Boas Práticas de Enfermagem

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Boas Práticas de Enfermagem
Boas Práticas
de Enfermagem
Boas Práticas
de Enfermagem
Dirce Laplaca Viana (org.)
Copyright © 2010 Yendis Editora Ltda.
Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, mesmo parcial,
por qualquer processo, sem a autorização escrita da Editora.
Editora: Dirce Laplaca Viana
Gerente editorial: Anna Yue
Coordenadora de projeto: Renata Alves
Assistente editorial: Gabriela Hengles
Assistentes de produção gráfica: Aline Gongora e Cristiane Viana
Estagiária: Bárbara Lorente
Secretária editorial: Priscilla Garcia
Preparação de originais: Beatriz Berllucci, Clauco Santana, Maya Indra Souarthes Oliveira
e Viviane Rodrigues Zeppelini
Projeto gráfico: Cristiane Viana
Ilustrações: Eduardo Borges e R2 Criações/Claudio Ripinskas
Capa: Felipe Hideki
As informações e as imagens são de responsabilidade dos autores.
A Editora não se responsabiliza por eventuais danos causados pelo mau uso das
informações contidas neste livro.
O texto deste livro segue as novas regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.
Impresso no Brasil
Printed in Brazil
ISBN 978-85-7728-200-5
Yendis Editora Ltda.
R. Major Carlos Del Prete, 510 – São Caetano do Sul – SP – 09530­‑000
Tel./Fax: (11) 4224­‑9400
[email protected]
www.yendis.com.br
Organizadora
Dirce Laplaca Viana
Doutoranda pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).
Mestre em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Especialista em Gestão de Recursos Humanos na Saúde e em Administração dos
Serviços de Saúde pela Faculdade de Saúde Pública da USP. Especialista em Enfermagem Pediátrica pelo Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade
de Medicina da Universidade de São Paulo (ICr/HC-FMUSP). Docente do Curso de
Especialização em Enfermagem em Terapia Intensiva Pediátrica e Enfermagem em
Neonatologia pelo Centro Universitário São Camilo. Diretora de Assuntos Profissionais da Associação Brasileira de Enfermagem, Seção São Paulo (ABEn-São Paulo).
boas práticas de Enfermagem
V
Colaboradores
Aline Santa Cruz Belela
Enfermeira. Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Mestre em Ciências da Saúde pela Unifesp.
Especialista em Enfermagem em Cuidados Intensivos Pediátricos pela Unifesp. Membro do Grupo de Pesquisa de Enfermagem em Segurança do Paciente, Cuidados
Intensivos e Terapia Intravenosa em Pediatria do CNPq (SEGTEC).
Cibele Grothe
Doutora em Saúde do Adulto pela Escola de Enfermagem da Universidade de São
Paulo (EEUSP). Enfermeira pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Coordenadora de Enfermagem do Laboratório Fleury. Professora do Curso de Especialização em Nefrologia da Escola da Enfermagem de São Paulo. Professora convidada da
Universidade Nove de Julho (Uninove).
Claudia Satiko Takemura Matsuba
Mestre em Enfermagem na área de Saúde do Adulto pela Universidade Federal de
São Paulo (Unifesp). MBA Executivo em Saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV).
Pós-graduada em Enfermagem na Unidade de Terapia Intensiva pela Unifesp. Pós-graduada em Metodologia da Ação. Docente pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Especialista em Nutrição Parenteral e Enteral pela Sociedade Brasileira de
Nutrição Parenteral (SBNPE). Coordenadora técnico-administrativa da Equipe Multiprofissional de Terapia Nutricional do Hospital do Coração – Associação do Sanatório
Sírio-São Paulo.
Elena Bohomol
Enfermeira. Doutora em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Consultora em Avaliação em Serviços de Saúde e de Enfermagem. Docente do Centro Universitário São Camilo.
Eliseth Ribeiro Leão
Pós-doutora pela Universidade Marc Bloch (França). Doutora pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP). Mestre em Saúde do Adulto. Gra­
duada em Letras e em Enfermagem. Especialista em Saúde Pública e em Educação
a Distância. Vice-líder do Grupo de Estudos de Terapias Complementares em Saúde
do CNPq. Coordenadora de Ensino e Pesquisa do Hospital Samaritano, São Paulo.
boas práticas de Enfermagem
VII
Eva Maria Costa
Enfermeira. Mestre em Enfermagem pela Universidade Federal do Estado do Rio de
Janeiro (Unirio). Professora adjunta do Departamento de Enfermagem Fundamental
da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto da Universidade Federal do Estado do Rio
de Janeiro (EEAP/Unirio).
Joanir Pereira Passos
Doutora em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo
(EEUSP).
Leila Blanes
Enfermeira Estomaterapeuta. Doutora em Ciências pelo Programa de Pós-graduação
em Cirurgia Plástica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Coordenadora
do setor de Feridas da Disciplina de Cirurgia Plástica da Unifesp.
Lisabelle Mariano Rossato
Doutora pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP). Mestre
em Enfermagem Pediátrica pela EEUSP. Graduada em Enfermagem pela EEUSP. Professora em todos os níveis (graduação, especialização, mestrado e doutorado). Autora dos Cartões das Qualidades da Dor, instrumento de avaliação multidimensional
da dor em crianças e adolescentes, composto por 18 cartões com o personagem
“Cebolinha”, desenhado pelo cartunista Maurício de Souza. Pesquisadora e membro
do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre Perdas e Luto (Nippel), registrado no
CNPq, o qual está ligado a projetos nacionais e internacionais.
Lúcia Marta Giunta da Silva
Enfermeira. Doutora em Enfermagem pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Mestre em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da Universidade de São
Paulo (EEUSP). Especialista em Gerenciamento em Enfermagem e Enfermagem
em Oncologia pela Faculdade de Enfermagem do Hospital Israelita Albert Einstein
(FEHIAE). Gerente de Enfermagem do Hospital do Rim e Hipertensão da Fundação
Oswaldo Ramos. Vice-presidente da Sociedade Brasileira de Enfermagem Oncológica (SBEO). Membro da Oncology Nursing Society (ONS).
Marcia Morete
Enfermeira pela Universidade Gama Filho (UGF). Mestre em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Mackenzie e Analista de Treinamento do Hospital Israelita
Albert Einstein.
VIII
Boas Práticas de Enfermagem
Maria Cristina Pauli da Rocha
Enfermeira. Mestre em Ciências pela Escola de Enfermagem da Universidade de São
Paulo (EEUSP). Especialista em Enfermagem Hospitalar à Criança e ao Adolescente
pelo Hospital das Clínicas/FMUSP. Professora da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep) e da Faculdade Integração Tietê (FIT).
Maria da Penha Schwartz
Mestranda em Enfermagem Profissional pela Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense (EEAAC/UFF). Especialização de Enfermagem em Estomaterapia na Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo
(EEUSP). Especializanda em Enfermagem Gerontológica pela EEAAC/UFF. Residência de Enfermagem em Oncologia Cirúrgica no Intituto Nacional do Câncer do Rio de
Janeiro (INCA-RJ). Enfermeira pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/
Paraná).
Mônica de Almeida Carreiro
Enfermeira. Doutoranda em Enfermagem pela Escola de Enfermagem Anna Nery da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (EEAN/UFRJ). Mestre em Enfermagem pela
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Especialista em Atenção
Terciária à Saúde: CTI. Especialista em Gestão em Saúde e tutora em Educação Permanente na Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/MS). Atua como enfermeira no
Programa de Extensão Fábrica de Cuidados Escola de Enfermagem Alfredo Pinto na
Unirio. Professora adjunta da Universidade Severino Sombra, Rio de Janeiro.
Nébia Maria Almeida de Figueiredo
Enfermeira. Livre-docente em Administração de Enfermagem pela Universidade
Fede­ral do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Doutora em Enfermagem pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora titular de Fundamentos de
Enfermagem da Escola de Enfermagem Alfredo Pinto da Universidade Federal do
Estado do Rio de Janeiro (EEAP/Unirio). Pesquisadora do Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Coordenadora do Programa de
Pós-graduação em Enfermagem da Unirio, gestão 2006-2008. Membro do Grupo de
Pesquisa Cuidado de Enfermagem da Unirio – CNPq.
Oranice Ferreira
Mestre e especialista em Saúde Pública e Saúde da Comunidade pela Faculdade
de Medicina de Ribeirão Preto da USP (FMRP/USP). Enfermeira e especialista em
Enfermagem Hematológica pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EERP/USP). Gerente de Enfermagem no Centro Regional de
Hemoterapia de Ribeirão Preto.
boas práticas de Enfermagem
IX
Patrícia Vendramim
Enfermeira. Mestre em Enfermagem Pediátrica pela Universidade Federal de São
Paulo (Unifesp). Encarregada do Hospital Samaritano, São Paulo. Docente do Centro
Universitário São Camilo e Diretora de Educação da INS Brasil.
Quele Cristina S. de O. Garcia
Pós-graduada em Licenciatura pela Faculdade do Piauí (FAPI). Enfermeira pela Universidade Nove de Julho (Uninove). Supervisora de estágio da Uninove. Enfermeira
assistencial do Hospital do Rim e Hipertensão da Fundação Oswaldo Ramos.
Rita Simone Lopes Moreira
Enfermeira. Doutoranda da disciplina de Cardiologia da Universidade Federal de São
Paulo (Unifesp). Instrutora de Suporte Básico e Avançado de Vida pela American Heart Association.
Selma Petra Chaves Sá
Enfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora titular do Departamento de Fundamentos e Administração da Escola de Enfermagem Aurora Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense (EEAAC/UFF).
Teresa Tonini
Enfermeira. Doutora em Saúde Coletiva. Mestre em Enfermagem. Professora do Departamento de Enfermagem Fundamental da Universidade Federal do Estado do Rio
de Janeiro (Unirio).
Valéria Silva de Carvalho
Especializanda em Pediatria pela Universidade de São Paulo (USP). Cursando MBA
Executivo em Saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Enfermeira pela Universidade Bandeirante de São Paulo (Uniban). Pós-graduada em Nefrologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Enfermeira Supervisora do Hospital do Rim e
Hipertensão da Fundação Oswaldo Ramos.
Valesca da Silva
Pós-graduada em Licenciatura pela Faculdade do Piauí (FAPI). Enfermeira pela Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU). Supervisora de Estágio do Centro de Formação
e Aperfeiçoamento em Ciências da Saúde do Instituto do Coração do Hospital das
Clínicas (Cefacs/Incor/HC). Enfermeira do Serviço de Educação Continuada do Hospital do Rim e Hipertensão da Fundação Oswaldo Ramos.
X
Boas Práticas de Enfermagem
Sumário
Prefácio. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .XIII
Boas práticas de comunicação em enfermagem. . . . . . . . . . . 1
01
Eliseth Ribeiro Leão
Boas práticas de enfermagem na promoção da higiene . . . . .
02
Nébia Maria Almeida de Figueiredo
19
Mônica de Almeida Carreiro
Joanir Pereira Passos
práticas de enfermagem na mecânica corporal, na
03Boas
restrição do paciente e na prevenção de quedas . . . . . . . . . . 41
Dirce Laplaca Viana
Teresa Tonini
Eva Maria Costa
Boas práticas de manejo da dor. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
04
Lisabelle Mariano Rossato
61
Marcia Morete
Maria Cristina Pauli da Rocha
práticas de enfermagem no controle dos sinais vitais. . .
Boas
05
Aline Santa Cruz Belela
práticas de enfermagem no cuidado com a pele . . . . .
Boas
06
Leila Blanes
87
121
práticas de enfermagem em nutrição e terapia
07Boas
nutricional enteral. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 145
Claudia Satiko Takemura Matsuba
boas práticas de Enfermagem
XI
práticas de enfermagem na administração
08Boas
de medicamentos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 177
Valéria Silva de Carvalho
Valesca da Silva
Quele Cristina S. de O. Garcia
Lúcia Marta Giunta da Silva
práticas de enfermagem na administração
09Boas
de hemocomponentes. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .201
Oranice Ferreira
Dirce Laplaca Viana
práticas de enfermagem no controle de
10Boas
eliminação urinária . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
215
Cibele Grothe
práticas de enfermagem no controle da
11 Boas
eliminação intestinal . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 237
Maria da Penha Schwartz
Selma Petra Chaves Sá
práticas para promoção de segurança em
12 Boas
centro cirúrgico. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .257
Elena Bohomol
práticas de enfermagem na punção
13 Boas
venosa periférica . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .275
Patrícia Vendramim
práticas de enfermagem na instituição de
14Boas
Suporte Básico de Vida . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .293
XII
Rita Simone Lopes Moreira
Boas práticas de enfermagem em seu dia a dia . . . . . . . . . . 307
Boas Práticas de Enfermagem
Prefácio
A despeito da quantidade de pesquisas e práticas baseadas em evidências
presentes em periódicos e apresentados em eventos científicos, ainda existem,
em nosso país, dificuldades de obtenção destas informações, seja por falta de
tempo ou de acesso aos recursos adequados.
O livro Boas Práticas de Enfermagem possibilita o acesso às informações
atualizadas sobre as melhores práticas de enfermagem, incluindo cuidados sobre comunicação; promoção da higiene do paciente e do ambiente; mecânica
corporal, restrição e prevenção de quedas; manejo da dor; controle dos sinais
vitais; cuidados com a pele; nutrição e terapia nutricional enteral; administração
de medicamentos e hemocomponentes; controle da eliminação urinária e intestinal; promoção de segurança em centro cirúrgico; punção venosa periférica; e
Suporte Básico de Vida.
Cada capítulo deste livro traz, quando pertinente, os materiais necessários, as
descrições das técnicas e as recomendações para boas práticas, escritos em uma
linguagem clara e objetiva, facilitando o entendimento do conteúdo abordado.
De maneira inovadora, o livro Boas Práticas de Enfermagem apresenta alguns
de seus conteúdos em multimídia (DVD) e em um site (www.boaspraticasenfermagem.com.br) com informações relacionadas à obra e ao seu conteúdo. Estas
ferramentas acompanham a evolução tecnológica da informação, permitindo
que o leitor utilize vários recursos para um melhor aprendizado.
Os colaboradores desta obra, que se destacam na pesquisa, docência e prática assistencial, validam a qualidade das informações apresentadas, possibilitando uma imbricação dos conteúdos num contexto prático.
Este livro é uma ferramenta de consulta para os profissionais de enfermagem
que, cada vez mais, tornam-se participantes ativos no desenvolvimento e realização de cuidados na prática clínica.
A excelência dos cuidados em saúde exige atualização permanente das práticas e, assim, espera-se que o conteúdo apresentado contribua para gerar conhecimentos que conduzam a uma prática segura. Tenha uma boa leitura.
Míriam Rodrigues de Medeiros
Presidente da Associação Brasileira de Enfermagem – Seção São Paulo (ABEn-SP)
Enfermeira Especialista em Gerenciamento de Enfermagem
Gerente de Enfermagem do Hospital Municipal do Campo Limpo
Enfermeira da Unidade de Primeiro Atendimento do Hospital Albert Einstein
boas práticas de Enfermagem
XIII
capítulo
1
Boas práticas de
comunicação em
enfermagem
Eliseth Ribeiro Leão
Neste capítulo você vai encontrar:
kk Comunicação verbal escrita
kk Comunicação verbal (oral)
kk Comunicação não verbal
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Introdução
A comunicação constitui um aspecto essencial para a prática da enfermagem,
uma vez que a maioria de suas ações ocorre no contexto das relações interpessoais. Pode ser verbal, subdividindo-se em linguagem escrita e falada (oral), e não
verbal, composta por gestos, sons, expressões faciais, postura corporal, toque
e distância entre as pessoas.1,2 A comunicação é o processo de compreender e
de compartilhar mensagens enviadas e recebidas, considerando-se que as próprias mensagens e o modo por que ocorre seu intercâmbio exercem influência
sobre o comportamento das pessoas envolvidas.3 Pela comunicação é possível
transmitir informações, expressar sentimentos, emoções e atitudes e transmitir
ordens e pedidos.4 Por seu intermédio, portanto, criam-se e compartilham-se experiências, significados e sentidos do existir, dos quais uma parcela significativa
de situações é vivenciada no campo profissional. Essas modalidades mesclam-se
nas atividades administrativas e de gestão, nas assistenciais e nas ações relacionadas ao ensino e à pesquisa em enfermagem tratadas neste capítulo.
Figura 1.1 Por meio da comunicação é possível transmitir informações, expressar
sentimentos, emoções e atitudes.
2
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BOAS PRÁTICAS DE ENFERMAGEM
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Comunicação verbal escrita
Registrar a atividade dos seres humanos sempre foi uma necessidade, desde
épocas remotas. Isso é demonstrado pelo cotidiano representado por meio de
desenhos rupestres, que permitiram estudar a história da humanidade até o aparecimento da escrita há milhares de anos.
A escrita, em substituição aos desenhos, passou então a descrever e a registrar o mundo real possibilitando a elaboração de mundos imaginários, bem
como a propagação de ideias, que subsidiam não só as ações humanas, mas as
transformações que elas propiciam.
A comunicação escrita no processo de enfermagem apresenta-se em dois
eixos fundamentais: o primeiro diz respeito aos aspectos éticos e legais de que
se revestem os registros da assistência, e o segundo relaciona-se à qualidade
assistencial.
Por meio dos registros efetuados pela equipe de enfermagem é possível obter informações sobre a assistência prestada de forma a assegurar a comunicação entre os membros da equipe de saúde e garantir a continuidade do cuidado
(Figura 1.2). Os registros no prontuário do paciente, da assistência a ele prestada, abrangem diversos aspectos e respaldam ética e legalmente o profissional
responsável pelo cuidado. Todavia, falhas no que se refere a adequações gramaticais da linguagem formal, a exatidão, a brevidade, a legibilidade, a identificação e a terminologia técnica são comumente observados.5 Registros efetuados
de forma incompleta e fragmentada impossibilitam a identificação de aspectos
mínimos de condutas de enfermagem que visem à segurança e à continuidade
da assistência ao paciente e comprometem os aspectos éticos e legais dessa
documentação.
Ampla legislação a respeito desse tema pode ser encontrada no âmbito da
enfermagem, com destaque para o Código de Ética dos Profissionais de Enfermagem (Resolução COFEN n. 311/07) que apresenta no seu art. 72:6 “Registrar
as informações inerentes e indispensáveis ao processo de cuidar de forma clara,
objetiva e completa”.
As informações do prontuário, portanto, devem ser corretas, organizadas,
seguras, completas e disponíveis.6 Todavia, a literatura apresenta estudos, por
meio das auditorias de cuidado, que indicam a clara violação do Código de Ética
pelos profissionais de enfermagem. A auditoria de cuidado é uma ferramenta
importante, que possibilita evidenciar deficiências nas atividades desenvolvidas
no processo de enfermagem, mediante uma avaliação sistemática e formal.7
A análise de prontuários tem possibilitado identificar que as atividades relacionadas à execução da prescrição médica como a terapêutica medicamentosa,
o controle de sinais vitais e outros controles são registradas com maior frequência
e de forma mais completa. Por outro lado, as anotações dos procedimentos de
enfermagem que exigem observação e detalhamento das ações que indepenCOMUNICAÇÃO EM ENFERMAGEM
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Figura 1.2
Anotação de enfermagem.
dem da prescrição médica encontram-se mais comprometidas.8 De modo geral,
os problemas encontrados nos prontuários referem-se à semelhança quanto ao
conteúdo das anotações e às evoluções de enfermagem, ou ainda, semelhança
com a evolução médica. Frequentemente, observa-se falta de clareza ou falhas
relativas à não realização de algum item da prescrição médica, como a administração de um medicamento, por exemplo, seja apenas por circular o horário
aprazado sem a respectiva justificativa como também pela não checagem da
mesma. Além disso, falhas como letra ilegível, erros de ortografia, utilização de
terminologia incorreta, siglas não padronizadas (e sem referência em algum local
do prontuário), bem como falhas na identificação do profissional, seja por falta
de carimbo ou nome ilegível, também têm sido observadas.5
Essas inadequações comprometem a autenticidade e a validade da documentação de enfermagem como instrumento legal. Para ser considerado um
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BOAS PRÁTICAS DE ENFERMAGEM
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documento autêntico e válido é necessário que o mesmo possua assinatura do
autor do registro (art. 368 do Código de Processo Civil) sem rasura, entrelinhas,
emenda, borrão ou cancelamento, características essas que podem gerar a desconsideração jurídica do documento produzido como prova documental.6 Isso
é de particular importância quando há intercorrência que origina ação legal em
que os registros de prontuário são submetidos a análise judicial. A ação incorreta
do profissional de enfermagem poderá ter implicações éticas, cíveis e/ou criminais. Pela legislação vigente, todo profissional de enfermagem que causar dano
ao paciente responderá por suas ações, tendo inclusive o dever de indenizá-lo.
Para que possa defender-se de possíveis acusações, o profissional poderá utilizar
os registros como meio de prova.
Em casos que gerem uma queixa formal, além das medidas legais que podem ser impetradas pelo paciente e/ou por sua família, duas medidas administrativas são comuns e concomitantemente adotadas nas instituições hospitalares: a submissão ao Comitê de Ética de Enfermagem e a instalação de
sindicância administrativa. A primeira para análise das infrações éticas e a segunda para apuração de responsabilidade individual e para identificação das
inadequações do procedimento, com vistas a ações de melhoria. Se a ação
não estiver registrada, poderá ser interpretada legalmente como ação não realizada e indicar má qualidade da assistência de enfermagem.9 Nesse caso,
não cabe ao profissional a transferência de sua responsabilidade para a falta
de tempo ou para a inflexibilidade do sistema, fatores extrínsecos que sabidamente interferem na rotina hospitalar e contribuem para a não realização
dos registros.10 Daí a necessidade da prática reflexiva, registrada, válida e não
automatizada dos cuidados.
As linhas gerais que descrevem aspectos fundamentais relacionados à forma
e ao conteúdo das anotações de enfermagem são indicadas a seguir:
kkRedação objetiva, sem preconceitos, valores, julgamentos ou opiniões
pessoais. Informações subjetivas devem ser incluídas mediante a utilização
de aspas.
kkDescrições/interpretações de dados objetivos apoiados em observações
específicas.
kkDescarte de generalizações e de termos vagos como “bom”, “regular”,
“comum”, “normal”. Tais descrições tornam-se abertas a múltiplas interpretações, conforme o ponto de vista do leitor.
kkDescrição de dados do modo mais completo possível, o que inclui a definição de características como tamanho e forma e demais especificações.
kkDocumentação clara e concisa para evitar informações supérfluas, frases
longas e vagas.
kkRedação de modo legível, com tinta indelével. Os erros na documentação
devem ser corrigidos de modo a não ocultar o registro inicial, o que pode ser
feito mediante o traçado de uma linha sobre o item incorreto, acompanhado
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da frase “registro incorreto” e a retificação do registro. O uso de corretivos,
borrachas ou linhas cruzadas para obliterar o registro não é aceito.
kkRedação com correção gramatical e ortográfica. O enfermeiro só deve incorporar as abreviações acordadas institucionalmente. Gírias, clichês e rótulos
devem ser evitados.
kkAbolição de espaços em branco em uma anotação.
kkRealização dos registros imediatamente após a ocorrência dos fatos e a
execução dos procedimentos.11,12
Seguindo as linhas gerais o profissional de enfermagem estará em conformidade com a legislação vigente, de maneira a garantir a continuidade da assistência, a segurança do paciente e dos profissionais, além de favorecer o ensino, a
pesquisa e a realização das auditorias de qualidade.6
Para além da assistência propriamente dita, a comunicação escrita está presente na atividade administrativa do enfermeiro.
O prontuário do paciente além de se firmar legalmente, a cada dia, como
ferramenta importante na avaliação da qualidade da assistência prestada aos pacientes, fornece informações vitais para processos judiciais e para os convênios
de saúde. No âmbito das glosas (cancelamento ou recusa, total ou parcial, de
valores considerados ilegais ou indevidos) das contas hospitalares, as anotações
de enfermagem são de extrema importância para as instituições de saúde uma
vez que, a partir delas, é possível reaver parcela significativa dos custos totais
habitualmente glosados pelos planos de saúde.13
A gestão de enfermagem pressupõe ainda a emissão de memorandos, de
e-mails, de solicitações e de relatórios, que requerem linguagem formal, clareza
e precisão de fatos e dados, lógica, análise crítica e argumentação, prática que
necessita de exercício cotidiano.
O enfermeiro também é responsável pela elaboração de manuais de normas
e rotinas diversos, além daqueles de cunho educativo para profissionais e pacientes, que requerem linguagem apropriada, a ser definida em consideração ao
seu público-alvo. Cada texto requer um estilo próprio, razão pela qual a linguagem rica em termos técnicos encontrada nos prontuários dos pacientes difere
da utilizada nos manuais educativos para os pacientes e seus familiares, livre de
jargões e de termos profissionais; da mesma forma, difere da utilizada para divulgação de pesquisas científicas em enfermagem, que requer o estilo acadêmico,
uma vez que busca atingir a comunidade científica.
Na era digital, alguns requisitos de etiqueta nas mensagens eletrônicas também precisam ser observados. Não se deve utilizar nos e-mails organizacionais
o estilo informal adotado para as redes sociais nem empregar letras maiúsculas
(o que, no ambiente virtual, significa “gritar” com o interlocutor); ao contrário,
deve-se enviar apenas mensagens com conteúdo profissional, de forma objetiva
e concisa, certificando-se do destinatário da mensagem para evitar seu envio
equivocado a outros profissionais.
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BOAS PRÁTICAS DE ENFERMAGEM
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Quadro 1.1 Imprescindível para uma boa prática da comunicação escrita
Ler muito e sempre
Ter domínio da língua portuguesa
Adequar a linguagem ao público-alvo
Ter clareza de ideias
Ter concisão e precisão
Exercitar a capacidade de crítica e de argumentação
Exercitar a capacidade de síntese
A campanha de 100 anos da Associação Brasileira de Imprensa teve como
tema a utilização da vírgula, que auxilia na reflexão sobre a importância da comunicação escrita. O texto segue transcrito:
Vírgula pode ser uma pausa... ou não.
“Não, espere.
Não espere.”
Ela pode sumir com seu dinheiro.
“23,4.
2,34.”
Pode criar heróis.
“Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.”
Ela pode ser a solução.
“Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.”
A vírgula muda uma opinião.
“Não queremos saber.
Não, queremos saber.”
A vírgula pode condenar ou salvar.
“Não tenha clemência!
Não, tenha clemência!”
Uma vírgula muda tudo.
“Se o homem soubesse o valor que tem a mulher andaria de quatro à sua procura.”
* Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de mulher...
* Se você for homem, colocou a vírgula depois de tem....14
O texto bem-humorado indica que se uma vírgula pode causar tanta confusão
é possível depreender o que uma frase, uma oração, um parágrafo ou um texto
COMUNICAÇÃO EM ENFERMAGEM
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mal redigido pode ocasionar na comunicação escrita também nas instituições
de saúde.
Comunicação verbal (oral)
A comunicação oral na assistência de enfermagem é representada principalmente pelo compartilhamento de informações. Durante a admissão do paciente
a um serviço ou a uma unidade por meio da entrevista e da obtenção de dados para o histórico de enfermagem o enfermeiro questiona o paciente e/ou
seus familiares sobre diversos aspectos que direcionarão o plano de cuidados.
Diariamente, toda a equipe multiprofissional encaminha questionamentos que
possibilitam avaliar as condições clínicas e a efetividade da proposta terapêutica
para a continuidade do cuidado. Além disso, há a necessidade expressa de informações pelos pacientes/famílias.
Há que se ter em mente que as motivações de ambos os lados dessa comunicação diferem em sua natureza. Os profissionais buscam as informações de forma a lhes fazer sentido na busca da melhor forma de atendimento, de cuidado
e de estabelecimento de proposta terapêutica; o foco tanto do discurso quanto
da escuta reveste-se de caráter profissional. Para quem necessita de cuidados,
tudo o que é dito ou ouvido tem caráter pessoal, uma vez que se trata da vida do
paciente, ameaçada em maior ou menor grau, da incerteza do futuro, do que representa o diagnóstico recebido e cada procedimento a que ele se submete etc.
Figura 1.3 Na comunicação oral os profissionais buscam informações para o melhor atendimento ao paciente.
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BOAS PRÁTICAS DE ENFERMAGEM
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Esse é o grande desafio na comunicação na assistência de enfermagem. A
compreensão dessa diferença é o que definirá (e é o que o paciente perceberá)
se é a doença que recebe cuidados ou a pessoa. Isso é expresso no que é comunicado verbalmente, mas principalmente de forma não verbal, tema que será
abordado posteriormente.
A comunicação oral, além de atender a função de investigação e de obtenção de informações, pode também ser desenvolvida de forma terapêutica, ou
seja, ela pode ajudar as pessoas a enfrentar seus problemas, a relacionarem-se
melhor e a ajustarem o que não pode ser mudado de forma a enfrentarem os
bloqueios à autorrealização.2 Para tanto, algumas técnicas de comunicação terapêutica são propostas, dividindo-se em três grupos:
expressão: descrição de experiência e expressão de sentimentos;
clarificação: esclarecimento do conteúdo do que for expresso pelo paciente;
validação: verificação da existência de significação comum entre quem emitiu
a mensagem e quem a recebeu.
Para cada um desses três grupos são recomendadas distintas técnicas de comunicação:
Expressão: usar terapeuticamente o silêncio, ouvir reflexivamente, verbalizar
aceitação e interesse, usar frases incompletas, repetir as últimas palavras ditas
pelo paciente, fazer perguntas, desenvolver a pergunta feita, usar frases descritivas, manter o paciente no mesmo assunto, permitir que o paciente escolha o assunto, colocar em foco a ideia principal, verbalizar dúvidas, estimular
expressão de sentimentos subjacentes e o uso terapêutico do humor.
Clarificação: estimular comparações, solicitar o esclarecimento de termos,
solicitar ao paciente que precise o agente de ação e descrever os eventos em
sequência lógica.
Validação: repetir a mensagem, pedir para o paciente repetir o que foi dito e
sumarizar o conteúdo da interação.15
São técnicas simples que favorecem uma melhor comunicação.
Vale ressaltar outro aspecto considerado crítico na comunicação oral no contexto da saúde e que diz respeito à comunicação de más notícias. Comunicar
más notícias é uma das tarefas mais difíceis que os profissionais de saúde têm
que enfrentar, pois implica em forte impacto psicológico sobre o paciente e
sobre sua rede de apoio – quem recebe má notícia dificilmente esquece onde,
como e quando ela foi comunicada.16 Quando uma doença progride e o profissional não encontra mais amparo nos recursos tecnológicos, a falta de preparo
dos profissionais para a comunicação e para o suporte emocional aos pacientes
torna-se evidente, o que gera silenciamentos, falsas promessas ou comunicações
abruptas de prognósticos adversos, com sérios prejuízos à relação terapêutica.17
COMUNICAÇÃO EM ENFERMAGEM
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