Mosaico Colorido

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Transcrição

Mosaico Colorido
Apresentação
É com muito gosto que escrevo umas breves linhas, para apresentar este fascículo que
contém as reflexões da Jornada de estudos sobre a Venerável Maria Clara do Menino Jesus, a
Mãe Clara, que decorreu em Fátima, no dia 9 de Maio de 2009, perante a assistência de
centenas de pessoas.
A oportunidade do processo de canonização de Mãe Clara tem suscitado nas suas filhas
espirituais, nos leigos e leigas, no clero e em vários sectores da Igreja uma paixão sobre
esta grande figura do século XIX, que viveu nesta terra, de 15 de Junho de 1843 a 1 de
Dezembro de 1899. Da sua existência, brotou um raio de luz que penetrou os corações dos
seus contemporâneos e das gerações seguintes, porque as almas humildes e sábias deixam
uma marca indelével, que jamais será apagada.
Libânia do Carmo, de família nobre, apostou naquilo que há de mais perene e
enriquecedor: o amor de Deus, levado até às últimas consequências. Sentir-se amada por
Deus, amar os irmãos mais pobres, fazer o bem onde for necessário, sofrer no silêncio da
vida e do coração, fundar uma Congregação, rasgar-lhe novos horizontes em Portugal e
além-mar, enfrentar as adversidades dentro e fora da Igreja com espírito de caridade, não
se poupar a esforços, abraçar a causa do Reino, eis algumas das tonalidades desta grande
mulher.
Encontramos facilmente personagens que actuam por causa do prestígio social, da
afirmação do seu estilo pessoal! O que terá levado Mãe Clara a não vacilar e a prosseguir
nos seus intentos? O segredo está na sua vida espiritual intensa que era o centro de todo o
seu apostolado, na união íntima com Jesus Cristo, no sentido da hospitalidade franciscana,
que depois transbordavam em tudo o que fazia.
O Verbo Incarnado, que armou a sua tenda entre nós, com a sua divindade e
humanidade, é uma referência fundamental na entrega generosa de Madre Maria Clara do
Menino Jesus, na esteira do Pobre de Assis. Só quem compreende o sentido profundo da
Incarnação e da sua proximidade com cada ser humano, é que pode lançar-se nesta
aventura que foi o projecto de uma doação ao Senhor e da fundação da Congregação das
Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição.
A Congregação procurou seguir as suas pegadas, com disponibilidade total, face aos
desígnios de Deus. “Desde as origens, em todos os tempos e em todos os lugares onde a
Congregação chegou, a Hospitalidade procura ser um rosto humano da misericórdia divina
que sai ao encontro da humanidade sofredora para aí anunciar Jesus Cristo, Salvador e Redentor da humanidade”.
O processo de canonização em curso servirá, se Deus e a Igreja o quiserem, para
evidenciar a santidade e a missão que nortearam a sua personalidade, apresentando-a
como modelo para os cristãos de sempre. Notamos que em todos os lugares, onde se
encontram as Irmãs Franciscanas Hospitaleiras, houve uma redescoberta da
espiritualidade de Mãe Clara que a torna viva nas comunidades, nas famílias, nos corações,
no apostolado, na dimensão da caridade, na percepção dos sinais dos tempos, na
transformação da sociedade.
Os ilustres oradores desta Jornada - D. Manuel Clemente, Fr. David de Azevedo, D. José
Saraiva Martins, Irmã Maria da Conceição Galvão Ribeiro, Superiora Geral da Confhic -,
com ópticas diferentes, mas ancorados numa mesma unidade, oferecem-nos conteúdos
relevantes que nos apoiam na compreensão da grande mulher que foi e que é Madre
Maria Clara.
Encontros deste género, seja a nível nacional, regional ou local, são de incentivar a fim de
dar a conhecer o carisma que o Espírito suscitou através desta religiosa, e que será sempre
actual e de utilidade espiritual e pastoral.
Que os leitores se deixem galvanizar e anunciem ao mundo os seus traços espirituais e
humanos, criando uma hospitalidade de fraternidade e de caridade.
Onde houver o bem a fazer que se faça!
Lisboa, 27 de Março 2010,
aniversário da aprovação pontifícia da Congregação
Pe M. Saturino C. Gomes, scj
Abertura
Prezados irmãos e irmãs, amigos da Venerável Maria Clara do Menino Jesus, a Mãe
Clara de tantos de nós, bem vindos à primeira Jornada de estudos, sobre a aventura
evangélica duma filha bem amada de Deus, a Jornada de Estudos “Mosaico Colorido”.
Digníssimos conferencistas desta 1ª Jornada de Estudos sobre a Venerável Maria Clara
do Menino Jesus:
• Eminentíssimo Sr. Cardeal D. José Saraiva Martins,
• Exmo Sr. D. Manuel Clemente, Bispo da Diocese do Porto.
• Ilustríssimo Sr. Frei David de Azevedo, nosso irmão franciscano, quero dizer-vos, em
nome de toda a família franciscana hospitaleira, quanto nos honram com a vossa
presença, neste momento. Quero falar-vos, também, do nosso profundo reconhecimento
pela ajuda preciosa que nos dareis, para que nos acerquemos do mistério de Deus,
presente e palpitante na vida heróica da nossa Venerável Mãe Clara.
A mensagem que a vida de pessoas iluminadas oferece ao mundo ultrapassa as
barreiras do tempo e do espaço e ressoa no coração da humanidade, através da
eloquência dos seus gestos e do vigor profético das suas palavras.
É a partir esta convicção que experimento uma profunda alegria, ao abrir a primeira
Jornada de Estudos, sobre a Venerável Maria Clara do Menino Jesus.
Minhas Irmãs e meus irmãos, com uma comoção reverente, aproximemo-nos deste
espaço sagrado do entrelaçamento da liberdade humana com os desafios da paixão divina.
Assim fazendo, viveremos esta Jornada de Estudos com uma verdadeira experiência da
proximidade de Deus.
Quero partilhar com todos vós, como recordação desta primeira Jornada, a revelação
que é verdadeiro testamento espiritual da nossa Mãe Clara. No início da sua última
circular, dirigida a toda a Congregação, faz a seguinte confidência:
“Embora as mais cruéis amarguras, contradições e desgostos, vejo um olhar
providencial de Deus que vela sobre nós”.
Era o dia 29 de Outubro de 1899. A Mãe Clara estava a um mês da sua morte, que
ocorreria no dia 01 de Dezembro seguinte. Revela-nos aqui, nos últimos dias da sua
caminhada terrena, a profunda síntese, elaborada ao longo do seu caminho de discípula
do Mestre Jesus de Nazaré.
O mistério do sofrimento é algo que atinge a pessoa humana no seu âmago. Quando
nos visita, enche-nos de perplexidade, desorienta-nos, às vezes, faz-nos insurgir, contra
uma vontade superior que parece violentar-nos. A nuvem do não compreender impedenos de ver mais longe e mais claro. Isto experimentou Jesus no Jardim das Oliveiras,
quando suplicava:” Pai se é possível, afasta de mim este cálice, mas não se faça a minha
vontade…”
“No sofrimento Ele aprendeu a obedecer”, diz-nos o apóstolo Paulo. Também a nossa
Mãe Clara andou por este caminho do Mestre e chegou a reconhecer, por trás e para além
das situações mais dolorosas, das amarguras mais cruéis, um amor que vela, que ampara,
que transforma o sofrimento em passagem para a transfiguração de cada um de nós e
para recriação da humanidade. E a sua liberdade, como a do seu Mestre, abriu-se ao plano
do Pai.
Acolhemos a tua revelação, Mãe Clara: “ Embora as mais cruéis amarguras,
contradições e desgostos, vejo um olhar providencial de Deus que vela sobre nós”.
Obrigada por esta síntese da tua vida, que nos deixaste como herança!
Como Deus é bom! Deus seja bendito!
Fátima, 09 de Maio de 2009
Ir. Maria da Conceição Galvão Ribeiro
(Superiora Geral)
A força humilde e mobilizadora de uma mulher líder,
e o rosto humano do carisma da Hospitalidade
D. Manuel Clemente, Bispo do Porto
(Áudio)
Venerável Madre Maria Clara
Intimidade com Deus
Pois que o tema da nossa reflexão é a intimidade da Venerável Madre Maria Clara com
Deus, começamos com uma palavra de Jesus: “Já não vos chamo servos, mas amigos, visto
que um servo não está ao corrente do que faz o seu senhor; chamei-vos amigos, porque
vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai” (Jo 15, 16). Já não vos chamo servos, mas
amigos. Temos aqui duas realidades essenciais do ser humano, como pessoa: a vida – ser
servo – e a intimidade – ser amigo – “Chamo-vos amigos”. Que importância tem a
intimidade no ser da pessoa?...
O dinamismo que caracteriza o fenómeno da vida é a imanência; o dinamismo que
caracteriza a personalidade é a intimidade. Dois dinamismos paralelos e essenciais, mas
radicalmente diferentes. A imanência, ou seja, a capacidade de existir a partir de si
mesmo... As expressões são múltiplas: a individualização - o ser vivo torna-se singular; a
auto-conservação – o ser vivo tem a capacidade de manter e desenvolver a sua existência
a partir de si; a auto-reprodução – o ser vivo tem a capacidade de se reproduzir; a autoregulação – o ser vivo coordena ele mesmo as suas acções; a auto-transcendência – o ser
vivo tem a tendência a ultrapassar-se. Esta independência, porém, não é total. O ser vivo,
para viver, tem de se alimentar comer, digerir, assimilar…
A intimidade – como fenómeno humano – é complementar da imanência. O ser vivo,
para atingir a personalidade, tem que dar o salto qualitativo da intimidade. Dinamismos
complementares, mas radicalmente diferentes, porquanto, a operação característica da
vida é a assimilação; ao contrário, a operação característica da intimidade é a
comunicação, comunicação não de ideias nem de sentimentos, mas de si mesmo…
mantendo sua individualidade e unicidade.
Um dos traços mais belos e mais essenciais da pessoa é precisamente este, a unicidade.
João Duns Escoto, de cuja morte estamos celebrando o sétimo centenário, na concepção
de pessoa, seguindo Ricardo de S. Victor, vinca precisamente esse traço: “intelectualis
naturae, incommunicabilis existentia”. Cada um de nós é único. Insubstituível. Incomunicável. Irrepetível
Esta unicidade tem uma relação misteriosa e criativa com o amor. A pessoa já é única,
mas num mundo de amor torna-se mais única. Num matrimónio de amor autêntico, o
esposo e a esposa tornam-se mais únicos um para o outro. Tu és o meu António. Tu és a
minha Inês. Parece que a personalidade se torna mais viva, mais pura, mais forte. E se no
plano natural, o amor torna o outro mais pessoa… mais único, como será quando uma
fonte e pólo desse amor é o mesmo Deus?... Daqui a força da palavra do Apocalipse: “Darlhe-ei a comer do maná escondido; e dar-lhe-ei também uma pedra branca; e na pedra
branca estará gravado um nome novo, nome que ninguém conhece a não ser o que o
recebe”. (Ap 2, 17), O Concílio Vaticano II intui esta força constitutiva da intimidade quando,
sobre dignidade humana, diz: “A razão mais alta da dignidade humana consiste na vocação
do homem à união com Deus. Do seu mesmo nascimento, o homem é convidado ao
diálogo com Deus. Existe, pura e simplesmente, pelo amor de Deus que o criou, e pelo
amor de Deus que o conserva; e só se pode dizer que vive na plenitude da verdade,
quando reconhece livremente esse amor e se confia por inteiro ao seu Criador” (GS n. 19).
Vem-nos aqui a palavra de S. Boaventura: “Maius donum offert qui maiore corde donat” O
dom é tanto maior quanto maior for o coração com que se dá”. Como seria a intimidade
com Deus da Venerável Madre Maria Clara do Menino Jesus?
I - A intimidade de Mãe Clara com Deus
Algumas manifestações
Vejamos, primeiro, algumas manifestações da intimidade com Deus de Madre Maria
Clara.
1- Encanto pela vocação
Mãe Clara não tem exposições doutrinais sobre Deus nem sobre os mistérios cristãos,
nem deixou eflúvios de sua alma sob a forma de orações, poesias, expansões do coração,
ou referência a momentos extraordinários de contemplação. Era uma mulher activa.
Todavia, Deus tem presença decisiva na sua vida. Na sua juventude, há duas opções que
têm um significado muito forte. A recusa do matrimónio e a opção pela vida religiosa
activa – a vocação de serviço dos pobres – em contraste com duas grandes amigas: a
Marquesa de Valada e sua irmã mais nova, que haviam seguido para vida contemplativa.
Na força desta opção vocacional, se deve colocar o encanto que manifesta pela sua
vocação específica, de “hospitaleira”: “Oh! Que felicidade, minhas caras filhas, termos sido
chamadas à vocação de cooperar na salvação das almas, trabalhando nas obras de
misericórdia! Para isto, são necessários sacrifícios, é preciso trabalhar, mas quem não
trabalhará de bom grado na vinha do Senhor?!” Uma revelação da intimidade e da força da
sua relação com Deus.
Deus é também a motivação única que aparece nas exortações às suas filhas: “viver
unicamente para Ele”, “arrancar tudo o que desagrada ao soberano Esposo”, “adquirir as
virtudes que lhe são agradáveis”, etc. Na 2ª Circular exorta: “Ânimo, pois! Todas em geral
e cada uma em particular, metei mãos à obra sem jamais afrouxar; vivendo unicamente
para Deus, não tendo mais que um coração e uma alma só para Deus. Não querendo todas
senão o que as vossas Superioras quiserem de vós; tendo sempre com todas as vossas
Irmãs uma bondade e mansidão de criancinhas”. Noutra redacção da mesma circular,
dando num timbre esponsal ao seu pensamento: “Mais uma vez venho falar-vos, minhas
queridas filhas, a quem amo de todo o coração, na esperança de que trabalheis cada vez
mais fielmente em arrancar de vós tudo o que desagrada ao nosso soberano Esposo, e em
adquirir as virtudes que Lhe são agradáveis. Ó minhas queridas filhas, quão fortemente
está este desejo gravado no meu coração! Que coisa haverá que eu não quisesse fazer ou
sofrer! *…+ Certamente, minhas filhas, de bom grado daria eu a minha vida para vos
alcançar esta felicidade”. Na Circular nº 12 é ainda mais ardente. Referindo-se sobretudo à
vocação para a vida religiosa, diz: “E quanto não nos tem sido dado? Somente pela
vocação religiosa, quanto não devemos a Deus! Deus escolheu-nos entre mil e, tomandonos pela sua mão, conduziu-nos para a sombra do seu santuário e aí nos guarda como a
pupila dos seus olhos. *…+ como o nosso Pai S. Francisco, ela (a irmã) terá sempre em seus
lábios e no seu coração estas palavras “Meu Deus e meu tudo”, *…+ Oh, amemos a Deus e
só a Deus”...
2 - A emoção na linguagem
Esta intimidade visa com frequência a pessoa de Jesus. Então, emana lá do fundo um
encanto cheio de beleza e de afecto que se exprime na própria linguagem: “Meu doce
Jesus”, “o nosso doce Jesus”, o “nosso divino Jesus”, o “ nosso bom Jesus”, o “nosso
amado e divino Jesus”, “amantíssimo Jesus”, o “nosso divino Salvador”, “divino Salvador”,
“nosso Redentor”, “nosso divino Redentor”.
Uma forma concreta dessa afectividade é o amor esponsal. Mãe Clara usa, pelo menos
umas seis vezes o apelido de Esposo, referido a Jesus: “Nosso divino Esposo”, “Nosso
soberano Esposo”, “seu divino Esposo”, “Nosso querido Esposo”, “Nosso Redentor e
esposo”.
3 - A oração e devoções
Outra forma em que esta intimidade se manifesta é a vida de oração. A oração de Mãe
Clara, na sua forma visível, identificava-se com a oração da Comunidade. A sua fidelidade a
esta ficou presente na memória das Irmãs que dela dão testemunho. As Constituições de
1890 resumem assim essa oração: “As Irmãs se afeiçoarão principalmente às práticas recomendadas pelos santos e às devoções tradicionais da Ordem Seráfica, como a Via Sacra,
que tanto lembra o ardente amor do nosso Seráfico Pai S. Francisco pela Paixão de Jesus
Cristo, e que estimarão fazer todos os dias” (Constituições 1890, IV, 7). As Crónicas
acrescentam com insistência a devoção ao Natal e à Eucaristia. A devoção ao Natal do
Senhor está bem patente nas diligências que Madre Clara fez junto das autoridades
eclesiásticas a pedir autorização, para que determinados actos litúrgicos, próprios dessa
solenidade, fossem celebrados em todas as casas 5. A Eucaristia era momento singular de
intimidade não só na celebração da Santa Missa mas em actos de Adoração Eucarística,
praticados com frequência, principalmente durante o mês de Maio. “Queria que a presença humilde e contínua de Cristo no Tabernáculo despertasse em cada coração o
sentimento de louvor e de acção de graças que lhe é devido; e que a mera presença diante
d’Aquele que fica connosco fosse configurando a vida em hospitalidade, à imagem de
Deus-Amor, sempre disposto a acolher aqueles que o buscam e d’Ele se aproximam”6.
Referindo-se ao Mês de Maria, concretiza: “Durante esse tempo – conclusão desse mês –
estava o Santíssimo exposto, de dia e de noite, a qual era fervorosamente passada pelas
religiosas que alternadamente rezavam e cantavam piedosos cânticos, em honra do
Santíssimo Sacramento”.
Outra forma de piedade muito vivida por Mãe Clara foi a devoção ao Sagrado Coração
de Jesus. Dois actos singularmente expressivos dessa devoção foram a Consagração das
Franciscanas Hospitaleiras ao Sagrado Coração, em 26 de Junho de 1892, e a fundação da
Arquiconfraria do Sagrado Coração, da qual os primeiros membros foram a Madre Clara e
as Irmãs do Conselho Geral; e à qual chegaram a pertencer mais de mil irmãs (Em 1910
chegaram a 1095).
Outra devoção, a devoção a Maria - Testemunho da consagração de Madre Maria Clara
a Nossa Senhora foi o juramento de defender sempre a doutrina da Imaculada Conceição,
que ela fez, quando ainda no Recolhimento das Capuchinhas de Aldeia Galega, mas
igualmente significativa é forma como termina as suas cartas, quase sempre com a entrega
de si a “Jesus Maria e José e a S. Francisco”: - J.M.J.F.
4 - A consagração ao serviço dos pobres.
Toda a vida de Mãe Clara e todo o trabalho da Congregação, nas múltiplas valências a
que se abriu, desenvolveu-se no terreno dos pobres. “É nossa missão valer aos que
sofrem”. “É a nossa principal missão e aquela que buscámos, quando entrámos para esta
ordem”. “Olhem Aquela é que é a minha gente”, exclamou ao ver um grupo de mendigos.
Ora, toda esta vida se deve considerar no mundo da intimidade com Deus. Jesus disse: “O
que fizeste ao mais pequenino dos meus irmãos foi a mim que o fizeste”. Mãe Clara via
Deus naqueles “mais pequeninos”. E como seria a intimidade da sua relação com eles? Seu
trabalho não era meramente assistencial. Era encontro pessoal, encontro de mãe,
encontro de carinho, verdadeiramente atitude hospitaleira… e encontro com Jesus. Por
isso, também a actividade apostólica é expressão da sua intimidade com Deus.
Todos estes aspectos da sua existência: o encanto pela vocação hospitaleira, a
linguagem de encanto para Jesus, a fidelidade na oração, as diversas devoções, a devoção
a Maria, a paixão pelos pobres, todos constituem matizes de ternura a enriquecer a
intimidade com o Senhor. A intimidade supõe um clima de afecto; e mais doce fica,
quando esse afecto é feito de ternura.
II - Intimidade de Mãe Clara com Deus
Perspectiva histórica
“Em conclusão: nada de vós mesmos retenhais
para vós, a fim de que totalmente vos possua
aquele que totalmente a vós de dá” (CO)
Até aqui procurámos contemplar a paixão de Mãe Clara pelo Senhor nas suas
manifestações exteriores. Agora desejamos contemplar essa paixão como história
profunda na sua vida. Servir-nos-á como chuva para interpretação a frase de S. Francisco
na Carta a toda Ordem, que acabamos de citar. Os últimos dez anos da vida de Mãe Clara
foram marcados por acontecimentos muito dolorosos: o caso da Irmã Colecta, o caso de D.
Laura de Albergaria, a divisão entre as Irmãs, a onda caluniosa que subiu até requerer em
Roma a deposição de Maria Clara do cargo de Superiora Geral e o sofrimento causado pela
tensão entre os pedidos que recebia para novas fundações e a impossibilidade de os
atender, por falta de recursos humanos. Que importância têm estes acontecimentos na
intimidade da Venerável Madre Maria Clara com Deus? A frase de S. Francisco, que
apresentámos de entrada, servir-nos-á de chave de leitura. Francisco começa por exclamar
– diríamos – um hino de encanto, perante o desprendimento (ou kenose) de Jesus na
Eucaristia; e conclui com as palavras que reproduzimos acima: ”Que o homem todo se espante, que o mundo todo trema, que o céu exulte, quando sobre o altar, nas mãos do
sacerdote, está Cristo, o Filho de Deus vivo. Oh! grandeza admirável, oh! humildade
sublime, oh! sublimidade humilde, que o Senhor de todo o Universo, Deus e Filho de Deus,
se humilde a ponto de se esconder, para nossa salvação, nas aparências de um bocado de
pão. Vede, Irmãos, a humildade de Deus e derramai diante dele os vossos corações;
humilhai-vos, também vós, para que Ele vos exalte. Em conclusão: Nada de vós mesmos
retenhais para vós, a fim de que totalmente vos possua aquele que totalmente a vós se dá”
(CO 26-29). As palavras “em conclusão” não estão a mais no texto, como poderia parecer.
Estão lá propositadamente. Significam que a exortação com que S. Francisco termina é
uma dedução do que acaba de dizer sobre o despojamento que Jesus fez da sua grandeza
divina. A frase tem duas partes: Primeira: ”Nada de vós mesmos retenhais para vós”.desprendimento -. Segunda: “A fim de que totalmente vos possua Aquele que totalmente a
vós se dá” - Jesus. Mas, antes de prosseguirmos na história de Mãe Clara, cremos ser útil
palavra a delinear, mesmo com traços muito largos, a evolução da espiritualidade cristã,
até à espiritualidade esponsal, que, claramente, está por trás da palavra de S. Francisco: “A
fim de que totalmente vos possua, aquele que totalmente a vós se dá”.
1 - A piedade centrada sobre a divindade
Durante o primeiro milénio cristão, passada que foi a era dos mártires, a piedade cristã
começou a crescer em volta de dois centros: Deus Criador e Senhor e Jesus, visto na sua
divindade. Expressão da grandeza de Deus são as catedrais românicas, com a grossura das
suas paredes e colunas, o arco românico perfeito e pesado, a meia luz permitida pela
pequenez das janelas. Tudo símbolo de grandeza, de força, de silêncio, de peso e de
mistério. Por seu lado, as basílicas bizantinas são também expressão de grandeza, mas de
outro género: abertura espacial, porque os braços da cruz se abrem para os quatro pontos
cardeais, luminosa, porque os vitrais deixam entrar muita luz; solene, porque o ouro dos
mosaicos e a dignidade das figuras provocam encanto e adoração.
Também em Jesus, a alma de então contempla principalmente a divindade, como o
revelam os tímpanos das catedrais, onde Jesus aparece como o Cristo do Apocalipse (Todo
Poderoso, Rei Glorioso, em Trono de Majestade); o Cristo da Ascensão (Cristo triunfador
que atravessa a vida e a morte para entrar na Glória); o Cristo do Pentecostes (um Cristo
gigantesco, irradiando de suas chagas torrentes de luz que caiem sobre os apóstolos): e o
Cristo do Juízo Final (presidindo ao julgamento da humanidade). Sensibilidade semelhante,
mas mais fina, mostram também os crucifixos bizantinos, nos quais prevalece, não o
sofrimento, mas a impressão de majestade e de glória.
2 – A piedade centrada sobre a humanidade de Jesus
Ao entrar o segundo milénio – não se sabe bem porquê – o povo cristão começa a
centrar a sua piedade na humanidade de Jesus. Talvez por influência das Cruzadas; ou por
se ter mudado a geografia cristã para o centro da Europa e para o povo rural que, no seu
realismo simples, precisa de algo concreto para contemplar e vivenciar. S. Bernardo foi o
grande doutor e pregador da humanidade de Jesus, mas Santo Agostinho, S. Gregório
Magno, S. Pedro Damião e outros não a tinham ignorado.
3 – Duas formas de espiritualidade
Da relação com a humanidade de Jesus nascem duas formas de espiritualidade: a
espiritualidade martirial e a espiritualidade esponsal. A primeira vive o amor a Jesus como
desejo de identificação; principalmente, identificação com o Crucificado. E esta, não só
mediante a compaixão pelos sofrimentos sofridos por Jesus, mas mediante a união com
Ele pelo sofrimento próprio de cada um. Daqui a busca espontânea de mortificações,
cilícios, flagelações, jejuns, humilhações, etc. Os exageros foram tais que a Igreja viu-se
obrigada a intervir para moderar. Mas houve outra forma de identificação que visava, não
o sofrimento em si, mas o amor de Jesus e o modo como Ele o encarnou na sua vida. Daqui
a espiritualidade de imitação e de seguimento. O último passo seria o martírio, como
máxima expressão do amor.
A outra forma de espiritualidade, a espiritualidade esponsal, que, sob a influência do
livro do Cântico dos Cânticos, vive sobretudo o desejo do Encontro com o Esposo. Três
nomes estão tradicionalmente ligados a este misticismo: Ricardo de S. Vítor, Santa Teresa
de Ávila e S. João da Cruz. Mas é Santa Teresa quem nos dá uma descrição mais simples e
mais concreta desse amor. Partindo do ritual do matrimónio no seu tempo, Teresa utiliza
como símbolos, os três actos usuais de então: o enamoramento, os desposórios e o
sacramento. O enamoramento é feito por visitas, encontros, conhecimento e amor mútuo;
o desposório é a apresentação oficial e a mútua promessa, do noivo e da noiva, de se
entregarem um ao outro; e o matrimónio é o dom total de si mesmos, selado com o
sacramento, é a posse mútua e a estabilização no amor e na vida.
A exposição da grande doutora de Ávila é uma visão límpida e profunda que se pode
estender a toda a vida cristã. “O núcleo ou a essência de dita vida, (adverte T. Alvarez), é
percebido como um acontecimento de amor, estritamente interpessoal, de duas pessoas Deus e o homem – implicadas numa só vida. Humanamente, nada mais apto do que símbolo nupcial para expressar o realismo dinâmico e a totalidade de comunicação a que se
abrem as duas pessoas. (Teresa) despoja-o de toda a referência corporal. Diluem-se os
componentes eróticos. Conserva-se o amor como força total e catalizadora das pessoas duas pessoas de tipo distinto – capaz de desencadear um processo de assédio moral,
espiritual e ontológico”. (Pensamento semelhante na carta encíclica de Sua Santidade
Bento XVI, “Deus é amor”, n. 1).
S. João da Cruz não fala tanto do matrimónio espiritual, mas dos três estados da vida
ascético-mística: principiantes, proficientes e perfeitos; mas coloca o matrimónio no
último estado – o dos perfeitos. Diz assim: “(O estado do matrimónio espiritual) é muito
mais, sem comparação, que o desposório espiritual, porque é uma transformação total no
Amado; (nele) se entregam ambas as partes por posse total uma da outra, com certa
consumação da união de amor, em que está a alma tornada divina e Deus por
participação, quanto é possível nesta vida. *…+ Este é o mais alto estado a que nesta vida
se pode chegar”.
4 - Comunhão de bens
No matrimónio espiritual, porém, além do conceito de encontro, há outro, talvez não
tão explorado como aquele, mas duma riqueza simbólica muito grande: a comunhão de
bens, com duas linhas de vida: a participação nas epopeias heróicas em que o Esposo se
empenha, não só o martírio mas as múltiplas formas de doação – a cruz de cada dia -; e
outra, a da adesão absoluta à vontade do Esposo. Diz o livro do Génesis: “Serão dois numa
só carne”(Gen 2, 24); ou seja, “dois numa só vida”; “dois numa só vontade”. E Paulo: “Já não
sou eu que vivo. É Cristo que vive em mim (Gl 2, 19)”. Terminando o parêntesis, voltemos à
Madre Maria Clara.
Podemos contemplar este processo de união na vida da Venerável Madre Maria Clara,
concretamente, nos grandes conflitos dos últimos dez anos da sua vida. A sua resposta,
com efeito, foi sempre: “Faça-se a santíssima vontade de Deus”. “Faça-se a vontade da
Sagrada Congregação”; “Faça-se a vontade da Igreja”. Nesta comunhão de bens, ou de vida
e de vontade, realizam-se os dois movimentos que são Francisco sublinha com tanta
energia na frase que apresentámos: o desprendimento de si mesmo e a posse pelo Amado.
A - DESPRENDIMENTO
NADA DE VÓS MESMO RETENHAIS PARA VÓS
Na purificação passiva, o Senhor, com acontecimentos estranhos – e quase sempre
dolorosos - leva a alma a desprender-se de outros “amores” e “seguranças”, para que olhe
só para Ele, só para Ele se lance e só a Ele se agarre. De que foi Maria Clara levada a
desprender-se?...
1 - Da sua Congregação
É natural que um grande construtor se sinta preso à obra que construiu, na qual
despendeu o seu dinheiro, o seu talento, as suas forças, longos anos de trabalho e de
preocupação. Assim, uma grande empresa, um grande convento, um prestigioso colégio,
uma paróquia florescente, etc.… De um momento para o outro, tudo lhe foge… Madre
Maria Clara tinha uma obra grande, extraordinariamente grande: a sua Congregação. Eram
já cerca de 500 Irmãs. Todas diferentes, todas empenhadas, todas muito queridas. Eram
mais de cem as obras, em múltiplos campos de serviço, mas todas voltadas para os
pobres: crianças, doentes, idosos, gente abandonada. Que muito visse nela – na
Congregação – um motivo auto-satisfação. Que muito a ela – e a elas, “às suas queridas
filhas” – se sentisse presa?! Mas o caso da Irmã Colecta pôs em causa a Congregação,
desviou muitas simpatias, levantou uma onda de dúvidas e calúnias. Depois, o mesmo caso
deu origem ao caso de D. Laura de Albergaria, caso que afastou um número grande de
Irmãs da sua Superiora Geral. Em Outubro de 1892, referindo-se a essas tribulações,
escreve: “Como Nosso Senhor não permite que, por enquanto, vá fazer a visita, como
tanto desejava, - o meu estado de saúde é a causa – curvo-me reverente à vontade do
nosso Divino Jesus, e sirvo-me deste meio para fazer sentir às minhas muito queridas
filhas, que devemos meditar nas tribulações que há tempos a esta parte não deixam a
nossa Congregação”. “Curvo-me reverente à vontade do nosso divino Jesus”. Na circular n.
9, de 29 de Maio de 1898, escreve em tom ainda mais dorido: “Triste, e mais que triste é o
motivo que me obriga a dirigir-vos esta circular.*…+ Pobre Congregação! O que era aqui há
vinte anos e o que é hoje! Digo-vos com o coração nas mãos e as lágrimas nos olhos que
receio um terrível castigo. Se Deus não nos manda um remédio forte e se não meteis mãos
à obra da vossa perfeição, não sei o que será”.
A perturbação partia de um considerável grupo de Irmãs, pelo que é compreensível que
Madre Clara estivesse sentida com a Congregação. Será que Mãe Clara virou as costas às
suas Irmãs?... Terá deixado de as amar?... Não. Continuou a amá-las, não porém, como
obra sua, mas como dom de Deus. Vem-nos aqui à memória o sacrifício de Isaac. Deus,
paradoxalmente, dera ordens a Abraão, para que lhe oferecesse o filho em sacrifício. Que
dolorosa teria sido aquela caminhada para o monte Moriá (Cf. Gen.22, 1-19). Mas, ao fim e
ao cabo, o menino estava ali. Abraão tinha-o ali, mas agora não era obra sua, gerado por
ele e pelas entranhas de Sara. Agora era um dom de Deus, porque Deus interviera para o
livrar da morte. Estava ali. Era um mistério. Era um sacramento de amor. O mesmo se
passa com S. Francisco de Assis na crise de 1220-1223. Clara interviera e ajudara Francisco
a centrar de novo o seu pensamento em Deus. Francisco sentiu-se curado. Olhava os seus
Irmãos. Estavam ali. Mas não tinham sido “chamados e formados” por ele. Eram
oferecidos por Deus. Irmãos que Deus lhe dera. “Quando o Senhor me deu irmãos”... A
verdadeira felicidade era Deus. A Verdadeira alegria era Jesus. Basta lembrar o apólogo da
Verdadeira Alegria16 e o cesto queimado.
2 - Da sua personalidade: temperamento e educação.
Outro caso de desprendimento, a sua maneira de sentir. Um conflito muito
personalizado e bem mais doloroso foi o de D. Laura de Albergaria. No coração da
Venerável levantou-se uma onda de revolta, feita de sentimentos muito nobres
profundamente feridos: gratidão pelos muitos serviços que D. Laura prestara à
Congregação no problema de Irmã Colecta; a amizade que a unia a D. Laura por ser sua
prima; os princípios de fidelidade, de lealdade e honradez, que eram timbre da nobreza, e
que recebera de seus pais e lhe estavam no sangue; e ainda o respeito devido a muitas
famílias nobres que, pela influência de Laura, haviam lutado em favor da Congregação, e
tantas dores mais…Referindo-se aos ataques que sofreu no Capítulo Geral de Outubro de
1897, Madre Maria Clara escreve ao cardeal Prefeito da Sagrada Congregação dos Bispos e
Regulares: “Em pleno Capítulo, acabo de ser repreendida e proibida de todas e quaisquer
relações com D. Laura de Albergaria, e isto pelo Padre Visitador! Em consciência não se
pode admitir, depois de a Congregação dever àquela Senhora tantos sacrifícios, tanta
dedicação *…+ sobretudo durante as célebres tragédias da nossa Irmã Colecta. Com que
coragem hei-de fazer tal?!...É superior às minhas forças, porque não vejo nisto mais que
capricho e ciúme!...Em todo o caso submeter-me-ei a toda e qualquer resolução da
Sagrada Congregação”. Madre Clara teve que desprender-se do seu temperamento, da
sua maneira de ser e da herança moral recebida da nobreza tradicional…desprender-se do
seu sangue azul, feitos de valores nobilíssimos. Não negando-os, mas vendo, para além
deles, algo mais absoluto: a Vontade do Senhor. Viveu-os sob a forma de sacrifício e de
doação ao Pai, como Jesus no Jardim das Oliveiras. Ao mesmo Prefeito da Sagrada
Congregação escreve em 25 de Outubro: “Eminentíssimo Senhor, *…+ Lamento deveras ter
de expor coisas não só para mim cruciantes, mas mais que tudo, que nos rebaixam até ao
ínfimo. *…+ É triste e mais que triste, não ter, por assim dizer, ninguém que pugne pelos
nossos direitos!... Sempre injustamente arguida do que realmente não existe e privada até
dos direitos de liberdade, acusações que, por justiça, se podem chamar infâmias”. Em 13
de Novembro do mesmo ano, falando do mesmo problema, termina: “Fico esperando
resignada o que a Sagrada Congregação exigir de nós, pedindo, ao mesmo tempo, que se
faça justiça *…+ e nada mais! Que em tudo se cumpra a santíssima vontade de Deus”(Carta
inédita). (O sublinhado é nosso). É admirável esta submissão à vontade de Deus.
3 – Amizades e apoios humanos
Outro desprendimento: de amizades e apoios humanos. O conflito ligado a D. Laura
levou muitas famílias nobres – unidas pela amizade - e muitos benfeitores que por sua fé
cristã haviam tomado a defesa da Congregação e oferecido o seu amparo, jurídico e
material, a afastarem-se da mesma. Eram pontos de apoio e fontes de receita
valiosíssimos. Também estes lhe fugiram debaixo dos pés… como a Pedro a superfície da
água, quando caminhava para Jesus, sobre as águas do mar de Tiberíades. Para quê?...
Para que confiasse na solidez da água?... Na sua experiência de homem do mar?...Ou em
algum pronto socorro que aparecesse?... Não. Mas para que se prendesse só ao Senhor.
Para que cravasse mais os seus olhos nos olhos d’Ele.. Só n’Ele confiasse. É a palavra de
Francisco: “Nada de vós mesmos retenhais para vós”. A nossa Madre teve que
desprender-se de tanta coisa!.... E de tanta coisa tão íntima!... Estes desprendimentos,
porém, não têm só um lado negativo. Dão origem a efeitos sublimes.
B - FORMAS DE UNIÃO
“PARA QUE TOTALMENTE VOS POSSUA…”.
“Para que totalmente vos possua aquele que totalmente a vós se dá”. A frase é
claramente de inspiração esponsal. O tema da intimidade coloca-nos espontaneamente
dentro desse mundo. Ter-se-á Madre Maria Clara sentido mais possuída pelo seu
Esposo?... E até que ponto?!... - A sua literatura, como já dissemos, não é abundante, e,
por outro lado, estes temas são segredos que se guardam só para o Amado. Todavia, as
circulares do último ano da sua vida, 1899 – 12, 16 e 17 – revelam uma serenidade, uma
paz e uma felicidade que nos permitem intuir uma presença grande e beatificante do
Senhor. Principalmente a circular n. 17, de 31 de Agosto, que teve como motivo a
celebração do onomástico de Maria Clara. Suas palavras são todas de encanto: “Como
Deus é bom! Deus seja bendito! Eis o grito que hoje parte a cada instante dos nossos
corações ao céu, recordando as santas impressões deste mês abençoado”. Sublinhemos a
exclamação “Como Deus é bom! “. Vamos destacar algumas formas dessa união:
1 - União absorvente
“Em tudo se cumpra a santíssima vontade de Deus”. É a expressão com que Mãe Clara
termina todos os desabafos sobre as perseguições de que está sendo vítima. As situações
dolorosíssimas em que surgem mostram que tais palavras não são uma frase trivial, vinda
da maneira de falar do povo. São palavras de sangue, vindas do fundo mais fundo do
coração. A santíssima vontade de Deus de certo modo torna presente a mesma pessoa de
Deus. E assim é testemunho da intimidade com Ele. Em Outubro de 1892, no caso Irmã
Colecta, diz: “Curvo-me reverente à vontade do nosso Divino Jesus”. Em 25-10-1897 - caso
de D. Laura - “Em todo o caso submeter-me-ei a toda e e qualquer resolução da Sagrada
Congregação”. Em 20 de Janeiro de 1898, anunciando a nomeação do segundo Visitador,
Frei João da Santíssima Trindade: “para que em tudo se faça segundo a vontade de Deus,
para sua maior glória e amor” (Confhic III, p. 31). E em 13 de Novembro de 1899:“Em tudo
se cumpra a santíssima vontade de Deus”.
Uma das tentações mais fortes sofridas por S. Francisco foi a crise da Ordem em 12201223. Retirou-se para o Montalverne. Frei Leão tentava convencê-lo a descer até Assis
para desabafar com Santa Clara. Francisco resistiu, resistiu, mas por fim veio. Desabafou.
Tudo o que tinha lá dentro: Após longo silêncio, Clara perguntou-lhe: “E Dio?... E Dio?...”
Perante a estranheza de Francisco, explicou: “Quero dizer: No meio de toda essa
barafunda, Deus onde ficou?... Que fez de Deus?...” Francisco exclamou: “Obrigado.
Obrigado. Estou curado. Meu Deus e meu tudo. Meu Deus e meu tudo!”. E retirou-se feliz.
Por mais santos que sejam, os trabalhos que temos, por vezes, levam-nos a sair da
atracção de Deus. Os sofrimentos fazem-nos entrar mais dentro na órbita divina. Nas tribulações que sofreu Madre Maria Clara foi-se deixando absorver mais e mais pelo Senhor:
“Como Deus é bom! Deus seja bendito!
2 - União configurante
No caso de S. Francisco, um acontecimento particular culminou seu desejo de
identificação com Jesus crucificado: a estigmatização no Montalverne. Sabemos também
que, quer pelas penitências que fazia, quer pelas doenças que sobrevieram, S. Francisco se
tornou semelhante a Jesus crucificado. “Totus con-crucifixus”. No caso de Mãe Clara, o
sofrimento físico não foi tão grande nem tão patente. Todavia, os sofrimentos afectivos e
morais daqueles dez anos de sua vida foram verdadeiramente um processo de martírio e
crucifixão. A aceitação da vontade divina que ela repete tantas vezes, o amor que mantém
às suas Irmãs, o carinho que transparece na forma com que a elas se dirige, constituem
verdadeiramente um processo de configuração com Jesus sofredor. Semelhante ao Jesus
que pronunciou aquelas palavras. “Pai, não se faça o que eu quero, mas sim o que Tu
queres” (Mt 26, 39).
3 – União pacificante e confiante
Já acima referimos a transformação do seu amor para com as Irmãs, que passaram a ser
dons de Deus, prendas da sua ternura. Esta confiança aparece mais clara e absoluta no
que se refere à vida da Congregação: “inteiramente entrego tudo nas mãos do nosso divino
Senhor”. Uma das consequências mais funestas dos conflitos internos foi a perda de muitos apoios estranhos, económicos e espirituais. A esta perda, responde no coração de Mãe
Clara um total abandono à divina Providência. Em 11 de Julho de 1899, revela o seu
coração: “Como vos disse, tem havido grandes trabalhos com a fundação de novas casas; e
muitas mais aceitaríamos, se não fosse a falta de pessoal para satisfazer os muitos pedidos
que cada dia se nos apresentam! Vê-se claramente que o dedo de Deus está sobre a nossa
pobre Congregação. Esta pequenina árvore dilata-se sensivelmente e os seus ramos vão-se
estendendo de uma a outra extremidade de Portugal, *…+ Trabalhemos, pois, mas
trabalhemos com fervor e verdadeiro espírito de fé, essa fé que faz obrar prodígios *…+ Oh!
Sim, é necessário sermos generosas para com um Deus que tão generoso tem sido para
connosco”. Na circular n. 18, de 29 de Outubro de 1899, fala com muito encanto da vida da
Congregação, que vê como acção de Deus e fruto do Seu olhar providencial: “Grandes e
insondáveis são sempre todos os desígnios de Deus! Nada acontece no mundo sem a
permissão divina! É esta uma grande consolação para mim, e tenho visto que do meio das
grandes tempestades surge sempre um aumento de bens para a nossa pobre
Congregação. Não obstante as mais cruéis amarguras, contradições e desgostos, vejo um
olhar providencial de Deus que vela sobre nós; e quando mais indignas talvez das graças
divinas, chovem elas copiosas sobre as nossas pobres almas!” 22. E, umas linhas à frente,
insiste: “Se por um lado o inferno se desencadeia, por outro lado, do céu chovem graças
sem número. A minha alma glorifica ao Senhor, porque opera milagres sobre o nosso
calvário”. Pela sua eloquência e singeleza, merecem que repitamos as três frases: Vê-se
claramente que o dedo de Deus está sobre a nossa congregação”; “Vejo um olhar providencial de Deus que vela sobre nós”; “A minha alma glorifica ao Senhor, porque opera
milagres sobre o nosso calvário”. É outra forma de intimidade esta confiança absoluta em
Deus.
4 - União beatificante
Esta gratidão torna-se maravilha e encanto perante Deus. Como dissemos, as circulares
12, 16 e 17, revelam uma grande serenidade e paz; e destas irrompem sentimentos de
encanto. O encanto que sente, no seu onomástico, diante da preparação festiva da igreja,
diante do trono de Jesus que, rodeado de flores e luzes, dominava tudo, diante da beleza e
simplicidade das festas preparadas pelas noviças, diante da alegria que há no refeitório…
mas no fundo e na origem desse encanto está Deus: “Como Deus é bom! Deus seja
bendito! Eis o grito que hoje parte a cada instante dos nossos corações ao céu, recordando
as santas impressões deste mês abençoado”. Um pouco à frente, na mesma circular,
reportando-se ao retiro que iniciara, no dia 16, com mais de setenta Irmãs Superioras, e se
prolongou por 10 dias, (com abertura encerramento), Mãe Clara deixa correr esta torrente
de encanto: “Dias felizes! Dias abençoados que passaram como um relâmpago! Quem
poderá deixar de os recordar com profunda saudade?! O recolhimento que inspirava a
igreja, um não sei quê de particular que se sentia naquele lugar três vezes santo fazia por
vezes esquecer que se vivia ainda neste mundo de misérias!... Havia momentos de
comoção arrebatadora!... Oh! Como Deus é bom!
S. João da Cruz lembra como características do desposório e do matrimónio espiritual: a
paz, o deleite, a suavidade do amor, uma visão nova do mundo e de Deus; e, ainda,
êxtases de amor, visitas do Amado e desejos ardentes de possuir e ser possuído e da
presença ilimitada da Pessoa divina. Assim sentia Mãe Clara.
Aqui somos convidados a pensar na beleza de Deus, na sua capacidade de cativar a
alma. S. João Evangelista dá um nome sublime a Deus: “Deus é Amor” (1 Jo 4, 7. 16). Os
teólogos franciscanos, a partir desta palavra, ensinaram que Deus é amor não só porque o
é na sua actuação (effective), mas porque o é na sua essência (formaliter). A essência de
Deus é amor. O alcance revolucionário desta doutrina vê-se, por exemplo, nos atributos de
Deus. Habitualmente os atributos apresentados são atributos de poder: Omnipotente,
Omnisciente, Omnipresente, Soberano, Majestoso, Eterno, Infinito, Santíssimo, etc.
Partindo do amor, os atributos, contrariamente, primam pela beleza e pela bondade: o
Amor é Gratuito (Deus não faz nada por interesse); o Amor é Pobre (Deus não é senão
amor, por isso, na Encarnação, rejeitou todas as riquezas, não fossem os homens trocá-Lo
por elas); o Amor é Humilde (Deus não força ninguém; não arromba a porta, deixa o
campo à liberdade, propõe, mendiga espera); o Amor é Sensível (Deus sente e vive tudo o
que acontece aos homens); o Amor é Comunicativo (Deus veio à terra para estar
connosco… com os mais pobrezinhos); o Amor é Débil (ao profeta Elias Deus revelou-se
como brisa suave e perfumada. Não estava no furacão, nem no terramoto nem no
incêndio). Como Deus é lindo!...Por isso encanta. Como será na sua realidade funda?... Só
se sabe mediante a “experiência”. Só sabe o que é o açúcar quem saboreia na boca um
torrão do mesmo. Algo de tudo isto está na experiência de Mãe Clara, quando exclama:
“Como Deus é bom! Deus seja bendito!”.
5 - Intimidade profunda e exuberância apostólica
O encontro da alma com o seu amado, na intimidade mais íntima e mais profunda,
surpreendentemente na experiência mística, é acompanhada de grande abertura
apostólica. Assim, podemos ver em S. Francisco de Assis. Francisco compôs o Cântico das
Criaturas, não numa primavera de alegrias, mas num contexto de insuportável sofrimento,
a ponto de o Santo dizer para céu que não podia mais. Então uma voz misteriosa
convidou-o a pensar a terra como uma bola de ouro, as serras como montanhas de pedras
preciosas e o mar e os rios como oceanos e torrentes de perfumes; e perguntando se, por
esse prémio, ainda achava seus sofrimentos demasiados. Após a resposta entusiasta do
santo, a voz disse: “Pois bem, Irmão, alegra-te e rejubila no meio dos teus sofrimentos e
tribulações. De hoje em diante, vive em paz, como se participasses já do meu reino”. Esta
promessa – “como se participasses já do meu Reino” - empolgou o Santo. Ao romper da
manhã, chamados alguns irmãos e preparado o necessário: “Sentou-se, concentrou-se por
momentos, depois entoou: Altíssimo omnipotente e bom Senhor” (LP 43). Assim nasceu o
Cântico do Irmão Sol. Em seguida, mandou que os Irmãos fossem pelo mundo a cantar
este cântico, como acção de graças e como anúncio do Reino de Deus. Nesta mesma linha,
segundo o testemunho dos biógrafos, o mesmo santo, já sobre o fim da vida, costumava
repetir: “Irmãos, comecemos a servir o Senhor, porque até agora pouco ou nada fizemos“.
É a exuberância sempre insatisfeita de quem ama.
Ricardo de S. Vítor, no livro De quatuor gradibus violentae charitatis, como última das
quatro etapas do matrimónio espiritual, apresenta o puerpérium, ou seja, o parto, que
identifica com a fecundidade apostólica, fruto do amor esponsal. S. Paulo viveu também a
tensão entre estas duas graças: a intimidade e a missão: “Estou pressionado dos dois
lados: tenho o desejo de partir e estar com Cristo, já que isso seria muitíssimo melhor; mas
continuar a viver é mais necessário por causa de vós. E é confiado nisto que eu sei que
ficarei e continuarei junto de todos vós (Fl 1, 21-24). Na vida da Venerável Madre Maria
Clara podemos ver algo semelhante. Grande parte dos pedidos para a abertura de novas
fundações chegaram nesses dez anos de perturbações e sofrimentos; e a quase todos Mãe
Clara respondeu afirmativamente. A esta generosidade há que acrescentar o sofrimento
heróico que vinha do Ultramar: de Luanda, de Goa, da Guiné-Bissau e de Cabo Verde –
provocado pelo sofrimento das Irmãs, este causado pela dureza do clima e pelas doenças
que não as deixavam. Na Venerável Madre Maria Clara dá-se a mesma tensão que sentia
S. Paulo: o desejo do encontro com Jesus, por um lado; e, por outro, o heroísmo
missionário.
6- Antegozo do encontro celestial
Significativamente, sem o esperarmos, Mãe Clara aproveita a proximidade do fim do
século XIX para reavivar o desejo do céu.: “Vai terminar este século e em breve
entraremos no século 20! E parece que Deus nosso Senhor quis por este retiro prepararnos para essa passagem! Seja, pois, para nós todas uma época marcada no grande livro da
vida, pela reforma da nossa conduta, pelos transportes de um vivo fervor, e assim
cantaremos na eternidade o hossana da felicidade eterna”.
Na Venerável Madre Maria Clara do Menino Jesus, a intimidade com Deus é vivida não
só como “encontro com o Amado”, mas também como “comunhão de bens”; e esta
concretizada como comunhão e serviço dos mais humildes. “Já não vos chamo servos mas
amigos”. A intimidade da Venerável Madre Maria Clara do Menino Jesus com Deus,
precisamente como intimidade, é uma mensagem missionária para a humanidade. É vital
não reduzir a vida humana à subsistência biológica, mas entrar no espaço da vida pessoal,
na relação verdadeiramente inter-pessoal. Aí, o oxigénio é a intimidade e esta é algo que
nasce de Deus e n’Ele tem sua garantia. Foi esta experiência de vida da Fundadora que
gerou na Congregação o carisma hospitaleiro. Hoje – talvez mais que nunca – é vital o
contraste afirmado por Jesus: “Já não vos chamo servos, mas amigos”.
Fátima, 09 de Maio de 2009
Frei David de Azevedo, OFM
Missão sem fronteiras e dinamismo evangelizador
da Madre Clara do Menino Jesus
Madre Clara do Menino Jesus é uma figura extraordinária da hagiografia lusitana. O seu
carisma, que continua a viver nas suas Filhas, as Religiosas Franciscanas Hospitaleiras da
Imaculada Conceição, é da mais candente actualidade.
É um carisma fascinante, extraordinariamente rico, poliédrico, que merece ser
devidamente aprofundado nas suas diversas facetas, à luz e no contexto em que a
venerável serva de Deus viveu e trabalhou. De facto, só assim será possível compreender
toda a riqueza da sua altíssima espiritualidade e o verdadeiro significado pastoral do dom
total de si mesma à Igreja que amava intensa e fielmente como a sua Mãe.
Entre os diversos aspectos do carisma da Madre Clara ocupar-nos-emos da dimensão
missionária, que animou e alimentou toda a sua vida, bem como toda a sua intensa e
multíplice actividade eclesial.
Nesta nossa exposição ocupar-nos-emos em particular de três pontos: consciência de
Igreja e de missão; dimensão missionária da vida religiosa e dinamismo evangelizador da
Madre Clara; a Madre Clara e a missão “ad gentes”.
I - Consciência de Igreja e de Missão
1. Uma Igreja missionária
A Igreja de Cristo, enquanto comunidade de fé, esperança e amor, é essencialmente
missionária. Ela compreende-se numa linha essencialmente dinâmica, apostólica e
evangelizadora. Tal é a noção bíblica, patrística e conciliar da Igreja, reafirmada com
particular vigor pelo Concílio Vaticano II e pelos últimos Sumo Pontífices.
O Concílio afirma, sem mais, de forma explícita e categórica, a missionaridade
intrínseca da Igreja, em especial na Lumen gentium e no decreto Ad gentes. A afirmação
de fundo deste último, a tal respeito, é que «a Igreja, que vive no tempo, é missionária por
sua própria natureza, enquanto que é da missão do Filho e o Espírito Santo que, segundo o
desígnio do Pai, deriva a sua origem». Tese esta que pode ser encontrada, em termos
idênticos ou equivalentes, em muitos outros documentos conciliares 2.
Idêntica noção da Igreja é-nos oferecida pelo Sínodo dos Bispos de 1974,
exclusivamente dedicado ao tema da evangelização no mundo contemporâneo. Em
diversas intervenções dos Padres sinodais, por vezes mesmo apaixonadas, é sublinhado
repetidamente, em plena sintonia com o pensamento conciliar, que a Igreja «é
essencialmente missionária», que «a Igreja Católica por natureza é missionária, é missão. É
enviada, como o Filho foi enviado pelo Pai». Estas duas afirmações semelhantes mostram
o quanto esteve a peito dos Padres sinodais evidenciar o aspecto dinâmico, apostólico,
missionário da Comunidade eclesial. Com efeito, a questão De natura missionaria totius
Ecclesiae sive universalis sive particularis foi, juntamente com a da acção do Espírito Santo
na evangelização, uma das mais amplamente debatidas pelo Sínodo, o qual, sem dúvida,
foi um dos mais importantes para a vida da Igreja no nosso tempo.
O pensamento conciliar e sinodal sobre o nosso tema é reafirmado, com igual força e
clareza, na exortação apostólica pós-Sinodal Evangeli nuntiandi, a “magna carta” sobre a
evangelização no mundo contemporâneo. De facto, também nela se concebe a Igreja
como uma comunidade encarregada por Cristo de proclamar a Boa-Nova aos homens que
se sucedem no tempo. Uma tarefa que, com as rápidas e profundas metamorfoses da
sociedade actual, é cada vez mais urgente4. A missão «não é pois algo de contingente ou
exterior, mas toca o próprio coração da Igreja». A missão é assim a vocação própria da
Igreja, a sua identidade mais profunda, a sua razão de ser.
Além disso, a Igreja é missionária enquanto nasce da missão. Santo Agostinho diz que
os Doze, seguindo os passos de Cristo, praedicaverunt verbum veritatis et genuerunt
Ecclesias. O pensamento agostiniano é retomado e feito próprio na EN, quando esta diz
que «a Igreja nasce da acção evangelizadora de Jesus e dos Doze. Ela é o seu fruto normal,
querido, mais imediato e visível».
Finalmente, a Igreja é missionária enquanto «vive da Boa Nova e por meio dela,
haurindo tudo o que deve oferecer aos homens. A Boa Nova anunciada de mil e uma
formas é, por assim dizer, o alimento da Igreja, alimento que, por sua vez, ela oferece aos
homens, para que eles vivam».
Do acima dito resulta claramente que “missão” e “Igreja” são duas noções coextensivas: a Igreja é missão. Por isso, uma Igreja que não estivesse em contínua tensão
missionária não seria a verdadeira Igreja de Cristo. Seria outra coisa, mas não a Igreja que
ele quis e instituiu: a Igreja do euntes docete.
Isto quer dizer que, a nível doutrinal, Eclesiologia e Missionologia são dois capítulos
inseparavelmente unidos da Teologia, não sendo desta forma possível elaborar uma
verdadeira Eclesiologia que não seja intrinsecamente missionológica, nem uma verdadeira
Missionologia que não seja estruturalmente eclesiológica.
2. A missão da Igreja e a missão de Cristo
Anunciando a Boa Nova, a Igreja nada mais faz do que continuar no tempo a própria
missão de Cristo.
Para compreender esta afirmação é necessário recordar a sacramentalidade da Igreja
em relação a Cristo. No fundo, a Igreja, tal como o sublinha o concílio Vaticano II, nada
mais é do que o sacramento de Cristo, ou seja, o sinal visível e palpável da sua presença
entre nós, depois de ter subido para junto do Pai. «A Igreja fica no mundo, lê-se na EN,
quando o Senhor da glória volta para o Pai. Ela fica como sinal, simultaneamente opaco e
luminoso, de uma nova presença de Jesus... Ela prolonga-o e continua-o». Trata-se de uma
presença essencialmente dinâmica. E isto quer dizer que Cristo, tendo sido glorificado,
continua a agir entre nós, através do seu Corpo místico, do mesmo modo que antes agira,
através do seu corpo físico. A actividade da Igreja, enquanto corpo terreno do Senhor
glorificado, tem, por conseguinte, uma dimensão essencialmente cristológica: é o próprio
Jesus de Nazaré que continua a caminhar no tempo.
O discurso que acabámos de fazer aplica-se em particular à acção evangelizadora da
Igreja. À luz deste princípio, compreende-se bem o verdadeiro significado do “qui vos
audit, me audit” (Lc 10,16) de Jesus aos seus discípulos. Ou seja, a voz da Igreja é a própria
voz de Cristo. Assim como durante a sua vida terrena Jesus anunciava a Boa-nova aos
pobres, caminhando com os seus próprios pés pelas cidades e aldeias da Palestina, falando
com a sua própria boca, assim também agora continua a percorrer as cidades e aldeias do
mundo, falando com a boca da Igreja. O agente principal da evangelização é hoje e
sempre, como outrora, o mesmo: Cristo.
Tal como Cristo, a Igreja não pode deixar de anunciar a Boa-nova do Reino Deus (Lc 4,4).
Também a ela, e pelo mesmo título, se aplicam as palavras de Paulo: «Ai de mim, se não
anunciar o Evangelho» (1Cor 9, 16). Para tal foi instituída. Como Pedro e João, a Igreja não
pode deixar de falar sobre «o que viu e ouviu» (Act 4,20), isto é, não pode deixar de comunicar aos homens que se vão sucedendo ao longo dos tempos a experiência irrepetível
do Senhor ressuscitado, fazendo-os escutar a sua voz, iluminando-os com os raios
resplandecentes da sua luz pascal. Esta é uma verdadeira exigência da natureza intrínseca
da Igreja que, através dos séculos, é chamada a ser testemunha de quanto Deus fez, de
uma vez para sempre, para a nossa salvação.
II - Dimensão missionária da Vida Religiosa
e dinamismo evangelizador da Madre Clara
A compreensão missionária da Igreja de que acabámos de falar foi também a da
Venerável Serva de Deus, Madre Clara do Menino Jesus, manifestando-se no seu grande
dinamismo evangelizador que transparece de forma muito clara na sua vida, nas suas
atitudes, na sua múltipla e fecunda actividade e nos seus escritos, que foram atentamente
examinados pelos historiadores e pelos teólogos da Congregação das Causas dos Santos.
1. Dimensão missionária da vida religiosa
Se a Igreja, enquanto comunidade de fé, esperança e amor, é essencialmente
missionária, não o pode deixar de ser também a vida religiosa. A vida segundo os
conselhos evangélicos só pode ser compreendida no seu significado eclesial mais
profundo, se for concebida e vivida numa linha fundamentalmente apostólica.
De facto, não teria qualquer sentido uma vida consagrada a Cristo, Missionário do Pai, e
à Igreja, missionária de Cristo, que não participasse do seu anelo missionário. Por este
motivo, o Concílio Vaticano II insiste, em diversas ocasiões, sobre a necessidade de toda a
vida dos membros dos Institutos religiosos (sejam eles clericais ou laicais, de vida contemplativa, de vida activa ou de vida mista) estar «penetrada de espírito apostólico e de toda a
acção apostólica ser animada por um espírito religioso».
A dimensão apostólica da vida consagrada foi vigorosamente corroborada pelo Sínodo
dos Bispos sobre a evangelização, em 1974. Na Aula Sinodal ouviram-se afirmações
bastante claras a tal respeito, tais como: «por si mesma a vida religiosa é anúncio explícito
do Reino»; «a vida consagrada é o meio mais eficaz de evangelização»; o radicalismo das
bem-aventuranças faz dos religiosos «evangelizadores tanto mais qualificados, quanto
mais se aproximam do ideal da sua vocação».
A natureza apostólica da vida religiosa é reafirmada pela EN, onde se afirma que «os
religiosos têm na sua vida consagrada um meio privilegiado e eficaz de evangelização. Pela
própria natureza do seu ser mais profundo, eles radicam-se no dinamismo da Igreja,
sequiosa do Absoluto de Deus e chamada à santidade. Enquanto testemunhas dessa
santidade, encarnam a Igreja desejosa de se entregar ao radicalismo das bemaventuranças. Com a própria vida, são sinal de uma total disponibilidade para com Deus,
com a Igreja e com os irmãos. Em tudo isto, os religiosos desempenham um papel de
capital importância no quadro daquele testemunho que, como precedentemente
afirmámos, é primordial na evangelização».
Não menos explícita é a Encíclica Redemptoris missio, ao fazer suas as palavras do
Código de Direito Canónico, segundo o qual os membros dos Institutos de vida consagrada
«desde o momento em que se dedicam ao serviço da Igreja, ficam obrigados, em virtude
da sua consagração, a prestar o seu contributo de modo especial à acção missionária,
segundo o estilo próprio do Instituto».
É precisamente isto que João Paulo II destaca com vigor na exortação pós-sinodal Vita
consacrata ao precisar que no chamamento a seguir Cristo “mais de perto” «está incluído
o dever de [os consagrados] se dedicarem totalmente à missão; mais, a própria vida
consagrada, sob a acção do Espírito Santo... passa a ser missão, tal como o foi toda a vida
de Jesus... Assim, há que afirmar que a missão é essencial para cada Instituto, não só para
os de vida apostólica activa, mas também para os de vida contemplativa».
Eis porque Paulo VI, fazendo seu o pensamento do Concílio, reconhece na Evangelii
Nuntiandi, a imensa quota-parte que os Institutos religiosos, de vida contemplativa e de
vida activa, têm desempenhado até agora na evangelização do mundo.
2. O dinamismo evangelizador da Madre Clara e a sua origem
1) Zelo apostólico da Venerável Serva de Deus
A dimensão missionária da vida religiosa de que acabámos de falar e, em particular, a
do seu Instituto, foi profundamente vivida pela Madre Clara do Menino Jesus a todos os
níveis e em todos os seus aspectos. O seu dinamismo evangelizador foi deveras
extraordinário. Ela foi uma grande missionária do seu tempo. Entregou-se plenamente
com inquebrantável coragem e total confiança, apesar das numerosas dificuldades
provenientes do contexto sociocultural em que viveu e trabalhou, ao anúncio do
Evangelho aos pobres, servindo-se para tal de todos os meios postos à sua disposição.
Como religiosa, viveu para a missão. Foi esta a dar sentido à sua vida de Irmã da
Congregação portuguesa das Franciscanas Hospitaleiras. À sua luz, interpretou todos os
acontecimentos da sua vida, pequenos e grandes.
Foi precisamente este dinamismo evangelizador a ser repetidamente salientado quer
pelos informadores interrogados sobre as virtudes heróicas da Venerável Serva de Deus,
durante a fase diocesana do seu Processo de Beatificação, quer pelos historiadores e
teólogos da Congregação das Causas dos Santos que estudaram com extremo rigor todos
os testemunhos recolhidos e expedidos para o supramencionado Dicastério da Santa Sé.
No que respeita aos primeiros, na Positio, que recolhe as declarações das pessoas
interrogadas, fala-se do zelo apostólico da Madre Maria Clara que não se fixava apenas no
cuidado dos corpos ou na instrução das mentes. “Ela quis ser entre os pobres uma
presença da misericórdia divina, ensinando-os a conhecer e a amar a Deus. Tal foi a missão
que Ele lhe confiara e que ela devia esforçar-se por viver e realizar». O mesmo
pensamento é retomado e sublinhado pelos Consultores teólogos, acrescentando que ela
«desejava contagiar todos com o próprio amor do Coração de Jesus, reputando-se feliz por
ter sido chamada a cooperar na salvação das almas praticando as obras de misericórdia”; e
que «com o seu zelo apostólico, foi, entre os pobres, uma presença da misericórdia divina,
ensinando-os a conhecer e a amar a Deus».
Tão grande zelo apostólico levou a Madre Clara a ter uma ardente caridade apostólica.
Ela consumia-se por Deus, pelos outros e pela sua Congregação. Permanecia
demoradamente diante da Eucaristia a contemplar Deus no mistério da sua Encarnação e
da sua Paixão. Encontramo-nos perante uma entrega incondicional e absoluta a Deus e a
Cristo, a quem considerava seu Esposo, o Mestre que aspirava imitar, seguindo os seus
passos com amor e piedade.
Desta sua atitude vertical de amor a Deus brota a atitude horizontal da sua caridade
para com todos os irmãos. Em primeiro lugar, para com as suas Irmãs consideradas «o
próximo mais próximo», e depois, para com todos os outros irmãos. «A virtude da
caridade para com o próximo, disse um teólogo, foi exercitada pela Serva de Deus com
uma abertura universal; percebida de modo espiritual e não natural, como desejo levar a
presença da misericórdia divina, debruçando-se não apenas sobre as necessidades
materiais, mas sobretudo sobre as espirituais: como quando se preocupava em baptizar as
crianças abandonadas... A caridade -continua o mesmo teólogo- levou a Serva de Deus a
personalizar a sua atenção e, ao mesmo tempo, a contribuir para a regeneração da sociedade, sem nunca separar a atenção dedicada às necessidades humanas da finalidade “de
dilatar o Reino de Jesus entre as almas”».
Os doentes foram a constante preocupação da Madre Clara, embora sempre numa
clara perspectiva evangélica, apostólica. À cabeceira dos doentes, ela «foi um anjo
consolador, dissipando medos, aliviando sofrimentos e dando sentido a cada lágrima.
Escutava “enternecida” as suas queixas, assumia as suas dores e procurava, com todos os
meios, proporcionar-lhes algum alívio... No cuidado dos doentes, a par do tratamento
corporal, levado a cabo com “a mais afectuosa caridade”, queria que as Irmãs tentassem
conquistar o seu coração pela paciência e com bons modos, “para lhes poder falar, no
momento oportuno, sobre Deus, a eternidade e os sacramentos”».
De quanto dissemos é claro, em primeiro lugar, que o exercício das obras de
misericórdia teve no pensamento da Venerável Serva de Deus e das suas Filhas, uma
finalidade claramente apostólica: a de preparar os assistidos para uma evangelização
adequada, que vinha depois, sobre Deus, Cristo, o Evangelho e os Sacramentos cristãos.
Em suma, tinha o sentido de uma evangelização.
Em segundo lugar, Madre Clara nunca separou a evangelização da promoção social do
homem, da sua dignidade, dos seus direitos naturais fundamentais - e consequentemente
irrenunciáveis -, das suas legítimas aspirações. O anúncio do Evangelho, que é
essencialmente uma mensagem de libertação, dirige-se ao homem na sua totalidade,
enquanto composto de alma e corpo, na sua dúplice dimensão, individual e social. Reduzilo só à dimensão espiritual e individual, significa deformá-lo completamente.
Foi partindo da íntima e profunda conexão entre a evangelização e a promoção social
do homem que a Madre Clara, proclamando o Evangelho, contribuiu para «uma das mais
importantes obras de regeneração social», segundo a definição da Irmã Saudade 23. «Se a
História não registar o seu nome», acrescenta a tal propósito a autora de A Irmã dos
Pobres: «como pioneira da acção social portuguesa no século XIX, dificilmente encontrará
outro que lhe corresponda com o mesmo dinamismo, a mesma envergadura e com a larga
projecção que a sua humildade sempre ocultou».
2) Evangelização e catequese
O zelo apostólico da Madre Clara levou-a a um intenso compromisso, no campo da
catequese. «Não satisfeita com esta obra de promoção e de evangelização», lê-se na
Positio, «a Serva de Deus procurava também garantir a sua continuidade, assegurando a
catequese dominical aos filhos dos operários que, nas cozinhas, tinham sido cativados pela
acção das Irmãs». «Na Lisboa da segunda metade do século XIX, as Irmãs Hospitaleiras
foram as primeiras catequistas da infância proletária».
A Madre Clara tinha compreendido a importância fundamental da catequese na
actividade pastoral e missionária da Igreja, vendo nela um meio privilegiado e
particularmente eficaz de evangelização.
Trata-se de outra intuição indubitavelmente notável da Venerável Serva de Deus que,
para se compreender melhor todo o seu alcance, deve ser lida à luz da exortação
Apostólica Catechesi tradendae, do Papa João Paulo II, sobre a catequese no nosso tempo.
Neste documento, o Papa Wojtyla destaca o vínculo inquebrantável existente entre a
catequese e a evangelização. Eis aqui algumas afirmações, entre outras, a tal respeito: «a
catequese não pode ser dissociada das iniciativas pastorais e missionárias da Igreja... Entre
catequese e evangelização não há separação nem oposição... mas existem estreitas
relações de integração e de mútua complementaridade... A evangelização é uma realidade
rica, complexa e dinâmica, feita de momentos essenciais, embora distintos, que é
necessário compreender no seu conjunto, a partir da unidade do seu único movimento. A
catequese é apenas um dos momentos - e como é importante! - de todo o processo de
evangelização».
Além disso, é tanto mais significativo que o Papa introduza e conclua este importante
discurso sobre a catequese, retomando o mandato missionário de Cristo: «Ide e ensinai»
(Mt 28,19).
A catequese é, pois, um dos momentos mais importantes de todo o processo de
evangelização. Exactamente como pensava a nossa Venerável Serva de Deus. Também
neste campo ela foi uma precursora dos novos tempos.
3) Fonte do dinamismo e do zelo missionário da Madre Clara
O dinamismo extraordinário e o apaixonado zelo missionário da Madre Clara brotam da
sua espiritualidade essencialmente cristocêntrica. São fruto da sua vida de íntima união
com Cristo. A este respeito, a Positio fala de «uma profunda comunhão com Cristo, a
quem, nessa altura, ela seguia no meio de sofrimentos, mas que depois viria a manifestarse-lhe glorioso. Ela fez dele (Cristo) a razão de ser de tudo na sua vida, com tão absoluta
confiança que em todas as suas palavras e comportamentos podemos rever a confissão de
Paulo: “para mim viver é Cristo”».
No seu ideal místico, porém, a Venerável Serva de Deus vai além da simples união e
comunhão com Cristo. Ela aspira a uma verdadeira e real identificação com Ele. Lê-se na
Positio:
«Animava-a um veemente desejo interior de identificação com Cristo nas suas
canseiras e lutas, vendo o Seu rosto reflectido... no rosto do pobre, do enfermo, do ancião,
da criança carente e de todos os desamparados, sobre os quais derramava a ternura do
seu coração»29. «O seu percurso espiritual manifestava-se, de modo particular, numa
atitude de íntima relação esponsal com Jesus, cujo Sacratíssimo Coração constituía, para
ela, o centro unificador dos pensamentos e das acções».
Esforçava-se assim por cumprir em si mesma a exortação de Paulo: «Tende em vós os
mesmos sentimentos de Cristo Jesus» (Fil 2, 5-8), a fim de poder repetir com ele o que de si
mesmo ele afirmara: «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim» (Gal 2,20).
Pois bem, o Cristo com quem a Madre Clara se procurava identificar era, já o dissemos, o
Cristo missus, o Missionário, o Enviado do Pai, para levar aos homens que se sucedem ao
longo dos tempo o jubiloso anúncio da salvação; Ele é o princípio, a fonte e a raiz de toda a
evangelização, uma vez que esta promana, directa e imediatamente, do mandato
missionário que Ele próprio deu: «Ide e anunciai». Sendo assim, é claro que a identificação
com Cristo implica necessariamente a identificação com o seu perfil missionário. Ela podia
dizer como Paulo: é «o amor de Cristo que nos impele» (2Cor 5,14) a proclamar a sua
mensagem de salvação.
Tal é a origem do dinamismo missionário, do zelo apostólico e da paixão evangelizadora
da futura Beata.
III - Madre Maria Clara e a Missão Ad Gentes
Afirmar que a Igreja é por natureza missionária e, consequentemente, que a missão é a
sua tarefa irrenunciável, não significa, porém, que se deva subestimar a missão em sentido
específico ad gentes. Tal atitude levou por vezes - e infelizmente - à desaceleração da
missão em sentido específico no nosso tempo.
É uma atitude em total contraste com o ensinamento do Concílio Vaticano, tal como
precisa o Papa João Paulo II: «É necessário... precaver-se contra o risco de nivelar
situações muito diferentes e de reduzir ou até fazer desaparecer a missão e os
missionários ad gentes. A afirmação de que toda a Igreja é missionária não exclui a
existência de uma missão específica ad gentes, assim como dizer que todos os católicos
devem ser missionários não impede - muito pelo contrário, exige - que haja missionários
ad gentes, dedicados por vocação específica por toda a vida à missão».
Foi precisamente este sentido de missão que a Madre Clara sempre viveu e inculcou no
coração das suas Filhas.
Desejosa de difundir cada vez mais a fé cristã e de fazer com que Deus fosse cada vez
mais conhecido e amado, a Madre Clara não hesitou, com efeito, em enviar as suas Filhas
a outros Continentes - África e Ásia -, escrevendo assim uma das mais belas páginas da
expansão missionária portuguesa.
Aceitar as missões ad gentes, com todos os riscos e pesados sacrifícios que então
acarretaram à Congregação, não foi fácil. Isto «foi certamente, para um coração sensível e
uma consciência delicada como a da Serva de Deus, um verdadeiro holocausto que ela
porém fiel e persistentemente suportou até ao fim. Um facto que só se pode explicar
graças ao desejo irreprimível que a devorava de ganhar cada vez mais almas para Cristo e
de cooperar para a sua salvação». Tem perfeita razão a Irmã Saudade, quando diz que «só
um coração generoso e totalmente inspirado pelo amor de Deus seria capaz de empreender tantas obras de caridade, no meio de tantas dificuldades e espinhos que a
dilaceravam, recebendo, quase sempre, o tributo da maior ingratidão».
Contagiadas pelo espírito missionário da Madre, numerosas Irmãs partiram para terras
distantes e inóspitas, conscientes da sua vocação e felizes por terem sido escolhidas por
Deus para serem apóstolas do seu amor inefável e da sua imensa misericórdia. Partiram
impelidas por aquele “zelo pelas almas”, que se inspira na própria caridade de Cristo, feita
de atenção, ternura, compaixão, acolhimento, disponibilidade e empenho pelos
problemas das pessoas». Partiram, levando consigo o espírito da Igreja e da sua
Congregação, a sua abertura evangélica e o interesse «por todas os povos e todos os
homens» de todas as raças, culturas e condições sociais, «particularmente pelos mais pequenos e mais pobres». Partiram como sinais visíveis e tangíveis «do amor de Deus no
mundo, que é um amor» universal, «sem exclusões ou preferências».
As novas missionárias levaram indelével e viva, dentro de si, a memória da Madre e do
Seu modo de agir, como fonte segura de inspiração para o seu novo compromisso
evangelizador. «Não perdendo nunca de vista tal Modelo e Mestra, olhando-a sempre
como próxima referência, (elas) entregam-se à mais difícil tarefa de levar a todas as gentes
o anúncio de Cristo e da sua Igreja, o Evangelho da caridade, da Misericórdia, do Bem e da
Alegria, transmitindo-o com gestos de Hospitalidade, Acolhimento e Serviço».
Encontramo-nos perante uma extraordinária expansão missionária, digna de ser
gravada com letras de ouro nos anais da história das missões portuguesas, só possível
graças ao zelo evangelizador e à paixão missionária da Madre Clara do Menino Jesus. Tal
como o sublinha a Irmã Maria Lucília, que acabámos de citar, ao escrever: «feita de
humanidade e devoção, de caridade e de martírio, a página da irradiação missionária no
tempo da Madre Clara, atesta bem profunda e convincentemente que não havia limites
para o seu zelo apostólico. Verá tombar as suas Irmãs.., mas também sabe que “se o grão
de trigo não morrer... não dará fruto” (Jo 12,24)».
Referindo-se a esta magnífica epopeia missionária iniciada pela Ven. Serva de Deus, e
depois continuada pelas suas Filhas até aos nossos dias, a Madre Maria Eneide Maria
Martins Leite, então Superiora Geral, exprime-se com estas palavras: «foi a nossa história
missionária escrita, ao longo de mais de um século, não em grossos volumes ou literaturas
de páginas douradas, mas em gestos de bem fazer, na prática das obras de Misericórdia
que, brotando de corações generosos, iam sendo fecundadas pela Fé, pelo Amor e pela
Esperança»
A missão ad gentes não perdeu nada da sua actualidade. Pelo contrário: por tantos e
complexos motivos, ela é mais urgente do que nunca, nos nossos dias. É o Papa João Paulo
II a recordá-lo: «É preciso notar com realismo que as necessidades espirituais e materiais
das jovens Igrejas em estado de missão aumentam vertiginosamente. Muito foi feito;
muito se faz: mas muitíssimo está ainda por ser feito em todos os campos».
Tal requer uma forte revitalização do espírito missionário na Igreja de hoje e no seio de
todos os Institutos religiosos, particularmente dos que têm como parte fundamental do
seu carisma a acção evangelizadora.
Neste contexto, o carisma da Madre Clara do Menino Jesus é mais actual do que nunca.
Sublinham-no com força os teólogos do Dicastério das Causas dos Santos40. O seu ardor
apostólico e a sua paixão missionária, que continuam a estar vigorosamente presentes nas
suas Filhas, podem contribuir muito para «o alvorecer de uma nova época missionária, que
se transforme em dia radioso, rico em abundantes frutos», tal como o auspiciava João
Paulo II na Encíclica Redemptoris missio.
Fátima, 9 de Maio de 2009
Card. José SARAIVA MARTINS
Mãe Clara contra corrente
Os conteúdos densos e relevantes desta Jornada, expostos em cores belas e variadas
como o mosaico colorido que foi a nossa Fundadora, lançaram-nos desafios pertinentes e
claros para a complexa textura dos tempos que são nossos.
As raízes da Congregação aguentaram a afronta e a mais forte barreira de fogo da
contestação ao cristianismo.
Como Francisco de Assis, a Ir. Maria Clara do Menino Jesus, nas horas de crise e dos
maiores impossíveis, nas horas em que tudo parecia contraditório, deixou-nos o desafio de
duas atitudes a tomar em todos os tempos:
- a convicção e a caridade, como impulso a dizer-nos da urgência em re-inventar a
Hospitalidade Samaritana no mundo inóspito que a deseja e clama como nos tempos
primeiros.
Como Francisco, o seu projecto de vida e missão é um paradigma a apontar, desde o
início, a famosa contra corrente de que hoje tanto se fala em igreja.
A história do século XIX, nomeadamente esta plêiade de mulheres fortes que o
marcaram, dita-nos atitudes urgentes para o século XXI:
• A ousadia de fazer dos obstáculos oportunidades para sair do comum.
Impulso novo para avançar, tal como a Irmã Maria Clara que, diante de mil razões para
não se mexer, encontra mil e um motivos para dar passos de gigante, próprios de uma
aventura evangélica, assumida com determinação e fé.
Convém não esquecer que a Irmã Maria Clara tem, hoje, o nosso rosto!
• A coragem de nos perguntar pelo segredo que escondia esta vida que,
silenciosamente, deixou ontem e hoje, um rasto a perseguir.
Vemo-lo claramente, se pensarmos os dois pilares sobre os quais construiu o seu viver:
- a intimidade e a aproximação do mistério de Deus
- e a proximidade aos mais desfavorecidos do seu tempo.
Deus foi uma presença decisiva na sua vida.
Em cada circunstância a Irmã Maria Clara revelou a sua paixão por Deus a quem se
entregou num permanente encontro e comunhão de bens, como revelou também uma
vida em missão.
Percorrendo a sua vida e obra, ela pode dizer como S. Paulo: Já não sou eu que vivo, é
Cristo que vive em mim.
Outros tons belos deste mosaico colorido:
• Num tempo fazedor de heróis fáceis e vidas com sentidos curtos e imediatos, estamos
diante de um claro apelo a viver a vida como Aventura Evangélica. Em cada tempo Deus
escolhe uma pessoa e chame para enviar.
• Hoje somos nós o rosto de Mãe Clara, mulher não de uma fé social ou de rituais… mas
de uma fé pura e prática. E porque vivia em Deus, soube encontrá-Lo no lugar dos irmãos,
na fraternidade e em todos os tempos e, por isso, também nos difíceis.
* Vidas iluminadas iluminam e aquecem. A Irmã Maria Clara é um permanente alerta a
que não sucumbamos às frustrações da existência nem às decepções humanas, porque o
mesmo olhar providencial vela sobre nós e o Sol da justiça pode apagar-se por instantes…
mas apenas por instantes.
* Uma luz a apontar este eterno Sol, o Sol sem ocaso e a dizer quanto pode acontecer,
quando o sonho de Deus comanda a vida.
* Com a descoberta de que estamos mais próximos da Irmã Ma- ria Clara do que
imaginamos, ela continuará a olhar-nos e a pedir- -nos para mergulharmos fundo nas
nossas raízes, a reconsiderar a rocha de que fomos talhadas, para revitalizar o Carisma que
urge expressar nas mais variadas formas, segundo os rumos certos e sempre novos do
Espírito.
Ir. Maria Amélia Costa

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