Baixar publicação - Cooperativa para Conservação da Natureza

Transcrição

Baixar publicação - Cooperativa para Conservação da Natureza
A FAUNA DAS ÁREAS DE INFLUÊNCIA DA USINA HIDRELÉTRICA QUEBRA QUEIXO
1. INTRODUÇÃO
Jorge J. Cherem
Marco A. Perotto
2. CARACTERIZAÇÃO DO
EMPREENDIMENTO E DOS
ESTUDOS FAUNÍSTICOS
Jorge J. Cherem
3. CARACTERIZAÇÃO AMBIENTAL
3.1. Aspectos Fisiográficos
Rivelino Reis
Márcia T. Eli
Anderson Martins
3.2. Vegetação
Francisco Antônio da Silva Filho
Simone Pugues
3.3. Aspectos Socioeconômicos
Tatiana F.N. de Lacerda
4. PEIXES
Samira Meurer
David Reynalte-Tataje
Marcos Weingartner
Evoy Zaniboni-Filho
Alex Pires de Oliveira Nuñer
Débora Machado Fracalossi
5. ANFÍBIOS
Marília Teresinha Hartmann
Paulo Christiano A. Garcia
Luís Olímpio Menta Giasson
Paulo Afonso Hartmann
6. RÉPTEIS
Paulo A. Hartmann
Luís Olímpio Menta Giasson
7. AVES
Marcos Antônio Guimarães Azevedo
Ivo Rohling Ghizoni-Jr.
8. MAMÍFEROS
Jorge J. Cherem
Sérgio L. Althoff
Rafael C. Reinicke
O estado de Santa Catarina possui
A FAUNA
uma grande diversidade de
ambientes, o que reflete em uma
fauna diversificada, ainda pouco
conhecida. Parte desta lacuna no
DAS ÁREAS DE
conhecimento pode ser preenchida
pela divulgação dos dados de
estudos faunísticos qualificados
INFLUÊNCIA
vinculados à implantação de
empreendimentos sujeitos a
DA USINA
licenciamento ambiental, como as
usinas hidrelétricas.
Desta forma, com o intuito de
HIDRELÉTRICA
contribuir para o conhecimento da
fauna do estado, apresentam-se
neste livro os resultados dos
QUEBRA QUEIXO
trabalhos de monitoramento e
manejo da fauna (peixes, anfíbios,
répteis, aves e mamíferos) obtidos
durante a etapa de implantação da
UHE Quebra Queixo, localizada no
rio Chapecó, afluente do rio
Uruguai, no oeste do estado de
Santa Catarina.
9. INVESTIGAÇÃO DE HANTAVÍRUS
Renata Carvalho de Oliveira
Elba Regina Sampaio de Lemos
ISBN 978-85-60967-14-8
COMPANHIA ENERGÉTICA CHAPECO
JORGE J. CHEREM
MARCELO KAMMERS
(organizadores)
RESPEITO AMBIENTAL E COMPROMISSO SOCIAL
9 788560 967148
A FAUNA DAS ÁREAS DE
INFLUÊNCIA DA USINA
HIDRELÉTRICA QUEBRA QUEIXO
Jorge J. Cherem
Marcelo Kammers
(organizadores)
2008
Os dados e a completude das referências bibliográficas dos
artigos são de inteira e única responsabilidade de cada autor.
Proibida a reprodução total ou parcial, de qualquer
forma e por qualquer meio mecânico ou eletrônico,
inclusive através de fotocópias e de gravações,
sem a expressa permissão dos autores.
Editoração: Darcy Rudimar Varella
Capa: Christian Sergi Aparecido da Silva
F264 A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo /
organização de Jorge J. Cherem, Marcelo Kammers. – Erechim, RS :
Habilis, 2008.
192 p. : il. ; 23 cm.
ISBN - 978-85-60967-14-8
1. Fauna - inventário 2. UHE Quebra Queixo 3. Santa Catarina
Floresta Estacional Decidual I. Título II. Cherem, Jorge J. III. Krammers,
Marcelo
C.D.U.: 581.526.42
Catalogação na fonte: bibliotecária Sandra Milbrath CRB 10/1278
SUMÁRIO
Apresentação .....................................................................................
5
Agradecimentos.................................................................................
7
1. INTRODUÇÃO.............................................................................
9
2. CARACTERIZAÇÃO DO EMPREENDIMENTO E DOS
ESTUDOS FAUNÍSTICOS ..........................................................
2.1. Localização e Caracterização..................................................
2.2. Áreas de Influência .................................................................
2.3. Monitoramento e Manejo da Fauna ........................................
2.4. Centro Operacional .................................................................
2.3. Referências Bibliográficas ......................................................
15
15
16
18
18
19
3. CARACTERIZAÇÃO AMBIENTAL .........................................
3.1. Aspectos Fisiográficos ............................................................
3.2. Vegetação ................................................................................
3.3. Aspectos Socioeconômicos .....................................................
24
27
44
57
4. PEIXES ..........................................................................................
4.1. Métodos ..................................................................................
4.2. Os Peixes da UHE Quebra Queixo .........................................
4.3. Biologia das Espécies que Apresentam Importância para a
Pesca e/ou Piscicultura ..................................................................
4.4. Conservação ............................................................................
4.5. Referências Bibliográficas ......................................................
63
64
69
71
78
82
5. ANFÍBIOS ..................................................................................... 89
5.1. Métodos ................................................................................... 91
5.2. Os Anfíbios da UHE Quebra Queixo ....................................... 93
5.3. Conservação ............................................................................. 100
5.4. Referências Bibliográficas ....................................................... 102
6. RÉPTEIS .......................................................................................
6.1. Métodos ..................................................................................
6.2. Os Répteis da UHE Quebra Queixo .......................................
6.3. Ofidismo .................................................................................
6.4. Conservação ............................................................................
6.5. Referências Bibliográficas ......................................................
111
112
114
122
123
124
7. AVES ..............................................................................................
7.1. Métodos ..................................................................................
7.2. As aves da UHE Quebra Queixo .............................................
7.3. Conservação ............................................................................
7.4. Referências Bibliográficas. .....................................................
131
132
135
144
145
8. MAMÍFEROS ...............................................................................
8.1. Métodos ..................................................................................
8.2. Os Mamíferos da UHE Quebra Queixo ..................................
8.3. Conservação ............................................................................
8.4. Referências Bibliográficas ......................................................
151
152
156
170
171
9. INVESTIGAÇÃO DE HANTAVÍRUS ........................................
9.1. Métodos ..................................................................................
9.2. Resultados ...............................................................................
9.3. Discussão ................................................................................
9.4. Referências Bibliográficas ......................................................
179
180
182
185
188
Apresentação
O estado de Santa Catarina possui uma grande diversidade de ambientes,
incluindo áreas de Floresta Atlântica, Floresta de Araucária, Floresta Estacional
do Rio Uruguai, Florestas Nebulares, Campos de Altitude, Restingas,
Manguezais e outras formações. Esta pluralidade fisionômica permite a existência de uma fauna diversificada, mas ainda pobremente conhecida, contrariamente à sua vegetação e flora, cujo conhecimento é referência em nível nacional, principalmente devido aos esforços de Roberto M. Klein e Raulino Reitz.
Em vista disto, o presente livro tem como principal objetivo divulgar os
dados sobre os vertebrados (peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos)
registrados durante o desenvolvimento dos programas de monitoramento e
manejo de fauna no Aproveitamento Hidrelétrico Quebra Queixo (AHE Quebra Queixo), localizado na bacia do rio Chapecó, um dos afluentes do rio Uruguai, no oeste do estado de Santa Catarina.
Atualmente, o empreendimento está em fase de operação, passando a ser
denominado Usina Hidrelétrica Quebra Queixo (UHE Quebra Queixo). Os programas de monitoramento da fauna aquática e terrestre nesta fase estão em
andamento e os resultados destes estudos pós-enchimento serão publicados
posteriormente.
O livro é composto por nove capítulos. O primeiro apresenta uma introdução aos estudos de monitoramento de fauna em empreendimentos hidrelétricos e aborda o grau de conhecimento sobre a fauna no estado de Santa Catarina.
O capítulo 2 apresenta a localização e a caracterização geral do empreendimento, suas áreas de influência e os métodos aplicados ao monitoramento e
manejo da fauna antes e durante o enchimento do reservatório.
O capítulo 3 fornece uma caracterização ambiental das áreas de influência da UHE Quebra Queixo, seus principais aspectos fisiográficos (clima, geologia, geomorfologia e flora) e socioeconômicos.
Os capítulos 4 a 8 constituem o corpo principal do livro e abordam os
grupos de vertebrados (peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos) estudados
nas áreas de influência do empreendimento. Cada um destes capítulos apresenta os métodos empregados especificamente a cada grupo, as espécies registradas
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
e seu estado de conservação local. Por fim, o capítulo 9 aborda os estudos desenvolvidos localmente sobre hantavírus em roedores silvestres.
Com isto, espera-se que este livro possa ser utilizado por um público
amplo, cientistas e analistas dos órgãos ambientais, em escolas e universidades,
ou por qualquer pessoa interessada na fauna de Santa Catarina e em sua conservação.
6
AGRADECIMENTOS
O desenvolvimento das atividades relacionadas aos estudos abordados
neste livro, tanto em sua fase de escritório quanto de campo e laboratório, contou com a ajuda de diversas pessoas.
Somos particularmente gratos a André Testoni, Beloni Marterer, Bruno
de Oliveira Ferronato, Carlos Henrique Salvador de Oliveira, Célio Testoni,
Cláudia Sabrine Brandt, Clóvis Poli, Daniela Neumann, Denize Alves, Eduardo
Zimmer, Eduardo Saliés, Ênio Loesch, Fabiana Dallacorte, Fernando Eberhardt,
Fernando Hoffman, Fernando Tortato, Guilherme A.M. Vegini, Jairo Pena Souza,
Joarez C. Camera, José Carlos Eckert, Kaori Futatsugi, Luciana F. Cordeiro,
Luís Guilherme Marins de Sá, Marcelo Guterres Rocha, Marcos Krieger, Marcos
Tortato, Mário Saviato Jr., Marlise Becker, Melissa F. Barni e Tatiana Machado
de Oliveira.
Finalmente, agradecemos o apoio da CEC, em nome do Sr. Dório Paulo
Corteletti, e da ETS, em nome do Sr. Pedro Paulo Voltolini Jr.
7
1. INTRODUÇÃO
Jorge J. Cherem
Marco A. Perotto
CAIPORA Cooperativa para Conservação da Natureza,
R. Deodoro, 226/1003, Centro - 88.010-020, Florianópolis, SC
ETS Energia, Transporte e Saneamento LTDA.,
R. Felipe Schmidt, 315/301, Centro - 88.010-000, Florianópolis, SC
Atualmente, devido à grande alteração dos ambientes naturais promovida pelo homem, tornou-se necessário, por exigência dos órgãos ambientais, o
desenvolvimento de estudos para avaliação dos impactos gerados pela implantação de empreendimentos humanos1.
Resumidamente, o processo de licenciamento ambiental de empreendimentos de grande porte inicia com o Estudo de Impacto Ambiental e o Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA), que apresentam dados sobre o empreendimento (projeto básico), o diagnóstico dos aspectos físicos, bióticos e
socioeconômicos de suas áreas de influência, a avaliação dos impactos
ambientais e a proposição de medidas mitigadoras e compensatórias, entre outros itens. O EIA/RIMA é avaliado pelo órgão ambiental competente e, caso
aprovado, permite a obtenção da Licença Ambiental Prévia (LP ou LAP) pelo
empreendedor.
Numa segunda etapa, é desenvolvido o Projeto Básico Ambiental (PBA),
onde são detalhados os procedimentos de implantação dos programas ambientais
de acordo com o cronograma da obra. Após nova análise do órgão ambiental, o
empreendedor obtém a Licença Ambiental de Implantação (LI ou LAI).
Com o desenvolvimento dos programas, o empreendedor solicitará a Licença Ambiental de Operação (LO ou LAO) 120 dias antes da conclusão das
obras de implantação do empreendimento. Esta licença é renovada periodicamente, utilizando o mesmo critério de solicitação.
Em qualquer etapa do licenciamento, o órgão ambiental pode solicitar
estudos complementares para a concessão das licenças. Ainda, o empreendimento pode ser interrompido a qualquer momento, caso sejam constatadas irregularidades.
9
1. Introdução
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Especificamente no caso de empreendimentos do porte de hidrelétricas,
as modificações ambientais geradas exigem o desenvolvimento de programas
que busquem minimizar e/ou compensar os impactos sobre diversos aspectos
físicos, bióticos e socioeconômicos nas áreas de influência desse empreendimento. Para a UHE Quebra Queixo, por exemplo, foram desenvolvidos 21 programas ambientais:
1. Programa de Monitoramento do Lençol Freático
2. Programa de Recuperação de Áreas Degradadas
3. Programa de Monitoramento e Manejo das Margens do Reservatório
4. Programa de Monitoramento Sismológico
5. Programa de Monitoramento Hidrossedimentológico
6. Programa de Implantação de Unidade de Conservação
7. Programa de Desmatamento e Limpeza da Área do Reservatório
8. Programa de Monitoramento e Manejo da Fauna e da Flora
8.1. Subprograma de Monitoramento e Manejo da Fauna
8.2. Subprograma de Monitoramento e Manejo da Flora
9. Programa de Monitoramento e Manejo dos Ecossistemas Aquáticos
9.1. Subprograma de Monitoramento Limnológico e da Qualidade da Água
9.2. Subprograma de Monitoramento e Manejo da Ictiofauna
10. Programa de Comunicação Social e Educação Ambiental
11. Programa de Remanejamento da População Diretamente Atingida
12. Programa de Monitoramento da População Atingida
13. Programa de Saúde Pública e Meio Ambiente
14. Programa de Salvamento do Patrimônio Arqueológico, Histórico, Cultural e
Paisagístico
15. Programa de Redimensionamento e Relocação da Infra-estrutura
16. Programa de Monitoramento das Interferências com a População Indígena
17. Programa de Gerenciamento de Risco
18. Programa de Supervisão Ambiental
19. Programa de Usos Múltiplos do Reservatório
20. Programa de Apoio ao Migrante
21. Programa de Adequação dos Sistemas de Saúde, Educação, Lazer e Segurança dos Municípios Atingidos
10
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Quanto à fauna, de um modo geral, entre os principais fatores de impacto
gerados pelas hidrelétricas relacionam-se:
¾ Desvio do rio (para a construção da barragem e outras estruturas) e formação de trechos com vazão reduzida (principalmente no trecho a jusante da
barragem), levando ao isolamento de peixes em áreas reduzidas;
¾ Modificação na composição e estrutura da ictiofauna decorrente da transformação de um ambiente lótico (rio) em um ambiente lêntico (reservatório);
¾ Aumento da pressão de pesca;
¾ Perda de hábitat e aumento de sua fragmentação para a fauna terrestre,
devido à supressão da vegetação na área do reservatório e do Canteiro de
Obras;
¾ Aumento da densidade populacional das espécies nas margens do reservatório promovido pelo deslocamento forçado dos animais em função do desmatamento das áreas a serem alagadas e do enchimento do reservatório;
¾ Afugentamento e distúrbios à fauna, decorrentes do aumento do tráfego e
do número de pessoas nas áreas de influência do empreendimento, podendo levar a um aumento de atropelamento de animais e da caça.
Assim, entre os programas relacionados ao meio biótico, são desenvolvidos monitoramentos da fauna aquática e terrestre. Tais programas, além de promoverem a minimização (por exemplo, pelas atividades de resgate) e a compensação (por exemplo, através da criação de uma unidade de conservação) de
impactos, levantam uma grande quantidade de dados, muitas vezes inéditos,
sobre a fauna das áreas de influência do empreendimento.
Infelizmente esses dados são raramente divulgados mais amplamente do
que nos relatórios encaminhados aos órgãos ambientais. E muitas vezes esses
relatórios não apresentam os dados devidamente, não indicando para cada registro o método empregado (levantamento bibliográfico, entrevista, captura,
visualização direta, etc.), a localidade exata, a nomenclatura científica correta,
etc. Desta forma, na prática, os resultados são de pouca utilidade para outros
estudos, principalmente quando se pensa em sua aplicação em uma esfera mais
científica e conservacionista. Este costumeiro desperdício de informações possivelmente se deve à falta de uma formação científica por parte de alguns consultores ambientais. Contudo, percebe-se que têm aumentado tanto a exigência
dos órgãos ambientais para concessão das licenças quanto o nível de formação
dos consultores.
A conservação baseia-se no conhecimento científico e no desenvolvimento de técnicas que permitam manter a coexistência das populações huma11
1. Introdução
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
nas e da biodiversidade natural sobre o planeta2. Se o conhecimento e sua divulgação são falhos, a conservação fica prejudicada em suas bases.
Pese, ainda, que o Brasil está no topo da lista dos países considerados
megadiversos (países que possuem uma alta diversidade de seres vivos), possuindo 28.460 espécies de peixes e 28.590 espécies de vertebrados terrestres (anfíbios, répteis, aves e mamíferos), das quais pelo menos 788 são endêmicas3,4. No
entanto, o número exato de espécies no país é desconhecido e novas espécies
têm sido regularmente descritas, mesmo para áreas melhor investigadas2.
E, apesar de toda esta megadiversidade, devido principalmente à destruição e alteração dos ambientes nativos, 398 espécies e subespécies da fauna
nativa brasileira são consideradas ameaçadas de extinção5, sendo possível que
espécies estejam sendo extintas antes mesmo de serem conhecidas.
Desta forma, os resultados dos estudos de monitoramento, se devidamente registrados e documentados, podem contribuir significativamente para o
aumento do conhecimento sobre a biologia das espécies, passo fundamental
para o desenvolvimento de estratégias de conservação6.
Esses estudos também permitem a obtenção de material visando tombamento em coleções científicas, que fornecem suporte primordial à descrição de
novas espécies e ao desenvolvimento de estudos posteriores sobre os mais variados temas, como taxonomia, morfologia, genética, biogeografia, biologia da
conservação, etc.
Foi com base nesta necessidade de divulgação de dados que este livro foi
planejado, visando apresentar os resultados dos programas de monitoramento e
manejo da fauna aquática e terrestre desenvolvidos na etapa de implantação da
UHE Quebra Queixo, localizada nos municípios de São Domingos e Ipuaçu,
oeste do estado de Santa Catarina, no período de outubro de 2000 a março de
2003.
Referências Bibliográficas
1. Tauk-Tornisielo, S.M.; Gobbi, N. & Fowler, H.G. 1995. Análise ambiental: uma
visão multidisciplinar. 2ª ed. Editora da UNESP, São Paulo, 207 pp.
2. Cavalcanti, R.B. 2002. Prefácio. Pp. 5-6 in Lewinsohn, T.M. & Prado, P.I.
Biodiversidade brasileira: síntese do estado atual do conhecimento. Contexto Acadêmica, São Paulo, 176 pp.
3. Mittermeier, R.A.; Werner, T.; Ayres, J.M. & Fonseca, G.A.B. 1992. O país da
megadiversidade. Ciência Hoje 14 (81): 19-27.
12
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
4. Lewinsohn, T.M. & Prado, P.I. 2002. Biodiversidade brasileira: síntese do
estado atual do conhecimento. Contexto Acadêmica, São Paulo, 176 pp.
5. MMA/IBAMA, 2003. Lista da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção. Disponível em <http://www.mma.gov.br/port/sbf/fauna>. Acesso em 04 de agosto
de 2004.
6. Mares, M.A. 1986. Conservation in South America: Problems, consequences,
and solutions. Science 233: 734-739.
13
2. CARACTERIZAÇÃO DO EMPREENDIMENTO E DOS
ESTUDOS FAUNÍSTICOS
Jorge J. Cherem
CAIPORA Cooperativa para Conservação da Natureza,
R. Deodoro, 226/1003, Centro - 88.010-020, Florianópolis, SC
ETS Energia, Transporte e Saneamento LTDA.,
R. Felipe Schmidt, 315/301, Centro - 88.010-000, Florianópolis, SC
2.1. Localização e Caracterização
A implantação da UHE Quebra Queixo foi viabilizada pela Companhia
Energética Chapecó (CEC), sua construção pelo Consórcio Quebra Queixo
(CQQ), formado pela Construtora Queiroz Galvão S/A e Construtora Barbosa
Mello S/A, e a implantação e o gerenciamento dos programas ambientais pela
Energia Transporte e Saneamento Ltda. (ETS).
A UHE Quebra Queixo localiza-se no rio Chapecó, afluente do rio Uruguai, entre os municípios de Ipuaçu e São Domingos, no oeste do estado de
Santa Catarina, nas coordenadas de 26°40’S e 53°33’W, distante 500km da
capital do estado (Figuras 2.1 e 2.2).
A barragem localiza-se no km 171 a partir da foz do rio Chapecó e possui
672m de comprimento na crista e altura máxima de 75m. O reservatório formado possui 5,60km2 e 136,63 x 106m³, considerando-se o nível d’água máximo
normal, e vida útil estimada em 100 anos. A cota normal de alagamento está na
altitude de 549m. O trecho do rio com vazão reduzida, entre a barragem e a casa
de força, possui 6km.
O vertedouro é lateral à barragem, em soleira livre, com 250m de comprimento na crista. O desvio do rio é do tipo túnel escavado em rocha, de seção
em arco-retângulo, com 349,5m de comprimento, 14m de altura e 12m de diâmetro. O túnel de adução também é escavado em rocha, com comprimento de
590m e largura de 8,50m. A queda d’água entre o lago e o eixo pré-distribuidor
é de 127m. A vazão sanitária é de 0,5m³/s.
A casa de força inclui três turbinas Francis de eixo vertical, de 400rpm. A
potência de cada turbina é de 40MW, representando uma potência total instala15
2. Caracterização do Empreendimento e dos Estudos Faunísticos
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
da de 120MW de energia, suficientes para atender aproximadamente 400.000
habitantes, considerando-se apenas o consumo residencial. A tensão da linha de
transmissão que liga a UHE Quebra Queixo à subestação de Pinhalzinho é de
138kV.
2.2. Áreas de Influência
As áreas de influência representam as áreas que serão direta ou indiretamente impactadas pelos efeitos das atividades transformadoras do ambiente,
existentes ou previstas, decorrentes da implantação e operação do empreendimento1.
Para a ictiofauna considerou-se a bacia do rio Chapecó como a área de
influência desse grupo. Nesta área foram delimitados seis pontos de amostragem,
um a montante e três a jusante do reservatório, e dois na área de alagamento
(ver item 4.1 para maiores detalhes).
Figura 2.1. Localização da UHE Quebra Queixo, no oeste do estado de Santa Catarina,
sul do Brasil.
16
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Figura 2.2. Mapa do reservatório e da faixa ciliar da UHE Quebra Queixo, no oeste do
estado de Santa Catarina, sul do Brasil.
Os estudos sobre a fauna terrestre do referido empreendimento foram
desenvolvidos considerando-se duas áreas de influência:
- Área de Influência Direta (AID): compreende a área do canteiro de
obras, do reservatório e sua faixa de proteção ciliar (100m às margens
do reservatório), nos municípios de Ipuaçu e São Domingos.
- Área de Influência Indireta (AII): compreende as demais áreas dos
municípios de Ipuaçu e São Domingos e o município de Entre Rios.
2.3. Monitoramento e Manejo da Fauna
O monitoramento da ictiofauna foi desenvolvido de maio de 2001 a janeiro de 2003. As campanhas de campo foram realizadas a cada dois meses em
seis pontos de amostragem. Outros dados sobre os métodos do monitoramento
da ictiofauna são apresentados no capítulo 4.
17
2. Caracterização do Empreendimento e dos Estudos Faunísticos
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
O Projeto de Monitoramento e Manejo da Fauna Terrestre da UHE Quebra Queixo foi elaborado em novembro de 2000. Para tanto, foi realizada uma
campanha preliminar de campo de 21 a 25/10/00, visando o reconhecimento in
loco das áreas de influência do empreendimento, particularmente da AID.
Neste projeto, os principais objetivos propostos para o monitoramento e
o manejo da fauna terrestre foram:
- Inventariar as espécies de invertebrados, anfíbios, répteis, aves e mamíferos;
- Levantar dados básicos sobre a biologia das espécies;
- Fornecer subsídios para a adoção de medidas mitigadoras para o manejo da fauna (vertebrados e invertebrados);
- Formar uma coleção de referência da fauna local, particularmente de
anfíbios, répteis e pequenos mamíferos.
2.3.1. Monitoramento da Fauna Terrestre
O monitoramento da fauna terrestre foi desenvolvido de fevereiro de 2001
a março de 2002. Neste período foram realizadas sete campanhas de campo de
quatro dias consecutivos, com periodicidade bimestral, amostrando-se invertebrados, anfíbios, répteis, aves e mamíferos. Cada campanha foi desenvolvida
em uma das margens do rio Chapecó alternadamente. A primeira campanha foi
realizada especificamente na área do canteiro de obras na margem de Ipuaçu,
com o intuito de fornecer subsídios para o planejamento das ações de resgate
durante o acompanhamento do desmatamento desta área.
De um modo geral, foram percorridos diferentes ambientes, principalmente na AID, a pé ou com veículo automotor, em diferentes horários do dia e
da noite, visando à análise do ambiente, o registro visual ou auditivo dos animais e, para alguns grupos, uso de armadilhas e entrevistas.
Com relação aos invertebrados, não foi realizado um trabalho sistemático, mas foram feitas amostragens por procura aleatória e captura com armadilhas luminosas. A procura aleatória foi realizada durante as caminhadas nos
diferentes ambientes, revirando-se pedras, troncos e amontoados de material
em geral. Foram também montadas, à noite, armadilhas luminosas de Shannon,
que consistem em uma barraca de tecido branco iluminada por lampião.
Dentre os invertebrados registrados, alguns foram coletados, utilizandose luvas, pinças ou redes, colocados em potes e levados ao centro operacional
para triagem. Os exemplares coletados foram fixados em álcool 70% e deposi18
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
tados na coleção de invertebrados da FURB. Especificamente no caso dos
aracnídeos, os indivíduos coletados foram encaminhados ao Dr. Arno Lise, da
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).
O monitoramento dos anfíbios, répteis, aves e mamíferos foi desenvolvido por pelo menos um biólogo especialista em cada grupo. O método específico aplicado em cada caso é detalhado nos capítulos 5 a 8.
2.3.2. Manejo da Fauna Terrestre
O manejo tem como objetivos principais a minimização dos impactos
sobre a fauna, o controle e a redução de possíveis encontros de animais em fuga
com trabalhadores e moradores locais, e o aproveitamento científico de exemplares.
O manejo da fauna terrestre da UHE Quebra Queixo foi dividido em três
etapas, duas previamente ao enchimento do reservatório, para acompanhamento
do desmatamento na área do Canteiro de Obras e do reservatório (salvamento
em terra), e outra durante o enchimento do reservatório (salvamento embarcado).
a) Acompanhamento do Desmatamento da Área do Canteiro de Obras
Esta etapa foi realizada de 04 a 13/04/01, visando à aplicação de técnicas
de manejo durante o desmatamento da área do canteiro de obras. O desmatamento
abrangeu 336.100m2.
As ações de manejo foram delineadas com base nos dados obtidos na
primeira campanha de monitoramento, em reuniões de planejamento entre os
biólogos participantes e, quando necessário, com engenheiros e encarregados
do desmatamento. As reuniões foram realizadas previamente e durante as atividades, definindo-se os locais de corte da vegetação, o direcionamento do
desmatamento para evitar o encurralamento de animais, o período de atividade
de trabalho (apenas diurno) e a redução do número de frentes de trabalho, facilitando o controle das atividades por parte dos encarregados e dos biólogos.
O acompanhamento das frentes de trabalho foi feito por um a três biólogos, conforme a necessidade em cada local, equipados com material apropriado para captura e transporte de animais, incluindo ganchos e laços para captura
de serpentes; caixas para transporte de roedores (30x19x12cm; tipo mouse packs)
e de serpentes (50x40x25cm); caixas organizadoras plásticas (52x37x37cm) e
de isopor; sacos e potes plásticos de tamanhos variados; luvas de couro (raspa
longa), de látex e cirúrgicas; pinças; tesouras; bisturis; álcool 70%; formol; etc.
19
2. Caracterização do Empreendimento e dos Estudos Faunísticos
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
b) Acompanhamento do Desmatamento da Área do Reservatório
O acompanhamento das atividades de desmatamento da área do reservatório foi realizado de 15/04/02 a 20/01/03. As ações de manejo foram planejadas da mesma forma como na etapa anterior, com base nos dados de
monitoramento e reuniões. O andamento das atividades de manejo era avaliado
a cada 15 dias.
As ações de manejo incluíam não apenas o resgate propriamente dito,
mas também o direcionamento do desmatamento em cada margem do reservatório, de jusante para montante, e o empilhamento do resto da vegetação derrubada (galhadas e troncos) na futura faixa de proteção do reservatório, servindo
de abrigo para alguns animais e de banco de sementes para auxiliar na recomposição da vegetação ciliar ao reservatório.
Nos dois primeiros meses, o acompanhamento do desmatamento foi feito por duas pessoas (dois biólogos ou um biólogo e um estagiário), uma em
cada margem do reservatório. A partir do terceiro mês, no entanto, apenas um
biólogo acompanhou as atividades, devido à baixa velocidade de progressão do
desmatamento, aos poucos registros de animais e conseqüentemente baixa necessidade de resgate.
O material necessário para captura e transporte dos animais resgatados
foi o mesmo utilizado na etapa anterior.
c) Resgate durante o Enchimento do Reservatório
O acompanhamento do enchimento do reservatório foi realizado de 06 a
26 de março de 2003. Neste período, foram montadas duas equipes de três ou
quatro pessoas cada, compostas por biólogos, estagiários e barqueiros. Para o
resgate foram utilizados dois veículos utilitários e dois barcos. Cada equipe
possuía os materiais necessários para captura e transporte dos animais resgatados, incluindo dois ganchos, um laço, luvas de couro, de látex e cirúrgicas,
caixas para transporte de ratos e de serpentes, uma caixa tipo apartamento para
pequenos animais (40x40x90cm; com 3 fileiras sobrepostas com 7 cômodos
cada) e outra para animais um pouco maiores (40x45x85cm; com 2 fileiras
sobrepostas com 4 cômodos cada), uma caixa de isopor, potes e sacos plásticos
de diferentes tamanhos, sacos de pano e facão para desbaste da vegetação alagada,
além de pinças, bisturis, tesouras, rolo de cordão, seringas, álcool 70%, etc.
Nos dois primeiros dias de enchimento foi feito um acompanhamento a
pé das margens. O resgate embarcado iniciou no terceiro dia de enchimento,
quando se apresentaram condições mais seguras de navegação. De um modo
20
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
geral, cada barco percorria uma margem do reservatório, durante a manhã e a
tarde. Deu-se ênfase ao salvamento embarcado pelo fato de o deslocamento por
água ser muito mais rápido e eficiente devido às dimensões do reservatório e à
dificuldade de acesso a muitos locais por terra. Os veículos utilitários foram
utilizados basicamente para transporte de pessoal e material do centro operacional para o atracadouro dos barcos.
d) Procedimentos de captura, transporte e destino dos animais resgatados
Entre os invertebrados, maior atenção foi dada àqueles potencialmente
causadores de acidentes ao homem, como aranhas, lagartas-taturanas (Lonomia
obliqua) e himenópteros (abelhas, vespas e marimbondos). Aranhas e insetos
(exceto himenópteros) foram capturados manualmente, com o auxílio de luvas,
pinças, potes ou sacos plásticos e encaminhados ao centro operacional. No centro o material foi triado e fixado em álcool 70%, tendo sido posteriormente
encaminhado para coleções científicas (FURB e PUC-RS).
Com relação aos himenópteros, particularmente abelhas-africanizadas
(Apis melifera), vespas e marimbondos registrados durante as atividades de
supressão da vegetação, suas colônias foram eliminadas, em função do potencial risco de acidente com os trabalhadores. A aproximação às colônias desses
insetos foi feita com o uso de equipamentos de proteção (roupa de apicultura máscara, macacão, luvas e botas brancas).
As abelhas nativas, sempre que possível, foram relocadas para cima da
cota de inundação, em ambientes similares ao de origem, ou sua colméia foi
doada para moradores locais interessados em sua criação.
Os anfíbios foram capturados manualmente e acondicionados em sacos
plásticos cheios de ar e com um pouco de água, mantidos à sombra e, se necessário, dentro de caixas de isopor. Poucos anfíbios foram resgatados, sendo que
a maioria deles foi coletada, encaminhada ao centro operacional e preparada
visando depósito em coleção científica.
A captura de répteis foi feita manualmente, no caso de lagartos, anfisbenas
e quelônios, ou com ganchos e laços de Lutz, no caso de serpentes. Os animais
foram acondicionados em caixas de serpentes ou sacos e potes plásticos de
acordo com a espécie.
A captura de aves fez-se necessária basicamente apenas durante o salvamento embarcado, quando foram resgatados alguns exemplares jovens em ninhos entre a vegetação reófila (sarandis), que seria alagada, e acondicionados
em caixas para transporte.
21
2. Caracterização do Empreendimento e dos Estudos Faunísticos
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Os mamíferos foram resgatados com luvas ou com puçás e acondicionados em caixas para transporte de acordo com o tamanho do animal.
Os vertebrados capturados durante as atividades de manejo foram devidamente acondicionados e soltos o mais rápido possível em local seguro, longe
de habitações humanas, ou levados ao centro operacional. No centro, os animais foram soltos após avaliação de suas condições físicas ou coletados visando depósito em coleção científica (as instituições que receberam este material
são listadas nos capítulos 5 a 8, conforme o grupo). Caso algum animal exigisse
cuidados especiais, seria encaminhado a um médico veterinário, previamente
contatado, o que não se mostrou necessário.
e) Resultados das atividades de manejo e recomendações futuras
Durante o acompanhamento da supressão da vegetação do canteiro de
obras e da área do reservatório, o número de vertebrados resgatados foi menor
do que o esperado a priori (Tabela 2.1), o que foi atribuído tanto à depauperação
dos fragmentos florestais quanto à possibilidade de deslocamento dos animais
por conta própria dada à velocidade baixa do desmatamento. A soltura foi feita
preferencialmente em áreas próximas ao local de resgate, acima da cota de
inundação. Uma caninana (Spilotes pullatus), três ouriços (Sphiggurus villosus),
um gato-do-mato-pequeno (Leopardus tigrinus) e um filhote de mão-pelada
(Procyon cancrivorus) foram soltos no Parque Estadual das Araucárias.
Tabela 2.1. Resumo dos registros de soltura e coleta de vertebrados nos trabalhos de
resgate durante a supressão da vegetação na área do canteiro de obras e do
reservatório da UHE Quebra Queixo, municípios de São Domingos e Ipuaçu,
Santa Catarina.
Grupo
anfíbios (total)
répteis (total)
marsupiais
roedores
outros mamíferos
mamíferos (total)
Total
Resgate e soltura
0
11
8
5
2
15
26
Resgate e coleta
4
3
9
5
3
17
24
Total
4
14
16
10
4
32
50
O número de vertebrados resgatados durante o salvamento embarcado
foi muito maior (Tabela 2.2), destacando-se as lagartixas-cinzentas (Tropidurus
torquatus) e os pequenos roedores, a maioria dos quais pertencente à família
Cricetidae. Por outro lado, nenhum mamífero de maior porte (com peso superior a 1kg) foi resgatado. O principal local de soltura foi o canteiro de obras e o
final do reservatório, em Ipuaçu. Exemplares de Tropidurus torquatus e de pe22
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
quenos roedores (gêneros Akodon, Necromys e Oligoryzomys) também foram
soltos nas margens do reservatório.
O desenvolvimento das ações de resgate de fauna tem sido alvo de crítica, particularmente no que se refere à soltura dos animais resgatados. Tendo em
vista que eles serão transportados a uma área já ocupada por indivíduos da
mesma espécie, a maioria dos animais soltos provavelmente morrerá, em função de disputas por território e fatores relacionados14. Além disto, deve-se ter
em mente que o aumento na densidade de animais no entorno do reservatório
será inevitável, pois muitos indivíduos fugirão por conta própria da área em
alagamento15. No caso da UHE Quebra Queixo, quase todos os indivíduos foram resgatados quando se encontravam isolados nas ilhas temporárias que se
formavam à medida que o reservatório enchia ou sobre pedras e vegetação
emersa.
Tabela 2.2. Resumo dos registros de soltura e coleta de vertebrados nos trabalhos de
resgate durante o enchimento do reservatório da UHE Quebra Queixo,
municípios de São Domingos e Ipuaçu, Santa Catarina.
Grupo
anfíbios (total)
Tropidurus torquatus
outros répteis
répteis (total)
aves (total)
marsupiais
roedores
mamíferos (total)
Total
Resgate e soltura
26
229
56
285
18
31
285
316
645
Resgate e coleta
40
13
100
113
6
17
195
212
371
Total
66
242
156
398
24
48
480
528
1016
Em função disto, recomenda-se que resgates futuros dêem maior ênfase
ao aproveitamento científico dos animais resgatados, disponibilizando-se maior quantidade de material para diversos estudos, como taxonomia, genética,
parasitologia e outros.
Também são ainda necessários estudos que avaliem o impacto da fuga/
soltura de animais sobre as populações nas imediações do reservatório ou nas
áreas de soltura de fauna.
2.4. Centro Operacional
Para o desenvolvimento das atividades de monitoramento e manejo da
fauna e da flora, foi construído um centro operacional, localizado no canteiro
23
2. Caracterização do Empreendimento e dos Estudos Faunísticos
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
de obras, na margem de São Domingos. Este centro consistiu em uma estrutura
equipada para o desenvolvimento dessas, permitindo o trabalho e a acomodação (pernoite) de biólogos, técnicos e estagiários, desde o início da execução
dos estudos, em fevereiro de 2001, ao final do enchimento do reservatório, em
março de 2003.
O centro continha duas unidades principais. A unidade de acomodação e
trabalho possuía 2 quartos com capacidade para 6 pessoas cada, 2 banheiros,
uma cozinha, uma sala de recepção e reuniões, um laboratório, um depósito e
uma área externa coberta com tanque para limpeza do material. O laboratório
possuía um freezer, uma mesa de escritório e uma mesa para triagem e preparo
de material, uma bancada com duas cubas, duas estantes de madeiras, além do
material necessário ao manuseio e preparo de material biológico (luvas, pinças,
bandejas, produtos químicos, etc.).
A segunda unidade, para acomodação animal, foi construída em alvenaria e telhado em cimento amianto para abrigar os animais resgatados que eventualmente necessitassem de maiores cuidados ou que seriam transferidos para
outros locais. Esta unidade continha um corredor e três recintos. Cada recinto,
de 1,5 x 2m, possuía uma porta, com um pequeno quadrado de tela para
visualização do interior, voltada para o corredor. A parede oposta foi construída
em alvenaria no 0,5m basal e tela no restante. As dimensões da tela foram distintas para cada recinto (arame n° 10 de duas polegadas; arame n° 14 de uma
polegada; tela de malha fina).
O acesso às duas unidades do centro operacional era restrito ao pessoal
em trabalho, tendo sido vetada a visitação pública.
2.5. Referências Bibliográficas
1. Tauk-Tornisielo, S.M.; Gobbi, N. & Fowler, H.G. 1995. Análise ambiental: uma
visão multidisciplinar. 2ª ed. Editora da UNESP, São Paulo, 207 pp.
2. Cavalcanti, R.B. 2002. Prefácio. Pp. 5-6 in Lewinsohn, T.M. & Prado, P.I.
Biodiversidade brasileira: síntese do estado atual do conhecimento. Contexto Acadêmica, São Paulo, 176 pp.
3. Mittermeier, R.A.; Werner, T.; Ayres, J.M. & Fonseca, G.A.B. 1992. O país da
megadiversidade. Ciência Hoje 14 (81): 19-27.
4. Lewinsohn, T.M. & Prado, P.I. 2002. Biodiversidade brasileira: síntese do
estado atual do conhecimento. Contexto Acadêmica, São Paulo, 176 pp.
5. MMA/IBAMA, 2003. Lista da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção. Dis24
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
6.
7.
8.
9.
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
ponível em <http://www.mma.gov.br/port/sbf/fauna>. Acesso em 04 de agosto
de 2004.
Mares, M.A. 1986. Conservation in South America: Problems, consequences,
and solutions. Science 233: 734-739.
Macedo, R.K. 1995. A importância da avaliação ambiental. Pp.13-31 in TaukTornisielo, S.M.; Gobbi, N & Fowler, H.G. (orgs.). Análise ambiental: uma
visão multidisciplinar. 2ª ed. Editora da UNESP, São Paulo, 207 pp.
Rodrigues, M. 2006. Hidrelétricas, ecologia comportamental, resgate de fauna:
uma falácia. Natureza & Conservação 4 (1): 29-38.
Gribel, R. 1993. Os mamíferos silvestres e as grandes barragens na Amazônia.
Pp. 125-133 in Ferreira, E.J.G.; Santos, G.M.; Leão, E.L.M. & Oliveira, L.A.
(eds.). Bases científicas para estratégias de preservação e desenvolvimento
da Amazônia. V. 2. INPA, Manaus.
25
3. CARACTERIZAÇÃO AMBIENTAL
3.1. Aspectos Fisiográficos
Rivelino Reis
Márcia T. Eli
Anderson Martins
ETS Energia, Transporte e Saneamento LTDA.,
R. Felipe Schmidt, 315/301, Centro - 88.010-000, Florianópolis, SC
As informações sobre os aspectos fisiográficos das áreas de influência da
UHE Quebra Queixo foram obtidas a partir do Programa de Monitoramento e
Manejo das Margens do Reservatório1 e do Plano de Usos Múltiplos do Reservatório da UHE Quebra Queixo2.
3.1.1. Clima
Os dados empregados na caracterização climática das áreas de influência
da UHE Quebra Queixo foram obtidos em três fontes: (1) pluviometria de longo período: registros da estação pluviométrica do Departamento Nacional de
Águas e Energia Elétrica (DNAEE) de Abelardo Luz; (2) termometria e higrometria: médias normais da estação meteorológica da EPAGRI/CLIMERH de
Xanxerê (SC); (3) pluviometria e termometria com série contínua curta: registros da estação da COAMO - Cooperativa Agrícola Mourãoense Ltda., unidade
de Ipuaçu (SC). Para identificar as flutuações hídricas regionais utilizou-se a
técnica do balanço hídrico climático de Thornwaite e Mather.
Pela classificação de Köeppen, o tipo climático nas áreas de influência
da UHE Quebra Queixo é o Cfb, mesotérmico úmido sem estação seca definida
e com verão ameno, que corresponde a um clima com temperaturas médias
anuais inferiores a 18 ºC e temperatura média do mês mais quente compreendida entre 18ºC e 22ºC. O regime pluviométrico é do tipo isoigro, isto é, as chuvas são bem distribuídas ao longo do ano e não há uma estação seca claramente
definida.
3.1.2. Temperatura e Umidade
As temperaturas médias mensais foram tomadas na estação de Xanxerê
(SC), situada a 841m de altitude.
27
3. Caracterização Ambiental
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
A temperatura média anual é de 17,0 ºC, com média do mês mais quente
de 21,1 ºC (janeiro) e média do mês mais frio de 12,4 ºC (julho). No local da
estação, foram observadas as seguintes temperaturas extremas: máxima absoluta de 39,9 ºC (janeiro), mínima absoluta de -11,6 ºC (junho), média das máximas do mês mais quente de 28,1 ºC (janeiro) e média das mínimas do mês mais
frio de 7,1 ºC (julho) (Tabela 3.1 e Figura 3.1).
A umidade relativa média do ar é alta ao longo de todo ano, situando-se
no intervalo entre aproximadamente 77% e 83% (Tabela 3.1 e Figura 3.1).
Tabela 3.1. Temperaturas médias mensais normais (ºC) e umidades relativas do ar médias
mensais normais, registradas no município de Xanxerê, Santa Catarina.
Meses
Média
Média das máximas
Média das mínimas
Umidade relativa
média do ar (%)
jan
fev mar abr mai
jun
jul
ago
set
out nov dez Anual
17,0
24,2
11,6
21,1 20,9 19,8 16,8 14,2 12,8 12,4 14,0 15,2 17,0 18,9 20,5
28,1 27,6 26,7 23,9 21,5 19,9 19,9 21,7 22,5 24,3 26,2 27,7
15,8 15,9 14,6 11,4 8,9 7,8 7,1 8,4 9,9 11,5 12,9 14,8
80,8 81,9 81,5 82,3 82,7 82,8 80,6 78,5 78,6 78,5 76,7 77,9
30,0
80.2
100
Temperatura (oC)
80
70
20,0
60
15,0
50
40
10,0
30
20
5,0
Umidade Relativa do Ar (%)
90
25,0
10
Ag
os
to
Se
te
m
br
o
O
ut
ub
ro
No
ve
m
br
o
De
ze
m
br
o
Ju
lh
o
Ju
nh
o
M
ai
o
ril
Ab
M
Fe
ve
re
iro
ar
ço
0
Ja
ne
i ro
0,0
Umidade relativa média
Temperatura máxima média
Temperatura média
Temperatura mínima média
Fonte: EPAGRI/CLIMERH - Estação meteorológica de Xanxerê (SC)
Figura 3.1. Distribuição temporal das temperaturas médias e umidades relativas do ar
médias normais, registradas no município de Xanxerê, Santa Catarina.
Para visualização da marcha mensal das temperaturas e precipitação
pluviométrica na região, foram plotadas as séries mensais de temperaturas máximas, médias e mínimas e precipitação pluviométrica coletadas na estação da
28
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
COAMO, unidade de Ipuaçu (SC), entre 1995 e 2001 (Figura 3.2). Note-se que
a variação interanual das chuvas é maior do que a variação das temperaturas.
3.1.3. Precipitação Pluviométrica
40,0
0
35,0
100
30,0
200
25,0
300
20,0
400
15,0
500
10,0
600
5,0
0,0
jan/95
Precipitação mensal (mm)
Temperatura (oC)
Uma seqüência de precipitações mensais na região pode ser visualizada
na Figura 3.2. Para contabilizar os totais anuais e mensais, no entanto, foram
empregados dados diários de precipitação registrados na estação pluviométrica
do DNAEE de Abelardo Luz (SC), no período de 1958 a 1999.
700
Jul
Jan/96
Jul
Jan/97
Jul
Jan/98
Jul
Jan/99
Jul
Jan/00
Precipitação mensal
Temperatura média
Temp. máxima média
Temp. mínima média
Jul
Jan/01
Jul
Figura 3.2. Série contínua mensal da temperatura e precipitação registradas na estação da
COAMO - Cooperativa Agrícola Mourãoense Ltda., unidade do município de Ipuaçu,
Santa Catarina, no período de 1995 a 2001.
As precipitações totais anuais variam de um mínimo de 1001,9mm
(registrados em 1959) até um máximo de 4029,8mm (1983). A média histórica
(total anual médio normal) é de 2002,5mm. Considerando que a variável “total
anual de chuva” ajusta-se à distribuição estatística normal ou gaussiana, podese inferir que há uma probabilidade de cerca de 4% de, em um ano qualquer,
ocorrer uma precipitação total inferior a 1000mm ou, dito em uma forma equivalente, o tempo de retorno para um total de chuva neste patamar é de aproximadamente 25 anos. Já para os valores máximos, obtém-se uma probabilidade de
apenas 0,034% para ocorrência de precipitações superiores a 4000mm anuais.
Significa dizer que o total anual de chuva registrado em 1983 foi conseqüência
de eventos pluviométricos raros e com muito baixa probabilidade de ocorrência em um ano qualquer. Por simetria com o total anual mínimo, para uma
29
3. Caracterização Ambiental
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
probabilidade de 4% de excedente, o total anual de chuva será de aproximadamente 3.000mm (Figura 3.3).
4500
4000
3500
3000
2500
2000
1500
1000
500
19
58
19
59
19
60
19
61
19
62
19
63
19
64
19
65
19
66
19
67
19
68
19
69
19
70
19
71
19
72
19
73
19
74
19
75
19
76
19
77
19
78
19
79
19
80
19
81
19
82
19
83
19
84
19
85
19
86
19
87
19
88
19
89
19
90
19
91
19
92
19
93
19
94
19
95
19
96
19
97
19
98
19
99
0
Figura 3.3. Série temporal dos totais anuais de chuva registrados na estação
pluviométrica do DNAEE, município de Abelardo Luz, Santa Catarina, no período de
1958 a 1999.
Tabela 3.2. Precipitações totais médias mensais e precipitações máximas e mínimas
mensais registradas na estação pluviométrica do DNAEE, município de
Abelardo Luz, Santa Catarina.
Mês
Janeiro
Fevereiro
Março
Abril
Maio
Junho
Julho
Agosto
Setembro
Outubro
Novembro
Dezembro
Precipitação Mínima
(mm)
44,9
41,7
5,5
0,0
0,0
9,2
15,0
16,3
56,8
29,7
14,0
3,1
Precipitação Média
(mm)
187,0
181,3
149,5
146,1
163,0
154,8
152,8
151,6
184,4
204,5
157,2
170,3
Precipitação Máxima
(mm)
472,4
382,1
373,9
339,0
631,4
403,3
736,1
382,7
353,5
507,9
522,4
484.2
Os totais médios mensais das precipitações situam-se na faixa entre 140210mm, com um máximo médio mensal de 204,5mm (outubro) e um mínimo
médio mensal de 146,1mm (abril). Em um mês, o máximo observado foi de
736,1mm (julho de 1983), enquanto em maio de 1966 e abril de 1978 não foram registradas chuvas na região. Embora ocorra certa tendência de as chuvas
serem mais abundantes nos meses de verão, a distribuição das precipitações
médias mensais é relativamente uniforme ao longo do ano, indicando que na
30
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Precipitação mensal média (mm)
região não ocorrem estações que possam ser definidas como regularmente secas ou chuvosas (Tabela 3.2 e Figura 3.4).
800,0
Máximo
700,0
Mínimo
Média
600,0
500,0
400,0
300,0
200,0
100,0
0,0
Jan
Fev
Mar
Abr
Mai
Jun
Jul
Ago
Set
Out
Nov
Dez
Figura 3.4. Distribuição das precipitações totais médias mensais e precipitações máximas
e mínimas mensais registradas na estação pluviométrica do DNAEE, município de
Abelardo Luz, Santa Catarina.
A partir da série de precipitações diárias, obtiveram-se as máximas anuais registradas na estação. As chuvas extremas anuais de um dia de duração
variaram entre 40 e 210 mm, com um valor médio esperado de 88 mm.
3.1.4. Evapotranspiração de Referência e Balanço Hídrico Climático
Calculou-se a evapotranspiração de referência média mensal para o local
de estudo pelo método de Penman e o balanço hídrico climático pelo método de
Thornwaite e Mather. Para entrada no modelo de balanço hídrico, foram empregados os dados de precipitação média mensal apresentados listados na Tabela 3.2 e uma capacidade de armazenamento de água no solo de 100mm, valor
representativo para os solos predominantes na região.
As chuvas são, em média, bem distribuídas ao longo do ano. A marcha da
evapotranspiração, por sua vez, apresenta uma sazonalidade condicionada principalmente pelo fator radiação solar e pelo regime térmico dela decorrente.
Considerando-se que a radiação solar possui uma variação interanual muito
pequena, o comportamento da evapotranspiração tipicamente segue a tendência exibida na Figura 3.5. Assim, os meses mais frios apresentam as menores
taxas de evapotranspiração de referência ou potencial, com um mínimo médio
31
3. Caracterização Ambiental
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
de 60 mm (junho). Nos meses de verão, a evapotranspiração de referência chega a atingir cerca de 180 mm, em média. Como as chuvas são bem distribuídas,
os excessos hídricos médios que ocorrem na região são mais elevados durante
os meses de inverno, justamente porque a demanda hídrica das plantas e atmosfera é relativamente baixa. No entanto, como pode ocorrer grande variação
interanual nos totais precipitados (na Tabela 3.2 pode-se notar que já ocorreu
uma amplitude de aproximadamente 720 mm no mês de julho), os excessos
hídricos também podem apresentar grande variação ao longo dos anos (Tabela
3.3 e Figura 3.5).
Tabela 3.3. Balanço hídrico climático (modelo Thornwaite e Mather) para a UHE Quebra
Queixo, municípios de Ipuaçu e São Domingos, Santa Catarina.
Componentes
Precipitação
ETo*
Armazenamento
Armazenamento
ETR**
Déficits
Excessos
*
jan
187
179
97
2
179
0
0
fev mar
181 150
162 134
100 100
3
0
162 134
0
0
26
20
abr
146
102
100
0
102
0
43
mai
163
75
100
0
75
0
91
jun
155
60
100
0
60
0
94
jul
ago
153 152
69
80
100 100
0
0
69
80
0
0
91
83
set
184
109
100
0
109
0
78
out nov
205 157
141 167
100 100
0
0
141 167
0
0
54
6
dez Anual
170
2003
181
1460
95
-5
0
180
2046
1
1
0
586
ETo: evapotranspiração de referência (estimada pelo método de Penman e capacidade de armazenamento do solo de 100 mm).
ETR: evapotranspiração real (estimada pelo método de Penman e capacidade de armazenamento do solo de 100 mm).
**
250
200
150
mm
100
50
m
t
ag
o
ju
l
ju
n
m
ai
ab
v
ou
t
se
z
no
Pr
ec
ip
ita
çã
o
Ex ET
o
ce
s
deso
r
ar
fe
v
ja
n
0
Figura 3.5. Distribuição da média mensal da precipitação, evapotranspiração de
referência (ETo) e excessos hídricos na UHE Quebra Queixo, municípios de Ipuaçu e São
Domingos, Santa Catarina.
32
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
3.1.5. Aspectos Geomorfológicos
Enquanto disciplina centrada no estudo das formas do relevo a
geomorfologia se preocupa com os processos e formas resultantes criadas na
superfície do planeta. O principal instrumento de interpretação geomorfológica,
portanto, é o conhecimento acumulado a respeito dos processos de remoção,
transporte e sedimentação de coberturas superficiais, principais responsáveis
pela esculturação do relevo.
Os mapas (Figuras 3.6 e 3.7) foram elaborados a partir da interpretação
preliminar de fotografias aéreas na escala de 1:20.000 da área de influência
direta da UHE Quebra Queixo e com base no mapa político do estado de Santa
Catarina3 e em cartas topográficas do IBGE4. Durante visita a esta área, as feições e coberturas previamente identificadas foram sujeitas a correção e
detalhamento, após verificação em campo.
Completada a interpretação das fotografias aéreas, as feições mapeadas
foram deliberadamente simplificadas com o intuito de facilitar a localização
espacial das principais coberturas. Estas foram delineadas manualmente sobre
ortofotografia para digitalização e elaboração do mapa final.
A área de influência direta da UHE Quebra Queixo está inserida em duas
grandes unidades:
• Planalto dos Campos Gerais;
• Planalto Dissecado do Rio Iguaçu/Rio Uruguai.
O Planalto dos Campos Gerais apresenta-se distribuído pelo estado em
blocos de relevos isolados pelo Planalto Dissecado Rio Iguaçu/Rio Uruguai. Os
blocos que constituem esta unidade são conhecidos como planalto de Palmas,
planalto de Capanema, planalto de Campos Novos e planalto de Chapecó. Estes blocos estão situados topograficamente acima das áreas circundantes (Planalto Dissecado Rio Iguaçu/Rio Uruguai) e correspondem a restos de uma superfície de aplanamento.
As cotas altimétricas mais elevadas ocorrem na porção leste da unidade,
ultrapassando 1.200 metros, nas proximidades da “cuesta” da Serra Geral, enquanto que no planalto de Chapecó estas cotas ficam em torno dos 600 metros.
A situação estável do relevo favorece a infiltração da água no solo, salvo
regiões de ocorrência de diaclasamento horizontal da rocha. Com isso, aceleram-se os processos de intemperismo resultando em solos profundos, de texturas argilosas e bem drenadas, porém com baixa a média fertilidade natural.
33
3. Caracterização Ambiental
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
A Unidade Geomorfológica Planalto Dissecado Rio Iguaçu/Rio Uruguai
caracteriza-se pelo domínio de um relevo muito dissecado e constituído por
uma sucessão de encostas em patamares e terraços que constituem superfícies
geomórficas policíclicas. Assim, após sucessivos derrames de lavas, formou-se
uma sucessão de rochas com diferentes graus de resistência à alteração.
A decomposição seletiva dessas rochas subjacentes, associadas à ação da
erosão, originou superfícies em degraus ou patamares, típica de áreas de derrames basálticos, justificando desta forma, a característica do relevo da região.
Como indicativo de instabilidade e imaturidade da paisagem, dominam vales
estreitos e profundos (tipo “v”), como, por exemplo, a “calha” do rio Uruguai.
Os vales em geral variam de pouco a medianamente encaixados e apresentam uma drenagem condicionada pelas falhas geológicas dos maciços. A dissecação do relevo é moderada com amplitudes altimétricas na média de 100 m.
Os principais mecanismos da erosão pluvial nessa unidade geomorfológica
são o escoamento superficial e o escoamento subsuperficial. O escoamento superficial é considerado o mais generalizado e mais importante na esculturação
do relevo, devido às características estruturais e texturais das formações superficiais que se apresentam de forma geral, profundas.
Principais Unidades Mapeadas
As principais coberturas superficiais remobilizadas mapeadas foram agrupadas em sete categorias (Figura 3.6), às quais adiciona-se uma oitava categoria de formação superficial, a de cobertura autóctone, desenvolvida in situ.
1 - Movimentos de massa profundos e depósitos de talus localizados
Tratam-se de depósitos de vertente, de calibre variável, englobando área significativa da zona estudada. Os movimentos de massa profundos predominam, gerando deslizamentos que se manifestam por solapamento da base dos
taludes devido à dissecação da calha principal pelo rio Chapecó. Volumes
consideráveis de solo e regolito são remobilizados. Sondagens observadas na
área da barragem indicam profundidades de material remobilizado da ordem
de 20 metros. Em geral, esses deslizamentos ocorrem nas margens côncavas
de meandros encaixados, denunciando a relação entre o deslizamento e o
rebaixamento da calha por erosão fluvial.
2 - Depósitos de calha - Alúvio/Colúvio grosso
Tratam-se de depósitos transportados em calha fluvial, com contribuição de
material desmoronado de vertentes adjacente, donde sua caracterização
34
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
preliminar indiferenciada como alúvio/colúvio. Formam depósitos heterométricos, com predomínio de blocos embutidos em matriz mais fina. Aparentam ser retrabalhamentos de material de encosta (depósitos de talus e de
deslizamentos) carreados e depositados sem que tenha sido identificada a
estrutura sedimentar aparente em campo. Nas fotografias aéreas se confundem com plataformas esculpidas sobre lajeados sustentados pelas rochas subhorizontais, aparentando cobertura pouco profunda. Indicam níveis de trânsito de sedimentos e de água que não são mais ativos e que foram abandonados pelo rebaixamento geral da calha fluvial ao longo do tempo.
Figura 3.6. Mapa Geomorfológico de Coberturas Remobilizadas da UHE Quebra
Queixo, municípios de São Domingos e Ipuaçu, Santa Catarina.
3 - Colúvio regularizado, localmente dissecado em lóbulos
Trata-se de cobertura coluvial, portanto de sedimentos carreados e retidos
sobre as encostas adjacentes ao rio Chapecó. O termo “regularizado” faz
referência às chamadas vertentes regularizadas, vertentes que foram
35
3. Caracterização Ambiental
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
retrabalhadas continuamente por processos geomórficos, gerando perfis suaves que indicam dispersão e reacomodamento dos depósitos iniciais. Em geral,
os colúvios associados ao retrabalhamento de antigos deslizamentos ocorrem na forma de lóbulos individualizados pela erosão superficial.
4 - Movimentos translacionais e rastejo
Ocorrem em longas encostas e conferem à superfície do terreno um relevo
forte ondulado. Foram identificados em vertentes aparentemente recobertas
por coberturas superficiais pouco espessas (entre 0,5 e 1,5 metro) que tendem a deslizar paralelamente ao embasamento. As feições de rastejo, típicas,
em escadaria, ocorrem, sobretudo, próximas às bordas de patamar ou de rupturas de declive.
5 - Alúvio/Colúvio fino com Hidromorfia
Ocorrem, sobretudo, no setor montante da área estudada. Neste setor, a dissecação menos importante da calha fluvial pelo rio Chapecó implicou em
menor reajuste dos interflúvios, criando grandes áreas de retenção de sedimentos e de água, donde o caráter hidromórfico predominante dos solos desenvolvidos sobre os sedimentos. Trata-se de alúvio/colúvio fino interdigitado,
ao longo de longas bacias de captação de drenagem que convergem para o rio
Chapecó.
6 - Área de captação de drenagem e direção principal de fluxo
Estão classificadas nesta categoria pequenas bacias de captação de drenagem, em geral suspensas topograficamente, que contribuem de forma intermitente para o rio Chapecó. Em geral, estas bacias se desenvolvem sobre
níveis de base locais elevados, condicionados pela rocha de topo de patamar
estrutural (forma predominante dos interflúvios).
7 - Borda de patamar e ressalto topográfico
Feição clássica da geomorfologia de áreas com forte influência estrutural de
rochas plano-paralelas horizontais a sub-horizontais, esta cobertura, quando
suficientemente delineada na topografia, indica os limites dos patamares que
sustentam os interflúvios da área estudada.
8 - Cobertura autóctone
Encontra-se sobre as áreas de topo de patamar e adjacências e se refere predominantemente a solos sem remobilização aparente.
36
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Compartimentação Geomorfológica do Reservatório da UHE Quebra
Queixo
A área de estudo pode ser subdivida em setores geomorfológicos, a partir
da área entre a barragem e casa de força, que representa o trecho de “vazão
reduzida” a jusante, passando por setor intermediário no centro da porção inundada, até o remanso do reservatório a montante.
As principais variações observadas no levantamento preliminar dizem
respeito à:
• Relação entre taxa de dissecação do vale e cobertura remobilizada predominante;
• Relação entre dimensões e dinâmica das áreas de captação de drenagem de jusante para montante.
Relação entre taxa de dissecação e expressão espacial e a cobertura
remobilizada
No setor jusante, entre barragem e casa de força, onde o vale foi mais
dissecado pela erosão fluvial, ocorre maior expressão espacial relativa de depósitos de calha. Os colúvios que predominam neste setor aparentam ser relativamente recentes, inclusive com grandes deslizamentos rotacionais profundos ainda
em acomodação.
No setor intermediário, área principal do reservatório, onde o vale ainda
é bastante encaixado, aumenta a expressão relativa de material coluvial. Predominam espacialmente colúvios regularizados e dissecados em lóbulos, com algumas manchas de deslizamentos profundos.
No setor a montante, final de área intermediária e área de remanso do
reservatório, devido ao baixo grau de dissecação da calha fluvial e dos interflúvios
adjacentes, observa-se o aparecimento de grandes áreas de captação de drenagem, suspensas topograficamente, que se conectam com a calha principal do
rio Chapecó através de grandes manchas de alúvio/colúvio fino com hidromorfia.
Relação entre dimensões e dinâmica das áreas de captação de drenagem de
jusante para montante
Esta relação é simples e se expressa por grande número de áreas de captação de drenagem relativamente pequenas a jusante, seguidas de aumento da
superfície e diminuição do número de áreas de captação de drenagem, do setor
intermediário para montante.
37
3. Caracterização Ambiental
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
O maior número de pequenas áreas de captação de drenagem a jusante se
relaciona com o maior grau de dissecação do vale principal neste setor.
3.1.6. Aspectos Geológicos
A cobertura geológica regional remonta ao período Cretáceo Inferior e
corresponde a rochas basálticas da Formação Serra Geral do Grupo São Bento.
O basalto é a rocha resultante do maior derrame de lavas ocorrido por
fissura, alcançando abrangência de 1.200.000km2. É uma rocha ígnea extrusiva,
assim chamada por ter solidificado à superfície sob resfriamento extremamente
rápido. Este conferiu à rocha uma textura uniforme, onde não é possível distinguir-se os componentes minerais, denominada textura afanítica.
Os basaltos são compostos basicamente por plagioclásios, piroxênios,
magnetita e minerais secundários. Os plagioclásios, que aparecem em maior
quantidade, são plagioclásios cálcicos e piroxênios, que têm estabilidade muito
baixa. Desta forma, alteram-se quase que totalmente em minerais argilosos,
com alta liberação de óxidos, notadamente os de ferro. A grande abundância de
cátions e a escassez de sílica conduzem à formação de caulinita, auxiliada pela
drenagem e lixiviação.
O intemperismo, ao longo do tempo, transformou o material de origem
em solos, os quais herdaram características inerentes à rocha que, ao transformar-se, liberou grandes quantidades de minerais secundários (argilas) e óxidos
de ferro.
Projetando-se todas essas informações sobre as características dos solos
resultantes, têm-se perfis com alta agregação de partículas, em função da abundância de óxidos, fator responsável pela alta floculação de argilas, mesmo em
perfis com gradiente textural. Portanto, os solos de basalto apresentam uma
textura argilosa ou muito argilosa e atração por imã, esta por influência do
óxido de ferro dominante (hematita).
O controle estrutural é marcado por segmentos retilíneos do rio, pelos
cotovelos e pela grande ocorrência de lajeados, saltos, quedas e ilhas. Os rios
sinuosos com vales encaixados e patamares nas vertentes apresentam, muitas
vezes, corredeiras e pequenas cachoeiras resultantes das diferenças internas
nos derrames das rochas efusivas.
38
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Riodacito
Trata-se de rocha porfirítica, de coloração esverdeada, com estrutura orientada geralmente sub-horizontal e com grãos até centimétricos de feldspato
em uma matriz afanítica. São comuns as cavidades, geralmente milimétricas,
algumas com preenchimento por material argiloso de coloração verde. Quando
alterada, acentua-se o caráter da orientação, a coloração passa a tons de castanho e, na superfície da rocha, são comuns pequenas cavidades devidas à remoção dos feldspatos.
Segundo compilação dos resultados das sondagens realizadas, bem como
estudo de afloramentos e altitudes de camadas, estimam-se espessuras da ordem de 50 metros para os riodacitos. Eventualmente, esta camada compreenderia também basaltos amigdalóides e brechas basálticas.
Basaltos Amigdalóides e Brechas Basálticas
Um afloramento significativo de basalto amigdalóide, brechado, foi encontrado na margem da estrada secundária de acesso à antiga “prainha”, no
remanso do reservatório. Trata-se ali de rocha alterada, de coloração castanho
escura, com cavidades abundantes de tamanho centimétrico, preenchidas por
zeólitas radiadas (natrolita). O caráter brechado é acentuado pela alteração, que
ressalta na superfície da rocha o material cimentante, de coloração mais
avermelhada.
Basaltos Toleíticos
Os basaltos toleíticos são faneríticos, com textura ‘sal e pimenta’ e típica
coloração cinza. Apresentam em todo o trecho vesículas e amígdalas preenchidas por mineral verde, carbonato e sílica, centi a milimétricas, esféricas e
esticadas, com até 5 cm de comprimento.
Nos trabalhos de campo, observou-se que abaixo da camada de riodacito
ocorrem níveis de basalto escuro, afanítico, com alteração esferoidal amarela.
São as rochas basálticas típicas da Formação Serra Geral, normalmente bastante fraturadas, ocasionalmente propiciando pequenas escarpas, e que não formam grandes blocos na superfície. Uma rocha semelhante é também encontrada nas cotas mais elevadas da área, no trecho escavado para implantação do
canal extravasor.
As características desses diversos tipos petrográficos são importantes para
definição dos solos, da geomorfologia, da estabilidade dos taludes e da suscetibilidade à erosão, e deverão ser consideradas numa etapa posterior, de elaboração da carta geotécnica da área estudada.
39
3. Caracterização Ambiental
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
3.1.7. Aspectos Hidrológicos
De acordo com o Estudo de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) da UHE
Quebra Queixo, o rio Chapecó tem uma área de drenagem de 8.190km2, com
uma densidade de drenagem de 1,55km/km2 e vazão média de 263m3/s, atravessando o território de 37 municípios. Tem como principais afluentes os rios
Chapecozinho, Saudades e Burro Branco.
Ao longo dos anos o uso dos recursos hídricos vem sofrendo alterações.
Do uso mais elementar, o consumo, passando pelo de via de transporte, a utilização da água vem aumentando continuamente à medida que cresce a demanda
por água na indústria e na agricultura.
Segundo o Plano Básico de Desenvolvimento Ecológico-econômico, 1998,
o município de Ipuaçu possui sistema de drenagem pluvial, sendo os dejetos
lançados em sumidouros. Já o município de São Domingos utiliza para o seu
esgotamento sanitário fossas negras, havendo ligações clandestinas com o rio
Bonito.
Sendo uma região com grande produção de grãos, além de aves e suínos,
observa-se um contínuo aumento da degradação ambiental, provocado pelo uso
excessivo e inadequado de agrotóxicos, pelo manejo inadequado do solo, pelo
manejo deficiente dos dejetos de suínos, além da produção de papel e celulose.
Esses usos tornam-se conflitantes e comprometem seriamente a qualidade da água da região.
O uso mais problemático é a criação de suínos. De acordo, com levantamentos efetuados pela Epagri, 84% das fontes e pequenos mananciais da área
em estudo estão contaminados por coliformes fecais. Os produtores de suínos
criam grande quantidade de animais confinados em pequenas áreas, trazendo
como conseqüência a concentração da produção de dejetos numa determinada
área, sendo, portanto mais difícil ao meio de assimilar esta poluição.
O consumo de água pelos frigoríficos, entretanto, assume valores mais
expressivos. No município de Chapecó, a estimativa para consumo de água em
frigoríficos e abatedouros é de 122.800m3/mês. Por esta razão, tem aumentado
o número de poços para abastecimento urbano-industrial no meio rural. Atualmente, cerca de 90% dos poços perfurados no estado estão concentrados na
região oeste catarinense.
A poluição dos dejetos de bovinos e aves é menos alarmante na região,
isto porque o sistema de criação de bovinos é extensivo, não provocando focos
de poluição, mas sua proximidade com os rios facilita o carreamento, pela chu40
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
va, dos dejetos, comprometendo a qualidade da água. Já os dejetos de aves são
utilizados pela maioria dos criadores como fertilizante nas lavouras, minimizando
assim, os efeitos da poluição.
Os agrotóxicos também contribuem para o comprometimento da qualidade da água, sendo a maior concentração de uso, na região de Abelardo Luz.
Devido ao uso intensivo dos solos é dessa região que provém a maior parte dos
sedimentos carreados para o rio Chapecó.
3.1.8. Aspectos Pedológicos
A execução do levantamento pedológico carrega como objetivos centrais, além de definir as classes de solos ocorrentes, estabelecer as relações dos
mesmos com o meio ambiente, gerando informações básicas para futuros trabalhos de planejamento onde o conhecimento do recurso solo seja importante.
A área de influência direta da UHE Quebra Queixo apresenta cinco classes de solos dominantes (Figura 3.7; Tabela 3.4):
¾
¾
¾
¾
¾
CAMBISSOLO HÁPLICO Distroférrico típico;
GLEISSOLO MELÂNICO Distrófico típico;
LATOSSOLO VERMELHO Distroférrico;
NEOSSOLO LITÓLICO Distrófico típico;
NITOSSOLO VERMELHO Distroférrico típico.
Os CAMBISSOLOS são solos minerais não hidromórficos, caracterizados por um horizonte B incipiente, pouco desenvolvido. Apresentam solos com
textura variando de argilosa a muito argilosa.
Ocupam a fisiografia dominante de encostas e escarpas, em condições de
relevo ondulado a fortemente ondulado, freqüentemente associados a Solos
Litólicos de relevo até montanhoso e, mais raramente, a afloramentos de rochas.
É muito comum nestes solos a ocorrência de fase pedregosa, representada pela presença de calhaus e/ou matacões, em proporções acima de 15% da
massa do solo, caracterizando impedimentos ao cultivo dos solos.
41
3. Caracterização Ambiental
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Tabela 3.4. Áreas ocupadas pelos diferentes tipos de solos na zona de inundação e faixa
de proteção ciliar de 100 metros, na UHE Quebra Queixo, municípios de São
Domingos e Ipuaçu, Santa Catarina.
Solo
Latossolo Vermelho Distroférrico típico
Nitossolo Vermelho Distroférrico típico
Cambissolo Háplico Distroférrico típico
Cambissolo Háplico Distroférrico típico +
Neossolo Litólico Distrófico típico
Gleissolo Melânico Distrófico típico
Total
Área (ha)
258,8
72,5
80,8
379,2
%
31,7
8,9
9,8
46,5
25,4
816,7
3,1
100,0
Figura 3.7. Mapa de pedologia da UHE Quebra Queixo, municípios de São Domingos e
Ipuaçu, Santa Catarina.
A classe dos NEOSSOLOS LITÓLICOS reúne solos bem drenados, com
seqüência incompleta de horizontes (A C R) e intensa pedregosidade no perfil e
superfície. São solos extremamente jovens, com características morfológicas
mais herdadas do que adquiridas com o tempo de exposição. Ocupam relevo ou
plano em situação de diaclasamento horizontal ou fortemente ondulado.
Os GLEISSOLOS MELÂNICOS com insignificante área de abrangência
são solos constituídos de perfis com seqüência incompleta de horizontes (A42
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Cg), ocupando relevo plano e em condições de má drenagem. Desenvolveramse a partir do processo de “gleização”, onde o excesso de água próxima à superfície impediu um maior desenvolvimento pedogenético.
São argilosos ou muito argilosos, plásticos e pegajosos. Têm coloração
preta na superfície e cinza em profundidade, esta última na região de redução
dos compostos de ferro. Quimicamente, há muito baixa disponibilidade de nutrientes e alta acidez.
A quarta classe de solos é composta pelos NITOSSOLOS VERMELHOS
(antigas Terras Roxas e Terras Brunas), solos minerais não hidromórficos, caracterizados por horizontes com gradiente textural, ricos sesquióxidos de ferro
e alumínio derivados de rochas efusivas básicas. São constituídos por solos
muito profundos, com coloração arroxeada, com textura variando de argilosa a
muito argilosa, bem drenados e porosos.
Localizam-se preferencialmente, nas meias encostas de transição entre
as áreas de relevo forte ondulado a montanhoso para as áreas de relevo suave
ondulado, entre as encostas e os platôs, freqüentemente associados ora aos
Latossolos ora aos Cambissolos.
A última classe de solos com expressão são os LATOSSOLOS VERMELHOS, os quais estão localizados preferencialmente nos topos ou de meia encosta, em condições de relevo suave ondulado. São solos minerais com seqüência completa de horizontes. Ótimas propriedades físicas, e químicas adversas,
apontados pela baixa saturação de bases e alta saturação com alumínio (caráter
alumínico).
3.1.9. Referências Bibliográficas
1. Programa de Monitoramento e Manejo das Margens do Reservatório da
UHE Quebra Queixo, executado pela ETS, no período de 2001 a 2002, sob
coordenação do Prof. Antônio Ayrton A. Uberti (UFSC/CCA/ENR) e participação dos professores Jucinei J. Comin (UFSC/CCA/ENR), Luiz Carlos P. Martini
(UFSC/CCA/ENR), Luiz Fernando Scheibe (UFSC/CFH/GEO) e Marcelo
Accioly de Oliveira (UFSC/CFH/GEO).
2. Consórcio Quebra Queixo, Companhia Energértica Chapecó & ETS – Energia,
Transporte e Saneamento. 2005. Plano de Usos Múltiplos do Reservatório da
UHE Quebra Queixo. Florianópolis.
3. Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente de Santa
Catarina SDS/SC. 2000. Mapa político do estado de Santa Catarina.
4. IBGE. 2003. Malha Digital Municipal. 2. ed. IBGE, Rio de Janeiro.
43
3. Caracterização Ambiental
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
3.2. Vegetação
Francisco Antônio da Silva Filho
Gerente de Unidades de Conservação,
Fundação Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis (Floram),
R. Conselheiro Mafra, 656 - 8º andar, Centro - 88.010-914, Florianópolis, SC
Simone Pugues
DESENVIX S.A.,
Av. Rio Branco, 691 - 10º andar, Centro - 88015-203, Florianópolis, SC
O inventário florestal realizado na UHE Quebra Queixo, em novembro e
dezembro de 2000, anteriormente ao início das obras, teve como finalidade
caracterizar, por meio de amostragens, as formações vegetais presentes na área
de estudo. Esta área representa a área de influência direta desse empreendimento (área do canteiro de obras, do reservatório e sua faixa de proteção ciliar de
100m às margens do reservatório).
Figura 3.8. Mapa de cobertura vegetal e uso do solo na UHE Quebra Queixo, municípios
de São Domingos e Ipuaçu, estado de Santa Catarina.
44
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
O inventário florestal visou o reconhecimento genérico da população florestal, através de um levantamento qualitativo. As espécies e seu hábito foram
registrados de forma a contemplar todos os habitats que compõem a área de
estudo, destacando-se as espécies endêmicas, raras e/ou ameaçadas de extinção.
A partir disto obteve-se uma lista florística bastante ampla e através da
avaliação das imagens da ortofotocarta, na escala de 1:5.000, comparadas à
realidade de campo foi obtido o mapa de cobertura vegetal e uso do solo na
UHE Quebra Queixo (Figura 3.8).
A caracterização da vegetação original, a nomenclatura científica e os
nomes populares foram tomados da literatura1,2,3.
3.2.1. Vegetação Original
A vegetação original na área de estudo faz parte da Floresta Estacional
Decidual, típica das vertentes do rio Uruguai e seus grandes afluentes, mas
inclui também exemplares da Floresta Ombrófila Mista, representados principalmente pela araucária ou pinheiro-brasileiro (Araucaria angustifolia).
A Floresta Estacional Decidual4, ou Floresta Subtropical da Bacia do Rio
Uruguai1, estendia-se por toda a bacia do rio Uruguai, aproximadamente abaixo da cota dos 500-600 metros de altitude, podendo chegar aos 800 metros1.
Seus elementos mais característicos alcançavam o planalto, compondo com
esmagadora maioria o estrato arbóreo contínuo da Floresta Ombrófila Mista,
também denominada Floresta de Araucária ou de Pinhais1,5.
Esta vegetação decidual ocorre devido ao clima de duas estações, uma
chuvosa e outra seca, ou com acentuada variação térmica. Estes climas determinam uma estacionalidade foliar dos elementos arbóreos dominantes, os quais
têm adaptação ora à deficiência hídrica, ora à queda da temperatura nos meses
frios. O percentual de decidualidade foliar dos indivíduos é de 50% ou mais4. É
esta floresta latifoliada, de caráter nitidamente subtropical, que os colonizadores denominaram “mata branca” em oposição à “mata preta”, onde ocorrem os
pinhais (araucárias)1.
A vegetação original da Floresta Estacional Decidual era representada
por espécies arbóreas de grande porte, atingindo de 30 a 40 metros de altura,
dando à floresta um cunho imponente sem, contudo, formarem uma cobertura
superior contínua.
Quanto à estrutura, além de um estrato arbustivo e um herbáceo, podem
ser distinguidos três estratos arbóreos: o estrato das árvores altas ou emergentes
45
3. Caracterização Ambiental
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
(30-40 metros de altura); o estrato das árvores (comumente entre 20-25 metros
de altura) e estrato das arvoretas (comumente entre 6-15 metros de altura)6,
encontrando-se ainda o estrato dos arbustos, que pode variar bastante de composição em função do terreno em que se encontra.
Na primeira sinusia encontram-se árvores altas (emergentes), deciduais e
espaçadas, formando uma cobertura superior bastante aberta, lembrando as árvores emergentes da floresta amazônica e de outras regiões tropicais. Entre as
árvores emergentes mais comuns estão a grápia (Apuleia leiocarpa), com vasta
e expressiva dispersão pela floresta nos vales, o angico-vermelho (Parapiptadenia rigida), o louro-pardo (Cordia trichotoma), a guajuvira (Patagonula
americana), a maria-preta (Diatenopterix sorbifolia), o rabo-de-mico
(Lonchocarpus leucanthus), a canharana (Cabralea glaberrima), a canafístula
(Peltophorum dubium), o cedro (Cedrela fissilis), o guatambu (Balfourodendrum
riedelianum) e a timbaúva (Enterolobium contortissiliquum), entre outras. Ainda, a cabreúva (Myrocarpus frondosus), em geral pouco freqüente, pode tornarse bastante comum, sobretudo em solos úmidos.
Sob a cobertura destas árvores mais altas encontra-se outra cobertura
arbórea densa formada pelas copas da segunda sinusia, constituída por árvores
perenifoliadas, destacando-se as canelas. A árvore mais importante desta sinusia
é, sem dúvida, a canela-louro ou canela-preta (Nectandra megapotamica), que
possui dispersão vasta, expressiva e regular, não só nas matas brancas, como
também nos pinhais. É seguida pela canela-amarela (Nectandra lanceolata), a
canela-guaicá (Ocotea puberula) e as canelas O. diospyrifolia e O. acutifolia,
árvores que podem ser encontradas em diversas formações vegetais do sul do
Brasil.
O estrato das arvoretas é, em geral, bastante uniforme, predominando
quase sempre a laranjeira-do-mato (Actinostemon concolor) e a soroca (Sorocea
bonplandii), abundantes e freqüentes em quase todas as matas latifoliadas da
bacia do Alto Uruguai.
Nas áreas mais altas e planas, próximas ao rio Chapecó, podem ocorrer
exemplares típicos da Floresta Ombrófila Mista4.
Dentre as subdivisões desta floresta, na UHE Quebra Queixo ocorre a
Floresta de Araucária do Extremo Oeste1. Esta floresta apresenta aspecto singular, onde surgem os pinheiros como árvores emergentes na “mata branca”, fato
este que se constata, sobretudo, nos grandes rios como Peperi-guaçu, das Antas,
Chapecó e Irani.
46
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Grande parte destes pinhais não apresenta a densidade dos demais (com
exceção dos situados em Xanxerê, Abelardo Luz, São Domingos e alguns outros municípios), desaparecendo não raro como manchas isoladas na Floresta
Subtropical do Rio Uruguai. Seu aspecto é tão peculiar que, depois de terem
sido explorados os pinheiros, têm-se a impressão que a mata restante constituía
uma Floresta Subtropical primária, tão densa é a submata, formada por elementos da Floresta Subtropical nestes pinhais.
Na submata destes pinhais o pinheiro não apresenta possibilidades de
regeneração. Tudo indica que estamos assistindo a uma lenta, mas segura expansão da Floresta Subtropical em detrimento dos pinhais, que paulatinamente
vêm perdendo terreno. Toda a área onde se pôde constatar a predominância de
elementos da “mata branca”, por sob os pinheiros, é considerada pelas firmas
colonizadoras como mata branca e não como pinhal.
Em quase toda a zona do extremo oeste os pinhais apresentam semelhante tipo de submata, onde são muito abundantes, sobretudo, o angico-vermelho
(Paraptadenia rigida), a guajuvira (Patagonula americana), a grápia (Apuleia
leiocarpa), a maria-preta (Diatenopterix sorbifolia) e o rabo-de-mico
(Lonchocarpus leucanthus), além de diversas canelas, que também ocorrem
nos demais pinhais. A importância destas árvores varia sensivelmente, de acordo com a topografia, altitude e estágios sucessionais da mata.
Geralmente a parte mais importante da submata é formada pelas árvores
acima apontadas, sendo, contudo, conveniente salientar que por vezes se verificam valores sociológicos locais bastante expressivos, também com as seguintes árvores: o cedro (Cedrela fissilis), o louro-pardo (Cordia trichotoma), o
peúdo (Phytolacca dioica), a canafístula (Peltophorum dubium), o guatambu
(Balfourodendrum riedelianum) e a cabreúva (Myrocarpus frondosus), que podem ser muito abundantes em locais mais restritos.
Por sob as árvores da “mata branca” ocorre um grupo de árvores que
forma uma cobertura arbórea própria, geralmente bastante densa, essencialmente constituída pelas canelas, grande parte das quais ocorre também em outros tipos de vegetação. As mais expressivas são quase sempre a canela-amarela (Nectandra lanceolata), a canela-louro ou canela-preta (Nectandra megapotamica) e a canela-guaicá (Ocotea puberula).
3.2.2. Vegetação Atual
Assim como aconteceu na maior porção da bacia do rio Uruguai, na bacia do rio Chapecó, onde também está localizada a região fitoecológica da Flores47
3. Caracterização Ambiental
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
ta Estacional Decidual e uma pequena porção da Floresta Ombrófila Mista, a
exuberante vegetação original já não existe mais em função do extensivo uso
da terra para agricultura, pecuária e produção madeireira. Restaram fragmentos
nas partes mais altas, nos terrenos mais íngremes e de difícil acesso ou ao longo
de pequenos riachos cobertos por vegetação secundária, a grande maioria das
vezes com acesso ao gado, principalmente durante os meses de frio mais rigoroso.
As espécies vegetais de maior valor econômico, na produção de madeira,
que ocorriam na área de estudo, conforme informação dos moradores mais antigos, são: pinheiro-brasileiro (Araucaria angustifolia), angico-vermelho
(Parapiptadenia rigida), guajuvira (Patagonula americana), grápia (Apuleia
leiocarpa), maria-preta (Diatenopterix sorbifolia), cedro (Cedrela fissilis), louropardo (Cordia trichotoma), guatambu (Balfourodendrum riedelianum), cabreúva
(Myrocarpus frondosus), canela-amarela (Nectandra lanceolata) e canela-guaicá
(Ocotea puberula).
Os terrenos de cultivo com espécies anuais, como trigo, azevém, soja e
milho, por exemplo, e os terrenos de pastagem são muitas vezes utilizados de
um ano para outro como cultura ou pastagem, o que muitas vezes leva a erros,
não de interpretação da fotografia aérea, mas de identificação no campo, quando forem feitas comparações.
Em função da forte agressão aos remanescentes (que na verdade não o
são) da vegetação arbórea e principalmente da dificuldade encontrada muitas
vezes em sua denominação, justamente devido a esta interferência, optou-se
por classificar a vegetação adotando-se a nomenclatura mais usual. A cobertura
vegetal foi dividida em sete tipologias: estágio avançado de regeneração, mata
ciliar, estágio médio de regeneração, estágio inicial de regeneração, pastagem,
cultura anual e reflorestamento (Tabela 3.5; Figura 3.8).
Estágio Avançado de Regeneração
As áreas mapeadas e denominadas de estágio avançado de regeneração
são aquelas que apresentam a dominância de um estrato arbóreo, representado
pelas maiores árvores que ocorrem na área de estudo, muitas vezes formando
até um estrato emergente. São mais freqüentes às margens do rio Chapecó como
uma vegetação ciliar, sempre numa faixa muito estreita, nos terrenos mais íngremes e com muitas rochas aflorantes.
Normalmente essas matas são utilizadas como pastagem e abrigo para o
gado durante o ano todo, mas principalmente nos meses mais frios do inverno.
São por isso comumente denominadas de áreas de invernada para o gado.
48
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Tabela 3.5. Cobertura vegetal para as áreas do canteiro de obras, reservatório e faixa de
proteção ciliar da UHE Quebra Queixo, nos municípios de São Domingos e
Ipuaçu, Santa Catarina.
Uso
TOTAL
Canteiro de Obras
área (ha)
%
12,0341
5,30
4,9250
2,17
52,5385 23,15
0,0000
0,00
5,0172
2,21
37,0758 16,34
115,3632 50,83
0,0000
0,00
226,9538 100,00
Reservatório
área (ha)
%
25,1351
4,52
28,1146
5,06
63,5267
11,42
91,9596
16,54
62,5820
11,25
70,7523
12,72
212,4378
38,21
1,5304
0,28
556,0385 100,00
Faixa Ciliar
área (ha)
%
16,5155
6,28
15,1073
5,74
76,3124
29,02
0,0000
0,00
8,1994
3,12
13,1532
5,00
133,7112
50,84
0,0000
0,00
262,9990 100,00
TOTAL
área (ha)
%
53,6847
5,13
48,1469
4,60
192,3776
18,39
91,9596
8,79
75,7986
7,25
120,9813
11,57
461,5122
44,12
1,5304
0,15
1.045,9913 100,00
A grande maioria das áreas em estágio avançado de regeneração sofreu o
corte seletivo das principais espécies madeiráveis, tornando-se muito abertas, o
que permitiu a instalação e o desenvolvimento de uma vegetação pioneira, muitas
delas com ocorrência de taquaras. Em outras, houve também a limpeza da vegetação arbustiva e arbórea de pequeno porte formando uma vegetação de “parque ou bosque”, onde o gado pasta sob as árvores.
Como exemplares emergentes nessas áreas encontram-se: canafístula
(Peltophorum dubium), angico-vermelho (Parapiptadenia rigida), canela-guaicá
(Ocotea puberula), jerivá (Arecastrum romazoffianum), grápia (Apuleia
leiocarpa) e cedro (Cedrela fissilis).
Entre as espécies mais comuns ocorrem: guajuvira (Patagonula america),
pau-marfim (Baufourodendrum riedelianum), açoita-cavalo (Luehea divaricata),
canela-guaicá (Ocotea puberula), canela-imbuia (Nectandra megapotamica),
camboatá-branco (Matayba eleagnoides), mamica-de-cadela (Fagara rhoifolia)
e rabo-de-mico (Lonchocarpus leucanthus), entre outras espécies de árvores.
Mata Ciliar
Este tipo de vegetação foi destacado em função da clara existência de
uma faixa de vegetação ao longo do rio Chapecó e seus pequenos contribuintes.
Muitas vezes representa o único “remanescente” e, na sua grande maioria, longe de ser aquela faixa de preservação permanente exigida pelo Código Florestal
(Lei Federal 4.771/65) para proteção de suas margens.
Todavia, por se tratar de uma bacia com características de vale bem encaixado, a mata ciliar não é, em muitos casos, diferente daquela existente nas
vertentes, sendo caracterizada pela tipologia da vegetação que a reveste.
49
3. Caracterização Ambiental
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Situação bastante comum são pastagens que vão até a margem do rio,
formando um bosque, onde é retirada a vegetação arbustiva e de arvoretas.
Nas áreas sujeitas à inundação freqüente, com rochas afloradas, pode
desenvolver-se uma vegetação bastante característica deste tipo de ambiente,
conhecida genericamente por sarandi. As espécies que ali se desenvolvem são
exclusivas e em número reduzido de espécies, porém com muitos exemplares.
As mais comuns são: sarandi (Phyllanthus sellowianus), quebra-foice
(Calliandra selloi) e branquilho (Sebastiania klotschiana).
Estágio Médio de Regeneração
Nas áreas com cobertura em estágio médio de regeneração ocorre uma
vegetação arbórea, de menor porte que aquelas em estágio avançado de regeneração, originada do total desmatamento do terreno, podendo ocorrer indivíduos
isolados mais velhos.
Nas áreas em estágio médio de regeneração são mais freqüentes espécies
arbóreas pioneiras, podendo ainda ocorrer exemplares de vassoura-branca
(Baccharis dracunculifolia) ou gramíneas de grande porte, como a macegaestaladeira (Erianthus sp.), provenientes de estágios sucessionais anteriores.
Como representantes deste estágio estão presentes: fumão (Solanum
erianthum), pata-de-vaca (Bauhinia candicans), aroeira-vermelha (Schinus
terebinthifolius), capororoca (Rapanea umbellata), vacum (Allophylus edulis),
guaçatonga (Casearia sylvestris), açoita-cavalo (Luehea divaricata), camboatávermelho (Cupania vernalis) e ingá (Inga virescens), entre outras espécies de
arvoretas.
Em alguns locais, provavelmente em terrenos de solo mais compacto e
esgotado, ocorrem muitos exemplares de timbó (Ateleia glazioviana), espécie
pioneira, bastante agressiva, por vezes formando associações quase puras.
Estágio Inicial de Regeneração
Nestas áreas, pouco freqüentes em função do uso intenso dos terrenos e
resultantes do abandono da terra após vários anos de cultivo ou pastagem, instala-se uma vegetação arbustiva e herbácea, de pequeno e grande porte, podendo ocorrer exemplares de espécies arbóreas como rebrote.
Em terrenos com estas características são comumente encontradas a vassoura-branca (Baccharis dracunculifolia), eupatório (Eupatorium sp.), macegaestaladeira (Erianthus sp.), erva-lanceta (Solidago microglossa), mata-pasto
50
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
(Vernonia tweediana), capim-rabo-de-burro (Andropogon bicornis) e capimdas-roças (Paspalum urvillei), entre outras espécies arbustivas e herbáceas.
Nas roças abandonadas mais recentemente predominam espécies herbáceas e anuais como a samambaia-das-taperas (Pteridium aquilinum), flor-dasalmas (Senecio brasiliensis), erva-de-são-simão (Vernonia scorpioides), vassoura-trepadora (Baccharis anomala), maria-pretinha (Solanum americanum)
e rubi (Leonurus sibiricus), entre outras espécies.
Pastagem
Os terrenos ocupados por pastagens cobrem a maior parte da área de
estudo. São formados em sua maior parte por espécies de gramíneas nativas,
principalmente capim-forquilha (Paspalum notatum) e diversas espécies de
grama-azeda (Axonopus spp.), alguns poucos com espécies exóticas, dando-se
preferência para espécies do gênero Brachyaria.
Muitos campos de pastagem não são bem manejados e desenvolvem-se
espécies herbáceas e arbustivas, recebendo a denominação de campos sujos.
É bastante comum a ocorrência de pastagens implantadas em terrenos de
vegetação arbórea, permanecendo diversos indivíduos isolados, formando paisagens de “parques ou bosques”.
Cultura Anual
A maior parte dos terrenos de cultivo é formada por espécies anuais, como
milho, soja, azevém, trigo e feijão, sendo poucos ocupados por espécies perenes, onde a mais utilizada é a erva-mate (Ilex paraguaiensis), formando então
culturas permanentes.
Reflorestamento
Nos terrenos utilizados para reflorestamento, muito poucos e pequenos,
são empregadas quase que exclusivamente espécies de eucaliptos (Eucaliptus
spp.), não representando atividade importante na área de estudo.
3.2.3. Flora
Para a área de influência direta da UHE Quebra Queixo, foram levantadas 153 espécies pertencentes a 63 famílias (Tabela 3.6). Estas espécies foram
coletadas para formação de um herbário, não representando todas as espécies
que ocorrem no local.
51
3. Caracterização Ambiental
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Tabela 3.6. Espécies vegetais registradas para a área de influência direta da UHE Quebra
Queixo, municípios de Ipuaçu e São Domingos, estado de Santa Catarina.
Família
Agavaceae
Amaranthaceae
Anacardiaceae
Annonaceae
Apiaceae
Apocynaceae
Aquifoliaceae
Araceae
Araucariaceae
Arecaceae
Aspidiaceae
Asteraceae
Begoniaceae
Bignoniaceae
Blechnaceae
Boraginaceae
Bromeliaceae*
Nome científico
Cordiline dracenoides
Iresine diffusa
Schinus terebinthifolius
Rollinia rugulosa
Hydrocotyle callicephala
Hydrocotyle leucocephala
Forsteronia refracta
Ilex paraguariensis
Aerostigma lividus
Philodendron sellowii
Araucaria angustifolia
Arecastrum romanzoffianum
Dryopteris fenestralis
Dryopteris scabra
Baccharis anomala
Baccharis dracunculifolia
Chaptalia sp.
Eupatorium sp.
Mikania cordifolia
Senecio brasiliensis
Solidago microglossa
Vernonia scorpioides
Vernonia tweediana
Begonia sp.
Adenocalymma marginatum
Arrhabidaea selloi
Jacaranda puberula
Mansoa difficilis
Pithecoctenium echinatum
Blechnum auriculatum
Blechnum brasiliense
Cordia trichotoma
Patagonula americana
Aechmea calyculata
Aechmea recurvata
Ananas fritzmuelleri
Billbergia nutans
Billbergia zebrina
Tillandsia geminiflora
Tillandsia mallemontii
Tillandsia stricta
Tillandsia tenuifolia
Tillandsia usneoides
Vriesia friburgensis
Vriesia platynema
52
Nome popular
tuvarana
bredo
aroeira-vermelha
araticum
acariçoba-estrela
acariçoba
cipó-de-leite
erva-mate
costela-de-adão
imbé
araucária,
pinheiro-brasileiro
jerivá
samambaia
samambaia
vassoura-trepadora
vassoura-branca
língua-de-vaca
eupatório
falso-guaco
flor-das-almas
erva-lanceta
erva-de-são-simão
mata-pasto
begônia
cipó-de-vaqueiro
cipó-camarão
caroba
cipó-corda
pente-de-macaco
samambaia
xaxim-petiço
louro-pardo
guajuvira
gravatá
gravatá
ananás
gravatá-de-brinco
gravatá
cravo-do-mato
cravo-do-mato
cravo-do-mato
monjola-comprida
barba-de-velho
gravatá
gravatá
Hábito
arbusto
erva
arvoreta
arvoreta
erva
erva
trepadeira
arvoreta
erva
epífita
árvore
árvore
erva
erva
erva
arbusto
erva
arbusto
trepadeira
arbusto
erva
erva
erva
erva
trepadeira
trepadeira
arvoreta
trepadeira
trepadeira
erva
erva
árvore
árvore
epífita
epífita
erva
epífita
epífita
epífita
epífita
epífita
epífita
epífita
epífita
epífita
○
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
53
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
3. Caracterização Ambiental
○
○
○
○
○
○
○
○
Oxalidaceae
Passifloraceae
Phytolaccaceae
Piperaceae
Poaceae
Podocarpaceae
Polypodiaceae
Portulacaceae
Pteridaceae
Proteaceae
Rhamnaceae
Rosaceae
Rubiaceae
Rutaceae
Sapindaceae
Schizaeaceae
Simaroubaceae
Smilacaceae
Solanaceae
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Oxalis sp.
Passiflora urnifolia
Phytolacca dioica
Peperomia delicatula
Peperomia urocarpa
Piper sp.
Andropogon bicornis
Axonopus sp.
Brachyaria sp.
Calamagrostis
viridiflavescens
Chusquea ramosissima
Erianthus sp.
Merostachys multiramea
Olyra humilis
Paspalum notatum
Paspalum urvillei
Pharus glaber
Podocarpus sellowii
Polypodium angustum
Polypodium hirsutissimum
Microgramma squamulosa
Talinum patens
Adiantum sp.
Doryopteris nobilis
Doryopteris multipartita
Pteridium aquilinum
Roupala cataractarum
Hovenia dulcis
Scutia buxifolia
Rubus urticaefolius
Psychotria sp.
Randia armata
Baufourodendrum
riedelianum
Fagara naranjillo
Fagara rhoifolia
Pilocarpus pennatifolius
Allophylus edulis
Allophylus guaraniticus
Cupania vernalis
Diatenopterix sorbifolia
Matayba eleagnoides
Serjania laruotteana
Aneimia phyllitidis
Picrasma sp.
Smilax sp.
Ciphomandra kleinii
Petunia integrifolia
Solanum americanum
Solanum erianthum
Solanum sp.
54
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
azedinha
maracujá
umbu
erva-de-vidro
erva-de-vidro
pariparoba
capim-rabo-de-burro
grama-azeda
capim-braquiária
palha-de-prata
erva
trepadeira
árvore
epífita
epífita
arbusto
erva
erva
erva
erva
taquarembó
macega-estaladeira
taquara-mansa
taquari
capim-forquilha
capim-das-roças
capim-bambu
pinheiro-brabo
samambaia
samambaia-branca
cipó-cabeludo
maria-gorda
avenca
avenca-estrela
avenca-estrela
samambaia-das-taperas
carvalho-brasileiro
uva-do-japão
laranjeira-do-mato
framboesa
cafezeiro-do-mato
limoeiro-do-mato
pau-marfim
trepadeira
erva
arbusto
erva
erva
erva
erva
árvore
epífita
erva
epífita
erva
erva
erva
erva
erva
arvoreta
árvore
arvoreta
trepadeira
arvoreta
arvoreta
árvore
juva
mamica-de-cadela
jaborandi
vacum
vacum-peludo
camboatá-vermelho
maria-preta
camboatá-branco
cipó-timbó
samambaia-de-espiga
quina
salsaparrilha
baga-de-veado
petúnia
maria-pretinha
fumão
joá-manso
arvoreta
árvore
arvoreta
arvoreta
arvoreta
árvore
árvore
árvore
trepadeira
erva
arvoreta
trepadeira
arbusto
erva
erva
arvoreta
arvoreta
○
○
○
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
Tiliaceae
Ulmaceae
Urticaceae
Verbenaceae
Violaceae
Vittariaceae
Zingiberaceae
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Luehea divaricata
Celtis tala
Trema micrantha
Urera baccifera
Lantana camara
Vitex megapotamica
Anchietea parvifolia
Vittaria lineata
Hedichyum coronarium
○
○
○
○
○
○
○
○
○
açoita-cavalo
tala
grandiúva
urtigão
camará
tarumã
cipó-viola
samambaia-fita
lírio-do-vale
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
árvore
arvoreta
árvore
arbusto
arbusto
árvore
trepadeira
epífita
erva
3.2.3. Espécies ameaçadas
A Portaria nº 37-N/IBAMA, de 03/04/92 apresenta a Lista Oficial de
Espécies da Flora Brasileira Ameaçada de Extinção, com 107 espécies que ocorrem em diversas regiões do território brasileiro. Os motivos que levaram à inclusão dessas espécies na lista, bem como o status de conservação de cada
espécie, foram apresentados pela Sociedade Botânica do Brasil8.
Na área de influência direta da UHE Quebra Queixo ocorrem indivíduos
de uma espécie constante nessa portaria, Araucaria angustifolia (araucária ou
pinheiro-brasileiro).
Além da araucária, nos municípios de Abelardo Luz e Concórdia ocorre
uma espécie de guamirim, Calyptranthes reitziana (Myrtaceae), coletada uma
única vez em cada município, respectivamente às margens do rio Chapecó e rio
Uruguai, em matinhas de galeria bastante abertas, sobre os terrenos rochosos às
margens dos rios9. Essa Myrtaceae é classificada “em perigo” em função das
diversas barragens projetadas para a bacia do rio Uruguai2. Esta espécie de
guamirim não foi encontrada nas margens do rio Chapecó, na área de influência
direta da UHE Quebra Queixo.
3.2.4. Referências Bibliográficas
1. Klein, R.M. 1978. Mapa Fitogeográfico do estado de Santa Catarina. Flora
Ilustrada Catarinense, Itajaí, 24 pp.
2. Klein, R.M. 1990. Espécies raras ou ameaçadas de extinção - Estado de Santa Catarina. Mirtáceas e Bromeliáceas. Vol. 1. IBGE, Rio de Janeiro. 287 pp.
3. Reitz, R.; Klein, R.M. & Reis, A. 1978. Projeto Madeira de Santa Catarina.
Sellowia 30: 9-292.
55
3. Caracterização Ambiental
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
4. Veloso, H.P. & Góes-Filho, L. 1982. Fitogeografia Brasileira - Classificação
fisionômico-ecológica da vegetação neotropical. RADAMBRASIL, Salvador,
86pp.
5. Klein, R.M. & Leite, P.F. 1988. Contribuição ao conhecimento da flora e da
vegetação da área diretamente afetada pelas barragens de Itá e de
Machadinho, no Rio Uruguai - Inventário Florístico e dendrométrico (Relatório Final). PUC/RS, Porto Alegre, 50 pp.
6. Klein, R. M. 1972. Árvores nativas da floresta subtropical do Alto Uruguai.
Sellowia 24: 9-62.
7. Hoeltgebaum, M.P. 2002. Levantamento de Bromeliáceas na região de instalação da UHE Quebra Queixo, município de São Domingos/SC. ETS,
Florianópolis.
8. Sociedade Botânica do Brasil (SBB). 1992. Centuria plantarum brasiliensium
extintionis minitata. SBB, Brasília, 167 pp.
9. Legrand, C.D. & Klein, R.M. 1971. Mirtáceas. 6. Calyptranthes Sw. Flora Ilustrada Catarinense, Itajaí, 64 pp.
56
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
3.3. Aspectos Socioeconômicos
Tatiana F.N. de Lacerda
ETS Energia, Transporte e Saneamento LTDA.,
R. Felipe Schmidt, 315/301, Centro - 88.010-000, Florianópolis, SC
A implantação da UHE Quebra Queixo atingiu 83 propriedades, nas quais
vivem 95 famílias que tiveram que ser remanejadas. Este número é pequeno se
considerarmos outros empreendimentos do mesmo porte e, principalmente, se
considerarmos o processo pacífico e satisfatório em que essas famílias reorganizaram suas vidas, conseguindo manter parte dos laços e organizações sociais
existentes anteriormente. Como se pode verificar ao longo deste capítulo, em
que se apresenta um breve resumo das trasformações sociais, econômicas e
ambientais da região, a implantação da UHE Quebra Queixo é apenas mais
uma transformação sobre a qual as famílias e a comunidade da região reelaboram
seus modos de vida e sua cultura. Afinal, as transformações são sempre construídas a partir dos interesses e ações dos moradores das regiões mas também a
partir dos interesses e ações da sociedade como um todo.
O presente capítulo tem por base o estudo realizado por Ribeiro1 e o
cadastro socioeconômico2 elaborado pela ETS (Energia, Transporte e Saneamento), empresa responsável pela implantação dos Programas Ambientais, desenvolvidos em decorrência do empreendimento da UHE Quebra Queixo. O
texto busca apresentar as mudanças sociais, econômicas e ambientais ocorridas
ao longo do processo de ocupação do território abrangido pelo empreendimento.
Antes da colonização portuguesa, a área em que se situam hoje os municípios de Ipuaçu e de São Domingos era ocupada por uma densa mata de
araucária, habitada havia cerca de 4 mil anos pelos índios. Os guaranis ocupavam a mata à margem dos rios e à borda dos campos, enquanto os Xoklengs
tinham seu habitat nos campos de Lages e de Curitibanos. Eram povos com
uma economia voltada à caça, pesca e coleta, com alguma produção agrícola.
Essa bem mais presente entre os índios guaranis por terem hábitos sedentários,
sendo complementar na cultura kaingang. A caça incluía mamíferos, como anta,
veado, cateto ou caititu, quati, ratão, e aves silvestres. Usavam arco e flecha de
diferentes tipos e tamanhos. A coleta incluía pinhão, mel, broto de pinheiro,
frutas silvestres (butiá, jabuticaba, ingá, etc.) e verduras (folha de mandioca
brava, urtiga, almeirão-silvestre e erva-mate). A pesca era realizada com o paris
(armadilha de taquara ou varas) e a carne conservada por defumação.
57
3. Caracterização Ambiental
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
No século XVII, diversos agrupamentos indígenas se deslocaram de seu
habitat natural, inicialmente em função das reduções jesuítas e, posteriormente,
pelas incursões dos bandeirantes que buscavam prear índios para o trabalho.
No entanto, os jesuítas não penetraram no território do que atualmente é a UHE
Quebra Queixo, ficando restritos ao atual estado do Paraná e ao sul do rio Uruguai. Contudo, no século XVIII, a extinção das missões dos sete povos liberou
territórios para as estâncias de gado e de muares associadas à exploração do
ouro nas Minas Gerais, fazendo do território catarinense um lugar de passagem
de tropas. Inicialmente pelo litoral, mais tarde pelos campos de Lages e no
século XIX cruzando os Campos de Palmas, onde se localiza o território dos
atuais municípios de Ipuaçu e de São Domingos. A partir de 1765, por ordens
do governador da capitania de São Paulo, tem início a penetração portuguesa
no território indígena e, em novembro de 1808, Dom João VI assina a Carta
Régia mandando “suspender os efeitos de humanidade” e “considerar como
principiada a guerra contra os índios bugres”. A partir de 1809, iniciou-se a
exploração e ocupação dos Campos de Guarapuava, com a cooperação de uma
parte dos indígenas e a hostilidade de outra. Em 1837, o governo provincial de
São Paulo decidiu pela ocupação da região pelos fazendeiros, ampliando a frente
pastoril da economia. É a partir de então que a região, hoje ocupada por Ipuaçu
e São Domingos, passou a ter a presença do colonizador luso-brasileiro em seu
território.
A cultura dos nativos Kaigangs tem ainda presença no território e na
paisagem da Terra Indígena Xapecó, situada junto à área de influência direta da
UHE Quebra Queixo. A forma das residências, feitas de madeira, cobertas com
telhas de barro, e das roças, por exemplo, obedecem às regras tradicionais de
organização social Kaigang. Entretanto, temos que considerar que, atualmente,
a agricultura (plantio de trigo, arroz, feijão, milho, etc.), a horticultura de subsistência (cebola, temperos, etc.) e a criação de animais configuraram uma
mudança econômica necessária e fundamental para as populações concentradas na Terra Indígena Xapecó.
Com o início do ciclo do tropeirismo, a região vivenciou um segundo
sistema de ocupação e uso do solo, sustentado sobre uma nova cultura, marcada,
sobretudo, pela presença do caboclo. Neste período, a ocupação começou a ser
feita de forma sistemática, com a abertura de estradas, a concessão de sesmarias
e a formação de povoamentos. Com isto, intensificou-se o trânsito da região
com tropas de muares para abastecer a lavoura cafeeira em expansão em São
Paulo, contribuindo para o surgimento de fazendas de criação e de pousos para
tropeiros ao longo da estrada. Os denominados caboclos eram peões de tropas
luso-brasileiros, mulatos e negros vindos de diferentes estados, Rio Grande do
58
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Sul, São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro e Minas Gerais, e se estabeleciam nas
fazendas como serviçais ou nas vilas como ferradores, seleiros, trançadores ou
pequenos comerciantes. Praticavam a agricultura de subsistência, a criação de
animais domésticos, a coleta de mel silvestre, o comércio de erva-mate e eventuais trabalhos com as tropas. Com a energia proveniente de pequenos riachos,
moviam o monjolo para a produção de quirera e da farinha de biju do milho. O
pinhão permitia a engorda do porco alçado que fornecia banha e carne. As residências eram pobres ranchos de madeira serrada a muque e com chão batido.
Neste ciclo, a base econômica estava no extrativismo da erva-mate e da madeira, realizados por empresas que recrutavam mão de obra entre índios e caboclos. Uns e outros se transformaram em pequenos criadores de gado, em lavradores avulsos ou em safristas de porcos.
Tanto São Domingos, inicialmente, pertencente aos Campos de Palmas e
depois emancipado do município de Chapecó, quanto Ipuaçu, desmembrado do
município de Xanxerê, eram dominados pelo milho, feijão, arroz, mandioca,
batata-doce, batata-inglesa, carne de porco, de galinha, salame, queijo, peixe,
caça de animais, aves silvestres, café, cerveja e mais raramente vinho.
Apesar de inicialmente, a região da UHE Quebra Queixo ter permanecido
com os índios, posteriormente, no ano de 1882, iniciou a distribuição de títulos
de propriedade para agricultores. Com isso, contribuiu-se para a formação e
fixação de uma cultura dos caboclos nessa região que, até então, se dedicava à
extração de ervas, cuja produção era exportada para a Argentina.
No século XX, apesar da tentativa de se implantar uma política de reservas de terras para os indígenas, na prática invocando direitos ou usando a força,
os interesses de fazendeiros e de grileiros ganharam espaço e as terras indígenas vão sendo progressivamente ocupadas.
Em 1917, o governo catarinense entregou 77 títulos de propriedade na
região, dando início ao projeto de povoamento do oeste com descendentes de
imigrantes vindos do Rio Grande do Sul, estabelecendo uma nova fronteira
agrícola. Dois seriam os primeiros reflexos dessa nova frente: a expansão da
exploração madeireira (limpeza das terras para serem loteadas e vendidas aos
colonos) e a expulsão dos posseiros e caboclos.
Entre as décadas de 1940 e 1970, praticamente desapareceram as matas
de araucária da região e, a partir daí, teve início uma fase de ocupação sistemática, do oeste e da região dos municípios de Ipuaçu e São Domingos, por agricultores oriundos das velhas colônias de alemães, italianos e poloneses do Rio
Grande do Sul, começando a configurar a atual organização econômica, social
e cultural de ambos os municípios.
59
3. Caracterização Ambiental
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Neste ciclo, a grande maioria dos caboclos se voltou para uma agricultura de subsistência ou passam a prestar serviços aos novos colonos como agregados, peões e arrendatários.
A mudança da paisagem se concretizou principalmente na década de 1920,
quando a Colonizadora Bertazo, Maia & Cia. adquiriu do governo cem mil
hectares de terra à margem esquerda do rio Chapecó. Os imigrantes construíram ranchos, desenvolveram áreas agrícolas em detrimento das florestas, ocuparam as margens dos rios e, principalmente, provocaram desmatamento maciço incentivado pelo comércio da madeira. A atividade extrativa, na área atualmente ocupada pelo reservatório, desempenhou um papel fundamental na economia, permitindo o desenvolvimento econômico em que o rio foi usado como
caminho para o escoamento da madeira, em balsas até o porto de São Tomé na
Argentina, onde era comercializada.
Com isso, afirmar-se que a base do patrimônio cultural da área diretamente atingida pela UHE Quebra Queixo formou-se com a contribuição cultural de índios, caboclos e colonos. Atualmente, há na região uma combinação de
pequenas e médias propriedades, de 25 a 60 hectares, sendo que grande parte
das áreas agrícolas é ocupada pelos proprietários. As principais atividades econômicas da região são a suinocultura e avicultura. Daí a predominância da produção em lavouras temporárias ser de milho e soja, voltadas ao suprimento das
criações de aves e suínos. Nas lavouras permanentes destacam-se a erva-mate,
maçã, uva, laranja e pêssego. Em escala menor, estão as produções de arroz,
aveia, batata-inglesa, feijão, fumo e mandioca.
As colônias (denominação mantida pelos moradores) estão ligadas entre
si por uma rede de vias e possui em seus núcleos uma capela, um salão comunitário e um cemitério. Esses núcleos são permeados de algumas pequenas aldeias ou por pequenas vilas. Esse conjunto forma uma rede bem ordenada e
hierarquizada dos espaços, que parecem orientados pela reprodução do modelo
das colônias velhas do Rio Grande do Sul, de onde procede a maioria dos primeiros habitantes. Dentro da propriedade, a escolha do local da casa e de seus
equipamentos de apoio (o celeiro, galinheiro, pombal, estábulo, aviário) obedece à proximidade das fontes de água e das estradas. A maior parte da área é
utilizada para o cultivo agrícola e/ou criação de gado. Próximo à casa, são reservados pequenos bosques para a retirada de lenha e espaços destinados a hortas e pequenos jardins.
Da tradição cultural dos colonos descendentes de alemães e italianos,
tem-se a prática da produção artesanal de utensílios (cestos de vimes, cabos de
enxada, foices, atelos, ancinhos, chápeus, bolsas, ets.) para uso próprio. Tam60
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
bém permanecem outras atividades artesanais como marceneiro, costureira,
alfaiate, que subsistem apesar da concorrência com os produtos industrializados. No que diz respeito à pequena indústria doméstica de alimentos, ela ainda
responde por parte do alimento consumido, embora com algumas alterações:
fabricam-se pães, massas, queijos, manteiga, salame, embutidos, banha, bolachas, geléias, marmeladas e conservas. Parte destes produtos hoje complementam
a renda de algumas famílias, que, desta forma, passam a vender produtos chamados de coloniais.
O turismo também vem sendo apontado como uma fonte de renda alternativa para algumas famílias, justificado pelos atrativos naturais da região sobretudo em torno dos rios Chapecó e Chapecozinho, suas praias, grutas, cascatas e quedas de água. No entanto, a debilitada infra-estrutura tem dificultado
um melhor aproveitamento desses recursos naturais.
3.3.1. Referências Bibliográficas
1. Ribeiro, C.M.P.J. & Pozenato, J.C. (orgs.). 2002. Terra & Gente – Aspectos
históricos, culturais e paisagístico da área do AHE Quebra-Queixo. Educs,
Caxias do Sul.
2. ETS. 2006. Cadastro socioeconômico do AHE Quebra Queixo. ETS,
Florianópolis.
61
4. PEIXES
Samira Meurer
David Reynalte-Tataje
Marcos Weingartner
Evoy Zaniboni-Filho
Alex Pires de Oliveira Nuñer
Débora Machado Fracalossi
Laboratório de Biologia e Cultivo de Peixes de Água Doce (LAPAD),
Depto. Aqüicultura/CCA, Universidade Federal de Santa Catarina,
Rod. SC 406, 3532, Praia da Armação - 88.066-292, Florianópolis, SC
Existem aproximadamente 28.000 espécies de peixes no mundo, das quais
40% são de água doce. A fauna de peixes de água doce da região neotropical é
considerada a mais diversificada do planeta e, embora os levantamentos ainda
estejam incompletos e não haja consenso acerca do status taxonômico de muitas espécies, o número daquelas já identificadas está em torno de 2.400, mais da
metade compondo a ictiofauna da bacia do rio Amazonas1.
Entre as espécies da região neotropical destaca-se o marcante predomínio de Otophysi (cerca de 90%), que compreendem duas ordens importantes,
Characiformes e Siluriformes, ao contrário de outras zonas zoogeográficas da
Terra, onde os ciprinídeos (carpas) são predominantes2.
A comunidade de peixes dentro de seu ambiente natural não exibe somente grande variação morfológica, mas também apresenta intricados ciclos
de vida e estratégias reprodutivas. Algumas espécies apresentam desenvolvimento indireto, com fase larval, enquanto outras têm desenvolvimento direto,
sem a presença desta fase. Os peixes neotropicais apresentam um amplo espectro alimentar e notável flexibilidade na dieta. Sua composição é regulada em
grande parte pela abundância e disponibilidade do alimento no ambiente3.
Do ponto de vista íctico, na bacia do rio Uruguai ocorrem mais de 250
espécies4, onde se apresentam como elementos predominantes as ordens dos
Characiformes e Siluriformes, que têm experimentado a mais importante radiação adaptativa nos sistemas fluviais sul-americanos e ocupam, atualmente, os
mais diversos ambientes e nichos ecológicos5.
63
4. Peixes
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Entre os Characiformes encontram-se espécies carnívoras, fitófagas,
iliófagas e onívoras, com tamanhos que vão desde os pequenos lambaris, de
poucos centímetros, até os grandes dourados, de mais de um metro de comprimento e pesos que superam os 30 kg. Este grupo compreende também as piranhas, traíras, piaus e curimatídeos, entre outros. Já os Siluriformes incluem
formas de hábitos alimentares bastante diversos e apresentam uma faixa de
tamanho ainda maior que os Characiformes6.
No rio Chapecó, o conhecimento da ictiofauna é limitado e está baseado
principalmente nas investigações realizadas no alto rio Uruguai, em 1988 a
19897 e entre 1995 a 20028, onde foram encontradas 71 e 77 espécies de peixes,
respectivamente. Dentre as espécies mais capturadas no alto rio Uruguai encontram-se: o biru (Steindachnerina brevipinna), os cascudos (Hypostomus sp.),
os lambaris (Astyanax spp. e Bryconamericus spp.), o mandi (Pimelodus sp.),
as joaninhas (Crenicichla spp.) e o peixe-cachorro (Oligosarcus spp.).
A construção de barragens e a conseqüente formação de reservatórios
provocam grandes alterações no ambiente aquático. Daí a necessidade de se
realizar estudos das repercussões ecológicas do barramento de rios, tendo em
vista a utilização múltipla das represas e as medidas de conservação da flora e
fauna nos respectivos sistemas hidrográficos.
4.1. Métodos
4.1.1. Coletas de Campo
O levantamento ictiofaunístico da área da UHE Quebra Queixo (Figura
4.1) foi realizado por excursões a campo, no período de maio de 2001 a janeiro
de 2003. Esta época foi marcada pelo o desvio do rio Chapecó para a construção da barragem da UHE Quebra Queixo, em dezembro de 2001.
As coletas foram realizadas a cada dois meses em seis estações amostrais
selecionadas de acordo com as características da área, levando-se em consideração a situação atual do empreendimento. As amostragens foram executadas
nestes pontos de coleta durante as fases de desvio do rio e antes do enchimento
do reservatório. A Tabela 4.1 apresenta a lista dos pontos de coleta que foram
amostrados durante a fase de levantamento ictiofaunístico.
Durante as campanhas foram realizadas avaliações das condições climáticas e hidrológicas em cada estação amostral, através de medidas de alguns
fatores abióticos, como temperatura do ar e da água, pH, oxigênio dissolvido,
nível e transparência da água do rio.
64
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Figura 4.1. Área de influência da UHE Quebra Queixo, indicando os pontos de coleta da
ictiofauna. 1. Montante do reservatório; 2. Corpo do reservatório; 3. Jusante do
reservatório; 4. Foz do rio Saudade; 5. Foz do rio Chapecozinho; e 6. Foz do rio
Chapecó.
Para as capturas utilizaram-se apetrechos de pesca diversificados, buscando caracterizar a comunidade de peixes dos diferentes ambientes afetados
pelo empreendimento. Para isso utilizaram-se redes malhadeiras, rede tresmalho ou feiticeiras, redes de travessia, redes de arrasto, tarrafas, linhas de mão e
espinhéis (Tabela 4.2).
65
4. Peixes
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Tabela 4.1. Pontos de coleta de peixes durante o levantamento ictiofaunístico na UHE
Quebra Queixo, municípios de São Domingos e Ipuaçu, Santa Catarina.
Rio
1. Chapecó (MR)
4. Saudade (FS)
Localização
Abaixo da cachoeira
de São Domingos
Próximo ao
alojamento da ETS
Jusante do
desemboque dos
túneis de desvio
Foz do rio Saudade
5.Chapecozinho
(CZ)
Foz do rio
Chapecozinho
6. Uruguai (FC)
Foz do rio Chapecó
2. Chapecó (CR)
3. Chapecó (JR)
Importância
Montante do reservatório
Trecho do rio principal (anterior ao enchimento
do reservatório)
Local mais afetado pela oscilação da vazão de
água durante a implantação do
empreendimento e futura operação
Primeiro afluente importante à jusante da
barragem
Afluente importante de jusante, sem obstáculos
relevantes na interligação de rotas migratórias
com o rio Uruguai e localizado as margens da
reserva Terra Indígena Xapecó.
Área de jusante com efeitos mínimos causados
pelo empreendimento, importante na
caracterização de variações históricas sobre a
comunidade de peixes.
Tabela 4.2. Detalhamento técnico dos apetrechos de pesca utilizados para captura de
peixes na área de influência da UHE Quebra Queixo, municípios de São
Domingos e Ipuaçu, Santa Catarina.
Tipo
Malhadeira
Malhadeira
Malhadeira
Malhadeira
Feiticeira
Feiticeira
Rede de Arrasto
Rede de Travessia
Rede de Travessia
Tarrafa de Argola
Espinhel
Malha (cm)1
1,5
2,0
2,5
3,0
3,5
5,0
1,5
6,0
7,0
3,0
100 anzóis médios
Comprimento (m)
20
20
20
30
30
40
30
100
120
132
100
Altura (m)
1,5
1,5
1,5
1,5
2,0
1,5
1,5
5,0
7,0
-
¹ Medida entre nós adjacentes.
² Medida do perímetro da tarrafa em braça (1 braça = ± 1,5m).
De acordo com as características hidrológicas e ambientais de cada ponto amostrado, foram utilizados os aparelhos de pesca que mais se adaptaram ao
local. Entretanto, o esforço de captura de cada equipamento de pesca foi constante nos distintos pontos amostrais. Este procedimento garantiu a utilização
dos dados numa análise quantitativa, otimizou o esforço de coleta e permitiu a
ampliação da rede de amostra, necessária à análise qualitativa.
66
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
De todas as espécies amostradas foram tomados, em campo, os seguintes
dados:
- Comprimento total (CT), com precisão de 0,1cm;
- Peso total (PT), com precisão de 0,1g;
- Identificação da rede em que foram capturados.
Das espécies migradoras foram tomadas algumas informações adicionais:
- Sexo;
- Estádio de maturação gonadal;
- Grau de repleção estomacal;
- Peso das gônadas, com precisão de 0,01g;
- Fixação de amostra da porção mediana da gônada em formalina 10%;
- Fixação de amostra da porção mediana das gônadas em solução de
Gilson, para ovários maduros (Fase de maturação IV);
- Peso dos estômagos, com precisão de 0,01g;
- Fixação dos estômagos em formalina 10%.
Após devidamente etiquetados com os dados de captura (número de referência, local, data de captura, tipo do aparelho de pesca, etc.), os exemplares
foram fixados em formalina 10% e transportados até o laboratório, onde se
procedeu a:
- Identificação dos exemplares cuja identificação não foi possível em
campo;
- Montagem da coleção de referência;
- Processamento do material para avaliação da biologia alimentar e
reprodutiva.
4.1.2. Análise dos Dados de Captura
Os dados de campo foram armazenados em planilha eletrônica para facilitar o manejo e a interpretação dos resultados. A análise dos dados de freqüência relativa de captura em número, biomassa e diversidade de espécies foram
realizadas entre os diferentes pontos amostrais, possibilitando uma análise comparativa da comunidade de peixes existente em cada ponto amostral e a importância dos distintos ambientes. Uma análise temporal das coletas realizadas
num mesmo ponto permite a obtenção de informações da dinâmica das espécies
e da importância de cada localidade no ciclo de vida das espécies de peixes. A
67
4. Peixes
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
análise das coletas obtidas em mais de doze meses consecutivos reduz a possibilidade de erros de interpretação pela análise de um período amostral atípico,
permitindo a diluição dos erros de tomada de dados e aumentando o universo
amostral.
Para a identificação das espécies, utilizaram-se chaves de identificação9,10,
além de consulta às coleções do Museu de Ciências da Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul (Porto Alegre, RS), Museu Zoologia da Universidade de São Paulo (São Paulo, SP), Universidade Estadual de Londrina (Londrina, PR) e na Universidade Federal de Santa Catarina (Florianópolis, SC).
Para análise da dinâmica reprodutiva das principais espécies, foram considerados os dados obtidos pela análise individual do estádio de maturação
gonadal, com análise macroscópica realizada no campo e ratificada pela posterior análise histológica em laboratório. Os cortes histológicos foram preparados segundo as técnicas de rotina e corados com hematoxilina-eosina11. A utilização da análise microscópica para identificação do estádio de desenvolvimento gonadal permite a elaboração, com segurança, de uma escala de maturidade
para cada espécie. Com um referencial seguro para a identificação do estádio
de maturação gonadal de cada indivíduo, várias análises foram feitas, entre
elas:
a) distribuição da freqüência de ocorrência de cada estádio de maturação gonadal,
em cada época do ano, que permite estabelecer o período de desova de cada
espécie;
b) distribuição da freqüência de ocorrência de cada estádio de maturação, nos
diferentes pontos amostrados, que indica os locais de reprodução de cada
espécie;
c) observação de exemplares com gônadas em estádio “desovado” que comprova o fechamento do ciclo de uma determinada espécie no ambiente
amostrado;
d) correlação entre o comprimento dos peixes e a freqüência de ocorrência dos
estádios de maturação gonadal, que possibilita a determinação do tamanho
de primeira maturação gonadal, informação esta necessária ao adequado
manejo ambiental.
Para compreender a evolução de uma comunidade de peixes, faz-se necessário avaliar o potencial reprodutivo das principais espécies. O potencial
reprodutivo pode ser obtido pela multiplicação do número de fêmeas sexualmente maduras em uma determinada população e a sua fecundidade absoluta
68
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
média (a quantidade de ovócitos total liberada por fêmea a cada desova). A
quantificação dos estoques populacionais e o estabelecimento das proporções
sexuais permitem a obtenção do número de fêmeas. Avaliando a estrutura
populacional poderá ser conhecido o número de fêmeas sexualmente maduras.
A fecundidade absoluta é obtida pela distribuição da freqüência de ocorrência
das classes de tamanho dos ovócitos de uma determinada fêmea. Através de
análise da distribuição de freqüência do diâmetro dos ovócitos, e confirmado
pela análise histológica das gônadas, é possível estabelecer o tamanho dos
ovócitos que deixaram o estoque de reserva e iniciaram o processo de maturação,
ou seja, que seriam eliminados no próximo período reprodutivo. A fecundidade
absoluta corresponde ao número total de ovócitos de uma fêmea que poderiam
ser eliminados na próxima época reprodutiva. O tipo de desova de cada uma
das principais espécies está sendo determinado pela análise da distribuição das
freqüências de ocorrência das classes de tamanho dos ovócitos12.
Como técnica para determinar picos de desova de cada espécie, foi utilizado o Índice Gonadasomático (IGS). Para algumas espécies de grande porte,
foram utilizadas técnicas auxiliares, tais como o Índice Gonadal (IG) e o Fator
de Condição (K). A análise destes índices foi utilizada para determinação dos
locais e dos períodos de desova13,14.
Para determinadas espécies de grande porte e interesse comercial foi aplicada a análise da dinâmica alimentar através da determinação do Índice de
Repleção (IR)15 de cada espécie. O estudo do índice médio de repleção estomacal de cada espécie, em diferentes estações do ano ou em distintos pontos
amostrais, permite a determinação do período do ano e dos locais, respectivamente, onde a alimentação é mais intensa.
4.2. Os peixes da UHE Quebra Queixo
Durante o monitoramento foram capturados 8.072 indivíduos pertencentes a 71 espécies de peixes (Tabela 4.3). Naturalmente, em função do volume
coletado, do tempo de amostragem e dos diversos equipamentos de pesca utilizados, acredita-se que o inventário ictiofaunístico apresentado a seguir englobe
a maioria de espécies residentes no trecho estudado.
69
4. Peixes
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Tabela 4.3. Peixes coletados na área de influência da UHE Quebra Queixo, municípios de
São Domingos e Ipuaçu, Santa Catarina. FO(%) = freqüência de ocorrência.
Ordem
Família
Characiformes
Anostomidae
Atherinidae
Characidae
Curimatidae
Erythrynidae
Parodontidae
Prochilodontidae
Characiformes Total
Cyprinodontiformes
Poecillidae
Cyprinodontiformes Total
Cypriniformes
Cyprinidae
Cypriniformes Total
Gymnotiformes
Gymnotidae
Sternopygidae
Gymnotiformes Total
Perciformes
Cichlidae
Scianidae
Perciformes Total
Espécie
Nome comum
FO(%)
Leporinus amae
Schizodon nasutus
Odontesthes perugiae
Acestrorhynchus pantaneiro
Astyanax aff. eigenmanniorum
Astyanax bimaculatus
Astyanax fasciatus
Astyanax gr. scabripinnis
Astyanax spp.
Bryconamericus iheringii
Bryconamericus stramineus
Characidium cf. zebra
Characidium serrano
Galeocharax humeralis
Oligosarcus brevioris
Oligosarcus jenynsii
Pygocentrus nattereri
Salminus brasiliensis
Serrasalmus maculatus
Steindachnerina biornata
Steindachnerina brevipinna
Hoplias lacerdae
Hoplias malabaricus
Apareiodon affinis
Prochilodus lineatus
boca-de-moça
voga
peixe-rei
saicanga
lambari
lambari
lambari
lambari
lambari
lambari
lambari
piquira
piquira
peixe-cachorro
peixe-cachorro
peixe-cachorro
piranha
dourado
piranha
biru
biru
trairão
traíra
canivete
curimbatá
1,16
1,21
0,06
1,41
4,94
3,07
8,04
13,19
0,20
1,52
19,57
0,11
0,05
0,04
2,12
0,28
0,02
0,01
0,02
7,63
3,05
0,88
0,17
2,21
0,06
71,02
Phalloceros caudimaculatus
Poecilia reticulata*
barrigudinho
barrigudinho
0,02
0,02
0,04
Cyprinus carpio*
carpa
0,46
0,46
Gymnotus carapo
Eigenmannia virescens
espada
tuvira
0,06
0,31
0,37
Cichlasoma facetum
Crenicichla celidochilus
Crenicichla igara
Crenicichla jurubi
Crenicichla minuano
Crenicichla missioneira
Crenicichla tendybaguassu
Crenicichla vittata
Geophagus brasiliensis
Gymnogeophagus gymnogenys
Oreochromis niloticus*
Pachyurus bonariensis
cará
joaninha
joaninha
joaninha
joaninha
joaninha
joaninha
joaninha
acará
cará
tilápia
curvina
0,01
0,01
0,10
0,01
0,06
0,21
0,01
0,11
1,47
0,72
0,02
0,04
2,77
70
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Ordem
Família
Siluriformes
Auchenipteridae
Loricariidae
Pimelodidae
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Espécie
Nome comum
Auchenipterus sp.
Trachelyopterus galeatus
Trachelyopterus teaguei
Hisonotus sp.
Ancistrus sp.
Ancistrus taunayi
cf. Rhinelepis sp.
Hemiancistrus sp.
Hemipsilichthys sp.
Hypostomus commersoni
Hypostomus isbrueckeri
Hypostomus luteus
Hypostomus regani
Hypostomus roseopunctatus
Hypostomus sp.
Hypostomus uruguayensis
Loricariichthys anus
Loricariichthys sp.
Paraloricaria vetula
Rineloricaria sp.
Iheringichthys labrosus
Megalonema platanum
Pimelodus maculatus
Pimelodus absconditus
Rhamdella longiuscula
Pimelodus atrobrunneus
Pseudopimelodus mangurus
Rhamdia quelen
Steindachneridion scriptum
bagre-mole
cangati
cangati
cascudo
cascudo-roseta
cascudo-roseta
cascudo-preto
cascudo-abacaxi
cascudo
cascudo
cascudo
cascudo-pintado
cascudo-pintado
cascudo-pintado
cascudo
cascudo
cascudo-chicote
viola
cascudo-viola
violinha
mandi-beiçudo
jundiá-branco
mandi
mandi
mandi
bagre-sapo
jundiá
bocudo
Siluriformes Total
Total Geral
○
○
○
○
○
○
○
FO(%)
0,11
0,02
0,19
0,02
0,01
0,12
0,05
0,28
0,01
1,05
10,38
0,66
0,46
0,30
0,01
0,06
3,74
0,17
0,14
0,93
1,92
0,07
0,09
0,45
0,06
0,15
0,06
3,70
0,04
25,25
100,0
* espécies exóticas
4.3. Biologia das Espécies que Apresentam Importância para a
Pesca e/ou Piscicultura
Dourado - Salminus brasiliensis (Cuvier, 1817)
O dourado, Salminus brasiliensis, antes denominado Salminus maxillosus
(Valenciennes, 1849), é uma espécie nativa da bacia do rio da Prata – formada
pelos rios Paraguai, Paraná e Uruguai15,16 – e do São Francisco17, de coloração
amarelo-dourada no corpo e nadadeiras alaranjadas. São peixes pouco dóceis e
sofrem grande estresse com o manejo, podendo morrer quando capturados em
malhadeiras ou mesmo pelo anzol. Dessa forma, o manuseio dos dourados deve
ser extremamente cuidadoso. Alguns experimentos têm demonstrado que os
71
4. Peixes
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
dourados podem ser domesticados, quando suportam bem melhor o manejo.
Uma prova disso é que os indivíduos nascidos e criados em cativeiro apresentam maior taxa de sobrevivência, no manejo de indução à desova, que aqueles
capturados na natureza.
Embora existam poucos estudos sobre as exigências de qualidade da água
dessa espécie, é sabido que os dourados são bastante sensíveis aos baixos valores de oxigênio dissolvido, necessitando de concentrações provavelmente superiores a 2,0 mg/l.
São essencialmente piscívoros, predadores ativos que apresentam excelente capacidade natatória. A principal estratégia de captura do alimento consiste em se colocarem junto de corredeiras, onde a maior velocidade da corrente torna-se um obstáculo à fuga das espécies forrageiras. Na maior parte do ano
são solitários ou deslocam-se em pequenos cardumes, havendo maiores concentrações em trechos de águas rápidas19.
Os machos apresentam dimorfismo sexual quando atingem a primeira
maturação gonadal, aparecendo pequenas espículas dispostas lateralmente na
nadadeira anal, que são facilmente constatadas pelo toque dos dedos.
Os dourados realizam migração ascendente relacionada à reprodução,
quando podem ser encontrados grandes cardumes situados imediatamente abaixo
de obstáculos naturais. Ficam concentrados nessas áreas enquanto aguardam
condições hidrológicas adequadas para a transposição do obstáculo.
Na área de influência da UHE Quebra Queixo capturou-se apenas um
dourado, na foz do rio Chapecozinho, localizado a jusante da barragem da UHE
Quebra Queixo. Este exemplar era um macho que apresentava PT = 1,82 kg e
CT = 56 cm. Na ocasião da captura, outono de 2002, este dourado exibia características reprodutivas de um peixe maduro.
Curimbatá - Prochilodus lineatus (Valenciennes, 1836)
O curimbatá, também conhecido por curimba ou grumatão, é a espécie
comercial mais importante na pesca dos rios da bacia da Prata em termos de
biomassa e constitui, junto com outras espécies do mesmo gênero, o maior
recurso pesqueiro dos rios sul-americanos20. O curimbatá apresenta hábito alimentar detritívoro (que se alimenta sedimento e perifíton), sendo mais abundante em águas lênticas, onde há deposição do material em suspensão e a possibilidade do desenvolvimento da cadeia trófica bentônica no sedimento fino.
Como acontece em outros rios, a ocorrência dessas áreas é mais freqüente no
trecho inferior da bacia do rio Uruguai, onde há uma enorme redução da
declividade do leito do rio e um alargamento da planície de inundação, causan72
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
do a redução da velocidade da corrente, aparecimento de extensas áreas de
remanso e de baixios. Já na parte superior da bacia, os rios se apresentam bastante encaixados com elevada declividade e com um leito rochoso, apresentando águas rápidas que prejudicam o desenvolvimento da comunidade bentônica.
Dessa forma, há um aumento dos estoques desse peixe na parte inferior da
bacia, onde existe uma sucessão de poços com águas lênticas e corredeiras,
havendo uma alternância de trechos com fundo lodoso e águas calmas seguido
por baixios com correnteza forte. A espécie utiliza ambos trechos para alimentação. As corredeiras formam pequenas áreas de remanso que ficam mais expostas à insolação com a redução do nível de água, sendo freqüente o abundante desenvolvimento de fitobentos recobrindo o fundo rochoso. A disponibilidade de alimento ao longo da bacia pode justificar a ocorrência da espécie nos
diferentes trechos, durante todo o ano19.
Semelhante às demais espécies migradoras presentes no rio Uruguai,
poucos estudos foram realizados sobre a biologia do curimbatá na bacia. Na
região do médio e alto Uruguai, as populações se deslocam rio acima durante o
período reprodutivo, estando sujeitas a estímulos semelhantes aos descritos para
a piracanjuba, Brycon orbignyanus, e o dourado, Salminus brasiliensis.
Exemplares maduros foram capturados em diferentes pontos ao longo da
bacia, sem porém se conhecerem os sítios específicos de reprodução e criação
das formas jovens. Durante a migração ascendente, enquanto estão retidos pelos obstáculos naturais, formam grandes cardumes que se misturam com outras
espécies, tais como o dourado. Quando as condições hidrológicas se tornam
favoráveis, rapidamente o cardume ultrapassa o obstáculo e continua o deslocamento ascendente.
Possuem ovos semidensos que necessitam de água corrente durante toda
a fase de incubação. Aproximadamente 4 dias depois da desova, as larvas abrem
a boca e iniciam alimentação externa, necessitando de organismos planctônicos
nos primeiros dias, passando rapidamente ao consumo de organismos bentônicos.
Durante os estudos na área de influência da UHE Quebra Queixo, foram
capturados três curimbatás, perfazendo uma biomassa total de 3,81 kg, durante
uma mesma campanha em março/2002 no ponto localizado imediatamente a
jusante da barragem, porém a montante do Salto do rio Saudade. Dois dos exemplares capturados eram machos imaturos e o outro, uma fêmea em maturação.
Bocudo ou suruvi - Steindachneridion scriptum (Miranda Ribeiro, 1918)
O gênero Steindachneridion apresenta um número reduzido de espécies,
sendo Steindachneridion scriptum a única que habita a região do alto rio Uru73
4. Peixes
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
guai. Esta espécie distribui-se na região neotropical, podendo ser encontrada
nas bacias do rio Paraná20 e Uruguai8. Possui hábito alimentar piscívoro21 e,
assim como outros pimelodídeos, prefere habitar locais mais profundos.
O bocudo apresenta ovos com diâmetro médio de 1,3 mm de diâmetro, o
que permite a eclosão de larvas maiores que as de outros peixes migradores do
rio Uruguai. As fêmeas apresentam ovários pequenos e a fecundidade absoluta
média é de aproximadamente 25 mil ovos.
Dentro da área de influência da UHE Quebra Queixo, no ponto Foz do
Chapecozinho, foram capturados 3 bocudos, sendo 2 fêmeas e um macho, todos no estádio gonadal “em maturação”. A biomassa total foi de 1,38kg.
Os itens mais importantes encontrados nos estômagos desses 3 peixes
foram os cascudos Hypostomus sp. e Hemiancistrus sp. e bagres do gênero
Pimelodus.
Peixe-cachorro - Acestrorhynchus pantaneiro (Menezes, 1992)
O peixe-cachorro, conhecido ainda por saicanga ou tambicu, é um
caracídeo de porte mediano que pode atingir, na bacia do Alto rio Uruguai, os
31 cm22. Esta espécie também pode ser encontrada nas bacias do rio Paraguai,
Paraná, Uruguai e Mamoré23,24. Apesar de ser um peixe abundante, apresenta
pequena importância econômica na pesca comercial devido à grande quantidade de espinhos em sua carne.
Na área de influência da UHE Quebra Queixo foram capturados 92 exemplares de peixe-cachorro, perfazendo uma biomassa total de 7,55 kg. Todos
foram capturados na foz do rio Chapecozinho, a jusante da barragem.
Quanto ao hábito alimentar, os ítens mais importantes na dieta dos peixes-cachorro capturados foram: pequenos peixes (99,7%). Insetos e vegetais
foram os outros itens registrados.
Assim como para a maioria dos peixes migradores, as fêmeas do peixecachorro são maiores que os machos, com peso de 47 a 231g e comprimento de
18,6 a 29,5cm. Os machos apresentaram peso de 24 a 83g e comprimento de
15,1 a 21,5cm.
O IGS para as fêmeas variou de 0,32 a 13,46%. Para os machos, os valores de IGS foram bem inferiores, tendo variado de 0,09 a 1,82%; entretanto,
não foi capturado nenhum macho maduro durante o estudo, o que indica que os
valores de IGS devem ser maiores quando estiverem em período reprodutivo.
Para ambos os sexos, os maiores valores de ISG foram encontrados nos meses
de setembro a janeiro, indicando ser esta a época em que a espécie se reproduz.
74
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
A espécie demonstrou ter desova do tipo parcelada, tendo sido observada
fecundidade média absoluta de 25.200 ovócitos (± 11.380 ovócitos). Entretanto, a fecundidade absoluta variou de 9.643 a 57.200 ovócitos. O diâmetro médio dos ovócitos foi de 0,92mm (± 0,12mm).
Voga - Schizodon nasutus (Kner, 1858)
A voga, chimboré ou taguara, é uma das espécies mais abundantes da
bacia do Prata25 e que pode alcançar, quando adulta, os 40cm de comprimento
total22. Este é um peixe com hábito alimentar herbívoro, com preferência ao
consumo de vegetais superiores. A voga habita preferencialmente ambientes
lóticos (de água corrente), tais como rios e canais19, porém também pode ser
encontrada em ambientes lênticos (de água parada). As espécies do gênero
Schizodon realizam migração lateral, realizando curtas migrações durante o
período pré-reprodutivo26. Apresenta desova parcelada e não apresenta cuidado
parental27.
Na área de influência da UHE Quebra Queixo, dos 40 exemplares capturados, que totalizaram uma biomassa de 13,6kg, 13 eram fêmeas e 27 machos.
Os machos apresentaram comprimento e peso variando de 21,5 a 39,2cm e 86 a
610g, enquanto as fêmeas variaram de 23,0 a 38,0cm e 110 a 490g. Dois exemplares maduros foram registrados em setembro (uma fêmea) e novembro (um
macho), e 6 machos desovados foram encontrados em maio e setembro. Em
maio, um macho foi encontrado em regressão gonadal. Os valores do IGS para
fêmeas variaram de 0,09 a 19,6%, enquanto para machos, de 0,02 a 2,5%.
Jundiá – Rhamdia quelen (Quoy & Gaimard, 1824)
Esta espécie tem distribuição neotropical, sendo encontrada desde o sudeste do México ao centro da Argentina28. O jundiá é um peixe muito apreciado
devido à qualidade de sua carne e ausência de espinhos intramusculares. Na
natureza, possui hábito noturno, sendo encontrado em locais calmos e profundos dos rios29. A espécie não apresenta dimorfismo sexual aparente28. Os alevinos
suportam valores de salinidade de até 9ppm, durante 96 horas, sendo possível o
tratamento profilático e curativo de doenças com o uso de sal de cozinha30.
Uma série de experimentos realizados com alevinos de R. quelen revela que a
espécie suporta valores de pH entre 4,0 e 9,5, e alevinos aclimatados a 31oC
suportam temperaturas entre 15 e 34oC, podendo ser considerada uma espécie
euritérmica29. Em trabalho de biologia de peixes realizado na região do alto rio
Uruguai, tem sido registrada a captura de jundiá em espinhel com temperatura
da água de 11oC, comprovando que a espécie além de suportar esta temperatura, continua ingerindo alimentos.
75
4. Peixes
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
O jundiá pode ser considerado um peixe onívoro, vista a diversidade de
alimentos registrados em sua dieta. Na área de influência da UHE Quebra Queixo,
os peixes constituíram-se no item mais importante da dieta dos jundiás capturados, seguidos por insetos, material vegetal, sedimento, crustáceo, anelídeo e molusco. O item sedimento pode ser considerado como acidental neste contexto31.
O jundiá se reproduz naturalmente em ambientes lênticos, durante o período de enchente, apresentando várias desovas ao longo do período reprodutivo.
Seus ovos são do tipo demersal (não flutuante), não aderentes e não apresentam
cuidado parental.
Pela análise das gônadas dos jundiás capturados, determinou-se que a
espécie apresenta desova do tipo parcelada, tendo sido verificados indivíduos
maduros durante o ano inteiro. Entretanto, a freqüência de ocorrência no período de setembro a novembro foi maior, demonstrando que neste período ocorre
um pico de desova para a espécie na área em estudo. Os ovócitos possuem
diâmetro médio de 1,4mm e a fecundidade média absoluta observada foi de
41.000 ovócitos.
Na área de influência da UHE Quebra Queixo, dos 299 indivíduos capturados, 50,9% apresentaram suas gônadas em estádio “em maturação”, 38,1%
maduros, 4,7% imaturos, 4,2% com gônadas em regressão e 2,1% desovados.
Fêmeas maduras foram observadas ao longo de todo ano, entretando a freqüência de ocorrência foi mais elevada em setembro (59,7%), seguido por novembro (30,6%), janeiro e julho (4,2% em cada) e maio (1,4%). Para machos verificou-se a mesma tendência, indicando que o período reprodutivo desta espécie
é prolongado, típico de espécies que apresentam desova do tipo parcelada.
Trairão – Hoplias lacerdae (Miranda Ribeiro, 1908)
O trairão apresenta uma ampla distribuição geográfica, podendo ser encontrado nas bacias dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai21. Esta espécie habita
preferencialmente lagoas pouco profundas, estando adaptado a grandes variações de temperatura. É uma espécie pouco exigente à quantidade de oxigênio
dissolvido na água. Apesar da grande quantidade de espinhos intramusculares,
sua carne é muito apreciada, tendo por isso sido desenvolvidas técnicas artesanais
de filetamento e retirada dos espinhos intramusculares.
A análise do conteúdo estomacal do trairão revelou que quatro são os
itens participativos de sua dieta na área de influência da UHE Quebra Queixo.
Considerando-se os dois métodos utilizados (freqüência de ocorrência e
gravimétrico), a categoria “peixes” foi a mais representativa, tendo ocorrido
76
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
em 73,9% dos estômagos analisados, o que equivale a 99% em peso do material
contido em todos os estômagos analisados. Os demais itens encontrados foram
insetos, um crustáceo de água doce (Aeglea sp.) e sedimento, sendo este último
item considerado como acidental na dieta do trairão.
Dos 60 indivíduos capturados, 28 eram machos e 32 eram fêmeas, que
juntos totalizaram uma biomassa de 43,3 kg. As fêmeas capturadas apresentaram pesos e comprimentos maiores que os de machos, tendo sido encontrados
exemplares de 90g a 4,31kg e 24,7 e 74,5cm, enquanto os machos apresentaram peso entre 70g e 1,74kg e comprimentos de 19,2 a 56,7cm.
Dentre as fêmeas, apenas seis foram consideradas maduras, capturadas
nos meses de setembro a janeiro, o que é corroborado pela ocorrência dos maiores IGS médios (2,65% ± 1,13%) nestes meses. Duas fêmeas apresentavam
gônadas em regressão no mês de março, o que sugere que a desova ocorra por
um período longo. Um único macho maduro foi capturado, em janeiro, apresentando IGS de 0,2%. Entretanto, o maior IGS registrado para machos foi de
um exemplar em maturação (0,49%). Foram encontrados exemplares imaturos
(10% da amostra) de ambos os sexos no período de janeiro a julho.
A desova é do tipo parcelada e os ovócitos liberados são bem grandes
quando comparados com os de outras espécies, com diâmetro médio de 2,4mm
(± 0,4mm).
Traíra – Hoplias malabaricus (Bloch, 1794)
Esta espécie apresenta ampla distribuição geográfica, ocorrendo em quase todas as bacias hidrográficas da América do Sul32, Central e do Norte33. Habita todos os sistemas hidrográficos brasileiros, sendo encontrada nos mais variados ambientes34. Em função desta alta plasticidade, apresenta grande interesse científico, sendo estudada pelas mais diversas áreas35.
Na área de influência da UHE Quebra Queixo, foram capturadas 13 traíras, sendo 5 machos e 8 fêmeas. Como as demais espécies descritas acima, as
fêmeas foram maiores que os machos. As fêmeas apresentaram comprimento
total de 22 a 44,5cm e peso de 110g a 1,15kg, enquanto os machos, de 18 a
35,2cm e 60 a 510g.
Dentre os estômagos analisados que apresentaram alimento, o único item
presente na dieta foi “peixe”, de maneira que, pode-se dizer que Hoplias
malabaricus apresenta hábito alimentar piscívoro.
Os dois exemplares maduros capturados no mês de janeiro eram fêmeas,
apresentaram IGS médio de 4,9% (± 2,3%) e peso de 280 e 940g. Uma única
77
4. Peixes
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
fêmea foi observada em estágio de regressão gonadal em maio, sugerindo que a
reprodução ocorra antes deste período. Já os exemplares imaturos, 3 machos,
foram capturados nos meses de maio, julho e novembro. A desova é do tipo
parcelada, e o diâmetro médio dos ovócitos analisados foi de 1,4mm (± 0,24mm).
Mandi-amarelo - Pimelodus maculatus (Lacépède, 1803)
O mandi-amarelo ou pintado-amarelo apresenta ampla distribuição geográfica, sendo encontrado desde o norte da América do Sul até a Argentina, na
bacia do Prata16. De hábitos bentônicos e noturnos, o mandi-amarelo é um bagre
com carne de boa qualidade e não possui espinhos intramusculares, o que o
torna muito apreciado pelos pescadores.
No monitoramento da área de influência da UHE Quebra Queixo, apenas
três fêmeas foram capturadas, todas na foz do rio Chapecozinho. A biomassa
total foi de 2,2kg, duas fêmeas, capturadas nos meses de novembro e janeiro,
estavam maduras e apresentaram IGS de 4,1 e 7,4%, valores considerados altos, o que reflete o seu estádio de maturação gonadal.
A desova é do tipo parcelada e a fecundidade absoluta média observada
foi de 140.800 ovócitos. O diâmetro médio dos ovócitos verificado foi de 0,9mm.
Quanto ao hábito alimentar, o item mais importante na dieta do mandiamarelo na área de influência da UHE Quebra Queixo, pelos métodos de freqüência de ocorrência e gravimétrico foi “peixes”. Os demais itens, “vegetais”
e “sedimento”, tiveram uma participação muito pequena (0,01%), sendo que
este último pode ser considerado acidental.
4.4. Conservação
A variabilidade existente entre todos os organismos vivos consiste na
biodiversidade das espécies, a qual é essencial à propagação de todas as formas
de vida. A biodiversidade, em parte, está contida no material ou recurso genético, que se constitui nas unidades funcionais responsáveis pela hereditariedade,
ou seja, os genes e cromossomos.
A sobrepesca tem sido um dos maiores agentes impactantes sobre a perda
da biodiversidade, levando à diminuição ou até mesmo desaparecimento dos
estoques naturais. O avanço na tecnologia dos artefatos de pesca utilizados,
associado ao desperdício de produtos não desejados advindos das capturas, pode
acarretar na perda da diversidade genética de espécies, mesmo daquelas ainda
não descritas, como é o caso, por exemplo, da Bacia Amazônica1.
78
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
A perda da biodiversidade pode ser ainda afetada por diferentes ações
antrópicas como: a poluição, a construção de barragens, o desmatamento e a
mineração.
A poluição pode agir sobre a biodiversidade indiretamente quando atua
sobre os ecossistemas e habitats importantes para os peixes, como também diretamente sobre os estoques. A poluição dos ambientes aquáticos, seja por
efluente doméstico ou industrial, pode ocasionar profundas alterações na
biodiversidade aquática, visto que os compostos químicos gerados por estes
efluentes podem atuar diretamente sobre os organismos agindo sobre diferentes
mecanismos fisiológicos dos peixes, ou indiretamente, sobre os ecossistemas
provocando alterações no ambiente aquático. A bacia do rio Uruguai, na qual
está inserido o rio Chapecó, já se encontra bastante impactada, principalmente
devido à intensa atividade agrícola e industrial e à pecuária na região18. Em
decorrência da existência de indústrias de curtume, há um grande aporte de
metais pesados, sendo o cromo um elemento encontrado em virtude de seu uso
no tratamento do couro. A carga de biocidas gerados pela atividade agrícola
também pode ser outro fator agravante da poluição, visto que tem seu nível
aumentado nos trechos do rio localizados a jusante de grandes cidades.
A construção de barragens provoca profundas alterações ambientais, além
de se constituir numa barreira física que impede a migração de espécies reofílicas
(que vivem em águas correntes), dificultando assim sua reprodução. As alterações no ecossistema e a passagem gradativa de ambiente lótico para lêntico
resultam no desaparecimento das espécies estritamente fluviais e em um rearranjo
geral das demais espécies36. Como nem todas são capazes de se adaptar é de se
esperar que o rio passe a apresentar uma ictiofauna menos diversificada que
aquela encontrada originalmente. Além disso, mudanças nas características
ambientais resultam em alterações na disponibilidade alimentar, sendo que somente as espécies dotadas de certa plasticidade alimentar permanecem no novo
ambiente37. Ainda, o desaparecimento da mata ciliar provoca mudanças no
habitat, visto que indiretamente estas áreas conferem proteção e/ou alimentação para muitas espécies. Também as variações de nível da água, reguladas
pela operação da usina, alteram o ritmo cíclico natural fluviométrico, tendo
ação direta sobre a reprodução de grande parte dos peixes. A variação brusca de
nível da água tem sido a principal responsável pelo empobrecimento das comunidades aquáticas dos ambientes lóticos a jusante dos barramentos38. A destruição do habitat é ainda uma situação mais complexa quando se considera o aspecto da endemicidade das bacias, visto que, em virtude da incipiência dos
estudos na bacia do rio Uruguai, a existência de espécies endêmicas ainda não
relatadas pode fazer com que estas já estejam severamente comprometidas.
79
4. Peixes
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
A biodiversidade pode também ser afetada pela introdução de espécies
exóticas no meio, já que estas, além de competir tanto por espaço como por
recursos alimentares, podem também introduzir agentes patógenos no ambiente. Assim, o ingresso de uma espécie exótica num determinado ambiente pode
implicar em seu desequílibrio39.
Desta forma, o declínio de muitas espécies na natureza tem induzido ao
crescente desenvolvimento de tecnologia que possibilite a manutenção da diversidade selvagem. A variabilidade genética de uma população é resultado de
muitas gerações de evolução da espécie, sendo a garantia de alguma adaptação
dessa população à alteração ambiental. A perda da variabilidade genética é algo
irreparável. A manutenção de uma amostra representativa de uma população
assegura que no mínimo alguma variabilidade genética nunca será perdida.
Atualmente, duas formas de preservação têm sido utilizadas: a preservação in
situ e ex situ. A preservação in situ envolve a manutenção das populações em
seu ambiente natural, o que implica na tomada de medidas que permitam a
recomposição dos estoques naturais, como proteção da mata ciliar e repovoamento. A conservação in situ envolve a conservação dos ecossistemas e
habitats naturais e manutenção de populações viáveis de espécies em suas redondezas naturais e, no caso de espécies domesticadas e cultivadas, nas redondezas onde elas têm desenvolvido suas distintas propriedades40. A área protegida significa uma área definida geograficamente, a qual é designada ou regulada
e manejada para alcançar objetivos conservacionistas específicos. Sendo assim, a conservação in situ envolve minimização das ameaças às populações
naturais. A manutenção de espécies aquáticas em áreas protegidas pode ajudar
a superar estes problemas, além de permitir que as espécies exploradas possam
atingir peso médio maior, assegurando a sua reprodução39. Além da conservação in situ, a diversidade genética dos estoques de peixes também começa a ser
preservada ex situ, através do congelamento de tecidos e células em nitrogênio
líquido, entre elas o armazenamento de sêmen criopreservado. A preservação
do material genético através da criopreservação torna-se muito interessante a
medida que permite a manutenção de um grande pool genético por tempo
indeterminado, sem necessitar de grande espaço. A criopreservação envolve o
deslocamento da água de dentro da célula ou do embrião com componentes
químicos anti-congelantes, comumente chamados de crioprotetores41. Estas
substâncias impedem a formação de cristais de gelo, os quais podem danificar
o tecido celular. Embora esta técnica venha sendo alvo de muitos estudos, a
ausência de uma rotina de desenvolvimento de tecnologia de criopreservação
para muitas espécies aquáticas, haja vista que cada uma apresenta características próprias quanto à composição do sêmen, implica no fato de às vezes ser
80
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
mais fácil manter um banco de genes in vivo. Sendo assim, tanto os próprios
peixes (banco in vivo, tanto in situ como ex situ) quanto somente seus componentes genéticos (banco in vitro) podem compor os chamados bancos genéticos.
Os efeitos da poluição e alteração do habitat (especialmente devido às
barragens) sobre as espécies migradoras da América do Sul, têm estimulado o
interesse local na conservação genética, principalmente no que se refere à captura de reprodutores.
O conhecimento prévio da distribuição da variabilidade genética dentro
e entre populações de uma espécie é uma etapa importante para o planejamento
e o sucesso de programas de conservação in situ e de repovoamento. Estudos
com marcadores bioquímicos e moleculares são ferramentas importantes para
o manejo de populações selvagens e em cativeiro, pois permitem evidenciar o
grau de isolamento de uma população. O estudo da variabilidade genética das
populações selvagens fornece informações valiosas com respeito ao planejamento e manejo do estoque reprodutor, bem como subsídios para a determinação das áreas de conservação de populações isoladas geneticamente e orientação para programas de repovoamento42.
A conservação da diversidade genética também é muito importante quando
se trata de ações de repovoamento, popularmente conhecidas como peixamentos.
A liberação de peixes tem surgido como uma estratégia para recuperar as espécies ameaçadas ou com estoques reduzidos principalmente em decorrência dos
barrramentos. A partir da década de 1970, esta prática passou a ser usada com
obrigatoriedade após o estabelecimento de duas portarias, a 46 (27 de janeiro
de 1971) e 0001 (4 de janeiro de 1977) determinadas pela Superintendência do
Desenvolvimento da Pesca (SUDEPE). Com isto, as empresas mediadoras da
construção de barragens tornaram-se responsáveis pela adoção de métodos que
mitigassem os impactos causados pelos represamentos, dos quais o
repovoamento passou a ser o principal método utilizado43. Entretanto, alguns
problemas têm sido freqüentes no desenvolvimento desta atividade, principalmente porque a grande maioria dos peixamentos é realizada com exemplares
produzidos em estações de piscicultura, sem o controle prévio de sua qualidade
genética. A dificuldade de captura de reprodutores de algumas espécies no ambiente natural induziu o setor a montar os plantéis a partir de alevinos oriundos
das primeiras reproduções bem sucedidas com cada espécie. No entanto, grande parte das estações de piscicultura não possui um banco de dados contendo
um histórico da origem de seu plantel de reprodutores, o que favorece o incremento dos níveis de consangüinidade gerados a partir de endocruzamentos re81
4. Peixes
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
alizados nas estações. Sendo assim, os alevinos produzidos tendem a apresentar uma menor variabilidade genética. Quando destinados ao repovoamento,
podem ocasionar um declínio da qualidade genética do estoque receptor, ou
seja, da população natural do rio.
Desta forma, o caminho mais seguro para a manutenção da diversidade
genética ainda é a manutenção da integridade dos ecossistemas aquáticos. As
vias naturais para aumentar os estoques podem ser encorajadas através da
melhoria ou restauração do habitat. Isto pode também incluir uma área de proteção para garantir a reprodução e aumento do recrutamento18. Assim, os bancos de sêmen podem ser vistos como uma ferramenta auxiliar na manutenção
da diversidade da fauna nativa de peixes das bacias fluviais brasileiras. Entretanto, isoladamente tornam-se insuficientes para assegurar a preservação da
biodiversidade. O reconhecimento das limitações do banco de genes ex situ,
entretanto não diminui a sua importância nas propostas de conservação e reprodução.
O futuro gerenciamento do rio Chapecó deve se basear em aspectos que
englobem toda a hidrobacia. O gerenciamento dos estoques de peixes deve ser
adaptado a esta nova situação, buscando mitigar os efeitos das barragens.
Os possíveis problemas relacionados com o uso inadequado das áreas
adjacentes ao rio, provenientes da contaminação agrícola, industrial e urbana, e
sua relação com diminuição extrema da diversidade biológica, ou mesmo com
a extinção local de espécies, devem ser identificados a fim de serem implantadas as devidas medidas conservacionistas18.
4.5. Referências Bibliográficas
1. Biodiversity Development Project (BDP) 2000. Fish and biodiversity. BDP,
London, 4 pp.
2. Agostinho, A.A., Julio, Jr H.F., Gomes, L.C., et al .1997. Composição, abundância e distribuição espaço-temporal da ictiofauna. Pp. 179-208 in Vazzoler
A.E.A.M.; Agostinho A.A. & Hahn, N.S. (eds.). A planície de inundação do
alto rio Paraná: aspectos físicos, biológicos e socioeconômicos. Maringá:
EDUEM, 460pp.
3. Hahn, N.S. 1991. Alimentação e dinâmica da nutrição da curvina Plagioscion
squamossisimus (Pisces; Perciformes) e aspectos da estrutura trófica da
ictiofauna acompanhante no rio Paraná. Tese de doutorado. Universidade
Estadual Paulista, Rio Claro, 287 pp.
82
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
4. Hahn, L. & Câmera, L.F. 2000. Ictiofauna do rio Uruguai: pesquisas e impactos.
Boletim da Sociedade Brasileira de Ictiologia 58: 9-11.
5. Ringuelet, R.A. 1975. Zoogeografía y ecología de los peces de aguas continentales
de la Argentina y consideraciones sobre las áreas ictiológicas de América del
Sur. Ecosur 2 (3): 1-122.
6. Sverlij, S.B.; Lopez, H.L.; Schenke, R.L. & Ros, A.S. 1998. Peces del río Uruguai: Guía ilustrada de las especies mas communes del rio Uruguay inferior
y el embalse de Salto Grande. Comision Administradora del Rio Uruguai
(CARU), Montevidéo, 89 pp.
7. Bertoletti, J.J; Lucena, C.A.S.; Lucena, Z.M.S.; Malabarba, L.R. & Reis, R.E.
1989. Ictiofauna do rio Uruguai superior entre os municípios de Aratiba e Esmeralda, Rio Grande do Sul, Brasil. Comunicações do Museu de Ciências da
PUCRS 48-49: 3-42.
8. Zaniboni-Filho, E.; Nuner, A.P.O.; Meurer, S.; Reynalte-Tataje, D. & Iaczinski,
P. 2002. Monitoramento e manejo da ictiofauna do alto rio Uruguai – Espécies migradoras: UHE Machadinho. Relatório Final. Tractebel Energia,
Florianópolis, 83 pp.
9. Ringuelet, R.; Aramburu, R. & Aramburu, A., 1967. Los peces argentinos de
agua dulce. Comission de Investigation Científica, Buenos Aires, 602 pp.
10. Géry, J. 1977. Characoids of the world. TFH Publications Inc., Neptune City,
672 pp.
11. Behmer, O.P.; Tolosa, E.M.C. & Freitas Neto, A.G. 1976. Manual de técnicas
para histologia normal e patológica. Edart, EDUSP, São Paulo, 120 pp.
12. Vazoler, A.E.A.M. 1981. Manual de métodos para estudos de populações de
peixes; reprodução e crescimento. CNPq, Brasília, 108 pp.
13. Zaniboni-Filho, E. 1985. Biologia da reprodução do matrinxã, Brycon
cephalus (GUNTHER 1869) (TELEOSTEI: CHARACIDAE). Dissertação
de Mestrado. INPA/FUA, Manaus, 134 pp.
14. Paiva, M.P. 1983. Peixes e Pescas de Águas Interiores do Brasil. Editerra,
Brasília, 158 pp.
15. Hyslop, E.J. 1980. Stomach contents analysis, a review of methods and their
application. Journal of Fish Biology 17: 411-429.
16. Godoy, M.P. 1987. Peixes do estado de Santa Catarina. Editora da UFSC, coedição ELETROSUL/FURB, Florianópolis, 572 pp.
17. Britski, H.A.; Sato, Y.; Rosa, A.B.S. 1988. Manual de identificação de peixes
da região de Três Marias: com chaves de identificação para os peixes da
bacia do São Francisco. CODEVASF, Brasília, 115 pp.
83
4. Peixes
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
18. Zaniboni-filho, E. & Schulz, U.H. 2003. Migratory fishes of the Uruguay river.
Pp. 135-168 in Carolsfeld, J.; Harvey, B.; Baer, A. & Ross, C. (eds.). Migratory
fishes of the South America: biology, social importance and conservation.
World Fisheries Trust, Victoria, 372 pp.
19. Amengual, N.A. & Siazaro, J.C. 1988. Diez anos de actividad en el rio Uruguay
1978 – 1988. Publicaciones n° 2. Comisión Administrativa del rio Uruguay,
Paysandú, 39 pp.
20. Agostinho, A.A.; Hahn, N.S.; Gomes, L.C. & Bini, L.M. 1997. Estrutura trófica.
Pp. 229-248 in Vazzoler, A.E.A.M.; Agostinho, A.A. & Hahn, N.S. (eds.). A
planície de inundação do alto rio Paraná: Aspectos físicos, biológicos e
socioeconômicos. EDUEM, Maringá, 460 pp.
21. Meurer, S. & Zaniboni-Filho, E. 2000. O suruvi Steindachneridion scripta
Ribeiro, 1918, como espécie alternativa para a piscicultura sul brasileira.
Anais do XI Simpósio Brasileiro de Aqüicultura, 2000, Florianópolis. SIMBRAq,
Florianópolis (CD-ROM não paginado).
22. Zaniboni-Filho, E.; Meurer, S.; Shibatta, O.A. & Nuñer, A.P.O. 2004. Catálogo
ilustrado de peixes do alto rio Uruguai. Tractebel Energia, Florianópolis, 120
pp.
23. Menezes, N.A. 1992. Redefinição taxonômica das espécies de Acestrorhynchus
do grupo lacustris com a descrição de uma espécie (Osteichthyes, Characiformes,
Characidae). Comunicações do Museu de Ciências da PUCRS, Ser. Zool., 5:
39-54.
24. Oyakawa, O.T. 1998. Catálogo dos tipos de peixes recentes do Museu de Zoologia da USP. I. Characiformes (Teleostei: Ostariophysi). Papéis Avulsos de
Zoologia 39 (23): 443-507.
25. Garavello, J.C.; Britski, H.A. 1990 Duas novas espécies do gênero Schizodon
Agassiz da bacia do alto Paraná, Brasil, América do Sul (Ostariophysi,
Anostomidae). Naturalia 15: 153-170.
26. Vazzoler, A.E.A.M.; Suzuki, H.I.; Marques, E.E. & Lizama, M.A.P. 1997. Primeira maturação gonadal, período e áreas de reprodução. Pp. 249-265 in Vazzoler,
A.E.A.M.; Agostinho, A.A. & Hahn, N.S. (eds.). A planície de inundação do
alto rio Paraná: Aspectos físicos, biológicos e socioeconômicos. EDUEM,
Maringá, 460 pp.
27. Benjamin, L.A.; Rizzo, E. & Bazzoli, N. 1997. Reprodução e parede folicular
de Schizodon nasutus (Kner, 1859) (Characiformes: Anostomidae): estudo
morfométrico, histológico e ultra-estrutural. Resumos do XII Encontro Brasileiro de Ictiologia, 1997, São Paulo. USP, Instituto Oceanográfico, São Paulo,
p. 350.
84
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
28. Silfvergrip, A.M.C. 1996. A systematic revision of the neotropical catfish
genus Rhamdia. Department of Zoology, Stockholm University, and Department
of Vertebrate Zoology, Swedish Museum of Natural History, Stockholm, 156 pp.
29. Gomes, L.C.; Golombieski, J.I.; Chippari-Gomes, A.R. & Baldisseroto, B. 2000.
Biologia do jundiá Rhamdia quelen (Teleostei, Pimelodidae). Ciência Rural 30
(1): 179-185.
30. Marchioro, M.I. 1997. Sobrevivência de alevinos de jundiá (Rhamdia quelen
Quoy & Gaimard, 1824, Pisces, Pimelodidae) à variação de pH e salinidade
da água de cultivo. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de Santa
Maria, Santa Maria, 87 pp.
31. Meurer, S.; Zaniboni-Filho, E. 1997. Hábito alimentar do jundiá Rhamdia
quelen (Pisces, Siluriformes, Pimelodidae), na região do alto rio Uruguai.
Resumos do XII Encontro Brasileiro de Ictiologia, 1997, São Paulo. USP, Instituto Oceanográfico, São Paulo, p. 29.
32. Fowler, H.W. 1950. Os peixes de água doce do Brasil. Arquivos de Zoologia 6
(2): 205-404.
33. Moleiro, R.R. 1966. Distribuição geográfica de peixes freshwater americanos
centrais. Copeia 4: 773-802.
34. Godoy, M.P. 1975. Peixes do Brasil – Sub Ordem Characoidei. Bacia do rio
Mogi Guassu. 4 vols. Ed. Franciscana, Piracicaba, 440 pp.
35. Bialetzki, A. 1998. Descrição morfológica e distribuição de larvas e juvenis
de Hoplias aff. malabaricus (Bloch, 1794) (Osteichthyes, Erythrinidae) na
planície de inundação do alto rio Paraná (PR/MS). Dissertação de Mestrado.
Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 58 pp.
36. McLachlan, A.J. 1974. Development of some lake ecosystem in tropical Africa,
with reference to the invertebrates. Biological Review 49: 365-369.
37. Castro, R.M.C. & Arcifa, M.S. 1987. Comunidades de Peixes de Reservatórios
no Sul do Brasil. Revista Brasileira de Biologia 47 (4): 493-500.
38. Vieira, F. & Pompeu, P.S. 2001. Peixamento. Uma Alternativa Eficiente? Ciência Hoje 30 (175): 28-33.
39. Carolsfeld, J.; Godinho, H.P.; Zaniboni-Filho, E.; Harvey, B.J. 2003.
Cryopreservation of sperm in Brazilian migratory fish conservation. Journal of
Fish Biology 63: 472-489.
40. Pullin, R.S.V.; Bell, J.; Danting, J.C. & Longalong, F. 1998. Gene banking for
fish and other aquatic organisms: ICLARM’s perspectives and experiences. Pp.
31-43 in Harvey, B.; Ross, C.; Greer, D. & Carolsfeld, J. (eds.). Action Before
extinction: an International Conference on Conservation of fish Genetic
Diversity. World Fisheries Trust, Victoria, 259 pp.
85
4. Peixes
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
41. Hagedorn, M. 1999. Potential ex situ conservation impact to fish biodiversity
through the cryopreservation of fish embryos. Pp. 303-315 in Val, A.L. & AlmeidaVal, V.M.F. (eds.). Biology of Tropical Fishes. INPA, Manaus, 460 pp.
42. Hilsdorf, A.W.S.; Petrere Jr., M. 2002. Conservação de peixes na bacia do rio
Paraíba do Sul. Ciência Hoje 30 (180): 62-65.
86
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Figura 4.2. Exemplares das espécies de peixes mais abundantes na área de influência da
UHE Quebra Queixo. A – Bryconamericus stramineus (lambari); B – Astyanax grupo
scabripinnis (lambari); C – Hypostomus isbrueckeri (cascudo); D – Astyanax fasciatus
(lambari); E – Steindachnerinna biornata (biru) e F – Rhamdia quelen (jundiá). Fonte:
LAPAD.
87
○
4. Peixes
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Figura 4.3. Exemplares das espécies de peixes de interesse comercial, presentes na área
de influência da UHE Quebra Queixo. A – Salminus brasiliensis (dourado);
B – Steindachneridion scriptum (bocudo); C – Prochilodus lineatus (curimbatá);
D – Pimelodus maculatus (mandi); E – Hoplias lacerdae (trairão) e F – Hoplias
malabaricus (traíra). Fonte: LAPAD.
88
○
5. ANFÍBIOS
Marília Teresinha Hartmann
Universidade Federal do Pampa, Centro de Ciências Rurais,
Av. Antônio Mercado, 1357, Centro - 97300-000 - São Gabriel, RS
Paulo Christiano A. Garcia
Universidade de São Paulo, Museu de Zoologia,
Av. Nazare, 481, Ipiranga - 04263-000 - São Paulo, SP
Luís Olímpio Menta Giasson
UNESP, Instituto de Biociências, Campus de Rio Claro, Seção de Pós-Graduação,
Av. 24-A, 1515, Bela Vista, CP 199 - 13506-900 - Rio Claro, SP
Paulo Afonso Hartmann
Universidade Federal do Pampa, Centro de Ciências Rurais,
Av. Antônio Mercado, 1357, Centro - 97300-000 - São Gabriel, RS
A classe Amphibia possui atualmente 6091 espécies1 divididas em três
ordens: Caudata (salamandras), Gymnophiona (cobras-cegas ou cecílias) e Anura
(sapos, rãs e pererecas). Aproximadamente 48% destas espécies ocorrem na
América tropical, principalmente da ordem Anura2,3. No Brasil, que conta com
um alto índice de endemismo, ocorrem pouco mais de 12% das espécies de
anfíbios do mundo4,6, consistindo na maior riqueza do planeta4,5. Cerca de 97
espécies de anfíbios foram descritas nos últimos dez anos para o país5, indicando que a diversidade do grupo deve ser ainda maior do que a conhecida atualmente7,8,9,10,11,12,13. Apesar disso, a velocidade da degradação ambiental é mais
rápida do que os estudos realizados nas diferentes regiões do país. Muitas espécies podem estar desaparecendo, mesmo antes de serem conhecidas.
A grande diversidade de modos de vida e o agrupamento de várias espécies em um mesmo hábitat tornam muito importante o estudo dos anfíbios14.
Esse grupo de animais é objeto ideal para diversos tipos de estudos: as espécies
têm mobilidade limitada15, são facilmente localizadas quando estão em atividade de vocalização (no caso dos anuros), são basicamente carnívoros quando
adultos16 e várias espécies servem como indicadoras ambientais, devido à sensibilidade a alterações ambientais, em diferentes estágios de seu ciclo de vida.
89
5. Anfíbios
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Além disso, populações de anfíbios estão em declínio em muitas partes
do mundo17,18 fato que tem aumentado o interesse em seu estudo, principalmente em relação às razões destes declínios. Uma parte deles tem sido atribuída às
atividades humanas e à destruição áreas naturais. Entretanto, os estudos realizados até o momento não respondem quais são os reais fatores que causam a
diminuição de algumas populações ou da riqueza de espécies de anfíbios em
determinadas áreas19.
No entanto, apesar da grande diversidade dos anfíbios e da identificação
de que várias de suas populações estão em declínio, no Brasil ainda são relativamente escassos os estudos de levantamento e ecologia populacional, na maioria das regiões. A identificação das espécies ocorrentes em um determinado
local, e os estudos das relações entre elas e o seu ambiente, são o primeiro
passo para o entendimento do funcionamento da comunidade. Além de permitir
o acompanhamento da evolução das populações, fundamentais para o planejamento e a tomada de decisões a respeito de sua conservação. Particularmente
importantes são os estudos que envolvem grandes modificações no ambiente,
como no caso de Hidrelétricas. O registro inicial das espécies e dos ambientes
por elas ocupados permite que, após a alteração ambiental, se identifique de
que forma as populações se adequam a nova realidade, fornecendo informações
importantes sobre a sua plasticidade ou os requisitos de hábitats de cada uma
delas. Um bom diagnóstico ambiental da fauna e monitoramento posterior de
suas populações são essenciais para o planejamento e efetivação de ações que
visam minimizar os impactos provocados por qualquer empreendimento.
Em vista disso, este trabalho reúne informações baseadas em observações de campo e da literatura, realizados durante o monitoramento da UHE
Quebra Queixo, buscando minimizar a escassez de informações sobre os anfíbios ocorrentes no Oeste do Estado de Santa Catarina, além de subsidiar futuras
ações para a preservação de suas populações. Publicações ilustradas como esta
visam também descaracterizar os anuros como repugnantes, visto que muitas
espécies são coloridas e possuem adornos curiosos. Portanto, esta se constitui
numa referência aplicável à educação ambiental.
5.1. Métodos
O estudo dos anfíbios foi realizado de fevereiro de 2001 a março 2002,
quando foram desenvolvidas sete campanhas de campo para monitoramento da
fauna nas áreas de influência da UHE Quebra Queixo. Em novembro de 2002,
foi realizada uma campanha para o Parque Estadual das Araucárias. Para tanto,
90
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
três técnicas foram utilizadas: (1) observações em campo, (2) entrevistas e (3)
levantamento bibliográfico.
Observações em campo
A observação em campo é a etapa mais importante do trabalho com anfíbios. Foram realizadas procuras aleatórias, percorrendo trilhas, estradas, ambientes florestados e de agricultura nas áreas de influência do empreendimento.
As procuras compreendiam diferentes horários do dia e da noite e eram
direcionadas aos sítios de vocalização e reprodução, como lagoas, açudes, brejos e riachos, com maior intensidade no período noturno.
Em todos os locais foram examinados troncos, tocas, pedras, amontoados de materiais e corpos-d’água, registrando-se tanto os adultos, encontrados
em deslocamento, vocalização ou amplexo, quanto desovas e girinos. Para captura de girinos, foram utilizadas peneiras, que foram passadas nos corpos d’água.
Os girinos foram identificados e soltos no mesmo local. Quando a identificação
é possível, pelo menos em nível de gênero, girinos são aliados importantes para
a determinação da riqueza de espécies de uma área. Em muitas espécies, os
adultos são encontrados somente durante a atividade reprodutiva, que pode se
limitar a poucos dias do ano, enquanto os girinos permanecem nos corpos d’água
por longos períodos. A presença de girinos também indica a reprodução efetiva
das espécies na área.
No período noturno, os trabalhos foram realizados com auxílio de lanternas a pilha. As espécies foram identificadas por visualização direta20 e/ou por
reconhecimento da vocalização21. A identificação das espécies foi realizada com
auxílio da bibliografia1,22,23,24. As vocalizações foram gravadas em gravador portátil TCM, com microfone cardióide. Em laboratório, as vocalizações foram
analisadas pelo programa Canary versão 1.2, e comparadas com as publicações
originais dos cantos, quando disponíveis. Este método permite a confirmação
da identificação de espécies que tenham seus cantos descritos, juntamente com
a comparação da morfologia dos animais observados.
Quando possível, foi realizada a documentação fotográfica das espécies
e comportamentos associados.
Para assegurar a identificação, foram coletados espécimes testemunhos.
Os espécimes capturados foram acondicionados em sacos plásticos e preparados para estudos científicos conforme técnica padrão25 e depositados nas coleções de anfíbios da Universidade Estadual Paulista (UNESP), Rio Claro, São
Paulo e na Fundação Universidade de Blumenau (FURB), Blumenau, Santa
Catarina.
91
5. Anfíbios
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Levantamento Bibliográfico
A análise da literatura iniciou-se pela verificação dos resultados do estudo de impacto ambiental das áreas de influência da UHE Quebra Queixo. Após,
reunimos a literatura científica sobre os anfíbios com ocorrência para a região
oeste de Santa Catarina. Apesar de não existirem estudos específicos publicados sobre os anfíbios desta região do Estado, foram levantadas, as espécies de
possível ocorrência para a região com base em sua distribuição e características
ecológicas. Uma estimativa baseada em diversos trabalhos indica a presença de
cerca de 52 espécies de anuros26,27,28,29,30,31,32,33,34,35,36,37,38,39,40 para o oeste do estado de Santa Catarina. O monitoramento da fauna da UHE Quebra Queixo, apresentado neste capítulo, representa portanto o primeiro estudo publicado sobre
os anfíbios desta região.
Entrevistas
Algumas entrevistas foram realizadas com moradores nas áreas de influência da UHE Quebra Queixo, de modo a avaliar o conhecimento local sobre o
grupo. De um modo geral, as entrevistas fornecem poucos dados sobre anfíbios. Isto ocorre porque as diferentes espécies são pouco conhecidas pela população, que muitas vezes usa indiscriminadamente nomes comuns, como perereca, sapo ou rã, para várias espécies. No entanto, algumas pessoas distinguem
espécies ou grupos de espécies com características peculiares, como a rã-martelo (Hypsiboas faber), devido ao seu canto, os sapos comuns (Rhinella spp.),
devido à sua morfologia, e a rã-touro (Lithobates catesbeianus), por ser um
animal de criação, que apresenta vocalização similar a um mugido. Um nome
muito popular e de difícil identificação é o “sapo-boi”, frequentemente utilizado pela população, ora em função do tamanho de uma sapo (geralmente exemplares do gênero Rhinella), ora pela sua vocalização (aparentemente cantos de
Proceratophrys, Odontophrynus ou mesmo Lithobathes catesbeianus).
5.2. Os Anfíbios da UHE Quebra Queixo
Foram registradas 21 espécies de anfíbios nas áreas de influência da UHE
Quebra Queixo (Tabela 5.1), representando 40,4% das espécies de possível
ocorrência no oeste de Santa Catarina (52 espécies).
As duas famílias com maior número de representantes foram Hylidae e
Leptodactylidae, com oito e quatro espécies respectivamente (38% e 19% da
amostra respectivamente a cada família). A família Hylidae, que inclui as co92
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
nhecidas pererecas, é um grupo extremamente diversificado na morfologia externa, coloração e modos reprodutivos. Um dos principais atributos dos hilídeos
é a capacidade de escalar qualquer superfície, devido aos discos adesivos nas
extremidades dos dedos. Em função disto, muitos representantes desta família
utilizam poleiros elevados na vegetação como sítios de vocalização.
Tabela 5.1. Lista dos anfíbios registrados para as áreas de influência direta (AID) e
indireta (AII) da UHE Quebra Queixo, municípios de São Domingos e
Ipuaçu, Santa Catarina, de fevereiro de 2001 a março de 2002.
Táxon
Caeciliidae
Siphonops aff. paulensis
Bufonidae
Rhinella icterica
Centrolenidae
Hyalinobatrachium uranoscopum
Hylidae
Aplastodiscus perviridis
Hypsiboas faber
Hypsiboas leptolineatus
Dendropsophus minutus
Phyllomedusa tetraploidea
Scinax aromothyella
Scinax fuscovarius
Scinax perereca
Leiuperidae
Physalaemus cuvieri
Physalaemus aff. gracilis
Leptodactylidae
Leptodactylus fuscus
Leptodactylus mystacinus
Leptodactylus ocellatus
Leptodactylus plaumanni
Cycloraphidae
Odontophrynus americanus
Proceratophrys avelinoi
Microhilidae
Elachistocleis bicolor
Ranidae
Lithobates catesbeianus
Nome Comum
AII
cobra-cega
sapo
AID
x
x
perereca-de-vidro
x
x
perereca
rã-martelo
perereca-de-pijama
perereca
perereca-das-folhas
perereca
perereca-de-banheiro
perereca
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
rã-cachorro
rã-chorona
x
x
x
x
rã-assobiadeira
rã
rã-manteiga
rã
x
x
x
x
x
x
x
x
sapo
sapo-de-chifre
x
x
x
x
sapo-guarda
rã-touro
x
x
x
Até recentemente Leptodactylidae era a maior família de anuros, com
mais de 800 espécies distribuídas em cerca de 50 gêneros41. Porém, esta família
sofreu extensa fragmentação em decorrência de estudos filogenéticos, com a
conseqüente formação de várias novas famílias. Atualmente está restrita a quatro gêneros e 91 espécies1 e inclui as rãs da América do Sul. São terrestres e
suas desovas são protegidas por espuma, depositadas sobre a água (e.g.,
93
5. Anfíbios
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Leptodactylus ocellatus) ou dentro de tocas construídas pelos machos (e.g.,
Leptodactylus fuscus).
As famílias Leiuperidae e Cycloramphidae (ordem Anura) tiveram duas
espécies cada (9,5% da amostra para cada família) enquanto Caeciliidae (ordem Gymnophiona), Bufonidae, Centrolenidae, Microhylidae e Ranidae (ordem Anura) tiveram uma espécie cada (4,7% da amostra para cada família). A
espécie da família Ranidae é exótica, proveniente da América do Norte.
A maioria das espécies registradas nas áreas de influência da UHE Quebra Queixo utiliza áreas abertas para alimentação e reprodução, dispersam-se
com facilidade e tem ampla distribuição geográfica. Apenas quatro espécies
podem ser consideradas de distribuição mais restrita: Hypsiboas leptolineatus,
considerada endêmica do Planalto de Araucárias do Rio Grande do Sul, Santa
Catarina e Paraná; Leptodactylus plaumanni, conhecida para Misiones, na Argentina, Santa Catarina e Rio Grande do Sul; Proceratophrys avelinoi, descrito
para a região de Misiones, Argentina, e posteriormente registrado no Paraná1 e
oeste de Santa Catarina42, e Phyllomedusa tetraploidea, citada para o interior
de São Paulo e Paraná1. A população de P. tetraploidea, encontrada na região
oeste de Santa Catarina, representa uma ampliação da distribuição geográfica
da espécie. Até o momento, o registro mais ao sul de P. tetraploidea é o município de Chapecó, Santa Catarina, onde um único indivíduo foi encontrado (M.T.
Hartmann e P.A. Hartmann, dados não publicados).
Espécies Registradas
Siphonops aff. paulensis (cobra-cega) é um anfíbio ápodo, de hábitos fossórios,
muito semelhante morfologicamente a Siphonops paulensis, mas de porte mais delgado. A exata identificação desta espécie ainda não foi concluída. Um indivíduo foi entregue morto por um morador local e 15 foram
registrados durante o enchimento do reservatório.
Rhinella icterica (Spix, 1824) (sapo) foi encontrado em corpos de água parada,
reproduzindo após as chuvas, comportamento comum no gênero. Seu
padrão reprodutivo é caracterizado como explosivo com curtos períodos
reprodutivos em que os machos procuram ativamente pelas fêmeas nos
locais onde há agregação de indivíduos. A desova de Rhinella icterica é
numerosa, com ovos pequenos inseridos em um par de cordões gelatinosos. Os girinos são pretos e vivem em cardumes43. Dimorfismo sexual
quanto à coloração é incomum nos anuros, mas nesta espécie os machos
apresentam coloração uniforme no dorso, variando a tonalidade entre
amarelo a esverdeado, enquanto as fêmeas são rajadas em verde escuro
94
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
contrastando com coloração creme. Esta espécie distribui-se pela Floresta Atlântica do sudeste e sul do Brasil37, além de ocorrer na Argentina e
Paraguai1.
Hyalinobatrachium uranoscopum (Müller, 1924) (perereca-de-vidro) foi encontrado vocalizando empoleirado em folhas largas, sobre riachos. A desova é posta sobre estas folhas e os girinos caem nos córregos onde completam seu desenvolvimento. Esta espécie utiliza ambientes lóticos para
reprodução e parece ter atividade em todas as estações do ano44, com
atividade de canto após chuvas esporádicas45. É conhecida como espécie
de reprodução prolongada, entretanto, nas áreas de influência da UHE
Quebra Queixo a atividade reprodutiva desta espécie foi ocasional, e a
densidade de indivíduos em atividade foi baixa em comparação com outras regiões do Estado (P.C.A. Garcia, obs. pess.). Os riachos sombreados
e faixas ciliares utilizados por esta espécie geralmente são bastante reduzidas nas áreas de influência da UHE Quebra Queixo, limitando a possibilidade de expansão das populações e tornando esta espécie localmente
rara. No Rio Grande do Sul é considerada uma espécie ameaçada – vulnerável46 e no Paraná é citada como uma espécie com dados insuficientes
para determinar sua situação47. H. uranoscopum ocorre no sudeste e sul
do Brasil e Argentina1.
Aplastodiscus perviridis Lutz, 1950 (perereca) foi encontrado em ambientes
abertos, na vegetação marginal próxima a rios com correnteza fraca ou
brejos. Esta espécie também pode ser encontrada em plantações41. Embora ocorra em ambientes alterados, A. perviridis foi comumente encontrado na borda ou proximidades da mata, indicando alguma dependência
da vegetação arbórea que possivelmente sirva como abrigo. Padrão
reprodutivo parece ser prolongado48, ou seja, a atividade reprodutiva ocorre
comumente ao longo de meses e as fêmeas vão ao encontro do macho de
sua preferência estimuladas pelas vocalizações. Após uma corte ritualizada, o macho conduz a fêmea até uma toca previamente escavada na
margem de corpos d’água corrente de pouco volume, onde os ovos são
depositados dentro d´água49. A. perviridis é registrado para a região central e sudeste do Brasil e nas áreas de encosta do sul do Rio Grande do
Sul, além do nordeste da Argentina1. Esta espécie não era citada anteriormente para o oeste de Santa Catarina.
Hypsiboas faber (Wied-Neuwied, 1821) (rã-martelo) é uma espécie conhecida
pela população em geral devido ao canto forte que lhe deu o nome comum de sapo-ferreiro ou sapo-martelo. Foi encontrada nas margens de
corpos de água parada ou pouco corrente, como açudes, onde o macho
95
5. Anfíbios
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
vocalizava no interior de piscinas de barro. É uma espécie de reprodução
prolongada e o macho desta espécie constrói as piscinas, que recebem
um acabamento pelas fêmeas, onde são colocadas as desovas50,51. Durante o dia e nos meses de menor atividade, H. faber se abriga dentro da
mata. É uma espécie com ampla distribuição geográfica no sudeste e sul
do Brasil, Paraguai e Argentina1.
Hypsiboas leptolineatus (Braun & Braun, 1977) (perereca-de-pijama) foi encontrada em áreas abertas, sempre próxima a corpos de água. Os machos
foram encontrados vocalizando na vegetação da margem de riachos ou
poças temporárias. Foi comum nas áreas de influência da UHE Quebra
Queixo e parece ter atividade tipicamente durante o inverno, inclusive
nos períodos mais frios do ano, com padrão prolongado. É uma espécie
endêmica do Planalto das Araucárias do Rio Grande do Sul, Santa
Catarina41 e Paraná1.
Dendropsophus minutus (Peters, 1872) (perereca) é uma espécie de porte pequeno e canto estridente, e foi localmente abundante na UHE Quebra
Queixo. Foi encontrada na vegetação emergente de corpos de águas
lênticas. A reprodução foi prolongada, mas grandes coros foram ouvidos
principalmente no período mais quente do ano. O amplexo desta espécie
é axilar e os ovos são depositados diretamente na água, onde os girinos se
desenvolvem48. Possui ampla distribuição na América do Sul1,48
Phyllomedusa tetraploidea Pombal & Haddad, 1992 (perereca-das-folhas) é
uma perereca de porte médio e de fácil identificação pela coloração dorsal
verde, com o interior das coxas alaranjado e preto. Na UHE Quebra Queixo, essa espécie foi registrada em áreas com vegetação densa, próxima à
água corrente. É uma espécie com padrão de reprodução prolongado, os
machos foram encontrados vocalizando empoleirados na vegetação marginal de corpos d’água, próximos à mata. A distribuição geográfica é
conhecida para o interior dos estados de São Paulo e Paraná e em Misiones,
Argentina1.
Scinax aromothyella Faivovich, 2005 (perereca) é uma espécie de porte pequeno, muito similar a Scinax berthae, porém diferenciando-se desta por
apresentar a musculatura do braço hipertrofiada, conferindo-lhe um aspecto mais robusto. Os machos foram encontrados vocalizando sobre a
vegetação próxima à água. Vive em áreas abertas e a reprodução parece
ser influenciada pelas chuvas37. Scinax aromothyella tem distribuição
geográfica conhecida para Misiones, na Argentina, e possivelmente esteja sendo confundida com S. berthae no sul do Brasil52. O registro desta
96
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
espécie na UHE Quebra Queixo representa a primeira citação oficial para
o estado de Santa Catarina.
Scinax fuscovarius (Lutz, 1925) (perereca-do-banheiro) foi uma espécie comum nas áreas de influência da UHE Quebra Queixo e foi encontrada em
ambientes abertos em águas lênticas, vocalizando no chão ou na vegetação. É uma espécie com padrão de reprodução prolongado, a maior parte
dos registros foi de animais deslocando-se em áreas abertas à noite ou
abrigados embaixo de pedras durante o dia. A desova é depositada no
substrato, espalhada entre detritos vegetais, em poças e lagoas43. Tem
ampla distribuição geográfica no sudeste e sul do Brasil, além de ser
registrada para a Argentina, Paraguai e Bolívia1.
Scinax perereca Pombal, Haddad & Kasahara, 1995 (perereca) foi encontrada
vocalizando empoleirada em arbustos ou pequenas árvores (galhos ou
troncos) após chuvas. Aparentemente possui padrão prolongado de reprodução. Nas áreas de influência da UHE Quebra Queixo, utilizou corpos de água lêntica no interior de matas ou em áreas abertas próximas à
mata. A desova de S. perereca é colocada sobre a vegetação aquática e os
ovos são pequenos e numerosos41. Ocorre nas regiões florestadas do sul e
sudeste do Brasil e em Misiones, Argentina41.
Leptodactylus fuscus (Schneider, 1799) (rã-assobiadeira) foi encontrada
vocalizando no solo próximo a águas lênticas, dentro ou na entrada de
ninhos subterrâneos construídos no solo. É uma espécie com padrão prolongado de reprodução. Esses ninhos são construídos pelos machos, que
atraem a fêmea para seu interior, onde colocam a desova em espuma53,54,
mas normalmente abrigam-se fora das áreas de reprodução55. A reprodução é influenciada pelas chuvas, em períodos chuvosos e quentes56. O
canto parece um assobio longo e lhe deu o nome comum de rã-assobiadeira.
É uma espécie com ampla distribuição geográfica na América do Sul1,
sendo comum nas áreas abertas do sudeste e sul do Brasil. Esta espécie
tem aparecido em alguns locais de Floresta Atlântica, devido aos
desmatamentos (obs. pess., L. O. M. Giasson).
Leptodactylus mystacinus (Burmeister, 1861) (rã) foi encontrada vocalizando
no chão, sempre fora da água, próximo a locais inundados ou dentro de
ninhos subterrâneos. É uma espécie de reprodução prolongada e o macho
cava uma toca no solo, de onde vocaliza para a fêmea. A desova em espuma é colocada dentro desta toca22. Durante o dia, foram encontrados indivíduos abrigados embaixo de pedras ou troncos. Leptodacylus mystacinus
97
5. Anfíbios
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
é conhecido para o sudeste da Bolívia e leste do Brasil até o Uruguai e na
parte central da Argentina1.
Leptodactylus ocellatus (Linnaeus, 1758) (rã-manteiga) foi encontrada em áreas abertas ou qualquer corpo de água lêntico como açudes e lagoas utilizados para reprodução, possui reprodução prolongada. É uma espécie de
grande porte para o gênero48. Um grande ninho de espuma é colocado
pelo casal na beira ou dentro dos corpos d’água. As fêmeas são conhecidas por terem cuidado parental, acompanhando o cardume de girinos grandes e pretos nas primeiras semanas43. Tem distribuição ampla no sudeste
e sul do Brasil, Uruguai, Paraguai e Argentina1.
Leptodactylus plaumanni Ahl, 1936 (rã) foi uma espécie comum nas áreas de
influência da UHE Quebra Queixo. Possuem reprodução tipicamente prolongada. Foram encontrados indivíduos tanto em áreas abertas quanto
florestadas, reproduzindo-se a beira de açudes e corpos d’água temporários. Os machos constroem câmaras no barro ao redor dos corpos d’água,
onde são colocadas as desovas em espuma41. Ocorre no Planalto das
Araucárias no Rio Grande do Sul e Santa Catarina e no nordeste da Argentina41.
Odontophrynus americanus (Duméril & Bibron, 1841) (sapo-guarda) foi encontrado vocalizando na margem de corpos d’água temporários, após chuvas. Foram observados vocalizando na lâmina d’água das margens lodosas, mas não semienterrados em pequenas escavações, como observado
no Uruguai22. A reprodução é fortemente influenciada pelas chuvas, mas
parece ocorrer principalmente no período frio, durante o inverno (julho).
Ocorre em áreas abertas do sul e sudeste do Brasil, Uruguai, Argentina,
Paraguai e Bolívia1.
Physalaemus cuvieri Fitzinger, 1826 (rã-cachorro) foi encontrada vocalizando
em açudes e brejos ou qualquer local inundado pelas chuvas como poças
d’água de chuva na beira de trilhas e estradas, onde depositam suas desovas em espuma sobre a água. A vocalização em coro dos machos lembra
o latido de cachorros, sendo conhecida em alguns locais como rã-cachorro ou foi-não-foi. É uma espécie típica de formações abertas, de pequeno
porte, bastante versátil na ocupação de ambientes57, com ampla distribuição na América do Sul1.
Physalaemus aff. gracilis (rã-chorona) foi encontrada vocalizando em banhados e pequenas lagoas com vegetação aquática emergente bastante abundante, onde depositava as desovas em espuma. Possui reprodução prolongada e parece estar associada ao Planalto de Araucárias. O ambiente
98
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
de vegetação densa tornava difícil a localização dos indivíduos e, possivelmente, este é um dos motivos de até o momento haver pouco conhecimento sobre essa espécie. O canto lembra um choro lamentoso. Esta espécie está para ser descrita e ocorre no planalto de São Paulo ao Rio
Grande do Sul e em Misiones na Argentina.
Proceratophrys avelinoi Mercadal de Barrio & Barrio, 1993 (sapo-de-chifre)
foi encontrado sempre associado a pequenos córregos pedregosos no interior ou próximos a matas. Os machos vocalizam em abrigos entre as
rochas, geralmente apoiados nas pedras sobre uma película fina de água
corrente, na borda do córrego. Podem vocalizar durante o dia, mas a atividade é mais intensa à noite. Aparentemente a atividade de vocalização
está associada à incidência de chuvas, com padrão explosivo de reprodução. A espécie é conhecida para várias localidades da Argentina, em Londrina, Paraná1, e para Santa Catarina42.
Elachistocleis bicolor (Guérin-Méneville, 1838) (sapo-guarda) foi encontrado
vocalizando em corpos d’água temporários. Os machos vocalizam parcialmente submersos, geralmente em posição vertical, apoiados na vegetação, após a ocorrência de chuvas, possuem padrão reprodutivo explosivo. Durante o dia, foram encontrados abrigados embaixo de pedras e
troncos. A atividade de vocalização parece ser influenciada pelas chuvas,
mas só ocorreu nos meses quentes do ano (outubro a março). A espécie
ocorre em áreas abertas no Brasil, Uruguai, Paraguai, Bolívia e nordeste
da Argentina37.
Lithobates catesbeianus (Shaw, 1802) (rã-touro) é uma espécie nativa da região central da América do Norte1, que foi introduzida em outras partes
do mundo para criação, inclusive no Brasil. Esta espécie está entre as 100
espécies invasoras do mundo, as world’s worst. No Brasil, foi introduzida
em 1935 e, devido a diversas falhas estruturais e metodológicas nos
criadouros, esta espécie hoje é facilmente encontrada nos cursos d’água,
principalmente na região sul58. Nas áreas de influência da UHE Quebra
Queixo, L. catesbeianus foi encontrado em diversos açudes, com populações estabelecidas, com a presença de adultos, juvenis e girinos.
5.3. Conservação
O oeste do estado de Santa Catarina, durante toda sua história, sofreu
pressões de desmatamentos pela exploração da madeira da araucária e de uso
99
5. Anfíbios
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
da terra para agricultura devido à fertilidade do solo de coloração vermelha, a
terra roxa, de origem vulcânica, característica das Matas de Araucária59, o que
modificou os hábitats naturais. Supõe-se que algumas espécies de anuros se
adaptaram, ou ainda, foram favorecidas pelas novas condições, enquanto outras
estão restritas a remanescentes de hábitats naturais, sendo ainda possível que
algumas tenham sido extintas localmente pela alteração antrópica no ambiente.
A lista de anfíbios das áreas de influência da UHE Quebra Queixo inclui
21 espécies, a maioria delas generalista e aparentemente associada a áreas abertas. No entanto, várias dessas espécies dependem em maior ou menor grau de
áreas florestadas. Algumas necessitam de locais florestados próximos a riachos, como é o caso de Hyalinobatrachium uranoscopum e Proceratophrys
avelinoi, que podem ser consideradas bioindicadoras de alterações ambientais.
Em conseqüência dos desmatamentos, as espécies de anuros de áreas
abertas, como Scinax fuscovarius, têm expandido geograficamente os seus limites, em detrimento das espécies de mata, como Hyalinobatrachium
uranoscopum. Ao mesmo tempo, algumas espécies de mata que ocorrem em
clareiras naturais aparentemente suportam as novas condições impostas pelos
ambientes abertos60. Outras espécies, que se reproduzem em áreas abertas, podem depender da floresta para sobreviverem durante os intervalos reprodutivos,
como é o caso de Hypsiboas faber na região sudeste do Brasil61 e possivelmente
de várias outras espécies da família Hylidae.
Em anfíbios anuros, os modos reprodutivos impõem certa fidelidade em
relação ao ambiente utilizado pelas espécies3,62,63. O modo reprodutivo inclui o
local de desova, taxa e duração do desenvolvimento larval, estágio e tamanho
da larva recém-eclodida e tipo de cuidado parental, se existir64. Os modos
reprodutivos ocorridos em águas lênticas permitem a utilização de maior número de sítios reprodutivos, sendo considerados modos generalistas. A maioria
das espécies registradas neste estudo possui reprodução generalista. É o caso de
Rhinella icterica, Hypsiboas leptolineatus, D. minutus, S. fuscovarius, S. perereca, Elachistocleis bicolor e Lithobates catesbeianus.
Várias outras espécies também utilizam águas lênticas e/ou lóticas, mas
possuem algumas especializações na reprodução. Aplastodiscus perviridis apresenta modo especializado, característico de outras espécies do mesmo gênero49,65,66. Esta espécie vocaliza na borda de mata, mas também pode utilizar
ambientes degradados. Outra espécie que constrói um ninho é Hypsiboas faber,
mas nesse caso é semelhante a uma piscina ou panela de barro construída na
margem dos corpos d’água. Estas piscinas são construídas pelo próprio macho,
através da modelagem do barro com os membros. Quando uma fêmea é atraída
100
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
pelo canto do macho, esta inspeciona o ninho e, caso sua avaliação seja favorável ao macho, ela remodela a piscina, enquanto o macho vigia. A desova é
colocada de modo que fique flutuando na água dentro destas piscinas, e os
girinos saem para as poças ou lagoas quando a cavidade é inundada pelas águas
das chuvas. Também utilizam poças em áreas abertas, açudes, e outros locais
alterados.
Em Phyllomedusa tetraploidea, os ovos são colocados em ninhos formados por uma a quatro folhas vivas enroladas e pendentes sobre as poças d’água.
Após a eclosão, os girinos caem na água, onde vivem até completar a metamorfose67. Esta espécie ocorre em ambientes abertos ou de mata, e parece ter grande plasticidade ambiental, embora não se conheçam os locais de abrigo, que
podem depender da mata.
As espécies da família Leptodactylidae, Leptodactylus fuscus, L. ocellatus,
L. mystacinus L. plaumanni, e os da família Leiuperidae, Physalaemus cuvieri
e Physalaemus aff. gracilis colocam desova em espuma. Os machos de L. fuscus,
L. plaumanni e L. mystacinus constroem câmaras subterrâneas onde as desovas
são postas, o que confere maior proteção às mesmas. Nas demais espécies, a
desova é colocada dentro ou próxima à água e todas utilizam ambientes alterados.
O principal local de reprodução de espécies foram corpos de água artificiais, ou seja, açudes construídos dentro das propriedades para criação de peixes ou para disponibilizar água para o gado. Como a paisagem das áreas de
influência da UHE Quebra Queixo foi muito alterada com o passar dos anos e
com o aumento das pequenas propriedades, a anurofauna passou a utilizar corpos d’água disponíveis e que naturalmente não existiam nessas áreas.
Um dos grandes problemas da situação atual dos anfíbios nessas áreas é a
presença e alta densidade de Lithobates catesbeianus, uma espécie introduzida,
originária da América do Norte, que foi trazida para o Brasil para criação comercial. Na região sul esta espécie tem sido bem sucedida em condições naturais, pois utiliza corpos d’água permanentes na mata, ambientes alterados e até
urbanos. Apesar de ser comestível e utilizada em vários restaurantes como carne exótica, e o Brasil ser considerado um dos grandes produtores de carne e
pele desta rã48, a espécie não é usada para fins comestíveis pela população em
geral.
Faltam estudos que comprovem os impactos dessa espécie sobre a fauna
nativa, mas, quando foi introduzida em algumas regiões da América do Norte
de onde não era nativa, L. catesbeianus foi supostamente responsável pela
extinção de espécies nativas de anfíbios67. Acredita-se que esta espécie prede
101
5. Anfíbios
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
girinos e indivíduos adultos de anuros de menor porte e represente um grande
problema para a fauna nativa, principalmente para anfíbios anuros e peixes.
Vários locais na área de estudo continham grande número de indivíduos de L.
catesbeianus.
Considerando o estado atual da fauna de anfíbios das áreas de influência
da UHE Quebra Queixo, é fundamental a conservação dos remanescentes florestais existentes, para manutenção das espécies, que dependem de áreas de
mata para sobrevivência. Como não se tem conhecimento total dos locais de
abrigo das espécies é impossível verificar o quanto elas dependem das áreas
florestadas, mas sabe-se que a dependência existe em menor ou maior grau. Foi
adquirida uma área pelo empreendedor da UHE Quebra Queixo para a criação
de uma Unidade de Conservação, o Parque Estadual das Araucárias. Essa área
representa uma importante estratégia para conservação de espécies, especialmente em uma região pouco estudada, intensamente utilizada para agricultura
e com poucos fragmentos florestais. Além disso, ações efetivas dos órgãos de
fiscalização ambiental podem inibir a derrubada das faixas ciliares de riachos e
pequenos córregos da região, protegidas por lei, de modo a manter as espécies
que necessitam deste hábitat.
5.4. Referências Bibliográficas
1. Frost, D.R. 2007. Amphibian Species of the World: an online reference. V.
5.1. American Museum of Natural History, New York, USA. Disponível em:
<http://research.amnh.org/herpetology/amphibia/index.html>. Acessado em 10
de outubro de 2007.
2. Duellman, W.E. 1978. The biology of an equatorial herpetofauna in Amazonian
Equador. Miscellaneous Publications, Museum Natural History, University
of Kansas 65: 1-352.
3. Duellman, W.E. 1988. Patterns of species diversity in Neotropical anurans. Annals
of the Missouri Botanical Garden 75: 79-104.
4. IUCN, Conservation International & NatureServe. 2006. Global Amphibian
Assessment. Disponível em: <http://www.globalamphibians.org>. Acessado em
30 de dezembro de 2006.
5. Silvano, D. & Segalla, M.V. 2005. Conservação de anfíbios no Brasil.
Megadiversidade 1 (1): 79-86.
6. SBH (Sociedade Brasileira de Herpetologia). 2005. Lista de espécies de anfíbios
do Brasil. Disponível em: <http://www.sbherpetologia.org.br/checklist/
anfibios.htm>. Acessado em 30 de dezembro de 2006.
102
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
7. Haddad, C.F.B. & Pombal Jr., J. 1998. Redescription of Physalaemus spiniger
(Anura; Leptodactylidae) and description of two new reproductive modes.
Journal of Herpetology 32: 557-565.
8. Haddad, C.F.B.; Pombal Jr., J.P. & Bastos, R.P. 1996. New species of Hylodes
from the Atlantic Forest of Brazil (Amphibia: Leptodactylidae). Copeia 1996:
965-969.
9. Haddad, C.F.B. & Pombal Jr., J.P. 1995. A new species of Hylodes from
southeastern Brazil (Amphibia: Leptodactylidae). Herpetologica 51: 279-286.
10. Pombal Jr., J.P.; Wistuba, E.M. & Bornschein, M.R. 1998. A new species of
brachycephalid (Anura) from the Atlantic rain forest of Brazil. Journal of
Herpetology 32: 70-74.
11. Eterovick, P.C. & Sazima, I. 1998. New species of Proceratophrys (Anura:
Leptodactylidae) from southereastern Brazil. Copeia 1998: 159-164.
12. Pombal Jr., J.P. & Madureira, C.A. 1997. A new species of Physalaemus (Anura,
Leptodactylidae) from the Atlantic rain forest of northeastern Brazil. Alytes 15:
105-112.
13. Cruz, C.A.G.; Caramaschi, U. & Izecksohn, E. 1997. The genus Chiasmocelis
Mehely, 1904 (Anura, Microhylidae) in the Atlantic Rain Forest of Brazil, with
description of three new species. Alytes 15: 49-71.
14. McDiarmid, R.W. 1994. Amphibian diversity and natural history: an overview.
Pp. 5-14 in Heyer, W.R.; Donnelly, M.A.; McDiarmid, R.W.; Hayek, L.A.C. &
Foster, N.S. (eds.). Measuring and monitoring biological diversity. Standard
methods for amphibians. Smithsonian Instution Press, Washington.
15. Beebe, T.J.C. 1996. Ecology and conservation of amphibians. Chapman &
Hall, London.
16. Duellman, W.E. & Trueb, L. 1986. Biology of amphibians. McGraw Hill Book
Co., New York.
17. Blaustein, A.R. & Wake, D.B. 1990. Declining amphibian populations: a global
phenomenon? Trends in Ecology and Evolution 5: 203-204.
18. Pechmann, J.H.K. & Wilbur, H.M. 1994. Putting declining amphibian
populations into perspective: natural fluctuations and human impacts.
Herpetologica 50: 65-84.
19. Lemckert, F. 1999. Impacts of selective loggin on frogs in a forested area of
northern New South Wales. Biological Conservation 89: 321-328.
20. Crump, M.L. & Scott Jr., N.J. 1994. Visual encounter surveys. Pp. 84-92 in
Heyer, W.R.; Donnelly, M.A.; McDiarmid, R.W.; Hayek, L.A.C. & Foster, N.S.
103
5. Anfíbios
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
(eds.). Measuring and monitoring biological diversity standard methods for
amphibians. Smithsonian Institution Press, Washington.
21. Zimmerman, B.L. 1994. Audio strip transects. Pp. 92-96 in Heyer, W.R.;
Donnelly, M.A.; McDiarmid, R.W.; Hayek, L.A.C. & Foster, N.S. (eds.).
Measuring and monitoring biological diversity standard methods for
amphibians. Smithsonian Institution Press, Washington.
22. Langone, J.A. 1994. Ranas y sapos del Uruguay (Reconocimiento y aspectos
biológicos). Museo Damaso Antonio Larrañaga 5: 123.
23. Straneck, R.; Olmero, E.V. & Carrizo, G.R. 1993. Catálogo de voces de anfibios
argentinos. Parte 1. L.O.L.A, Buenos Aires, 127 pp.
24. Gallardo, J.M. 1987. Anfíbios argentinos. Guía para su identificación. Librería
Agropecuaria, Buenos Aires.
25. McDiarmid, R.W. 1994. Preparing amphibians as scientific specimens. Pp. 289297 in Heyer, W.R.; Donnelly, M.A.; McDiarmid, R.W.; Hayek, L.A.C. & Foster,
N.S. (eds.). Measuring and monitoring biological diversity. Standard methods
for amphibians. Smithsonian Instution Press, Washington.
26. Cochran, D.M. 1955. Frogs of Southeastern Brazil. Bulletin U.S. Natural
Museum 206: 1-426.
27. Lutz, B. 1973. Brazilian species of Hyla. University Texas Press, Austin, 265pp.
28. Braun, P.C. & Braun, C.A.S. 1980. Lista prévia dos anfíbios do Estado do Rio
Grande do Sul, Brasil. Iheringia 56: 121-146.
29. Langone, J.A. 1997. Hyla uruguaya K.P. Schimidt, 1944 (Amphibia, Anura,
Hylidae). Primera cita para el Estado Brasileño de Santa Catarina. Cuadernos
de Herpetologia 11: 89.
30. Garcia, P.C.A & Vinciprova, G.1998. Range extensions of some anuran species
for Santa Catarina and Rio Grande do Sul States, Brazil. Herpetological Review
29: 117-118.
31. Kwet, A. 1998.Geographic distribution. Hyla microps. Herpetological Review
29: 49.
32. Kwet, A. 2000.The genus Pseudis (Anura: Pseudidae) in Rio Grande do Sul,
southern Brazil, with description of a new species. Amphibia?-Reptilia 21: 3955.
33. Kwet, A. & Faivovich, J. 2001. Proceratophrys bigibbosa species group (Anura:
Leptodactylidae), with description of new species. Copeia 2001: 203-215.
34. Kwet, A.; Di-Bernardo, M. & Garcia, P.C.A. 2001. The taxonomic status of
Leptodactylus geminus Barrio, 1973 (Anura: Leptodactylidae). Journal of
Herpetology 35 (1): 56-62.
104
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
35. Cei, J.M. & Roig, V.G. 1961. Batracios recolectados por la espedición biológica
Erspamer en Corrientes y selva oriental de Misiones. Notas Biológicas, Facultad
de Ciencias Exactas, Físicas y Naturales 1: 10.
36. Cei, J.M. 1980. Amphibians of Argentina. Monitore Zoologico Italiano, n.s.,
Monografia 2: 1-609.
37. Carrizo, G.R. 1990 (1991). Sobre los hílidos de Missiones, Argentina, con la
descripción de una nueva especie, Hyla caingua n. sp. (Anura, Hylidae).
Cuadernos de Herpetologia 5: 32-39.
38. Langone, J.A. & Carrizo, G.R. 1996. Confirmación de la presencia en la República Argentina de Phyllomedusa tetraploidea Pombal Jr. & Haddad, 1992
(Amphibia, Anura, Hylidae).Cuadernos de Herpetologia 10: 59-70.
39. Faivovich, J. 1996. La larva de Hyla semiguttata A. Lutz, 1925 (Anura, Hylidae).
Cuadernos de Herpetologia 9: 61-67.
40. Faivovich, J. 1998. Comments on the larvae of the Argentine species of the
genus Crossodactylus (Leptodactylidae, Hylodinae). Alytes 16: 61-67.
41. Kwet, A. & Di-Bernardo, M. 1999. Anfíbios = Amphibien = Amphibians.
EDIPUCRS, Porto Alegre.
42. Giasson, L.O.M.; Hartmann, P.A. & Garcia, P.C.A. 2001. Geographic
distribution. Proceratophrys avelinoi. Herpetological Review 32: 272.
43. Haddad, C.F.B. & Sazima, I. 1992. Anfíbios anuros da Serra do Japi. Pp. 188210 in Morellato, L.P.C. (org.). História natural da Serra do Japi: ecologia e
preservação de uma área florestal no Sudeste do Brasil. Unicamp/Fapesp,
Campinas.
44. Machado, M.E. & Bernarde, P.S. 2002. Anurofauna da bacia do rio Tibagi. Pp.
297-306 in Medri, M.E.; Bianchini, E.; Shibatta, O.A. & Pimenta, J.A. (eds.). A
bacia do rio Tibagi. Universidade Estadual de Londrina, Klabin S/A, Fundação
Araucária, Sercomtel, Confepar, Londrina.
45. Hartmann, M.T. 2004. Biologia reprodutiva de uma comunidade de anuros
(Amphibia) na Mata Atlântica (Picinguaba, Ubatuba, SP). Tese de doutorado, Instituto de Biociências, UNESP, Campus de Rio Claro, São Paulo.
46. Fontana, C.S.; Bencke, G.A. & Reis, R.E. 2003. Livro vermelho da fauna
ameaçada de extinção no Rio Grande do Sul. EDIPUCRS, Porto Alegre.
47. Mikich, S.B. & Bérnils, R.B. 2004. Livro vermelho da Fauna Ameaçada no
estado do Paraná. Disponível em: <http://celepar7.pr.gov.br/livrovermelho>.
Acessado em 23 de maio de 2007.
48. Bastos, R.P.; Motta, J.A.O.; Lima, L.P. & Guimarães, L.D. 2003. Anfíbios da
Floresta Nacional de Silvânia, estado de Goiás. Stylo Gráfica e Editora, Goiânia.
105
5. Anfíbios
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
49. Haddad, C.F.B.; Faivovich, J. & Garcia, P.C.A. 2005. The specialized
reproductive mode of the treefrog Aplastodiscus perviridis (Anura:Hylidae).
Amphibia-Reptilia 26: 87-92.
50. Martins, M. & Haddad, C.F.B. 1988. Vocalizations and reproductive behaviour
in the Smith frog, Hyla faber, Wied (Amphibia: Hylidae). Amphibia-Reptilia
9: 49-60.
51. Martins, M. 1993. Observations on the reproductive behaviour of the Smith
frog, Hyla faber. Herpetological Journal 3: 31-34.
52. Faivovich, J. 2005. A new species of Scinax (Anura: Hylidae) from Misiones,
Argentina. Herpetologica 61: 69-77.
53. Martins, M. 1988. Biologia Reprodutiva de Leptodactylus fuscus em Boa Vista,
Roraima (Amphibia, Anura). Revista Brasileira de Biologia 48: 969-977.
54. Sazima, I. 1975. Hábitos reprodutivos e fase larvária de Leptodactylus
mystacinus e L. sibilatrix (Anura, Leptodactylidae). Dissertação de Mestrado,
Instituto de Biociências, Universidade de São Paulo, São Paulo.
55. Freitas, E.F.L.; Spirandeli-Cruz, E.F. & Jim, J. 2001. Comportamento reprodutivo
de Leptodactylus fuscus (Schneider, 1799) (Anura: Leptodactylidae). Comunicações do Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS 14: 121-132.
56. Heyer, W.R. 1969. The adaptative ecology of the species groups of the genus
Leptodactylus (Amphibia, Leptodactylidae). Evolution 23: 421-428.
57. Feio, R.N.; Braga, U.M.L.; Wiederhecker, H. & Santos, P.S. 1998. Anfíbios do
Parque Estadual do Rio Doce (Minas Gerais). Universidade Federal de Viçosa, Viçosa.
58. Anfíbios exóticos invasores. Disponível em: <http://www.ibama.gov.br/ran/
dicas/materia.php?id=17>. Acessado em 30 de novembro de 2004.
59. Mata de Araucária. Disponível em: <http://www.brazilnature.com/
araucaria.html>. Acessado em 30 de novembro de 2004.
60. Haddad, C.F.B.1998. Biodiversidade dos anfíbios no estado de São Paulo. Pp.
188-211 in Joly, C.A. & Bicudo, C.E.M. (orgs.). Biodiversidade do Estado de
São Paulo, Brasil: síntese do conhecimento ao final do século XX. Vol. 6:
Vertebrados. Fapesp, São Paulo.
61. Bernarde, P.S.; Kokubum, M.N.C.; Machado, R.A. & Anjos, L. 1999. Uso de
habitats naturais e antrópicos pelos anuros em uma localidade no estado de
Rondônia, Brasil (Amphibia: Anura). Acta Amazônica 29: 555-562.
62. Lynch, J.D. 1979. The amphibians of the lowland tropical forest. Pp. 189-215
in Duellman, W.E. (ed.). The South American herpetofauna: its origin,
evolution, and dispersal,. Monographies 7, Museum of Natural History,
University of Kansas.
106
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
63. Duellman, W.E.1982. Quaternary climatic-ecological fluctuations in the lowland
tropics: frogs and forest. Pp. 389-402 in Prance, J.T. (ed.). Biological
diversification in the Tropics. Columbia University Press, New York.
64. Caldwell, J.P. 1992. Diversity of reproductive modes in anurans: facultative
nest construction in gladiator frogs. Pp. 85-97 in Hamlett, W.C. (ed.).
Reproductive biology of South American vertebrates. Springer-Verlag, New
York.
65. Haddad, C.F.B. & Sawaya, R.J. 2000. Reproductive modes of Atlantic Forest
Hylid frogs: general overview and the description of a new mode. Biotropica
32: 862-871.
66. Hartmann, M.T.; Hartmann, P.A. & Haddad, C.F.B. 2004. Visual signaling and
reproductive biology in a nocturnal treefrog, genus Hyla (Anura, Hylidae).
Amphibia-Reptilia 25: 395-406.
67. Pombal, J.P. & Haddad, C.F.B. 1992. Espécies de Phyllomedusa do grupo
Burmeisteri do Brasil oriental, com descrição de uma espécie nova (Amphibia:
Hylidae). Revista Brasileira de Biologia 52: 217-229.
68. Fellers, G.M. (ed). 1994. California/Nevada declining amphibian working
group. Newsletter 1.
107
5. Anfíbios
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Hyalinobatrachium uranoscopum
perereca-de-vidro
Aplastodiscus perviridis
perereca
Foto: Luís O. M. Giasson
Foto: Paulo A. Hartmann
○
○
Hysiboas faber
rã-martelo
Hypsiboas leptolineatus
perereca-de-pijama
Foto: Luís O. M. Giasson
Foto: Paulo A. Hartmann
○
Dendropsophus minutus
perereca
Phyllomedusa tetraploidea
perereca-das-folhas
Foto: Luís O. M. Giasson
Foto: Luís O. M. Giasson
108
○
○
○
○
○
○
○
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Scinax aromothyella
perereca
Scinax perereca
perereca
Foto: Luís O. M. Giasson
Foto: Luís O. M. Giasson
○
○
Physalaemus cuvieri
rã-cachorro
Physalaemus aff. gracilis
rã-chorona
Foto: Luís O. M. Giasson
Foto: Luís O. M. Giasson
○
○
Leptodactylus fuscus
rã-assobiadeira
Leptodactylus mystacinus
rã
Foto: Luís O. M. Giasson
Foto: Luís O. M. Giasson
109
○
○
○
○
○
○
○
○
5. Anfíbios
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Leptodactylus ocellatus
rã-manteiga
Leptodactylus plaumanni
rã
Foto: Paulo A. Hartmann
Foto: Paulo A. Hartmann
Proceratophrys avelinoi
sapo-de-chifre
Elachistocleis bicolor
sapo-guarda
Foto: Luís O. M. Giasson
Foto: Paulo A. Hartmann
110
○
○
○
○
○
○
○
○
○
6. RÉPTEIS
Paulo A. Hartmann
Universidade Federal do Pampa, Centro de Ciências Rurais,
Av. Antônio Mercado, 1357, Centro - 97300-000 - São Gabriel, RS.
Luís Olímpio Menta Giasson
UNESP, Instituto de Biociências, Campus de Rio Claro, Seção de Pós-Graduação,
Av. 24-A, 1515, Bela Vista, CP 199 - 13506-900 - Rio Claro, SP
O agrupamento de serpentes, lagartos e anfisbenas (Squamata), jacarés e
crocodilos (Crocodylia) e quelônios (Testudines) dentro de répteis consiste numa
estrutura taxonômica artificial1,2. No entanto, similaridades estruturais e ecológicas entre os seus componentes, como a pele recoberta por escama e a
ectotermia, fazem com que estes grupos de animais sejam abordados em conjunto, como no caso dos estudos de monitoramento de fauna. Do mesmo modo,
as diferenças estruturais, morfológicas e ecológicas das aves fazem com que
este grupo seja estudado à parte, quando filogeneticamente estaria dentro dos
répteis.
Atualmente são conhecidas cerca de 7.150 espécies de répteis no mundo,
sendo que, dentro dos répteis escamados, são conhecidas mais de 4.000 espécies de lagartos, 2.700 de serpentes e 140 de anfisbenas1,2. Adicionalmente são
conhecidas 260 espécies de quelônios, 22 de crocodilianos e duas de tuatara.
No Brasil são conhecidas 641 espécies de répteis3, número que pode ser consideravelmente aumentado com revisões taxonômicas e estudos em regiões pouco amostradas.
Para a região sul do país, há estudos recentes sobre a diversidade da fauna
de répteis, principalmente sobre serpentes4,5,6,7. Entretanto, os padrões de diversidade do grupo na região são ainda pouco compreendidos, tanto em nível de
localidades quanto em nível de formações vegetais. Especificamente para o
oeste catarinense, praticamente inexistem publicações sobre répteis.
Estima-se que ocorram nas áreas de influência da UHE Quebra Queixo,
com base na distribuição geográfica das espécies e estudos em regiões próximas7,8, cerca de 30 a 35 espécies de serpentes, seis de lagartos, duas de anfisbenas
111
6. Répteis
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
e duas de quelônios. No entanto, devido à grande fragmentação das áreas
florestadas no oeste catarinense, muitas espécies podem estar com populações
reduzidas ou não serem mais encontradas na região, principalmente aquelas
associadas a ambientes florestais. Inventários faunísticos nesta região são imprescindíveis para que planos de conservação possam ser elaborados.
Aqui são apresentadas informações sobre história natural das espécies
encontradas nas áreas de influência da UHE Quebra Queixo, como uso do ambiente, período de atividade e hábito alimentar. Informações complementares
(comportamentos, predadores, etc.), quando pertinentes, também são descritas.
6.1. Métodos
As informações foram obtidas durante o monitoramento e resgate da fauna
nas áreas de influência da UHE Quebra Queixo. Os trabalhos de monitoramento
foram realizados bimensalmente e tiveram duração de seis a dez dias consecutivos, no período de fevereiro de 2001 a março de 2002. O resgate foi realizado
durante o acompanhamento das atividades de desmatamento da área do reservatório (abril de 2002 a janeiro de 2003) e durante o enchimento do reservatório (março de 2003).
Os seguintes métodos de amostragem foram utilizados: (1) procura limitada por tempo; (2) procura direcionada; (3) coleta por terceiros; (4) procura
em estradas; e (5) resgate.
Procura limitada por tempo
Foram percorridas trilhas em diversos ambientes, a pé e em ritmo lento
(cerca de 100-120 metros/hora), esquadrinhando visualmente o ambiente à procura de répteis, principalmente lagartos e serpentes10,11. As trilhas foram percorridas por duas pessoas simultaneamente, cada uma procurando em um lado da
trilha. Os períodos de amostragens foram de duas a quatro horas. A procura
ocorreu normalmente em dois turnos, à tarde e à noite. Foram realizadas, por
campanha de campo, de 40 a 50 horas-homem de procura limitada por tempo,
totalizando 208 horas-homem.
Procura direcionada
O ambiente foi esquadrinhado visualmente e a procura direcionada para
possíveis refúgios como buracos, embaixo de troncos caídos, sob pedras e áreas
alagadas. A procura direcionada ocorreu principalmente no período da manhã e
no início da tarde9.
112
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Coleta por terceiros
Recipientes de 20 litros, contendo formol a 15%, foram distribuídos aos
moradores da região, solicitando-se que répteis eventualmente mortos em atividades rotineiras da população fossem colocados nos recipientes5. Fichas foram distribuídas juntamente aos recipientes, onde os colaboradores registraram
informações, como data, horário e local do encontro.
Procura nas estradas
Consistiu no deslocamento em veículo automotor, em velocidade lenta
(cerca de 30-40 km/h), por estradas nas áreas de influência da UHE Quebra
Queixo à procura de répteis, atropelados ou não.
Resgate
O resgate da fauna de répteis foi realizado durante o desmatamento das
margens e no período de enchimento do reservatório. No desmatamento, a
amostragem foi realizada acompanhando as frentes de trabalho de corte da vegetação. No enchimento, equipes deslocaram-se pela água, embarcadas, recolhendo os exemplares ilhados ou nadando.
As serpentes foram capturadas com ganchos e laços de Lutz ou manualmente (no caso das não peçonhentas) e transportadas em caixas plásticas ou de
madeira. Os demais répteis foram capturados manualmente e transportados em
sacos plásticos ou caixas de isopor.
Captura, Identificação e Depósito em Coleção
Todos os indivíduos capturados foram identificados e os seguintes dados
foram registrados: data e hora do encontro, substrato utilizado e atividade. Documentação fotográfica foi feita sempre que possível. Alguns exemplares foram coletados para exame mais detalhado de identificação ou do conteúdo estomacal e condição reprodutiva. Os demais foram marcados com picoteamento
nas escamas ventrais12 e soltos nas áreas mais preservadas e afastadas de habitações humanas, no entorno do reservatório ou no Parque Estadual das
Araucárias.
Os espécimes coletados foram depositados nas coleções científicas da
Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e do Instituto Butantan (IB).
113
6. Répteis
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Considerações Metodológicas
Para este estudo foram utilizados diversos métodos de amostragem, na
intenção de estimar a riqueza de espécies de répteis nas áreas de influência da
UHE Quebra Queixo. Estudos com este objetivo devem ter a maior amplitude
possível de métodos de registro, desde que estes ofereçam um retorno satisfatório
em relação ao tempo despendido. Deste modo, métodos como armadilhas de
interceptação e queda, úteis em estudos de longo prazo, mas que necessitam
constante revisão e manutenção13, foram descartados.
Conjuntamente à maximização dos métodos a serem utilizadas, deve-se
também considerar as características da região a ser amostrada. Principalmente
o clima parece ter influência no retorno obtido durante os trabalhos. O encontro
de répteis muitas vezes é fortuito durante as atividades de campo e as atividades
planejadas nem sempre dão resultado proporcional ao esforço despendido14.
Esta situação se acentua na área do estudo quando as amostragens são realizadas no período de temperaturas baixas. Os répteis têm sua atividade parcialmente dependente de estímulo ambiental e épocas frias induzem a diminuição
da atividade15, dificultando seu encontro. A área do estudo apresenta clima
subtropical, com as quatro estações bem definidas16,17. Desta forma, as amostragens foram mais intensas nos períodos mais quentes do ano, de setembro de
2001 a março de 2002, sem descartar, no entanto, amostragens no período de
inverno.
6.2. Os Répteis da UHE Quebra Queixo
Nas áreas de influência da UHE Quebra Queixo foram registradas 26
espécies de répteis, sendo 18 de serpentes, cinco de lagartos, duas de quelônios
e uma de anfisbena (Tabela 6.1). A composição faunística da região tem o predomínio de espécies com hábitos generalistas, capazes de utilizar áreas alteradas pelo homem. Espécies mais exigentes em relação ao ambiente, como, por
exemplo, as exclusivamente florestais (Bothrops cotiara e Anisoleps grilli),
podem não ocorrer mais ou estar em risco de extinção local. O número de espécies localmente extintas não pôde ser determinado, visto que não existem estudos sobre a fauna original.
Existe um predomínio de espécies terrícolas na área de estudo, sendo
nove de serpentes e quatro de lagartos (ver texto sobre as Espécies Registradas).
Cinco espécies, sendo quatro de serpentes e uma de anfisbena, apresentam hábitos subterrâneos ou criptozóicos. Quatro espécies de serpente e duas de lagar114
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
to podem utilizar tanto o substrato terrestre quanto arbóreo. Duas espécies de
serpentes e as duas de quelônios podem utilizar com freqüência o ambiente
aquático.
Tabela 6.1. Lista de espécies de répteis registrados para as áreas de influência direta
(AID) e indireta (AII) da UHE Quebra Queixo, municípios de São Domingos
e Ipuaçu, Santa Catarina, no período de fevereiro de 2002 a março de 2003.
Táxon
Emydidae
Trachemys dorbigni
Chelidae
Phrynops hilarii
Anomalepididae
Liotyphlops beui
Typhlopidae
Typhlops cf. brongersmianus
Colubridae
Atractus taeniatus
Boiruna maculata
Chironius bicarinatus
Echinanthera cyanopleura
Liophis miliaris
Liophis poecilogyrus
Oxyrhopus clathratus
Philodryas olfersii
Philodryas patagoniensis
Spilotes pullatus
Thamnodynastes hypoconia
Thamnodynastes strigatus
Tomodon dorsatus
Viperidae
Bothrops jararaca
Crotalus durissus
Elapidae
Micrurus altirostris
Amphisbaenidae
Amphisbaena prunicolor
Anguidae
Ophiodes striatus
Gymnophtalmidae
Cercosaura schreibersii
Leiosauridae
Anisolepis grilli
Tropiduridae
Tropidurus torquatus
Teiidae
Tupinambis merianae
Nome Comum
cágado
AII
AID
x
cágado
x
cobra-cega
x
cobra-cega
x
cobra-da-terra
muçurana
cobra-cipó
corredeira
cobra-d’água
jararaquinha-do-banhado
coral, falsa-coral
cobra-verde-das-árvores
parelheira, corre-campo
caninana, cobra-nova
corredeira-do-campo
corredeira-do-campo, jararaquinha
cobra-espada
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
jararaca
cascavel
x
x
x
coral
x
x
cobra-cega
x
x
cobra de vidro, quebra quebra
x
x
lagartixa
x
lagartixa-das-árvores
x
lagartixa-cinzenta
x
x
teiú
x
x
115
6. Répteis
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Espécies Registradas
Trachemys dorbigni (Duméril & Bibron, 1835) (cágado): Esta espécie ocupa
principalmente ambientes lênticos, como lagos e açudes, mas também
pode ser encontrada em ambientes lóticos. Foi registrada apenas no Parque Estadual das Araucárias. Quando manuseada, pode morder ou tentar
escapar agitando os membros e usando suas unhas para arranhar. Quando
acuada, retrai a cabeça para dentro do casco curvando verticalmente o
pescoço.
Phrynops hilarii (Duméril & Bibron, 1835) (cágado): Espécie de hábito aquático e normalmente associada a águas lóticas. Pode ser avistada
assoalhando nas horas quentes do dia, sobre tronco ou pedras nas margens de rios7. Somente um indivíduo foi encontrado durante o resgate de
fauna no enchimento do reservatório. Quando manuseada, pode se tornar
agressiva e morder7, além de agitar os membros. Quando acuada, retrai a
cabeça para dentro do casco, curvando lateralmente o pescoço.
Liotyphlops beui (Amaral, 1924) (cobra-cega): Serpente de hábitos subterrâneos e pouco conhecidos18. Ocupa tanto campos como áreas florestadas7.
Na área de influência direta da UHE Quebra Queixo um indivíduo foi
encontrado repousando embaixo de pedras, em borda da mata. Outro
exemplar foi regurgitado por um adulto de coral (Micrurus altirostris).
Apenas dois exemplares de L. beui foram registrados durante o
monitoramento. No entanto, durante o resgate, no enchimento do reservatório, foram capturados 16 exemplares. Esta espécie é normalmente
considerada rara, possivelmente mais em função do pequeno porte e do
hábito subterrâneo, que dificultam o seu encontro, do que em decorrência de uma possível baixa densidade populacional. Quando manuseada,
usa a extremidade da cauda para se defender, forçando o espinho caudal
contra quem a manipula.
Typhlops cf. brongersmianus Vanzolini, 1976 (cobra-cega): Espécie rara nas
áreas de influência da UHE Quebra Queixo, apenas quatro exemplares
foram encontrados no resgate, durante o enchimento do reservatório. Mais
robusta do que a anterior, também apresenta hábitos subterrâneos e pode
usar o espinho caudal como defesa7.
Atractus taeniatus Griffin, 1916 (cobra-da-terra): Serpente de hábito terrícola
ou subterrâneo e aparentemente diurna8. É comum nas áreas de influência da UHE Quebra Queixo, sendo encontrada por moradores em áreas
de plantações, durante o preparo da terra para o plantio. Atractus taeniatus
116
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
foi registrada principalmente em áreas abertas ou borda da mata, refugiada sob troncos caídos ou pedras. Um indivíduo foi encontrado deslocando-se em área aberta, durante o dia. O primeiro comportamento defensivo desta espécie é a imobilidade. Quando acuada, pode tentar fugir, enfiando-se sob a vegetação, buracos ou frestas no terreno ou enrolar-se e
esconder a cabeça sob as alças do corpo.
Boiruna maculata (Boulenger, 1896) (muçurana): Serpente terrícola e predominantemente noturna. Os adultos podem atingir grande porte, com cerca 1,5 metro e coloração negra dorsalmente7. Somente um exemplar foi
encontrado na área de influência indireta da UHE Quebra Queixo, na
borda da mata, durante o crepúsculo. A dieta é constituída principalmente de serpentes. No indivíduo examinado, foram encontradas escamas
quilhadas na parte final do tubo digestivo, indicando ingestão de
viperídeos.
Chironius bicarinatus (Wied, 1820) (cobra-cipó): Espécie semi-arborícola que
apresenta corpo delgado e com coloração verde dorsalmente, que a camufla quando na vegetação. Foram registrados indivíduos deslocando-se
no chão e sobre a vegetação. A noite encontrou-se um indivíduo enrodilhado, repousando sobre galhos finos, a cerca de um metro do chão.
Pode ocupar matas secundárias e fragmentos florestais de pequeno porte14. Um indivíduo foi encontrado recém atropelado, distante de áreas
florestadas, indicando que esta espécie também utiliza áreas abertas. A
atividade é diurna, principalmente durante a manhã19,20. No entanto, foi
encontrado um indivíduo forrageando durante o crepúsculo, próximo a
um charco. A dieta é composta principalmente por anfíbios anuros20,21.
Quando acuada, pode erguer a parte anterior do corpo, dar botes e morder.
Echinanthera cyanopleura (Cope, 1885) (corredeira): Serpente terrícola e de
atividade predominantemente diurna21,22. Esta espécie foi registrada apenas no resgate durante o enchimento do reservatório, ocasião em que os
indivíduos foram capturados na água ou ilhados. É uma espécie ágil que
pode fugir rapidamente pelo chão, abrigando-se sob galhos, buracos ou
mesmo a serapilheira. A dieta é baseada em anfíbios, que encontra esquadrinhando a serrapilheira22.
Liophis miliaris (Linnaeus, 1758) (cobra-d’água): Serpente semi-aquática e de
atividade diurna e noturna. Foi encontrada próxima a leitos de água, como
lagos e açudes. Um indivíduo jovem foi encontrado forrageando na beira
d’água, a noite, e outro se deslocando em charco durante o dia. A dieta é
composta principalmente de anuros e peixes, embora possa capturar ou117
6. Répteis
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
tros pequenos vertebrados14,21. Quando manuseada, pode utilizar-se de
descarga cloacal como forma de defesa.
Liophis poecilogyrus (Wied, 1824) (jararaquinha-do-banhado): Espécie terrícola
e de atividade diurna. Abundante nas áreas de influência da UHE Quebra
Queixo, foi muito encontrada pelos moradores da região. Como o nome
popular sugere, é confundida com as jararacas (gênero Bothrops) pela
população local, que mata os espécimes na maioria dos encontros. A dieta é composta principalmente por anuros, que captura forrageando ativamente nas proximidades de charcos7. Nesta atividade, também pode virar
presa. Um exemplar de Liophis poecilogyrus foi capturado por um gavião (Milvago chimachima), enquanto deslocava-se por área de charco.
Assim que capturou a serpente, o gavião alçou vôo, porém logo soltou a
serpente, que se debatia. O indivíduo, ainda vivo, apresentava marcas de
garras e bico na parte anterior do corpo. O primeiro comportamento defensivo parece ser a fuga, porém, quando acuada, pode tornar-se agressiva, dar botes e morder.
Oxyrhopus clathratus Duméril, Bibron & Duméril, 1854 (coral, falsa-coral):
Serpente terrícola e que vive associada a áreas florestadas. Apresenta
coloração com manchas vermelhas e negras, sendo confundida pela população com as corais-verdadeiras (gênero Micrurus). O único exemplar
encontrado na área do estudo estava deslocando-se no chão da mata durante o dia. No entanto, esta espécie parece ser ativa também durante a
noite, quando caça pequenos mamíferos21.
Philodryas olfersii (Lichtenstein, 1823) (cobra-verde-das-árvores): Serpente
semi-arborícola e de atividade diurna23. Comum em toda região sul do
Brasil foi muito encontrada por trabalhadores rurais na época da colheita
da erva-mate, deslocando-se sobre a vegetação. Espécie delgada e ágil,
desloca-se com rapidez tanto no chão como na vegetação. Quando em
repouso, permanece sobre a vegetação, em lugares protegidos ou no solo,
embaixo de troncos caídos ou buracos24. Nas áreas de influência da UHE
Quebra Queixo, dois indivíduos foram encontrados repousando entre a
casca e o tronco de árvore. Moradores da região também encontraram
indivíduos dentro dos galpões, próximos ao telhado. A dieta é composta
principalmente por anuros, mas pode capturar e ingerir pequenos mamíferos, lagartos e ninhegos de aves24. A procura por alimento é ativa, deslocando-se pelo substrato à procura de possíveis presas. Para subjugar
suas presa, P. olfersii usa constrição e envenenamento 23. Quando
manuseada, pode tornar-se agressiva e morder.
118
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Philodryas patagoniensis (Girard, 1857) (parelheira, corre-campo): Apresenta
distribuição ampla no sul do Brasil8,25, mas foi pouco registrada nas áreas
de influência da UHE Quebra Queixo. De hábito terrícola, ocupa principalmente áreas abertas e bordas de mata. A atividade é diurna e nos períodos mais quentes22. A dieta é generalista, podendo consumir anuros,
pequenos mamíferos, lagartos, aves e outras serpentes14,23,26. A atividade
de forrageamento ocorre principalmente no chão, embora existam registros de captura de aves que nidificam nos estratos baixos da vegetação5.
Assim como P. olfersii, utiliza envenenamento e constrição para subjugar suas presas. Quando acuada pode dar botes e morder.
Spilotes pullatus (Linnaeus, 1758) (caninana, cobra-nova): Serpente de grande
porte, com coloração negra rajada de amarelo, principalmente na parte
anterior. De hábito semi-arborícola, pode ser encontrada deslocando-se
pelo chão da mata e sobre a vegetação14,21. A atividade é diurna. Os dois
indivíduos registrados estavam deslocando-se no chão da mata e tentaram fugir subindo na vegetação. A dieta é generalista, podendo consumir
anuros, lagartos e aves. Procura suas presas ativamente deslocando-se no
chão e nos vários estratos da vegetação21. Quando importunada, torna-se
agressiva, achata lateralmente a região do pescoço e pode morder.
Thamnodynastes hypoconia (Cope, 1860) (corredeira-do-campo): Espécie de
hábito semi-arborícola que ocupa principalmente charcos e borda de mata7.
É mais delgada e parece mais ágil que T. strigatus. A atividade parece ser
predominantemente noturna, como nas demais espécies do gênero. No
entanto, um indivíduo foi encontrado deslocando-se em charco, durante
o dia, possivelmente em atividade de forrageamento. Assim como T.
strigatus, tem coloração que se assemelha à das jararacas (Bothrops sp.).
Thamnodynastes hypoconia é pouco agressiva e tende a fugir quando
acuada, deslocando-se rapidamente pelo chão ou vegetação.
Thamnodynastes strigatus (Günther, 1858) (corredeira-do-campo, jararaquinha):
Espécie de distribuição ampla e hábito predominantemente terrícola,
embora possa ser encontrada sobre árvores e arbustos, principalmente à
noite, quando está em repouso5. No período crepuscular e no início da
noite, pode forragear em charcos, onde captura anfíbios anuros27,28. Quando
molestada, achata o corpo dorsoventralmente e triangula a cabeça, assemelhando-se às jararacas (Bothrops sp.), além de desferir botes e morder.
Tomodon dorsatus Duméril, Bibron & Duméril, 1854 (cobra-espada): Espécie
terrícola, que vive em regiões de mata ou arredores7,29. Neste estudo foi
encontrada no chão e dentro da mata. No entanto, existem registros desta
119
6. Répteis
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
espécie utilizando a vegetação, principalmente para repousar21. A atividade parece ser diurna, porém dois indivíduos foram encontrados ativos
no período crepuscular. A dieta é composta de lesmas29,30. Apresenta grande
repertório de comportamentos defensivos21,31. Dois indivíduos encontrados, quando importunados, triangularam a cabeça, assemelhando-se a
juvenis de jararaca (Bothrops sp.).
Bothrops jararaca (Wied, 1824) (jararaca): Apresenta distribuição ampla e pode
ocupar vários ambientes como florestas, áreas abertas e até mesmo plantações32,33,34. Espécie de hábito terrícola, pode utilizar galhos do estrato
baixo da vegetação para repousar34. A atividade é predominantemente
noturna e mais intensa na estação chuvosa33. Jovens e adultos podem
apresentar diferenças na utilização do ambiente e na dieta. Os jovens
utilizam freqüentemente a vegetação e apresam principalmente anuros,
ao passo que os adultos são predominantemente terrestres e alimentamse principalmente de roedores14,33,35. Nas áreas de influência da UHE
Quebra Queixo, dois indivíduos foram encontrados repousando durante
o dia, enrodilhados no chão da mata. Um juvenil estava deslocando durante o dia, próximo a local de charco. Vários indivíduos foram mortos
por moradores, que os encontravam próximos a galpões de armazenamento
de grãos. Nestes locais, é comum a presença de ratos, que podem servir
de atrativo alimentar para as jararacas.
Crotalus durissus Linnaeus, 1758 (cascavel): Serpente terrícola e que vive principalmente em áreas abertas e secas. A atividade parece ser crepuscular e
noturna14. Dois indivíduos adultos foram encontrados repousando durante o dia, em locais pedregosos e de vegetação rasteira. A dieta é composta
principalmente por roedores. Crotalus durissus é facilmente identificada
por apresentar corpo robusto e presença de anéis córneos na parte final da
cauda. Quando acuada, vibra a cauda, produzindo som característico e
pode dar botes. O surgimento de novas áreas abertas, em função do
desflorestamento que a região sofreu, pode estar favorecendo a invasão
de áreas não ocupadas originalmente pelas cascavéis.
Micrurus altirostris (Cope, 1860) (coral): Espécie de hábito semi-subterrâneo e
diurna7. Foi encontrada deslocando-se no chão da mata durante o dia.
Um indivíduo foi encontrado durante o desmatamento, repousando sob
serrapilheira. Alimenta-se de pequenos vertebrados alongados, como serpentes, lagartos, anfisbenas e gimnofionas. Um indivíduo, ao ser manuseado, regurgitou um exemplar de Liothyphlops beui. Quando acuada,
pode esconder a cabeça embaixo do corpo ou no substrato, levantar a
cauda e mover-se de forma errática.
120
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Amphisbaena prunicolor (Cope, 1885) (cobra-cega): Espécie de hábito subterrâneo, foi encontrada repousando embaixo de troncos ou pedras, em áreas florestadas e suas bordas. Os moradores da região encontram esta espécie principalmente nas áreas agricultáveis, durante o reviramento do
solo. Quando manuseada, pode morder, segurando fortemente e torcendo
o local apreendido7.
Ophiodes striatus (Spix, 1824) (cobra-de-vidro, quebra-quebra): Espécie terrestre e de atividade aparentemente diurna. Somente dois indivíduos foram encontrados durante o estudo. Um indivíduo foi encontrado
assoalhando em área aberta. Quando manuseado pode morder e soltar
parte da cauda7.
Cercosaura schreibersii Wiegmann, 1834 (lagartixa): Espécie terrícola e de
pequeno porte, que vive em áreas abertas e bordas de mata7. Foi encontrada somente durante o resgate, no enchimento do reservatório. A atividade parece ser diurna e nas horas quentes do dia7.
Anisolepis grilli Boulenger, 1891 (lagartixa-das-árvores): Lagarto arborícola e
de atividade diurna. Esta espécie aparentemente utiliza matas e bordas de
mata7. Nas áreas de influência da UHE Quebra Queixo, deve estar restrito às áreas florestadas das margens dos rios. Uma fêmea adulta foi encontrada sobre galhos de árvore na borda da mata. Durante o resgate, um
indivíduo foi capturado empoleirado.
Tropidurus torquatus (Wied, 1820) (lagartixa-cinzenta): Espécie que se locomove
tanto na vegetação quanto em áreas pedregosas36. Diurna, está ativa nas
horas mais quentes do dia. Foi avistada em lajes e rochas no meio de
áreas de campo, na vegetação de borda de rios ou associada a árvores em
bordas de mata. Esta espécie mostra uma grande capacidade de ocupação
de ambientes alterados, pois foi encontrada inclusive em moradias abandonadas e em fragmentos de mata secundária. A dieta parece ser oportunista, composta principalmente por artrópodes. Caça por espreita, ficando imóvel no poleiro. Tropidurus torquatus aparentemente apresenta área
de vida pequena, sendo freqüente o encontro de indivíduos jovens e adultos juntos, provavelmente formando núcleos familiares.
Tupinambis merianae (Duméril & Bibron, 1839) (teiú): Lagarto terrícola e diurno, foi avistado deslocando-se em áreas florestadas, borda de mata e áreas abertas. Foi freqüentemente encontrado assoalhando nas horas mais
quentes do dia. Esta espécie apresenta grande capacidade de deslocamentos entre os variados tipos de ambiente, inclusive na água25. Parece
121
6. Répteis
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
ter atividade marcadamente sazonal, sendo raro seu encontro nos meses
mais frios do ano14. A dieta é generalista e pode alimentar-se de pequenos
vertebrados, invertebrados e frutos9. Forrageia ativamente, deslocandose pelo substrato e esquadrinhando o ambiente. Quando manuseado, pode
tornar-se agressivo, morder e bater com a cauda.
6.3. Ofidismo
Os acidentes ofídicos ainda são considerados um problema de saúde pública no Brasil, com cerca de 20.000 casos por ano37. Principalmente na zona
rural, o contato de pessoas com animais que podem causar envenenamento é
freqüente. A gravidade e o grande número de pessoas atingidas tornam de grande importância o entendimento dos agentes causadores dos acidentes. Para se
estabelecerem planos de prevenção de acidentes ofídicos em uma dada região é
importante reunir informações que permitam reconhecer determinadas características locais. Um dos primeiros passos para a prevenção destes acidentes é a
identificação de quais serpentes peçonhentas ocorrem na região e de suas características ecológicas33. Nas áreas de influência da UHE Quebra Queixo, foram encontradas quatro espécies de serpentes que podem causar acidentes
ofídicos de importância médica: Bothrops jararaca, Crotalus durissus, Micrurus
altirostris e Philodryas olfersii.
A jararaca (Bothrops jararaca) está entre as serpentes mais encontradas
pelos moradores e possivelmente a mais perigosa ao homem nesta região. Serpentes do gênero Bothrops são responsáveis por 80 a 90 % dos envenenamentos
registrados anualmente no país37,38. Os acidentes podem variar de leve a grave
e, se não tratados adequadamente, podem ocasionar lesões graves ou morte.
A cascavel (Crotalus durissus) é responsável por cerca de 10 % dos acidentes no Brasil. Os acidentes com serpentes do gênero Crotalus são considerados moderados ou graves. A principal ação do veneno é neurotóxica37.
A coral-verdadeira (Micrurus altirostris), freqüentemente encontrada pela
população, mesmo tendo veneno potente, dificilmente provoca acidentes
ofídicos37. Esta espécie tem comportamento pouco agressivo e tende a fugir
sempre que importunada, o que faz com que a freqüência de acidentes seja
baixa.
A cobra-verde-das-árvores (Philodryas olfersii) apresenta veneno potente
e pode causar acidentes leves e moderados e raramente acarretar em óbito37. A
baixa incidência de acidentes graves causados por serpentes desta espécie pos122
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
sivelmente deve-se a sua tendência à fuga e à anatomia do dente inoculador,
localizado na região posterior da maxila, o que dificulta a inoculação de veneno.
6.4. Conservação
O oeste do estado de Santa Catarina apresenta poucos fragmentos florestais preservados e de grandes dimensões, que possam manter grandes populações de espécies de répteis. Nesta região, a vegetação original predominante é
a Floresta Ombrófila Mista ou Floresta com Araucárias, caracterizada pela presença abundante de Araucaria angustifolia17. O conhecimento sobre a associação de elementos da fauna de répteis com esta formação vegetal é pequeno,
entretanto, algumas espécies de serpentes foram descritas de áreas de domínio
dessa formação (e.g., Bothrops cotiara, Pseudoboa haasi e Xenodon guentheri).
A fauna de répteis nas áreas de influência da UHE Quebra Queixo é composta principalmente por espécies de ampla distribuição geográfica e capazes
de ocupar ambientes alterados. Espécies que têm maior dependência das matas
(e.g., Anisolepis grilli) estão restritas aos vales, onde ainda há mata ciliar e
provavelmente apresentam populações reduzidas e framentadas. Por outro lado,
algumas espécies de hábitos mais generalistas, tanto no uso do ambiente como
na dieta, como as serpentes Liophis miliaris, L. poecilogyrus e Philodryas olfersii,
ou os lagartos Tropidurus torquatus e Tupinambis merianae, são abundantes
nas áreas de influência da UHE Quebra Queixo.
As questões mais críticas sobre a fauna de répteis nessas áreas podem ser
explanadas da seguinte forma: espécies dependentes de mata preservada e que
poderiam ocorrer nessas áreas provavelmente sofreram forte declínio com a
alteração do ambiente e não são mais encontradas (e.g., Bothrops cotiara), ou
estão com populações reduzidas (e.g., Anisoleps grilli); espécies de áreas abertas, mas exigentes em relação ao habitat, sofrem com o uso do solo para o
plantio, pastagens e com o pisoteamento pelo gado (e.g., Cercosaura
schreibersii).
Nenhuma espécie registrada foi considerada em perigo ou ameaçada de
extinção segundo a lista de animais ameaçados elaborada pelo Ibama39, ou nas
listas de espécies ameaças dos estados vizinhos, Rio Grande do Sul40,41 e Paraná42.
Entretanto, o tamanho das populações de determinadas espécies, como as serpentes Boiruna maculata e Thamnodynastes hypoconia, e os lagartos Anisolepis
grilli e Cercosaura schreibersii, parece estar reduzido localmente.
123
6. Répteis
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
6.5. Referências Bibliográficas
1. Pough, F.H.; Janis, C.M. & Heiser, J.B. 2003. A vida dos vertebrados. Atheneu,
São Paulo.
2. Pough, H.F.; Andrews, R.M.; Cadle, J.E.; Crump, M.L.; Savitzky, A.H. & Wells,
K.D. 2004. Herpetology., Pearson Prentice-Hall, New Jersey.
3. SBH (Sociedade Brasileira de Herpetologia). 2005. Lista Brasileira de Répteis.
Disponível em: <http://www2.sbherpetologia.org.br/checklist/repteis.htm>.
Acessado em 10 de fevereiro de 2007.
4. Morato, S.A.A. 1995. Padrões de distribuição de serpentes da floresta com
araucária e ecossistemas associados na região sul do Brasil. Dissertação de
Mestrado, Setor de Ciências Biológicas, Universidade Federal do Paraná, Curitiba.
5. Cechin, S.T.Z. 1999. História natural de uma comunidade de serpentes na
região da Depressão Central (Santa Maria), Rio Grande do Sul, Brasil. Tese
de Doutorado, Instituto de Biociências, Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul, Porto Alegre.
6. Di-Bernardo, M. 1999. História natural de uma comunidade de serpentes da
borda oriental do Planalto das Araucárias, Rio Grande do Sul, Brasil. Tese
de Doutorado, Instituto de Biociências, Universidade Estadual de Paulista, Rio
Claro.
7. Lema, T. 2002. Os répteis do Rio Grande do Sul. EDIPUCRS, Porto Alegre.
8. Peters, J.A. & Orejas-Miranda, B. 1970. Catalogue of the Neotropical Squamata:
Part I. Snakes. Bulletin of the United States National Museum 297: 1-347.
9. Vanzolini, P.E.; Ramos-Costa, A.M.M. & Vitt, L.J. 1980. Répteis das Caatingas. Academia Brasileira de Ciências, Rio de Janeiro.
10. Martins, M.R.C. 1994. História natural e ecologia de uma taxocenose de
serpentes de mata na região de Manaus, Amazônia Central, Brasil. Tese de
Doutorado, Instituto de Biologia, Universidade Estadual de Campinas, Campinas.
11. Martins, M.R.C. & Oliveira, M.E. 1998 (1999). Natural history of snakes in
forest of the Manaus, central Amazonia, Brazil. Herpetological Natural History
6: 78-150.
12. Spellerberg, I.F. 1977. Making live snakes for identification of individuals on
populations studies. Journal of Application Ecology 14: 137-138.
13. Cechin, S.T.Z. & Martins, M.R.C. 2000. Eficiência de armadilhas de queda
(pitfall traps) em amostragens de anfíbios e répteis no Brasil. Revista Brasileira de Zoologia 17: 729-740.
124
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
14. Sazima, I. & Haddad, C.F.B. 1992. Répteis da Serra do Japi: Notas sobre história natural. Pp. 212-237 in Morellato, L.P. (org.). História natural da Serra do
Japi: Ecologia e preservação de uma área florestal no sudeste do Brasil.
FAPESP, Campinas.
15. Gibbons, J.W. & Semlitsch, R.D. 1987. Activity patterns. Pp. 396-421 in Seigel,
R.A.; Collins, J.T. & Novak, S.S. (eds.). Snakes: Ecology and Evolutionary
Biology. McGraw-Hill and Company, New York.
16. Velloso, H.P. & Goes-Filho, L. 1982. Fitogeografia brasileira: classificação
fisionômica-ecológica da vegetação neotropical. Boletim Técnico Radam-Brasil
(série vegetação) 1: 1-80.
17. Ab’Saber, A. 2003. Os Domínios de Natureza no Brasil: potencialidades
paisagísticas. Ateliê, São Paulo.
18. Dixon, J.R.O. & Kofron, C.P. 1979. The Central and South American anomalepid
snakes of the genus Liothyphlops. Amphibia-Reptilia 4: 241-264.
19. Dixon, J.R.; Wiest, J.A. & Cei, J.M. 1993. Revision of the tropical snake
Chironius Fitzinger (Serpentes, Colubridae). Museo Regionale di Scienze
Naturali, Monografie 13: 1- 279.
20. Marques, O.A.V. 1998. Composição faunística, história natural e ecologia
de serpentes da mata atlântica, na região da estação ecológica Juréia-Itatins,
São Paulo, SP. Tese de Doutorado, Instituto de Biociências, Universidade de
São Paulo, São Paulo.
21. Marques, O.A.V. & Sazima, I. 2004. História natural dos répteis da estação
ecológica Juréia-Itatins. Pp. 257-277 in Marques, O.A.V. & Duleba, W. (eds.).
Estação Ecológica Juréia-Itatins: Ambiente Físico, Flora e Fauna. Holos,
Ribeirão Preto.
22. Di-Bernardo, M. 1996. A new species of the neotropical snake genus
Echinanthera Cope, 1894 from southeastern Brazil (Serpentes, Colubridae). The
Snake 27: 120-126.
23. Hartmann, P.A. & Marques, O.A.V. 2005. Diet and habitat use of two sympatric
species of Philodryas (Colubridae), in South Brazil. Amphibia-Reptilia 26: 2531.
24. Hartmann, P.A. 2001. Hábito alimentar e utilização do ambiente em duas
espécies simpátricas de Philodryas (Serpentes, Colubridae), no sul do Brasil. Dissertação de Mestrado, Instituto de Biociências, Universidade Estadual
Paulista, São Paulo.
25. Lema, T. 1994. Lista comentada dos répteis ocorrentes no Rio Grande do Sul,
Brasil. Comunicações do Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS, série
Zoologia 7: 41-150.
125
6. Répteis
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
26. Lopez, M.S. 2003. Philodryas patagoniensis (NCN). Diet. Herpetological
Review 34: 71-72.
27. Bernarde, P.S.; Kokobum, M.N.C. & Marques, O.A.V. 2000. Utilização de habitat
e atividade em Thamnodynastes strigatus (Günther, 1858) no sul do Brasil (Serpentes, Colubridae). Boletim do Museu Nacional, nova série, Zoologia 428:
1-8.
28. Bernarde, P.S.M.; Moura-Leite, J.C.; Machado, R.A.S. & Kokobum, M.N.C.
2000. Diet of the colubrid snake, Thamnodynastes strigatus (Günther, 1868)
from Paraná state, Brazil, with field notes on anuran predation. Revista Brasileira de Biologia 60: 695-699.
29. Bizerra, A. 1998. História Natural de Tomodon dorsatus (Serpentes:
Colubridae). Dissertação de Mestrado, Instituto de Biociências, Universidade
de São Paulo, São Paulo.
30. Cadle, J.E. & Greene, H.W. 1993. Phylogenetic patterns, biogeography, and the
ecological structure of neotropical snake assemblage. Pp 281-293 in Ricklefs,
R.E. & Schulter, D. (eds.). Species diversity in ecological communities historical and geographical perspectives. University Chicago Press, Chicago.
31. Sazima, I.; Chini, S. & Souza, C.R.C. 1992. Escancarar com a boca: uma exibição defensiva de Tomodon dorsatus e outras serpentes colubrídeas. Anais de
Etologia 10: 197.
32. Campbell, J.A. & Lamar, W.W. 1989. The venomous reptiles of Latin America.
Cornell University Press, Ithaca.
33. Sazima, I. 1988. Um estudo da biologia comportamental da jararaca, Bothrops
jararaca, com uso de marcas naturais. Memórias do Instituto Butantan 50:
83-89.
34. Sazima, I. 1992. Natural history of jararaca pitviper, Bothrops jararaca in
southeastern Brazil. Pp. 196-216 in Campbell, J.A. & Brodie, E.D., Jr. (eds.).
Biology of the Pitvipers. Selva, Tyler, Texas.
35. Hartmann, P.A.; Hartmann, M.T. & Giasson, L.O.M. 2003. Uso do hábitat e
alimentação em juvenis de Jararaca, Bothrops jararaca (Serpentes, Viperidae),
na Mata Atlântica. Phyllomedusa 2: 35-41.
36. Rodrigues, M.T. 1987. Sistemática, ecologia e zoogeografia dos Tropidurus ao
sul do rio Amazonas (Sauria, Iguanidae). Arquivos de Zoologia 31: 105-230.
37. Nicollela, A.; Barros, E.; Torres, J.B. & Marques, M.G. 1997. Acidentes com
Animais Peçonhentos: Consulta Rápida, Porto Alegre.
38. Soerensen, B. 2000. Acidentes por animais peçonhentos: reconhecimento,
clínica e tratamento. Atheneu, São Paulo.
126
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
39. MMA/IBAMA. 2003. Lista da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção.
Disponível em <http://www.mma.gov.br/port/sbf/fauna>. Acessado em 04 de
agosto de 2004.
40. Marques A.A.B.; Fontana, C.S.; Velez, E.; Bencke, G.A.; Schneider, M. & Reis,
R.E. 2002. Lista de espécies da fauna ameaçadas de extinção no Rio Grande
do Sul. Publicações Avulsas FZB, 11, FZB/MCT-PUCRS/PANGEA, Porto Alegre.
41. Di-Bernardo, M.; Borges-Martins, M. & Oliveira, R.B. 2003. Répteis Pp. 165188 in Fontana, C.S., Bencke, G.A. & Reis, R.E. (eds.). Livro vermelho da
fauna ameaçada de extinção no Rio Grande do Sul. EDIPUCRS, Porto alegre.
42. Bérnils R.S.; Moura-Leite J.C. & Morato, S.A.A. 2004. Répteis. In: Mikich,
S.B. & Bérnils, R.B. Livro vermelho da fauna ameaçada de extinção no
Paraná. Disponível em <http://www.gb2.com.br/livro>. Acessado em 04 de
agosto de 2004.
127
6. Répteis
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Phrynops hilarii
cágado
Liotyphlops beui
cobra-cega
Foto: Jorge J. Cherem
Foto: Paulo A. Hartmann
○
○
○
○
Atractus taeniatus
cobra-da-terra
Chironius bicarinatus
cobra-cipó
Foto: Paulo A. Hartmann
Foto: Paulo A. Hartmann
Liophis miliaris
cobra-d’água
Liophis poecilogyrus
jararaquinha-do-banhado
Foto: Paulo A. Hartmann
Foto: Paulo A. Hartmann
128
○
○
○
○
○
○
○
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Philodryas olfersii
cobra-verde-das-árvores
Philodryas patagoniensis
corre-campo
Foto: Paulo A. Hartmann
Foto: Paulo A. Hartmann
○
○
○
○
Spilotes pullatus
caninana, cobra-nova
Thamnodynastes strigatus
corredeira-do-campo
Foto: Paulo A. Hartmann
Foto: Paulo A. Hartmann
Bothrops jararaca
jararaca
Crotalus durissus
cascavel
Foto: Paulo A. Hartmann
Foto: Paulo A. Hartmann
129
○
○
○
○
○
6. Répteis
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Micrurus altirostris
coral
Amphisbaena prunicolor
cobra-cega
Foto: Jorge J. Cherem
Foto: Paulo A. Hartmann
Anisolepis grilli
lagartixa-das-árvores
Tropidurus torquatus
lagartixa-cinzenta
Foto: Paulo A. Hartmann
Foto: Paulo A. Hartmann
Tupinambis merianae
teiú
Foto: Jorge J. Cherem
130
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
7. AVES
Marcos Antônio Guimarães Azevedo
Maurique Assessoria e Consultoria Empresarial SS Ltda.,
R. José Lins do Rego, 195, Bom Abrigo - 88085-300 - Florianopolis, SC
Ivo Rohling Ghizoni-Jr.
CAIPORA Cooperativa para Conservação da Natureza,
R. Deodoro, 226/1003 - 88.010-020, Florianópolis, SC
As aves possuem características únicas que as tornam organismos ideais
para descrever o estado de conservação de ambientes naturais1. Elas estão presentes em todos os ambientes, ocupando praticamente todas as latitudes e altitudes do planeta. Além disso, é considerado o táxon animal melhor estudado, o
que se deve, pelo menos em parte, à facilidade de identificação em campo, seja
através da observação visual ou registros auditivos, com auxílio de guias e
manuais especializados. As aves são consideradas também excelentes
bioindicadores, pois ocupam as mais variadas guildas alimentares e nichos ecológicos, podendo servir para avaliar o estado de conservação em que se encontra uma determinada área. Assim, qualquer alteração do ambiente onde as aves
habitem sempre acaba, de uma forma ou de outra, por afetá-las2.
O Brasil possui 1.801 espécies de aves3, representando cerca de 55% das
espécies ocorrentes no continente americano e esse número vem crescendo.
Para a Floresta Atlântica, um dos biomas com o maior número de endemismos
do planeta, são conhecidas cerca de 690 espécies de aves. Destas, aproximadamente 200 são endêmicas e cerca de 150 encontram-se sob alguma categoria de
ameaça devido, principalmente, à destruição de habitats, pois, atualmente, resta menos de 5% da cobertura original desta floresta4.
O status de conhecimento atual das aves em Santa Catarina pode ser
considerado como satisfatório, graças ao pioneirismo de pesquisadores como
Helmut Sick5 e ao contínuo esforço de Lenir A. do Rosário, que culminou entre
outros com a singular obra “As aves em Santa Catarina”. Mesmo assim, se
comparado a outros estados do País, o estado catarinense ainda carece de pesquisas atualizadas sobre levantamentos por região e ambientes, particularmen131
7. Aves
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
te para o oeste do estado. Isto sem considerar o pequeno número de pesquisadores especializados e trabalhos que tratem da história natural e das necessidades
requeridas pela maioria das espécies de aves.
7.1. Métodos
O monitoramento da avifauna nas áreas de influência da UHE Quebra
Queixo foi realizado de outubro de 2000 a março de 2002, compreendendo seis
campanhas de campo. Também foram considerados os estudos realizados em
abril e novembro de 2002, no Parque Estadual das Araucárias, e os dados do
acompanhamento da supressão vegetal da área do reservatório, relativos a agosto
de 2002.
As seguintes técnicas foram utilizadas para o monitoramento da avifauna:
(1) levantamento bibliográfico; (2) registro visual e auditivo; (3) redes de neblina; e (4) entrevistas.
Levantamento Bibliográfico
O levantamento bibliográfico teve como ponto de partida estudos desenvolvidos na região oeste do estado catarinense6, com coordenadas superiores a
52ºW. Foram também utilizados os registros para o sudoeste do estado do Paraná7
e no noroeste do Rio Grande do Sul8,9.
Registro Visual e Auditivo
O levantamento em campo foi realizado em diferentes períodos, durante
a manhã, tarde e noite. As observações iniciaram-se ao amanhecer, sem tempo
estabelecido para término. As espécies de aves foram registradas por contato
visual, com auxílio de binóculos (8x25 e 10x40), ou auditivo. Algumas
vocalizações, para as quais as espécies não puderam ser prontamente reconhecidas, foram gravadas para posterior identificação (gravador Sony TCM - 354V).
Foram realizadas amostragens em diferentes ambientes nas áreas de influência
da UHE Quebra Queixo, sendo enfatizado, entretanto, os que possuíam maior
proporção de ambientes florestados.
Redes de neblina
Foram utilizadas redes de neblina, de 5 a 18m, para auxiliar na captura de
espécies pouco conspícuas. As redes foram abertas em bordas e no interior de
áreas florestadas, ao longo de trilhas ou transversal a elas, armadas no início da
tarde e desarmadas entre as 22:00h e 24:00h, tendo em vista que as mesmas
132
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
também foram utilizadas para a captura de morcegos, durante três dias de cada
uma das seis campanhas de campo. No período vespertino, as redes foram
verificadas a cada 30 ou 60 minutos. O esforço total de captura, excluindo o
período noturno para captura de morcegos, foi de aproximadamente 50h, com
144m² de rede.
Entrevistas
De forma complementar, foram realizadas entrevistas com moradores
locais e pesquisadores que estiveram no local com o propósito de incrementar a
lista geral de espécies. Os entrevistados selecionados foram indagados a respeito da avifauna observada nas áreas de influência da UHE Quebra Queixo, no
passado e nos dias atuais.
Ambientes Avifaunísticos
De forma geral, durante o levantamento da avifauna foram considerados
os seguintes ambientes: 1) florestal, representado pela Floresta Ombrófila Mista; 2) borda de floresta, área de transição entre floresta e outro ambiente; 3)
áreas úmidas, presença de charcos e alagadiços; 5) beira de rio; e 6) áreas
antrópicas, áreas alteradas ambientalmente pelo homem, como os campos
agropecuários.
Identificação, Coleta e Depósito em Coleção Científica
Indivíduos encontrados mortos ou injuriados foram coletados. O mesmo
procedimento ocorreu para espécies capturadas em redes de neblina, que representaram registros significativos para o estado.
A identificação das espécies em campo foi feita com o auxílio de guias e
bibliografia especializada6,10,11,12. Para o ordenamento taxonômico foi seguida a
última revisão do CBRO15 e os nomes comuns seguem as obras de Sick10 e
Rosário6. Para a determinação das espécies com algum grau de ameaça, foram
consultadas obras de referência regionais6, nacionais13 e mundiais14.
Todos os exemplares coletados foram depositados na coleção de aves da
Fundação Universidade de Blumenau (FURB), Blumenau, Santa Catarina.
Considerações Metodológicas
O tempo despendido para os trabalhos de campo durante o monitoramento
da avifauna nas áreas de influência da UHE Quebra Queixo não foi suficiente
para registrar todas as espécies existentes, como demonstrado pela não estabi133
7. Aves
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
lização da curva do coletor (Figura 7.1), elaborada com base nos dados obtidos
durante as seis campanhas de monitoramento da avifauna da UHE Quebra
Queixo.
Número de espécies
250
200
150
100
50
0
1
2
3
4
5
6
Número de campanhas
Figura 7.1. Curva cumulativa de espécies de aves registradas durante as seis campanhas
de monitoramento da fauna da UHE Quebra Queixo, municípios de São Domingos e
Ipuaçu, Santa Catarina, no período de outubro de 2000 a março de 2002.
De forma geral, a maioria das espécies registradas na área de influência
direta da UHE Quebra Queixo foi condizente com o esperado para a região
oeste de Santa Catarina, quando relacionado ao seu atual e catastrófico estado
de conservação, que reflete a grande fragmentação das florestas. Entretanto, a
contribuição dos estudos da ornitofauna nesta área poderia ter sido mais significativa se fosse utilizada uma técnica de amostragem quantitativa, onde fosse
possível avaliar a densidade de algumas espécies antes e durante o enchimento
do reservatório, o que permitiria uma comparação com resultados após o enchimento. Desta forma, poder-se-ia inferir sobre prováveis corredores de fauna e
áreas para seu refúgio, além de avaliar mais profundamente os possíveis impactos do empreendimento sobre as aves. Já na elaboração do projeto, foi proposto
o uso de pontos-fixos (método quantitativo), mas este não se mostrou satisfatório
para o local e foi descartado já na segunda campanha. Os fatores que contribuíram para a desaprovação desta técnica foram: a falta de ambientes florestais
contínuos, ambientes florestais muito degradados e entremeados com áreas
abertas significativas (não recomendado para o método), ruído excessivo causado pela proximidade do rio Chapecó prejudicando a localização e identifica134
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
ção das espécies e grande distância entre os pontos, dificultando seu acesso,
principalmente nas campanhas iniciais e, quando não era possível a travessia
de um lado a outro do rio pela barragem.
Para trabalhos futuros em empreendimentos com essas características,
devem ser considerados métodos de transectos com contagem e/ou de marcação e captura com auxílio de redes de neblina.
7.2. As Aves da UHE Quebra Queixo
No total, foram levantadas 279 espécies de aves de possível ocorrência
na região oeste de Santa Catarina. Destas, 213 (75%) foram registradas durante
as campanhas de campo para as áreas de influência da UHE Quebra Queixo
(Tabela 7.1).
Tabela 7.1. Lista das aves registradas para as áreas de influência indireta (AII) e direta
(AID) da UHE Quebra Queixo, municípios de São Domingos e Ipuaçu, Santa
Catarina, no período de outubro de 2000 a novembro de 2002. FO =
freqüência de ocorrência.
Status
SC - RA/IN
IUCN - LR
SC - RA/IN
IUCN - LR
SC - RA/IN
IBAMA - PE
IUCN - VU
SC - RA/IN
SC - RA/IN
SC - RA/IN
Táxon
Tinamidae (6)
Tinamus solitarius
Crypturellus obsoletus
Crypturellus parvirostris
Crypturellus tataupa
Rhynchotus rufescens
Nothura maculosa
Anatidae (3)
Cairina moschata
Amazonetta brasiliensis
Anas bahamensis
Cracidae (3)
Penelope superciliaris
Penelope obscura
Pipile jacutinga
Odontophoridae (1)
Odontophorus capueira
Podicipedidae (1)
Podilymbus podiceps
Phalacrocoracidae (1)
Phalacrocorax brasilianus
Anhingidae (1)
Anhinga anhinga
Ardeidae (7)
Nycticorax nycticorax
Butorides striata
Bubulcus ibis
Ardea cocoi
Ardea alba
Syrigma sibilatrix
Egretta thula
Threskiornithidae (1)
Theristicus caudatus
Ciconiidae (1)
Mycteria americana
Cathartidae (3)
Cathartes aura
Coragyps atratus
Sarcoramphus papa
Abrangência
AII
AID
Nome comum
macuco
inambuguaçu
inambu-chororó
inambu-xintã
perdiz
codorna
x
pato-do-mato
marreca-de-pé-vermelho
marreca toicinho
jacupemba
jacu-açu
jacutinga
BIB, ENT
F
NA
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA, ENT, COL
BIB, RVA, ENT
F
F
F
Aa
Aa
NA
C
O
NA
F
BIB, RVA
BIB, RVA, ENT
BIB
Au, Aa
Au
Au
NA
R
NA
F
F
F
NA
O
NA
x
x
x
x
x
x
BIB, RVA
BIB, RVA, ENT
BIB
BIB
F
NA
x
x
BIB, RVA, ENT
Au
R
x
BIB, RVA, ENT
Br
F
BIB
Br
NA
BIB, RVA
BIB, RVA
BIB, RVA
BIB
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA, ENT
Br, Au
Br
Au
Br, Au
Br, A u
Aa
Au
R
R
R
NA
O
O
R
biguatinga
x
x
curicaca
x
cabeça-seca
x
urubu-cabeça-vermelha
urubu-comum
urubu rei
x
x
135
FO
x
x
x
biguá
savacu
socozinho
garça-vaqueira
socó-grande
garça-branca-grande
maria-faceira
garça-branca-pequena
Ambiente
x
x
x
x
uru
mergulhão
Forma de Registro
x
x
x
x
x
x
x
x
x
BIB, RVA, ENT
Aa
F
ENT
Aa, Au
NA
BIB, RVA
BIB, RVA, ENT
BIB
Fb, F
Aa, Fb
F
M
M
NA
7. Aves
○
○
○
Status
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Táxon
Accipitridae (10)
SC - RA/IN Leptodon cayanensis
Elanoides forficatus
Elanus leucurus
Ictinia plumbea
SC - RA/IN Accipiter striatus
IUCN - LR Leucopternis polionotus
Buteogallus urubitinga
Heterospizias meridionalis
Rupornis magnirostris
SC - RA/IN Buteo albicaudatus
Falconidae (7)
Caracara plancus
Milvago chimachima
Milvago chimango
SC - RA/IN Micrastur ruficollis
SC - RA/IN Micrastur semitorquatus
Falco sparverius
SC - RA/IN Falco femoralis
Rallidae (8)
Pardirallus nigricans
Aramides cajanea
Aramides saracura
Laterallus melanophaius
Gallinula chloropus
Porphyrio martinica
Fulica armillata
Fulica leucoptera
Jacanidae (1)
Jacana jacana
Charadriidae (1)
Vanellus chilensis
Scolopacidae (1)
Gallinago paraguaiae
Columbidae (10)
Columbina talpacoti
SC - RA/IN Columbina squammata
Columbina picui
Columba livia
Patagioenas picazuro
Patagioenas cayennensis
Zenaida auriculata
Leptotila verreauxi
Leptotila rufaxilla
Geotrygon montana
Psittacidae (7)
Pyrrhura frontalis
SC - RA/IN Aratinga leucophthalma
Pionus maximiliani
Pionopsitta pileata
Brotogeris tirica
SC - RA/IN Amazona aestiva
IBAMA - PE Amazona vinacea
IUCN EN
Cuculidae (6)
SC - RA/IN Coccyzus melacoryphus
SC - RA/IN Crotophaga major
Crotophaga ani
Guira guira
Piaya cayana
Tapera naevia
Tytonidae (1)
Tyto alba
Strigidae (6)
Megascops choliba
SC - RA/IN Pulsatrix koeniswaldiana
SC - RA/IN Strix hylophila
SC - RA/IN Glaucidium brasilianum
Athene cunicularia
SC - RA/IN Rhinoptynx clamator
Nyctibiidae (1)
SC - RA/IN Nyctibius griseus
Caprimulgidae (4)
Lurocalis semitorquatus
SC - RA/IN Nyctidromus albicollis
Hydropsalis torquata
SC - RA/IN Macropsalis forcipata
Apodidae (4)
reptoprocne zonaris
Streptoprocne biscutata
Chaetura cinereiventris
Chaetura meridionalis
Trochilidae (7)
Phaetornis eurynome
SC - RA/IN Phaetornis pretrei
Melanotrochilus fuscus
Anthracothorax nigricollis
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Abrangência
AII
AID
Nome comum
gavião-de-cabeça-cinza
gavião-tesoura
peneira
sovi
gaviãozinho
gavião-pombo-grande
gavião-preto
gavião-caboclo
gavião-carijó
gavião-de-rabo-branco
x
x
x
x
x
x
x
x
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Forma de Registro
Ambiente
FO
RVA
BIB, RVA
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA
RVA, COL
BIB
BIB
BIB
BIB, RVA, ENT, COL
BIB, RVA
F
F, Fb
Aa
Fb
F
F
Fb, Aa
Aa
Fb
Aa
R
O
F
R
R
NA
NA
NA
M
NA
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA
BIB, RVA, COL
BIB
BIB, RVA, ENT
BIB
Aa
Aa
Aa
F
F
Aa
Aa
M
M
R
O
NA
M
NA
BIB, RVA
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA, COL
BIB, RVA
BIB, RVA
BIB, COL
BIB
BIB
Au
Au
F, Au
Au
Au
Au
Au
Au
NA
R
M
O
F
NA
NA
NA
C
x
x
x
caracará
carrapateiro
chimango
gavião-caburé
gavião-relógio
quiriquiri
falcão-de-coleira
x
x
x
x
x
x
x
x
x
saracura-anã
três-potes
saracura-do-mato
pinto-d’água-avermelhado
frando-d’água
frango-d’água-azul
carqueja-de-liga-vermelha
carqueja-de-bico-amarelo
x
x
x
x
x
x
x
x
jaçanã
x
x
BIB, RVA, ENT
Au
quero-quero
x
x
BIB, RVA, ENT
Aa
C
narceja
x
x
BIB, RVA
Aa, Au
NA
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA
RVA, ENT
RVA
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA
BIB, RVA
RVA, RED, COL
Aa
Aa
Aa
Aa
F
F
Aa
F
F
F
M
O
M
O
F
C
F
M
O
NA
x
x
F
Fb
F
F
F
F
F
R
NA
R
NA
NA
NA
R
rolinha-roxa
fogo-apagou
picuí
pombo-doméstico
asa-branca
pomba-galega
pomba-de-bando
juriti-pupu
juriti-gemedeira
pariri
x
x
x
x
x
x
x
tiriba
maracanã-malhada
maitaca
cuiú-cuiú
periquito-verde
papagaio
papagaio-de-peito-roxo
x
x
x
x
x
BIB, RVA, ENT
BIB
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA
BIB
BIB, ENT
BIB, RVA, ENT
papa-lagarta
anu-coroca
anu-preto
anu-branco
alma-de-gato
saci
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
RVA
BIB, RVA
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA
F
Fb
Aa
Aa
F, Fb
Aa
R
R
M
M
M
R
suindara
x
x
BIB, RVA, ENT
Aa
O
corujinha-do-mato
murucututu-pequena
coruja-listrada
caburé
coruja-do-campo
coruja orelhuda
x
x
x
BIB, RVA
RVA
BIB, RVA
BIB
BIB, RVA, ENT
RVA
F
F
F
F
Aa
Fb, Aa
R
R
NA
NA
M
NA
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
urutau
tuju
bacurau
bacurau-tesoura
bacurau tesoura gigante
andorinhão-coleira
andorinhão-coleira-falha
andorinhão-de-sobre-cinzento
andorinhão-do-temporal
rabo-branco-garganta-rajada
rabo-branco
beija-flor-preto-de-rabo-branco
beija-flor-de-veste-preta
136
x
BIB
Fb
NA
RVA, RED, COL
BIB
BIB, RVA, ENT
BIB
Fb
Aa
Fb
F
O
NA
NA
NA
BIB, RVA, ENT
RVA
BIB, RVA
BIB, RVA, ENT
Fb, Aa
Br, F
F
Aa
R
R
O
O
BIB
BIB
BIB
BIB
F
F
F, Aa
F
NA
NA
NA
NA
○
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
Status
SC - RA/IN
SC - RA/IN
SC - RA/IN
SC - RA/IN
SC - RA/IN
IUCN - LR
SC - RA/IN
SC - RA/IN
IUCN - LR
SC - RA/IN
SC - RA/IN
IUCN - LR
SC - RA/IN
SC - RA/IN
SC - RA/IN
SC - RA/IN
SC - RA/IN
SC - RA/IN
SC - RA/IN
SC - RA/IN
SC - RA/IN
SC - RA/IN
IUCN - LR
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Táxon
Nome comum
Stephanoxis lalandi
Chlorostilbon lucidus
Leucochloris albicollis
Trogonidae (1)
Trogon surrucura
Alcedinidae (3)
Megaceryle torquata
Chloroceryle amazona
Chloroceryle americana
Momotidae (1)
Baryphthengus ruficapillus
Bucconidae (1)
Nystalus chacuru
Ramphastidae (2)
Ramphastos vitellinus
Ramphastos dicolorus
beija-flor-de-topete
besourinho-bico-vermelho
beija flor de papo branco
Picidae (10)
Picumnus temminckii
Picumnus nebulosus
Melanerpes candidus
Melanerpes flavifrons
Veniliornis spilogaster
Piculus aurulentus
Colaptes melanochloros
Colaptes campestris
Dryocopus lineatus
Campephilus robustus
Thamnophilidae (7)
Batara cinerea
Mackenziaena severa
Mackenziaena leachii
Thamnophilus caerulescens
Thamnophilus ruficapillus
Dysithamnus mentalis
Pyriglena leucoptera
Conopophagidae (1)
Conopophaga lineata
Grallariidae (1)
Hylopezus nattereri
Rhinocryptidae (1)
Scytalopus speluncae
Formicariidae (2)
Chamaeza campanisona
Chamaeza ruficauda
Scleruridae (1)
Sclerurus scansor
Dendrocolaptidae (5)
Xiphocolaptes albicollis
Sittasomus griseicapillus
Dendrocolaptes platyrostris
Lepidocolaptes falcinellus
Xiphorhynchus fuscus
Furnariidae (16)
○
○
○
○
○
○
○
Abrangência
AII
AID
x
x
x
x
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Forma de Registro
Ambiente
FO
BIB, RVA, RED
BIB, RVA
BIB, RVA
Fb
F
Aa
O
O
R
surucuá-variado
x
x
BIB, RVA
F
O
martim-pescador-grande
martim-pescador-verde
martim-pescador-pequeno
x
x
x
x
x
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA
BIB, RVA
Br
Br
Br
F
NA
R
x
RED, COL
F
R
BIB, RVA
Aa
NA
x
x
RVA, ENT
BIB, RVA, ENT
F
F
NA
O
x
x
x
x
x
x
x
x
x
BIB, RVA, RED
BIB
BIB, RVA
BIB, RVA
BIB, RVA
BIB, RVA
BIB, RVA
BIB, RVA, ENT
BIB
BIB, RVA
F
Aa, Fb
Aa
F
F
F
F
Aa
F
F
O
NA
NA
NA
M
R
O
M
NA
NA
BIB
BIB
BIB, RVA
BIB, RVA
BIB, RVA, RED
BIB, RVA
BIB, RVA
F
F
Fb
Fb
Fb
F
F
NA
NA
F
M
C
F
NA
BIB, RVA, RED, COL
F
O
BIB
F
NA
juruva
joão-bobo
x
tucano-de-bico-preto
tucano-de-bico-verde
x
pica-pau-anão-de-coleira
pica-pau-anão-carijó
pica-pau-branco
benedito
picapauzinho-verde-carijó
pica-pau-dourado
pica-pau-verde-barrado
pica-pau-do-campo
pica-pau-de-banda-branca
pica-pau-rei
x
x
x
x
x
matracão
borralha
brujarara-assobiador
choca-da-mata
choca-boné-vermelho
choquinha-lisa
papa-taoca
x
x
x
x
x
x
x
chupa-dente
x
x
x
x
pinto-do-mato
tapaculo-preto
x
tovaca-campainha
tovaca-rabo-vermelho
vira-folha
x
arapaçu-grande-garganta-branca
arapaçu-verde
arapaçu-grande
arapaçu-escamoso
arapaçu-rajado
x
x
x
x
x
joão-de-barro
grimpeiro
pichororé
ui-pi
pi-puí
joão-teneném
arrédio-oliváceo
curutié
cochicho
joão-porca
trepador-quiete
limpa-folha-ocrácea
limpa-folha-coroada
limpa-folha-de-testa-baia
trepadorzinho
bico virado carijó
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
Furnarius rufus
Leptasthenura setaria
Synallaxis ruficapilla
Synallaxis albescens
Synallaxis cinerascens
Synallaxis spixi
Cranioleuca obsoleta
Certhiaxis cinnamomeus
Anumbius annumbi
Lochmias nematura
Syndactyla rufosuperciliata
Philydor lichtensteini
Philydor atricapillus
Philydor rufum
Heliobletus contaminatus
Xenops rutilans
Tyrannidae (40)
Mionectes rufiventris
Leptopogon amaurocephalus
Poecilotriccus plumbeiceps
Phyllomyias fasciatus
Phyllomyias burmeisteri
Myiopagis viridicata
Elaenia flavogaster
Elaenia mesoleuca
Elaenia sp.
Camptostoma obsoletum
Serpophaga nigricans
Euscarthmus meloryphus
Phylloscartes eximius
supi-de-cabeça-cinza
cabeçudo
tororó
piolhinho
piolhinho-chiador
guaracava-de-crista-alaranjada
guaracava-de-barriga-amarela
tuque
risadinha
joão-pobre
barulhento
barbudinho
Phylloscartes ventralis
Myiornis auricularis
borboletinha-do-mato
miudinho
x
x
x
x
137
x
x
x
x
x
x
RVA
F
NA
BIB
BIB, COL
F
F
NA
NA
RED
F
R
BIB, RVA
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA
BIB, RVA
RVA
F
F
F
F
F
NA
M
NA
R
NA
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA
BIB
BIB, RVA
BIB, RVA
BIB
BIB, RVA
BIB, RVA
BIB, RVA
BIB, RVA, COL
RVA
RVA
BIB, RVA
BIB, RVA
BIB
Aa
F
F
Aa
F
Fb
F
Au
Aa
F, Br
F
F
F
F
F
F
M
NA
C
NA
R
M
NA
R
NA
R
F
R
NA
NA
O
NA
BIB, RVA
BIB, RVA, RED
BIB, RVA, RED
BIB
BIB
RVA, RED, COL
BIB, RVA
BIB
RVA
BIB, RVA, RED
RVA
BIB, RVA
BIB
F
F
F
Aa
Fb
F
Fb
Fb
Fb
Aa, Fb
Fb
F
F
NA
M
O
NA
NA
O
C
NA
NA
M
R
F
NA
BIB, RVA
RVA, RED
F
F
R
O
○
7. Aves
○
○
○
○
Status
SC - RA/IN
SC - RA/IN
SC - RA/IN
IUCN - NT
IUCN - LR
SC - RA/IN
IUCN - NT
SC - RA/IN
SC - RA/IN
SC - RA/IN
SC - RA/IN
SC - RA/IN
IUCN - LR
SC - RA/IN
SC - RA/IN
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Abrangência
AII
AID
Táxon
Nome comum
Tolmomyias sulphurescens
Platyrhincus mystaceus
Myiophobus fasciatus
Lathrotriccus euleri
Cnemotriccus fuscatus
Contopus cinereus
Pyrocephalus rubinus
Knipolegus cyanirostris
Satrapa icterophrys
Xolmis cinereus
Xolmis dominicanus
Colonia colonus
Machetornis rixosa
Legatus leucophaius
Myiozetetes similis
Pitangus sulphuratus
Myiodynastes maculatus
Megarynchus pitangua
Empidonomus varius
Tyrannus melanch olicus
Tyrannus savana
Sirystes sibilator
Myiarchus swainsoni
Attila rufus
Attila phoenicurus
Cotingidae (1)
Procnias nudicollis
Pipridae (1)
Chiroxiphia caudata
Tityridae (6)
Schiffornis virescens
Tityra inquisitor
Tityra cayana
Pachyramphus castaneus
Pachyramphus polychopterus
Pachyramphus validus
Vireonidae (3)
Cyclarhis gujanensis
Vireo olivaceus
Hylophilus poicilotis
Corvidae (2)
Cyanocorax caeruleus
Cyanocorax chrysops
Hirundinidae (7)
Tachycineta albiventer
Tachycineta leucorrhoa
Progne tapera
Progne chalybea
Pygochelidon cyanoleuca
Stelgidopteryx ruficollis
Petrochelidon pyrrhonota
Troglodytidae (1)
Troglodytes musculus
Polioptilidae (1)
Polioptila dumicola
Turdidae (6)
Ramphocaenus melanurus
Turdus subalaris
Turdus rufiventris
Turdus leucomelas
Turdus amaurochalinus
Turdus albicollis
Mimidae (1)
Mimus saturninus
Motacillidae (1)
Anthus lutescens
Coerebidae (1)
Coereba flaveola
Thraupidae (17)
Cissopis leverianus
Pyrrhocoma ruficeps
Trichothraupis melanops
Piranga flava
Habia rubica
Tachyphonus coronatus
Thraupis sayaca
Thraupis cyanoptera
Thraupis palmarum
Thraupis bonariensis
Stephanophorus diadematus
Pipraeidea melanonota
Tangara preciosa
Tersina viridis
Dacnis cayana
Hemithraupis guira
Conirostrum speciosum
bico-chato-orelha-preta
patinho
filipe
enferrujado
guaracavuçu
papa-mosca-cinzento
príncipe
maria-preta-bico-azulado
suiriri-pequeno
primavera
viuvinha
noivinha-de-rabo-preto
suiriri-cavaleiro
bem-te-vi-pirata
bem-te-vi-pequeno
bem-te-vi
bem-te-vi-rajado
neinei
peitica
suiriri
tesourinha
suiriri-assobiador
irrê
capitão-de-saíra
capitão-castanha
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
araponga
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Forma de Registro
Ambiente
FO
BIB, RVA
BIB
BIB, RVA
BIB, RVA
RVA
BIB
BIB, RVA, ENT
BIB
BIB, RVA
BIB
BIB
BIB, RVA
BIB, RVA
BIB, RVA
BIB, RVA
BIB, RVA , ENT
BIB, RVA
BIB, RVA
BIB, RVA
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA
BIB, RVA
RVA, ENT
BIB
F
F
Aa
F
F
F
Aa
Fb
Aa
Aa
Aa
F
Aa
F
Aa
Aa
F
F
F
Aa
Aa
F
Aa
F
F
M
NA
C
NA
R
NA
NA
NA
NA
NA
NA
NA
C
F
F
M
C
C
NA
C
O
NA
O
NA
NA
BIB, ENT
F
NA
dançador
x
x
BIB, RVA, ENT
F
C
flautim
anambé-bochecha-parda
anambé-branco-rabo-preto
caneleirinho
caneleirinho-preto
caneleirinho chapéu preto
x
x
x
x
x
x
x
x
BIB, RVA , RED
BIB, RVA
BIB, RVA, ENT
RVA
BIB, RVA
BIB
F
F
F
F
F
F
C
NA
R
NA
NA
NA
gente-de-fora-vem
juruviara
verdinho-coroado
x
x
x
x
x
x
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA
BIB, RVA
Fb
F
F
M
O
F
gralha-azul
gralha-picaça
x
x
x
x
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA, ENT
F
F
R
R
x
x
x
x
x
x
BIB
BIB, RVA, ENT
BIB
BIB, RVA
BIB, RVA
BIB
BIB
Br
Aa
Aa
Aa
Aa
Aa
Aa
NA
O
NA
F
C
NA
NA
M
andorinha-do-rio
andorinha-de-testa-branca
andorinha-do-campo
andorinha-doméstica-grande
andorinha-pequena-de-casa
andorinha-serradora
andorinha-de-sobre-acanelado
corruíra
x
balança rabo de máscara
x
BIB, RVA, ENT
Aa
x
BIB
Fb
R
F
F
Fb
F
F
F
NA
R
F
C
M
C
bico-comprido
sabiá-ferreiro
sabiá-laranjeira
sabiá-barranco
sabiá-poca
sabiá coleira
x
x
x
x
x
x
x
x
BIB
BIB, RVA
BIB, RVA, ENT, RED, COL
BIB, RVA, ENT, RED, COL
BIB, RVA, ENT, RED, COL
BIB, RVA, ENT
sabiá-do-campo
x
x
BIB, RVA, ENT
Aa
F
caminheiro-zumbidor
x
x
BIB, RVA, ENT
Aa
O
cambacica
x
x
BIB, RVA, ENT
Aa
NA
tié-tinga
cabecinha-castanha
tié-de-espelho
sanhaçu-de-fogo
tié-do-mato
tié-preto
sanhaçu-cinzento
sanhaçu-encontro-azul
sanhaçu-do-coqueiro
sanhaçu-papo-laranja
sanhaço-frade
saíra-viúva
saíra-sapucaia
saí-andorinha
saí-azul
saíra-de-papo-preto
figurinha de rabo castanho
x
x
x
BIB, RVA
BIB, RVA, RED
BIB, RVA, RED, COL
RVA
RVA
BIB, RVA, ENT, RED
BIB, RVA, ENT
BIB
RVA
BIB, RVA
BIB, RVA
BIB, RVA, ENT
BIB
BIB, RVA
BIB, RVA
BIB, RVA
BIB, RVA
F
F
F
Aa
F
F
F
F
Aa, Fb
Fb
F
F
Fb
Aa
F
F
F
NA
NA
C
R
NA
C
M
NA
O
C
NA
O
NA
O
NA
F
F
138
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
○
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
Status
SC - RA/IN
SC - RA/IN
IUCN - NT
SC RA/IN
SC RA/IN
SC - RA/IN
SC - RA/IN
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Abrangência
AII
AID
Táxon
Nome comum
Emberizidae (39)
Zonotrichia capensis
Ammodramus humeralis
Haplospiza unicolor
Poospiza lateralis
Sicalis flaveola
Sicalis luteola
Embernagra platensis
Emberizoides ypiranganus
Volatinia jacarina
Sporophila caerulescens
Amaurospiza moesta
tico-tico
tico-tico-do-campo
cigarra-bambu
quete
canário-da-terra-verdadeiro
tipiu
sabiá-do-banhado
canário-do-brejo
tisiu
coleirinho
negrinho-do-mato
Coryphospingus cucullatus
Paroaria coronata
Cardinalidae (2)
Saltator similis
Cyanocompsa brissonii
Parulidae (5)
Parula pitiayumi
Geothlypis aequinoctialis
Basileuterus culicivorus
Basileuterus leucoblepharus
Phaeothlypis rivularis
Icteridae (9)
Cacicus haemorrhous
Cacicus chrysopterus
Icterus cayanensis
Gnorimopsar chopi
○
x
x
x
x
x
x
x
x
x
x
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Forma de Registro
Ambiente
FO
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA
BIB
BIB, RVA
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA
BIB, RVA
BIB
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA
Aa
Aa
F
F
Aa
Aa
Aa
Aa
Aa
Aa, Fb
F
M
C
NA
NA
M
O
O
NA
C
F
R
x
x
x
x
x
tico-tico-rei
cardeal
x
x
BIB, RVA, ENT
BIB
Aa
Aa, Fb
C
NA
trinca-ferro-verdadeiro
azulão-verdadeiro
x
x
x
BIB, RVA, ENT, RED, COL
BIB, RVA
Fb
Fb
M
NA
mariquita
piá-cobra
pula-pula
pula-pula-assobiador
pupa-pula-ribeirinho
x
x
x
x
x
x
x
x
x
BIB, RVA, ENT
BIB, RVA, RED
BIB, RVA, ENT, RED
BIB, RVA, RED
BIB, RVA
F
Fb, Aa
F
F
F
M
C
M
M
R
BIB
BIB, RVA, ENT
RVA
BIB, RVA, ENT
F
F
Fb
Aa
NA
NA
R
NA
guaxe
tecelão
encontro
chopim
x
x
x
x
○
Status de conservação: SC: RA/IN - rara ou incomum em Santa Catarina 7, IBAMA: Lista das espécies da fauna Brasileira ameaçada
de extinção 12. CP - criticamente em perigo, PE - em perigo e VU - vulnerável; IUCN: International Union for Conservation of
Nature and Natural Resources 13. EX - Extinto, EW - Extinto na Natureza, CR - Criticamente em Perigo, EM - Ameaçado, VU Vulnerável, LR - Menor Risco, DD - Dados Deficientes, NE - Não Avaliado.
Abrangência: AII: Área de Influência Indireta - compreende as terras dos municípios de Ipuaçu, São Domingos e Entre Rios; AID:
Área de Influência Direta - compreende as áreas do canteiro de obras, reservatório e faixa de proteção ciliar de 100m.
Forma de Registro: BIB - bibliografia, RVA - registro visual e/ou auditivo, RED - captura em rede de neblina, ENT - citado em
entrevista, COL - coleta.
Ambiente: F - florestal, Fb - borda de floresta, Au - áreas úmidas, Br - beira de rio, Aa - áreas antrópicas.
FO (freqüência de ocorrência): NA - não avaliada (dados insuficientes), R - rara (presente em até 20% das amostragens), O ocasional (até 40%), F - freqüente (até 60%), C - comum (até 80%), M - muito comum (até 100%).
Das 60 famílias levantadas, as mais significativas foram: Tyrannidae (40
espécies), Thraupidae (17 espécies), Emberizidae (13 espécies), Furnariidae
(16 espécies), Accipitridae (10 espécies), Columbidae (10 espécies), Picidae
(10 espécies), Icteridae (9 espécies), Rallidae (8 espécies), Psittacidae (8 espécies), Ardeidae (7 espécies), Falconidae (7 espécies), Trochilidae (7 espécies) e
Hirundinidae (7 espécies).
A riqueza de espécies de aves levantadas nas áreas de influência da UHE
Quebra Queixo representou cerca de 45% do total encontrado no estado
catarinense6 e 12% das espécies catalogadas para o território brasileiro10. Além
disso, espécies consideradas raras para Santa Catarina e não citada para o oeste
do estado6 foram registradas, tais como Leptodon cayanensis (gavião-de-cabeça-cinza), Baryphthengus ruficapillus (juruva), Icterus cayanensis (encontro),
Pachyramphus castaneus (caneleirinho), entre outros.
Ambientes Avifaunísticos
Os ambientes avifaunísticos mais representativos identificados na área
de estudo foram:
139
7. Aves
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
• Floresta
• Borda de floresta
• Áreas úmidas
• Beira de rio
• Áreas antrópicas
Floresta
É formada principalmente pela mata ciliar às margens do rio Chapecó,
além de outras áreas com presença de vegetação em diferentes estágios de regeneração. Os capões remanescentes apresentavam pouco estrato de sub-bosque,
provavelmente por estes serem utilizados como abrigo para o gado. Muitos
desses capões sofreram corte seletivo de madeira e não apresentam árvores
muito frondosas.
Mesmo com os problemas mencionados, o ambiente florestal mostrou-se
o mais significativo no que tange à riqueza de espécies (Figura 7.2), apresentando 141 espécies ou 51% do total de aves levantadas. São exemplos deste
ambiente as seguintes espécies: Penelope obscura (jacu-açu), Leptotila verreauxi
(juriti-pupu), Strix hylophila (coruja-listrada), Piculus aurulentus (pica-paudourado), Leptasthenura setaria (grimpeiro), Syndactyla rufosuperciliata
(trepador-quiete), Mionectes rufiventris (supi-de-cabeça-cinza), Turdus
leucomelas (sabiá-barranco) e Trichothraupis melanops (tié-de-espelho).
Outras espécies, notadamente reconhecidas como do interior de floresta
(estrato de sub-bosque) e que podem ser utilizadas como bioindicadoras de
qualidade deste ambiente são: Crypturellus obsoletus (inambuguaçu), Synallaxis
cinerascens (pi-puí), Conopophaga lineata (chupa-dente), Poecilotriccus
plumbeiceps (tororó), Chiroxiphia caudata (dançador) e Poospiza lateralis
(quete).
Borda de Floresta
Algumas espécies de aves se caracterizam por serem encontradas apenas
na borda e raramente ou nunca no interior da floresta, sendo, porém, dependentes destas. O desmatamento e o conseqüente aumento da fragmentação florestal
têm levado a um aumento deste ambiente. Isso é praticado historicamente na
região com a derrubada das florestas para a abertura de áreas para atividades
agropastoris.
Este ambiente apresentou ao todo 30 espécies ou 10% do total registrado
para a área de estudo (Figura 7.2). São exemplos mais significativos da borda
140
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
de floresta as espécies: Hydropsalis torquata (bacurau-tesoura), Synallaxis spixi
(joão-teneném), Mackenziaena leachii (brujarara-assobiador), Elaenia
flavogaster (guaracava-de-barriga-amarela), Turdus rufiventris (sabiá-laranjeira), Zonotrichia capensis (tico-tico) e Cyclarhis gujanensis (gente-de-fora-vem).
160
141
Riqueza de Espécies
140
120
100
81
80
60
40
30
15
20
11
0
FL
BF
AU
BR
AA
Ambientes Avifaunísticos
Figura 7.2. Riqueza de espécies da avifauna por ambiente nas áreas de influência da
UHE Quebra Queixo, municípios de São Domingos e Ipuaçu, Santa Catarina, no período
de outubro de 2000 a novembro de 2002. F = floresta; BF = borda de floresta; AU = áreas
úmidas; BR = beira de rio; AA = áreas antropogênicas.
Áreas Úmidas
Em alguns trechos na área de estudo, são encontrados locais com características de charcos, banhados ou alagados, denominados aqui por áreas
úmidas. A maioria deles não é natural, sendo formados principalmente pelas
características do solo e terreno, ou após o corte das áreas florestadas por fazendeiros, na tentativa de retenção de água para seus rebanhos e também para a
agricultura.
Um total de 15 espécies (5%) foi registrado para este ambiente nas áreas
de influência da UHE Quebra Queixo (Figura 7.2). São exemplos deste ambiente:
141
7. Aves
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Podilymbus podiceps (mergulhão), Egretta thula (garça-branca-pequena),
Amazonetta brasiliensis (marreca-de-pé-vermelho), Laterallus melanophaius
(pinto-d’água-avermelhado), Gallinula chloropus (frango-d’água), Jacana
jacana (jaçanã) e Certhiaxis cinnamomeus (curutié).
Beira de Rio
Algumas espécies encontram-se na maior parte do tempo na beira de rios
e córregos. As áreas de influência da UHE Quebra Queixo possuem grande
capacidade para abrigar estas espécies. Entretanto, a quantidade de poluentes
provenientes principalmente da agricultura, que são lançados nos cursos d’água
aumenta a chance de intoxicação para este grupo de aves. Alguns trechos, principalmente próximos ao rio Chapecó, não possuem mata ciliar, o que pode comprometer também a atividade dessas aves. Para essas espécies será positiva a
manutenção da faixa ciliar de 100 m ao longo do reservatório pós-enchimento.
Foram registradas 11 espécies (4% do total) que podem ocupar este ambiente na UHE Quebra Queixo (Figura 7.2). Entre elas estão: Phalacrocorax
brasilianus (biguá), Ardea alba (garça-branca-grande), Nycticorax nycticorax
(savacu), Crotophaga major (anu-coroca) e Megaceryle torquata (martim-pescador-grande).
Áreas Antrópicas
Entende-se por áreas antrópicas aqueles ambientes com significativa intervenção humana. Incluem-se aqui aqueles com características rurais, como:
agropecuária e agricultura, além de áreas desflorestadas. Grande parte da área
de estudo encontra-se atualmente desflorestada, apresentando uma vegetação
em estágio inicial (herbáceo ou arbustivo) de regeneração.
Um total de 81 espécies (29% do total) foi registrado para este ambiente
nas áreas de influência da UHE Quebra Queixo (Figura 7.2). Algumas espécies
indicadoras deste tipo de ambiente são: Coragyps atratus (urubu-comum),
Elanus leucurus (peneira), Vanellus chilensis (quero-quero), Columba livia (pombo-doméstico), Guira guira (anu-branco), Furnarius rufus (joão-de-barro),
Pitangus sulphuratus (bem-te-vi), Troglodytes musculus (corruíra) e Passer
domesticus (pardal).
Espécies Ameaçadas, Endêmicas e Raras
Algumas espécies levantadas na área de estudo possuem seu status de
conservação com algum grau de ameaça de extinção. As espécies Pipile jacutinga
(jacutinga) e Amazona vinacea (papagaio-de-peito-roxo) encontram-se na lista
142
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
das espécies brasileiras ameaçadas de extinção do Ibama13. Esta última, registrada no Parque Estadual das Araucárias tem seus filhotes surrupiados e
comercializados a cada ano segundo moradores e vizinhos ao parque. Tinamus
solitarius (macuco), Leucopternis polionotus (gavião-pombo-grande), Penelope superciliaris (jacupemba), Pipile jacutinga (jacutinga), Amazona vinacea
(papagaio-de-peito-roxo), Piculus aurulentus (pica-pau-dourado), Leptasthenura
setaria (grimpeiro), Hylopezus nattereri (pinto-do-mato), Phylloscartes eximius
(barbudinho), Xolmis dominicanus (viuvinha), Procnias nudicollis (araponga),
Amaurospiza moesta (negrinho-do-mato), Thraupis cyanoptera (sanhaçu-encontro-azul), Euphonia chalybea (cais-cais) e Cyanocorax caeruleus (gralhaazul) estão citadas na lista das espécies ameaçadas da IUCN14.
Outras 64 espécies levantadas neste trabalho são consideradas “raras ou
incomuns” para o estado catarinense6. São alguns exemplos: Anhinga anhinga
(biguatinga), Sarcoramphus papa (urubu-rei), Buteo albicaudatus (gavião-derabo-branco), Pulsatrix koeniswaldiana (murucututu-pequena), Dryocopus
lineatus (pica-pau-de-banda-branca), Myiopagis viridicata (guaracavaca-decrista-alaranjada), Cyanocompsa brissonii (azulão-verdadeiro) e Cissopis
leverianus (tié-tinga).
São significativas também as ocorrências das espécies Brotogeris tirica
(periquito-verde), Hylopezus nattereri (pinto-do-mato), Attila rufus (capitãode-saíra) e Thraupis cyanoptera (sanhaçu-de-encontro-azul) por serem
endêmicas do território brasileiro10.
Espécies Exóticas, Sinântropas e Migratórias
São espécies reconhecidamente exóticas da fauna brasileira: Bubulcus
ibis (garça-vaqueira), Columba livia (pombo-doméstico) e Passer domesticus
(pardal). Estas espécies habitam especialmente áreas antrópicas.
Dentre as espécies sinântropas (associadas ao homem) registradas neste
estudo destacam-se Coragyps atratus (urubu-comum), Vanellus chilensis (quero-quero), Columbina picui (picuí), C. talpacoti (rolinha-roxa), Furnarius rufus
(joão-de-barro), Troglodytes musculus (corruíra), Coereba flaveola (cambacica)
e Passer domesticus (pardal).
Espécies que possuem deslocamentos sazonais ou migratórios reconhecidos são: Elanoides forficatus (gavião-tesoura), Ictinia plumbea (sovi),
Coccyzus melacoryphus (papa-lagarta), Streptoprocne zonaris (andorinhãocoleira), Cnemotriccus fuscatus (guaracavuçu), Vireo olivaceus (juruviara),
Pyrocephalus rubinus (príncipe), Syristes sibilator (suiriri-assobiador), Tyrannus
143
7. Aves
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
melancholicus (suiriri), Tyrannus savana (tesourinha), Petrochelidon pyrrhonota
(andorinha-de-sobre-acanelado), entre outras.
Registros Significativos
Além da presença das espécies ameaçadas, endêmicas ou raras, foram
também considerados importantes registros neste estudo os novos dados de
distribuição de 45 espécies confirmadas para o oeste do estado catarinense,
sendo estas: Bubulcus ibis (garça-vaqueira), Leptodon cayanensis (gavião-decabeça-cinza), Accipiter striatus (gaviãozinho), Cairina moschata (pato-domato), Penelope superciliaris (jacupemba), Pardirallus nigricans (saracuraanã), Aramides cajanea (três-potes), Laterallus melanophaius (pinto-d’águaavermelhado), Gallinago paraguaiae (narceja), Geotrygon montana (pariri),
Pionopsitta pileata (cuiú-cuiú), Coccyzus melacoryphus (papa-lagarta),
Megascops choliba (corujinha-do-mato), Pulsatrix koeniswaldiana (murucututupequena), Strix hylophila (coruja-listrada), Rhinoptynx clamator (coruja-orelhuda), Lurocalis semitorquatus (tuju), Hydropsalis torquata (bacurau-tesoura), Streptoprocne biscutata (andorinhão-coleira-falha), Baryphthengus
ruficapillus (juruva), Ramphastos vitellinus (tucano-de-bico-preto), Melanerpes
flavifrons (benedito), Piculus aurulentus (pica-pau-dourado), Xiphocolaptes
albicollis (arapaçu-grande-garganta-branca), Lepidocolaptes fuscus (arapaçurajado), Philydor rufum (limpa-folha-de-testa-baia), Sclerurus scansor (virafolha), Pyriglena leucoptera (papa-taoca), Scytalopus speluncae (tapaculo-preto), Myiopagis viridicata (guaracava-de-crista-alaranjada), Serpophaga
nigricans (joão-pobre), Mionectes rufiventris (supi-de-cabeça-cinza),
Cnemotriccus fuscatus (guaracavuçu), Pyrocephalus rubinus (príncipe), Attila
rufus (capitão-de-saíra), Pachyramphus castaneus (caneleirinho), Habia rubica
(tié-do-mato), Piranga flava (sanhaçu-de-fogo), Thraupis palmarum (sanhaçude-coqueiro), Euphonia chalybea (cais-cais), Dacnis cayana (saí-azul),
Phaeothlypis rivularis (pupa-pula-ribeirinho), Cacicus haemorrhous (guaxe),
Icterus cayanensis (encontro) e Agelaioides badius (asa-de-telha).
7.3. Conservação
De forma geral, a degradação dos ambientes naturais, seja no estado
catarinense ou no Brasil, é a principal causa de ameaça as comunidades
avifaunísticas. A cada ano, novos espaços naturais vêm sendo ocupados por
atividades humanas, principalmente a agricultura e pecuária, exigindo uma
plasticidade a perturbações ambientais que muitas espécies podem não apresentar.
144
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
De forma geral, o ambiente florestal é o que mais se encontra ameaçado,
restando atualmente pouquíssimas áreas intactas representativas. Desta forma,
dentre as espécies de aves que ocupavam a área de influência direta da UHE
Quebra Queixo, o grupo que, provavelmente, sofreu os maiores impactos negativos diretos da implantação do empreendimento foram aquelas do ambiente
florestal e de borda de floresta, representando cerca de 60% da riqueza total
registrada.
A fragmentação e a supressão do ambiente florestal, entre outros problemas, dificultam a sobrevivência de várias espécies de aves, mesmo tendo estes
organismos um poder de deslocamento, em geral, facilitado pelo vôo. Além
disso, a falta de ambientes florestados próximos, ou mesmo a sua severa redução, impõe a estas espécies um poder de colonização maior do que o esperado.
E mesmo que tenham sucesso, a nova área ocupada irá possuir um adensamento
de indivíduos com diversas conseqüências negativas, em especial, na predação
e competição intra e interespecífica. Este fator é agravado para o grupo de espécies que ocupam o estrato de sub-bosque e herbáceo e que possuem pouco
poder de deslocamento15.
Os estudos preliminares e o monitoramento pré-enchimento favoreceram a compreensão do uso dos ambientes pela avifauna, permitindo o reconhecimento de áreas críticas para as espécies, dados cruciais para o sucesso das
etapas de supressão vegetal e resgate durante o enchimento do reservatório.
Além disso, a criação do Parque Estadual das Araucárias, como medida compensatória do empreendimento, procurou resguardar ecossistemas ameaçados,
assegurando a conservação da avifauna e promovendo a conscientização das
comunidades locais.
7.4. Referências Bibliográficas
1. Naka, L.N. & Rodrigues, M. 2000. As aves da Ilha de Santa Catarina. Editora
da UFSC, Florianópolis.
2. Bierregaard, R.O., Jr. & Lovejoy, T.E. 1989. Effects of forest fragmentation on
Amazonian understory bird communities. Acta Amazônica 19: 215-241.
3. Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO). 2007. Lista das aves do
Brasil. Versão 16/08/2007. Disponível em: <http://www.ib.usp.br/cbro>.
Acessado em 01/09/2007.
4. Stotz; D.F.; Fitzpatrick J.W.; Parker T.A. & Moskovits, D.V. 1996. Neotropical
Birds. Ecology and Conservation. The University of Chicago Press, Chicago
and London.
145
7. Aves
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
5. Sick, H.; Rosário, L.A. & Azevedo, T.R. 1981. Aves do Estado de Santa Catarina:
lista sistemática baseada em bibliografia, material de museu e observação de
campo. Sellowia 1: 1-51.
6. Rosário, L.A. 1996. As aves em Santa Catarina: distribuição geográfica e
meio ambiente. FATMA, Florianópolis.
7. Straube, F.C. 1988. Contribuições ao conhecimento da avifauna da região sudoeste do estado do Paraná (Brasil). Biotemas 1 (1): 63-75.
8. Belton, W. 1994. Aves do Rio Grande do Sul: distribuição e biologia.
UNISINOS, São Leopoldo.
9. Bencke, G.A. 2001. Lista de referência das aves do Rio Grande do Sul. FZBRS,
Porto Alegre.
10. Sick, H. 1997. Ornitologia brasileira. Nova Fronteira, Rio de Janeiro.
11. Narosky, T.Y. & Yzurieta, D. 1987. Guía para la identificación de las aves de
Argentina y Uruguay. Vazques Mazzini Editores, Buenos Aires.
12. Souza, D. 1998. Todas as aves do Brasil — Guia de campo para identificação. Dall, Feira de Santana.
13. MMA/IBAMA. 2003. Lista da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção.
Disponível em: <http://www.mma.gov.br/port/sbf/fauna>. Acessado em 12 de
outubro de 2003.
14. IUCN 2003. 2003 IUCN Red List of Threatened Species. Disponível em:
<http://www.redlist.org>. Acessado em 15 de novembro de 2003.
15. Wiens, J.A. 1989. The Ecology of Bird Communities: Foundations and
patterns. Vol I. Cambridge University Press, Cambridge.
146
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Crypturellus obsoletus
inhambuguaçu
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Penelope obscura
jacu-açu
Foto: armadilha fotográfica
Foto: Jorge J. Cherem
Geotrygon montana
pariri
Athene cunicularia
coruja-do-campo
Foto: Marcos A.G. Azevedo
Foto: Jorge J. Cherem
Megascops choliba
corujinha-do-mato
Lurocalis semitorquatus
tuju
Foto: Jorge J. Cherem
Foto: Marcos A.G. Azevedo
147
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
7. Aves
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Baryphthengus ruficapillus
juruva
Ramphastos dicolorus
tucano-de-bico-verde
Foto: Marcos A.G. Azevedo
Foto: Ivo R.Ghizoni-Jr.
Basileuterus culicivorus
pula-pula
Conopophaga lineata
chupa-dente
Foto: Marcos A.G. Azevedo
Foto: Marcos A.G. Azevedo
○
○
○
Coryphospingus cucullatus
tico-tico-rei
Tachyphonus coronatus (fêmea)
tié-preto
Foto: Jorge J. Cherem
Foto: Marcos A.G. Azevedo
148
○
○
○
○
○
○
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Sturnella superciliaris
polícia-inglesa
Amaurospiza moesta
negrinho-do-mato
Foto: Jorge J. Cherem
Foto: Ivo R.Ghizoni-Jr.
○
○
○
Pyrocephalus rubinus
prícipe
Mackenziaena leachii
brujarara-assobiador
Foto: Ivo R.Ghizoni-Jr.
Foto: Ivo R.Ghizoni-Jr.
Hemithraupis guira
saíra-de-papo-preto
Turdus leucomelas
sabiá-barranco
Foto: Ivo R.Ghizoni-Jr.
Foto: Marcos A.G. Azevedo
149
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
8. MAMÍFEROS
Jorge J. Cherem
CAIPORA Cooperativa para Conservação da Natureza,
R. Deodoro, 226/1003, Centro - 88.010-020, Florianópolis, SC
ETS Energia, Transporte e Saneamento LTDA.,
R. Felipe Schmidt, 315/301, Centro - 88.010-000, Florianópolis, SC
Sérgio L. Althoff
Depto. Ciências Naturais, Fundação Universidade Regional de Blumenau,
R. Antônio da Veiga, 140, Victor Konder - 89010-971 - Blumenau, SC
Rafael C. Reinicke
Depto. Ecologia e Zoologia, Universidade Federal de Santa Catarina,
Trindade, CP 476 - 88040-970 - Florianópolis, SC
Os mamíferos constituem um grupo de vertebrados de ampla distribuição geográfica, ocupando diversos ambientes, dos pólos aos trópicos e dos topos das montanhas às profundezas dos mares, e apresentam grande variedade
de formas e hábitos. Dentre suas principais características destacam-se a presença de pêlos, glândulas sebáceas, sudoríparas e mamárias, a endotermia (produção de calor metabólico para elevação e manutenção da temperatura corporal), a heterodontia (dentição modificada para diferentes funções) e a difiodontia
(duas dentições ao longo de sua vida), a placenta, um diafragma muscular (entre as cavidades torácica e abdominal), entre outras. Em muitas espécies, algumas dessas características foram secundariamente modificadas1,2,3.
A classe Mammalia (ou dos mamíferos) é composta por 4.629 espécies
recentes distribuídas em 136 famílias4. No Brasil, ocorrem 46 famílias com 524
espécies, o que faz do país o mais rico em espécies de mamíferos do mundo5.
Este número continua aumentando, à medida que novas espécies vão sendo
descritas6,7. No entanto, como conseqüência da alteração dos ecossistemas nativos, são reconhecidas oficialmente 69 espécies e subespécies de mamíferos
brasileiros ameaçadas de extinção8, sendo possível que 25% dos mamíferos no
país estejam sob ameaça5.
151
8. Mamíferos
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Os problemas ambientais, como desmatamento e fragmentação florestal,
são particularmente graves no oeste de Santa Catarina. Nesta região, muito
pouco é conhecido sobre a mastofauna, restringindo-se a registros de alguns
exemplares depositados em coleção ou mencionados brevemente na literatura.
Em função disto, a divulgação de resultados obtidos em estudos de avaliação
ambiental torna-se de fundamental importância, principalmente no caso de estudos em longo prazo, que permitem uma amostragem mais adequada da
mastofauna de uma região9.
8.1. Métodos
O estudo dos mamíferos foi desenvolvido de outubro de 2000 a março de
2003 nas áreas de influência direta (AID) e indireta (AII) da UHE Quebra Queixo.
Neste período, os registros de mamíferos foram obtidos pelos seguintes métodos: (1) entrevistas; (2) observação direta de animais e vestígios; (3) armadilhas para captura de pequenos mamíferos; (4) redes de neblina para captura de
morcegos; (5) armadilhas de queda. Nenhum registro de mamífero foi encontrado na literatura ou em coleções científicas para São Domingos, Ipuaçu ou
municípios vizinhos.
Entrevistas
As entrevistas foram realizadas com moradores locais e empregados da
obra. Os entrevistados foram indagados sobre as espécies de mamíferos existentes nas áreas de influência da UHE Quebra Queixo. Em alguns casos, para
esclarecer dúvidas, pediu-se uma descrição do animal e das características que
o distinguem de outros animais semelhantes e, se necessário, foram utilizadas
fotos10. Moradores locais mais antigos e que demonstraram um conhecimento
maior sobre o grupo foram também questionados sobre espécies extintas e raras localmente.
A identificação das espécies citadas nas entrevistas foi feita com base na
distribuição conhecida dos táxons para as áreas de influência da UHE Quebra
Queixo10,11,12 e com base nos resultados obtidos pelos demais métodos utilizados neste estudo.
Entrevistas são particularmente efetivas para o registro de mamíferos bem
conhecidos pela população. Em geral, fornecem bons resultados para espécies
de médio e grande porte (e.g., gambá, tamanduá, graxaim, mão-pelada e
capivara), devendo-se tomar cuidado com nomes comuns aplicados a espécies
proximamente relacionadas: por exemplo, algumas pessoas afirmaram que um
152
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
morador de São Domingos havia capturado e mantinha em casa uma jaguatirica
(nome comum geralmente aplicado a Leopardus pardalis), mas, na realidade,
tratava-se de um Leopardus tigrinus, um gato-do-mato-pequeno. As várias espécies de pequeno porte (e.g., pequenos marsupiais e roedores, morcegos) geralmente não são distinguidas, exceto as de fácil visualização, que vivem próximas de construções humanas e/ou causam danos ao homem ou a seus produtos
(e.g., morcego-vampiro, esquilo, preá).
Observação direta e vestígios
Os registros por observação direta de mamíferos vivos ou mortos e seus
vestígios (pegadas e fezes) foram obtidos durante as caminhadas a pé ou com
veículo automotor, em diferentes horários do dia e noite. Os dados e a identificação dos táxons, de acordo com a forma de registro, foram tomados da seguinte forma:
Observação direta de animais vivos: registraram-se o táxon, data, horário
(nos meses em horário de verão foi utilizado o horário convencional), local,
número de indivíduos, comportamento (em deslocamento, em repouso, alimentando-se, etc.). A identificação foi feita conforme descrito nas entrevistas.
Observação direta de animais mortos: registraram-se o táxon, data, local
e causa de morte. A identificação foi feita conforme descrito nas entrevistas e
por comparação com material depositado nas coleções da UFSC e FURB.
Pegadas: registraram-se o táxon13, data e local. Foram consideradas confirmadas quanto à espécie apenas as pegadas identificadas com alto grau de
confiabilidade como nos casos de Chironectes minimus, Didelphis albiventris,
Procyon cancrivorus, Hydrochoerus hydrochaeris, entre outros. Caso as pegadas pudessem ser atribuídas a mais de uma espécie com distribuição esperada
para a região11,12, a identificação foi feita em nível de gênero (e.g., Dasypus e
Mazama) ou família (e.g., Canidae e Felidae).
Fezes: registraram-se o táxon, data e local. A identificação de espécies
por fezes foi considerada apenas para a lontra e a capivara10. Além dessas, foram encontradas com freqüência fezes com grande quantidade de pêlos, atribuídas a felinos, e outras com frutos e insetos, possivelmente de cachorros-domato (Cerdocyon thous).
Os outros vestígios encontrados, como tocas, vocalizações de morcegos
e alimentos parcialmente comidos, não permitiram a identificação em nível de
espécie ou gênero e não foram considerados aqui.
153
8. Mamíferos
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Sempre que possível, os registros foram fotografados com uma escala
para posterior confirmação ou correção da identificação.
Armadilhas para captura de pequenos mamíferos
O registro de pequenos mamíferos (animais com peso médio adulto inferior a 1kg) foi realizado através de transecções de armadilhas para captura em
diferentes formações vegetais. As armadilhas usadas permitiram também a captura de gambás (Didelphis albiventris), uma espécie de médio porte (peso adulto médio entre 1 e 10kg).
Ao longo das transecções, a distância entre cada armadilha variou de 5 a
15 metros. Foram utilizadas armadilhas do tipo gaiola (live traps) de arame,
pequenas (10 x 15 x 26cm) e médias (18 x 18 x 45cm), do tipo sherman (12 x 12
x 22cm) e havahart (45,7 x 12,7 x 12,7cm), armadas no solo e, no caso das
primeiras, também no sub-bosque, amarradas em troncos, galhos ou bambuzais,
entre 1 e 2 metros de altura. O esforço total de captura foi de 5.690 armadilhasnoite e o sucesso de captura de 6,84%.
Como iscas foram utilizados pedaços de frutas (e.g., rodelas de banana
ou de milho) com ou sem pasta de amendoim; verduras; uma massa feita com
farinha de trigo, paçoca de amendoim e sardinha; pedaços de carne ou fatias de
bacon.
Os primeiros indivíduos capturados de cada espécie foram coletados para
identificação taxonômica e análise citogenética. Alguns exemplares foram
coletados para análise de hantavírus pelo Instituto Oswaldo Cruz, Rio de
Janeiro14.
Redes de neblina para captura de morcegos
Para a captura de morcegos, foram utilizadas redes de neblina (mist nets)
de 7 a 18 metros de largura. As redes foram dispostas em bordas e no interior de
áreas florestadas, ao longo de ou transversalmente a trilhas, armadas no final da
tarde e desarmadas entre às 22:00 e 24:00h, conforme as condições do tempo e
o número de capturas. Depois de armadas, as redes eram verificadas a cada 15
ou 20 minutos. O esforço total de captura foi de 87,5h, com 2.610m² de redesnoite.
Armadilhas de queda
O uso de armadilhas de queda (pit fall) permite a captura de animais
terrestres (e.g., marsupiais do gênero Monodelphis) que não costumam entrar
154
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
em armadilhas do tipo gaiola9. Esta técnica consiste em se criar uma barreira
(lona enterrada a cerca de 5cm no substrato, com 0,5m de altura e comprimento
variável) ao deslocamento de animais que são conduzidos a baldes enterrados
no solo ao longo da barreira, servindo como receptores para os animais.
Por demandar grande esforço, uma vez que o solo na região é muito pedregoso, armadilhas de queda foram utilizadas apenas em duas oportunidades,
na área de influência direta em Ipuaçu. De 17 a 20 de fevereiro de 2001, cinco
armadilhas foram armadas em área de campo e borda de mata. Cada armadilha
continha quatro baldes de 20 litros, separados quatro metros um do outro e
dispostos em L. De 17 a 30 de abril de 2002, uma linha de 140 metros, com 13
baldes de 20 litros, foi armada na borda de uma mata.
O único mamífero capturado nessas armadilhas foi um Akodon sp., em
30/04/02. Esse sucesso de captura muito baixo é, pelo menos em parte, atribuído ao curto período de amostragem e ao pequeno volume dos baldes, apesar de
a captura de Necromys lasiurus, Oxymycterus sp. e Monodelphis sp. ser esperada a princípio.
Identificação e Depósito em Coleção
De um modo geral, a identificação dos táxons foi feita por comparação
com material das coleções da FURB e UFSC e com base na bibliografia10,15,16,17.
A identificação dos roedores cricetídeos baseou-se também em dados
citogenéticos dos animais coletados (Ives Sbalqueiro, comunicação pessoal).
Devido às similaridades morfológicas e cariotípicas entre Akodon reigi González
et al., 1998 e Akodon paranaensis Christoff et al., 2000, estas espécies foram
consideradas sinônimas18.
A nomenclatura e ordem taxonômica seguiram Wilson & Reeder4, exceto
no caso das espécies domésticas19, Cebus nigritus20, Herpailurus yagouaroundi21,
Mazama gouazoubira22, roedores cricetídeos23, Hydrochoerus hydrochaeris24 e
Cuniculus paca24.
O material coletado foi depositado nas coleções de mamíferos da Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB), em Blumenau, Santa Catarina,
e do Departamento de Ecologia e Zoologia da Universidade Federal de Santa
Catarina (UFSC), em Florianópolis, Santa Catarina.
155
8. Mamíferos
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
8.2. Os Mamíferos da UHE Quebra Queixo
Para a área de influência direta da UHE Quebra Queixo, foram registradas
45 espécies de mamíferos nativos (Tabela 8.1). Além dessas, ocorrem quatro
espécies exóticas: Mus musculus Linnaeus, 1758 (camundongo-doméstico),
Rattus rattus (Linnaeus, 1758) (rato-preto), Rattus norvegicus (Berkenhout,
1769) (ratazana) e Lepus europaeus Pallas, 1778 (lebre); e animais domésticos,
como Canis familiaris Linnaeus, 1758 (cachorro), Felis catus Linnaeus, 1758
(gato), Bos taurus Linnaeus, 1758 (boi) e Sus scrofa Linnaeus, 1758 (porco),
entre outros. Outras nove espécies nativas foram registradas apenas para a área
de influência indireta (Tabela 8.1).
Tabela 8.1. Lista dos mamíferos nativos registrados para as áreas de influência indireta
(AII) e direta (AID) da UHE Quebra Queixo, municípios de São Domingos e
Ipuaçu, Santa Catarina, no período de outubro de 2000 a março de 2003. C =
captura; E = entrevista; O = observação; V = vestígio.
Táxon
Didelphidae
Chironectes minimus
Didelphis albiventris
Gracilinanus microtarsus
Monodelphis sp.
Philander frenatus
Dasypodidae
Cabassous tatouay
Dasypus novemcinctus
Dasypus septemcinctus
Euphractus sexcinctus
Myrmecophagidae
Tamandua tetradactyla
Phyllostomidae
Chrotopterus auritus
Sturnira lilium
Vespertilionidae
Dasypterus ega
Eptesicus brasiliensis
Eptesicus furinalis
Myotis nigricans
Myotis riparius
Molossidae
Cynomops abrasus
Tadarida brasiliensis
Atelidae
Alouatta sp.
Cebidae
Nome comum*
AII
AID
raposinha-d’água, (cuíca-d’água)
raposa, gambá
guaiquica
(catita)
(cuíca)
E
EOV
E
V
CEOV
CO
C
C
tatu-de-rabo-mole
tatu-galinha, itê
tatu-mulita
tatu peludo
E
EOV
E
E O**
EV
EOV
EO
E
tamanduá
E
morcego
morcego
C
C
morcego
morcego
morcego
morcego
morcego
C
C
C
C
C
morcego
morcego
C
C
bugio
E
156
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
* São apresentados os nomes comuns citados em entrevista e, entre parênteses, conforme Fonseca et al.5.
** Um E. sexcinctus foi encontrado atropelado no município de Abelardo Luz, vizinho a São Domingos, mas fora da área de
influência indireta da UHE Quebra Queixo.
157
8. Mamíferos
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Com relação à forma de locomoção5, a maior parte das espécies é terrestre, seguidas pelas escansoriais, voadoras e semi-aquáticas. Quanto à dieta5, a
maioria é insetívora-onívora, seguidas pelas carnívoras e frugívoras-onívoras
(Tabela 8.2).
A maior parte das espécies nativas (n = 25; 55,6%) registradas na área de
influência direta é de pequeno porte (peso médio adulto inferior a 1kg); 40%
das espécies (n = 18) são de médio porte (peso médio adulto entre 1 e 10kg) e
apenas 4,4% (n = 2) são de grande porte (peso médio adulto superior a 10kg).
Considerando os dados das áreas de influência direta e indireta juntos, 50% (n
= 27) são de pequeno porte, 40,7% (n = 22) de médio porte e 9,3% (n = 5) de
grande porte.
Tabela 8.2. Dieta e o hábito locomotor dos mamíferos da UHE Quebra Queixo, municípios
de São Domingos e Ipuaçu, Santa Catarina. AID = área de influência direta; AII
= área de influência indireta. Dieta: CA = carnívoro; FG = frugívoro-granívoro;
FH = frugívoro-herbívoro; FO = frugívoro-onívoro; HPa = herbívoro-pastador;
HPo = herbívoro-podador; IN = insetívoro; IO = insetívoro-onívoro; MI =
mirmecófago. Locomoção: AR = arborícola; ES = escansorial; SA = semiaquático; SF = semifossorial; TE = terrestre; VO = voador.
Dieta
CA
FG
FH
FO
HPa
HPo
IN
IO
MI
Total
AID
n
7
3
5
7
3
3
5
11
1
45
%
15,55
6,7
11,1
15,55
6,7
6,7
11,1
24,4
2,2
100%
AID+AII
n
%
8
14,8
3
5,6
8
14,8
8
14,8
3
5,6
3
5,6
7
12,9
12
22,2
2
3,7
54
100%
Locomoção
AR
ES
SA
SF
TE
VO
Total
AID
n
4
9
6
4
15
6
45
%
8,9
33,3
13,3
20,0
8,9
15,6
100%
AID+AII
n
%
6
11,1
10
35,2
6
11,1
4
18,5
18
7,4
7
16,7
54
100%
Espécies Registradas
Chironectes minimus (Zimmermann, 1780) (raposinha-d’água, cuíca-d’água):
marsupial semi-aquático e carnívoro, facilmente reconhecido pelo seu
padrão de coloração (dorso negro com quatro listras transversais cinzas
nos flancos) e pelos pés grandes com membranas interdigitais. O comprimento total (CT) dos adultos varia de 645 a 745mm e o peso, de 600 a
790g5,25.
Pegadas de C. minimus foram encontradas às margens do rio Chapecó e
do arroio Rosinha, na AID.
158
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Didelphis albiventris Lund, 1840 (raposa, gambá): marsupial de pelagem densa com pêlos longos e claros. Possui três faixas longitudinais escuras na
cabeça, uma mediana e duas passando pelos olhos. É frugívoro-onívoro,
escansorial e ocorre em diversos ambientes, incluindo áreas urbanas ou
rurais. Os adultos podem alcançar um metro de comprimento total e mais
de 2kg de peso5,10,26.
D. albiventris foi encontrado com freqüência nas áreas de influência da
UHE Quebra Queixo. Fêmeas com filhotes na bolsa foram capturadas
em 12/10/01 e 30/11/02 e uma fêmea, encontrada atropelada em 23/10/
00, possuía quatro filhotes, cada um com cerca de 20cm de comprimento
total. Indivíduos jovens foram capturados em armadilhas no chão, em 30/
11/01, 01 e 02/12/01, 26 a 28/02/02 e 30/11/02, e em armadilhas no subbosque, em 27/02/02 e 01/03/02. Durante o enchimento do reservatório,
em março/2003, apenas dois gambás foram avistados.
Gracilinanus microtarsus (Wagner, 1842) (guaiquica): pequeno marsupial de
coloração geral castanho-avermelhada, de hábito arborícola e insetívoroonívoro. Adultos: CT = 221 a 256mm; peso = cerca de 30g5,26.
Na AID, duas guaiquicas foram capturadas em armadilhas no chão (13/
08/01 e agosto/02) e outra em armadilha no sub-bosque (11/10/01), todas
em áreas florestadas. Durante o desmatamento do reservatório, um indivíduo foi coletado manualmente após a derrubada de uma árvore, em 04/
08/02, e outros seis foram coletados juntos em um oco de árvore, em 13/
08/02. Foram resgatados 43 indivíduos em ilhas temporárias com capim
alto durante o enchimento do reservatório, em março/2003.
Monodelphis sp. (catita): pequeno marsupial de coloração castanho-avermelhado-escura. Diferentemente dos outros didelfídeos, apresenta a cauda muito mais curta do que o comprimento da cabeça e corpo. É insetívoroonívoro e terrestre. Adultos: CT = cerca de 100mm; peso = 20g5,26.
Na UHE Quebra Queixo, apenas um indivíduo desta espécie foi capturado em uma armadilha do tipo sherman, em julho/02. Outros cinco indivíduos foram coletados durante o enchimento do reservatório (março/2003).
Philander frenatus (Olfers, 1818) (cuíca): apresenta uma coloração geral
acinzentada, com uma mancha branca característica acima de cada olho.
É insetívoro-onívoro e escansorial, ocorrendo preferencialmente próximo a cursos de água. Adultos: CT = 395 a 686mm; peso = 200 a 674g5,10,26.
Apenas cinco P. frenatus foram capturados em áreas florestadas (fevereiro/2001 e março-abril/2002) na AID. Dois jovens foram capturados em
armadilhas no sub-bosque, em 26/02/02 e 01/03/02.
159
8. Mamíferos
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Cabassous tatouay (Desmarest, 1804) (tatu-de-rabo-mole): é facilmente distinguido das outras espécies de tatus na região por não apresentar a armadura completa com escudos ósseos na cauda. É mirmecófago e possui hábitos semifossoriais. Adultos: CT = 560 a 690mm; peso = 3,4 a 6,4kg5,27.
O registro desta espécie na UHE Quebra Queixo foi feito por entrevistas
e por uma pegada, encontrada na área de influência direta, em Ipuaçu.
Dasypus novemcinctus Linnaeus, 1758 (tatu-galinha, itê): possui uma carapaça
bastante convexa e lateralmente comprimida. O número de cintas móveis
varia de 8 a 11, sendo geralmente de 8 ou 9. A cabeça e o focinho são
alongados. É um animal terrestre e insetívoro-onívoro. Adultos: CT =
630 a 835mm; orelha = 36 a 50mm; peso = 2,65 a 4,70kg5,10,28,29.
Dois D. novemcinctus foram encontrados atropelados em São Domingos,
um em uma estrada próxima da área de influência direta e outro na BR
480, próximo do centro do município. Apenas em uma oportunidade (28/
11/01) avistou-se um tatu vivo.
Dasypus septemcinctus Linnaeus, 1758 (tatu-mulita): pequena espécie de tatu
(adultos: CT = 365 a 475mm; peso = 1,45 a 1,8kg), que apresenta 6 a 7
(raramente 8) cintas móveis na carapaça. É terrestre e insetívoro-onívoro. Distingue-se da outra espécie de mulita do sul do Brasil, D. hybridus
(Desmarest, 1804), pelo menor número de escudos na quarta cinta móvel
(43 a 50 contra 50 a 62) e pelo maior comprimento das orelhas (30 a
38mm contra 26 a 30mm)5,26,28,29.
Na AID, foi encontrada uma carapaça desta espécie, em 27/02/02, e um
indivíduo foi coletado durante o desmatamento da área do reservatório,
em 09/12/02.
Aparentemente os nomes tatu-de-casca-branca e tatu-de-casca-preta são
aplicados pelos moradores locais indistintamente às duas espécies
registradas de Dasypus.
Euphractus sexcinctus (Linnaeus, 1758) (tatu-peludo): apresenta pêlos duros e
proeminentes na carapaça, que apresenta de 6 a 7 cintas móveis. Possui
hábitos semifossoriais e é insetívoro-onívoro. Adultos: CT = 520 a 766
mm; peso = 3,2 a 6,5kg5,30.
Foi registrado para as áreas de influência da UHE Quebra Queixo apenas
por entrevistas, mas um exemplar foi encontrado atropelado, em 24/02/
02, em Abelardo Luz, município vizinho a São Domingos.
Tamandua tetradactyla (Linnaeus, 1758) (tamanduá): é facilmente reconhecido por sua coloração característica, amarelo-pálida e preta, formando um
160
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
colete. A cauda é semipreênsil, com a ponta nua. É um animal escansorial
e mirmecófago. Adultos: CT = 905 a 1.350mm; peso = 3,8 a 8,5kg5,10,26.
Na UHE Quebra Queixo, foi registrado apenas por entrevistas para a AII.
Chrotopterus auritus (Peters, 1856) (morcego): maior morcego do sul do Brasil. Possui asas bastante largas, orelhas grandes e separadas entre si, folha
nasal bem desenvolvida, cauda pequena e inclusa no uropatágio, que é
bem desenvolvido. A coloração do dorso varia do cinza-escuro ao marrom-escuro e o ventre é cinza mais claro. É carnívoro, alimentando-se de
vertebrados, como pequenos roedores e outros morcegos e eventualmente come insetos e frutos. Adultos: CT = 95 a 160mm; peso = 80 a 100g10,17,26.
Na AID, C. auritus foi capturado em rede na margem de São Domingos
11/04/01, às 21:00h, e em 09/08/01, às 19:00h.
Sturnira lilium (E. Geoffroy, 1810) (morcego): morcego frugívoro-onívoro, de
tamanho médio, sem uropatágio e cauda. Sua coloração é pardo-amarelada no dorso, mais clara no ventre. Os adultos possuem um tufo de pêlos
amarelos-dourados na altura dos ombros. Adultos: CT = 53 a 70mm; peso
= 12 a 28g10,17,26.
Na AID, S. lilium foi capturada em todas as campanhas de monitoramento
em que foram armadas redes. Duas fêmeas grávidas foram capturadas em
10/10/01.
Dasypterus ega (Gervais, 1856) (morcego): morcego insetívoro com orelhas
pequenas e arredondadas, cauda afilada e totalmente incluída no
uropatágio, que é bem desenvolvido e recoberto dorsalmente por pêlos
até a parte mediana. A coloração é acinzentada e pelagem abundante e
longa. Adultos: CT = 106 a 182mm; peso 10 a 20g10,17,26.
Um exemplar de D. ega foi capturado em rede, às margens do rio Chapecó,
em Ipuaçu (AII), em 28/02/02.
Eptesicus brasiliensis (Desmarest, 1819) (morcego): morcego insetívoro de tamanho médio, com focinho inchado e orelhas arredondadas nas pontas,
cauda afilada e totalmente incluída no uropatágio. A coloração do dorso é
marrom-escura. No ventre os pêlos são mais escuros, com as pontas amareladas. Adultos: CT = 100 a 120mm; peso = 10 a 12g10,17,26.
E. brasiliensis foi capturado em rede-de-neblina, durante os estudos preliminares para a avaliação da área proposta como Unidade de Conservação (atualmente Parque Estadual das Araucárias), em 28/04/02.
161
8. Mamíferos
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Eptesicus furinalis (d’Orbigny, 1847) (morcego): morcego insetívoro muito
semelhante a E. brasiliensis. Adultos: CT = 80 a 140mm; peso = 10 a
14g17,26.
Na AID, E. furinalis foi capturado em rede-de-neblina, na margem de
São Domingos, em 29 e 30/11/01.
Myotis nigricans (Schinz, 1821) (morcego): morcego insetívoro muito pequeno, com cauda afilada e totalmente incluída no uropatágio. Sua coloração
é marrom-escura, mais clara no ventre. Adultos: CT = 65 a 92mm; peso =
5 a 8g10,17,26.
M. nigricans foi capturado em rede-de-neblina, em 09 e 10/08/01 e em
29/11/01, na AID.
Myotis riparius (Handley, 1960) (morcego): morcego insetívoro muito pequeno, com cauda afilada e totalmente incluída no uropatágio, que apresenta
uma pequena franja de pêlos claros. Sua coloração é marrom, com a base
dos pêlos mais escura e as pontas amareladas. A coloração é mais clara
no ventre. Adultos: CT = 42 a 47mm; peso = 5 a 6g17,26.
M. riparius foi capturado em rede-de-neblina, na margem de São Domingos, em 10/08/01 e em 01/03/02, na AID.
Cynomops abrasus (Temmincki, 1827) (morcego): morcego insetívoro com
focinho longo, orelhas arredondadas, largas e muito próximas. A cauda é
longa e ultrapassa o uropatágio. Possui coloração castanho-avermelhada,
com as orelhas e asas mais escuras. Adultos: CT = 90 a 130mm; peso =
27 a 42g17,31.
Um exemplar foi encontrado preso entre rochas após a derrubada de uma
árvore, durante o desmatamento da área do canteiro de obras, em Ipuaçu,
em 08/04/01.
Tadarida brasiliensis (I. Geoffroy, 1824) (morcego): morcego insetívoro de
orelhas grandes e próximas entre si, lábios superiores com grandes sulcos ou verrugas e cauda longa, ultrapassando o uropatágio A cor geral
varia do cinza escuro ao marrom escuro. Adultos: CT = 87 a 114mm;
peso = 9 a 19g10,26.
Um indivíduo foi capturado por moradores de São Domingos, na AID,
durante o desmanche de uma velha olaria, em 10/08/01.
Alouatta sp. (bugio): primata arborícola e frugívoro-herbívoro. Os machos
emitem sons fortes e roucos que podem ser ouvidos a quilômetros de
162
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
distância. Vivem geralmente em pequenos grupos chefiados por um macho adulto. Duas espécies ocorrem no oeste do estado, A. guariba e A.
caraya. Adultos: CT = 970 a 1.840mm; peso = 7 a 9kg5,10,26.
Na UHE Quebra Queixo, foi citado em entrevistas apenas para uma floresta de araucárias, próxima do centro urbano de São Domingos.
Cebus nigritus (Goldfuss, 1809) (mico, macaco): possui uma coloração geral
escura, de castanho-amarelada a preta. São irrequietos e vivem em grupos de vários animais. Costumam emitir guinchos e assobios, muito característicos. É arborícola e frugívoro-onívoro. Adultos: CT = cerca de
860mm; peso = 2 a 4kg5,10.
Também registrado apenas por entrevistas para a AII. Um grupo com
pelo menos três indivíduos foi visto no Parque Estadual das Araucárias,
em julho/2002.
Cerdocyon thous (Linnaeus, 1766) (graxaim, cachorro-do-mato): canídeo
insetívoro-onívoro, com uma coloração geral mesclada de cinza-claro e
castanho com uma faixa dorsal negra. As patas são negras. Adultos: CT =
1.000 a 1.120mm; peso = cerca de 5kg5,10.
Na AID, graxains solitários foram avistados em várias ocasiões, entre
18:50h e 23:30h. Nove graxains foram encontrados atropelados, em rodovias pavimentadas ou não, nos municípios de São Domingos e Ipuaçu.
Herpailurus yagouaroundi (É. Geoffroy, 1803) (gato-mourisco, jaguarundi):
espécie de gato-do-mato facilmente distinta das demais por sua coloração uniforme (avermelhado, cinza ou preto). É terrestre e carnívoro,
alimentando-se de pequenos roedores, aves e répteis. Adultos: CT = 790
a 1.250mm; peso = 2,7 a 7,6kg26,32.
Três indivíduos (um maior e dois menores) foram avistados juntos atravessando uma estrada interna do canteiro de obras durante o enchimento
do reservatório, em 14/03/03, às 10:40h.
Leopardus tigrinus (Schreber, 1775) (gato-do-mato, jaguatirica): pequeno gatodo-mato que ocorre em uma ampla variedade de habitats. É escansorial e
carnívoro, alimentando-se de pequenos mamíferos, aves, lagartos e insetos. Adultos: CT = 676 a 859mm; peso = 2 a 2,5kg32.
Um L. tigrinus, capturado em São Domingos por moradores locais, foi
solto pela Polícia Ambiental próximo do local de captura. Outro foi resgatado durante o desmatamento da área do reservatório, em 15/10/02, às
9:30h, e solto no Parque Estadual das Araucárias no mesmo dia. Um
163
8. Mamíferos
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
terceiro foi encontrado morto na AID, por dois cachorros-domésticos,
segundo um entrevistado.
Puma concolor (Linnaeus, 1771) (puma, leão): segundo maior felino das Américas. Sua coloração é uniforme e varia do castanho-amarelado ao castanho-avermelhado e ao cinza. É terrestre, podendo eventualmente subir
em árvores, e carnívoro, alimentando-se em grande parte de mamíferos
de médio porte. Adultos: CT = 1.369 a 2.285mm; peso = 22,7 a 73,8kg26,32.
O registro de puma foi feito por entrevistas para AII.
Lontra longicaudis (Olfers, 1818) (lontra): mustelídeo de hábitos semi-aquáticos e carnívoros, alimentando-se principalmente de peixes, crustáceos e
moluscos. Apresenta uma pelagem muito densa e curta, castanhoacinzentada, com uma mancha esbranquiçada a amarelada na garganta.
Adultos: CT = 890 a 1.200mm; peso = 5 a 15kg10,33.
Na AID, um rastro de lontra foi encontrado às margens do rio Chapecó,
em Ipuaçu, em 12/10/01. Segundo moradores locais, as lontras aparecem
apenas ocasionalmente na região, no auge do verão.
Conepatus chinga (Molina, 1782) (zorrilho): mamífero facilmente reconhecível por sua coloração, que varia do castanho-escuro ao preto, e possui
duas listras brancas finas na parte anterior do dorso. Apresenta duas glândulas perianais grandes que produzem uma substância de forte mau cheiro. É terrestre e insetívoro-onívoro. Adultos: CT = 400 a 665mm; peso =
1 a 2,2kg5,10,26.
O zorrilho foi citado em entrevistas como raro na AII.
Eira barbara (Linnaeus, 1758) (irara): apresenta uma coloração variável, do
castanho ao preto, e a cabeça e a nuca são caracteristicamente mais claras
(cinza-amarelada). As patas longas e as unhas fortes. É escansorial e carnívora, mas alimenta-se também de frutos e mel. Adultos: CT = 959 a
1.115mm; peso = cerca de 4 a 5kg5,10,26.
Rastros de E. barbara foram registradas nas estradas da AID.
Galictis cuja (Molina, 1782) (furão): possui porte semelhante ao zorrilho, mas
distingue-se pela coloração, tendo o dorso acinzentado e o ventre preto.
É terrestre e carnívoro. Adultos: CT = 543 a 700mm; peso = 1,5 a
3,2kg5,10,26.
Nas áreas de influência da UHE Quebra Queixo, furões foram avistados
em várias oportunidades durante o dia, em áreas abertas (pastagens e
164
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
plantações), geralmente aos pares. Em 29/11/02, às 11:45h, um furão foi
avistado perseguindo um preá (Cavia aperea).
Nasua nasua (Linnaeus, 1766) (quati): apresenta coloração variando do cinzaescuro ao marrom-avemelhado no dorso, mais amarelado no ventre. Possuem uma cauda anelada, tão longa quanto o corpo. O focinho é proeminente e as garras são longas. É frugívoro-onívoro e escansorial. Adultos:
CT = 730 a 1.360mm; peso = 3,2 a 4,9kg5,10,26,34.
Na AID, um bando com pelo menos três quatis foi visto sobre os galhos
de árvores, durante o desmatamento da área do reservatório, em setembro/2002. No Parque Estadual das Araucárias, foi registrado um rastro
desta espécie.
Procyon cancrivorus (G. Cuvier, 1798) (mão-pelada): apresenta uma coloração
geral cinza-escura com tons amarelados. Possui uma máscara facial negra, cauda anelada e mãos nuas. É frugívoro-onívoro e escansorial. Adultos: CT = 900 a 1.100mm; peso = cerca de 8kg5,10,26.
Pegadas de mão-pelada foram encontradas com freqüência nas áreas de
influência da UHE Quebra Queixo, geralmente próximas de cursos d’água.
Um indivíduo foi avistado em 01/03/02, às 21:50h, caminhando nas margens de uma ilha no rio Chapecó, em um trecho raso e largo do rio. Outro
animal, com dois filhotes muito pequenos, foi encontrado em 02/10/02.
Foi ainda encontrado um mão-pelada atropelado na BR 480, próximo do
centro de São Domingos, em 15/10/02.
Pecari tajacu (Linnaeus, 1758) (cateto): é a menor das espécies de porcos-domato nativos e vive em pequenos grupos. Apresenta uma coloração geral
marrom-escura salpicada de branco e um típico colar branco-amarelado
na garganta. É frugívoro-herbívoro. Adultos: CT = cerca de 900mm; peso
= cerca de 20kg5,10.
Foi citada em entrevista a ocorrência de um pequeno grupo de catetos
para o Parque Estadual das Araucárias.
Mazama sp. (veado): o gênero Mazama inclui pequenos cervídeos frugívorosherbívoros, cuja altura nos ombros varia de 370 a 710mm e o peso de 8 a
30kg. No sul do Brasil, ocorrem três espécies: M. americana (Erxleben,
1777) (veado-mateiro ou pardo), a maior delas e de coloração castanhoavermelhada; M. gouazoubira (G. Fischer, 1814) (veado-virá), de tamanho intermediário e de coloração cinza a castanho-acinzentada; e M. nana
(Hensel, 1872) (poca, poquinha), a menor espécie, que apresenta as patas
165
8. Mamíferos
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
anteriores caracteristicamente mais curtas (sendo por vezes chamado de
mão-curta) e de coloração semelhante à primeira5,10,26.
Para as áreas de influência da UHE Quebra Queixo, as três espécies foram citadas em entrevistas, sendo o veado-pardo (M. americana) citado
como o mais raro. Pegadas de Mazama foram encontradas apenas em
duas ocasiões na AID, possivelmente da espécie menor (M. nana). Outras pegadas foram encontradas no Parque Estadual das Araucárias, onde
ocorreriam duas espécies segundo entrevistas, o veado-virá (M.
gouazoubira) e o poca (M. nana).
Sylvilagus brasiliensis (Linnaeus, 1758) (tapiti): espécie de coelho nativo, menor que a lebre-européia (Lepus europaeus) e com orelhas mais curtas e
finas. A pelagem é castanho-amarelada, mais escura no dorso e mais clara nos flancos. O ventre é branco. É terrestre e herbívoro-pastador. Adultos: CT = 320 a 400mm; peso = 900 a 1.200kg5,10,26.
Na AID, um tapiti foi avistado em uma estrada próxima da obra, às margens de uma capoeirinha, em 11 e 12/10/01, entre 00:30h e 1:00h.
Sciurus aestuans Linnaeus, 1766 (esquilo): pequeno roedor arborícola e
frugívoro-onívoro. A coloração varia em diferentes tonalidades de castanho-escuro. A cauda é um pouco menor que o corpo e muito peluda.
Adultos (média): CT = 382mm; peso = 300g5,26.
Um esquilo foi encontrado morto durante o desmatamento da área do
canteiro de obras, em Ipuaçu, em 08/08/01. Próximo desta área, outro
esquilo foi capturado em uma armadilha armada no sub-bosque, em 01/
03/02. Esquilos foram algumas vezes avistados em árvores no início da
manhã na AID; em 01/09/02, no início da tarde, dois esquilos foram vistos sobre um jerivá (Arecastrum romanzoffianum), roendo seus frutos.
Akodon sp. (rato): o gênero Akodon inclui pequenos ratos terrestres e insetívorosonívoros. O dorso é castanho, por vezes com tons laranjas ou esverdeados,
e o ventre cinza-claro. As espécies deste gênero são muito parecidas
morfologicamente e melhor diferenciadas pelo número de cromossomos
(2n). Adultos: CT = 120 a 240mm; peso = 18 a 52g5,10,26.
Exemplares de Akodon foram capturados ao longo de todo o estudo nas
áreas de influência da UHE Quebra Queixo. Registraram-se duas espécies: A. montensis Thomas, 1913 (2n = 24) e A. reigi González, Langguth e
Oliveira, 1998 (2n = 44).
Necromys lasiurus (Lund, 1841) (rato): pequeno roedor terrestre e frugívoroonívoro5, semelhante em coloração e tamanho a Akodon, diferenciando166
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
se por apresentar um anel mais claro ao redor dos olhos e, em geral, as
patas e cauda são mais peludas e as unhas mais fortes.
Nas áreas de influência da UHE Quebra Queixo, exemplares de N. lasiurus
foram capturados em agosto/2001 e junho, julho e agosto/2002.
Nectomys squamipes (Brants, 1827) (rato): possui uma coloração castanho-escura no dorso, mais amarelada nos flancos e acinzentada no ventre. Os
pés são grandes e possuem membranas interdigitais bem desenvolvidas.
É frugívoro-onívoro e semi-aquático. Adultos: CT = 350 a 470mm; peso
= 160 a 400g 5,10.
Na AID, um indivíduo foi capturado em borda de banhado, em 29/11/01,
e outro às margens do rio Chapecó, em área florestada, em 01/03/02.
Oligoryzomys sp. (rato): o gênero Oligoryzomys inclui pequenos roedores de
cauda longa, pelagem castanho-amarelada no dorso e acinzentada no ventre. É frugívoro-granívoro e escansorial. Como em Akodon, as espécies
de Oligoryzomys são muito semelhantes morfologicamente, diferenciadas pelo número de cromossomos (2n). Adultos: CT = 160 a 230mm;
peso = 18 a 30g5,10,26.
Nas áreas de influência da UHE Quebra Queixo, Oligoryzomys foram
capturados praticamente ao longo de todo o estudo, constatando-se duas
espécies, O. flavescens (Waterhouse, 1837) (2n = 64-66) e O. nigripes
(Olfers, 1818) (2n = 62).
Oxymycterus sp. (rato): possui pelagem castanho-avermelhada no dorso e
acinzentada no ventre. O focinho é caracteristicamente longo, a cauda é
mais curta do que o corpo e as unhas são longas. É insetívoro-onívoro e
semifossorial. Adultos: CT = cerca de 170mm; peso = cerca de 100g5,26.
Capturas de Oxymycterus sp. foram realizadas na AID. Um indivíduo
jovem foi capturado manualmente em 10/04/01, às 6:30h, após uma chuva forte. Outras capturas ocorreram em junho/2001, julho e novembro/
2002.
Scapteromys sp. (rato): apresenta uma coloração castanho-escura no dorso, mais
acinzentada em alguns indivíduos, e branco-acinzentada no ventre. É
insetívoro-onívoro e semi-aquático, vivendo nas margens de banhados.
Adultos: CT = 240 a 350mm; peso = 90 a 195g5,10,26.
Na UHE Quebra Queixo, apenas um indivíduo foi capturado em borda de
banhado, em 29/11/01 e outro encontrado morto em 09/12/02, ambos na
AID.
167
8. Mamíferos
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Sooretamys angouya (G. Fischer, 1814) (rato): possui uma coloração castanhoalaranjada no dorso e creme no ventre. A cauda é um pouco mais longa
do que o corpo. É frugívoro-granívoro e escansorial. Adultos (média):
CT = 394mm; peso = 144g5,26.
Na AID, um indivíduo foi capturado em uma mata, em armadilha no
chão, em novembro/2001, julho e novembro/2002.
Sphiggurus villosus (F. Cuvier, 1823) (ouriço, porco-espinho): roedor de fácil
identificação, pois apresenta corpo o coberto por pêlos longos e espinhos. É arborícola e frugívoro-herbívoro. O. Adultos: CT = 670 a 750mm;
peso = 1,5 a 2kg5,10.
Um ouriço foi encontrado atropelado em uma estrada municipal de Ipuaçu,
em 27/09/01, e outro na BR 480, em São Domingos, em 27/06/02. Durante o desmatamento do reservatório, três ouriços adultos foram resgatados e soltos no Parque Estadual das Araucárias e, durante o
desmatamento da área do canteiro de obras, um filhote foi resgatado em
07/12/02.
Cavia aperea Erxleben, 1777 (preá): pequeno roedor de pelagem castanhoesverdeada no dorso e acinzentada no ventre. Os membros e as orelhas
são curtos e a cauda muito reduzida, não visível externamente. É terrestre
e herbívoro-pastador. Adultos: CT = 210 a 320mm; peso = 230 a 510g5,35.
Preás foram avistados nas estradas das áreas de influência da UHE Quebra Queixo, principalmente no início da manhã e das 16:00h ao anoitecer. Foram ainda registrados cinco preás atropelados. No entanto, nunca
foram capturados em armadilhas, apesar de algumas terem sido armadas
em seus carreiros.
Hydrochoerus hydrochaeris (Linnaeus, 1766) (capivara): maior roedor atualmente existente. As patas são relativamente curtas e não possui cauda. A
coloração é, em geral, castanho-avermelhada, mais clara no ventre. É
semi-aquático e herbívoro-podador. Adultos: CT = 1.000 a 1.300mm;
peso = 25 a 80kg5,10,26.
Nas áreas de influência da UHE Quebra Queixo, fezes e pegadas de
capivara foram encontradas com freqüência às margens do rio Chapecó.
Dasyprocta azarae Lichtenstein, 1823 (cutia): possui uma coloração geral castanho-amarelada (aguti). Os pés são bem maiores que as mãos e a cauda
é muito pequena e nua. É terrestre e frugívoro-herbívoro. Adultos: CT =
cerca de 520mm; peso médio = 2,8kg5,10,26.
168
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Na AID, uma cutia foi avistada em borda de mata em 22/04/02, às 13:40h.
Pegadas foram raramente encontradas.
Cuniculus paca (Linnaeus, 1766) (paca): um dos maiores roedores sul-americanos. Possui o dorso é marrom, com listras longitudinais brancas, interrompidas ou completas, e o ventre varia de branco a creme. A cauda é
muito reduzida. É terrestre e frugívoro-herbívoro. Adultos: CT = cerca de
700mm; peso médio = 8,2kg5,10.
A paca foi registrada para as áreas de influência da UHE Quebra Queixo
apenas por entrevistas.
Kannabateomys amblyonyx (Wagner, 1845) (rato-da-taquara): pequeno roedor
arborícola, grandemente associado a bambuzais. Apresenta hábitos herbívoros-podadores. A pelagem é aguti-clara no dorso e brancoavermelhada no ventre. A cauda é muito longa, bem peluda na base e
terminando em um tufo pronunciado. Adultos: CT = cerca de 568mm;
peso médio = 475g5,26.
Na AID, exemplares de K. amblyonyx foram encontrados apenas durante
o desmatamento, em julho e agosto/2002, em taquarais.
Euryzygomatomys spinosus (G. Fischer, 1814) (rato): pequeno roedor de cauda
muito curta (cerca de 50mm). O dorso é aguti e possui pêlos rígidos e o
ventre branco. É herbívoro-pastador e semifossorial. Adultos: CT = cerca
de 250mm; peso médio = 188g5,26.
Uma fêmea grávida com dois fetos foi capturada em uma área de capimelefante, em 12/08/01, próximo da AID, em São Domingos.
Myocastor coypus (Molina, 1782) (ratão, ratão-do-banhado): roedor de porte
médio, castanho-avermelhado no dorso e castanho amarelado nos flancos
e no ventre. Ao redor da boca e focinho possui uma mancha branca. A
cauda é grossa e pouco menor que o comprimento do corpo. As patas são
curtas e providas de membranas interdigitais. É semi-aquático e herbívoro-podador. Adultos: CT = 700 a 1.000mm; peso = 4 a 9kg5,10,26.
Nas áreas de influência da UHE Quebra Queixo, foram encontradas pegadas às margens do rio Chapecó ou de banhados. Um ratão foi avistado
próximo de um banhado, em 27/11/01, às 15:30h.
169
8. Mamíferos
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
8.3. Conservação
A alteração e a fragmentação dos ambientes naturais são os principais
fatores responsáveis pelo declínio de espécies de mamíferos sul-americanos.
Além disso, outros fatores que têm levado essas espécies ao risco de extinção
são a caça e a introdução de espécies exóticas36,37.
Todos esses fatores estão presentes nas áreas de influência da UHE Quebra Queixo. A alteração e a fragmentação dos ambientes naturais têm sido intensas desde a segunda metade do século passado, segundo relato dos próprios
moradores locais. Atualmente, áreas de floresta de araucárias estão grandemente
isoladas, cercadas por plantações e pastos. A própria mata ciliar ao longo do rio
Chapecó está grandemente reduzida a uma faixa estreita, muitas vezes com
poucos metros de largura.
A caça parece ser uma prática comum na região. De acordo com as entrevistas, entre os mamíferos mais visados encontram-se os tatus, os veados, a
paca e a cutia, espécies cuja carne é muito apreciada. Porém, as outras espécies
de médio e grande porte são eventualmente caçadas, seja pelo risco de espetarem os cachorros-domésticos (no caso do ouriço); por atacarem galinheiros
(e.g., gambás, gatos-do-mato e iraras) ou outros motivos.
A introdução de espécies exóticas é outro fator de grande impacto sobre
mamíferos nativos38. Além do risco mais direto, o afugentamento e a caça por
cachorros e gatos-domésticos, muito comuns nas áreas de influência do empreendimento, espécies nativas podem ser afetadas por doenças transmitidas por
espécies exóticas. Cães domésticos podem transmitir doenças como a
parvovirose e a raiva39. Cervídeos, por exemplo, podem ser infectados por doenças de bovinos e ovinos40. Outro impacto relacionado é o pisoteio feito pelo
gado dentro das áreas florestadas, promovendo a alteração do sub-bosque e
dificultando a regeneração natural da vegetação.
Além desses fatores, o não cumprimento da legislação impõe mais problemas. Por exemplo, 20% da área de uma propriedade em uma zona rural
deveria ser preservada e esses fragmentos florestais são fundamentais para a
manutenção das espécies41. No entanto, quando isto é observado, o local é freqüentado por animais domésticos e muitas vezes utilizado como área de
invernada de gado.
Com todos esses fatores pressionando a comunidade de mamíferos, não é
de se surpreender que muitas espécies estejam extintas na área de influência
170
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
direta da UHE Quebra Queixo, particularmente aquelas de grande porte, como
Panthera onca (Linnaeus, 1758) (onça), Tapirus terrestris (Linnaeus, 1758)
(anta), Tayassu pecari (Link, 1795) (queixada) e Pecari tajacu (Linnaeus, 1758)
(cateto), refletindo um padrão denominado de truncamento ecológico, isto é,
perda de grandes espécies especializadas pelo fato de elas ocorrerem em densidades muito baixas e/ou por possuírem grandes áreas de vida42. A última anta
conhecida para os municípios de São Domingos ou Ipuaçu, segundo um entrevistado, foi caçada há cerca de 30 anos.
O número de espécies localmente extintas não pode ser definido com
precisão, particularmente para os pequenos mamíferos, pois não existem estudos anteriores. Além da onça, da anta, do queixada e do cateto, é provável que
outras espécies tenham ocorrido na área de influência direta da UHE Quebra
Queixo pelo menos até a primeira metade do século passado, como Chrysocyon
brachyurus (Illiger, 1815) (lobo-guará), Speothos venaticus (Lund, 1842) (cachorro-vinagre) e Pteronura brasiliensis (Gmelin, 1788) (ariranha).
O quadro é similar para a área de influência indireta do empreendimento.
Das espécies acima listadas, apenas o cateto foi mencionado em entrevistas
para o Parque Estadual das Araucárias.
Com relação às espécies ameaçadas de extinção no Brasil8, foram
registradas para as áreas de influência da UHE Quebra Queixo Leopardus tigrinus
(gato-do-mato-pequeno), Puma concolor (puma) e Mazama nana (veado-poca).
Além dessas, encontram-se nas listas de ameaçadas do Rio Grande do Sul43 e/
ou do Paraná44 Chironectes minimus (cuíca-d’água), Tamandua tetradactyla
(tamanduá), Alouatta sp. (bugio), Herpailurus yagouaroundi (jaguarundi), Eira
barbara (irara), Lontra longicaudis (lontra), Nasua nasua (quati), Mazama
americana (veado-mateiro), Mazama gouazoubira (veado-virá), Sylvilagus
brasiliensis (tapiti), Cuniculus paca (paca) e Dasyprocta azarae (cutia).
8.4. Referências Bibliográficas
1. Vaughan, T.A. 1978. Mammalogy. W.B. Saunders Co., Philadelphia.
2. Pough, F.H.; Heiser, J.B. & McFarland, W.N. 1999. A vida dos vertebrados. 2ª
ed. Atheneu Editora, São Paulo.
3. Encyclopaedia Britannica. 1986. Mammals. Pp. 382-502 in Goetz, P.W. (ed.).
The New Encyclopaedia Britannica. Vol. 23. 15th ed. Encyclopaedia Britannica,
Inc., Chicago.
4. Wilson, D.E. & Reeder, D.M. 1993. Mammal species of the world: A taxonomic
and geographic reference. Smithsonian Institution, Washington.
171
8. Mamíferos
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
5. Fonseca, G.A.B.; Herrman, G.; Leite, Y.L.R.; Mittermeier. R.A.; Rylands, A.B.
& Patton, J.L. 1996. Lista anotada dos mamíferos do Brasil. Occasional Papers
in Conservation Biology 4: 1-38.
6. Voss, R.S. & Emmons, L.H. 1996. Mammalian diversity in Neotropical lowland
rainforests: A preliminary assessment. Bulletin of the American Museum of
Natural History 230: 1-115.
7. Cherem, J.J.; J. Olimpio & A. Ximenez. 1998. Descrição de uma nova espécie
do gênero Cavia Pallas, 1766 (Mammalia - Caviidae) das Ilhas dos Moleques do
Sul, Santa Catarina, Sul do Brasil. Biotemas 12 (1): 95-117.
8. González, E.M.; Langguth, A. & Oliveira, L.F. 1998. A new species of Akodon
from Uruguay and southern Brazil (Mammalia: Rodentia: Sigmodontinae).
Comunicacioines Zoológicas del Museo de Historia Natural de Montevideo
12 (191): 1-7.
9. MMA/IBAMA, 2003. Lista da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção. Disponível em <http://www.mma.gov.br/port/sbf/fauna>. Acessado em 04 de agosto de 2004.
10. Silva, F. 1994. Mamíferos silvestres – Rio Grande do Sul. Fundação
Zoobotânica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.
11. Cabrera, A. (1957) 1958. Catálogo de los mamíferos de América del Sur I.
Revista del Museo Argentino de Ciencias Naturales “Bernardino Rivadavia”,
Ciencias Zoológicas, 4 (1): 1-307.
12. Cabrera, A. 1961. Catálogo de los mamíferos de América del Sur II. Revista del
Museo Argentino de Ciencias Naturales “Bernardino Rivadavia”, Ciencias
Zoológicas, 4 (2): 308-732.
13. Becker, M. & Dalponte, J. 1991. Rastros de mamíferos silvestres brasileiros.
Edunb, Brasília.
14. Oliveira, R.C. & Lemos, E.R.S. 2007. Investigação de hantavírus. (Cap. 9
deste livro.)
15. Costa, L.P.; Leite, Y.L.R. & Patton, J.L. 2003. Phylogeography and systematic
notes on two species of gracile mouse opossums, genus Gracilinanus
(Marsupialia: Didelphidae) from Brazil. Proceedings of the Biological Society
of Washington 116 (2): 275-292.
16. Wetzel, R.M. 1982. Systematics, distribution, ecology and conservation of South
American edentates. Pp. 345-375 in Mares, M.A. & Genoways, H.H. (eds.).
Mammalian biology in South America. Pymatuning Symposia in Ecology. Vol.
6. Univ. Pittsburgh, Pennsylvania.
17. Barquez, R.M.; Mares, M.A. & Braun, J.K. 1999. The bats of Argentina. Special
Publications, Museum of Texas Tech University, 42:1-275.
172
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
18. Pardiñas, U.F.J.; D’Elía, G. & Cirignoli, S. 2003. The genus Akodon (Muroidea:
Sigmodontinae) in Misiones, Argentina. Mammalian Biology 68: 129-143.
19. International Commission of Zoological Nomenclature. 2003. Opinion 2027
(Case 3010). Usage of 17 specific names based on wild species which are predated by or contemporary with those based on domestic animals (Lepidoptera,
Osteichthyes, Mammalia): conserved. Bulletin of Zoological Nomenclature
60 (1): 81-84.
20. Rylands, A.B.; Schneider, H.; Langguth, A.; Mittermeier, R.A.; Groves, C.P. &
Rodríguez-Luna, E. 2000. An assessment of the diversity of New World primates.
Neotropical Primates 8 (2): 61-93.
21. International Commission of Zoological Nomenclature. 2002. Opinion 2005
(Case 3022). Catalogue des mammifères du Muséum National d’Histoire
Naturelle by Étienne Geoffroy Saint-Hilaire (1803): placed on the Official List
of Works approved as available for zoological nomenclature. Bulletin of
Zoological Nomenclature 59 (2): 153-154.
22. International Commission of Zoological Nomenclature. 2001. Opinion 1985
(Case 3018). Cervus gouazoubira Fischer, 1814 (currently Mazama gouazoubira;
Mammalia, Artiodactyla): specific name conserved as the correct original spelling.
Bulletin of Zoological Nomenclature 58 (3): 247.
23. Weksler, M.; Percequillo, A.R. & Voss, R.S. 2006. Ten new genera of oryzomyine
rodents (Cricetidae, Sigmodontinae). American Museum Novitates 3537: 129.
24. International Commission of Zoological Nomenclature. 1998. Opinion 1894.
Regnum Animale..., Ed. 2 (M.J. Brisson, 1762): rejected for nomenclatural
purposes, with the conservation of the mammalian generic names Philander
(Marsupialia), Pteropus (Chiroptera), Glis, Cuniculus and Hydrochoerus
(Rodentia), Meles, Lutra and Hyaena (Carnivora), Tapirus (Perissodactyla),
Tragulus and Giraffa (Artiodactyla). Bulletin of Zoological Nomenclature 55
(1): 64-71.
25. Marshall, L.G. 1978. Chironectes minimus. Mammalian Species 109: 1-6.
26. Eisenberg, J.F. & Redford, K.H. 1999. Mammals of the Neotropics: the central Neotropics. Vol. 3. The University of Chicago Press, Chicago.
27. Wetzel, R.M. 1980. Revision of the naked-tailed armadillos, genus Cabassous
McMurtrie. Annals of the Carnegie Museum 49: 323-357.
28. Wetzel, R.M. & Mondolfi, E. 1979. The subgenera and species of long nosed
armadillos, genus Dasypus L. Pp. 43-63 in Eisenberg, J.F. (ed.). Vertebrate
ecology in the Northern Neotropics. Smithsonian Institution Press, Washington.
29. McBee, K. & Baker, R.J. 1982. Dasypus novemcinctus. Mammalian Species
162: 1-9.
173
8. Mamíferos
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
30. Redford, K.H. & Wetzel, R.M. 1985. Euphractus sexcinctus. Mammalian
Species 252: 1-4.
31. Redford, K.H. & Eisenberg, J.F. 1992. Mammals of the Neotropics: The
southern cone. Vol. 2. The University of Chicago Press, Chicago.
32. Oliveira, T.G. 1994. Neotropical cats: ecology and conservation. EDUFMA,
São Luís.
33. Larivière, S. 1999. Lontra longicaudis. Mammalian Species 609: 1-5.
34. Gompper, M.E. & Decker, D.M. 1998. Nasua nasua. Mammalian Species
580: 1-9.
35. Ximenez, A. 1980. Notas sobre el género Cavia Pallas con la descripción de
Cavia magna sp. n. (Mammalia - Caviidae). Revista Nordestina de Biologia 3
(especial): 145-179.
36. Mares, M.A. 1986. Conservation in South America: Problems, consequences,
and solutions. Science 233: 734-739.
37. Sechrest, W.W. & Brooks, T.M. 2002. Biodiversity – threats. Pp. 1-8 in
Encyclopedia of Life Sciences. MacMillan Publishers Ltd., Nature Publishing
Groups.
38. Burbidge, A.A.; Manly, B.F.J. 2002. Mammal extinctions on Australian islands:
causes and conservation implications. Journal of Biogeography 29: 465-473.
39. Cavalcanti, S.M.C. 2003. Manejo e controle de danos causados por espécies da
fauna. Pp. 203-242 in Cullen Jr., L.; Rudran, R. & Valladares-Padua, C. (orgs.).
Métodos de estudos em Biologia da Conservação e manejo da vida silvestre.
Editora UFPR, Curitiba.
40. Mähler, J.K.F. & Schneider, M. 2003. Ungulados. Pp. 547-565 in Fontana, C.S.;
Bencke, G.A. & Reis, R.E. (orgs.). Livro vermelho da fauna ameaçada de
extinção no Rio Grande do Sul. EDIPUCRS, Porto Alegre.
41. Chiarello, A.G. 2000. Conservation value of a native forest fragment in a region
of extensive agriculture. Revista Brasileira de Biologia 60 (2): 237-247.
42. Chiarello, A.G. 1999. Effects of fragmentation of the Atlantic forest on mammal
communities in south-eastern Brazil. Biological Conservation 89: 71-82.
43. Fontana, C.S.; Bencke, G.A. & Reis, R.E. (orgs.). 2003. Livro vermelho da
fauna ameaçada de extinção no Rio Grande do Sul. EDIPUCRS, Porto Alegre.
44. Mikich, S.B. & Bérnils, R.S. 2004. Livro vermelho da fauna ameaçada no
estado do Paraná. Instituto Ambiental do Paraná, Curitiba.
174
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Didelphis albiventris
gambá, raposa
Gracilinanus microtarsus
guaiquica
Foto: Marcelo Kammers
Foto: Jorge J. Cherem
Monodelphis sp.
catita
Philander frenatus
cuíca
Foto: Jorge J. Cherem
Foto: Marcelo Kammers
Dasypus septemcinctus
tatu-mulita
Foto: Jorge J. Cherem
Euphratus sexcinctus
tatu-peludo
Foto: Jorge J. Cherem
175
○
○
○
○
○
○
○
○
○
8. Mamíferos
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Cerdocyon thous
cachorro-do-mato, graxaim
Leopardus tigrinus
Gato-do-mato-pequeno
Foto: armadilha fotográfica*
Foto: armadilha-fotográfica
Eira barbara
irara
Procyon cancrivorus (filhotes)
mão-pelada, guaxinim
Foto: armadilha fotográfica
Foto: Marcelo Kammers
Akodon sp.
rato
Nectomys squamipes
rato-d’água
Foto: Jorge J. Cherem
Foto: Jorge J. Cherem
*armadilhas fotográficas têm sido utilizadas no monitoramento pós-enchimento.
176
○
○
○
○
○
○
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
Sphiggurus villosus
ouriço
Cuniculus paca
paca
Foto: Jorge J. Cherem
Foto: armadilha fotográfica
○
○
Dasyprocta azarae
cutia
Euryzygomatomys spinosus
rato
Foto: armadilha fotográfica
Foto: Sérgio Althoff
177
○
○
○
○
○
○
○
○
○
9. INVESTIGAÇÃO DE HANTAVÍRUS
Renata Carvalho de Oliveira
Elba Regina Sampaio de Lemos
Fundação Oswaldo Cruz, Instituto Oswaldo Cruz,
Av. Brasil, 4365, Pavilhão Rocha Lima, 5º andar,
Laboratório de Hantaviroses e Rickettsioses, Manguinhos 21045-900 - Rio de Janeiro, RJ
Os roedores silvestres são reservatórios e responsáveis pela transmissão
acidental de vários agentes infecciosos para o homem. As hantaviroses constituem infecções zoonóticas amplamente distribuídas pelo mundo, cujos agentes
etiológicos são inúmeros genótipos virais pertencentes ao gênero Hantavirus.
Os hantavírus são mantidos na natureza através da transmissão cíclica entre
roedores silvestres infectados de forma persistente, sendo o homem um hospedeiro acidental. A exposição humana ao hantavírus ocorre, principalmente, através da inalação de aerossóis contendo partículas virais oriundas da urina, fezes
ou saliva de roedores silvestres infectados1,2.
A infecção humana por hantavírus pode acarretar duas formas clínicas
até então conhecidas: a Febre Hemorrágica com Síndrome Renal (FHSR), de
ocorrência na Europa e na Ásia, e a Síndrome Pulmonar por Hantavírus (SPH),
encontrada somente nas Américas3,4,5,6,7.
Desde 1993, com o reconhecimento da SPH no continente americano,
até julho de 2007, 932 casos da doença já foram notificados no Brasil, indicando, assim, uma intensa circulação de hantavírus em roedores silvestres em diferentes regiões do território, principalmente nos estados das regiões sul e sudeste, onde se concentra o maior número de casos. No estado de Santa Catarina,
por exemplo, de 1999 a julho de 2007, foram notificados 178 casos de
hantaviroses, sendo que três destes casos ocorreram no município de Ipuaçu
(Secretaria Estadual de Saúde/SC – 2007, MS/DEVEP/SVS 2007).
A ocorrência de surtos e epidemias da SPH está relacionada, entre outros
fatores, à maior proliferação dos roedores decorrente de fatores que alteram o
179
9. Investigação de Hantavírus
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
equilíbrio ecológico, potencializado pela intervenção humana em ecossistemas
anteriormente intocados. Atualmente, no estado de Santa Catarina, vêm sendo
realizados diversos trabalhos de resgate e monitoramento de animais silvestres
em áreas destinadas à construção de usinas hidrelétricas (UHE), a exemplo do
que ocorreu nos municípios de São Domingos e Ipuaçu.
9.1. Métodos
Em julho de 2002, foi realizada uma investigação para avaliar a ocorrência de hantavírus em pequenos roedores silvestres nas áreas de influência da
UHE Quebra Queixo. O estudo foi conduzido pelo Laboratório de Hantaviroses
e Rickettsioses do Instituto Oswaldo Cruz do Rio de Janeiro em parceria com a
Universidade Regional de Blumenau, e teve como meta principal contribuir
para o conhecimento do papel dos roedores silvestres como reservatórios de
hantavírus em animais capturados em área endêmica.
Captura dos roedores e obtenção das amostras de tecido
A captura de roedores foi realizada de 16 a 31 de julho de 2002, com
armadilhas do tipo Young, Sherman e Tomahawk dispostas a 5 metros de distância umas das outras em transecções em linha, nas áreas que estavam sendo
desmatadas para o enchimento do reservatório e no Canteiro de Obras. As armadilhas eram armadas durante à tarde e vistoriadas na manhã seguinte. O
esforço total de captura foi de aproximadamente 1.080 armadilhas-noite. Os
roedores capturados eram levados para um local adequado onde se efetuava a
identificação preliminar da espécie, o sexo e o peso. Em seguida, os animais
eram anestesiados, sangrados e sacrificados para a coleta de amostras de tecidos para análise de hantavírus.
Análise taxônomica
Para uma identificação mais precisa dos roedores, a medula óssea de
todos os animais utilizados na análise de hantavírus foi retirada e processada
para realização da cariotipagem no Laboratório de Citogenética Animal do
Departamento de Genética da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Ensaio sorológico
Todo soro obtido dos animais foi submetido ao imunoensaio enzimático
(ELISA) para detecção de anticorpos anti-hantavírus da classe IgG. Utilizou-se
o antígeno Andes (Argentina), constituído pelo antígeno específico (nucleo180
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
proteína Andes recombinante) e pelo antígeno inespecífico recombinante, de
acordo com as recomendações do protocolo descrito por P.J. Padula, do Instituto Carlos Malbran de Buenos Aires, Argentina8.
Exames histopatológicos e moleculares
Os órgãos dos animais foram acondicionados em solução de formalina a
10% ou formalina Millonig de Carson9 visando, inicialmente, somente a realização do estudo histopatológico, em virtude da ausência de equipamentos de
proteção adequados e de um laboratório classe NB-3 onde pudessem ser processadas com segurança, foi inviável o acondicionamento criogênico destas.
Assim, apesar das restrições, fragmentos de rim foram utilizados em análises
moleculares na tentativa de detectar o RNA viral.
Histopatologia: Depois de processados rotineiramente, os fragmentos de pulmão e rim foram incluídos em parafina. Foram obtidas secções de 3 mm de
espessura em micrótomo rotativo Wild Leitz para confecção de lâminas para
o estudo histopatológico. As secções histológicas foram coradas pelas técnicas de Hematoxilina-eosina e Giemsa de Lennert10 para posterior análise em
microscopia de campo claro. A associação destas duas colorações forneceu
bases para uma ampla análise morfológica do material estudado. Todas as
secções foram estudadas em microscopia de campo claro num microscópio
Nikon Eclipse modelo E-400.
Biologia Molecular: O RNA total foi extraído a partir de seis amostras de
tecido (rim) de roedores que apresentaram sororeatividade para hantavirus,
previamente armazenadas em solução formalina 10% utilizando-se Trizol
(GIBCO ® /Life technologies), segundo o método desenvolvido por
Chomczynski & Sacchi11.
Subseqüentemente à extração do material genômico, foi realizada a técnica de RT-PCR. Foram utilizados oligonucleotídeos descritos por Jonhson e
colaboradores12 referentes a regiões conservadas de diferentes hantavírus associados com roedores da subfamília Sigmodontinae.
Análise estatística
A análise estatística foi realizada com o auxílio do programa GraphPad
InStat Dataset 1.ISD. O nível de significância adotado foi de 0,05, com intervalos de confiança, pelo método de Cornfield, de 95%. Para comparação das variáveis analisadas foi utilizado o teste do Qui-quadrado (x 2).
181
9. Investigação de Hantavírus
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
9.2. Resultados
Para a análise de hantavírus, foram coletados 118 roedores pertencentes a
7 espécies da subfamília Sigmodontinae, família Cricetidae. Oligoryzomys
nigripes foi a espécie mais comum, representando 32,5% dos roedores coletados
(Tabela 9.1). O gênero Akodon provavelmente inclui duas espécies A. montensis
e A. reigi, ambas registradas para as áreas de influência da UHE Quebra Queixo.
Foram também coletados dois camundongos-domésticos (Mus musculus,
família Muridae, subfamília Murinae), mas os resultados foram negativos. Devido ao pequeno número amostral desta espécie, os dados não são incluídos na
análise.
Das 118 amostras de sangue de roedores sigmodontinos submetidas ao
imunoensaio enzimático (ELISA) IgG utilizando o antígeno Andes, 7 revelaram-se reativas (Tabela 9.2; Figura 9.1), com títulos de até 1:1600, configurando uma prevalência global de 5,9% de infecção por hantavírus na região de
estudo. Como indicado na Tabela 9.2, 5 dos 55 machos (9,1%) e 1 das 57 fêmeas (1,7%) mostraram soropositividade, além de um exemplar de sexo não identificado. Essa diferença de soropositividade entre os sexos, no entanto, não foi
significativa estatisticamente (x2 = 1,701, p = 0,1922).
Tabela 9.1. Espécies de roedores coletados para análise de hantavírus nas áreas de influência
da UHE Quebra Queixo, municípios de São Domingos e Ipuaçu, Santa Catarina.
N = número de indivíduos coletados por espécie; % = porcentagem de indivíduos
da espécie em relação ao total de coletas.
Família/Subfamília
Muridae/Murinae
Cricetidae/Sigmodontinae
Espécies
Mus musculus
Akodon sp.
Necromys lasiurus
Oligoryzomys flavescens
Oligoryzomys nigripes
Oxymycterus judex
Oryzomys angouya
Total
N
2
29
30
6
39
11
3
120
%
1,67
24,16
25,00
5,00
32,50
9,17
2,50
100,00
Entre os 7 roedores com resultados positivos, foram detectados anticorpos
reativos para hantavírus em 4 das 8 espécies analisadas no estudo. Os roedores
das espécies Oxymycterus judex (27,3%) e Oligoryzomys flavescens (16,6%)
apresentaram a maior prevalência de anticorpos, não apresentando uma dife182
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
rença estatisticamente significativa em relação às outras espécies (x2 = 7,217,
p = 0,0653), considerando-se apenas os roedores sigmodontinos.
Tabela 9.2. Resultado das análises de hantavírus pelo teste de ELISA para a amostra de
roedores das áreas de influência da UHE Quebra Queixo, municípios de São
Domingos e Ipuaçu, Santa Catarina. Nº positivo = nº de indivíduos com
anticorpos por sexo e espécie. Nº total = nº de indivíduos analisados por sexo
e espécie. SNI = sexo não identificado.
Espécie
Akodon sp.
Necromys lasiurus
Oligoryzomys nigripes
Oligoryzomys flavescens
Oryzomys angouya
Oxymycterus judex
Total
Nº positivo/Nº examinado (% positivo)
machos
fêmeas
SNI*
total**
0/11 (0,0)
0/16 (0,0)
1/2 (50,0)
1/29 (3,4)
0/10 (0,0)
0/20 (0,0)
0/30 (0,0)
2/21 (9,5)
0/14 (0,0)
0/4 (0,0)
2/39 (5,1)
1/6 (16,6)
0/0 (0,0)
1/6 (16,6)
0/1 (0,0)
0/2 (0,0)
0/3 (0,0)
2/6 (33,3)
1/5 (20,0)
3/11 (27,3)
5/55
1/57
1/8
7/118 (5,9)
Número de Exemplares
45
40
Negativos
35
Positivos
30
25
20
15
10
5
Akodon sp
Oligoryzomys
nigripes
Oligoryzomys
flavescens
Oxymycterus judex
Espécies
Figura 9.1. Resultado do teste sorológico por espécie de roedor coletado nas áreas de
influência da UHE Quebra Queixo, municípios de São Domingos e Ipuaçu, Santa Catarina.
De acordo com a análise das secções histológicas de rins, foi demonstrada completa normalidade morfológica na maioria dos indivíduos. Em poucos
animais pôde-se detectar: leve congestão em cinco animais; degeneração
vacuolar das células epiteliais dos túbulos renais; leve a discreta infiltração
inflamatória predominantemente mononuclear (macrófagos, linfócitos e plasmócitos) distribuída pelo parênquima renal; granuloma (constituído por
183
9. Investigação de Hantavírus
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
macrófagos) com alguns linfócitos ao seu redor; e a presença de larvas
rabditiformes em processo de migração no interior de vasos.
A análise das secções histológicas de pulmões revelou uma ocorrência
maior de alterações quando comparada à análise das secções de rins. Entre elas
observou-se: hemorragia difusa e focal; eritrofagocitose com a presença de
macrófagos repletos de hemácias em seu interior, e macrófagos apresentando
pigmento marrom em seu citoplasma, provavelmente hemossiderina; larvas
rabditiformes em processo de desenvolvimento e migração no interior de vasos
sangüíneos (Figura 9.2a); granulomas com macrófagos, fibroblastos e linfócitos;
infiltrado inflamatório formando faixas de macrófagos e linfócitos (Figura 9.2b);
exsudato (macrófagos e neutrófilos) em bronquíolo propriamente dito; e
infiltrado intersticial com células binucleadas.
Pela técnica de reação em cadeia da polimerase não foi possível a detecção
dos amplicons determinados pelos iniciadores utilizados, em nenhuma das seis
amostras testadas, uma vez que não se visualizou as bandas alvos através da
eletroforese em gel de agarose. As mesmas amostras foram submetidas a um
bioanalisador que utiliza a tecnologia de microarray pelo qual não foi demonstrada a presença dos amplicons esperados das seis amostras. Entretanto, foram
observadas em três destas amostras (A 05, A 24 e A 27) bandas de tamanho
aproximado (410 pb) ao esperado (434 bp) (Figura 9.3), somente para os
oligonucleotídeos internos H3/H4 que amplificam parte do segmento S
(nucleoproteína viral), o que sugere a presença do genoma viral, dada à pequena diferença em pares de base e a especificidade das três bandas que obtiveram
o mesmo tamanho.
Figura 9.2. a) Larvas rabdiformes em migração no interior de vasos sangüíneos e no
interstício pulmonar. Hematoxilina-eosina. 400x. b) Infiltrado mononuclear intersticial
(macrófagos e linfócitos). Giemsa de Lennert. 400x.
184
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
400bp
Figura 9.3. Gel obtido com o Agilent 2100 Bionalyzer dos produtos de amplificação da
PCR com os oligonucleotídeos H1-H2, seguido de H3-H4.
9.3. Discussão
Vários estudos sobre prevalência em roedores vêm sendo desenvolvidos
e as taxas de anticorpos séricos anti-hantavírus apresentam uma variação de 0 a
47%12,13,14,15. Segundo alguns autores, esta variação está relacionada à estação
do ano, à área geográfica, à altitude e às espécies de roedores analisadas16,17,18,19,20,21. No Brasil, dentre os poucos estudos realizados, tem sido observada uma freqüência total de 0,67% a 20,19%, considerando diferentes áreas e
populações de roedores estudadas22,23,24,25.
Para a UHE Quebra Queixo, foi observada uma prevalência global de
anticorpos anti-hantavírus em 5,9% da população de roedores capturados, considerada dentro da média e compatível com uma área de ocorrência de casos
humanos. Quatro diferentes espécies de roedores mostraram presença de
185
9. Investigação de Hantavírus
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
anticorpos anti-hantavírus, mais especificamente contra a nucleoproteína N do
vírus Andes, com uma prevalência de 3,4% para Akodon sp., 5,1% para
Oligoryzomys nigripes, 16,6% para Oligoryzomys flavescens e 27,3% para
Oxymycterus judex.
Embora O. nigripes compusesse a maior parte da amostra da UHE Quebra Queixo, com 39 exemplares do total de 120 (32,5%), foi observada uma
baixa prevalência de anticorpos anti-hantavírus. Assim, considerando somente
o fato de que o reservatório primário de hantavírus seja uma espécie comum na
região ou no hábitat examinado, poderia se especular sobre a possibilidade de
O. nigripes ser o hospedeiro primário nesta área, apesar da evidência sorológica
contrária.
A presença de outras espécies de roedores, embora com uma amostra
menor, como O. flavescens e O. judex, apresentando elevadas taxas de
prevalência de anticorpos anti-hantavírus permite também sugerir que estas
espécies estão de alguma maneira relacionadas ao ciclo epidemiológico dos
hantavírus na região oeste de Santa Catarina.
Em diversos países, nos quais existe a Síndrome Pulmonar por Hantavírus,
têm sido observada tanto a circulação de diferentes genotipos de hantavírus em
espécies distintas de roedores em uma mesma região, como também a circulação de um único genotipo de hantavírus em diferentes espécies de roedores,
confirmando assim, a grande complexidade da relação hantavírus-roedor26.
Suárez e colaboradores27 demonstraram a importância de se realizar a
caracterização genética do hantavírus presente em roedores. Em exemplares de
O. flavescens, espécie considerada reservatório para o hantavírus Lechiguanas,
foi detectada também a presença de hantavírus Pergamino. Assim, como um
genotipo de hantavírus pode ser detectado em mais de uma espécie de roedor,
dois genotipos distintos de hantavírus podem circular em roedores de uma mesma espécie.
Ao contrário dos roedores sorologicamente positivos considerados reservatórios, muitas espécies simpátricas podem apresentar reatividade sorológica,
reforçando o conceito de que hantavírus de roedores primários podem ser transmitidos para outros roedores16,28,29,30,31. Além disso, considerando que mais de
um genotipo pode estar circulando numa mesma região em espécies distintas
de roedores murídeos e cricetídeos que mais de um reservatório primário pode
ocorrer em uma determina região, os dados obtidos na UHE Quebra Queixo
poderiam ser explicados, já que a presença de anticorpos foi identificada em
quatro espécies de roedores.
186
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
A maior freqüência de infecção por hantavírus observada entre os indivíduos de maior peso (adultos) para todas as espécies aqui analisadas, e especialmente entre os machos, está de acordo com o observado para a espécie
Oligoryzomys longicaudatus na Argentina32, para a espécie Calomys laucha no
Paraguai33 e para as espécies do gênero Peromyscus nos Estados Unidos20,34.
Tais achados diferem de Clethrionomys glareolus e Rattus norvegicus, nos quais
a prevalência mostrou-se similar entre os sexos35,36.
Uma possível explicação para a alta prevalência de machos infectados
poderia ser pela menor susceptibilidade das fêmeas à infecção por hantavírus.
Outra possibilidade poderia ser o fato de as fêmeas de algumas espécies de
roedores serem menos agressivas do que os machos, portanto com menos chances
de se infectarem, considerando que a transmissão ocorra através de brigas e
feridas, como se tem sugerido para R. norvegicus36,37,38.
Conforme pode ser depreendido dos dados apresentados neste estudo, as
características do infiltrado inflamatório observado nesta amostra não constituem lesões específicas para presença de hantavírus. Tanto a natureza quanto a
intensidade do fenômeno inflamatório estudado neste trabalho são comuns para
inúmeros processos patológicos. Assim, embora o estudo histopatológico, sem
a técnica de imunohistoquímica associada, não seja suficiente para caracterizar
a presença de infecção por hantavírus nos roedores silvestres, as informações
obtidas neste estudo são de relevância e de utilidade para os diversos grupos
que trabalham com estes animais, em decorrência da escassez de dados na literatura sobre a histopatologia de roedores silvestres.
A ausência de RNA viral constatada pela técnica de RT-PCR no presente
estudo está provavelmente relacionada à degradação da molécula de RNA demonstrada pela eletroforese capilar, uma vez que o tecido utilizado na extração
ficou acondicionado em formalina por um longo período. Muito embora neste
trabalho três amostras tivessem apresentado resultados sugestivos, tais resultados ainda necessitam de uma maior evidenciação genotípica, uma vez que os
amplicons não puderam ser seqüênciados.
Considerando a existência de centenas de espécies de roedores e seu potencial como reservatório de hantavírus, vários estudos têm demonstrado a importância de se identificar, em áreas de ocorrência de SPH, as espécies de roedores sorologicamente infectadas. Assim, apesar da falta da caracterização genética dos hantavírus circulantes, a partir dos produtos de reação em cadeia da
polimerase obtidos de roedores, os primeiros resultados do estudo sobre
hantavírus e roedores, apresentados neste trabalho, evidenciam, potencialmente, a circulação de diferentes hantavírus na região. Por conseguinte, para estabelecer qual destas espécies de roedores poderiam verdadeiramente ser reser187
9. Investigação de Hantavírus
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
vatórios, novas amostras, adequadamente coletadas, deverão ser analisadas geneticamente, comparando-as com as seqüências obtidas a partir de amostras de
pacientes com SPH, fato que possibilitará verificar a associação hantavírusroedor com hantavírus-humano.
9.4. Referências Bibliográficas
1. Lee, H.W.; Lee, P.W.; Baek, L.J.; Song, C.K. & Seong, I.W. 1981. Intraspecific
transmission of Hantaan virus, etiologic agent of Korean hemorrhagic fever, in
the rodent Apodemus agrarius. Am. J. Trop. Med. Hyg. 30: 1106-1112.
2. Childs J.C. & Peters C.J. 1993. Ecology and epidemiology of arenaviruses and
their hosts. Pp. 331-373 in Salvato, M.S. (ed.). The Arenaviridae. Plenum Press,
New York.
3. Gajdusek, D.C. 1962. Virus hemorrhagic fevers. J. Pediatr. 60: 841-857.
4. Lee, H.W.; Lee, P.W. & Johnson, K. 1978. Isolation of the etiologic agent of
Korean hemorrhagic fever. J. Infect. Dis. 137: 298-308.
5. McKee, K.T., Jr.; LeDuc, J.W. & Peters, J.C. 1991. Hantaviruses. Pp. 615-632 in
Belshe, R. (ed.). Textbook of Human Virology. 2th ed. Mosby Year Book, Saint
Louis.
6. Nichol, S.T.; Spiropoulou, C.F.; Morzumov, S.; Rollin, P.E.; Ksiazek, T.G.;
Feldmann, H. et al. 1993. Genetic identification of a hantavirus associated with
an outbreak of acute respiratory illness. Science 262: 914-917.
7. Johnson, K.M. 2001. Hantaviruses: history and overview. Curr. Top. Microbiol.
Immunol. 256: 1-14.
8. Padula, P.; Rossi, C.; Della Valle, M.; Martinez, P.V.; Colavecchia, S.B.; Edelstein,
A. et al. 2000. Development and evaluation of a solid phase enzyme immunoassay
based on Andes hantavirus recombinant nucleoprotein. J. Med. Microbiol. 49:
149-155.
9. Carson, F.L.; Martin, J.H. & Lynn, J.A. 1973. Formalin fixation for electron
microscopy: a re-evaluation. Am. J. Clin. Path. 59: 365-373.
10. Lennert, K. 1978. Malignant lymphomas other than Hodgkin’s disease.
Springer-Verlag, Berlin.
11. Chomczynski, P. & Sacchi, N. 1987. Single-step method of RNA isolation by
acid guanidinium thiocyanate-phenol-chloroform extraction. Anal. Biochem. 162:
156-159.
12. Johnson, A.M.; Bowen, M.D.; Ksiazek, T.G.; Williams, R.J.; Bryan, R.T.; Mills,
J.N. et al. 1997. Laguna Negra virus associated with HPS in Western Paraguay
and Bolivia. Virology 238: 115-127.
188
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
13. Weigler, B.J.; Ksiazek, T.G.; Vandenbergh, J.G.; Levin, M. & Sullivan, W.T.
1996. Serological evidence for zoonotic hantaviruses in North Carolina rodents.
J. Wildlife Dis. 32: 354-357.
14. Mills, J.N.; Ksiazek, T.G.; Ellis, B.A.; Rollin, P.E.; Nichol, S.T.; Yates, T.L. et
al. 1997. Patterns of association with host and habitat: antibody reactive with
Sin Nombre vírus in small mammals in the major biotic communities of the
southwestern United States. Am. J. Trop. Med. Hyg. 56: 273-284.
15. Bennett, S.G.; Webb, J.P., Jr.; Madon, M.B.; Childs, J.E.; Ksiazek, T.G.; TorrezMartinez, N. et al. 1999. Hantavirus (Bunyaviridae) infections in rodents from
Orange and San Diego Counties, California. Am. J. Trop. Med. Hyg. 60: 75-84.
16. Childs, J.E.; Ksiazek, T.G.; Spiropoulou, C.F.; Krebs, J.W.; Morzunov, S.;
Maupin, G.O. et al. 1994. Serologic and genetic identification of Peromyscus
maniculatus as the primary rodent reservoir for a new hantavirus in the
southwestern United States. J. Infect. Dis. 169: 1271-1280.
17. Morzunov, S.P.; Rowe, J.E.; Ksiazek, T.G.; Peters, C.J.; St. Jeor, S.C. & Nichol,
S.T. 1998. Genetic analysis of the diversity and origin of hantaviruses in
Peromyscus leucopus mice in North America. J. Virol. 72: 57-64.
18. Kuenzi A.J.; Morrison, M.L.; Swann, D.E.; Hardy, P.C. & Downard, G.T. 1999.
A longitudian study of Sin Nombre Virus prevalence in rodents, Southeastern
Arizona. Emerg. Infect. Dis. 5: 113-117.
19. Kuenzi A.J.; Douglass, R.J.; White Jr., D.; Bond, C.W. & Mills, J.N. 2001.
Antibody to Sin Nombre virus in rodents associated with peridomestic habitats
in west central Montana. Am. J. Trop. Med. Hyg. 64: 137-146.
20. Mills, J.N.; Ksiazek, T.G.; Peters, C.J. & Childs, J.E. 1999. Long-term studies
of hantavirus reservoir populations in the Souhwestern United States: a synthesis.
Emerg. Infect. Dis. 5: 142-152.
21. Calderón, G.; Pini, N.; Bolpe, J.; Levis, S.; Mills, J.N.; Segura, E. et al. 1999.
Hantavirus reservoir hosts associated with peridomestic habitats in Argentina.
Emerg. Infect. Dis. 5: 792-797.
22. Pereira, L.E.; Ferreira, K.B.; Souza, R.P.; Suzuki, A.; Souza, L.T.M.; Katz, G. et
al. 1998. Serological research of rodents (Muridae, Sigmodontinae) infected by
hantavirus in the State of São Paulo, Brazil. In 10th National Meeting of Virology,
Journal of the Brazilian Society for Virology, São Lourenço, MG, Brasil, p.4243.
23. Lemos, E.R.S.; Bonvicino, C.; D’Andrea, P.S.; Padula, P.; Rozental, T.; AlvesCôrrea, A.A. et al. 2002. Serological evidence of hantavirus infection in wild
rodents captured in an endemic area for brazilian spotted fever in the stated of
São Paulo, Brasil. In XIII National Meeting of Virology, Journal of the Brazilian
Society for Virology, Águas de Lindóia, Brasil, p.92-93.
189
9. Investigação de Hantavírus
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
24. Araújo G.C.B.; Travassos da Rosa, E.S.; Elkhoury, M.R.; Marques, A.A.R.;
Nunes, M.R.T. & Vasconcelos, P.F.C. 2003. Seroprevalence for hantavirus in
rodents: studies in areas of Brazilian Amazon with fatal cases for hantavirus
pulmonary syndrome (HPS). In XIV National Meeting of Virology, Journal of
the Brazilian Society for Virology, Florianópolis, SC, Brasil, p.98-99.
25. Suzuki, A.; Ferreira, I.B.; Levis, S.; Garcia, J.; Pereira, L.E.; Souza, R.P. et al.
2003. Araraquara and Juquitiba Hantaviroses: genetic identification of rodent
reservoirs. In XIV National Meeting of Virology, Journal of the Brazilian Society
for Virology, Florianópolis, SC, Brasil, p. 95-96.
26. Plyusnin, A. 2002. Genetics of hantaviruses: implications to taxonomy. Arch.
Virol. 147: 665-682.
27. Suárez, O.V.; Cueto, G.R.; Cavia, R.; Villafañe, I.E.G.; Bilenca, D.N.; Edelstein,
A. et al. 2003. Prevalence of infection with hantavirus in rodent populations of
Central Argentina. Mem. Inst. Oswaldo Cruz 98: 727-732.
28. Gavrilovskaya, I.N.; Apekina, N.S.; Myasnikov, Y.A.; Bernshtein, A.D.; Ryltseva,
E.V.; Gorbachkova, E.A. et al. 1983. Features of circulation of hemorrhagic
fever with renal syndrome (HFRS) virus among small mammals in the European
USSR. Arch. Virol. 75: 313-316.
29. Sommer, A.I.;Traavek, T.; Mehl, R.; Berdal, B.P. & Dalrymple, J.M. 1985.
Reservoir animals for nephropathia epidemica in Norway: indications of a major role for the bank vole (C. glareolus) in comparison with the woodmouse (A.
sylvaticus). J. Hyg. 94: 123-127.
30. Yanagihara, R.; Herbert, L.A. & Gajdusek, D.C. 1987. Experimental infection
with Puumala virus, the etiologic agent of nephropathia epidemica, in bank voles
(Clethrionomys glareolus). Trans. R. Soc. Trop. Med. Hyg. 81: 42-45.
31. Childs, J.E.; Glass, G.E.; Korch, G.W. & LeDuc, J.W. 1988. Serologic evidence
of hantaviral infections in small mammal communities of Baltimore: a review
and synthesis. Bull. Soc. Vector Ecol. 13: 113-122.
32. Cantoni, G.; Padula, P.; Calderón, G.; Mills, J.; Herrero, E.; Sandoval, P. et al.
2001. Seasonal variation in prevalence of antibody to hantaviruses in rodents
from southern Argentina. Trop. Med. Int. Health 6: 811-816.
33. Yahnke, C.J.; Meserve, P.L.; Ksiazek, T.G. & Mills, J.N. 2001. Patterns of
infection with Laguna Negra virus in wild populations of Calomys laucha in the
Central Paraguayan Chaco. Am. J. Trop. Med. Hyg. 65: 768-776.
34. Abbott, K.D.; Ksiazek, T.G. & Mills, J.N. 1999. Long-term hantavirus persistence
in rodent populations in Central Arizona. Emerg. Infect. Dis. 5: 102-112.
35. Yanagihara, R.; Daum, C.A.; Lee, P.W.; Baek, L.J.; Amyx, H.L.; Gajdusek,
D.C. et al. 1987. Serological survey of Prospect Hill virus infection in indigenous
wild rodents in the USA. Trans. R. Soc. Trop. Med. Hyg. 81: 42-45.
190
A fauna das áreas de influência da Usina Hidrelétrica Quebra Queixo
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
○
36. Glass, G.E.; Childs, J.E.; Korch, G.W. & LeDuc, J.W. 1988. Association of
intraespecific wounding with hantaviral infection in wild rats (Rattus norvegicus).
Epidemiol. Infect. 101: 459-472.
37. Hutchinson, K.L.; Rollin, P.E. & Peters, C.J. 1998. Pathogenesis of a North
American hantavirus, Black Creek Canal virus, in experimentally infected
Sigmodon hispidus. Am. J. Trop. Med. Hyg. 59: 58-65.
38. Netski, D.; Thran, B.H. & St. Jeor, S.C. 1999. Sin Nombre Virus pathogenesis
in Peromyscus maniculatus. J. Virol. 73: 585-591.
191