Kiosko y Más - El País (...15 may. 2014

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Kiosko y Más - El País (...15 may. 2014
Revolução solar no Atacama:
espanhola Abengoa constrói
primeira usina termosolar da
América Latina
19/05/2014
Por Frederico Füllgraf
Especial para Jornal GGN
Quando a van estacionou, a imagem da bizarra tenda branca, erguida no
nada do deserto de Atacama, pedia como trilha sonora aquela melancólica
canção “Tea in the Sahara”, de Sting, cujos versos advertiam: “Por favor,
não nos pergunte por que // Sob o céu protetor // Sofremos dessa estranha
obsessão (...)”.
Com um amplo salão de recepção e um auditório para 200 pessoas,
equipado com som e vídeo, a tenda fora armada pela empresa espanhola
Abengoa, onde uma comitiva de 150 pessoas - encabeçada por altos
funcionários do governo chileno e executivos espanhóis, e acompanhada
por vários canais de TV e correspondentes estrangeiros no Chile - foi
saudada no último dia 14 de maio por uma plêiade de recepcionistas
escolhidas a dedo, com água, sucos e coquetéis de frutas, após breve e
poeirenta travessia do deserto ocre, desde o aeroporto de Calama, 1.500
km ao norte de Santiago.
Com vôo fretado desde a capital e um coquetel de boas-vindas – canapés,
presunto cru, vinhos de primeira e champanhe a rodo - a empresa
espanhola não poupou gastança em marketing para seu grande evento no
país andino: o lançamento da pedra inaugural daCentral Termosolar
Cerro Dominador, no distrito de María Helena, a poucos quilômetros da
fronteira com a Bolívia.
A virada energética do Governo Bachelet
A Abengoa tinha motivos de sobra para a festa: semanas antes, fora
aprovado seu RIMA-Relatório de Impacto Ambiental, e o Ministério de
Bienes Nacionales (Ministério do Patrimônio Público) anunciara a concessão
de terrenos pelo prazo de 30 anos para a implantação de 43 projetos do
programa ERNC-Energias Renováveis Não Convencionais, concentrados nas
regiões de Tarapacá, Antofagasta e Atacama, extremo norte do Chile;
concessões finalmente oficializadas no dia 17 de maio pelos ministros Víctor
Osorio (Patrimônio) e Máximo Pacheco (Energia), pelas quais o Estado vai
cobrar aluguéis de 7 milhões de dólares anuais.
A medida, finalmente, deslancha o que do início ao fim da administração
Sebastián Pinheira eram boas intenções esboçadas no papel, porém jamais
colocadas em prática. De 2010 em diante, multiplicaram-se as críticas,
segundo as quais o Chile não tinha uma política energética e a insinuação
de que Piñera se tornara refém da multinacional espanhola Endesa, que
monopoliza a construção e exploração de hidrelétricas e controla
aproximadamente 60% das águas do Chile, totalmente privatizadas.
A atual capacidade bruta instalada do Chile é de 18.278 Megawatts, à que
as concessões recém-outorgadas agregarão 12,3% até 2025, mas
com 100% de fontes energéticas limpas. Em sua maioria, trata-se de
projetos fotovoltaicos, termosolares e eólicos de 20 empresas, sobretudo
internacionais, que injetarão 2.261 MW adicionais de potência/ano no SINGSistema Interconectado do Norte Grande, com investimentos que
totalizarão 20.75 bilhões de dólares, cerca de 34,4% do total destinado até
2020 ao desenvolvimento do norte mineiro do Chile.
Voracidade energética e poluição ambiental do setor mineiro
Uma das críticas mais contundentes ao sistema elétrico do Chile é seu
caráter de “Babel energética”: no país operam 4 sistemas de interconexão
regionais, mas de modo isolado, sem qualquer interligação, vetada por lei
até 2013, mas desbloqueada pela emenda legislativa 9022 que, finalmente,
permitirá a criação do SIC-Sistema Interconectado Central.
A pressão política para agregar 2.261 MW adicionais ao sistema elétrico até
2025 explica-se: é o prazo estipulado para investimentos da ordem de 100
bilhões de dólares no setor mineiro concentrado no Atacama.
Números eloquentes ilustram a voracidade energética das mineradoras: em
2012, enquanto o consumo residencial não excedia os 16,5%, o setor
mineiro abocanhou 35% da geração elétrica chilena. Com taxa de
crescimento de 6,% ao ano, esta cifra deverá expandir-se para 45% em
2020, motivo pelo qual vozes como a de Rodrigo García, diretor da AceraAssociação Chilena de Energias Renováveis, defendem a auto-geração e suficiência energética do setor: “Está na hora das mineradoras meterem a
mão no próprio bolso, deixando de pressionar as redes e geradoras para
que lhes transportem energia desde distâncias absurdas”, adverte García.
Não menos absurdo é o balanço ambiental da geração de energia para as
mineradoras: segundo medições da Pacífic Hydro e do Programa de Gestão
e Economia Ambiental (Progea) da Universidade do Chile, em 10 anos as
emissões de C02 das termoelétricas, movidas a carvão ou óleo importado,
aumentaram em 160% apenas no Sistema Interligado Central, onde
operam
88
usinas
termoelétricas;
cenário
que
se
agrava
assombradoramente no SING do norte chileno, onde as termoelétricas
detém 99,6% - eufemismo que esconde redondos 100% - das fontes
de geração.
Igualmente enérgico em sua avaliação do protagonismo das
mineradoras é Iván Couso, ex-coordenador do Programa País de
Eficiência Energética durante o governo Ricardo Lagos e atual
coordenador do Programa de Acompanhamento Legislativo de
Mineração, Energia Sustentável e Proteção dos Recursos
Naturais. Segundo Couso, “o que pode acontecer é que 70% da
população se tornem dependentes do que é decidido em uma zona
que mal cobre 5% do território nacional”.
Atacama: a radiação solar mais intensa do planeta
O reparo com maior unanimidade ao sistema elétrico é de que, há décadas,
o Chile vem desperdiçando o aproveitamento de uma das maiores bênçãos
naturais de seu norte extremo: o sol.
Após 18 meses de pesquisas in situm da radiação global horizontal que
incide sobre o território do país, cientistas da Universidade do Chile
confirmaram em 2012 que, com índices de radiação solar estimados entre 7
e 7,5 kwh/m2, o Norte Grande – região integrada por territórios
arrebatados pelo Chile à Bolívia e ao Peru, após a Guerra do Salitre (18791883), especialmente o deserto de Atacama, com 100.000 km2 e índices de
radiação entre 2.500 y 3.000 kWh/m2/ano – é a zona do planeta com o
maior potencial para a geração de energía solar em escala global. A bênção
é de tal ordem que, estimativamente, uma área de 20 x 20 km salpicada de
painéis fotovoltaicos poderia cobrir a demanda energética de todo o país.
Roberto Rondinelli, pesquisador do Departamento de Geofísica da
Universidade do Chile, justifica as especifidades da locação chilena,
explicando que na determinação do grau de radiação solar influem a
latitude, como também a elevação sobre o nivel del mar, que no Atacama
pode atingir 4.000m: quanto maior a altitude, menor a dispersão que a
radiação experimenta em sua trajetória à superficie terrestre. Mas uma das
chaves para a determinação do potencial de radiação é a distribuição de
água na atmosfera. Em se tratando de região equatorial com incidência
quase vertical, a umidade é dispersada pela radiação; fenômeno que, com a
ajuda da Corrente de Humboldt, fez do Atacama o deserto mais seco do
mundo.
Ranking mundial de radiacão solar
Localização / Deserto
Radiação (W/m2)
km2 para gerar 3 TW
Atacama, Chile,
275
136,4
Oriente Médio Arábico
270
138,9
Saara, África
260
144,2
Great Sandy, Austrália
265
141,5
Great Basin, EEUUA
220
170,5
Projeto Termosolar Cerro Dominador
Com María Helena, antigo centro de exploração do salitre, a espanhola
Abengoa escolheu, tal como apontado por Rondinelli, uma das melhores
locações para a instalação da Usina Termosolar Cerro Dominador, o que
explicava a distribuição pelo motorista da van que nos transportava, de
bloqueador solar com fator de proteção 50.
Selecionada mediante edital internacional pelo Ministério da Energia e a
Corfo-Corporación de Fomento de la Producción (espécie de CNI), no apagar
das luzes do governo Piñera, cabe à empresa espanhola erguer uma usina
solar de tecnologia de torre, com capacidade geradora de 110 MW e18
horas de armazenamento de energia térmica em sais fundidos.
O portfolio internacional da Abengoa contabiliza 1.223 MW de potência
comercial em operação, 430 MW em construção e 320 MW em estágio de
pré-construção, com projetos distribuídos entre Espanha, EEUUA, África do
Sul, Argélia e Emirados Árabes Unidos.
Sua tecnologia de torre é inédita em toda a América Latina. Ela supera em
20% a produtividade energética dos tradicionais sistemas fotovoltaicos e
apoia-se na experiência da Abengoa com a instalação, em 2009, do
complexo termosolar de Sanlúcar la Mayor, em Sevilla, na Espanha, o
primeiro e maior da Europa.
No Atacama, a usina ocupará uma área de 700 ha de campo solar circular,
cujo centro é ocupado pela torre. A superfície refletora por heliostato é de
140 m2. Estes acompanham a trajetória do sol, movendo-se sobre dois
eixos, projetando e concentrando a radiação captada em um receptor
situado a 220 m no cimo da torre, que mede 250 m de altura. Neste
receptor o calor é transferido para os sais fundidos. Ideia aparentemente
simples, a tecnologia visa ao aproveitamento de altas temperaturas da
radiação solar para fundir sais que, em contato com água, mediante
trocadores de calor, produzem vapor sobreaquecido para acionar uma
turbina, que no caso de Cerro Dominador deverá gerar até 110 MW.
Saturados, então os sais aquecidos são recolhidos a um conjunto de
tanques, onde, teoricamente, deverão armazenar calor durante 17 horas.
Na última década, a industria elétrica espanhola desempenhou-se como
motor de P&D da fonte solar térmica em nivel mundial. Segundo
engenheiros da Abengoa, que patenteou seu sistema de armazenamento
térmico, considerado pioneiro, a tecnologia proporciona alto grau de
agilidade, capaz de abastecer uma rede de forma estável as 24 horas do dia
e responder a picos de demanda de consumo.
Orçado em 1,0 bilhão de dólares, como pontapé inicial, o projeto recebeu
um modesto subsídio de 20 milhões de dólares do Ministerio da Energia,
mas o governo chileno encabeçou as negociações de seu financiamento
integral, do qual participam o BID, o Clean Tecnology Fund, o Banco de
Desenvolvimento alemão, KFW, e a União Europeia.
Novo paradigma: energia mais limpa
O balanço energético e ambiental das fontes fotovoltaica e termosolar é
altamente positivo. Descontadas as emissões de CO2 resultantes do
derretimento de silício para a produção de células e paineis fotovoltaicos,
todas as etapas posteriores da operação de sistemas e usinas de geração
elétrica de fonte solar apresentam balanço energético-ambiental
equilibrado.
A Usina Termosolar Certo Dominador é a pedra de toque do programa
nacional chileno de redução da dependência de fontes fósseis,
particularmente o carvão e o gás natural. Em operação, o complexo evitará
a emissão de aprox. 643.000 t CO2 ao ano, equivalentes às emissões de
357.000 vehículos em circulação durante um ano inteiro.
Em contraste, os números assombradores: em 2011, as termoelétricas à
carvão, gás e diesel do Sistema de Interligação Central, geraram 17,7
milhões t de CO2, equivalentes a 17% do total de CO2 emitido por todo o
Chile.
Sem políticas claras e diretrizes concretas para a proteção do meioambiente, no quesito energia, contudo, o Governo Bachelet acionou o
alarme. Apostando na gradual substituição de paradigma, a meta ambiciosa
estabelece que, em onze anos, 45% da energia gerada no país andino
deverão ser de origem renovável – uma virada louvável no cenário
energético-ambiental do Continente.