Arte em movimento

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Arte em movimento
Cultura
Arte em
movimento
Esportes mexem com os
sentidos humanos – não
só de quem pratica, mas
também de quem fica na
beira da estrada, vendo
o pelotão de ciclistas
passar, ou sente as mãos
transpirando apenas
de assistir a um vídeo
de montanhismo. E não
é difícil a plasticidade
desses momentos se
transformar num quadro
ou numa escultura. A
seguir, alguns artistas
que transformam as
emoções do ciclismo,
do montanhismo e dos
esportes com pranchas
em nutrição para os olhos
Jim Denevan
(Califórnia, EUA)
O desapego que Jim, 47, tem pela arte é assustador. Mas não tinha como ser diferente, já que ele
imprime seu trabalho na areia da praia. “O que me inspira é o desejo de criar estando em contato
direto com a natureza”, explica. Jim usa superfícies planas e extensas, e leva entre três e cinco horas
para concluir um desenho, que começa com ideias rabiscadas num papel. Ele já fez mais de duas mil
dessas “obras efêmeras”, o que lhe acumulou uma distância de mais de 32 mil quilômetros caminhados – quase uma volta ao mundo pela linha do Equador, que tem 40 mil quilômetros. “Não me prendo
aos resultados porque sei que o desenho será lavado pelas ondas ou apagado pelo vento”, diz. Mesmo
assim, Jim acredita que, num futuro próximo, outros artistas também se interessarão por intervenções em praias ou outras superfícies “desenháveis” do planeta (jimdenevan.com).
Renan Ozturk
(Colorado, EUA)
bagagem extra:
Além de cordas
e mosquetões, o
norte-americano
Renan Ozturk
sempre leva um kit
de pintura para
suas expedições
na montanha
Foto: jimmy chin
POR MARIO MELE
Aos 29 anos, o norte-americano é escalador reconhecido, tendo em seu currículo vias nos Estados Unidos
(como a Freerider, de graduação 9a, no El Capitan,
parque nacional de Yosemite, Califórnia) e em países
como México, Brasil e Paquistão. Habituado a ficar
suspenso em cordas e porta-ledges a mais de 5 mil
metros de altura, ele transforma esses lugares hipnóticos em seu ateliê pessoal, pintando quando está
pendurado num lugar seguro ou no alto das montanhas, em frente a visuais privilegiados. “Quanto mais
tempo gastamos expressando nossos pensamentos
e ações, mais grandiosa se torna a vida”, acredita.
Com a convicção de que escalada e arte são os dois
veículos que o manterão nesse caminho, ele registra
as rochas de uma maneira psicodélica, quase sempre
utilizando todas as cores disponíveis em seu estojo.
Os originais de seus trabalhos valem entre US$ 1.500
e US$ 8 mil (rockmonkeyart.com).
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d epa rt m en t r u b r i c k illustration by tkkk
d e pa rt m e n t r u b r i c k illustration by tkkk
Jay Alders
(Nova Jersey, EUA)
“Acho que todas as modalidades esportivas são
guiadas pelas mesmas emoções: paixão e desafio”, diz Jay Alders, artista plástico de 36 anos.
Jay não se prende a proporções exatas, e por isso
dá formas surreais a ondas, surfistas, skatistas e
snowboarders. Esse estilo faz com que Jay tenha
admiradores pelo mundo. “Acho fascinante quando recebo a foto de um quadro que pintei na casa
de um colecionador”, conta o artista, que já vendeu
uma pintura por US$ 25 mil. Colaborador de causas
humanitárias e naturais, recentemente ele doou
dois trabalhos ao Art Gala 2009, festival anual de
música e arte que acontece na Califórnia (EUA).
A verba apurada com a venda de ingressos e das
obras é revertida à Surfrider Foundation, organização mundial que luta pela preservação dos ecossistemas marinhos e costeiros (jayalders.com).
Mark Fonser
(Porto Alegre, RS)
O gaúcho Mark Fonser, de 37 anos, é conhecido na surf-arte. “Eu ainda era criança quando entrei na casa de cultura Mario Quintana,
em Porto Alegre, e vi uma estátua de bronze
de um índio empunhando um arco e flecha”,
conta. “Imediatamente me senti atraído por
esse tipo de arte”. Hoje faz 16 anos que Mark
vai até ferros-velhos resgatar chapas de ferro
e aço para, em porte do maçarico, transformálas em imponentes esculturas de skatistas,
surfistas e mergulhadores, que custam a partir
de R$ 1.000 (markfonser.com).
Wolfgang Bloch
(Guayaquil, Equador)
Apesar do nome germânico, Wolfgang nasceu e foi criado em Guayaquil, no
Equador. Ele começou a surfar quando tinha 12 anos e nunca mais parou.
Hoje tem 45, mas não se considera um esportista. “O oceano e a natureza são
minhas principais inspirações”, diz. “Quanto mais longe da civilização eu estiver, melhor”. Wolfgang não inclui figuras humanas em seus trabalhos, e prefere
pintar sobre superfícies velhas, de metal ou madeira, que já foram bastante
desgastadas pelo tempo. “Minhas pinturas são orgânicas, é como dar vida a
materiais que são considerados lixo”, explica. Com sua “arte reciclada”, o equatoriano coleciona admiradores em todos os continentes, e já chegou a vender
uma obra por US$ 35 mil (wolfgangbloch.com).
Daniele Henning
(Curitiba, Paraná)
Terri Saul
(Califórnia, EUA)
“Esporte é um tema rico e motivador, independente
da modalidade”, conta Terri Saul, pintora norteamericana de 37 anos, que há quatro desenvolve
trabalhos inspirados em ciclistas e suas máquinas.
“Sempre achei fascinante as invenções que permitem às pessoas se locomoverem sem tocar os pés
no chão”, explica. Ela, que se recorda da primeira vez
que se equilibrou sobre duas rodas, também pinta
índios – influência do avô, o também pintor Chief
Terry Saul, que gostava de retratar os índios americanos choctaw, e que morreu quando ela tinha
apenas cinco anos. “Quando pinto, ignoro os limites
da vida real. Portanto, não estranhe uma pintura de
um índio usando um grande cocar, pedalando uma
bicicleta speed”, diverte-se Terri, que vende cada
tela por cerca de US$ 1.500 (terrisaul.com).
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Com traços menos realistas e bem
pessoais, a artista plástica de 41 anos
cria visões diferentes para as bicicletas. Adoradora incondicional deste
veículo “pela liberdade que ele proporciona”, Dani passou a se inspirar
nas bikes depois que ficou grávida,
há quase seis anos, período no qual
teve que dar um tempo das pedaladas. “Minha técnica de pintura foi
desenvolvida em cima de erros e
acertos. Trabalhei com estamparia
artesanal durante um tempo, o que
me deu agilidade no traçado”, explica.
De forma quase abstrata, com cores
que parecem saltar da tela, suas
obras sugerem velocidade. Cada tela
está avaliada em torno de R$ 2.000
(danihenning.art.br.com).
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cultura
Miguel Doura
(Aconcágua, Argentina)
Luigia Zilli
(Columbia Britânica, Canadá)
A italiana radicada no Canadá começou a pintar competições de bicicletas em 2005, inspirada pela sétima vitória
consecutiva de Lance Armstrong no Tour de France. “Logo
depois, o organizador do Giro de Burnaby, competição que
acontece anualmente na cidade onde mora, gostou de
um quadro meu e o utilizou como divulgação para a prova
de 2006”, conta. A partir disso, o tema é frequente para a
artista, que pedalava na época em que competições femininas ainda eram raras. “Adorava a sensação de pedalar
velozmente dentro de pelotões, quase tocando roda com
roda, ou a de encarar uma longa subida”. Hoje com 43 anos
e longe das pistas, Luigia transmite essas emoções pintando ciclistas em sprints finais e cruzando a linha de chegada.
Ela já vendeu quadros para Austrália, Coreia do Sul, Japão,
China e Brasil, e em maio deste ano expôs seus trabalhos
na comemoração do centenário do Giro d’Itália. O dinheiro
arrecadado com a venda de suas obras – suas telas podem
variar de US$ 2.500 a US$ 3.000 – durante o evento será
revertido para a LiveStrong, fundação de Lance contra o
câncer (luigiazilli.com).
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“Eu gosto dos pós-modernistas, como Paul
Gauguin e Van Gogh, mas fiquei extasiado quando me deparei com o trabalho do
[artista russo] Nikolai Roerich”, diz o argentino Miguel Doura, 47, que começou a estudar artes plásticas em 1985, em Buenos
Aires. Miguel pinta no acampamento base
Plaza de Mulas, no monte Aconcágua, a
4.300 metros de altitude, único lugar onde
já expôs suas obras até hoje. “Sentir a neve
e o vento por perto me faz lembrar quanto
somos pequenos em relação à natureza, e
é isso que me deixa livre para criar”, explica.
Por também ser escalador, Miguel já vendeu
telas por até US$ 3 mil para seus colegas de
montanha da Suíça, Grécia, Rússia, Polônia,
Itália, Espanha, Estados Unidos e Inglaterra.
Portanto, se você estiver de passagem pelo
Aconcágua, não deixe de visitá-lo em sua
galeria Nautilus (aconcaguanow.com).