A HISTÓRIA POLÍTICA RENOVADA: novas possibilidades de

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A HISTÓRIA POLÍTICA RENOVADA: novas possibilidades de
A HISTÓRIA POLÍTICA RENOVADA: novas possibilidades de pesquisa
Êça Pereira da Silva
Doutoranda em História Social
Docente Faculdade Sumaré
[email protected]
Revista Acadêmica Eletrônica Sumaré
10ª edição - ano 2014
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RESUMO: Este artigo tem como objetivo refletir sobre as principais características da História
Política Renovada. Ao final de nosso diálogo exemplificamos com a possibilidade de
compreensão dos debates políticos a partir de novas abordagens e fontes.
PALAVRAS-CHAVE: historiografia, história-política, história
A partir da década de sessenta, lentamente, a política voltou a ser alvo de reflexões dos
historiadores. Em 1988, Renè Remond, lançou na França, Por uma história política, sua obramanifesto que o autor prefere nomear de “afirmação coletiva” cujo objetivo era fazer um balanço
teórico-metodológico da chamada História Política Renovada.
Nessa obra, Remond, organizador da obra, explicou algumas razões do ostracismo ao
qual a História Política foi relegada durante a primeira metade do século XX. Em primeiro lugar,
devemos levar em consideração o ambiente de disputa institucional como, por exemplo, o
ascendente grupo dos Annales que para afirmar-se precisava mostrar o quão inovador era em
relação ao que se produzia até então, de modo que, a História Política foi, severamente, criticada
com alguma razão.
A primeira das críticas que sofreu foi tratar-se de uma história factual, presa aos eventos,
événementielle, de curta duração e, portanto, superficiais no que tange à esfera do político. Era
também criticada por abordar apenas particularidades nacionais e, desse modo, não se prestaria
ao exercício comparativo no espaço / tempo ou mesmo para a formulação de conceitos, que
caracterizam a cientificidade das humanidades.
Como se não bastasse tamanhos “defeitos”, segundo, Remond, a História Política foi
acusada, ainda, de estar presa à narrativa cronológica, de modo que, tornava-se uma “quaseliteratura” sendo que nem menos o autor conseguia escrever de modo interessante. Outro atributo
dessa antiga História Política era o fato de focar-se na biografia dos “grandes homens de
Estado”, e na força de suas vontades como motor da história, de modo que, a explicação das
transformações históricas estavam nos ideais dos grandes personagens.
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Todas essas críticas eram válidas e pertinentes e contribuíram muito à renovação da
historiografia, especialmente, no que tange à História Política, pois tratava-se de uma História
que tinha como pilar fundamental o Estado-nacional. Ainda no século XIX, segundo Remond,
Marx foi o primeiro a contribuir para a “implosão” desse pilar da historiografia ao denunciar o
aparato estatal como instrumento burguês de dominação. Logo na dualidade entre superestrutura,
dentro da qual estava o aparato estatal com suas leis e o aparato cultural/ideológico, e a
infraestrutura, o sistema produtivo, base do poder econômico, os marxistas concentraram-se no
estudo desse, onde estaria o poder de fato e, assim, entendiam a esfera política (superestrutura)
apenas como um reflexo da esfera econômica (infraestrutura).
Mas historiografia, como os homens, também é filha de seu tempo: as guerras mundiais,
as revoluções, as democracias, os meios de comunicação de massas, as individualidades e as
identidades, entre outros temas, emergiram na primeira metade do século XX e colocaram o
debate sobre o lugar da política em outro patamar. Assim, no final dos anos sessenta, o político
saiu do ostracismo para ocupar todos os lugares: religião, relações de gênero, moda, alimentação,
enfim e, naquele momento, qualquer opção assumida no espaço público era, necessariamente,
política, de modo que, para abarcar a pluralidade das manifestações políticas era preciso
extrapolar a atuação do Estado e compreender as diversas formas de organização da sociedade
para pressionar o Estado. Assim, acompanhando esse movimento, atualmente, a História Política
se encontra muito próxima de ser uma História Total, como seus detratores do início do XX
almejaram que a História fosse.
A História Política produzida, atualmente, é interdisciplinar, pois por abarcar diversas
manifestações da política tais como: canções, filmes, marchas, partidos, eleições, etc; ela recorre,
conforme o caso, à outras áreas para melhor compreender seu objeto. Remond (2003) relacionou
como exemplos a Sociologia, Direito Público, Psicologia Social, a Linguística e a Matemática (p,
29). As novas questões postas levaram ao diálogo com outras disciplinas, e como consequência,
a História Política respondeu aos desafios que lhe foram lançados pelos seus críticos.
Se antes, a História Econômica era a única que podia orgulhar-se de contar com uma base
documental quantitativa e seriada que lhe sustentava e lhe dava o acesso às profundezas das
mudanças históricas, ou seja, à longa duração. Agora, a História Política, por se interessar pelas
temas da democracia representativa, a documentação seriada gerada pelas disputas eleitorais,
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fornece ao historiador do político a possibilidade de vislumbrar esse quadro das macromudanças nas profundezas da História.
Outra acusação a qual a História Política também respondeu com uma mudança
significativa é a de apenas focar-se numa minoria privilegiada e esquecer-se do povo. Além dos
temas eleitorais e da política partidária que possibilita vislumbrar as opções de uma parcela da
população há também a possibilidade de estudar a trajetória de movimentos sociais, sindicatos,
movimentos culturais, enfim, compreender como a sociedade se organiza e disputa poder para
além e também dentro do Estado.
A introdução de René Remond nos mostra que o político guarda suas especificidades em
relação à outros aspectos da vida social: o econômico, o cultural, o ideológico, entre outros, e
mais que eleger um fator determinante, seja ele o político ou o econômico, a riqueza da análise
histórica está em compreender as múltiplas determinantes e as interferências recíprocas desiguais
segundo à conjuntura de cada um desses fenômenos sociais.
Pouco antes da publicação no Brasil da obra organizada por Remond, a historiadora
Maria Helena Capelato, apresentou na ANPUH nacional de 1995 um balanço sobre os
andamentos da História Política desenvolvida pela academia brasileira. Aqui, a História Política
se impôs na medida em que a Revolução deixou de ser a principal pauta dos debates no final dos
anos setenta, assim a produção historiográfica a partir dos anos oitenta mudou: das estruturas
sociais e econômicas que deveriam mostrar o Brasil profundo para a compreensão das relações
de poder no espaço público, num país marcado pela colonização, pela escravidão, onde as
instituições representativas abarcaram apenas uma pequena parte da população.
Assim, a
construção do pacto de 1988 consistiu-se na primeira tentativa de instituição de uma cidadania
participativa que trouxe para o centro do debate a participação de uma população,
historicamente, afastada das esferas de poder.
Obviamente, as instituições democráticas sozinhas não resolveram o problema da
desigualdade social e, tampouco, evitaram as diversas crises Econômicas, Sociais e Políticas,
assim, o balanço de Capelato indica que na História Política desenvolvida no Brasil até 1995
houve a predominância de dois olhares: um otimista, que via nas diversas resistências ao poder
empreendidas pelo povo brasileiro ao longo da história possibilidades para uma sociedade
diferente e o pessimista, no qual as seguidas derrotas dos movimentos populares mostrariam a
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impossibilidade de mudanças. Para superar tal dicotomia e aprofundar o conhecimento histórico,
a autora sugeriu em seu artigo, que os pesquisadores se dedicassem aos estudos políticos de
longa duração.
Para encerrar cabe chamar a atenção às possibilidades de investigação a partir da
perspectiva da História Política renovada fazendo novas questões a novas fontes. Para tanto,
remeterei à minha primeira experiência na pesquisa histórica: minha iniciação científica, cujo
título era A nova canção chilena: um encontro entre a arte e política, e foi desenvolvida entre
2003 e 2004 com bolsa FAPESP. Esclareço que esse exercício de memória tem como objetivo
despertar o interesse na pesquisa e mostrar como essa atividade está vinculada à docência, foco
dos cursos de licenciatura.
Os temas que investiguei à época foram os vínculos político partidários e as relações
institucionais com o governo da Unidade Popular (1970-73) desenvolvidas por dois conjuntos
musicais e um cancioneiro, membros do movimento conhecido como Nova Canção Chilena. Os
conjuntos eram o Quilapayún e o Inti-Illimani e o cancioneiro era Victor Jara. Quanto as fontes
da investigação, obtive a maioria por meio da Internet: canções, memórias, entrevistas, artigos,
enfim; esse novo meio de comunicação serviu como meio para a obtenção de fontes fazendo
desnecessária uma viagem para a busca de fontes para aquela pesquisa iniciática.
Os membros de um movimento artísticos foram pensados como atores políticos
privilegiados, uma vez que fizeram uso de suas canções para difundir um projeto político no
espaço público, próprio das sociedades democráticas e, uma vez que esse projeto alcançou o
poder, mantiveram-se atuantes e lutando para que as propostas fossem implementadas apesar das
diversas sabotagens implantadas pela direita.
Naquele trabalho o grande desafio foi analisar o discurso político e suas repercussões sem
minimizar as características estéticas, considerando a linguagem musical, suporte daquelas
fontes. Aquele desafio foi fundamental para o trabalho empreendido como Docente, pois
especialmente lecionando para o Ensino Fundamental, uma das grandes inquietações que temos
é: Como aproveitar as elaborações que o mundo da cultura de massa produz e é, extremamente,
consumido pelo alunos e fazer disso um ponto de partida para a construção do conhecimento?
Talvez, uma possibilidade seja a formação de um Professor que saiba manejar os instrumentais
da pesquisa histórica: análise de fontes com aportes teóricos. Assim, a renovação da História
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Política foi um exemplo de abertura de novas perspectivas de olhar sobre o político e como isso
pode ter repercussões diversas, inclusive e, especialmente, em sala de aula.
REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS:
CAPELATO, Maria Helena. História política. Revista Estudos Históricos, v. 9, n. 17, p. 161166, 1996.
REMOND, Rene. Por uma História Política. Rio de Janeiro: FGV, 2003. 2a. Edição. Trad.
Dora Rocha.
SILVA, Êça Pereira. A nova canção chilena: um encontro entre a arte e a política. Relatórios
de IC- FFLCH/USP-FAPESP 2002-03.
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