Cosmovisão Africana e o Povo de Israel

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Cosmovisão Africana e o Povo de Israel
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Cosmovisão Africana
e o Povo de Israel
Maria de Fátima Castelan
São Leopoldo/RS
2016
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Série: A Palavra na Vida – Nº 342 – 2016
Título: Cosmovisão Africana e o Povo de Israel
Autoria: Maria de Fátima Castelan
Revisão ortográfica e capa: Rodrigo Fagundes
Imagem na capa: Obatala-Priester im Tempel in Ile-Ife
(Sacerdotes de Obatala no templo de Ifé)
Autor: Dierk Lange
Licenciado em commons.wikimedia.org
Editoração: Rafael Tarcísio Forneck
ISBN: 978-85-7733-259-5
Maria de Fátima Castelan é católica. Graduada em Filosofia na PUCMG
(Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais). Pós-graduada em História Social do Brasil na UFES (Universidade Federal do Espírito Santo) e em
Assessoria Bíblica pela Faculdades EST/CEBI. Mestre em Educação e Linguagens pela UFES. Professora do Ensino Fundamental, há 25 anos atuante na
Educação Pública. Participante do CEBI-ES, onde assessora grupos populares,
comunidades e a formação de novas/os facilitadoras/es. Integrante da equipe
de formação do CEBI-ES e da equipe de elaboração de roteiros para Círculos
Bíblicos. Representante da região sudeste no Conselho Nacional do CEBI.
Sumário
Introdução...........................................................................................5
1. Mito – aspectos conceituais............................................................7
2. Cosmovisão africana.......................................................................13
2.1 Força Vital – Axé.......................................................................14
2.2 Ancestralidade...........................................................................15
2.3 A Circularidade do Tempo.........................................................17
2.4 Oralidade...................................................................................18
2.5 A Coletividade...........................................................................19
2.6 Práticas Religiosas Africanas....................................................19
3. A mitologia na Bíblia.......................................................................21
4. Mitos bíblicos e mitos africanos – uma aproximação..................27
Considerações finais............................................................................41
Referências...........................................................................................43
Introdução
Com este estudo objetivamos estabelecer uma aproximação entre
valores da cosmovisão1 africana e do povo de Israel, analisando narrativas
míticas desses grupos. Valores como a oralidade, a circularidade, a coletividade, a ancestralidade, e outros, presentes em povos da África que podem estar, também, na base da formação do povo de Israel, uma vez que a
utilização do mito como forma de interpretar a realidade e apresentá-la em
conexão com a divindade está também presente nos textos bíblicos provenientes de diferentes experiências culturais que o povo de Israel vivenciou
em sua história. Em especial, encontraremos muitas narrativas míticas no
Pentateuco. Pretendemos identificar tais valores tomando como referência
alguns textos mitológicos, considerando que os mesmos estão presentes
em todas as culturas e se apresentam como uma excelente possibilidade de
conhecimento dos povos e de sua herança cultural.
Para atingir nosso objetivo, consideraremos textos de autores que
investigam diferentes aspectos da história e cultura da África e também
pesquisadores da área bíblica que discutem sobre essa temática para analisarmos conceitos e implicações históricas, visando estabelecer a aproximação entre a cosmovisão africana e a cosmovisão judaica presente nos
textos bíblicos.
Apresentaremos alguns apontamentos sobre o conceito de mito e as
diferentes perspectivas na compreensão desse gênero de texto. Em seguida,
1 Visão que pessoas ou comunidades formam do mundo que as cerca e da vida em geral.
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apresentaremos valores da cosmovisão africana presente nos mitos e na
vivência dos diferentes grupos africanos. Também situaremos a mitologia
na Bíblia, com atenção ao livro do Gênesis, capítulos 1-11. Finalmente,
apresentaremos uma aproximação entre mitos africanos e um mito bíblico,
destacando alguns elementos comuns.
Assim, pretendemos, com este estudo, contribuir nas discussões sobre a cosmovisão africana e sua influência nos textos bíblicos, apresentando elementos que poderão subsidiar novos estudos e motivar futuras
pesquisas que aprofundem essa temática. Este estudo é de grande importância como sinalizador de novas possibilidades no diálogo Bíblia-Vida,
especialmente para quem desenvolve a Leitura Popular da Bíblia.
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Mito - aspectos conceituais
O conceito de mito, para a cultura ocidental, comumente está relacionado a algo inferior, limitado ao campo da falta de conceito e até mesmo
em oposição ao que é verdadeiro. Essa compreensão foi, durante muito
tempo, difundida estabelecendo-se a relação entre mito e filosofia como
uma superposição de um sobre outro. Nesse sentido, o conhecimento filosófico ocidental, de tradição grega, tem sido considerado um nível superior
de conhecimento em relação ao mito. No entanto, observa-se em todas as
culturas que o saber mítico é uma forma de explicação da realidade, um
jeito de situar-se no mundo.
Para alguns teóricos, o saber racional – logos – se desenvolve em
contraste com o saber alegórico – mito. É nesse sentido que escreve Grimal
(citado por Cotrim, 2002), em seu estudo sobre a mitologia grega. O autor
afirma que há uma oposição entre logos e mito, como entre a fantasia e a
razão. Toda a dimensão irracional presente no pensamento humano é atraída para o mito, para sua criação e narração.
No entanto, essa abordagem ocidental baseada na razão vai, aos poucos, passando por uma crítica, com o surgimento de novas concepções que
consideram o mito um elemento importante para o conhecimento das culturas, reconhecendo que todos os povos narram suas tradições fundantes.
São as explicações da origem do universo, dos seres criados, que se refletem nas práticas de vida de uma determinada comunidade.
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A palavra mito origina-se da língua grega, sendo derivada de dois
verbos cujos significados designam uma ação de contar algo, conversar,
fazer um anúncio, etc. Partindo, assim, da filosofia, o mito pode ser definido
como: “[…] Uma narrativa sobre a origem de alguma coisa. […] É um
discurso pronunciado ou proferido para ouvintes que recebem como verdadeira a narrativa, porque confiam naquele que narra.” (CHAUI, 2000,
p. 23).
Conforme Croatto (1996), em uma narrativa mitológica, é essencial
a presença dos deuses que estabelecem a relação com o elemento transcendental; é também marca desta forma literária o aspecto das origens, do
começo. “Todo nascimento, de fato, é uma criação, é o passo do nada para
o ser” (CROATTO, 1996, p.17).
Em relação à presença dos deuses no mito, é importante salientar
que essa é uma parte essencial para se considerar um texto como relato
mítico. As divindades são protagonistas nesse gênero literário e são tematizadas pelo que fazem. Croatto explica que “no mito os Deuses são
atores. Um hino pode celebrar seus atributos, uma doutrina estabelecer
sua natureza, mas o mito ocupa-se do seu agir.” (CROATTO, 2010, p. 218).
Enquanto fenômeno literário, narrado, o mito está situado em um
determinado tempo e lugar. Há, portanto, um contexto histórico na base
de toda narrativa mitológica. Para alguns pensadores de base filosófica influenciada pelo iluminismo, no entanto, o mito é antagônico à Historiografia por ser uma construção imaginária.
Segundo a compreensão fenomenológica assumida por Croatto
(1996), quando se narra um acontecimento, a história fática é vista em
sua relação com o transcendente. Para isso, é preciso recriar o elemento
originário na tentativa de responder simbolicamente à pergunta sobre a
participação da divindade nos acontecimentos cotidianos. Portanto, o espaço-tempo do mito não pode ser determinado pela historiografia, pois não se
encontrarão, nele, números para indicar uma data, uma marcação temporal.
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Aquilo que é narrado com todos os elementos simbólicos é a interpretação de uma realidade dada do presente. Portanto, a historicidade do
mito está no fato ou na explicação do cotidiano que essa narrativa quer
manifestar. O mito fala de coisas reais, interpretando-as.
Segundo o autor, na prática religiosa do povo de Israel “[...] predomina uma consciência histórica na experiência religiosa; Deus é visto
enfaticamente em sua manifestação salvífica nos acontecimentos da própria história do povo de Israel” (CROATTO, 2010, p. 305). Se tomarmos o
acontecimento do êxodo como exemplo, veremos como a narrativa apresenta-o como modelo de salvação. Nesse sentido, o êxodo se transforma,
pela narrativa mítica, em um acontecimento primordial.
Para grande parte dos pensadores ocidentais de tradição grega, o
mito representa o tempo da irracionalidade, do emocional, em oposição
ao racional. No entanto, atualmente, há uma busca pelo sentido, pela legitimidade do mito, considerando tais narrativas como elementos de grande
importância para compreender e interpretar as diferentes culturas. A antropologia cultural tem contribuído muito com essa nova visão que aponta o
mito como intérprete legítimo de culturas diferentes, em tempos diversos.
Para Paiva (2007), “O mito deixa transparecer a vida de uma comunidade.
Ele reflete, sem a mediação do pensamento elaborado, o imediato da
realidade.”.
Partindo dessa perspectiva, a compreensão do mito se dá a partir
da própria cultura que o engendra. Por ele passa a cosmovisão do grupo,
da comunidade que se constitui no cotidiano vivido e narrado. No enredo,
a vida do grupo, suas lutas diárias, seus conflitos e dramas perpassam as
histórias contadas e elas contribuem para que o grupo defina seus rumos,
seus caminhos.
De acordo com Croatto (2010), é possível estabelecer uma diferenciação entre as narrativas mitológicas. Seguindo a tipologia apresentada
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por esse autor, pode-se falar em mitos de criação e mitos de origem, tendo
cada tipologia suas subdivisões.
Os mitos de criação narram o nascimento do mundo (mitos cosmogônicos), do ser humano (mitos antropogônicos), bem como a fundação de
uma cidade, de um grupo cultural ou político. A configuração desse tipo
de mito é diversificada, com possibilidades de narrativas que apresentam
grande variação simbólica: terra, água, ovo cósmico e outras formas, com
derivações dos símbolos citados.
Já os mitos de origem narram diferentes formas de organização da
vida, das instituições, identificando sua divindade criadora. Nessa tipologia, são considerados os mitos de origem da cultura, das instituições e dos
acontecimentos significativos. Para garantir inteligibilidade em relação aos
acontecimentos importantes, é comum que sejam narrados mitologicamente, mantendo a conexão com a dimensão do sagrado.
De acordo com Croatto (2010), essa diferenciação é importante e
abrangente, porém não esgota a criatividade e especificidade dos povos na
criação de seus mitos. Existe um número grande de mitos que tratam de
outras temáticas e questões da vida humana em geral, e das características
próprias de cada cultura. O tema da morte, por exemplo, é bastante recorrente nas narrativas mitológicas.
Para nosso estudo, é importante ressaltar também a existência de
uma comunicação entre mitos de culturas diferentes, que Croatto (2010)
define como “circularidade ou participação”. Segundo esse autor, a causa
para essa comunicação entre mitos de cosmovisões diferentes está na “universalidade do símbolo” e no “sentido fundamental” que pode estabelecer
o elemento de comunicação entre as culturas. Essa perspectiva é reforçada
pelos estudos de Campbell (2010), que afirma a unidade presente na história da humanidade a partir da análise dos mitos.
Na mesma linha de reflexão, está a compreensão de Reimer (2007)
sobre a linguagem mítica: “[...] é uma forma de comunicação das ‘ver-
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