Alargar o nosso horizonte Somos instrumento de Deus As rolas

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Alargar o nosso horizonte Somos instrumento de Deus As rolas
PORTUGAL
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Quinzenário • Fundador: Padre Américo
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21 de Junho de 2008 • Ano LXV • N.° 1677
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Alargar o nosso horizonte
A
O folhearmos as Normas de Vida dos Padres
da Rua na parte que diz respeito ao seu
Agir, no número 82, pode ler-se: «Em primeiro lugar por ordem cronológica e na extensão
do serviço, é o amparo da criança abandonada,
que a Obra realiza nas Casas e Lares do Gaiato».
Trata pois da finalidade da Casa do Gaiato: «o
amparo da criança abandonada».
Numa Sociedade como a nossa, na qual, cada
vez mais, rareiam as crianças nas famílias e se
multiplicam as respostas de integração social para
as que estão em risco de abandono e mau-trato,
que fica a sobrar para nós? Eis uma pergunta que
frequentemente se ergue no nosso horizonte existencial, de forma aguda. Em vários escritos d’O
GAIATO o temos referido. Padre Telmo, no seu
último apontamento para O GAIATO, o exprimiu
C ALVÁRIO
As rolas
de forma contundente, ao observar, com tristeza,
a ausência dos «Batatinhas» em todas as nossas
Casas, confrontando esta situação com a «multidão
de crianças em Angola…» que fazem jus à «alegria
de ser mãe» e à «alegria de nascer» — sentimentos
tão arredados desta nossa Europa fria e infértil.
Em tal contexto sociológico é importante redimensionar o nosso lugar e na fidelidade ao Espírito de
Deus que suscitou o carisma da Obra da Rua no
coração de Pai Américo, estar atento aos sinais dos
tempos numa linha de abertura e de aposta na Missão evangelizadora da Igreja principalmente junto
dos mais Pobres.
As nossas Casas em Portugal começam a ser observadas como quintas enormes, naturalmente belas e
verdejantes — bom augúrio de êxito do projecto educativo na linha do pensamento do Padre Américo
— mas estão ficando vazias! E
permanecer nelas só para tomar
conta do património é a morte!
De outras latitudes chegam-nos
apelos, gritos inocentes de dor e
sofrimento a que não podemos
P
ASSEIAM-SE na nossa quinta, procurando no solo grãos de
sementes. Vão ao lago debicar umas gotas de água. Depois,
voam de mansinho, como que levadas pelo vento, até aos
ramos das carvalhas, onde poisam lentamente, desafiando as leis da
gravidade. A brisa que sopra fá-las baloiçar, despreocupadamente. À
noite, recolhem-se nos densos ramos das tuias onde fazem os
ninhos.
Parece que nada as inquieta. Andam felizes porque se aceitam
como são. Vivem contentes com elas próprias.
Ora, como as rolas despreocupadas, também o João na cadeira
de rodas passa os dias sereno. Para ele não há problemas. É infantil,
apesar de quarentão. Basta-lhe um relógio no pulso, mesmo parado,
e um rádio para ter o mundo todo na mão. Não aspira a grandes coisas. Aceita-se como é, paraplégico. Não questiona a vida, mesmo a
ausência dos seus que muito raramente o visitam. Não faz comparações, nem inveja a vida dos que andam pelo seu pé. Está contente
com ele próprio, com a vida que leva. Muitos têm pena dele. Ele não
tem pena de ser assim.
Para se ser feliz temos, primeiramente, de nos aceitar como
somos, com a nossa identidade, com as nossas capacidades e limites;
com a nossa grandeza ou com a nossa pequenez; com as nossas virtudes, mas também com os nossos defeitos.
Depois, aceitar a amizade dos que nos rodeiam ou a antipatia
daqueles que nos repelem — isso é com eles; aceitar os outros como
eles são.
E, ainda, aceitar o meio em que vivemos, o mundo que nos
cerca. Contemplar a natureza é tónico eficaz para nos encantarmos.
Muitos não são felizes porque desejam ser diferentes do que são.
Aspiram a posições sociais diversas daquelas que possuem. Sonham
com coisas que não podem possuir ou usufruir. Não aceitam a vida
como ela é e vivem numa insatisfação permanente.
As condicionantes materiais ou físicas não roubam a paz de
quem a encontrou. As Bem-Aventuranças são norma que conduz à
felicidade, mas poucos as conhecem e vivem.
Felizes as rolas meigas nos píncaros das árvores!
Padre Baptista
Continua na página 4
O mais novo e o mais velho dos baptizados, em 18 de Maio, na Capela
da Casa do Gaiato, em Paço de Sousa.
M OÇAMBIQUE
Somos instrumento de Deus
C
HEGARAM à Alfândega
e já o Senhor Ministro
das Finanças isentou de
impostos, o contentor e a palette
que traz a grua para retirar os
telhados das Casas da nossa
Aldeia e recuperar as estruturas
e colocar nova telha. Não é que
esteja tudo perdido, mas devido
à péssima confecção da telha a
água tem entrado quando chove,
a ponto de os Rapazes terem de
fugir de seus quartos. Várias
vezes substituímos telhas, mas
outras aparecem partidas. Não há
outro remédio.
Só dinheiro é que não temos.
A Casa do Gaiato de Paço de
Sousa, sobre quem recaem todas
as necessidades das de África,
além de estar com a recuperação
da casa-Mãe, sangrou demais
para nos enviar tudo, e nem tudo
coube do que havia. Muito foi
comprado, a remessa marítima é
cara, aqui também não fica nada
barato, apesar da isenção alcan-
çada, trazer tudo para dentro de
Casa. Quantos passos perdidos,
quantas arrelias, transtornos na
nossa vida de Casa, idas diárias
à cidade, durante quinze dias,
não chegam. Até que tudo saia do
porto.
Depois, é uma festa. Todo o
mundo ajuda. Roupa e calçado
para um lado, comida e material escolar para o seu. O que é
das oficinas para elas, o que é
do campo para lá, o que é das
obras para o seu lugar e o camião
regressa vazio à cidade em pouco
mais de uma hora.
Os nossos planos, tão longamente preparados e tão desejados
de fazer uma reparação geral às
casas dos Rapazes e ao Salão,
estão, porém, comprometidos.
Dependemos absolutamente da
misericórdia de Deus. Só Ele faz
maravilhas. Porque somos pecadores, porque não valemos nada
aos olhos do mundo, porque fizemos aliança com os que sofrem à
nossa volta, só acreditamos firmemente na palavra do Evangelho.
É manifesto que Deus tem uma
predilecção pelos marginalizados e eles são a nossa parte, são a
herança que Pai Américo nos deixou. E porque tantas vezes vêm
em nossa ajuda, aqueles que se
julgam marginalizados por Deus
ou até nada querem com Ele, mas
são afinal seu instrumento preferido porque acreditam em nós
que O servimos, também acreditamos neles. Nunca o dinheiro
há-de ser um obstáculo para as
obras de Deus
Assim, confiantes, jubilosos, de
mãos dadas, vamos caminhando
no dia-a-dia que o Senhor nos dá
para viver. Às vezes a tremer, com
a saúde em perigo, mas Ele é que
sabe, conforta-nos a certeza de
estar nas Suas mãos. Desde que
chegue para caminhar e a cabeça
funcione, graças a Deus.
Padre José Maria