Camille Claudel, a suplicante. Reflexões sobre um caso de paranóia

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Camille Claudel, a suplicante. Reflexões sobre um caso de paranóia
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Camille Claudel, a suplicante. Reflexões sobre um
caso de paranóia
Camille Claudel, the imploring. Reflections on a case of paranoia
“Caí no abismo. Vivo num mundo tão curioso, tão estranho.
Do sonho que foi a minha vida, este é o pesadelo.”[1]
Fig. 1 - Camille Claudel.
1- No bunker do Quai de Bourbon
Adrian Gramary
Médico Psiquiatra
Correspondência relacionada com o artigo:
Centro Hospitalar Conde de Ferreira
Rua Costa Cabral, 1211, 4200-227 Porto
e-mail: [email protected]
Na primavera de 1913, os familiares mais próximos da escultora Camille Claudel deslocam-se a Paris para constituir
um conselho de família com a determinação de proceder
ao seu internamento psiquiátrico no Hospital de Ville-Évrard.
Numa carta escrita pela escultora, nessa altura, esta confessa
abertamente a uma prima os seus temores: “O senhor Rodin
persuadiu os meus pais para me internarem; a minha família
está toda em Paris para isso.
O gatuno vai apropriar-se, desta forma, do trabalho de toda
a minha vida.”[2] Os familiares tinham sido informados pelos
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vizinhos de que, nos últimos tempos, a escultora recusava-se
“Diz que é um sequestro. É Rodin juntamente com os familiares
a sair do seu atelier, recebendo pela janela a comida que estes
da doente que o provocaram. (…) Rodin queria obrigar-me a
lhe ofereciam.
trabalhar à força no atelier dele. Trabalhei com esforço para
No dia 10 de Março, dois enfermeiros arrombam a janela entai-
melhorar a minha imaginação. Ele não tem imaginação.
pada com tábuas e irrompem no seu atelier do Quai de Bour-
Necessitava de uma imaginação. (…) Ele envenenava-me com
bon, deparando-se com um panorama indescritível: o chão do
curare, com arsénico (…) Ele batia-me, dava-me pontapés.
atelier está inteiramente ocupado pelos pedaços amontoados
Não me apercebi até 1907. Envenena toda a minha família (…)
das suas esculturas, as paredes aparecem cobertas de recor-
Queixei-me a todo o mundo, mas ele tem comprado o Ministé-
tes de revistas com os passos de uma via-sacra, as portas
rio da Justiça, tem as mãos de toda a gente atadas. Suborna
estão fechadas com correntes desde o interior, e espalhadas
pessoas para eles porem venenos na comida e provocarem
pelo chão são visíveis múltiplas armadilhas para animais.
doenças mortais.
E quem é esta Camille Claudel – perguntar-se-ão alguns – de
Ela estava enclausurada na sua casa desde a Semana Santa.
cujo internamento vamos ser testemunhas? Convém aqui co-
Davam-lhe os alimentos pela janela. Rodin entrava na casa
meçar por dizer que foi talvez a primeira mulher escultora de
dela pela janela e mexia nos seus esboços. Ele encarregou o
valor reconhecido na história da arte, cuja obra gozou, no início
homem do talho para me pôr arsénico na comida, e como o
do século passado, apesar da decadência provocada pela
homem não aceitou, ele fez com que o enviassem para Marro-
doença nos anos prévios ao internamento, de um merecido
cos para se deixar matar (…) Há cerca de 10 anos que ela se
prestígio nos círculos artísticos de Paris. Porém, foi o escândalo
apercebeu de tudo. Ele é um louco sádico. Viola as crianças.
provocado pelo romance apaixonado que manteve com o seu
A primeira vez, foi condenado a 1.000 anos de cadeia (…) Foi
mestre, o escultor Auguste Rodin, o que tornou famoso o seu
ele quem matou Elise Vandame. Corta as crianças aos pedaços
nome na sociedade francesa da III República.
e depois atira-os ao Sena. Delírio sistemático de perseguição
Camille e Rodin protagonizaram um romance tempestuoso,
baseado principalmente em interpretações e fabulações, ideias
salpicado de inúmeras traições por parte dele, que tentou até
de grandeza (…): é vítima dos ataques criminais de um escultor
ao último momento manter paralelamente a relação com Ca-
famoso que se apropriou das obras que ela criou. Ele tentou
mille e com Rose, a sua mulher “oficial”, com quem não tinha
várias vezes fazê-la desaparecer e envenena-la, como já fez
casado, mas com quem convivia e de quem tinha um filho.
com outras pessoas.”[3]
O intercâmbio artístico entre estas duas forças da natureza foi
intenso e por vezes quase simbiótico, ao ponto de em algumas
Um segundo médico (o Dr. Ducosté?) escreve, alguns dias
obras ser difícil saber onde acaba o trabalho de um e onde
depois, uma segunda observação no processo clínico:
começa o trabalho do outro.
Uma visita de Rose ao atelier da escultora, em que aquela
“Rodin, de facto, persegue-a. Rodin, de quem foi aluna, está
terá representado, ao que parece eficazmente, o seu papel
ciumento do seu génio e tenta roubar-lhe todas as ideias. Nou-
de esposa traída, insultando, brigando e ameaçando Camille,
tro tempo, quando ela se ausentava da sua casa, ele entrava
pôs fim de forma abrupta e melodramática ao relacionamento
e roubava-lhe as suas obras. Ideias de perseguição: Rodin
entre os dois. Pelo meio ficaram um aborto (há quem diga que
– e o seu bando (é o chefe de um bando de ladrões). Delírio
houve provavelmente mais do que um) e uma obra artística rica
retrospectivo: ele já a persegue desde a comunhão solene
e ímpar nascida durante esses anos de tórrida paixão.
(…) Mas ela só se apercebeu de tudo há dezoito meses ou
um ano. Tentava domina-la com um narcótico e várias vezes
2- O internamento no Hospital de Ville-Évrard
o conseguiu.”[4]
Mas vejamos o que é que os psiquiatras que avaliaram Camille
Embora Camille acredite que Rodin já a tem vindo a perseguir
no Hospital nos deixaram escrito. O Dr. Truelle, primeiro médico
desde a comunhão solene, a leitura da sua correspondência
que a observa no internamento do Hospital de Ville-Évrard, fez
permite-nos reconstruir retrospectivamente a história pregressa
o seguinte registo no processo clínico:
da doença e remontar o início do quadro delirante logo a seguir
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à ruptura com Rodin. Após deixar o atelier que ambos partilha-
trágica. Para ela, até os seus familiares eram vítimas potenciais
vam, Camille refugiou-se cada vez mais no seu pequeno atelier
desta perseguição; assim, angustiada perante o atraso na che-
do Quai de Bourbon, perto da Îlle de la Cité, em pleno coração
gada do seu irmão Paul, de quem espera uma visita, escreve
do antigo Paris. Sem o dinheiro necessário para comprar os
a um amigo: “O meu irmão, contrariamente ao previsto, não
materiais dispendiosos que precisava para continuar a escul-
chegou ainda; não me estranharia que uma má besta o tenha
pir; com o sentimento de ter sido rejeitada por Rodin; sem o
mandado assassinar.”[6]
apoio dos pais, em particular da mãe, mater terribilis que lhe
Aos amigos comuns, que tentam dissuadi-la do seu erro
virou as costas quando chegou aos seus ouvidos o escândalo
em relação às perversas intenções de Rodin, ela responde
provocado pelo affaire com Rodin; Camille foi sobrevivendo,
espraiando-se sobre os meios ínvios e subtis, invisíveis para
enclausurada no seu bunker, em condições de saúde cada
os outros excepto para ela, que este usa para a prejudicar:
vez mais precárias.
“Você não quer outra coisa que o meu bem (…), mas há por
A tudo isto soma-se o cansaço após uma longa luta contra os
trás de vocês um terceiro personagem ao que não conhecem
intermináveis obstáculos que encontrava para sobreviver numa
o suficiente para o julgar totalmente, porque se assim fosse,
profissão feita por e para homens. Foi a conjunção de todos
não veriam nada de extraordinário no meu comportamento,
estes factores que constituiu um terreno propício para o verme
asseguro-o.
invisível do delírio, que cresceu silenciosamente, dedicado
É necessário muito tempo para conhecer uma pessoa antes
implacavelmente ao seu obscuro trabalho.
de compreender uma situação (…) Eu conheço a mão maléfica
Sabe-se – existem cartas conservadas que o demonstram –
que trabalha por baixo para apartar de mim todas as amizades
que Rodin não a tinha esquecido e continuava a fazer o que
e todas as boas vontades, para que eu acabe por implorar a
estava nas suas mãos para promover a sua obra, para além de
sua ajuda e ainda o faça passar por um benfeitor.
ter contribuído financeiramente, de forma anónima, para evitar
Os meios que emprega são tão subtis, tão invisíveis, tão
a penhora do seu atelier, depositando regularmente através de
indirectos que é impossível provar nada.”[7] Mas, progressi-
um intermediário pequenas quantidades de dinheiro na conta
vamente, os meios usados por Rodin, começam a revelar-se
de Camille. Mas foi esta conjunção de factores: o sentimento
para ela de uma forma mais evidente e concreta; a partir de
de ter sido relegada por Rodin e rejeitada pela família, a po-
1909, ela começa a falar nas suas cartas do já referido “Bando
breza e o isolamento em que vivia no seu pequeno atelier do
de Rodin”, um grupo organizado por este para lhe subtrair as
Quai de Bourbon.
suas obras.
O primeiro sinal que observamos nas cartas que envia a vários
Este “bando” apodera-se das suas ideias, rouba-lhe as es-
conhecidos, é o aparecimento frequente de insultos dirigidos
culturas e os esboços e copia os moldes das suas obras,
a Rodin: o seu antigo mestre e amante torna-se agora para
aproveitando as suas saídas do atelier. Coincidindo com o
ela no “Senhor Furão”, o “monstro”, “a ratazana de esgoto”.
roubo de algumas obras do Museu do Louvre, Camille não
Inicialmente culpa-o de lhe roubar as encomendas e de a tentar
perde a oportunidade para enviar uma carta surpreendente e
afastar de Paris nas alturas em que há exposições.
esclarecedora ao Subsecretário do Estado para as Belas-Artes,
Ao coleccionista de arte Henri Lerolle explica-lhe numa carta:
informando que conhece “o autor de todos os roubos e depre-
“O Sr. Rodin dedicou-se este ano a deixar-me sem recursos,
dações cometidos no Louvre. Só há um: ele paga a pessoas
depois de me ter forçado a abandonar o Salão Nacional por
pobres para fazer este trabalho, depois os objectos chegam-lhe
causa das armadilhas que me fez. Alem disso, insulta-me; faz
a sua casa (…) ele é um senhor do crime organizado.”[8]
publicar por toda parte o meu retrato em cartões postais ape-
Em Dezembro de 1909 declara abertamente ao seu irmão
sar da minha proibição expressa, não se detém perante nada,
Paul numa carta: “O gatuno apropria-se de todas as minhas
acredita ter um poder ilimitado. Toda a vida perseguir-me-á a
esculturas por diferentes meios e entrega-as aos seus amigos,
vingança deste monstro.”[5]
os artistas de moda, que em troca lhe proporcionam conde-
Tendo em conta as provas de que dispomos actualmente, que
corações, ovações, etc.”[9] Com um sentimento crescente
demonstram o apoio económico que recebia de Rodin, as
de impotência para impedir os furtos realizados pelo “Bando
convicções delirantes de Camille adquirem um tom de ironia
de Rodin”, termina por reforçar os meios de protecção do
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seu atelier: coloca correntes nas portas, entaipa com tábuas
familiares: “A velha Helena” (busto de uma velha empregada da
o interior das janelas e põe armadilhas no chão. Em fins de
família, que suportou com infinita paciência horas intermináveis
1912 escreve: “Mal ponho o pé na rua, Rodin e o seu bando
de pose); o busto da mãe, da irmã, e vários bustos do irmão,
entram para me assaltar a casa. Todo o Quai de Bourbon está
Paul Claudel, em diferentes fases da vida.
infestado deles.”[10]
A família Claudel apercebeu-se do autêntico valor dos trabalhos
Numa das suas cartas chega a afirmar que pessoas enviadas
de Camille, quando recebeu a visita de Paul Dubois, Director
por Rodin colocam veneno na sua comida: “Continuo doente
da Escola Nacional de Belas Artes, que ficou impressionado
por causa do veneno que tenho no sangue, tenho o corpo em
pelo talento natural que demonstravam as obras esculpidas
brasas, é o hugonote Rodin que manda distribuir as doses
por aquela miúda promissora, que não tinha recebido nenhuma
porque espera herdar o meu atelier.”
[11]
Quando a mãe deixa
lição de modelagem ou desenho.
de lhe enviar dinheiro, também é Rodin o culpado: “Sem qual-
As suas palavras, “Você recebeu aulas do Senhor Rodin!”,
quer pretexto, deixaram de repente de me mandar dinheiro,
encontraram como única resposta o olhar interrogante de
encontro-me de um dia para outro sem recursos, é a banda
Camille, que desconhecia totalmente quem era o famoso
de Rodin que fez uma lavagem ao cérebro à minha mãe.”
[12]
“mestre Rodin” que tinha sido o inspirador das suas esculturas.
No fim, o seu desespero atinge o clímax e, para evitar que lhe
Este comentário inocente acabaria, no entanto, por ter valor
continuem a roubar e copiar as suas esculturas, acaba por
profético sobre o trágico destino que para ela iria ser, no futuro,
destruir todas as obras e recusa-se a sair do atelier, recebendo
tentar sobreviver na qualidade de “aluna de Rodin”, sem ser
os alimentos pela janela.
esmagada pela sombra do génio.
Graças ao apoio incondicional do pai, e com a forte oposição
3- Uma vida dedicada à escultura
da mãe, que via na inclinação da filha pela escultura, uma forma
bizarra de rebeldia, consegue continuar a sua dedicação à arte
A figura de Camille Claudel foi recuperada a partir dos anos
do barro, da pedra e do metal.
80, graças à retrospectiva organizada no início da década pelo
A história demonstra que a escultura, na sua concepção mais
Musée Rodin, e que coincidiu com o aparecimento do primeiro
clássica (trabalho com pedra e barro), foi uma profissão de ho-
catálogo completo da obra da escultora.
mens. Basta folhear o livro “Amazonas com pincel”[14], escrito
Neste processo de recuperação também ajudaram a realização
pela professora de Arte Contemporânea da Universidade de
do filme “Camille Claudel”, protagonizado por Isabelle Adjani
Barcelona Victoria Combalia, o qual tenta reconstruir, partindo
e Gerard Depardieu, e a publicação da biografia romanceada
de uma perspectiva feminista, o catálogo das grandes artistas
“Une femme”
de Anne Delbée. Daí em diante, foram-se
existentes desde o século XVI até ao século XXI, e no qual
multiplicando as exposições, a última das quais decorreu no
apenas encontramos, junto ao nome de Camille Claudel, mais
Outono do ano passado numa pequena sala da Fundación
cinco nomes de escultoras praticamente desconhecidos para
Mapfre de Madrid, onde foi exibida, quase na sua totalidade, a
o público não especializado: Kathe Kollwitz, Germaine Richier,
sua obra. A primeira coisa que impressionava o visitante, para
Barbara Hepworth, Louise Bourgeois e Niki de Saint Phalle.
além da óbvia qualidade das obras, era o número reduzido
Na altura em que Camille Claudel começava a estudar em
de esculturas, que não devia ultrapassar as sessenta peças,
França, a entrada das mulheres estava proibida nas Escolas de
muitas das quais eram subtis variações da mesma ideia.
Belas Artes, situação que obrigou a escultora a enveredar por
A mulher que nos deixou tão reduzida, embora apaixonante,
um caminho alternativo, que implicava a aprendizagem num
herança nasceu em 1864 em Fère-en-Tardenois, na região da
atelier compartilhado com outras duas mulheres, sob a super-
Picardie, perto de Paris.
visão de um professor de escultura de reconhecido prestígio.
Filha de um funcionário público e da conservadora filha de um
Foi desta forma que Camille conheceu Rodin, o qual, após ter
rico médico rural, sentiu desde a infância um forte impulso
sido o seu supervisor durante algum tempo, a convidou para
natural para a escultura, o que a levou a usar os irmãos e as
trabalhar no seu próprio atelier, para participar na realização
empregadas domésticas como primeiros modelos para as suas
da encomenda de “A porta do Inferno” e posteriormente de
esculturas de barro. Assim foi surgindo uma galeria de retratos
“Os burgueses de Calais”.
[13]
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4- A suplicante
foi mais tarde apresentada e vendida como figura isolada,
precisamente com o título de “A suplicante” (L´implorante).
As duas obras mais conhecidas de Camille Claudel são, sem
Pela informação disponível, sabemos que Camille suplicou
dúvida, “Sakountala” e “A idade madura” (L´âge mûr). No caso
a Rodin uma exclusividade que ele não estava disposto a
de Camille Claudel, pode ser especialmente tentador fazer uma
dar-lhe, e foi após a ruptura desta relação que ela decidiu
correlação entre as suas obras e as suas peripécias vitais.
representar-se a si própria como suplicante em L´âge mûr. As
acesas palavras de Paul Claudel não deixam espaço para a
dúvida sobre esta identificação: “Essa rapariga nua é a minha
irmã! A minha irmã Camille. Implorante, humilhada, ajoelhada,
essa soberba, essa orgulhosa, assim é como se representou
a si própria.”[15]
Em relação à outra obra, “Sakountala”, que aparece também com o título de “O abandono” e “Vertumno e Pomona”,
representa a lenda indiana acerca do príncipe Sakountala e
reflecte, após o encontro do casal, o momento de abandono
da mulher nos braços do príncipe, em que este, ajoelhado,
pede perdão à amante por não ter cumprido a sua promessa
Fig. 2 - “Sakountala”.
Fig. 3 - “A suplicante”.
de reconhecê-la, a ela e ao filho. Outras obras famosas são “A
valsa” (um casal dançando em equilíbrio instável), “A pequena
castelã” (o busto de uma criança, que era a filha da proprietária
do castelo onde ficou a descansar durante uns dias após o
seu aborto), “As coscuvilheiras” (quatro mulheres sentadas a
coscuvilhar), e “A onda”.
Mas, ao que parece, o destino de suplicante persistiu para
Camille ao longo da sua vida. Durante o seu internamento
nos Hospitais de Ville-Évrard e posteriormente no Hospital de
Montdevergues, onde permaneceu durante trinta anos até à
sua morte em 1943, foram muitas as vezes em que suplicou
autorização para receber correspondência e para ter saídas.
No entanto, por indicação da mãe, cujo comportamento foi
de uma dureza implacável, foi impedida de enviar ou receber
Fig. 4 - “A idade madura ”.
Fig. 5 - Pormenor de “A idade
madura”.
qualquer correspondência; mas o que reflecte ainda uma
crueldade maior é que a mãe impediu também qualquer saída
de Camille do internamento, apesar das recomendações em
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Assim, o próprio Paul Claudel não conseguiu subtrair-se a esta
sentido contrário vindas de vários dos psiquiatras que acom-
tentação ao estabelecer num famoso texto, escrito na década
panharam a doente. É verdade que as cartas que Camille
de 50, a relação evidente entre o grupo “L´âge mûr” e o desfe-
escreveu – e que nunca foram enviadas, ficando arquivadas no
cho do triângulo formado por Rose, Rodin e Camille.
processo clínico – permitem concluir que manteve o delírio até
No centro deste grupo temos a figura de um homem maduro
ao fim da sua vida, mas isso provavelmente não teria sido um
(daí o titulo “A idade Madura”), representação de Rodin, que
obstáculo definitivo para a sua saída do hospital, pelo menos
é reclamado simultaneamente por duas figuras femininas: à
como tentativa de ensaio. É difícil não reconhecer na atitude
esquerda, uma mulher idosa, Rose, que abraça o homem pelas
desta mãe burguesa e conservadora, uma forma de punição da
costas; e, à direita, uma mulher mais nova, ajoelhada, suplican-
filha rebelde, a qual, quer com o seu comportamento escanda-
te, que representaria a Camille. Esta figura mais nova também
loso, quer pelo caminho escolhido, contrário ao que lhe estava
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socialmente reservado, tinha, segundo esta, comprometido o
lirantes é persecutório em todos os casos, o que nem sempre
bom nome da família.
é certo, pois as ideias delirantes podem ter outro conteúdo
(grandiosidade, erotomaníaco, celotípico ou somático). No
5- A paranóia de Camille Claudel: A couve
roída pelas lagartas
entanto, é verdade que o subtipo persecutório de Perturbação Delirante Crónica, do qual sofria Camille Claudel, é o mais
frequente, e aplica-se, segundo a DSM-IV-TR, quando o tema
Com a informação de que dispomos actualmente, nomeada-
central do delírio envolve, como no caso que nos ocupa, a
mente graças ao acesso à correspondência pessoal, é possível
crença de que o sujeito é objecto de uma conspiração, fraude,
concluir que Camille apresentava na altura do seu internamento
espionagem, perseguição, envenenamento, calúnia odiosa,
um quadro delirante de evolução crónica, caracterizado por
assedio ou obstrução nos seus objectivos a longo prazo”.[17]
delírios que envolviam a convicção de ser vítima de uma per-
Kraepelin, a quem devemos a nossa visão nosológica dos qua-
seguição cujo objectivo exclusivo era o seu prejuízo através de
dros psicóticos, definiu a psicose delirante crónica ou paranóia
múltiplas estratégias: tirar-lhe as ideias e esboços, roubar-lhe
como “um delírio sistematizado, quer dizer, um sistema deliran-
as esculturas ou tirar moldes delas, conseguir criar inimizades
te coerente e lógico, de desenvolvimento insidioso, evolução
contra ela, deixá-la sem recursos económicos, impedir a sua
crónica e irreversível (…) que se acompanha de clareza e ordem
progressão profissional ou tentar envenena-la através de
na consciência, no pensamento e no comportamento”.[18]
terceiras pessoas. Inicialmente, o delírio incluía apenas Au-
Para completar o perfil autónomo da paranóia face aos outros
guste Rodin, mas, finalmente, incorporou diferentes pessoas,
distritos nosológicos, Kraepelin destacava a “impermeabilidade
organizadas num complot ou trama dirigida por este, que ela
do sistema paranóico face às influências psicológicas.”[19]
denominava de “bando de Rodin”.
Segundo a DSM-IV-TR, a característica essencial da Perturba-
Há um excerto de uma carta famosa que exprime de forma
ção Delirante é a presença de uma ou mais ideias delirantes não
insuperável a convicção de ser vítima do roubo sistemático das
bizarras que persistem de forma crónica, associadas com a au-
suas obras e ideias: “Formaram-me expressamente para lhes
sência dos sintomas típicos da esquizofrenia (por exemplo, as
proporcionar ideias, sabendo que eles têm uma imaginação
alucinações auditivas ou visuais, que, se estiverem presentes,
nula. Estou na situação de uma couve roída pelas lagartas; à
não devem ser dominantes), e a preservação do funcionamento
medida que me cresce uma folha, eles comem-na.”[16]
psicossocial e do comportamento, que não deve ser muito
Esta ideação delirante de prejuízo implicava que a escultora
estranho ou bizarro. Quando está presente na Perturbação
tinha convicção absoluta de que estas pessoas agiam delibe-
Delirante um reduzido funcionamento psicossocial, como no
radamente para a prejudicar. O delírio tinha as características
caso em apreço, este surge como consequência das próprias
típicas da Perturbação Delirante Crónica pois era um delírio
crenças delirantes. Da mesma forma, uma característica co-
bem construído, plausível e aparentemente consistente inte-
mum nos sujeitos com Perturbação Delirante Crónica é a sua
riormente (em termos lógicos), bem sistematizado e hierarqui-
aparente normalidade de comportamento e aparência quando
zado. Quando falamos que o delírio é plausível ou que tem
as ideias delirantes não estão a ser discutidas.[20]
aparência lógica, estamos a querer dizer que não é absurdo e
A classificação das ideias delirantes como bizarras é especial-
que, portanto, não insulta a nossa inteligência a ideia de que
mente importante na distinção entre Perturbação Delirante Cró-
Rodin tentasse apropriar-se das obras da escultora ou que a
nica e Esquizofrenia. As ideias delirantes são bizarras se forem
tentasse prejudicar na sua carreira profissional ao considerá-la
claramente implausíveis, não compreensíveis e não dedutíveis
uma rival. É esta plausibilidade que faz com que os doentes que
das experiências vivenciais habituais (por exemplo, crença de
sofrem deste quadro passem frequentemente desapercebidos
que um estranho retirou os órgãos internos e os substituiu por
durante muito tempo para as pessoas com quem convivem, e
outros, sem deixar feridas ou cicatrizes). Pelo contrário, as
até possam convencer ou “contagiar” os outros da realidade
ideias delirantes não bizarras envolvem situações que, como
dos seus delírios.
no caso de Camille, podem ocorrer na vida real (por exemplo,
Esta perturbação foi denominada classicamente de Paranóia,
ser perseguido, injustiçado, envenenado, infectado, amado à
mas este termo parece implicar que o conteúdo das ideias de-
distância ou enganado pelo cônjuge ou amante).[21]
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É conveniente ressalvar quem estamos perante quadros im-
145-146.
permeáveis a qualquer tentativa de dissuasão lógica e muito
[4] Ibidem. p. 146.
resistentes à terapêutica psicofarmacológica. Na época em
[5] Claudel C (2006) op. cit., p. 173.
que Camille Claudel adoeceu, não havia disponível nenhuma
[6] Ibidem. p. 179.
medicação antipsicótica eficaz, e portanto, o seu caso, como
[7] Ibidem. p. 186-187.
tantos outros, estava, de certa forma, condenado a persistir
[8] Ibidem. p. 211.
no seu delírio até a morte, o que terminou por acontecer trinta
[9] Ibidem. p. 216.
anos depois do quadro ter começado. Mas, até com os tra-
[10] Ibidem. p. 225.
tamentos antipsicóticos actuais, a experiência clínica indica
[11] Ibidem. p. 222.
que habitualmente são quadros com resposta muito pobre à
[12] Ibidem. p. 224.
terapêutica farmacológica.
[13] Delbée Anne (2001): Camille Claudel. Circe. Barcelona. (Tradução
Para terminar, como recorda o Compendio do Kaplan na sua
espanhola do original francês “Une femme” editado em 1982 pela
oitava edição, não é infrequente que o foco do delírio seja
editora Presses de la Renaissance)
alguma injustiça real .
[14] Combalía V (2006): Amazonas con pincel. Vida y obra de las
Não seria improvável que isto tivesse acontecido no caso
grandes artistas del siglo XVI al siglo XXI. Ed. Destino. Imago Mundi.
de Camille Claudel. Sabemos, por exemplo, que a ela são
Barcelona.
atribuídas muitas das mãos, e talvez algum rosto, de “Os
[15] VV. AA. (2007): Camille Claudel. Catálogo da exposição orga-
burgueses de Calais”, mas é provável que isto tenha aconte-
nizada em Madrid pela Fundación MAPFRE e pelo Museu Rodin de
cido noutras ocasiões. É conhecido o comentário do famoso
Paris. p. 362.
escultor Brancusi, que se recusou a trabalhar no atelier de
[16] Claudel C (2006) op. cit., p. 219.
Rodin, argumentando:
[17] American Psychiatric Association (2002): DSM-IV-TR. Manual de
“À sombra das grandes árvores não cresce nada.” Não sabe-
Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais. Quarta Edição.
mos até que ponto Rodin não se terá aproveitado de forma
Revisão do texto. Climepsi Editores. Lisboa. 2002. p.325.
imprópria das criações de Camille, para as incorporar nas suas
[18] Alonso-Fernández F (1976): Fundamentos de la Psiquiatria Actual.
obras, funcionando alguma destas injustiças como o grão de
Tomo 1. Editorial Paz Montalvo. Madrid. p. 492.
areia para a ostra, transformando-se no núcleo a volta do qual
[19] Ibidem. p. 492.
se foram depositando gradual e lentamente as camadas de
[20] American Psychiatric Association (2002): DSM-IV-TR. Manual de
nácar, até formar-se a pérola negra do delírio.
Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais. Quarta Edição.
[22]
Revisão do texto. Climepsi Editores. Lisboa. 2002. p.323-324.
[21] Ibidem. p.324.
[22] Kaplan HI, Sadock BJ (1999): Sinopsis de Psiquiatria. 8ª edición.
Ed. Panamericana. Madrid. p.586.
Outras obras consultadas:
- Montero R (2002): Histórias de mulheres. Edições ASA. Porto.
BIBLIOGRAFIA
- Neret G (1997): Auguste Rodin. Esculturas e Desenhos. Taschen.
- VV. AA. (2002): Auguste Rodin. Catálogo da exposição organizada
50
[1] Claudel C (2006): Correspondência. Editorial Síntesis. Madrid. p.
em Santiago de Compostela pela Fundación La Caixa e pelo Musée
279.
Rodin de Paris.
[2] Claudel C (2006) op. cit., p. 226.
- VV. AA. (2005): Claudel et Rodin. La Rencontre de Deux Destins.
[3] VV. AA. (2007): Camille Claudel. Catálogo da exposição organizada
Catálogo da exposição organizada pelo Musée National des Beaux-
em Madrid pela Fundación MAPFRE e pelo Museu Rodin de Paris. p.
arts du Québec e o Musée Rodin de Paris.