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JOSÉ CARLOS NEVES LOPES
O
teatro La Scala, de
Milão, procurava uma
soprano para nova
montagem de Aída em
comemoração aos cinquenta
anos da morte de Giuseppe
Verdi, já que tinha havido
um desencontro entre
Renata Tebaldi e o maestro
Victor De Sabata.
Constantina, credenciada
por seus sucessos anteriores,
apresentou-se ao grande
maestro para uma audição.
Dentre as seis sopranos
ouvidas, ela foi a escolhida.
Em 20 de fevereiro de 1951,
Constantina apresentava-se
no palco da mais famosa
casa de ópera da Europa,
tendo ao seu lado Mario Del
Monaco, Fedora Barbieri e
Ugo Savarese.
La Scala abriu-lhe outras
portas: Bari, Verona,
Londres, Trieste, Monte
Carlo, Paris, Augsburg,
Lisboa, Genova, Nápoles,
Bolzano, Bolonha, Carpi,
Salsomaggiore e outras
cidades.
1
JOSÉ CARLOS NEVES LOPES
CONSTANTINA ARAÚJO
UMA SOPRANO BRASILEIRA
(Álbum de recortes)
UENP – UNIVERSIDADE ESTADUAL DO NORTE DO PARANÁ
Campus de Cornélio Procópio
2015
2
CONSTANTINA ARAÚJO, UMA SOPRANO BRASILEIRA
© 2015 JOSÉ CARLOS NEVES LOPES
Edição eletrônica autorizada para a Universidade Estadual do
Norte do Paraná - UENP
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio, guardada pelo
sistema retrieval ou transmitida, sem prévia autorização do
autor, por escrito.
Revisão, editoração, capa e diagramação: Newton C. Braga
L8641c Lopes, José Carlos Neves
Constantina Araújo, uma soprano brasileira / José Carlos Neves Lopes. – Cornélio Procópio, PR: Universidade Estadual do
Norte do Paraná, 2015.
190 p. : il.; 22cm
1. Araújo, Constantina, 1922-1966. 2. Soprano (Cantoras) –
Biografia. I. Título.
CDD 927.892.5
CDU 929.134.3(81)
Índices para catálogo sistemático:
1. Biografia
2. Canto lírico
2. Ópera
UENP – UNIVERSIDADE ESTADUAL DO NORTE DO PARANÁ
Av. Getúlio Vargas, 850
86400-000 Jacarezinho, PR
UENP – CAMPUS DE CORNÉLIO PROCÓPIO
Unidade Campus: Rodovia PR 160, Km 0 – Unidade Centro: Av. Portugal, 340
Fone (43) 3904-1922 – Fax (43) 3523-8424
E-mail: [email protected]
Cornélio Procópio, Estado do Paraná
CEP 86300-0007
3
GOVERNO DO ESTADO DO PARANÁ
Governador
CARLOS ALBERTO RICHA
Secretário da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior
JOÃO CARLOS GOMES
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO NORTE DO PARANÁ
Reitora
FÁTIMA APARECIDA DA CRUZ PADOAN
Vice-Reitor
FABIANO GONÇALVES COSTA
UENP – CAMPUS DE CORNÉLIO PROCÓPIO
Diretora
VANDERLEIA DA SILVA OLIVEIRA
Vice-diretor
SÉRGIO ROBERTO FERREIRA
Centro de Letras, Comunicação e Artes
Diretor
THIAGO ALVES VALENTE
4
“É uma voz de grande beleza que se
impôs imediatamente desde sua
primeira aparição na Itália”
5
A Cysalpino Maia Carvalho, meu amigo e fã nº 1 de Constantina Araújo, dedico este trabalho.
A Renata Araújo, in memoriam.
6
APRESENTAÇÃO
Devo ter ouvido falar de Constantina Araújo pela primeira
vez, nos anos 1990. Embora frequentasse os meios operísticos de
São Paulo desde os anos 1960, seu nome me era totalmente desconhecido. Devo essa descoberta ao seu “fã nº 1”, como passei a denominar Cysalpino Maia Carvalho, que conheci nas filas de compra
de ingresso para os concertos e óperas do Teatro Municipal de São
Paulo, e que se tornou meu amigo.
Cysalpino, a cada vez que nos encontrávamos, contava-me
fatos e “causos” sobre a vida de Constantina Araújo, que ele acompanhou desde o início dos anos 1940, ainda na Rádio Cultura. Mostrou-me pouco a pouco o acervo que amealhara ao longo de 26
anos, grande parte deixado um suas mãos pela própria soprano.
Ele falava dela com paixão, e era mesmo um apaixonado, a
ponto de montar um álbum de recortes de jornais europeus e nacionais sobre a carreira de Constantina na Europa.
Graças a ele, conheci Renata Araújo, a irmã caçula de Constantina, que também possuía um acervo, menor, e que vinha há anos
tentando manter viva a memória da irmã que ela idolatrava. Juntos
tentamos, dentro de nossas possibilidades, trazer ao conhecimento
das novas gerações o trabalho dessa grande soprano paulista, por
ocasião dos cinquenta anos de sua apresentação no Scala, em 1951.
Infelizmente, Renata Araújo faleceu em 2014, não tendo tomado
conhecimento deste meu trabalho.
Cysalpino tinha uma fita com algumas árias cantadas pela
soprano em programas de rádio na Itália. Pouco a pouco, fui reconhecendo as qualidades de Constantina e me revoltando com o descaso que lhe foi oferecido pelos meios operísticos oficiais de sua
terra natal.
Criei, então, um blog em sua homenagem, alimentado com
material que me fora emprestado por Cysalpino. Desse modo, seu
nome tornou-se conhecido por novas gerações em diversos países
europeus e da América do Norte.
Vibramos quando um selo europeu resolveu gravar em CD a
ópera de Verdi “Ernane”, que ela fez em 1958 juntamente com outros três grandes nomes do canto italiano. Tínhamos agora uma ópera completa cantada por ela em forma de concerto.
7
Com o passar dos anos, Cysalpino foi me passando todo seu
arquivo sobre Constantina, o que tornou possível a feitura deste livro digital em conjunto com o professor Newton C. Braga, da Universidade Estadual do Norte do Paraná.
José Carlos Neves Lopes
8
SUMÁRIO
1 Conhecendo Constantina Araújo.............................................. 10
1943
2 A primeira apresentação em São Paulo .................................... 14
1946-1950
3 Constantina na Rádio Gazeta de São Paulo .............................
4 Constantina em Othelo, Porto Alegre ......................................
5 Constantina no Teatro Municipal de São Paulo .......................
1947 .......................................................................................
1948 .......................................................................................
1949 .......................................................................................
1950 .......................................................................................
6 Constantina e o Teatro Municipal de São Paulo ......................
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43
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1951
7 Constantina em Modena, Reggio Emilia e Veneza ..................
8 A estréia em La Scala, de Milão ..............................................
9 Os quatro programas do Scala .................................................
10 “Quando a cortina desceu” .....................................................
11 Apresentações fora do palco ..................................................
12 Aída, em Bari, na Sicília, Itália ..............................................
13 No Scala, Un Ballo in Maschera, extra temporada ................
14 Aída, no Castelo da Lombardia, Sicília ..................................
15 Constantina Araújo na arena de Verona.................................
16 Fresco Notturno, no Canal Grande, Veneza ..........................
17 Aída na província autônoma de Bolzano ...............................
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1952
18 Un Ballo in Maschera, em Trieste, Itália ...............................
19 La Vita Breve, no Scala, em 1952 ..........................................
20 Aída, em Monte Carlo, Principado de Mônaco ......................
21 Madame Butterfly, em La Scala .............................................
22 Mefistofele, na Arena Flegrea, em Napoles ...........................
23 Un Ballo in Maschera, no Royal Opera House, Londres ......
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117
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123
129
130
1953
24 Madame Butterfly, em Monte Carlo e Paris, em 1953 ........... 136
25 Apresentação em Lisboa, Aída, de Verdi ............................... 142
9
26 Aída, no Teatro Carlo Felice, de Gênova ...............................
27 Constantina em L'Amore dei Tre Re, de Italo Montemezzi ...
28 Aída, no Castelo de San Giusto, em Trieste ...........................
29 Aída e I Vespri Siciliani, no Teatro Augsburg, na Alemanha
146
147
149
151
1954
30 Constantina e a ópera Oberon, de Weber, em 1954............... 154
31 Constantina no Teatro Municipal do Rio de Janeiro .............. 164
32 Duas entrevistas publicadas em jornais cariocas ................... 176
1957
33 Aída, no Teatro Duse, em Bolonha, 1957 .............................. 179
34 Il Trovatore, Arena Flegrea, em Nápoles............................... 180
1966
35 A morte de Constantina Araújo, 1966.................................... 181
Anexo 1 – Apresentações na Europa .......................................... 184
Anexo 2 – Constantina Araújo no YouTube ............................... 187
Anexo 3 – Intérpretes, regentes e críticos nas apresentações...... 188
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1
Conhecendo
Constantina
Araújo
Constantina Araújo nasceu na cidade de São Paulo, em 28
de maio de 1922, filha de pai português e mãe italiana de Nápoles.
Tendo demonstrado desde criança vocação para o canto, foi matriculada no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, onde
estudou com Francesco Murino.
Sua primeira experiência como profissional se deu na antiga
Rádio Cultura. Dali para a Gazeta, emissora que possuía orquestra
própria, promovia e transmitia concertos ao vivo, foi um pulo.
A bela voz de soprano lírico-spinto logo despertou a atenção
dos organizadores das temporadas do Teatro Municipal de São Paulo, onde Constantina estreou, em 1947, fazendo o papel de Leonora
na ópera Il Trovatore, de Verdi.
Em todas as ocasiões que se apresentou nessa casa de ópera,
seu desempenho foi elogiado pela crítica e encantou o público. Lá
cantou, ainda, em Aída, Lo Schiavo, Cavalleria Rusticana e La
Bohème, sempre fazendo o principal papel feminino e tendo ao seu
lado cantores de renome internacional como Mário Del Monaco,
Gigli, Barbieri e outros.
Apresentou-se também em Porto Alegre, no ano de 1947,
nas óperas Otello, Il Trovatore e Aída.
Em 1950, devido a rivalidades muito comuns nos meios artísticos, foi despedida da Rádio Gazeta e rejeitada para as temporadas líricas de São Paulo e do Rio de Janeiro. Constantina lembrouse, então, de um convite feito pelo secretário de Mario del Monaco,
Carlo Tedeschi, após ouvi-la em audição privada no Brasil.
L'impressione che essi ne ebbero fu otima, tanto che il
Tedeschi, rientrato in Italia, le scrisse invitandola a pas-
11
sare l'oceano, sicuro che il giovane soprano in un modo o
nell'altro si sarebbe affermato.
Com cara e coragem, Constantina foi para a Europa. Desembarcando em Zurique em 15 de novembro de 1950 e, no dia seguinte, estava em Roma.
Il 15 novembre Constantina atterrato a Zurigo e il giorno
dopo era a Roma, dove il Carlos si era ficato ad a aspetalla.
Tedeschi conseguiu que estreasse na Itália, no Teatro Municipal de Modena, em janeiro de 1951, numa montagem da ópera Aída. Era o ano do cinquentenário da morte do compositor.
O sucesso de sua apresentação repercutiu positivamente na
imprensa:
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“Aida”, impersonata da Constantina Araujo, ha
aumentato la sorpresa del pubblico, rrrlasciando
veramente un vivo entusiasmo in tutti gli spet'atori, chi
l'hanno applaudita con passione, sopratuttuto per
l'efficace dosatura imposta al suol davvero notevoli mezzi
canori, rivelando cosi una seria preparazione dello
spartito verdiano.
L'Avvenire d' Italia
A indisposição de uma cantora levou Constantina para o La
Fenice, de Veneza, onde também fez Aída com êxito. Em seguida, o
teatro da cidade de Reggio-Emilia, incluiu Aída em sua temporada
de 1951, dando o papel para Constantina:
[...] il trionfo di questa cantante, la cui voce di smalto
nitidissimo e la efficacia scenica, che ben si avvale di una
gura stupendamente adatta al personaggio hanno
incantato e soggiogato i critici più pretenziosi.
Após esse novo sucesso, surgiu, de repente, a grande oportunidade. La Scala, de Milão, procurava uma soprano para nova
montagem de Aída, em comemoração aos cinquenta anos da morte
de Giuseppe Verdi, já que tinha havido um desencontro entre Renata Tebaldi e o maestro Victor De Sabata. Constantina, credenciada
por seus sucessos anteriores, apresentou-se ao grande maestro para
uma audição. Dentre as seis sopranos ouvidas, ela foi a escolhida.
Em 20 de fevereiro de 1951, Constantina apresentava-se no
palco da mais famosa casa de ópera da Europa, tendo ao seu lado
Mario Del Monaco, Fedora Barbieri e Ugo Savarese.
[...] abbiamo avuto la surpresa di scropire una giovane
sudamericana, Constantina Araujo, che nella parte di
Aida si è rivelata superba interprete, dotada de belissima
voce, dosata com intelligenze, sicura nella intonazione, e
che si è fatta ammirare anche per la sua grazia.
La Scala abriu-lhe outras portas: Bari, Verona, Londres, Trieste, Monte Carlo, Paris, Augsburg, Lisboa, Genova, Nápoles, Bolzano, Bolonha, Carpi, Salsomaggiore e outras cidades.
Seu repertório incluía Aída, Un Ballo in Maschera, I Vespri
13
Siciliani, Ernani La Vita Breve, Mefistofole, Madama Butterfly,
L’Amore dei Tre Re, Oberon e Cavalleria Rusticana.
Em outubro de 1954, Constantina foi convidada a apresentar-se no Rio de Janeiro, onde fez Aída, seu principal papel e o que
cantou o maior número de vezes. Em 1954, apesar do sucesso internacional, as portas do Teatro Municipal de São Paulo ainda continuavam fechadas para Constantina Araújo. Numa montagem de Lo
Schiavo, de Carlos Gomes, em comemoração ao 4º Centenário da
Cidade de São Paulo, o Municipal trouxe Antonieta Stella, soprano
italiana, para fazer o principal papel feminino dessa ópera.
Em 1966, Constantina veio para São Paulo para uma pequena intervenção cirúrgica. Quatorze dias após a cirurgia, faleceu,
repentinamente, vítima de embolia pulmonar. Detentora de tão bela
carreira, Constantina Araújo é, sem dúvida, motivo de orgulho nacional.
Em 2001, foi lançada uma gravação que Constantina fez em
1958, ao lado de Mario Del Monaco, Cesare Siepi e Mario Sereni,
sob a regência de Fernando Previtali, para uma transmissão radiofônica da RAI, da ópera Ernani de Giuseppe Verdi. Trata-se de um
documento raro que atesta a beleza e a qualidade de seu registro.
14
1943
2
A primeira
apresentação
em São Paulo
A estreia de Constantina aconteceu em 14 de setembro de
1943, no auditório da Associação Lírico-Musical Brasileira, na capital de São Paulo. Foi um concerto lírico, com a participação de
vários jovens intérpretes. Os cantores eram acompanhados ao piano
pelo maestro Donato Notari.
Há um detalhe interessante: Constantina se apresentou em
papéis de meio-soprano, ou seja, ainda estava à “procura” de sua
voz. É um fato que ocorre algumas vezes, caso do tenor Plácido
Domingo que, no início da carreira, fazia papéis de barítono.
Ela cantou árias de Bizet – Carmen –, de Verdi – Azucena,
de Il Trovatore, e Amneris, da ópera Aída.
15
Programa do “Concerto Lírico”, promovido pela Associação Lírico-Musical Brasileira, fundada em
1938, que seria realizado no dia 14 de setembro de
1943, às 21 horas, em sua sede social, à Rua São
Bento, 405, 7º andar, na capital paulista.
16
1946-1949
3
Constantina na
Rádio Gazeta,
de São Paulo
A Rádio Gazeta de São Paulo, PRA-6, foi inaugurada pelo
jornalista e empresário Casper Líbero, em 15 de março de 1943. A
emissora localizava-se na atual Avenida Casper Líbero. Tinha uma
programação de alto nível e, nessa linha, possuía excelentes programas voltados para a música erudita, com grande ênfase na divulgação da música operística. A emissora era dotada de orquestra própria, sob a regência de dois maestros de alto gabarito, Eduardo de
Guanieri e Armando Belardi. Além disso, mantinha sob contrato jovens cantores e cantoras de talento e um coral próprio. Os concertos
eram gratuitos e transmitidos ao vivo
Constantina Araujo, soprano que iniciara a carreira lírica na
antiga Rádio Cultura, em 1943, logo foi contratada pela emissora,
tornando-se em pouco tempo um dos talentos da ópera.
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1946
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Observe-se alguns detalhes do belo palco da emissora.
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A Rádio Gazeta, além de outros, tinha dois programas operísticos de primeira linha: Cortína Lírica e Ópera em Desfile. No
primeiro, era apresentada uma ópera completa e no segundo, trechos
de óperas.
1947
Vários cantores e cantoras da emissora se apresentando em trechos de óperas. Agnes Ayres, soprano, uma das principais da emissora é a segunda, a
partir da esquerda, Constantina Araújo é a sexta.
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Na 1ª foto, o Maestro Corrado Muccini agradecendo os aplausos; na 2ª, trio
formado por Gilda Rosa, Constantina Araújo e Osvaldo Linares
(29/03/1947)
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1948
Na 1ª foto, Américo Basso, Constantina Araujo, Assis Pacheco e Gilda Rosa; na 2ª, Matilde Arbuffo e Paulo Ansaldi
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Carlo Prina, no jornal Fanfulla, da colônia italiana paulista,
assim se expressou sobre o desempenho de Constantina:
Constantina Araujo [sic] che durante tutta l'opera impresionó per la prodigioza resistenza della sua “voce d'oro”
che ingrandirsi ogni giorno piú, ma non giá a svantaggio
dell'estensione, come lo dimostró sabato sera dominando
con limpidezza adamantina le acute e scabrose “tessiture” che il maestro Callia affidó alla sua dificile parte. La
frasi angosciose con cui Efisiedda implora l'antico amante affinché fugga, documentarono sempre maggiormente
l'italianissima e drammatica sensibilitá do Constantina
Araujo.
Assim era o canto de Constantina – “drammatica sensibilitá”
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–, que é possível sentir ao se ouvir o pouco que restou em gravação
de suas interpretações.
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1947
4
Constantina em
Othelo,
Porto Alegre
Após terem atuado juntos na ópera Il Trovatore, de Verdi,
em 26 de janeiro de 1947, Constantina Araujo e o barítono Paolo
Ansaldi foram convidados a participar da encenação da ópera
Othello, de Giuseppe Verdi, no Teatro São Pedro, de Porto Alegre.
Nessa ocasião, foram companheiros do mesmo tenor italiano com
quem contracenaram em Il Trovatore, Giulio Lucchirari.
Ansaldi, foi muito elogiado pela crítica da capital gaúcha:
Tal é a inteligência que esse
artista põe no desdobramento
do tipo, que chega-se a pensar que “Yago” foi feito sob
medida para o sr. Ansaldi.
Cênica e vocalmente, aí está
o distinto baritono na plenitude de sua arte.
Jornal do Dia, 22-7-1947.
[...] Como Desdêmona, a soprano Constantina Araujo.
Foi uma estréia auspiciosa.
Tem bôa presença cênica e
uma voz de excelente qualidade: grato timbre, lindos
pianíssimos (como na Ave
Maria), centro bem trabalhado e graves sonoros. É uma
artística lírica de futuro e o
sucesso que obteve recente-
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mente em São Paulo, na temporada de verão, se justifica
plenamente.
Paulo Antônio, Crônica de Ópera, Folha da Tarde
Uma revelação tocante foi a arte brasileira de Constantina Araujo, que nos veio de São Paulo como Paulo Ansaldi. No perene triângulo dramático, figurou essa soprano
Desdêmona de maneira expressiva. Personalidade moça,
e de visão agradável, a nobre soprano dramatizou com
capricho e cantou de modo a valorizar com gosto toda a
linhagem musical da soprano. É uma cantora que se impõe pela maneira com que se ha no plano teatral e musical. No ultimo ato, a interprete recebeu a consagração
publica, como o barítono e o tenor no decurso da opera.
Correio do Povo
A outra figura que merece um destaque muito especial é a
soprano brasileira, senhorinha Constantina Araujo [...].
Ótima figura, artista apreciabilíssima e vocalmente uma
surpresa agradável como poucas, a senhorinha Araújo
encantou o público de sexta-feira. Voz de timbre dramáti-
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co acentuado, e de excelente escola, acreditamos raras
vezes terá a nossa plateia ensejo de encontrar melhor
“Desdêmona”. A Ave Maria e a “Preghiera” do último
ato, cantadas a meia voz, estiveram soberbas.
JSR, Jornal do Dia
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1947-1950
5
Constantina
no Teatro
Municipal de,
São Paulo
1947
Esse foi o ano de sua estréia no palco do Teatro Municipal
de São Paulo, onde ela atuou em três récitas de “Il Trovatore”, de
Verdi, e uma de “Lo Schiavo”, de Carlos Gomes.
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A soprano Constantina Araújo foi a Leonor suave e romântica. Como ainda, recentemente levada em récita extraordinária, deixou a melhor impressão ao público. [...]
No Trovador, cuja parte para soprano está eivada de dificuldades, Constantina Araújo se desincumbiu com muito
acerto. Sua voz é plástica, doce de timbre e bastante extensa. Sua escola de canto também é esclarecida e muito
desembaraçadamente a soprano emite as notas picadas
no registro agudo e atinge as notas graves sem esforço e
com igualdade de timbre. Seus pianíssimos, que já tive
ocasião uma vez de ressaltar, são delicados, de fino tecido sonoro. E ainda sua movimentação cênica é elegante e
ágil e discreta. No ato final, por exemplo, foi um “charme” e sua queda teve um travo amargo de realidade envolto numa deliciosa aragem de fantasia.
Paulo Antônio (Folha da Tarde)
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1948
Na temporada desse ano, Constantina atuou em três óperas:
Lo Schiavo, Cavalleria Rusticana (2 récitas, com elencos diferentes,
uma delas no Estádio do Pacaembu) e Il Trovatore. Numa das récitas de Cavalleria contracenou com o grande tenor Beniamino Gigli.
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Constantina, no papel de Santuzza, na ópera Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni.
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1949
La Bohème, de Giacomo Puccini, foi um espetáculo extra do
ano de 1949.
O jornal da colônia italiana, Fanfula, promoveu esse espetáculo em homenagem à façanha dos aviadores Bonzi e Lualdi. Em
1948, Leonardo Bonzi e Maner Lualdi, usando um avião de pequeno porte batizado “Anjo das Crianças”, percorreram diversos países
da América do Sul para sensibilizar a opinião pública sobre a situação das crianças mutiladas e órfãos.
Na foto, o maestro Eduardo di Guarnieri, o maestro Mechetti, de braços dados com Constantina e Lia Roberti, e Assis Pacheco.
Da esq.: Maestro Eduardo de Guarnieri, Constantina Araujo, aviador Leonardo Bonzi, Lia Roberti e aviador Maner Lualdi.
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A ÚLTIMA ÓPERA NO TEATRO MUNICIPAL, EM 1949
Cavalleria Rusticana encerrou a temporada de 1949. A última de que Constantina participou em São Paulo. Não foi incluída
na temporada de 1950 e, no Rio de Janeiro, onde foi tentar a inclusão na temporada carioca, a comissão recusou-se a ouvi-la. Daí a
decisão de ir para a Itália.
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Infelizmente, o recorte da crítica dessa apresentação escrito
por Armando de Alcântara Pacheco, não traz o nome do órgão jornalístico que a publicou. Ele prognosticou o futuro próximo de
Constantina, e talvez as suas palavras a respeito do desempenho da
soprano a tenha influenciado na decisão de ir tentar a sorte na Itália.
Destacamos aqui um trecho de sua crítica:
Dona de um impecável timbre de voz, Constantina Araujo, que se acha em plena juventude, está fadada a ser um
soprano dramático de renome internacional. (o grifo é
nosso)
Ao final de sua crítica diz ainda:
(...) tomamos a liberdade de sugerir a direção da Rádio
Gazeta, esforços no sentido de tornar conhecida em palcos da Europa, o soprano dramático Constantina Araujo.
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1950
Nesse ano, Constantina apresentou-se no Teatro Municipal
em dois concertos, ocasião em que foi executada a 9ª Sinfonia, op.
125, de Beethoven, em Ré menor.
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1950
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Constantina e
o Teatro
Municipal
de São Paulo
Por que Constantina não foi chamada para participar da
temporada de 1950, no Teatro Municipal de São Paulo?
Passados sessenta cinco anos, esta pergunta ainda se encontra sem uma resposta e provavelmente nunca terá. Em conversa com
pessoas que frequentavam o meio operístico nessa época falou-se de
rivalidade que existiria entre Constantina e Agnes Ayres, ambas sopranos e integrantes do elenco da Rádio Gazeta.
Agnes era a estrela da emissora de rádio paulista e, ao ausentar-se do país para algumas apresentações na Europa, teria perdido
essa posição para Constantina. Ao retornar, as duas teriam tido um
entrevero, que resultou na demissão de Constantina da Rádio Gazeta, e também na sua não escalação para a temporada de 1950 do
Municipal. A rivalidade possivelmente existiu entre as duas estrelas
da Gazeta, mas não a ponto de ter sido essa a causa, creio.
O que intriga é o fato de ela ter sido deixada de lado na temporada de 1950 e nunca mais ter sido chamada para apresentar-se na
sua terra natal, mesmo após todo o sucesso alcançado na Europa.
As óperas em que ela fez mais sucesso, Aída e Lo Schiavo,
que integravam seu repertório, fizeram parte da temporada de 1955,
quando o Municipal foi reaberto após uma reforma. Mas há um dado interessante: a partir de 1950, as temporadas passaram a ser organizadas pelo empresário Alfredo Gaglioti, que, ao que parece, não
se mostrou interessado em contratar Constantina a despeito de seu
extraordinário sucesso na Europa.
O artigo de jornal a seguir, sem data e indicação de origem,
propõe questões a respeito e faz um questionamento à Secretaria de
Educação da capital paulista. Infelizmente, não foi possível averiguar se houve resposta.
73
Com a “louca” atividade a que se lançou de 1951 a 1954,
sem contar os papeis que interpretou em São Paulo nos anos finais
da década de 1940, sua voz perdeu muito do brilho. No entanto, isso
não a impediu de, em 1958, ter sido escolhida pela RAI para uma
apresentação radiofônica de Ernani, de Verdi. Lançada em CD, essa
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apresentação dá mostras da qualidade vocal e interpretativa da soprano num papel difícil.
Perderam a oportunidade de vê-la novamente no palco do
Municipal, os seus muitos fãs paulistanos. Os que puderam foram
ao Rio de Janeiro, em 1954, para vê-la em Aida.
Nem ao menos uma homenagem póstuma, em várias oportunidades propícias, o Teatro Municipal de São Paulo foi capaz de
lhe oferecer.
É de se imaginar a mágoa e a tristeza que Constantina levou
para o túmulo, quando morreu aos 44 anos em sua terra natal.
Nada lhe foi oferecido na Cidade de São Paulo, nenhuma
placa ou nome de rua: foi simplesmente esquecida pelos responsáveis pela ópera em São Paulo. Somente seus inúmeros fãs até hoje
dela se recordam com carinho.
Um deles, Cysalpino Maia, responsável pelo acervo que tornou possível a elaboração deste livro, até hoje
fala de sua Leonora, em
Il Trovatore, de Verdi,
que ele viu e ouviu pela
última vez em 1949. Ficou sendo sua interpretação preferida desse belo papel.
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1951
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Constantina em
Modena,
Reggio-Emilia
e Veneza
O acaso foi favorável a Constantina logo após sua chegada à
Itália, em novembro de 1951. O acaso e a experiência de seu empresário, Carlo Tedeschi, o qual, aproveitando-se das oportunidades
surgidas, conseguiu que Constantina se apresentasse nas montagens
de Aída que os teatros dessas localidades haviam programado para o
ano do cinquentenário da morte de Giuseppe Verdi.
No Teatro Comunale, de Modena,
Constantina atuou ao
lado de Mario Filippeschi, tenor, Anselmo
Colzani, barítono, Giorgio Algorta, baixo, e
Dora Minarchi, mezzosoprano, sob a regência
de Francesco Molinari
Pradelli.
Com o mesmo
elenco atuou na Aída
montada na vizinha
Reggio-Emilia, no Teatro Municipal.
E, por fim, no
La Fenice, de Veneza,
onde atuou pela primeira vez com a já famosa
76
mezzo búlgara Elena Nicolai, o tenor Mirto Picchi, o barítono Ugo
Savarese e o baixo Duilio Baronti, sob a regência de outro grande
maestro italiano Oliviero di Fabritiis.
77
1951
8
A estreia em
La Scala,
de Milão
Em 20 fevereiro de 1951, comemorando os 50 anos do falecimento do compositor italiano Giuseppe Verdi, a paulistana Constantina Araújo, que chegara à Itália no ano anterior, estreava num
dos mais importantes teatros da Europa: o Scala de Milão, sob a regência do renomado maestro Victor De Sabata.
O público desse teatro italiano é rigorosíssimo, até mesmo
em nossos dias. Vários cantores foram vaiados em inúmeras ocasiões. A expectativa era grande e os que lá estavam se perguntavam:
“Será mesmo boa essa brasileira?”
Havia o atenuante de duas apresentações anteriores, em Modena e em Veneza, no teatro La Fenice, em que o público aplaudiu
com fervor a jovem soprano brasileira.
La parte di “Aida” è stata sostenuta iersera con vivo
successo dalla giovane artista brasiliana Constantina
Araujo, la quale ha superato la prova con una fresca
stesa, sicura voce, drammaticitá di accenti, e nonotevole
morbidezza d’inflessioni. Vivi applausi le sono stati
rivolti, specialmente al terzo atto, dal pubblico che
esauriva il teatro e che la festeggiato insieme a lei anche
gli altri interpreti e il m.o Oliviero De Fabritis.
apontava o crítico do Gazzetino, de Veneza.
Constantina tinha uma vantagem: já atuara nessa ópera, em
São Paulo, ao lado do grande tenor Mario del Monaco. Não obstante esse fato, podemos imaginar a ansiedade que tomava conta da soprano. O artigo publicado na revista Ilustrazionne del Popolo, de 4
de março de 1951, dá uma amostra dos momentos que antecederam
78
a entrada de Constantina no palco do Scala:
Outra
famosa revista italiana, Settimo
Giorno, em
sua edição
de 15 de
março, publicou uma
página inteira com fotos
em cores dos
preparativos
de Constantina no camarim.
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Por fim, ei-la em cena:
Após o êxito retumbante, a mezzo Fedora Barbieri (Amneris), o regente Victor De Sabata e Constantina na boca do palco recebendo aplausos.
80
Le emissioni della Araujo sono di una
perfezione esemplare e, poichè s'è
parlato di respiri e di fraseggio, respiri e fraseggio hanno in lei naturalezza, una disinvoltura, una musicalità
assolutamente insoliti, di questi tempi.
L'estensione di cotesta voce è notevole, raggiungendo con una facilità mirabile le note sopracute; i passaggi di
registro sono impeccabili; i coloriti
sempre ppropriati e quasi direbbe
matematici; finalmente la qualità di
questa voce à preziosa per la retondità e la pastosità del timbro, per la
pienezza dell'accento, per il sosaggio
del volume. [...] ,è ottima attrice...
Gian Galeazzo Severi, “Un'Aida de
Prima Grandezza”, Omnibus,
04/03/1951
Após o espetáculo, em reconhecimento pela soberba performance, a jovem soprano recebe
flores em seu camarim enviadas
pelo superintendente do Scala.
Incluída a data de estréia,
Constantina apresentou-se como
Aída em seis récitas no Scala: 20,
22 e 25 de fevereiro, 1º, 4 e 6 de
março de 1951.
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1951
9
O programa
de Aída
no Scala
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1951
10
“Quando
a cortina
desceu”
La Settimana Incom era uma publicação italiana muito famosa nos anos 1950, na qual grande parte das matérias tratava de
assuntos cinematográficos. Na página 13, da edição de 3 de março
de 1951, foi publicado um artigo elaborado pela redação milanesa,
fruto de uma entrevista com a jovem brasileira que era a sensação
do momento na Itália: Constantina Araujo.
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1951
11
Apresentações
fora do palco
O sucesso de Constantina, nas seis récitas de Aída e nas de
Modena, Reggio-Emilia e Veneza foi tamanho, que ela foi convidada para se apresentar em concertos, todos em 1951.
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1951
12
Aída,
em Bari,
na Sicília,
Itália
Ainda no rastro de seu enorme sucesso no Scala, em maio de
1951, Constantina fez Aída, no Teatro Petruzzelli, na cidade italiana
de Bari. No elenco, Antônio Salvarezza, Carlo Tagliabue e Elena
Nicolai, sob a regência de Pasquale La Rotella. Foram duas récitas.
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1951
13
No Scala,
Un Ballo
in Maschera,
extra temporada
Face ao grande sucesso de Constantina como Aída, o
público queria vê-la em outra ópera. Desse modo, as duas últimas
récitas de Un Ballo in Maschera, das seis programadas para a
temporada 1950-51, teve a presença da soprano no principal papel
feminino, o de Amélia. Foram as récitas de 2 e 6 de junho. Nas
anteriores, o papel esteve a cargo da grande Maria Caniglia (1905-
96
1979). Nos demais papeis principais cantaram: o tenor sueco Jüssi
Bjorling, o barítono Carlo Tagliabue e a mezzo Cloe Elmo. A
regência esteve a cargo de Argeo Quadri.
No ano seguinte, 1952, em circunstâncias inusitadas, Constantina lograria um grande sucesso em sua apresentação dessa mesma ópera na Royal Opera House, em Londres.
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1951
14
Aída, no
Castelo da
Lombardia,
Sicília
Sob a regência do ótimo regente italiano Gabriele Santini,
que na ocasião era titular da Ópera de Roma, Constantina atuou
com o tenor Mario Filippeschi, com a excelente mezzo Giulietta
Simionato, o baixo Andrea Mongelli e o barítono Raffaele De Falchi.
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1951
15
Constantina
Araújo na Arena
Após o sucesso de sua apresentação no papel título de Aída, em La
Scala
de
Milão,
Constantina foi contratada por inúmeros
teatros da Itália e de
outros países europeus, que queriam vêla nesse papel.
Ainda no ano
de 1951, Constantina
apresentou-se em seis
récitas de Aída, na
XXIX Temporada Lírica da Arena de Verona: 22, 26 e 28 de
julho, 2 e 4 de agosto.
Foi ovacionada nesse teatro, que
tinha capacidade para
25.000 pessoas, totalmente lotado.
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O jornal L'Avvenire d'Italia assim se
manifestou:
Constantina Araujo confirmou como intérprete de
“Aída” o êxito já conquistado no Scala. Ela criou uma “Aída” original,
de uma feminilidade muito
delicada e também elegíaca, fruto de estudo e meditação, certamente, mas
também de abandono à intuição, dom precioso da
sua juventude, do seu fervoroso temperamento de
artista.
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Aida - Atto primo – Bozzeto di Nicola Benois
Em 1954, Constantina retornou a Verona para mais duas
apresentações em Aída:
10 de agosto
Aida: Constantina Araújo
Radamés: Mario Del Monaco
Amneris: Elena Nicolai
Amonasro: Tito Gobbi
Ramfis: Giulio Neri
Regência: Fausto Cleva
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1951
16
Fresco Notturno,
no Canal Grande,
Veneza
O denominado Fresco Notturno in Canal Grande, em Veneza, era um concerto tradicional num palco em plena água rodeado
por barcos e gôndolas repletos de pessoas. A Orquestra e o Côro do
La Fenice acompanhavam os cantores. Constantina Araújo, recém
chegada na Itália, participou da edição de 18 de agosto de 1951. Na
ocasião, cantou as árias “Pace mio Dio” e “Scena della Vestizione”,
ambas de La Forza del Destino, o “Terzetto atto 1”, de Il Trovatore,
com Mazzieri e Guelfi, e “Ritorna vincitor”, de Aída.
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1951
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Aída
na província
autônoma de
Bolzano
A ópera foi apresentada no Teatro dei Quatromila, sob a regência do maestro Angelo Questa, tendo no elenco o baixo Giuseppe Modesti, a mezzo Miryam Pirazzini, o barítono Aldo Protti e
o tenor Vitor Susca.
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1952
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Un Ballo in
Maschera, em
Trieste,
Itália
Em Trieste, ainda dentro das comemorações dos cinquenta
anos da morte de Verdi, foi apresentada a ópera Un Ballo in Maschera, com Constantina Araújo no papel de Amelia.
No elenco dois nomes brilhantes: o tenor Gianni Poggi e o
barítono Carlo Tagliabue. Num papel secundário, o jovem barítono
Piero Capucill, que viria a ser um dos grandes intérpretes de Verdi,
da segunda metade do século XX.
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1952
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La Vita Breve,
no Scala,
em 1952
Como se tratava de uma ópera curta, La Vita Breve, de Manuel de Falla, foi apresentada juntamente com Cavalleria Rusticana, de Mascagni.
Na regência, encontrava-se um jovem maestro estreando no
Scala – Carlo Maria Giulini, que se tornaria um dos mais famosos
regentes da segunda metade do século passado. Foram dez récitas.
A primeira em 16 de fevereiro de 1952.
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1952
20
Aída, em
Monte Carlo,
Principado
de Monaco
Em abril de 1952, Constantina cantou Aída no Teatro de
Ópera de Monte Carlo, num espetáculo que contou com a presença
do príncipe Rainier III, que lhe enviou uma corbelha de flores.
O sucesso de sua apresentação foi grande, como demonstram as críticas. O êxito a levou a ser convidada para fazer Madame
Butterfly, nesse mesmo teatro, em 1953.
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1952
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Madame Butterfly,
em La Scala
Encerrando a temporada 1951-1952, Constantina apresentou-se no Scala em quatro récitas de Madame Butterfly, no mês de
agosto de 1952. Nos principais papéis, além de Constantina, o tenor
Giacinto Prandelli, a mezzo Anna Maria Canali e o barítono Rolando Panerai. A regência esteve a cargo do maestro Victor De Sabata.
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O papel de “Sharpless” coube ao barítono italiano Rolando
Panerai, cujo desempenho foi também muito elogiado. O papel de
“Pinkerton” coube ao tenor italiano Giacinto Prandelli. Foram quatro récitas, em 8, 10, 12 e 17 de junho de 1952.
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No Corriere della Sera:
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1952
Encerrada a temporada do Scala em
agosto de 1952, Constantina enfrentou um
novo papel: o de Margarida, na ópera Mefistofele, do compositor italiano Arrigo Boito, inspirada no “Fausto”, de
Goethe. No papel-título,
o grande baixo russo
Boris Christoff; Fausto
foi vivido pelo tenor
Mario Filipescchi; e a
regência foi de Tulio Serafin, o renomado diretor italiano que ela já
conhecia de São Paulo.
Seu sucesso foi registrado pelo jornal Fanfulla,
da colônia italiana no
Brasil, na edição de 22
de agosto.
22
Mefistofele,
na Arena Flegrea,
em Nápoles,
130
1952
23
Un Ballo in
Maschera, na
Royal Opera House,
Londres
No dia 25 de outubro de 1952, Constantina recebeu, no início da tarde, uma ligação de Londres, consultando-a sobre a possibilidade de tomar um voo para a capital britânica para atuar na récita daquela noite na Royal Opera House. Faria o papel de Amélia,
na ópera Un Ballo in Maschera, de Giuseppe Verdi. A soprano Helene Werth, da Ópera de Hamburgo, que atuara na estreia, achava-se
impossibilitada de cantar naquela noite porque contraíra uma infecção na garganta.
Constantina não teve dúvidas, aceitou o convite, apenas com
a ressalva de que cantaria sua parte em italiano. O motivo da exigência é que, até a década de sessenta, tanto na Inglaterra como na
Alemanha, as óperas eram apresentadas na língua local.
Embarcou às 17 horas, chegando uma hora depois. A ópera
teria início às 19h15min!
Sua atuação foi um sucesso, tendo sido solicitada por dez
vezes pelos aplausos da plateia após o término da apresentação.
Constantina apresentou-se também na récita do dia 30 de outubro, o que tornou possível constar o seu nome no programa.
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UMA ESTRELA DA ÓPERA CANTA POR UM SUCULENTO FILÉ1
Em seguida a
um telefonema recebido
às primeiras horas da
manhã de ontem, uma
corrida alucinada por
vistos de entrada e autorização de trabalho e
um voo rápido de Milão, via Zurique, para
Londres, Constantina
Araújo chegou ao Royal Opera House, em
Covent Garden, na noite passada, 15 minutos
antes de ir ao palco para cantar a parte de
Amélia, principal personagem de “Um Baile
de Máscaras”.
Na última hora,
foi decidido que Helene
Werth não poderia se
apresentar em razão de uma inflamação na
garganta. Foi quando começou uma procura
dramática por toda a Europa em busca de
uma suprano que pudesse assumir seu lugar.
Nove estrelas foram contatadas por
telefone em Viena, Roma, Amsterdam, Colônia e Milão antes que a soprano brasileira
de 30 anos fosse localizada e consentisse em
comparecer.
Uma das principais cantoras de La Scala, de Milão, a senhorita Araújo havia cantado pela última vez no papel de Amélia
1
Há um trocadilho intraduzível no título. A expressão high stake é comumente
usada para designar um teste que implica em importante consequência para quem
o faz. Literalmente, high steak é a designação de um filé, grosso e suculento.
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em junho, em uma versão um tanto diferente da ópera.
Quando chegou ao Aeroporto de Londres, às 18 horas, disseram-lhe que, diferentemente da ópera italiana que começa às 21
horas, a apresentação estava programada para começar às 19,15
horas.
Mais um choque se seguiu quando ela soube que os cenários
eram diferentes. Entregaram-lhe fotos da produção e a pauta musical para estudar no carro que a levaria do aeroporto ao teatro.
Enquanto isso, um cenário alternativo e um elenco completos ficaram de prontidão no teatro para apresentar “Tosca” caso a
senhorita Araújo se atrasasse.
Enquanto o relógio se aproximava das sete, a senhorita
Araújo, ainda sentindo um pouco de enjoo devido à viagem, corria
celeremente através de Londres.
Apressaram-na na entrada do teatro, onde uma camareira
ansiosa a esperava. Tendo apenas duas alternativas para as roupas
de Amélia, o problema da adequação do tamanho foi superado
quando se verificou que a senhorita Araújo era ligeiramente menor
[que Helene Werth] e os ajustes puderam ser feitos rapidamente.
A correria de Milão até Londres deixara pouquíssimo tempo
para alimentação e uma Amélia muito faminta entrou no palco, para o primeiro ato, depois de pedir que um filé grelhado lhe fosse
trazido.
Enquanto o primeiro ato se desenvolvia, a administração
pediu-lhe o jantar, mas não havia meios de se encontrar o filé.
Ela talvez não se interessasse pelo frango que fora enviado
às pressas por um restaurante das proximidades. Quatro outros
restaurantes foram consultados por telefone antes que uma bandeja
contendo um filé grelhado chegasse de táxi e fosse encaminhado
para o vestiário durante o primeiro intervalo.
Ao final de um dia muito agitado, Constantina, após concluir sua primeira apresentação em Londres, teve de retornar ao
palco 10 vezes, enquanto uma casa cheia no Covent Garden a
aclamava por um desempenho brilhante.
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1953
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Madame Butterfly,
em Monte Carlo
e Paris, em 1953
Em fevereiro de 1953, Constantina apresentou-se em “Madame Butterfly”, no Teatro da Opera de Monte Carlo.
O crítico do jornal L'Espoir, comentando a sua apresentação,
em fevereiro de 1953, disse: “Constantina Araújo conseguiu o título
de Madame Butterfly, de 1953”.
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Sr. Maurice Be, diretor de L'Opera de Monte Carlo, nos
presenteou domingo e terça-feira com uma “Madame Butterfly”, de detrás dos arrozais, se ouso dizer! Pois ele escolheu para esse difícil papel uma cantora que reúne todas as qualidades exigidas: voz
perfeita, idealmente pura, poderosa, gestos teatrais intensos
sem nenhum exagero, físico
agradável, estatura mediana,
graça delicada. Pode-se já adivinhar: foi a cantora Constantina Araújo, que no ano passado foi uma “Aída” sensacional. No papel de CioCio-San,
que é o da heroína, Madame
Butterfly, desencadeou repetidas ovações, permitindo à sala
toda a entrar completamente em
“seu coração”.
Em 17 de junho de 1953, Constantina apresentou-se em uma
récita de Madame Butterfly no Théatre National de L'Opéra Comique, em Paris.
Houve uma repetição em 25 de junho, mas não há informação se contou com o mesmo elenco.
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No elenco, além de Constantina, contou-se com o tenor francês Louis Rialland, o barítono francês Robert Jeantet e a mezzo Jeanne Mattio. O regente foi o grande belga André Cluytens.
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1953
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Apresentação
em
Lisboa,
Aída, de Verdi
Constantina fez duas apresentações no Teatro Nacional de
São Carlos, na capital portuguesa.
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1953
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Aída,
no Teatro
Carlo Felice,
de Gênova
Constantina cantou sob a regência do grande maestro italiano Tulio Serafin. Infelizmente, não dispomos do nome elenco dos
outros cantores. Vejam o que disse um crítico:
Propositalmente destinamos a Constantina Araujo as últimas, mas não precipitadas impressões. A sua era uma dura prova.
As armadilhas da parte consistem na flexibilização, na famosa longa sequência de notas tão difícil para as vozes da natureza dramática. Esta soprano brasileira, que centraliza e baixos barras escuras, se sai nos registros com extrema
facilidade e mantém a todos com a
respiração suspensa, agudos limpíssimos, e com atenuação gradual da intensidade do som durante a execução
proveniente de excelente escola. Estamos, sem dúvida, diante de uma cantora de classe e bom gosto. Sua Aida,
embora tenha limites de som (a voz
não é o que se chama comumente de
poderosa, mas é sim marcada por uma
doçura melódica), é, no entanto, o resultado de uma musicalidade controlada e temperamento ardente.
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1953
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Constantina em
L'Amore dei
Tre Re, de Italo
Montemezzi
SCALA DE MILÃO, MAIO DE 1953.
No elenco, Giacinto Prandelli, tenor italiano, Avito; Giuseppe Valdengo, barítono italiano, Manfredo; Nicola Rossi Lemeni,
baixo italiano, Archibaldo; e Constantina Araujo, Fiora. O regente
foi Victor De Sabata.
O crítico T.C. do jornal “Corriere Lombardo”, de 29 de maio
de 1953, assim escreveu:
Sul palco scenico ha avuto la colaborazione d'un gruppo
di assai valenti cantanti: prima fra tutti Nicola Rossi
Lemeni, magnifico Archibaldo per vigoria scenica e
incisività di canto. Fiora dagli accenti accortamente
drammaciti e dal limpido fraseggio lirico è stata
Constantina Araujo [...]
Na mesma data, o crítico do jornal “L' Italia”, elogiou o desempenho de Constantina: “fragrante Fiora, dalla voce perfetta e
calda, dal gesto seducente”.
A récita do dia 28 de maio de 1953 foi transmitida pela RAI
– Radio Audizioni Italia (atual Rádio RAI).
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1953
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Aída, no Castelo
de San Giusto,
em Trieste
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1953
29
Aída e
I Vespri Siciliani, no
Teatro Augsburg,
na Alemanha
Foi a única apresentação de Constantina na Alemanha e a
primeira e única em I Vespri Siciliani, de Verdi.
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154
1954
30
Constantina e
a ópera Oberon,
de Weber,
em 1954
Graças ao trabalho incansável de Maurice Lehmann, ator, diretor, produtor françês, foi possível à Opera Nacional de Paris montar Oberon (1826) de Karl Maria von Weber (1786-1826).
Entre a montagem e a estreia, em fevereiro de 1954, foram
450 dias de trabalho, do qual participaram 780 pessoas!
Os principais intérpretes foram: Constantina Araújo, Nicolai
Gedda, tenor sueco em início de carreira, Roger Bourdin e Denise
Duval. A direção musical esteve a cargo do regente André Cluytens.
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A direção de cena foi de Maurice Lehmann.
Estavam previstas quatro récitas; no entanto, o sucesso foi
tamanho que acabaram sendo realizadas trinta!
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Constantina, que chegava a Paris carregada de êxitos em diversas capitais europeias, foi recebida pela alta sociedade parisiense, em recepção à qual que estiveram presentes o presidente da delegação brasileira na UNESCO, várias outras personalidades brasileiras, críticos e músicos franceses, dentre os quais o compositor
Florent Schmidt.
Após a estreia, seguiu-se uma soirée de gala beneficente, à
qual compareceu René Coty, presidente da república francesa, recentemente eleito, e sua esposa.
Depois do espetáculo, o presidente Coty e esposa fizeram
questão de cumprimentar Constantina Araújo e Nicolai Gedda, os
dois principais intérpretes, e o regente André Cluytens.
Dirigindo-se a Constantina, disse o presidente:
“A senhora esteve magnífica!”
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O crítico do jornal “Le Monde”, René Dumesnil, escreveu:
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A parte de “Rezia” goza da justificada reputação de ser
uma das mais ingratas. Ela oferece três momentos essenciais e de caráter que disponha dos mais variados recursos para nela se mostrar perfeita: a visão do primeiro
ato, que é um murmurio de suavidade e de ternura; a aria
do segundo ato, com a maldição do oceano, toda de violência e desespero, e finalmente a cavatina do terceiro
ato, repleta de lamentações ardentes. A sra. Constantina
Araújo possui uma voz esplêndida e sabe usar dela para
salientar todo o patético, toda a sedução da personagem.
Em “A Gazeta”, 17-2-1954, Bernard Gavoty assim se manifestou:
Sans nun doute, Constantina Araújo a de quoi satisfaire
vocalement, les plus difficiles: voix puissante, moelleuse,
à peine gênée das le suraigu, mais surtout voix émouvante
au suprême degré. Le seul defaut de cette superbe cantatrice est d'eteindre par constraste, les voix de ses partenaires. Aussi gagnerait-elle à chanter le plus piano possible le duo avec Fatime et le quatuor vocal du second acte:
mais comment discipliner un torrent?
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161
A montagem de “Oberon”, de Weber, no Palais Garnier, teve uma repercussão muito grande nos meios operísticos europeus e
mesmo fora do continente. Seja pelo papel que essa ópera teve na
evolução do gênero, seja pela grandiosidade da montagem que Paris
lhe concedeu.
Jornais e revistas franceses e de outros países abriram espaço para comentar essa montagem.
René Dusmenil, médico, crítico literário e musicólogo francês, publicou na revista”MUSICA” artigo denominado “La Place
d'Obéron dans l'opéra du XXº siècle”, no qual analisa o papel dessa
ópera no “Romantismo”, sua vinculação com a poesia alemã, suas
ligações com o “leitmotiv” wagneriano, concluindo por ressaltar a
importância de Weber no avanço da música clássica no início do século XIX.
Esse artigo foi ilustrado com fotos dos cenários e de figurinos da encenação que acontecia em Paris:
162
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1954
31
Constantina
no Teatro Municipal
do Rio de Janeiro
As negociações entre Constantina e o Teatro Municipal do
Rio de Janeiro se iniciaram em 1953. O Teatro, cuja comissão recusara-se a ouvi-la em audição em 1950, agora ansiava por fechar um
contrato com a soprano brasileira que tanto sucesso fazia na Europa.
Em 25 fevereiro de 1953, foi assinado um contrato entre a
Comissão Artística e Cultural, da Prefeitura do Distrito Federal, e
Constantina Araújo, pelo qual a soprano se obrigava “a prestar o seu
concurso, na Temporada Lírica Internacional a ser realizada no Teatro Municipal - Rio de Janeiro, em 1953, interpretando Aída, Un
Ballo in Maschera, Lo Schiavo, Madame Butterfly, Il Trovatore e
outras de seu repertorio habitual, num total de seis recitas”.
Pelas apresentações a Comissão lhe pagaria “a quantia de
cento e setenta mil cruzeiros”, arcaria com uma passagem aérea Milão-Rio-Milão e se reservava “o direito de transmissão por rádio, ou
televisão, as récitas que julgar convenientes, sem qualquer outra
remuneração”. As récitas seriam realizadas num período de 30 dias,
fixados entre 14 de agosto e 30 de setembro. A Comissão comunicaria à soprano o período de apresentação até 15 de abril de 1953.
Esse contrato não prosperou e não temos nenhum documento que aponte a causa.
O contrato que prosperou, levando-a a apresentar-se
em”Aida” no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, é de junho de
1954. Por ele a soprano se obrigava a apresentar-se em seis récitas,
recebendo por elas a quantia trezentos mil cruzeiros. Ela deveria
cantar Aída, Trovatore, e qualquer outra de seu repertório, à exclusão de Madame Butterfly. Caso se dispusesse a cantar Lo Schiavo,
de Carlos Gomes, lhe seriam pagos mais cinquenta mil cruzeiros.
As récitas ocorreriam entre 27 de setembro e 15 de outubro de 1954.
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No contrato de 1954 com a Réunion des Théatres Lyriques
Nationaux, da França, foi assegurado a Constantina que suas récitas
de Oberon, somente teriam início a partir de 16 de outubro. No entanto, Constantina apenas se apresentou em “Aida” Por que motivos?
No jornal, uma manifestação da cantora a respeito:
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Um dos belos cenários de autoria de Mario Conde, responsável pelo setor de
cenografia do Teatro Municipal, para essa apresentação.
Foto: Mauro Salles/O Mundo Ilustrado, RJ
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Fonte: O Mundo Ilustrado, RJ
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(Jornal Última Hora, RJ)
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(Jornal Diário Carioca, RJ)
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1954
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Duas entrevistas,
publicadas em
jornais cariocas
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1957
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Aída, no
Teatro Duse,
em Bolonha,
1957
O Teatro Duse é o mais antigo da cidade de Bolonha, na Itália. Não é um teatro grande, sendo hoje utilizado para uma programação diversificada: música erudita, popular, bailados, shows, prosa. Nele, Constantina apresentou-se em duas récitas de Aída: nos dias 9 e 12 de março de 1957.
No elenco, três cantores de renome: Piero Maria Ferraro, jovem tenor, Ugo Savarese, barítono italiano, o baixo Ivo Vinco, que
foi casado por um tempo com a mezzo-soprano Fiorenza Cossotto.
A regência foi do italiano Franco Ghioni.
Não há crítica desta apresentação no acervo. É possível que
tenha sido a última apresentação de Aída em teatro.
180
1957
34
Il Trovatore,
Arena Flegrea,
em Nápoles
Essa foi a única apresentação de Constantina nessa ópera na
Europa. Ópera que algumas pessoas que a viram fazê-la no Teatro
Municipal de São Paulo jamais se esqueceram. Marcou-lhes tanto
que nenhuma outra “Leonora” jamais os satisfez.
Não foi um elenco de primeira. Entre seus companheiros de
cena, o único destaque foi o barítono Enzo Mascherini, um dos mais
importantes de sua geração.
Entre a documentação disponível, não há referência ao ano
dessa
montagem.
Apenas uma anotação que aponta para
o ano de 1957.
O que é muito provável, pois
vemos pela propaganda que Aída,
nessa ocasião, já vinha sendo feita por
Anita
Cerquetti,
uma das duas sopranos italianas que estavam no topo nessa
ocasião, a outra era
Antonieta
Stella.
Ambas tinham repertório semelhante
ao de Constantina.
181
1966
35
A morte
de Constantina,
Araújo
Constantina Araújo faleceu em 4 de março de 1966, às 12
horas, aos 43 anos de idade.
Tinha vindo ao Brasil para submeter-se a uma pequena intervenção cirúrgica, a qual ocorreu sem problemas. Estava em casa
de seus pais, na rua Simão Álvares, nº 444, deitada no sofá, quando
sofreu uma embolia pulmonar que ocasionou a sua morte instantânea.
A soprano residia em Milão. Não tendo cantado mais em
São Paulo desde 1950, seu nome era desconhecido da grande maioria dos frequentadores mais jovens das temporadas de ópera do Teatro Municipal de São Paulo.
Na Europa, as duas últimas participações públicas de que
temos conhecimento, ocorreram em 1958: “esecuzione e registrazione di un concerto Martini&Rossi” e “esecuzione e registrazione
dell'opera Ernani di Verdi - parte di Elvira”.
A época áurea, em que seu nome era frequentemente notícia
nos jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro, havia ficado para trás.
Portanto, não é de se estranhar que apenas quatro pequenas notas,
com muitas incorreções, noticiaram sua morte.
O Teatro Municipal de São Paulo não lhe rendeu homenagem e a municipalidade paulistana não agraciou sua filha que tanto
sucesso fez na Europa.
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ANEXO 1 – APRESENTAÇÕES NA EUROPA
Graças à quase totalidade dos contratos de Constantina com os teatros onde se apresentou, e também às notícias de jornais da época,
foi possível realizar uma listagem de suas apresentações na Europa:
AÍDA
Teatro Comunale - Modena (estréia na Europa, em 26/12/1950)
Teatro La Fenice - Veneza
Teatro Municipale Reggio Emilia
Scala – Milão (O primeiro contrato com o teatro compreende o período de 18 de fevereiro a 15 de junho de 1951. A soprano se obrigava a fazer um mínimo de 10 récitas, de seu repertório: Aida, Un
Ballo in Maschera e Luisa Miller. Ela fez apenas as duas primeiras.
Houve um outro contrato, de 20/11 a 23/12/1951, para estar pronta
e eventualmente se apresentar na ópera que abriria a temporada
1951-1952: I Vespri Siciliani. A temporada foi aberta por Maria
Callas. Caso algo lhe acontecesse durante a récita, quem a substituiria seria Constantina Araujo.
Teatro Estivo de Carpi (8 a 11-8-1951) - 2 récitas
Teatro Petruzzelli - Bari
Castelo di Lombardia - Enna (3 a 16-7-1951) (3 récitas)
Arena Verona - Verona (17-7 a 10-8-1951) 4 récitas
Teatro Municipale - Piacenza
Opéra de Monte Carlo (18 a 23-3-1952) (2 récitas)
Arena - Bolzano (29-6 a 5-7-1952) (2 récitas)
Teatro Municipale Reggio Emilia (1 a 13-7-1953) ( 2 récita, 1 eventual)
Teatro São Carlos - Lisboa (21 a 29-3-1953) (2 récitas)
Teatro Comunale Dell'Opera - Genova (primo, 20-4-1953) (3 récitas)
Castello di San Giusto - Trieste (1 a 13-7-1953) - (3 récitas)
Arena - Augsburg (1 e 4-8-1953) (2 récitas)
Arena - Verona (9 a 15-7-1954) (1 récita assegurada e 1 eventual)
Palais Garnier - Paris
Teatro Duse - Bolonha (8 a 12-3-1957) (1 récita)
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ANDREA CHENIER
Teatro Nuovo de Salsomaggiore (6 a 7-10-1952) - (1 récita)
UN BALLO IN MASCHERA
Scala - Milão
Teatro Verdi - Trieste
Covent Garden - Londres (25 a 30-10-1952) (2 récitas)
MEFISTOFOLE
Teatro di San Carlo di Napoli (18-7 a 3-8-1952) (4 récitas)
I VESPRI SICILIANI
Arena - Augsburg (9 e 11-8-1953) (2 récitas)
IL TROVATORE
Arena Fleguea - Napoli (23 a 25-7-1954) (1 récita )
OBERON (1954-1955) - Palais Garnier - Paris
Foi o contrato que lhe rendeu o maior cachê e o de mais longa duração. Foi assinado com a Réunion des Théatres Lyriques Nationaux, em 20 de novembro de 1953. Ele assegurava 28 representações de janeiro a maio de 1954, havendo a possibilidade de representações além do mínimo mensal. Previa uma representação de Aída. Ela estava impedida de realizar qualquer apresentação em França ou fora dela sem a autorização da contratante. Caso obtivesse autorização para fazê-lo, haveria um desconto por dia de ausência.
Houve um adendo no qual se previa mais 4 representações no mês
de junho de 1954, devendo acontecer entre 1º e 21 de junho, devendo ocorrer também mais 12 representações de outubro a novembro
de 1954. A contratante assegurou que o início das últimas apresentações se iniciariam a partir de 16 de outubro para que a contratada
pudesse se apresentar no Brasil.
Em 15 de dezembro de 1954, Constantina acordou em fazer
mais oito apresentações durante os meses de janeiro e fevereiro de
1955.
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FRESCO NOTTURNO
Canal Grande de Veneza (18-7-1951)
MADAME BUTTERFLY
Scala - Milão
Opéra Comique - Paris
Opéra de Monte-Carlo (8 e 10-2-1953) (2 récitas)
L'AMORE DEI TRE RE
Scala - Milão (10-5 a 6-6-1953) 4 récitas
LA VITA BREVE
Scala - Milão
Concerto Operístico - Teatro dell”Arte al Parco 8-2-1957
ERNANI
Em concerto - Auditório da RAI - 12-9-1958
Concerto Martini & Rossi 15-12-1958, em Milão
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ANEXO 2 – CONSTANTINA ARAÚJO NO YOUTUBE
AÍDA, DE GIUSEPPE VERDI, no Teatro Municipal, do Rio de Janeiro, em 1954; a ópera foi transmitida pelo rádio.
“Ritorna Vincitor!”, Constantina Araújo
https://www.youtube.com/embed/MSkCyVXmja0?rel=0
“O Patria mia”, Constantina Araújo
https://www.youtube.com/embed/ntvtqEg6g2w?rel=0
“Pur ti riveggo”, Constantina com Mario Del Monaco
https://www.youtube.com/embed/W30N00zyP5k?rel=0
ERNANI, DE GIUSEPPI VERDI, 1958, CD
Scene e ária “Ernani! Ernani, involami”, Constantine Araujo, com
Coro e Orchestra Sinfonica di Roma della RAI
https://www.youtube.com/embed/tpXxx-_cAQQ?rel=0
“Da quel di”, Mario Sereni e Constantina Araújo, com Coro e Orchestra Sinfonica di Roma della RAI
https://www.youtube.com/embed/NU-E6k_qqcw?rel=0
“Oro, quant'oro”, Cesare Siepi, Constantina Araújo e Mario Del
Monaco
https://www.youtube.com/embed/UxX3iKTqy5k?rel=0
“Tu se'Ernani”, Mario Sereni, Constantina Araújo e Mario Del Monaco
https://www.youtube.com/embed/XCtKD5vqNvM?rel=0
“O sommo Carlo”, Mario Sereni, Constantina Araújo e Mario Del
Monaco
https://www.youtube.com/embed/XZt81IyjBX4?rel=0
“Finale”, Cesare Siepi, Constantina Araújo e Mario Del Monaco
https://www.youtube.com/embed/DZlfklhf6qc?rel=0
LA WALLY, DE CATALANI
“Ebben, ne andro lontana”, Constantina Araújo
https://www.youtube.com/embed/2L96nLoHJkk?rel=0
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ANEXO 3 – INTÉRPRETES, REGENTES E CRÍTICOS EM
SUAS APRESENTAÇÕES
André Cluytens, regente belga (1905-1967)
Anna Maria Canali, mezzo soprano italiana (1921-)
Anselmo Colzani, barítono italiano (1919-2006)
Boris Christoff, baixo búlgaro (1914-1993)
Bruno Cioni
Carlo Taglibue, barítono italiano (1898-1978)
Carlo Maria Giulini, regente e violinista italiano (1914-2005)
Cloe Elmo, contralto italiana (1910-1962)
Denise Duval, soprano francesa (1921-)
Dora Minarchi, mezzo-soprano
Duilio Baronti, baixo
Elena Nicolai, mezzo soprano búlgara (1905-1993)
Fedora Barbieri, mezzo soprano (1920-2003)
Fiorenza Cossotto, mezzo-soprano italiana (1935-)
Francesco Molinari Pradelli, regente (1911-1996).
Franco Ghioni, regente italiano (1886-1964)
Giacinto Prandelli, tenor italiano (1914-2010)
Giorgio Algorta, baixo uruguaio (-1980)
Giuseppe Valdengo, barítono italiano (1914-2007)
Ivo Vinco, baixo italiano (1927-2014)
Jeanne Mattio, mezzo soprano
Jüssi Bjorling, tenor sueco (1911-1960)
Louis Rialland, tenor francês
Lucia Danieli, mezzo soprano italiana (1927-2005)
Mario Carlin, tenor italiano (1915-1984)
Mario Del Monaco, tenor italiano (1915-1982)
Mario Filippeschi, tenor italiano (1907-1979)
Maurice Lehmann, ator, diretor, produtor françês (1895-1974)
Mirto Picchi, tenor (1915-1980)
Nicola Rossi Lemeni, baixo italiano (1920-1991)
Nicolai Gedda, tenor sueco (1925-)
Oliviero di Fabritiis, regente italiano (1902-1982)
Piero Maria Ferraro, tenor (1924-2008)
Piero Miranda Ferraro
René Dusmenil, médico, crítico literário e musicólogo francês
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(1879-1967)
Robert Jeantet, barítono francês
Roger Bourdin, barítono francês (1900-1973)
Rolando Panerai, barítono italiano (1924-)
Salvatore Di Tommaso
Silvio Maionica
Tancredi Pasero
Tulio Serafin, regente italiano (1878-1968)
Ugo Savarese
Ugo Savarese, barítono (1912-1997)
Ugo Savarese, barítono italiano (1912-1997
Victor De Sabata, regente (1892-1967)
Vincenzo Giannini, regente de coro italiano
Vittore Veneziani, regente de coro italiano
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UENP – CAMPUS DE CORNÉLIO PROCÓPIO
Unidade Campus: Rodovia PR 160, Km 0 – Unidade Centro: Av. Portugal, 340
Fone (43) 3904-1922 – Fax (43) 3523-8424
E-mail: [email protected]
Cornélio Procópio, Estado do Paraná
CEP 86300-000
Junho de 2015
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José Carlos Neves Lopes é natural de
Ourinhos, SP. Fez História na USP,
onde cursou pós-graduação, e Direito
no Mackenzie (1980). Professor do
curso de História da Universidade
São Francisco e da UNIP-campus
Vergueiro, na capital paulista. Professor efetivo de História e Coordenador
de Estudos e Normas Pedagógicas
da Secretaria de Estado da Educação. Coautor de publicações destinadas a EJA da Secretaria de Estado da
Educação. Colaborador do jornal "Folha de Ourinhos", onde mantém a coluna "Recordando", desde 2001. É
blogueiro.
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