estão enterrados ali muitos pioneiros homens e mulheres que vieram em busca de dias melhores para suas famílias. A maioria dos túmulos está sem placas e não se sabe
quem ali repousa
O cemitério está dividido por uma rua; de um lado
estão os túmulos dos imigrantes, de tijolos comuns, já quase
destruídos pelo tempo, e do outro lado estão enterrados os
nativos, em suas sepulturas singelas, pintadas de branco
encimadas de cruzes de madeira e coroas de papel colorido.
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ERVA-MATE
Através dos planaltos, no sul e sudoeste paranaense,
os ervais se estendem até a barranca do rio Paraná, penetrando na região sul de Mato Grosso do Sul, norte e oeste
de Santa Catarina e ainda se distribui pela zona serrana do
Rio Grande do Sul, região de clima temperado, de altitude
acima de 400 metros. A árvore que produz a erva-mate é
silvestre (Ilex paraguariensis) pertence à família das Aqüifoliáceas.
A erveira adulta possui a aparência de uma laranjeira. Seu tronco, de casca lisa e esbranquiçada, tem cerca de
30 cm de espessura, possuindo folhas perenes, de cor verde
escura. Sua estatura varia de 6 a 8 metros de altura, o tronco
é reto com muitos ramos alternados. Cresce em associação
com o pinheiro nos ambientes ecológicos determinados
pelos rios: Paraná, Paraguai, Uruguai e seus afluentes.
O uso da erva-mate é pré-colombiana. Por suas inúmeras propriedades, foi o alimento básico dos índios
Guarani que mascavam a folha da erva. Quando os conquistadores aqui chegaram, já encontraram este costume difundido entre nossos silvícolas. Os imigrantes vindos muitos
anos depois aprenderam a usá-lo também. Provavelmente a
cafeína que se encontra na erva-mate habitua o organismo a
consumi-la.
O termo “MATE” é proveniente da língua quíchua
(povo aborígine do Peru), “mati” que era a designação da
cuia (feita de porongo), recipiente onde é feita a infusão das
folhas moídas da erva-mate, com água quente (chimarrão)
ou fria (tererê). Esta bebida é conhecida e usada pelos habitantes do Sul do Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina.
A produção de erva-mate era transportada, inicialmente, para o litoral, acondicionada em grandes sacos de
63
couro (surrões), no lombo de mulas, que seguiam em tropas, descendo pelos estreitos caminhos da Serra do Mar.
Somente com a abertura, mesmo que precária, da
Estrada da Graciosa, em 1808, o caminho passou a oferecer
melhores condições para o transporte de mercadorias, ainda que no lombo de muares em volumes alçados às cangalhas, e eventualmente levados em carros de bois.
A exploração da erva-mate teve maior incentivo
em 1820. O Paraguai era então o maior produtor da América do Sul. Na segunda metade de século XIX, a grande procura pela erva-mate elevou o seu preço. A alta cotação do
produto ficou estável durante vários anos. Foi responsável
pelo produtivo ciclo econômico da história paranaense, que
teve seu apogeu no século .XIX. Sobressaindo-se, a atividade ervateira chegou a representar 85 % da economia da
nova Província do Paraná.
Instalaram-se indústrias de beneficiamento da ervamate. Prosperaram cidades como Guaíra, colonizada pela
Companhia Mate Laranjeira S.A, que obteve em 1882, por
decreto Imperial, a concessão para exploração da erva-mate
no sul do Mato Grosso, no sul e oeste paranaense. Foi na
esteira desse ciclo que os transportes tiveram grande impulso e desenvolveu-se a navegação nos rios Paraná e Iguaçu.
Construiu-se a Estrada da Graciosa. Entretanto, foi
somente em 1873 que esta Estrada foi concluída definitivamente, e o transporte da erva-mate passou a ser feito em
carroções eslavos, introduzidos no Paraná pelo imigrante
polonês, muito mais eficientes, puxados por quatro parelhas de cavalos. Também era utilizado no transporte da erva-mate do interior até Curitiba.
O feito de maior importância para a economia foi a
construção da Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá, que é
até hoje considerada uma obra notável de engenharia, construída em cinco anos, numa época (1880-1886) de precários
64
recursos técnicos, numa região extremamente acidentada,
entre o litoral marítimo e o primeiro planalto, separados
pelos contrafortes abruptos e íngremes da Serra do Mar.
Entre os anos de 1825 e 1925, durante cem anos, a indústria
e o comércio da erva-mate tiveram um ciclo de ouro, foram
o sustentáculo da economia paranaense.
Quando a Argentina ganhou a questão de limites,
em 1910, e o território de Missões passou a pertencer-lhe,
tratou de povoar aquela área, dividindo as terras, estimulando e financiando o plantio da erva-mate.
Em 1932 a Argentina tornou-se auto-suficiente e o
Brasil perdeu seu principal mercado consumidor, além de
ganhar um forte concorrente nos mercados internacionais.
Começou a crise no comércio do produto e os preços caíram sensivelmente.
***
O curto dia de inverno já estava declinando, mas
no erval do colono Jakób Gryczynski, ainda o trabalho
continuava. Compridos facões brilhavam sem descanso, os
galhos cobertos de folhas caiam no chão, podados, dos pés
da erva-mate. As árvores sobressaiam contra o céu da tarde como esqueletos, com os troncos mutilados.
Os galhos verdes apanhados por fortes braços dos
colonos eram levados até a grande fogueira onde os homens
pegavam ramo por ramo e passavam sobre a labareda forte,
sapecando leve as folhas verde escuras.
Em seguida, arrancavam as folhas dos ramos sapecados e os levavam, em grandes braçadas para o secadouro.
As folhas eram espalhadas em cima do jirau de madeira,
para secar com o ar quente da fogueira que fluía debaixo do
estrado. Depois de seca era moída.
Alguns produtores de erva-mate adotavam na sua
fabricação o ”Barbaquá”, um sistema rudimentar, constituído de forno e carijo, onde eram depositados os feixes de
65
erva para a secagem, e a cancha perfurada, onde se processava a moagem das folhas de erva, em moinhos acionados
por tração animal. O produto saia como “erva cancheada”.
A erva era acondicionada em sacos de couro (surrões) e transportados no lombo de muares, para ser vendida,
em São Mateus. Após ser beneficiada em moinhos adequados, o produto era exportado para os mercados platinos. A
produção da erva-mate deu a muitos habitantes da região
de São Mateus o apelido de nobreza verde. A família de
Jakób Gryczynski era uma delas.
Os imigrantes levaram a erva ao seu maior período
áureo. As barcaças do rio Iguaçu rivalizavam em transportar a erva e a madeira para mercados consumidores. No
início, a economia das colônias de imigrantes baseava-se na
agricultura, na extração da madeira abundante na região e
da erva-mate, nativa nos campos e florestas do Paraná.
Sua importância econômica como principal produto
paranaense ultrapassou o período colonial e, até a Primeira
Guerra Mundial, foi o esteio da sua riqueza. Com o progresso econômico e social, o Paraná foi introduzido nos
tempos modernos. Também a suinocultura desenvolveu-se
nas colônias espalhadas pelo interior do Estado e sobretudo
nas frentes de colonização, nas entradas dos sertões.
Para os caboclos, a criação de porcos era uma atividade rotineira. Criavam-nos soltos nos campos. Quando
iam fazer uma “safra” de porcos, derrubavam um grande
trecho de mato, isolado, depois de seco ateavam fogo e, no
meio de tocos e coivaras, plantavam o milho com vanga.
Na época apropriada, quando o milho já estava maduro, soltavam os porcos magros no milharal. Lá eles cresciam e engordavam, depois eram vendidos aos safristas.
Estes formavam varas de até 1.000 cabeças e levavam-nos
tropeando, isto é, a pé, até os mercados compradores.
66
COLÔNIA SÃO MATEUS
A povoação que deu origem à São Mateus surgiu
como pouso de tropeiros. Por ser estrategicamente localizado, o governador da Capitania de São Paulo, Dom Luís
Antônio de Souza Botelho Mourão (governou de 1765 a
1776), ordenou que se estabelecesse naquele lugar uma
base que servisse como setor de apoio às bandeiras militares enviadas, com o objetivo da conquista de Guarapuava.
O tenente Bruno da Costa Figueiras, chefe da Quarta Expedição, foi o primeiro homem branco a pisar as terras de São Mateus em 1769. A maior preocupação da Coroa era a perda do território, que hoje compreende o Oeste e
Sudoeste paranaense, para os argentinos que avançavam em
nossos ervais, tal como o cupim na madeira.
O primeiro contingente humano que ali se estabeleceu foi constituído por caboclos (mestiços de índios e portugueses), em 1775. Ao longo dos anos, o lugarejo foi se
consolidando. Em 1885 chegou uma pequena parcela de
imigrantes alemães e espanhóis.
Inicialmente o povoado recebeu o nome de Porto
Santa Maria, mais tarde foi denominado de Maria Augusta,
em homenagem à esposa do engenheiro-chefe, José Carvalho Sobrinho, um dos administradores da nova colônia.
Finalmente recebeu o nome de São Mateus.
A vila localiza-se numa pequena elevação, a 30
metros acima das águas do rio Iguaçu que mede 150 metros
de largura, neste local.
No início a sede da futura cidade foi estabelecida no
Velho Porto. Entretanto, o rio em certas épocas do ano alagava todo o terreno das baixadas e criava problemas aos
moradores. Conseqüentemente, o local para a futura vila
foi transferido e a preferência recaiu sobre a parte mais
alta do sítio.
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A região escolhida situa-se entre três rios, assemelha-se a uma península, pois é banhada ao sul pelo rio Iguaçu, a oeste pelo rio Canoas e a leste pelo Taquaral, que
deságuam no rio Iguaçu. Atualmente, com a instalação da
usina, o rio Taquaral fornece água tratada à população.
Os sertões em ambas as margens do Iguaçu eram
esparsamente habitadas por caboclos e índios. Nas bordas
das extensas florestas e campos, havia primitivas estradas
para carretões de duas rodas altas puxados por bois, introduzidas pelos portugueses. Penetravam no interior da selva
caminhos para passagem de burros de carga, que mais à
frente transformavam-se em picadas abertas por caçadores,
caboclos e índios.
Um dos fatores que mais contribuiu para facilitar o
trânsito e a comunicação entre a vila de São Mateus e a
capital, foi a implantação da navegação no Rio Iguaçu, no
trecho entre as cataratas de Caiacanga (Porto Amazonas) e
Porto União, que teve início no dia 19 de abril de 1879.
O coronel Amazonas de Araújo Marcondes recebeu
a autorização de D. Pedro II, para explorar a navegação
fluvial, mediante o decreto Imperial n° 7248.
Os primeiros vapores a navegar no rio Iguaçu foram o “Cruzeiro” lançado às águas no dia 17 de dezembro
de 1882, o “Iguaçu” e dezenas de outras barcaças, pertencentes à firmas particulares, trafegaram pelo rio. Com a
chegada da navegação a vapor, São Mateus passou a ser um
importante porto e centro comercial da região.
Operando no tráfego de passageiros e cargas, proporcionou um grande impulso no seu desenvolvimento.
Muita madeira e erva-mate foram transportadas por esta via
fluvial. Durante 75 anos os vapores entravam pelo leito
tortuoso do rio no interior da mata virgem. Transportavam
imigrantes, caboclos, caçadores, lavradores, comerciantes,
mascates, donos de serrarias, bandidos e arruaceiros. Dia e
68
noite as sirenes anunciavam a chegada ou partida destas
fantásticas máquinas, através da bacia do Iguaçu.
Em 1890, foram fundadas duas Comissões de Colonização, uma no vale do rio Iguaçu, abrangendo o município de Palmeira, outra no vale do Rio Negro. Na jurisdição
de Palmeira, são criadas colônias polonesas de Santa Bárbara, Canta Galo, Rio dos Patos, São Mateus, Água Branca, Rio Claro, Rio Baio.
Mais tarde houve a colonização da infausta Cruz
Machado, de Paulo Frontim, Marechal Mallet, Antônio
Olinto e São João do Triunfo. Foram ali assentados 8.200
imigrantes poloneses e ucranianos. A colonização desta
região teve o seu ponto alto entre os anos de 1890 a 1892.
Os imigrantes vinham atraídos pelos incentivos do
governo brasileiro. Multidões de pessoas chegaram ao sul
do Paraná, através do rio Iguaçu. Embarcavam no Porto
Amazonas e após 13 horas de viajem, rio abaixo, atingiam
o Porto de São Mateus, o ponto de largada para a conquista
dos grandes sertões paranaenses.
São Mateus era uma colônia de administração oficial. O governo não tinha funcionários preparados para receber e administrar essa avalanche humana. Por isso o descontrole. A decepção e o desencanto dos imigrantes foram
enormes ao chegarem a Colônia São Mateus, pois nada
correspondia a propaganda feita na Europa pelos agentes do
governo brasileiro. Muitos se sentiram enganados e quiseram voltar para sua terra. Muitos debandaram.
Em muitos núcleos, era assustador o estado de saúde
das pessoas, por causa da epidemia de tifo e disenteria bacilar, que grassava nas barracas e acampamentos, doenças
essas provocadas pelo acúmulo de pessoas e falta de higiene, e a desordem administrativa. Não havia médicos nem
remédios. Morriam adultos e crianças diariamente. Isso
tudo levava o imigrante ao desespero.
69
O clima e a comida a que não estavam acostumados, o calor e o mormaço na clareira encravada no denso
matagal da floresta virgem, colaboraram para o mal-estar
daquela gente e o desânimo era geral. Só os fortes de corpo
e de espírito ficaram..Passaram por muitas dificuldades,
tendo que esperar até seis meses em ranchos cobertos de
capim e barracas coletivas, até demarcação dos seus lotes.
As terras das margens do Iguaçu e afluentes foram
povoadas quase exclusivamente por imigrantes poloneses.
Para medição destas glebas foi designada a Comissão de
Terras. Eram grandes extensões de terras devolutas, férteis,
cobertas de florestas de araucárias, imbuías, cedros e ervamate, pertencentes ao governo do Império, aposseadas por
particulares, que foram dali retirados.
Nessa Comissão trabalhava o agrimensor polonês
Edmund Sebastian Wos Saporski, nomeado pelo governo
Administrador-chefe das colônias de São Mateus e Água
Branca. Trouxe diversos benefícios aos colonos, como intérprete e intermediário nas petições entre eles e as autoridades brasileiras.
A ele foi confiada a realização dos levantamentos
das terras, da demarcação das estradas regionais, vicinais e
lotes em São Mateus e Água Branca, bem como a definição
do lugar para a sede das colônias. Pode-se incluir Saporski
entre os fundadores de São Mateus. Ele elaborou o projeto
e a localização do porto no rio Iguaçu.
Na nova sede foram demarcados 78 lotes urbanos,
as praças, as ruas, os lugares para as futuras casas comerciais, para a igreja e o cemitério. Fundou-se ali o povoado.
No local havia alguns casebres de caboclos, outros em
construção. Adiante viam-se algumas choupanas de pau-apique cobertas com folhas de palmeira.
Havia apenas duas casas comerciais. Uma pertencia
a Plínio Miro, o qual contratou com o governo o forneci70
mento de víveres, utensílios domésticos e ferramentas, para
os imigrantes. Outra, aos primeiros intelectuais que afluíram a São Mateus, Antônio Bodziak e Onofre Flizikowski,
os quais fundaram, em sociedade, uma casa comercial.
Ao redor de São Mateus foram localizadas as quatro colônias. A Iguaçu com 70 lotes, a Taquaral com 77
lotes, a Cachoeira com 73 lotes, e a quarta com 25 lotes
recebeu o nome de Canoas. Todas essas colônias foram
instaladas junto aos rios do mesmo nome, e assim nomeadas pelo padre Ladislau Smolucha. Os lotes tinham 250
metros de frente por 1000 metros de fundo, o que perfazia
25 hectares de terra.
Rasgaram-se caminhos no seio da mata onde antes
só havia picadas. As estradas tinham o seu ponto de partida
da vila de São Mateus, continuando por serras, colinas e
baixadas, num serpentear infindo. Dos dois lados dos caminhos, construíram-se as casas dos colonos.
A floresta nos terrenos demarcados foi derrubada,
seca e queimada, apenas os tocos das árvores fumegavam e,
durante as noites, com o soprar do vento lançavam faiscas
como fogos fátuos.
Muitas pessoas trabalhavam sozinhas nesta selva
centenária, sem outros instrumentos além de um machado,
um facão de mato e uma foice. Quando conseguiam desbravar uma área de 50 metros quadrados, empilhavam o
mato rasteiro e os pequenos arbustos, e os queimavam juntando gravetos e palhas secas.
Construíam um abrigo provisório de bambu coberto
com folhas de palmeira, para passar a primeira noite. Em
volta do rancho, depois de aberta a clareira, preparavam a
terra para plantio. Por entre os tocos das árvores, era plantada a batatinha, o repolho, o milho, o feijão e o centeio.
Não se arava nem virava a terra, isto era impossível
por causa dos entulhos gigantes no chão.
71
Em abril colhe-se o milho. A roça, quebrada, fica
reunida nos montes do milho já seco, esparsos por toda a
lavoura. Enchem-se os cestos de taquara, que estão presos
nas costas das mulas. Os animais carregados vão em fila
pela trilha estreita despejar a carga à porta dos paióis.
O feijão e o centeio são malhados com vara ou com
cambau. Mais tarde surgiu a malhadeira movida manualmente, que não separava a semente da palha. Depois veio o
ventilador que retirava a palha, também movido a braço do
colono.
Em maio e junho de 1891, choveu continuamente,
sem cessar por muito dias. O rio Iguaçu transbordou de tal
forma que o vale transformou-se num lago. A parte baixa
da cidade foi totalmente inundada. As colônias ficaram isoladas da sede, e os moradores não podiam vir abastecer-se
de mantimentos.
Quando finalmente, em agosto, as águas baixaram, a
região foi afetada por uma epidemia de tifo. Grande foi,
então, a mortandade entre os imigrantes. A colônia não
possuía médico. Existia apenas uma farmácia cujo proprietário desempenhava a função de enfermeiro.
O imigrante era desconfiado em relação a qualquer
auxílio. Essa desconfiança é uma herança psicológica trazida do seu país de origem, enraizada por cinco gerações consecutivas, como estigma da ocupação estrangeira.
O colono tinha receio de ser enganado e explorado.
Possuía uma profunda desconfiança por indivíduos urbanos,
letrados. Era a falta de experiência de fazer parte de associações, pois na Polônia era proibido esse tipo de atividade.
Os imigrantes que vieram ao Paraná com dinheiro
e às suas custas, podiam dedicar-se ao comércio, instalar
bodegas, açougues, hotéis, enfim, ocupar-se com qualquer
atividade específica, podiam também escolher a quantidade
de terra e o lugar onde queriam ficar; não seriam empurra72
dos para perto dos ferozes índios botocudos, que habitavam o interior da selva.
Num sábado de outubro de 1890, correu a notícia
que domingo haveria missa em São Mateus; seria oficiada
pelo padre Peters que chegara à vila naquele dia. De todas
as colônias afluiu gente; as pessoas vinham de carroças, a
cavalo e a pé. Homens, mulheres, crianças e velhos acotovelavam-se próximo à tenda armada na praça da vila. A
missa foi celebrada em uma barraca de lona, levantada no
lugar onde hoje se ergue a igreja matriz.
Quando o padre Peters começou a celebração da
missa, pelos rostos cansados, queimados pelo sol, escorriam
lágrimas de emoção, pois havia muito tempo que não assistiam ao ofício religioso. Do púlpito feito de caixotes de
madeira, o padre fez um longo sermão, encorajando-os a
resistir no trabalho duro, porque só assim poderiam soerguer-se da situação penosa em que se encontravam.
Ele falou ao povo aglomerado em frente da barraca:
“Nós todos abandonamos a pátria, porque estava
superpovoada. Pessoas arrancavam o trabalho do outro porque havia mais trabalhadores do que empregadores. Aqui a
situação está difícil, mas precisamos contentar-nos com isso
que nos deram. A crise passa se trabalharmos firmes; desenvolveremos essa terra e conseguiremos o nosso pedaço
de pão. Não esperemos que os outros nos o dêem. Sei que
queriam que fosse diferente, mas tudo leva tempo, persistência e muito trabalho”.
Terminada a missa, houve muitos casamentos e batizados, pois nenhum padre havia passado pelo povoado,
recentemente. Em agosto de 1891, chegou à colônia o padre
Ladislau Smolucha, que ocupou o cargo de pároco até
1916, durante mais de vinte e cinco anos de trabalho profícuo. Em 1896 foi fundada a Capelania de São Mateus, liga-
73
da à Diocese de Curitiba, por D. José de Camargo Barros,
bispo de Curitiba.
Depois das primeiras frustrações e desencantos, os
colonos começaram a organizar-se. De início agruparam-se
em torno da igreja e do padre. A construção da igreja polonesa em São Mateus foi uma das primeiras realizações da
colônia. Seguiu-se a fundação da paróquia, em 1891, tendo
o padre Franciszek Zdzieblo como pároco.
Próximo à capela recém-construída foi edificada
uma torre de madeira de dois pilares, onde se instalou o
sino doado pelo comerciante Flizikowski. No Natal daquele
ano, o repicar do sino seria ouvido pela primeira vez pelos
sertões do vale Iguaçu.
Em 1912, Ewaldo Dukat, pintor talentoso, vindo da
Colônia Irati, foi encarregado de pintar a igreja por dentro
e por fora. Com grande maestria executou na parede de
madeira do altar o painel que representa a imagem de “Coração de Jesus”. A pintura existe até hoje na igreja, e é uma
obra-prima, que merece ser admirada.
Constituíram diversos centros culturais, escolas e
cooperativas. Esses pequenos núcleos, mesmo dirigidos
inabilmente, davam ao emigrante o senso de unidade do
grupo, tornando-se centros de recreação; mantinham as escolas e os professores; desempenhavam papéis importantes
na consolidação dos agrupamentos humanos, os quais já
conseguiram sobrepujar as primeiras dificuldades.
Em 1891, foi fundada em São Mateus a Sociedade
Polonesa “Kazimierz Pulawski”, com 80 sócios e a escola
média, onde lecionou o professor Feliks Krzyzanowski, um
profissional inteligente e dedicado.
Após a fracassada revolta de 1905, na zona russa da
Polônia, vieram elementos intelectuais em maior número.
Muitos deles tornaram-se professores, abraçando a causa da
alfabetização dos filhos dos colonos. Na ausência de auxílio
74
governamental, foi o próprio imigrante que tomou a iniciativa da fundação de escolas.
Os professores ministravam, sobretudo, ensino primário, procurando suprir a grande carência de escolas públicas brasileiras. Ensinavam meio período em língua polonesa e meio período em português. Em janeiro de 1938,
essas escolas, surgidas da necessidade elementar de o colono alfabetizar a sua descendência, foram fechadas, por decreto do Presidente Getúlio Vargas. A ordem veio do Interventor Manoel Ribas, no Paraná, por ocasião da campanha
de nacionalização, promovida durante o Estado Novo.
Em 1900, por ocasião de uma festa religiosa, foi erigida uma cruz feita de lascas de cedro recém-cortado. A
madeira fincada no chão brotou e virou uma árvore. Ainda
encontra-se na altura do n.° 1.193, da rua Antônio Bisinelli,
na colônia Iguaçu, no terreno que pertenceu a Valentim
Janowski. Embaixo desta árvore faziam-se, à época, Viassacras, rezava-se o terço e realizavam-se reuniões da comunidade.
Alexandre Zbsuawieski, de regresso da Polônia,
trouxe a semente de carvalho ( Fagacea Quercus robur),
nativa do continente europeu; plantou-a no dia 3 de maio,
data nacional polonesa, no ano de 1915, onde é hoje a Praça
Alvir Sérgio Licheski. Significa um marco da grande presença da comunidade polonesa em São Mateus. Esta árvore
foi tombada pelo Patrimônio Histórico.
Os imigrantes poloneses dotados de um profundo
sentimento religioso, católicos por excelência, construíram
igrejas, escolas e desbravaram sertões. Não demoraram a
integrar-se na vida nacional, como agricultores, comerciantes e profissionais liberais, com seu trabalho colaborando
no progresso do país.
Os habitantes de São Mateus do Sul, na maioria
descendentes de imigrantes poloneses distinguem-se pela
75
hospitalidade e atenção que dispensam à visitantes que chegam à sua cidade. Dispõe-se a informar com presteza aos
interessados na história da colonização da região. Devo
agradecimentos à José Carlos Janowski, da Braspol, à
Cláudio e Clementino Janowski, que gentilmente me acompanharam nas buscas pelas raízes da minha família.
Também agradeço à Evaldo José Drabeski, do Departamento de Turismo Municipal, pelo acesso ao material
informativo sobre a cidade. Ao padre da igreja de Nossa
Senhora de Czestochowa, que colocou a nossa disposição
para consulta os antigos livros do Arquivo paroquial.
Entre os costumes que são mantidos pela comunidade polonesa, estão a cerimônia do “oplatek” (distribuição da
hóstia ) e da “swienconka” (alimento bento), na ceia do
Natal e da Páscoa, além da tradicional comida como “pierogi”, “golombki”, “salceson”, “bigos”, ”kapusniak”, que é
um cozido de repolho em conserva com carnes defumadas,
“ogórki kwaszone” (pepino em conserva) e “barszcz”, sopa
de beterraba com costela de porco e nata de leite.
A influência da arquitetura polonesa trazida para
São Mateus, podemos observar nas construções das casas,
tanto residenciais como comerciais ou prédios públicos
edificados na cidade, que apresentam contornos de rara
beleza. A madeira artisticamente entalhada aparece nas janelas e portas de entrada, nos beirais dos telhados contornados com lambrequins rendados.
A diversidade do colorido da pintura das paredes dá
um ar festivo ao ambiente. As varandas completam a beleza
com trepadeiras de flores por volta de suas colunas. Belos
jardins em frente das casas e praças embelezam a cidade.
Ainda na margem do rio Iguaçu em São Mateus, no
Velho Porto em que outrora desembarcaram os primeiros
imigrantes, encontra-se um vapor fantasma, o “ Pery”, a
última testemunha da grande navegação no rio Iguaçu des76
de 1879 até 1953, quando o ciclo da navegação extinguiuse. Os barcos encalharam nos pátios vazios.
Com a abertura da rodovia asfaltada e a construção
da ponte sobre o rio Iguaçu, todo o transporte é realizado
por caminhões, não mais em barcaças pelo rio Iguaçu, iniciando-se um período de estagnação econômica que atingiu
todo o sul do Paraná.
A retomada do crescimento de São Mateus ocorreu
no final da década de 1960, quando a Petrobras iniciou a
implantação de uma usina para o aproveitamento do xisto
betuminoso no município. Com a exploração industrial deste minério, São Mateus recebeu um grande estímulo em
seu crescimento.
Atualmente a atividade econômica do município baseia-se numa agricultura moderna, na pecuária, na produção e industrialização da erva-mate e madeira, na cerâmica
produzida pela “Incepa” e na industrialização do xisto, onde
são gerados insumos energéticos, como gás de cozinha,
óleo, nafta, enxofre e subprodutos de larga aplicação nos
ramos químicos, da construção civil e de fertilizantes.
O município de São João do Triunfo foi criado em 8
de janeiro de 1890, desmembrado do município de Palmeira. Até o ano de 1908, São Mateus dependia da sede administrativa de São João do Triunfo; foi desmembrado deste,
no dia 21 de setembro de 1908, e no dia 1° de maio de
1912, foi criada a Comarca de São Mateus do Sul.
O município de São Mateus do Sul localiza-se no
sul do Estado do Paraná, dista da capital Curitiba 150 quilômetros, pela BR476.
O clima dessa região é subtropical úmido, mas nas
planícies rumo oeste passa para o tropical quente. A terra é
vermelha, originária da decomposição de granito.
77
A ONÇA PINTADA
Ainda era muito cedo, o dia estava apenas clareando. Jakób Gryczynski e seus filhos Alexandre e Ladislau,
juntos com um punhado de homens, contando umas oito
pessoas ao todo, costeavam a margem do rio Iguaçu. Estavam todos armados, trazendo na cinta revólveres, a espingarda passada a tiracolo pelo ombro esquerdo. Quando os
cavaleiros, que seguiam a trote largo deixaram a margem
do rio, que não oferecia mais caminho, tomaram uma estreita picada aberta na mata.
O sol já resplandecia no céu, mas ainda o crepúsculo matutino reinava nas profundas e sombrias abobadas da
vegetação; a luz espreitando entre a espessa folhagem se
diluía completamente. Nem uma réstia de sol penetrava
nesse templo da natureza, ao qual serviam de colunas os
troncos seculares das araucárias.
O silêncio, com os seus rumores vagos e os ecos
amortecidos, dormia no seio dessa solidão e era apenas interrompido pelos passos das montarias, que faziam estalar
as folhas secas. A pequena cavalgada continuou a marcha
através da picada e aproximou-se de uma clareira.
Nesse momento ouviu-se um rugido espantoso que
fez estremecer a floresta. A onça pintada sentiu, trazidos
pelo vento, estranhas vozes e um odor desconhecido. O
instinto lhe dizia que estava sendo ameaçado o seu reinado
neste sertão. O jaguar morava perto dali, numa gruta da
encosta do morro, com a fêmea e os três filhotes recémnascidos.
Sabiam disso, os queixadas, as antas e até as medrosas cotias e pacas. E mesmo os mais velhos papagaios se
lembravam que este lugar servia de esconderijo aos ferozes
donos da selva, desde os mais remotos tempos. Alguns
morriam de velhos, outros na luta com as presas, ainda ou78
tros sucumbiam às doenças, mas sempre havia sucessores
sanguinários nesta caverna.
O grito de guerra do jaguar sobressaltou toda floresta. Pequenos sagüis, enormes bugios ruivos, e outros da sua
espécie, quando sentiam próximo o odor forte do perigoso
felino, tremiam como que atacados por malária e gritando
aterrorizados subiam aos mais altos galhos das árvores.
Uma vara de queixadas que fuçava por perto sumiu grunhindo apavorada. Até os papagaios interromperam a sua
barulhenta assembléia e observavam em silêncio. O eco
enviou o urro da onça para longe, até os confins do sertão.
Os cavalos relincharam e encolheram as orelhas
tremendo de medo. Os cavaleiros olharam um para o outro,
engatilharam as espingardas e seguiram lentamente, lançando olhares cautelosos por entre os galhos.
Ladislau ergueu a cabeça e fitou os olhos numa moita de ramos que se elevava a vinte passos de distância, e se
agitava imperceptivelmente. Por entre a folhagem, distinguia-se um dorso amarelo-avermelhado, de manchas pretas,
arredondadas, simétricas, espalhadas por todo o corpo. Na
sombra viam-se brilhar dois olhos amarelos, fulgurando que
nem raios de sol.
Era a onça pintada, enorme, com 1.50m de comprimento, de garras apoiadas sobre um grosso galho de árvore
e pés suspensos no ramo superior; encolhia o corpo, preparando o salto espetacular. Batia os flancos com a cauda longa e movia a cabeça esplêndida, como que procurando uma
fresta entre a folhagem para arremessar o pulo. Contraia as
fortes mandíbulas deixando à mostra as presas afiadas. As
ventas dilatadas aspiravam fortemente.
Era um magnífico exemplar da sua raça. Ao avistar
os cavaleiros, o felino lançando um olhar ao redor, eriçou o
pêlo e ficou imóvel no mesmo lugar, hesitando se devia
arriscar o ataque. Não ia ceder, abandonando a sua presa,
79
pois já tinha como certo o seu banquete daquele dia. Em
baixo do galho, onde estava empoleirado o gato selvagem,
pastava tranqüilamente um veado macho, gordo, de pele
luzidia e galhada enorme, sem perceber que era alvo de dois
tipos de caçadores: o homem e o felino.
Jakób e seus companheiros tinham saído a caça de
antas e queixadas, não se arriscariam numa luta com a perigosa onça-pintada, portanto, era prudente seguirem o seu
caminho com muita cautela. A um sinal seu, os cavaleiros
prosseguiram a marcha, e embrenharam-se de novo na mata. Não poderiam disputar a caça com o rei da floresta; ele
tinha o direito em primeiro lugar.
A fera apenas viu os homens se distanciarem e sumirem na mata, soltou um rugido de alegria. Ouviu-se um
rumor de galhos que se quebravam, e o vulto pintado da
onça sibilou no ar; de um salto, caiu em cima do veado apoiado nas largas patas traseiras, com o corpo estendido, os
dentes prontos para degolar a sua vítima cortando-lhe a
jugular. O animal ainda debatia-se em contorções, quando a
onça arrastou-o para o matagal e para a gruta, onde estavam
escondidos os seus filhotes.
Era meio-dia, o sol forte queimava a pele, o ar estava parado e a floresta emanava fragrâncias inebriantes. Os
caçadores chegaram a uma clareira na mata e resolveram
descansar na sombra. Deixaram os cavalos pastando amarrados pelas rédeas aos arbustos. Os cães soltos na mata latiam ao longe, acuando uma caça, possivelmente uma anta,
do outro lado da lagoa.
Os homens esperavam atentos. De repente contra o
sol, no brilho da luz, aparece no limiar da mata o enorme
corpo cinza do animal. A matilha de cães corre ao lado e
atrás, ganindo, enchendo o mato de latidos. A anta pula na
lagoa e nadando em voltas quer despistar os cães que correm ao lado. É uma luta de vida ou morte.
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O caçador com a espingarda no ombro mirando o tiro certeiro, dispara, e acerta a anta, que submerge e logo
volta à tona. Ressoa o segundo tiro, que o eco repete dezenas de vezes pelos vales e montanhas. A anta foi abatida.
Esse exemplar seria suficiente para alimentar a família
durante um mês.
A anta é um animal pesado, forte, de pernas curtas,
o nariz prolongado em tromba, o corpo coberto de pêlos
curtos. É um mamífero, paquiderme, que vive na América
do Sul. São noturnos e vivem em pequenos bandos; nutremse de raízes e de plantas tenras; a sua carne, comestível, é
semelhante a do boi.
Os caçadores, naquele dia, levaram apenas dois
bons troféus e uma pequena cotia. Quando voltavam para
casa, conversando tranqüilamente, trazendo os dois animais
abatidos atravessados na garupa do cavalo, cruzou diante
deles na clareira um enorme porco-queixada de pêlo negropardacento eriçado, batendo as mandíbulas de presas afiadas, seguido de grande número de animais adultos e leitões.
Jakób estacou o cavalo, levantou a espingarda apontando para o macho e atirou. O queixada caiu, debatendose e roncando forte. Como se fosse ordenado, do meio do
matagal que cercava a clareira despejou-se uma manada de
porcos selvagens, contando mais ou menos duzentos cabeças. Esse espécime quando é acuado, bate forte os queixos,
é valentíssimo e muito perigoso, é capaz de estraçalhar uma
pessoa.
- Subam na arvore, rápido! – gritou o caçador Juca.
O pai pulou ligeiro em cima de um toco, com esforço agarrou o galho forte, retorcido, da árvore próxima. Ladislau e Alexandre, subiram atrás dele. Os outros homens
também treparam em galhos altos, fugindo do perigo. Enquanto isso os queixadas chegando próximo, olhavam condoídos o companheiro ferido que grunhia dolorosamente.
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Ladislau olhava de cima nessa cena comovente e
seu coração confrangeu-se. Depois a manada cercou a árvore onde estavam empoleirados os caçadores e olhavam para
cima com ódio nos olhinhos amarelos. Cada instante um
membro do grupo ia perto do porco ferido, olhava-o curioso e voltava ao cerco.
- Será que vão ficar por muito tempo aqui?- perguntou Ladislau ao caçador Juca.
- Até se cansarem – respondeu este, filosofando.
Mas os queixadas não desistiam. Passavam minutos
e horas e a manada ficava firme no posto.
- Não tenho a intenção de ficar aqui no galho como
macaco o resto do dia – disse já irritado Jakób.
Tirou o revólver da cintura e atirou no primeiro porco que estava ao seu alcance. Este caiu, levantou-se gritando, sangrando, correu para o mato. A manada após o tiro,
atacou a árvore, mas ao ouvir os gritos do companheiro
ferido, correu atrás dele, em galope extenso, fazendo um
ruído ensurdecedor.
Os caçadores desceram da árvore, retiraram as entranhas do queixada abatido, içaram-no junto à outra caça, e
seguiram para casa. Dona Jozepha esperava-os com a cuia
de chimarrão quente na mão. Destrincharam a caça, dividiram-na e salgaram a carne.
Jakób, relembrando o local da caçada – comentou:
- Ouviram o que disse o velho caboclo? O lugar onde vimos a manada de queixadas era, sem dúvida, a principal região tribal indígena. Era também o lugar onde havia a
maior variedade de plantas comestíveis e animais para caça. Ali era antigamente um acampamento dos índios botocudos, como provam as ossadas de animais e humanos,
espalhados pela clareira.
O velho sertanejo estremeceu involuntariamente e
lançou um olhar inquieto em torno.
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- Vamos andando! Este lugar me dá arrepios, deve
estar povoado de espíritos dos antepassados indígenas.
Noutra ocasião organizaram a caça ao veado. Com
sorte poderiam trazer também um queixada como prêmio.
Jakób, seus filhos Ladislau e Alexandre, mais os caboclos
Adolfo e José, vizinhos e amigos do Gryczynski, que conheciam as trilhas e bebedouros dos veados.
Levavam oito cachorros veadeiros. De todas as caçadas, a do veado é a mais importante. Caça-se o veado, de
espera e a batida de cães. O caçador deve descobrir o local
onde vive o animal, pelo exame atento das pegadas.
A matilha persegue a caça, que apesar de todas as
manhas não tarda a ser cercado e abatido pelo caçador certeiro no tiro. Os cães foram soltos e correram mata dentro;
o eco dos seus latidos diminuía cada vez mais, até sumir de
todo no sertão. Parecia às vezes que o som inconstante do
eco ainda ressoa pela floresta, não se sabe de que direção.
Deixaram Ladislau na espera. Ficou um tempo enorme parado embaixo duma árvore na orla da campina. De
repente, o jovem contraria as regras da caça, abandona o
seu posto e, abaixado corre, alcança o topo do morro. Vê a
entrada de uma gruta. Para por segundos defronte, e ainda
indeciso olha para dentro da caverna. Dominado por surdo
terror lembra-se das histórias correntes. Diziam que todas
as noites as feiticeiras que fizeram pacto com o Tinhoso,
saci-pererês, almas penadas e diabinhos sapecas, reúnem-se
ali para dançar o ritmo infernal. O samba do inferno durava até o primeiro clarão do dia.
De repente ele ouve galhos secos estalando, pedregulho rolando do morro, sons vindos de dentro da gruta.
Apavora-se e sai correndo. Ladislau desceu rápido da rocha, pela trilha, curioso para ver de perto o tronco da imbuía antiga, de galhos pendentes como braços esticados que-
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rendo agarrar alguém, que encobriam a entrada da gruta,
jogando sombras no meio do penhasco.
Descobriu ali, junto das raízes, pequenas e toscas
cruzes, enegrecidas pelo tempo ou pelo fogo. Do lado do
sol nascente, numa funda rachadura do tronco seco, havia
uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida, feita de barro, figas de pau, feitiços de várias espécies, ramos secos de
arruda e mentruz, ossos humanos, peles secas de cascavel,
dentes de javali e asas de morcegos.
Devia ser o lugar onde os feiticeiros faziam rezas e
oferendas. Algumas velhas raízes da imbuía, ressurgindo à
flor da terra, tinham sido carcomidas pelo caruncho, e formavam brocas profundas que se entranhavam pelo solo. A
brisa trazia em lufadas sons da floresta, que o eco reboava
por todo vale. Ladislau ouviu o som da buzina.
Voltando à sua posição no lugar da espera, o jovem
caçador apurou o ouvido. Quando o mandaram para espreitar a caça, parecia-lhe que o sertão escutava junto com ele.
O silêncio era profundo, intenso, imensurável. Às vezes o
sopro do vento se acalmava, então reinava o silêncio insondável e incompreensível à semelhança do azul do céu entre
as nuvens. Em volta havia a floresta de araucárias, com os
galhos estendidos como braços a atrair alguém. Seus troncos enormes, brilhavam na penumbra.
Nesse instante, dos confins do sertão, surgiu uma
brisa morna, soprando indolente, despertou do sono profundo, em sussurros. As copas das árvores inclinavam-se perante o vento brando, reverenciando-o pelo canto envolvente retirado do além; como choro silencioso, gemido sem
esperança, esse canto corria pela solidão da mata, com sons
inexplicáveis que sumiam no abismo.
Os gritos dos macacos, pulando pelos cipós e galhos, de árvore em árvore, ou balançando-se enroscados
pela cauda. Papagaios em bandos, palrando como gente;
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pica-paus, macucos, mutums, tucanos de bicos enormes e
penas coloridas, bem-te-vis, curiós e magníficas araras estavam surpresos, inquietos. Nunca tinham ouvido esses
sons metálicos, de machados, foices, serras, vozes de homens derrubando a mata, destruindo os seus lares de tantos
séculos.
- O que será de nós?... Será que o Espírito da Floresta, que desde início dos tempos velava por eles, tinha- os
abandonado?...Quem sabe no peito de pedra, o duro coração do Deus Tupã, que dorme na ravina desconhecida, coberto por musgos de milhares de verões e invernos, fica
adormecido e não ouve o clamor das suas criaturas?...
- Acorda Deus Tupã! Não vês que os teus filhos padecem? estão ameaçados de ficar sem lar! Serem extintos
até o último espécime?...
Quando se aproximava dele, esta voz do sertão parecia a Ladislau que atingia o seu corpo, descendo como
raio pelos galhos e troncos das árvores, infiltrava-se dentro
do seu coração. Esquecia então quem era, onde estava, o
que acontecia com ele. Vinham-lhe à mente recordações
esquecidas, sepultadas no recôndito da alma, querendo fluir
para fora. E então entregou-se a devaneios... sonhava com a
terra natal...
Ao longe, um som potente de tiro tremeu pelo sertão. Um relâmpago perpassou o corpo de Ladislau... despertou do devaneio... estava sonhando?...
Aqui e agora a realidade era outra. Um enxame de
passarinhos de penugens coloridas esvoaçava chilreando
entre as folhagens e no meio desse concerto harmonioso
ouvia-se a nota sonora do sabiá. Os sapos coaxam na água
clara da lagoa, coberta de folhas de aguapés. Ouvem-se
sons incompreensíveis. Todo sertão respira e vive.
O caçador agora já alerta, ergueu a cabeça e pregou
os olhos na mata. Os cães perseguem a caça – pensou, o
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latido chegava cada vez mais perto do caçador na tocaia. Já
podia distinguir bem. Num certo momento, do alto do morro podia se ouvir o barulho, uniforme, rítmico da corrida. O
coração do moço parou.
Bem perto ouve-se o estalido dum galho. De dentro
do matagal surge um veado. Um macho soberbo, de pele
marrom, lustrosa; corria, com a bela cabeça erguida, guarnecida de enorme galhada. O caçador levantou a espingarda, colocou o dedo no gatilho e mirou o animal. Neste momento o veado parou. Levantou o pé esquerdo, virou a
magnífica cabeça de lado, desconfiado, escutou atento, do
seu corpo saia um vapor denso. O moço apontou a arma
sobre a paleta direita do animal.
De repente ouviu um ruído, uma enorme pinha desprendeu-se do pinheiro, em cuja sombra o jovem estava
tocaiando a caça, caiu em cima da sua cabeça, raspou no
braço e desviou o tiro da espingarda para longe da presa.
Quando Ladislau passou a mão pelos olhos, só viu
os pés do enorme macho, esticados como molas de aço, na
fuga para o matagal. Só os maciços arbustos verdes ainda
farfalharam por muito tempo, e as folhas caíram dos galhos
quebrados, em silêncio.
Vendo que de novo estava só, no lugar onde há poucos instantes desenrolara-se o drama da vida e morte, o
caçador jogou com raiva a espingarda no meio da moita de
vegetação e caiu por terra engolindo lágrimas, de frustração
e arrependimento, por ter tentado contra a vida de tão admirável animal. Ele não tinha o direito de invadir o “habitat” do veado-galheiro, onde há milhares de anos ele era o
dono e senhor.
Alertou-o um tiro, depois outro como trovoada retumbou pela floresta; seu eco repetiu-se por muitas vezes.
Depois, ouviu da clareira, alguém chamando-o:
- Wladek, onde você está? Responda!
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Os cães latiam ao longe acuando a caça. Outra voz,
mais perto, chamou-o de novo. O caçador, inexperiente, por
algum tempo ainda ficou deitado na grama, corroendo-se de
remorsos. Depois levantou rápido, sacudiu a terra da roupa,
procurou a espingarda no meio dos ramos. Esfregou os olhos com a palma da mão. Correu para baixo, pulando as
moitas de vegetação como cabrito. Na distância de uns duzentos metros morro abaixo, estava um caçador, parado ao
lado do corpo sem vida dum esplêndido animal, o veado
macho de galhada enorme, que Ladislau, deixara fugir.
- Então, você o matou! – disse Wladek, com voz
cansada da corrida.
- Pois é, apareceu de repente...eu não sei como foi
isso, pensei que esse cabrito você abateria - desculpava-se.
- Mas não veio para o meu lado - respondeu Ladislau, jamais admitiria que ficou com pena de matar o animal.
- Vamos, que estão nos chamando - disse o outro.
- O que vamos fazer com a caça?
- É preciso levar nos ombros até o cavalo!
O animal morto, com tiro certeiro no coração, jazia
no chão. Com a bela cabeça jogada para o lado, imóvel,
olhava para o moço com os olhos opacos, sem vida. Ladislau foi tomado por um incalculável senso de culpa pela
morte do cervo. Arrastou-o para um para um lugar mais
alto, alçou-o ao ombro, segurando pelos dois pés dianteiros, carregou-o até o acampamento. Ao ver o animal abatido, o pai ralhou com ele:
- Você, ingrato, matou a minha caça!.. Não sabias,
então, que eu estava na espera? Quando você vai lembrarse dessas coisas? Wladek, você vive sonhando!
- Mas, pai ! Não fui eu que matei o veado.
- Fui eu! - Ele veio para o meu lado – justificou-se
o caçador Juca – agora vou tirar o couro, destrinchar e salgar a carne da caça.
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Num certo domingo, os dois irmãos, Ladislau e Alexandre saíram a cavalo para conhecer a região. Aprofundaram-se pelos caminhos da floresta, rumo ao oeste. Seguiram uma trilha estreita e invadida pelo capim. Cavalgavam
num trote ligeiro, quando o caminho terminou abruptamente.
O vento forte afastou os ramos duma pequena clareira, e, em frente, viram no alto do morro, as ruínas desdentadas de uma construção. Hesitaram por um momento,
tomados pelo antigo e arraigado medo do desconhecido.
O sol da manhã iluminava as paredes destruídas e as
janelas arrancadas. Eram as ruínas da igreja das antigas
reduções jesuíticas. Uma estranha e inesperada inquietação
apossou-se da alma de Ladislau. Então, tiveram curiosidade de conhecer de perto as ruínas antigas.
- Vamos até lá.! - convidou o irmão.
- Por quê, não? Vamos já!- topou Alexandre, e virou
a montaria para o caminho que levava ao topo do morro.
Surpresos com a visão que se lhes apresentou, os
cavaleiros inquiriram-se com os olhos. Adiante deles, numa
clareira, próximos à parede de pedra, estavam amontoados
os esqueletos e crânios de homens, talvez guerreiros, inimigos, sacrificados pelos vencedores desta guerra de extermínio, tão impiedosa.
Ao lado, uma mesa rústica de pedra, e em cima um
almofariz com uma mão de pilão, de pedra polida, dentro
um crânio amarelado como marfim velho, com um buraco
no temporal.
- Este era o vaso em que os pajés misturavam as
plantas mágicas que curavam o corpo e o espírito. Esta pedra era para os sacrifícios rituais e essa era a clava com que
matavam as vítimas - explicou Ladislau.- e os dois fizeram
uma pausa para prestar reverência àqueles espíritos anônimos, cujos ossos aqui repousavam.
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Antigamente, subia uma estrada até o morro, para
cavalgaduras e carroças leves; mas a mata cresceu e cobriu
a trilha. À beira deste caminho, alinhados, crescem pinheiros e cedros, plantados pelos jesuítas, mas o meio da estrada o capim alto já tomou conta.
O mato fechou a chegada até as ruínas, invadiu o
espaço que lhe pertencia antes. Ninguém vela pela igreja
em escombros, somente a selva soberana. Não há janelas
nem portas. Roseiras selvagens rastejam, enroscam-se pelas
escarpas e pendem do alto das paredes em ruínas os espinhosos ramos cobertos de cachos de flores vermelhas.
No lugar onde estava o altar, onde os olhos dos indígenas procuravam o sinal do Deus dos brancos, cresce
agora um arbusto de amora preta. Incansável, pingando de
gota em gota, a água corroeu o tijolo e a pedra.
O pó espalhado pelo chão ficara coberto por plantas
rasteiras. Por fora dos muros, só existe matagal que encobre
totalmente o santuário.
Qual segredo, ou incompreensível encanto, escondese nos escombros. Algo tenebroso, ameaçador e doloroso
existe, deixado por homens, que aqui tombaram na defesa
da vida, da sua cultura e da sua fé.
Alguma coisa assombrosa nos ecos de cada passo
dado nas destroços do santuário. O que existe nestes escombros? O que chora e clama do interior atrás do intruso
que entra? Os olhos dos visitantes não se afastam e os pés
não obedecem.
As flores arrancadas caem das mãos e nos ouvidos
ressoam os gemidos dos mártires indígenas que aqui foram
sacrificados em nome de um sanguinário Deus dos brancos,
espanhóis ou portugueses.
Um Deus que não era deles, e nem o conheciam.
***
89
REVOLUÇÃO FEDERALISTA.
Com o movimento político-militar de descontentes
com o governo de D. Pedro II, o Brasil deixou de ser monarquia. No dia 15 de novembro de 1889, foi proclamada a
República, pelo Marechal Deodoro da Fonseca, que foi
nomeado como chefe do Governo Provisório. Atacado pela
oposição, renuncia ao cargo de Presidente e passa o poder
ao vice-presidente, Marechal Floriano Peixoto.
Em 1891, foi designado para a presidência do Estado do Paraná o Dr. Generoso Marques dos Santos em substituição à junta governativa que dirigia o Estado, desde a
proclamação da República.
Em 1892, com a subida ao poder do Partido Republicano Federal, foram convocadas novas eleições, sendo
eleito governador do Paraná, Dr. Francisco Xavier da Silva, e como vice o Dr. Vicente Machado, este, o mais prestigioso líder político paranaense da época.
No início da República brasileira, surgiu um movimento revolucionário, envolvendo as principais facções
políticas do Rio Grande do Sul. Dois partidos lutam pelo
poder. De um lado, o Partido Federalista que reúne a velha
elite do Partido Liberal do Império sob a chefia de Gaspar
Silveira Martins. Do outro lado, o Partido Republicano RioGrandense que agrupa os republicanos comandados por
Júlio de Castilhos, que saiu vitorioso nas eleições para governador do Estado do Rio Grande do Sul.
Em 2 de fevereiro de 1893, os federalistas, chamados de “maragatos” iniciaram um sangrento conflito com os
republicanos, apelidados de “pica-paus”. O Presidente da
República, marechal Floriano Peixoto, que suspeitava das
tendências políticas monarquistas e parlamentaristas de
Silveira Martins, líder político gaúcho, apoia e ajuda materialmente os “pica-paus”.
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Os federalistas, partidários de Silveira Martins, inconformados com a derrota, procederam à invasão do Estado. Teve início, então, a mais bárbara das revoluções brasileiras, ensangüentando pelo espaço de dois anos vários Estados do país. A revolução no país se expandia. Corria a
informação de que toda a marinha brasileira havia se sublevado contra o governo de Floriano Peixoto, aderindo à revolução. Do Rio Grande do Sul, chegavam notícias da existência da rebelião armada naquele Estado.
Os cidadãos brasileiros de São Mateus pertenciam
em sua maioria ao partido da oposição, com exceção de
Plínio Miro e os funcionários do governo. Os intelectuais
poloneses, que eram poucos na colônia, como Antônio
Bodziak, Flizikowski, padre Ladislau Smolucha e alguns
professores, eram também do partido da oposição.
Então formaram-se duas correntes. Bodziak, Ulisses
de Faria e Maximiliano, como chefes, na oposição. Plínio
Miro, a favor do governo, tendo como objetivo atrair o
maior número possível de imigrantes para sua causa.
São Mateus é por si uma colônia curiosa. O seu habitante, emigrante da região do remoto Principado de Mazowsze dos Piast da Polônia (na época da emigração estava
sob o domínio russo), é um tipo singular. Idealista e sentimental, destemido, não foge das dificuldades, mas enfrentaas com bravura. Descendente de antigo clã de guerreiros
eslavos, é de natureza belicosa, valente e arrojado, envolvese com facilidade nos problemas alheios.
Tendo vivido durante séculos sob o domínio dos
invasores russos, era da sua índole ser revoltado contra
qualquer governo instituído. Foi instantâneo o seu raciocínio: “Se há governo neste país, então sou contra o governo”. E não iam perder essa oportunidade.
Era a época da derrubada da mata e do preparo da
terra para o plantio de milho e feijão. De repente chega a
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notícia de que todos, de todas as colônias, da Cachoeira,
Canoas, Taquaral, Iguaçu, Água Branca, Rio Baio, Rio dos
Patos e outras, deviam apresentar-se na vila de São Mateus.
Também foram Jakób Gryczynski e seus filhos Alexandre e Ladislau, para saber do acontecido. Quando chegaram próximo ao vilarejo, logo na encruzilhada, encontraram sentinela, que deixava entrar, mas não permitia a saída
de ninguém, sem a permissão do comando. Foram direto à
casa de Antonio Bodziak, lugar onde sempre se reuniam.
Estava repleto de gente.
A notícia era assustadora – estourou a revolução.
Imediatamente, com seu inato idealismo, os bravos mateuenses, com exceção de alguns, tomaram parte nela ativamente. A colônia polonesa de São Mateus participou efetivamente na Revolução Federalista (1893-1895). Antônio
Bodziak organizou o Batalhão Polonês com 400 homens,
composto de 300 poloneses e 100 brasileiros.
Seus comandantes eram Bodziak, Stencel, Joaquim
Gomes dos Santos, Onofre Flizikowski, João Kosminski,
Kazemiro Dombrowski, e Estanislau Kieraczynski. Este
Batalhão acompanhou as forças de Gumercindo Saraiva
pelos Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do
Sul. Os homens que pertenciam ao partido do governo (pica-paus) foram presos pelos federalistas de São Mateus.
Muitos colonos não se davam conta da gravidade da
situação; não era brincadeira revoltar-se contra o governo,
que os trouxe de uma terra distante, para produzir e contribuir para o progresso do país. Não para criar problemas.
“ Não era do interesse do imigrante imiscuir-se na
política local, eles vieram aqui para trabalhar e conseguir o
seu próprio pedaço de pão” - assim raciocinava o imigrante
Jakób Gryczynski.
Ele, os filhos e os genros resolveram não se intrometer e cuidar do seu trabalho na lavoura. Não tinham ar92
mas, só foices, facões e fuzis antigos; contra modernas carabinas, canhões, munição abundante e um exército regular, do governo, treinado para luta.
O governador do Estado do Paraná, Dr. Vicente
Machado, logo que recebeu a notícia das ocorrências em
São Mateus, de que os partidários dos federalistas procediam o recrutamento de soldados para as forças rebeldes,
também entre os imigrantes, imediatamente mandou um
destacamento de 60 soldados do 10° Corpo da Guarda Nacional, comandados pelo capitão Custódio Gonçalves Rollemberg, para que tomasse as providências necessárias,
assegurando a ordem na região.
Porém, chegaram tarde, pois os recrutados já haviam
embarcado para Rio Negro. Veio a ordem do capitão para
que os colonos se dispersassem e voltassem para suas casas.
Então começou a vingar-se nos colonos e suas famílias. Recrutou para as suas fileiras todos os poloneses
válidos; até os mais jovens estavam nas listas de recrutamento do governo. Os irmãos Ladislau e Alexandre
Gryczynski, João Kowalski, João Repecki, Antônio Jakubowski, Tomaszewski e Pawloski, que eram amigos e parentes, jovens, que não tinham aderido aos federalistas
porque nada tinham a ver com a revolução, foram recrutados e obrigados a seguir junto com as forças legais, para
defender Lapa. Iriam combater contra os revolucionários,
muitos deles seus patrícios e amigos de São Mateus.
O capitão Rollemberg recebeu ordens para seguir
até Lapa, pois esta praça estava na iminência de ser atacada
pelos rebeldes. O vizinho Estado de Santa Catarina havia se
rendido aos revolucionários, que tomaram a cidade de Rio
Negro e estavam marchando para o interior do Paraná.
Os federalistas eram comandados pelo general Gumercindo Saraiva, que tinha fama de um bom comandante;
sob suas ordens estavam mais de dois mil soldados e recru93
tava mais homens, em todas localidades por onde passava.
Os revolucionários tinham-se apossado de Rio Negro e dos
vapores “Curitiba” e “Iguaçu”, que navegavam no rio Iguaçu e foram utilizados no transporte de soldados. Uma
das barcaças era pilotada por Aleksander Kowalski, genro
de Jakób Gryczynski, que foi recrutado pelos federalistas.
No dia seguinte todas forças rebeldes rumaram para
Lapa, passando por Campo do Tenente. A cavalaria e a artilharia atravessaram a ponte e acamparam nas proximidades
da Lapa. Começou o tiroteio sobre a cidade, que respondeu
com saraivada de tiros; o combate durou até meio- dia. À
noite cercaram a cidade, dificultando assim a entrada de
reforços vindos de Curitiba.
O coronel Ernesto Gomes Carneiro contava com
1.400 homens na cidade da Lapa. Foram atacados a 14 de
janeiro, pelas forças dos irmãos Gumercindo e Aparício
Saraiva. Resistiram durante um mês, cercados e martelados
pela artilharia inimiga. O coronel Carneiro pediu reforços à
Divisão do Norte e a Curitiba, mas a ajuda não veio em
tempo de socorrer a cidade.
Chegou a notícia de que parte do exército federalista seguiu para Curitiba e a cidade tinha-se rendido. De manhã, Gumercindo Saraiva mandou proposta para rendição
da Lapa, mas a resposta veio negativa. A cidade começou a
ser bombardeada, desde as oito horas da manhã até as três
da tarde, depois entraram a infantaria e a cavalaria.
Começou uma batalha encarniçada. Os defensores
da Lapa lutavam com bravura, esperando reforços do governo. Saraiva, vendo que com os ataques não conseguiria
tomar a cidade, retirou a infantaria e continuou o bombardeio. Esse estado durou alguns dias, até a chegada da tropa
auxiliar federalista do sul.
Em seguida veio a ordem para avançar sobre a cidade; foram tomados a estação da estrada de ferro e o ce94
mitério. Os muros deste foram utilizados como trincheiras.
No bombardeio dos dois lados, o cemitério virou ruína.
Então Saraiva usou de estratégia. Mandou colocar
uma cangalha no lombo de uma mula, dentro foi posto um
recipiente com querosene e fogos de artificio, em seguida
acenderam tudo. Tocaram a mula em direção da posição
defensiva do inimigo. O animal corria enlouquecido. Os
foguetes acesos trovejavam; os defensores pensaram que
o inimigo havia entrado com todas as forças na cidade.
A obstinação e a persistência do comandante e dos
bravos soldados da praça sitiada exacerbavam o inimigo.
Nada detinha a fúria dos “maragatos”. A fome da cidade
cercada colaborou com os atacantes. Como não chegou
nenhum auxílio de Curitiba, Lapa capitulou no dia 11 de
fevereiro de 1894. O coronel Gomes Carneiro estava morto.
Apareceu acima da cidade, tremulando, a bandeira branca.
O cerco da cidade durou 28 dias.
Os irmãos Ladislau e Alexandre Gryczynski e os
cinco colegas de armas, recrutados em São Mateus como
soldados legalistas, sabiam tocar diversos instrumentos musicais, possuíam uma banda de música na sua cidade. Com
a rendição da cidade da Lapa, foram incorporados ao exército federalista. Para serem perdoados e poupados da morte certa, por ordem de Gumercindo Saraiva, foram anexados à banda de música do exército rebelde. Os oficiais e
soldados legalistas presos foram todos fuzilados.
Após a rendição da Lapa, alguns poloneses fugiram
e retornaram a pé para São Mateus. Outros, de sangue jovem pulsando no peito, idealistas, sedentos de aventura,
seguiram com o exército de Gumercindo Saraiva. As cidades de Antonina, Morretes e Curitiba foram ocupadas pelas
forças de Gumercindo. A soldadesca cometeu muitos excessos nas cidades ocupadas. Foram fuzilados importantes
cidadãos curitibanos.
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O objetivo dos rebeldes, agora, era São Paulo. As
tropas rebeldes aproximavam-se da fronteira paulista,
quando lhes vieram de encontro as forças legalistas. Gumercindo, temeroso do encontro com exército superior em
organização e armamento, recuou das posições. Voltava,
pois suas forças estavam reduzidas pelas grandes perdas
nos combates em Tijucas e Lapa. O valente e astuto revolucionário conseguiu escapar da perseguição legalista.
Com suas tropas, retirou-se por São Mateus via Porto União rumo a Palmas, para somente depois dobrar para
a esquerda, cruzou campos e rios, para juntar-se às forças
de Aparício Saraiva em Campos Novos, em território catarinense.
O Batalhão Polonês de Antônio Bodziak acompanhou Gumercindo na sua retirada rumo ao sul do pais. Em
Porto União, alguns fugiram, aproveitando a facilidade de
embarcar no vapor que subia o rio Iguaçu até Porto Amazonas (os que foram recrutados em Curitiba).
À noite, nos acampamentos, havia muita animação
entre todos, inclusive no grupo de poloneses. Os jovens
soldados-músicos tocavam de improviso, valsas, mazurcas,
sambas e marchas militares. Outros cantavam. Estavam
contentes, porque os pica-paus iriam ver frustradas todas as
suas expectativas. Não iam conseguir derrotá-los porque o
seu comandante era Gumercindo Saraiva, o melhor e o mais
audacioso chefe maragato do país.
Chegados a Campos Novos, seguiram para Passo
Fundo atravessando o rio Uruguai, em balsas improvisadas
e canoas, com dificuldade, pois o rio naquele lugar media
150 metros de largura. Houve um violento combate com as
forças legalistas na passagem do rio. As tropas de Gumercindo reagruparam-se e seguiram para Cruz Alta.
Marchavam dia e noite, realizando apenas pequenos
descansos, porque o inimigo estava no seu encalço. Houve
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mais uma batalha sangrenta em Cruz Alta. Na sua retirada
o comando revolucionário resolveu levar as tropas em
direção ao Alto Uruguai, o propósito era atingir o território
argentino. Na localidade de Carovy houve mais um confronto com o inimigo. O exército legalista (pica-paus) vencido, recuou temporariamente. Os revolucionários reorganizaram-se e seguiram rumo à fronteira da Argentina,
marchando pela mata, atravessando rios, sem descanso,
sempre perseguidos pelos legalistas.
De súbito, um soldado a galope alcançou o exército
rebelde. Trazia a notícia assustadora de que o general Gumercindo Saraiva havia sido ferido. Uma bala perdida
atingira-o no peito. Era dia 10 de agosto de 1894, pelas 10
horas da noite veio a falecer, não sem antes passar o comando do exército federalista à seu irmão Aparicio Saraiva. Levando o corpo do general, seguiram para a localidade
de Boqueirão, onde Aparicio autorizou a quem desejasse,
podia ir embora, pois não queria ser responsável pelo destino de mais ninguém.
Muitos deixaram as fileiras, iriam tentar voltar para
casa. Apesar de maltrapilhos, extenuados e famintos, os
voluntários do Batalhão Polonês de São Mateus não abandonaram a tropa, nem seu comandante coronel Antônio
Bodziak. Consumiram o resto da carne seca.
Comiam carne de cavalo e de caça, quando conseguiam abater algum animal selvagem. Caminharam por
seis dias consecutivos, pelas trilhas no meio do mato, sempre alerta, pois o inimigo estava no seu encalço, até chegar
ao caudaloso rio Uruguai, que fazia fronteira com a Argentina.
O exército de Aparicio transpôs o rio em canoas, os
cavalos atravessaram nadando. Os voluntários poloneses,
remanescentes do batalhão do coronel Bodziak, passaram
para o lado argentino. Enquanto olhavam o rio Uruguai,
97
avistaram do lado oposto o surgimento das tropas inimigas
que os estavam perseguindo. Precisavam decidir o que iriam fazer daí em diante. Não podiam voltar pelo mesmo
caminho. Estavam na Argentina entre os rios Uruguai e
Paraná. As terras eram planas, férteis, cobertas de florestas
e campos permeados por erva-mate, ideais para cultura.
Muitos homens resolveram tentar a vida ali, ficaram
na aldeia próxima, de São Pedro, que era habitada por brasileiros. Desde 1860, os brasileiros estavam penetrando no
Território de Missiones. Outros seguiram em direção ao rio
Paraná, onde embarcaram em navios, que se dirigiam à
cidade de Foz do Iguaçu, de lá seguiram para Guarapuava
de volta a São Mateus.
Alexandre Gryczynski despediu-se do irmão Ladislau e dos amigos, que embarcaram no navio, com lágrimas
nos olhos, estava certo que não os veria mais. Quando saíram de São Mateus, eram muitos e estavam juntos, agora
iam dispersar-se como pássaros depois da tempestade. Muitos morreram em Passo Fundo, outros em Campos Novos e
Cruz Alta. Outros os deixaram pelo caminho.
Ele não via nenhuma perspectiva em relação ao seu
futuro em São Mateus, temia represálias do governo, e mais
que tudo, trazia uma ferida aberta no coração. Uma paixão
proibida. O amor pela pessoa errada corroía-lhe a alma.
Para não se prejudicar ainda mais ou ocasionar uma desgraça preferiu ficar na Argentina e ali tentar a sorte. Escreveu
uma carta ao pai se justificando.
A tarde do mesmo dia, chegou de canoa, um velho
uruguaio de nome Argemiro Lopes. Trazia mantimento
para vender. Lopes convidou Alexandre para trabalhar com
ele, pois estava precisando de ajudante. Possuía um engenho de açúcar mascavo e de cachaça. Alexandre aceitou o
emprego e acompanhou o velho comerciante. Permaneceu
com Lopes por três meses.
98
Três quilômetros abaixo da casa de Lopes, havia um
depósito de erva-mate e de outros produtos que eram embarcados em vapores para Posadas. Alexandre ofereceu-se
para trabalhar como marinheiro no vapor que navegava no
rio Paraná. Assim chegou até Posadas, onde conseguiu emprego de conferente, numa firma de exportação de ervamate. Fixou-se nesse emprego, pois o patrão confiava nele.
Mais tarde conheceu Dolores, a filha do proprietário, casou
com ela. Seus descendentes vivem até hoje nessa cidade.
Com a morte de Gumercindo houve desânimo entre
a tropa. Desde 24 de junho de 1895, não havia mais, no
território gaúcho, nenhuma força rebelde. Milhares de revolucionários e seus chefes haviam fugido para o Uruguai e
Argentina. O batalhão de São Mateus, que apoiou os federalistas, sofreu muito; parte dos voluntários morreu em
combate, outros tantos foram fuzilados. A colônia pagou
caro pelo seu idealismo, mas agüentou mais esse revés.
O presidente Floriano Peixoto recusou o pedido dos
maragatos para a intervenção federal no Rio Grande do Sul
e favoreceu os pica-paus. Em 9 de julho de 1895, o novo
presidente civil da República, republicano histórico, Prudente José de Morais e Barros, conseguiu um acordo de
paz e anistiou os participantes do movimento.
O governo decretou anistia a todos os cidadãos brasileiros que se encontravam na Argentina, oferecendo
transporte gratuito até o Rio de Janeiro. Essa oferta foi
aproveitada pelos poloneses, inclusive pelo coronel Antônio
Bodziak, que se encontrava em Buenos Aires. Bodziak abandonou a política e dedicou-se ao comércio.
Voltaram para São Mateus apenas seis homens daqueles todos que partiram para a revolução. Os que não
morreram espalharam-se pela Argentina, Uruguai e Paraguai, embora alguns fossem casados e pais de filhos, não
retornaram para suas casas.
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ESTRADA DE FERRO S.P.R.G.
A Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande foi planejada pelo Governo Imperial de D. Pedro II. O Decreto
10.432, de 9 de novembro de 1889, concede incentivos,
privilégios e terras devolutas para sua construção.
O projeto da ferrovia começou em 1889, quando o
engenheiro João Teixeira Soares recebeu do Imperador D.
Pedro II, a concessão para construí-la e explorá-la, obtendo
a cessão gratuita das terras devolutas, numa zona máxima
de até 30 quilômetros para cada lado da linha Itararé-Santa
Maria, em toda sua extensão, a fim de colonizá-las.
Em 1894 Teixeira Soares sub-rogou os direitos à
Brazilian Railway Company e por conseguinte à sua subsidiária Companhia São Paulo-Rio Grande. Conforme o contrato de concessão de 1889, a ferrovia seria paga em terras.
Pelo decreto n.° 1963, de 13 de fevereiro de 1895, teve aprovados os estudos definitivos e completos de todo trecho,
para a realização desta obra, num total de 941.880 km.
A ferrovia foi terminada e inaugurada em 29 de outubro de 1910. Até 1905 foi concluído o trecho até União
da Vitória a margem do rio Iguaçu, e muitos imigrantes
poloneses de Água Branca e da região trabalharam na
construção. Anônimos e desconhecidos trabalhadores, executaram trabalhos penosos, e foi com o sacrifício deles,
muitos dos quais ficaram sepultados sob os trilhos, que foi
implantada a Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande.
Na construção da ferrovia trabalhavam, além dos
imigrantes recrutados nas colônias do Paraná e Santa Catarina, centenas de presidiários, retirados das prisões brasileiras, para ali trabalharem em troca de sua futura liberdade.
A Companhia São Paulo-Rio Grande recebeu autorização especial do Ministério de Viação e Obras Públicas
para explorar a madeira existente na área de 30 quilômetros
100
para cada lado da linha tronco e seus ramais, além do que
pudesse adquirir nas terras marginais. As conseqüências
calamitosas desta autorização não foram previstas, pois
permitiu-se à Companhia devastar dezenas de milhares de
quilômetros quadrados de terras povoadas de pinheirais.
Assim, no ano de 1909, em Miami (USA), o Sindicato de Percival Farqufar organizou a Southern Brazil
Lumber and Colonization Company, subsidiária da Brazil
Railway Company, para desenvolver os serviços de colonização das terras ao longo da ferrovia e explorar as florestas
de pinheiros existentes nos vales dos rios Negro, Iguaçu,
Timbó, do Peixe e Canoinhas.
A Southern Brazil Lumber and Colonization Company construiu duas grandes serrarias, uma em Calmon,
próxima ao Rio do Peixe, e outra em Três Barras, ambas em
Santa Catarina, as maiores da América do Sul. A Companhia Lumber serrou e exportou a imensa reserva de madeira de pinho, do sul e oeste do Paraná e Santa Catarina.
Naquela época, nos anos 1909 a 1914, as atividades
irregulares da Lumber, norte-americana, e suas subsidiárias,
contribuíram e foram a causa principal da Guerra do Contestado. A exploração dos sertanejos e posseiros em terras
devolutas, prolongou-se por muito tempo. Os norteamericanos passaram a amedrontar e expulsar os caboclos
das suas posses, ocupadas por eles há várias gerações.
Desesperados, os nativos não tinham a quem recorrer e fugiam deixando todos seus bens para trás. Revoltava
ainda, aos caboclos, o fato de o Governo Federal vender
extensas áreas cortadas em lotes, a longo prazo, a imigrantes europeus que ali se fixavam, nada cabendo a eles próprios, posseiros e nativos da região.
A tensão política e social aumentava o problema
com os desmandos da polícia. Em tal estado de incerteza,
surgiu um líder e guia espiritual na figura de um monge,
101
com o nome de José Maria de Agostinus. Aliciou ao seu
redor os descontentes e injustiçados caboclos, os bandidos e
facínoras perseguidos pela polícia, deu-lhes instrução militar, armando-os com fuzis, espadas, facões e garruchas.
Os governos do Paraná e o Federal enviaram forças
policiais e militares para subjugar os sertanejos “fanáticos”
e o seu chefe. A expedição militar bem armada foi comandada pelo Coronel João Gualberto. Os soldados atacaram, e
numa luta feroz corpo a corpo, quase foram aniquilados.
Morreu no combate o comandante João Gualberto e
próprio monge José Maria. Foram necessárias muitas expedições militares, do governo federal, para se conseguir
desbaratar os “fanáticos”, perdendo-se milhares de vidas
entre oficiais, soldados, colonos e sertanejos.
Em 1918, o Paraná foi obrigado a titular aos norteamericanos da Brazilian Railway Company extensas glebas
em pagamento da construção da ferrovia São Paulo-Rio
Grande e do ramal Ponta Grossa-Guarapuava. Quase todo o
sudoeste passou a ser propriedade desta multinacional.
Em 1921, constitui-se a empresa Brasileira de Viação e Comércio (Braviaco). A Companhia São Paulo-Rio
Grande, mesmo com a transferência do seu patrimônio à
Braviaco, assegurou para si a posse de extensas áreas no
Sul e Oeste do Paraná, visando obter terras às margens do
Iguaçu para exploração da madeira.
Com a revolução de 1930, e a tomada do governo
do país por Getúlio Vargas, as concessões de terras devolutas da Companhia Brasileira de Viação e Comércio (Braviaco), sucessora da Brazilian Railway Company, que, por
meio de suas subsidiárias Southern Brazil Lumber and Colonization Company e da Estrada de Ferro São Paulo-Rio
Grande, exerciam a atividade madeireira, foram canceladas, pelo decreto n.º 300, assinado pelo Interventor Federal
do Paraná, general Mário Alves Monteiro Tourinho.
102
ESTEPHANIA E TAVARES
Aleksander Kowalski e Ksavera Antônia, sua mulher, e o filho Konstantin de 2 anos, chegaram em Paranaguá pelo vapor “Espirito Santo” no da 18 de dezembro de
1890. Seu tempo de permanência na Ilha das Flores, onde
desembarcaram do navio Darmstadt, junto com a família de
Jakób Gryczynski, foi prolongado por ter seu filho adoecido, atacado por disenteria bacilar.
Maria Josepha, a filha mais velha de Jakób e Josepha, casada com Francisco Krenski, veio no mesmo navio
acompanhada por dois filhos pequenos, o marido e os pais
dele. Após a permanência necessária na Ilha das Flores,
seguiram o itinerário dos outros imigrantes que optaram por
assentar-se na Colônia São Mateus.
As famílias de Aleksander Kowalski, Francisco
Krenski e de seu pai Anton, foram encaminhados para a
Colônia Canoas, fundada pelo governo Federal, distante 3
quilômetros de São Mateus. Receberam um lote de 10 alqueires de terras férteis e incentivos para construção da
moradia. A família Krenski mudou-se mais tarde para a
Colônia Vera Guarani, próxima à Estação Paulo Frontim,
da Estrada de Ferro.
Canoas, ficava distante da Colônia Água Branca,
onde foi assentada a família de Jakób Gryczynski, aproximadamente 20 quilômetros. Stephania ficara sem a companhia da irmã Ksavera, sua amiga e confidente. Como eram
muito unidas, ela sentiu profundamente a separação; vivia
tristonha, saudosa da irmã, alheia, perambulando pela casa.
Também, não tinha se conformado, nem esquecido a morte
do seu amado marido Mathaei, na Sibéria, e do bebê, que
perdera para o mar. A vida golpeara-a ferozmente.
Ela acordava-se mais cedo do que os outros. Ouvia
o primeiro cantar dos galos; não abria os olhos, mesmo
103
com janelas fechadas sabia quando o sol nascia. Reconhecia
pelo sussurrar das folhas, pela mudança dos sons da natureza. Ouvia cada ruído, cada latido do cão, trinado do sabiá,
cada sopro do vento. Tudo isso reboava nela tristemente,
como numa lápide. Às vezes saía do seu peito um gemido –
e só isso. Uma pedra comprimia-lhe o coração. Mas mesmo
este atroz abraço não conseguia sufocar-lhe a dor na alma.
Nas profundezas do silêncio noturno, quando o último ruído emudecia e desaparecia, ela ainda ouvia o som
dos trôpegos passos, temerosos, medindo o vazio da sua
vida, do tempo que passava. Ecos de vozes chamando alguém das sombras do passado. Então ela escutava atenta,
com esperança, o grito da chamada, e olhava com olhos
chorosos para a escuridão à procura do ser amado.
Gemia durante horas, não para suavizar sua dor e
frustração, pois, quanto mais doloroso era o seu lamento,
tanto maior era sua dor. Depois, caia no torpor e ficava na
tranqüilidade da sua fraqueza. Nos momentos da duração
desta luta, tentava às vezes minorar a sua aversão pela vida.
Olhava o colorido das flores, o encanto maravilhoso da luz
do sol, mas tudo continuava estranho e indiferente a ela.
Ficou só. Caminhava entre as ruínas da sua vida, do
seu infeliz amor, da sua maternidade frustrada. Com o tremor no coração, sua alma vagava entre obstáculos intransponíveis. Estava na escuridão, sem luz, como uma vela apagada. Sua alma perturbada não conseguia encontrar a
paz. Stephania precisava esquecer o passado para poder
viver. Senão enlouqueceria. Teria que deixar os pensamentos se aquietarem como as pedras no fundo do rio.
Resolveu encetar a grande luta para equilibrar a sua
vida, e seguir em frente, já que era esse o seu destino. Não
se conformava com a vida sem conforto que levava naquele
recôndito lugarejo do sertão brasileiro. Ela, que já teve as
104
melhores condições de vida, como dama de companhia da
condessa Maria.
Negou-se a trabalhar na lavoura, sob o sol escaldante, plantando e capinando, ou em casa, realizando o
trabalho doméstico. Procurou então um trabalho na escola
local. Seria professora das crianças da colônia. Mas a sua
beleza, inteligência e modos refinados, incomodavam as
mulheres do povoado. Por causa da inveja e preconceito,
não conseguiu o emprego que tanto almejava.
Desde que chegara à Água Branca, havia mais de
um ano, era um dos assuntos mais discutidos da vila. Os
homens estavam fascinados por aquela mulher elegante,
vistosa, de formas desenvolvidas, de nariz empinado e faces
rosadas, bem feita de corpo, um lindo tipo eslavo. Ela era
uma tentação para os olhos dos homens. Habitualmente era
altiva e reservada; mas educada e amável, quando interpelada por alguém. As mulheres encaravam essas qualidades
com uma certa reserva e inveja.
Naqueles dias, voltou para a colônia o agrimensor
Antenor Tavares, que tinha ido a Curitiba receber instruções acerca da demarcação dos lotes em Rio Baio. E como
Água Branca, mesmo sendo um núcleo em início, oferecia
mais conforto aos transeuntes do que Rio Baio, Tavares
preferiu hospedar-se ali, na pousada do Chico. Diariamente
deslocava-se até o trabalho na mata e voltava à tarde.
Pelo caminho que levava à Colônia Água Branca,
Tavares vinha galopando, montado num cavalo castanho,
todo ajaezado, cuja fina pelagem brilhava aos reflexos do
sol. Moço de seus trinta anos, quando muito, estava pensativo. Cobria-lhe a fronte larga um chapéu de palha de abas
caídas. O rosto comprido, nariz aquilino, olhos negros, vivos e cintilantes, davam a sua fisionomia a expressão brusca e alerta das aves do sertão. Essa alma tinha o arrojo e a
velocidade do vôo do gavião.
105
Nascido e criado na cidade de Curitiba, onde estudou e se formou como agrimensor, adquiriu, no seu trabalho e no contato diário com a mata, os hábitos do homem
simples do interior. Trazia botas inteiriças, rugadas sobre o
peito do pé e ornadas com fivelas prateadas. Trajava-se
com extrema simplicidade, camisa xadrez e calça de brim
escuro. Vinha distraído. O patear cadente do cavalo fazia
um ruído cavo na terra empapada de chuva, quando, de repente, ouviu um chamado:
- Senhor Tavares!
O cavaleiro colheu prontamente as rédeas, fazendo
estacar a montaria, e voltou-se para ver se com efeito o haviam chamado como lhe parecera. A rapidez do galope e a
repercussão do solo tinham impedido que ouvisse distintamente a voz e a reconhecesse.
- Que milagre ! Hoje o senhor madrugou!
- Ah! é você, dona Stephania! Quer uma garupa? –
replicou o moço, sorrindo.
- Obrigado, não ficaria bem, o senhor sabe!
- Então nós encontraremos numa ocasião mais propícia - sugeriu Antenor - deu rédeas ao animal e partiu a
galope.
Stephania acompanhou com os olhos o moço até este sumir na volta do caminho. Quando o vulto encobriu-se
por detrás da folhagem de uma árvore que lhe interceptou a
vista, a jovem, abafando um suspiro involuntário, continuou
o seu caminho.
Naqueles dias foi promovida uma festa na igreja local. Terminados os festejos religiosos, ao cair da noite organizaram-se no salão paroquial danças ao som de violino,
violoncelo e sanfona, que fizeram a alegria dos jovens. Stephania e seus irmãos, Alexandre e Ladislau, participavam
divertindo-se alegremente.
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Num dado momento adentrou o salão o agrimensor
Antenor Tavares. Aos primeiros acordes de uma valsa,
ofereceu, numa reverência, o braço à jovem Stephania. Rodaram pelo salão, a princípio sozinhos e calados. Depois
outros pares entraram. Tavares, elaborando os passos da
dança, iniciou a arte de conquista que tão bem praticava.
- Senhorita, você foi a maior surpresa que já tive
nestas redondezas.
- Por quê, senhor?
- Porque você é a mulher mais bela destas paragens.
Stephania ruborizou-se, incomodada.
- Você é comprometida?
- Não, senhor! Sou viúva.
- Desculpe a minha curiosidade! Faz tempo é viúva?
- Faz apenas um ano que meu marido faleceu. Mas
não falemos disso, é uma história muito triste.
- Desculpe mais uma vez a indelicadeza do comentário, mas parece incrível que não seja ainda noiva ou casada novamente, bela como é não tem competidora nesta redondeza.
- O senhor e que é amável.
- Verdade! Você é linda. Acredite-me.
O agrimensor confidenciava:
- Vim a serviço do Departamento de Terras e Colonização e jamais esperei encontrar uma jovem com seus
predicados. Estou encantado!
- Ora! Não sei o que lhe responder... nós polonesas
somos desconfiadas.
A música parou. Tavares agradeceu à sua dama,
numa discreta mesura e retirou-se para junto de outros cavalheiros. Assim terminou o seu primeiro round.
Certa vez, Tavares viu a bela Stephania voltando
com compras da venda. Estava encantado com ela. Seus
olhos se encontraram e uma corrente elétrica perpassou-lhe
107
o corpo. Não conseguiu desviar o olhar da silhueta altiva e
a seguiu. Alcançando-a, perguntou cortesmente:
- Posso acompanhá-la?
- Ora, pode! Não tem nada demais.
Seriam quase quatro horas da tarde, o sol se debruçando atrás das grandes árvores da mata, quando Stephania
entrou em casa, acompanhada pelo agrimensor Tavares.
Estavam ambos ainda na varanda, se desfazendo do
barro vermelho que traziam nos sapatos enlameados, e já
as mulheres que estavam de visita, na sala da sua casa, manifestavam na expressão fisionômica, em diferentes graus
de intensidade, a sua estranheza ou desaprovação ante o
fato escandaloso de uma viúva andar na rua na companhia
de um homem moço e belo, que não era seu parente.
Espalhou-se a notícia pela colônia. Mal sabia ela
que era o único assunto do lugar. Seu nome andava na boca
do povo como um pássaro, ainda vivo, na boca de um gato.
O agrimensor, cujo trabalho tomava-lhe muito tempo, saía de madrugada e voltava à noite. Não via Stephania
sem emoção, e cedia à atração que a moça exercia sobre
ele; não a evitava, quando o acaso os aproximava. Ao contrário, nessas ocasiões ele se esquecia com ela em conversas interessantes; via nela uma pessoa culta e atraente. Simpatizava muito com ela.
De seu lado a moça, se às vezes cedia ao enlevo
dessas conversações, tratava-o com gentileza, mas com
reserva. Às vezes, nessas ocasiões, o pensamento da jovem
viajava de uma a outra flor, do ramo ao tronco, da folha à
raiz, como se procurasse um ponto qualquer onde se fixasse, distraindo-se dos pensamentos e recordações do passado. Stephania corria atrás do destino que a atraiçoara roubando-lhe a felicidade.
Outras vezes, o espírito solitário abstraía-se de tudo
quanto a cercava, para envolver-se no âmago da alma, atur108
dida por completa alheação do espírito, que andava bem
longe dali, através dos mares, na saudosa Polônia. Nesses
momentos, o viço dessa alma se expandia no olhar triste
dos grandes olhos castanhos com reflexos do verde da relva, e como esta, ficavam orvalhados pelas lágrimas.
Decorreu mais de um mês, desde o primeiro encontro. Durante esse tempo, Antenor viu Stephania cavalgando,
diversas vezes, assim como que por acaso.
Tavares levantou-se tarde naquele domingo. Seu único pensamento ao chegar à janela do quarto foi Stephania.
O sol já estava alto no céu. As laranjeiras do pomar, entre
folhas escuras, mostravam frutas amarelando, e pássaros
cantando, pousados nos galhos frondosos.
Voltou a sentar-se na cama, acendeu um cigarro. Ficou a ver a fumaça subir, volteando e espalhando-se indecisa pelo ambiente. Stephania de novo apareceu na fumaça,
sempre a figura esguia, sensual, na sua memória; era agora
a sua sombra, que não o deixava.
Atirou fora o cigarro.
Arreou o cavalo e saiu a passeio, sem perceber,
tomou o rumo da cascatinha, caminho que levava na direção da casa de Stephania. Um grupo de cavaleiros se aproximava; ele fez voltar o animal para dar-lhes passagem; este
movimento colocou-o em frente da face de Stephania, que
fazia parte da comitiva. Os olhos deles se encontraram.
Reconhecendo-a, o moço envolveu-a com o olhar,
um desses olhares ardentes e profundos. A moça que trazia
nos lábios um sorriso gracioso, perturbou-se e desviou a
vista. Sua face empalideceu e o olhar ficou triste.
Era a quinta vez que Tavares, inesperadamente, por
uma singular combinação do acaso, encontrava aquela jovem. A vila de Água Branca era bastante pequena, mas oferecia vários passeios e ocasião de diversão.
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No meio das paixões, que se agitavam em torno dela, Stephania conservava, devido a sua educação e altivez
natural, uma grande serenidade. Quando alguma vez uma
palavra mais significativa ou uma alusão mais direta a vinha provocar, ela a afastava com a sua ironia.
Assim permanecia estranha à luta de que era objeto.
Sua alma planava livre como um astro sobre as vagas que a
cobiça, a paixão ou o amor revolvia naqueles corações. A
moça ressentida retraia-se; tornava-se cada vez mais reservada constrangendo sua jovialidade e franqueza.
Antenor Tavares, o gentil agrimensor, apesar de
hábil na arte da conquista, encontrava obstáculos por parte
da moça; fato que o atiçava mais ainda; estava loucamente
apaixonado, e isso bastava para tirar-lhe a calma necessária
à realização do seu plano. Mas ele teria a paciência que o
caso requeria. O acaso foi-lhe favorável. Num certo domingo, foi convidado para o jantar na casa da jovem. Era o
dia do seu aniversário, ela completava 21 anos.
Stephania recolheu-se a seu aposento, para arrumarse para a ceia. Sentada defronte do espelho, penteava os
longos cabelos castanhos. A mulher bonita obedece a uma
lei da natureza; revelando-se na plenitude de sua graça, enfeita-se, como a flor desabrocha em todo esplendor.
Vestiu um vestido branco, leve, de extrema simplicidade, amarrou fitas azuis na cintura e nas tranças do cabelo; calçou sandálias pretas e colocou uma gargantilha de
veludo azul com um camafeu de coral branco, presente da
sua madrinha condessa Maria.
Nunca o seu bom gosto combinou melhor o traje e
nem este realçou-lhe tanto a beleza eslava, como naquela
tarde. Mas o encanto desse vestuário não estava no delicado
padrão do simples vestido longo e na forma elegante e original do penteado. O que a embelezava eram sobretudo o
110
brilho dos olhos castanho-esverdeados, a meiga auréola da
fronte, o sorriso dos lábios carmim e a graça do gesto.
Dentro em pouco devia chegar a sua casa o homem
a quem ela encontrara por diversas vezes, simpatizara com
ele. Resolvera aceitar a sua corte e mudar o rumo da sua
vida. Com consentimento paterno, abriu as portas da sua
residência para ele.
O coração ardente de Antenor, na sua fantasia, podia notar a identificação da alma da moça com a sua, expressas nas idéias e gostos iguais. Era esta a centelha da
paixão, a faísca do incêndio que ela ia atear sem querer.
Ele chegou e estava conversando com o pai dela. Depois de
um quarto de hora, Stephania entrou na sala. Tavares gentil, aproximou-se para cumprimentá-la.
- Está linda, senhora - falou com emoção.
- Agradeço a sua gentileza. Mas, o senhor ainda não
viu a nossa chácara; o pomar do meu pai é muito bonito.
Quer dar uma volta antes do jantar? – perguntou a moça.
- Com muito prazer- respondeu Tavares.
- Vamos, então! Pai, quer nos acompanhar?- pediu.
- Vão vocês, eu fico ajudando a sua mãe.
Querendo facilitar ao convidado a entrevista que ele
desejava, e sentindo-se ao mesmo tempo insegura pelo fato
de achar-se de todo a sós com ele, a jovem escolhera o passeio, que a deixava com toda liberdade de interromper a
conversa a propósito.
Antenor animou-se afinal e disse:
- Lembra-se do que me falou, certa vez, há quase
um mês, quando nos despedimos? Que seu romance na Polônia acabara triste?
- É verdade- respondeu Stephania. Eu disse que...
Ela conteve-se receando que lhe escapasse o segredo das
lágrimas, que tinham assomado a seus olhos na ocasião.
111
Antenor esperou um instante, mas vendo que o silêncio continuava, disse :
- Pois o meu acabou triste, muito triste.
- Conte-me, por favor - pediu Stephania.
- Não vale a pena. Uma afeição de infância, que lutou anos contra a adversidade, para acabar assim. Mas
quem dá valor a uma desilusão na vida? - concluiu o moço
em tom amargo.
- Compreendo quanto deve doer a perda de um amor
- observou a moça.
- Não é a perda de uma ilusão, mas a ruína da minha
vida inteira. Meu coração ainda sofre.
Stephania dirigiu-lhe um olhar interrogativo.
- Por quê ? Como foi?
- Não me pergunte; pois sofro muito com as lembranças. Aceitei esse trabalho longe de casa, fugi para cá,
enterrei-me no sertão para esquecer.
- Não conheço os mistérios do coração. Mas penso
que não pode haver um propósito mais gratificante do que
reavivar um coração que está morrendo, apagar um passado triste e criar para aquele a quem se tem estima uma nova existência!
- Quantos encontram no mundo um anjo que os console?- desabafou Antenor, com amargura.
Stephania não respondeu.
- Quando recebi a notícia, que deu o golpe na minha
vida, não pude entender. Desesperei. Achava falta de um
coração amigo, com quem desabafar. Conheci você. Talvez
não devesse, mas acreditei que me havia de compreender.
- Não se enganou - falou a moça.
- E, não sei por quê, tinha um pressentimento de que
isso me faria bem; e fez. Estas poucas palavras que trocamos restituíram-me a paz, e estou outra vez seguro de mim.
Voltaram para casa em silêncio.
112
- Chamam-nos para o jantar! – disse o dono da casa,
convidando com um gesto seu hóspede.
Sentaram-se à mesa, Antenor, Stephania, Ladislau,
Alexandre e o pai. Dona Jozepha acabara de trazer o caldo
de galinha e o prato de peixe assado com batatas; serviu o
convidado, os filhos e o marido. Sentou-se ao lado deles.
- Doutor Tavares, cuide de si! – falou Jakób, logo
depois de tomada a sopa.- Sirva-se mais, de peixe ou do
cozido, o que preferir.
- Já estou servido - respondeu o hóspede.
No decorrer do jantar, conversando com dona Jozepha, Tavares sentiu um prazer íntimo. Era o aspecto sereno da senhora, a efusão de bondade que irradiava de toda
sua pessoa e especialmente a maneira educada e fina com
que o servia.
Notara o modo atencioso com que Jakób o tratava e
também a fineza de colocarem-no à direita de Stephania,
que com gesto sério e meigo falava-lhe; ela, que com os
outros era sempre desdenhosa. Percebia, nessas circunstâncias, um clima favorável para seu propósito.
Ficaram calados por instantes; olhavam um para o
outro. A explicação, começaram a lê-la nos olhos de ambos.
Stephania abaixou os seus.
O jantar havia terminado. Foram servidas frutas da
época como sobremesa.
- Vamos para a varanda - convidou ela - a tarde está
bonita.
A tempo estava realmente lindo. Tavares, entretanto, interessava-se menos pela tarde do que pela moça. Não
queria perder a oportunidade de lhe dizer que a amava loucamente. Encostada ao parapeito da varanda que dava para
o pomar, a jovem simulava contemplar a beleza do pôr-dosol. Antenor olhava para ela como para um ícone e não ousava romper o silêncio.
113
Quase a dizer a palavra decisiva, ainda indagava a
si mesmo se esse gesto precipitado não iria pesar no seu
destino, se daquele capricho do momento não resultaria um
mal para toda vida. Mas a hesitação foi curta. Antenor ia
lançar a sorte, quando a mãe apareceu na janela da varanda.
Então surgiu outro momento de indecisão e Antenor falou
com a voz quase sumida:
- Não compreendeu ainda, quais são os transtornos
da minha vida? Que eu procuro superar?
- Compreendi, sim - murmurou ela – mas tenho receio de enganar-me.
- Não se engana - insistiu Tavares com calor - amo-a
desde o primeiro dia em que a vi. Não percebe isso há muito tempo? Não adivinhou já que a esperança do seu amor é
para mim toda a felicidade do amanhã? Diga! Fale uma
palavra só... definitiva.
Stephania escutava-o atenta e a sua resposta foi eloqüente. Confirmativa. Estendeu-lhe a mão trêmula e fria.
- Fale! Ama-me também? – perguntou Tavares depois de alguns minutos de contemplação.
- Gosto de você, sim! Muito! Tanto quanto me é
possível gostar - murmurou ela com hesitação - como se
essas palavras fossem apenas um eco do seu pensamento;
mas ele nem percebeu, tão enlevado estava.
E ambos ali ficaram, ela silenciosa, ele enamorado,
nesse êxtase doce, que é o melhor estado de alma humana.
Antenor passou-lhe o braço à volta da cintura e puxou-a docemente para si; depois segurou a cabeça entre as
mãos e depositou-lhe um beijo ardente nos lábios entreabertos, mas frios e insensíveis.
Iniciando com arrebatamento esta aventura amorosa,
era natural que Tavares saísse com a vaidade satisfeita. Não
era ele amado? E por uma mulher que tinha todas as qualidades que podem seduzir um homem ?
114
- Fui longe demais - pensava ele. Não devia alimentar uma paixão que há de ser uma esperança; e uma esperança que não pode ser para mim outra coisa mais que um
infortúnio. Que lhe posso dar em troca do seu afeto? O
meu coração, o grande amor que sinto por ela, só isso...
porque o meu nome não lhe poderei dar. Mas isto, por enquanto, ela não deve saber. Então, a fantasia começou a
desenhar-lhe uma existência futura, romanesca, mas não
legal, contudo, real e positiva.
- E que outra coisa ela pode querer? – dizia a si
mesmo. Seria, sem dúvida, melhor que houvesse mais sentimento naquela confirmação de amor que ela lhe fez. Queria que tivesse mais realidade nas palavras expressas por
ela. Creio que ela sente da mesma maneira que eu. Não me
anda ela a seduzir há muito tempo? Pensa que os seus atos,
sentimentos e pessoa não são objetos de comentários de
estranhos? Importam-me tão pouco essas críticas! Não vale
a pena aborrecer-me com isto - raciocinava ele.
- Que lhe disseram do agrimensor de fora, estranho?
– perguntou a ela, certa ocasião.
- Disseram-me muitas coisas que o desabonam,
como, por exemplo: que o agrimensor Tavares é um aventureiro, namorador e mulherengo.
- E você acreditou?
- Não totalmente, mas fiquei triste e com dúvidas.
Eu admirava-o.
- Querida, conheça-me primeiro, então fará depois
juízo correto de mim. Verá que não sou nada disso.
Amiudaram-se ainda mais as visitas de Antenor à
casa de Stephania. Dona Jozefa nutria simpatia pelo agrimensor. Já os irmãos dela o detestavam cordialmente; o pai
aceitava a sua amizade com restrições. Ele era cortês, jovial
e comunicativo. Antenor, entretanto, parecia indiferente aos
sentimentos que inspirava à família. O que lhe interessava
115
era Stephania. Com ela era gentil e atencioso. Expressava
sua ternura nas palavras a ela dirigidas.
A jovem, porém, não dissimulava; deixava transparecer no rosto o que sentia no coração. Expansiva e discreta, enérgica e delicada, entusiasta e ponderada, ela possuía
esses contrastes aparentes, que eram o reflexo do seu caráter. O amor de Antenor era de gosto amargo, cheio de dúvidas e suspeitas; tudo o magoava. Um sorriso, um olhar, um
gesto, qualquer coisa lhe bastava para perturbar o seu espírito. Suspeitava até dos pensamentos da moça. Não bastava
a força do amor para resistir à suspeita de todos os dias.
Tinha um ciúme atroz.
Stephania deixou de freqüentar os lugares onde ia
habitualmente. Raras vezes ia às festas de igreja e reuniões
no salão paroquial. De que lhe servia a máxima prudência
nas suas relações com as demais pessoas, se tudo era pouco
para obter a confiança de Tavares? – pensava a moça, que
não se acostumou logo a ler na fisionomia de Antenor.
Ele possuía a faculdade de esconder os seus sentimentos. Ao ciúme que o devorava, veio juntar-se o despeito. Antenor estava irritado consigo mesmo. Reconhecia
seus erros; achava-se grosseiramente injusto com a moça.
Não conseguia dormir à noite. A consciência acusava-o.
Não tinha o direito de enganá-la.
- O casamento me restituirá a confiança - justificava-se. Quando estivermos juntos, afastados da convivência
e do contato de estranhos, a paz reinará no nosso lar; e só
então seremos felizes.
Resolveu fazer o pedido da mão de Stephania aos
pais dela. Estava-se nos primeiros dias de outubro. O casamento fora marcado para final de dezembro, no dia do Natal. Marcado apenas entre os dois, porque Tavares conseguira da moça e dos pais dela a promessa de que a notícia
seria dada pouco antes do acontecimento.
116
- Qual a razão deste segredo? – perguntou o pai.
- É apenas um capricho, para não dar azar - respondeu Antenor.
A razão verdadeira ele não quis revelar.
- Se eu tivesse a tua natureza, desconfiaria desta exigência - disse ela. Acredito em você; mas duvido do destino. Receio do futuro em vista do passado.
- Do passado? – perguntou Tavares, levantando-se
de um salto, nervoso.
Stephania suspirou pesadamente.
- Que houve de mau no teu passado? - continuou o
agrimensor - fitando nela um olhar perscrutador.
- Tudo - respondeu ela comovida, com lágrimas assomando a seus olhos.
- Serei indiscreto se perguntar o que houve?
- Sossega! Não me pesa nada na consciência, mas
no coração...
- Amou muito alguém?
- Amei com verdadeira devoção a Mathaei, o meu
marido, que ficou na Polônia, retido pelo exército russo.
Servia ao czar Alexandre III, foi enviado à Sibéria para
guarnecer as fronteiras entre a Rússia e a Mongólia. Morreu
em combate com os mongóis. Como ouviu, sou viúva há
um ano.
A essa resposta sincera de Stephania, seguiu-se longo silêncio. A lembrança do passado a que ela se referiu
parecia doer-lhe muito, ainda, na alma. Palpitava-lhe o
peito e as mãos estavam geladas; tremia...
- Fale! Que acredita em mim e compreende o meu
drama - gemeu ela. Talvez não me dê razão para esta tristeza! Mas há coisas que um homem dificilmente alcança e
assimila.
- Nem quando ama? – perguntou Antenor, e continuou - posso não compreender, mas acredito na tua sinceri117
dade e devo consolar-te nesta tristeza, que não é um remorso? É?
- Como já te expliquei, fui casada na Polônia, secretamente é verdade, ninguém, nem os meus pais sabiam. Fui
obrigada a deixar o meu marido, por imposição do meu pai,
quando emigramos para o Brasil. Recebi a notícia da morte
de Mathaei já no Brasil. E toda minha confidência se resume nisto. Tive uma paixão da juventude, quando o amor
vem com a força dum furacão. Aquele afeto dominou-me
toda; parecia um sentimento imortal.
- E ele?- perguntou Tavares ansioso.
- Amava-me, sim! Para nós o amor era um êxtase
divino, uma espécie de sonho, uma transfusão absoluta da
alma para alma. A separação foi dolorosa, triste e fatal. E
aqui estou eu rememorando o passado. Às vezes penso que
não vim ao mundo para ser feliz nem dar felicidade a ninguém. É o meu destino.
Um sorriso forçado, de simpatia, apareceu nos lábios do Tavares.
- Você naufragou à vista da praia - disse ele - mas
do naufrágio sobraram-te as lembranças; mas sabe o que é
naufragar em alto mar, solitário, e perder tudo, menos a
vida? Comigo foi assim. Sim! Perdi muito mais, perdi a
esperança, o vislumbre do futuro. Deixei-me ir assim, rio
abaixo dos anos, gastando a energia da juventude, sem cálculo nem arrependimento, até que me bateu a hora da decepção. Meu coração ficou árido e seco! – continuou Tavares com voz embargada - é certo que, ao lhe encontrar ressuscitei, voltei a amar, e se o futuro me guarda ainda alguns
dias de felicidade, só a você ficarei devendo esta ventura;
só você poderá fazer este milagre...
Antenor Tavares desconfiava dos sentimentos e das
pessoas, mas isso não provinha só das decepções que encontrara, ele era mais do que tudo, inconstante, débil de
118
espírito e volúvel de coração. Falaram então dos seus projetos do futuro, do casamento, da viajem de núpcias que fariam depois. Antenor estava mais jovial e feliz que nunca.
Perdera as maneiras friamente polidas. Tornara-se expansivo, loquaz, terno, como antes. Não era só a situação que
explicava esta mudança; era a volubilidade do seu espírito.
Passaram-se mais alguns dias. Aproximava-se a data
do casamento. No dia 8 de agosto de 1891, veio o padre
Ladislau Smolucha rezar missa na Colônia Água Branca.
Neste dia houve muitos casamentos e batizados, pois o padre demorou muito para visitar a Colônia. Voltaria, especialmente, apenas em dezembro, para oficiar a Missa do
Galo e realizar o casamento da filha de Jakób Gryczynski.
Stephania, estava na cozinha, de avental branco à
cintura. Era véspera de Natal e do seu casamento. Ela ajudava a mãe no preparo da ceia, pois teria convidados especiais. Além da sua família, jantaria com eles seu noivo,
Antenor Tavares.
Na casa, tudo estava em movimento e rebuliço. As
pessoas da família se ocupavam com os preparativos para
a noite de Natal, que esse ano prometia ser ainda mais alegre do que de costume.
Em cima da mesa, no canto da sala, foi arrumado
um grande presépio. Habilmente disposta estava a manjedoura com o menino Jesus deitado sobre um molho de palha de trigo. Ao seu lado estava a mãe Virgem Maria e São
José, contemplando o filho recém-nascido; juntos, o jumento, o galo, a vaca, um grupo de ovelhas e os pastores, aos
quais o anjo anunciava o nascimento de Jesus. No último
plano o céu, onde brilhava a estrela de Belém e uma nuvem
resplandecente com um grupo de anjinhos cantando louvores ao Senhor.
Ladislau trouxe um pinheirinho verde do campo. Foi
enfeitado de bolas de vidro coloridas, sininhos, cordões
119
cintilantes e coberto com flocos de algodão que representavam a neve. Velas pequeninas coloridas, chocolates e
bolachas de mel completavam o arranjo. Toda esta arrumação dava um ar solene, de festa, ao ambiente. O costume de
armar a árvore de Natal veio com os imigrantes europeus,
seus descendentes continuaram a tradição.
Precisavam também enfeitar a igreja. Na porta principal colocaram arcos de galhos de palmeira e bandeirinhas
coloridas. O altar foi coberto com toalha branca de renda.
Em cima os castiçais de prata, com altas velas de cera amarela e esparsos pela nave da igreja, guirlandas e buquês de
flores coloridas colocados em vasos de barro.
Stephania, tendo terminado os preparativos, pôs a
mesa do jantar e foi se arrumar para esperar Antenor. “Ele
está acostumado a ver moças elegantes e bem vestidas na
cidade onde mora”- pensou e subiu correndo os degraus da
escada. Tinha em seus movimentos aquela mesma gentileza
e vivacidade de jovem impaciente e irrequieta. Aprontou-se
rapidamente e momentos depois saiu do seu quarto com um
vestido de étamine azul claro; os longos cabelos em tranças
caíam lhe pelos ombros. Desceu a escada correndo.
Sentada próximo à janela em um banquinho, esperava pelo noivo. Em sua frente, um perto do outro, sentavam José e João, amigos dos seus irmãos. Enfeitiçados pela
beleza de Stephania, os olhares gulosos dos dois moços
pareciam abelhas adejando em torno de um botão de rosa.
- Era véspera de Natal, mais algumas horas e eles
uniriam para sempre os seus destinos – refletia Tavares.
Esse ato decisivo e grave da vida do homem, ele encarava
com tranqüilidade, sem hesitar pela responsabilidade e nem
recear as conseqüências que adviriam com o seu procedimento. Ao encontrar a noiva, num ímpeto fez a pergunta:
- Jura-me mais uma vez que me ama! Jura que já esqueceu teu marido falecido – implorou ele.
120
- Pelo céu, por ti, juro que te amarei sempre! Por
que não o amaria agora que vai ser meu marido? Ou não
serás totalmente meu? – indagou Stephania.
- Duvidas?
- Eu não sei duvidar; recear sim. Já te disse por que
razão. Mas hoje não temo, não; sinto que me amas de verdade. Só te peço que esqueças o meu passado, como eu
procuro não lembrar. Esqueça também o teu.
Domingo, dia de Natal, às oito horas, Antenor vestiu-se com esmero. Não demorou muito e parou um carro a
sua porta. Entrou nele e mandou tocar para a igreja, onde
Stephania o esperava. Vestida de branco, uma grinalda de
flores do campo ornava sua cabeça. Estava linda, com um
sorriso tranqüilo nos lábios.
Casaram-se no dia 25 de dezembro de 1892, na igreja de Água Branca, com a benção do padre Ladislau
Smolucha. A igreja estava cheia; pois houve mais casamentos e batizados naquele dia. Os seus padrinhos foram sua
irmã Ksavera Antônia e Aleksander Kowalski e o irmão
Ladislau, com a noiva Leonora Jakubowski.
Os pais de Stephania ofereceram uma pequena recepção em sua residência. Os noivos viajaram para Paranaguá, onde o casal ia fixar residência. Ele pleiteava um cargo
de superintendente no porto daquela cidade. Esperava consegui-lo em breve. Mas, o tempo foi passando e a nomeação não vinha.
Aparentemente viviam felizes. Stephania envolvida
com o trabalho do lar e o cuidado com os filhos que nasceram, um menino e uma menina. Tavares, aguardando o
cargo em Paranaguá, continuou no trabalho de demarcação
de terras em São Mateus e Água Branca, fato que o obrigava a constantes viagens. Muitas vezes levava junto a mulher e as duas crianças, que ficavam em casa dos pais dela,
em São Mateus, vila onde Jakób tinha se mudado.
121
Tavares viajava muito, dizia ser por causa do seu
trabalho. Das freqüentes viagens dele a Curitiba, Stephania
começou desconfiar. Queria saber a razão. Insistiu. Exigiu.
Naquele dia, depois do café da manhã, que tomou
sozinho, o agrimensor desceu para o escritório. Quando
todos tinham partido para o trabalho, ele deixou-se ficar,
inquieto, a desejar que o tempo passasse depressa.
O velho relógio cuco, da sala de jantar, bateu lentamente as horas. Ele ouvia as vagarosas pancadas reboando, tristes, por todo o casarão silencioso. Tavares mandou
chamar Stephania. Ela atendeu, altiva, mas tranqüila.
Ele começou a andar pela casa, evitando olhar para
a mulher. Ia do escritório para a sala de visitas, olhava o
retrato de casamento deles, entrava para a sala de jantar,
postava-se na frente do relógio, seguia com os olhos por
alguns instantes o movimento do pêndulo, lembrando-se de
outras esperas angustiosas do passado.
Resolveu falar.
- Stephania, nossa vida não pode continuar assim.
Você está ficando mal humorada, agressiva, fato que me
entristece. Sabe que a amo, acima de tudo. Acredite, por
favor, naquilo que eu disser. É difícil e doloroso, mas devo
te falar, por mais que sofra.
- Casei-me aos vinte anos de idade, com Mariana,
um amor tranqüilo de infância. Durante um tempo fomos
felizes. Eu desejava ter filhos, mas ela apresentou uma doença grave, necessitando de longo tratamento e cuidados
específicos. Foi condenada à cadeira de rodas. Esta desgraça ocasionou a ruína das nossas vidas.
- Eu era jovem, cheio de vigor, de alegria, não consegui renunciar a tudo isso; a minha juventude reclamava.
Confesso-te que quando o médico falou, eu não compreendi
de imediato, todo o horror da situação. Só via ela minha
esposa querida, frágil, doente, inválida. Meu coração con122
frangeu-se. Senti imensa pena dela, de mim e da infelicidade do nosso lar. Minha querida, compreenderei a tua perplexidade, mas até que ponto ainda me amas para perdoarme?- implorava ele.
Stephania, ainda calma, resolveu dizer o que mais
de uma vez protelara:
- Tavares, eu vou ser franca, eu não quero mais viver com você. Não quero! Você é casado com outra. Como
conseguiu enganar-me de modo tão infame? Você è hipócrita, vil e covarde. Jurava que me amava; lembro a época
em que vinha à minha casa, dizia estar apaixonado, e sei
que, quanto mais viver contigo, maior será a minha desilusão. Não confio mais em você.
- Então, quer me abandonar? Não faça isto! Você
sempre foi, e sempre continuarás sendo para mim, uma
deusa, a quem adoro. És a única mulher do meu coração,
não me abandone.
- Não e não! – gritou ela - não o perdoarei, mesmo
que se ajoelhe a meus pés; primeiro terá de separar-se da
tua esposa, se quiser que eu o aceite de volta. Escolha! Eu
exijo! Ou ela ou eu! Caso contrário, vou embora e levo
meus filhos comigo. Para vivermos brigando, não nos convém. Dou-lhe a liberdade; e você restabelece a minha.
- Mas, por favor, tente compreender, eu não posso
abandonar Mariana, incapaz e doente como se encontra.
Seria uma crueldade, uma falta de humanidade, eu não me
perdoaria nunca - suplicava Antenor.
- Sim! - disse ela, finalmente - compreendo que tua
situação é horrível. O culpado deve sofrer mais do que o
inocente, quando assume a culpa de todo mal. Mas como
hei de te perdoar e voltar a ser tua mulher depois de descobrir a duplicidade de tua vida, do embuste e da mentira?
Que vida triste eu teria com você!
Assim que se acalmou um pouco, continuou:
123
- Sim, a verdade é que ela é a esposa legítima, é casada legalmente, enquanto eu casei com você só na igreja.
Agora eu compreendo, o porquê do segredo do nosso casamento, você temia que chegasse ao conhecimento da tua
esposa e dos seus parentes. Portanto, tudo foi muito bem
planejado por você para enganar-me e a meus pais. Não
compreende, Antenor, que a minha vida foi prejudicada por
você? Eu fui vítima da tua paixão doentia, da tua falta de
caráter. Tudo sacrifiquei por você e seus filhos e você me
enganou... Como poderei acreditar em você, agora? Nunca.
- Não, agora tudo acabou, tudo, tudo o que constituía a justificativa para a minha dedicação, para o amor que
lhe dei... Para que me esforcei? Para que trabalhei? É horrível que tudo se tenha transformado na minha alma; em vez
de amor e ternura, já não tenha dentro de mim senão ódio e
desprezo - com estas palavras Stephania extravasou toda a
revolta que sentia.
- Stephania querida, compreendo tudo perfeitamente, mas não se atormente tanto. Eu sei que estás ofendida e
não és capaz de ver as coisas como elas são realmente. Fica
comigo, vamos esquecer tudo, refazer a nossa vida. Ainda
podemos ser felizes juntos, com nossos filhos, porque os
amo muito. Se você for embora, eu não permitirei que os
leve. Eles também são meus! Deixe-me as crianças!
- Jamais! - gritou ela, enfurecida – eles vão comigo,
para onde eu for.
- E para onde você vai?
- Para a casa dos meus pais, em São Mateus.
- E se me casar com você, também no civil?
- Casar comigo? Se você já é casado! Quer ser bígamo? Isto é crime, ou você não sabe? Não quero, não lhe
convém. Desejo apenas que me deixe partir em paz.
O golpe foi terrível e mais profundo do que nunca.
Ela não receava uma rival triunfante, mas temia uma invá124
lida que requeria assistência continua, com dedicação. Agora, sentia desprezo pelo homem que a enganara. Arrumou devagar as canastras, colocou dentro os cobertores, as
roupas de cama, mesa e banho A roupa dela e das crianças
foram guardadas no baú. Encaixotou a louça e as panelas.
Levou o papagaio. Os volumes foram colocados no carro de
bois. Stephania e as crianças iriam no lombo de mulas.
Partiu de madrugada.
Ela mandara Tavares embora da sua vida, mal pode
resistir a tanta humilhação. Uma lágrima - a última que verteria pelo pai dos seus filhos, - rolou da sua face. E esta foi
a única expressão do seu imenso desespero.
Stephania foi embora para São Mateus, levando as
crianças, foi pedir proteção ao pai. Dias depois, Tavares,
desesperado, foi buscar os seus dois filhos, os quais trouxe
de volta, após muita discussão e violentos protestos de Stephania. Deixou-os aos cuidados de seus parentes, na Capital. Ela negou-se, decisivamente, a voltar com ele. Seu casamento tinha durado apenas cinco anos. Ela nunca perdoou
a traição de Antenor Tavares.
Após o desenlace catastrófico da sua união com
Tavares, ela tratou de refazer a sua vida. Estando já com 28
anos, casou-se em 24 de janeiro de 1899 com Antônio Repecki, de 20 anos de idade, amigo dos seus irmãos. A cerimônia realizou-se na igreja de São Mateus, celebrada pelo
padre Jakób Wrobel (registrado no livro de casamentos da
paróquia de São Mateus).
O casal residiu na colônia Canoas por um ano. Mudaram-se depois para cidade de Posadas na Argentina, onde
morava seu irmão Alexandre. Stephania e Repecki tiveram
uma filha. Após curta convivência, separou-se dele também. Efetivamente, não nasceu para o casamento. Ela não
esquecera Mathaei, o seu primeiro amor, portanto, não conseguia ser feliz e proporcionar felicidade a alguém. Levan125
do a filha, foi trabalhar como governanta para uma família
de aristocratas argentinos, em Buenos Aires.
Viveu longe da família, na Argentina, por longos
trinta anos, sem dar notícias aos pais, irmãos, ou ao casal de
filhos que ficaram com os parentes do pai, na Capital. Casou a filha de Repecki com um cidadão checo, que residia
em Buenos Aires.
Durante esse tempo, em Paranaguá, faleceu Antenor Tavares acometido de malária. Sua esposa Mariana
tinha morrido alguns anos antes em Florianópolis, onde
vivia aos cuidados dos parentes, era pessoa inválida.
Decorrido todo esse tempo, Stephania voltou para o
Brasil, em 1920. Veio de navio de Buenos Aires, desembarcando em Paranaguá. Seguiu de trem até Porto União, lá
embarcou no vapor que subia o Rio Iguaçu até São Mateus. Quis visitar seus pais, sem saber que Jakób e Jozepha
tinham falecido recentemente, um após o outro, com diferença de poucos dias.
Foram sepultados no cemitério de São Mateus, como imigrantes, sem placa indicativa no túmulo e sem certidão de óbito, como era costume da época. Stephania chorou
muito, rezou no cemitério pela alma dos pais e pela última
vez, dirigiu-se ao local onde existia a morada de paredes
brancas. A surpresa foi chocante, pois lá só encontrou as
ruínas da casa paterna, após o incêndio que ocorreu dias
antes. Olhava sem compreender... O espetáculo que se apresentava feriu fundo a sua alma já tão sofrida. Mais uma
vez o destino a golpeava.
Andou pelos entulhos, procurando encontrar sinais
onde antes localizavam-se a sala, os quartos, a cozinha.
Removendo as cinzas encharcadas pela chuva com um pedaço de pau, enxergou algo brilhante. Abaixou-se e, surpresa, viu o anel misterioso, de poder fatídico, com a pedra de
opala negra e hieróglifos egípcios, dado a ela pelo seu ma126
rido Mathaei, por ocasião da despedida. Ela havia esquecido o anel na gaveta da sua cômoda, ao partir de mudança
para Argentina. Realmente, nunca pudera esquecer Mathaei, conforme ele profetizara, e a vida não lhe deu chance de
ser feliz, foi madrasta para ela.
Stephania veio para Irati, em 11 de setembro de
1920, para o casamento do seu afilhado João, filho do irmão Ladislau e Leonora, aos quais estimava muito. Retornou para Buenos Aires para reassumir o seu cargo de governanta, só voltando para Irati, em visita, em 10 de julho
de 1930. Neste ínterim recebeu uma boa proposta de emprego em São Paulo, para trabalhar como governanta na
residência da família do conde Matarazzo.
Aceitou, e novamente foi embora para longe de sua
família. Mantinha correspondência com seu irmão Ladislau.
Numa carta de Leonora soube do grave estado de saúde de
Ladislau. Voltou para Irati no Natal de 1933. Seu irmão
faleceu no dia 20 de fevereiro de 1934. Stephania estava
com 64 anos de idade. Sofria de asma brônquica, doença
que adquirira após uma forte gripe, agravada pela depressão
que a acometeu em seguida. Esse fato a incomodava no
desempenho das suas funções como governanta.
Já estava cansada de trabalhar e viver na casa de estranhos, mesmo tendo ocupado cargos e posição de confiança nos empregos. Ansiava por possuir um canto seu e
tranqüilidade, mas não tinha economizado o suficiente para
comprar uma casa.
João, seu afilhado, homem generoso, de coração
bondoso, condoeu-se da sua sorte, construiu-lhe uma pequena casa, no meio do grande pomar de sua propriedade.
Ela teria ali paz, segurança e conforto. Comprometeu-se
também a custear-lhe a alimentação e remédios, e tudo
mais que fosse necessário. Stephania aceitou e veio morar
na colônia Alto da Serra dos Nogueiras.
127
LADISLAU E LEONORA
No domingo haveria festa na igreja de Água Branca.
Os imigrantes aguardavam o acontecimento com grande
expectativa. Chegaram colonos de outras comunidades. Era
a ocasião em que podiam se encontrar e trocar as experiências. Os mais velhos para falar sobre a terra e as lavouras
plantadas e da colheita. Os jovens, moças e rapazes, para
desfilar em frente da igreja nos seus trajes domingueiros.
Nessas ocasiões o flerte e o galanteio imperavam.
Foi num domingo desses que o jovem Ladislau encontrou Leonora. Ela passou por ele, olhou-o nos olhos e
sorriu. O moço encorajado pelo sorriso, perguntou-lhe, sem
perda de tempo:
- Posso acompanhá-la?
- Não sei se deve...
A moça respondeu com um gesto e deu alguns passos, a fim de ir embora. Ladislau deteve-a, colocando-se
entre ela e a amiga que a acompanhava.
- Não se vá embora ainda - pediu ele.
- Por quê ?- perguntou a moça, ruborizando as faces.
- Você não desconfia que gosto da sua companhia?
Leonora baixou a cabeça e quis dar outra volta para
poder esquivar-se dali; porém ele interceptou-lhe de novo o
caminho.
- Deixe-me passar - pediu ela mansamente.
- Não antes de darmos uma volta e conversarmos
um pouco, por favor - implorou Ladislau.
Saíram a passear pelo pátio da igreja, conversando
sobre nada, apenas para poder olhar-se nos olhos, encantados, apaixonados.
Leonora era de uma beleza singela; de compleição
delicada; rosto rosado, miúdo, parecida com uma boneca
de porcelana; ressaltavam-lhe na face, os olhos tão azuis
128
como o céu límpido de verão. Cabelos castanhos, presos em
tranças. Trajava vestido claro, esvoaçante, que dava maior
graça ao talhe esbelto e gentil. Era alegre e brincalhona.
Seus pais, Adalberto e Marcela Jakubowski, imigrantes poloneses, eram naturais de Debsk, distrito de Mlava, Província de Warszava (Varsóvia).
Desembarcaram com os filhos, no Porto de Paranaguá, no dia 15 de março de 1891, vindos do Rio de Janeiro
pelo vapor “Estrela”, após permanecerem de quarentena na
Ilha das Flores.
Juntamente com outras famílias de imigrantes, foram transportados em carretões puxados por bois, dirigindo-se para a colônia Canoas, próxima a São Mateus.
Foram assentados em lotes já demarcados. Jakubowski, homem trabalhador, determinado, como um autêntico mazowiano, lutou com tenacidade no seu quinhão e já
havia superado as primeiras dificuldades.
Leonora e Ladislau encontraram-se diversas vezes
em festas e matinês dançantes aos domingos, no clube da
comunidade em Água Branca. Certa vez, já cansados de
dançar, deixaram o salão e saíram para o pátio.
Um ipê amarelo, coberto de flores, oferecia sua
sombra refrescante aos exaustos dançarinos. Encostaram-se
na árvore, rindo e conversando, achando graça em tudo,
despreocupados e felizes.
Ladislau passou os braços em volta do corpo de
Leonora, aprisionando-a ao tronco da árvore. Era arriscado
o que iria fazer. Mas perdera naquela ocasião toda a lucidez
de espírito.
O lugar estava deserto e teria tempo a seu dispor para lhe dizer tudo. Mas seus lábios ficaram mudos, enquanto
os olhos falavam com a eloqüência da paixão mal contida,
prestes a irromper. Cravando os olhos em Leonora, disse
com voz trêmula:
129
- Não deixarei você sair daqui, sem que me diga se
gosta de mim ! Fale por favor! Você me ama?- implorava o
jovem apaixonado.
Não obteve resposta, apenas um sorriso e o olhar
brejeiro que falava:
- Amo sim, ainda duvida disso?
Impetuoso, puxou-lhe a cabeça para junto de si e
antes que ela pudesse fugir, encheu-lhe a boca de beijos.
Ela mal o enxergava. Teve um gesto ingênuo de defesa, o
coração lhe batia como um pássaro desesperado.
- Não! pare com isso! Agora não! - foi quase um grito. E ela desprendeu-se dos seus braços, e se foi, correndo
sem olhar para trás.
Terminados os festejos, Jakubowski reuniu a família
e rumou de volta a Canoas. Era já noite fechada quando
chegaram em casa. Leonora desceu rápido da carroça, abriu
a porta, transpôs a soleira e entrou na sala, dançando...
Sentia-se eufórica, feliz, mas um tanto ansiosa. Precisava
falar com seus pais, sobre o momento maravilhoso que
estava vivendo.
Nunca sentira-se assim, parecia que estava planando nas nuvens. Encontrara o homem da sua vida. A emoção
dela era sincera e forte e seus olhos pareciam transmiti-la a
tudo que a rodeava, desde a lua cheia que brilhava lá fora,
até o último grilo que cantava na relva:
- Olhem! vejam a felicidade do meu coração, encontrei o homem amado. A minha alma está em festa! Dancem e cantem comigo!
O pai desconfiou de tanta alegria.
- Leonora, você viu o passarinho verde? - perguntou
em tom de brincadeira.
- Não foi nenhuma ave maravilhosa que encontrei,
meu pai! mas o homem da minha vida. Conheci o moço
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Ladislau Gryczynski, por quem meu coração bate emocionado. Peço permissão para que ele freqüente a nossa casa.
- Se é do teu gosto, vou autorizar! também, para
conhecê-lo melhor.
No domingo seguinte Ladislau foi visitá-los.
Vestia um terno escuro, camisa branca e barrete de
pele de astracã na cabeça, o qual tinha trazido da Polônia.
Cavalgava um cavalo negro, de pelagem lustrosa, ornado
com jaezes. Era um esplêndido animal e o cavaleiro que o
conduzia montava com garbo, no selim de couro, coberto
com pelêgo vermelho de pele de carneiro; os pés suspensos
em estribos. Segurava com firmeza as rédeas da montaria,
como um cavalheiro nobre, que, em verdade, o era, mesmo que sua linhagem se perdesse nas brumas do tempo.
Leonora mostrou-se tão expansiva naquele dia; verteu de tal modo a vida que nela palpitava, que a mãe compreendeu tudo o que se passava entre ela e o moço visitante.
Simplesmente o amor despertou nos seus corações.
E com a ingenuidade das almas simples, resolveram
juntar os seus destinos. Não interrogaram o futuro. Entraram nele sem receios, seguindo a luz radiante da felicidade.
Numa tarde de visita a casa de Leonora, Ladislau
expôs a ela a necessidade de apressarem o casamento.
- Quer a minha resposta hoje?- interrompeu a moça.
- Poderia ser hoje?- insistiu ele.
A mãe Marcela, que estava presente, apoiou a idéia
do jovem pretendente.
- Convém decidir o quanto antes - disse ela - não
podem deixar passar muito tempo, pois que já é época de
preparar a terra para o plantio da lavoura. Poderiam plantar
na terreno de vocês.
- Certamente, a senhora tem toda razão.
Com o consentimento do pai Adalberto, combinaram a data e os pormenores do enlace matrimonial. Casa131
ram no dia 28 de dezembro de 1894, na capela da vila de
São Mateus, sendo oficiante o padre Jakob Wrobel. Eram
muito jovens ainda, Leonora com apenas 17 anos de idade
e Ladislau com 21 anos, mas estavam apaixonados, e o
amor tem pressa.
Começaram a vida em comum com grandes esperanças no futuro, mas teriam que viver o presente, que só
lhes ofereceu alegrias médias, sujeitas às condições limitadas e de sacrifício, de colonos emergentes. Ladislau, com as
economias que possuía, somando a ajuda do sogro e do pai,
conseguiu comprar um lote de terra de 25 hectares, na colônia Canoas, distante 3 quilômetros da sede de São Mateus.
Construiu uma casa confortável, sólida, numa clareira aberta no sertão fechado. Coberta com tabuinhas lascadas
de pinheiro, as paredes sarrafeadas, as janelas firmes, mesmo que sem vidros, as portas bem acabadas, com dobradiças e fechaduras. Dividida em quatro cômodos, com soalho
e forro de madeira. A varanda, com balaustres de madeira
artisticamente rendilhados.
A casa caiada de branco, com portas e janelas em
cor azul, destacava-se das outras construções. Era cercada
de ripas lascadas de pinheiro, com jardim na frente e quintal
para as hortaliças e um pomar. Atrás um puxado, onde ficava a cozinha com fogão de pedra e chapa de ferro. Um armário para louça e panelas, com cortina colorida que vedava o conteúdo do móvel.
O poço coberto no meio do pátio, com sarilho e
balde para tirar a água, preso a uma corda. O forno para
assar o pão foi feito do lado de fora, perto da cozinha.
No interior da casa, móveis modestos, mas havia
camas com colchões de palha nos quartos; armários, mesas,
cadeiras e bancos fixos nos cantos da sala. Retratos dos
antepassados pendurados nas paredes.
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As janelas da sala com cortinas brancas; nas camas
lençóis e cobertas, às vezes até muito pesadas para o clima
do Paraná. E não faltaram para o enxoval da noiva os insubstituíveis acolchoados e travesseiros de penas de ganso.
Gansos, galinhas chocas com fileiras de pintinhos,
patos, leitões e cabritos misturavam-se no terreiro, na hora
do trato. Disputavam os grãos de milho com enorme alvoroço. Ladislau construiu na nova propriedade um celeiro e
mangueiras para os animais. Depois de tudo pronto estava
na hora de ir buscar a jovem esposa Leonora, que ficara
em casa dos pais, arrumando a mudança.
Para isso ele comprou uma carroça do tipo eslava,
puxada por oito cavalos que era dotada de um toldo de
couro para proteger as pessoas do sol e da chuva. Servia
também de dormitório no caso de não poder chegar ao destino pretendido. Desta maneira viajavam adultos e crianças,
ricos e pobres, quando se dirigiam ao interior onde não
chegava o trem.
Já instalada na sua nova casa, com o passar dos meses, Leonora admitiu, com espanto, que foi apenas um entusiasmo de jovem, uma paixão repentina, que a levou ao
casamento. De início houve o delírio, o ardor expansivo,
esse fogo dos primeiros tempos de casamento, cuja intensidade foi se extinguindo com o passar dos dias, até serenar
por completo.
O ciúme, que o marido sentia, ela não sentia e não
compreendia. Ela aceitou o amor de Ladislau e correspondia com afeto e compreensão.
Com abrandamento das relações domésticas reinava
uma felicidade aparente, embora sob a monotonia de um
horizonte sem sol. Havia sempre a iminência de uma tempestade, provocada pelo ciúme exagerado do marido. Pois
bem, se alguma coisa podia trazer-lhe a alegria, eram os
filhos, que vieram em seguida.
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Feliksia Jozepha, a primeira filha, nasceu em 1° de
janeiro de 1896. Foi batizada na igreja de São Mateus no
dia 29 de janeiro. Sua madrinha foi Ksavera Antônia Kowalska e padrinho Stephano Miecznikowski, o padre oficiante Ludwig Przytarski (conforme consta no documento
arquivado na paróquia da cidade de São Mateus).
Em 26 de junho de 1897, nasceu João, prematuro,
de apenas 7 meses de gestação; era uma criança franzina,
delicada, mas sobreviveu graças aos intensos cuidados maternos.
Em 29 de junho de 1899, nasceu Pedro, menino robusto e forte. Cresceu rijo como um pinheiro, jamais dobrou-se às mais violentas rajadas do vento da tempestade
que o fustigou durante toda sua vida.
Suzana nasceu em 1900, Leonora e Angelica em
1903, eram gêmeas, depois vieram Aldona, Thomás, Thadeu, Ladislau, Lúcia e Mieceslau. Doze filhos ao todo. Era
um família grande para Leonora tomar conta e para Ladislau prover as suas necessidades.
O cuidado com os filhos e o trabalho doméstico diário, sem trégua, não a deixavam refletir sobre a vida. Aceitava-a como se lhe apresentava. Não gozava muito e não
sofria muito; vivia nesta rotina sem cor e sem mudanças.
Ladislau Gryczynski (agora Grechinski) viveu na
sua propriedade em Canoas, durante 10 anos. Plantava roça
de milho no sistema caboclo; quando as espigas amadureciam ele não as colhia, mas soltava uma manada de porcos
magros, para engordá-los na roça.
Depois era só reunir a porcada gorda e levá-la para o
açougue, que possuía na vila de São Mateus. Da carne fabricava lingüiças, presuntos e salchichas, do toucinho fazia
banha ou salgava, vendia tudo que produzia para o consumo da cidade.
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Ocasionalmente, trabalhava como piloto na barcaça
“Curitiba” que navegava no rio Iguaçu, renda extra que
ajudava nas despesas da casa. Assim foi amealhando economias e pode comprar terras povoadas de erva-mate. Passou a explorar esta fonte, modernizando o sistema de produção. Progrediu financeiramente. E daí em diante foi chamado de fazendeiro da erva-mate.
Tendo completado o curso ginasial em Varsóvia, na
Polônia, teve facilidade em aprender a ler, escrever e falar
fluentemente em português. Tinha vencido o desafio de
amalgamar-se à nova Pátria. Ele já se sentia um cidadão
brasileiro.
Seu pai, Jakób, morou na Colônia Água Branca, durante dois anos. Depois, deixou a casa e o lote de terra,
aos cuidados do filho Alexandre e mudou-se para a vila de
São Mateus. Junto com os filhos conseguiu superar as dificuldades iniciais e prosperou.
Possuía uma residência confortável, com as paredes
de madeira pintadas de branco; um bom pedaço de terra já
destocada, na Colônia Canoas, onde semeavam o trigo, centeio e o feijão.
As roças de milho plantavam em queimadas e, a exemplo dos caboclos, soltavam porcos magros nas plantações de espigas já maduras, para engorda.
Também comprou alguns alqueires de terra com
erva-mate e passou a explorá-la racionalmente. Nas horas
vagas, ajudava Ladislau a tomar conta do açougue e ficava
perto dos netos.
***
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Numa tarde de verão de forte calor, enquanto bebericavam o chimarrão na varanda da casa em São Mateus, o
colono Ladislau Gryczynski dirigiu-se ao pai Jacób:
- Soube pai, pelas notícias que correm na vila, que lá
pelas bandas do município de Imbituva, no caminho dos
trilhos da Estrada de Ferro, vai ser inaugurada uma estação
de nome Irati. As terras daquela região são muito férteis, há
abundância de pinheiros e campos cobertos de erva-mate.
Acho que vou dar uma olhada por lá. Se as notícias forem
verídicas, compro uma área de terra e mudo-me para lá.
- Deve ser verdade, pois fala-se muito sobre aquela
região. Eu acho tua decisão correta, você deve ir até lá respondeu o pai decididamente.
Dito isto, Ladislau não perdeu tempo, procurou um
amigo para companhia, arreou um bom cavalo e foram cavalgando pelo picadão, no meio da mata, por 65 quilômetros de caminhos de tropeiros, tortuosos e lamacentos.
No trajeto encontraram, em consideráveis distâncias
uma da outra, grandes fazendas com habitações de caboclos, construídas em clareiras no meio do mato, ou mais
freqüentemente no campo. Eram assentamentos de caráter
instável, costume adquirido dos índios.
Não faziam cercas em volta do rancho nem curral
para os animais. Criavam tudo solto, à vontade. As vacas,
cavalos, cabras, porcos e galinhas andavam soltos pelos
pastos nativos. Criavam-se por si. Às vezes o caboclo dava-lhes um pouco de sal para não se alongarem na mata.
Cresciam perto destes casebres, alguns pés de ameixas amarelas e goiabeiras. Galhos tortos de pessegueiros
inclinavam-se nas janelas. Cães magros rondavam a casa ou
deitavam-se à sombra.
No chão de terra batida da casa de um só cômodo,
no centro, ficava a fogueira de nó de pinho, em cuja volta
as pessoas permaneciam o dia todo, conversando e tomando
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chimarrão. Colocavam uma trempe de ferro em cima do
fogão de pedra, onde fervia a panela com o feijão e charque
para a refeição. A mistura era a raiz de mandioca, ou batata doce, abóbora e farinha de milho.
Quando matavam um porco ou boi, a parentela toda
vinha comer até se fartar; ficavam dias a fio. Dormiam em
tarimbas forradas de capim, redes, ou esteiras estendidas
no chão em volta do fogo. Cobriam-se com cobertores baratos, chamados de seca-poço, ou capas de montaria, como
travesseiro usavam a sela do cavalo, a qual todo caboclo
possuía.
Havia uma mesa de tábua lascada e bancos de tocos
de árvores. Mantimento e panelas ficavam em cima de caixas vazias de querosene, num canto do rancho.
No verão tomavam banho no rio, como os índios, e
no inverno, em gamelas de madeira. Faziam plantio de milho, feijão, abóbora, batata doce e mandioca, em pequenas
roças, usando o sistema rudimentar de derrubada da mata,
queimadas e plantio no toco.
O caboclo, qualificado como nativo, é o descendente
dos antigos imigrantes portugueses, principalmente de sangue misturado com índio e negro. São chamados de lusobrasileiros. Era esse o habitante (depois do índio), espalhado por todo este infindável interior brasileiro. Nem sempre
eram pobres, mas na maioria das vezes ricos proprietários
de alguns milhares de alqueires de terra, em campos cobertos de ervais e densas florestas.
Ladislau e o amigo viajaram dois dias, pelas veredas pedregosas de tropeiros, pernoitavam na casa dos caboclos, que são muito hospitaleiros e afáveis. No terceiro
dia pela manhã, avistaram as casas do povoado de Covalzinho, lugarejo onde seria construída a futura Estação da Estrada de Ferro.
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A agitação do lugar era intensa. Operários trabalhavam na construção de casas; outros aplainavam o terreno
para futuras ruas; carroções de oito cavalos encostavam
para descarregar as vigas (dormentes) para lastro das linhas
da Estrada de Ferro.
O movimento no comércio era grande, pois chegavam imigrantes das colônias para abastecer-se de víveres e
ferramentas. Covalzinho era o centro da rica região da futura vila de Irati.
Ladislau gostou do que viu. Animado, procurou uma
casa para alugar onde pudesse abrigar a família, que logo
traria de mudança para Covalzinho. Encontrou uma habitação, na margem esquerda do rio das Antas.
Era uma casa de madeira, grande e espaçosa, que
nos dias claros de verão permitia ver pelas janelas, o azul
do céu, o rio das Antas correndo silenciosamente no seu
leito, e os pinheirais farfalhando os ramos ao soprar do vento. A construção era simples, com quatro janelas de frente,
baixas, largas, quase quadradas. Do lado direito estava a
porta principal, que dava para uma varanda e pátio cercado
de ripas, cobertas por cipós de chuchu, que se espalhavam
até o telhado da casa.
No canto tinha um pequeno jardim de flores, onde
espreitava a melindrosa maria-sem-vergonha, as dálias e
papoulas de todas as cores. No pomar próximo, cresciam
alguns pessegueiros, ameixas amarelas, pés de limão e laranja. No quintal podia-se plantar verduras e hortaliças.
A casa era caiada de branco, com portas e janelas
verdes. Ladislau agradou-se da moradia e alugou-a do dono, um imigrante alemão que ia se mudar para Curitiba.
Algum tempo depois comprou a casa, onde residiu
durante os 10 anos seguintes. Leonora enfeitou a residência
nova com cortinas coloridas nas janelas, dependurou retratos nas paredes da sala.
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Entre outros, destacavam-se os retratos dos pais dela e do marido. A um canto, pendia da parede um crucifixo,
aos pés do qual bruxuleava uma lamparina acesa, noite e
dia. Sobre uma cômoda, via-se um clarinete em metal dourado, uma ocarina feita de argila dura, um violino e violoncelo, instrumentos musicais que Ladislau trouxe consigo da
Polônia, e que dominava com maestria. Ele amava a música. Fazia parte da banda de São Mateus.
“A música é vida interior. Quem tem música e livros, jamais padecerá de solidão” - dizia ele.
Havia espingardas belgas dependuradas na parede.
Um pica-pau empalhado que parecia prestes a voar, postado
em cima de uma prateleira. No quarto junto à janela, estava
colocada uma cama de casal, coberta com colcha de retalhos coloridos, um crucifixo e um terço de contas na cabeceira da cama. Era uma casa tipicamente polonesa.
Da janela da casa viam-se os campos povoados de
erva-mate, parecia um imenso pomar repleto de árvores
refletindo o verde-escuro das folhas. Eram explorados pelos pioneiros que vieram à procura desta riqueza verde, que
foi a base do primeiro ciclo econômico do Paraná.
***
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IRATI – MUNICÍPIO.
Irati, município do centro-sul do Estado do Paraná,
sub-região dos pinhais do segundo planalto.
Possui a área de 976 quilômetros quadrados.
Altitude 812m acima do nível do mar. Clima temperado, com ocorrência de geadas, ocasionalmente, fortes no
inverno. Situa-se a 150 quilômetros de Curitiba, capital do
Estado, do lado esquerdo da estrada BR277, asfaltada, que
leva do porto de Paranaguá a Foz do Iguaçu.
A criação do município de Irati foi decretada pela
Lei nº. 716 de 2 de abril de 1907. Para sua fundação, foram
desmembrados do município de Imbituva, os distritos de
Irati, Bom Retiro e Imbituvinha, elevados a categoria de
município, com sede no povoado de Irati.
As divisas do novo município foram demarcadas
seguindo o curso dos diversos rios. Começando na confluência do arroio dos Cochinhos com o rio das Antas e em
linha reta através da Serra da Floresta até o rio Caratuva,
segue até a barra do ribeirão do Pinho, prossegue buscando
as nascentes do rio Caratuva, seguindo por este até o rio
Ponte Alta e pelo rio dos Patos até as encostas da Serra da
Esperança, segue o rio Cachoeira, o rio Quente, o rio Potinga, o rio dos Barreiros, rio Imbituvinha, rio Imbituva até
encontrar o arroio dos Cochinhos no vale do rio das Antas,
onde teve início.
O rio das Antas serpenteia silencioso, através da
cidade de Irati, mas muitas vezes se enfurece ocasionando
grandes cheias, com danos à população. Os rios que cruzam
a região de Irati se dirigem para as bacias dos rios Tibagi,
Ivai e Iguaçu, todos da bacia do Paraná.
Geologicamente a região de Irati pertence ao período permocarbonífero de 345 milhões de anos atrás, com topografia ondulada e acidentada. Os terrenos permianos do Paraná, de
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formação mais recente da era paleozóica, são constituídos
de argila contendo partículas de areia, cristais de quartzo,
feldspatos e outros minerais. A região de ocorrência do
permiano estende-se em faixa com largura média de 120
km, desde a margem do Iguaçu em São Mateus do Sul até
São Jerônimo da Serra.
Denomina-se, de Formação Irati a jazida de xisto
piro-betuminoso, que se inicia em São Paulo e vai até Rio
Grande do Sul. O pirobetume é resultante da decomposição
de matérias animais, répteis, peixes, insetos e matérias vegetais como algas e sapropel. O xisto em Irati tem afloramentos característicos que fornecem abundância de fósseis
animais, peixes e madeira silicificada.
A geologia e paleontologia asseguram que a região
de Irati durante o Período Triássico foi fundo de mar, há
mais de 250 milhões de anos atrás. Encontra-se com freqüência em escavações, trilobites, ostras, estrelas do mar,
fósseis de peixes e répteis, inclusive de grande porte como
o mesosauro.
Desde tempos remotos, nas florestas e campos de Irati, habitavam os índios da tribo dos Iratins, da nação Tupi.
Localizavam-se também, na região, diversas aldeias de índios da família Kaingang, inclusive os Botocudos.
Vestígios de suas habitações são encontrados pelos
agricultores que, ao removerem a terra com arado, descobrem artefatos de pedra polida, como panelas, mão e vaso
do pilão, pontas de flechas e facas, vasos de barro e outros
utensílios.
As matas eram povoadas por diversas espécies de
animais selvagens como: tatetos, queixadas, grandes manadas de antas que pastavam pelos campos como gado, tatus,
jaguatiricas, onças, veados, bugios e sagüis, esses macaquinhos barulhentos, e os mais diversos pássaros, que eram
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caçados pelos silvícolas, servindo-lhes de alimento. Os rios
eram abundantes em peixes.
Os primeiros povoadores de Irati, Cipriano Francisco Ferraz e Pacífico de Souza Borges, chegaram em época
desconhecida, procedentes da região de Teixeira Soares.
Adentrando pelo sertão afora foram batizando rios e montanhas. A denominação de Irati, dado por eles ao lugarejo
onde se fixaram, veio da grande incidência de abelhas
mirins, cujo nome indígena era iratim (rio de mel), abelha
que abriga seus enxames em oco de pau ou fendas na terra.
Em 1839, o bandeirante paulista José Domingues
da Trindade, procedente de Sorocaba, chegou à região de
Irati e ali se instalou, foi o primeiro povoador de que se tem
notícia. Requereu do governo Imperial a concessão de uma
sesmaria. Foi lhe outorgada uma grande área de terra composta de florestas de araucária e campos povoados de ervamate. Essa gleba ficou pertencendo a seus herdeiros.
Até o ano de 1860 todo esse território era ainda um
sertão desconhecido, com matas fechadas de araucárias,
imbuías, campos de erva-mate. e taquarais. Esparsas pelo
sertão, havia apenas algumas fazendas de caboclos, que
criavam gado e porcos soltos no campo.
Por volta de 1865, procedente de Palmeira vieram
José Veríssimo de Souza e algumas famílias das redondezas
de Curitiba. Com a deflagração da Guerra do Paraguai em
1865, contra o ditador paraguaio Francisco Solano Lopes,
iniciou-se na Província do Paraná o recrutamento de civis
para a guerra. Temendo que alguém dos seus membros
fosse recrutado, diversas famílias refugiaram-se no interior
da Província, em pleno sertão, seguindo em direção às fraldas da Serra do Tigre.
Esses desertores fixaram-se ali dando começo a um
povoado, o qual veio a chamar-se de Covalzinho e posteriormente de Irati. O nome provém da existência de um
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quintal com plantação de couves, ao lado do qual passava o
caminho dos tropeiros. Para qualquer indicação de lugar,
dizia-se “ próximo ao quintal de covalzinho”.
Em 1888, o coronel Francisco de Paula Pires e Emilio Batista Gomes adquiriram do governo uma área de terras devolutas, nas adjacências de Covalznho, com o objetivo de fundar um povoado, ao qual deram o nome de Vila
de São João, mais tarde chamado de Irati Velho.
O projeto da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, começou em 1889, quando Teixeira Soares recebeu do
Imperador D. Pedro II a concessão para construí-la e explorá-la, com o encargo de colonizar as terras devolutas, em
torno da linha, em toda a sua extensão. Em 1894 Teixeira
Soares sub-rogou os direitos à Brazilian Railway Company,
companhia norte-americana.
Em dezembro de 1899, quando em início dos trabalhos da construção da ferrovia, achavam-se as turmas de
avançamento fazendo assentamento de trilhos, nas imediações do lugar conhecido por Covalzinho, a demarcação e o
movimento de ocupação da sua área por intrusos obrigaram
os índios Iratins a se retirarem, adentrando nos sertões ainda inexplorados.
A estrada de ferro ao ser construída desviou Irati
Velho, indo atingir outro povoado. Deu-se à Estação o nome de Irati. Ali existia apenas, além do acampamento dos
trabalhadores da construção da Estrada de Ferro, uma casa
rústica onde funcionava a bodega de propriedade do coronel Francisco de Paula Pires, chefe político, um dos primeiros moradores. Naquela época Covalzinho era subordinado à sede do quarteirão policial em Irati-Velho, distante
três quilômetros deste, ao sul.
O desenvolvimento começou a verificar-se nas proximidades da Estação e nas margens da ferrovia com a afluência de novos povoadores. A concorrência de muita
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gente movimentou o lugarejo. Abriram-se lojas, padarias,
botequins, marcenarias, carpintarias, ferrarias e bodegas à
margem e no correr dos trilhos.
Assim começou a formar-se o núcleo da futura vila
de Irati. Foram destocadas e limpas as primeiras ruas; construíram-se a sede da Estação Ferroviária e Telegráfica de
Irati, moradias para os funcionários, residências, casas comerciais.
A vila recebeu forte fluxo migratório e, em pouco
tempo, transformou-se no centro comercial da região. Chegavam tropas de muares carregadas de produtos agrícolas,
erva-mate, charque, toucinho, farinha de milho e de mandioca. No começo eram utilizados cargueiros como principal
meio de transporte, única maneira de vencer as serras e caminhos quase intransitáveis. Mais tarde os cargueiros foram
substituídos por carroças eslavas com toldos de couro, puxadas por oito cavalos.
Os migrantes que ali aportaram, adquiriram pequenos lotes de terra para construir as suas casas, de antigos
moradores da Fazenda Floresta ou Cadea. Todas as terras
desta região, inclusive as de Covalzinho, faziam parte da
Fazenda Floresta., de propriedade da viúva D. Cândida
Marcondes e seus filhos, que, em 1889, venderam-na ao
engenheiro Dr. João Teixeira Soares, quando da sua passagem pela região, para determinar o traçado da Estrada de
Ferro São Paulo-Rio Grande, a ser construída.
Quando foi cancelada pelo governo a concessão dada à Brazilian Railway Company, a Fazenda Floresta foi
devolvida, por mandado judicial à seus credores, Dr. João
Teixeira Soares, João Damasco Vieira, Henrique Liberal,
Pires Brandão e Francisco Valadares.
Em 1902, o juiz Comissário de Terras de Imbituva,
engenheiro Dr. Luiz de Castro Gonçalves e outros, adquiriram de Teixeira Soares a propriedade da Fazenda Floresta.
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Todo o território do atual município de Irati fazia
parte do município de Imbituva, até a data da sua emancipação política. Em 1900 foi criado o distrito policial e em
1902, o distrito judiciário.
No ano de 1901, o agrimensor Sebastião Edmundo
Wos Saporski, como comissário contratado, realizou o trabalho de medição das terras pertencentes à Fazenda Floresta, situada no município de Imbituva, distrito de Irati.
Quando chegaram os primeiros imigrantes todas as
áreas, do hoje Município de Irati, achavam-se ocupadas por
alguns poucos moradores, quase todos caboclos e bugres.
A região foi cortada pelos trilhos da Estrada de Ferro e grande número de comerciantes e profissionais liberais
foi atraído pela facilidade de transporte ferroviário e comunicações. Também, graças às terras férteis, foi possível a
fixação de imigrantes e um enorme fluxo de colonos veio
à região.
Começaram a fixar-se no núcleo urbano de Irati e ao
redor. Nasceram vilas, povoados e cidades à margem e ao
longo da Estrada de Ferro. Chegaram alemães e italianos
de Campo Largo, poloneses e ucranianos das colônias próximas a Curitiba, sírios, libaneses e judeus.
Em 1904, um grupo expressivo, porém independente, assentou-se em Irati, constituído por poloneses vindos
das colônias de Campo Largo, Lapa e Assungui. A grande
colônia de Tomás Coelho, localizada perto de Curitiba, foi
a principal fornecedora de mão-de-obra agrária.
Em Irati não houve colonização oficial, dirigida pelo
governo. Os colonos vieram numa migração espontânea,
por conta própria, e ali se assentaram. Assim nasceu a hoje
grande colônia polonesa em Irati.
No ano de 1905, a dois quilômetros da sede da vila
de Irati, em direção à Prudentópolis, começou o povoamento da colônia Alto da Serra dos Nogueiras, em terras da
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antiga Fazenda Floresta ou Cadea, já de início ocupada por
30 famílias polonesas. A proximidade de colônias, como a
de São Mateus, que tinha a desvantagem de situar-se longe
da Estrada de Ferro, também atraiu colonos poloneses que
se estabeleceram na região.
De início os métodos de trabalho usados na agricultura eram totalmente rudimentares, sem utilização de quaisquer tipo de máquinas; plantava-se no sistema caboclo.
Derrubada a mata, depois de seca, ateava-se fogo e plantavam-se o milho e o feijão, na queimada entre os tocos, muitas vezes ainda fumegantes.
Os pioneiros poloneses, colonizadores da Fazenda
Floresta, sofreram graves problemas quanto à situação de
legitimidade das terras por eles adquiridas. Os imigrantes
recém-chegados não estavam cientes das leis e regulamentos que geriam o processo de aquisição de terra, vigentes no
Brasil. Então caíam vítimas das fraudes na compra da terra.
Enganados pelos pseudo-proprietários, vendedores
inescrupulosos, que pretendiam aumentar seus lucros, aproveitando-se da ingenuidade, da falta de orientação e credulidade dos colonos. Vendiam-lhes algo que depois era reclamado pelos verdadeiros donos. Sucedia que, uma vez
paga a quantia convencionada pela terra, ao vendedor, o
colono exigia a escritura a que tinha direito.
Era então informado pelo suposto proprietáriovendedor, que teria que pagar novamente a terra, em face
do não cumprimento das exigências legais por ocasião da
compra. O colono confiava apenas na boa-fé do vendedor,
pelo qual foi vergonhosamente enganado.
Tal procedimento vil gerou um clima de grande
tensão e revolta na comunidade. Seguiram-se vários processos judiciais, pertinentes à titulação dessas terras.
Muitos colonos por não poderem pagar novamente
as terras que já eram suas, querendo paz, abandonavam
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tudo, para fugir da vingança dos caboclos ou de ser despejados da propriedade por mal intencionados políticos locais.
Porém, outros procuraram resolver judicialmente a
questão. Vinte anos depois de ter adquirido as terras, havia
dezenas de famílias em situação instável, podendo, a qualquer momento, ser expulsas das terras já pagas.
Primeiro foram povoadas as terras que pertenciam à
Fazenda Floresta. Depois os poloneses começaram a ocupar
as terras próximas a Irati, como Rio Corrente, Pedra Preta,
Rio Bonito, Mato Queimado, Riozinho, Cochinhos, e proximidades, mais tarde até São Miguel na direção de Prudentópolis, e se expandiram em todas as direções, onde encontraram outros assentamentos de imigrantes poloneses.
Até o ano de 1920, fixaram-se na região de Irati, nas
terras da antiga Fazenda Floresta ou Cadea, aproximadamente, 800 famílias de colonos poloneses, entre eles encontrava-se o típico fazendeiro da erva-mate de São Mateus,
Ladislau Grechinski, cidadão dinâmico e laborioso. Muitos
de seus amigos e conterrâneos seguiram seu exemplo e
mudaram-se para as novas terras.
Nesse mesmo tempo, do já bastante desenvolvido
Prudentópolis chegaram diversas famílias de ucraníanos.
Depois foi muito mais rápido. Chegavam cada vez mais
novos colonos dos arredores de Curitiba.
Manoel e Pedro Bomfím eram fazendeiros caboclos,
posseiros desde tempos remotos em terras devolutas. Ocupavam uma área extensa de campos e florestas, distante 12
quilômetros de Covalzinho, quando surgiu o plano para
fundação da Colônia Federal, nas terras daquela região. Os
dois fazendeiros foram indenizados, com valor modesto,
pela posse e pequenos investimentos que ali fizeram.
Em 1908, teve início o projeto oficial dirigido pelo
Governo Federal, de colonização da área de 6.240 hectares
de terra, da Colônia Gonçalves Júnior. Joaquim F. Gonçal147
ves Júnior foi o Diretor Geral do Serviço de Colonização.
Visitou o núcleo em 1909.
A área foi demarcada pelos engenheiros Francisco
Beltrão e Álvaro Cardoso. Os lotes eram de 10 alqueires.
Nesses lotes estabeleceram-se 1.379 imigrantes, das mais
diversas procedências: ucranianos, alemães, holandeses e
poloneses.
As condições primitivas do pioneirismo agrário que
ali vigorava nas primeiras décadas da colônia e a dificuldade de sobrepujar o sertão bravio atrasaram muito o desenvolvimento do povoado.
Para dificultar a situação já critica dos colonos, no
início de 1909, floresceram os bambus e taquaras e houve a
proliferação de ratos que devoraram todos os grãos plantados, fato que ocasionou grandes prejuízos aos imigrantes.
No ano de 1919, a colônia polonesa de Irati organizou uma Comissão para fazer o projeto e iniciar a construção da Igreja de São Miguel. Foi solicitada ao bispo de
Curitiba a nomeação de um pároco para atender à comunidade. Veio o padre Paulo Warkocz.
A Sociedade “Wolnosc” de Irati foi fundada em
1921, por 37 sócios. A escola funcionava anexa ao estabelecimento. Stanislau Baranski foi o primeiro professor que
ali lecionou, depois Leopold Sokolowski e outros que os
sucederam. Em 1934 lecionou o professor Jerzy Gonet e
Olga Pintalowa. Em 1938, Getúlio Vargas proibiu o ensino
em língua estrangeira, e a escola polonesa foi fechada.
No ano de 1922, havia no Estado do Paraná,
100.282 imigrantes poloneses. Aqui, esses pioneiros escreveram a história da sua existência, sua luta como desbravadores e o testemunho da sua capacidade de trabalho.
O imigrante polonês, empurrado pela secular carência e insaciável desejo de possuir terra, chegou aqui,
deslumbrou-se com a infinidade de terras, a imensidão das
148
florestas, não se acovardou diante das dificuldades, mas
pegou no cabo do machado e tratou de domar o sertão.
Em 1924, foi construído o Grupo Escolar de Irati,
que mais tarde passou a chamar-se “Duque de Caxias”. D.
Mercedes Braga assumiu a direção desta entidade educativa
em 1930. Dirigiu o Grupo Escolar de Irati, com firmeza,
dedicação e competência até 1942, auxiliada por um excelente corpo docente de 17 professoras normalistas e 13 provisórias. Entre elas, D. Cirene Saboia, Heredia Medeiros,
Olimpia Amaral Gruber, Siroba Crissi, José Siqueira Rosas,
Ednir Araújo Martins e outras.
Com o começo da Primeira Guerra Mundial (1914 a
1918), o comércio de madeira de pinho obteve grande impulso. As serrarias se multiplicaram ao longo da ferrovia
São Paulo-Rio Grande. e em toda a região de Irati.
Em 1930, com o aparecimento do caminhão, houve
a penetração para o interior dos sertões. Foi então que a
exploração do pinheiro ultrapassou a erva-mate como fonte
de arrecadação do município.
O ciclo da madeira veio concorrer para o desenvolvimento socioeconômico de toda Região Sul. Ressaltandose a contribuição da agricultura, na época das terras férteis,
que constituiu fator importante na produção da riqueza e da
prosperidade de Irati.
Nos anos 1930 a 1945, seguiu-se o ciclo da batata,
que foi marcado por grande euforia econômica. Durante 15
anos fez a prosperidade dos colonos.
Até que as terras exauridas não produzissem mais,
não compensando as despesas com a plantação. Era preciso
corrigir e adubar o solo, aplicando a tecnologia moderna,
mas para isso os agricultores precisavam de recursos que
não possuíam.
***
149
ALTO DA SERRA DOS NOGUEIRAS
O avô Ladislau Gryczynski residiu na Colônia Canoas, município de São Mateus, durante 10 anos.
Seguindo o costume da época, Ladislau e Leonora
contraíram núpcias só no religioso. Como o casamento civil
era obrigatório (foi instituído em 1885 pelo então Ministro
da Justiça Campos Salles), o casal antes de mudar-se para
Irati, casou-se no Cartório de Registro Civil em São Mateus, no dia 29 de outubro de 1905. Ele estava com 31 anos, ela com 27, e já tinham seis filhos. (Por um lapso o
Cartório mudou o seu sobrenome para Grechinski).
O açougue que possuía na vila de São Mateus deixou-o com o pai. Começou um novo negócio de carnes, na
vila de Irati. Adquiriu em Irati-Velho 10 alqueires de campo com erva-mate e pinhal, que explorou comercialmente.
Nos campos criava cavalos comuns, resistentes para o trabalho de tração na lavoura.
Criava também cavalos de raça, que competiam
nas raias de corridas. Este esporte era a paixão dos poloneses e diversão de finais de semana. Vacas leiteiras e bezerros, cabras e ovelhas, andavam soltos nos campos abertos,
ricos de pastos verdejantes.
O avô Ladislau vendeu a propriedade em Canoas,
para comprar 12 alqueires de terras de cultura da Fazenda
Floresta ou Cadea, na colônia Alto da Serra dos Nogueiras.
Só conseguiu legitimá-las em 8 de julho de 1927, isto é,
vinte anos depois. A escritura foi lavrada em Irati, assinada
por Mário Fialho Valadares e outros, e registrada na Comarca de Imbituva.
Em 1914, resolveu desbravar as terras que tinha
comprado na colônia Alto da Serra. Convocou os filhos
para ajudá-lo na dura empreitada. Seguiram mata adentro
munidos de foices, facões, machados, serras e armas de
150
caça, acompanhados por seis peões caboclos, carregando
espingardas ao ombro, e a guaiaca cheia de cartuchos de
munição. Levou mantimentos em sacos de estopa.
Pôs numa mochila os seus instrumentos de orientação e os mapas das terras, e empreendeu a temerária aventura. No primeiro dia não encontraram nenhum obstáculo
apreciável, apenas alguns tatus e veados que fugiram espantados ao ouvir os estalos dos galhos na passagem dos caminhantes. Penetraram na mata fechada, abrindo picadas
com foice, por entre taquaruçus, fetos e vegetação rasteira.
Avançaram durante três dias, não voltaram a ver o
sol, apenas raios que se insinuavam por entre as folhas das
árvores. A floresta fez-se cada vez mais traiçoeira, ouviamse apenas os gritos dos pássaros e a algazarra dos macacos.
O céu da tarde iluminava-se por tênue reverberação
dos pirilampos, insetos fosforescentes, abundantes naquelas
paragens ao entardecer. Os homens ficavam pasmos com
aquela beleza dos sertões paranaenses.
No dia seguinte Ladislau verificou a boa qualidade
do solo, a localização adequada, plana, e ordenou a seus
homens para que derrubassem as árvores, fazendo uma clareira junto ao rio, no lugar mais apropriado da margem, e
ali armaram o acampamento inicial. Mais tarde construiu a
casa para a família, que ali habitou durante 20 anos.
Mudou-se da vila de Irati para a colônia Alto da Serra dos Nogueiras no ano de 1914. Trouxeram mulas carregadas de mantimentos, carroças de bois com móveis e utensílios domésticos, baús com roupas, animais miúdos em
gaiolas. Uma vaca com bezerro, cabras com crias e cavalos andando em tropa, tocados pelos peões.
Instalou-se na nova propriedade, dando continuidade ao desbravamento das matas para o cultivo de cereais .Já
existiam nas vizinhanças moradias de diversas famílias de
imigrantes vindos de São Mateus, que eram seus conheci151
dos e amigos, portanto não foi difícil reatar a convivência
e a amizade.
O avô Ladislau era um homem culto e inteligente,
falava quatro línguas fluentemente, o polonês, alemão,
russo e português. Extremamente sociável, não faltava às
reuniões da comunidade, particulares ou oficiais.
Comunicativo, operoso, possuía aptidão natural para o comércio. Aprendeu com facilidade a falar, ler e escrever em português, fato que o ajudava muito no relacionamento com a comunidade local, tanto que o governo municipal nomeou-o como inspetor de quarteirão.
Nas eleições gerais de 1916, foi eleito como prefeito
municipal de Irati o cidadão João Braga dos Santos Ribas,
e para a Câmara Municipal, Ladislau Grechinski, como um
dos quatro camaristas.
Participativo, interessava-se por acontecimentos no
mundo. Fazia parte dos eventos, organizava as recepções
para os representantes do governo brasileiro e polonês que
vinham à região. No ano de 1920, visitou a colônia iratiense, inclusive Alto da Serra dos Nogueiras, o primeiro cônsul
polonês em Curitiba, Sr. Kazimierz Gluchowski, ocasião
na qual foi recepcionado pela comissão de colonos poloneses, tendo à frente Ladislau Grechinski.
O avô Ladislau foi uma pessoa sempre atuante na
sua comunidade. Em 17 de julho de 1918, com marcante
espírito empreendedor, promoveu a instalação da Cooperativa de Consumo dos Agricultores do Alto da Serra dos
Nogueiras Ltda. tendo por sede o galpão anexo à escola da
Sociedade Cultural “Henryk Sienkewicz”.
Foram eleitos como diretor-presidente Ladislau
Grechinski, como secretário José Kwiatkowski, e tesoureiro
Pedro Krzyzanowski. Programada para duração por prazo
indefinido, funcionou satisfatoriamente durante três anos;
infelizmente foi liquidada em 10 de maio de 1921.
152
O motivo do encerramento das atividades da Cooperativa foi a negação pela Câmara Municipal de Irati da
prorrogação do alvará necessário para o seu funcionamento.
Não reconheceu o grande beneficio social desempenhado
pela Cooperativa; os camaristas foram pressionados pelos
comerciantes da praça que viam seus negócios prejudicados, com a preferência dos agricultores em comprar da Cooperativa, onde eram sócios.
Atribui-se o insucesso das cooperativas a falhas humanas. A ignorância é responsável pela maioria dos problemas. As crendices, a falta de espírito associativo, a desconfiança, mas também a falta de iniciativa, de vocação e a
acomodação ante os problemas, fizeram ir por terra as incipientes cooperativas dos colonos.
João Gryczynski, filho de Ladislau, comprou o saldo das mercadorias da Cooperativa, iniciando assim a sua
caminhada no comércio, que durou quase meio século.
Ladislau cultivava com grande dedicação um grande
pomar. Havia pés de laranjeiras, pereiras, macieiras, ameixeiras, limoeiros, pessegueiros, vinhedos e plantação de
morangos. Fazia enxertos experimentais em plantas de
diversas espécies. Ele era lavrador, botânico, veterinário e
cientista por experiência própria, um leigo curioso.
Cultivava no seu pomar um canteiro experimental
de soja, planta originária da China, consumida como alimento há séculos naquele país; ele recebeu as sementes do
cônsul polonês.
Tinha sede de conhecimento. De caráter curioso, desejoso em informar-se, lia muito, estudava a ciência das
ervas, dos ungüentos, tornou-se perito nas febres, contusões
e luxações, nas feridas e apostemas. Curava com rezas pessoas e animais; cavalos, vacas, cães e porcos. Aplicava a
arte dos benzimentos e a cura pelas plantas medicinais. Foram contínuos os seus atendimentos à comunidade, numa
153
época em que havia escassez de remédios e falta de recursos médicos, nesta distante região do sertão brasileiro.
O avô Ladislau era um místico e visionário. Jamais
se descuidava do seu preparo intelectual. Aqueles sonhos e
ânsias de conhecer as maravilhas do mundo levou-o a estudar com insistência a Cabala, aprofundava-se mais e mais
neste místico conhecimento, particularmente na teoria e no
simbolismo dos números.
Parece que os genes dos seus antepassados judeus
estimulavam-no a prosseguir no estudo da vida espiritual.
Pertencia ao Centro Esotérico do Pensamento e da Doutrina
Rosa Cruz, que é o sétimo grau do rito maçônico francês.
Aprofundou-se nas interpretações de Nostradamus, e com
obstinação se apegou aos livros de misticismo e à clarividência. Fazia experiências de levitação. Na tentativa de
chamar os espíritos, às vezes se confundia, pois não conhecia bem a fórmula adequada.
Ele criava galos garnisés. Tinha um espécime pequeno, de cor branca, que o acompanhava onde ele fosse.
Quando em casa, o garnisé se empoleirava no espaldar da
cadeira perto do avô. Fato intrigante é que quando o avô
morreu, encontraram o garnisé morto no portão de entrada
do pátio.
Os netos se assombravam com seus feitos espantosos como adormecer a galinha com gestos e palavras. Também aquelas alucinantes sessões de levitação numa reunião
espírita ficaram impressas na memória das crianças. Deslumbrados ouviam suas histórias fantásticas que haviam de
se recordar pelo resto da vida.
Como viram o avô naquela tarde, sentado contra a
claridade reverberante da janela, enchendo com a sua voz
clara e profunda os espaços mais recônditos da imaginação;
e havia de transmitir aquela imagem como uma lembrança
hereditária, a toda sua descendência.
154
“Todas as coisas têm vida própria, tudo é questão de
despertar a sua alma”, dizia o avô com voz incisiva, e apresentava um imã, uma grande ferradura imantada, e todo
mundo se espantou ao ver que metais como colheres, facas
ou agulhas, eram atraídas pela ferradura.
O avô, cuja fértil imaginação ia sempre mais longe
que o engenho da natureza, pensou que era possível se servir daquela invenção para desentranhar o ouro da terra. Durante vários meses empenhou-se a explorar palmo a palmo
a região, inclusive o fundo do rio que passava na sua propriedade, e os netos curiosos o acompanhavam nestas buscas. Não conseguiu descobrir nada.
A avó Leonora perdeu a paciência e gritou enfurecida. “Se você pretende ficar louco, fique sozinho, não tente
incutir nos outros as suas idéias malucas”.
O avô não se conformou com o fracasso do seu
imã e passou a ficar longas horas debruçado sobre a mesa
na sala, estudando e fazendo cálculos das possibilidades
estratégicas de um novo engenho, por ele inventado e cujo
projeto desenvolvia.
Tendo abandonado completamente as obrigações na
lavoura, permanecia até altas horas da noite observando o
movimento das estrelas no céu. Mas, apesar da sua imensa
sabedoria e de sua aura misteriosa, tinha uma presença humana, uma condição terrestre que o mantinha preso aos
problemas da vida cotidiana. Queixava-se de dores no fígado, sofria pela incompreensão dos seus familiares, pelos
prejuízos financeiros.
Enquanto a avó Leonora com os filhos cansavamse no trabalho da roça, nas plantações de milho e feijão, o
avô era uma espécie de patriarca, que dava instruções para
o plantio na época certa, das lavouras, conselhos sobre criação dos filhos e animais e colaborava com a comunidade.
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A sua casa era a melhor da colônia. Pintada de branco, tinha uma sala ampla e bem iluminada onde se recebiam as visitas. Três quartos, a cozinha e a despensa. Uma
ampla varanda na frente, com a glicínia em flor, em cachos
lilás pendentes em guirlanda, subindo pela parede e pela
grade de balaústres. Um frondoso pinheiro esparramava sua
sombra sobre a casa. Nas adjacências do grande pomar a
palmeira buriti abria as suas folhas em leque. A horta, o
celeiro e o curral completavam a propriedade.
A diligência de Leonora era incomum. Ativa, miúda, às vezes severa, aquela mulher meiga sabia ser carinhosa com os filhos e netos. Parecia estar em todas as partes
desde o amanhecer, ordenhando as vacas, alimentando os
porcos, gansos e galinhas. Ficava na lida o dia todo, até à
noite bem avançada. Do leite da ordenha ela fazia queijo,
manteiga e nata, produtos que vendia na cidade.
Os rústicos móveis de madeira construídos pelo
seu irmão, que tinha aptidões de marceneiro, estavam sempre limpos, e as velhas arcas onde se guardava a roupa limpa exalava um cheiro tênue de rosmaninho.
Ainda está impressa na minha memória, a avó Leonora levando a trouxa de roupa suja para lavar no riacho do
fundo do quintal. Os longos varais ficavam cheios de lençóis alvos, balançando ao vento. Quando secos, ela os dobrava com todo cuidado. Inclinada em cima da mesa, ela
ficava muitas horas passando a roupa com ferro abastecido
de carvão em brasa de nó de pinho, ou de sabugo de milho.
Ladislau construiu o moinho, movido a roda d‟água,
represando o rio que atravessava sua propriedade. A queda
d´água movia a roda que girava a mó. Ali eram moídos o
trigo e o centeio, do milho faziam-se fubá e quirera.
No monjolo socavam o milho, transformando-o em
farinha de biju. Era comum formar-se um grande movimento de carroças, com os colonos trazendo os cereais para
156
serem moídos. No caminho que levava ao moinho, plantou
árvores ornamentais de acácias amarelas, que na primavera
floriam em cachos dourados.
Em 1914 foi construída a primeira escola na colônia Alto da Serra dos Nogueiras, erguida com a colaboração
de todos colonos, sendo o terreno, de meio alqueire, doado
por Ladislau Grechinski, que ajudou no trabalho da construção e foi o grande incentivador na organização da “Sociedade Cultural Henryk Sienkewicz”, que tinha 26 sócios.
O primeiro professor em língua polonesa foi Eugeniusz Radlinski, imigrante, vindo da Polônia em 1911, junto
com a família Wasilewski. A continuação do trabalho escolar foi realizada pela professora Maria Dluszynska; depois
dela seguiram-se outros professores, inclusive Eugenia
Kolconowna de quem fui aluna.
Lecionavam em dois turnos, de manhã davam aula
em língua polonesa e a tarde em português, interagindo
positivamente na educação dos alunos. Em 1938 houve a
nacionalização total do ensino particular estrangeiro no
Brasil, levada a efeito pelos decretos-lei do governo federal
de Getúlio Vargas.
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A FAMÍLIA WASILEWSKI.
Nos anos de 1908 – 1909 na província de Lublin,
surgiu a 2ª fase da “febre brasileira” que tomou conta da
região. O povo movimentou-se em massa. Primeiro emigrou a “inteligentsia” envolvida nos distúrbios em Lublin
e Lodz, essencialmente acadêmicos. Assim, as causas principais da emigração de poloneses procedentes de Lublin
tinham motivos políticos. Em seguida, emigrou o camponês, o desempregado. E não só o operário das fábricas, mas
também os abastados proprietários.
Uma vez, começaram a distribuir perto da igreja, em
segredo, folhetos que eram mandados pelo padre Josef Anusz, pároco da igreja de Araucária no Paraná, para o distrito de Krasnystaw, que alvoroçaram as massas nessa região, na de Chelm, Siedlce e Lublin.
Esses impressos informavam que, noutro lado do
mar, tinha um país muito grande de nome Brasil. O governador da Província do Paraná, nesse país, vendia terra aos
camponeses poloneses por um preço mínimo, a longo prazo
de pagamento, e a quantia que quisessem.
Dizia ainda que no Paraná há liberdade para o povo,
que há escolas, sociedades, igrejas, o clima é ameno e que
trabalhando consegue-se facilmente algum bem-estar. Então o povo lia aqueles folhetos, ansioso, comentava à noite
com a família, conjeturava sobre como conseguir chegar a
este mundo novo e promissor.
As massas movimentaram-se uma vez mais para
além-mar. Dirigiram-se para o sul do Paraná, fixando-se
nas colônias novas, principalmente na de triste memória,
Cruz Machado, situada entre Rio de Areia e Iguaçu.
Em 19 de dezembro de 1910, por interesse nacional,
foi criado o Núcleo Colonial Federal Cruz Machado, foi
colonizado por imigrantes poloneses, alemães, ucranianos e
158
nacionais, para que se dedicassem à extração da erva-mate
e à produção de cereais.
A administração federal não estava preparada, os
lotes não estavam demarcados, as barracas mal feitas, superlotadas, sem a mínima condição sanitária, a alimentação
inadequada, tiveram como conseqüência doenças e mortes
de adultos e crianças.
Mas a doença que encheu os cemitérios foi a epidemia de tifo e febre amarela, que grassou nos acampamentos
da Colônia Cruz Machado. Demorou muito para que as
doenças fossem debeladas, pela morosidade do governo em
tomar providências óbvias, de saneamento nas acomodações e isolamento dos doentes.
Entre 1910 e 1911, começou a terceira fase da “febre brasileira”. O comandante do departamento da polícia
do governo de Lublin alarmou as autoridades da Província,
sobre o início, novamente, do movimento emigratório para
o além-mar.
O governador, preocupado com as notícias do abandono do serviço pelos trabalhadores rurais, nas grandes
propriedades, seguidos pelos pequenos produtores; autorizou a barreira, pela patrulha local, para reter os emigrantes
na rota que levava por Bilgoraj a Krakow.
Recorre, em 2 de outubro de 1911, para a cúria do
bispado, com pedido de ajuda da igreja, para que do púlpito falasse contra a emigração que tomou conta da região.
O governo russo quis proibir a ação dos agentes brasileiros; alguns agitadores foram presos, mas a demanda
continuou. Essa proibição não conseguiu abalar a idéia acerca da emigração para o Brasil.
Só da comarca de Krasnystaw deixaram o país
1.843 pessoas em 1911, sendo 88 proprietários que deixaram suas terras sem vendê-las. Desse contingente, 1.430
159
pessoas fixaram-se nas novas colônias fundadas no município de Irati.
Do distrito de Rudnik, saíram 352 pessoas. O agente
Missler de Bremen forneceu os bilhetes de passagem gratuita no navio, passagens de trem, acomodação e alimentação, até o porto de Bremen e o embarque em Bremerhaven,
com destino ao Rio de Janeiro.
Durante quase meio século, os candidatos à emigração atravessavam a fronteira à noite, escondidos, para
chegar ao porto e embarcar. Muitos vieram às próprias
custas pagando todas as despesas até o destino.
No ano de 1911 estava no governo o czar Nicolau II.
Surgiram novamente rumores sobre insurreição que estava
para explodir nas terras do Reino da Polônia. O cidadão
Kazimir Andrejew Wasilewski estava inquieto, pois o sentimento de patriotismo arraigado no fundo da alma dos
poloneses não sossegava, procuravam todos meios para
libertar a pátria.
Esperavam-se represálias e detenções a qualquer
momento, tendo em vista que Kazimir e seu filho Francisco
estavam envolvidos no movimento e participavam das reuniões secretas com os simpatizantes. Em longas conversas
em voz baixa com os filhos confabulavam procurando soluções, decidiram que abandonariam o país às escondidas,
para não serem presos e exilados para a Sibéria, o que seria morte certa.
O caso da família Wasilewski estava difícil de solucionar, uns queriam ir embora outros não. Os dois filhos
mais velhos tinham seus próprios negócios; André possuía
um açougue e João era dono de uma bem aparelhada ferraria, onde seus filhos gêmeos Pedro e Paulo o ajudavam no
trabalho. Eles discordavam da idéia de emigração.
Na incerteza, e sem data definida para o embarque
de toda a família Wasilewski, o terceiro filho de Kazimir,
160
Teóphilo, de 38 anos de idade (nasceu em 1873), resolveu
antecipar a viagem levando consigo nove pessoas: a esposa
Katarina, o filho dela Kazimiro Szczepanowski, os dois
filhos de Teóphilo, Kazimira de 7 anos e Bogdan de 5 anos,
mais a irmã Anastácia e o marido Karol Kubitski, seus
dois filhos, João e Eduardo.
Em 18 de maio de 1911, embarcaram no navio em
Bremerhavem, na Alemanha, apinhado de emigrantes, que
seguiam rumo ao Brasil, direcionados para o sul do Estado
do Paraná. Teóphilo, informado sobre a fertilidade das terras da região de Irati, encaminhou-se para essa cidade.
A vida de Kazimir Andrejew complicou-se ainda
mais, com a chegada, no dia 30 de março de 1911, de uma
notificação do governo russo, procedente da Gubernia
(Província) de Lublin, informando-o de que fora multado
em 100 rublos, pelo motivo de não ter mandado os netos à
escola russa e ministrado a elas, às escondidas, aulas de
religião em língua polonesa, que era proibida.
Em sua defesa, em 30 de maio, ele escreveu uma
carta dirigida ao governador de Lublinski, na qual se dispõe
a ficar preso, pois não possui os 100 rublos, que era um
valor muito alto, para as posses de um agricultor, e mais,
ele achava-se doente em conseqüência das privações e sofrimentos que passou, quando participou da guerra da Criméia contra os turcos, em 1877 e 1878, durante o governo
do czar Alexandre II.
Era um ex-combatente, serviu na Companhia Turskinstansky, como auxiliar de Enfermaria. (Fato mencionado
na cópia da carta original, achada dentro de um exemplar
da Bíblia de sua propriedade, depois da sua morte.)
Nessa emergência a melhor solução era emigrar. Iriam para os Estados Unidos ou Brasil?
Estavam inclinados a ir para América do Norte,
quando chegou uma carta do Teóphilo, que já se encontra161
va no Brasil, na vila de Irati. Incentivou-os a seguir o
mesmo destino. Então iriam para o Brasil, terra da liberdade, principalmente pela promessa de liberdade. E com certeza, quem tem horror à servidão, este apreciava deveras a
liberdade. Os imigrantes vinham à procura de terra, trabalho, igualdade, direito à propriedade, liberdade de religião,
expressão e educação (tudo que não tinham na sua pátria).
E, ficaram até altas horas da noite conferenciando a
respeito da viagem, de manhã cedo o pai, já decidido, foi à
Lublin com Nicolau, preparar os papéis. Tudo foi tratado
com o máximo sigilo. Aqui também prevaleceu o suborno.
Aconteceu tudo tão rápido. Arrumaram os baús com
as roupas, malas e bagagens, tudo que fosse possível levar,
e ao cair da noite de 4 de novembro de 1911, com lágrimas
nos olhos, deixaram a aldeia Plonka no distrito de Rudnik.
Viajaram de carroça, pela rota que levava por Bilgoraj, rumo à fronteira da Áustria, distante 115 quilômetros. Atravessaram a fronteira austríaca, de noite, sem problemas. Na localidade de Rzeszow embarcaram no trem da
linha Lwow-Krakow. Chegaram de manhã na bela e histórica cidade de Krakow, que estava sob ocupação austríaca.
A família Wasilewski emigrou deixando para trás,
sem vender, as propriedades e bens, para não despertar a
vigilância das autoridades russas. O dinheiro para as despesas com a viagem tinham sido trazidos, parte pelo Nicolau,
em dólares, dos Estados Unidos, e outra parte em rublos,
economizados pela família, durante muitos anos.
No saguão da estação de Krakow permaneciam dezenas de famílias, vindas de Rudnik, Krasnystaw, Hrubieszow, Zamosc e de outras aldeias, da província de Lublin,
esperando transporte de trem para Berlim e Bremen, porto
da Alemanha. no Mar do Norte. Todos desejavam embarcar para o sul do Brasil, no Estado do Paraná.
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Da aldeia de Plonka até o porto de Bremen, os Wasilewski levaram seis dias para chegar. A passagem de trem
custou 6 rublos por pessoa, e a passagem de navio de
3ªclasse, com direito à cabina de quatro beliches, 45 rublos
por pessoa. Esperaram mais oito dias pelo navio, acomodados em hospedaria em Bremen.
Na lista de embarque da família Wasilewski constavam:
Kazemir Andrejew, pai,
66 anos.
Maria Zablotska,
mãe,
63 anos
Nicolau, filho de Kazemir,
36 anos
Francisco, filho de Kazemir, 32 anos
Anastácia, esposa de Nicolau 33 anos
Jan, filho de Nicolau
13 anos
Mariana, filha de Nicolau
7 anos
Francisca, filha de Nicolau
3 anos
Embarcaram no navio alemão, Erlangem, da companhia Norddenfldjen Lloyd Bremen, aproximadamente
3.000 pessoas. O navio zarpou do porto de Bremerhavem,
no dia 18 de novembro de 1911. Navegou por dois dias e
atracou em Antuérpia, na Bélgica, para abastecer de carvão, víveres e água. Ficou atracado no cais por três dias.
Alguns passageiros, inclusive Kazimir, o neto Jan,
Francisco e Nicolau, levando pela mão a menina Mariana,
desceram e foram conhecer a cidade. Nicolau comprou
duas espingardas belgas de cano duplo e munição. Adquiriram também sementes de hortaliças e algumas roupas.
Foi uma viagem longa. Depois de ter aportado na
Bélgica, o navio parou também em La Coruña, na Espanha; em Portugal, no porto de Lisboa; depois navegou pelo
Oceano Atlântico até o Rio de Janeiro por 20 dias.
Durante as borrascas os ventos sopravam fortes, o
navio balançava desordenadamente. Crianças e velhos amedrontados choravam, gritavam e passavam mal, então os
163
marinheiros empurraram os emigrantes abaixo do convés,
onde o aperto e falta de ventilação sufocavam-nos.
Dormiam em compartimentos, nos beliches, em
quatro fileiras, os mais prevenidos preferiam as camas do
alto, para não serem vítimas daqueles que sofriam de enjôos. A comida compunha-se de batata cozida, repolho, peixe
ou carne no almoço; de manhã serviam pão com café, e a
noite pão com chá; a sede era intolerável, mas a água acondicionada em barris de madeira era salobra, de gosto
desagradável.
Apareceu doença a bordo; as pessoas que morriam
eram jogadas ao mar, fato que abalou a todos e motivou
grande indignação. Havia um homem entre eles que falava
em alemão, ele levou as queixas dos passageiros até o capitão, que imediatamente deu ordens para melhorar a alimentação e as condições gerais.
As oito pessoas da família Wasilewski desembarcaram no Rio de Janeiro no dia 20 de dezembro de 1911. Ficaram junto com os outros imigrantes por seis dias na Ilha
das Flores. Feita a triagem, a família embarcou no navio
costeiro do Lloyd brasileiro que aportou em Santos no Estado de São Paulo. A viajem demorou dois dias.
Após o desembarque do navio, seguiram de trem, de
passagem por Curitiba, até a cidade de Irati. Finalmente, na
data de 31 de dezembro de 1911, a família Wasilewski
fixava-se no solo brasileiro.
A viagem desde Plonka até Irati durou 57 dias ao
todo. Inicialmente estavam motivados a fixar-se na Colônia
Federal de Cruz Machado, onde o governo brasileiro estava
implantando um programa de colonização. Mas as notícias
que chegavam, falavam de uma epidemia de tifo e disenteria, que estava grassando na região, ceifando vidas de crianças e adultos, ocupando os cemitérios.
164
Em vista disso, mudaram-se os planos dos Wasilewski, que optaram por assentar-se na vila de Irati, onde
Teóphilo com a família, mais o cunhado Karol Kubitski e a
esposa Anastácia já residiam há alguns meses.
Diversos grupos de imigrantes que vieram no navio
Erlangem desembarcaram do navio costeiro no Porto de
Paranaguá. A viajem entre Paranaguá e Curitiba, de trem, é
uma das mais belas do mundo. A estrada de ferro é uma
obra-prima de construção. O projeto da ferrovia Paranaguá
– Curitiba foi autorizado e aprovado pelo imperador D.
Pedro II, em 1880, e o início das obras foi prestigiado pela
sua presença. Foi inaugurada em 1885, pela princesa Isabel.
Tem 10 túneis, inúmeras pontes incrustadas à Serra, como
se fossem fitas a cingirem as montanhas. A estrada serpenteia como uma enorme cobra, em torno da Serra do Mar.
Descortina-se o magnífico panorama sobre a baía
de Paranaguá, sobre as montanhas circundantes, precipícios, cachoeiras e a exuberante mata tropical, com flores
multicoloridas e elegantes pés de palmito. O pico Marumbi
eleva-se a 1.450 metros acima do nível do mar.
Quando os passageiros viram os precipícios e as elevações íngremes da Serra do Mar por onde o trem ia passar, ficaram apavorados. Os poloneses, habitantes de Lublin, nunca tinham visto montanhas tão altas.
Na capital, ficaram alojados em barracões para imigrantes descansando por três dias, continuando a viagem
de trem até a Estação de Irati. No ano de 1911, fixaram-se
na região 694 imigrantes poloneses.
Teóphilo Wasilewski adquiriu um lote de terra de
cinco alqueires, onde construiu o moinho, represando a
água do rio que corria pelo seu terreno (local onde fica hoje
o Clube da Serra). Junto ao moinho construiu a casa para
abrigar a família. Ali criaram-se os filhos Kazemira e Bogdan, órfãos de sua primeira esposa Stanislawa e ali nasce165
ram Bronislava, Genoveva e Alexandra, as três filhas de
Catarina, sua segunda mulher.
Viveram ali durante dez anos. Teóphilo era artífice,
perito em fabricação de peças e rodas, para moinhos de
trigo, e montagem dos mesmos. Freqüentemente era chamado para executar este trabalho, em diversos lugares
deste e de outros Estados. Nessas ocasiões, Kazimiro, seu
enteado, o substituía no trabalho do moinho.
Em 1930, Teóphilo vendeu o moinho da Serra, o
primeiro construído por ele em Irati, com o terreno e a casa, para José Kwiatkowski e mudou-se para Cochinhos,
perto de Irati. Ali construiu um moinho maior e mais moderno, no rio das Antas, comprou mais terras para lavoura
e faxinal com pinhal e erva-mate.
Cultivou a terra, formou um belíssimo pomar de frutas, criou abelhas e trabalhou no moinho durante 10 anos.
No dia 4 de fevereiro de 1940, a morte ceifou-lhe a vida;
faleceu acometido de “síncope cardíaca”, aos 67 anos de
idade. Foi sepultado no Cemitério Municipal de Irati.
Bogdan, filho de Teóphilo, conheceu a jovem Eugênia Boguszewska na festa de casamento da irmã. Eugênia, era filha de imigrantes poloneses que chegaram com a
leva do ano de 1911 e localizaram-se em Irati. Ela era bonita e alegre. Possuía longos cabelos castanhos que usava
em tranças e olhos azuis nas faces rosadas, olhos que fascinaram o moço, de imediato. Namoraram pouco tempo;
apaixonados, casaram-se logo.
Estabeleceram-se com uma panificadora, na colônia
Gonçalves Júnior. Bogdan tinha a profissão de padeiro.
Após alguns anos voltaram a morar em Irati, instalando
uma bodega e panificadora na cidade. O casal teve quatro
filhos: Thadeu, Eugênio, Zbigniew e Luciano. Bogdan faleceu aos 34 anos de idade. Foi sepultado em Irati.
***
166
Em Irati não havia plano de colonização oficial, e a
família procurou adaptar-se à situação existente. As terras
eram férteis e baratas. Kazimir Wasilewski, juntamente
com os filhos, comprou alguns alqueires de terra com pinhal e erva-mate em Cochinhos. Inclusive, trocou com um
caboclo, por uma espingarda belga, um lote de terra na encosta do “Morro da Santa”, próximo a cidade.
Adquiriram o terreno e construíram a casa de madeira lascada de pinheiro, perto do armazém da Estrada de
Ferro. Já existiam ali moradias de madeira, construídas a
pequena distância umas das outras, ao longo das ruas recém-abertas. Funcionavam bodegas, açougues, casas de
comércio, panificadora e correio. Era grande o movimento
nas ruas.
De início, os Wasilewski lavravam a terra, plantando cereais, milho e verduras para o consumo da casa. Kazimir não se contentava, queria progredir. Resolveu junto
com os filhos estabelecer uma padaria para fabricar pão
para aquela cidade embrionária.
Juntando as economias da família, compraram a
padaria de Domingos Sebastião, patrão do João, onde este
já trabalhava havia dois anos. Anexo à padaria instalaram
um botequim. O negócio deu certo e prosperou.
Os imigrantes que chegaram em 1911 logo preocuparam-se em organizar uma escola, pois as crianças precisavam estudar; por enquanto as aulas eram ministradas em
casa, por Kazimir, Francisco e Nicolau revezando-se, outras vezes pelo professor Eugeniusz Radlinski.
Em 1914, início da Primeira Guerra Mundial,
Francisco e seu amigo Radlinski resolveram voltar à pátria,
lutar na guerra e participar da libertação da Polônia. Francisco, ao despedir-se, recomendou a Nicolau, seu irmão,
para que cuidasse do pai e da mãe até o fim das suas vi-
167
das. Deixou a sua parte na padaria e as economias que
possuía como colaboração.
A renda não era muita, mas viviam bem, mesmo
que com certa economia. Moravam numa casa grande; a
família compunha-se do casal de avôs, Kazimir e Maria,
Nicolau, a esposa Anastácia e seus filhos, João, Maria e
Francisca, depois nasceram Ladislau, Joana, Helena e Henrique.
O avô Kazimir mudou-se para a chácara em Cochinhos, que era próxima a Irati. Ali ele plantou um grande
pomar e cuidava das abelhas. A avó Maria Zablotska faleceu em 1921, com 73 anos, o avô Kazimir Andrejew, em
1929, com 80 anos.
Nicolau Wasilewski não era homem rico, era igual
a outros imigrantes que aqui chegaram em busca de terra,
igualdade de direitos e paz para trabalhar. Terminada a
Primeira Guerra Mundial em 1918, a Polônia recuperou a
sua Independência.
Em 1922, Nicolau voltou à pátria para vender os
bens que a família deixara ao emigrar. O país estava falido
e nada tinha preço. O pequeno valor apurado com a venda
do patrimônio, situado em Majdan Kobylanski, a seu cunhado José Bzówka, residente em Plonka, não cobria o
preço da passagem de retorno ao Brasil; precisou pedir ao
filho João, para que lhe mandasse a importância.
Os colonos poloneses tinham sede de saber. Fundaram escolas, sociedades culturais e recreativas, onde promoviam festejos em datas comemorativas nacionais, brasileiras e polonesas.
A Sociedade “Henryk Sienkewicz” da colônia Alto
da Serra dos Nogueiras, era a mais antiga. Como ocorria
todos os anos, preparava-se uma grande comemoração do
dia 3 de maio, data de promulgação, em 1791, da Constituição da Polônia. Haveria hasteamento das bandeiras polo168
nesa e brasileira, hinos nacionais, discursos, apresentação
de uma peça teatral pelos jovens do povoado, culminando
os festejos com um grande baile no salão da sociedade. Esperava-se a participação maciça da colônia. Era grande a
expectativa e animação entre os jovens da comunidade.
Os preparativos para a festa empenharam todo o
tempo das duas primas, Maria e Kazemira Wasilewski. Elas
trataram de comprar os tecidos para vestidos, escolheram a
costureira, discutiram os modelos, adornos para os cabelos
e sapatos. Acompanharam com atenção a toda essa obra
doméstica. Rendas, fitas, enfeites, tudo lhes passou pelas
mãos, pela memória e pelos sonhos. Sim, a primeira valsa
foi dançada em sonhos, com um belo cavaleiro vestido à
moda típica polonesa.
- Sabe Kazia, dancei no sonho esta noite com João,
o filho de Ladislau Gryczynski. – comentou Maria.
- Você ? Sonhou com João? - retorquiu-lhe a prima.
- É! justamente eu! e você dançava com Pedro, o
irmão dele. João me olhava com olhar de fogo, os olhos
dele luziam como estrelas. Estranho este sonho, não é Kazia? Lastimo não ter sido real – confidenciou Maria.
Os festejos prometiam muita agitação e as duas jovens esperavam ansiosas. Os vestidos ficaram prontos. Passados a ferro, foram estendidos em cima da cama. Chamava
atenção um lindo colar de âmbar amarelo colocado em cima
do vestido de Maria, seria o complemento do traje. Junto ao
vestido de Kazemira estava uma gargantilha trançada, de
coral vermelho, herdada de sua falecida mãe, Stanislawa.
- Que lindo é este colar de âmbar amarelo e como
combina bem com o tom do vestido - comentou Kazia.
- Ganhei-o hoje da minha avó Maria, mãe do meu
pai, especialmente para usá-lo nesta festa; é uma jóia de
família há muitas gerações – explicou Maria.
169
Finalmente tinha chegado o dia tão esperado, o movimento de pessoas chegando era grande. O burburinho de
vozes e o relincho de animais ouviam-se à distância.
Durante o dia todo seguiram-se as comemorações da
data festiva de 3 de maio. A comissão dos festejos providenciou para que tivesse comida para toda essa multidão.
Mandaram fazer churrasco de dois bois, assar galinhas,
marrecos e leitões. Havia grande quantidade de pão e roscas
doces. A música de violino, rabecão e sanfona disputavam a
audiência, acompanhados pelo entusiasmo dos jovens.
Entre tanta gente vinda dos mais distantes recantos
da colônia polonesa, notava-se a presença dos dois irmãos
Wasilewski: Nicolau, com a esposa Anastácia e filhos João
e Maria, e Teóphilo, com os filhos Bogdan e Kazemira.
As duas primas, lindas jovens de 16 anos, eram a
pura expressão da beleza eslava, logo despertaram a atenção dos irmãos João e Pedro Gryczynski. Os moços não
tiravam os olhos de Maria e Kazemira, que passeavam pelo
pátio entre o povo.
Quando elas entraram no salão, os irmãos encorajados foram ao seu encontro. Elas conversavam e riam junto
com outras jovens, num recanto do salão.
Os moços aproximaram-se timidamente.
- Podemos fazer-lhes companhia?- perguntou João.
- Podem sim - respondeu Maria, a mais corajosa.
Apresentaram-se e acompanharam as duas primas,
durante o resto da tarde. O tempo passou rápido, entre risos
e falas alegres. Iniciado o baile, João convidou Maria para
dançar; Pedro numa mesura deu o braço à Kazemira.
Estavam tão enlevados um com o outro que não viram a noite passar. A luz clara da manhã já estava iluminando o salão de baile quando se despediram. Antes pediram autorização aos pais das jovens para visitá-las em suas
residências.
170
João Gryczynski, era um rapaz de 24 anos, amável e
educado. Decorreram dois meses do dia em que o moço foi
se apresentar em casa do pai da sua amada. Foi recebido
com amabilidade pelo Nicolau, que era homem inteligente,
viajado, reconheceu logo na pessoa do pretendente, um
homem trabalhador e honesto, que daria à sua filha uma
vida de conforto e segurança. Afeiçoou-se logo ao rapaz, e
se este o consultasse não o recusaria como genro.
Maria gostava de conversar com João, lançava-lhe
olhares ternos e ouvia com atenção os gracejos, porque ele
tinha bom humor. O rapaz gostava dela; melhor, amava-a.
Cada dia que passava vinha fortalecer a paixão do moço, a
ponto de lhe parecer ocasional o pedido de casamento.
O jovem Gryczynski almejava o sucesso na vida;
ainda adolescente, empregou-se como balconista na casa
comercial dum libanês, na vila de Irati. Esforçava-se para
adquirir prática no comércio, e a noite ia trabalhar como
padeiro na padaria dos Wasilewski.
Kazemira e Maria eram duas primas muito unidas,
sempre estavam juntas, pois as residências de ambas distavam menos de um quilômetro. Maria morava na vila e
Kazemira residia no início da colônia Alto da Serra, perto
do moinho (onde hoje fica o Clube da Serra).
Nesse dia, à tarde, Maria estava em casa da prima.
Um tropel de cavalos ressoou na entrada do portão. Tirou as
duas moças da confabulação, sentadas que estavam num
canto da sala.
Ambas, impelidas pela curiosidade, debruçaram-se à
janela e foram tomadas de surpresa pelo que viram. Dois
cavaleiros acabaram de parar no pátio. Bogdan, o irmão de
Kazemira, saíra para recebê-los.
- Olhe Maria, aquele mais alto é o teu namorado.
João, que nesse momento avistou as moças, fez com
o chapéu uma profunda saudação.
171
- Que virão eles fazer aqui, hoje? - indagou ingenuamente Maria.
- Não adivinha?- perguntou Kazia, sorrindo.
- Eu não, prima - falou Maria, sem muita convicção.
Entretanto, Bogdan, convidava os dois irmãos a entrarem. Eles deparando-se com as primas, cumprimentaram-nas, cerimoniosamente, de chapéu na mão.
- Vamos sentar todos em volta da mesa - sugeriu
Kazemira, puxando as cadeiras. Sentaram-se, ficando Maria em frente de João, que lhe sorria disfarçadamente, olhando-a nos olhos. Kazemira, em frente de Pedro, estava
com as faces rubras, envergonhada, não sabia o que falar.
Bogdan vendo que estava sobrando, pediu desculpas
e retirou-se, dizendo que ia trazer café para a visita, mas na
realidade foi avisar o pai da presença dos rapazes.
Um dia João reuniu todas as forças e resolveu ir a
casa do pai da sua amada. Vestiu nesse dia um terno de
casimira de risca de giz, azul marinho, camisa branca e
gravata combinando; chapéu de feltro, sapatos de verniz.
Passou no barbeiro, cortou o cabelo e aparou o princípio de
um bigode.
Foi, Maria recebeu-o na porta, admirou-se da elegância do rapaz. Ele sem rodeios declarou-se, formalmente.
- Amo você Maria, vim pedir a sua mão e combinar
a data do nosso casamento - esclareceu João, em tom confidencial.
- Então, entre e fale primeiro com o pai – disse ela
ruborizada até os fios dos cabelos.
Nicolau estava sentado no sofá lendo um jornal. Ao
deparar-se com o moço, levantou para cumprimentá-lo.
João não esperou muito para falar, estava nervoso.
Rodava o chapéu nas mãos, inseguro, arrancava com ímpeto as palavras:
172
- Senhor Nicolau, vim pedir a mão de sua filha Maria em casamento.
Nicolau olhou para a filha, que estava atenta à resposta que o pai daria.
- O que acha do pedido, minha filha? Você gosta dele?
- Eu o amo, sim! Mas é o pai que decide, faço o
que o senhor mandar.
Nicolau, gostava do rapaz, não achava razão para
não o aceitar como genro.
- Nesse caso, dou meu consentimento; casem-se, é
do meu gosto esta união. Deus os abençoe – respondeu não fique tão nervoso rapaz, vamos nos dar muito bem.
Maria estava feliz, já podia fazer planos para a festa. A sua prima Kazia estava na sala, brincando com o
cãozinho Malhado. Maria virou-se para ela e sugeriu:
- Poderíamos casar no mesmo dia, não é Kazia? Se o
Pedro resolvesse te pedir agora.
Mas não foi possível; Pedro não tinha decidido ainda, estava em dúvida quanto ao afeto de Kazemira por ele.
Agora João e Maria podiam combinar a data do enlace. Para tratar do assunto, vieram Ladislau e Leonora,
pais de João. Foi-lhes oferecido um jantar, ao qual compareceram, também, Pedro e Kazia. A mesa do jantar estava
posta, cheia de petiscos, pães e doces, conforme convinha a
um bom padeiro.
Serviu-se também uma sopa de verduras como entrada, carnes assadas de galinha e pernil de porco, acompanhados de macarronada, salada de beterraba e raiz forte
(chrzan).
Coube a Maria o dever de servir o vinho aos seus
convidados. João agradeceu gentilmente e, rendido à beleza da jovem,. acompanhava a moça com os olhos acesos,
pois a paixão devorava-lhe a alma.
173
Maria vestia um longo e vaporoso vestido branco,
caminhava com elegância, volvia os olhos cheia de graça.
- Que olhos lindos ela tem!- comentou João.
Até o fim do jantar os olhos de Maria e os de João
se encontraram muitas vezes. Os dele, procurando. Os dela,
sendo encontrados. Ele sorria-lhe, com amor.
Chegada a sobremesa, foi ela quem lhes serviu os
doces. Veio maneirosa e sorridente, dirigindo-se ao João:
- Que doce prefere, meu noivo?
Ele também sorrindo, com ternura:
- O que a senhorita escolher!
Ela, com gesto distinto, de educação:
- Então vai provar dos dois.
Ambos sorriram, um sorriso de felicidade. Depois
do café, passaram a falar sobre o assunto principal que os
trouxe até ai, o casamento. Acertaram a data de 11 de setembro, um sábado, para a realização das núpcias. O local
da celebração seria a igreja de São Miguel. A magnífica
recepção oferecida pelos pais da noiva foi assunto predileto
da vila, por muitos dias.
Dois meses era tempo de sobra para enraizar no coração de Pedro a planta do amor que havia germinado entre
duas danças, no baile do Clube da Serra, na noite de 3 de
maio. A planta cresceu, tomou o coração todo do rapaz, que
não lembrava jamais de haver gostado tanto de uma moça
como da jovem Kazemira. Inseguro, ele confidenciava a
João, seu irmão, pedindo orientação.
- E ela? – perguntou João.
- Ela...não sei.
- Não sabe?
- Não creio que não goste de mim, isto é, trata-me
muito bem, é alegre comigo, mas não sei se me ama.
- Já lhe perguntou?
- Não.
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- Então por que não pergunta?
- Tenho receio... Ela pode zangar-se e fico sem jeito
para voltar a freqüentar-lhe a casa e Bogdan é meu amigo.
- Mas o que quer que eu faça?
- Não sei o quê! talvez perguntar a Maria, que é
prima dela e são amigas inseparáveis...
- Para saber se ela gosta de você?
- Sim! - Pois então, vamos tentar...
- Ela me trata bem, olha para mim e sorri...
Aflito, Pedro resolveu vencer a sua grande timidez
e fazer a confissão. Poucos dias depois apareceu a ocasião
propícia. Era inoportuno dilatar por mais tempo a declaração dos seus sentimentos a Kazemira. Precisava saber se
era correspondido ou não. Resolveu fazer uma visita ao
seu amigo Bogdan.
Não o encontrou em casa, junto com o pai tinha ido
à vila de Irati, fazer compras. Kazia ficara em casa com a
madrasta Catarina, que estava às voltas com as crianças.
Pedro bateu na porta. A jovem veio abrir e convidou-o a
entrar; estava pálida e encabulada.
- Sente-se, por favor.
- Será que não vou incomodar? Vim visitar Bogdan;
ele está?
- Não!.. não está, foi à vila com o pai.
Kazia olhou para Pedro com ternura nos olhos e
sorriu. Tocou-o levemente com a mão, no braço, e falou:
- Não consigo esquecer o dia do baile, aquele de 3
de maio, lembra?
- E como me lembro, dançamos juntos a noite toda!
Pedro aproveitou o ensejo para o desabafo; ficaram
comentando o sucesso da festa, enlevados pela paixão. Não
precisaram falar dos seus sentimentos, a atitude e os olhos
diziam tudo. Não viram o tempo passar.
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Teóphilo e Bogdan chegaram da cidade. O pai preparou o chimarrão, cuja bebida ofereceu à visita. Após ter
tomado algumas cuias do chimarrão, Pedro pediu ao pai da
moça dez minutos de atenção.
- Senhor Teóphilo! conceda-me a mão da sua filha
Kazemira em casamento, eu a amo muito– Falou num repente, atropelando as palavras.
- Minha filha? Kazia? – bradou ele - minha filha...
pois não! Mas você já falou com ela?
Teóphilo abriu os braços e apertou num abraço forte os jovens Pedro e a filha, que admirada da rapidez de
decisão do candidato, chegou a perder a voz.
- Mas então, namoram-se às escondidas?
- Nós? oh, não!- respondeu Kazia, envergonhada.
- Conhecemo-nos no dia da festa de 3 de maio, surgiu uma afinidade, uma afeição, uma atração mais forte;
não estou enganado, Kazia ? - indagou Pedro apreensivo.
- Está certo, eu gosto muito de você, Pedro!
- O que diz então, minha filha? – perguntou o pai
- Pai, se você consentir, eu me caso com Pedro.
- Dou a minha aprovação e com alegria os abençôo.
O casamento de Pedro e Kazemira foi marcado para
o dia 7 de agosto de 1920. Ela estava com 16 e ele com 21
anos. Precisavam dar andamento nos papéis do casamento.
Pedro foi à vila de São Mateus fazer o seu registro
de nascimento, pois não o possuía. (Na época não era obrigatório esse documento.) A certidão é datada em 17 de janeiro de 1919, com o nº 1.174, da qual consta a data de
nascimento de Pedro em 29 de junho de 1899, na Colônia
Canoas em São Mateus, Estado do Paraná, no domicílio dos
pais, Ladislau e Leonora Gryczynski, naturais da aldeia de
Chumecin, Província de Plock, Polônia.
Kazemira era filha de Teóphilo Wasilewski e Stanislawa, nasceu em 5 de maio de 1904, na aldeia de Plenin,
176
Província de Lublin, na Polônia. Órfã de mãe aos 4 anos,
veio para o Brasil em 1911, com 7 anos de idade, com seu
pai Teóphilo, a madrasta Catarina e o irmão Bogdan. Ela
tinha como documento o passaporte de emigrante.
Começaram os preparativos. Encomendaram o vestido da noiva e o terno do noivo. O casamento seria realizado de acordo com a antiga tradição polonesa. Uma semana
antes da festa, já os parentes, vizinhos e amigos traziam
ovos, manteiga, galinhas e leitões gordos. Revezavam-se no
preparo dos alimentos. Assaram uma quantidade enorme de
pães e roscas doces. Preparou-se cerveja caseira.
Enfeitaram a casa com bandeirinhas coloridas. Colocaram-se mesas de tábuas de pinho em cavaletes, em toda
extensão do salão e nos paióis esvaziados para a ocasião.
Foi convidada a comunidade da colônia de Alto da Serra
dos Nogueiras, pois casava-se o filho do inspetor Grechinski, homem importante do povoado, com a filha do moendeiro Wasilewski.
Sábado, dia do casamento, logo de manhã, começaram a chegar os convidados. Chegou o noivo de carroça,
puxada por uma parelha de cavalos, ajaezados com franja
de guizos na testa e laços de fita de papel colorido, no arreamento. O noivo e a sua comitiva foram recebidos pelo
padrinho casamenteiro, que trazia um galho verde enfeitado
de flores e doces.
Para saudar, os músicos tocavam violinos, acompanhados do som grave do violoncelo. Foram ao encontro
da noiva que se despedia do pai; este retribuiu pronunciando um discurso comovente. O condutor do cortejo ia na
carroça da frente com o noivo e as madrinhas. Seguia-o a
condução que levava a noiva com os padrinhos. Atrás seguiam as carroças em fila, lotadas dos convivas. O casamento foi realizado na igreja polonesa de São Miguel em
Irati. Durante a cerimônia, o padre proferiu um sermão, no
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qual afirmava a obrigação dos nubentes a preservar a fidelidade, o respeito e o amor mútuo, até o fim das suas vidas.
Ao retornar da igreja para a casa, o cortejo nupcial
composto por dezenas de carroças enfeitadas de fitas coloridas e bandeirinhas, e ao espoucar de foguetes e ritmos de
de canções alegres, chegavam à casa onde se realizava a
festa. A noiva acompanhada do noivo, das madrinhas, paraninfos e músicos, recebia os convidados, tendo na mão uma
bandeja com rosca doce e sal. Ela cortava o pão doce e distribuía em pedacinhos aos convidados com as boas-vindas.
As mesas, cobertas com toalhas brancas, já estavam repletas dos mais diversos pratos de comida.
Em primeiro lugar era servido um caldo de galinha
gorda, com macarrão de produção caseira, seguia-se o pernil de porco e carne de boi assados, geleia de pé de porco,
salada de beterraba avinagrada com raiz forte (chrzan), bolinhos de carne, chouriço assado, lingüiças, galinha recheada assada, macarronada, pão doce com farofa, roscas e
bolos, doces e salgados.
A comida era reposta continuamente pelas cozinheiras que ficavam atarefadas o dia todo e a noite, enquanto
houvesse festa e convidados. À tarde, o casal de noivos
começou as danças ao som de música de violino.
Depois a noiva dançou com os convidados; seguiuse o momento solene, marcante, da colocação do toucado,
que é o sinal que ela deixa de ser solteira para ingressar no
círculo dos casados. Esse procedimento é acompanhado
com canções antigas simbólicas.
Terminada a festa os noivos foram para sua nova
casa arranjada festivamente, para esperá-los.
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A MINHA HISTÓRIA
A casa foi construída em cima do morro, ao lado da
estrada que levava de Irati para a colônia Alto da Serra dos
Nogueiras e próxima ao moinho do pai de Kazemira. Era
uma habitação pequena, de dois quartos, sala e cozinha.
Feita de madeira bruta serrada, coberta de tabuínhas de pinho, com as paredes caiadas de branco.
Kazia colocou cortinas coloridas nas janelas, fez um
belo jardim na frente e atrás da casa, no terreno cercado de
ripas lascadas de pinho, fez a horta para plantar verdura.
Pedro e Kazemira, meus pais, habitaram na casa
perto do moinho, durante quatro anos, tempo em que nasceram suas duas filhas, Antônia e Monika.
Pouco antes do casamento, Pedro havia comprado
do Dr. Mário Fialho Valadares e outros, proprietários da
Fazenda Floresta, 6 alqueires de terra fértil, em mata e pinheiros, no interior da Colônia Alto da Serra dos Nogueiras,
distante 5 quilômetros de Irati.
Por causa da burocracia, foi somente em 8 de julho
de 1927 que conseguiu lavrar a escritura Pública nas notas
do 1° Tabelião Manoel de Vasconcelos de Souza. Registrada no Cartório de Registro de Imóveis de Irati, no Livro 1,
fls.9, transcrição n° 41, datado em 13 de julho de 1927.
Meu pai se deslocava diariamente para cultivar a
terra adquirida. Era distante da sua residência, requeria a
obrigação em sair de madrugada e voltar muito tarde da
noite. Achou mais conveniente mudar-se para lá.
Construiu uma nova casa de madeira serrada, coberta de tabuinhas lascadas de pinho, o assoalho era de tábuas alisadas. Possuía uma pequena sala de visitas e o quarto de casal. Num puxado ligado à casa fez um quarto grande onde dormiam as crianças.
179
A cozinha, de chão batido, funcionava numa construção separada, defronte à casa. Construiu o paiol, as mangueiras para os animais e chiqueiro; a horta e o pomar foram cercados de ripa. Mandou cavar um poço perto da cozinha, colocou o sarilho com a corda e o balde.
Kazia, criativa, diligente e caprichosa, pintou as paredes da casa com argila ferruginosa, de cor rosa pálido.
Portas e janelas pintou de amarelo claro. A argila existia,
com grande incidência, nos barrancos da beira de estrada na
região. Foi colhida, diluída em água e peneirada, forneceu
uma excelente tinta para pintura de paredes.
Kazia ocupava-se dos trabalhos caseiros e dos filhos
que foram nascendo. Ajudava na lavoura e também não
deixava de plantar flores e hortaliças na horta. Enfileiradas
no quintal, ficavam as caixas com colmeias de abelhas. Ela
cuidava das abelhas e tirava o mel, sem proteção, não tinha
medo das picadas.
Pedro dedicava-se ao cultivo de lavouras de trigo,
centeio, feijão, milho e batata. Ocupava-se também do
transporte, com carroção de 8 cavalos, de madeira serrada
e erva-mate para a estação da Estrada de Ferro em Irati.
Seus vizinhos Szubarczuk, Sznaider, Walaszek, Kirello,
Paduch e Fatiliano ajudavam-no no trabalho da lavoura em
dias de mutirão.
Os dias passavam suaves no cotidiano, até a Kazia
ficar grávida do 5º filho. Foi uma gravidez difícil, ainda
mais complicada pelo fato de que, num dia chuvoso, ela
escorregou de um barranco de cinco metros de altura, para
uma grota funda, nascente de um córrego, lugar onde ela
lavava a roupa da família. Saiu de lá se arrastando.
Voltou para casa com passos trôpegos e caiu sem
sentidos sobre o chão de terra da cozinha. As crianças assustadas foram chamar o pai, que trabalhava na roça. Kazia
180
estava no oitavo mês de gravidez .Logo em seguida começou a sangrar e apareceram as dores do parto.
Pedro foi buscar a parteira, uma mulher prática, que
havia assistido a dezenas de mulheres da Colônia. Avisou
também a cunhada Maria, esposa de João, que rapidamente
foi à casa da prima.
De início as dores foram como picadas de mosca,
depois cada vez mais vivas, até que surgiram as grandes
dores, que provocaram o nascimento da criança. A parteira
cortou o cordão umbilical com uma tesoura esterilizada,
cobriu com cobertor o corpo debilitado da parturiente, levou a criança até a bacia com água morna para banhá-la.
Enrolou-a em panos quentes e colocou no berço.
Deitada na cama, Kazemira ainda sofria muito, o
suor escorrendo-lhe pelo rosto, os longos cabelos castanhos
esparramados pelo travesseiro branco. A parteira estava
preocupada com o estado da paciente, cujo corpo agitava-se
nas dores pós-parto. As pernas abertas, sob o lençol, desenhavam a sua figura fatigada. A assistente tentava recolher
a placenta presa dentro do útero.
- Vou massagear o teu ventre - disse ofegante de
cansaço - ainda não acabou, já devia efetuar-se a expulsão
da placenta, fato que não aconteceu.
A parteira apertou e esfregou o corpo com ambas as
mãos, para placenta soltar-se e ser expelida do ventre, mas
apesar de a mulher empregar todos os meios, não obteve
êxito. A parturiente sofria muito.
Num último ato desesperado, para livrá-la da placenta, a mulher lavou as mãos e introduziu-as no ventre a
procura da placenta que não descolava, puxou para fora
com força, isto resultou no rompimento de um vaso importante e daí a hemorragia interna. O sangue escorria como de
uma fonte.
181
Pedro extremamente aflito, pediu à Maria, para que
ficasse junto a prima. Ele foi procurar um médico, mas não
encontrou nenhum na vila de Irati. Um doutor atendia aos
doentes da construção da Estrada de Ferro, distante 30 quilômetros. Seu irmão João, a seu pedido, foi até lá, mas
quando chegaram com o socorro, o médico após examinar
a paciente, meneando a cabeça deu a sua opinião:
- É tarde demais, ela esta exaurida de sangue, não
tem nada que eu possa fazer.
A parteira fizera tudo que sabia, para estancar o
sangue, mas não conseguira e ainda não havia transfusão.
Kazemira ficou sofrendo durante uma semana.
- Ela está morrendo – gaguejou Pedro, desesperado ela está morrendo...está se esvaindo... o que eu posso fazer!
meu Deus! tenha piedade, meu Deus!
No auge da agonia, minha mãe Kazemira chamou a
prima Maria para junto de si e, com voz fraca, suplicou:
- Maria você sabe que madrinha substitui a mãe na
falta desta. Sei que vou morrer! Leve a Monika com você e
a crie como se fosse tua filha. Prometa-me Maria!
Maria vendo o sofrimento da prima, condoeu-se, e
mesmo vendo o estado terminal dela, confortou-a:
- Você não vai morrer, vai ficar boa e criar teus filhos. Mas se o pior acontecer eu te prometo, vou levar e
criar Monika e ajudar a olhar teus outros filhos.
As mulheres, em volta da agonizante, rezavam em
voz alta pelo descanso desse corpo sofrido.
Com a morte da mãe, as crianças ficaram profundamente abaladas. Não sabiam como isto tinha acontecido.
Não entendiam a morte. Só viam a mãe deitada dentro do
caixão forrado de cetim azul, colocado em cima da mesa
da sala. Vestida com camisolão azul claro, xale branco na
cabeça, as feições gélidas marcavam o último ricto de dor.
182
- Mãe! estou com fome! Não durma, levante, venha
me dar pão! - reclamou o pequeno Augusto, puxando a mãe
pela mão inerte.
Uma vizinha vendo o triste quadro, pegou o menino
no colo, levando-o para dar-lhe pão e distraí-lo.
Elizabeth chorava na sua caminha ao lado do berço
da recém-nascida Klementina, chamando pela mãe. Com
um soluço profundo adormeceu. Sofria muito, pois seu coração infantil não entendia o que se passava com a mãe.
Antônia, assustada, refugiou-se na cozinha, ficou
escondida atrás do fogão de pedra. Choramingava. O cachorro Pitoco lambia-lhe o rosto como a consolá-la. Enquanto isso, eu Monika, de apenas 5 anos, curiosa, sem
nada compreender, olhava a mãe de longe, do canto da sala.
Eu não entendia por que a mãe, sempre tão atenciosa com
eles, agora não atendia os seus filhos.
- Mãe! Será que eu desobedeci a senhora? Peço perdão! Mas mãe! levante e saia de cima da mesa, você pode
cair e se machucar. Venha mãe! quero abraçá-la. É a tua
Patinha que está chamando.
Cheguei rapidamente para junto da mãe, debruceime por cima dela e beijei-a na face lívida. Assustada, desatei a chorar, reclamando entre lágrimas:
- Mãe! Teu rosto está gelado! Você não se mexe!
Não atende o meu chamado! Está de olhos fechados, não
olha para mim! O que está acontecendo? Você vai nos deixar? Não gosta mais de nós!
Corri para o jardim, entre os canteiros colhi um ramalhete de violetas perfumadas e coloquei-as nas mãos
entrelaçadas da minha mãe.
- Mãe, trouxe violetas para você, sei que você gosta
muito dessas flores! Perdoa-me, mãe! Levante desta mesa!
O pai vendo o desespero das crianças, sem ter como
suavizar o seu sofrimento, pediu às vizinhas, Jozepha e An183
tônia Szubarczuk para que levassem as crianças para sua
casa. Cuidassem delas, até que a mãe fosse sepultada e ele
resolvesse o que iria fazer dali em diante. Ficamos sobre os
cuidados das irmãs, pelos dois dias seguintes.
Kazemira Wasilewska, minha mãe, morreu jovem,
com apenas 24 anos de idade, no dia 27 de outubro de
1928. Foi sepultada no Cemitério Municipal de Irati. Deixou cinco órfãos, Antônia a mais velha, de 7 anos, Monika, Augusto, Elisabeth e Klementina recém-nascida.
Meu pai estava desnorteado. Ainda aturdido pelo
rude golpe que sofrera com a morte da esposa, ele precisava
trabalhar, pois tinha cinco filhos para sustentar. Foi aconselhar-se com a avó Leonora, sua mãe.
Após longas considerações ficou resolvido que ele e
a mãe iriam à casa da tia Ksavera, irmã de seu pai e viúva
de Aleksander Kowalski, que havia morrido recentemente
picado por uma jararaca.
Foram convidá-la para que assumisse a casa de Pedro e cuidasse dos órfãos, até que se encontrasse uma solução mais adequada. A tia Ksavera, já bastante envelhecida, com 64 anos, aceitou a incumbência movida pela compaixão pelo sobrinho e seus filhos.
Tomou conta da casa por três meses. Cuidar da casa,
de quatro crianças pequenas, não é tarefa para pessoa da
idade dela. Fez o que podia.
No dia 6 de fevereiro de 1929, meu pai, Pedro, após
uma viuvez de três meses, casou-se novamente, na igreja,
com uma viúva de 22 anos, de nome Jozepha, filha de Romão e Maria Chikorski.
Casaram no civil em 5 de agosto de 1930. Ela tinha
um filho de 2 anos, do primeiro marido que morreu assassinado. Jozepha exigiu que Pedro desfizesse a casa onde
vivera com Kazemira e mudasse para a casa dela, na locali-
184
dade de Caratuva, próximo da ferraria de Vitório Bidim, e
João Teledzinski seu cunhado.
Pedro aceitou temporariamente, despediu tia Ksavera e foi arrumar a mudança. Mudou-se para Caratuva,
levando com ele os cinco filhos órfãos de Kazemira. A caçulinha Klementina estava sendo criada pela tia Feliksia,
que tinha uma penca de seus filhos para cuidar. Feliksia,
vendo o irmão recém-casado com uma mulher jovem, resolveu entregar a criança ao pai, pois estava difícil para ela
cuidar de dois bebês, ao mesmo tempo.
Pedro casou-se logo, com o propósito de arrumar
uma mãe para seus filhos. Não queria separar as crianças.
Mas enganou-se redondamente, Jozepha, a nova esposa, ao
ver as cinco crianças chegando ficou profundamente consternada. Seu filho pequeno requeria sua total atenção.
Teria que cuidar de seis crianças, sozinha, pois Pedro passava os dias fora, trabalhava no transporte de madeira e erva-mate para a Estação da Estrada de Ferro de
Irati. Esta era uma empreitada além das suas forças. Apresentou dificuldades como ter saúde frágil e não poder sobrecarregar-se de trabalho.
Cozinhar, lavar, passar, dar banho, vestir, alimentar
todos, era muito para ela. Além de assar o pão, ordenhar as
vacas, alimentar os porcos e cuidar dos cavalos. Por algum
tempo Jozepha executou todo serviço, mas depois foi cansando e relaxando. Deixou de se preocupar com os pequenos, dar banho, cuidar das suas roupas e dos seus cabelos.
Elisabeth gatinhava pelo terreiro, os joelhos machucados, pés cheios de bicho-de-pé, com os dedos inflamados,
cabelos infestados de piolhos. Era esta a miserável situação
das crianças órfãs, entregues aos cuidados de madrasta.
Jozepha pediu ao marido que tomasse providências. Para
não desagradar a jovem esposa, Pedro, meu pai, com dor no
coração, pensou como solucionar o problema das crianças.
185
Começou entregando a caçula Klementina, de um
ano, ao tio Bogdan, irmão de Kazemira.
Certa tarde, parou em frente do portão da propriedade uma aranha (charrete). Era um veículo leve, de duas rodas altas, puxado por um cavalo. O meu avô Ladislau dirigia a aranha, sentado no assento forrado com pelego vermelho, vinha junto com tia Maria visitar Pedro e ver como
estavam os filhos de Kazemira.
Desceram do veículo, e Jozepha veio ao seu encontro logo informando da ausência de Pedro. O avô pediu
para ver as crianças. Ao vê-las ficaram horrorizados com a
aparência dos menores. Indignado, o avô comunicou a Jozepha que iria levar com ele a Elisabeth, que se encontrava
em pior situação, e a tia Maria levaria eu, Monika. Ela não
se opôs. Diria a Pedro que assim era melhor para elas.
- Não tenho mais força e nem paciência para cuidar
de tanta criança.- disse sem rodeios.
Tia Maria, ao chegar em casa com as duas crianças,
resolveu que a primeira providência a ser tomada era cortar
o cabelo a zero e dar banho. Arrumou água morna numa
banheira feita da metade de um barril de madeira, pingou
umas gotas de creolina, que era desinfetante, colocou-me
dentro e começou a esfregar o corpo todo, por fim lavou a
cabeça. Vestiu-me com roupas limpas, da sua filha.
Depois do banho deitaram-me em cima da mesa da
cozinha, de bruços, a tia Maria segurando meus pés e
mãos firmemente, enquanto o tio João com o fio da navalha, cortava, abrindo e espremendo o pus dos abscessos
(mijacão) da sola dos meus pés (mijacão, tumor atribuído
ao contato com urina de cavalo).
Tiraram os bichos-de-pé dos dedos inflamados. Depois de bem desinfetados com água oxigenada, foram os
meus pés enrolados com panos. Decorreram muitos dias até
que sarassem.
186
A tia cortou meu cabelo a zero, fiquei com muita
vergonha de estar com a cabeça raspada; escondia-me da
vista das outras crianças, que riam de mim. Ganhei roupas e
vestidos usados, que não serviam mais para minha prima
Olga. Mancando por causa da dor nos pés, mesmo assim
estava feliz, recebia atenção e carinho dos meus tios, coisas
que não existiam para mim havia muito tempo.
A Elisabeth foi tratada igualmente, com desvelo, e
como ainda não caminhava, a tia Maria fez massagens nas
suas perninhas com azeite e álcool, aqueceu-a e colocou
para dormir. Diariamente eram exercitadas suas pernas e o
tio João ensinava-a caminhar. Quando se recuperou da fraqueza por falta de alimentação adequada, e começou a caminhar sozinha, foi entregue aos cuidados da avó Leonora.
Pedro, Jozepha e os filhos, residiram na casa em
Caratuva por pouco tempo. Pedro era um homem orgulhoso, não ficaria morando na casa que não era dele. Em 15 de
março de 1929, ele comprou uma propriedade de faxinal,
composta de campos de pastagem, povoada de pinheiros e
mato, em São Miguel, distante 20 quilômetros de Irati. No
lugar havia uma casa grande de madeira. Mudaram-se para
lá, em seguida. Ele construiu paióis, mangueiras e cercados.
Era difícil para ele, sozinho, administrar a propriedade no Alto da Serra dos Nogueiras, onde viveu com Kazemira. Em 2 de janeiro de 1931, vendeu os seis alqueires
de terra e a casa, para seu irmão João Gryczynski.
Jozepha Chikorski teve duas filhas com Pedro. Lídia
nasceu dia 8 de fevereiro de 1930 e Rosa em 10 de fevereiro de 1931. Engravidou novamente e perdeu a criança.
Morreu de complicações pós-aborto, em agosto de 1932.
Deixou órfãs Lidia de 2 anos e seis meses e Rosa de
1 ano e seis meses. O filho do primeiro casamento de 6
anos, após sua morte, foi acolhido por seus avós paternos.
187
Que triste destino é o de Pedro, sempre às voltas
com a morte e órfãos para criar. Ficou viúvo novamente,
após três anos e meio de casamento. Pesavam sobre seus
ombros, a obrigação com o trabalho, as dívidas para pagar
e quatro pequenos órfãos, sobre seus cuidados. Não podia
ficar sozinho, precisava urgentemente de alguém que partilhasse com ele essa responsabilidade.
Procurou uma companheira ideal. Talvez agora tivesse sorte. Encontrou ótimos predicados na pessoa de Maria Kuc, de 22 anos de idade, da colônia local. Moça simples, honrada, trabalhadeira, de bom caráter, seria a companheira e esposa dedicada. Casaram-se em maio de 1933,
na igreja N.S. da Luz em Irati, e foram para casa em São
Miguel, onde as crianças os esperavam. Ela assumiu o
papel de mãe, dos órfãos, que o destino lhe mandava.
Pedro residiu nas terras de faxinal em São Miguel
por 10 anos, de 5 de março de 1929 até 1939, quando as
vendeu para comprar, no sopé da Serra do Chupador, de
início, 3 alqueires de terra de cultura, depois adquiriu uma
área maior, perfazendo um lote de 12 alqueires. Construiu
ali a a residência para a família, paióis, e estrebarias para
os cavalos. Trabalhava com afinco, envolvido com as plantações, sem contar as horas, madrugava e anoitecia no trabalho. Era um homem laborioso, duro e persistente.
Mudaram-se para a propriedade na Serra do Chupador em 1939. Levaram consigo as filhas de Josefa, as
meninas Lidia e Rosa, e os de Kazemira, o Augusto e Antônia. O casal teve nove filhos, Floriano, Francisca, Alexandre, Teresa, Lúcia, Polônia, Margarida, Napoleão e Helena morreram ainda pequenos.
Viveram juntos durante 30 anos, dividindo o trabalho árduo de lavradores, os contratempos, as alegrias e as
tristezas de uma família numerosa. Ela faleceu em 1962,
aos 52 anos de idade, acometida de um câncer de estômago.
188
Pedro ficou viúvo pela terceira vez. Em 1966, foi
viver com Alexandre seu filho com Maria, na cidade de
Irati. Morreu aos 73 anos, em 14 de março de 1972. Foi
sepultado no cemitério de Chupador (Alvorada), ao lado da
sua terceira esposa Maria.
Meu pai, era um homem trabalhador,forte, honrado,
de fibra inabalável, mesmo vergastado pelo vendaval do
infortúnio durante toda vida, não se dobrou, agüentou firme
as rajadas do destino. Nunca o vi chorar. Sempre lutou com
dificuldade financeira apesar do labor contínuo, sem trégua.
Alexandre Griczynski (Aleixo) foi o filho que herdou do pai Pedro, em plenitude, a energia e a coragem de
enfrentar a vida e o trabalho. Criou-se ajudando o pai na
roça. Aos 25 anos quis mudar de vida. Inteligente, com
idéias de progresso, almejava conhecer outros lugares e
outra gente. Saiu de casa e foi viajar. Na volta, com pequeno capital que possuía, estabeleceu-se com um bar perto da
ponte, na entrada da cidade de Irati. Foi o começo de uma
grande caminhada no comércio.
Casou-se dia 4 de fevereiro de 1967, com Maria
Boiano. Jovem dinâmica e inteligente que veio completar
os anseios de prosperidade de Alexandre. Juntos, na labuta
diária, superaram as dificuldades iniciais.Conseguiram
firmar-se no comércio, instalando e administrando com
capacidade ímpar um renomado supermercado, o “Santo
Antônio”, em Irati, com diversas filiais na cidade.
O casal teve quatro filhos. Educaram-nos com firme
determinação, incutindo-lhes a obrigação de um trabalho
solidário com os pais e irmãos. Desde pequenos ajudavam
os pais no armazém. Depois de casados, as esposas vieram
aumentar o quadro de colaboradores deste próspero comércio. Pode-se colocar o Alexandre no pódio dos vencedores.
***
189
Minha irmã caçula, Klementina, órfã de mãe desde
o nascimento, a desventurada criatura, a partir daquele infausto momento, passou de casa em casa, de mãos em
mãos. Muitos anos transcorreram, quando, certa ocasião,
soube do falecimento de seu marido Francisco. Fui fazerlhe uma visita em Rebouças, onde morava. Numa altura da
conversa, ela triste e pensativa, interrogou:
- Por que o meu destino é padecer sempre, pela vida
afora? É uma sucessão de fatos que me atingem com muito
sofrimento. Culpo-me pela morte de minha mãe, que morreu ao me dar a luz. Recém-nascida, fui entregue aos cuidados da tia Feliksia que cuidou de mim como uma mãe.
Amamentou-me no seio, junto com a filha Emília, da mesma idade. Permaneci com ela por alguns meses, ela tinha
muitos filhos para criar. Dizia-se que à noite, o espírito de
minha mãe vinha embalar-me no berço, quando eu chorava.
- Meu pai, tinha se casado de emergência com intuito de arrumar uma mulher que cuidasse dos seus filhos órfãos. Contraiu núpcias com Jozepha, uma mulher jovem,
com plenas condições de tratar das crianças. Certo dia, tia
Feliksia, junto com o marido Ladislau Paduch, indignada
com a falta de iniciativa de Pedro em assumir-me, visto já
ter alguém para ocupar-se dos órfãos, dirigiu-se à casa dele
em Caratuva, levou-me junto e me devolveu a ele.
- Morei com eles por pouco tempo, pois, meu pai,
cedendo às reclamações de Jozefa, entregou-me ao tio Bogdan, irmão da nossa mãe. Era padeiro e passava as noites no
trabalho.
A tia Eugenia Boguszewski fazia o possível para
cuidar de mim. Eles tinham quatro meninos, muito irrequietos, que não me deixavam em paz, batiam e me humilhavam constantemente. Residi com eles durante quatro
anos. Foi um tempo de muito sofrimento.
190
- Aos cinco anos fui morar com o avô materno Teóphilo. Ele tinha três filhas moças, que podiam cuidar de
mim. Mas não cuidaram e não perdiam ocasião de me espancar. Vivi com eles até os doze anos de idade, época em
que freqüentei a escola local, durante dois anos. Apesar de
eu ser ainda adolescente, as tias mandavam eu executar
trabalhos acima das minha forças. Ai! se não fizesse...
- Em 1941, casou nossa irmã Antônia, com Kazemiro Szczepanoski. Fui morar com eles. Ajudava o casal no
trabalho doméstico e na lavoura. Nesse tempo conheci
Francisco Nowicki amigo de Kazemiro, meu cunhado. Era
um homem de 32 anos, apresentável, bem falante, comprador de cereais, que dizia ser de boas posses. Encantou-se
comigo e propôs-me casamento. Eu tinha apenas 16 anos de
idade, não o amava, mas resolvi aceitar para fugir do jugo
de Antônia e ser dona do meu próprio destino. Monika providenciou o enxoval, Antônia e Kazemiro ofereceram a
festa de casamento, que se realizou em maio de 1944.
Klementina, pesarosa, continuava a sua história:
- Mas foi vã a esperança de liberdade. O meu marido era um homem ciumento, autoritário e repressor. Eu
estava novamente numa prisão. Ele não me deixava sair de
casa, não me dava dinheiro de medo que eu fugisse. Moramos durante algum tempo em Monjolo, perto da casa de
Antônia. Mudamo-nos depois para Rebouças, Francisco
montou ali um moinho para moer fubá e quirera de milho,
do qual eu e o meu filho tomávamos conta. Chico era indolente por natureza, sem iniciativa, não progrediu na vida.
- Tivemos quatro filhos, que são meu consolo. Vivi
com ele uma vida pobre, enfadonha, sem conforto, durante
55 anos. Ele morreu aos 85 anos, em 5 de abril de 1999. No
fim da vida ficou cego, doente, mais ranzinza ainda. Fiquei
viúva aos 71 anos, velha e sem forças para enfrentar a vida.
Amparada pela religião, conformo-me com a minha sina.
191
Klementina desfiou, naquele dia, a sua atormentada
trajetória pela vida. Chorou lágrimas amargas apoiada no
meu ombro. Confortei-a, dizendo, para que tivesse fé em
Deus, porque é Ele quem dirige o nosso destino.
Elisabeth, minha irmã, ficou órfã de mãe aos 2 anos.
Durante os três meses que ficou aos cuidados da tia Ksavera, ficava sentada o dia todo dentro de um caixote de madeira, entrevou e não conseguia caminhar.Foi necessária
muita dedicação da tia Maria, para fortalecer suas perninhas
e ensiná-la a andar sozinha. Foi entregue à avó Leonora,
com três anos de idade e ainda estava aprendendo a andar.
A avó preocupou-se em mandá-la à escola e ensinou-lhe os
trabalhos domésticos. Morou com eles até os 15 anos.
Nessa época casou o tio Mieceslau com a jovem
Natalia Nedopytalski. Ele era o filho caçula da avó Leonora. Levaram Elisabeth para ajudar nos serviços caseiros.
Mais tarde ela foi morar com tio Ladislau (Vadeco),
também filho de Leonora, casado com Emília Mazurek.
Residiam na Colônia Chupador (Alvorada). Ele era lavrador, plantava milho, feijão, trigo e batata. Para o trabalho na
lavoura, Vadeco utilizava mão-de-obra cabocla, remunerada. Era uma família grande, o casal tinha muitos filhos que
dependiam de cuidados, e o trabalho caseiro exigia mais
pessoas como auxiliares.
O pitoresco na vida caseira deles era, que o tio Vadeco tinha 20 cães de caça, que deviam ser alimentados e
cuidados pela tia Emilia. Ela cozinhava tachos de 100 litros,
cheios de quirera de milho, batata doce, feijão, pedaços de
couro e ossos de porco, para alimentar os cachorros.
Quando o tio ia à caça do veado, os cães ao ouvirem
o som da buzina, saiam em disparada atrás dele e faziam
um alarido infernal. Às tardes era visto voltando a cavalo
com seus cães de caça correndo atrás dele, a espingarda de
dois canos atravessada nas costas, um veado ou outro ani192
mal abatido, dependurado na anca do cavalo ou fieiras de
codornas. Soltava a matilha no final da caçada.
Elizabeth casou-se em 1943, aos 17 anos, com Miguel, filho de Elias Demitrow e Alexandra, naturais de
Chawerlunga região de Bessarábia, Moldávia (hoje Moldova), na época pertencente à Turquia. Falavam o idioma turco. Professavam a religião católica ortodoxa, trazida do seu
país de origem.
Um fato curioso marcou a festa de casamento de Elizabeth, que veio comprovar a natureza belicosa dos Mazovianos (Mazóvia, região da Polônia). Povo de caráter
explosivo, genioso, não levava desaforo para casa. A família Gryczynski procedente dessa região não fugia à regra.
O pátio da casa de Elias Demitrow, pai do noivo, estava coberto com lona sobre estacas, e as mesas arranjadas
de tábuas sobre cavaletes. Assavam o churrasco de boi,
abatido na véspera. Os convivas saboreavam a carne, bebericando cerveja e pinga de alambique.
Entre eles estavam os irmãos, João, Tomás, Tadeu,
Ladislau e Mieceslau e o pai da noiva Pedro. De repente, os
seis irmãos se desentenderam acerca de uma piada, assunto
banal, e começaram a brigar, agredindo-se fisicamente.
Os espetos de churrasco voavam, servindo de arma
nas mãos dos brigões. Irmãos e primos envolvidos, sujos e
desgrenhados, trocavam socos e pontapés, mulheres esgoelavam, com os vestidos rasgados e lenços pelo chão. Garrafas quebradas e o churrasco misturado com terra. Foi um
verdadeiro circo, que só terminou com a intervenção da
turma do “deixa disso”.
O casal, Elizabeth e Miguel, tiveram cinco filhos.
Até a época atual a família mora em Paranaguá. Miguel
faleceu em 1984 aos 62 anos. Foi sepultado na cidade do
seu domicílio.
193
Augusto, meu irmão, ficou órfão de mãe aos 4 anos.
Como era filho homem, ficou morando com o pai, Pedro,
até os 12 anos, quando, descontente por não poder estudar,
com o trabalho difícil na roça e má convivência com a madrasta, fugiu, para viver na casa do tio João, onde já estavam Monika e Antônia, suas irmãs.
Freqüentava a escola de manhã, e a tarde trabalhava
com tio João no depósito de cereais. Durante os cinco anos
que permaneceu no emprego, aprendeu e desenvolveu o seu
tino comercial. Mais tarde aproveitou essa experiência no
seu próprio negócio, ramo ao qual se dedicou com sucesso
no decorrer da vida. Foi dono de supermercado e caminhões de transporte de carga.
Aos vinte anos conheceu Verônica, irmã do seu cunhado Alberto. Apaixonaram-se e logo casaram. Viveram e
foram felizes durante cinco anos, quando um inesperado
fato veio mudar o rumo das suas vidas. Eles possuíam um
armazém no lugar chamado Gato Preto. Verônica, de temperamento alegre, vivaz, atendia à clientela do balcão.
Um homem singular era freqüentador assíduo desse
estabelecimento. Jovem, de porte atlético, obsequiador e
prestativo. Mulato boa-pinta, tipo conquistador, Olintho
Fernandes tocava violão e cantava músicas românticas. Verônica, assediada com insistência pelo rapaz, apaixonou-se
e foi embora com o violeiro, numa tarde do dia 16 de outubro de 1948, em que o marido viajou a serviço.
Augusto sofreu muito, pois amava a esposa. Desiludido com as mulheres, ficou por longo tempo sozinho.
Casou mais tarde com Carolina Basilio, solteira, pessoa
modesta, trabalhadeira; foi boa esposa para ele. Viveu em
sua companhia por 45 anos. Tiveram uma filha, Terezinha.
Moravam em Medianeira, no sudoeste do Paraná. Augusto
faleceu dia 12 de junho de 1997 aos 73 anos, de ataque
cardíaco. Foi sepultado no cemitério em Medianeira.
194
Antônia, minha irmã, era a mais velha dos cinco filhos, tinha 7 anos quando a nossa mãe morreu. Depois do
casamento do pai com Jozefa, ficou com eles, pois servia
para ajudar no trabalho caseiro. Viveu na companhia deles
até os 15 anos. Em 1936, não agüentando a vida de desconforto na roça e a incompatibilidade com a madrasta, foi
embora para a casa do tio João. Ficou morando e trabalhando com eles. Casou-se aos 20 anos com Kazemiro Szczepanowski, de 30 anos, enteado do avô Teóphilo Wasilewski..
Viveram juntos durante 42 anos. Tiveram quatro filhos.
Moravam em Monjolo, sul do Paraná, onde Kazemiro
construíra um moinho para moer farinha de trigo e fubá,
atendendo à colônia local. Viviam com razoável conforto.
Um fato doloroso veio afetar a saúde mental de Antônia, distúrbio que persistiu até o final de sua vida. Ela
estava deitada, de resguardo, após o nascimento do seu segundo filho Antônio. O primogênito João, de 2 anos, brincava na cozinha, com o cachorro Tigre. A porta que dava
para o pátio estava aberta. Era tempo de inverno. Chovia...
Num momento, entrou correndo um cão raivoso e
atacou o animal que brincava com o menino. Joãozinho foi
defender o seu cachorro e acabou sendo mordido na cabeça
pelo cão hidrófobo. Antônia, alarmada, levantou da cama,
enxotou o cachorro louco com vassoura, pegou João no
colo, e sob a chuva forte, correu para a casa da irmã Klementina a chamar por socorro.
Atravessou o rio por dentro d‟água. Chegou em casa da irmã, descontrolada, não soube explicar o ocorrido. O
choque emocional, violento, tinha lhe afetado o raciocínio.
Apesar do tratamento médico, só se recuperou parcialmente. Faleceu em 20 de junho de 1987, aos 66 anos de idade.
Seu marido Kazemiro faleceu aos 76 anos. Foram sepultados em Guamirim, PR.
195
JOÃO GRYCZYNSKI.
João Gryczynski casou-se com Maria Wasilewska,
no dia 11 de setembro de 1920, na igreja de São Miguel, em
Irati. Terminada a festa do casamento, João levou a jovem
esposa para sua nova morada. Situava-se na colônia Alto
da Serra dos Nogueiras, próxima à casa do seu pai Ladislau.
Era uma residência pequena, de madeira, com uma
cozinha, quarto de casal e sala. Na frente, num salão com
três portas para a rua, funcionava a bodega (um pequeno
armazém de secos e molhados). Era o começo para um
grande empreendimento.
A habitação serviu de moradia para a família, por
alguns poucos anos, sendo depois ampliada, anexando-se
uma construção com cozinha grande e alpendre que se unia
à residência existente. Do canto da sala partia a escada que
levava ao sótão; este abrigava um cômodo grande, onde
estavam dispostas diversas camas, dormitório das crianças
e da empregada. Uma porta interna dava passagem da sala,
que também servia como escritório, para o armazém.
Foi construída perto de um curso d‟água, que mais
tarde represado, formou um belo lago. O lugar onde se situava a residência era plano e aprazível. A sombra de uma
velha árvore, atrás da cozinha, havia um olho d‟água, onde
foi cavado um poço raso, circundado com paredes de tijolo;
poço esse que, passados oitenta e quatro anos, ainda fornece água fresca e pura aos habitantes do lugar.
A estrada que vinha da cidade de Irati, distante quatro quilômetros, passava ao lado da bodega. Levava ao interior das colônias Alto da Serra dos Nogueiras, Caratuva,
Pinho, São Miguel, Apiába, Papanduvas e Prudentópolis.
Era a passagem obrigatória dos carroções de oito cavalos,
que transportavam erva-mate, madeira serrada e cereais
produzidos nas colônias. A bodega atendia os colonos com
196
a mercadoria que eles necessitavam e aos carroceiros que
faziam o transporte. O armazém vendia de tudo. O tio João
prosperava, mas a custa de muito trabalho e dedicação.
Foi necessário construir um depósito grande, para
acomodar a mercadoria à venda e a que era comprada dos
colonos. Instalou-se no pavimento superior do galpão, uma
máquina picadeira movida por tração animal (kierat). Tinha
duas grandes lâminas afiadas, para cortar palha de centeio
seca, reduzindo-a em pequenos fragmentos.
A palha picada descia até o chão, por um leito de tábuas em declive, de 5 metros de altura. O estreito corredor
por onde descia a palha era um convite para diversão das
crianças. Serviu para nós como escorregador,era muito disputado por todos, que adoravam deslizar pelo tobogã e cair
no meio da palha picada.
Era o máximo do divertimento para nós, mas não
para Antônio Titenis, que era o encarregado de picar, ensacar e vender a palha aos carroceiros. Vendo a palha esparramada pelo paiol, ele ameaçava colocar pregos no nosso
escorregador. Seria um desastre para nossas nádegas.
A palha de centeio servia como mistura ao milho, na
ração dos cavalos, um alimento essencial aos animais.
A casa de tio João e Maria estava ficando pequena
para acomodar tanta gente, entre crianças, empregados,
irmãos e outros parentes que eventualmente se hospedavam
por meses, na residência. Tio João resolveu construir uma
casa maior, anexa à antiga. Arquitetou o projeto junto com
o cunhado João Sloma, que era carpinteiro e marceneiro,
seria mestre de obras, também construtor.
Foi dado o início em 1932, demorou quatro anos até
a conclusão da obra, em 1936. O casarão central, vasto e
custoso edifício, voltado para o norte, apresentava uma bela
perspectiva, contemplada de longe, com as águas da represa
197
refletindo a sua imagem. O estilo da construção mostrava a
beleza da arquitetura polonesa.
A casa foi construída toda em madeira trabalhada,
de pinho, sobre o alicerce de pedras de um grande porão.
Este pavimento foi dividido em duas partes, o maior seria
utilizado como depósito do armazém; no outro, seria instalado o cômodo de banhos, com a banheira e o chuveiro,
anexo o sanitário. Outro compartimento continha a despensa e a adega. Descia-se até lá por uma escada que saia do
pequeno hall junto à cozinha da nova casa.
Destacam-se na fachada principal, a escada de acesso, a varanda com gradil de balaustres recortadas artisticamente em madeira, uma guarnição de lambrequins ao longo do telhado, quatro janelões de vidro e a porta principal
de madeira entalhada, que dá acesso à sala de visitas.
Na fachada lateral, mais quatro janelões e a porta de
entrada para o interior da casa. Do jardim sobem dois lances de escada, com laterais em balaustres recortados; um
distribui-se pela varanda e outro adentra pelo corredor da
habitação. A passagem leva ao dormitório do casal e para
três quartos. Um prolongamento do corredor, à esquerda,
comunica-se com o refeitório, a cozinha e dependências da
nova casa. Também é passagem para o pátio interno.
Um pequeno hall, junto à cozinha, abriga uma escada de madeira que sobe até o novo sótão, que. se divide em
diversos dormitórios, onde se alojavam as domésticas, as
professoras Joana Boese e Antonieta Bitencourt, que lecionavam na escola local, as meninas Úrsula, Laurita, minha
irmã Antônia e eu, Monika.
Na lateral desse pavimento superior, com vista para o nascente, projeta-se a sacada com cerca de balaustres
recortados; ficava suspensa acima do belo jardim com roseiras em flor. Era o lugar ideal para as moças ouvirem serenatas dos namorados.
198
No outro lado do sótão, na parte antiga da casa, separados por uma parede, havia mais dois espaçosos quartos
de dormir, onde se acomodavam os rapazes, filhos do tio
João e o Augusto, meu irmão. O acesso era pela escada que
partia da antiga sala de visitas.
Internamente as paredes e o teto da nova casa são
revestidos com forro paulista, de pinho. Pintados a tinta
óleo; utilizou-se a combinação de diversas cores. As paredes decoradas, realizadas com pintura de rolo sobre chapa
de papel recortado com motivos florais, em faixas perpendiculares. O mesmo estilo é aplicado em todos os cômodos
da casa. No entanto, destaca-se sobre os demais o desenho
floreado do teto, com acabamento em semicírculo.
Foi o artista e pintor de paredes, Ewaldo Ducat, de
Irati, quem realizou com maestria o trabalho de pintura.
O piso da casa era de tábuas de imbuía, largas, de
palmo, conforme o uso da época. Uma mesinha de centro
ocupava o espaço na sala de visitas entre as poltronas de
veludo carmesim. Nas janelas foram colocadas cortinas de
voile branco, transparente, ornadas de graciosos babados.
A sala de jantar compunha-se de uma mesa grande,
doze cadeiras e o armário de louças. Uma “Santa Ceia”
ocupava a parede lateral em frente da mesa.
Cada vez mais, com a expansão dos negócios do tio
João, foi necessário ampliar o espaço. Construiu-se um conjunto arquitetônico, horizontal, esparramado, que se compunha da residência sede e do armazém, dos dois depósitos
grandes para cereais, paióis, açougue, chiqueiros, mangueiras para engorde de porcos, cavalariça, galinheiros, barracão para ordenha das vacas.
Tudo organizado, dividido com cercas de ripas ou
frexames lascados de pinho, superpostos um em cima do
outro entre dois palanques, fixados com arame liso, galvanizado.
199
Ao longe, derramados pelo vale, viam-se os empreendimentos do avô Ladislau, os campos com gado pastando, o monjolo e o moinho, tocados pela queda d‟água do
ribeiro, que abaixo serpenteava rumorejando entre as margens verdejantes.
Doutro lado da estrada, onde se erguia o depósito, a
colina declinando com suave depressão ia morrer na ponte,
à margem da represa. Deste lado, encontrava-se o belo jardim que margeava as águas do açude.
O rio que abastecia o tanque corria pelo leito de pedras, atravessando os potreiros onde pastavam tranqüilamente as vacas e cavalos. Nascia num banhado ao sul da
propriedade. Represado em seu curso por diversos tanques,
criadouros de peixes. Esses tanques eram esvaziados uma
vez por ano para apanhar os peixes com o peso ideal para
consumo. Eram vendidos na cidade.
As represas formavam volumosas quedas d‟água
nos locais de escoadouro, oferecendo deliciosos sítios de
entretenimento e banhos às crianças, que tinham passado o
dia em brincadeiras, na ânsia louca, de correr pelos pastos,
subir em árvores, deliciar-se com as frutas suculentas de
guabiroba, tarumã, ariticum, cereja, jarivá, esporão de galo,
e outras frutas silvestres. Apanhar ninhos de passarinho,
espantar os quero-queros, sem se preocupar com nada, levando a vida de quem tem todo o tempo pela frente.
Todos nós temos em nossa alma um cantinho, que,
apesar dos anos, da experiência e do trabalho, fica criança,
e voltamos à primeira infância. Nesse cantinho dormem as
ilusões ingênuas e as esperanças, os sonhos infindos, a fé
robusta, e sobretudo certos laivos de loucura que tonificam
a razão. É ai, justamente nesse santuário da infância, que a
alma humana costuma se refugiar nos momentos de crise.
***
200
Aos oito anos fui estudar na escola “Henryk Sienkewicz”, no Alto da Serra dos Nogueiras, que ficava distante uns quinhentos metros da casa do tio João. Aprendia a
ler em brasileiro no período da manhã, e à tarde em polonês. No início lecionou a professora Maria Dluszynska,
depois D. Amélia, e diversas outras professoras deram aulas
para nós, por fim foi Eugenia Kolconowna. Estudei ali durante quatro anos.
Tornou-se nosso hábito de todos os dias, depois do
jantar, sentarmo-nos para ler. O tio João, a Olga, Miguel e
eu sentávamos em volta da mesa da cozinha, para ler os
livros que o tio trazia da biblioteca de Escola Polonesa
“Wolnosc”de Irati. Eram romances, contos, livros de história, revistas, as mais variadas leituras que eram o nosso
entretenimento.
Eu adorava ler, os livros davam-me a sensação de
viajar, sonhar, conhecer o mundo. Quem ficava aborrecido
com o nosso alheamento, fixados na leitura, era a tia Maria,
pois não tinha com quem conversar.
A casa dos tios João e Maria era cheia de gente. Além dos filhos do casal, que na época eram cinco, Olga,
Miguel Luciano, Úrsula, Mariano e Laurita, depois nasceram João Paulo e Casemiro, eles acolheram e ampararam eu
Monika, Antônia e Augusto, meus irmãos. Também as
crianças Anastácia de 12 anos e Maria de 8 anos,. irmãs,
órfãs de mãe, Ana Lyszymanski, que faleceu na França.
Anastácia e Maria chegaram na casa comercial do
tio João, em 1939 num dia chuvoso, com o pai Francisco
Greskow, imigrante, natural de Niedwiedowce na Polônia,
região que pertencera até 1918 à Ucrânia. Vinham da Colônia Gonçalves Junior, de ucranianos, onde Greskow residiu desde 20 de julho de 1936, data em que chegou ao Brasil, na companhia da sua segunda esposa Vitória, uma filha
dela e as duas irmãs, Anastácia e Maria, suas filhas.
201
Fato adverso fez ele partir da Colônia Gonçalves
Junior, deixando a esposa Vitória e as filhas dela, levando
consigo apenas as duas filhas órfãs. Passou em Irati, onde
chegou na panificadora dos Wasilewski para comprar pão
para as meninas. Perguntou à proprietária dona Madalena,
que o atendeu, onde poderia encontrar trabalho e acomodação. Não queria separar-se das filhas. A senhora encaminhou-o para a casa da tia Maria, na Serra dos Nogueiras.
- Lá você consegue trabalho e as meninas terão bastante leite, pão e espaço para crescerem - disse ela.
Greskow seguiu o caminho indicado, chegando à
tarde no armazém do tio João. Mais uma vez falou forte a
compaixão e bondade do coração da tia Maria, que ao ver
as crianças, propôs:
- Com a sua aquiescência, eu fico com as meninas e
arrumo trabalho para o senhor, assim ficarão juntos.
Levou as meninas para casa, alimentou-as, cortou as
longas tranças, escovou o cabelo, deu um bom banho de
água morna e sabão e vestiu-as com roupas das suas filhas.
Elas vieram vestidas com trajes típicos ucranianos, de saias
compridas e blusas bordadas. Somaram-se às pessoas que
habitavam nesta casa acolhedora.
As meninas Anastácia (Nascia) e Maria freqüentaram as aulas na escola local, onde na época, lecionou a professora Leoni. Anastácia completou o curso primário. Pouco tempo depois Maria foi embora com o pai Greskow para
Curitiba, onde ele arrumou um trabalho como jardineiro.
Residiam também na casa do tio João os avós Nicolau e Anastácia, pais da tia Maria, a irmã Joana e o marido
João Sloma. Diversos empregados trabalhavam no depósito de cereais e na roça, plantando milho, feijão, batata e
trigo. Dormiam no paiol e comiam na mesa comprida do
refeitório, junto com a família. Não havia discriminação.
Sempre havia comida na mesa para quem chegasse com
202
fome, roupa seca para quem se molhou na chuva e agasalho para quem estivesse com frio.
Tia Maria praticava a caridade despretensiosa, era o
seu coração generoso que conduzia seus atos. Trabalharam
com tio João, por muito tempo, os empregados Marciano,
Antônio Titenis, José Coelho, Francisco Greskow, Estanislau Velhão, Pedro Junak, João Kowalski, Venceslau Kubicki (Vacek). As domésticas Estefânia e Wanda Paduch, Anna Czorny e Paula, que serviram por muitos anos a família
da tia Maria.
Aparecia, às vezes, na bodega do tio um mendigo
errante chamado Damásio, para pedir comida e um gole de
pinga. O tio dava a pinga e a comida, mas depois mandava
o Velhão levar Damásio para debaixo da ponte, onde despencava água em cascata, e lhe dar um bom banho com
sabão de cinza. Dava-lhe roupas limpas. Cortava-lhe o cabelo e fazia a barba. Depois cantarolando, assobiando suas
melodias, mandava soltar o homem. Esse gesto de bondade
denota a grandeza do coração do tio João.
Desde o ano de 1933, e durante os próximos cinco
anos, tio João ficou doente, com forte depressão, devido à
azáfama cotidiana e sobrecarga de trabalho. Apresentou-se
um quadro grave de uremia, que é a retenção no sangue de
proteínas, que o paciente não consegue eliminar por via
urinária. Tratou-se com Dr. Juvencio Soares, médico conceituado em Irati, e também com especialistas em Curitiba. Fazia dietas rigorosas, desprezando o sal e as proteínas.
Foi durante esse tempo que ele isolou-se de todos.
Ia de madrugada para a pedreira, onde durante o dia todo
quebrava pedras em paralelepípedos, para fazer o alicerce
da casa em construção, as calçadas de frente e o revestimento do pátio interno.
Assim, longe do tumulto diário e das pessoas, ele
trabalhou por muitos meses. Cercou de ripas de madeira e
203
preparou dois alqueires de terra, próximos ao depósito de
cereais. Plantou ali um pomar com numerosas árvores frutíferas, laranjeiras, pereiras, macieiras, ameixeiras, limoeiros
e parreirais extensos. Trabalhou sozinho, plantando, podando, capinando, até que a depressão e a uremia foram cedendo, aos poucos.
Durante a doença do tio João, não foram abandonadas as suas plantações de milho, feijão e trigo. Disto dependiam os animais domésticos da propriedade. O plantio
passou a ser feito em sistema de mutirão. Nos dias apropriados, dezenas de colonos da redondeza reuniam-se na lavoura para limpar o terreno, plantar e na época certa colher as
lavouras. Com esse belo gesto, os colonos demonstravam a
grande amizade e solidariedade que os unia.
Pelo espaço de mais de 30 anos a vida fluiu, mesclando a alegria e os reveses que povoaram essa morada.
O amor que unia o casal era a mola mestra que impulsionava a vida ao redor.
Quando a tia Maria ficava triste, nervosa ou contrariada, ela se retirava em segredo para longe, para os pastos,
deitava na sombra de uma árvore e chorava. Curtia sua dor
em silêncio, longe de todos. Ficava muitas horas ali, até se
acalmar. Voltava para casa tranqüila. Eram tão unidos que
ela nem precisava lhe falar ou explicar, bastava um olhar,
um sorriso. Ele a compreendia, retribuía o olhar, sorria e
saia assobiando as melodias costumeiras.
De manhã cedinho tio João levantava para fazer o
chimarrão. Levava para o quarto onde a tia dormia e oferecia-lhe a cuia, não sem antes dar-lhe um beijo de bom dia.
Depois, tomavam o café da manhã juntos, ela sentada perto
da mesa, ele servindo-lhe o café, o pão e a omelete de ovos
e lingüiça, que ele tinha preparado. Tio João não sentava
perto da mesa para se alimentar, ele comia rápido, de pé.
204
Ao lado do fogão, na cozinha, havia um espaço onde
ficava a cadeira de balanço. Tia Maria sentava ali, pegava o
caçula ou outro filho, no colo, e ficava embalando até a
criança adormecer. Desta cadeira ela dava as ordens para o
dia de trabalho dos empregados da casa.
Quando estava grávida da filha Úrsula, sonhou com
uma árvore que pedia para ser plantada no seu jardim.
Comprou uma muda de carvalho europeu (Fagacea Quercus robur), e plantou-a no jardim, defronte à sala. O carvalho cresceu rápido, virou uma árvore grande, com os galhos
espiando pelas janelas da casa, espalhando a sombra ao
redor. Passarinhos faziam seus ninhos por entre a folhagem; as vespas zunindo com som voluptuoso voltejavam
em redor das frutas maduras. Diariamente quando se abriam
as janelas, a casa toda enchia se de perfume das rosas e
camélias que floresciam no jardim.
Nesse tempo o Casarão adquiriu algum temperamento, como se fosse um ser vivo, uma entidade, a parte de
todos nós. Ou, talvez quem sabe, a alma dos antepassados,
se houvesse fundido em uma única energia, que se enredara
entre a madeira dos pisos, no forro das paredes e sob os
degraus das escadas e fazia as vezes da alma desse recinto.
Em 1947, tio João mandou construir um sobrado na
cidade de Irati. O construtor Rodolfo Slumberguer concluiu a obra em 1949. Em junho daquele ano, tio João mudouse para o sobrado, ocupando o pavimento superior como
residência da família e o térreo como escritório e depósito.
Continuou com o comércio de cereais, associando-se à “Sociedade Cerealista Brasileira Ltda”.
Ficaram morando na propriedade antiga, a filha recém-casada, Úrsula com o marido Caetano. Prosseguiram
com o armazém e comércio de cereais. O negócio não deu
certo e logo foram embora.
O Casarão ficou abandonado.
205
Depois que o tio João e Maria, que eram os gênios
benfazejos e o sol deste lugar, mudaram-se para a cidade, a
casa grande, vazia, ficou estranha, parecia contrafeita, triste. Começou a envelhecer. As paredes do interior da casa
pintadas a óleo, já de longa data tinham em si todos os sinais do tempo. Aqui o bolor, ali uma greta, acolá o rasgão
produzido por um móvel; cada acidente do tempo ou de uso
dava aquelas paredes um aspecto desolador.
O Casarão abandonado parecia sofrer, estava ainda
mais velho do que era, a tinta das paredes de madeira e das
colunas da varanda ia caindo. Algumas ervas daninhas brotavam junto à paredes, cobrindo com folhas descoloridas o
chão desigual e úmido do pátio. Com o passar do tempo, foi
atacado e devorado pelos cupins e pelas goteiras de chuva.
Está desabando. A poeira e os ratos tomaram conta do espaço, passeiam tranqüilamente pelo Casarão vazio.
As construções, paióis e depósitos antigos, sem
conservação, também foram afetados pela velhice. Os telhados cobriram-se de musgos e líquens. As ripas das cercas, apodrecidas, despregaram-se e caíram. Enferrujaram as
dobradiças do portão do pátio que se arrasta pelo chão.
Secou o grande pomar de laranjeiras, outrora tão
abundante em frutas, perfumando o ar na época da eflorescência. As abelhas saíram em enxames, abandonando as
colmeias. O jardim que cuidei com tanto carinho, foi abandonado e morreu sufocado pelo mato. Já não existe a casinha da tia Estephania, que foi construída no meio do pomar.
O rio represado que formava o açude próximo da
casa, povoado de peixes, que todo ano era esgotado na quaresma, foi assoreado pela terra trazida das lavouras pela
chuva. O rio não mais existe, corre apenas um fio d‟água
num leito estreito de margens arenosas, formando fundas
poças de água barrenta. Assim também, os outros tanques
de criação de peixes, foram secando, desaparecendo.
206
Tudo foi se acabando. Abandonadas há décadas, as
construções agonizam. Como muitos outros testemunhos de
nosso passado, como a glicínia centenária, que enfeitava
com seus cachos azuis, a varanda da casa do avô Ladislau,
já sucumbiram, ou estão ameaçados de desaparecimento. A
vida que fervilhava em torno da propriedade, movida pelo
trabalho, pela bondade, energia e força de caráter do tio
João, foi embora com ele.
O tio João e tia Maria viveram no sobrado, em Irati
desde 1949, isto é, por quase 50 anos, benquistos por todos. Também aqui não deixaram de distribuir generosidade,
amizade e respeito às pessoas. Ela filosofando, repetia sempre: “Eu fui feliz e não sabia”. Também opinava sobre as
pessoas.” Nunca acredite que alguém seja tão bom quanto
quer parecer, nem tão ruim quanto os outros dizem”.
Passados muitos anos a tia Maria, já bastante idosa,
pediu ao filho Casemiro para que cortasse o carvalho que
ela plantou no jardim do Casarão da Serra, e mandasse fazer um caixão mortuário, ela. queria ser enterrada no ataúde
feito daquela árvore. Faleceu em 7 de agosto de 1998, com
94 anos. Foi feita a sua vontade. Tio João faleceu em 21 de
maio de 1986, com a idade de 90 anos. Foram sepultados
no Cemitério Municipal de Irati.
Acertada a questão do inventário, a filha Olga, herdeira, tratou de acudir o que restava da antiga propriedade.
Desmanchou uma parte, reformou e pintou o resto da casa.
A gente simples do lugar, supersticiosa, via fantasmas andando pelo Casarão. Ouvia vozes e gemidos. Às
tardes vinham fazer orações, cultos, acender velas para apaziguar as almas que assombravam o lugar.
Eu sinto-me vinculada sentimentalmente ao Casarão
da Serra, onde as tábuas do piso e das paredes e os espaços
estão impregnados de todos nós, das nossas vidas, das emoções de infância e juventude. Muitas vezes em sonhos, mi207
nha alma vagueia pelos corredores, vai ao sótão, caminha
por entre os escombros do Casarão, das construções que
havia, anda pelos pátios e pastos verdes que já não existem.
No sótão, ouço os lamentos dos fantasmas do passado. Parece-me que o vulto da tia Maria espia-me de um
canto da sala detrás da cortina rasgada. Deslizam sombras
pelos corredores empoeirados. O vento que assobia por
entre as frestas do telhado decomposto, tece melodias assombrosas. Eu as ouço e choro o tempo que passou.
Pois há sempre fantasmas povoando nossas vidas.
Na sua maioria, trata-se de velhos sonhos acalentados por
nós, que duraram muito e não se realizaram, esperanças que
não são esquecidas e ainda que soframos, as levamos conosco. Viagens e aventuras que gostaríamos ter vivido.
A velha casa onde passei, outrora
Os dias mais ditosos da existência,
Jaz, solitária e tristemente, agora
Num estado geral de decadência.
Debaixo desse teto em pura ardência,
Passei da vida a sorridente aurora;
Sob ele, após, chegou-me a adolescência
E os sonhos doces que minh´alma chora...
Mais tarde a desprezei num louco anseio,
Hoje – repleto o coração de assombros –
Quando a revejo, de pesares cheios,
Pondo em seu vulto os olhos meus tristonhos,
Cuido de vê-la ruir, nos seus escombros,
Sepultando os destroços dos meus sonhos!
De autor desconhecido .
208
Terminado o curso primário na escola local, no ano
de 1934 fui matriculada no 3° ano do Grupo Escolar Duque
de Caxias em Irati. Todos os dias, acordávamos de madrugada, caminhávamos a pé, percorrendo quatro quilômetros
até a escola, fizesse sol ou chuva, frio ou geada, íamos
estudar. Voltávamos à tarde. Era uma turma de oito crianças da colônia. Assim foi durante um ano.
Os filhos do tio João, os menores Miguel, Mariano,
Úrsula e Laurita, também estudavam em Irati; portanto ele
resolveu mandar construir uma pequena casa de madeira na
cidade, para nos alojar. Em fevereiro de 1935 convidou a
tia Estephania, irmã de seu pai, que habitava no pomar de
laranjeiras, para morar conosco.
Eu estava com doze anos na época. Passei a ajudar
a tia no trabalho caseiro, lavava e passava a roupa, cuidava
da cozinha e da louça e arrumava a casa. Aprendi com ela a
cozinhar muitos pratos da cozinha argentina, que preparo
até hoje. Nas tardes de folga, a tia Estephania, enquanto
enrolava os cigarros de fumo de corda, em palha de milho,
atendendo a encomenda, contava para nós a história dos
nossos antepassados na Polônia, sobre o transcorrer da sua
vida e das pessoas com as quais conviveu.
Descreveu com detalhes o motivo e a viagem para
o Brasil de toda sua família e as dificuldades encontradas
na nova terra. Somou, à dor da separação do seu amado
Mathaei, a morte dele, as frustrações dos seus casamentos,
o exílio voluntário na Argentina e o trabalho árduo na cidade portenha, e concluiu que a vida não lhe fora feliz
Eu estudava no período da manhã no Grupo Escolar
de Irati, onde fiz o 3° e 4° ano. Recebi o Diploma do Curso
Primário em 29 de novembro de 1936, assinado pela Diretora D. Mercedes Braga. Cursei também o 1°, 2° e 3° ano
da Escola Complementar; lecionava nesses cursos a professora D. Heredia Lady Medeiros. À tarde ia á Escola Polo209
nesa “Wolnosc”, onde estudei por quatro anos, com o professor Jerzy Gonet.
Os três filhos do tio João, Olga, Miguel e Úrsula foram estudar em Curitiba, portanto, a casa em Irati não teria
mais utilidade. Foi fechada em 1940, depois da partida da
tia Estephania para Curitiba, onde foi morar com seu filho.
Ela faleceu em 1949, aos 80 anos de idade.
No último ano em Irati, fui aprender o corte e costura, aprendizado que me valeu durante a minha vida.
Moramos nesta casa durante cinco anos, até 1° de
dezembro de 1939. Eu estava com 16 anos. Voltei a morar
no Casarão da Serra. Fiquei feliz, pois eu amava este lugar.
No correr dos dias eu ajudava nos trabalhos caseiros, costurava as roupas para as pessoas da família. A tia
Maria comprava peças inteiras de tecido para fazer vestidos
caseiros, aventais, calcinhas, calças, cuecas e camisas. Flanela para pijamas, blusas e agasalhos para o frio. Ela cortava as roupas e eu passava os dias costurando.
Num gesto democrático e interessante, a tia comprava calçados iguais para todos, do mesmo modelo para as
meninas, e outro igual para os meninos, para não haver disputa, nem exibições.
Uma das minhas obrigações, na época do verão, era
depenar os 30 gansos, que eram criados na propriedade.
Para isso eu os fechava num cômodo pequeno, pegava um
por um e arrancava as penas curtas de todo seu corpo. Estas, após selecionadas, serviam para encher os travesseiros
e os cobertores, para os dias de frio (Pierzyna).
Certa vez peguei um ganso para depenar, ele se debatia muito, dava bicadas ferindo-me, eu coloquei a sua
cabeça debaixo do braço e apertei para imobilizá-lo. Quando terminei de depenar soltei-o, mas ele não se moveu,
estava morto por asfixia. Fiquei apavorada com a reação da
minha tia, que com razão repreendeu-me com severidade e
210
levou o ganso para cozinhá-lo para o almoço. Eu não pude
engolir sequer um pedacinho da carne.
Traquinagens e às vezes até malvadeza eram praticadas pelas crianças. No fogão de tijolos, da cozinha, dormia uma gata, que estava para parir. Certo dia amanheceu
com seis gatinhos, miando. Eu era obrigada a fazer a limpeza da sujeira dos gatos. Meu estômago não agüentava o
mau cheiro e eu vomitava. Revoltei-me com a perspectiva
de precisar fazer novamente a faxina. Sugeri aos meninos
que dessem sumiço nos gatos, enquanto a tia Maria estava
ausente, na cidade.
Foi a dica que esperavam para suas travessuras. Colocaram os gatinhos dentro de um saco de estopa e os levaram para longe de casa. Fizeram um buraco na terra e os
enterraram vivos, socando, sapateando em cima. Na volta
da tia, alguém buzinou o segredo no seu ouvido.
Ela ficou furiosa, quis bater em todos, dizendo que
os gatos não tinham morrido e ainda miavam. Assustados
fomos ver; os meninos desenterraram o saco com os gatinhos, com certeza já mortos, colocaram uma pedra dentro e
jogaram no rio.
Naquela época não havia colchões de mola ou de
espuma. Às tarde e à noite as pessoas reuniam-se no paiol
de milho, uns descascavam as espigas e outros rasgavam a
palha para fazer colchão. Enchia-se um saco feito de tecido
forte, com dimensões apropriadas para a cama. Usava-se
também forro de cama feito de palha de centeio. Mais tarde
apareceu o colchão de crina de cavalo.
Certa vez, a tia Maria resolveu esvaziar de palha
todos os colchões para lavar o tecido. A palha foi despejada
no chão, para secar e ventilar, num lugar onde batia o sol.
O Mariano, menino arteiro, viu nisto uma ótima ocasião de pregar uma peça na mãe. Foi correndo buscar
uma caixa de fósforos e pôs fogo na palha. Queimou tudo.
211
Quando a mãe chegou já não havia nada, só cinzas da palha. Aquela noite todos dormiram na tábua dura. Ninguém
descobriu de quem foi a arte, só desconfiaram do Mariano.
Aproximava-se o Natal e o Ano Novo. Começaram
os preparativos para as festas. Lavar as cortinas, engomar as
toalhas, lavar as paredes e os vidros das janelas, encerrar o
assoalho. Com a chegada da semana do Natal, um dos rapazes foi buscar o pinheirinho verde no campo.
Armado em cima da mesinha da sala de visitas, todos queriam colaborar, colocando os enfeites de vidro colorido, as bolachas de mel, os Papai Noel de chocolate, os
cordões brilhantes e coloridos, o algodão imitando a neve.
Velas pequeninas acesas, tremeluziam com luzinhas amarelas. Embaixo da mesa foram colocados os presentes.
A tia Maria fazia questão de não esquecer de ninguém. Depois do jantar, todos os residentes na casa e também alguns vizinhos se reuniam em volta da árvore de Natal. Cantavam em polonês, hinos em louvor ao Senhor recém-nascido. O avô Nicolau tocava violino. Alguém tocava
violão. Era a maior alegria para todos, a comemoração se
estendia pela madrugada.
Na véspera do Natal, a tia Maria arrumava na cesta
de vime forrada com toalha branca, bordada, um pão branco, biscoitos, bolachas de mel, pernil de porco e galinha,
assados, manteiga, um vidro de raiz forte (chrzan) e ovos
cozidos e pintados com motivos florais (pisanki). Esses
alimentos eram levados à igreja para serem benzidos pelo
padre, na cerimônia especial para esta finalidade.
O dia do Natal era uma festa.
Ao café da manhã a família toda sentava ao redor da
mesa. Na cabeceira ficava o tio João e ao seu lado a tia Maria. Eram distribuídos pedacinhos de hóstia, com votos de
Feliz Natal. Em primeiro lugar eram servidos os alimentos
da cesta, benzidos pelo padre.
212
A mesa forrada com toalha branca, finamente bordada, ficava repleta de pães doces e salgados, galinha assada, recheada, pernil de porco assado, lingüiças, bolinhos de
carne, geléia e queijo de porco, leite, nata, requeijão, torta
de maçã e diversas guloseimas doces e salgadas.
Como acompanhamento para as carnes, a indispensável raiz forte ( chrzan), ovos cozidos, coloridos com extrato de casca de cebola, ou de erva-mate e desenhados com
motivos florais (pisanki).
O almoço era composto de carnes assadas, refogado
de repolho em conserva, com lingüiça e costela de porco
defumados, purê de batata cozida, macarronada com molho
de tomate e bastante queijo. Tudo regado com cerveja caseira e suco de frutas do pomar.
O Natal maravilhoso, festivo, que acontecia todo
ano na casa de tio João e Maria. As crianças aguardavam a
chegada das festas do Natal e da Páscoa com ansiedade.
Esses tempos felizes marcaram a alma de todos nós.
***
213
Olga, a primeira filha de Maria e João Gryczynski,
nasceu em Irati. Seu pai estava ausente, pois fora convocado para o exército. Veio conhecer a filha já com alguns meses de idade. Criou-se com os outros irmãos, na casa da
Serra dos Nogueiras.
Estudou na Escola local concluindo o curso primário. Depois interna, no Colégio N.S. Das Graças em Irati,
estudou por dois anos, transferindo-se em seguida para Curitiba, onde freqüentou o Colégio “Henryk Sienkewicz”,
completando o Curso Médio neste educandário.
Em 1936, estudou na Academia Superior do Comércio do Paraná. Em Curitiba, morava no pensionato para
moças “Bursa”, da Fundação mantida pelo governo polonês. Formou-se como professora de idioma polonês.
Suas professoras foram Wanda Domanska, Madame Lukasiewicz e outras, que transferiram-lhe o respeito
pelos valores morais, respeito à cultura, à natureza, à ética,
à nobreza de sentimentos e à valorização do ser humano.
Sua diretriz ordenava ” Viver assim, para que com
seu procedimento possa despertar o respeito e o valor à
mulher polonesa” (Zyj tak bys swoim postepowaniem mogla
rozbudzic szacunek dla imienia polki).O lembrete consta
das anotações da Olga, datado em 11 de março de 1936.
Casou-se com José Cantidio Zeni. Tiveram três filhos. Residiram sempre em Irati. Ela é comerciante inata,
administrou com competência a sua loja de modas “Casa
Santa Maria”, durante muitos anos. Possui grande cultura
intelectual, distinguiu-se como poetisa notável desta época,
sendo premiada com Diploma e Medalha de Ouro pela
Academia Internacional de Lutéce, Paris, França, em 1989.
Escreveu belos livros de poesia, usando a metáfora
e o simbolismo como formas de expressão, praticando uma
linguagem de um encanto singular.
214
Miguel Luciano, o segundo filho, nasceu em Irati.
Freqüentou a escola local e depois o Grupo Escolar Duque
de Caxias em Irati. Estudou em Curitiba. Depois de formado foi morar e trabalhar em São Paulo, onde conheceu a
bela jovem Estrella Altamirano, moça prendada, de qualidades morais e fina educação, descendente de espanhóis.
Casaram-se em 1949.
Miguel, como já era tradição da família, dedicou-se
ao comércio de cereais, e à piscicultura. Adora belas mulheres, festas e viagens. É um bon vivant. Com o seu modo de
ser parece-se muito com o avô Nicolau Wasilewski. O casal
teve três filhos. Atualmente moram em Curitiba.
Úrsula, a terceira filha, também nasceu em Irati.
Como as demais crianças da colônia, estudou na escola
local, onde fez o curso primário. Continuou seus estudos no
Grupo Escolar Duque de Caxias, em Irati. Completou o
Curso Complementar nesse educandário.
Como possuía um notável talento para música, o pai
mandou-a para Curitiba. Hospedada na casa da tia Helena
Wasilewska Dybowicz, cursou as aulas de violino no Conservatório Musical do Paraná, por dois anos, não conseguindo se formar, pois o pai chamou-a de volta para casa.
Precisava do seu trabalho no armazém.
Conheceu o moço Caetano Zarpelon, enamoraramse e logo casaram . A festa do casamento foi realizada na
casa da Serra. Ficaram morando ali pelo espaço de quatro
anos, época em que tio João mudou-se para o sobrado em
Irati. A avó Leonora, que já morava com o tio desde 1942,
ficou na companhia de Úrsula, até sua mudança para Riozinho, em 1950.
Anos depois Úrsula mudou- se para Irati e finalmente em 1960, para a cidade de Manoel Ribas, onde mora até
a data atual. Tiveram cinco filhos. Caetano faleceu em
1998, naquela cidade.
215
Mariano, o quarto filho, nasceu em Irati. Eu fui a
sua babá. Carregava este guri rechonchudo com dificuldade, pois eu tinha apenas oito anos. Certa vez, ao passar perto de uma balança de sacaria, enrosquei meu pé e caímos os
dois. Foi aquele escarcéu, o menino berrava como se alguém estivesse o matando. Mas só foi o susto, ninguém se
machucou gravemente. Tia Maria me repreendeu, porque
não prestei atenção por onde andava, mas continuei cuidando do menino.
Mariano foi uma criança solitária, mas muito arteira. Talvez para chamar a atenção. Vivia aprontando confusão; apanhava pelas artes que fazia e pelas que não fazia.
Com oito anos foi para a escola local, depois freqüentou a
Escolhinha da Dona Noca em Irati, para mais tarde se transferir para o Grupo Escolar Duque de Caxias.
Fez o Ginásio e formou-se em Contabilidade no
Colégio José Emílio Calderari de Irati. Iniciou a sua carreira no comércio trabalhando com o pai na compra e venda
de cereais. Casou-se aos 24 anos com Isabel Pohl, de 20
anos. Tiveram cinco filhos.
Residiu durante muitos anos em Laranjeiras do Sul.
Administrava, nesse município, a Serraria da firma Sociedade Cerealista Brasileira Ltda, da qual era sócio, e a Fazenda Rio do Leão, de criação de gado.
De temperamento enérgico, Mariano se parece muito, fisicamente, com o avô Ladislau Grechinski. Diligente e
esforçado, com seu trabalho supriu o sustento e a educação
dos filhos que estudavam na capital; formaram-se em cursos superiores.
Cumpriu com responsabilidade a sua obrigação de
pai. Atualmente está aposentado, fora acometido por um
enfarte e a metade do seu coração ficou prejudicado. Reside em Curitiba na companhia da família, composta pela
esposa Isabel, mulher culta, inteligente, trabalhadeira, de
216
caráter pacífico, por duas filhas e pelo filho. Vivem na casa
antiga, confortável, espaçosa, as paredes e muros cobertos
pela hera de um verde luxuriante.
Laura (Laurita), quinta filha, nasceu em 25 de abril
de 1932. Estudou no Colégio N.S. Das Graças em Irati.
Casou-se com Waldomiro Sabat. Moravam em Irati onde
possuíam uma casa comercial.
Tiveram quatro filhos. Viveram juntos por 44 anos,
quando a morte dele os separou em 1995. Em 1999, ela
teve mais um golpe trágico com o acidente e morte do seu
filho Waldomiro de 40 anos. Laura mora em Irati, próximo de seus filhos.
João Paulo (Jango), o sexto filho, nasceu em Irati.
Estudou no Colégio N.S. das Graças em Irati, interno, por
quatro anos. Formou-se em Contabilidade no Colégio José
Emílio Calderari, de Irati.
Conheceu Ada Hessel, vizinha de sua casa. Apaixonados um pelo outro, casaram-se.logo.Foram morar em
Curitiba. Em 1968 voltaram para Irati onde residem atualmente. Ele sempre trabalhou com compra e venda de cereais. Hoje dedica-se à piscicultura em grande escala, aprendizado adquirido do seu avô Nicolau Wasilewski, ao reflorestamento de pinus, a engorda de gado e a suinocultura.
É um homem inteligente e trabalhador. Dotado de
um tino extraordinário para o comércio dedica-se a ele com
entusiasmo. Ativo ao extremo, fato que lhe prejudicou a
saúde, pois em 1978 foi acometido por uma grave depressão, cujos efeitos sente até hoje.
Casemiro (Kazio), o sétimo filho, é o caçula do casal João e Maria. Estudou no Colégio N.S. das Graças, interno. Terminado o primário, fez o Curso Científico e foi
para São Paulo estudar no Instituto de Ciências e Letras
Pucca. Tentou o vestibular para agronomia na Faculdade
Luís de Queiroz e em outras. Não conseguiu aprovação.
217
Voltou para Irati, e matriculou-se na Escola do Comércio,
onde se formou em Contabilidade.
Ajudava o pai na atividade comercial de compra e
venda de cereais. Nas viagens que fazia ao interior do Estado, certa ocasião, em São Miguel do Iguaçu, conheceu Terezinha Pizzolo. Jovem de 18 anos, de uma beleza invulgar.
De silhueta esguia, andar elegante, olhos verdes, tez amorenada, o cabelo castanho preso num coque gracioso, era o
tipo autêntico da beleza latina. Descende de italianos.
Casemiro apaixonou-se, assim que a viu. Tiveram
um breve namoro, e o moço precisou voltar para Irati, mas
antes obteve de Terezinha a promessa de que o esperaria o
tempo que fosse necessário. Ele jurou a ela que voltaria.
Passaram-se três anos, sem que Casemiro retornasse ou desse notícias. Até que um belo dia ele voltou. Perguntou nas redondezas se a jovem Terezinha tinha-se casado. Informaram-no de que a moça esperava pelo namorado
desconhecido, ao qual amava, que prometeu voltar. Casemiro exultou de alegria; foi procurá-la e falar com os pais.
Contrataram o casamento, mas antes das núpcias,
Terezinha foi conhecer os pais de Casemiro, que moravam
em Irati. O casamento realizou-se em São Miguel do Iguaçu, em 1964.
Durante um ano e meio, moraram com os pais dele,
época em que Terezinha aprendeu com a sogra os segredos
da culinária polonesa, da qual Kazio era adepto. Depois
foram morar na sua casa, na rua Alfredo Bufrem, onde nasceram e se criaram seus quatro filhos, Davi, Daniel, Débora
e Andréa. Todos se formaram em cursos superiores.
Débora diplomou-se em Direito, depois em Parapsicologia pela Faculdade Espírita. Com consultório próprio,
exerce a profissão de parapsicóloga e terapeuta de vidas
passadas. Inteligente, sensível e afetuosa, é uma pessoa
218
especial. Dedico-lhe grande carinho e gratidão, pela sua
colaboração, no início do meu trabalho de escritora.
Casemiro dedica-se ao comércio e à agricultura.
Cultiva feijão-preto, erva-mate e reflorestamento de pinus.
Mas sua maior atenção é dedicada à piscicultura. Construiu
grandes açudes para criação de peixes de diversas espécies:
carpa chinesa Cabeça Grande, carpa Capim, carpa Prateada
e carpa americana “Cat Fisch”, tilápias e peixes nativos.
É um homem ativo e inteligente, culto, gosta de leitura, teatro, cinema e viagens internacionais de turismo. Em
1980, numa viagem de 40 dias, seguiu com a família para
a Europa, onde visitou diversos países.
Em 1986, com Terezinha e pessoas da família, foi
conhecer Israel, Egito, Grécia, Itália, França e Marrocos.
Na Espanha, assistiram às aulas e receberam o diploma do
Curso de História da Espanha, em Sevilha. Em 1994, na
companhia da esposa, visitou a China e o Japão.
Kazio tem o espírito de construtor, sempre está a
construir, e suas edificações são obras de arte, como a casa
de campo que construiu na sua Fazenda Virá. Feita de
troncos roliços de eucalipto, envernizados, dispostos em
horizontal formando as paredes, tendo no centro, como sustentáculo do telhado, uma árvore de eucalipto.
Projetou a construção em dois pavimentos, numa
elaborada arquitetura polonesa montanhesa, própria dos
Cárpatos. É uma bela casa, que merece ser vista pelos apreciadores das obras de arte.
***
219
O ACIDENTE.
Era o ano de 1930, época das eleições para presidente da República. Ladislau Grechinski, estava num caminhão
que conduzia eleitores e simpatizantes, para o grande comício do Partido Republicano Paulista (PRP), que se realizaria em Irati.
Na grande euforia, a algazarra tomou conta dos
passageiros que iam na carroçaria do caminhão, quando
numa curva o veículo desgovernado tombou, jogando fora
os passageiros que iam em cima, de encontro a uma árvore
caída. Ladislau por um desses momentos de azar, caiu sobre
uma ponta saliente do toco da árvore.
O avô Ladislau era o homem mais diligente e empreendedor que se poderia ver na colônia. Seu espírito de
iniciativa e colaboração social desapareceu em pouco tempo, após a queda da carroçaria do caminhão.
O dia estava amanhecendo. Densa neblina cobria os
campos e os vales. O pico da montanha coberta de névoa,
apontava no horizonte, elevando-se acima da densa floresta
de araucárias. Alhures ouviram-se os gritos do bando de
quero-queros.
Na casa à beira do rio ainda todos dormiam, apenas
o avô acordou, um ricto de dor marcava-lhe a face pálida.
No momento da queda, não parecia ser nada grave, mas
com o passar dos dias o peito começou a doer terrivelmente, a moléstia agravou-se e o enfermo foi compelido a procurar um médico na cidade de Ponta Grossa.
O clínico reconheceu que o caso era grave, pois o
golpe tinha atingido o fígado, o qual estava se deteriorando.
Não o disse à família, mas não escondeu a gravidade do
João, filho mais velho, que acompanhava o pai na consulta.
- Como está meu pai?- perguntou João.
220
- Está condenado à morte - disse o médico - a moléstia devora-o por dentro, lentamente, mas está piorando
cada vez mais. Pode viver anos ou meses apenas.
João ficou aterrorizado com a notícia. Os acontecimentos tomaram o rumo que ele temia. Pedia a Deus pela
vida do pai. Leonora suspeitava da gravidade da doença,
interrogou o filho e ouviu palavras de conforto e de confiança.
- Não te peço esperanças ilusórias - disse ela - mas
peço te que me diga a verdade, você estava junto na ocasião
da consulta com o médico e conhece a situação verdadeira
- A verdade é difícil de dizer – falou o filho, aflito.
- Ele não tem cura? Vai morrer?
- A doença dele é grave, o coração e o fígado estão
comprometidos - disse João - Mas tudo está nas mãos de
Deus, e só Dele depende a vida do nosso pai. Agora só nos
resta cuidar bem dele e orar muito.
Leonora quando se achou sozinha, deu livre curso às
lágrimas e a angústia que a sufocava. Encarou a possível
morte do marido e pensou nas conseqüências e na incerteza
do futuro que a aguardava.
Tinha em casa quatro filhos homens, o mais velho
Tomás, com 19 anos, Tadeu com 17, Ladislau com 16 e
Mieczko com 15 anos. Criava também uma neta orfã, Elisabeth, de 9 anos, filha do Pedro. Os outros filhos, já tinham casado. A pequena Ângela tinha morrido aos 6 anos
de idade. Administrar a propriedade e cuidar da família
seria um encargo muito pesado para suas mãos frágeis.
A doença do marido prolongou-se por cinco anos.
Às vezes acamado, outras quando se sentia melhor caminhava pelo pomar. Revia suas plantas com carinho. Recebia
muitas visitas. Com o passar do tempo caiu em depressão,
tornou se nervoso, irascível, brigava por qualquer motivo.
Não se sujeitava à dieta alimentar prescrita pelo médico.
221
O enfermo piorava rapidamente. A doença entrou
no último estágio. Lenta e intermitente nos primeiros tempos a enfermidade teve rápida e inflexível evolução no
último período. No fim de poucos dias a morte foi declarada iminente. Leonora ficou desesperada.
Durante todos estes anos não conheceu outro mundo, outro afeto, além daquele homem prepotente, dominador e ciumento, mas terno, cujos olhos a protegiam e iluminavam a sua vida.
No primeiro instante não acreditou neste triste fato;
mas a realidade apresentou-se a seus olhos, e foi então que
a alma tentou romper todos os elos e voar, antes dele, e
esperá-lo na imensa vastidão azul, para empreenderem juntos a última viagem.
Não chorou nas primeiras horas; a dor trancara-lhe
as lágrimas; mas estas vieram logo depois e ela as verteu
em silêncio, sufocando os soluços, estorcendo-se na solidão
do seu quarto.
Antes de morrer, Ladislau chamou a mulher e os filhos para junto do seu leito e falou:
- Filhos vocês já são moços e saberão defender-se na
vida. Não abandonem a mãe, ajudem-na a levar avante a
propriedade que deixo a vocês, não a deixem decair, porque
este e o fruto do meu trabalho de uma vida inteira. Leonora
vai ficar só; prometam-me que não vão desampará-la.
Os filhos concordaram; principalmente João que
tranqüilizou o pai e pediu-lhe que não falasse tanto.
- Descanse pai, não diga mais nada...descanse...
O enfermo estava perdendo as forças. Tinha se esforçado em excesso. Sussurrando, com um gesto, chamou
Leonora para junto de si, estendeu as mãos quando ela alcançou-lhe as suas, e puxou-a para perto do seu peito num
abraço desesperado, não a largou até o último suspiro, até a
morte apoderar-se do seu corpo e afrouxar os seus braços.
222
Ao vê-lo morrer, Leonora soltou-se com cuidado
deste amplexo final e saiu correndo para o pomar, onde
poderia verter o pranto represado, em paz; onde ficou por
longo tempo sentada no chão com a cabeça entre as mãos,
sacudida pelos soluços, deixando afluir a dor do profundo
da sua alma.
O avô Ladislau Grechinski, nasceu no dia 6 de março de 1874, faleceu dia 20 de fevereiro 1934, com a idade
de 60 anos. Foi sepultado numa tarde ensolarada e agradável no cemitério Municipal de Irati. Grande multidão da
comunidade do Alto da Serra dos Nogueiras, triste e constrangida, acompanhou o enterro.
Tinham perdido um líder. Um grande homem do
povo. Para prestar-lhe a justa homenagem, a Câmara Municipal de Irati designou a principal via de acesso à cidade de
Avenida Ladislau Gryczynski.
Leonora viveu na companhia dos filhos solteiros durante oito anos. Época em que Tadeu casou-se com Josefa
Szubarczuk e o caçula Mieceslau, com Natalia Nedopytalski. Os dois casais foram morar nas suas respectivas casas.
Ladislau o penúltimo filho, conheceu a jovem Emília Mazurek, numa festa de igreja. Os pais dela moravam
na Colônia Gonçalves Júnior. O namoro começou com as
freqüentes visitas dele à casa da moça. Apaixonaram-se.
Decorrido algum tempo, Leonora foi conhecer a jovem que seria sua nora e tratar da data e detalhes do casamento. Comemoraram o enlace com uma grande festa, que
durou três dias.
Foram morar com a mãe Leonora na casa da Serra
dos Nogueiras. Teriam sido felizes desde então, se as amigas casadas de Emília não a tivessem aterrorizado com toda
espécie de comentários a respeito do ato sexual. Ela era
totalmente inocente e desinformada. Recusou-se a consumar o matrimônio.
223
Temendo que o baixinho e voluntarioso marido a
violentasse adormecida, Emília trancava a porta do quarto a
chave. Durante o dia ele trabalhava na lavoura e ela ajudava
a sogra nos afazeres domésticos. Durante a noite, discutiam
e lutavam até ela conseguir expulsá-lo para fora do quarto.
Não demorou muito tempo e a intuição popular farejou que algo de irregular estava acontecendo. Espalhou-se o
boato de que Emília continuava virgem, mesmo um mês
depois de casada, porque o marido era impotente. Como
sempre o interessado foi o último a saber.
- Esta vendo Emilia o que o povo anda dizendo?
Você está me expondo ao ridículo. Pense bem o que está
fazendo – o marido gritou raivoso.
Depois daquela cena, finalmente, ela resolveu sujeitar-se ao ato. E numa bela e fria noite de junho, com a lua
espiando pela janela do quarto, ela deixou de ser virgem, e
eles se amaram até o dia amanhecer.
- Não foi tão ruim assim, até gostei deveras – confidenciou ela à amiga, noutro dia.
E assim ano após ano, foram lhes nascendo crianças,
até completar doze filhos.
Mieceslau (Mieczko), o filho caçula do avô Ladislau, herdou a aura de misticismo que envolvia o pai. Com a
morte deste, tio Mieczko ficou com o anel de signos cabalísticos, com todos os livros que o pai consultava nas suas
experiências místicas, romances e livros de leitura comum.
Na casa antiga do tio João, passando da bodega para
a sala, havia num canto da parede dependurado um antigo
relógio cuco. Certa tarde abriu-se a porta da bodega e entrou no interior da sala o moço Eduardo Waleczko.
Ajoelhou-se em frente ao relógio e chamou todos
para rezar, pois era a hora da Ave Maria. Não conseguiram
convencê-lo que isto era um relógio e não uma imagem de
santo. Ele teimava em ficar e rezar.
224
Mandaram chamar o tio Mieczko que era seu amigo. Com palavras convincentes ele conseguiu tirá-lo da sala
e levá-lo para a casa dos seus pais. Eduardo estava doente,
insano mentalmente, alienado. Batia nos pais e irmãs; quatro homens não conseguiam subjugá-lo.
Mieczko com palavras adequadas conseguia acalmá-lo. Ele tinha poder sobre sua mente, tinha herdado esse
dom do seu pai Ladislau. Ele aprendeu a arte dos benzimentos, das rezas e curas com ervas medicinais.
Era muito procurado pelas pessoas necessitadas.
Tornou-se uma figura popular, mas singular e excêntrica.
Deixou crescer o cabelo, a barba, o bigode comprido enrolava atrás das orelhas. Morava num bairro de Irati, onde
era muito respeitado.
Em 1942 a avó Leonora, convidada pelo filho João,
foi morar com ele no Casarão da Serra, onde permaneceu
até 1950, depois foi morar no sobrado em Irati. Viveu ali
durante 10 anos. Morreu em 31 de outubro de 1961, aos 86
anos. Foi sepultada no Cemitério Municipal de Irati.
Os numerosos descendentes dos Gryczynski e Wasilewski espalharam-se pelo Paraná e pelo Brasil. Uns dedicam-se tradicionalmente à agricultura; outros à indústria e
ao comércio, ainda outros às mais diferentes profissões
liberais. Não deixando de lado a música, as artes e as letras.
Esses imigrantes, representados pelas novas gerações, integraram-se profundamente com a Nova Pátria,
participando notavelmente na formação da sociedade brasileira, dando sua colaboração para a transformação da cultura original luso-brasileira.
225
ALBERTO FILIPAK
Na véspera do Ano Novo de 1940, a comunidade da
colônia Alto da Serra dos Nogueiras organizou o baile comemorativo, no salão da escola. As jovens da casa de João
Gryczynski estavam agitadas com os preparativos. Precisavam limpar e lustrar os sapatos do tio, escovar e passar o
terno de casimira e a camisa de tricolina, escolher a gravata,
se quisessem que as levasse para o baile. Mas antes que
chegasse a noite, as roupas estavam ordenadamente estendidas em cima da cama do tio, prontas para serem usadas.
As moças, vestidas e penteadas, aguardavam o chamado do tio. Às 8 horas em ponto, ele convidou a tia Maria,
as filhas Olga e Úrsula, Antônia minha irmã, eu e as duas
professoras que se hospedavam na casa da família. Todos
nos seguimos para o clube.
Quando chegamos ao local, o baile já tinha começado. Os músicos tocavam uma valsa, e os pares rodopiavam
pelo salão. Os jovens dançarinos notaram a nossa chegada.
Estava entre eles o moço Alberto Filipak, que, indeciso por
um momento, aproximou-se, cumprimentou meus tios, e
dirigindo-se a mim falou timidamente:
- Monika, quer dançar comigo esta valsa?
Eu estava de pé perto da mesa, olhei para ele, e meu
rosto cobriu-se de rubor:
- Eu ? – perguntei surpresa.
- Sim, há tempos que desejo falar com você.
- Então vamos dançar e conversaremos.
Estavam em pleno salão. Entretanto, tinham dado o
braço e passeavam ao longo da sala, à espera da valsa, que
ia tocar. Os músicos deram os primeiros acordes, os pares
saíram a girar pelo salão. Eu que adorava valsar entregueime toda à dança, era como se estivesse flutuando no ar.
226
Não tardou muito que eu compreendesse que estava
nos braços de um homem apaixonado. Ele me segurava
firme ao seu corpo. E hei-nos unidos, a voltear rapidamente, leves como duas plumas, sem perder um compasso, sem
discordar uma linha. Paramos com a música.
- Se não estiver cansada, seria uma honra dançar
novamente com você – disse Alberto, amavelmente.
Eu estava aborrecida, sentia-se indisposta, não achava justo ser cerceada daquela maneira. Queria dançar
com outros rapazes; aquela preferência começou a incomodar-me; não querendo ser indelicada aceitei e rodamos pelo
salão mais uma vez.
Alberto voltou à carga com seu par:
- Peço-lhe que reserve todas as danças desta noite
para mim - disse, apertando-me junto a seu corpo. Estou
apaixonado por você, cego de amor! Desde o primeiro dia
em que a vi, no caminho, voltando da escola, apaixonei-me
pela sua figura de adolescente discreta, introvertida, seu
jeito tímido, pelos expressivos olhos azuis-esverdeados.
Nenhuma outra moça despertou-me tal sentimento de amor
e de proteção, só você Monika.
Eu sentia-me desconfortável, aflita, um pouco bruscamente, retorqui:
- Oh, não acredito! Posso parecer ingênua, mas não
sou tola! Ninguém se apaixona assim de repente. Também
sou muito jovem para assumir um namoro sério.
- Mas acredite. As minhas intenções são as melhores, e para confirmar isso, vou falar com seu tio João.
A música parou num longo choro de violino e de
baixo. Alberto enxugou discretamente o suor do rosto, e
dirigindo-se a mim:
- Quer tomar alguma coisa?- perguntou com a mais
adocicada das vozes.
227
- Aceito um copo de guaraná, mas vamos sentar à
mesa dos meus tios.
Ele apertou-me a mão calorosamente, dirigindo-se
ao local indicado. Sempre atencioso, pediu licença para
sentar e fazer-lhes companhia.
- Monika dança divinamente, é uma pena que não
aceite dançar comigo todas as músicas – confidenciou Alberto à tia Maria.
- Por que não quer dançar com ele, minha filha? Pode crer que esse moço é bem-vindo a nossa família.
Ele entabulou uma conversa interessante e calorosa
com o tio, mas rondava os olhos de sua preferida. Aproveitou a oportunidade e a bondosa disposição da tia para pedir
permissão para namorar-me e freqüentar a casa. Teve o
consentimento do casal.
O sucesso da iniciativa, entretanto, fora grande, ele
o sentiu nos olhares sorrateiros, curiosos dos outros rapazes; nos gestos de desdém que eles faziam. Foi a consagração daquela noite. O rapaz tremia de emoção.
O maestro afinava o violino, enquanto o gaiteiro puxou na sanfona um xote agitado. Os pares se esparramaram
pelo salão. Os dançarinos executavam coreografias frenéticas, improvisando trocas de pares. Depois fez-se o merecido descanso.
Os ocupantes da mesa do tio João denotavam cansaço e sonolência. A música cessara. O baile terminou às quatro horas da madrugada, sem que antes saísse qualquer pessoa. Era hora de ir embora para casa. Alberto despediu-se
da família e retirou-se em seguida. Estava cansado.
Já na cama sentia vontade de chorar e rir. Monika
não lhe saía da cabeça, deslumbrava-lhe os olhos, surgialhe na lembrança, cativante e bela como uma fada. Claramente podia deduzir que estava perdidamente enamorado.
228
Pelos quintais os galos cantavam. A lua em quarto
minguante trouxera queda de temperatura. Pés-de-vento
atiravam para o ar, em súbitos bafejos, a poeira da estrada.
No céu cintilavam estrelas, trêmulas, passavam às vezes
meteoritos viageiros. A neblina da manhã cobria o leito do
rio Saracura, que movimentava o moinho do avô Ladislau.
Ouviam-se os gemidos e batidas do pilão no monjolo, socando o milho para farinha biju. Nheee...Toc...Nheee...Toc.
Alberto fazia-me visitas semanais, sempre aos sábados. Vinha trotando por 4 quilômetros de estrada de terra,
montado no seu cavalo baio. Chegava ao anoitecer. Adentrava a bodega onde o tio João atendia alguns clientes.
- Boa tarde, senhor João, vim para um dedo de prosa
– disse, sentando numa cadeira com assento de palhinha,
encostada no balcão.
- Vá sentando, que já mando vir o chimarrão – convidou o dono da casa.
Trouxeram o chimarrão, Alberto pegou a cuia e, enquanto sorvia, com a bomba de bocal de ouro, a água quente e amarga da bebida, ia disfarçadamente procurando com
os olhos a mocinha dos seus sonhos.
Enquanto esperava, o moço recordava o dia em que
a viu pela primeira vez, junto a um grupo de crianças que
voltavam da escola. Foi ali que se encantou por aquele par
de olhos, que o fitaram firmes, de frente. Oh! os grandes
olhos azuis mesclados de verde; fascinavam-no. Naquele
momento ele estremeceu ao poder daquele olhar. Mas o que
mais gostava dela eram os cabelos, que caiam em cachos
dourados pelo pescoço.
Alberto suspirou, levantou-se impaciente.
- A Monika não está?- perguntou.
- Está, sim, já mandei chamá-la.
Depois eu o recebi na sala de visitas, onde as portas
e janelas ficavam abertas para eu estar a salvo de qualquer
229
maledicência Era uma precaução desnecessária, porque
sempre havia a presença da minha irmã Antônia ou de outra
pessoa da família, nunca ficamos a sós, era proibido beijar
ou segurar a mão um do outro.
Quando eu e Antônia, ficamos a sós, ela comentou:
- Ele parece gostar muito de você.
- Acho que sim – murmurei timidamente.
- Gosta dele?
- Gosto! admiro-o, mas não o amo.
Namoramos durante cinco meses. Eu na realidade
me esforçava para acender no coração o amor pelo moço.
Era um jovem digno desse afeto, era belo e de bom caráter.
Alberto tinha, dentro do azul dos seus olhos, a força e a
garra dos homens determinados, idealistas.
Quando chegava a noite, eu deitava na cama procurando dormir, olhava o teto em vão, mas o sono não vinha,
apesar do cansaço do dia. Pensava num grande amor que
viria ao meu encontro, algum dia. Quem sabe o destino já o
reservara para mim?... Será que viria?... Mas, quando?...
Por enquanto, pelo menos agora, sonhar eu podia...
Acendia a vela, e sob a luz tênue que dançava pelo
quarto, mergulhava na leitura dum romance. Lá pelas tantas, quando o sono me assaltava, eu dobrava o livro, com
pena, e ainda sonhava com os amores da heroína da história. Da janela vinha a claridade dourada da lua que se derramava pelo jardim. Puxei a cortina, me virei para o lado. A
Olga, minha prima, já dormia tranqüilamente.
Os fantasmas da infância voltaram naquela noite. Eu
julgara tê-los exorcizado há muito tempo. No começo, depois da morte da minha mãe, os visitantes noturnos apareciam com freqüência. Neblinas tênues pairavam por cima da
cama, e a voz da minha mãe sussurrava-me no ouvido palavras de carinho. Acordava, o coração disparado, mas não
via nada. Demorou muito, mas desapareceram. Hoje eles
230
estão presentes novamente. É o espírito da minha mãe que
vela por mim, guiando-me nesse passo decisivo da vida.
Certa tarde Alberto falou algo acerca do casamento,
não lhe dei muita atenção, pedi para dar-me um tempo,
para poder refletir. Eu era de temperamento romântico, entregava-me a devaneios e fantasias, sonhava com o príncipe encantado, não conseguia assimilar a idéia de casar-me
com um moço simples, da colônia. Mesmo sendo ele um
rapaz de boa aparência, gentil e educado.
Alberto fez o curso primário na escola da Serra dos
Nogueiras. Em 1930 ingressou no Seminário São Vicente
de Paula, em Irati. O desejo de seus pais era que fosse ordenado padre. Como seminarista, em 1934 concluiu o curso
ginasial. Para ser padre teria que estudar por muitos anos
mais. Analisou a vida eclesiástica e reconheceu que não
tinha vocação para o sacerdócio. Resolveu voltar para casa
e trabalhar com o pai na lavoura.
Na tarde de 13 de maio de 1940, Alberto veio falar
com meu tio. Ele chegou vestindo um terno escuro, camisa
branca e gravata. Estava elegante, bonito. Desceu do cavalo, que logo foi recolhido ao pátio da casa. Cerimonioso,
tirou o chapéu e cumprimentou os donos da casa. Tomou
uma cuia de chimarrão que o tio lhe oferecera e, sorrindo
lisonjeado pela recepção amistosa, entrou na sala de visitas.
Foi sem mais preâmbulo ao fim da entrevista.
- Senhor João, peço-lhe cinco minutos de atenção.
- Sou todo ouvidos, pode falar – respondeu o tio.
- Peço-lhe a mão de Monika em casamento – disse
de ímpeto - ficarei honrado se me conceder.
O tio João quis resguardar um pouco a dignidade paterna, mas sua satisfação era grande.
- A mão da minha sobrinha Monika? - interrogou ele
– ora....pois digo-te que te concedo com satisfação, se ela
concordar, é claro. Tenho certeza que farão um casal feliz.
231
Pediu para que me chamassem. Laurita, minha prima, correu bradando em voz alta:
- Monika! o Alberto chegou e quer ver você. Venha!
Trancada no quarto, remoendo um pranto secreto, eu
tapava os ouvidos com as mãos para não escutar. O moço
reclamava a minha presença.
Ouvi o chamado de Laurita. Tratei de me refugiar
no antigo sótão. Entrei pela portinhola que dava acesso ao
telhado e escondi-me nesse exíguo espaço sentada em cima
de uma viga. As teias de aranha envolveram-me o cabelo e
a roupa, mas fiquei sentada quieta sem dar qualquer sinal da
minha presença ali.
- Monika! Venha! – clamava Laurita.
Em vão me chamavam e procuravam pela casa toda.
Não estava em parte alguma. Eu sumi.
Após várias horas de conversa, bebericando o chimarrão com tio João, o moço resolveu ir embora. Estava
desolado, um mal-estar dominava-o.
- Voltarei outra hora, sou paciente, mais cedo ou
mais tarde, ela aparece - disse o moço, colocando o chapéu
na cabeça. Estava despedindo-se.
- Espere um pouco – disse a tia Maria
Ela subiu ao sótão, chamando-me em voz alta, e até
ameaçando dar-me uma surra se não aparecesse.
Atemorizada pela voz irada da tia, pelo longo tempo
decorrido, deduzi que o Alberto já tivesse ido embora, então resolvi sair do meu esconderijo detrás da parede.
- Já vou tia – respondi com voz chorosa – retirei a
tábua solta da parede por onde saí coberta de teia de aranha
e poeira. Pó acumulado durante muitos anos.
A tia Maria me viu e falou com voz ríspida:
- O Alberto e teu tio estão esperando lá na sala. Ele
pediu você em casamento. Vá até eles e dê a resposta, se
quer casar com ele ou não. Mas antes lave o rosto, penteie o
232
cabelo, se recomponha. Só te adianto uma coisa, moço bom
como Alberto, você não vai encontrar com facilidade. Ele é
trabalhador e de boa família, é filho da minha comadre Ana
e José Filipak, gente de bem, conhecidos, respeitados pela
comunidade. Vai dar um bom marido. O que você quer
mais da vida? - continuava o longo e justo sermão da tia.
Ela acompanhou-me em direção à sala de visitas
onde éramos esperados já há muito tempo, por um pretendente desconsolado. O tio demonstrava apreensão no semblante, ao dirigir-se ao moço:
- É certo que ela não o ama ardentemente como você diz que a ama, mas aceita-o, aprecia-o, com o tempo ela
vai amá-lo como merece. Estima-te muito. É uma moça
trabalhadeira, de boa índole, inteligente e instruída, mas é
voluntariosa e braba, de pavio curto. Estou informando-o
sobre o gênio forte da minha sobrinha.
Alberto ouvia com um sorriso pálido nos lábios finos. O rosto estava carregado e pensativo.
- Mesmo assim quero casar-me com ela, estou apaixonado, gosto muito dela.- respondeu Alberto.
Entrei e cumprimentei o pretendente. Parei defronte
do tio que demonstrava preocupação.
- Monika! O Alberto veio pedir você em casamento.
Eu disse-lhe que estava de acordo, mas dependia de você
aceitar. Pense bem, para depois não se arrepender!
Por um momento, fiquei paralisada. Sem saber o
que fazer fiquei tremendamente indecisa.
- Tio! posso pensar um pouco? Darei a resposta em
seguida, seja ela qual for.
Sai da sala, fui tomar um copo de água na cozinha.
Na cadeira de balanço estava sentada minha avó Leonora.
Pedi conselho a ela. Ela disse-me que eu faria um bom casamento se aceitasse, pois o Alberto daria um excelente
marido. Voltei à sala e dei a minha resposta sem vacilar.
233
- Se o senhor acha, tio, que eu devo me casar com
ele, se é do seu agrado, eu aceito.
Pesou na minha decisão o fato de que o Alberto era
amigo dos meus tios Ladislau e Mieceslau, eles o estimavam e o recomendavam, como uma excelente pessoa. A avó
Leonora também se desdobrava em elogios a ele. Portanto,
mesmo que não sentisse nenhum afeto especial, apenas amizade, não teria o que temer, era aceitar, casar e enfrentar
a vida com ele. O amor viria depois com a convivência,
conforme asseguravam os mais velhos. Assim, sem muito
questionar, foi resolvido o meu destino.
A tia Maria providenciou o enxoval. Fez quatro travesseiros e dois acolchoados de pena de ganso (pierzyna),
lençois, toalhas, roupas íntimas, vestidos novos e casaco
para frio. Comprou uma máquina Singer, de costura, que
seria de grande utilidade no meu trabalho.
Vieram os pais de Alberto para combinarem os detalhes. A data do matrimônio foi marcada para o dia 16 de
julho de 1940, dia de Nossa Senhora do Carmo. O Alberto
estava com 21 anos e eu com 17 anos.
A festa seria realizada na casa dos meus tios. A tia
Maria organizou uma extensa lista de convidados, entre
parentes e amigos. Mandou preparar um lauto almoço. A
cerimônia do casamento foi realizada na igreja polonesa de
São Miguel em Irati, pelo padre Paulo Warkocz. O civil,
no Cartório de Registro Civil de Irati.
Vestida de branco, de véu e grinalda, com bouquet
de flores naturais nas mãos, eu caminhava como sonâmbula, não entendia as palavras do padre e nem do juiz. Sem
pensar, repetia apenas o que eles diziam. Não conseguia me
concentrar, não achava as coisas, andava insegura como se
estivesse suspensa no ar sem sentir apoio nenhum. Estava
totalmente atordoada.
234
Terminada a festa, viajamos em lua de mel, de
trem, para Curitiba. Prolongamos a viagem até Paranaguá,
onde se realizava a festa anual na igreja de Nossa Senhora
do Rocio. No regresso, hospedamo-nos na casa do tio João
durante seis meses, tempo em que procuramos adquirir prática no comércio.
O pai de Alberto, meu sogro José Filipak, era neto
de Valentim Filipak e de Marianna Kasprowicz, uma família pioneira de emigrantes poloneses que chegaram ao Brasil em 25 de agosto de 1880, provenientes da Galícia Ocidental, de Jasno, região de Kraków, sul da Polônia, que
estava sobre o domínio da Áustria. Instalaram-se na colônia Tomás Coelho, nas proximidades de Curitiba.
Trabalhavam na agricultura de subsistência, e como
tinham o ofício de oleiros, construíram a “garncarnia”
onde fabricavam artigos de barro, como potes, vasos, pratos, tigelas, também faziam tijolos de barro para construção.
José era filho de Francisco Filipak e de Maria Trybek, nasceu em Tomás Coelho em 5 de março de 1886.
Anna, mãe de Alberto, era filha de Jacob Augustyn
e de Madalena Kosinski, emigrantes poloneses da região da
Galicia Ocidental, parte austríaca, vieram para o Paraná em
1880. Anna nasceu em Tomás Coelho PR.em 15 de abril de
1891. Casou-se com José Filipak, em Campo Largo, em 16
de junho de 1908. Foram morar em Itaqui, lugar onde o pai
de Anna tinha uma olaria para fabricação de telhas e tijolos.
José era agricultor, trabalhava na lavoura em terras junto à
Serra de São Luís do Purunã.
Com a construção da Estrada de Ferro São PauloRio Grande, que oferecia facilidade no transporte e comunicações, a cidade de Irati desenvolvia-se rapidamente. As
terras férteis da região atraíram moradores das proximidades de Curitiba, Campo Largo, Tomás Coelho e Araucária.
235
O fluxo de pessoas tornou-se intenso, e os recémchegados começaram a fixar-se em redor de Irati. Numa
dessas levas, no ano de 1918, a família de José Filipak e a
de seus irmãos, influenciados pelas boas referências sobre a
região, mudaram-se para Irati.
José Filipak adquiriu 12 alqueires de terra, na colônia Alto da Serra dos Nogueiras, a 3 quilômetros de Irati.
Ali construiu a casa e os paióis, e implementou a cultura de
cereais e criação de animais domésticos. José era homem
trabalhador, alegre e de bom caráter, sempre pronto a ajudar
às boas causas; religioso, fez parte da comissão próconstrução da igreja São Miguel em Irati e do Colégio N.S.
das Graças.
O casal criou 10 filhos, enfrentando dificuldades e
privações ocasionadas pela sua situação de pioneiros na
região. José, faleceu aos 62 anos de idade em 4 de janeiro
de 1948, foi sepultado no Cemitério Municipal de Irati.
Anna, mãe de Alberto, viúva, após o falecimento do
marido, ficou na residência da família até o ano de 1959,
quando foi convidada a morar com seus netos, filhos de
Alberto, que estudavam em Curitiba. Residiu com eles durante cinco anos.
Após o casamento de Ricardo, foi morar com seu filho caçula, Paulo, em Reserva, e em 1975, passou a morar
com a filha Rosa em Irati. A avó Anna era para mim como
uma mãe, sempre me tratava com amizade e benevolência.
Era uma pessoa simples, laboriosa, extremamente religiosa.
Faleceu em 4 de novembro de 1980, aos 89 anos de idade.
Foi sepultada em Irati.
***
236
COLÔNIA CHUPADOR (ALVORADA).
O povoado de Chupador, hoje Alvorada, localiza-se
no município de Prudentópolis, na tríplice divisa, deste,
com Imbituva e Irati, a 20km da cidade de Irati. Situa-se à
margem da estrada asfaltada BR 277, que demanda Foz do
Iguaçu. Teve seu início em 1908, quando famílias aparentadas, dos Ferreira e Bomfim, mudaram-se de Covalzinho e
passaram a ocupar “O Faxinal dos Ferreira”, área de terras
concedidas pelo Império, cuja posse detinham havia muito
tempo. Construíram seus ranchos com lascas de pinheiro,
cobertas de tabuinhas, numa clareira no meio do faxinal.
O lugar passou a denominar-se „Chupador”. Segundo os mais antigos moradores, o nome originou-se do terreno úmido e salgado (barreiro), de composição salinosalitroso, existente no meio da mata, nas fraldas da Serra do
Chupador. Os animais selvagens afluíam seduzidos pelo
salitre e pelo sal-gema. Os índios usavam o barreiro para
curar diversos males, vinham atraídos pelo sabor e qualidades curativas da água, que continha partículas de minerais e
cloreto de sódio.
O “Barreiro Chupador” era muito procurado pelos
habitantes locais. Os enfermos ao saírem dali se diziam
curados dos seus males pela água que bebiam e se banhavam. Com o passar do tempo a nascente de água e o barreiro secou, tendo ficado sem proteção da mata ciliar destruída
pelos colonos.
Antigo morador do lugar, Pedro Ferreira de Bonfim
era descendente de índios guarani e caboclos, conhecia a
arte da cura pelos benzimentos e pelas beberagens de ervas
que preparava. Já bastante idoso, era de aparência peculiar,
curvado, de barba crescida, trazia sempre um cobertor secapoço às costas e chapéu de palha na cabeça. Conversava
consigo mesmo.
237
Morava com o filho Laurentino e a nora Nha Cristina. Passava as tardes procurando raízes e plantas curativas nas matas e elevações da Serra do Chupador. Era um
curandeiro muito respeitado pela comunidade, um homem
sábio, conhecia a natureza. Quando de manhã olhava as
montanhas e o céu, dava sua opinião sobre o tempo. As
vezes dizia, “hoje não vou procurar raízes, porque vai chover, o cocuruto da Serra está pitando”.
Em meados da década de trinta, o povoado já era
bem conhecido. Para ali mudaram-se diversos colonos atraídos pelas terras férteis, de cultura, baratas e de fácil aquisição dos caboclos-fazendeiros, e ainda pelos extensos
faxinais, povoados de erva-mate.
Os colonos e os caboclos viviam em paz, criavam
seus animais, vacas, cavalos, porcos e cabritos, soltos nos
campos. Não havia cercas separando as propriedades, os
animais pastavam junto, nos campos abundantes de grama
verdejante, ervas e frutas, principalmente de pinhão, fruto
do pinheiro, de que se alimentavam pessoas e animais.
Paralelamente à criação de animais domésticos,
crescia a exploração agrícola rudimentar, de milho e feijão.
Alguns colonos ensaiavam maiores plantações de batata
inglesa, trigo e cebola. A Colônia Chupador prosperava.
Enquanto Alberto Filipak colhia a safra de batatas
que tinha plantado na colônia Pedra Preta, João Gryczynski
providenciava a retomada de uma casa de sua propriedade,
que estava alugada a um comerciante, na Colônia Chupador. Salim, o inquilino, era natural da Síria, polígamo, seguia os costumes da sua terra, vivendo na companhia de
duas mulheres, Maria e Zulmíra, e seus muitos filhos.
Tio João teve dificuldades em convencer o inquilino a desocupar o imóvel. Vaga a casa, ali ele instalou o
armazém de secos e molhados, que ficou sobre nossa administração. Mudamos para Chupador em janeiro de 1941.
238
Ficou acertado, que, pelo nosso trabalho no armazém, iríamos receber 50% dos lucros líquidos auferidos, os
outros 50% seriam do dono do estoque de mercadorias. A
sociedade durou cinco anos, época em que conseguimos
ganhar o suficiente para pagar a mercadoria para o tio João.
Dois anos depois, Alberto comprou do tio João um
automóvel Ford ano 1930, no qual aprendeu a dirigir, fazendo o trajeto de 20 quilômetros de Irati até Chupador,
sem saber como fazer parar o veículo. Parou porque a gasolina terminou.
Insistiu na direção do automóvel até aprender a dirigir com perfeição.Com o início da Segunda Guerra Mundial
e o racionamento de gasolina, teve que colocar o automóvel
no estaleiro. Vendeu-o mais tarde. Em 1943 comprou um
caminhão Ford movido a gasogênio, para fazer o transporte
de mercadorias e cereais.
A tia Maria e minha sogra Anna visitavam-nos com
freqüência. A sogra trazia enormes e gostosas broas de centeio, que eu ainda não sabia fazer. A tia Maria levou-me de
presente uma pequena leitoa; seria o começo da nossa criação de porcos, que progrediu com ótimos resultados.
Na primeira casa onde moramos durante cinco anos,
nasceram meus filhos: Ricardo em 23 de novembro de 1941
e Mari Carmem, em 16 de julho de 1943. Vieram ao mundo
pelas mãos abençoadas de D. Pierina Nadal.
Eu trabalhava no atendimento à clientela do armazém. Deixava o bebê deitado dentro de uma cesta grande de
vime, em baixo do balcão, para tê-lo sob minhas vistas.
O Ricardo, era um bebê lindo, saudável, desenvolto.
Aos nove meses ensaiava as primeiras palavras e logo aprendeu a caminhar sozinho. Corria pela casa e brincava
com o carrinho e cavalinho de madeira que o pai lhe deu.
Era uma criança alegre, que não incomodava. Aos dezoito
meses, por infelicidade, o menino contraiu poliomielite,
239
moléstia infecciosa aguda, causada por vírus. Foi um choque doloroso para nós, quando o médico diagnosticou a
causa da febre altíssima que o devorou durante dias, manifestando-se em seguida a paralisia do braço e da perna esquerdos da criança. Não havia surto dessa doença na região.
Apareceram apenas dois casos esporádicos.
Foi aplicado tratamento intensivo e fisioterapia, que
unidos a cuidados especiais, com o passar do tempo, devolveram-lhe os movimentos do braço e parcialmente da
perna. Teve como seqüela a atrofia muscular, não se desenvolveu igual à direita. Com a perna esquerda mais frágil e
mais curta, Ricardo mancava um pouco, mas ele aceitou a
deficiência e conviveu com o problema.
Eu cuidava do armazém, vendia açúcar, sal, feijão,
farinha, toucinho, lingüiça, cachaça, alpercatas de corda de
sisal, botinas de couro cru, tecidos rústicos para roça, linha,
botões e demais mercadorias que a comunidade precisasse.
Em contrapartida, comprava dos colonos, mel, cera de abelha, crina de cavalo, galinha, ovos, alho, cebola, repolho,
manteiga e requeijão.
Aos sábados, o empregado Estefano arrumava tudo
o que coubesse no carroção de toldo, puxado por quatro
cavalos. Ele ia dirigindo o veículo e eu sentada na bancada
ao lado. Percorríamos vinte quilômetros de estrada de terra
até a cidade de Irati, onde eu vendia a mercadoria no comércio local. Na volta lotava o carroção de miudezas e artigos de fácil venda no armazém.
Alberto almejava expandir os negócios. Comprou
cinco alqueires de terra de faxinal, do fazendeiro caboclo
Pedro Ferreira, com o objetivo de ali construir a nova casa
para a família e ampliar o armazém. O Ferreira vendeu com
a promessa de gastar aos poucos, na nosso armazém o
valor do terreno em mercadoria.
240
O terreno adquirido se situava em frente da antiga
morada, a beira da estrada que vinha de Irati e demandava
à cidade de Prudentópolis. Alberto construiu no local uma
casa geminada, da qual parte seria destinada ao armazém e
outra, à residência. Mudamos para a casa nova em 1945,
residimos ali durante cinco anos. Doamos meio alqueire do
terreno à Mitra Diocesana, onde os colonos solidários
construíram a igreja de São Pedro e o cemitério.
Era costume dos antigos habitantes do interior,
construir uma capela na sede da fazenda, dedicada a algum
santo de devoção do fazendeiro. Pedro Ferreira era devoto
de São Pedro. Fez uma grande festa na capela da família,
no dia do padroeiro.
Foi içado o mastro com imagem do santo estampada na bandeirinha, saudado com o espoucar de muitos
foguetes e bombinhas, houve reza com ladainha e coro de
cânticos religiosos, seguido de almoço com churrasco de
dois bois e tachos de mandioca cozida. De sobremesa serviram rapadura. Tudo regado com muita cachaça de alambique, bebida que deixou os festeiros alvoroçados. Os resultados já previstos, de confusão e gritaria, que com intervenção dos mais velhos, logo foram apaziguadas.
Como não podia deixar de ter, houve leilão de prendas oferecidas pela comunidade. A renda foi destinada para
o conserto do telhado da capela que gotejava em dias de
chuva. De noite, à beira da fogueira houve cantoria com
desafio de repentistas, caboclos cantadores. Compareceram
à festa no dia aprazado todos seus parentes homens, mulheres e crianças, também gente da Colônia e das redondezas,
que confraternizaram com a família Ferreira.
Por uma fatalidade, em setembro do ano de 1946 e
por mais três anos consecutivos, apareceu a praga de gafanhotos. Vieram da região desértica do Grão-Chaco no Para-
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guai. Os gafanhotos chegaram quando a plantação de batatas florescia.
Certa tarde escureceu o céu, uma nuvem de insetos
com 50 quilômetros de largura bloqueou o sol, miríades de
locustas pousou em cima das plantações de milho, batata,
trigo, centeio e dos campos verdejantes. Tudo foi devorado
em poucas horas. Os arbustos verdes e os pés de laranjeiras ficaram sem folhas e sem casca.
Essa invasão de gafanhotos lembra-me, tristemente,
o ser humano que invadiu a terra e os mares e os destrói
sem piedade, como locustas que devoram tudo na sua passagem. O homem sequer preocupa-se, seriamente, em deixar algo para gerações futuras.
Foi uma luta incansável dos colonos contra esta
praga que causou enormes estragos nos campos e lavouras
das regiões atingidas. A nuvem fatídica de locustas, rodava
a região, tocada pelos lança-chamas dos agrônomos, e com
barulho de latas e fumaça pelos colonos. Antes de irem
embora, as fêmeas desovaram em buracos feitos na terra
pela saliência externa do seu abdômen.
Passados alguns meses nasceram as larvas, que é o
primeiro estágio dos insetos depois de saírem do ovo, transformaram-se em saltões, criaram asas e novamente, como
um dilúvio esparramaram-se pelas plantações, prosseguindo
na devastação de tudo que era verde.
Assim foi nos três anos seguintes. Recorreu-se a
vários processos para os destruir. Empregou-se lançachamas e espalhou-se pós inseticidas. Abriram-se valas
tocando os gafanhotos para dentro, cobrindo-os com terra.
Sem as lavouras, mesmo as de subsistência, os colonos
tiveram que fazer empréstimos ou comprar a prazo, para
poderem sobreviver.
Alberto dedicava-se à compra e venda de cereais;
era sócio na firma “ Sociedade Cerealista Brasileira Ltda”,
242
mas com a invasão dos gafanhotos que exterminaram toda a
produção das lavouras, a região necessitava ser abastecida
com sementes e cereais vindas de outras fontes. Alberto,
com seu espírito de comerciante, viu nisto a ocasião de colaborar na recomposição da economia local para os próximos anos e ganhar algum dinheiro. Adquiriu um caminhão
Dodge 1945, novo, de 10 toneladas.
A gasolina estava liberada com o fim da Segunda
Guerra Mundial. Ele ia a Irati, lotava o veículo com sacos
de açúcar, sal, farinha de trigo, latas de querosene, ferramentas de lavoura e viajava para o centro-oeste do Estado,
região de Mamburê, Goio-erê, Campo Mourão, Peabiru,
onde não houve incidência de gafanhotos, vendia a carga
que levava e trazia na volta, milho, feijão, sementes de trigo
e batata, tudo que faltava na nossa região.
Nas viagens que fazia para o interior do Estado, com
grande sacrifício, pois as estradas de terra eram mal conservadas, cheias de atoleiros em dias de chuva, sem pontes,
tinha que atravessar o veículo no vau dos rios. Mesmo assim com as muitas viagens que fez, obteve um bom lucro
para pagar o caminhão e ainda comprar um Jeep Land Rover, que, infelizmente, não aprovou nas estradas de terra.
Toda a poeira que levantava ao rodar era recolhida dentro
do Jeep, e os passageiros ficavam sufocados e empoeirados
até os olhos. Alberto tratou de vendê-lo.
Nas horas vagas, quando não tinha freguesia para
atender, eu costurava, pedalando a máquina Singer de costura, que ganhei da tia Maria. Fazia vestidos de encomenda para noivas e arrumava-as no dia do casamento. Costurava calças, camisas, calções e roupas para crianças.
A máquina de costura ficava atrás do balcão, quando chegava um cliente eu o atendia, depois voltava à costura. Para dar conta do serviço trabalhava até altas horas da
noite. Levantava bem cedo para ordenhar a vaca “Bolacha”.
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As crianças esperavam com os copos nas mãos, para tomar
o leite ainda morno, vindo direto das tetas da vaca.
Os nossos filhos freqüentavam a escola local; tinham muitos amigos com os quais corriam e brincavam
pelos campos de gramado verde, subiam em árvores, comiam frutas silvestres, caçavam passarinhos, tomavam banho
de rio e pescavam, sempre com os inseparáveis Tonico e
Stacho, filhos de Maria Zaremiak, minha amiga e vizinha.
Certa tarde, chegou uma forte tempestade com granizo, um manto de água e gelo derramou-se do céu, rapidamente formou poças fundas na estrada, a água corria
pelas valetas que nem um rio desembestado. Tão rápido
quanto a tormenta chegou, assim ela foi embora. O tempo
esquentou e o céu clareou.
Nessa ocasião, o Ricardo estava com sete anos. Acostumado a ir pescar com o pai no rio que passava dentro
do cercado dos porcos, naquela tarde, depois da chuva, ele
sumiu das minhas vistas.
Só demos pela sua falta na hora do jantar. Saímos à
sua procura. Chamamos em voz alta. Nada. Não estava em
parte alguma. Vieram os vizinhos e seus palpites. Pode ser
que o raptaram, ou perdeu-se no mato? ou caiu no poço?
Apavorada, peguei uma lanterna de pilha e fui iluminar o
fundo do poço. Nada havia que denunciasse a presença de
um corpo. Dei graças a Deus!
Alberto e os vizinhos deram revista em tudo quanto foi canto. A pé, percorreram todo o potreiro, foram até a
beira do rio, adentraram no capão de mato, não havia nem
sinal do menino. Já bem tarde, chegou Antônio Feliz, amigo e freguês do armazém.
- O que estão procurando? – perguntou interessado.
- É o nosso menino que sumiu. – respondi chorando.
- Que idade ele tem? Que roupa veste? – indagou Pois eu vi um menino de uns sete anos, sentado numa pin244
guela (um tronco de árvore caída atravessado sobre o rio),
a água revolta corria bufando por baixo da tora de madeira.
O menino estava calmamente sentado, pescando, não viu
que já tinha escurecido. Ao lado dele, sobre o tronco, havia
uma fieira de lambari. Ele é um bom pescador.
- É o Ricardo meu filho - gritei e saí correndo para
buscá-lo. O pai, já mais calmo, chamou-me:
- Espere! Não vá assustar o menino, ele pode cair da
pinguela e afogar-se. As águas estão perigosas com a cheia
do rio. Deixe que eu vou trazê-lo.
Trêmulo, com medo, Ricardo voltou para casa.
De início, o trabalho caseiro era realizado pela empregada Maria Martiniuk, depois pela Olga Diatchuk, moça
que trabalhou conosco durante vinte e um anos. Ela ajudoume a criar os meus dois filhos, Ricardo e Mari Carmem.
Olga era de origem ucraniana, moça responsável e dedicada, ensinou as crianças a falar e rezar nessa língua. Acompanhava-os nas aulas de catecismo na igreja local. Fizeram
a Primeira Comunhão no dia 24 de junho de 1951.
Alberto era trabalhador, idealista, de índole progressista, não se conformava com o horizonte estreito dentro da comunidade em que vivia. Queria mais; viajar, conhecer terras e regiões novas, enfrentar o desconhecido. Em
1950, comprou uma caminhonete Chevrolet e um dia partiu junto com alguns amigos.
Foi conhecer o lugar onde seria construída a nova
capital do país, Brasília. Na área destinada à construção da
cidade, e nos meandros políticos locais, pairava no ar grande expectativa de enriquecimento rápido e corrupção. Pelo
meio da aglomeração de gente havia muitos aventureiros e
fugitivos da justiça. Alberto ficou mal impressionado com
o ambiente que ali reinava.
Deu uma guinada, mudou de rumo. Nessa aventura
chegou até o noroeste do Paraná. Paranavaí foi a sua pri245
meira parada, depois influenciado por corretores de terra,
seguiu até Terra Rica. Tudo aqui era sertão bruto, apenas
havia uma derrubada de 100 alqueires, destinada para a
construção da nova cidade. Alberto, com seu espírito visionário, que enxergava longe no horizonte, viu a perspectiva
de desenvolvimento e progresso desta região. Comprou
algumas datas no lugar que seria centro da cidade e 10 alqueires de terra para plantar café.
Retornou para a Colônia Chupador, com firme propósito de se mudar para o noroeste do Paraná, com a maior
urgência. Animado pela expectativa de descortinar novos
horizontes, trilhar novos caminhos, ter a oportunidade de
expandir seus negócios, transmitiu largamente o seu otimismo e com o meu pleno consentimento, vendeu o armazém, a casa e o terreno para o seu irmão Vicente.
Incentivado pela existência na região de grandes reservas de peroba-rosa e muitas outras madeiras de lei, decidiu montar uma serraria em Terra Rica. Teve informações
que em Santa Catarina poderia encontrar serraria que já
estava parada por falta de matéria prima para operar. As
extensas florestas de pinheiros tinham-se esgotado.
Foi até União da Vitória e conseguiu localizar nas
proximidades da cidade, uma serraria que correspondia plenamente à sua necessidade. Adquiriu-a, desmontou, contratou caminhões para o transporte e enviou as máquinas para
Terra Rica. A mudança da família foi acomodada no caminhão Dodge, dirigido por Ciro Padilha.
Eu e o Alberto viajamos na caminhonete Chevrolet.
Despedimo-nos dos filhos, Ricardo e Mari Carmem que
ficaram na casa que foi nossa, na companhia do tio Vicente
e sua família. Iríamos revê-los só daí a quatro meses.
Era o meado do ano letivo e em Terra Rica não havia escola, pois que era um patrimônio incipiente, no meio
do sertão.
246
COLONIZAÇÃO DO NORTE DO PARANÁ
Há 180 milhões de anos ocorreu o derrame de lava
vulcânica, constituindo extensas e espessas camadas de
basalto no sul do Brasil. Formou-se ali a melhor terra do
planeta, com uma profundidade de até 30 metros. A decomposição dos lençóis de rochas extrusivas deu origem às
terras-roxas que cobrem a região do centro-oeste do Estado
de São Paulo e o Norte do Paraná. De cor vermelho-escuro
é famosa pela sua fertilidade.
É um fato confirmado que os indivíduos têm sua vida e sua aparência condicionada pela fertilidade da terra
onde fixam raízes. Se esta for fraca, plantas e homens dela
dependentes serão pobres, tristes e inexpressivos. Se esta
for fértil, plantas e homens serão plenos de viço.
O território denominado Norte do Paraná é região
de vales muito férteis, formados pelos afluentes da margem
esquerda dos rios Paranapanema e Paraná, no arco que esses dois rios traçam entre as cidades de Cambará e Guaíra.
De suave relevo, as altitudes variam de 400 a 700 m.
Essa área, definida pelos rios Itararé, Paranapanema, Paraná, Ivai e Piquirí, abrange uma superfície de 100
mil quilômetros quadrados, dividida em três áreas: o Norte
Velho, que se estende do rio Itararé até a margem direita do
rio Tibagi; o Norte Novo, que vai até as barrancas do rio
Ivai; e o Norte Novíssimo que se desdobra até o curso do
rio Paraná, ultrapassa o rio Ivai e abarca toda a margem
direita do rio Piquiri.
A ocupação da região do Norte Velho retrocede ao
ano de 1840, compreende as regiões entre os rios Itararé,
Paranapanema e Tibagi. Durante os anos seguintes, fazendeiros mineiros e paulistas sabedores da existência de terras fertilíssimas, devolutas, interessados em expandir as
247
fronteiras cafeeiras ocuparam-nas, estabelecendo a posse e
iniciando o cultivo do café no Paraná.
Por volta de 1843, um desses mineiros, Domiciano
Correia Camargo, vendeu sua propriedade em Minas Gerais
e veio para o Norte do Paraná. Fez sua posse na margem
esquerda do rio Itararé; depois dele chegaram muitos outros
e possearam as terras localizadas entre os rios Itararé e Cinzas.
Em 25 de fevereiro de 1906, foi assinado em Taubaté no Estado de São Paulo, o “Acordo de Taubaté ”, que
estabelecia limites da produção cafeeira para os Estados de
São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, em face da baixa
cotação no mercado internacional e da superprodução nestes Estados. O impedimento de novas plantações de café
não atingia o Estado do Paraná, que neste tempo não passava de sertão bruto.
Desde 1910 produzia-se café no Norte Pioneiro e
em 1924 já havia fazendas com um milhão de pés de café.
Em 1916, foram concedidas terras devolutas para a empresa Corain & Company, na região de 1º de Maio, na confluência do Tibagi com Paranapanema, que se dedicava ao
cultivo de algodão.
Até 1923, o Norte do Paraná era uma região de difícil acesso, em grande parte coberta por florestas exuberantes peculiares às áreas de terra roxa. Aqui e ali abriam-se
grandes clareiras, onde os pioneiros da colonização plantavam café, mas era preciso muita coragem e espírito de renúncia, para viver e trabalhar nesse sertão distante, enfrentando dificuldades de toda ordem, desde enxames de mosquitos de toda espécie e a animais selvagens.
O governo do presidente da República Artur da Silva Bernardes (de 1922 a 1926) desenvolveu gestões para
que técnicos ingleses viessem ao Brasil estudar sua situação
financeira, econômica e comercial. Em janeiro de 1924
248
chegava ao Brasil a Missão Montagu. Entre os muitos
membros dessa missão, veio Lord Lovat, assessor para
assuntos da agricultura e florestamento.
A missão de Lovat convergia os interesses que viriam a contribuir decisivamente para a colonização do Norte
do Paraná. Tendo viajado por várias regiões paulistas e
chegado até o Norte do Paraná, ficou impressionado com a
fertilidade das terras roxas da região.
Depois de muito planejamento e negociações, Lord
Lovat resolveu adquirir terras no Norte do Paraná, a fim de
produzir algodão. Em 24 de setembro de 1925, foi fundada
em Londres, uma empresa, a “Brazil Plantation Syndicate
Limited.”, e uma subsidiária brasileira, a “Companhia de
Terras Norte do Paraná”.
Logo em seguida os ingleses entraram em negociação, com o presidente do Estado do Paraná, Dr. Caetano
Munhoz da Rocha. Este concordou com a venda de terras
aos ingleses no Norte do Estado. A Companhia de Terras
Norte do Paraná tornou-se proprietária de uma enorme
área de terras, com 515 mil alqueires paulistas, situada na
margem esquerda do rio Paranapanema, entre os rios Tibagi
e Ivai, adquiridas junto ao Governo do Estado.
O êxito da colonização deve-se à legitimidade dos
títulos de propriedade das terras oferecidas à venda, pois já
no governo de Dr. Afonso Alves de Camargo, com cujo
apoio contou a Companhia, legitimou-se toda a área ao preço de 20 mil réis por alqueire paulista.
Por conseguinte coube à Companhia a responsabilidade pelo notável incremento dado à colonização e, em
conseqüência, à agricultura e economia paranaenses. A empresa se dedicou intensivamente à colonização das terras
adquiridas.
Noa dia 29 de agosto de 1929, começa o reconhecimento pioneiro da região, ainda virgem, balizada pelos cur249
sos dos rios Paranapanema, Tibagi e Ivai, onde a Companhia de Terras Norte do Paraná se preparava para plantar a
civilização. Foi a partida para o desconhecido sertão; um
punhado de homens, em nome da Companhia, deu o primeiro passo para a fundação do patrimônio Três Bocas,
hoje Londrina, e para que se concretizasse o mais extraordinário plano de colonização já realizado por uma empresa
privada no Brasil.
As estradas eram primitivas, em verdade, caminhos
por onde os índios transitavam; havia inúmeros atoleiros de
barro malcheiroso, pelo acúmulo de água e folhas da mata,
na qual os veículos atolavam até os eixos. Somente uma
tropa de muares de carga e montarias podiam prosseguir
viagem até as terras da Companhia situadas além da margem esquerda do rio Tibagi.
No dia 27 de março de 1930, um colono pioneiro
adquiriu da Companhia de Terras Norte do Paraná o primeiro lote de terra vendido pela empresa no Norte do Paraná, que colonizou 546.078 alqueires paulistas. Isto corresponde a 1.321.499 hectares de terras devolutas concedidas
pelo governo do Estado, nos anos de 1925 e 1927, para
exploração direta e a partir de 1930 com o projeto de colonização, destinado a pequenos proprietários.
À Companhia coube a incumbência de vender terras
a colonos, em pequenas propriedades agrícolas de 5 a 15
alqueires paulistas. O loteamento da Companhia de Terras
Norte do Paraná obedecia rigorosamente a um planejamento preestabelecido. Os lotes rurais eram traçados em forma
de largos retângulos, tendo frente para uma estrada e fundos
para um rio.
Já em 1931, a Companhia registrava grande venda
das terras adquiridas. Compradores acorriam em grande
número, atraídos pelos preços, pelas condições vantajosas
e pela fertilidade do solo. Em poucas regiões do país poderá
250
se encontrar fenômeno semelhante ao ocorrido no povoamento e colonização do Norte paranaense, no que concerne
à divisão e ao comércio das terras, planejamento e fundação
de cidades, tudo isso na política de monocultura – o café.
A Companhia de Terras Norte do Paraná idealizou,
implantou e executou esse gigantesco plano de povoamento
no Estado. Teve seu apogeu com a fundação e o sucesso
de grandes cidades como Londrina, Apucarana, Arapongas,
Maringá, Cianorte, Umuarama e muitas outras cidades e
centros urbanos dentro da área concedida.
A cidade de Mandaguari foi fundada em 1935; desmembrada de Apucarana passou a município em 10 de outubro de 1947. Eram tempos difíceis aqueles, as estradas
tornavam-se intransitáveis em períodos de chuva, tudo ficava atolado na lama massapé, vermelha, que grudava nas
solas dos sapatos. Essa terra roxa, argilosa, os ricos massapés provavam ser terras de primeira qualidade para plantação de café e cereais.
Quando o sol queimava, nas estradas, ao passar um
caminhão ou ônibus, levantava uma nuvem de poeira vermelha que não se enxergava nada, e quando o ônibus parava para pegar um passageiro, o poeirão entrava pelas janelas e por todas as frestas. As janelas tinham que ficar abertas por causa do grande calor. Lá fora o matagal ficava coberto pelo pó vermelho.
Nos primeiros anos, as cidades recém-fundadas se
apresentavam com ruas de terra, datas demarcadas de um
lado e do outro, onde se viam raízes e troncos semicarbonizados. Muita poeira em dia de sol e lama até os tornozelos
em dias de chuva. Era uma beleza ver a mata de pertinho;
altas perobas, figueiras, paus-d‟alho, tudo ao alcance dos
olhos, bastava chegar à janela.
Um exemplo dessa conjuntura é Maringá, a princípio um pequeno patrimônio localizado no interior do muni251
cípio de Mandaguari. Fundado pela Companhia de Terras
Norte do Paraná, não tardou em cumprir sua profecia, tornando-se uma das mais importantes cidades do Estado do
Paraná. Sendo reconhecida pelo metro quadrado de verde
para cada habitante, e por sua boa qualidade de vida.
Na expansão cafeeira, sobretudo nas férteis terras
roxas do Norte do Estado, têm papel destacado a grande
companhia de colonização, a inglesa Paraná Plantation Limited, depois Companhia de Terras Norte do Paraná
(C.T.N.P), mais tarde substituída por Companhia Melhoramentos Norte do Paraná (C.M.N.P.).
Em 1942, em virtude das dificuldades ocasionadas
pela Segunda Guerra Mundial, os ingleses venderam a C.T.
N.P. a um grupo de capitalistas paulistas, composto por
Gastão de Mesquita Filho, Gastão Vidigal, Artur Bernardes
Filho e Irmãos Soares Sampaio.
Depois o controle acionário da Companhia passou
para Gastão Vidigal e Gastão de Mesquita Filho. Nasceu a
Companhia Melhoramentos Norte do Paraná, que continuou
o projeto de colonização. Fundou cidades no Noroeste, como Nova Esperança, Mandaguaçu, Floraí, Santo Antônio
do Caiuá, Alto Paraná, São João do Caiuá.
A gleba Umuarama de 40 mil alqueires paulistas, foi
posteriormente adquirida pela Companhia Melhoramentos
Norte do Paraná, e colonizada obedecendo aos moldes da
empresa predecessora.
***
O lado direito do rio Apucaraninha é composto de
terras dobradas, de montanhas e vales, arenosas, com pedregulho, cobertas duma mata mais baixa, mas em compensação, coalhada de pinheiros altaneiros, de troncos grossos.
Desde o ano de 1847, nas terras que iriam constituir a Colônia Apucarana de colonização oficial, haviam se
252
estabelecido paranaenses e alguns paulistas, tendo antes, de
acordo com a legislação estadual, registrado oficialmente as
suas posses e propriedades. As terras ocupadas por eles
estavam encravadas nas terras destinadas à colonização e
por onde devia começar a medição.
Veio a ordem do inspetor de Terras e Colonização
do Paraná para que se efetuasse a medição de todas essas
propriedades. Foram convocados os proprietários por cartas
e editais, para apresentarem os seus títulos de propriedade.
Com a proclamação da República, em 1889, e pela
Constituição de 1891, as terras devolutas da União passaram à responsabilidade dos Estados, que receberam, inclusive, o domínio e a propriedade das terras devolutas que
faziam parte das antigas concessões dadas pelo Império.
Portanto, a titulação dessas terras coube ao Estado
do Paraná. O Governo Estadual continuou os projetos de
colonização, no Norte e Noroeste do Estado. Grandes áreas
de terra foram concedidas para empresas de colonização
estrangeiras, que as lotearam e formaram novas colônias,
tanto de imigrantes quanto de brasileiros.
Os interesses econômicos dessas companhias estavam diretamente ligados à cafeicultura. A partir de 1930, a
região situada ao Norte do Estado do Paraná, foi ocupada
por milhares de pessoas das mais diversas origens e raças,
mineiros, paulistas, nordestinos, catarinenses, japoneses,
italianos, alemães, espanhóis, gente que veio do sul, norte,
centro e oeste do país. Ocuparam as terras roxas e as matas
seculares, excluindo a presença indígena e cabocla, como
povos que habitavam esse espaço.
Famílias inteiras, movidas pelo sonho da época, o
café, deslocavam-se para esse Eldorado. Este movimento
migratório iniciou-se em 1940, período da ditadura de Getúlio Vargas. O que animou os pioneiros cafeicultores foi a
qualidade do solo, próprio para o cultivo da preciosa rubiá253
cea. As notícias que chegavam davam conta do sucesso
obtido nas regiões Norte Pioneiro, Norte Novo e Norte Novíssimo, onde dezenas de cidades brotavam da noite para o
dia e o café fazia a fortuna de muita gente.
Com a ocupação vertiginosa, entre as décadas de
1940 e 1950, a região foi uma das áreas mais dinâmicas do
país em termos de absorção de imigrantes. Afluem milhares de pioneiros e desbravadores de sertões, e ocupam a
fértil região. É a fronteira agrícola que avançava povoando
o Norte do Paraná, integrando gente de origens diferentes,
do Brasil e do exterior. Chegavam colonos e mudanças novas, ruas eram abertas, a clareira se alargava, casas eram
construídas. Todos chegavam querendo terra para plantar e
datas para construir casa.
O cafezal foi plantado entre troncos encarvoados da
queimada. Ao terceiro ano, os cafeeiros estavam brancos de
flores, o cafezal parecia um jardim. Os cafezais da terra
roxa produziam muito mais do que os cafezais paulistas e
mineiros, enriquecia o lavrador. Nunca uma terra tinha produzido tanto café.
É no poeirão vermelho que todos aprenderam a enxergar, não a cor nem a raça, nem a condição de ninguém,
porque aqui chegaram todos na mesma condição, de gente
procurando vida nova, numa terra nova.
A extraordinária e fértil região norte e noroeste paranaense foi por muito tempo uma espécie de Terra da
Promissão, um Eldorado, especialmente para paulistas, mineiros e nordestinos, que iniciaram uma corrida em busca
de terra, pão e trabalho.
Esse êxodo voluntário tornou-se um dos mais longos
movimentos migratórios registrados em todo país. Foi desse pioneirismo que resultou o desaparecimento das florestas, a profusão de lavouras de café, a abertura de estradas e
254
a fundação de povoações e cidades, colocando o Norte no
rol das regiões mais ricas do Estado.
Ao precursor no desbravamento e ocupação do Norte e Noroeste do Paraná, nas múltiplas etapas de sua evolução juntou-se, por vezes, enorme onda de aventureirismo. A
notícia da fertilidade da terra roxa, do extraordinário progresso e do dinheiro, que corria a rodo, atraiu para a região,
além de elevado número de homens de negócios, fazendeiros, comerciantes e industriais, grandes e permanentes ondas de aventureiros, oriundos de todos os quadrantes do
território nacional.
Na nova Terra da Promissão, uns e outros se confundiam muitas vezes, na luta pela posse da terra e do dinheiro. Patrimônios e cidades estavam sendo fundados,
abriam-se estradas, desenvolviam-se as mais diversas atividades, e uma nova civilização, com base na cultura do café,
surgiu de uma hora para outra.
A consolidação da cafeicultura na região Norte e
Noroeste permitiu o avanço da frente colonizadora na década de quarenta. O eixo produtor de café deslocou-se do
Norte Pioneiro para a região do Norte Novo e do Novíssimo. No final da década de 1950, o Paraná tornou-se o maior
produtor brasileiro de café.
No início do regime republicano, já era o café o esteio da economia brasileira. Se em São Paulo o café determinou a abertura de estradas de ferro e de rodagem, a organização do porto de Santos, a construção de cidades, também constituiu uma das principais bases para o crescimento
da indústria.
No Paraná as riquezas geradas pelo café contribuíram para o desenvolvimento de cidades, para a construção
de estradas de rodagem modernas, asfaltadas, e de estradas
de ferro, também para a ampliação e modernização do porto de Paranaguá.
255
Nos anos posteriores, alguns fatores contribuíram
para a decadência da cafeicultura paranaense. A cultura do
café exige uma combinação conveniente de solos e climas.
Os solos do norte paranaense em grande parte constituído de terras roxas de excelente qualidade ofereciam
condições ao cultivo do café, mas o mesmo não se dava
com o clima nem sempre favorável; e a região cafeeira
paranaense era sujeita ao risco de geadas intensas, como as
de 1955 e 1957, as de 1962, 64 e 66, e as de julho e setembro de 1976 e 1977, que arrasaram as plantações de café,
reduziram a produção cafeeira e aceleraram o processo de
diversificação da economia.
Com a repetição das geadas e a implantação, pelo
governo, da política de erradicação de cafeeiros a fim de
diminuir a produção nacional, a cafeicultura no Paraná foi
seriamente afetada. As terras férteis e o clima ameno paranaense contribuíram grandemente para a variedade da produção agrícola. Passou-se a plantar trigo, milho e soja, ou
formar pastagens para criação de gado.
No Paraná houve uma sucessão de ciclos econômicos: da caça ao índio e ao ouro, o pastoril, da erva-mate,
da madeira e do café e, hoje, o da soja, do trigo e do milho.
O feijão-soja é originário da China; planta da família das leguminosas, subfamília papilionácea (Glycine hispida), empregada na alimentação e sobretudo na fabricação
de óleos comestíveis. Introduzida no Brasil em 1882, na
Bahia por Gustavo Dutra, levada para Campinas, se expande pelo Sul do País, onde é cultivada em grande escala,
também no Sudeste e Centro Oeste.
Até 1908, a cultura é feita em campos experimentais por agricultores japoneses, que trouxeram em suas bagagens sementes de variedades que cultivavam com sucesso
no Japão. A soja começou a constar nas estatísticas oficiais
em 1952.
256
A maior expansão do cultivo da soja teve início na
década de sessenta. A área de plantio cresce de modo vertiginoso, invade os cerrados de Minas, Goiás, Mato Grosso
do Sul, Mato Grosso, e até as últimas fronteiras agrícolas
em Rondônia e Tocantins. Os preços internacionais compensadores e a escassez de alimentos no mundo são fatores
decisivos na expansão da cultura.
Em 1932, Ceslau Mariano Biezanko, agrônomo, cientista e pesquisador polonês, num trabalho pioneiro, fez
experiências com soja, numa fazenda em Guarani das Missões no Rio Grande do Sul e acabou dando ao Brasil uma
de suas principais fontes de divisas.
As pessoas não queriam acreditar que, de uma semente tão pequena fosse possível extrair leite, queijo, manteiga, óleo, farelo, carne, farinha e remédios. Consideravam
isto uma ficção científica.
A ocupação de áreas anteriormente destinadas ao
café e a incorporação de glebas novas à fronteira agrícola
contribuíram para a consolidação da sojicultura. O desestímulo e o receio de ocorrência de novas geadas fizeram com
que muitos pequenos proprietários vendessem suas terras,
mudando-se para outras regiões, como Rondônia, Mato
Grosso e Tocantins.
No decorrer do século XX, às grandes fazendas monocultoras, juntaram-se as médias e pequenas propriedades
policultoras, que caracterizam e distinguem a estrutura agrária do Estado.
No entanto, a modernização agrícola não trouxe só
benefícios e riquezas, contribuiu com a mecanização das
lavouras, na expulsão da zona rural de grande número de
trabalhadores braçais, que saíram do campo em direção às
cidades à procura de emprego, inchando as favelas, ou engrossando as massas dos “Sem-Terra”, acampados à beira
de estradas, ocasionando um grave problema social.
257
SUDOESTE E OESTE DO PARANÁ
Antes que as primeiras famílias pioneiras se estabelecessem no sudoeste, nos Campos de Palmas e de Guarapuava, outros povos ali habitaram desde tempos imemoriais. Plantavam roças de milho, abóbora e mandioca, caçavam, pescavam e criavam seus filhos nas belas campinas e
faxinais cobertos de erva-mate.
Eram os Camés, Dorins e os Votorões, povos indígenas dos grupos Kaingang e os Tupi-Guarani, que estendiam seu domínio por todo território paranaense, dividiam
essa imensa área de terras entre si, por vezes nada amistosos. Os Dorins eram rudes e bárbaros, os Votorões semibárbaros e os Camés inteligentes e dóceis, porém valentes.
Havia ainda os Iratins, que habitavam o vale do Rio das
Antas e as florestas nas fraldas da Serra da Esperança.
Os Kaingang não aceitavam a presença do homem
branco nesta terra. Muitos conflitos ocorreram nos campos
de Palmas e Guarapuava entre os colonizadores e as tribos
indígenas. A partir dessa época a ocupação da região foi se
intensificando e os índios empurrados para sertão adentro.
Em 1771, Cândido Xavier de Almeida e Souza, comandante da 4ª Bandeira exploradora da região, descobriu
os Campos de Guarapuava; o motivo principal da expedição era deter o avanço espanhol na zona meridional.
Desde a ocupação dos Campos de Guarapuava, o
povoamento progrediu para a região oeste e sudoeste paranaense; suas terras foram divididas pela concessão de numerosas sesmarias, onde se estabeleceram fazendas para
criação de gado bovino e eqüino. Preocupou-se o governo
federal em efetivar a ocupação da vasta região florestal,
que se estendia até as barrancas do rio Paraná.
A ocupação dos Campos de Palmas se deu a partir
do ano de 1839. O fluxo de tropeiros que passavam por esta
258
região era muito grande, graças à Estrada das Missões, levavam gado de Nonohay, no Rio Grande do Sul, até a feira
de Sorocaba, passando por Mangueirinha e Guarapuava.
Os primórdios históricos da região fronteiriça estão
ligados ao ciclo da erva- mate e ao madeireiro, que dominaram inteiramente a economia deste território, desde o final
do século XIX.. Muitos foram os fatores de penetração e
fixação do homem nessa região. Excetuando-se o mate e a
madeira, para cá vieram peões e agregados de fazendas de
Palmas e Clevelândia à procura de novas áreas, também
foragidos da polícia do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande
do Sul e Corrientes, além de posseiros, vindos da zona do
Contestado, expulsos pela Brazilian Railway Company. A
proximidade com a região fronteiriça contribuiu para esta
penetração.
No início da colonização do oeste e sudoeste paranaense toda a vasta região que vai de Foz do Iguaçu, seguindo a fronteira do Estado de Santa Catarina aos limites
de Palmas, era sertão pouco conhecido e inexplorado, se
constituía em grande vazio demográfico.
Toda essa região era coberta por matas de araucárias
e floresta subtropical, mas, aos colonizadores, o que interessava eram os campos próprios para a pecuária. Esta atividade caracterizava a então Comarca de Curitiba. A conseqüência deste gênero de ocupação, essencialmente pastoril, manteria desocupados por longos anos as áreas de mata.
Os latifundiários de Palmas, que dominavam economicamente a região, não se interessavam em investir em
colonização de suas terras, a não ser na criação de gado. Só
em meados da década de vinte, esse vasto território começou ser ocupado, principalmente pelos posseiros.
O início da povoação de Foz do Iguaçu efetiva-se
em 1888, com a instalação da Colônia Militar do Iguaçu.
Toda a região fronteiriça, entre o Brasil e o Paraguai, até o
259
ano de 1912, quando foi criado o município de Foz do Iguaçu, pertencia à Guarapuava que, dos Campos Gerais, no
segundo e terceiro planaltos, estendia-se até as barrancas
dos rios Paraná e Iguaçu.
As colônias Marechal Mallet e Foz do Iguaçu foram
povoadas com brasileiros, justamente para garantir a posse
do território, tendo em vista questões de limites com a Argentina. A primeira estrada construída ligando Foz do Iguaçu a Guarapuava, foi em 1917; antes só existia um “picadão”, quase intransitável para carroças, que realizavam o
percurso em um mês cheio de transtornos. Só era possível e
mais rápido o tráfego com tropas de muares.
O governo do Estado do Paraná, baseado na Lei de
Terras, de 1892, da conjuntura da Primeira República, ofereceu concessões de terras para estabelecimento de colônias agrícolas, para famílias estrangeiras e nacionais.
Esse fato provocou grande movimentação fundiária
no Estado, sendo que muitas concessões foram feitas, constando, inclusive, as obrages (empresas) dos argentinos Miguel Matte, de Domingos Barthe, de Nuñes y Gibaja, de
Julio T. Allica a maior de todas as obrages, a inglesa Maderas del Alto Paraná e a Mate Laranjeiras do consórcio de
capitais brasileiro e argentino. Cada uma dessas companhias possuía portos próprios nos rios Paraná e Piquiri.
Em verdade, a presença da erva-mate em estado nativo no Alto Paraná é que constituía o verdadeiro motivo
dos interesses estrangeiros. Colonização não era seu objetivo principal. Em Foz do Iguaçu, dominava a forte presença estrangeira. O dinheiro brasileiro não possuía valor algum. Ninguém o recebia. Circulava na região o peso argentino. As atividades ervateiras, a extração de madeiras e o
comércio eram totalmente dominados por argentinos.
A década de vinte representou o ápice da extração
da erva-mate, nos ervais nativos do sudoeste do Paraná,
260
uma verdadeira extensão dos ervais paraguaios. Aqui essa
planta era explorada basicamente por empresas argentinas
e com raras exceções, paraguaias e brasileiras. A navegação
realizada no rio Paraná utilizava as embarcações platinas.
Durante muitos anos, a Companhia Matte Laranjeiras explorou a erva-mate e a madeira, brasileiras. Quando a
cultura da erva-mate entrou em decadência, por questão de
mercado internacional, os trabalhadores foram despedidos.
O tratamento a eles dispensado era o pior possível, trabalhavam em regime de semi-escravidão para os ervateiros
argentinos.
Mas, só em 1924, o general Isidoro Dias Lopes, instalado no povoado, denuncia à nação o estado de abandono
em que se encontra o lugar. O governo federal volta a sua
atenção à essa região. Inicia-se a nacionalização, obrigando
ao uso do português no comércio, na prefeitura e nas escolas. Os argentinos tinham promovido uma completa desnacionalização, com o espanhol e o guarani como línguas
correntes, e o peso argentino como moeda circulante.
Na origem tanto dos acampamentos tropeiros como
das estradas de carros de boi, estão presentes a extração e o
transporte da erva-mate, explorada por argentinos e ingleses. É o primeiro ciclo da economia regional.
Em 1930, o Interventor Federal do Paraná, general
Mário Tourinho, cancelou todas as concessões de terras
devolutas, feitas pelos governos anteriores, cujas empresas
não cumpriam as clausulas dos contratos. Desta forma reconquistou algo em torno de três milhões de hectares de
terras, que mais tarde seriam efetivamente colonizadas.
A colonização oficial, diretamente dirigida pelo Governo do Paraná, sucedeu o da concessão, pelo Estado, de
grandes extensões de terras a particulares que se comprometiam a colonizá-las. Inúmeras concessões foram feitas no
norte e oeste do Estado.
261
O que se verificou na maior parte do Oeste foi um
assalto às terras devolutas do Estado, ou a grandes glebas
particulares. Houve inúmeras invasões por “grileiros”, pessoas intrusas ansiosas em ocupar terras alheias. No começo
a ocupação da terra foi tranqüila, em razão de serem devolutas, configurando o estado de “posse”.
Esta ação de tomada da terra preocupou o Estado,
que por sua vez procurou legalizar a situação dos muitos
posseiros da região.
Na década de 1930, o progresso do Paraná era
grande. Com a crise sofrida pela industrialização do mate,
o pinheiro substitui a erva-mate e começa a ocupar o primeiro lugar na atividade econômica do Estado, é a fonte
principal de arrecadação de impostos. As exportações de
madeira para os mercados europeus e platinos e para outros
estados brasileiros expandem-se rapidamente.
As primeiras movimentações no território cascavelense deram-se por conta da implantação da Colônia Militar de Foz do Iguaçu em 23 de novembro de 1889. Este fato
intensificou o trânsito entre Foz do Iguaçu e Guarapuava. A
estrada não passava de uma trilha de tropas.
Em 1895, o ervateiro Augusto Gomes de Oliveira,
construiu uma estrada rústica, de básica importância para o
comércio da época. A trilha, suficientemente ampla para
passagem de carroças utilizadas no transporte de produtos
diversos, principiava num pouso de tropeiros, a beira do rio
da Cascavel.
Diversos tropeiros passavam por Encruziliada, com
suas bruacas carregadas de mantimentos destinados à guarnição militar de Foz do Iguaçu e portos do rio Paraná. Alguns viajantes resolveram fixar-se no lugarejo, construíram
seus ranchos e plantaram roças de milho. Ocuparam os
campos com criação de gado e muares. Daí em diante a vila
prosperou.
262
O núcleo colonial que gerou o atual município de
Cascavel foi fundado pelo guarapuavano José Silvério de
Oliveira em 1920, que decidiu se estabelecer na vila com
pequeno armazém. O lugar era conhecido como Encruzilhada. Em 1930, a vila apresenta vários ranchos de tábua
lascada, cobertas de tabuinhas, e não mais de 20 moradores.
Mais tarde o povoado passa a chamar-se Cascavel.
Segundo a lenda, a denominação Cascavel remonta
ao período da construção da Estrada Colônia Mallet (hoje
Laranjeiras do Sul) a Foz do Iguaçu. Quando tropeiros faziam pouso às margens de um riacho (atual Rio Cascavel),
certa noite ouviram o som dos guizos de cobra cascavel, e
após localizarem o réptil, o mataram. O local passou a ser
chamado de “Pouso da Cascavel” e emprestou o seu nome
ao riacho e passou a identificar o lugar.
Nos anos 40 teve início a extração da madeira em
grande escala, fator que motivou o progresso da região. A
exploração do pinheiro atrai levas de colonos e empresários gaúchos e catarinenses. As serrarias se estabeleceram
às margens da Rodovia Federal Guarapuava–Foz do Iguaçu. Multiplicaram-se, também, de preferência ao longo da
Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande.
O ciclo madeireiro, depois do café, mantivera-se
forte no Sudoeste, Oeste e Norte do Paraná, até fins da década de 1960, resistindo em situação relativamente próspera
até meados da década seguinte, com suas conseqüências,
positivas e negativas, trazendo o enriquecimento, até extinguir-se, com a devastação das florestas paranaenses.
Findo o ciclo da madeira e aberto o da agricultura,
os agricultores passaram a dedicar-se ao cultivo da soja, do
trigo e do milho em grande escala, aplicando a mais moderna tecnologia. Desenvolveu-se, também, em grande quantidade a suinocultura. Instalaram-se grandes indústrias para o
processamento de grãos e de carne suína.
263
O município de Cascavel representa considerável
potencial voltado para a agroindústria, com processamento
de sementes oleaginosas, produção de óleos vegetais refinados, fábricas de rações, frigoríficos, indústrias de papel e
produtos alimentares, fábricas de equipamentos agrícolas.
A criação das Cooperativas do Oeste e Sudoeste Paranaense, como a Cotriguaçu, Coopavel, Copacol e outras,
incentivou a expansão da sojicultura, consolidou a diversificação agrícola. As extensas glebas cultivadas com milho,
trigo e soja apresentam um panorama de rara beleza aos
olhos do viajante que demanda a estrada BR 277 rumo ao
Oeste - Foz do Iguaçu.
A construção do Hospital Regional de Cascavel
(Hospital Universitário), Hospital são Lucas, Santa Catarina, Nossa Senhora da Salete, Policlínicas de Olhos, Hospital Psiquiátrico São Marcos e diversas outras Clínicas, que
atendem a pacientes da cidade, de toda a região Oeste, e
ainda de fronteiras do Paraguai e Argentina, que procuram
os excelentes serviços médicos especializados.
A implantação da Universidade Estadual do Oeste
do Paraná (Unioeste), da Universidade Paranaense (Unipar), da União Panamericana de Ensino Superior (Unipan),
da União Estudantil de Cascavel (Univel), das Faculdades
da Fundação Assis Gurgacz (Fag), das Faculdades de Cascavel (Fadec), do Centro Interdiocesano de Teologia Católica (Cintel), faculdades que oferecem ao estudante opções
de diversos, excelentes, cursos de ensino superior.
A estrutura industrial implantada no município e o
intenso desenvolvimento de Cascavel atestam a laboriosidade do seu povo, e o empenho dos seus governantes.
Com a Lei estadual nº.790, de 14 de novembro de
1951, sancionada pelo governador Bento Munhoz da Rocha, foi criado o município de Cascavel.
264
Com o desenvolvimento do transporte feito por caminhões, sobretudo após 1930, fator que facilitou a penetração das serrarias para o interior do Estado, desenvolveuse a indústria do pinho atraindo parte da mão-de-obra excedente da erva-mate, que estava em crise.
A partir de 1946, inúmeras serrarias se instalaram no
oeste e sudoeste paranaense, regiões de vastas florestas de
pinheiros nativos. Instalaram-se em Cascavel a Madeireira
Moysés Lupion, a Industrial Madeireira que absorveu a
antiga Central Barthe e outras empresas foram criadas.
A Riograndense Maripá S/A- Industrial Madeireira
e Colonizadora Rio Paraná colonizou Marechal Cândido
Rondon em 1945, fundou: Mercedes, Toledo, Ouro Verde
do Oeste, Pato Bragado, Quatro Pontes e outras cidades.
O ciclo da madeira mantém-se até fins de 1960, decai com o fim da matéria prima. Imensas riquezas em florestas de araucárias, imbuías e perobas foram dizimadas. O
governo estava despreocupado com o futuro, sem planejamento, provocou-se, em poucos anos, o esgotamento das
reservas de pinheiro; não se pensava em reflorestamento.
Sendo a serraria uma atividade nômade, não se integra na região em que está estabelecida. De início, forma em
torno de si um núcleo populacional característico, com dezenas de casas para operários, armazém de secos e molhados, escola, capela e campinho de futebol.
Quando esgotada a floresta, a serraria é transferida
para outra boca do sertão. Essas benfeitorias ficam e contribuem para a fixação das famílias que desistem em acompanhar a serraria de mudança para outro lugar, e dão início a
povoados. A serraria deixa por onde passa uma região devastada. Dos 200 mil quilômetros quadrados da superfície
do Estado, 76 mil estavam cobertas pelas matas de pinheiro.
Hoje chega-se à triste conclusão de que o ciclo do pinho no
Paraná está praticamente encerrado.
265
A partir de 1940, gaúchos e catarinenses, sobretudo
os primeiros, vindos do sul, penetram e se instalam no Oeste paranaense. A possibilidade de adquirir terras com certa
facilidade trouxe milhares de agricultores interessados em
plantar e empresários a atuar no setor madeireiro. Grande
parte do êxito da colonização da região se deve a propaganda feita das terras a serem colonizadas.
O povoamento baseou-se em migração gaúcha e catarinense. As facilidades existentes, no entanto, atraíram
também grande número de aventureiros desejosos de enriquecimento rápido. A terra é ocupada mediante a colonização oficial do governo Manoel Ribas; da atuação de diversas colonizadoras credenciadas pelo governo; e pela invasão das terras devolutas pelos grileiros e posseiros.
O sistema de aquisição de terras devolutas que pertenciam ao domínio da União e dos Estados, era o de posse.
A legislação portuguesa, desde o século XVIII, permitia
esse tipo de propriedade, e passou a ser tolerada pela legislação brasileira. Esse sistema ainda vigorava no sudoeste e
oeste do Paraná, no início do século XX. Essa apropriação
de terras devolutas não era feita legalmente.
O posseiro chegava, derrubava a mata, abria caminhos, construía o rancho, plantava a roça, tudo sem despesas para o governo. O posseiro era geralmente a dianteira da
colonização. A posse não era definitiva. Quando os colonos
chegavam a uma região de vanguarda, compravam a posse
do caboclo ou o expulsavam à força.
Os caboclos trocavam suas posses por um cavalo,
um boi gordo, uma espingarda, um pelego ou outra coisa de
valor relativo. Os posseiros vendiam pequenas porções de
terra e forneciam aos compradores apenas documentos provisórios em pedaços de papel sem valor legal. Era a desistência da posse daquele pedaço de terra. Depois, embrenhavam-se no sertão, abriam uma nova posse mais adiante.
266
A luta pela posse da terra entre agricultores e aventureiros, por um lado, e latifundiários e seus jagunços, por
outro, gerou um clima de terror e violência por toda a região Oeste, as emboscadas e os crimes misteriosos ligados a
posse de terras agravaram-se a partir de 1950.
Em 20 de junho de 1947 o governo de Moysés Lupion, assinava o Decreto-Lei n° 646, instituindo a Fundação
Paranaense de Colonização e Imigração.
Em 1952, o Coronel João Rodrigues da Silva Lapa é
designado pelo Governo Estadual para aplacar os conflitos
entre jagunços e posseiros nas glebas em disputa.
O ciclo madeireiro no sudoeste teve rápida expansão, influenciado pelo movimento de legalização das terras
posseadas, conduzido de tal modo que se criou uma grande
instabilidade social na região, surgindo conflitos por litígios
agrários, visto que a titulação não contemplava as famílias
estabelecidas e sim elementos que residiam na capital, sem
qualquer ligação com a região.
Diversas colonizadoras se embrenharam na matas,
com o objetivo de medir e demarcar terras devolutas do
Estado. A grande maioria destas empresas se valeu de ardilosas negociatas políticas, para conseguirem a concessão de
grandes áreas de terra. Não respeitaram o direito de posse
das famílias, que estavam estabelecidas havia dezenas de
anos na região.
Passaram então a amedrontar os colonos, exigindo
pagamentos absurdos pela demarcação e titulação das terras. A situação das famílias só foi tranqüilizada após a criação do “Grupo Executivo para as Terras do Sudoeste do
Paraná”, cujo objetivo era titular as terras em litígio. Só ai
terminaram as disputas entre posseiros e jagunços mantidos
pelas empresas colonizadoras.
Uma enorme área de terras, no oeste, povoada de
erva-mate e pinhais, pertencia à família Matte. Foi conse267
guida mediante concessão no ano de 1918. Miguel Matte
fundou a Companhia Florestal do Paraná S/A, com capital
argentino e brasileiro, com sede em Foz do Iguaçu., com
finalidade de exploração da erva-mate e madeira.
Em 1946, vendeu a empresa com a gleba toda para
a Companhia Pinho & Terras Ltda., organizada naquele
ano, no Rio Grande do Sul, por cidadãos gaúchos. Esta
Companhia passou a operar no oeste paranaense, a partir de
1946, e foi responsável pela colonização de inúmeras glebas e fundação de importantes cidades como Céu Azul,
Medianeira, Matelândia, Palotina e São Miguel do Iguaçu.
Na região oeste e sudoeste do Paraná, muitos colonos vindos de outros Estados estabeleciam-se em terras
devolutas ou abandonadas, com cultura efetiva e morada
habitual. Em conseqüência, quando o Estado vendeu as
terras, ou desejou ele próprio colonizá-las, muitos lotes e
mesmo glebas inteiras já se encontravam ocupadas pelos
posseiros, o mesmo acontecendo em terras particulares.
Centenas de famílias de São Paulo, Minas, do Rio
Grande do Sul e Santa Catarina vieram ao Paraná, em busca
de terras férteis e de fácil aquisição, instalando-se como
posseiros nas glebas de terras devolutas existentes.
A terra roxa, fértil, coberta de matas de madeiras de
lei constituiu a motivação principal dos conflitos de terras,
que tiveram em sua origem a multiplicidade de títulos, alguns legítimos, outros falsos, alguns ainda dos tempos do
Império. Os conflitos pela posse eram o principal desafio
das autoridades de segurança e dos governos do Paraná.
Essa etapa final da ocupação foi marcada por lutas
armadas entre pequenos proprietários, posseiros, grileiros,
invasores e jagunços. A cobiça, a ganância de indivíduos
inescrupulosos, criou as figuras do posseiro e do jagunço,
os personagens principais nos embates violentos pela posse
da terra. Iniciam-se também questões litigiosas.
268
Com títulos falsos de propriedade, ou pela força,
invasores, muitas vezes contratados por grandes proprietários e companhias imobiliárias, apossavam-se ilegalmente
de terras, expulsando ou matando os que nela haviam se
instalado.
O governo de Manoel Ribas iniciou o projeto de colonização, rescindindo antigos contratos de colonizadoras,
excetuando a Companhia de Terras Norte do Paraná e a
empresa de Francisco Gutierrez Beltrão. Entusiasmado com
o êxito da colonização iniciada pelos ingleses, o Governo
Estadual resolveu lotear ele próprio as terras que ainda lhe
pertenciam.
Surgiram então várias colônias oficiais entre 1942 a
1944. A que mais prosperou foi a Colônia Paranavaí em
1942, que se localizava no Noroeste, no grande triângulo,
entre as barrancas dos rios Paranapanema e Paraná, confrontando a leste e sul com as terras da Companhia de Terras Norte do Paraná.
Além da colonização oficial, dezenas de imobiliárias
particulares operaram com loteamentos e colonização. Atuou também, nessa região, a Companhia Colonizadora Brasil-Paraná Loteamentos S.A. proprietária de extensa gleba
concedida, cujas terras estendiam-se até as barrancas do rio
Paraná. Fundou a cidade de Querência do Norte. Nesta região houve por muito tempo e ainda há, uma acirrada disputa e litígios pela posse da terra.
Em 1943, foi criado o Departamento de Terras do
Estado. A normalização das posses deu segurança ao colono. A venda de terras devolutas ou oriundas de antigas concessões anuladas, a companhias colonizadoras ou a requerentes particulares, traz um novo problema: a regularização
das terras ocupadas pelos posseiros ou a sua retirada do
local. A posse real dessas imensas áreas de terras pelos colonizadores não foi sem sacrifício.
269
Os conflitos de terra mais violentos aconteceram em
Jaguapitã (1947), em Porecatu (1951) e no Sudoeste do
Paraná. Também no Noroeste (1957), continuaram as disputas pelas terras de Querência de Norte, Santa Cruz do
Monte Castelo, Santa Isabel do Ivai e Icaraíma, áreas situadas na margem direita do rio Ivai e fronteiriças ao rio Paraná.
As lutas pela terra continuaram até o final do século
XX, e continuam ainda, com a pretensão dos grupos dos
“Sem-Terra” invadindo propriedades produtivas.
Por volta de 1949, levados pelo impulso de transformar florestas em núcleos de civilização chegaram à região os primeiros povoadores do lugar da antiga “Fazenda
Macuco”, incentivados por Remo Massi e seu filho Reinaldo, fundadores de Itaúna e Diamante do Norte.
Em 1958, o desbravador de sertões Enio Pipino, da
Sinop, além de colonizar, com sucesso, Terra Rica em
1950, fundou Formosa do Oeste, Iporã e Ubiratã no Paraná.
Posteriormente transferiu a sua empresa, Sinop, para o Norte de Mato Grosso onde colonizou e fundou novas cidades,
como Sinop, Cidade Vera, Sorriso, Nova Ubiratã.
A Colonizadora Norte do Paraná Ltda, dirigida por
Írio Spinardi, fundou a cidade de Loanda em 1952, e Assis
Chateaubriand em 1960.
Ariosto da Riva, dono da Companhia “Indeco”, fundou Nova Londrina.
Atuou também, no centro-oeste, a Companhia
Byington de Colonização Ltda, que, em 1953, colonizou o
município de Altônia, Pérola e São Jorge do Patrocínio.
***
270
COLÔNIA PARANAVAÍ
A história da região de Paranavaí tem seu começo
em 1501, quando espanhóis e bandeirantes portugueses
invadiram os sertões, trilhando caminhos fluviais e abrindo
picadas na floresta, com o objetivo da preação de índios,
busca de ouro e pedras preciosas. A área de terras que constitui hoje o Paraná era denominado Província do Guayrá,
pertencia ao Paraguai, e era domínio da Coroa Espanhola.
O município de Paranavaí, antes da ocupação apresentava em toda a sua extensão como cobertura vegetal a
mata característica do clima tropical, que recobria 100%
da área do atual município, distinguia-se por apresentar em
sua maior parte o tipo cerradão. Cresciam árvores de grande
porte como peroba, marfim, canela, angico.
Predomina em toda a região de Paranavaí o solo (latossolo) vermelho escuro. A formação Caiuá da série São
Bento, sobre a qual se situa Paranavaí, constitui-se de arenitos altamente desagregáveis, suscetíveis à erosão profunda
com escarpas e vales em forma de voçorocas.
O primeiro núcleo habitacional surgiu na antiga Fazenda Montoya (Fazenda Brasileira) na região de Paranavaí. Foi assim nomeada em homenagem ao padre jesuíta Antônio Ruiz de Montoya, que em 1631, bravamente, junto
com os índios, enfrentou o ataque do bandeirante paulista
Antônio Raposo Tavares.
Após a destruição da Redução de Guayrá, fugiu dos
perseguidores liderando doze mil índios numa epopéia ímpar de retirada, percorrendo cerca de oitocentos quilômetros descendo o rio Paraná, em centenas de balsas e canoas.
Os que conseguiram transpor o rio Uruguai refugiaram-se
em Reduções existentes em Ijuí, em terras gauchas.
A vasta região de terra fértil, que se limita ao norte
com o rio Paranapanema, ao sul com o rio Ivaí, a leste
271
por uma linha reta que partindo da origem da Corredeira do
Estreito no rio Paranapanema ao rio Ivaí, confrontando
com as terras do Estado e a Oeste por linha entre os rios
Paranapanema e Ivaí, era denominada Gleba Pirapó ou (Fazenda Brasileira).
Essa gleba de 317 mil alqueires de terras devolutas
que pertencia à União, havia sido concedida ao político
gaúcho Lindolfo Leopoldo Bökel Collor, mais tarde nomeado Ministro do Trabalho de Getúlio Vargas e um dos articuladores da Revolução de 30.
A Fazenda Brasileira era projeto de Lindolfo Collor,
tendo sido transferida posteriormente à Braviaco, da qual
era sócio o engenheiro agrônomo Landulfo Alves de Almeida, político baiano, que foi senador e interventor na
Bahia, o seu irmão Humberto Alves de Almeida e Dr. Geraldo Rocha, dono de jornais no Rio de Janeiro.
A Braviaco surge em 5 de outubro de 1920, como
sucessora da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande, subsidiária da Brazilian Railway Company, obteve a concessão das terras da Fazenda Brasileira (Gleba Pirapó). As
concessões a favor da Braviaco constavam ainda da Gleba
Catanduvas, Gleba Piquirí, e Gleba Ocohy, num total de
500 mil alqueires (1.185.914 hectares).
Nesse período o território correspondente ao noroeste do Paraná pertencia à Comarca de Tibagi. A região era
habitada por tribos de índios Guarani, Kaingang e Xetá
(extintos). Não podemos deixar de reconhecer que eles foram os primeiros habitantes e donos da terra, desde os tempos remotos.
Na disputa pela ocupação das terras do Paraná desde o século XVII, até e durante o século XX, muitos capítulos da história foram escritos com fogo e sangue; primeiro
massacrando e expulsando os índios, depois os caboclos,
272
em seguida os posseiros que deveriam desocupar e abandonar a posse.
Até o ano de 1925, a região do atual município de
Paranavaí era escassamente habitada por caboclos e posseiros. Os primeiros desbravadores atingiram o lugar através
da rudimentar estrada que seria uma ramificação do antigo
Caminho do Peabiru, uma continuação do ramal que vinha
de Presidente Prudente em sentido meridional, a ligar a
redução de Nossa Senhora do Loreto e Santo Inácio Mini,
seguindo por via fluvial pelo rio Paranapanema até Guayrá.
Em 1926, foi iniciada a construção de uma estrada
de rodagem com 110 quilômetros, partindo das proximidades do rio Pirapó, à margem esquerda do rio Paranapanema
com destino à Fazenda Brasileira. Foi também construída a
estrada com 100 quilômetros de extensão, ligando a Fazenda ao Porto São José, dando acesso à Guayra, Porto Mendes
e Argentina por via fluvial.
Em 1927, o Distrito de Montoya recebeu seu Cartório de Paz, com escrivão nomeado pelo Estado. A Fazenda
Brasileira era sede geral da Companhia Brasileira de Viação e Comércio (Braviaco), que plantou um milhão de pés
de café e formou 300 alqueires de pasto para gado. Nessa
empreitada trabalhou um contingente humano de 1.200
famílias que foram trazidas do Nordeste.
O Interventor Federal do Paraná, general Mário Alves Monteiro Tourinho, baixou o decreto nº 300, de 3 de
novembro de 1930, que cassou sumariamente todas as concessões de terras no Estado, por não cumprimento das cláusulas dos contratos, e por terem sido feitas sem observância
das disposições legais e contrárias aos interesses públicos.
Cancelou a concessão das terras feita à Braviaco pela construção do ramal Ponta Grossa-Guarapuava. Pelo
decreto, fez retornar ao domínio do Estado do Paraná todas
273
as glebas devolutas, concedidas pelo Império ou pela Província.
Em 8 de abril de 1931, mediante o decreto nº. 800,
o Interventor Mário Tourinho regulamenta a venda das terras devolutas do Estado, objetivando solucionar o problema
da colonização das terras paranaenses por famílias nacionais e estrangeiras, limitando a 200 hectares a área a ser
concedida a cada família ou pessoa, e fixa o preço em 18
cruzeiros por hectare.
Foi cassada a concessão de terras da “Fazenda Brasileira”, pois o propósito de colonização da imensa gleba
concedida não se efetivou. Os cafezais, já com três anos,
começando a produzir, foram abandonados, e o mato tomou
conta das plantações; as famílias foram embora.
A Fazenda foi desocupada e abandonada em 1932.
A área toda volta às mãos do Estado do Paraná, que determina seu loteamento. Após a cassação, toda aquela região
transformou-se em campo de luta pela posse das terras. A
violência reinava de forma brutal e explícita, na antiga “Fazenda Brasileira”.
Getúlio Vargas, descontente, exonera Mário Tourinho do cargo de Interventor Federal e nomeia para o lugar
seu amigo pessoal, Manoel Ribas, natural de Ponta Grossa,
que governou o Paraná por treze anos consecutivos, de 30
de janeiro de 1932 até 3 de novembro de 1945.
A Fazenda Brasileira limitava-se com as terras da
C.T.N.P., rios Paranapanema, Paraná e Ivaí – resultando
destes dois últimos a nova denominação de Paranavaí.
Em 1933, Manoel Ribas planejou a colonização desta região, que começou efetivamente a partir de 1944, sob a
orientação do Dr. Francisco de Almeida Faria, quando se
deu a retomada do crescimento do povoado, já com o nome
de “Colônia Paranavaí”.
274
Dois personagens lendários se destacam nessa região, o tenente Telmo Ribeiro e o capitão Aquiles Ferreira
Pimpão. Eram homens rigorosos, duros e autoritários, nomeados e apoiados pelo interventor Manoel Ribas. Eram “a
lei” na Colônia Paranavaí.
O tenente, depois, coronel Telmo Ribeiro, considerado representante de Manoel Ribas, chegou à Colônia Paranavaí, por volta de 1936, com a função de fazer a limpeza na área da antiga concessão dada à Braviaco, expulsando todos os caboclos, posseiros e “grileiros”, que haviam se
posseado nas terras devolutas recuperadas pelo Estado.
“Grileiros” eram indivíduos que procuravam apossar-se de terras alheias, mediante falsas escrituras de propriedade. Após a limpeza ficaram muitas cruzes pelos picadões, como prova dos seus métodos brutais, ilegais mas
comuns naquela região e naquela época. O coronel Telmo
era o homem que resolvia todas as questões, literalmente
mandava nesse território.
Em razão de aquela localidade estar ligada, por estrada, somente ao Estado de São Paulo, Manoel Ribas, determinou que fosse aberto um “picadão” que, partindo de
Rolândia, passava pela região de Maringá, prosseguia até o
antigo povoado de Montoya (Fazenda Brasileira), ligando
este ao Porto São José no Rio Paraná, fazendo conexão
com o restante do Estado.
O “picadão” existente que atravessava o sertão do
Noroeste do Paraná, foi melhorado em 1939, pelo capitão
Telmo Ribeiro, e batizado como “Estrada Boiadeira”, nela
transitavam tropas de gado que vinham de Mato Grosso em
direção a São Paulo.
Pela Lei n°.790, de 14 de novembro de 1951, foi
criado o município de Paranavaí, com o território desmembrado de Mandaguari.
275
Na área da antiga Fazenda Brasileira, originaram-se
os municípios de Paranavaí, São Carlos do Ivaí, Paraíso do
Norte, Tamboara, Nova Aliança do Ivaí, Mirador, Amaporã, Planaltina do Paraná, Guairaça, Santa Isabel do Ivaí,
Querência do Norte, Santa Cruz do Monte Castelo, Loanda,
Porto Rico, São Pedro do Paraná, Marilena, Diamante do
Norte, Itaúna do Sul, Nova Londrina e Terra Rica.
Depois de sua vertiginosa ocupação, a região da antiga Fazenda Brasileira perdeu substancial contingente humano a partir de 1962, com a decadência da cafeicultura
regional atingida pelas fortes geadas e o empobrecimento
do solo. Ganhou espaço a pecuária bovina com a formação
de grandes fazendas, ocasionando maior êxodo rural.
A instabilidade do arenito Caiuá e a improvidência
do homem estão convertendo o noroeste do Paraná em
deserto. A ganância, a sede de lucros, sobrepõe-se ao bom
senso e a responsabilidade, e não é obedecida a Lei Federal
de Proteção ao Meio Ambiente, que obriga a deixar 200
metros de mata ciliar ao longo dos rios, desde a cabeceira
até a foz.
Desprotegido nas margens, enormes quantidades de
terra é conduzida pelas chuvas aos rios assoreando-os, a
água vira lama. As perdas da fertilidade do solo são irreparáveis. Poluem-se os rios com produtos químicos de fertilizantes e defensivos. Os nossos rios estão pedindo socorro.
***
276
TERRA RICA.
A floresta tropical da parte norte do terceiro planalto, de terras roxas, abrangendo uma área vastíssima, contínua, desenvolveu grande variedade de árvores de madeira
nobre. Destacavam-se frondosas e gigantescas perobasrosa, angico, pau-marfim, pau-d´alho, canela, cedro, palmito, figueira, ipê roxo, canjerana e luxuriante vegetação.
No entanto, no extremo noroeste do Paraná o solo é
arenoso, chamado de Arenito Caiuá, recoberto pela mata
latifoliada perene, subtropical, também rica em madeira de
lei. Era uma floresta densa, assustadora, cheia de animais
selvagens, aves, répteis, formigas, mosquitos, pernilongos,
e insetos que não davam trégua a ninguém.
Os governos do Estado, das décadas de quarenta e
cinqüenta, movimentaram-se no sentido de colonizar as
regiões Oeste, Noroeste e Norte Novo do Paraná. Para isto,
não economizaram concessões de terras às empresas colonizadoras e às imobiliárias, em troca, exigiam a imediata
colonização.
Em 1947, Aniz Abud, empresário paulista, requereu
e obteve, junto ao governo estadual de Moysés Wille Lupion de Troia, a concessão de uma gleba de terras devolutas
de 28.000 mil alqueires paulistas, ou 67.760 mil hectares,
que constituem o atual município de Terra Rica, no Noroeste do Paraná.
Foram adquiridas ao preço de 2,00 (dois ) cruzeiros
por hectare. Abud transferiu essa gleba para Sociedade
Imobiliária Noroeste do Paraná “SINOP”. Constavam como
sócios da empresa Sr. Adhemar de Barros, Ênio Pipino e
João Pedro Moreira de Carvalho.
A gleba de terras adquirida de Aniz Abud, a ser colonizada pela Sinop, estava localizada no Norte Novíssimo.
Era uma nova ”boca do sertão” que se abria, na margem
277
esquerda do rio Paranapanema. Encravada nas terras da
Colônia Paranavaí, tendo como limites, à direita, a cabeceira do ribeirão Coroa do Frade, descendo por este até a sua
foz no rio Paranapanema, à esquerda, a nascente do ribeirão do Quati e do Corvo, na divisa com Diamante do Norte, descendo até a foz no rio Paranapanema.
No início de 1949, foi aberta uma clareira no meio
da mata e construído o primeiro rancho de pau-a-pique coberto com folhas de palmeira. O local serviu de acampamento para os funcionários da Companhia. Os engenheiros
da Sinop, Dr. Jaime Patrick Clarck, Yukiji Sudô e o agrimensor Antônio Sugahara, fizeram a divisão da área em
pequenos lotes rurais de 5, 10, 20 e 50 alqueires e delimitaram o perímetro urbano.
A Sinop reservou na sua gleba uma área de cem
alqueires, num local privilegiado para o estabelecimento da
nova cidade, que inicialmente recebeu o nome de “Estrela
do Norte”, substituído mais tarde por “Terra Rica”, devido
à fertilidade do solo e às extensas florestas povoadas de
centenárias árvores de peroba rosa.
A área escolhida oferecia as melhores condições
quanto à topografia, com um relevo suave, não muito distante dos vários cursos d‟água, tributários do rio Paranapanema que banham aquela região. Primeiro foi feita a derrubada da mata, depois de seca e queimada, realizaram a
limpeza dos tocos de árvores que restaram. Ficaram ainda,
nos lotes urbanos, enormes toras de peroba, semiqueimadas, com os galhos secos levantados acima do chão.
Em seguida, o terreno foi aplainado por tratores e
niveladoras, traçadas as primeiras ruas e avenidas. O povoado que se formava tinha apenas uma rua principal, a Avenida São Paulo, que corria de um extremo a outro do perímetro urbano, e servia também como pista de pouso e de-
278
colagem dos aviões monomotores da Sinop que traziam
corretores e compradores de terras.
No local demarcado ergueu-se a estrutura da primeira casa, o “Hotel Central “, construído pela Sinop e arrendado ao Sr. José e Dona Maria Ribeiro. Dona Maria era
uma baiana despachada, alegre e trabalhadeira, comandava
a cozinha com voz forte, no meio das panelas e caldeirões.
O hotel servia como ponto de referência; ali se hospedavam
os viajantes, empreiteiros, corretores e compradores de terras e os que não tinham ainda onde se instalar.
Os suprimentos para o Hotel eram trazidos de Presidente Wenceslau, pois ainda não havia nada que fosse produzido na região. Havia sim na mata muito palmito e caça;
antas, tatus, porcos do mato e aves que eram abatidas e
consumidas pelos hóspedes do Hotel Central.
Para suprir as necessidades mais urgentes das famílias e de centenas de peões que derrubavam a mata, trabalhavam na construção das casas e nas plantações, foi logo
implantado o patrimônio e incentivado um diversificado
comércio.
A Avenida São Paulo era a rua principal, em cujos
lados começaram se alinhar as casas de comércio e residências. A cidade nascia no meio da mata, onde todo dia chegava gente do Brasil inteiro, em jardineiras, caminhões e
Jeeps, eram os primeiros colonos desbravadores do sertão.
Depois vinham mais famílias, de todas as regiões do país,
paulistas, mineiros, nordestinos e paranaenses.
Nos primeiros anos chegaram à Terra Rica, em caminhões adaptados para transporte de passageiros, os “paus
de arara”, centenas de trabalhadores braçais, peões, que
logo se engajavam nas turmas de derrubadas de mata e nas
plantações de café.
Os peões iam para os ranchos na segunda feira e
voltavam no sábado. Ficavam nas pensões e casas de prosti279
tutas. Gastavam nos finais de semana tudo o que ganhavam
durante a semana. Com o fim das derrubadas, acabavam os
peões solteiros, que iam embora à procura de outra derrubada, ficavam só os casados, morando na fazenda para cuidar dos cafezais.
Vieram também ao novo patrimônio, empreiteiros,
sitiantes, lavradores, colonos, corretores de imóveis, carroceiros, carpinteiros, comerciantes, pessoas de toda a gama
de profissões, que poderiam desenvolver numa cidade incipiente. Apareceram aventureiros, jagunços e pistoleiros,
mas não se fixavam, logo iam embora.
Houve alguns conflitos entre a Sinop e posseiros
que moravam nas terras, que afirmavam terem nascido ali e
por lei a posse era deles. Para retirar os posseiros, caboclos
e grileiros que estavam ocupando as terras que tinha comprado do Governo, a Sinop teve que expulsá-los, para isso
usou-se a força bruta dos pistoleiros.
A Sinop, tal como as outras Companhias colonizadoras, possuía jagunços e pistoleiros, como o famoso Taquara. Esse fato permite demonstrar que os conflitos eram
resolvidos de forma violenta. Muitos corpos de posseiros e
grileiros desceram o rio Paranapanema.
Era a lei do mais forte.
As famílias de pioneiros chegavam ao lote adquirido
e se acomodavam debaixo de barracas de lona, sem o mínimo de conforto, até levantar um rancho de pau-a-pique
coberto de folhas de palmeira, rebocado de barro, deixando
frestas, onde muitas vezes a onça tentava colocar a sua pata
felina. Essa cabana servia como abrigo até que se pudesse
construir uma casa melhor.
Em seguida, faziam a derrubada da mata. Deixavam
a derrubada secar pelo espaço de três meses, depois ateavam fogo, que ficava por vários dias ardendo; extinguindo-se, deixava atrás de si a terra coberta de cinzas e restos
280
de troncos calcinados. Abriam-se as covas e plantavam-se
as mudas de café. No meio das fileiras plantavam-se feijão,
arroz e milho. Viviam da colheita destes cereais até o café
começar a produzir, decorridos três a quatro anos.
Em 26 de julho de 1951, começava a odisséia de
mais um pioneiro norte-paranaense. Alberto Filipak e a
esposa iniciavam a viagem de mudança deixando a Colônia
Chupador (atual Alvorada), perto da cidade de Irati, sul do
Paraná, para fixar residência em Terra Rica, que se situava
no extremo noroeste do Paraná.
Faziam parte dos muitos pioneiros que ali chegavam
de diversos cantos do país à procura de oportunidades, participando do processo de crescimento e construção da cidade. Como todos, acalentavam sonhos e esperanças. Juventude, era a idade certa para começar, pois pioneirismo se
faz na mocidade, quando toda a garra e o vigor disponíveis
fazem impulsionar a seiva do progresso e do desenvolvimento de uma região.
Já decorreram dois dias de viagem. O comboio de
caminhões que seguia para o Norte estava na estrada no alto
da Serra do Cadeado, perto de Mauá, pequeno núcleo, localizado além, no alto da Serra de Apucarana.
Alguns anos antes, pela mesma trilha tinham passado as primeiras caravanas de mulas, levadas pelos tropeiros,
rumo ao sertão do norte do Paraná. Depois o caminho foi
alargado e terraplenado pelos ingleses da Companhia Norte
do Paraná.
Mesmo assim havia atoleiros que duravam o ano inteiro, nos trechos onde batia pouco sol, nas sombras da encosta da Serra, onde no alto elevavam-se árvores seculares.
Caminhões encalhavam por dias a fio e era preciso retirar a
carga para desatolar. Foi exatamente isso que aconteceu
com os caminhões que levavam a mudança e as máquinas
que Alberto Filipak transferia para Terra Rica.
281
Choveu a tarde toda, uma chuva fina que deixou a
estrada lisa como sabão. Foi preciso descarregar os caminhões para desatolar e colocar correntes. Pernoitaram num
rancho de pau-a-pique, onde dormiram sentados, encostados um no outro. Tomaram o café em canecas de lata, acompanhado de raiz de mandioca cozida. Felizmente a estrada secou e os caminhões puderam seguir viagem.
Mais três dias se seguiram de viagem penosa, seguindo rumo à Apucarana e Maringá por estradas estreitas,
lamacentas e escorregadias, quando chovia, ou cobertos de
pó vermelho quando o sol queimava.
No quarto dia os caminhões tomaram a direção da
Colônia Paranavaí, agora, com os leitos da estrada forrados
de bancos de areia fina. Era preciso ter o máximo de cuidado ao atravessar tais areiões, pois se o motorista não
embalasse o veículo encalhava no meio do trajeto, e só sairia de lá puxado por trator de esteira.
Pernoitaram na vila de Paranavaí, que já era um núcleo bem populoso, com uma infra-estrutura comercial organizada, com armazéns, hotéis e farmácias, igreja, estação
rodoviária e outras benfeitorias.
De manhã iriam enfrentar o último e o mais difícil
percurso que demandava à Terra Rica. Não era uma estrada, mas um caminho sinuoso, pelo meio da mata, com
fundos sulcos feitos pelos veículos e areiões acumulados
pela chuva. A viagem de 60 quilômetros era um desafio à
perícia dos motoristas.
Após seis difíceis horas de viagem, um dos homens
que viajava em cima da carroceria apontou uma grande
clareira no meio da mata, e, ao longe, via-se fumaça das
chaminés. Era o novo povoado. Uma rua larga e reta de
terra, adentrava o lugarejo.
Casas sem pintura, ainda rosadas da madeira nova,
entre ranchos de palmito. Diversos terrenos limpos, pron282
tos para novas construções, nas datas demarcadas. Casas
brotavam da terra ainda com restos da mata, palmitos e
troncos queimados, ainda fumegando. Ouvia-se a sinfonia
de batidas de martelos. Nascia a cidade.
Vinham mineiros, paulistas, nordestinos, nortistas,
gaúchos, catarinenses e migrantes do sul do Paraná. Uns
vinham comprar terra para plantar café, outros para cultivar
algodão e cereais. Outros ainda tencionavam construir serrarias no patrimônio ou no interior da mata, para explorar a
madeira de peroba-rosa abundante na região.
Ao chegar em Terra Rica, Alberto procurou o engenheiro da Sinop para demarcar as datas que havia comprado anteriormente. No local fez construir um rancho de
pau-a-pique para servir de cozinha e um rancho comprido,
coberto de lona para acampamento-dormitório dos peões
que tinha trazido consigo do sul e outros que devia contratar para o trabalho de montagem da serraria, e derrubada da
mata para plantio de café. Ele e a esposa hospedaram-se no
Hotel Central.
Com o propósito de construir a serraria à beira de
um rio, adquiriu 3 alqueires de terra, do cidadão Alberto
Martinhão, localizada às margens da Água Guairacá, distante 10 km do patrimônio de Terra Rica, em direção à gleba Adhemar de Barros, que estava sendo demarcada.
O picadão que dava acesso ao local era apenas um
túnel verde de três metros de largura, com o teto de galhos
das altas árvores e cipós entrelaçados a 4 metros acima do
chão, encravado no meio da floresta virgem. Era por este
caminho que Filipak teria que transportar a sua serraria. Ele
a levou, era homem determinado e de grande coragem.
Mandou os peões derrubarem a mata e limparem o
lugar demarcado para a construção. O cunhado Miguel
Demitrow, que veio do sul com a mudança, era carpinteiro
283
e Hilário Boesch, técnico em montagem de máquinas. Ambos comandavam a execução da obra.
Construídos os grandes barracões que iam comportar as máquinas da serraria, edificou-se o aglomerado de
casas para os operários e suas famílias. Não demorou muito e a caldeira a vapor dava o seu primeiro apito. Estava
pronta a serraria e estavam nos seus postos os operários
que iriam fazê-la funcionar. Houve festa de inauguração,
com discurso e foguetes.
Para explorar a madeira de peroba que era abundante na região, só era preciso retirar as toras, já cortadas, do
meio das derrubadas, facilitando aos colonos o trabalho na
limpeza do terreno para plantação de café. Feita a medição
na roça, para posterior acerto, as toras eram estaleiradas na
beira da estrada, depois transportadas pelos caminhões para
o pátio da serraria.
Em seguida, foram construídos e organizados, o escritório da firma e, anexo a este, o armazém, que, inicialmente era dirigido pela Elizabeth (Isabel), esposa de Miguel Demitrow. Depois foi construída a escola, que era freqüentada pelas crianças da serraria e da colônia. Edificou-se
também a capela. As mulheres da localidade organizavam
rezas e terços todo final da semana.
Não se podia esquecer de preparar o campo de futebol, para o lazer e divertimento dos operários. Nos finais de
ano era organizada a festa de Ano Novo, com missa, churrasco oferecido pela firma, futebol à tarde e baile à noite,
animado pela música de sanfona, viola e pandeiro.
Como os operários em sua maioria eram nordestinos, na reunião tocava e dançava-se ao ritmo de samba e
pagode. Às vezes, no calor da festa, os ânimos se alteravam
e começava a briga. Neste caso era necessário chamar a
polícia para acalmá-los.
***
284
Contavam que naquele sertão do Noroeste do Paraná, que era uma terra bruta, havia índio, onça, malária, tifo,
febre amarela e leishmaniose, miríades de mosquitos e borboletas voejando à beira de rios e pântanos. Não havia estradas, só picadões no meio da mata fechada que ziguezagueavam entre colossais perobas, que várias pessoas juntas,
de mãos dadas não conseguiriam abraçar.
Para atender a essa população que se dirigia para a
zona rural, era necessário construir estradas de acesso às
glebas a aos respectivos lotes. Quando chovia, era quase
impossível o trânsito. A estrada que levava à vila de Paranavaí era uma trilha estreita, pelo meio da mata, os areiões
acumulados nos leitos pelas águas das chuvas difíceis de
atravessar.
Em direção à divisa do Estado de São Paulo, mais
precisamente à Presidente Wenceslau, onde se situava a
sede da Sinop, havia uma estrada provisória, recortada no
meio da floresta, que levava ao porto Euclides da Cunha, às
margens do rio Paranapanema. Na época das chuvas ficava
intransitável, por causa dos atoleiros que se formavam no
barro argiloso ( massapé) que grudava nas rodas.
O veículo teria que atravessar o rio de 500 metros de
largura, em balsa, puxada por cabos de aço. A balsa era
feita de três batelões compridos de ferro, de aproximadamente dois metros de altura, unidos por vigas de madeira e
assoalhada com pranchas grossas de peroba. Tinha vinte
metros de comprimento.
O balseiro ligava o motor a óleo cru, que metralhava
o silêncio do rio. Por segurança a balsa ia presa por um
cabo curto a outro cabo de aço esticado acima do rio. Acontecia, às vezes que as águas do rio subiam vertiginosamente
com a chuva torrencial, encrespando com o vento, esticava
o cabo de aço que rangia, balançando a balsa até que o cabo
de aço quebrava, a água enfurecida puxava a balsa rio a285
baixo, com a correnteza, rodava até encontrar uma corredeira de pedras grandes, espalhadas acima do leito, onde o rio
se espraiava. A balsa batia nas pedras e os batelões de ferro
entortavam como papelão. Ali ela parava.
Diariamente trafegavam por ali caminhões com mudanças que se dirigiam ao Paraná e jardineiras (ônibus),
lotadas de passageiros que iam ou voltavam de Terra Rica.
Certo dia, o motorista da jardineira encostou na barranca do rio e buzinou para o balseiro trazer a balsa para
outro lado da margem. Os passageiros, para sua segurança,
desceram e foram a pé até a jangada. Embarcaram, a jardineira, um jeep, um caminhão de mudança e uma charrete,
em seguida subiram os passageiros. Fincados firme os
mourões do embarcadouro, com os dois cabos de aço se
estendendo esticados, acima do rio.
O balseiro desamarrou do embarcadouro uma das
cordas, o ajudante soltou a outra. Jogaram as cordas no
convés, pularam para a balsa já na correnteza. Eram cordas
da grossura de um punho, sujas de barro vermelho. Soltaram a balsa que deixou a margem, guiada e empurrada
por longo varão de madeira. O motor demorou a pegar,
depois roncou... tossiu... e parou novamente. Na segunda
tentativa funcionou bem e deslanchou.
Depois de duas horas e meia de travessia pelo caudaloso rio, a jangada atracou no outro lado da margem. Os
passageiros embarcaram na jardineira para prosseguir a
viagem, pela estrada estreita, lamacenta, que se enfiava
pelos dois paredões verdes e sombrios da floresta.
As rodas de um caminhão tinham aberto duas trilhas e a jardineira seguia por elas, o motorista sabia que se
saísse do sulco não iria para frente, o carro deslizaria para a
valeta, devia seguir as trilhas batidas. Os viajantes nunca
tinham visto tanta mata, só havia floresta por todos os lados, os galhos debruçados na estrada, precisava afastá-los
286
para passar. E de repente caiu uma pancada de chuva, gotas
grossas, rápida chuva de verão que encharcou a floresta, a
estrada. Naquela terra de matas, uma só chuva não enchia o
rio, pois antes a floresta bebia quase toda a água que caia
do céu, as árvores cobertas de parasitas eram enormes esponjas sugando a chuva.
A mata toda sombreada, estava sempre úmida e
bastava uma chuva para fazer ressurgir os atoleiros nas estradas. Correntezas de água desciam morro abaixo invadindo as valas cavadas pela erosão à margem da estrada. Esperaram durante uma hora para que a água escorresse para as
valetas, e continuaram viajando pela estrada com atoleiros
ou lisa como sabão.
Adiante, a jardineira escorregou na lama, indo parar
no barranco. Os passageiros desceram e olhavam desanimados. Um homem ajudou a cortar capim e jogar no sulco
fundo feito pelas rodas do ônibus ao patinar no barro. O
motorista raspou com enxadão a argila vermelha, escorregadia, defronte dos pneus, para conseguir colocar as correntes. Feito isso, o chofer sentou-se ao volante e gritou:
- É preciso empurrar o ônibus porque só a força do
motor não vai resolver.
Os passageiros desceram do barranco onde tinhamse empoleirado, agarraram na traseira e nas laterais do ônibus. O motorista acelerava o motor, os homens empurravam, as rodas patinavam jogando barro para trás, mas o
veículo tornou a atolar. Novamente o motorista acelerou
com toda força do motor, os homens empurrando juntos,
fazendo careta e amassando barro até as canelas, até que a
jardineira deu um solavanco para a frente quando as rodas
pegaram terra firme, o ônibus subiu em ziguezague, as rodas espirando barro nos que empurravam atrás. Finalmente
desencalhou. Os passageiros já felizes subiram na jardineira
e prosseguiram viagem rumo à Terra Rica.
287
Em 1952, surgiram as primeiras casas comerciais,
farmácia, hotel e restaurante, tudo muito precário. A luz
elétrica era fornecida por um pequeno gerador elétrico, da
Sinop, que funcionava das dezoito às vinte e três horas.
Mais tarde foi construída a Usina Elétrica Padre Eduardo,
pela Sometra.
Como a cidade de Terra Rica foi localizada num
espigão, não havia riachos, córregos, ou fontes de água.
Esta era fornecida pela Sinop em tambores de 200 litros e,
quando se esgotava, as pessoas munidas de tambores iam
de carroça, ou Jeep Wyllis com tração nas quatro rodas,
pegar água nos rios mais próximos. Os tambores com água
eram colocados em jiraus, feitos de paus roliços, um metro
acima do chão, próximo às moradias. A roupa era lavada
nos rios. Mais tarde foram perfurados dois poços artesianos,
que passaram a abastecer a cidade de água.
De início, havia só alguns Jeep Wyllis, Toyota e
caminhões de transporte de carga, automóveis não existiam,
pois não havia estradas para eles, atolariam nos areiões que
se formavam com as chuvas. A maioria das pessoas andava
a cavalo e muitas charretes (veículo de duas rodas puxado
por um cavalo) faziam o transporte de mantimentos e passageiros pelo patrimônio, pelas chácaras e pelos sítios.
A odisséia começava quando chegava a época das
chuvas. O patrimônio de Terra Rica ficava isolado por terra.
Só havia transporte utilizando-se os aviões da Sinop. Com
o prolongamento das chuvas, as mercadorias iam se esgotando e muitas vezes chegavam a faltar. Era uma época de
grandes dificuldades e sacrifícios, que foram compensados,
para aqueles que enfrentaram os obstáculos e os venceram.
O comércio expandiu-se, abriram-se diversas casas
comerciais, destacando-se a “Casa Alberto”, de propriedade
de Alberto Filipak (comprou o fundo de estoque da bodega
de Chico Rico). O novo armazém foi inaugurado em 1953.
288
Na “Casa Alberto” sempre havia a mercadoria que
o sitiante e o peão precisasse. Vendia de tudo, desde açúcar,
sal, farinha, feijão, banha de porco e óleo, carne seca, machados, facões, cunhas e foices, violão, cavaquinho e sanfona, calças e calções de brim, camisas de algodão xadrez,
botinas de couro cru, alpercatas de sisal, querosene, lampiões e lamparinas. Os peões compravam aguardente da marca “Oncinha” ou „Pirassununga”, que levavam para os acampamentos nas derrubadas pelo sertão adentro. Bebiam
e tocavam violão nas silenciosas noites dos ranchos. Bebida e música tornavam menos árduas as suas vidas solitárias.
As vindas dos sitiantes ao patrimônio limitavam-se
aos sábados ou segunda-feira. Alguns quando podiam, vinham assistir à missa de domingo, na pequena capela de
Santo Antônio de Pádua, padroeiro da cidade.
Com o crescimento do patrimônio foi necessário
construir uma escola. Adaptaram para isso uma casa residencial e professoras voluntárias começaram a lecionar. Os
filhos dos pioneiros já podiam estudar.
As florestas da região eram abundantes em árvores
de madeira nobre. Construíram-se diversas serrarias com a
finalidade de aproveitamento da infinidade de troncos de
árvores abatidas na mata, ainda com casca, serradas em
toros de diversos comprimentos, esparramadas pelas derrubadas. Estaleirava-se os toros à beira de estrada, para dar
espaço ao plantio de café.
Além da indústria de madeira de Alberto Filipak na
Água Guairacá, foi construída a de Joaquim Brizo, de João
Barionuevo, de Antônio Lanziani, de Simão Lebedenko, de
Irmãos Solleti. Como também as cerâmicas para fabricação
de telhas e tijolos, da Sinop e de João Snat, próximas ao rio
Paranapanema.
Localizado no Norte Novíssimo, o hoje município
de Terra Rica possui a área de 676 quilômetros quadrados
289
e 1.688 pequenas propriedades rurais. A altitude é de 452
metros acima do nível do mar. O solo arenoso, originado da
decomposição do arenito caiuá e de rocha eruptiva, é muito
fértil mas extremamente vulnerável à erosão.
Em 10 de outubro de 1947, foi criado o município
de Mandaguarí, a Colônia Paranavaí era um dos quatro distritos. No dia 5 de agosto de 1950, Terra Rica foi elevada
à categoria de Distrito Administrativo de Paranavaí, desmembrando-se do município de Mandaguarí, ao qual pertencia até aquela data. Em 26 de novembro de 1954, pela
Lei estadual n.º 253, Terra Rica foi elevada a município.
***
290
No início de Terra Rica, quando ainda não havia escola no patrimônio, para aquelas crianças cujos pais tinham
posses o recurso era estudar em outros centros maiores,
como Presidente Wenceslau ou Presidente Prudente no Estado de São Paulo, ou em Curitiba. Nesse caso os estudantes ficavam em internatos, geralmente dirigidos por religiosos, só visitando a família nas férias.
Foi o que ocorreu com Ricardo e Mari Carmem, os
dois filhos de Alberto Filipak, que, em 1952, foram estudar
em Presidente Wenceslau, no Estado de São Paulo. Foi alugada uma casa para residência das crianças e Olga, funcionária antiga, foi fazer-lhes companhia. Estudaram naquela
cidade durante um ano, voltando depois para Terra Rica,
onde já foi iniciada uma escola, com professoras voluntárias lecionando.
Nessa época Monika esperava mais um filho. Tendo chegado o tempo do nascimento da criança, e como em
Terra Rica não havia recursos médicos, ela foi para Maternidade em Presidente Prudente. Em 22 de julho de 1952, às
9 h30 m da manhã, nasceu a sua filha caçula, Rosi Celeste.
Dias após, recebendo alta do hospital, Monika precisava
voltar para casa em Terra Rica.
A estrada que levava de Presidente Prudente a Terra
Rica estava intransitável, devido à época de chuvas. Dois
dias depois, Alberto, veio de Jeep Willys buscar a mãe e a
filha recém-nascida. Como a sua condução não oferecia
nenhum conforto às passageiras e a distância era longa, não
havendo outra alternativa ele contratou um avião Cessna,
monomotor para transportá-las.
O bebê, Rosi Celeste, veio para casa como só os
distintos pioneiros chegam, de avião. A aeronave aterrizou
na Avenida São Paulo, central, que servia de pista de pouso
e decolagem, e a mais nova cidadã terrariquense com a
291
mãe, desembarcaram do avião, na porta da sua residência.
Foram recepcionados pelos dois irmãos, em férias.
A infância feliz da menina Rosi foi cheia de agitação e traquinagens. A sua personalidade forte e inconfundível e a fértil imaginação criavam situações incomuns. A
sua pagem Ilza não conseguia segurar a vivacidade da menina que, junto com seu primo Adão (Didio) e as amiguinhas, aprontava mil travessuras. Rosi adorava o pai, ele
fazia todas as vontades da filha caçula.
Monika passava os dias inteiros atolada no trabalho,
atendendo o armazém, o escritório e a serraria. Ocupada
com os negócios, não conseguia dar maior atenção à pequena filha. Depois de analisada a delicada situação, foi
resolvido pelos pais, que Rosi, de seis anos de idade, ficaria melhor atendida pela avó Anna e pelos irmãos Ricardo e
Mari Carmen, que moravam em Curitiba. Em 24 de junho
de 1959 ela foi para junto deles.
***
Anastácia Greskow (Nascia) mudou-se com a família do tio João para o sobrado novo em Irati em 1949. Residiu com eles até 1953. Por ocasião das festas de Natal fui
visitar a tia Maria, e no meu retorno à Terra Rica, Anastácia, em férias, viajou comigo para conhecer a cidade. Gostou e resolveu ficar.
Anastácia era uma jovem bonita, de porte altivo, de
maneiras refinadas, educada. Ela sempre foi uma verdadeira
lady. Seu modo de ser chamou atenção de Mário Martinhão, paulista, nascido em Novo Horizonte, Estado de São
Paulo. O jovem era militar, cadete da Aeronáutica, veio
com o pai a Terra Rica, para ajudá-lo na organização da
Fazenda, adquirida da Sinop. Também dedicava-se à corretagem de terras da Companhia.
292
Moço de bom caráter, simpático e atencioso, Mário
logo conquistou Anastácia. Do primeiro encontro surgiu um
sentimento espontâneo e caloroso entre os dois, que logo se
transformou em amor. Em seguida veio o pedido de casamento. O enlace matrimonial realizou-se no dia 28 de outubro de 1954, na igreja de São Sebastião em Paranavaí.
Embarcaram, em seguida, para São Paulo e praias
de Santos em viagem de núpcias. Na volta fixaram residência em Terra Rica. Mário continuou o seu trabalho de corretor de terras. Ali nasceram seus três filhos: Zuleika, Sérgio
e Marcos.
Mais tarde transferiram a residência estabelecendose na Água Guairacá, perto da serraria, com armazém de
secos e molhados, com finalidade de abastecer os operários
e a comunidade local, que aumentava. Residiram ali por
doze anos, trabalhando no comércio varejista.
Tempos depois mudaram-se para Maringá onde residem atualmente. Ambos esforçados e plenamente devotados ao trabalho, conseguiram vencer na vida, garantindo a
educação e formação dos filhos em cursos superiores, além de assegurar para si uma vida tranqüila. À Anastácia
(Nascia) e Mário, dedico uma afeição fraternal e uma profunda amizade.
Em 1954, veio trabalhar como balconista, na „Casa
Alberto”, a jovem Maria Yolanda, de 15 anos. Nascida em
Brejo Santo, Ceará, filha de Luzia Nunes e Manoel Alves
de Souza. Seu pai, como milhares de nordestinos, veio ao
Paraná à procura de trabalho e melhores condições de vida
para sua família. Contratou com Alberto o cultivo de
10.000 mil pés de café, com direito a moradia, no sítio de
10 alqueires, próximo à Terra Rica.
Como as terras a serem cultivadas situavam-se
num espigão não havia córrego de água nas proximidades.
Fez-se necessário perfurar um poço. Para localizar o lençol
293
de água subterrâneo cortei uma forquilha de galho de pessegueiro, segurei cada ponta da forquilha em uma das mãos
e caminhei pelo terreno à procura do veio, que, quando encontrado, surpreendemente, a energia conjugada vergou o
galho indicando o ponto exato; ali foi cavado o poço que
abastece de água a propriedade.
Maria Yolanda mostrou-se amiga fiel e dedicada a
seus empregadores. Honesta e responsável, permaneceu
durante 20 anos com a família. Casou-se com Jaime Beck,
do qual tem três filhos. Depois de casada residiu na casa
anexa à loja, onde trabalhava como gerente. Em 1966, mudou-se com o casal Monika e Alberto para Paranavaí. Continuou trabalhando como gerente, até 1972, na loja “Casa
das Noivas”, de propriedade de Monika. Atualmente dirige
a sua própria, seleta, loja de modas em Paranavaí.
No início de 1954, Alberto convidou seu irmão Vicente e a esposa Eugenia, para virem morar em Terra Rica.
Propôs-lhes sociedade no armazém “Casa Alberto”, que
prosperava, estava precisando de mais gente para trabalhar.
Alberto comprava madeira em toros, serrava, transportava por caminhões até o rio Paranapanema e embarcava
em chatas (barcaça larga e pouco funda para transporte de
carga pesada), que desciam pelo rio até a sua foz no rio
Paraná, subiam então até o terminal da Estrada de Ferro
Sorocabana em Presidente Epitácio. A carga era transferida
para vagões, e a madeira serrada seguia de trem para São
Paulo, onde era comercializada pelos corretores.
O alto preço conseguido na venda direta da madeira
fez com que os negócios de Alberto e Monika prosperassem. Somando a isso a produção da lavoura de café da sua
propriedade e os lucros com o armazém que se expandia,
fato que oferecia condições favoráveis para estabelecimento de uma nova filial da “Casa Alberto” no patrimônio A-
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dhemar de Barros. A filial ficou sob a administração de
Paulo Panka, seu cunhado.
Em 1960, Alberto e Vicente abriram a sociedade do
armazém. Alberto construiu no centro, na avenida São Paulo, uma sede nova para a “Casa Alberto”, com amplas e
modernas instalações. Para ajudar no atendimento à clientela, que já era numerosa, convidou suas duas primas, as
jovens Filomena e Irene Kosinski, que passaram a trabalhar
e morar com a família.
Construiu também próximo à loja, a sua nova residência, maior e mais confortável. Ao lado, foi construído
um dormitório, onde se acomodavam as funcionárias da
loja e as serviçais da casa. A alimentação para todos era
servido no refeitório da casa. Olga Diatchuk, a moça que
acompanhou a família na mudança para Terra Rica, supervisionava o trabalho na loja e na residência.
Para abastecer as lojas, Monika viajava a São Paulo,
que era o centro industrial e fornecedor de mercadorias por
atacado. Na azáfama das compras de armarinho e miudezas,
na tradicional rua Vinte Cinco de Março, entre tantas opções e preços que encontrou, ela decidiu levar também
brinquedos para distribuir entre as crianças carentes de
Terra Rica. Faria um belo Natal para os pequenos. Assim
pensou e assim fez.
Comprou cadernos, réguas, estojos de lápis de cor,
bolas de borracha de diversos tamanhos, bonecas das mais
variadas, caminhãozinhos de madeira, cavalinhos de pau,
cavaquinhos, pandeiros, gaitinhas de boca, bichinhos de
pelúcia, jogos de panelinhas e de louça, afinal, tudo que
uma criança gostaria de ganhar. Assim que a mercadoria
chegou em Terra Rica, os brinquedos foram embalados,
juntou-se ainda uma garrafa de refrigerante e um pacote de
bolachas ou bombons.
295
O pinheirinho que crescia no jardim da residência,
foi enfeitado com luzes coloridas.
No Dia do Natal, já pelas seis horas da manhã podia se contar grupos de crianças esperando em frente da loja
“Casa Alberto”. Chegavam mais crianças acompanhadas
das famílias. Às 10 horas, ao som de música de Natal (em
toca-discos), saiu de dentro da loja o Papai Noel (Alberto),
vestido a caráter, com longa barba branca e barrete vermelho na cabeça, carregando o saco de brinquedos às costas.
Organizou-se a fila das crianças, que nessa altura já estavam alvoroçadas. Papai Noel conversava com elas, dava
conselhos e entregava os presentes.
As balconistas ajudavam na tarefa de repor os presentes para o velhinho distribuir. Assim foram presenteadas
aproximadamente quinhentas crianças no Natal de 1956,
depois durante dez anos; todo ano aumentavam mais, até
que no ano de 1966, vieram mil crianças de toda redondeza,
até do outro lado do rio Paranapanema. Era uma festa alegre, de crianças felizes, que compensava o investimento.
Com a fase de prosperidade da região impulsionada
pelo bom preço da madeira, do café e dos cereais ali produzidos, e graças à conjugação contínua dos esforços do
casal, Alberto obteve resultados positivos nos negócios.
Contava sempre com a eficaz colaboração da esposa, que se
ocupava da contabilidade e do setor financeiro da empresa.
Quando Alberto assumiu a prefeitura de Terra Rica,
não podendo dar atendimento a negócios particulares, uma
ainda maior responsabilidade recaiu sobre os ombros da sua
esposa Monika.
Na ausência do marido ela atendia todos os compromissos da empresa, distinguindo-se por um extraordinário tino comercial e habilidade administrativa. Na serraria,
ela supervisionava a compra e entrada de toros de madeira
bruta, a produção, transporte, embarque e venda de madeira
296
serrada e dos pagamentos a todos empregados, inclusive
das fazendas de gado e da plantação de café.
Alberto Filipak, logo que se fixou em Terra Rica,
ingressou na política local. Sociável, popular, conciliador,
benquisto pelo povo, candidatou-se a vereador em 1955, foi
eleito como o mais votado, exerceu o cargo por mais três
mandatos sucessivos.
Em 4 de dezembro de 1955, tomou posse o primeiro
prefeito Municipal, Sr. Francisco Ramires Galioti, sucedendo-lhe por eleição, em 1959, o Dr. James Patrick Clark.
Com o falecimento deste, em 11 de novembro de 1961,
assumiu o cargo de prefeito Municipal, o vereador Alberto
Filipak, que exerceu o mandato até 4 de dezembro de 1963.
No cargo mostrou ser um administrador dinâmico e
empreendedor. O município prosperou durante seu mandato, governou com sucesso durante dois anos. Para sua sucessão na eleição de 1963, Alberto lançou como candidato,
o cidadão Armando Moron. Era um homem bom, mas fraco
como candidato, sem expressão política. Pela oposição concorria à eleição o jogador de futebol, Rui Gimenes.
Popular e ambicioso queria vencer. Para conseguir
o seu objetivo não escolhia armas. Iniciaram-se os ataques
à atuação política e administrativa de Alberto, e, mais
nefasto ainda, à sua vida particular e à de sua família. Foi
uma batalha inglória. A estrela tutelar ascendente de Alberto Filipak começou a declinar. Os inimigos políticos cavavam um poço fundo sob seus pés.
Alberto desgostoso, afastou-se da política. Tratou
de liquidar seus negócios e pensou mudar de cidade. No
final do ano de 1962, com a escassez de peroba no município e na região, matéria prima que abastecia as serrarias,
vendeu as máquinas e caldeiras, para uma firma madeireira, que as transferiu para Mato Grosso, região que acenava
como a nova fronteira de colonização.
297
Em 1958, Alberto comprou a “Fazenda Miss Brasil”, de 200 alqueires paulistas, no município de Terra Rica,
formou o pasto e começou a criar gado Nelore. Em 1961,
comprou a “Fazenda Alvorada” de 150 alqueires, no município de Paranavaí, ia dedicar-se exclusivamente à pecuária.
Resolveu mudar-se com a família para Paranavaí,
cidade a 60 quilômetros de distância. Deixou a loja de Terra
Rica para seu filho Ricardo, já casado.
Moramos em Terra Rica durante 15 anos, de 1951 a
1966. Foram anos profícuos no nosso trabalho e nos negócios. Deram ensejo à prosperidade de quem chegou ao sertão do Noroeste do Paraná, motivado pelo espírito de perseverança no trabalho, almejando o progresso.
Terra Rica, assim como toda a região Norte e Noroeste, sofreu com as fortes geadas, que dizimaram os cafezais e reduziram a população. Muitos sitiantes vendo perdidas as suas lavouras migraram para novas frentes de colonização que se abriam no Mato Grosso e Rondônia.
Atualmente Terra Rica é uma cidade próspera, com
ruas largas, iluminadas, e avenidas lindamente arborizadas,
com canteiros de palmeiras entremeados de primaveras
(buganvílias), que quando florescem dão uma visão encantadora à paisagem.
Esta cidade é um exemplo para outras comunidades,
de que se pode vencer as dificuldades e progredir.
***
298
Monika e Alberto tiveram três filhos: Ricardo, Mari
Carmem e Rosi Celeste.
Ricardo, o primogênito, estava com 14 anos quando
foi estudar em Curitiba, no início do ano de 1955. Ficou
residindo e estudando no Internato Paranaense de Irmãos
Maristas. Concluiu o curso ginasial nesse educandário.
Em 1959, passou a morar com as irmãs Mari Carmem e Rosi Celeste, e a avó Anna, na residência da rua
Nilo Cairo n.° 181, com a finalidade de continuar os estudos. Matriculou-se no Colégio Novo Ateneu, diplomandose como Técnico em Contabilidade, em 1961.
Nessa época, conheceu e encantou-se pela estudante
Laís Míriam Araújo, linda jovem de tez morena e cabelo
escuro descendo em longa trança pelo pescoço. Moradora
na rua Francisco Torres, portanto, vizinha da sua residência, viam-se todos os dias e toda hora. Surgiu entre eles
uma grande afinidade, transformando-se depois numa forte
paixão. Já não podiam viver um sem o outro. Um amor
intenso os unia. Resolveram se casar, apesar da oposição
dos pais, pois ainda não tinham concluído seus estudos.
Em 23 de maio de 1964, realizou-se o enlace matrimonial, na igreja Nossa Senhora de Guadalupe em Curitiba. Os noivos seguiram em viagem de núpcias para as
praias do litoral de São Paulo.
Na volta, fixaram residência em Terra Rica. Inicialmente Ricardo foi trabalhar com o pai na serraria localizada
na Água Guairacá. Em 1966, assumiu a loja e armazém
“Casa Alberto”, comércio que administrou com sucesso
durante oito anos. Nessa época, nasceram os seus três filhos, Cristina Ângela, em 3 de abril de 1966, Ricardo Marcelus, em 2 de dezembro de 1967, e Luciana de Fátima, em
9 de setembro de 1971. Ricardo estava feliz, pois adorava
os filhos.
299
Em fevereiro de 1974, transferiram a residência para
Paranavaí, onde Ricardo assumiu a loja “Casa das Noivas”,
anteriormente de propriedade da sua mãe. Ao mesmo tempo
dirigia a loja de Terra Rica. Os seus negócios prosperam,
pois o Ricardo tinha um tino comercial fora do comum.
Adquiriu a fazenda “Três Pinheiros” de 244 hectares de
terras em Iporã, formou pasto e criava gado Nelore.
Paralelo ao sucesso dos negócios, a desconfiança
infiltrou-se entre eles tirando a harmonia do seu lar. O casal
já não se entendia, e o casamento deles estava soçobrando.
Acabou o grande amor que os uniu. Em 1983, separaramse definitivamente. Laís com os filhos mudou-se para Curitiba. Ricardo, em outubro de 1986, deu outra direção à sua
vida, transferindo-se para Ji-Paraná, em Rondônia.
Nessa época Rondônia acenava como uma nova
fronteira de colonização. O acesso fácil à terra fértil e barata atrai milhares de famílias de colonos do Sul e Nordeste
do país. À margem da estrada BR364 surgem cidades, como Ji-Paraná, Vilhena, Ariquemes, Ouro Preto.
Ricardo viu ali uma bela oportunidade de refazer a
sua vida. Incansável, com muita luta e sacrifício conseguiu
equilibrar-se financeiramente. Aproveitando a sua vocação
para o comércio, instalou uma boa loja comercial. O comércio se expandiu e ele abriu mais quatro lojas.
Nos seus planos constava uma fazenda de criação de
gado. Na ocasião oportuna comprou 200 alqueires de terra
em mata no Jaru, e começou a formar pasto. O objetivo de
possuir uma fazenda de gado o impulsionava, mas o investimento era dispendioso e o trabalho exaustivo.
Surgiram-lhe problemas de saúde, causados pelo
estresse, somado à chaga emocional motivada pelas desavenças e a separação dos filhos que ele tanto amava. O
coração foi afetado e, apesar do tratamento médico, Ricardo
300
faleceu de ataque cardíaco, aos 54 anos de idade, em 17 de
janeiro de 1995; foi sepultado em Ji-Paraná, Rondônia.
Com o falecimento do meu filho, uma parte de mim
morreu com ele, a dor e a saudade que sinto são indescritíveis. Os filhos herdaram a parte que lhes pertencia de direito do patrimônio que ele havia conquistado.
Cristina Ângela, a primeira filha de Ricardo e Lais,
continuou os estudos em Curitiba. Ingressou na Universidade Federal do Paraná, formou-se em Informática em
1986. É funcionária pública dedicada, trabalha na Celepar,
órgão do Governo Estadual. Cristina adora viajar e, por
coincidência, ocupa um cargo no seu trabalho que lhe propicia a oportunidade de conhecer muitos países.
Casou-se com Renato Ferraz Machado, nascido em
Campo Mourão PR. Renato formou-se em Informática pela
“Facet” e em Administração, pela Pontifícia Universidade
Católica do Paraná, em 2003. O casal mora em Curitiba.
No dia 16 de janeiro de 2004, o seu lar foi agraciado
por Deus com o nascimento da filha Mariana, que veio
completar a felicidade dos pais.
Ricardo Marcelus, o segundo filho de Ricardo e
Lais, ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade
Federal do Paraná, diplomando-se em 1993, com especialização em Cirurgia Geral e posteriormente em Cirurgia Pediátrica. É um médico dedicado à profissão e a seus pequenos pacientes. Casado com Carla Cansian Baldissarelli,
formada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Residem atualmente em Chapecó S.C. O casal foi enriquecido com o nascimento do seu primogênito,
Vitor Henrique, no dia 6 de dezembro de 2002.
Luciana de Fátima, mudou-se para Curitiba com a
mãe Lais Miriam. Continuou os estudos no Colégio Divina
Providência. Aprovada no exame Vestibular para o curso de
Odontologia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná,
301
formou-se em 1995. Fez especialização em implantes, na
Unicamp, em Campinas. Luciana é de natureza extrovertida, sociável e alegre. Batalhadora, luta para conseguir o
que quer da vida.
Mari Carmem, a segunda filha de Alberto e Monika,
estava com 12 anos quando no início do ano de 1955, juntamente com seu irmão Ricardo, foi estudar em Curitiba.
Ela ficou no Internato do Colégio N.S. de Lourdes, no Cajuru, de irmãs francesas, durante cinco anos, época em que
completou o curso ginasial. É digno de menção o comportamento dócil da Mari no Internato. Ela obedecia prontamente a todas as determinações, jamais se rebelava contra
qualquer ordem dada pelas freiras.
Concluiu o Curso Técnico de Contabilidade, no Colégio São José. Em 1965, diplomou-se em Ciências Econômicas pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná.
Seus pais alugaram uma casa em Curitiba, para servir de residência aos filhos, tendo em vista que o Ricardo
não quis mais ficar no internato. A avó Anna, mãe de Alberto, fazia-lhes companhia. Para exercer o trabalho caseiro
veio a antiga serviçal Olga. Nessa época, Mari, conheceu o
estudante de Veterinária Ivan Nunes Torres, namoraram
durante seis anos. Casaram na igreja de Nossa Senhora de
Guadalupe, em Curitiba.
Ivan, é filho de Moacir Nunes Torres e Emília Maluf. Nasceu em Joaquim Távora, PR. Formou-se em 1964,
em Medicina Veterinária pela Universidade Federal do Paraná.. Ivan é um homem de coração generoso, conciliador e
prestativo. Sempre está a ajudar a quem precisa. Atualmente residem na cidade de Cascavel. Adquiriram o Hotel
Grand Prix, iniciando-se no ramo hoteleiro.
Mari Carmem é de natureza meiga, sensível, capaz
de condoer-se do sofrimento do próximo, é freqüentemente
solicitada por pessoas, para confidências e à procura de
302
ajuda. Aplica a psicologia inata na solução dos mais diferentes problemas. A vida do casal é dedicada ao trabalho e
à família. Sempre se fez presente nos movimentos sociais e
filantrópicos da comunidade católica de Cascavel. São paroquianos atuantes no serviço da igreja. Ambos são ministros da Eucaristia. Palestrantes em Seminários religiosos,
organizados pelos seguidores do Frei Inácio Larañaga.
Mari Carmen e Ivan tiveram quatro filhos.
Grace, a primeira filha, nasceu em Curitiba. Estudou
em Paranavaí e Cascavel onde morou com seus pais. Foi
aprovada na Faculdade de Educação Musical do Paraná em
Curitiba, onde se formou como educadora em música no
ano 1987. Inteligente e esforçada, trabalha como autônoma,
exercendo com competência a profissão de professora de
música e atuando em espetáculos musicais (shows), fazendo parte do “Grupo Fato” no qual é tecladista e compositora. Casou-se com Ulisses Quadros de Moraes (Galetto),
formado em História pela UFPR e seu parceiro no trabalho
artístico.
Mariane, a segunda filha, também nasceu em Curitiba. De temperamento sensível como a mãe, seguiu sua vocação para a música. Fez o vestibular e foi aprovada na
Faculdade de Educação Musical do Paraná, onde se formou, especializando-se em Didática do Ensino Superior, na
área da música. É funcionária da Fundação Cultural de
Curitiba. Casou-se com Miguel Ângelo Porfirio, empresário
da indústria do mobiliário. O casal tem um filho, Gabriel,
nascido a 13 de julho de 2002.
Karin, a terceira filha, nasceu em Curitiba. É formada pela Pontifícia Universidade Católica de Curitiba em
Fisioterapia. Exerce a profissão no seu consultório de Fisioterapia Estética. Como profissional é competente e dedicada. Como pessoa é prestativa, meiga e bondosa. Casou-se
com Fernando Camargo Umbría, formado em Engenharia
303
Civil, em 1994, pela Universidade Federal do Paraná, com
mestrado em Engenharia Hidráulica e curso de especialização em gestão de Energia.
Rodrigo, o quarto filho, nasceu em Paranavaí, PR. É
formado em Ciências Biológicas, pela Universidade Federal
do Paraná. Trabalha na preservação ambiental e proteção
dos mananciais que abastecem de água a cidade de Curitiba e região metropolitana.
Rosi Celeste, a filha caçula de Alberto e Monika,
foi morar em Curitiba na companhia dos irmãos Ricardo e
Mari Carmem e a avó Anna em 1959. Estudou no Colégio
Nossa Senhora de Lourdes, no Cajuru, de freiras francesas.
Formou-se em Pedagogia em 1973, pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Paranavaí, cidade onde morava.
Rosi Celeste casou-se com Sérgio Rubens Mansano, em 19 de dezembro de 1971. Sérgio é filho de Brígido
Mansano e de Maria Aparecida Pereira, nasceu em Tupã,
Estado de São Paulo. É formado em Agronomia pela Universidade Federal do Paraná, em Curitiba.
O casal residiu em Paranavaí até 1977, onde Sérgio
dedicava-se à profissão de agrônomo e à cafeicultura nas
terras de sua propriedade. Quando ocorreu a grande geada
em 1975 e 1976, que arrasou os cafezais da região, Sérgio
vendeu as terras que possuía e mudou-se para Araguari em
Minas Gerais.
Seguiu o exemplo de muitos cafeicultores do Paraná, que vendo destruídas suas lavouras pelas geadas, foram
tentar a sorte nos cerrados do Triângulo Mineiro, onde o
clima é ameno, não sujeito a geadas. Sérgio adquiriu terras
para cultivo de café no cerrado mineiro.
Começou criando viveiros de mudas de café. Corrigiu e adubou o solo, plantou e a terra produziu café e cereais com fartura. Com muito trabalho e sacrifício conseguiu formar uma fazenda de café, modelo. Atualmente,
304
junto com os filhos, dedica-se à cultura dessa rubiácea, de
soja e de milho. Homem dinâmico, perseverante, progressista, é um estudioso da área agrícola, das técnicas de produção e melhoria da qualidade do café.
O mérito do Engenheiro Agrônomo e Produtor Rural, Sérgio Rubens Mansano, foi reconhecido pela Associação dos Cafeicultores de Araguari MG, por ocasião da
Feni-Café 2002, premiado que foi com a Comenda Raul
Belém, que tem por objetivo agraciar aquele que mais se
destaca no segmento da produção com qualidade da cafeicultura.
Rosi, diligente e zelosa, entrega-se à administração
do lar, o cuidado aos filhos e ao neto Pedro Ruan. Por aproximadamente 20 anos, ela contribuiu voluntariamente para
a causa da educação e cuidado dos menores órfãos e abandonados, internos no Orfanato e Educandário Eunice Waewer e na comunidade terapêutica Pró-Vida de assistência e
recuperação dos dependentes de drogas e álcool.
Num trabalho voluntário, muito do seu tempo é
dispensado a ajudar as pessoas pobres e necessitadas. Seu
coração generoso distribui a dádiva de amor ao próximo,
visitando doentes, levando-lhes a Hóstia Sagrada, pois que
é ministra da Eucaristia na paróquia local. Participa ativamente das reuniões da igreja e dirige a Oficina de Oração.
O casal Rosi Celeste e Sérgio, tem três filhos: Cândice, Alexandre e Sérgio Rubens Filho.
Cândice nasceu em Paranavaí, PR. Formada em
Ciências Biológicas pela Unesp, extensão de Botucatu, com
pós-graduação pela Unicamp. Atua na área do Meio Ambiente. Lutadora pelos seus ideais como seu primo Rodrigo, é
defensora incansável na defesa do meio ambiente. Casada
com o Engenheiro Agrônomo Marco Antônio Baldoni, eles
têm um filho, Pedro Ruan, nascido em 17 de maio de 2000.
305
Alexandre nasceu em Paranavaí Pr. Técnico Agrícola, formado pela Fundação Shunji Nishimura de Tecnologia
de Pompéia, Estado de São Paulo. Casado com a jornalista
Patrícia Karine Martins, jovem da sociedade local.
Ele dedica-se ao cultivo da soja e do milho, nas
glebas da família. Trabalhador incansável, herdou do avô
Pedro a persistência na labuta diária. Digna de menção é a
estrofe impressa no seu convite de formatura na Fundação
em Pompéia, como Técnico em Agricultura, que alerta para
o seguinte:
“Herdarás o solo sagrado e a fertilidade será
transmitida, de geração em geração. Protegerás teus campos contra erosão e tuas florestas contra a desolação. Impedirás que tuas fontes sequem e teus campos sejam devastados, para que teus descendentes tenham abundância para
sempre.” (03/ 12/ 1994).
Sérgio Rubens Filho nasceu em Araguari, Minas
Gerais. Técnico Agrícola, formado pela Fundação Shunji
Nishimura de Tecnologia de Pompéia, SP. Fez estágio de
um ano nos Estados Unidos, com especialização direcionada para a criação de gado de corte e suínos. É casado com
Carolina, filha de tradicional família local.
***
306
Alberto e Monika transferiram a residência para Paranavaí em 11 de março de 1966.
Foi construída uma bela casa, ampla e confortável,
no Jardim Progresso. Cercada de jardins com canteiros de
delicadas rosas, onde também vicejavam magníficas primaveras (buganvílias), formando, à entrada, um dossel de ramos e pencas de flores violáceas. Teve tudo para ser um lar
feliz; mas não o foi, pois a natureza humana é imprevisível
e nunca sabemos que armadilha o destino nos reserva.. Eram quatro pessoas que ali habitavam. Além do casal, mais
a filha Rosi Celeste de 14 anos e a serviçal Edite.
O espírito de pioneirismo, a ânsia de possuir novas
terras e o desejo de abrir novos caminhos, levaram Alberto
a procurar aventura no Mato Grosso, a nova fronteira de
colonização. O seu vibrante ritmo de atividades, inclusive
como corretor de terras, acrescidas das intrigas de inimigos
ocultos, foram minando o casamento e distanciando o casal,
a ponto de não ser mais possível a vida em comum.
Fatos e acontecimentos imprevistos atropelaram o
rompimento inevitável da união conjugal. Amigavelmente
partilharam os bens que possuíam, ficando a metade para
cada um. Foi um casamento harmonioso, com equilíbrio de
direitos, uma parceria leal que permaneceu durante 32 anos.
Foi feliz enquanto durou.
Alberto fixou residência em Paranavaí. Uniu-se maritalmente a Celestina Garcia Fervença, com quem teve um
filho, Alberto Filipak Júnior. Faleceu dia 3 de dezembro de
1988, de síncope cardíaca, aos 69 anos. Foi sepultado em
Paranavaí. Perdeu-se um grande homem, um destemido
pioneiro norte-paranaense.
Durante os seis anos seguintes, administrei a minha
loja “Casa das Noivas”, em Paranavaí. Em 1974 transferi a
residência para Curitiba, deixando a loja para meu filho
Ricardo.
307
FAZENDA SÃO BENEDITO
Soube por intermédio de amigos e corretores de terra que, na região do município de Aripuanã, norte de Mato
Grosso, região da Amazônia Legal, havia terras excelentes
para cultura e formação de pastagens para criação de gado.
Fiquei entusiasmada, e como todo sonhador, já imaginei a
minha fazenda formada, cheia de gado branco da raça Nelore, pastando tranqüilamente nos luxuriantes campos verdes.
Entrei em contato com o corretor Francisco Sampaio
(Chico) que era dono de uma aeronave Cessna, monomotor,
de 5 lugares, avião que ele mesmo pilotava. Combinamos
uma viagem para ver as terras à venda no Aripuanâ.
Ao clarear do dia 20 de junho de 1976, partimos de
Paranavaí rumo à Cuiabá, capital de Mato Grosso. Fui eu,
meu filho Ricardo, Chico e como co-piloto Júlio Ischikawa.
A viagem de sete horas transcorreu sem problemas,
tendo feito apenas uma escala em Campo Grande para reabastecimento do avião. Chegamos em Cuiabá à tarde, hospedando-nos no hotel Santa Rosa, no centro da cidade.
No dia seguinte, levantamo-nos às 5 horas da manhã. Após o café rumamos para o aeroporto de Cuiabá, onde nos esperava o piloto Chico Sampaio, que já tinha revisado e abastecido o avião, feito e apresentado o plano de
vôo ao D.A.C. com o roteiro Cuiabá-Vilhena-Rio Roosevelt
e a duração da viagem de 6 horas, entre a ida e volta.
Partimos de Cuiabá às 6 horas, o tempo estava bom
e o sol da manhã já brilhava no céu azul claríssimo. De
início e até Vilhena, voamos sobre campos e cerrados, margeando a estrada asfaltada BR364, que demandava a Porto
Velho, capital de Rondônia. Descemos em Vilhena onde o
Chico reabasteceu o avião de combustível, tomou um cafezinho no bar e seguimos viagem rumo ao Rio Roosewelt.
308
Logo a paisagem vista de cima mudou completamente; um amplo dossel de copas verdes cobria o horizonte. Ficamos deslumbrados pela espantosa altura das árvores
e pela exuberante vegetação que recobre a Amazônia.
Voamos mais de uma hora sobre esta fantástica floresta
tropical. Via–se, a perder de vista, apenas copas de árvores,
vales com rios e igarapés deslizando por entre as folhagens
luxuriantes.
Dava-me arrepios de emoção ao contemplar essa
maravilha sem igual no mundo, que o Brasil possui. Não
podemos perdê-la nem destruí-la. Esse imensa área verde
não deve ser tocada, deve continuar como uma reserva
florestal. Com essa visão, o meu entusiasmo pela região
aumentava cada vez mais.
Em 29 de junho de 1976, fechei a compra de 19.996
hectares de terras, da Fazenda São Benedito, situadas no
município de Aripuanã, noroeste do estado de Mato Grosso,
(na altura do paralelo 10), no lado direito do rio Roosewelt,
divisando com este por 18.320 metros, desde a confluência
do Rio Branco, rio acima, até a divisa da Fazenda Concisa.
Adquiri a gleba de Dario e Urbano Lunardelli. Em 5 de
maio de 1977, comprei mais 4.997 hectares, de Miguel Petrilli, anexando a área à Fazenda São Benedito, que junto,
perfez o total de 10 mil alqueires paulistas.
Rio Roosewelt nasce nos campos de Vilhena, em
Rondônia, logo ultrapassa a divisa do estado de Mato Grosso e corre rumo ao norte. Seus afluentes mais importantes,
do lado esquerdo, são o Rio Branco e o rio Madeirinha e
do lado direito, o Capitão Cardoso, Jacutinga, Santa Maria,
São João, Guariba e inúmeros igarapés; junta-se ao rio Aripuanã, tributário do rio Madeira, no Estado de Amazonas.
Seu percurso de mil quilômetros, de águas caudalosas, não
é próprio para navegação. A torrente impetuosa que corre
309
pelo leito de pedras, acidentado, forma corredeiras e cachoeiras perigosas.
A 30 km rio acima encontrava-se a sede da Fazenda
Concisa, de propriedade do Sr. Crisógono Rosa da Cruz, o
nosso mais próximo vizinho. A Fazenda Concisa, também
de 10 mil alqueires, fazia divisa com as terras da Fazenda
São Benedito. Situava-se, também, no lado direito do rio
Roosewelt.
Zoguinho como era chamado, era um empresário
paulista, homem de bem, trabalhador e honesto. Construiu
uma bela sede na Fazenda, com todo conforto, com luz elétrica e água encanada, campo de pouso para avião, casas
para os empregados, escola, instalou um motor a óleo diesel
para fornecer luz aos moradores.
Corajoso, talvez um pouco sonhador, com dificuldade, pela grande distância dos meios de abastecimento e
comunicação, formava sua fazenda em pastagens para o
gado. Possuía dois aviões Cessna, monomotores, com os
quais abastecia a fazenda com alimentos e trabalhadores.
Fazia o fornecimento na vila de Ji-Paraná em Rondônia, a
400 km de distância. Não existiam estradas de rodagem.
A Fazenda Concisa era nosso ponto de apoio, pois
não tínhamos campo de pouso para avião. Utilizávamos o
da Concisa, depois, de barco a motor, descíamos o rio Roosewelt até a sede da nossa Fazenda.
Morava ali, na beira do rio, num rancho de palafitas,
feito de pau-a-pique, Antônio Alves da Silva, com a mulher
e quatro filhos, aborígene, antigo seringueiro. Vivia da pesca, de pequena plantação de milho e mandioca e colheita de
borracha dos seringais da Fazenda. Para morar nas terras,
eventualmente percorrer as divisas, evitando a invasão de
estranhos, recebia uma ajuda de custas mensal, de um salário mínimo. Ficou na Fazenda durante 15 anos, de 1977 a
310
1992, pediu para ir embora, foi indenizado devidamente e
mudou-se para Ji-Paraná.
A região onde se situa a Fazenda São Benedito fica
na altitude de até 300m acima do nível do mar. O clima é
tropical úmido, temperatura média anual 25° a 40°. Com
regime de chuvas de 2500 mm anuais, distribuídas entre
época de chuvas e de seca. O tipo de solo é formado de latossois vermelho ou amarelo, arenito e argila com pouca
profundidade. Ph 5,7 a 6,5. Matéria orgânica 1,2. A topografia é de planícies com algumas elevações.
Cobertura vegetal é formada de floresta densa, sombria, árvores de até 50m de altura de copas entrelaçadas.
Quanto à hidrografia, possui rios e inúmeros igarapés que
cortam a área, todos deságuam no rio Roosewelt. É rica em
minérios, como cristal de rocha, ouro de aluvião, cassiterita
e diamante.
Assim que tomei posse das terras, já demarcadas,
mandei fazer um picadão de 15m de largura em redor da
área, fincando marcos de madeira de lei a cada 500m. O
empreiteiro Francisco Ferreira de Alencar (o Chicão) executou a tarefa em nove meses de trabalho, com uma turma
de 20 homens, trazidos até ali de avião. Dada como terminada a empreitada do picadão, o Chicão avisou-me para que
eu fosse receber o serviço e fazer o pagamento, necessariamente em dinheiro.
Fui de Paranavaí à Cuiabá, no dia 5 de maio de
1977, de taxi aéreo, pilotado pelo nosso amigo Chico Sampaio. Pernoitamos em Cuiabá. Eu levava dentro da frasqueira, na parte de baixo, 450 mil cruzeiros em dinheiro,
para fazer o pagamento. O piloto não sabia deste detalhe.
No outro dia bem cedo embarcamos no Cessna, já
abastecido, e com o plano de vôo autorizado pelo DAC
Com horário previsto para a viagem de duas horas de ida
até Vilhena-Rio Roosewelt e duas horas para retorno à Cui311
abá, no mesmo dia. O tempo estava bom, o céu azul sem
nuvens. Eram 7 horas da manhã. Um vento suave soprava
do norte. Voávamos tranqüilamente sobre terras de cultura
e cerrados, acompanhando a estrada BR364. Num dado
momento o piloto Chico vira-se para mim e pergunta:
- A senhora está reconhecendo a região que estamos
sobrevoando?
- Não estou certa, mas estranhamente o posto de gasolina da beira de estrada BR364, que ficava uns 500m à
esquerda, e era ponto de referência para aviões que voavam
para Vilhena, no entanto, agora encontra-se bem à direita
por uns 1000m de distância. Por que está pegando este
rumo? Algo deve estar errado.
- Acontece que o vento empurrou a cauda do avião
que desviou um pouco da rota, mas eu já vou corrigir - respondeu ele.
Voamos por duas horas e não localizamos a cidade
de Vilhena. Apreensivo o Chico chamou por diversas vezes, pelo rádio, a torre de controle de Vilhena. Não houve
resposta. Continuou chamando, até que o comandante do
avião de passageiros da Vasp, que cruzava o espaço rumo a
Porto Velho, atendeu ao chamado, informando que a torre
de Vilhena estava avariada e não estava respondendo.
Chico tentou orientar-se pela bússola quanto ao rumo a tomar para chegar à Vilhena, mas a agulha magnética
não funcionava, apesar de ter sido testada em Cuiabá, e o
rádio do Cessna não alcançava nenhuma estação ou faixa
de contato.
Estávamos sem recursos. Voando a 10 mil pés de altura por mais duas horas, não conseguimos localizar nenhuma cidade, povoado, derrubada de mata, ou aldeia indígena. Nada, nenhuma fumaça de chaminé, ou queimada
via-se no horizonte, nada que denunciasse a presença de
312
gente. Só víamos abaixo de nós uma floresta fechada, com
as copas das árvores unidas que nem couve-flor madura.
Atravessamos morros e montanhas, vales e rios.
Não encontramos nenhuma clareira onde o avião pudesse
pousar. O Cessna tinha cinco horas de autonomia, já gastamos quatro horas voando, portanto, com urgência devíamos
encontrar um lugar para aterrissar.
Chico, o piloto, virou-se para mim e disse:
- Na realidade nós estamos perdidos, eu não sei onde nos encontramos, eu nunca vim para cá. Eu lhe peço não
se desespere e não chore. Reze e ajude-me a localizar, olhando para o horizonte e para baixo, algum lugar seguro
para pousar o avião. Quem sabe encontraremos alguma
reserva indígena com campo de pouso.
O vôo seguiu o rumo a oeste, quando notamos abaixo de nós um rio grande, caudaloso, de águas de cor
escura, amarela, correndo pelo vale. Era o rio Guaporé, que
nasce na Serra dos Parecís no Mato Grosso, corre em curvas caprichosas para noroeste rumo a Rondônia, quando
vira para o norte e segue fazendo divisa do Brasil com a
Bolívia, deságua no rio Mamoré.
Ultrapassado o rio, nos deparamos com uma cadeia
de montanhas, que seria a Serra dos Quatro Irmãos ou Aguapeí, na divisa do Brasil com a Bolívia. Mas nós não conhecíamos o lugar, estávamos irremediavelmente perdidos
naquela imensidão de florestas.
O avião atravessou as montanhas, e o vôo continuou, agora em cima de pântanos e lagoas, donde nascia um
pequeno rio que corria rumo norte. Eram as nascentes do
rio Paraguá, pouco distante de San Ignácio, lugarejo da
Bolívia, a 200 km da fronteira com o Brasil. O rio Paraguá
é afluente do Guaporé, na margem esquerda.
313
Já sem esperanças de fazer um pouso seguro, naquele momento voando em cima de pântanos, com incerteza
quanto ao destino seguinte, dirigi-me ao Chico:
- Escolha uma destas lagoas para pousar o avião,
pois apesar de estar, com certeza, coalhada de piranhas,
poderemos ter uma chance de salvamento, será talvez, melhor do que ficarmos presos nas copas das árvores, ou espatifados no chão, e sermos comidos por animais selvagens
que vagam pela mata. Quero te assegurar que não estou
nervosa nem desesperada, pois o destino das pessoas pertence a Deus, seja feita a sua vontade.
O combustível do avião estava terminando, só havia
para 15 minutos de vôo. Vasculhando o horizonte com os
olhos à procura de um lugar possivelmente seguro para descer, quando avistei ao longe uma clareira no meio da floresta, que parecia ser um campo de pouso. Ao aproximar-se
mais, vimos que realmente era. O Chico sobrevoou o local
e desceu num campo pequeno, de terra, cheio de buracos,
onde com dificuldade conseguiu equilibrar o avião e parar.
- Graças a Deus, estamos salvos - falei emocionada.
Assim que o motor foi desligado, como por encanto,
surgiram do meio do mato dezenas de soldados em uniformes de camuflagem na floresta, armados de fuzis que apontavam para nós. Cercaram o avião. Abrimos a porta
para descer, quando vi uma carabina apontada para mim e
um outro soldado apontava a arma para o piloto Chico.
- Desce - ordenou o soldado, falando em espanhol.
- O senhor pode me informar onde nós estamos? –
perguntei-lhe.
- Estão na Bolívia, somos o posto avançado do exército de fronteira – respondeu ele.
- Na Bolívia ? – indaguei pasma, já apavorada.
Como sairemos daqui, deste lugar ermo no meio de pântanos? – perguntei-lhe eu.
314
Os soldados revistaram nos e o avião de ponta a
ponta, batiam na lataria, para ver se tinha algo escondido.
Supunham que éramos contrabandistas ou traficantes de
cocaína. Expliquei ao comandante do posto que tínhamos
nos perdido, voando sem rumo o combustível do avião estava no fim, o rádio de bordo parou de funcionar. Ficamos
totalmente sem recursos.
Ladeados por quatro soldados, os outros ficaram
cuidando do avião, fomos levados para o acampamento a
uns 800m de distância, onde viviam os 50 homens do destacamento com suas famílias. O comandante Juan Ariza de
uns 52 anos de idade era viúvo e vivia só. O alcaide do povoado Sandoval Toro vivia com a mulher Fermina e duas
filhas pequenas. Todos eram mestiços descendentes de índios quíchuas, falavam esta língua e também o espanhol.
Viviam ali em galpões armados sobre troncos de árvores cravados verticalmente no chão, cobertos de folhas de
palmeira babassu, sem paredes, com piso de terra batida.
Dormiam 10 pessoas em cada galpão, um em cada rede,
presa e alinhada entre os postes de madeira que sustentavam as coberturas.
Havia seis galpões construídos numa clareira de
mais ou menos 3.000 mil metros quadrados, onde foram
derrubadas e retiradas as árvores e a vegetação. O povoado
localizava-se no meio da floresta tropical úmida, com calor
de 35° a 40°. Ali moravam e dormiam as 50 famílias do
acampamento militar.
A cozinha era separada; o fogão de pedra com pedaços de trilho de ferro em cima, onde era colocado um
grande tacho de latão de ferro para cozinhar a carne de sol,
ou a banana verde cozida na água ou gordura bovina. O
sal usado era o sal-gema em pedras.
Pelo caminho até o acampamento o comandante Ariza, muito gentilmente, ofereceu-se para carregar a fras315
queira. Gelei ante sua proposta, pois se fosse revistada e se
descobrisse que eu levava 450 mil cruzeiros em dinheiro
vivo seria confiscado como prova de contrabando. Rapidamente revidei:
- Agradeço muito, mas a frasqueira é leve, trago nela pertences de uso pessoal, ficaria envergonhada se fossem
expostos.
O homem educadamente não insistiu mais, e eu não
me separava nunca da frasqueira.
Fomos convidados para o almoço que consistia de
mandioca cozida e carne de sol frita em gordura de boi. A
comida era servida em pratos de ágata descascados pelo uso
de muitos anos. Comia-se com as mãos, e bebia-se água de
riacho. Para o jantar foi servida banana verde cozida. Não
tinha café, açúcar, nem leite. Notava-se a falta de tudo, viviam muito pobremente. Todos andavam descalços.
Antes de ir dormir perguntei à D. Firmina:
- Onde poderei banhar-me, escovar os dentes, ir ao
sanitário?
- Banho é só no rio a uns 500 m de distância, trazemos a água para beber e cozinhar em cabaças de porongo
dependuradas numa vara - respondeu Firmina. Quando precisar fazer a sua necessidade, vá atrás de uma touceira no
mato, só tome cuidado com cobras, aqui há muitas cascavéis e surucucus, e também muitos animais selvagens. Os
cães e o fogo os espantam. Quando estiver dormindo na
rede à noite, se alguma cobra estiver deslizando por baixo
da sua rede, não se incomode, só não se mexa, deixe ela
passar.
Agradeci pelas informações e pedi para dormir perto
da Firmina e suas filhas, ficaria mais tranqüila.
De manhã para o desjejum, Firmina serviu-nos bananas verdes cozidas em água. Os homens tomaram tereré,
isto é, chimarrão de água fria, costume indígena. No almo316
ço foi repetido o cardápio do jantar, carne de sol com mandioca. Não havia variedade de alimento, verdura ou fruta.
Somente na época das águas os homens desciam de
canoa até Vila Bela da Santíssima Trindade, no Brasil, para
abastecer-se de leite em pó, açúcar, sal, óleo de soja, remédios, roupas e calçados. A farinha de mandioca e o sabão,
as mulheres da aldeia faziam. O clima tropical permitia o
uso de pouca roupa e não precisavam de cobertor.
O comandante Juan Ariza chamou o piloto Chico
para uma conversa:
- O teu avião entrou na Bolívia sem autorização e,
portanto, está sujeito ao confisco pelo governo boliviano.
Vou avisar, pelo rádio, os meus superiores em La Paz, da
sua presença aqui.
Chico ficou desesperado por causa da situação comprometedora, batia a cabeça no chão ao pensar que ia perder
o avião, única coisa que possuía.
Ariza, foi ligar o rádio para expor o ocorrido e pedir
as instruções, mas a bateria que acionava o aparelho havia
descarregado. Não havia nenhum outro meio de comunicarse com a capital La Paz. O avião que trazia abastecimento
para os soldados vinha uma vez por mês, e tinha passado
por ali há dez dias, só ia retornar no final do mês.
Naquele dia 6 de maio à tarde, quando já fazia dois
dias de nossa permanência no acampamento, apareceu um
cidadão boliviano de nome Lorenzo Diaz, ele era professor
de português em Santa Cruz de la Sierra. O comandante
Juan Ariza encarregou-o de negociar a liberação do avião
por 10.000 mil cruzeiros. Lorenzo chamou o Chico para um
canto do pátio e fez a proposta.
Chico estava aflito, pois não possuía esse valor em
dinheiro. Recorreu à mim. Fiquei indecisa, não podia denunciar a existência em meu poder da volumosa quantia.
Ocorreu-me uma idéia.
317
- Comandante, posso afastar-me um pouco? preciso
fazer minha necessidade fisiológica.
- Pode sim, vá com ela Dolores, minha filha!
Adentramos a mata próxima.
- Dolores querida, fique longe de mim, pois tenho
vergonha expor-me perto de você.
A menina afastou-se um pouco, eu escondi-me atrás
de uma touceira, abri a frasqueira e retirei a quantia de dinheiro necessária. Entreguei o valor ao Chico, que pagou o
resgate. Estávamos liberados.
Mas antes de tudo tínhamos que providenciar combustível para o avião. Só restava para 15 minutos de vôo, no
acampamento não havia nafta para aviação, Santa Cruz
ficava há 200 km de distância e não tinha estrada. Estávamos encurralados pela floresta e pântanos.
O professor Lorenzo informou-nos que distante uns
30 km dali havia uma fazenda de criação de gado de propriedade de Urbino Garcia. Ele vinha de avião de Santa Cruz
e, portando, devia ter gasolina de aviação em estoque para
reabastecimento. Pedimos uma idéia ao comandante Ariza e
ele permitiu que fossemos até lá.
Noutro dia às 7 horas da manhã embarcamos no avião. No assento traseiro ia eu e o comandante, armado com
carabina e dois revólveres na cintura. Igualmente armado,
ia sentado na frente, o professor Lorenzo. Chico pilotava o
avião. Estava muito nervoso com a situação indefinida.
Jogamos na sorte.
Se o vôo fosse direto para a fazenda o combustível
seria suficiente, mas se o rumo estivesse errado, cairíamos
no meio da floresta sem opção de socorro. Voamos os 15
minutos, consumindo o restante de combustível e com alegria, vimos surgir a sede da fazenda de Urbino Garcia. O
avião desceu num campo de terra bem conservado. Peões e
crianças correram para ver. Uma jovem mulher de traços
318
indígenas veio receber-nos.. O professor explicou a ela que
precisava de gasolina para o avião.
- Temos na fazenda dois tambores de 200 litros de
gasolina, mas não tenho autorização para vender e nem
chaves do depósito. Meu marido Guido é o administrador,
mas saiu há uma semana, para arrebanhar o gado alongado
da fazenda. Não tinha previsão para sua volta. Se quiserem
podem esperar - informou a mulher.
Indicando com a mão um pomar extenso, cheio de
laranjeiras carregadas de frutos maduros, pon-kan e bananeiras, disse:
- Podem colher e comer à vontade enquanto esperam.
Era admirável a altura das árvores frutíferas, nunca
vi coisa igual. Os pés de laranjeira frondosos deviam medir
uns 5m de altura, com os galhos pensos pelo peso dos frutos. As bananeiras sustentavam cachos de 2m de comprimento, cobertos de frutos de tamanho excepcional. Era uma
terra muito fértil e o clima tropical úmido propiciava o
crescimento.
Já ao entardecer ouvimos o toque do berrante e o
tropel do gado. Nossas esperanças redobraram, felizmente o
administrador voltava. Assim que Guido Pardo apeou da
cavalgadura, o professor expôs-lhe a nossa situação.
- De fato a situação de vocês é precária - comentou
vacilante - vou ver o que posso fazer. Temos em depósito
dois tambores cheios de gasolina. Não tenho autorização do
patrão para vender, portanto, temo a sua reação negativa.
Embora esteja com receio, vou lhes ceder o combustível,
mas além do preço, devo acrescentar o valor da viagem à
Santa Cruz, para repor o estoque. Assim não haverá perdas
- concluiu Guido.
Com a ajuda do Chico foram transferidos 100 litros
de gasolina para o tanque do avião. Paguei o combustível e
319
ficamos gratos pela ajuda do administrador Custei acreditar
nesse milagre.
Juan Ariza aproveitou a ocasião, comprou tanta carne de sol quanta coubesse no avião, que teve que voar baixo
por causa do peso excessivo. Voltamos saturados do cheiro
forte da carne seca. Já era bem tarde quando chegamos de
volta ao acampamento. Descemos do avião, o comandante
Ariza, Lorenzo e eu. Descarregaram a carne. O Chico não
desceu, estava cabisbaixo, apreensivo. Chamou-me e disse - A senhora suba no avião, porque eu vou embora,
vou fugir.
Fiquei desconcertada.
- Você não acha que já está muito tarde, vai escurecer logo, vamo-nos perder novamente e cair no meio da
floresta? Eu não vou – respondi firmemente.
Chamei o comandante Ariza e informei-o da tentativa de fuga do piloto. Foram colocados soldados armados a
vigiar o avião. Frustrado Chico desceu, deitou no chão e
chorou como uma criança. Após o jantar, composto de cardápio que não variava, carne de sol com mandioca e água
do rio para tomar, deitamos nas redes para dormir.
O dia 8 de maio amanheceu com forte cerração cobrindo o vale, condensando-se ao longo dos pântanos. No
horizonte mal se delineavam as montanhas, a floresta chorava gotas de orvalho, o ar estava abafado.
Já fazia quatro dias que saímos de Paranavaí, os familiares estavam preocupados. Chico tentou ir embora logo
de manhã, apesar do tempo estar fechado. O comandante
Ariza, com carabina na mão, proibiu, aconselhou para que
esperasse o tempo melhorar. Assim que tivesse condições
favoráveis, ele autorizaria a decolagem.
- Aonde você quer chegar com o horizonte encoberto? Sem visibilidade nenhuma? Com certeza vai chocar-se
320
e encontrar a morte nas montanhas ou nas árvores da floresta! – argumentou Juan Ariza.
Pelas 11 horas da manhã o tempo abriu, sumiu a neblina, o sol apareceu. O comandante autorizou a partida, e,
com o dedo em riste mostrou o cume da montanha que se
delineava, ao longe, no horizonte.
- Siga este rumo e vai sair em Vila Bela da Santíssima Trindade, em Mato Grosso. São 200 km até a fronteira. Não desvie desta rota – recomendou.
Fui despedir-me da D. Fermina e das filhas do alcaide Sandoval Toro, agradeci pela atenção e cuidado que
a nós dispensaram. Também fui dizer adeus ao melancólico
e solitário cinquentão Juan Ariza, comandante do destacamento, que, com voz triste, pediu-me:
- Fique aqui comigo, porque estou triste e só, gostei
de você, preciso de companheira que me alegre os dias.
Surpresa com a proposta, e não querendo decepcioná-lo expliquei, justificando-me razoavelmente.
- Desta vez não posso ficar, pois tenho um compromisso importante. Sou repórter de um jornal conceituado,
vim com finalidade de cobrir a visita do presidente Ernesto
Geisel, do Brasil, no encontro com coronel Hugo Banzer
presidente da Bolívia, que vai realizar-se em Santa Cruz de
la Sierra. Não tente prender-me à força, isto provocaria um
conflito diplomático. Eu voltarei logo, no máximo daqui a
um mês estarei de volta. Pode esperar. Adiós!
Juan Ariza aceitou a minha desculpa, disse que ia
esperar o meu retorno com impaciência. Ficou olhando triste, quando o avião deslizou aos solavancos pelo campo de
terra e decolou rumo ao céu. Acenei-lhes com a mão.
Eram duas horas da tarde, o avião subiu a 10.000
pés de altura (3.300m), voávamos acima das nuvens cúmulos, que se apresentavam abaixo de nós, como um imenso
painel horizontal, recoberto de flocos de algodão branqui321
nho. As nuvens fechadas vedavam o espaço e não aparecia
nem uma fresta que desvendasse algo no chão.
O avião transpôs as montanhas e o rio Guaporé.
Num dado momento abriu-se um espaço claro entre as nuvens, foi quando avistamos entre as florestas sem fim, uma
derrubada, campos com gado pastando, casas e uma pista
de pouso para aviões.
Chico, soltou o trem de pouso e desceu suavemente
o avião. Veio ao nosso encontro um homem moreno, alto,
de chapéu de palha e roupas de peão de fazenda. Era Valdir
de Souza, administrador da fazenda Nossa Senhora das
Graças, cujo proprietário era meu conhecido e amigo, Hélio
dos Santos.
Recebeu-nos amavelmente. Marina, sua esposa proporcionou-me um banho morno, gostoso, com sabonete
perfumado e toalha limpa. Fiquei tão feliz que tive a impressão de ter nascido de novo. Ofereceu-nos um almoço
composto de feijão, arroz, frango frito e salada de alface.
Para nós era um manjar dos deuses, depois de ter-se alimentado só de carne de sol e mandioca, durante três dias.
Agradeci à Deus por estar de volta ao Brasil, reconheci que não tem lugar no mundo melhor do que a terra da
gente. Depois de descansarmos um pouco, seguimos viagem para Vilhena, com orientação segura do Valdir, chegamos em 40 minutos.
Chico foi informar-se sobre a direção certa a seguir
para a Fazenda Concisa no rio Roosewelt, pois ele não
conhecia a região e temia perder-se novamente. Em vista
disso contratei o “Gaúcho”, um piloto experiente, para nos
levar até lá. Chegamos às 18 horas, o sol estava se pondo.
Zoguinho, o proprietário da Concisa, um homem
bom e hospitaleiro, ofereceu-nos a casa para pernoite, as
refeições e barco a motor, pilotado por um mestiço índio,
um seu empregado, para nos levar à Fazenda São Benedito.
322
Descemos o rio Roosewelt por 30 km até a sede da
Fazenda. O transcurso de bote pelo rio, que neste lugar deve medir 1.000m de largura, foi impressionante. Miriades
de insetos e borboletas multicoloridas sobrevoavam as águas, peixes grandes como dourado, pintado, piracurú e
outros, de todos tamanhos, saltavam fora d`água para apanha-los. As margens ornadas de vegetação ribeirinha, de
pequenos arbustos e árvores que inclinavam seus galhos até
as águas, como a mirar-se no espelho.
Havia obstáculos de grandes pedras alojadas no leito
do rio. Nalguns trechos surgiam corredeiras e cascatas impossíveis de atravessar de bote. Precisávamos descer e continuar a pé. Os homens carregavam a embarcação até o lugar favorável, então continuávamos a viagem pelo rio.
Chegamos na sede onde éramos esperados pelo Chicão, o empreiteiro, e Antônio Alves, encarregado da Fazenda. Fiz o acerto de contas com os dois homens, e o pagamento em dinheiro ao Chicão que o repassaria à seus
peões. Voltamos de barco para a Concisa, e antes de regressar a Vilhena, sobrevoamos as linhas do picadão feito pelo
Chicão, para reconhecimento da área.
Pernoitamos em Vilhena, no rústico hotel construído
de madeira bruta, de propriedade de um gaúcho. Não havia
nada melhor. Noutro dia saímos bem cedo e voamos até
Cuiabá. Devido a hora tardia pernoitamos naquela cidade.
O Chico fez a revisão e abasteceu o avião, e numa viagem
tranqüila, voltamos a Paranavaí. Os nossos familiares já
estavam preocupados com a demora.
Voltei diversas vezes para a Fazenda São Benedito,
eventualmente acompanhada pelo meu filho Ricardo, ou
pela filha Mari, ou pelo Ivan ou Sérgio meus genros. Às
vezes ia de avião de carreira da Vasp ou Varig, até Porto
Velho, e voltava 400 km até Ji-Paraná, de ônibus, para nesta cidade, contratar o já nosso amigo e conhecido piloto,
323
João Sedlacek, que voava com seu velho avião, fazendo
heroísmo pelo sertão da região amazonense. Levava 1 hora
de vôo até a Concisa no Rio Roosewelt.
Certa ocasião, quando o avião do piloto João sinalizava para pousar no campo da Concisa, recebemos comunicado pelo rádio de bordo que o proprietário não autorizava nossa descida. Eu estava acompanhada pelo meu genro
Ivan. Ficamos intrigados, pois nunca fomos impedidos de
descer nesta Fazenda.
Zoguinho era nosso amigo. Informaram-nos que o
Sr. Fábio Ferraz era o novo dono da Concisa e não nos conhecia. Depois de muita justificativa e explicação minuciosa, tivemos autorização para pousar. Ainda receoso, ofereceu-nos pernoite e hospedagem.
Somando-se à problemática recepção, ao descermos
do avião, dirigimo-nos à residência do Sr. Ferraz, caminhando pelo descampado de vegetação baixa, onde, de agosto a setembro, proliferam micuins microscópicos e carrapatos-pólvora. Fomos atacados por estas pragas da região
amazônica, que sobe pela roupa, aloja-se na pele, causando
um comichão de enlouquecer. Além de nuvens de borrachudos e mosquitos-pólvora que fizeram seu banquete de
sangue, nos nossos rostos e braços. Instantes depois olhei
para Ivan e comecei a rir.
- Você está tão engraçado, está irreconhecível, olha
no espelho. Teu rosto está inchado como uma bola, mal
aparecem teu olhos. Até parece com japonês.
- E a senhora já viu seu rosto? Deve estar igual ao
meu. E que estes insetos provocam uma alergia tremenda
nas pessoas e nos animais.. Ainda bem que lembrei e trouxe comigo um antiálergico. Devemos tomar logo.
De manhã, após uma noite mal dormida por causa
dos borrachudos, pernilongos, e pulgas que havia na cama,
fomos de barco até a sede da Fazenda São Benedito. Acer324
tei as contas com o encarregado, dei as instruções e voltamos para a Concisa. Agradecemos a hospedagem ao Sr.
Ferraz e a sua esposa D. Selma. Voltamos para Ji-Paraná,
onde embarcamos no avião de carreira da Vasp, com retorno a Curitiba.
Muitas vezes fiz esta viagem de ônibus, da Empresa
Eucatur. Saindo de Curitiba, a viagem de 3.000 mil km,
levava 42 horas até Ji-Paraná, em Rondônia, onde morava
meu filho Ricardo. Era uma viagem longa, com desconforto, cansativa, marcada pelas paradas e atrasos do ônibus
convencional, sempre superlotado. Em Ji-Paraná eu contratava o piloto João Sedlacek para o vôo até a Fazenda. Nessa
ocasião, Ricardo meu filho, me acompanhava.
Certa ocasião, de passagem por Cuiabá, quando esperava a minha bagagem de pé no saguão do aeroporto da
cidade, senti uma palmadinha nas costas. Virei-me rapidamente para ver quem era. Dei de frente com um homem de
média estatura, gordo, mulato de pele lustrosa, cabelo encarapinhado, com correntes no pescoço e pulseiras de ouro.
Parado, com um enorme sorriso, mostrando os dentes de ouro, o homem dirigiu-se a mim:
- A senhora não me reconhece ? Sou o Zé Rico, da
dupla sertaneja Milionário e Zé Rico. Estou indo para a
Alta Floresta fazer um show, vou cantar com meu parceiro
Milionário, que me espera naquela cidade. A senhora
D.Monika não lembra de mim? Reconheci-a de imediato.
Eu trabalhei de ajudante do motorista Josè Baiano, puxamos muita tora de peroba para a serraria de vocês. Recebia
o meu salário da sua mão. O mundo deu voltas e mudou a
minha sorte. Hoje viajo e canto por este Brasil afora.
- Dou-lhe os meus parabéns pela brilhante carreira
de cantor, e desejo que o êxito continue por longos anos.
È, a vida realmente nós faz surpresas – falei, emocionada.
325
O alto falante do aeroporto chamou para embarque
dos passageiros da Vasp com destino à Ji-Paraná e Porto
Velho. Outro chamava os passageiros que iam à Alta Floresta. Despedimo-nos e cada um seguiu o seu caminho.
Depois com o passar dos anos tornou-se cada vez
mais difícil a minha ida até a Fazenda. Treze anos depois,
doei o total dos 10.000 mil alqueires paulistas de terra, da
Fazenda São Benedito aos meus filhos, Ricardo, Mari Carmem e Rosí Celeste, inclusive aos meus dez netos.
Em 28 de fevereiro de 2000, esta área de florestas
magníficas foi vendida para a Associação Assistencial Adolpho Bezerra de Menezes, instituição com sede em Presidente Prudente, Estado de São Paulo.
Já se passaram 24 anos, desde o dia em que lá estive pela primeira vez e até o dia em que a vendemos à Associação, a floresta virgem continuava intacta, com o vento
farfalhando entre as folhagens das gigantescas castanheiras.
Só consentimos em vendê-la com a promessa solene
de os compradores conservarem essa esplêndida riqueza
vegetal como reserva florestal e ecológica. Espero que
cumpram a sua promessa.
Sou apaixonada pela natureza, pelas imensas florestas que povoam a Amazônia e seus animais nativos. Deploro a destruição das matas, o extermínio dos animais selvagens, a poluição dos rios e mares, a pesca descontrolada e
predatória. Comparo a humanidade com piolhos, que invadem, sugam e destroem a terra sem piedade.
Se recordar é viver novamente, então eu vivo de
lembranças. De alma sensível, adoro a música, flores e livros. Sou uma pessoa de caráter introvertido, voltada para o
universo interior. Organizada e determinada, devoto grande
amor ao trabalho, seja ele qual for, faço-o com dedicação e
responsabilidade. Na minha avaliação, o trabalho enobrece
e dignifica a pessoa.
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