A Atualidade dos ensinamentos de Bernardino Ramazzini

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A Atualidade dos ensinamentos de Bernardino Ramazzini
A Atualidade dos ensinamentos de
Bernardino Ramazzini, 300 anos após
sua morte (5/11/1714)
Conferência III da 28ª Jornada AMIMT
Belo Horizonte, 15/11/2014
Prof. René Mendes
Estrutura e Conteúdo
1. Um pouco sobre a vida e carreira
profissional de Bernardino Ramazzini
(1633-1714)
2. Um pouco sobre sua obra-prima: “As
Doenças dos Trabalhadores”
3. Principais lições de Ramazzini: sua
atualidade
4. Reflexões finais
1. UM POUCO SOBRE A VIDA E CARREIRA
PROFISSIONAL DE BERNARDINO
RAMAZZINI (1633-1714)
Um Pouco Sobre a Vida e Carreira
Profissional de Bernardino Ramazzini
• Nascido em Carpi (perto de Modena) em 4/10/1633.
• Aos 19 anos, vai a Parma, para se dedicar aos
estudos de Filosofia e Medicina, na Universidade de
Parma (jan/ 1659).
• 1660-1663: completa sua qualificação prática em
Roma (sob a supervisão do Prof. Antonio Maria de
Rossi), seguindo para trabalhar em uma comunidade
rural (Marta, Ducado de Castro, Lazio), até adoecer
por malária “quartã”. Retorna a Carpi , para se
restabelecer e trabalhar.
• 1671: muda-se para Modena, em busca de novos
desafios.
• 1682: aos 49 anos, assume o cargo de Professor da
Cátedra de “Medicina Teórica” e depois, também,
“Medicina Prática”, da Universidade de Modena.
• 1690/91: começa a lecionar sobre as doenças dos
trabalhadores (“morbis artificum”)
• 1700: publica a 1ª. edição do livro “De Morbis
Artificum Diatriba” = Tratado sobre as Doenças dos
Artesãos (ou “artífices”, ou “trabalhadores”),
analisando as condições de vida, trabalho,
adoecimento e morte de 42 profissões.
• 1700: aos 67 anos, muda-se para Padova (Pádua)
para assumir o cargo de Professor da 2ª Cadeira de
“Medicina Teórica “da Universidade (fundada em
1222)
• 1706: aos 73 anos, aceita convite para ser “Professor
Visitante” da Universidade de Veneza
• 1713: publica a 2ª. edição de seu livro, ampliando
para 54 profissões analisadas.
• 1714: morre em Pádua, em 5 de novembro, aos 81
anos, 1 mês e 1 dia.
Contexto: Principais Pesquisadores da Biologia e
Medicina, Contemporâneos de Ramazzini
(1600-1750)
Contexto: Principais Pesquisadores Científicos
Contemporâneos de Ramazzini (1600-1750)
Contexto: Principais Pensadores, Artistas e
Filósofos Contemporâneos de Ramazzini (1600-1750
Ramazzini: Estudioso, Erudito e Culto
• Citação de 182 autores no livro “De Morbis
Artificum Diatriba”, de todas as áreas (Medicina,
Biologia, Geologia, Mineralogia, História, Filosofia,
Teologia, Literatura e outras).
• Citação de aproximadamente 540 referências
bibliográficas.
• Além dos “clássicos”, citou em seu livro autores
“recentes” e contemporâneos (a ele), como, por
exemplo, Francis Bacon (1561-1626) , René
Descartes (1596-1650), e autores
contemporâneos a ele, porém mais jovens que
ele, como Gottfried Wilhelm von Leibniz (16461716), o polivalente cientista e pensador alemão
(mais tarde colegas e amigos...).
2. UM POUCO SOBRE SUA OBRA-PRIMA
“AS DOENÇAS DOS TRABALHADORES”
“Este livro de Ramazzini significa para a
história das doenças do trabalho o que o
livro de Vesalius significa para a Anatomia,
ou o de Harvey para a Fisiologia, ou o de
Morgani para a Patologia.”
(Henry Sigerist, 1891-1957, historiador da Saúde Pública e da
Medicina)
3. PRINCIPAIS LIÇÕES DE
RAMAZZINI: SUA ATUALIDADE
(1) Interessar-se e comprometer-se com as
necessidades de uma classe social habitualmente
esquecida e marginalizada pela Medicina
“...ninguém que eu saiba pôs o pé nesse campo [doenças
dos trabalhadores]. (...) É, certamente, um dever para
com a mísera condição de artesãos, cujo labor manual,
muitas vezes considerado vil e sórdido, é, contudo,
necessário e proporciona comodidades à sociedade
humana...” (Prefácio do Livro)
“Certamente alguns ficarão irritados por me detive tanto
tempo tratando desses assuntos de latrinas e cloacas;
porém, não há tema cuja atenção macule o investigador
das coisas naturais e, muito menos, o professor de arte
médica”. (Capítulo XIII: Doenças dos Cloaqueiros)
“Segunda Classe”, de Tarsila do Amaral
(1886-1973)
A Atualidade desta
Lição de Ramazzini?
 Direitos (obrigações) da “igualdade” e da “equidade”
 Dever e obrigação da Medicina, como um todo, e
não apenas da Medicina do Trabalho
 Dever e obrigação “intrínsecos” à opção profissional
pelo campo da Saúde do Trabalhador (via
especialidade “Medicina do Trabalho”)
(2) Acolher e atender com dignidade a todos os
pacientes, inclusive os trabalhadores, pobres e
despossuídos
“... o médico que vai atender a um paciente
operário não deve se limitar a pôr a mão no pulso,
com pressa, assim que chegar, sem informar-se de
suas condições; não delibere de pé sobre o que
convém ou não convém fazer, como se não jogasse
com a vida humana; deve sentar-se, com a
dignidade de um juiz, ainda que não seja em
cadeira dourada, como em casa de magnatas;
sente-se mesmo num banco, examine o paciente
com fisionomia alegre e observe detidamente o que
ele necessita dos seus conselhos médicos e dos seus
cuidados preciosos.”
A Atualidade desta
Lição de Ramazzini?
 Direitos (obrigações) da “igualdade” e da “equidade”
 Respeito aos fundamentos constitucionais de
“cidadania” e de “dignidade da pessoa humana” (Art.
1º da Constituição Federal)
 Dever e obrigação da Medicina, como um todo, e
não apenas da Medicina do Trabalho: “I - A
Medicina é uma profissão a serviço da saúde do ser
humano e da coletividade e será exercida sem
discriminação de nenhuma natureza.” (Art. 1º. Código de
Ética Médica)
(3) Perguntar, sempre, a todos pacientes, qual
a sua profissão? (Quam artem exerceas?)
“... um médico que atende um doente deve
informar-se de muita coisa a seu respeito pelo
próprio e por seus acompanhantes (...). A estas
interrogações devia acrescentar-se outra: ‘e que
arte exerce?’. Tal pergunta considero oportuno e
mesmo necessário lembrar ao médico que trata um
homem do povo, que dela se vale para chegar às
causas ocasionais do mal, a qual quase nunca é
posta em prática, ainda que o médico a conheça.
Entretanto, se a houvesse observado, poderia obter
uma cura mais feliz.”
A Atualidade desta
Lição de Ramazzini?
Dever e obrigação da Medicina, como um
todo, e não apenas da Medicina do Trabalho!
“Tal pergunta considero oportuno e mesmo
necessário lembrar ao médico que trata um
homem do povo, que dela se vale para chegar
às causas ocasionais do mal, a qual quase
nunca é posta em prática, ainda que o médico
a conheça.”
“Se a houvesse observado, poderia obter uma
cura mais feliz.”
(4) Entender a “profissão” ou “ocupação” como
indicadores de classe social e determinantes sociais
de risco/saúde/doença
“Ramazzini estabeleceu ou insinuou alguns dos elementos
básicos do conceito de Medicina Social. Estes incluem a
necessidade do estudo das relações entre o estado de
saúde de uma dada população e suas condições de vida,
que são determinadas pela sua posição social; os fatores
perniciosos que agem de uma forma particular ou com
especial intensidade no grupo, por causa de sua posição
social; e os elementos que exercem uma influência
deletéria sobre a saúde e impedem o aperfeiçoamento do
estado geral de bem-estar.”
(George Rosen, 1910-1977, Historiador da Saúde Pública e da Medicina)
Exemplo: determinação social de
problemas (aparentemente) “ergonômicos”
(5) Escutar, auscultar e valorizar a
percepção e opinião dos trabalhadores
• “...interrogados os próprios operários se adoeceram
alguma vez, enquanto preparavam remédios para a saúde
do próximo, responderam que, a miúde, se sentiram
gravemente afetados...” (Capítulo XII – Doenças dos Farmacêuticos)
• “...interroguei-o [um dos operários] por que trabalhava
tão afanosamente e não agia com menos esforço...”
(Capítulo XIII – Doenças dos Cloaqueiros)
• “...os mesmos tipógrafos declararam que, depois de
haverem trabalhado durante todo o dia e de terem saído
das oficinas, sentem de noite esses caracteres impressos
na sua mente, por muitas horas, até que as imagens de
outras coisas os afastem.” (Cap. I – Suplemento – Doenças dos
Tipógrafos)
A Atualidade desta
Lição de Ramazzini?
(6) Visitar e conhecer os locais de trabalho
e os processos de trabalho
“Eu, quanto pude, fiz o que estava ao meu alcance,
e não me considerei diminuído visitando, de quando
em quando, sujas oficinas a fim de observar
segredos da arte mecânica. (...) Das oficinas dos
artífices, portanto, que são antes escolas de onde
saí mais instruído, tudo fiz para descobrir o que
melhor poderia satisfazer o paladar dos curiosos,
mas, sobretudo, o que é mais importante, saber
aquilo que se pode sugerir de prescrições médicas
preventivas ou curativas, contra as doenças dos
operários.” (Prefácio)
A Atualidade desta
Lição de Ramazzini?
(7) Lidar simultaneamente com as dimensões clínicoindividual e coletivo-epidemiológica
“As Doenças dos Trabalhadores” (título geral)
“Doenças dos Mineiros” (Capítulo I)
“Doenças dos Químicos” (Capítulo IV)
“Doenças dos Oleiros” (Capítulo V)
“Doenças dos Coveiros” (Capítulo XVII)
“Doenças dos que Trabalham em Pé” (XXIX)
“Doenças dos Militares” (XL)
“Doenças dos Tipógrafos”
“Doenças dos Escribas e Notários”
Outras profissões (> 40)
De quê adoecem e morrem os trabalhadores?
Os Problemas de Cada Pessoa e de Cada
Grupo Ocupacional...
(1)
• Mineiros subterrâneos (mercúrio): “não conseguem
atingir três anos de trabalho; no espaço de quatro
meses apenas, aparecem tremores dos membros,
tornando-se vertiginosos e paralíticos...”.
• Douradores (mercúrio e outros metais): “... ficou
tonto, surdo e mudo” (...) “confusão mental”
• Oleiros e ceramistas (trabalham com chumbo
quente): “primeiro surgem tremores nas mãos, depois
ficam paralíticos, dementes...”
• Estanhadores: “...ansiedade” (...) “vagava como
sonâmbulo pela casa, até que começava a clarear o
dia”
• Pintores (pigmentos e solventes): “tremores nos
membros” (...) “melancolia”
Os Problemas de Cada Pessoa e de Cada
Grupo Ocupacional...
(2)
• Amoladores (afiadores): “labutam o dia inteiro, e,
ainda mais, aqueles que não têm a cabeça muito
firme, depois do trabalho, ficam vendo a mó dar
voltas em sua mente”
• Padeiros: “eles trabalham de noite e dormem quase
todo o dia, como as pulgas, pelo que temos nesta
cidade antípodas, que vivem ao contrário dos demais
homens”
• Pintores: “vivem segregados do convívio social” (...)
“conturbam a mente com ideias fantásticas” (...)
“tendência à melancolia”
A Atualidade desta
Lição de Ramazzini?
(8) Para além do local do trabalho, estender o olhar
para o que acontece no “entorno”, nos ambientes
“externos”
Ver “Case” descrito por Ramazzini no
Capítulo IX:
“Doenças dos Químicos”
A Atualidade desta
Lição de Ramazzini?
4. REFLEXÕES FINAIS

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