Carretera Austral

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Transcrição

Carretera Austral
Internacional
GRAZIELA OLIVEIRA | RJ
Paraclimb
A histórica cidade de Jaca (Espanha) reuniu nos dias 29 e 30 de janeiro os
escaladores nos Pirineus. O evento, que
não parou de crescer desde a sua criação, traz um programa intenso de atividades para os dois dias, com uma grande concorrência. ”Os prêmios em dinheiro, camisetas, lanches e várias outras
premiações são alguns dos ganchos utilizados na publicidade. Mas, sobretudo,
pela novidade do VII Encontro Internacional de Escaladores nos Pirineus é a inclusão do Open Paraclimbing, uma competição destinada aos praticantes porta-
Paraclimbing
10b na infância
O italiano Tito Claudio Traversa, 9 anos
encadenou o seu primeiro 10b (8b) em
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Tito Traversa
18
Castillon, França e se tornou o escalador
mais jovem a mandar uma via nessa dificuldade do alto dos seus 1,35m de altura!
Ondra havia realizado o feito aos 11 anos
de idade.
A aventureira do Ano - 2010
A montanhista Edurne Pasaban recebeu o
prêmio Aventureira do Ano da National
Geographic, ela reuniu no currículo 14
montanhas acima de oito mil metros.
Nova rota no Pilar Casarotto
O escalador brasileiro Sérgio Tartari, junto
com os argentinos Luciano Fiorenza e
Jimmy Heredia abriram Al Abordaje! uma
via de 25 enfiadas e grau 6b A2 no pilar
colado ao Fitz Roy.
“São mais de 1000m de excelentes
Pilar Casarotto colado a direita do Fitz Roy
fissuras”, comentou Fiorenza após a conquista.
Errata: Dreamtime diferente do que foi colocado na coluna passada é um
problema em Cresciano, Suíça.
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dores de necessidades especiais. A organização do Open Paraclimbing ficou
sob a tutela de Manuel Suarez, guia de
montanha e gestor do grupo paraclimbing
de Aragão. A idéia foi acomodar qualquer
escalador portador de necessidade especial, seja ela visual, mental ou física. O
evento tem o formato de top rope, exigindo o uso do capacete. O campeonato premiou os vencedores Urko Carmona,
Ricardo Perez, Óscar Domínguez e Cepero
Manuel.
03
Guia de Trilhas
traz a Patagônia chilena ao Brasil
A Carretera Austral é uma importante via de
acesso e circulação por grande parte da
Patagônia chilena. Até a década de 70, essa
imensa região encontrava-se isolada e
acessível apenas por barcos ou eventuais
trilhas vindas da Argentina
Turistas do mundo todo visitam a Patagônia
chilena em busca de aventura ao longo de
seus 1.200 km aproximados de extensão.
Diversos livros de referência indicam esse
roteiro como “uma das maiores aventuras
de contato com a natureza disponíveis no
planeta”. E não há exagero algum nessa
afirmação.
O Guia de Trilhas Carretera Austral, escrito
por Guilherme Cavallari e publicado pela
Kalapalo Editora, apresenta o mapeamento
completo e minucioso desse roteiro. Esse
inclusive é um fato inédito no mercado editorial mundial, já que não existem livros ou
guias de viagem com esse trajeto mapeado em tamanho detalhe.
O livro traz a Carretera Austral dividida em trechos de, no máximo, 130 km minuciosamente descritos em fotos coloridas, gráficos de altimetria, indicações de hospedagem, alimentação e abastecimento, contatos locais, explicações sobre história, cultura e, principalmente, possibilidades de aventura. O mapeamento foi desenvolvido
para cicloturistas, aventureiros que se deslocam em bicicletas, mas serve perfeitamente para turistas de carro ou moto.
À venda em livrarias, lojas especializadas em aventura e lojas de bike em todo o país
e pelo site da Kalapalo Editora (www.kalapalo.com.br)
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Guia de Trilhas Carretera Austral
Formato 21 x 15 cm
136 páginas coloridas - R$ 39,00
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04 ecos
Montanhistas prestam
homenagem a
Bernardo Collares
ASSESSORIA DE IMPRENSA FEMERJ | RJ
Janeiro de 2011 foi um mês muito triste para o montanhismo. Além das
chuvas que devastaram a região serrana do estado do Rio de Janeiro, local
que conta com muitos pontos para a prática do montanhismo, entre eles
Salinas (Friburgo) e Serra dos Órgãos (Teresópolis), esse mês ainda testemunhou a morte de Bernardo Collares, montanhista, presidente da Femerj
(Federação de Esportes de Montanha do Rio de Janeiro) e vice-presidente da
CBME (Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada).
A morte de Bernardo foi muito sentida pela comunidade de montanhistas de
todo o Brasil, pois, além de um excelente montanhista, Collares era uma
pessoa muito empenhada em difundir e defender o esporte. Com a experiência adquirida nos 10 anos à frente da Femerj, sua atuação serviu como exemplo e inspiração para todas as outras organizações ligadas ao montanhismo
surgidas desde então.
Entretanto, mais do que simplesmente respeitado, Bernardo era muito querido pela comunidade de montanha em todo o Brasil, o que pode ser testemunhado por conta de todas as homenagens realizadas em diversos cantos
do país no dia 15 de janeiro.
O Rio de Janeiro, cidade de Bernardo, não poderia ficar de fora e nesse dia as
montanhas da Urca (Babilônia, Morro da Urca e Pão de Açúcar) foram invadidas por dezenas de cordadas cujos participantes reuniram-se posteriormente na Praça General Tibúrcio para uma série de homenagens que tiveram
início com os presentes fixando, no monumento do local, fotos antigas tiradas junto com Bernardo. Na ocasião, muitos subiram as escadas do monumento para proferir palavras em homenagem a ele. Além disso, mais de sete
pick-ups com donativos para as vítimas das chuvas foram lotadas.
A Associação de Escaladores do Rio Grande do Norte (AERN) ocupou diversas vias de Serra Caiada, principal setor de escalada no estado, quando o
Diretor Técnico falou sobre a importância de Bernardo para a organização do
esporte no Nordeste e sobre a sua passagem por lá em 2005.
No Paraná, a convocação foi para uma invasão no complexo do Anhangava e,
em São Paulo, a Associação Fernão Dias de Montanhismo escalou as vias
do Baú e realizou uma bonita homenagem no cume do Bauzinho.
Em Feira de Santana/BA, o Clube Baiano também ocupou as vias de Monte
Alto em homenagem a Bernardo e o mesmo ocorreu em Caeté, Minas Gerais, onde, apesar da chuva, a Pedra Branca foi subida no mesmo espírito.
Ainda em Minas Gerais, na Serra do Lenheiro, local bastante frequentado por
Bernardo, além das escaladas, foi conquistada a via “Um minuto de silêncio”
em sua homenagem. Essa conquista, inclusive, é apenas uma das muitas
que estão sendo realizadas em homenagem ao “Eterno Presidente”, nome
de outro projeto, assim como “Cabeção”, outro apelido de Bernardo.
Apesar de, evidentemente, uma certa dose de tristeza e melancolia estarem
presentes em todas essas homenagens, Bernardo é o maior exemplo que
uma pessoa generosa e comprometida com seus ideais pode continuar viva
e presente muito tempo depois de sua morte.
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Carretera Austral
05
Existem locais para a prática da escalada que são considerados mágicos ou
indispensáveis dentro do imenso circuito de points espalhados pelo globo afora, mas que você só entende o porque
de tal denominação após estar presente e experimentando de tal magia. E um
desses locais que, com certeza, não
pode passar em branco para qualquer
escalador é São Bento do Sapucaí. E
apesar de ser esta mais uma matéria
entre tantas já escritas sobre São Bento do Sapucaí , a mesma traz um ponto
de vista sobre a constante evolução que
São Bento presencia e de como a comunidade local reage perante esta evolução.
Desde o dia que conheci São Bento do
Sapucaí, houve alguma atração por esta
cidade que atinge não só quem escala
e fica deslumbrado com tamanha
imponência do conjunto da Pedra do
Baú, mas também em todos visitantes
ou turistas que visitam a cidade, uma
atração que é manifestada em uma sensação de ter encontrado um cantinho
para passar o resto da vida, e que no
meu caso e de muitos outros “forasteiros”, se converteu em um sonho a ser
perseguido com afinco. Existem na Europa cidades que possuem as mesmas
06 esportiva
on
the
características de São Bento do Sapucaí
, onde as montanhas e a escalada vivem em parceria com a comunidade local e a mesma vive em função do turismo de aventura e da escalada. Porém,
ainda que cidades como Chamonix , na
França, e Arco, na Itália, tenham sido o
berço da escalada mundial, existe algo
que todo brasileiro que vive no exterior
sente falta, que é a família e os amigos,
e do bom e velho arroz com feijão, então, porque não conciliar tudo isso com
a simplicidade de uma cidade típica do
interior com os encantos que São Bento do Sapucaí oferece de mais completo para todos os estilos de escalada?
Desde o boulder até as grandes paredes, São Bento do Sapucaí atende todo
o tipo de escalador e nível e vem evoluindo e sendo apresentada ao circuito da
escalada mundial como um dos excelentes locais a serem visitados por
escaladores de qualquer nacionalidade.
Uma simples visita turística até o complexo do Baú já é por si um contato com
a rocha, e uma caminhada até qualquer
um dos seus cumes é presenteada com
um visual tremendo e uma experiência
leve, mas que marca um passo pretendente a um contato mais profundo com
a escalada.
Desde a primeira ascensão da Pedra
do Baú, realizada por visionários locais
e movidos pelo encanto que as montanhas exercem sobre nós humanos, a
escalada em São Bento esteve em
constante evolução, sendo explorada a
fundo a vasta superfície vertical do complexo do Baú onde hoje existem vias
de grande imponência até mesmo para
os escaladores que dominam e modalidade de vias longas.
Dentro da escalada esportiva, existem
hoje muitos points e setores que também foram explorados e que sofreram
uma adaptação sobre graus e estilos
impulsionados por novas gerações que
tratam de “devorar” as vias existentes e
proporcionando uma evolução não só no
grau, mas na quantidade e qualidade
de vias existentes na região.
Já no boulder, esta modalidade sempre
passou como uma forma mais simples
de se manter escalando quando as condições não eram favoráveis a enfrentar
outras escaladas, mas nunca passou
em branco.
O boulder sempre esteve presente na
história da escalada em SBS, mas sempre foi considerado na escalada como
“partes “ou “pedaços” de rocha que se
soltaram das paredes existentes e que
eram encontrados nas trilhas de acesso às vias.
Mas foi por volta de 2000 que o boulder
se desenvolveu e passou a ser visitado
e explorado por mais uma gama de
escaladores aficionados pela modalidade, com a idealização e realização do
primeiro BLOX em 2001 (evento organizado pela Montanhismus), em que houve uma enorme repercussão e a realização de outras edições posteriores, provando que a evolução está aí, estampada em publicações de vários meios de
comunicação,
com
ascensões
marcantes não só para SBS, mas para
o esporte nacional e reconhecido internacionalmente como um excelente point
para a modalidade.
Lugar incrível
São Bento do Sapucaí conta com uma
gama de points e setores imensa para o
boulder, sendo impossível visitar todos
em um fim de semana. Conta com uma
quantidade e qualidade que variam de
V0 a V14 e com linhas de altíssimo grau
de dificuldade, concentradas todas em
uma só região, e que recebe hoje uma
quantidade significativa de escaladores
de outras cidades, estados e países.
Como toda evolução vem acompanhada
de alguns inconvenientes, São Bento do
Sapucaí e sua evolução não são exceção, e sendo este assunto sempre extremamente polêmico e não existindo um
manual de normas concretizadas, regulamentadas e divulgadas, a conduta do
escalador perante a escalada na região
depende muito de um bom senso que
muitas vezes é esquecido e que acaba
por trazer problemas mais sérios e que
travam tal evolução. Portanto este texto
não pretende passar uma lista de regras
e posturas para com a escalada local,
até porque isto já foi imensamente discutido, servindo de palco para discussões e intrigas homéricas, mas vem para
servir como um alerta e tentar passar um
pouco do ponto de vista local, de como a
escalada e os escaladores é vista pela
comunidade nativa da região.
O ritmo de uma cidade do interior não
acompanha o ritmo dos visitantes de
outras cidades, principalmente dos grandes centros como São Paulo, que está
a menos de 200 km de distância de SBS,
mas recebe uma quantidade enorme de
visitantes, turistas e escaladores, o que
pode gerar conflitos de tempo e espaço.
No que diz respeito ao tempo, o visitante
tem que se ajustar ao ritmo e estilo de
vida local, e não o contrário. No que se
refere a escalada, este tempo vem acompanhado de um ritmo frenético na luta
contra o relógio para tentar mandar ou
encadenar aquele projeto sonhado, que
por sua vez pode ser visto com estranheza por moradores locais ao testemunhar gritos e alguns palavrões no momento da empolgação, ou por muitas
vezes, levar a escalada até horas da noite
ou até mesmo da madrugada, tentando
aproveitar ao máximo do “tempo” disponível para escalar, mas esquecendo que
se trata de uma região habitada em sua
maioria por produtores rurais que tem em
seu ritmo e “tempo”a hora de descanso
para poder levantar muito cedo e cuidar
de seu afazeres.
E no que diz respeito ao espaço, praticamente 100% dos points de escalada
em São Bento estão em terras particulares, frequentada constantemente por
uma legião de pessoas carregando mochilas pesadas ou colchões nas costas,
sendo esta frequência possível graças a
acordos de ambas as partes,
escaladores X proprietários. Infelizmente determinados acordos foram desrespeitados e como consequência o point
proibido de acessar, fato comum ultimamente, não percebendo que as terras
para os habitantes locais é uma extensão de seus quintais, delimitados por
cercas e porteiras que, normalmente,
nenhum de nós gostaria do fato de que
em pleno fim de semana com sua família em casa, ter que abrir e dar passagem em seu quintal para os “seres carregadores de peso das costas”.
Morando nesta cidade há um ano e meio,
não posso me considerar um “local”, até
porque não nasci aqui, mas umas observações mais profundas de como as
ver em suas terras e estradas somente
gado, cavalos e veículos para trabalho,
estar em contato com veículos novos,
pessoas diferentes e uma onda impulsionada pelo turismo e esportes praticados, leva mais tempo ainda nesta fase
de adaptação, mas que em sua grande
maioria a simplicidade local é que garante uma boa aceitação desta “invasão”
vertical. Cabe a nós, da comunidade
“climber” desprender algum tempo e
visualizar por outro ângulo tudo o que envolve os points de escalada pelo mundo
afora.
Viver em São Bento do Sapucaí é a realização de um sonho, o de poder viver
em um local cercado de escalada e da
escalada, calmo e tranquilo, mas mais
do que isso, com a possibilidade de enxergar como a vida pode ser levada de
uma forma mais simples e em um ritmo
mais adequado ao da escalada e em sua
plenitude, levando o esporte até os locais de uma forma que possa haver um
convívio mútuo e ainda poder contribuir
para a evolução constante do esporte no
Brasil, algo que já bem visto até pelos
grandes nomes do boulder mundial, mas
que depende de todos os frequentadores
de todos os points do Brasil estarem
atentos sobre tais condutas.
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Eliseu Frechou
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Tiago Balen no IV BloX, evento que abriu e desenvolveu
vários points de escalada na região.
coisas e as pessoas funcionam em cada
point de escalada visitado, sempre foi prioridade antes de simplesmente chegar,
entrar, passar, escalar e ir embora sem
ao menos pedir licença e ser educado
para com a comunidade local, princípios
básicos de uma boa convivência e que
podem
trazer
benefícios
ou
consequências a cada ato individual ou
coletivo tomado. Trocar São Paulo por
SBS foi também fazer uma troca de estilo de vida e se adaptar ao estilo local
leva muito tempo. Ou seja, para quem
vem de fora somente para um final de
semana é praticamente impossível
desvincular dos hábitos “fast Climb” dos
grandes centros, muito menos enxergar
a vida local com outro olhos. Estar presente nos points de escalada, abrindo e
conquistando novos boulders ultimamente é estar em contato com proprietários
dos mesmos blocos, e o que para eles
antes não passava de uma pedra no meio
de sua plantação, agora é um local para
a prática do esporte. Essa relação
proprietério X escalador tem que ser delicada e respeitosa. Com uma aproximação mais cautelosa, consigo ver que a
própria visão dos proprietários locais tem
mudado, uma visão mais ampla, desde
que respeitados. E para quem durante
anos ou a vida toda foi acostumados a
07
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“A morte de Bernardo nos deixou todos um pouco órfãos, mas se há uma forma de honrarmos a sua memória é não permitirmos desmoronar o seu inestimável legado. Ele não nos
perdoaria por isto.”
Dia de semana, dia de trabalho, calor intenso de verão carioca. Volto do almoço e
dou uma passadinha no gabinete antes
de uma reunião que me consumiria a tarde inteira, e apenas por vício dou uma
espiadela no correio eletrônico, onde,
como sempre, diversas mensagens novas já me aguardavam, mas uma logo
chamou a minha atenção. Com letras
maiúsculas, seu título era: “PATAGÔNIA
URGENTE”. Lembrei-me que muitos amigos haviam viajado para lá nesta temporada e o coração começou a bater forte.
Quando a abri e li o seu conteúdo, comecei a tremer todo. Não tinha mais reunião,
não tinha mais trabalho, não tinha mais
nada. O indizível havia acontecido. O
Bernardo havia morrido no Fitz Roy!
Embora a mensagem começasse afirmando a sua morte, abaixo era dito que
esta era, na verdade, uma suposição devido às circunstâncias, porém feita por ninguém menos do que a Comissão de Resgate de El Chaltén, a pequenina cidade
aos pés das fantásticas torres graníticas
do sul da Patagônia argentina que a cada
ano atraem, como as lâmpadas a cada
noite atraem as mariposas, centenas de
escaladores de todas as nacionalidades
em busca das aventuras de suas vidas.
Chegaram a esta sombria conclusão a
chefe da equipe, Carolina Codó;
resgatistas voluntários, dentre os quais um
dos mais experientes escaladores do planeta e profundo conhecedor das condições
locais, Rolando Garibotti; e guias europeus da UIAGM. Não havia dúvidas, por
mais que eu e todos que o conheciam
quiséssemos que elas existissem...
O acidente
Quatro dias antes ele partira de El Chaltén
para tentar repetir a longa via Afanassieff,
08 ecos
na face oeste da montanha – a mais batida pelos furiosos ventos patagônicos - em
companhia de Kika Bradford, e no primeiro dia fizeram um progresso excepcional
devido ao tempo favorável e ao conhecimento prévio da parte inferior da escalada, adquirido em uma tentativa fracassada no ano anterior. No dia seguinte continuaram evoluindo bem, superando as
principais dificuldades e fazendo um segundo bivaque a cerca de 400 metros do
topo. O objetivo era fazer cume no dia seguinte e rapelar pela via Franco-Argentina,
bem mais curta e vertical e, portanto, muito mais adequada à descida, mas um forte nevoeiro matinal os levou a, prudentemente, tomar a difícil decisão de descer,
não só pela frustração como, também, por
saberem da complexidade da tarefa, com
milhões de pontos onde a corda poderia
agarrar.
Só que logo no quinto rapel, quando Kika
já havia descido e preparava a ancoragem
seguinte, as peças nas quais a corda única pela qual rapelavam estava montada
saíram e ele voou. Nestas circunstâncias,
o esperado era que ele caísse até a base
da montanha, ou ao menos até um ponto
bem mais abaixo, levando consigo as
duas cordas (a outra estava dobrada atrás
do seu pescoço), deixando-a em uma situação verdadeiramente desesperadora,
mas o destino deu uma colher de chá: a
corda passou por trás de uma pedra e,
assim, Kika, no reflexo, foi capaz de travála com as mãos. Além disso, a segunda
corda parou a exatos 60 metros abaixo,
permitindo que fosse recuperada por ela
mais tarde. O problema é que na queda,
que foi de uns 15 ou 20 metros, ele bateu
com violência na parede e provavelmente
quebrou a bacia e teve uma hemorragia
interna. Ela imagina que tenha sido isto
ou coisa ainda pior, como uma fratura de
coluna, mas saber a lesão exata é
irrelevante, pois, seja como for, o fato é
que ele não conseguia se mexer. Quando
enfim recobrou a consciência, Bernardo
sofria dores lancinantes, e disse a ela que
não se achava capaz de chegar sequer ao
dia seguinte sem um resgate de helicóptero... Por isso ele próprio pediu que ela
descesse imediatamente para buscar ajuda, e que lembrasse a todos que todas as
decisões naquela escalada, assim como
em todas as outras que haviam feito juntos, tinham sido tomadas de comum acordo.
Kika o estabilizou como pode, deixou com
ele o único saco de dormir que possuíam,
assim como água e alguma comida, e
despediu-se prometendo descer o mais
rápido que pudesse, mas não sem
lembrá-lo de que obviamente só no dia
seguinte é que conseguiria dar o alarme.
O momento de uma despedida como
essa é, sem dúvida, um dos mais intensos pelos qual qualquer pessoa poderia
passar, mas para dar ao menos uma
chance ao amigo, e ela própria ter a oportunidade de sobreviver, Kika manteve o
foco em cada procedimento técnico e
rapelou sob neve intermitente até ao anoitecer, bivacando, ainda sob neve e vento
muito forte, no mesmo ponto onde haviam
passado a primeira noite. No dia seguinte, sempre sob um vento gelado implacável, continuou descendo e chegou de volta
à base da via em torno das 15h30m,
exausta física e emocionalmente, mas
ainda havia o glaciar a ser cruzado de volta à segurança da moraina.
Ela deixou para trás todo o equipamento
supérfluo, levando consigo apenas o necessário para tentar se safar caso caísse
em uma greta, mas tudo acabou dando
certo e, perto do final do dia, encontrou o
seu namorado argentino e um amigo, que
haviam ido até lá para ver se estava tudo
bem. Eles passaram um rádio para El
Chaltén, avisando do acontecido e a escoltaram até um pequeno refúgio a duas
horas de onde se deixa o carro, onde passaram a noite. Foi então que a Comissão
de Resgate local se reuniu, juntamente
com uma série de experientes
escaladores que se ofereceram como voluntários, caso um resgate fosse possível, mas juntos concluíram pela sua impossibilidade, pois mesmo uma equipe
muito forte, em condições favoráveis, levaria três dias para chegar até lá com uma
maca rígida, indispensável naquela situação, e simplesmente não havia janela de
tempo bom para isso... Por outro lado, não
havia helicóptero disponível na região naquele momento e, mesmo se houvesse,
provavelmente não poderia levantar voo,
pois o vento não permitiria. Nosso amigo
querido estava condenado. O único consolo que restava a todos é que era pouco
provável que ele tivesse resistido até mesmo à primeira noite, desgastado como estava pela escalada, apresentando lesões
tão sérias, sem conseguir sequer se mexer em um saco de dormir molhado, deitado em um minúsculo platô exposto aos
ventos mais inclementes de uma região
inclemente e debaixo de uma nevasca! Ele
próprio, aliás, pressentira esta possibilidade...
No dia seguinte ela retornou a El Chaltén,
e foi apenas no início da tarde deste quinto dia desde a sua partida para a montanha é que eu recebi a terrível notícia do
ocorrido. Infelizmente esta não era exatamente uma novidade para mim, já que
Bernardo era o quinto amigo que perdia
escalando, mas foi decerto, a perda mais
O amigo
Conheci Bernardo Collares Arantes no
Clube Excursionista Carioca (CEC) em algum momento dos anos 90, não me recordo exatamente quando. Nós nos encontrávamos nas reuniões e nos eventos
sociais do clube, mas no início não éramos parceiros habituais de cordada. Eu
tinha uma série de projetos em mente e
ele ainda não havia se convertido no
escalador compulsivo que viria a ser, mas
sempre nos demos muito bem e não havia como ser diferente: Bernardo era um
tipo bem-humorado, com um sorriso fácil
e largo e sempre disposto a ajudar quem
dele precisasse.
Com o passar do tempo, no entanto,
Bernardo foi se envolvendo cada vez mais
seriamente com a escalada, ajudado pelo
fato de ter um emprego absolutamente
perfeito para isso: trabalhava com o tio em
um cartório no Centro do Rio, ganhando
por produtividade. Não tinha obrigação de
comparecimento, nem horário rígido; se
trabalhasse, ganhava, se não, não. Simples assim. Igualmente simples era a sua
vida doméstica, pois, solteiro convicto,
morava em um pequeno apartamento no
bairro do Flamengo, que por falta de aptidão de seu dono para as lides domésticas era conhecido como “o muquifo”. O
mesmo já não se podia dizer de sua movimentada vida amorosa, uma novela palpitante e pouco repetitiva, repleta de cenas
eletrizantes e tramas paralelas que acompanhávamos estupefatos à distância, mas
que apenas parecia fazer com que as
mulheres ficassem cada vez mais apaixonadas por ele...
Embora praticasse escalada esportiva
com frequência, e fosse figura fácil no
murinho da Limite Vertical, seu maior interesse eram as vias tradicionais, em móvel ou em grampos, de preferência as
mais longas e comprometidas – um caminho que inevitavelmente o levaria a El
Chaltén. Fizemos portanto algumas boas
escaladas juntos, das quais eu destacaria a conquista de duas imensas montanhas virgens, o Pontão Maior de Águia Branca, no Espírito Santo, e o Pontão Médio de
Mantena, em Minas Gerais, ambas em
2001. Na primeira subimos em estilo alpino uma via de 530 m de extensão deixando apenas um grampo pelo caminho, seguindo um óbvio sistema de chaminés
empoleirado sobre um costão descomunal. Chegamos ao cume no final do dia,
sob chuvisco onde estávamos e fortes
temporais ao redor, rapelamos noite adentro e acabamos bivacando sob chuva fina
sentados em um minúsculo platô inclinado, mas o dia seguinte amanheceu melhor e a descida pode ser concluída sem
sobressaltos. Fomos recebidos com festa pela população da região, que abateu
um novilho para comemorar o nosso feito
com um churrasco, e ele adorava contar a
história da cara das pessoas quando eu
disse que não comia carne vermelha e de
suas infrutíferas tentativas em me fazer
abrir uma exceção, mesmo eu garantindo
que compensaria com cerveja a ausência
daquelas proteínas. No final, um peixinho
surgido não sei de onde resolveu o
impasse. Pura aventura, puro comprometimento e, depois, pura diversão – tudo o
que buscávamos! Em Mantena, como é
comum acontecer nestes casos, gastamos o primeiro dia apenas abrindo com
facão a trilha até a base da montanha, seis
horas de trabalho duríssimo, parte debaixo de um violento temporal de raios e ele
quase sendo picado por uma cobra
peçonhenta. No segundo dia, subimos rapidamente por uma via toda em móvel,
batendo apenas um grampo no cume, para
rapel. O nome da via, Cobra Criada, remetia à jararacuçu da véspera. Nesta mesma viagem ainda tentaríamos subir o Pão
de Açúcar de Águia Branca, onde fomos
detidos por outra forte tempestade de verão, e fizemos a primeira repetição da Pedra do Dedo, em Cristalina (Nova Venécia
– ES), 41 anos após a sua conquista por
um grupo do CERJ.
Destaquei estas duas porque elas representam bem o espírito livre que gostávamos de desfrutar nas nossas viagens de
escalada, descomprometidos com as obrigações da vida (eu havia juntado dinheiro,
pedido licença sem vencimentos e estava
há quase um ano sem trabalhar à época),
mas absolutamente comprometidos com
a aventura e com o estilo de nossas vias.
E esta era outra característica que nos unia
bastante: o respeito às tradições e a ética
do nosso esporte, traço de sua formação
que o levaria a uma posição de absoluto
destaque no cenário da escalada brasileira.
O eterno presidente
Sua paixão pela escalada era tanta que
ele sempre achou natural dedicar uma
parte crescente do seu tempo ao desenvolvimento e à organização do esporte.
Primeiro, contribuindo voluntariamente
com os cursos básicos e de guia do CEC
que, como os demais clubes de escalada, são até hoje um case sociológico notavelmente bem-sucedido de trabalho coletivo desinteressado em prol de um objetivo comum. Aos poucos, porém, seu
envolvimento foi se tornando maior cada
vez maior com a defesa de princípios éticos hoje plenamente consolidados na
maior parte do país, como o chamado direito autoral, a utilização de equipamentos móveis sempre que possível, a manutenção da integridade da rocha (rejeição a
agarras cavadas ou de plástico) e aos princípios de mínimo impacto sobre a fauna e
a flora nativas das montanhas.
Representando o CEC, ele já participava
ativamente do Fórum Interclubes,
colegiado informal criado em 1996 pelos
clubes e escolas profissionais de escalada do Rio de Janeiro para discutir os problemas do esporte, que então derivava
perigosamente para um cenário de anarquia. A Interclubes, com era então chamada, foi tão exitosa em seus objetivos que,
quatro anos após a sua constituição, sentiu-se a necessidade de que ela viesse a
ser formalizada para melhor representar
os interesses dos montanhistas perante
os órgão públicos e a sociedade de uma
maneira geral. Assim, em 2000, foi fundada a Federação de Montanhismo do Rio
de Janeiro (FEMERJ), sendo Bernardo eleito o seu segundo presidente, em 2002.
Foi então revelado ao mundo, o nosso
mundo, um verdadeiro talento para a organização do esporte, primeiro em nível
local, e depois em nível nacional com a
consequente fundação da Confederação
Brasileira de Montanhismo e Escalada
(CBME), da qual era o vice-presidente.
O
Cam hook da
Leeperdito acima, era um deBernardo,
como
funciona em fendas
fensor intransigente
dos valores éticos
horizontais,
verticais e
nagativas
(como naporém
foto).
da escalada,
fazia isso com uma
Este é o tamanho médio,
habilidade inigualável, buscando semmas há um menor e dois
pre, em
primeiro
lugar, o diálogo e a conmaiores
para
fendas largas.
Skyhook
da
ciliação.Grappling
Ele costurou,
com fino faro políBlack Diamond.
tico, uma unidade que foi capaz de tirar
o montanhismo da marginalidade e
colocá-lo em um elevado patamar de
respeitabilidade perante os órgãos públicos, em especial aqueles responsáveis pela gestão das unidades de conservação.
Isto era de fato muito necessário, pois
superado (ao menos no RJ) o debate
ético, as questões de acesso a áreas
de caminhada e escalada passaram a
ter uma primazia absoluta em sua agenda, e ele empreendeu uma verdadeira
cruzada de reuniões, debates e seminários em defesa do direito à livre prática do nosso esporte, muitas vezes com
evidente prejuízo ao seu trabalho e ao
seu sustento e, claro, a mais escaladas!
Isso o tornou uma liderança importante
não apenas no cenário por si só já bem
amplo do montanhismo, mas também
junto aos demais praticantes de esportes de aventura e ao segmento do turismo de aventura.
Ao mesmo tempo, participava ativamente de diversas listas de discussão virtuais de montanhismo em todo o país, por
perceber a importância que isso significava em termos de divulgação e consolidação de ideias e ideais, e para nosso
espanto ainda conseguia tempo para
dar uma escapada quase diária para
escalar na Urca! Aliás, um dos seus passatempos preferidos era escalar durante a semana e ligar de lá para algum
amigo preso a um escritório para zoálo, sendo que nenhum de nós perdia as
raríssimas chances de lhe dar o troco...
Por sua habilidade, dedicação, carisma
e liderança, foi reeleito sucessivas vezes para a presidência da FEMERJ, sendo, portanto, o nosso eterno presidente,
eterno enquanto durou.
Conclusão
A morte de Bernardo nos deixou todos
um pouco órfãos, mas se há uma forma
de honrarmos a sua memória é não
permitirmos desmoronar o seu inestimável legado. Ele não nos perdoaria por
isto. Assim, apesar da dor, a FEMERJ
está se recompondo e no final deste
mês uma chapa parcialmente renovada
deve assumir a sua direção e tocar o
barco a partir do ponto onde ele o deixou, defendendo nossos interesses com
empenho e responsabilidade, como ele
fazia. Tarefa parcialmente facilitada porque o acúmulo é grande e muitas lições
importantes foram aprendidas no longo
caminho desde a sua fundação.
Seu corpo não pode ser resgatado do
Fitz Roy, pois, no ponto onde se encontra, o risco de um acidente para os
resgatistas, fossem estes pela pedra ou
pelo ar, seriam imensos, e um desastre
que ceifasse mais vidas poderia gerar
uma reação muito forte contrária ao esporte – algo pelo que ele também não
nos perdoaria. Então, devido à sua ousadia e ao seu comprometimento, na
busca pelos seus sonhos, por lá ele
deve permanecer. Uma sepultura grandiosa para um grande montanhista.
Adeus, amigo, e muito obrigado por tudo.
Uma grande perda
para o montanhismo
SILVÉRIO NERY | SP
“Fundamos a CBME inicialmente para
ter um “chapéu” mais representativo na
hora em que precisássemos conversar
com um Ministério ou o COB (Comitê
Olímpico Brasileiro), por exemplo. Me
lembro claramente do Bernardo
Collares, presidente da FEMERJ, me
fazendo a “proposta indecente”: “se você
topar ser o presidente eu topo ser o vice!”
Bom, isso foi em 2003, a CBME foi oficialmente fundada em agosto de 2004 e
estamos aí até hoje.”
O texto acima fez parte de uma entrevista minha ao site Wilo Montanhas, em
meados de 2007. Essa passagem resume em poucas linhas a história recente dos bastidores da organização do
montanhismo brasileiro.
Conheci o Bernardo pela internet, no
Fórum Interclubes e na lista HangOn em
1999. E no calor dos debates sobre ética, técnica e organização do
montanhismo, descobri um cara que
concordava comigo em quase tudo.
Nada mais natural que ficarmos amigos,
até mesmo antes de nos conhecermos
pessoalmente.
E quando isso aconteceu, num fim de
semana em São Bento do Sapucaí e
depois em muitos finais de semana no
Rio, em Salinas, Andradas,Cipó, sempre escalando, nossa amizade se solidificou ao ponto de não precisarmos
muitas explicações para nos entendermos sobre quaisquer assuntos, até
mesmo os mais complexos.
Quem acompanhou sua trajetória na escalada sabe que o acidente que o separou de nós aconteceu numa escalada
que era seu limite atual. O elástico estava esticado ao máximo. Embora isso
não sirva de consolo, provavelmente
seria uma opção que ele escolheria, se
isso fosse possível.
A perda para o montanhismo brasileiro
é irreparável. Com o passar do tempo
saberemos da real importância do
Bernardo na organização do nosso esporte. Ponderado, sensato, defensor da
ética, foi a figura central de todas as articulações do movimento de
institucionalização do montanhismo no
Brasil, desde o Fórum Interclubes, em
1999, passando pela fundação da
FEMERJ em 2000, apoiando e inspirando os fundadores das demais Federações e participando diretamente da fundação da CBME em 2004 e de todas as
suas ações subseqüentes até hoje.
Perdi um grande amigo. Estou triste,
muito triste.
Adeus Bernardo, um grande e último
abraço.
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Eliseu Frechou
devastadora destas todas, pois éramos
muito próximos pelas escaladas que fizemos juntos e pelas causas às quais nos
dedicamos lado a lado.
09
www.mountainvoices.com.br
Parque Nacional Chapada Diamantina
A área do Parque Nacional é muito exten-
10 on the rocks
sa, tendo muitas histórias interessantes
para se descobrir em suas cidades,vilas
e povoados.Para conhecer o Parque além
do transporte público e o carro, pode-se
fazer o circuito de volta ao parque
pedalando,por trilhas, de mula e até voando! Ao chegar as cidades maiores, procure guias em associações e agências
credenciadas para evitar transtornos. Afinal experiência faz
diferença!
Lembre-se:que lanterna,agasalho,sos e
capacete são indispensáveis a qualquer
montanhista que se preze! Pode parecer
que aqui só faz calor, mas o frio, nas regiões mais altas é uma constante.
Meus sinceros agradecimento ao informativo de montanha Mountain Voices, que a
cada ano vem mostrando sua força no Nordeste e aos meus parceiros de aventuras
com disposição para encarar o nosso “sertão” tropical.
Betas para o viajante:
Ônibus Partindo de Salvador:
Andaraí, Igatú,Ibicoara e Mucugê
Viação Águia Branca 0800 725-1211
www.aguiabranca.com.br
Lençóis e Palmeiras/Vale do Capão
Real expresso 0800 600-1115
www.realexpresso.com.br
Rio de Contas (sul da Chapada)
Viação Novo Horizonte (71) 3450-2224
/5557
www.novohorizonte.com.br
Via aérea (Salvador-BA)
Vôos com saídas regulares com destino ao aeroporto Horacio de
Matos,próximo a Lençóis.
Trip linhas Aéreas 0300-789-8747
www.voetrip.com.br
Aeroporto Internacional Dep.Luis E. Magalhães
(Salvador-BA)
55 (71)3204-1010
www.igatu.com.br
[email protected]
Beto ou Letícia
(75) 3335-7016
Humberto numa das novas rotas no
setor do Labirinto de Igatú
Jorginho no setor Tocaia de Lençóis
Henrique Gironha escala uma de
suas novas rotas em Lençóis.
www.mountainvoices.com.br
No inicio da década de 90 quando conheci a Chapada Diamantina, a mineração de
diamantes nas cidades de Andaraí, Lençóis, Mucugê e Palmeiras era uma
industria com motores enormes no leito
dos rios virando tudo ao avesso.Cruzar as
montanhas do Parque Nacional com
mochilas pesadas não era tarefa fácil...
Porém a compensação vinha ao encontrar animais selvagens,cachoeiras e bivaques alucinantes.
Nesta época. foram poucos escaladores
que vieram se aventurar por aqui, e o potencial deste lugar para a escalada permanecia adormecido
Foi as margens da BR 242, nas paredes
do Pai Inácio, que provavelmente foram
abertas as primeiras vias com proteções
móveis. Mas a prática da escalada em rocha na Bahia,teve inicio de fato na cidade
de Lençóis no final da década de 90, quando tive a oportunidade de escalar pela primeira vez e talvez abrir as primeiras rotas.
Agora morando no povoado de Igatú, município de Andaraí,tive o privilégio de equipar o campo escola da vila, hoje são 8
setores, todos estabelecidos e prontos
para a prática da escalada tradicional e
esportiva. No povoado de Igatú,o visitante
pode contar com uma infra estrutura confortável de restaurantes,bares,casas de
temporada, pousadas,camping e o Abrigo
de Montanha Serra Alta, que além de ficar
próximo a maioria dos setores fica a alguns metros das melhores cachoeiras do
vilarejo. Novos vales com florestas de arvores seculares, com paredes de ate 100
metros estão sendo preparadas para os
visitantes, com pequenas expedições e travessias pelo vale do Paraguaçu, o trekking
é garantido!Hoje no Parque da Chapada
Diamantina,temos escaladas em locais
remotos com psicoblocs,banhos de
cachoeiras,piscinas naturais.Também em
cidades como Mucugê,Ibicoara e Palmeiras (Vale do Capão) o aventureiro pode
contar com um número razoável de vias e
centenas de projetos para serem conquistados, com uma galera que esta sempre
pronta para novas aventuras!
11
12 on the rocks
um litro d´água (pros dois!!!), um
anoraque e disposição pra escalar as
23 enfiadas no melhor estilo Black
Canyon: “a rope, a rack and the shirt
on your back”. A estratégia foi de fazer
a aproximação de tarde, bivacar na
base, despertar e escalar, sem mais
complicações e já sabíamos por outros escaladores que havia uma pequena fonte de água na base. A melhor e
não mais segura trilha de aproximação, fica subindo pelo “slabs” partindo
de Mirror Lake, não vacile, pois além
de ser vertical é comum nas partes
mais perigosas estar bem molhada,
deve levar de uma a duas horas, não
sei, tínhamos toda a tarde e pegamos
uma chuva de granizo, que nos fez
perder o humor e o dia seguinte pra
secar as roupas; lá estávamos, todo o
dia na base do Half Dome, com as roupas estiradas ao sol, não pude acreditar nessa comédia.
Espera
Bom, mais uma noite na base, sem
problemas, noite estrelada, ótimo
bivaque....mas não durma demais! Levantamos às 8.00 hrs.Já havia uma
dupla escalando, duas cordadas ou três
acima, “haulleando” dois bags (como
se um não bastasse pra ancorar em
cada uma das cordadas!!!); e desde
logo nos deixaram passar. Escalamos
até a cordada 9, sem problemas, muito rápido; sempre alternando as guiadas com Mike; alcançamos a “Robbins
traverse”; uma sequência de bolts a
qual escalei em A1 seguida de um pêndulo onde a travessia continua em livre.
Depois de mais uma enfiada, chegamos
a um pequeno platô onde começa a
sequência de chaminés; Mike, sempre
inconfortável em chaminés, me deu de
presente pra guiar as mais longas; elas
são intimidadoras à primeira vista mas
tranquilas e divertidas quando dentro delas; apenas peças pequenas e médias;
mas não conte com isso, as chaminés
são um verdadeiro “runout” que leva
muitos metros sem proteção (está aí a
razão da repulsa de Mike às chaminés!).
Depois da enfiada 17, chamada Double
Crack que se escala por boas fissuras,
chegamos ao Big Sand Ledge; ótimo
platô pra camping com direito a sala e
cozinha (sem exageros!).
E como não estávamos lá pra passear,
segue-se escalando pelo famosa ZigZag Cracks, divididas em três cordadas
mas possível em duas longas, como fizemos; são as mais expostas na minha opinião e que escalamos a maior
parte em livre e alguns em simultâneo,
nas muitas nuts lá abandonados; nosso objetivo era sair de lá. Ao terminar,
nos encontramos na também famosa
cordada da Thank God Ledge, uma travessia “caminhando” para a esquerda
num platô de meio metro de largura no
inicio e ficando mais estreito no meio;
formando 90° com a parede um pouco
negativa às suas costas, que dava a
impressão de te empurrar nos seus 15m
até alcançar uma chaminé de meio corpo, um pouco negativa e bem curta. Não
me lembro bem dos detalhes das ultimas enfiadas depois do Thank God
Ledge, uma nevoa densa e branca havia
chegado de repente, mas que se seguia
derivando pra esquerda em muitos bolts
e fissuras pequenas do tamanho de um
“camalot C3” cor roxa. Uma grande alegria nos contagiou ao ter apenas blocos
por trepar nos últimos metros da via; alcançamos o cume se me lembro às
20.00hs, nada mal pra uma entrada à
vista numa das mais famosas vias em
Yosemite Valley.
Um lindo e estranho por do sol por entre
as nuvens escuras, deixou uma fina tira
avermelhada no horizonte. Logo, Mike
foi correndo até a beirada do cume para
que eu sacasse uma foto antes de escurecer.
A descida é bem obvia, por uma, podese dizer, via ferrata, até a trilha que dá
ascesso à Muir Trail, mas desviamos de
volta a base para dormir e resgatar nossos sacos de dormir.
Levamos um jogo de camalots até o 4,
um jogo de aliens offset, um jogo de
camalot C3 (insubstituíveis!), nuts, uma
corda de 60 metros de 9 mm, se bem
me lembro e nada mais; talvez, para ganhar tempo, um par de jumares vai bem
para quem vem de segundo nas enfiadas mais expostas e verticais. Para mais
informações e detalhes da via, consulte
o site supertopo.com ou, estando por lá
no “Camp IV” perguntando aos
escaladores locais, como nós fizemos
antes de entrar na via.
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Não mais que umas semanas antes
deste relato, havíamos escalado vária outras rotas grade V com tempo suficiente
pra tomar umas cervejas (quentes!) em
nosso camping, quando estávamos “instalados” em Black Canyon of Gunninson.
Mas agora o cenário era outro, California,
Yosemite Valley. Começo do verão de
2009, isto quer dizer que turistas, carros, trailers, Rangers, ursos e claro
escaladores não vão te deixar em paz
(sem falar das chuvas!), um exemplo era
que todos os dias na recepção do “Camp
IV”, muito antes das 9.00hs da manhã
(horário em que o guarda Ranger aparece) já havia uma enorme fila para adquirir uma vaga no camping que, devo dizer
aqui, era limitadíssimo e ainda,por ser
verão, cada pessoa pode registrar-se por
apenas sete (isso mesmo!!! Sete!!!) dias
durante todo o verão. Isso nos obrigou a
fazer um “cambalacho” onde apenas um
se registrara com a barraca e outro permanecia ilegal no camping, sem dar bandeira aos Rangers, resultando num tempo legal de duas semanas (de tempo ilegal ficamos mais duas!!!).
Já aclimatizados com o granito, nossa
próxima meta era o Half Dome, na mais
famosa de suas vias, a Regular
Northwest Face Route de graduação VI
5.9 C1 ou 5.12. Compartilhávamos a
mesma idéia de não “haullear” a merda
toda pra cima, sem bivysack, sem
portaledge, sem cordas fixas (apenas
Texto: Luciana Maes
uma de 60 metros, que aumenta o grau
de comprometimento), sem haulbag,
apenas um rack de friends e stoppers,
Patricia Manzi
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Escalar um grade VI em apenas algumas horas do dia, pareceu prepotência minha e de
meu parceiro de escalada Mike Schuwey.
13
uma estrada para a aventura
O que passa pela sua cabeça quando alguém diz: “vou pra Patagônia”?
A imagem que imediatamente me vem à mente é roupa molhada de suor e chuva, rosto queimado de
sol, unhas encardidas, cabelos desgrenhados pelo vento, botas sujas de barro, olhos brilhantes
e um sutil sorriso tatuado no rosto.
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GUILHERME CAVALLARI | SP
Patagônia para mim é sinônimo de aventura.
Desde 2004, quando fiz pela primeira vez
trekking em Torres del Paine, fui fisgado.
De lá pra cá visitei a Patagônia quase todos os verões, tanto na Argentina quanto
no Chile.
Muitas dessas viagens terminaram
publicadas nos meus livros, como os roteiros de trekking em Torres del Paine, El
Chaltén e na Ilha Navarino – todos presentes na coleção Guia de Trilhas Trekking.
No verão de 2010/11 eu não inventei história, voltei à Patagônia, dessa vez para
mapear toda a extensão da Carretera Austral, no Chile, incluindo também os principais roteiros de trekking em parques e reservas nacionais ao longo do caminho.
Uma idéia bastante ousada, já que não
existia livro algum, seja em inglês ou espanhol, com o mapeamento dessa estrada e dessa região em uma forma realmente
detalhada. Minha proposta era produzir um
livro multiesporte que falasse de mountain
bike, off Road, escalada em rocha,
montanhismo, canoagem, rafting e pesca
esportiva, onde a Carretera Austral seria a
espinha dorsal de uma “super aventura”,
completa e complexa, capaz de satisfazer
aos gostos mais exigentes. Mas, ao mesmo tempo, eu queria que fosse um roteiro
acessível a praticamente qualquer um,
mesmo que estivesse começando agora
na aventura. Para completar, meu limite
de tempo para a viagem era de 60 dias.
Infelizmente, por conta desse limite de
tempo, eu não poderia percorrer a
Carretera Austral de bike, meu transporte
favorito, então fomos de carro – eu e minha mulher, Adriana Braga. Levamos
bikes, todo o equipo de trekking e acampamento, material de escalada, grampões
e piolets, comida liofilizada e até nossos
remos de fibra de carbono para caiaques.
Estaríamos prontos para o que pintasse!
Partimos de São Paulo no final de novembro e, passada uma semana, estávamos
em Puerto Montt, marco zero da Carretera
Austral. Mesmo depois de pesquisar na
Internet, ler diversos livros e guias de viagem, conversar com conhecidos e amigos, participar de fóruns on-line e até trocar correspondência com eventuais contatos locais que descobrimos, chegamos
a Puerto Montt com mais dúvidas que respostas. Não sabíamos, por exemplo, exatamente que trechos da Carretera Austral
ainda estavam interditados devido à erupção do Vulcão Chaitén, ocorrida em 2008;
ou quais serviços de balsa e barco funcionavam e quando; ou quais roteiros de
trekking da nossa lista ainda existiam; ou
sequer onde exatamente encontraríamos
combustível para abastecer o carro ao longo do percurso.
De cara, descobrimos que deveríamos ter
14 montanhismo
reservado passagem no navio de transporte que conecta Puerto Montt a Chaitén...
A bagaça estava lotada! Resultado: perdemos três dias nessa desinformação.
Ou melhor, ganhamos três dias para pedalar em torno do Lago Llanquihue – o
equivalente chileno ao Lago Nahuel
Huapi, na Argentina, inclusive com a “prima chilena de Bariloche”, Puerto Varas. É
como diz o ditado: “uma vez no inferno,
abrace o diabo!”.
No primeiro trecho do mapeamento fomos
de Puerto Montt a Hornopirén, parando
dois dias em Cochamó, destino conhecido entre os escaladores do mundo todo
como o “Yosemite sul-americano”.
Paredões de granito puro, esbranquiçado,
com vias de 1.200 m verticais e quase todas em livre. Mapeei o trekking de aproximação até o fundo do vale do Rio
Cochamó, onde os paredões formam um
anfiteatro monumental e de tirar o fôlego.
Esse trekking de 20 quilômetros, ida e
volta, acompanha todo o tempo as águas
verde-esmeralda e cristalinas do Rio
Cochamó, com praias naturais de areias
brancas exigindo um mergulho... Mas tem
que ter coragem, a temperatura do rio não
deve chegar aos 10°C.
No fundo do vale há um simpático refúgio, de propriedade de um casal de
escaladores, Daniel e Silvina – ele norteamericano e ela argentina. Na aconchegante cabana de madeira nunca falta uma
chaleira cheia de água sobre o fogão a
lenha, para o mate dos anfitriões e visitantes. O camping que eles dirigem fica
no gramado de um antigo pasto, cercado
de montanhas rochosas. É acordar, sair
da barraca e amarrar a cadeirinha à primeira corda que aparecer.
Nessa região, próximo de Puerto Montt,
visitamos o Parque Nacional Alerce
Andino e mapeamos um roteiro de
trekking de 2 a 4 dias de duração, dependendo do ânimo de cada um. Esse parque existe para preservar gigantescas
árvores de 4.000 anos de idade, 60 metros
de altura e 6 metros de largura,
ameaçadas de extinção pela indústria
madeireira. O alerce tem uma madeira
maciça e quase indestrutível, muito usada na construção civil e naval. Ao longo da
Carretera Austral é possível encontrar casas e igrejas centenárias feitas dessa
madeira, ainda sólidas e firmes, como se
fossem de concreto novo.
No parque o clima estava perfeito, sem
uma nuvem no céu apesar da região ser
muito úmida nessa época do ano. As trilhas, porém, estavam ainda obstruídas
pelas agruras do inverno, com árvores
caídas, galhos atravessados e eventuais
desmoronamentos. A temporada de verão
ainda não havia começado e a administração do parque não havia reorganizado
os caminhos. Fizemos inclusive um relatório final ao guarda-parque no final da
excursão, para ajudar no trabalho de manutenção dos caminhos.
Mesmo no auge do verão os parques e
reservas nacionais em torno da Carretera
Austral recebem um fluxo muito pequeno
de turistas, muito diferente de Torres del
Paine, por exemplo, que chegam a ter 300
mil turistas no verão. No final tivemos o
parque todo só para nós e não fizemos
pouco caso disso, nadamos pelados nos
rios e lagoas, passamos um dia extra só
relaxando, tomando sol e ouvindo a mata,
exploramos alguns caminhos interditados.
Pode-se dizer que a Carretera Austral começa de verdade depois de Chaitén, acessível pelo Chile apenas por mar. Passada
essa cidade devastada pela erupção vulcânica, quanto mais ao sul nos deslocávamos, mais isolados nos sentíamos,
Um roteiro tradicional. Chuviscava quando começamos a caminhada. Quanto
mais penetrávamos os vales fechados,
pior o tempo ficava. Depois do meio dia a
chuva começou a cair forte e montamos
acampamento, no final da tarde, debaixo
de muita água. No dia seguinte a chuva
não diminuiu e decidimos descansar na
barraca, afinal estávamos na Patagônia e
o sol poderia aparecer a qualquer instante, ou não. Acordamos na madrugada da
segunda noite com muito frio. Olhei o termômetro e fazia 5°C dentro da barraca.
Lá fora estava - 5°C. Era o primeiro dia de
verão.
Pela manhã a neve caia em baldes. No
fim do dia havia 30 centímetros de neve
para todo lado. O paso logo adiante de
nós, único trecho mais técnico da travessia, estava fechado por muita neve, gelo
podre e neblina. Esperamos mais um dia.
Mais neve e mais chuva. No quarto dia,
com o suprimento de comida defasado,
abortamos a travessia e voltamos para o
início da trilha, para a Carretera Austral,
para pedir carona de volta à Villa Cerro
Castillo e ao nosso carro. Na neve em volta
da nossa barraca encontramos pegadas
de huemules (um cervo andino em risco
de extinção), raposas e pumas. Era 24 de
dezembro e uma deliciosa ceia de Natal
nos esperava na pousadinha familiar
onde nos hospedávamos. Afoguei minha
frustração em garrafas de excelente Merlot
chileno e terminei tão grogue que caí da
cama na hora que fui dormir, rachando o
bico e feliz da vida.
Mais ao sul, em Puerto Río Tranquilo, visitamos umas lindas formações rochosas
no grande Lago General Carrera conhecidas como Capillas de Mármol (capelas
de mármore). Fomos de caiaque oceânico duplo, eu e Adriana em um barco e os
dois guias em outro. Navegamos por dentro das rochas, que lembram cogumelos
gigantes brotando do fundo do lago. Com
a ponta dos remos e dos dedos, tocávamos a superfície áspera e fria da rocha,
listrada de branco e cinza. O famigerado
vento patagônico vinha em lufadas e che-
gava a empurrar a pá dos nossos remos
para baixo, para a água, como se houvesse um peixe de dez quilos amarrado a elas.
Só conseguíamos remar quando o vento
tomava fôlego. Não havia perigo sério, apenas um possível banho gelado, mas fizemos bastante força e confirmamos a regra: na Patagônia quem manda é a
Patagônia.
Em Cochrane – última cidade ao sul da
Carretera Austral com alguma estrutura
urbana – mapeamos um trekking de quatro dias dentro da Reserva Nacional
Tamango. A região é criadouro de
huemules e conseguimos ver e fotografar
vários. Não havia outros turistas na reserva e, novamente, as trilhas ainda não estavam prontas para a temporada de verão.
Os bosques de árvores centenárias, cobertas por musgos como gigantescas teias de aranha, pareciam ilustrações de contos de Edgar Allan Poe. O silêncio chegava
a incomodar. Na parte alta da reserva, onde
caminhei sozinho por 14 horas consecutivas e ininterruptas, senti presença de um
puma que devia estar me seguindo. O guarda-parque havia me alertado para uma
puma e dois filhotes que rondavam a área.
Infelizmente (ou felizmente) não vi os bichos, mas sentia fortes arrepios
premonitórios na nuca e, de vez em quando, um cheiro azedo de urina felina no ar.
Caminhei todo o tempo com a máquina
fotográfica em punho. Se o bicho me comesse eu pelo menos tiraria sua foto, em
close.
Terminamos esse trekking a tempo de comemorar o Ano Novo em um chalé á beira
do Rio Cochrane, com a lareira acesa, comida caseira, mais Merlot chileno e uma
cama quentinha de lençóis limpos para
completar. Quem consegue imaginar um
Reveillon melhor?
A Carretera Austral termina na Villa
O’Higgins – meia dúzia de ruas, uma pousada e um aeródromo – de onde é possível atravessar por barco e trilhas de cavalos do Chile para a Argentina, até El Chaltén
e algumas das montanhas mais famosas
do mundo – Cerro Torre e Monte Fitz Roy.
Mas como estávamos de carro, simplesmente fizemos meia volta e retraçamos
toda a Carretera Austral de volta até Puerto
Montt.
Em exatos 59 dias de viagem, conseguimos mapear 1.689 quilômetros de estradas da rede Carretera Austral, sendo 80%
de terra e cascalho, mais cinco roteiros de
trekking somando 102 quilômetros de trilhas, uma viagem extra de bike de 163 quilômetros em torno do Lago Llnaquihue e o
projeto se concretizou. Consegui publicar,
agora em janeiro de 2011, o Guia de Trilhas Carretera Austral, com 136 páginas,
sete mapas e 184 fotos coloridas.
Missão cumprida?
De jeito nenhum.
Se você me perguntar, não fiquei satisfeito... Faltou fazer a Carretera Austral de bike,
que é como ela deve ser feita. Então serei
obrigado a voltar lá e fazer tudo de novo,
dessa vez no pedal... Aí aproveito para terminar o trekking do Cerro Castillo, explorar
a região do Vale Chacabuco – onde uma
organização preservacionista internacional
está organizando o Parque Patagonia –,
voltar a Cochamó com tempo de escalar
um pouco, repetir o rafting no Futaleufu...
Enfim, mais um verão na Patagônia.
Mas, cá entre nós, será que algum dia a
gente consegue ficar satisfeito de aventura?
O Birdbeak da marca A5 é um micro piton que pode ser
usado como hook se a colocação for boa e não necessitar
martelar.
Cliff Talon da Black Diamond, que tem três formas de
uso: duas para agarras e uma para buraco de talhadeira.
Este é um cliff bem estável se a superfície for plana.
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Carretera Austral
menos pessoas encontrávamos na estrada, mais sentíamos a Patagônia ao
nosso redor.
Mapeamos um desvio na Carretera Austral que chega até Futaleufu, uma vilazinha
acolhedora e turística às margens do Rio
Futaleufu, considerado um dos cinco melhores do mundo para rafting. Com a temporada de verão ainda não havia começado, o volume de água do “Futa” estava
duas vezes e meia superior ao recomendável para descidas comerciais. Uma represa em território argentino regula essa
vazão de água e o decorrente humor dos
remadores chilenos. No camping onde
estávamos acampados, um grupo de guias resolveu fazer um treino e faltava um
remador no bote. Sem saber no que estava me metendo, pulei pra dentro.
Nosso capitão era um italiano com experiência no Quênia, EUA, Suíça e Nepal.
Os remadores eram todos guias profissionais. O único café-com-leite no bote era
eu. As ondas de refluxo, redemoinhos e
os paredões de água nas curvas do rio
tinham o tamanho de carros, ônibus e
casas. Os comandos de remo eram do
tipo: “tudo pra direita ou a gente morre!”,
“esquerda, p*** que pariu!”, “se alguém
cair na água aqui, f**eu!”, e assim por diante, ora em inglês, ora e espanhol e eventualmente em italiano mesmo. Em determinado momento nos chocamos com
uma pedra meio submersa e quase trocamos de lugar em pleno ar – quem estava na direita foi para a esquerda e vice e
versa –, nosso capitão aterrissou de cara
no meio do bote e demorou alguns segundos para se recompor. No final da descida, o remo de madeira que eu usei ficou
com as minhas impressões digitais esculpidas nele. Nunca passei tanto medo
na vida! E não vejo a hora de repetir a
dose...
Mais ao sul, aos pés do Cerro Castillo –
uma imponente montanha de rocha negra e de aparência podre, toda
despedaçada e pintada de neve, que lembra muito um castelo – tentamos fazer
uma travessia em trekking de quatro dias.
15
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Neste verão, Alessandra e eu fizemos
uma longa viagem pelo Norte e Centro
Oeste do Brasil, para visitar algumas
regiões específicas, e Carolina no
Maranhão era a principal delas. Lá foi
criado um dos mais novos parques do
País, com formações planas em forma
de mesas e grandes cachoeiras de
águas cristalinas. Bem, infelizmente a
realidade mostrou-se mais modesta do
que nossas expectativas, como você
verá a seguir.
A História de Carolina
As maneiras mais rápidas de lá chegar
são por Araguaína (100 km) ou Imperatriz (200 km), cidades de porte médio
em Tocantins e no Piauí, onde existem
aeroportos e cujo acesso a Carolina é
feito por bom asfalto. Em ambos os trajetos, você terá de cruzar o Rio
Tocantins, no primeiro caso por uma
balsa que chega diretamente na cidade
e, no segundo, por uma ponte em Estreito, onde está sendo terminada uma
usina hidrelétrica.
Carolina é uma pequena vila de 20 mil
habitantes e um certo aspecto
depressivo, talvez explicado por sua história curiosa. Fundada por criadores de
gado da Bahia e Piauí, era nos inícios
do século XX um importante elo fluvial e
aéreo, devido à proximidade com o
Tocantins e à instalação de aeroporto.
A cidade tornou-se rica e culta, com
usina elétrica, indústria, cinema, hospital e escola, até que nos anos de 1960
o declínio dos transportes fluvial e aéreo e a passagem da Belém-Brasília por
Estreito, distante 100 km, desviasse
definitivamente de lá o fluxo do comércio e, portanto, do progresso.
À semelhança de Parati e Minas Novas, Carolina não soube compensar a
mudança da rota comercial e entrou em
decadência, tendo hoje apenas 2/3 da
população de 30 anos atrás. É uma vila
estranha, com avenidas muito largas,
grandes praças vazias, casario pobre e
pouca ocupação, que lhe dão um ar triste e desanimado.
A Chapada das Mesas
No fim de 2005, foi criado o Parque Nacional da Chapada das Mesas, abarcando alguns municípios do Sul do
16 montanhismo
BELAS PEDRAS XLI
Maranhão, o principal dos quais sendo
Carolina. Os objetivos declarados para
a criação desta unidade de 160 mil ha
foram a defesa do cerrado, das nascentes e, em especial, das cachoeiras. Dizse que o cerrado da região é o mais
preservado do Brasil, talvez devido à pobreza do solo e à fragmentação fundiária.
Como nenhum ocupante foi indenizado, a área
é ainda ocupada por fazendas de gado de porte médio, pertencentes
em sua maioria a pequenos fazendeiros. Quem
sabe por causa disto tenha havido pouca oposição local à criação do
Parque. Sua integridade
pode vir a ser ameaçada
pelo enchimento do lago
da UHE de Estreito, que
deve afetar o Rio Farinha, sua principal atração.
Adentrando o Parque
A entrada para o Parque fica a 30 km
de Carolina por asfalto. Ele tem um estranho dente, num vale entre duas serras paralelas, que faz com que o PN só
comece após mais 30 km de estrada
em areião. Este ponto é assinalado apenas por uma placa, quando você deve
abandonar o rumo leste e seguir à esquerda a norte. Quando estive lá, a estrada era razoável, se bem que o areião
fundo exija veículo com tração.
O Parque apresenta vegetação de cerrado e campo sujo, sem grande apelo
visual. Não tem nenhuma estrutura, carece de sinalização e tem um único funcionário. Os tabuleiros em forma de
mesas são pouco atraentes: compostos por antigos arenitos um tanto heterogêneos e recobertos por vegetação,
não apresentam belos perfis definidos.
Nesta integração entre rocha e planta,
eles se parecem um pouco com a natureza criada no filme Avatar. Mas foram
eles que deram o nome ao Parque.
É bom lembrar que lá não existe nenhuma chapada, como a de Diamantina
ou dos Veadeiros, pois a altitude não
passa dos 250 metros, as terras sendo
portanto de planície. E que, também,
suas serras em tabuleiro estão longe
de terem a regularidade das mesas.
O clima é também irregular, com a rápi-
da formação de chuvas das mais fortes
que conheci.
Vale aqui uma observação. Devido à
internet, o mundo está se tornando muito visual. Suas imagens podem nos induzir a visões sedutoras. Os panoramas
que vimos antes da viagem nos fizeram
imaginar um Parque repleto de mesas
em arenito estriado, com
perfis sugestivos. Sinceramente, elas de forma alguma existem no Parque e,
fora dele, são poucas e nem
tão belas.
Voltando ao nosso percurso, na extremidade norte do
Parque, depois de mais 15
km de areião, corre o Rio
Farinha, com duas esplêndidas cachoeiras, Prata e
São Romão. São grandes
volumes de água e alturas
interessantes, da ordem de
20 metros. Apesar de algumas pedras curiosas, com a da Igreja e
a da Figura, estas quedas me pareceram as únicas reais atrações do Parque.
Suspeito que, para preservá-las, não seria necessária uma unidade tão grande.
Entretanto, há hoje a prática da criação
de áreas verdes interligadas, para proteção da natureza. Apesar de seu aspecto
sofrido, o cerrado tem uma fauna
diversificada, com onças, veados, antas
e emas. A riqueza da flora é surpreendente, com inúmeras palmáceas
(babaçu, macaúba, buriti, tucumã) e árvores (mangabeira, pequi, murici,
angelim), cujos frutos costumam ser
medicinais ou alimentícios.
O Morro do Chapéu
Mas existem fora do Parque bonitos locais na região, em especial ligados às
águas. Não deixe de conhecer a impressionante Pedra Caída em Carolina, onde
o rio jorra por dentro de uma câmara, semelhante a um cilindro oblongo de pedra, ao qual você chegará dentro d´água
por um estreito cânion rio acima. Parece uma visão encantada de sonho - não
é só maravilhosa, é também comovente.
Há ainda os cristalinos Poço Azul e Encanto Azul a 70 km, no município de
Riachão - são passeios muito populares
na região, ou seja, prepare-se para encontrar bastante gente (não pudemos
visitá-los). E ainda o cênico Portal da
Chapada, que ao por do sol pode ser contemplado do mirante de uma bonita pe-
dra em arenito à beira da rodovia, numa
rápida subida, na volta de algum passeio.
De todas as formações, chama a atenção o Morro do Chapéu, com 505m,
este sim um tabuleiro regular. Há na
região duas mesas mais elevadas, a
Torre da Lua (555m) e a Serra da Malícia (525m). Entretanto, o Morro do Chapéu impressiona pelo visual imponente
e o grande tamanho, que parece ameaçador, emergindo acima dos campos
planos, sob a luz escura da sua vegetação de encosta. Senti que seria uma
dessas montanhas inacessíveis e
inglórias.
Entretanto, foi relativamente fácil chegar até o morro: seguindo 6 km pela
Estrada do Marajá, que sai do asfalto,
tomamos a esquerda num curral e seguimos na sua direção por mais 4 km,
até a sombra de uma mangueira. A
estrada foi sempre plana e atravessou
algumas áreas úmidas, mas não foi de
todo má. Entretanto, exige veículo alto
com tração, pois foi usada em recente
Rally do Sertão.
A aproximação a pé foi curta, atravessando em diagonal uma área de mata
rala de ainda pouca declividade. A trilha a seguir é bastante clara e muito
íngreme, pois não contorna a parede,
subindo sempre reta, na direção leste.
Muitos trechos exigiram pequenas
escalaminhadas entre muitas rochas e
pedras soltas.
Na minha experiência, não é usual um
caminho tão direto, mas ele mostrouse eficiente em poupar muita volta e
tempo. Se você não se impressionar
com sua verticalidade, em cerca de 1
½ horas desde a saída, os 350 metros
da parede poderão ser superados. O
calor úmido tornou bem dura esta subida: no verão, você chegará
encharcado lá em cima, como se tivesse mergulhado num riacho. Como
vivo no Sudeste, onde as altitudes são
bem maiores, pareceu estranho tanto
esforço para conquistar apenas 500
metros de altitude.
O Morro do Chapéu é bem plano, correndo no sentido norte-sul por cerca de
1 ½ km, com trechos estreitos, de talvez 100 m de largura. Devido à falta de
elevações significativas, a vista de seu
cume é apenas panorâmica. Porém, algumas formações são bem peculiares,
como o Portal da Chapada, o Morro do
Tamanduá e o Prato Fino, cada qual
com seu formato diferente. Lá longe, o
casario de Carolina e o espelho do
Tocantins também podem ser vistos.
A volta exige cautela, devido à
declividade da trilha escorregadia. Apesar do tamanho da montanha, poderá
ser feita em 1 hora. Se você tiver saído
cedo, procure compensar o calor nas
muitas águas próximas, em especial
nos banhos das esplêndidas cachoeiras da Pedra Caída. Apesar do seu fácil acesso, à beira do asfalto, é a principal atração de Carolina.
www.mountainvoices.com.br
Neste artivo, descrevo
a visita ao sul do
Maranhão, num dos mais
recentes Parques Nacionais brasileiros, um
áspero cenário de serras areníticas e vegetação de cerrado. Ao
longo de grandes distâncias, conheci esplêndidas cachoeiras e
subi ao topo do Morro
do Chapéu, o mais impressionante dos tabuleiros da região.
17
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