David Léo Levisky A CARTA DO PRESTE JOÃO1 ALGUNS

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David Léo Levisky A CARTA DO PRESTE JOÃO1 ALGUNS
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David Léo Levisky
A CARTA DO PRESTE JOÃO1
ALGUNS ASPECTOS JUDAICOS DA PRIMEIRA VERSÃO HEBRAICA
David Léo Levisky
A-Objetivo
Este trabalho tem por objetivo identificar, estudar e analisar alguns aspectos
judaicos: históricos, bíblicos, expressões ritualísticas, personalidades, tradições que possam
estar presentes na primeira versão hebraica da Carta do Preste João(CPJ). A versão
hebraica tem como texto básico a carta enviada ao Papa em Roma. O primeiro texto
hebraico consta do Bodl. Const.1519, número 1363 do Catálogo Steinschneider, do texto
Rabínico.2
B-Introdução
B I-Sobre a Carta do Preste João
Num momento em que as Utopias parecem estar fora de moda, retomar a
Carta de Preste João pode ser uma forma de resgatar a esperança, a ilusão do encontro de
uma cidade feliz, de harmonia e justiça, diante de um realismo contundente e gerador de
desesperança que caracteriza a atualidade. Sonho, ilusão, mito ou quimera? O espírito da
utopia talvez seja uma questão de alteridade em certo olhar sobre o saber , uma questão de
felicidade e liberdade.3
O reino do Preste João (PJ) foi dado a conhecer por três cartas enviadas por um
autor desconhecido, por volta de 1165, ao imperador Frederico Barba Ruiva, ao imperador
bizantino Manuel, que não lhe deram crédito, e ao papa Alexandre III, que acreditou.
O Dictionary of the Middle Ages 4 refere-se a este protagonista medievo como um
legendário potentado cristão. Teria percorrido o Oriente, a Índia, ou a Etiópia com
conseqüente submissão e domínio das forças muçulmanas. Perído no qual a situação
européia internacional era depressiva. Esta história surgiu como um raio de esperança para
o mundo Cristão. Otto de Freising é considerado como o primeiro escritor medieval a
mencionar o poder e prestígio de PJ ao inserir no trabalho “Chronicon”(1145 d.C.) um
sumário de um relato feito por Hugh, bispo de Jabala, que esteve visitando a Europa em
1145. Hugh referiu-se à existência de um padre nestoriano e rei chamado John. Este John
era tido como descendente de Magi, soberano de uma terra do outro lado da Armênia no
Oriente, que havia vencido os Persas e povos vizinhos e estava se dirigindo para Jerusalém
quando precisou interromper seu trajeto devido às condições climáticas.
Trabalho apresentado durante o curso de pós graduação na área de História Social do departamento de
História da FFLCH-USP, cadeira do professor Hilário Franco Júnior, 2000.
2
Ullendorff, E.; Beckingham, C.F. The Hebrew Letters of Prester John Oxford Oxford University Press 1982
pp38-71
3
Lacroix, Jean-Yves A Utopia-um convite à filosofia, Rio de Janeiro Zahar Editor, pp.21).
4
Strayer, J.(Ed) Dictionary of the Middle Ages Nova York Scribners and Sons 1989, 12 vols pag 118-119
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Ao redor de 1165 surge a versão latina da carta escrita por PJ e endereçada a Manuel
I Comnenus, imperador Bizantino e alguns manuscritos contendo a rubrica estatal
sugerindo que PJ tinha enviado uma cópia da carta para Frederico I (Barbaruiva) ou II. A
carta não é datada , mas Alberich de Tres Fontes, escrevendo entre 1232-52, diz que ela foi
recebida em 1165. Tudo faz crer que ela foi escrita antes de 1177. Há mais de 100
manuscritos da versão latina e Zarncke5 definiu o texto básico e identificou 5 redações, cada
uma incorporando um material adicional, geralmente com intentos políticos, além de conter
versos e músicas medievais conhecidos dos menestreis de toda a Europa, transmitidos pela
tradição oral.
Nestas cartas PJ se mostra um governador surpreendente, pleno de ideais, num
estado utópico, onde todos faziam o bem e a lei reinava, numa terra encantada, com saúde,
alimentos, cristais puros, especiarias, animais, monstros e outras maravilhas.
O Papa Alexandre III chegou a escrever uma carta para o rei da Etiópia em 1177,
como resposta a esta carta ou por sua própria iniciativa, expressando o desejo de fazer
aliança com o lendário Padre-Rei, e enviou uma mensagem através de seu médico que
jamais retornou.
Este utópico e fabuloso Império Cristão pensou-se ser na Asia – com Genghis Khan
como padre e rei, mas a destruição da Europa Oriental pelas forças mongóis afastou esta
hipótese. Há muitas controvérsias sobre a real existência desta figura, sua origem e
localização geográfica, servindo de fonte de inspiração para muitos navegadores europeus.
A idéia de um soberano cristão nestoriano no Oriente persistiu com histórias exageradas.
Por exemplo, Marco Polo havia sugerido ser Un-Khan que havia destronado Gengis Khan.
A Etiópia do PJ pode não ter sido um romance: Eldad há-Dani popularizou a idéia
de que no sec IX existiram reinos judeus independentes e poderosos das Dez Tribos
perdidas. Beckingaham, C.F. e B. Hamilton6 publicaram trabalhos a respeito.
O viajante judeu Benjamin Tudela, que esteve nas vizinhanças da Etiópia, na
segunda metade do século XII também escreveu sobre a existência de um Reino Místico
Judaico, esplendoroso, situado em algum lugar no centro de um vasto deserto. Para os
judeus, as notícias sobre as Dez Tribos perdidas foi muito excitante indicando a
aproximação do esperado Messias. Por outro lado, a notícia de que os judeus poderiam
constituir-se em nações independentes em regiões distantes, Ásia ou Etiópia, foi
surpreendente,uma vez que eles haviam sido destinados a viver sob o domínio de
estrangeiros para sempre. Tais notícias indicavam maus presságios, numa época em que se
acreditava que o mundo estava para se acabar, conforme predições existentes nos textos
apocalípticos do velho e novo testamentos.
Dentre as várias hipóteses sobre as intenções da CPJ uma delas seria uma Resposta
Cristã, um re-asseguramento da presença de Jesus como Cristo( Messias em grego) diante
das divisões existentes na Igreja. Outra hipótese estaria ligada às necessidades de apoio dos
5
Zarncke, F. Carta do Preste João das Índias trad. L. Buescu, Lisboa, Assirio eAlvim, 1998.
Beckingaham, C.F. e B. Hamilton (eds) Prester John, the Mongols and the Ten Lost Tribes, Andershot,
Variorum, 1996
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Cruzados em suas intenções de conquistar a Terra Santa e as ameaças que pairavam sobre o
cristianismo pelo aumento do poderio muçulmano.
Uma terceira hipótese seria uma reação cristã frente a um eventual poderio judaico
em terras distantes.
Poderia- se pensar ainda na precária situação judaica tanto na esfera do Império
Bizantino quanto na Europa Ocidental no período compreendido entre as Cruzadas, 1095 a
1204, intervalo no qual surge a CPJ, podendo ser esta carta uma reação judaica frente às
ameaças que sobre eles pairavam.
Havia também o fato de que “ o cristianismo do Império Bizantino diferia do da
Europa Latina por ser mais místico, abstrato e pessimista, e por estar mais completamente
sujeito ao controle político”7, com indisposições em relação ao poder político e religioso em
Roma. Tais fatores também podiam motivar a difusão de idéias de cautela entre os homens
e de busca de uma terra de promissão, à semelhança do que se encontra no Velho
Testamento.
A partir de um período próximo ao início das Cruzadas (1095) é que se começou a
ouvir falar da CPJ com o surgimento da primeira versão latina ao redor de 1065.Nesta
época, em diferentes partes do mundo ocidental e oriental, ocorreram manifestações antisemitas esparsas na Inglaterra, França, Germânia, no Império Bizantino e em regiões do
mundo Oriental. Um dos intentos deste trabalho é identificar e correlacionar eventual
conteúdo pró ou anti-semita na CPJ e eventos anteriores e circunstanciais que possam
colaborar para elucidar ou levantar novos questionamentos em relação à CPJ.
A elaboração da CPJ poderia ter sido a “ onda de fervor cruzado havia sido
provocada por inúmeras histórias de maus tratos impostos aos cristãos na Terra Santa. Os
muçulmanos eram os principais vilões de tais contos, mas os judeus eram muitas vezes
incluídos como traiçoeiros auxiliares. Era uma idade de fundamentalismo cristão”.8 Se
acompanharmos a trajetória do Império Bizantino nesta época pode-se identificar a
existência de fatores que poderiam mobilizar a elaboração de uma carta visando alertar
sobre a necessidade consciente de se buscar uma condição existencial mais promissora e
talvez conciliatória dos povos.
Pretende-se neste trabalho identificar e correlacionar fatos históricos e indícios de
pensamentos de longa duração, mentalidades, explícitos ou simbólicos judaicos, presentes
na CPJ. Possíveis condições sócio-político-econômico-religiosas e filosóficas
favorecedoras na elaboração de uma carta reveladora de um pensamento utópicomitológico. É possível que se possa levantar hipóteses sugestivas de motivações que teriam
estimulado judeus e/ou cristãos terem escrito tais cartas, com finalidades específicas a
serem identificadas. Talvez o denominador comum destas hipóteses fosse o encontro da
utopia que alimenta tais idéias.
Burns, E. M. História da Civilização Ocidental – O Drama da Raça Humana, São Paulo, Editora Globo,
1963, pp.284
8
Johnson, P. História dos Judeus, Rio de Janeiro, Imago, 1995, pp.215
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A esse respeito, pode-se fazer um jogo curioso com as palavras ao se supor que a
Etiópia é o país do PJ, expressão próxima de “utopia”. O país da Carta de Preste João,
localizado por alguns como a Etiópia poderia ser o país da “ Eutopia”, ilha denominada por
Morus(1518) , em seu romance Utopia, e que significa “ o país de lugar algum”, cuja
análise foi feita por Lacroix9. A expressão “utopia” surge de duas palavras gregas: ouk =
não; e topos = lugar; acrescidas do sufixo ia = indicativo de lugar; isto é: “ o país de lugar
algum”, a eterna busca do paraíso, a cidade perfeita, terrestre e celeste, cujo mito está
presente no inconsciente da humanidade ao longo da história das civilizações. História
contada de diferentes maneiras em cada cultura, através de contos, lendas e utopias que se
transformam na transmissão no decorrer dos tempos, mas que são “eternas” em sua
essência.
Éden, Canaã, Cocanha, ou os movimentos filosóficos, religiosos, sócio-políticos que
alimentam o homem em sua eterna busca consciente e inconsciente através das culturas.
Estas por sua vez retro-alimentam e transformam os pensamentos na busca da felicidade,
numa tentativa ilusória de aplacar o desamparo humano. Foi e tem sido assim com o
platonismo, o feudalismo, a erudição judaica, a burguesia, o socialismo, o comunismo e
agora o neoliberalismo, uma eterna busca dos paraísos terrestre e celeste, se é que eles
podem se dissociar, um material e o outro espiritual- afetivo.
Seria interessante aprofundarmos o estudo das relações existentes entre utopia, mito,
a CPJ e as filosofias presentes na Idade Média. Vamos apenas sinalizar este fato mais
adiante.
Conta-se que a última carta escrita por um monarca europeu para a Etiópia
referindo-se à CPJ ocorreu ao redor de 1400 por Henry IV da Inglaterra, e foi endereçada ao
Rei da Abissínia, provavelmente o Imperador David (1382-1412).
B II - Algo sobre as fontes primárias
Zarncke 10(1879)-filólogo de Leipzig, reuniu e confrontou 97 exemplares da carta
latina original enviadas entre1160 e 1190, na tentativa de resgatar o suposto texto original.
Não se sabe se ele leu todas as versões. No final do seu trabalho conseguiu constituir 5
classes de interpolações, de A até E. Reconstruiu uma suposta carta original que chamou de
Urtext, ao qual teriam sido feitas interpolações ao texto original. Este achado entretanto, é
contestado por Martin Gosman(1982)11 e por Ullendorf, E. e Beckingham, C.(1982)12,
editores das versões hebraicas. Para eles haveria um paradoxo na aceitação dos
procedimentos investigatórios utilizados por Zarncke, uma vez que ele se fundamenta no
Lacroix, Jean-Yves A Utopia-um convite à filosofia, Rio de Janeiro Zahar Editor, pp.21).
Zarncke, F.In “Carta do Preste João das Índias – versões medievais latinas”, Prefácio e Notas de Manoel
João Ramos, tradução: Leonor Buescu, Assirio e Alvim, 1998.
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Gosman, M La Lettre du Prêtre Jean: les versions en ancien français et en ancien occitain, 2vols.,
Groeningen, Bouma’s, Boekhuis bv,1982 In “Carta do Preste João das Índias – versões medievais latinas”,
Prefácio e Notas de Manoel João Ramos, tradução: Leonor Buescu, Assirio e Alvim, 1998.
Ullendorf, E. e Beckingham, C The Hebrew Letters of Prester John, Oxford, Oxford University Press, 1982
In “Carta do Preste João das Índias – versões medievais latinas”, Prefácio e Notas de Manoel João Ramos,
tradução: Leonor Buescu, Assirio e Alvim, 1998
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reconhecimento implícito da existência de dificuldades heurísticas na abordagem dos
manuscritos, e na impossibilidade epistemológica de as ultrapassar. Esta tentativa de
reconstruir uma carta original a partir do esforço de agrupar textos semelhantes demonstrou
ser um estudo interessante, mas falho.
Tanto os textos latinos,francês, italiano, provençal ou as versões hebraicas parecem
trazer uma influência léxica grega, aparentemente confirmada pelo fato do destinatário
expresso da carta ser o imperador Manoel I Comneno. Este fato poderia revelar a origem
Bizantina da Carta. Entretanto não há evidências de um exemplar bizantino da mesma. As
versões eslavas, por sua vez, são traduzidas do latim e não do grego(Slessarev, 1959).
O investigador moderno vê nos textos interpolados e copiados, fraudes de fraudes e
tende a acreditar que os leitores da época medieval eram crédulos no conteúdo do texto.
Portanto, aceitar a carta de Zarncke como original também pode ser ingenuidade científica.;
Concluem que “uma carta não é a outra”, e não se pode interpretar a partir de uma carta, a
realidade da outra.
A tentativa de identificar a figura de PJ a personalidades da época, como autênticas.
Marco Polo, Ruybroeck e outros mais recentes, como o Padre Francisco Alves, no século
XVI ou XVII, tentaram fazê-lo. Pode-se pensar que nos tempos bíblicos muitos textos
apócrifos e pseudo-apócrifos surgiram e esta poderia ser uma intenção político-religiosa
desta(s) carta(s), escritas de forma a mobilizar o imaginário da época.
As CPJ foram escritas por pessoas cultas, que tinham conhecimento bíblico e da
cultura grega, européia, árabe, judaica. Isto leva a pensar que o ou os autores da carta eram
estudiosos. Estudiosos naquela época eram os religiosos cristãos, a aristocracia, os judeus e
alguns vassalos privilegiados. A linguagem era tal que mobilizava também aqueles que
pertenciam a outras classes sociais, as quais eram sensíveis ao imaginário maravilhoso e
apocalíptico. A Europa e o cristianismo estavam em crise bem como os judeus da diáspora
estavam se sentindo ameaçados.
A comparação entre as várias versões entre si, para inter-relacioná-las, suscita uma
difícil questão e crítica ao trabalho de Zarncke: se é possível confrontar épocas e
procedências distintas. A carta “ organizada” por este autor, a Urtext13, como a “original”,
pode ser uma forma enganosa de substituir o “original” pelo “ como se”. Dos textos
apresentados por Zarncke são:
a- 5 datáveis como do séc.XII e outros 5 do séc XIV;
b- dos 27 manuscritos da interpolação B, 5 são datados do séc.XII
c- 2 ou 3 da interpolação C também são datados do séc.XII
Nessas confrontações de cartas existem fenômenos de : elipses, sumarizações,
metáteses, amputações, simulações de estilo e Romance Vorlage (literatura popular).
Carta do Preste João das Indias – versões medievais latinas, Prefácio e notas: Manoel João Ramos,
Tradução : Leonor Buescu, Editora Assirio e Alvim, Lisboa, 1998
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Portanto, não se pode afirmar, uma vez que o Urtext é uma montagem, que existe
uma versão mais fidedigna do que outra enquanto autenticidade. Entretanto, pode-se pensar
que o estudo comparativo de versões distintas abre a possibilidade de se identificar
semelhanças e diferenças, e quem sabe motivações ocultas, que possam tê-las favorecido ou
mobilizado em suas intenções estratégicas. Isto é, causar algum tipo de impacto no leitor.
Slessarev14(1959) afirma que “para os seus contemporâneos a CPJ era uma
mensagem autêntica de um soberano indiano”. Será que eles não conheciam ou não faziam
textos de espionagem político-religiosa ou todos eram crédulos e sem crítica?
Curioso o fato de que nas versões vernáculas o endereçado é algum soberano
nacional, e nas latinas são: Manoel I Comneno, Frederico I ( Barbaruiva) ou II e o Papa
Alexandre III.15
Há hipóteses sobre os modelos literários: O Romance de Alexandre e o apocalipse
segundo São João. Preste João como o Cristo apocalíptico é atemporal, o senhor dos
senhores. Seu império é imaginado como uma alegoria milenar preparatória da descida da
Nova Jerusalém apocalíptica, em relação com a cosmografia e cartografia medievais
européias. Na Ásia oriental, em sua extremidade, se localizaria o Paraíso terrestre. Essa
região da Ásia era concebida como região ecumênica, mais próxima da esfera celeste.
Havia por parte de Alexandre Magno a idéia de unificação do Oriente e do Ocidente. O
conteúdo da carta é tido como alexandrino , mas isto pode ser contestado se considerarmos
que o texto apocalíptico encontrado no velho testamento possui linguagem semelhante.
A CPJ pode sugerir que a unificação da cristandade oriental e ocidental ocorrerá através de
uma aliança cruzadística para a conquista de Jerusalém. Sua origem poderia estar ligada:
a- meios clericais da corte imperial alemã(contexto de preparação das segundas cruzadas;
b-a intensa rivalidade política entre Hohenstaufen e a corte bizantina versus pontificado
romano;
c- pode ter origem judaica;
Sabe-se que a literatura epistolar possui características diplomáticas de um lado e a
tradição de cartas caídas do céu, mensagens divinas apocalípticas e moralizadoras. O fato
de existir em várias línguas e a freqüente referência a ela entre os séculos XII e XVII faz
pensar: a- relevância do modelo literário
b- inspiração ideológica e imagética dos projetos imperiais europeus pós-medievais.
As versões hebraicas, em número de 3 foram reunidas e publicadas em 1982 por
Ullendorff,E e Beckingham,C.F16.:
14
Slessarev, V., Prester John, the Letter and the Legend, Minneapolis, The University of Minnesota Press,
1959 In “Carta do Preste João das Índias – versões medievais latinas”, Prefácio e Notas de Manoel João
Ramos, tradução: Leonor Buescu, Assirio e Alvim, 1998.
15
Textos fundamentais, a consultar, da “Carta do Preste João”: A- Karl F. Halleiner: “Prester John’s Letter: A
medieval Utopia” in The Phenix, vol 13(1959)2, pág 47-57. B- “The Quest for Prester John” publicado pelo
Bulletin of The John Rrylands University Library 62, 1980 , pp.290-310. Pou y Marti“La Leyenda Del Preste
Juan entre los Franciscanos de la Edad Media” Antonianum, ,20, 1945,pp.65-96.
Ullendorff, E., Beckingham, C. F.,The Hebrew Letters of Prester John Oxford, Oxford University Press,
1982.
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a-uma endereçada para Manoel I Comneno, vertida para o hebraico a partir de um original
italiano, na qual indaga se o endereçado, o Imperador Bizantino, é um verdadeiro crente. O
texto básico desta edição hebraica encontra-se no Bodl. Constantinopla 1519; no catálogo
Bodleian de Steinschneider, nos textos rabínicos.
b-uma para Frederico I ou II; contém uma observação no catálogo Adler(MS2237, p.81) na
qual esta carta é descrita como “escrita por Jacob Machir chamado Comprat de Vives em
1271 e censurada em 1575 , provavelmente vertida do francês antigo ou do provençal.
c-uma para Papa Eugênio em 1442
Farei algumas considerações sobre características da primeira versão hebraica no
item hipóteses, comentários e discussão, a.
B-II- Sobre Mito, Utopia e Imaginário na Idade Média
Seria interessante aprofundarmos o estudo das relações existentes entre
utopia e mito dentro das filosofias presentes na Idade Média e correlacioná-las com a CPJ.
Nesta oportunidade vamos apenas sinalizar este fato e lembrar que a distinção entre mito e
utopia é analisada por Mircea Eliade17 em seu trabalho Mito e Realidade. Este autor
diferencia a utopia como dependente do homem pelo homem, enquanto no mito os
protagonistas são Deuses e Entes sobrenaturais. Para este autor a definição que mais o
satisfaz diz: “o mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no
tempo primordial, o tempo fabuloso do “princípio””(pp11). A meu ver a Carta de Preste
João contempla as duas condições: utópica e mítica.
Lacroix18 faz uma análise do texto de Morus, publicado em 1518, entitulado Utopia,
no qual salienta que um dos pontos de ruptura entre a Idade Média e o Renascimento está
na relação entre imaginação-mimese. Para este autor, na Idade Média esta relação estava
ligada à idéia de arquétipo e de tempo cíclico, diferentemente do estado psíquico de
“imaginação criadora”, que supõe um “tempo aberto”, característica do Renascimento.
Estas concepções do imaginário são condições transcendentais para o existir, o ser e
o sentir humanos. Dependendo de sua organização mental, da ética na qual o sujeito e a
sociedade estão organizados, isto implicará na configuração dos comportamentos e atitudes
frente aos desejos e suas manifestações na cultura. Isto implica em compreendermos a
organização ética das CPJ, para, desta forma, tentarmos apreender algo do modo de pensar
intrínseco a cada uma de suas manifestações. Isto é, aos diferentes modos de pensar e
mensagens a transmitir dos diferentes Preste João presente em cada uma de suas cartas.
A utopia não tem o estatuto de um mito, pois não se entende como“História (...)
considerada absolutamente verdadeira”19 por aqueles que nela acreditam, segundo a
caracterização do mito nas sociedades arcaicas feitas por Mircea Eliade: a “verdade” de
utopia é só por convenção, mas ela pode ser um mito quando ela adquire um caracter de
Eliade, M Mito e Realidade São Paulo Editora Perspectiva 1998 pp.15
Lacroix, J-Yves: A Utopia – um convite à filosofia Rio de Janeiro Zahar Editores 1996.
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realidade. Além disso, o mito se transmite por tradição oral. A utopia é um produto
confesso da escrita. Pode-se pensar que do ponto de vista literário a Carta de Preste João é
uma utopia e não um mito. Porém, pode-se pensar que a verdade com que foi encarada por
muitos, a partir do Papa Alexandre III ou mesmo antes, a partir de Otto de Freising ou
mesmo com Benjamim Tudela, ao trazer notícias de um Reino Mítico Judaico
Esplendoroso, conseqüências de transformações oriundas, quem sabe , das transmissões
orais. Sua credibilidade chegou ao ponto de inspirar inúmeros navegadores, principalmente
a partir do século XV, adquirindo um status mitológico, uma viagem do mito à lenda, à
utopia até se constituir em novo poder mítico.
Lacroix indaga em Utopia “Que representações do homem, da sociedade, da
felicidade, da lei, do desejo, da razão operam na utopia? Para o autor, longe da visão
corrente que reconhece aí um projeto sedutor mas irrealizável, a utopia deriva de uma nova
maneira de filosofar, para a qual a existência é primordial. Utopia designa de maneira geral
obras de imaginação, descrições e narrativas que podem ter por objeto os aspectos mais
diversos da existência humana, da vida social, da técnica.O estudo das utopias tem a ver
com o estudo da literatura e da história das idéias. Pode-se dizer que a utopia é um sonho de
um visionário. Utopia (Lalande)20 é um quadro que “ representa sob a forma de descrição
concreta e detalhada a organização ideal de uma sociedade humana”.... “ um ideal político
ou social sedutor mas irrealizável, que não leva em conta os fatos reais, a natureza do
homem e as condições de vida”... “procedimento que consiste em representar um estado de
coisas fictício como realizado de maneira concreta, seja a fim de julgar as conseqüências
que implica, seja o mais da vezes, para mostrar o quanto suas conseqüências seriam
vantajosas”. Do meu ponto de vista utopia é a projeção dos ideais humanos racionais e
irracionais, conscientes e inconscientes transformados em linguagem; diferente da utopia, o
mito expressa em sua linguagem conflitos profundos e ancestrais nos quais o homem está
imerso, reveladores da natureza humana, como o nascimento, a passagem para a vida
adulta, o casamento, a reprodução e a morte.
Dentro de uma visão utópico-mitológica da existência imaginária e concreta de um
paraíso terrestre, a CPJ pode representar um alerta às “primeiras manifestações reformistas
frente aos princípios que norteavam a cristandade medieval : em termos de tarefas sociais:
trabalhar, governar-proteger, rezar, segmentando a sociedade em trabalhadores e artesãos,
nobreza, clero bem como as características das relações entre poder temporal e espiritual”21.
Jacques Moutaux22 afirma: “Instituições e costumes da utopia repousam sobre uma ética do
prazer e da felicidade”,cujas reformas posteriormente se efetivaram através das propostas
de Lutero.
Entretanto, Thomas Morus23 1478-1535) em seu romance Utopia, faz severa crítica
à sociedade de seu tempo antes de descrever de maneira bastante detalhada e na voz de um
navegante-filósofo uma cidade perfeita que existiria num Novo Mundo recém descoberto
pelos europeus. Como se vê a busca da cidade feliz, do paraíso terreno e celeste se repete de
tempos em tempos como busca constante e incessante de ideais humanos que a sociedade
20
Lalande, A .,Vocabulário Técnico e Científico da Filosofia, São Paulo, Martins Fontes, 1993.
Lacroix, J-Y A Utopia-um convite à filosofia, Rio de Janeiro, Zahar Editor, pp.17
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não consegue alcançar, mas que deles necessita para viver. Sua busca se constitui num
sonho, numa esperança, num saber, num mito frente ao desconhecido e ao fim dos tempos.
Franco Junior24 salienta que entre uma sociedade concreta e uma sociedade
imaginária não existem fronteiras, e sim uma larga faixa de domínio comum....Daí a
necessidade de se recorrer à história social do imaginário....história que não esquece que
toda experiência do real é percebida através de filtros sensoriais desenvolvidos e treinados
culturalmente”.....e mais adiante “A própria sociedade é uma rede de significados , portanto
um produto cultural”. Através da CPJ tem-se a oportunidade de se avaliar a complexidade,
o intrincamento desta rede, cuja função do historiador é analisar e tentar decodificar o
conjunto de fatores humanos ou de outras naturezas, que participam na geração,
compreensão e interpretação dos fenômenos históricos.
Desde Platão, tido por muitos como o pai da utopia a partir da República, pode-se
observar as transformações históricas sobre as idéias a esse respeito. Não é nosso objetivo
neste trabalho estudar as transformações histórico-filosóficas desta visão de mundo na
Idade Média; entretanto, pretendemos aprofundá-la no trabalho em execução “Uma visão
histórico-psicanalítica da transição infanto –juvenil na Idade Média”. Porém, neste
momento é fundamental entender que existe um processo dinâmico dos ideais utópicos em
função das transformações complexas dos processos histórico-econômico-político- sóciopsíquico-cultural-religiosos, para que se possa apreender os significados e os significantes
presentes na Carta de Preste João. Os diferentes conceitos filosófico-religiosos presentes na
Carta tem origens na busca que o homem realiza frente aos seus temores escatológicos e
conseqüente esperança de salvação.
C-Metodologia
Tradução das Fontes Primárias:
Este trabalho está centrado na identificação, estudo e correlação de aspectos
judaicos presentes na Versão Hebraica da Carta do Preste João endereçada a
Manoel I Comneno, imperador Bizantino, vertida para o hebraico de um original
italiano, na qual o emissor , supostamente Preste João, confirma ao endereçado ser
um verdadeiro cristão e descreve as maravilhas e poderes do seu reino bem como
características de povos e nações circunvizinhas. O texto básico desta edição
hebraica encontra-se no Bodl.Constantinopla 1519; no catálogo Bodleian de
Steinschneider, nos textos Rabínicos e publicados por Ullendorff , E. and
Beckingham, C.F. The Hebrew Letters of Prester John , Oxford, Oxford University
Press, 1982, pp.38-72
C I- tradução para o português da primeira versão hebraica a partir do inglês
C II -tradução para o português da primeira versão hebraica
Franco Funior, H.Cocanha – A História de um País Imaginário,São Paulo, Companhia das Letras, 1998,pp
15
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C III- comentários - identificação de algumas características de linguagem
observadas na tradução da versão hebraica. A tradução do hebraico para o português e
alguns comentários foram realizados com a colaboração da Profa. de História Judaica e de
Língua Hebraica, Dora Blatita.
C IV- Comentários: identificação de temas, personalidades, expressões,
lendas, mitos, citações mencionadas na carta e eventuais relações com a história, a tradição
e a cultura judaica pregressa e contemporânea à época do suposto envio da carta. Extraído
da tradução inglesa e do hebraico, tendo como fonte primária a primeira versão hebraica.
C V - confrontação desta versão hebraica com a versão francesa em relação
aos aspectos judaicos.
C I- Tradução para o português da primeira versão hebraica a partir do inglês
Texto da carta a qual Prester John enviou ao Papa em Roma
123456-
Eu, Prester John, informo-o com nosso amor o qual nós temos por vós que
Muitas vezes nós temos dito que vós gostaríeis muito saber sobre
Nós e sobre nosso país e nossa nação e nossos animais e a natureza de nosso país.
No início de nossas palavras nós vos informamos que nós temos ouvido
que vós dissesteis que nós não somos tão bons Cristãos como vós, e é adequado
para nós fazer-vos saber assim como vos apreciarieis que nós verdadeiramente
7- acreditamos(i. é.) somos verdadeiros crentes25.
8- E verdadeiramente nós vos informamos através de nossa carta de nossos assuntos e
o caso de nossa região, das bestas e animais e pássaros – como nós mencionamos
9- agora; e assim vós entendereis tudo em detalhe. E se for de vosso desejo vir para
nosso país, então venha em paz e recebereis minhas honras e eu o instituirei como
autoridades (master26) e príncipes em meu reino aquém (abaixo) de mim, pois ele(o
reino) é amplo; e vós vereis coisas notáveis e poderosas.
10- E novamente nós vos informamos que nosso país é
11- Excelente, acima de todos os países e rico em prata e ouro e pedras preciosas acima
(superior) de todo universo; e províncias e cidades grandes e fortificadas estão sob
meu princípio (filosofia, lei). E também estar informado que eu tenho 42 reinos sob
minha lei (filosofia, princípio) e sujeito, e entre eles existem reis que não são
Cristãos e eles servem-me (pagam-me tributos) com prata e ouro a cada ano.
14-e também eu vos informo que todos os pobres que vem para o meu país eu me sinto
honrado junto a eles, sejam eles estrangeiros ou habitantes, pelo amor de Deus. E
também vos informo que eu vos dou o pleno compromisso (direito) de lutar pela
Terra Santa, o local da sepultura de Jesus O Nazareno. 27 Vos deveis também saber
18-que há neste país existem 3 Grandes Índias e na Grande India está sepultado o corpo
25
Cf. Zarncke’s 3, na carta do PJ para o Imperador Bizantino Manuel I Comnenus faz uma indagação oposta,
i. é, se o endereçado é um verdadeiro crente
26
Master= autoridade;o filho mais velho de um visconde (ou barão); também no sing. designa Cristo
27
as palavras: no local da sepultura de Jesus O Nazareno está obliterada na cópia BL de Const.1519, mas isto
aparece em outras versões. No caso de St. Thomas a rasura é estranha, uma vez que no texto editado em
hebraico inclui a partícula tm’ “unclean” ao invés de “Saint” como consta das versões não hebraicas.
David Léo Levisky
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do impuro Thomas o Apóstolo. E vós deveis também saber que meu país, na sua
parte sul, está próximo da Babilônia ,a destruída. E a outra India está próxima do
20- norte; e nesta India há muita fartura em comida e bebida; e a terceira India é
extremamente grande e distante país e
22- é próximo do país dos judeus e (o país dos judeus) alcançado através do Mar
de Pedras por um dos lados; e nesta India há muitas línguas e outras coisas
surpreendentes como vós ouvireis; e também nesta Índia há muitos reis, embora
eles não sejam cristãos, mas eles estão submissos às minhas ordens.
24-e também há em meu país animais chamados dromedários e camelos brancos e
outros animais os quais tem sete cornos em sua testa, e ursos brancos e quadrúpedes
(bestas)monteses, lebres, e eles são tão grandes quanto carneiro. E nós também temos
leões de 4 espécies, verde e amarelo, branco e preto. E também há em nosso país
cavalos que possuem dois pequenos cornos em sua testa e eles correm mais rápido que
outros cavalos; e também muitas outras bestas, diferente daquelas em seu país, cujos
nomes nós não sabemos.
30- E há também em nosso país pássaros que são chamados águias28 que podem
carregar com suas patas um boi ou um cavalo para nutrir seus filhotes. E estas bestas
são somente encontradas em meu país e eles tem abundância para comer com fartura.
32-E há outros outro tópico há observar pássaros dos quais existem somente dois no
mundo e eles são chamados “alerions ou Yllerions” e eles tem o controle
34-sobre todos os pássaros no mundo. E a extensão de vida destes pássaros é de 40
anos; e quando eles se aproximam deste quadragésimo ano eles botam 2 grandes ovos, e
dois filhotes
36-nascem no final dos 40 anos; e próximos do nascimento deles o pai e a mãe vão para
o mar e lá se afogam(sufocam); e todos os pássaros que os veem ir para o mar os
acompanham; e após eles terem se (sufocado) afogado todos estes pássaros retornam
para o filhote no ninho e os criam até que eles saibam voar.; e as asas destes pássaros
cortam como lâminas e a aparência deles é como fogo.
40-E há ainda outra coisa sobre bestas29 que são chamados tigres que podem cada um
carregar um cavaleiro, totalmente equipado, juntamente com seu cavalo. E além disso
nós vos informamos que no limite(fronteira) do deserto há homens que possuem 2
pequenos cornos na testa deles, e eles tem um olho frontal e 2 posteriores30. E estes
43-homens são chamados Peminus31 e eles comem carne crua e eles comem carne e
sangue humanos e a carne de bestas e animais, e às vezes nós travamos guerra
contra eles, pois eles não são Cristãos e eles não tem medo de morrer; e quando os
pais deles estão próximos da morte eles os massacram e comem a carne crúa deles
M: “Thomas apostolus sepultus in regno Aethiop”. O fato de que ....foi adicionado na Const. 1519 mas
ausente na M confirma que os editores de Constantinopla eram judeus; isto não afeta necessariamente a
questão da identidade do tradutor original ou autor desta carta.
A forma hebraica apos/s/tolo pode sugerir italianização vulgar ou tradutor italiano(aqui pode-se levantar a
hipótese do tradutor Ter pertencido à família Tibbon, da Espanha, etc..
A versão francesa (antigo) diz: “Et en la maieur ynde gist le corps sainct thomas lapostre”.
28
Ullendorff et col. Indagam sugerem “aquila” ou algo apropriado e desenvolvido durante a pronuncia
narrativa do séc. XII- indagam se não estaria conectada a “ungula”.
29
Francês antigo lê-se, curiosamente, oyseaux
30
francês antigo: “trye ou quattre”
31
provavelmente uma corrupção de Polyphemus, ambos possuem um olho frontal e consomem carne humana.
David Léo Levisky
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e dizem que isto é um acontecimento importante e boa carne a qual que regozija o
coração, e eles dizem que isto é para a redenção de seus pecados.(confrontar com
o Kpures de Yom Kipur)
47-E esta nação é chamada de Gog e Magog, e eles são o povo a quem Alexandre tinha
aprisionado32, porque eles malfeitores(diabólicos) e pecadores, nas montanhas as quais
são chamados Gogis (Genghis)33. E quando o Anticristo34 nasce estes homens estarão
fazendo grande
50- maldade(imoralidade) no mundo. Vós deveis também saber que eu tenho 42 cidades
fortificadas, maiores do que qualquer em todo o mundo, e próximo destas minhas
cidades está a grande província cujo nome é Orinda. E ela tem 3 parasanger por 3
“parasangs”35. E o rei desta província luta cada dia com estes homens(Peminus) e eles
não vão embora de onde eles estão estabelecidos, por isso eles são a praga de Satã;
53-e quando o Anticristo reina, eles serão aliados dele; e Deus36 enviará um fogo
ardente do céu(Prov.345) e os queimará e a terra os engolirá e eles todos cairão dentro
de
55-Gehinnom. E quando nós queremos recrutar entre estes homens até o tempo das
necessidades(fins dos tempos?), eu darei permissão a eles para comer tudo o que eles
podem comer, e com isso nós destroçamos nossos inimigos; e quando nós não tivermos
necesidade deles, então nós os recambiaremos para o país deles, pois não fizermos isto
eles gradualmente nos
58- deslocarão do país. Há também em meu país uma outra coisa surpreendente, um
povo o qual tem pés redondos como patas de cavalo e eles tem 4 ossos como pontas
(cravos) e com esta coisa eles lutam e nada pode contê-los, com qualquer arma, e eles
são cristãos bem considerados. Nenhum homem no mundo pode vir para o país deles
salvo nós mesmos que estamos em paz com eles e “passam em botes”(?), e quando nós
passamos por eles, eles atravessam na minha direção com
62- prata e ouro anualmente. E eu também tenho umpaís(região) a qual é chamada
Femnina, e há nele uma distância de 75 dias de comprimento e em largura cerca de 40
dias; e há neste país somente mulheres, as mais lindas em todo o mundo e as mais
65-desejáveis no mundo. E há 3 rainhas, duques e condes fêmeas, e elas sustentam
(mantém, defendem) províncias e cidades fortificadas destas 3 rainhas. E nenhum
homem é permitido permanecer lá por mais de 9 dias. E no final destes 9 dias ele deve
partir; e se ele não partir ele morre. E ninguém que vá lá uma vez pode retornar somente
após 9 meses, mas após 9 meses ele pode lá retornar
69- e permanecer outros 9 dias. E quando estas 3 rainhas vão para a guerra elas
carregam(levam) com elas 300.000 mulheres, montadas a cavalo, armadas com toda
espécie de armas , em adição às mulheres servidoras. E este país é circundado por um
rio o qual parte do Paraíso o qual
Zarncke (latin 17), mas a versão do francês antigo(Sless.69) tem Alexandre não como o ator, mas como
vítima(cf.Slessarev,p116).
33
Gogis ou possivelmente Gngis podem ser concebidas como Genghis, mas uma corrupção de Gog, tão
presente nesta seção e nas versões paralelas é talvez mais plausível.
34
Anti, oponente é preservada nas outras versões
35
parasangs =antiga medida persa de comprimento, variando de 2 a 4 milhas, portanto 1 parassanger=2 a
6km)
36
o fato de no texto hebreu estar hassem para deus(fr. dieu, latin deus) sugere que o autor ou tradutor
(certamente o editor de Const.1519)era um judeu.
32
David Léo Levisky
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72- é chamado Phison37, e é tão grande que eles não podem atravessá-lo exceto em
barcos.
73-E próximo deste pais há um outro país o qual é chamado Pygmia 38
e os habitantes deste país são pequenos como crianças de 7 anos ou 8, e seus cavalos são
grandes39 , mas eles são cristãos bem considerados e eles trabalham a terra com felicidade,
pois não há ninguém que lhes cause dano, uma vez que eles estão localizados num lugar
onde ninguém pode passar no país deles. Mas lá vem sobre eles cada ano cada ano uma
saga quando eles estão colhendo e reunidos:e vem sobre eles uma espécie de pássaros e
comem a fruta deles; e quando o rei do país vê isto ele vai com seu exército armado
80- lutar com estes pássaros e eles dão gritos e os afugentam deste lugar – e esta é a guerra.
E o tempo de vida deste povo é 200, e os cabelos de suas barbas é branco todos os dias de
suas vidas e a barba deles é comprida abaixo dos seus joelhos; como o cabelo de suas
mulheres, elas usam-no abaixo de seus pés.
82-Há também em meu país arqueiros (the sagittarii)40 que acima dos quadris assemelhamse a homens e abaixo dos quadris assemelham-se a cavalos, e eles transportam arcos e
flechas em suas mãos, e eles correm mais rápido do que qualquer ser vivo; e enquanto eles
estão correndo eles atiram com seus arcos e eles nunca descansam (param) de correr; e não
há ninguém que entenda língua deles; e eles comem carne crua, e à noite eles deitam em
árvores porque tem medo de
86- serpentes e dragões. E se os homens do meu país forem capazes de capturar um deles,
isto será somente quando eles estão adormecidos nas árvores; e eles os trazem em gaiolas
de ferro para minha prisão, e o povo do meu país vai vê-los com grande
88-ânsia. Também em nosso país há o unicórnio o qual tem um carne corno em sua testa; e
há muitos leões. E quando o unicórnio vê o leão ele o conduz junto a uma árvore, e como o
unicórnio quer destruir o leão, o leão se move deste lugar e o unicórnio enfia(espeta) seu
corno dentro da árvore e seu corno penetra tanto dentro da árvore que é impossível removelo, em conseqüência o leão vem e mata-o- e às vezes o outro way round ?
92-Há também gigantes em nosso país e eles moram no limite (fronteira) do deserto, e eles
tem 70 cúbitos de altura, mas agora não é tanto e eles alcançam somente 30 ou 35
cúbitos41. E eles não podem ir embora, como isto não é o desejo de Deus que eles o façam,
mas se eles realmente forem embora nada poderá opor-se a eles. Também
96- em meu país há um pássaro, o mais lindo no mundo, e ele é chamado fênix, e há
somente um no mundo todo, e os anos de sua vida são 300, e no final dos 300 anos ele
eleva-se na direção do céu, tão alto que o sol queima –o, e depois ele desce e gruda
(recolhe-se) no seu ninho, e lá ele é inteiramente queimado. E das cinzas que se formam
dele nasce um calor o qual torna-se um pássaro, e sua forma assemelha-se à forma do
pássaro
37
Gen.2:11
extraordinário número de variações neste nome:Pikonya é uma leitura inadequada de Pygmia
39
versão francesa: seus cavalos são tão pequenos quanto carneiros.
40
Há confusão entre sagitário e centauro; esta confusão poderia facilmente ser levantada em hebraico pela
semelhança de letras. O pesquisador aqui diz que o escriba foi prodigioso?
38
41
1 cúbito=50,80cm
David Léo Levisky
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100- que tinha sido queimado. E também em nosso país há uma região onde nada se
estabelecer tão bem quanto Sadinus42 na fronteira com o deserto o qual sai do Paraíso e o
qual é chamado Gihon43 ; este é o rio o qual passa através do nosso país, e lá encontra-se
102- pedras preciosas de muitas espécies. E também pimenta é produzida em nosso país,
mas muito disto é de além do mar de pedras; e esta pimenta nunca é espalhada mas é
produzida pelo desejo de Deus, pode Ele ser exaltado: E é na madeira a qual está repleta de
serpentes e escorpiões; e quando o tempo da colheita vem então alguém coloca fogo na
madeira, e as serpentes e
105-escorpiões são queimados, mas as árvores permanecem. E quando o fogo foi extinto
então alguém reúne-a ( a pimenta) e espalha-a ao vento como o trigo, e eles levam-na para
suas casas e depois lavam-na e sacam-na ao sol, e desta forma a pimenta torna-se preta.
107-Também em nosso país, próximo da madeira(árvore) de pimenta, há uma alta
montanha a qual é chamada Olimpus, e no sopé da montanha há uma primavera, mais
importante do que qualquer outra no mundo, e é dito que está próxima do paraíso, uma
distância de 7 dias( 7 foram os dias da criação do mundo?),
110-e lá há muitas pedras preciosas, próximo do Paraíso, e elas são chamadas diamantes. E
os pássaros carregam-nas para os ninhos deles, para o filhote deles, e estas pedras brilham e
então eles vem e procuram –nas e levam-nas embora. E também em meu país, na fronteira,
113- há um extraordinário milagre, um mar de pedras o qual faz ondas com o fazem as do
mar; e há um grande vento e ele causa extraordinária
114-calamidade; e nenhum homem é capaz de atravessar através deste mar exceto nós
mesmos com o ogilo (águia) gryphus (griffin) e nós fazemos como Alexandre44 fez quando
ele lutou com a fortaleza encantada(?) (fortress Incanodo45).
116- E vós deveis saber que meu país é tão amplo que eu não sei(não conheço) todas as
maravilhas dele. E vós deveis saber que daquele mar de pedras parte um rio que vem
do Paraíso e corre entre nós e entre o grande país do grande rei Daniel, rei dos judeus;
e este rio corre todos os dias da semana, mas no Shabat ele não se move do seu lugar,
até o Domingo quando ele retorna
120-com sua força46. E quando o rio cheio além das margens, ele transporta (arrasta)
muitas pedras preciosas,
121-e neste rio não há água. E tudo que ele encontra ele carrega para o mar
Orenoso47, e ninguém pode atravessá-lo salvo no Shabat. Mas nós estamos colocando
guardas nas passagens, pois se os judeus fossem capazes de atravessá-lo eles
causariam grande dano
em todo o mundo cristão tanto quanto aos Ismaelitas e contra cada nação e língua sob
os céus, pois não há nação ou língua que possam contê-los.
42
esta leitura está sujeita a amplas variações . A “ lista de motivos?” oferece ampla gama de variações
textuais. Quase nada pode ser excluído, mesmo aproximações : pardes, Indus, Saracens,etc
43
Gen. 2:13
44
Alexandre, como o grande herói mitopoético é frequentemente referido na literatura do Prest John
45
francês antigo= “le chasteau enchante” ; segundo Ullendorff et col: parece-me inteiramente possível que o
Hebraico incan(o)d/to reflete uma forma litarária primitiva como o Provençal encantador ou italiana incanto
ënchantment”ou incantato, etc...
46
Sambation. Faz referência a Eldad há-Dani
47
francês antigo “ em la mer darayne” (=d’arène); cf.Ital.arenoso “sandy” o qual é claramente o popular do
hebraico orenoso(ou concebível algo similar com a forma literária primitiva). Zarncke: maré harenosum.
David Léo Levisky
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125-Mas eu possuo neste distrito 1648 cidades construídas com grandes pedras e
fortificada e mais forte do que qualquer cidade no mundo, e de uma cidade para a
outra tem a distância de meia milha. E eu possuo em cada uma destas cidades 1.000
cavaleiros e 10.000soldados de infantaria e 10.000 arqueiros para guardar as
montanhas e as ´passagens , de tal forma que os judeus
129- não cruzarão; pois eles são tantos que, eles lutariam com todo o mundo. E vós
deveis saber que se eu tenho uma cidade fortificada, então o grande rei, rei Daniel49,
possui 10. E eles tem tanto ouro e pedras preciosas que eles adornam suas casas com
pedras preciosas como nós adornamos nossas casas com pedras coloridas.
132-E não levante objeções contra mim quando eu vos escrevo, oh grande rei50,
133-que há sob as leis (governo) do Rei Daniel 300 reis, todos judeus, e todos eles
possuem países sob o poder do Rei Daniel. E também sob seu governo são 300 duques
e condes e grandes homens e nós sabemos que seu pais é indestrutível(impenetrável).
E aquele que não tem ouvido a sua comunidade não tem ouvido nada no mundo.
136- E além disso eu vos informo que em seu país saem 2 rios que vem do Paraíso; e
eles tem muitas mulheres bonitas e elas são ardentes51(sensuais, sedutoras) por
natureza . E vós deveis saber que eu possuo uma cidade cujo nome é Orenicalus52 e que
tem 3 parasangs de comprimento, e próximo a ela eu tenho 42 cidades fortificadas e elas
140-são bem guardadas. E nesta cidade estado há uma rainha sob meu poder. E também na
fronteira do deserto há algum povo o qual tem o corpo de um homem mas a cabeça é como
cabeça de um cachorro(cinocéfalo) e eles são altamente reconhecidos pescadores que
residiram um dia no botão das águas(nascentes) e eles emergiram com muitos peixes.
143-E também na fronteira do deserto lá corre um rio o qual é chamado Proru’ine53 e ele vai
na direção do mar Orenosa(o), e ele sai do mar o qual nós havíamos mencionado e é
impossível atravessá-lo salvo com um vendaval vindo debaixo, e depois
145- eles sentam no chão54 e pode-se passar, mas cuide-se homem, pois se a água desta
forma alcançá-lo eles o afogarão e o Pro’unia virará (dentro) as pedras55 e ninguém é
permitido carregar qualquer destas pedras para fora do meu país sem minha
147-permissão E vós deveis saber também que em meu país há uma árvore da vida e ela
está completamente seca, mas um agradável odor emana dela; e a partir dela vem o
crisma56 o qual o Papa de Roma extrai dela. E uma grande e muito forte serpente tortuosa
protege esta árvore, e ela é feroz, e guarda a árvore constantemente e não dorme ou cochila
durante todo o ano, e de suas narinas saem fumaça
48
Faz referência aos diferentes números de cidades nas diferentes versões.
Parece existir uma confusão entre “rei” Daniel e “profeta” Daniel
50
o pesquisador indaga se isto não sugeriria que “ o Papa em Roma” não seria o endereçado original desta
carta?
51
Francês antigo: “lês plus belles femmes du monde et les plus chaudes”
52
francês antigo; “lamer areneuse”; Orenicalus: provavelmente arénicole “vivwndo num local arenoso”
53
A leitura desta palavra não tem um significado claro ou assegurado. O texto corresponde aproximadamente
ao francês antigo “fleuve qui est darayne vient la mer areneuse”.O pesquisador pensa que é perfeitamente
possível que esta misteriosa palavra hebraica possa ser associada, por outros processos de corrupção, com
“darayne”-justo como “areneuse” é indubitavelmente a fonte de Orenoso(a). Deve-se também considerar que
esta palavra na linha 143 possa ser tomada em conjunto com Pro’unia(linha 146). O pesquisador discute as
várias possibilidades para justificar esta palavra em hebraico sem chegar a qualquer conclusão.
54
Toda esta passagem parece Ter sido obscura para o tradutor hebreu que, neste caso, parece Ter abraçado,
sem sucesso, com “se spant(épandre) par la terre”ou do francês antigo “ s’espart par la tierre”.
55
Frase pouco compreensível
56
óleo consagrado
49
David Léo Levisky
16
151-e fogo para todos os lados e cantos, e não há homem que possa se aproximar dela há
dias de distância – salvo no dia (regular)57comemorativo de São João 58 Neste momento ela
descança e dorme, e neste momento
152-nós temos os grifos prontos e eles levam-nos para a árvore e extrai um pouco dela
para este crisma – e é da boca daquele homem59 e toma-o antes os 260 patriarcas do
impuro61 Thomas, e eles tem permissão do Papa, e posteriormente eles enviam-no
155- para o Patriarca de Jerusalém. E então isto é adequado para nós agirmos, e o Patriarca
asseguradamente envia-o para o Papa e de lá ele parte(o óleo sagrado) para todo o mundo.
E quando a serpente acorda de seu sono ela está possuída por grande fúria pois vê que eles
158-se apoderaram do crisma, e ela expele um grande fogo de sua boca e narinas de tal
forma que cada um que o vê de tão longe se assusta; e ela( a serpente)quer vir para nosso
país em sua grande fúria, mas este rio Prori’o62 impede-a de atravessar. E vós deveis saber
que se ela for capaz de atravessa-lo
160-ela nos destruirá, pois não há criatura no mundo que possa enfrenta-la. E quando ela
vê que ela não pode (atravessa-lo) retorna63 para a árvore.
161-E também há em meu país um povo que é muito grande , e a cabeça deles está dentro
do peito e eles tem ombros muito grandes e os pés deles são como os pés de cavalos e eles
são muito fortes e eles não comem mas cevada e bebem água; e a partir nós indicamos
nossos mensageiros que transportam nossas cartas , e eles não vestem
164-nada exceto pele de camelos.E estes homens são muito inteligentes na procura de ouro
e prata na terra e eles são conhecedores a respeito das propriedades das pedras preciosas; e
por estas razões nós os deixamos viver em nosso território. E eles caminham 30 parasangs
num dia, e eles são confiáveis, mas eles não são cristãos.
167-E também em meu país há um rio de pedras preciosas e ele é chamado Maramandis64 .
E ninguém pode alcançar as características deste rio; e quando o povo do meu país dá
nascimento às suas crianças eles vão a este rio, e as crianças sentam-se debaixo da água
por 3 dias sem sugar os seios e ninguém toca neles; pois Ele o Sagrado santificado nutreos com as propriedades das pedras preciosas; e após 3 dias eles são retirados (exibidos) e
eles são capazes de andar debaixo da água todos os seus dias e emergem do outro lado do
rio.
francês antigo “le jour de la(sic) sainct iehan” O “hebraico”regulier provavelmente se refere ao dia mais do
que um status hierárquico do monge.
58
O pesquisador observa que a leitura hebraica da palavra......é clara- não há dúvida que há uma tentativa
judaica de refletir “Saint” tão negativo quanto possível.
59
Provavelmente uma referência a Jesus
60
os patriarcas de St.Thomas e de Jerusalém
61
a palavra hebraica utilizada em substituição a “Saint”não deixa dívida pertence ao tradutor judeu
ou editor.
62
Este nome aparece em 3 diferentes formas (linhas 143,146, 159) e mostra o ampla gama de possibilidades
de erros na translação, cópia e mesmo na compreensão. Mas alguma conexão com “sand ou ‘dust’ (pourre)
parece virtualmente certo.
63
Na versão hebraica, segundo o pesquisador, “é provavelmente o único caso de um ‘dativo ético’neste
documento; corresponde à passagem do francês antigo: ‘il sem retourne’”.
64
Isto pode se uma corrupção ou (em termos hebraicos) um mal entendimento de Maracanda (Samarkand). O
pesquisador cita Benjamim Tudela. E embora Samarkand foi uma cidade e não um rio, ele é mencionado por
Benjamin de Tudela como sendo próximo do rio Gihon. Um acurado conhecimento de geografia ou
onomástica pode não estar associado com estas cartas. O pesquisador cita Prof. Abramsky que maramandis
poderia ser concebido como mare mundi(s).
57
David Léo Levisky
17
173-E também na fronteira do meu país há uma montanha onde nenhum homem pode
permanecer mesmo por uma hora, tão quente que ela é , e nenhuma chuva tem caído sobre
ela e não há vento e nem brisa . Há alguns
175-vermes65 e eles são muito frios pela natureza deles assim que nenhum homem pode
tocá-los, e eles correm após (the warmth ......?) e a fumaça aquecer a eles mesmos. E
quando todos os camponeses e coletores estiverem reunidos e fizerem um grande fogo
debaixo da montanha e
177-estes vermes sentirem o fogo e a fumaça, eles sairão de dentro da montanha e irão em
direção ao fogo e sentam-se nele durante 40 dias; e depois alguém encontra que eles tem
feito algo como a pele de todos os tipos, e disto nós fazemos vestidos para nossas mulheres
e nossas princesas, e elas os vestem em dias de festa.. E quando nós queremos lavá-las, nós
as passamos através do fogo e assim elas tornam-se brancas e limpas.
181-E também em nosso país não há ladrões, pois Deus os destrui uma vez, enquanto nós
nos dedicamos a Ele com toda a força da lei. E quando eu saio para guerrear caminham à
mnha frente 14 reis, todos eles com roupas de ouro e pedras preciosas. E também outros
reis que não são Cristãos seguem-me. E próximo de mim à frente vão 1.000 cavaleiros que
sempre rezam para mim a Deus e todos eles são santos66; 40.000soldados da infantaria vão
à frente deles, e eles também carregam à minha frente um vaso de
186-ouro, cheio de pó e desta forma eu me recordo que eu sou pó. E eles também
carregam à minha frente um vaso, repleto de pedras preciosas para declarar que eu sou o
maior dos príncipes67 no mundo. E vós deveis saber que ninguém está autorizado a dizer
mentiras em nosso país, pois uma única vez Deus o punirá e nós faremos justiça. E em
nosso povo cada um ama ao outro – não como eu tenho ouvido sobre coisas (fatos) em seu
país no qual vós não amai-vos uns aos outros., e eu estou surpreso como vós podeis existir
em seu país. E também a cada ano eu vou ver
191-o grande rei, Rei Daniel68 o judeu, o qual está a pequena distância do meu país, e
levo em minha companhia 10.000homens armados e 200.000 soldados da infantaria assim
como 1.000 cavaleiros clericais69 que rezam por mim sempre; e às vezes nós torres de
madeira (colocadas) sobre 150 elefantes70 para lutar com nossos inimigos se houver
necessidade de lutar.
Paz.
Terminada e completada.
o pesquisador sugere “salamandra”.
A tendência geral em latim e no francês antigo, versões muito mais Cristãs, mesmo as figuras são diferentes,
mas há uma substancial medida de sopreposição(concordância?) com o texto hebraico.
67
Em hebraico...........? corresponde a rei “maior inter reges”. O pesquisador compara com outras versões cuja
expressão significa rei e não príncipe. Na versão italiana, há uma pequena diferença de colocação na história e
refere-se a príncipe.
68
O pesquisador assinala que Zarncke e Slessarev tão bem como em outras versões fala da visita a St. Daniel o
profeta, o texto hebreu refere-se ao rei judeu Daniel. Cf Adler, Benjamin de Tudela
69
“Jub.464: “clerc et chevalier”.
70
Francês antigo: olifans(Sless.10:15)
65
66
David Léo Levisky
Louvado seja Deus o Criador do mundo(universo)
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David Léo Levisky
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C II - Tradução para o português da versão hebraica
1-A versão escrita que mandou o preste João para o Padre em Roma
2-Eu preste João aviso(comunico) a vocês com nosso amor que temos convosco que muitas
vezes
3-disseram-nos que vocês gostam muito de saber sobre nós e nossa terra e nossa nação e de
nossa vida
4-da natureza da nossa terra. Para começo das nossas palavras nós comunicamos para vocês
que nós ouvimos
5-que vocês dizem que não temos tantos cristãos bons como (de) vocês. Convém que nós
comuniquemos que é adequado para nos comunicar
6-para vocês que saibam que nós acreditamos de verdade(verdadeiramente) e eis que nós
comunicamos para vocês com essa nossa escrita
7-os nossos assuntos e o assunto de nossa terra desde os animais e as feras e as aves como
lembraremos agora...
8-compreenderão cada coisa por extenso(detalhadamente) e se vocês tiverem na vossa alma
(se desejarem) vir para nossa terra venham em paz
9-e receberão honras minhas e eu farei de vocês senhores e príncipes no meu reino atrás de
mim (abaixo) por que muita
10-por que a terra é ampla e verão coisas grandes e poderosas e ainda nós comunicamos
para vocês que a nossa terra é
11-mais elevada e rica em ouro e prata e pedras preciosas mais do que
12-o mundo e de todos os países e as cidades grandes e fortificadas que estão sob meu
controle(debaixo de minhas mãos) sendo assim saibam que eu tenho
13-42 reis submissos debaixo de minhas mãos(escravizados ) na minha fala(sob meu
controle) entre eles reis que não são
14- cristãos e eles trabalham para mim com ouro, prata, ano a ano e também eu comunico a
vocês
15-que todos os pobres que vem para minha terra eu faço justiça com eles (tsedaka) justiça
social(poderia ser caridade, mas não é literalmente o mesmo sentido-faço o bem para eles) e
mesmo com o estrangeiro bem como o habitante
16-por amor a Deus (EL- outra forma de denominar a Deus- é uma expressão que um judeu
poderia usar- a palavra não carrega conotação de algum ídolo. Esta é uma preocupação
judaica. Porque alguém que é poderoso se preocuparia com os pobres que vem e com os
estrangeiros que vem. No Velho Testamento diz que há 4 necessitados que tem-se que
atender:o órfão, a viuva, o estrangeiro e o pobre) e assim também eu comunico para vocês
que eu estou uma fé completa para lutar (pela) com a terra
17-Santa no local da sepultura de Jesus o cristão e também saibam que existe nessa terra 3
18-Indias grandes, muito grandes. E a Índia grande está enterrado o corpo do impuro Tomás
o apóstolo
19-e saibam que a minha terra no lado sul é perto da Babilônia a destruída(nota: pós
período persa?) e a que fica próxima do norte é a outra Índia
20-essa Índia tem uma grande fartura de comida e bebida
21-e a terceira Índia é grande, muito grande, uma terra com braços amplos e ela é próxima
22- da terra dos judeus ela chega até um mar de pedras por um lado e nesta Índia tem
23-muitas línguas e outras coisas fora do comum como vocês ouvirão e também nessa Índia
há reis
David Léo Levisky
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24-muitos reis mesmo que eles não sejam cristãos ( Dora acha curiosa a necessidade que ele
tem de afirmar que há reis que não são cristãos Segunda vez que ele afirma que MESMO
que eles não sejam cristãos o que isso significa) eles estão todos submetidos à minha
palavra e também há
25- animais que chamam-nos “drorius”(dromedários? Não pode ser: não está escrito isto.
Na leitura só aparece as consoantes ; pode ser lido como dro ou dru, pode-se ler drórios,
drúrios, darvárius, mas não tem dromedário; dror = liberdade, o sufixo us é comum em
hebraico) e camelos brancos e outros animais que tem
26-7 chifres na testa deles e ursos brancos e monteses que chamam lipares ou lifris? E eles
27- são grandes como carneiro e temos leões de 4 tipos verdes, amarelos, brancos
28-pretos e também na nossa terra temos cavalos e ele tem chifres pequenos na testa
29- e eles correm mais do que os outros cavalos e outros animais muitos outros animais
diferentes do que na terra de vocês
30-e nós não sabemos o nome deles e também temos na nossa terra aves que são chamadas
de amquilo ou aguias (ovguilo, uvguilo; águia em hebraico é nesher) (ou pode ser uma
corruptela do inglês eagle na forma de pronunciar, mas não é hebraico)
31-nas suas patas um boi ou um cavalo para dar de comer aos seus filhos e esses animais
não são encontrados
32-a não ser na minha terra e eles tem muito para comer à vontade e ainda tem um outro
assunto
33-e essas aves que não se encontram no mundo somente duas são chamadas “alironin ,
poder-se ia dizer “eli roe ve”= meu Deus os vê- seria possível essa interpretação) e eles tem
34-mas a vida deles é 40 anos e quando eles
35-estão próximos destes 40 anos eles fazem nascer 2 ovos grandes e nascem
36- no final de 40 2 filhos e próximo da história deles vão o pai e a mãe para o mar e lá se
sufocam e todas as aves que os vêem
37-vão para o mar acompanham-nos e depois
38-que eles são sufocados eles voltam todas essas aves para os pequenos que estavam no
ninho e os criam até que
39-saibam voar e as asas deles dessas aves cortam como ........(não sabe o que é) e a
aparência deles como uma aparência de fogo
40-e também tem um outro assunto com animais que são chamados de tigres que eles
conduzem cada um cavaleiro totalmente equipado sobre o seu cavalo e nós também vos
avisamos que no canto do deserto
42- há homens que tem 2 chifres pequenos na testa e eles tem um olho (ciclope)
43-na cara e dois atrás e esses homens são chamados de fíminos (ou píminus)e eles comem
44-carne não cozida e comem carne com sangue e carne de animais e feras (Dora acha
curioso que eles estão preocupados com o que esse bicho come (porque a questão de comer
carne crua e com sangue é proibido para os judeus e não para animal; judeus também não
comem carne de animal que não seja doméstico; judeus não comem carne de caça) e às
vezes temos
45-temos uma guerra com eles e eles não são cristãos e eles não tem medo da morte e
quando os pais deles
46-estão próximos de morrer matam-nos e comem a carne deles sem ser cozida e dizem
que é uma coisa
David Léo Levisky
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47- importante e uma carne boa que alegra o coração e dizem que é a expiação dos seus
pecados (faz pensar em Kipur – fala em kapará –porque pessoa estranha ao judaísmo traria
esta preocupação com a alimentação?).
48-e é este povo é chamado de chama Gog Magog (pesquisar apocalipse- falava de animais
e passou a falar de povo, é estranho) e esses homens que Alexandre fechou (encerrouaprisionou)porque eles são ruins (do ponto de vista judaico pessoas antropófagas são
consideradas crimonosas; se Alexandre vem e mata essas pessoas ele –Alexandre- está
fazendo uma coisa boa, está tirando gente ruim do pedaço
49-eles são malvados, pecados(falta uma letra para pecadores) nas montanhas que são
chamadas Gogshish(tem uma palavra que antecede cristo e não é anti) ...Cristo nascer essas
pessoas farão um grande mal
50-no mundo e saibam que eu tenho 42 cidades fortificadas grandes as maiores de todo o
mundo
51- e próximos destas cidades minhas há um país grande e cujo nome é Orinda e ela tem 3
x 3(pirsahot =parassanger?)
52-e o rei deste país travou um combate todo o dia com estas pessoas
53-e não deixam e não permite que elas saiam deste lugar que elas estão morando porque
elas são da seita do satã e quando o ......cristo(anticristo?)( tem uma inversão de letra em
relação à mesma palavra usada na linha 49 urche e aqui urhereche – esta palavra não me
parece ser hebraica)
54-quando este anticristo reinar vão se juntar a “ele” Hashem( o nome; aqui o autor não
pronuncia Deus, refere-se a Ele, o nome, pois um judeu não pode pronunciar o nome de
Deus, a não ser em situações específicas)...mandará um fogo que queimará e incendiará ele
55-e a terra engolirá e todos cairão dentro do Gueienon e nesse vale(que é perto de
Jerusalém) eles e que o sangue das crianças jorravam nesse vale(antigos não judeus que
viviam nesse vale e que faziam o sacrifício de crianças – os judeus não faziam jamais o
sacrifício de crianças. A ruptura entre o judaísmo e os que haviam antes está no fato de que
Abrahão ao se dirigir para executar a ordem de Deus e ele não mata
e quando nós queremos pegar destes homens numa hora de necessidade para guerrear
(parecem ser mercenários)
56-eu dou-lhes permissão de comer tudo que possam comer e (him – se fosse escrito com
halef....)com estes às vezes nós vencemos nossos inimigos(“estes” está em hebraico no
plural, se a concordância fosse com o ato de comer seria singular
57-e quando nós não temos necessidade deles nós os devolvemos para sua terra porque se
nós não fizermos assim pouco a pouco
58-eles nos expulsariam da terra e também tem na minha terra tem um
59- assunto bom....tem os pés redondos como as pernas dos cavalos e eles tem 4 ossos
como se fossem pontas e neste assunto
60-lutam e ninguém consegue.....e eles são cristãos importantes e nenhuma pessoa
61-no mundo pode vir para a terra deles, somente nós porque nós temos paz com eles e eles
passam de navios
62-e quando nós passamos para lá eles me passam ouro e prata ano a ano e eu tenho
também
63-uma terra que é chamada de Pmnina (ou Femnina)e nesta terra e tem nela uma distância
de 57 dias de comprimento(a distância está escrita em hebraico de forma invertida: amishá
vê shivin; normalmente se escreve shivin vê amishá; no inglês está como 75dias e não
como está na tradução literal do hebraico, uma distância de cinco e 70 dias; é errado
David Léo Levisky
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escrever assim em hebraico; num lugar é levantada a hipótese de que o tradutor é judeu,
porque não pronuncia certas palavras referente a Deus; chama São Thomas de impuro, mas
como explicaria que um judeu conhecedor de hebraico estaria escrevendo o número desta
maneira?; é um erro do ponto de vista do hebraico moderno, mas pode ser que aja uma
explicação para isso; os comentaristas bíblicos poderiam fazer uma interpretação para este
fato; não significa apenas uma ignorância da língua.
64-como 40 dias e não se encontra nesta terra a não ser mulheres, mulheres mais bonitas de
todo o mundo
65-e elas tem um grande desejo do mundo (em hebraico desejo é feminino e o adjetivo que
o acompanha está no masculino ; aqui é um ponto estranho) e tem 3 “malhiot”(rainha seria
“malkot”; o radical é de reino “malk”, ou há erro ou alguma grafia antiga) duques, e condes
mulheres
66-eles tem países e cidades fortificadas e nestes 3 reinos (nessas 3 rainhas ou reinados: é
assim que está escrito em hebraico;rainha seria malkot, reino =malhiot) e nenhum homem
tem licença para ficar mais do que 9 dias
67-no fim desses 9 dias ele precisa sair e se não sair morrerá
68-e todo aquele que for para lá uma vez não voltará até completar 9 meses e depois de 9
meses pode voltar lá e ficar mais 9 dias e quando essas 3 malhiot(rainha?) vão para a guerra
levam
70-com eles(está no masculino) 300.000 mulheres cavaleiras cavalgando com armas e
somente as mulheres que servem e esta ela terra é circundada por um grande rio que sai do
Gan Eden (expressão tipicamente judaica; a expressão paraíso vem de Pardés: é palavra
persa) que é chamado de Pishon e ele é tão grande que não podemos atravessar sobre ele a
não ser com navios
73-perto desta terra tem uma outra terra que chamam de “Picúnia” e os homens desta terra
74-são pequenos como jovens de 7 anos ou 8 e os seus cavalos são grandes, mas eles são
cristãos importantes e eles trabalham a terra em paz e não existe quem possa prejudica-los
(aqui há um erro que não pode existir nem no hebraico bíblico “ lo iech” , eles moram num
lugar em que não pode nenhum homem atravessar a terra deles
75-incide sobre eles todo o ano uma maldição quando eles colhem e quando eles ......vem
sobre eles um .....de aves que comem a fruta deles
76-e quando o rei dessa terra vê isso ele vai com seus homens armados para guerrear com
esses pássaros e eles emitem sons e afugentam eles nos seus lugares e essa é a guerra
80-e os anos de vida dessas pessoas são 200 anos e o cabelo da barba deles é branco todos
os dias da vida e a barba deles é longa até os joelhos e o cabelo de suas mulheres chega até
os pés e também
82-na minha terra os sagitarius eles tem um visual de ombros que acima dos quadris
assemelham-se a homens e abaixo como cavalos. Eles trazem arcos e flechas em suas mãos
e eles correm(fogem) de todos os animais
84-enquanto eles estão correndo eles apontam com a flecha e não descansam e não param
de correr todo o tempo e não tem pessoa que ouça a sua língua e eles comem carne não
cozida e deitam de noite sobre as árvores “ilanot” (tipo de árvore) por medo das cobras e
dragões quando as pessoas da minha terra podem pegar um deles e trazê-los em correntes
de ferro na minha prisão como uma grande maravilha
88-e também temos na nossa terra unicórnio e ele tem um chifre grande na testa e também
tem leões muitos leões e quando o unicórnio vê o leão por perto próximo da árvore e o
unicórnio quer atacar o leão e o leão se movimenta do seu lugar e o unicórnio dá com o seu
David Léo Levisky
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chifre sobre a árvore e entra o seu chifre (letras que indicam número) 22 de tal modo que
ele não pode tirar
92-e vem o leão mata ele e às vezes ao contrário também tem na nossa terra gigantes e eles
estão no extremo do deserto
93-e no tempo bem antigo a altura deles era de 70 amas(?).....
94-mas tem como 30 ou 35 amas, mas eles não podem sair porque Deus(Hashem)não tem
vontade que eles saem, pois se eles saíssem não teria coisa que se agüentaria diante deles e
também na minha terra tem pássaro
96-mais bonito do mundo que chamam ele de “figash” vê lo iech(erro , não existe esta
expressão em hebraico) não existe mais do que um em todo o mundo
97- são 300 e no fim de muitos anos ele sobe para o lado do céu tão alto
98-que o sol queima ele e depois ele desce e introduz-se no ninho dele e aí ele se queima
inteiro, das cinzas que foi feita dele nasce de novo um verme e esse verme se transforma
numa ave e a sua forma é como a forma da ave que foi queimada
100-e também na nossa terra tem uma terra que não pode ficar nela nada e também os
sadinos (para Dora em hebraico não pode ser nem Indus, persas ou sarracenos; letra por
letra está escrito sadinos) no extremo do deserto que sai do Éden ...Pihon..e este é o rio que
passa por nossa terra
102- lá tiramos pedras preciosas interessantes muitas e também a pimenta que é feita na
nossa terra, mas o principal
103-é o que está além do mar (as pedras) e esta pimenta não foi semeada nunca , mas ela
foi feita pela vontade de deus “que seja ele enaltecido” ( é uma expressão presente nas rezas
judaicas)e ele está numa floresta que está cheia de cobras e escorpiões e quando chega o
tempo da colheita põe fogo na floresta e queimam as cobras e os escorpiões , mas as árvores
ficam de pé, e depois que apagam o fogo colhem ele(a pimenta) e jogam ele ao vento como
o trigo e trazem ele para a casa deles e depois lavam ele e secam ele no sol e com isso sobe
a pimenta preta e também na nossa terra
108-perto dessa floresta(da pimenta) tem uma montanha alta que chama Olimpus(poderia
ser Alampus)
109-embaixo dessa montanha tem uma fonte, a mais importante de todo o mundo e dizem
que ela está perto do
110-Gan Éden numa distância de até 7dias e ele tem pedras preciosas dentro muitas perto
do Gan Éden e são chamadas diamantes e as aves carregam-nas para o ninho delas para os
seus filhos e essas pedras elas brilham então vem pedem –nas e pegam-nas e também na
minha terra no fim dela
113-onde um milagre de mar de pedras que faz ondas como
114-e ele faz um grande mal e não tem homem que pode passar pelo caminho desse mar
somente nós
115-passamos como “oguilo”(eagle) águia com que fazem-nos como fez Alexandre quando
ele lutou com fortaleza “encanudo”(teria que mudar uma letra para ser encantado) minha
terra é tão grande que eu não sei todos as coisas surpreendentes que tem nela (não conheço)
e saibam que nesse mar de pedras tem um rio que sai do Gan Éden e sai entre nós e entre a
terra grande do rei grande Daniel rei dos judeus e este rio vai todos os dias da semana e no
Shabat ele não se move do seu lugar até o Domingo quando ele volta ao seu poder e quando
este rio está cheio até as bordas ele traz pedras preciosas muito preciosas e neste rio não
tem água e tudo que ele tira
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David Léo Levisky
122- ele traz para o mar ori(e)nosso e não há (errado vê lo iech) pessoa que possa atravessar
a não ser no shabat(expressão tipicamente judaica)
123-e pomos uma guarda na passagem pois se os judeus puderem atravessar eles farão um
grande prejuízo em todo o mundo ...com os cristãos e com os ismaelitas e com todo o povo
e línguas que estão debaixo dos céus porque não tem povo ou língua
125- que possa ficar de pé diante deles o respaldo de 16 países construídos com pedras
grandes e fortificadas mais fortes de todo o mundo e de cidade em cidade a uma distância
de meia milha (unidade inglesa) em cada uma dessas cidades mil cavaleiros e 10.000
soldados de infantaria e 10.000 arqueiros para guardar as montanhas e os lugares de
passagens
129-e que não passem os judeus porque eles são tantos e se eles passarem eles irão guerrear
com todo o mundo e saibam que se eu tenho uma cidade fortificada o rei grande o rei
Daniel tem 10 e eles tem tanto ouro e pedras preciosas que eles consertam (metaquel =
consertar) as casa deles com pedras preciosas como nos consertamos as nossas casas com
pedras pintadas e não levantem objeções contra mim que eu escrevo para vocês o rei grande
porque ele tem debaixo da sua mão o rei Daniel 300 reis todos judeus e todos eles tem
terras debaixo da mão do Daniel (não me critiquem porque estou chamando o Daniel de
grande, ele é forte mesmo; tem admiração e medo do poder por ele) e ele tem sob o seu
governo 3.000 duques e condes e pessoas grandes e nós sabemos que suas terras não tem
pesquisas(sacar é pesquisa).......eu ainda comunico a vocês que na terra deles vem dois rios
do Gan Éden e eles tem mulheres bonitas, muito bonitas e eles são quentes, calorosos na
sua natureza e saibam que eu tenho um país que seu nome é Orenícaros e ela tem 3 pirsahot
de comprimentos e próximo delas eu tenho 42 cidades fortificadas e elas são muito
guardadas e com isso o país reina sob minhas mãos.Também no extremo do deserto o
deserto é... e ele tem o corpo de pessoa mas a cabeça e como a cabeça de um cachorro
142- e eles são pescadores importantes que permanecem um dia na superfície da água e
saem com muitos peixes e também no canto do deserto tem um rio que chamam-no de
Proruine e que vai para o mar Orenoso e vem do mar que nós lembramos ...podemos passar
com um vento que vem por debaixo dela (mar é masculino) depois vem para a terra e a
pessoa pode passar mas toma conta de si mas se as águas o alcançarem vão sufocá-los e aí
vai ......(fim da fita)
147-árvore da vida
164--....mas eles não são cristãos
esta expressão repete-se na 181
191- clericais.......elefantes
CIII –Comentários- tradução para o português a partir do Hebraico
A versão hebraica apresenta características curiosas relacionadas ao judaísmo e
expressas no texto e outras decorrentes daquele que a verteu para o hebraico e em algumas
situações com pequenas discordâncias entre as traduções hebraica e inglesa para o
português. As questões relacionadas ao judaísmo serão abordadas posteriormente, a partir
da tradução feita a partir do inglês.
A leitura do hebraico foi feita de forma literal, sem qualquer preocupação de dar
sentido ao texto, mas de identificar as palavras e seus significados. Com isto quero dizer
David Léo Levisky
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que a tradução para o português a partir do hebraico não foi trabalhada do ponto de vista
lingüístico. Trabalhou-se dentro de um processo de tradução livre e fazendo associação
espontâneas conforme as ocorrências iam despertando da leitura do texto hebraico, com a
colaboração da Prof. Dora Blatita71 na tradução. Penso que o melhor é irmos diretamente ao
texto, que é apresentado numerado segundo a fonte original facilitando sua localização:
15- “que todos os pobres que vem para minha terra eu faço justiça (tsedaka = justiça
social; poderia ser caridade, mas não é literalmente o mesmo sentido; faço o bem para eles)
com eles e mesmo com o estrangeiro bem como o habitante” Este é um pensamento
tipicamente judaico e a palavra encontra-se na Bíblia
16- “por amor a Deus” Em hebraico não se diz a palavra Deus “ Adonai” ; outras
palavras são usadas como “EL, Haschem” forma utilizada na primeira versão hebraica e
que comumente é usada por um judeu; é uma expressão que não carrega conotação de
algum ídolo.
25- “ animais que chamam-nos “drorius”(dromedários? Não pode ser: não está
escrito isto. Nesta forma de redação hebraica só aparecem as consoantes ; pode ser lido
como dro ou dru; pode-se ler drórios, drúrios, darvárius, mas não escrito dromedário; dror =
liberdade, o sufixo us é comum em hebraico)
30- “ na nossa terra aves que são chamadas de amquilo ou aguias”. Pode-se
pronunciar ovguilo, uvguilo, mas águia em hebraico é nesher; pode ser também uma
corruptela do inglês eagle na forma de pronunciar, mas não é hebraico. Há outra expressão
inglesa na versão hebraica: meia milha. Porquê?
33-“e essas aves que não se encontram no mundo somente duas são chamadas
“alironin”. Pode-se ler, de forma interpretativa, como uma junção de palavras: “eli roe ve”=
“meu Deus os vê”.
39-“saibam voar e as asas deles dessas aves cortam como”........(não dá para
identificar o que está escrito, no inglês é dado o seguinte sentido: e a aparência deles como
uma aparência de fogo”.
49-eles são malvados, pecados(falta uma letra para ser pecadores) nas montanhas
que são chamadas Gogshish(tem uma palavra que antecede o termo Cristo, mas não é anti)
...Cristo nascer essas pessoas farão um grande mal
53-“ que elas saiam deste lugar que elas estão morando porque elas são da seita do
satã e quando o ......cristo(anticristo?)( há uma inversão de letra em relação à mesma
palavra usada na linha 49 urche e aqui urhereche – esta palavra não parece ser hebraica)
Prof. Dora Blatita é Mestre pela Unicamp. Aproveito para registrar meus agradecimentos pela sua valiosa,
eficiente e acolhedora colaboração.
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54- “ vão se juntar a “ele” Hashem( o nome; aqui o autor não pronuncia Deus,
refere-se a Ele, o nome, pois um judeu não pode pronunciar o nome de Deus, a não ser em
situações específicas)...mandará um fogo que queimará e incendiará ele
63-“ uma distância de 57 dias de comprimento”. A distância está escrita em
hebraico de forma invertida: amishá vê shivin; normalmente se escreve shivin vê amishá;
no inglês está como 75dias e não corresponde à tradução literal do hebraico, isto é,uma
distância de 5 e 70 dias; é errado escrever assim em hebraico. Novamente surge a dúvida se
o tradutor é ou não um judeu
65- “ e elas tem um grande desejo do mundo” . Em hebraico desejo é feminino e o
adjetivo que o acompanha está no masculino ; é um ponto estranho) “e tem 3
“malhiot”(rainha seria “malkot”; o radical é de reino “malk”, ou há erro ou alguma grafia
antiga) “duques, e condes mulheres”. Inexistente na tradição judaica, mas poderia estar
representando alguma hierarquia religiosa.
66-“eles tem países e cidades fortificadas e nestes 3 reinos”. Nessas 3 rainhas ou
reinados: é assim que está escrito em hebraico; rainha seria malkot, reino =malhiot) e
nenhum homem
68- “e todo aquele que for para lá uma vez não voltará até completar 9 meses e
depois de 9 meses pode voltar lá e ficar mais 9 dias e quando essas 3 malhiot(rainha?) vão
para a guerra levam”
70-“com eles”(está no masculino) “300.000 mulheres cavaleiras cavalgando com
armas e somente as mulheres que servem e esta ela terra é circundada por um grande rio
que sai do Gan Éden” (expressão tipicamente judaica; a expressão paraíso vem de Pardés:
é palavra persa)O tradutor hebraico usou uma expressão tipicamente judaica : Gan Éden;
porém o pesquisador inglês usou expressão persa :pardés ou paradaise, no inglês.
74-“ e não existe quem possa prejudicá-los”. Há um erro que não pode existir nem
no hebraico bíblico “ vê lo iech”, correto: vê iech l... . Se por um lado não é utiliza a
palavra Deus, como faria um judeu conhecedor da Torah, de outro lado comete erros
elementares na escrita dos números ou no uso da expressão “ lo iech”. Além de erros de
concordância como se detectou no item 56. Talvez exista alguma explicação simbólica para
se interpretar isto que aparenta ser um erro no uso da língua; comentaristas bíblicos
poderiam fazer uma interpretação para este fato; não significa apenas uma ignorância da
língua.
94-“mas tem como 30 ou 35 amas, mas eles não podem sair porque Deus(Hashem)
não tem vontade”. Amas é medida encontrada na Bíblia; novamente uma expressão
adequada para se referir a Deus, sem pronunciar a palavra, fato sugestivo de queo tradutor
para o hebraico.
David Léo Levisky
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96- “figash” .Esta palavra foi interpretada como fênix , porém não é certo que seja
isto que está escrito. “vê lo iech(erro , não existe esta expressão em hebraico) não existe
mais do que um em todo o mundo”.
100-“sadinos” Em hebraico não pode ser nem Indus, persas ou sarracenos; letra por
letra está escrito sadinos) “no extremo do deserto que sai do Éden”
110-“Gan Éden” . Em hebraico está Gan Éden e em inglês Paradaise.
115- “ovguilo”(eagle) águia; em hebraico águia é nesher. ...... “Alexandre quando
ele lutou com fortaleza encanudo”(teria que mudar uma letra para ser encantado) minha
122- “ele traz para o mar ori(e)nosso e não há (errado vê lo iech) pessoa que possa
atravessar a não ser no shabat” (expressão tipicamente judaica)
125- “distância de meia milha”. Estranho o uso de uma unidade inglesa numa versão
hebraica, quando já foram utilizadas unidades persas, bíblicas, hebraicas redigidas
erradamente em relação ao hebraico moderno ou com algum significado simbólico a ser
decodificado.
142- “e que vai para o mar Orenoso e vem do mar que nós lembramos ...podemos
passar com um vento que vem por debaixo dela (se a concordância for com mar, palavra
masculina em hebraico, a concordância seria por debaixo dele) i ......(fim da fita)
147- “árvore da vida”, expressão bíblica;.....“não dorme e não cochila” , em
hebraico a pronúncia é : vê lo ianum vê lo ichan” é uma expressão bíblica: Deus não fecha
os olhos nunca.
164 e 181- “mas eles não são cristãos” em dois momentos reforça essa idéia
167- “Ele o Sagrado santificado”, os judeus ortodoxos se referem a Deus dessa
maneira
186- “cheio de pó e desta forma eu me recordo que eu sou pó”.......”pensamento
bíblico..... “e também a cada ano eu vou ver o grande rei, Rei Daniel o judeu”: “le shana
aba vê Yerushalaim”pensamento judaico típico a partir da diáspora. No texto hebraico não é
mencionada Jerusalém, mas pode-se deduzir isto a partir do fato de ir ver o grande
rei...judeu.
191-clericais” no inglês; em hebraico a tradução seria:escolhidos, dedicados...... em
hebraico está “escrito “elifans”, porém elefante em hebraico é: “pil”
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C IV- Comentários: identificação de temas, personalidades, expressões, lendas,
mitos, citações mencionadas na carta e eventuais relações com a história, a tradição e
a cultura judaica pregressa e contemporânea à época do suposto envio da carta.
Extraído da tradução inglesa e do hebraico, tendo como fonte primária a primeira
versão hebraica.
11- E também estar informado que eu tenho 42 reinos sob minha lei (filosofia,
princípio) e sujeito, e entre eles existem reis que não são Cristãos e eles servem-me pagamme tributos
14- eu vos dou o pleno compromisso (direito) de lutar pela Terra Santa, o local da
sepultura de Jesus O Nazareno
15- “que todos os pobres que vem para minha terra eu faço justiça (tsedaka = justiça
social; poderia ser caridade, mas não é literalmente o mesmo sentido; faço o bem para eles)
com eles e mesmo com o estrangeiro bem como o habitante” Este é um pensamento
tipicamente judaico e a palavra encontra-se na Bíblia. Esta é uma preocupação judaica.
Porque alguém que é poderoso se preocuparia com os pobres que vem e com os
estrangeiros que vem. No Velho Testamento diz que há 4 tipos de necessitados que devem
ser assistidos: o órfão, a viúva, o estrangeiro e o pobre. Esta é uma condição básica para
aquele que tem fé poder lutar “ e assim também eu comunico para vocês que eu estou uma
fé completa para lutar (pela) com a terra”
18 e 152- está enterrado o corpo do “impuro Tomás” o apóstolo. Certamente um
cristão não escreveria desta forma. Mas, porque um judeu precisaria hostilizar uma figura
importante no cristianismo? Aqui surgem várias questões: se analisarmos a situação do
judeu na Europa na Idade Média encontramos situações contraditórias: de um lado eram
muitas vezes ligados e submissos ao poder como forma de proteção e segurança. Porém,
nos períodos de maior fervor religioso cristão os judeus eram perseguidos e massacrados.
Há vários exemplos na Inglaterra, na França, principalmente ao redor das cruzadas e com
maior ênfase por ocasião da terceira cruzada. Detalhes destas questões podem ser obtidos
na Enciclopédia Judaica72 ou em trabalho mais recente de Johnson 73. Ressentimentos
poderiam levar o tradutor a hostilizar os cristãos protegido pelo anonimato e por um texto
tido como de origem cristã. Pensa-se que a tradução tenha sido feita por um judeu, pois
utiliza expressões típicas como não utilizar a palavra Deus “ Adonai”. Entretanto, como
veremos mais adiante comete erros elementares de tradução.
Interessante que São Thomás de Aquino parece ter sido influenciado por pensamentos
presentes no Guia dos Perplexos de Maimonides: “Durante o período da Haskalah o livro o
Guia dos Perplexos foi o denominador comum do racionalismo antitradicionalista judaico.
Houve uma tradução latina, anônima no século XIII e outra em 1629.
A referência a Maimonides deve a alguns fatos:
a-refere-se ao mesmo período da carta latina de Preste João;
72
73
Enciclopédia Judaica, Rio de Janeiro, Editora Tradição, vol 4, 1967
Johnson, P. História dos Judeus, Rio de Janeiro, Imago, 1995 pp.214-219.
David Léo Levisky
29
b- Maimonides como muitas outras famílias judias viajaram da Espanha para a
Palestina, Norte da África e Egito como Maimonides, revelando o transito existente de
judeus(como Jacob Tudela) levando mensagens , criando lendas e histórias
22- “é próximo do país dos judeus e (o país dos judeus) alcançado através do Mar de
Pedras por um dos lados; e nesta Índia há muitas línguas e outras coisas surpreendentes
como vós ouvireis; e também nesta Índia há muitos reis, embora eles não sejam cristãos,
mas eles estão submissos às minhas ordens”.
Várias questões podem ser levantadas em torno dos pensamentos aqui expostos:
“próximo ao país dos judeus”: pode-se entender como uma proximidade não geográfica,
mas das influências do pensamento judaico, onde um “Mar de Pedras” pode representar os
obstáculos para se alcançar tais conhecimentos que, ao mesmo tempo, estão “na Índia”, isto
é , representando o desconhecido, as coisas distantes, que cercam ou constituem os
mistérios e destinos da vida; poder-se ia pensar também nas diferenças existentes, numa
busca de continência entre os vários pensamentos, povos, línguas e religiões. Mas, todas
elas “submissas às minhas ordens”. Ordens de quem?: De Deus, do monoteísmo
introduzido pelos judeus? O fato do autor indagar em várias oportunidades de que “há reis
que não são judeus, mas submissos às minhas ordens” pode indicar que a base religiosa é
judaica. Dito de outra forma: seria uma advertência às diversas correntes cristãs, quanto às
origens judaicas de suas crenças. Entretanto, um cristão também poderia estar alertando
outros cristãos da necessidade de união frente às ameaças externas à unidade cristã. Pode-se
indagar sobre a necessidade de reafirmar que há reis que não são cristãos . É uma
constatação, um alerta? Difícil definir, pois há fatos históricos capazes de justificar
pensamentos contraditórios, fato que também não elimina a possibilidade de que o texto
seja um retrato das contradições e conflitos presentes quer seja entre os povos, entre
religiões. As interpretações são múltiplas sem que se possa concluir, mas apenas supor a
complexidade de fatores intervenientes presentes nas entrelinhas do texto.
43-homens são chamados Peminus74 e “eles comem carne crua e eles comem carne e
sangue humanos e a carne de bestas e animais, e às vezes nós travamos guerra contra eles,
pois eles não são Cristãos e eles não tem medo de morrer; e quando os pais deles estão
próximos da morte eles os massacram e comem a carne crúa deles e dizem que isto é um
acontecimento importante e boa carne a qual que regozija o coração, e eles dizem que isto é
para a redenção de seus pecados”.(confrontar com o Kipures de Yom Kipur)
Neste trecho há também fenômenos interessantes. Judeus naquela época jamais
comeriam carne crua, pois a religião não permite que se coma carne de animais de caça,
apenas domésticos, e crua. Portanto, tal povo não seria judeu. Entretanto, a seguir há dois
fenômenos que se confrontam: um de incorporação (ingestão de carne e o regozijo que isto
representa) e outro de purificação. Há no judaismo um ritual de purificação, que era
praticado pelos religiosos no dia de Yom Kipur, dia do perdão, evento máximo comparável
à circuncisão(Brit Milá). No Yom Kipur há um ritual de girar em torno da cabeça uma
galinha, enquanto se reza e se enuncia os pecados cometidos. Esta galinha posteriormente
era dada aos pobres, aos “goim”, aos não judeus, aparentemente como um ato de caridade.
Mas, uma caridade suspeita, pois o “goim”que depois resolvesse o problema da ingestão
74
provavelmente uma corrupção de Polyphemus, ambos possuem um olho frontal e consomem carne humana.
30
David Léo Levisky
dos pecados do qual o judeu se livrou. Do ponto de vista psicanalítico isto é um mecanismo
de projeção, isto é, coloca fora de si os pecados e o outro é quem irá resolvê-los.Mas no
texto há regozijo. Neste sentido pode-se também supor que poderia ser uma forma de
incorporação das qualidades do outro, como se conhece em vários rituais primitivos
antropofágicos. Principalmente quando se pensa que eles ingerem os pais, isto é, a
qualidade dos pais. Novamente nada de conclusivo, apenas especulativo frente a valores e
ritos, interpretados como positivos para uns e negativos para outros. Com que intenção?
Quem sabe.
Em diversas oportunidades surge a questão da alimentação. Preocupação muito
presente no judaísmo. Nos livros judaicos, na Bíblia e no Talmud, há inúmeros textos que
falam sobre alimentação: preparação, saúde e questões morais ligadas aos alimentos.
48-“e é este povo é chamado de chama Gog Magog” (pesquisar apocalipse- falava
de animais e passou a falar de povo, é estranho) “e esses homens que Alexandre aprisionou
porque eles são ruins” (do ponto de vista judaico pessoas antropófagas são consideradas
criminosas; se Alexandre vem e mata essas pessoas ele –Alexandre- está fazendo uma
coisa boa, eliminando gente ruim.
53-“e Deus75 enviará um fogo ardente do céu”(Prov.345)
55-“e a terra engolirá e todos cairão dentro do Gueienom e nesse vale”(que é perto
de Jerusalém) “eles e que o sangue das crianças jorravam nesse vale”(antigos não judeus
que viviam nesse vale, eram povos que faziam o sacrifício de crianças – os judeus não
faziam jamais sacrifício de crianças.
A ruptura entre o judaísmo e outros povos está no fato de que Abrahão ao se dirigir
para executar a ordem de Deus, seu filho não é sacrificado, e substituído pelo simbólico.
Segundo a Enc. Judaica Vol 4 pp.279, Guehinom = Inferno ou Purgatório. “O prefixo
“Gue” em hebraico, segundo estudiosos modernos significa “vale profundo”, e que “hinom”
refere-se às paixões que, ao se apossarem do homem, lançam-no na escuridão do “vale
profundo”. Outra hipótese é de que este seja um local que na Antiguidade ficava ao sul de
Jerusalém “vale de hinom”, também conhecido como “vale maldito” porque nos dias préisraelíticos, os canaanitas ali sacrificavam seus filhos no altar de seu deus devorador de
homens, Moloch. Se esta hipótese for correta, a associação de um lugar assim com as
regiões infernais pode muito bem servir de índice da repulsa moral que judeus de tempos
antigos sentiam em relação às práticas bárbaras de seus vizinhos. Quanto à sua localização
geográfica observa o Talmud: “ o guehinom está acima da terra . Outros dizem que ele fica
por trás das Montanhas da Escuridão”. Essas montanhas, na crença popular atemorizada,
ficavam numa região mítica muito a “oeste”. Outra crença popular dizia que o guehinom se
estendia por baixo “da tampa do mundo”. Por essa razão, presumia-se que a escuridão se
originava dali, assim como a luz era gerada no Gan Éden (Paraíso). A crença popular era de
que as almas dos pecadores e malvados estavam condenadas a viver na escuridão eterna e
no terror do guehinom, que só era iluminado pelos fogo eternos que incendiavam e
queimavam o lugar”. Relacionar este parágrafo com o 53.
72-“ é chamado Phison”
100- “ Gihon”
o fato de no texto hebreu estar hassem para deus(fr. dieu, latin deus) sugere que o autor ou tradutor
(certamente o editor de Const.1519)era um judeu.
75
David Léo Levisky
31
Comentaristas bíblicos, seguindo o historiador Flavius Josephus, frequentemente
identificaram o Phison, um dos quatro rios do Paraiso, com o Ganges e isto conduziu a uma
associação com o oriente com o fabuloso bem estar. Segundo o Genesis o trajeto do Phison
atinge a totalidade da terra de Havilah, onde há ouro: e o ouro desta terra é bom; há
bdellium e pedras de onix. Ainda que se possa pensar que a localização desta terra seja em
alguma região da antiga Índia, o objetivo de mencionar esta região “Havilah”deve-se ao
fato de estar ligada a alguma menção feita no velho testamento e assim poder Ter alguma
relação com o povo judeu. Entretanto, neste mesmo artigo, o autor assim se refere: “Os
judeus eram também considerados viverem na Ásia distante, descendentes das Dez Tribos
Perdidas registrados como tendo vividos em Halah e Habar, através do rio Gozan(Gihon?).
No século IX um certo Eldad ha-Dani, declarando pertencer à Tribo Perdida de
Dan, visitou os Judeus de Kairouan, e deu notícias de seus compatriotas. Eles estavam ,
segundo Eldad ha- Dani localizados em várias partes da Asia, alguns em estados
independentes, mas os Levitas foram separados dos demais pelo rio Sambatyon, o qual era
inavegável, sendo composto não de água, mas de areia e pedras. Em obediência à Torah ele
parava de correr no dia de Shabat, mas isto não ajudava aos judeus que desejavam
atravessá-lo uma vez que eles estavam, da mesma forma, imobilizados pelos preceitos da
Lei. Neste sentido, as Dez Tribos Perdidas foram acrescentadas à lista das Maravilhas da
Asia.
103- “ mas ela foi feita pela vontade de deus que seja ele enaltecido” ( é uma
expressão presente nas rezas judaicas)
107- “e é dito que está próxima do paraíso, uma distância de 7 dias”.
Sete foram os dias da criação do mundo e no sétimo dia, Shabat, ele descansou . O
estado de espírito vivido no Shabat, comemorado no sétimo dia da semana no ritual
judaico, pode ser compreendido como um estado de espírito próximo àquele que se supõe
alcançar no paraíso.
110-“Paraíso”
Enc. Judaica vol4 pp.271”A descrição da quinta câmara do Gan Éden é
gloriosamente luminosa, colorida e ingênua:”feita de pedras preciosas, de ouro e prata, e
com a fragância de perfume de plantas. Na frente desta Câmara corre o rio Guihon, em
cujas margens crescem arbustos que exalam aromas embriagadores”. Comparar este
parágrafo com o 120.
116- “E vós deveis saber que meu país é tão amplo que eu não conheço todas as
maravilhas dele. E vós deveis saber que daquele mar de pedras parte um rio que vem do
Paraíso e corre entre nós e entre o grande país do grande rei Daniel, rei dos judeus; e este
rio corre todos os dias da semana, mas no Shabat ele não se move do seu lugar, até o
Domingo quando ele retorna”
121-“e neste rio não há água. E tudo que ele encontra ele carrega para o mar
Orenoso76, e ninguém pode atravessá-lo salvo no Shabat. Mas nós estamos colocando
guardas nas passagens, pois se os judeus fossem capazes de atravessá-lo eles causariam
francês antigo “ em la mer darayne” (=d’arène); cf.Ital.arenoso “sandy” o qual é claramente o popular do
hebraico orenoso(ou concebível algo similar com a forma literária primitiva). Zarncke: maré harenosum.
76
David Léo Levisky
32
grande dano em todo o mundo cristão tanto quanto aos Ismaelitas e contra cada nação e
língua sob os céus, pois não há nação ou língua que possam contê-los”.
125-“Mas eu possuo neste distrito 1677 cidades construídas com grandes pedras e
fortificada e mais forte do que qualquer cidade no mundo, e de uma cidade para a outra tem
a distância de meia milha. E eu possuo em cada uma destas cidades 1.000 cavaleiros e
10.000soldados de infantaria e 10.000 arqueiros para guardar as montanhas e as passagens
, de tal forma que os judeus”
129-“ não cruzarão; pois eles são tantos que, eles lutariam com todo o mundo. E vós
deveis saber que se eu tenho uma cidade fortificada, então o grande rei, rei Daniel78,
possui 10. E eles tem tanto ouro e pedras preciosas que eles adornam suas casas com pedras
preciosas como nós adornamos nossas casas com pedras coloridas.
132-E não levante objeções contra mim quando eu vos escrevo, oh grande rei79,
133-que há sob as leis (governo) do Rei Daniel 300 reis, todos judeus, e todos eles
possuem países sob o poder do Rei Daniel. E também sob seu governo são 300 duques e
condes e grandes homens e nós sabemos que seu pais é indestrutível(impenetrável). E
aquele que não tem ouvido a sua comunidade não tem ouvido nada no mundo.
136- E além disso eu vos informo que em seu país saem 2 rios que vem do Paraíso;
e eles tem muitas mulheres bonitas e elas são ardentes80(sensuais, sedutoras) por natureza .
147- E vós deveis saber também que em meu país há uma árvore da vida
167- pois Ele o Sagrado santificado
186-ouro, cheio de pó e desta forma eu me recordo que eu sou pó
190-E também a cada ano eu vou ver
“Lê shana baa be Yerushalaim” E no próximo ano em Jerusalém . Parte do
“Machzor” , reza na qual se evoca o retorno a Jerusalém.
191-o grande rei, Rei Daniel81 o judeu, o qual está a pequena distância do meu país,
É possível que se encontrem situações que possibilitem o levantamento de hipóteses
através das quais judeus e/ou cristãos poderiam ter escrito tais cartas. Por exemplo, os
primeiros lembrando aos cristãos que eles habitam próximo do paraíso terrestre, área de
intersecção com o paraíso espiritual; seria uma forma de demonstrar suas forças localizadas
num lugar distante e desconhecido, uma espécie de aviso: não mexam conosco pois somos
poderosos, se pensarmos nas tribos perdidas e na forma como se refere aos judeus, ao rei
77
Faz referência aos diferentes números de cidades nas diferentes versões.
Parece existir uma confusão entre “rei” Daniel e “profeta” Daniel
79
o pesquisador indaga se isto não sugeriria que “ o Papa em Roma” não seria o endereçado original desta
carta?
80
Francês antigo: “lês plus belles femmes du monde et les plus chaudes”
81
O pesquisador assinala que Zarncke e Slessarev tão bem como em outras versões fala da visita a St. Daniel o
profeta, o texto hebreu refere-se ao rei judeu Daniel. Cf Adler, Benjamin de Tudela
78
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33
Daniel. Na verdade não há na história judaica um rei Daniel. Pode ser uma confusão entre
David e Daniel, como as palavras proféticas podem ter adquirido um valor real. Jesus
Cristo é tido como : “Nosso rei e Senhor”. Neste sentido o Profeta Daniel poderia ser tido
também como o Grande Rei Judeu. Daniel também não era considerado nem como
Primeiros Profetas nem como Profetas Tardios. Ele faz parte das obras que compõem a
terceira divisão, os Ketuvim, escritos que foram aos demais textos proféticos e fazem parte
da Hagiographa. Entre estes textos estão os de Rute, Éster, o Cântico dos Cânticos, o Livro
de Jô, Salmos, Provérbios e Daniel, entre outros. Deve-se lembrar que a Toráh foi
canonizada em 622 a . C. A inclusão no cânone era o único meio certo de garantir que uma
obra de literatura sobrevivesse. É interessante considerar que há outros cânones, isto é, mais
do que um texto antigo. Os samaritanos, tendo-se se separado de Judá no meio do primeiro
milênio a . C. , só preservaram os cinco livros mosaicos, já que não se lhes permitiu
participar da canonização de escritos ulteriores. Então há a Septuaginda, a versão grega do
Velho Testamento, que foi compilada por membros da diáspora judaica em Alexandria ,
durante o período helenístico. Essa inclui todos os livros da Bíblia hebraica e inclui livros
apócrifos e pseudoepígrafos como Judite, Eclesiástico, o Livro dos Macabeus, rejeitados
pelos judeus de Jerusalém como impuros e perigosos. Além disso, temos agora os rolos
preservados e copiados pela seita de Qumran e encontrados em cavernas perto do Mar
Morto.82
Estas colocações tem a finalidade de expressar a complexidade de interpretação do
texto da CPJ, uma vez que ela é reveladora de múltiplas influências culturais e de épocas
tão distintas. Mas, uma coisa é certa, aquele que escreveu a CPJ conhece profundamente o
Velho Testamento. Se é Judeu ou não, talvez isso não tenha muita importância. Porém, tudo
faz crer que é uma mensagem de advertência aos homens. Ela pode ser interpretada de
distintas formas por judeus, cristãos e muçulmanos, e também em função dos fatos políticos
sociais, econômicos, religiosos e filosóficos de cada época.
É preciso entender dentro de cada contexto o que representa o rei Daniel. Não sua
figura física, concreta, mas a simbologia profunda que ele contém. Para tanto, reproduzo
alguns aspectos relativos a esta personalidade, sem qualquer pretensão conclusiva, mas
demonstrativa da riqueza de possibilidades inscritas nas entrelinhas desta carta enigmática.
Os profetas assemelhava-se aos feiticeiros e curandeiros de outras raças primitivas.
No século VIII a .C. transformaram-se em homens que se distinguiam pela coragem moral
do que pelos poderes mágicos; tentavam influenciar a plebe, pregando ideais, de preferência
a deitar encantamento. Deixavam de ser meros adivinhos e tornaram-se precursores.
Invadida a região de Canaã, os hebreus tendiam a abandonar seu rude sistema de vida no
deserto. Eram pobres e depois em regiões férteis gerando nítidas diferenças sociais. Frente
às tendências oriundas da vida entre raças mais organizadas e a cobiçarem o gozo, os
profetas tomaram força para manter a religião, tornaram-se a voz da consciência de Israel83.
Sobre Daniel
82
Johnson, P.História dos Judeus, Rio de Janeiro, Imago, 1995, pp99-101.
Browne, L: A Sabedoria de Israel, Rio de Janeiro Editora, Monte Scopus, vol I, 1962.
83
personalidades do Período Bíblico. Até a descoberta dos Rolos do Mar Morto, conheciamse apenas alguns tipos dessa bibliografia pseudoepigráfica, principalmente
David Léo Levisky
34
Daniel84 é o nome não do autor do livro, mas do seu herói. Um jovem judeu levado
cedo para a Babilônia, onde viveu pelo menos até 538 a . C., sendo um dos primeiros
exemplos de literatura apocalíptica. Esta literatura teve maior popularidade entre 200 a . C.
e 100 d . C., numa época de infortúnio e perseguição para os judeus e depois para os
cristãos. Ela aludia ao dia do senhor, a consumação da história. Composto durante a cruel
perseguição desenvolvida por Antioco IV Epifânio(167-164) e escrito para fortalecer e
confortar o povo judeu em sua provação. Os críticos consideram essa parte ter sido
composta na Palestina, no começo da Revolta dos Macabeus(165 a. C.). A moral é que os
homens de fé podem resistir à tentação e vencer as adversidades.Os ensinamentos
proféticos são: a insistência sobre a conduta correta, o domínio divino sobre os
acontecimentos e a certeza de que o reino de Deus triunfará. Os episódios do Dragão são
encontrados apenas na versão grega.
Daniel85 era conhecido por seu senso de justiça. Mencionado em ligação com Noé e
Job, em Eze, 14:14. Trata-se provavelmente de um eco de velha narrativa descoberta num
texto ugarítico( alfabeto ugarítico: um dos primeiros ensaios de escrita alfabetizante, com o
emprego de sinais cuneiformes, inventado por volta do séc. XIV a . C.). A fama do velho
sábio Daniel é mencionada em Eze, 28:3 ( de onde se originou a frase “Um Daniel veio ao
julgamento”contida em “O mercador de Veneza”de Shakespeare. Aspectos dessa tradição
podem muito bem ter sido extraídos da narrativa sobre Daniel, que figura no livro bíblico
desse nome. Este livro está incluído na Hagiografia ( biografia de santos ). Relata histórias
e visões desse personagem. São 12 capítulos. O livro relata as experiências miraculosas que
lhe sucediam e a seus amigos devotos Ananias, Misael e Azarias na corte de
Nabucodonosor, de Dario o Meda e de Baltazar.
Daniel é citado na Bíblia e nos textos ugaríticos. Os capítulos de 7-12 são
Apocalípticos: as visões relacionam-se nominalmente com os tempos antigos, mas as
alusões nelas contidas parecem estar relacionadas com os 4 reinos perseguidores da
Babilônia, Medas, Pérsia, e Grécia.
O Livro de Daniel capítulos 2:4-7:28, foram escritos em aramaico; exerceu
influência profunda sobre o misticismo dos tempos posteriores.
Sobre o Apocalipse
Uma revelação do futuro, principalmente dos fins dos dias e do juízo. O período
clássico da bibliografia judaica desta natureza se estende do século II a.C. ao século. II
E.C.. Trata-se da revelação de segredos além dos limites da compreensão humana normal,
como os mistérios da esfera celeste e os segredos do governo do mundo, a função dos anjos
e dos espíritos do mal, detalhes do fim do mundo, da existência de almas no céu e no
inferno. Como os autores do Apocalipse acreditam que as profecias terminaram antes do
seu tempo, atribuem , geralmente, a autoria de seus livros a personalidades do Período
Bíblico. Até a descoberta dos Rolos do Mar Morto, conheciam-se apenas alguns tipos dessa
bibliografia pseudoepigráfica, principalmente incluída nos Apócrifos(literatura judaica,
livros não bíblicos incorporados na Versão Septuaginta que foram canonizados pela Igreja
Católica e, especialmente, nos Pseudo-Epígrafos(Obras não canônicas)Ex: Livro de Judith,
dos Macabeus, na tradução grega das escrituras há acréscimos à versão hebraica, que são
considerados apócrifos.
Bíblia Sagrada
Enciclopédia Judaica
84
85
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Embora os livros dos Apócrifos tenham sido compostos por e para os judeus, foram
completamente desconhecidos para os judeus da Idade Média, ficando conservados apenas
pela Igreja.
Como os autores tem a impressão de estarem vivendo os últimos dias do mundo, por
isso a Escatologia ocupa o tema central, as convulsões cósmicas e sociais eram
consideradas como iminentes e inevitáveis; daí um apelo ao arrependimento imediato. Os
livros sagrados de natureza apocalíptica incluem o Livro de Daniel, cuja seções
apocalípticas foram compostas no início da revolta dos Hosmoneus. Nessa época o
movimento apocalíptico produziu livros como o Livro de Enoch e outros que não
perduraram. A seita do Mar Morto daí se originou. Os livros desse movimento contém o
início do misticismo judeu. A Assunção de Moisés data do período de governo romano na
Judéia. A tensão entre Roma e os Judeus é perceptível no Pequeno Apocalipse(Marcos
13;Mateus 24; Lucas 21) que forma parte do Evangelho. Depois da destruição do segundo
templo, o Apocalipse do Novo Testamento de João foi escrito por cristãos num espírito de
ressentimento judaico contra os destruidores do Templo. Os apocalipses judeus que ecoam
a destruição do Segundo Templo são o Livro de Esdras, o Apocalipse de Baruch. Nos dois
primeiros séculos da Era Comum os apocalipses foram escritos em Hebraico, aramaico ou
grego. Com espírito similar aos dos primeiros místicos e gnósticos judeus. A influência dos
escritos apocalípticos sobre a literatura talmúdica é considerável(aspectos místicos e
escatológicos). Os apocalipses continuaram a ser compostos pelos judeus na Idade Média e
exerceram uma grande influência sobre o pensamento e a arte cristã.
A Apocalíptica judaica alimentará os combates contra os romanos no primeiro século
de nossa era. Por exemplo, a revolta dos zelotas, que terminará com a destruição do Templo
de Jerusalém em 70 d. C. Simão bar-Kochba, que liderou a última guerra de independência
judia em 131 d.C., foi ainda considerado um “Messias”.
Numa outra perspectiva, comunidades constituíram-se a fim de se preparar para o fim,
como a dos essênios, fundada pelo “Mestre de Justiça”(morto entre 63 e 65 a . C.), que
praticava a comunhão de bens como prefiguração da vida angélica revelada. Analogias
foram assinaladas entre suas doutrinas e as do cristianismo primitivo. No entanto,com este
último, o Eschaton e o Messias mudam radicalmente de conteúdo”.
O “milenarismo”inscreve-se entre essas duas concepções do Reino futuro, uma
considerando que o Eschaton concerne a Israel e à Terra e a outra, que se trata do reino de
Deus: sobre uma terra renovada, os Justos são chamados a triunfar e os ímpios a serem
castigados durante um determinado período(de 400 ou mil anos) antes do mundo novo que
se seguirá ao Juízo Final. Em todo o caso, a iminência desse desenrolar se mede sempre
com o crescimento do Mal, das desordens humanas e cósmicas que, paradoxalmente, são
portanto outras tantas razões para esperar. E a espera é temporalizada, porquanto o Outro
mundo não está num outro plano, num dualismo metafísico, mas é anunciado como
recriação no prolongamento do tempo.
Pergunta-se se a Carta do Preste João não estaria dentro desta perspectiva de alertar os
homens para as profecias apocalípticas ao completar os mil anos previstos a partir da
aparição dos textos apocalípticos frente à realidade mundial no início daquele milênio?
Sobre Utopia
David Léo Levisky
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Lacroix86 sintetiza o Profetismo e Messianismo , presentes na ortodoxia judaica, cuja
perspectiva central é de: “ Aliança pela qual o homem se associa a Deus na edificação de
uma cidade cujo plano é conhecido como Torah, a Lei; e a Profecia que faz do diálogo com
Deus – que na Aliança é promessa e dever – uma experiência original, conhecimento de
tipo amoroso no qual não entra a razão. O judaísmo produz nesse quadro, como figuras da
“terra prometida onde correm o leite e o mel”(Êxodo,III,8), imagens de acabamento e
reconciliação, expressões do desejo do Fim, que apresentam com força singular a idéia de
uma história universal que se desenrola segundo o plano de Deus, tendo a Terra por
horizonte”.
“É assim no Deutoro-Isaias(ver nota 11pp44), texto redigido nos últimos anos do exílio
em Babilônia, no século VI antes de nossa era, por um autor desconhecido que, na
perspectiva escatológica dos Fins últimos, anuncia o Dia de Jeová, em que Deus, depois de
ter punido seu povo que o abandonou, institui seu reino em Sion, Jerusalém reconstruída.
Trata-se de uma “nova era”, de um Eon. A literatura profética, de maneira geral, exprime,
sob formas que não são sempre imediatamente escatológicas, a crítica da tirania e da
riqueza, que faz par com a aspiração a um mundo de harmonia e de eqüidade. O horizonte é
sempre social”.
Nesse contexto, “surge o personagem humano do “Messias”(Mashiakh; em Grego
Christos, o Ungido), filho de Davi, rei nacional de um reino que deve imanentizar a
transcendência, o reino de Deus sobre a Terra. A dimensão sobrenatural, celeste, do
processo é mais esclarecida em outros textos. Assim, no século II, quando da guerra dos
selêucidas, da Síria contra os judeus da Palestina, é escrito o Livro de Daniel. Em sonho,
Daniel tem a “revelação”(“apocalipse”) da vinda do Céu daquele que é “como um Filho do
Homem(VIII,13) e que reinará sobre todos os povos eternamente(13). Num prolongamento
do caracter celeste do “Filho do Homem”de Daniel, os Apocalipses, entre o século II a . C.
e o século I d . C. , tendem a valorizar o caráter igualmente celeste do novo mundo,
apelando com isso à sistematização de sua oposição ao antigo, Reino dos Anjos Maus e do
Satã(cuja figura deve muito à influência do dualismo iraniano)(ver nota14)”.
Penso que Franco Junior87 sintetiza essa busca humana quando afirma: “a utopia é a
manifestação sócio-cultural-psicológica que responde às deficiências de cada momento,
estando por isso presente ao longo de toda a história”. A CPJ parece-me pretender alcançar
esta função frente às deficiências que se observa na Europa ou no mundo judaico-cristão e
muçulmano por ocasião de sua divulgação na Idade Média.
Sobre a Carta do Preste João
Parece existir um acordo geral entre os estudiosos88 de que a carta foi escrita na
Europa Ocidental e que os motivos do autor não foram satisfatoriamente explanados.
Lacroix, J-Y A Utopia-um convite à filosofia, Rio de Janeiro, Zahar Editor, pp.27-29
Franco Junior, H.Cocanha A História de um País Imaginário São Paulo, Companhia das Letras, 1998,
pp.19.
88
Hamilton, B. “ Prester John and the Three Kings of Cologne” in H.Mayr-Harting e R.I. Moore (eds),Studies
in Medieval History presented to R.H.C. Davis, Londres, Hambledon, 1985, pp.177-91
86
87
David Léo Levisky
37
Dentre as várias hipóteses sobre as intenções da CPJ uma delas seria uma Resposta
Cristã, um re-asseguramento cristão da presença de Jesus como Cristo diante de um
possível surgimento do messias esperado pelos judeus. Esta hipótese é reforçada com as
notícias das Dez Tribos Perdidas, existentes em regiões distantes, Ásia ou Etiópia, como
nações independentes.
Outra hipótese estaria ligada às necessidades de apoio dos Cruzados em suas
intenções de conquistar a Terra Santa e as ameaças que pairavam sobre o cristianismo pelo
aumento do poderio muçulmano. É preciso lembrar que a situação judaica era precária tanto
na esfera do Império Bizantino quanto na Europa Ocidental no período compreendido entre
as Cruzadas, 1095 a 1204, intervalo no qual surge a CPJ, podendo ser uma reação judaica
frente às ameaças que sobre eles pairavam.
Não deve ser descartada a hipótese de uma carta judaica alertando o mundo para a
necessidade de maior tolerância, limites e respeito às diferenças entre os povos. Há
inúmeras fontes judaicas presentes na primeira versão hebraica, enviada a Manoel
Comneno, básicamente ligadas ao Velho Testamento.
Não se pode afirmar, já que o Urtext é uma montagem, que existe uma versão mais
fidedigna do que outra enquanto autenticidade. A idéia de realizar um estudo comparativo
entre versões distintas possibilita identificar semelhanças e diferenças e quem sabe
motivações ocultas que possam tê-las favorecido ou mobilizado em suas intenções
estratégicas, política ou religiosa. Mas algo é certo, uma carta não é a outra.
Slessarev(1959)89 afirma que “para os seus contemporâneos a CPJ era uma
mensagem autêntica de um soberano indiano”. Talvez seja esta uma visão um tanto ingênua
da realidade medieval. Para alguns era uma mensagem concreta e real. Mas, se assim fosse,
não apenas Alexandre III a teria respondido. Talvez tenha sido Jesus quem disse: “os que
forem pobre de espírito que me sigam”. Este pensamento permite supor que nem todos
eram crédulos e sempre haviam aqueles com uma capacidade crítica que se desgarrava da
massa e revelava seus pensamentos próprios. Assim foi com Jesus que se rebelou, como
jovem, com a realidade vigente.
A CPJ pode ser, como supõem alguns estudiosos, inspirada no Romance de
Alexandre ou no Apocalipse segundo São João, esta última com forte inspiração em outros
textos apocalípticos e apócrifos. Isto para dizer que a realidade mental ou a mentalidade, os
valores presentes no longo prazo não eram unânimes em todas as culturas daquele período.
Alguns mais perspicazes eram capazes de criar e transmitir histórias, lendas e contos ou
redigir textos que abriam a possibilidade de reflexão, mas também estimulavam a busca
concreta da realidade presente no pensamento utópico.
A CPJ é provavelmente um texto fictício, tanto no sentido de sua montagem por
Zarncke como por aqueles que as redigiram e as enviaram aos diversos endereçados; uma
espécie de estratégia político-religioso-filosófico e militar ou talvez represente uma forma
de comunicação de massa eficiente da Idade Média. Um amálgama ou síntese de diversas
tradições cosmográficas e enciclopédicas: gregas, romanas, nestorianas, católicas e
orientais. Talvez aqui possam ser incluídas as judaicas, referência pouco presente, para não
dizer ausente, nos trabalhos consultados.
A CPJ assemelha-se ao Evangelho de São João90 em suas particularidades de estilo
reveladoras de características semíticas: inclinação para o simbolismo e para a ironia, o uso
Slessarev(1959) In Carta do Preste João das Índias – versões medievais Prefácio e notas: Manuel João
Ramos,Lisboa, Assírio e Alvim, 1998.
90
Bíblia Sagrada, Editora Delta Rio de Janeiro pag XXIX 1980
89
David Léo Levisky
38
sutil de vocabulário bastante limitado e afinidades com as idéias correntes do helenismo e
do judaísmo. Mas o que faz com que este evangelho seja o único entre os evangelhos é o
seu penetrante interesse em demonstrar o significado mais profundo das obras e palavras de
Jesus. Procura responder à pergunta Quem é Jesus?...mas, também confrontar o Cristão
com uma escolha que é logo um julgamento, de salvação para o crente e de condenação
para o não crente. Porque na verdadeira essência deste evangelho está a opção que o cristão
tem que fazer neste misterioso encontro de Deus em Jesus. Com essa finalidade são
empregados os dizeres solenes “Eu sou”, “glória”, “fé”, “verdade”,”juízo”, e “amor”.
Estas considerações feitas pelo comentarista da Bíblia Sagrada da referida edição
fazem-me pensar que a primeira carta é uma réplica transformada deste Evangelho escrito
no século I da E.C.Tem como característica o fato de que o João, o do quarto evangelho, é
descrito como um judeu palestino, informado dos detalhes específicos do tempo e do lugar,
mas também dos costumes religiosos, das práticas e dos preconceitos da palestina daquela
época.
A CPJ contém elementos similares aos acima relatados em relação ao evangelho de São
João e deve ser uma transposição feita para a época do seu envio, com interesses
específicos do missivista, cujas intenções nos esforçamos para identificar dentro da
multiplicidade de fatores intervenientes, porém inconclusivos. Brincando com as idéias,
teria sido um modernista daquela época, à semelhança do judeu Walter Benjamin, tido
como símbolo da inconclusão.
Sobre a primeira versão hebraica da CPJ
Há dois fatos curiosos que podem ter alguma relação com a primeira versão hebraica
da CPJ: o primeiro é uma eventual influência dos pensamentos de Maimonides
promovendo a curiosidade judaica em torno desta carta promovendo sua versão e o segundo
está relacionado a Samuel Ibn Tibbon e sua família de tradutores que vivia na Espanha.
Moisés Bem Maimon(Maimonides ou Rambam; 1135-1204)91 filósofo, médico
halachista , nascido em Córdoba. Em 1148 fugiu às perseguições dos almohades. Viajou
pelo Norte da África e em 1165 foi para a Palestina. Não pode se fixar na Palestina, pois
estava sofrendo as seqüelas das Cruzadas. Transferiu-se para o Egito em 1167; já no Cairo,
tornou-se líder espiritual da comunidade.
Tornou-se médico do vice-rei do Egito, governado nesta época por Saladino. Em 1168
conclui comentários à Mishnah92 (Heb.= “lei”). Parte legal da literatura talmúdica e
mais tarde judaica. Dedicou-se à Halachah, documento referente à Lei Oral, i. é, à
tradição aceita de interpretação da lei escrita. A Mishnah surgiu no sec II E.C.; é uma
compilação das leis orais existentes antes de sua compilação. A Mishnah tinha a função
de dar ordenação à Halachah. A Mishnah tornou-se o texto primordial de discussão nas
academias da Palestina e da Babilônia ). Maimonides escreveu os Treze Artigos da Fé,
escrito em árabe. Em 1170 a 1180 trabalhou em seu compêndio sobre a totalidade da
Halachah ou Mishné Torá chamado também de “Yad Chazakah =Mão Forte” ou O
Livro da Sabedoria. Este trabalho cobre todos os temas Talmúdicos ligados à Halachah,
91
, Maimonides, M. 1180 Mishné Torah, O Livro da Sabedoria Trad.Yaacov Israel Blumenfeld, Rio de
Janeiro, Imago, 1992
92
Mishnah é parte do Talmud. O Talmud é dividido em: Mishnah, Guemara e Midrash.
A Halachah compreende as leis e os regulamentos da Mishnah
David Léo Levisky
39
i. é, um livro de códigos de leis condensado da jurisprudência judaica, escrito em um
hebraico elegante e conciso, organizado em 14 volumes, dos quais o mencionado é o
primeiro, e que oferecem uma apresentação sistemática de todo o conteúdo da tradição
judaica. Segundo Maimonides, escreve na introdução do Livro da Sabedoria” E Eu te
darei as Tábuas de pedra, a Tora e o Mandamento(lei escrita”(Êxodo 24:12). “Tora” se
refere à Tora Escrita; “ Mandamento” à sua jurisprudência. D..S nos pediu para cumprir
a lei segundo o “ Mandamento”, que significa a Tora oral, que é a sua jurisprudência, a
chamada “lei oral”. Toda a Torá foi escrita por Moisés, o nosso Mestre, por suas
próprias mãos, antes de falecer. Ele(Moisés) apresentou um rolo a cada tribo, e colocou
um na Arca para servir de testemunho, como está escrito: “Tome este livro da Tora e
coloque-o ao lado da Arca da Aliança do Senhor, teu D..S, que ele esteja lá como um
testemunho de ti”.(Dt.31:26). A “jurisprudência”, que é a vontade da sabedoria, Moisés
não a escreveu, mas revelou seu sentido aos anciãos, a Josué e ao restante de Israel.”
(Mishné Tora pag23.A Lei Oral, Moisés ensinou a sua integra em sua corte, aos 70
anciãos .... “Em cada geração, o líder do tribunal ou o profeta daquela época anotara
para seu uso particular um memorando das tradições que aprendera de seus Mestres, as
quais ensinava oralmente em público. Da mesma forma, cada discípulo anotava,
segundo a sua habilidade, a exposição da Tora e suas jurisprudências, conforme as
ouvira, como também os novos assuntos que iam aparecendo em cada geração, que não
haviam sido recebidos pela tradição, mas deduzidos pela aplicação das treze regras
hermenêuticas, e que foram adotadas pelo Supremo Tribunal(Mishné Tora pág.25) O
Talmude de Jerusalél na Palestina foi composto aproximadamente no séc IV por Rabi
Iohanan e o Talmude da Babilônia foi composto no Séc V por Rav Achi(Mishné Tora
pag27). Após o sec. V houve grande dispersão dos judeus por todo o mundo. A
prevalência das guerras e a marcha dos exércitos tornavam as viagens inseguras e o
estudo da Toráh declinou.
Maimonides em 1177 escreve que “ intensificaram-se as vicissitudes e as aflições mais
severas e todos sentem a pressão de tempos difíceis” (Mishneh Tora pág.29). Em1190
conclui suas pesquisas teológicas e produz O GUIA DOS PERPLEXOS (Moreh
Nevukin). É uma exposição da fé judaica tão completa quanto o Mishneh Torah.
Discute a natureza de Deus, seus atributos, e contesta Aristóteles sobre a criação do
Universo, que foi criado por Deus. Analisa a natureza da profecia e portanto da Lei
Divina. Acentua a natureza educativa da Providência e da Lei Divina. Delineia a
religião superior do “homem perfeito”, que consiste na Contemplação Filosófica da
Divindade e é identica ao “Amor a Deus”. O Aristotelismo era aceito por todos os
homens cultos da época e Maimonides quis provar que o judaismo era racional dentro
deste plano filosófico. Acreditava que o judaismo fora do aristotelismo era uma
alienação e forma de idolatria. Acreditava que mesmo os mais simples deveriam , ainda
que mecanicamente,aprender as definições corretas da Natureza de Deus. Isto era
distante da simples Fé tradicional, ilógica e antropomórfica. Suas traduções só
chegaram aos países cristãos a partir de 1204.Até 1305 sua leitura foi proibida aos
menores de 25 anos.(ESTE PODE SER UM DADO INDICATIVO DE QUE ATÉ ESTA IDADE
NÃO ESTAVAM SUFICIENTEMENTE MADUROS PARA APREENDER AQUELE
PENSAMENTO.-SERIA EXPRESSÃO DA ADOLESCÊNCIA?);
c- quem escreveu a carta latina tinha conhecimento da Tora e do Novo testamento;
David Léo Levisky
40
d- podemos pensar que os 70 reinos referem-se aos 70 ou 71 sábios que receberam a Lei
Oral de Moisés que nomeou um Conselho de 70 Anciãos, que ele mesmo presidia, e que
as distribuíram entre seus povos. Na época do II Templo criou-se o Sinédrio ou a
Grande Sinagoga)
Talmud: “estudou ou instruiu” é o manancial bibliográfico do judaismo rabínico criado
durante a Era Helenística da história judaica. É uma coleção de livros, de tratados de
leis e regulamentos rabínicos, tradições, costumes, ritos, e cerimônias, leis civis e
criminais. Contém opiniões, discussões e debates, aforismas moralísiticos e exemplos
de Sábios Rabínicos. Instrui a vida judaica através de artes e artifícios pedagógicos de
um folclore altamente desenvolvido.Resultado de séculos de esforço coletivo. Teve
início no secII a.E.C. e foi concluído com o Talmud da Babilonia no ano 500 E.C. A
bibliografia do Talmud foi uma evolução lógica, uma elaboração e um aprofundamento
dos ensinamentos da Torah e do idealismo social dos Profetas. É dinâmico; num mundo
em constante mutação foi engendrado por seus arquitetos rabínicos como instrumento
de adaptação da religião judaica às circunstâncias cambiantes da vida.(Enciclop Judaica
vol 5)
Mishnah: é a parte do Talmud que trata o código das Leis Orais
Guemara: os comentários e a elaboração do texto da Mishnah
Midrash: a exposição e interpretação popular da Bíblia em forma de sermão.
A Torah foi escrita em 444 a . C., por Esdras
Sobre as Dez Tribos93 Perdidas (Khazars94,95)
Há lendas que ligam a chegada dos judeus na Armênia e Geórgia comas Dez Tribos
Perdidas do despojado reino setentrional de Israel. Desde tempos antigos na Idade Média ,
os judeus haviam estado ativos numa vasta faixa de território na Euro-Ásia meridional,
tanto como comerciantes quanto outros que abraçaram o judaísmo. Com a diáspora houve
uma grande dispersão judaica incluindo o estado de Khazaria (Khazars), cujos
governadores professavam o judaísmo. Possível tribo turca ou finesa, que se fixou na região
mais baixa do Volga. Eram chamados pelos russos de Ugros Brancos para distingui-los dos
Ugros Negros, os húngaros. Entre os séculos VIII-X, o Estado de Khazar era poderoso,
estendia-se para o oeste até Kiev, e sua casa real ligou-se por matrimônio à de Bizâncio. No
séculoVIII manifestou-se um poderoso movimento judaizante voluntário entre os Khazars.
Entre 786-809, o rei Bulan e 4.000nobres aceitaram o judaísmo, tornando-se ativo e firme
em sua conversão o príncipe Obadias. A lendária disputa que resultou na conversão dos
khazars constitui o tema em torno do qual Judah Há-Levi escreveu Kuzari. Afirma-se que
Chasdai Ibn Shaprut, acreditando pertencerem os Khazars às Dez Tribos Perdidas, manteve
correspondência com seu último rei, Joseph, em 950, mas a autenticidade dos documentos é
questionada e poucos estão inclinados a aceitar a resposta do rei como genuína. Há um
documento importante na Genizah do Cairo que dá um relato completamente diferente da
origem do judaísmo entre os Khazars, mas igualmente romântico. É possível que o rei e
93
sugestão de leitura Beckingaham, C.F. e B. Hamilton (eds) Prester John, the Mongols and the Ten Lost
Tribes, Andershot, Variorum, 1996
94
Enc.Judaica, vol.2, pp. 730
95
Johnson, P.:História dos Judeus, Rio de Janeiro, Imago, 1995, pp.260.
David Léo Levisky
41
parte da nobreza e alguns súditos tenham se convertido, constituindo-se o elemento judaico
como uma minoria.. O poder dos Khazars foi desfeito pelo grão-duque russo Yaroslav, em
1083. Os remanescentes desapareceram com a invasão dos tártaros em 1237. Seus
sobreviventes viveram entre os Caraítas da Criméia, os Krimchaks( judeus “ortodoxos”
naturais da Criméia[falavam turco-tártaro], diferentemente dos sectários Caraítas e outros
judeus da Europa Oriental.
Hamilton assinala a existência na carta do Preste João de “fontes judaicas”, tanto
oral quanto escrita, como foi visto na questão das Dez Tribos Perdidas e também do nome
de Samarkand, para a cidade a qual vários autores tem chamado de Macaranda, como se
observa na versão hebraica.
C V - confrontação desta versão hebraica com a versão francesa em relação aos
aspectos judaicos.
Conclusão
Penso que o estudo do conteúdo simbólico da Carta de Preste João está
historicamente ligado às transformações e elaboração dos processos ideológicos, mentais,
sociais, filosóficos e religiosos que participam dos sentimento e pensamento utópicos
presentes na carta. Seria desejável estudar os diferentes conceitos filosóficos relacionados à
utopia e seus desdobramentos face à cidade terrena e celestial. Este caminho permitir-nos-ia
uma abrangência maior dos conteúdos simbólicos presentes na Carta de Preste João, que
parece conter um sincretismo de utopias oriundas de várias correntes de pensamento:
judaica, cristã, grega, egípcia e muçulmana. Entretanto, a amplitude, complexidade e
exiguidade de tempo levam-me a apenas mencionar aspectos desta questão extraordinária
em torno do pensamento filosófico sobre utopia e as advertências contidas na Carta de
Preste João.
Abrahão, Moisés, Maomé , Jesus entre outros homens incorporaram a busca utópica
da harmonia e da felicidade. A Carta de Preste João parece-me conter, em sua simbologia,
elementos do imaginário da Antigüidade e Medieval, que alertam para a dualidade presente
em relação à cidade terrena e a cidade celestial.
Lacroix procura esclarecer em seu trabalho a evolução histórico-religiosa do
pensamento utópico judaico-cristão discriminando os conceitos de cidade terrestre e cidade
celestial. Preste João, ao descrever seu reino pode estar falando de uma utopia em relação à
busca da cidade terrestre onde a busca de Outro Mundo pode representar a busca de um
mundo interior e não a de uma Nova Terra.
Segundo Lacroix(pp.30), os pensamentos de Paulo e Lucas são distintos em relação
à função da Igreja e de Jesus; “o sentido da frase que Lucas atribui a Jesus: aos fariseus que
lhe perguntam sobre o momento em que chegará o Reino de Deus, Jesus responde que “o
Reino de Deus está entre nós”. Para Paulo “a Paixão torna-se salvadora para todos os
homens, pela Graça e pela Igreja, novo Povo de Deus. A nova vida da Ressurreição em
Cristo, experiência presente e não futura, não precisava pois de nenhum transtorno material
e social”. O autor assinala que “todavia não há utopia propriamente dita ao longo de toda a
Idade Média”e acrescenta: “as narrativas, ao introduzirem o leitor numa ilha do fim do
mundo, como a do abade irlandês Brandan, mostram-na como Paraíso terrestre acessível
apenas aos santos, não como construção humana, social e política perfeita.” Somente na
David Léo Levisky
42
Renascença a Redenção pode ser compreendida como Salvação de todos os homens, e não
apenas dos cristãos aos quais estava reservado o Reino de Deus.
Poder-se-ia pensar que a Carta de Preste João estaria alertando para a perda da fé, da
esperança, isto é, para os perigos representados pela perda da utopia ao se querer ultrapassar
os limites existentes entre os paraísos terrestre e celestial. Na CPJ ele alerta para não se
ultrapassar os limites do rio Sambathion, isto é, deve-se estar atento aos poderes e expansão
da fé judaica, mas os cristãos também não devem provoca-los; eles tem suas riquezas,
diferentes das riquezas cristãs, mas sugere que se tolere as diferenças rerspeitando os
limites, pois todos são filhos de Deus.
Lacroix, assinala o pensamento de Santo Agostinho através do texto a Cidade de
Deus (413-427) onde coloca em questão “o sentido da história e o da esperança cristã
(pp.31). A “Cidade terrestre” é apresentada aí como a dos homens unidos pelo amor comum
das coisas temporais, enquanto a “cidade celeste” une os que amam a Deus.
Essas duas cidades não podem se identificar para ele, cada uma tendo por finalidade
a paz, mas em ordens diferentes: seja a ordem fundada no domínio e desfrute das coisas
materiais, ordem aparente que autoriza a tirania; seja a ordem verdadeira, que assegura o
desfrute de Deus na liberdade cristã”;.... e conclui que: “ os cidadãos celestes enquanto
homens, têm parte nos bens materiais como os cidadãos terrestres”. O pensamentos
agostiniano pode exemplificar o significado dado pela filosofia religiosa às riquezas
naturais da terra do Preste João, cujas analogias e metáforas podem expressar as riquezas,
desejos e perigos interiores dos seres humanos sinalizados pelos fenômenos naturais (rios,
animais, deserto, plantas,etc) e seres sobrenaturais, com suas características. Por exemplo, o
Deserto para os Padres egípcios era o lugar de recolhimento dos demônios após a
Redenção, muito distante de ser o lugar da utopia, de ser o campo da transcendência.
Os desdobramentos oriundos da Carta do Preste João nas descobertas geográficas e
na própria busca da cidade terrena leva-nos a pensar na tendência humana a buscar no
pensamento concreto algo que não alcança no seu mundo interior. Por outro lado, observase na Carta de Preste João uma possibilidade ou tentativa de fazer o homem voltar-se para
si mesmo através de elementos do mundo concreto.
Lacroix(pp.34) afirma: “As heresias da Idade Média, alimentadas por essas visões,
formam o esqueleto ideológico da contestação social que induz, a partir do século XI, a uma
transformação econômica radical no corredor França-Alemanha. O conteúdo social do
utopismo encontra-se aí absolutizado pela condição atribuída ao Pobres, eleitos de Deus
para realizar o Milênio. Mas, ao mesmo tempo, a negatividade utopista toma aí uma forma
agressiva, que leva a massacres de ricos, padres, judeus, e muçulmanos, considerados
servidores do Anticristo”.
As controvérsias ideológico-filosóficas existentes à época da primeira carta latina do
Preste João pode ser evidenciada pela perspectiva proposta pelo padre Joaquim de Flore
(1145-1202) que desenvolve um Terceiro Testamento , uma “Nova Era” a “Era do
Espírito”. A Primeira Era ou do Pai seria a do Velho Testamento, a Segunda Era, a do
Filho, a do Novo Testamento e a Terceira Era a do Espírito: “após o medo da Lei, após o
Amor no seio da Igreja, deve vir a iluminação de todos numa democracia mística, um
comunismo monástico sem príncipes nem igrejas, onde o próprio Jesus deixa de ser um
chefe para se integrar à “societas amicorum””. A chegada deste novo tempo estava marcada
para 1260.
Pretendo com estas idéias caracterizar que o terreno psíquico, econômico, religioso
e cultural da Idade Média Central na Europa e adjacências eram propícios para a veiculação
David Léo Levisky
43
e desdobramentos de algo como a Carta de Preste João. Isto é, havia um clima de tensão
social, de ansiedade coletiva, de insatisfações e temores e a necessidade de se buscar algo
novo tanto do ponto de vista concreto, material, quanto interno, espiritual.
Lacroix enfatiza(pp36) que : “A vontade de viver imediatamente a igualdade e o
comunismo da inocência é subjacente a várias revoltas populares do fim da Idade Média,
como por exemplo a dos camponeses ingleses em 1381”.
Havia uma forte presença do utopismo na Idade Média, no sentido de que existiria
em algum lugar uma possibilidade de outra vida, alias não muito diferente do que se passa
hoje em dia quando se imagina a possibilidade de se viver em algum lugar , em harmonia e
paz; condição mítica inerente à condição humana, ou pelo menos, no mundo judaicocristão. A discussão prosseguiria caso a intenção fosse abordar os conflitos existentes entre
a visão do idealismo platônico e as buscas terrenas de se encontrar uma convivência de paz
e harmonia terrena.
O “paraíso terrestre existente “ dominava os espíritos da Idade Média, e não estava
por acaso entre as motivações dos navegadores renascentistas. Colombo teria lido na Imago
Mundi de P. d’Ailly que o quarto continente, ao sul da Ásia, abrigava o Paraíso terrestre e
sua terceira viagem teria por objetivo alcançá-lo. Por sua vez, Vespúcio (1498) afirmava
sobre as terras que Colombo descreveu: “Se há em algum canto da terra um Paraíso
terrestre, penso que não fica longe dessas regiões”(o novo mundo ,pp.80).
As origens dessas esperanças geográficas foi o Gênese(II,8-14), que faz uma
descrição detalhada do Éden, situado no Oriente, na nascente de 4 rios: Tigre e Eufrates,
conhecidos; Phison e Gihon, desconhecidos e relatados na Carta do Preste João.
Desde o século II a . C. , escritos intertestamentários como o “Livro dos
Jubileus”haviam estabelecido uma cosmografia do Éden. Filon de Alexandria e Flávio
Josefo, judeus helenizados contemporâneos de Cristo, encontraram referências na geografia
antiga..... “depois da Queda o Paraíso foi proibido aos homens, mas não seus acessos
imediatos, que de alguma maneira deviam se beneficiar de sua felicidade, desde então
inacessível diretamente. Tal é por exemplo uma das razões da atração exercida pelo reino
do Preste João, que se supunha próximo do Paraíso terrestre”.(Lacroix,pp.68-69).
Lacroix caracteriza que outros temas também levaram o homem à busca , como o
Santo Graal. A qualidade psíquica de busca faz parte tanto de uma forma defensiva frente
aos sentimentos de desamparo quanto é a expressão de algo que os psicanalistas chamam de
pulsão epistemofílica. Pulsão que excita e impele o homem a buscar o conhecimento,
tentativa inconsciente de atenuar suas angústias, uma vez que o encontro do Paraíso, do
Gan Éden, só pode ser encontrado no “outro mundo”, ultrapassada a barreira da vida. E,
pelo que sei, não conheço ninguém que tenha voltado de lá para contar a história; e espero
que assim seja. Amém.
Lacroix acrescenta que “o caminho da descoberta é perigoso”. Esta poderia ser uma
expressão psicanalítica referente aos temores frente aos desejos de se alcançar o
desconhecido, a curiosidade (fenômeno que Freud associou à sexualidade infantil) que
habita em cada um. No passado quanto no presente a busca continua sendo uma experiência
emocional concretizada na realidade exterior. A CPJ talvez seja um estímulo à introspecção
visto que as descobertas mais ameaçadoras são as internas.
Lacroix prossegue dizendo que : “com o cristianismo veio a explicação, a razão pela
qual o lugar perfeito só pode se situar através de uma linha de pavor: a imensidão dos
obstáculos que bloqueiam o acesso ao Paraíso corresponde à realidade do Mal. As várias
narrativas da Ilha de São Brandan, entre os séculos IX e XI, descrevem a superação de
David Léo Levisky
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múltiplas dificuldades e a descoberta do Inferno e, depois do Paraíso onde vivem os santos.
A geografia assim descrita era considerada real: Colombo acreditava na existência do
Paraíso terrestre e a ilha de Brandan figura na maioria dos mapas da Idade Média....””
Lacroix conclui( pp.70): “Nessa síntese fundamental do imaginário e do real, que
infelizmente não podemos aprofundar bastante aqui, anuncia-se de forma bem direta o
gênero literário utópico, para além das diferenças de conteúdo. Mas o real de que se trata
aqui, ainda não é o da Utopia . Utopia não é Paraíso terrestre ou proximidade do paraíso
terrestre mais supostos do que afirmados como existentes: ela é Terra que os homens
tornaram nova”.
Abre-se aqui novo espaço para uma discussão filosófico-histórico-psicanalítica
sobre projeção psíquica, idealização, noções de espaço interno e realidade exterior,
frustrações, verdade e imaginação, consciente e inconsciente.Caracteriza o fato de que a
mente humana possui aspectos constantes que se perpetuam através das culturas e que
compõem a essência da natureza humana. Outros, são mutáveis e transitórios como a
vulnerabilidade da ética, da moral, dos costumes, das tradições, que se transformam no
longo tempo da história.
Do ponto de vista psicanalítico penso que as dualidades assinaladas são projeções
daquilo que hoje chamaríamos de dialética pulsional, mente complexa, em suas relações
entre os princípios psíquicos e suas relações com a cultura. Temas tão atuais como o Porque
de Cristo? Ou Se a Bíblia tinha razão.É a Índia de antão presente nas dúvidas que hoje
acompanham o homem quanto à sua origem , sua natureza e seu futuro.Será?
.
Sobre a Carta e SOBRE MAIMONIDES
(Mishné Torah, “O Livro da Sabedoria, Maimonides, M. 1180. Trad.YaacovIsrael
Blumenfeld Rio de Janeiro Imago 1992
Moisés Bem Maimon(Maimonides ou Rambam; 1135-1204) filósofo, médico
halachista , nascido em Córdoba. Em 1148 fugiu às perseguições dos almohades(?).
Viajou pelo Norte da Africa e depois foi em 1165 para a Palestina. Não pode se fixar
na Palestina ,pois estava sofrendo as sequelas das Cruzadas(qual?). Foi para o Egito.
1167 , já no Cairo, tornou-se lider espiritual da comunidade. Teve um irmão chamado
David com quem trabalhava com jóias. Após a morte do irmão tornou-se médico do
vice-rei do Egito, governado nesta época por Saladino. Em 1168 conclui comentários à
Mishnah. Explicava o sentido dos textos e dava opiniões sobre a Halachah( a palavra
significa encaminhamento e é uma alusão poética à senda bem definida da virtude que
se abriu aos devotos na Torá. O Talmud é dividido em: Mishnah, Guemara e Midrash.
David Léo Levisky
45
A Halachah compreende as leis e os regulamentos da Mishnah e de ambas as Guemarot,
em conjunto com todas as opiniões e as discussões a elas pertinentes. Em sua maior
parte, a Guemara é o comentário rabínico do código da Mishnah. Heb. “Lei”.
Parte legal da literatura talmúdica e mais tarde judaica, diferentemente da Agadah, que
são os elementos não jurídicos. A Halachah refere-se à Lei Oral, i. é, à tradição aceita de
interpretação da lei escrita. A Mishnah surgiu no sec II E.C.; é uma compilação das leis
orais existentes antes de sua compilação. A Mishnah tinha a função de dar ordenação à
Halachah. A Mishnah tornou-se o texto primordial de discussão nas academias da
Palestina e da Babilônia ). Maimonides escreveu os Treze Artigos da Fé(ver dogma).
Livros escritos em árabe.. Em 1170 a 1180 Trabalhou em seu compêndio sobre a
totalidade da Halachah ou Mishné Torá chamado também de “Yad Chazakah =Mão
Forte” ou O Livro da Sabedoria. Este trabalho cobre todos os temas Talmúdicos ligados
à Halachah, i. é, um livro de códigos de leis condensado da jurisprudência judaica,
escrito em um hebraico elegante e conciso, organizado em 14 volumes, dos quais o
mencionado é o primeiro, e que oferecem uma apresentação sistemática de todo o
conteúdo da tradição judaica. Segundo Maimonides, escreve na introdução do Livro da
Sabedoria” E Eu te darei as Tábuas de pedra, a Tora e o Mandamento(lei
escrita”(Êxodo 24:12). “Tora” se refere à Tora Escrita; “ Mandamento” à sua
jurisprudência. D..S nos pediu para cumprir a lei segundo o “ Mandamento”, que
significa a Tora oral, que éa sua jurisprudência, a chamada “lei oral”. Toda a Torá foi
escrita por Moisés, o nosso Mestre, por suas próprias mãos, antes de falecer. Ele
(Moisés) apresentou um rolo a cada tribo, e colocou um na Arca para servir de
testemunho, como está escrito: “Tome este livro da Tora e coloque-o ao lado da Arca da
Aliança do Senhor, teu D..S, que ele esteja lá como um testemunho de ti”.(Dt.31:26). A
“jurisprudência”, que é a vontade da sabedoria, Moisés não a escreveu, mas revelou seu
sentido aos anciãos, a Josué e ao restante de Israel.”(Mishné Tora pag23.A Lei Oral,
Moisés ensinou a sua integra em sua corte, aos 70 anciãos .... “Em cada geração, o líder
do tribunal ou o profeta daquela época anotara para seu uso particular um memorando
das tradições que aprendera de seus Mestres, as quais ensinava oralmente em público.
Da mesma forma, cada discípulo anotava, segundo a sua habilidade, a exposição da
Tora e suas jurisprudências, conforme as ouvira, como também os novos assuntos que
iam aparecendo em cada geração, que não haviam sido recebidos pela tradição, mas
deduzidos pela aplicação das treze regras hermenêuticas, e que foram adotadas pelo
Supremo Tribunal(Mishné Tora pág.25) O Talmude de Jerusalél na Palestina foi
composto aproximadamente no séc IV por Rabi Iohanan e o Talmude da Babilônia foi
composto no Séc V por Rav Achi(Mishné Tora pag27). Após o sec. V houve grande
dispersão dos judeus por todo o mundo. A prevalência das guerras e a marcha dos
exércitos tornavam as viagens inseguras e o estudo da Toráh declinou. Maimonides em
1177 escreve que “ intensificaram-se as vicissitudes e as aflições mais severas e todos
sentem a pressão de tempos difíceis” (Mishneh Tora pág.29). Em1190 conclui suas
pesquisas teológicas e produz O GUIA DOS PERPLEXOS (Moreh Nevukin). É uma
exposição da fé judaica tão completa quanto o Mishneh Torah.
Discute a natureza de Deus, seus atributos, e contesta Aristóteles sobre a criação do
Universo, que foi criado por Deus. Analisa a natureza da profecia e portanto da Lei
Divina. Acentua a natureza educativa da Providência e da Lei Divina. Delineia a
religião superior do “homem perfeito”, que consiste na Contemplação Filosófica da
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Divindade e é identica ao “Amor a Deus”. O Aristotelismo era aceito por todos os
homens cultos da época e Maimonides quis provar que o judaismo era racional dentro
deste plano filosófico. Acreditava que o judaismo fora do aristotelismo era uma
alienação e forma de idolatria. Acreditava que mesmo os mais simples deveriam , ainda
que mecanicamente,aprender as definições corretas da Natureza de Deus. Isto era
distante da simples Fé tradicional, ilógica e antropomórfica. Suas traduções só
chegaram aos países cristãos a partir de 1204.Até 1305 sua leitura foi proibida aos
menores de 25 anos.(ESTE PODE SER UM DADO INDICATIVO DE QUE ATÉ ESTA IDADE
NÃO ESTAVAM SUFICIENTEMENTE MADUROS PARA APREENDER AQUELE
PENSAMENTO.-SERIA EXPRESSÃO DA ADOLESCÊNCIA?);
c- quem escreveu a carta latina tinha conhecimento da Tora e do Novo testamento;
d- podemos pensar que os 70 reinos referem-se aos 70 ou 71 sábios que receberam a Lei
Oral de Moisés que nomeou um Conselho de 70 Anciãos, que ele mesmo presidia, e que
as distribuíram entre seus povos. Na época do II Templo criou-se o Sinédrio ou a
Grande Sinagoga)
Talmud: “estudou ou instruiu” é o manancial bibliográfico do judaismo rabínico criado
durante a Era Helenística da história judaica. É uma coleção de livros, de tratados de
leis e regulamentos rabínicos, tradições, costumes, ritos, e cerimônias, leis civis e
criminais. Contém opiniões, discussões e debates, aforismas moralísiticos e exemplos
de Sábios Rabínicos. Instrui a vida judaica através de artes e artifícios pedagógicos de
um folclore altamente desenvolvido.Resultado de séculos de esforço coletivo. Teve
início no secII a.E.C. e foi concluído com o Talmud da Babilonia no ano 500 E.C. A
bibliografia do Talmud foi uma evolução lógica, uma elaboração e um aprofundamento
dos ensinamentos da Torah e do idealismo social dos Profetas. É dinâmico; num mundo
em constante mutação foi engendrado por seus arquitetos rabínicos como instrumento
de adaptação da religião judaica às circunstâncias cambiantes da vida.(Enciclop Judaica
vol 5)
Mishnah: é a parte do Talmud que trata o código das Leis Orais
Guemara: os comentários e a elaboração do texto da Mishnah
Midrash: a exposição e interpretação popular da Bíblia em forma de sermão.
A Torah foi escrita em 444 a . C., por Esdras
Sobre a Carta e SOBRE OS JUDEUS NA IDADE MÉDIA Sobre a versão hebraica
Após Maimonides a filosofia judaica tomou diversas direções, principalmente após a
publicação do Guia dos Perplexos(1190) que , a partir da filosofia aristotélica dava sua
interpretação à filosofia judaica. Neste livro Maimonides pretendia dar sua versão sobre
as “verdades filosóficas” compreendendo a estrutura ascética e mística, muito próxima
do Sofisma. Este trabalho foi traduzido por Samuel Ibn Tibbon (tradutor judeu
espanhol) para o hebraico. Nesta época o mundo judaico estava sob forte influência da
cultura muçulmana e os trabalhos científicos eram escritos em árabe. Na Espanha , e
especialmente em Toledo, um movimento se desenvolveu ao redor da “Palavra”e as
letras do alfabeto numa ciência esotérica baseada em textos tradicionais, especialmente,
O Livro da Criação seguindo a orientação neoplatônica, foi extensivamente usado na
Kabala. A filosofia de judeus italianos diferencia-se pela importância dada aos textos
escolásticos latinos, os quais são frequentemente citados na tradução latina. O
David Léo Levisky
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movimento Provençal, por outro lado, muito pouco abertamente influenciado pelo
escolasticismo.
A tradução hebraica do Guia dos Perplexos foi uma revelação para os judeus cultos da
Provence, as passagens bíblicas eram claras e racionais. Maimonides tornou-se o chefe
reconhecidodas ciências rabíncas, reconhecido como profundo filósofo, expandindo a
verdadeira ciência, aquela de aristóteles e demonstrando que o judaismo era uma
religião que encorajava esta ciência. Em uma geraçãoa filosofia de Maimonides tornouse uma doutrina aceita por grande parte do povo culto.A posição social dos judeus na
Provence e Catalunia contribuiu para o florescimento da filosofia. Na Espanha dos
sec.XI e XII usualmente pertenciam à aristocracia; somente famílias com bem estar
podiam permitir que suas crianças tivessem longos períodos de educação básica para
alcançar as ciências. Nos sec. XII e XIII Provence e Catalunia proveu judeus e outros
habitantes com farto material para o florescimento da cultura e renovação da vida
urbana, mesmo para o encontro de idéias no processo de elaboração da filosofia do
pensamento. Tres fatores intervieram no crescimento e alimentação das ciências e
filosofia na classe média: a-existência das cidades; b-bom relacionamento entre
comunidades de várias religiões, facilidade no encontro de material didático. Se a
Filosofia era para poucos, no início do sec.XII, principalmente na Provence , a situação
muda: não apenas entre judeus, mas para o povo eram feitos sermões públicos com
conteúdo filosófico, entretanto muitas vozes se opuseram a estas manifestações , que
eram compreendidas como ameaçadoras, heresias, ao pensamento religioso
tradicional.Durante o sec.XII cristãos e judeus da Provence viviam num meio cristão
que descobriu a ciência que era transmitida da Espanha e também do sul da Itália. Os
judeus da Espanha linham o Árabe com facilidade, mas os judeus de Provence não
conheciam esta lingua. A transmissão das ciências para os judeus do meio cristão foi
feita pela família Tebbonids que traduzia os textos árabes para o hebraico e assim eles
chegaram aos judeus da Provence. O livro de Solomon Ibn Gabirol (poeta que escreveu
aos 16 anos poesias de amor , sensuais) sobre psicologia e trabalhos gramaticais foram
traduzidos. Várias gerações da família Tebbonids se dedicaram às traduções
transmitindo aos judeus o conceito pleno da Ciência Grega que alcançou o pensamento
árabe durante os sec.IX ao XI. Esta ciência foi desenvolvida nostrabalhos científicos e
filosóficos muçulmanos e tudo isto era traduzido para o Hebraico, mais ou menos ao
mesmo tempo em que era introduzido no mundo Cristão. Os trabalhos filosóficos
judaicos eram baseados principalmente na filosofia greco-árabe e as autoridades
constantemente citavam Aristóteles, Platão, Alexandre de Afrodísias, Avicena, e
especialmente Averroes, que ocupou predominância no pensamento judaico.Os
filósofos da Provence , além de Maimonides e Everroes,fizeram abundante uso dos
comentários bíblicos deAbraham Ibn Ezra, que transmitiu idéias neoplatônicas
acompanhadasde influências de astrologia e que eram universalmente aceitas na
Provence, mas mais tarde é que vieram assimir total relevância. Não se sabe ao certo
qual era a relação entre filósofos judeus e cristãos. Nos países islâmicos todas as
crianças, judeus, muçulmanos e cristãos eram educados em árabe que era a lingua
vernacular tanto quanto a lingua escolar.. No mundo árabe ainda que ensinavam para
cada religião sua especificidade, a separação não era tão nítida como no mundo cristão.
No mundo cristão a lingua vernacular dificilmente era a lingua de estudos. Usava-se o
Latim para trabalhos científicos e as escolas religiosas e universidades também , nas
quais os judeus não tinham acesso. Os judeus adquiriram conhecimento do latimde
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forma privada. Este fato não representava maior dificuldade para os judeus; a lingua
mãe de tais judeus estudiosos era uma das Romance Language(latim vulgar que deu
origem ao italiano, catalão, espanhol, portugues), de tal forma que o latim medieval
pode ser facilmente alcançado. A transmissão oral trazia polêmica entre os escolares. A
atmosfera intelectual era mais ou menos propícia para a colaboração entre estudiosos
das diferentes fés. Na Itália o clima social era descontraido e dificilmente existiram
barreiras entre os expoentes das diferentes fés. Grupos de estudiosos frequentemente se
reuniam ao redor de uma grande personalidade e havia uma perseguição ativa sobre o
conhecimento esquecido das divisões das religiões.
O exemplo mais brilhante foi o da corte de Frederico II no Sul da Itália e Sicilia, entre
1225-1250. Frederico tornou-se um estudioso de cada nacionalidade (Jacob Anatoli e
Judah há-Cohen. Charles d’Anjou, em 1279 parece ter feito o único retrato de um
estudioso judeu medieval(Moses bem Salem). Ao redor de 1300 médicos judeus e
cristãos em Montpellier e Barcelona parecem Ter tido inúmerasa atividades em
conjunto. No início do sec.XIII Samuel Ibn Tibbon escreveu: “Eu tenho visto que as
verdadeiras ciências tem se espalhado nos paises onde tenho vivido(países cristãos)
muito mais do que nos países muçulmanos. Parece que os judeus até metade do
sec.XIII, com exceção de Samuel Ibn Tibbon e Jacob Anatoli, não fizeram grande uso
de textos cristãos; para eles o aristotelismo latino estava ainda tomando forma ; não
havia ainda alcançado uma forma de pensamento independente. Na Segunda metade do
secXIII filósofos judeus da Provence começaram a tornar-se interessados no
pensamento cristão e seus problemas. Na Provence filósofos judeus e cristãos
caminhavam paralelamente , mas raramente em estradas convergentes.
A aquisição das ciências e a explanação de textos tradicionais foram as duas atividades
na qual os judeus cultos estavam envolvidos na Provence no sec.XIII.
Samuel Ibn Tibbon traduziu o Romance Alexandre a partir do Árabe. Este trabalho
baseado nos textos gregos e lido em todas as línguas durante a Idade Média encantou 4
conhecidas traduções hebraicas.
Sobre Anticristo: O adversário de Cristo. Desde um período muito remoto a concepção
do anticristo recebeu uma coloração antijudaica. Alguns fundadores da Igreja
afirmavam que ele viria da tribo de Dan, tendo algumas vezes sido identificado com o
Messias esperado pelos Judeus. As obras cristãs medievais descrevem em detalhe o
nascimento do anticristo de uma família judia. NO Apocalipse judeu, Armilo
corresponde, de certo modo, ao anticristo.
Armilo: Inimigo lendário do Messias. Adquiriu projeção nos Midrashim de natureza
apocalíptica a aprtir do séc. VII. Armilo deveria matar o predecessor do Messias e
governar o mundo até a chegada do verdadeiro Messias e de Elias. Seu nome deriva
provavelmente de Romulo.
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Torah: hebraico: ensinamento, lei O Pentateuco. Lei dada a Moisés no Monte Sinai,
juntamente com detalhada exposição oral e de seus mandamentos. Torah serve para
designação genérica das duas Leis: escrita e oral, juntamente com dissertações sobre
estas leis, incluindo toda a literatura talmúdica e comentários.
Talmud: hebraico: ensino. Nome dado a cada uma das compilações: a Talmud da
Babilônia(anterior ao ano 500 E.C.) e o Talmud da Palestina( antes do ano 400 E.C.). O
da Babilônia é o mais utilizado.
Enciclopedia Judaica vol I pag.381 Rio de Janeiro Editora Tradição 1966
Da primeira carta, alguns item foram selecionados para estudo e confrontações com as
demais cartas hebraicas, além de uma análise geral de cada uma delas.
A análise do discurso me faz pensar que a primeira carta é mais coerente em seu estilo
mítico, sobrenatural e ligada a temas e figuras do velho testamento além de figuras
mitológicas gregas e talvez egipcias.
Algumas coisas surpreendem na versão hebraica desta carta:
.
F-Bibliografia
Bíblia Sagrada, Editora Delta Rio de Janeiro pag XXIX 1980)
Browne, L: A Sabedoria de Israel Rio de Janeiro Editora Monte Scopus vol I 1962
Enciclopédia Judaica, Rio de Janeiro, Editora Tradição, 1966, vol. I ; IV;V
Franco Junior, H. Cocanha - A História de um País Imaginário São Paulo, Companhia das
Letras, 1998
Hamilton, B.: “Prester John and the Three Kings of Cologne” in Henry Mayr-Harting and
R.I. Moore “Studies in Medieval History” London The Hambledon Press 1985
Lacroix, J-Y A Utopia-um convite à filosofia, Rio de Janeiro, Zahar Editor, 1996
David Léo Levisky
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Maimonides, M.B.(1180) : Mishné Torá O Livro da Sabedoria Trad Yaacov Israel
Blumenfeld ,Rio de Janeiro, Imago, 1992
Ramos, J.M.: Carta do Preste João das Indias – versões medievais latinas Tradução :
Leonor Buescu, Lisboa, Editora Assirio e Alvim, 1998
Sirat, C. A History of Jewish Philosophy in the Middle Ages ,Cambridge, Cambridge
University Press, 1990
Strayer, J.(Ed):Dictionary of the Middle Ages, Nova York, Scribners and Sons, 1989, 12
vols pag 118-119
Ullendorf, E. e Beckingham, C. (Ed): The Hebrew Letters of Priest John , Oxford, Oxford
University Press, 1982
David Léo Levisky
[email protected]

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