Estilo Individual e Estilo de Época

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Estilo Individual e Estilo de Época
ESTILO INDIVIDUAL E ESTILO DE ÉPOCA
Mona Lisa, de Leonardo da Vinci,
de 1503-5 (detalhe)
Jeanne Samary, de Renoir,
de 1877 (detalhe)
Marilyn tuyrquesa, de Andy Warhol,
de 1962 (detalhe)
Observem que apesar dos três quadros apresentarem o mesmo tema, a mulher,
cada artista tem a sua técnica, a sua maneira própria e particular de se expressar.
Texto 01
Texto 02
Moreninha
Teresa, se algum sujeito bancar
o sentimental em cima de você
e te jurar uma paixão do tamanho de um
bonde
Se ele chorar
Se ele ajoelhar
Se ele se rasgar todo
Não acredita não Teresa
É lágrima de cinema
É tapeação
Mentira
CAI FORA
(Manuel Bandeira. ln. Antologia Poética, Editora
Sabiá, Rio, 1961)
Moreninha, Moreninha
Tu és do campo a rainha
Tu és senhora de mim;
Tu matas todos d’amores
Faceira, vendendo as flores
Que colhes no teu jardim.
Casirniro de Abreu
Toda e qualquer produção artística só tem sentido quando analisada considerando o
contexto cultural no qual foi produzida, pois há uma relação muito íntima entre o
homem e o momento histórico e social em que o mesmo vive, trabalha e cria. Por
outro lado, á medida que o homem vai mudando ao longo dos tempos, mudam-se
também as formas de ver o mundo, muda a sua linguagem, mudam os temas,
modifica a forma de expressar os seus sentimentos, suas emoções e finalmente a sua
arte. Por essa razão não faz sentido analisarmos uma obra de arte fora de seu
contexto histórico e cultural, mesmo porque, toda produção artística está condicionada
a influências do mundo exterior, por isso mesmo, a obra de arte produzida no período
medieval, época de intensa religiosidade, apresenta traços diferentes daquela
produzida durante a segunda metade do século XIX, época marcada por acentuado
cientificismo.
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O ESTILO INDIVIDUAL
Observe bem os dois textos anteriores, cada um foi escrito numa determinada
época, o primeiro no século XIX e o segundo no século XX. O texto 01 é mais emotivo,
subjetivo e sentimental e pertence ao período romântico. Já o texto 02 é mais
espontâneo, direto, irônico revelando até mesmo uma certa descrença diante da vida e
do amor. A sua linguagem é acentuadamente coloquial, estando, portanto, filiado ao
modernismo.
Assim sendo podemos concluir que cada artista tem a sua marca, a sua concepção
de vida e de criação, a sua maneira particular de ver o mundo, a isto é que
chamamos de Estilo Individual.
Desta forma podemos afirmar que o estilo de Casimiro de Abreu não se confunde
com o estilo de Manuel Bandeira, assim como o estilo do pintor Leonardo da Vinci não
se aproxima do estilo surrealista de Salvador Dali, pois cada um desses artistas viveu
numa época e possui um modo próprio, uma maneira muito particular de se expressar.
INTERTEXTUALIDADE
Por outro lado devemos ficar atentos, pois em arte muitas vezes e o velho e o novo
se misturam de forma natural, ou então, propositalmente, como uma forma de
releitura que o novo faz do velho. Tanto na literatura, na música como nas artes
plásticas é muito comum encontrarmos pontos de contatos entre duas obras
produzidas em épocas bem distantes a este fenômeno cultural chamamos de
intertextualidade.
Observe como a obra clássica Mona Lisa, do pintor italiano Leonardo da Vinci é
recriada por artistas contemporâneos sob um olhar satírico, próprio da modernidade.
Em seguida leia os textos de Manuel Bandeira e de Millôr Fernandes, observando
inclusive não apenas que o segundo aparece como uma paródia do primeiro, mas
observando também o tom crítico e irônico do mesmo em relação à realidade política
do brasileira, em determinado período de nossa história.
Vou-me embora pra
Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Manuel Bandeira
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Vou-me embora de Pasárgada!
Vou-me embora de Pasárgada
Sou inimigo do rei
Não tenho nada que eu quero
Não tenho e nunca terei
Vou-me embora de Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
A existência é tão dura
As elites tão senis
Que Joana, a louca da Espanha
Ainda é mais coerente
Do que os donos do país.
A gente só faz ginástica
Nos velhos trens da central
Se quer comer todo dia
A polícia baixa o pau
E como já estou cansado
Sem esperança num país
Em que tudo nos revolta
Já comprei ida sem volta
Pra outro qualquer lugar
Aqui não quero ficar,
Vou-me embora de Pasárgada. (fragmento)
(...)
Fernades, Millôr, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1988
Um período literário é constituído por um conjunto de obras, espacial e
temporalmente delimitado, que se caracteriza, no plano da expressão, por um sistema
de normas e cânones estéticos e, no plano de conteúdo, por um complexo de idéias
que apresentam uma cosmovisão. Individualizar e descrever um período importa,
portanto, em conhecer seu sistema de normas e seu código ideológico [..J, sua
evolução e sua transformação”.
Salvatore D’Onofrio. Literatura ocidental. São Paulo, Ática, 1990.
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Texto para leitura
CANÇÃO DO EXILIO
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá,
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá.
(Gonçalves Dias, “Canção do exílio”)
Europa, França e Bahia
Meus olhos brasileiros se fecham saudosos
Minha boca procura a ‘Canção do Exílio’.
Como era mesmo a ‘Canção do Exílio’?
Eu tão esquecido de minha terra…
Ai terra que tem palmeiras
Onde canta o sabiá!
(Carlos Drummond de Andrade, Europa, França e Bahia”).
Canção do exílio
Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.
Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!
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ESTILOS DE ÉPOCA
Em cada época existem obras e autores que apresentam traços comuns entre si,
traços estéticos e estilísticos
idênticos,
revelando concepções próprias de recriar a
vida, em determinado momento histórico. Esses pontos em comum, essa maneira
própria de traduzir a vida e o mundo que aproxima a obra dos vários artistas numa
determinada época
é que chamamos de Estilos de Época ou Períodos Literários
como é o caso do Renascimento, Barroco, Romantismo e assim por diante..
Por outro lado, como já dissemos, não podemos ser tão rigorosos na classificação
desses períodos literários, já que um estilo de época sempre deixa alguma herança
para o estilo futuro, da mesma forma que o novo busca a renovação no velho, por isso
mesmo, a arte é uma permanente mistura de tradição e renovação.
Desta forma encontramos autores do modernismo como Vinicius de Moraes e Manuel
Bandeira escrevendo poemas que abordam a vida e o amor, sob a tonalidade sentimental
e melancólica que os colocam como herdeiros do Romantismo.
Assim como, Cecília
Meireles revela em vários de seus poemas, traços do Simbolismo, levando parte da crítica
classificá-la como uma autora neo-simbolista, em parte de sua produção poética.
No entanto, o processo de periodização, da inclusão de certos autores
em
determinado período histórico e literário, em determinada época, acaba acontecendo,
obrigatoriamente, por razões didáticas.
Texto para leitura
Modernismo
Gilberto Mendonça Teles
No fundo, eu sou mesmo é um romântico inveterado.
No fundo, nada: eu sou romântico de todo jeito.
Eu sou romântico de corpo e alma,
de dentro e fora,
de alto e baixo, de todo lado: do esquerdo e do direito.
Eu sou romântico de todo o jeito.
Sou um sujeito sem jeito que tem medo de avião,
um individualista confesso, que adora luares,
que gosta de piqueniques e noitadas festivas,
mas que vai se esconder no fundo dos restaurantes.
Um sujeito que nesta recta de chegada dos cinquenta
sente que seu coração bate tão velozmente
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que já nem agüenta esperar mais as moças
da geração incerta dos dois mil.
Vejam, por exemplo, a minha carta de apaixonado,
a minha expressão de timidez, as minhas várias
tentativas frustradas de D.Juan.
Vejam meu pessimismo político,
meu idealismo poético,
minhas leituras de passatempo.
Vejam meus tiques e etiquetas,
meus sapatos engraxados,
meus ternos enleios,
meu gosto pelo passado
e pelos presentes,
minhas cismas,
e raptos.
Vejam também minha linguagem
cheia de mins, de meus e de comos.
Vejam, e me digam se eu não sou mesmo
um sujeito romântico que contraiu o mal do século
e ainda morre de amor pela idade média
das mulheres.
(&cone de sombras, 1986,p.153.)
Trabalhando com o Texto
Desencanto
Eu faço versos como quem chora
de desalento... de desencanto...
feche o meu livro se por agora
não tens motivo nenhum de pranto.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente
cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca
assim dos lábios a vida corre,
deixando um acre sabor na boca.
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— Eu faço versos como quem morre.
Manuel Bandeira – in Bandeira: seleta em prosa e verso, pág. 92,
Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1971.
Atividades
Questão 01
O que você entende por Estilos de Época?
R: Estilos de Época é o conjunto de traços comuns e semelhantes empregados pelos
mesmos artistas numa determinada época. Assim podemos falar em autores
pertencentes ao estilo Barroco, ao estilo Romântico etc.
Questão 02
Porque não podemos falar numa classificação rígida ao relacionar autores com
determinados estilos de época?
R: Pelo fato de que os estilos se misturam, sendo assim, um autor moderno pode
apresentar influencias ou heranças de um estilo do passado.
Questão 03
Manuel Bandeira é um autor do modernismo, no entanto, podemos observar em seu
texto “Desencanto”, a presença de elementos de outro período literário. Qual é o
período? Justifique.
R: O poema de Manuel Bandeira apresenta heranças do romantismo, sobretudo, pela
presença da melancolia, do pessimismo e da morte. Observe que no primeiro verso, o
verbo chorar tem sentido de morrer.
PERIODIZAÇÃO DA LITERATURA BRASILEIRA
Há quem encare o problema da periodização em história literária como não tendo a
menor importância, achando que ela se deve reduzir simplesmente a uma série de
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nomes sem qualquer significado , no interesse puramente didático de oferecer uma
arrumação ou ordenação correspondente aos capítulos da obra. Por isso é que muitos
adotam a mera divisão cronológica vazia de qualquer sentido definitório quanto ao
que e implícito no período assim delimitado e designado. Destarte, ao denominar a
literatura inglesa do século XIX época vitoriana não levamos em consideração que e
período inclui autores literariamente tão díspares como Oscar Wilde e Carlyle,
Hopkins e Macauley, Pater Darwin, Kipling e Ruskin.
Por outro lado, substituir a periodização, sob alegação de que não é fácil resolvê-la
convenientemente, é apenas fugir ao problema. Em vez de tentar periodizar, em lugar
de um sistema de periodização, procurássemos fazer antes filosofia de valores,
aconselham alguns. Mas, os que se colocam nessa posição não vêem que isso é sair
da história literária para ficar exclusivamente na crítica. Essa distinção é necessária de
início para compreendermos bem o problema. Fazer valoração dos autores passado por
intermédio de ensaios críticos reunidos seguidamente, como uma antologia, não é
fazer história literária.
In Afrânio Coutinho. Conceito de Literatura Brasileira. Rio de Janeiro,
pallas; Brasília, INL, 1976. pág. 17/18.
A literatura brasileira tem sua história dividida em duas grandes eras, em dois
momentos básicos, que de certa forma refletem os momentos históricos e culturais do
país e do mundo. Dentre dessas duas eras encontraremos vários períodos literários
separados por datas que delimitam o início e o final de cada período, de cada época,
muito embora sabemos que muitas vezes essas datas são arbitrárias, mesmo porque
que em arte não há começo nem fim, tudo se repete, tudo se renova.
É bom lembrar também que essas datas não apresentam precisão, são muitas
vezes convenções impostas por exigências didáticas. Senão vejamos; registramos na
literatura brasileira que o Romantismo teve início entre nós no ano de 1836, com a
publicação da obra “Suspiros Poéticos e Saudades”, de Gonçalves de Magalhães,
mas na realidade a expressão do romantismo já havia acontecido anteriormente na
literatura brasileira através de autores menos expressivos, mas que não tinham no
entanto, trânsito na corte, e nem eram tão amigos de D. Pedro II, privilégios dos
quais desfrutava Gonçalves de Magalhães.
Na literatura brasileira temos duas grandes eras, a Era Colonial e a Era Nacional.
Por sua vez essas eras estão subdivididas em períodos literários, escolas literárias ou
ainda, estilos de época.
ERA COLONIAL ( 1500 a 1836)
Quinhentismo (séc. XVI) - engloba toda a produção de textos sobre o Brasil no início
da colonização portuguesa, com destaque para os cronistas estrangeiros, que
retratavam o Brasil como uma terra selvagem de belezas tocantes e exóticas. Em
razão disso a produção em prosa desse período é também conhecida como Literatura
Informativa, ou Literatura dos Viajantes.
Ganha destaque também neste período, a produção literária de Padre
José de
Anchieta.
Barroco – (séc. XVII) – com início em 1601 com a publicação de “Prosopopéia”, poema
de Bento Teixeira. A produção literária do barroco brasileiro teve como cenário principal
a Bahia, onde a estrela maior foi o poeta, Gregório de Matos Guerra. O Barroco se
estende até 1768, com a fundação da Arcádia Ultramarina, em Vila rica, Minas Gerais.
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Arcadismo –(séc. XVIII) – tem início em 1768 através da produção poética dos
poetas mineiros de Vila Rica, quase todos, ligados à Inconfidência Mineira. Assim como
em Portugal, o Arcadismo no Brasil não teve grande duração, termina em 1836 quando
se dá o início do Romantismo.
ERA NACIONAL (1836 até nossos dias)
Romantismo – (séc. XIX) inicia-se em
Saudades, de Gonçalves de Magalhães
aparecimento do Realismo/Naturalismo.
identidade nacional, a procura de nossa
1836 com a publicação de Suspiros Poéticos e
e se estende até 1881 ano em que se dá o
No Brasil o Romantismo foi a busca de nossa
afirmação como povo, como pátria.
Realismo/Naturalismo –( séc. XIX – segunda metade) consideramos o ano de 1881
como o marco inicial desses dois períodos literários,
sendo os seus primeiros
representantes, Machado de Assis e Aluísio Azevedo, com os romances Memórias
Póstumas de Brás Cubas e O Mulato, respectivamente. A literatura produzida nesta
época traz profundas preocupações sociopolíticas, as desigualdades sociais, a ironia, o
pessimismo, a descrição profunda do indivíduo e as convicções científicas.
Parnasianismo – ( séc. XIX ) No Brasil, a poesia parnasiana foi contemporânea da
prosa realista-naturalista. Seu marco inicial deu-se com a publicação de Fanfarras,
livro de poemas de Teófilo Dias, muito embora a maior expressão desse estilo tenha
sido Olavo Bilac. A poesia parnasiana valoriza ao extremo o rigor formal ao mesmo
tempo que condena a literatura subjetiva e sentimental para valorizar as descrições
objetivas do mundo, os temas clássicos de inspiração greco-latina.
Simbolismo (final do séc. XIX) o simbolismo chegou ao Brasil em 1893, com a
publicação dos livros Missal (prosa) e Broqueis (poesia), de Cruz e Sousa. Assim como
o Parnasianismo, o Simbolismo apresentou também grande preocupação formal, sendo
apenas esse o ponto de contato entre os dois estilos, pois enquanto, uma vez que a
preocupação temática do Simbolismo recai sobre os aspectos espirituais e metafísicos
da existência humana. Por outro lado, o Simbolismo pode ser considerado como a
porta de entrada da era moderna, na literatura.
Pré-Modernismo (início do séc. XX) o período teve início em 1902 com a publicação
das obras Os Sertões, de Euclides da Cunha, e Canaã, de Graça Aranha. A
preocupação principal desse período foi a redescoberta do Brasil através de um olhar
crítico sobre a nossa sociedade. Foi um período de curta duração, porém deixou-nos
obras bastante significativas.
Modernismo – (séc. XX) – esse período literário teve início com a Semana de Arte
Moderna realizada em São Paulo, no ano de 1922. De um modo geral, a crítica
convencionou chamar de Modernismo a produção literária compreendida entre os anos
de 1922 e 1945 O Modernismo rompe com os padrões estéticos do passado e abre
espaço para formas artísticas inusitadas, contestadoras e revolucionárias rompendo
todos os limites de criação tanto na poesia, na prosa como nas artes plásticas. Ganha
força o debate em torno das questões políticas e estéticas.
Após 1945 tem início um período denominado Pós-Modernismo ou Geração
de 45 que representa um rompimento ainda maior dentro do universo da criação
artística. Esse período se estende até nossos dias, revelando o que a crítica denomina
de Produções Contemporâneas.
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LEITURA COMPLEMENTAR
A história da Literatura no Brasil inicia-se no ano de 1500, com a Carta, de Pero
Vaz de Caminha. Na verdade a Carta nada possui de excepcional no plano literário,
valendo portanto, mais como história do que como literatura. Sua narrativa, contudo
não é fria e nem totalmente despida de valor literário, uma vez que o autor preocupase em alguns momentos dar à sua linguagem uma beleza estilística, deixando transparecer um cronista latente.
"Esta terra, Senhor, me parece que da ponta mais contra o sul vimos até
outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista,
será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Tem,
ao longo do mar, nalgumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas
brancas; e a terra por cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De
ponta a ponta, é tudo praia-palma, muito chã e muito formosa.
Pelo sertão nos pareceu, visto do mar, muito grande, porque, a estender
olhos, não podíamos ver senão terra com arvoredos, que nos parecia muito
longa."
Na realidade esse foi o início da Literatura Brasileira, onde predominava as
narrativas dos descobridores e catequistas, que relatavam fatos da terra e de seus
habitantes, quase sempre sem muita profundidade e importância literária.
Entre os principais nomes desse período destacamos Pero Vaz de Caminha, Pero de
Magalhães Gândavo, Fernão Cardim, Gabriel Soares de Sousa e Hans Standen, estes
na condição de viajantes, e Pe. Manuel da Nóbrega, Pe. José de Anchieta e Manuel
Couto, como jesuítas, sendo os dois últimos os responsáveis diretos pela introdução do
teatro entre os nativos brasileiros. Todas essas manifestações aconteceram durante o
século XVI, o qual no aspecto literário pode ser dividido em Período dos Jesuítas e
Período dos Viajantes.
No século XVII, logo no início, aparece no Brasil, especificamente, na Bahia, o
Período Barroco, quando Bento Teixeira, em 1601, publica seu poemeto épico —
"Prosopopéia" — trazendo fortes influências de Camões. O poemeto faz louvação ao
donatário da Capitania de Pernambuco — Jorge de Albuquerque Coelho.
Vindo mais tarde, porém com maior importância, para o Barroco brasileiro a figura de
Gregório de Matos Guerra, que se imortalizou pelas suas agressivas sátiras,
principalmente aos costumes baianos, o que lhe valeu o apelido de "Boca do Inferno".
A CIDADE DA BAHIA
Gregório de Matos Guerra
Triste Bahia! Oh, quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo, a ti, e tu a mim empenhado,
Rica de ti eu já, tu a mim abundante.
A ti trocou-se a máquina mercante,
Que a tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando e tem trocado
Tanto negócio e tanto negociante.
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Deste em dar tanto açúcar excelente,
Pelas drogas inúteis, que, abelhuda,
Simples aceitas do sagaz brichote
Oh, se quisera Deus que, de repente
Um dia amanhecerás tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!
O Período Barroco vai se estender até 1768, época em que Cláudio Manuel da
Costa, publica — "Obra Poética" (poesia) — dando início ao Período do Arcadismo, cujo
centro de criação foi Minas Gerais, cruzando com o Ciclo da Mineração e com a
Inconfidência Mineira. Entre os principais árcades brasileiros apontamos Cláudio
Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Basílio da Gama, Santa Rita Durão. O
Neoclassicismo ou Arcadismo caracteriza-se especialmente pela busca da simplicidade
e de motivos bucólicos.
"Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, de expressões grosseiro,
Dos frios gelos e dos sóis queimados.
Tenho próprio casal e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E as finas lás, de que me visto.
Graças Marilia bela, Graças à minha estrela!
O Arcadismo predomina até 1836, ocasião em que Gonçalves de Magalhães, publica
— "Suspiros Poéticos e Saudades" — (poesias) — obra que serve de marco ao início do
Romantismo na Literatura Brasileira.
Com o advento do Romantismo, passa a predominar em nossas letras intenso
sentimentalismo e forte nacionalismo, iniciando-se aqui a chamada Fase Nacionalista,
que vem para substituir a Fase Colonialista que corresponde ao período de 1500 a 1836.
Nosso Romantismo herdou do europeu todas suas características, especialmente,
dentro da concepção francesa de ideal romântico, excluindo apenas o indianismo,
uma das mais autênticas características do movimento no Brasil. Não se pode
esquecer também a onda de patriotismo que dominou nosso Romantismo, como
consequência direta de nossa emancipação política.
O Período Romântico no Brasil, dividiu-se em quatro grupos distintos, os quais são
assim apresentados:
1º GRUPO — predomínio da poesia religiosa, tendo como principal nome Gonçalves
de Magalhães.
2º GRUPO — a intensa valorização dos temas nacionalistas, através da idealização
do selvagem tanto na poesia como na prosa, destacando-se Manuel Antônio de
Almeida, José de Alencar, Gonçalves Dias e Bernardo Guimarães.
3º GRUPO — predominância do subjetivismo, individualismo, dúvida e a
configuração do "mal do século" — onde ganham realce Álvares de Azevedo,
Casimiro de Abreu, Fagundes Varela, Junqueira Freire e Laurindo Rebelo.
4º GRUPO — a presença de um Romantismo liberal e social marcado por um ideal
político-social, voltado especialmente para a luta do abolicionismo. Essa poesia de
cunho sócio-político, conhecida como "condoreira" teve como principais
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representantes Luís Delfino, Tobias Barreto, e Castro Alves, sendo esse último o maior
batalhador pela causa da abolição no Brasil, através de versos engajados e como
podemos ver adiante, no poema — "A Cruz da Estrada":
Caminheiro que passas pela estrada,
Seguindo pelo rumo do sertão,
Quando vires a cruz abandonada,
Deixa-a em paz dormir na solidão.
Que vale o ramo do alecrim cheiroso
Que lhe atiras nos braços ao passar?
Vais espantar o bando buliçoso
Das borboletas, que lá vão pousar.
É de um escravo humilde sepultura,
Foi-lhe a vida o velar de insônia atroz.
Deixa-o dormir no leito de verdura,
Que o Senhor dentre as selvas lhe compôs.
Não precisa de ti. O gaturamo
Geme, por ele, à tarde, no sertão.
E a juriti, do taquaral no ramo,
Povoa, soluçando, a solidão.
Dentre os braços da cruz, a parasita,
Num abraço de flores, se prendeu.
Chora orvalhos a grama, o que palpita,
Lhe acende o vaga-lume o facho seu.
Quando, à noite, o silêncio habita as matas,
A sepultura fala a sós com Deus.
Prende-se a voz na boca das cascatas,
E as asas de ouro aos astros lá nos céus.
Caminheiro! do escravo desgraçado
O sono agora mesmo começou!
Não lhe toques no leito de noivado,
Há pouco a liberdade o desposou.
O ano de 1881 passa à Literatura Brasileira como o marco ao início do Realismo e
Naturalismo em nossas letras, data em que Aluísio Azevedo publica seu revolucionário
romance — "O Mulato", criando assim um novo ideal estético à nossa Literatura.
O Realismo se caracterizou pela contestação aos costumes da época, explorando
fatos da sociedade — (vida conjugai, clero e política). Irão marcar presença nesse
período Machado de Assis, Aluísio Azevedo e Raul Pompéia.
Enquanto o Realismo se preocupa com a realidade social, o Naturalismo estará
voltado para a realidade psico-biológica, tentando explicar cientificamente o modo e a
conduta das personagens. Nesse período aparecem Domingos Olímpio, Inglês de
Sousa, Júlio Ribeiro, Adolfo Caminha e Coelho Neto.
A seguir um trecho do romance "O Mulato" onde fica óbvio as manifestações do período:
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"Era um dia abafadiço e aborrecido. A pobre cidade de São Luís do
Maranhão parecia entorpecida pelo calor. Quase que não se podia sair à rua: as
pedras escaldavam; as vidraças e os lampiões faiscavam ao sol como enormes
diamantes; as paredes tinham reverberações de prata polida; as folhas das
árvores nem se mexiam; as carroças de água passavam ruidosamente a todo
instante, abalando os prédios; e os aguadei- ros em mangas de camisa e pernas
arregaçadas, invadiam sem cerimônia as casas para encher as banheiras e os
potes. Em certos pontos não se encontrava viva alma na rua; tudo estava
concentrado, adormecido; só os pretos faziam compras para o jantar ou
andavam no ganho."
Não muito distante do início do Realismo vamos encontrar um outro Período
Literário — Parnasianismo — cuja manifestação se realiza por meio da poesia, que por
sua vez é marcada pelo anti-sentimentalismo, racionalismo e preocupação formal.
Buscavam sempre a correção gramatical, eivando a poesia de um tom
acentuadamente acadêmico e professoral, onde a maior preocupação era o culto à
forma, como nesse poema de Bilac.
A UM POETA
Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! no aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre e sua!
Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; na trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.
Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:
Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte Pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.
Entre os principais parnasianos destacamos Alberto de Oliveira, Raimundo Correia,
Olavo Bilac e Vicente de Carvalho, devendo observar que os três primeiros formam a
famosa tríade parnasiana da poesia brasileira.
Em 1893, aparece o Período Simbolista, introduzido pelo poeta negro Cruz e Sousa,
com a obra — "Broquéis" — (poesias). Esse período aparece como uma oposição
frontal ao Parnasianismo, situando-se por outro lado bem próximo das orientações
românticas, de onde herdou o subjetivismo e o lirismo. Apesar da aparente oposição,
os Simbolistas conservaram muitos dos hábitos de versificação dos Parnasianos, mas
buscando sempre rítimos musicais e inebriantes, numa linguagem quase sempre
litúrgica. Algo peculiar dentro desse movimento é a presença de elementos místicos,
religiosos e indefinidos:
SIDERAÇÕES
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Para as Estrelas de cristais gelados
as ânsias e os desejos vão subindo,
galgando azuis e siderais noivados
de nuvens brancas a amplidão vestindo. . .
Num cortejo de cânticos alados
os arcanjos, as cítaras ferindo,
passam, das vestes nos troféus prateados,
as asas de ouro finamente abrindo. . .
Dos etéreos turíbulos de neve
claro incenso aromai, límpido e leve,
ondas nevoentas de Visões levanta...
E as ânsias e os desejos infinitos
vão com os arcanjos formulando ritos
da Eternidade que nos Astros canta...
(Cruz e Sousa)
Em todos os seus representantes, percebemos que o Simbolismo teve a
preocupação de exprimir as emoções no que elas tem de mais vago e pessoal, sem a
menor eloqüência, e preocupado apenas com o nível de musicalidade de seus versos.
Dentro dessa visão Verlaine, mestre do Simbolismo Francês, escreveu — "Art
Poétique":
"De la musique avant toute chose...
Rein de plus cher la chanson grise
Où l'lndécis au Précis se joint...
Car nous voulons la Nuance...
Pas la couleur, rein que la Nuance!...
Prends l'éloquence et tords-lui son cou!...
Além de seu introdutor, o Simbolismo na Literatura Brasileira, teve corno nomes
importantes Alphonsus de Guimaraens, Emiliano Perneta, Mário Pederneira, Nestor
Vitor, Graça Aranha e Augusto dos Anjos.
No final do século XIX, vamos sentir fortes mudanças nas Artes de um modo geral,
inicialmente nas Artes Plásticas e mais tarde na Literatura. No Brasil as manifestações
modernistas nas Artes Plásticas, foram introduzidas por Anita Malfatti, em 1916
através de uma exposição de telas que traziam influências do expressionismo alemão,
causando na época, um dos maiores escândalos culturais. O escritor Monteiro Lobato,
chocado com os trabalhos da pintora paulista, escreveu um artigo, cujo título era —
"Mistificação ou Paranóia?".
Aos poucos foram aparecendo outros nomes, e formando um grupo organizado
dentro de um ideal modernista, que passou a dominar as Artes, dando início ao
discutido Movimento Modernista, que veremos a seguir.
ASPECTOS GERAIS DO MODERNISMO
Com o advento do século XX ganharam nossas artes uma nova dimensão
artística/criativa. O movimento eclodiu em São Paulo através da Semana da Arte
Moderna em 1922. O importante é saber que isso não aconteceu de um momento para
30
outro, foi trabalho de muitos anos de elaboração e pesquisa através das artes
plásticas, rítmicas e visuais.
Destacam-se como elementos importantes dentro da Semana os seguintes artistas:
Mário de Andrade, Menotti dei Picchia, Oswald de Andrade, Graça Aranha, Guilherme
de Almeida, Di Cavalcanti, Villa Lobos e Ronald de Carvalho. De todos esses elementos
consagrou-se Mário de Andrade, pela sua ativa participação e realização diante do
novo ideal estético, recebendo, portanto, a cognominação de "O Papa do Modernismo".
As primeiras manifestações literárias dentro do modernismo aconteceram através
da poesia, que logo de início deixou transparecer despreocupação total quanto à forma
poética, até então consagrada e louvada por todos, especialmente, pelos parnasianos,
a quem Manuel Bandeira atacou veementemente através dos poemas "Os Sapos" e
"Poética".
Buscando valorizar o moderno e ferir o passado, os modernistas adotaram como
instrumento principal o verso livre, o humorismo, a condensação, o coloquial, e
sobretudo, a liberdade de criação.
"Paulicéia Desvairada" — de Mário de Andrade, aparece em 1922 como a
concretização de todo o ideal estético cantado pelos modernistas, o que serviu de
abertura a centenas de poetas novos adeptos da nova idéia artística/literária.
O modernismo no Brasil pode ser dividido assim:
a — geração de 1922
b — geração de 1930
c — geração de 1945 e Pós-Modernismo e Produções Contemporâneas.
Texto para Leitura
45
A Domingos Carvalho da Silva
Sou da geração
de quarenta e cinco
ou tenho na mão
a porta sem trinco?
(Nem sei quantas são
as telhas de zinco
que cobrem meu chão
de quarenta e cinco.)
Semeei meu grão?
fui ao fim do afinco?
pesquei a paixão
de quarenta e cinco?
31
Tudo é sim e não
em quarenta e cinco.
E a melhor lição
forma sempre um vinco
de interrogação
no tempo, onde brinco
procurando um vão
entre o 4 e o 5.
Gilberto Mendonça Teles
Primeira Geração — o que mais caracteriza a geração de 22 é o caráter destrutivo
em relação a tudo o que era passado e convenciona- lismo.
Nomes principais: Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti dei Picchia, Sérgio
Milliet, Manuel Bandeira, Cassiano Ricardo, Raul Bopp, Tasso da Silveira, Murillo Araújo
e Ronald de Carvalho, entre outros.
A segunda geração modernista teve como preocupação primordial apontar os
problemas sociais, com muito mais equilíbrio, seriedade e afirmação no sentido de
brasilidade e universalismo. Dentro da prosa modernista, dessa geração, inicia-se o
ciclo do romance nordestino, de cunho essencialmente social. Entre os poetas
encontramos: Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima, Cecília Meireles, Augusto
Mayer, Murilo Mendes, Frederico Schmidt e Vinícius de Morais. Na prosa os principais
destaques são: Jorge Amado, José Lins do Rego, Raquel de Queiroz, Graciliano Ramos,
José Américo de Almeida.
A terceira geração modernista, ou geração de 45 e depois a Pós Moderna passa por
uma transformação radical, é marcada pelo acentuado senso de medida. Acerca dessa
geração escreve o professor Leodegário de Azevedo Filho:
"em busca de uma expressão poética disciplinada ou em busca de
transformar o poema num artefato técnico-formal, os poetas de 45 acabaram
revalorizando os ritmos tradicionais numa espécie de neoparnasianismo de
todo inconsequente."
Dentro da poesia e da prosa os nomes mais representativos são: João Cabral de
Melo Neto, Bueno de Riveira, José Paulo Moreira da Fonseca, Ledo Ivo, Geir Campos,
Afonso Felix de Sousa, Darci Damasceno e Domingos Carvalho e Silva. Destacam-se
também
Guimarães Rosa, Mário Palmério, Bernardo Élis, Adonias Filho,Carmo
Bernardes, Eli Brasiliense, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Teles, José J. Veiga,
Antônio Calado, Érico Veríssimo, Marques Rebelo e José Geraldo Vieira. Afirmam-se
também como autores de importância nacional - Dalton Trevisam, João Antonio,
Miguel Jorge, Gilberto Mendonça Teles, Luís Vilela, Bariani Ortêncio, Fernando Sabino,
Nélida Pinon e Olga Savary, Mário Chamie, Ferreira Gullar, Rubem Fonseca, Augusto
de Campos, Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Carlos Heitor Cony, João Ubaldo
Ribeiro, Milton Hatoum, Moacir Scliar,Manuel de Barros, Luis Fernando Veríssimo.
32
Podemos citar ainda Martha Medeiros, Adélia Prado, Ivan Angelo, Ignácio de Loyola
Brandão, Ana Cristina Cesar, Heleno Godoy, Ieda Schmaltz, Paulo Leminski., Antonio
Cícero, Eucanaã Ferraz , Arnaldo Antunes. Waly Salomão e outros.
A partir da 60 ou um pouco antes, em 1956, novas tendências marcaram época no
Modernismo Brasileiro, que parte da crítica convencionou chamar de A Poesia
Brasileira de Vanguarda; a primeira manifestação denominou-se "Concretismo".
Texto para leitura
Casamento
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
Adélia Prado
Acima de qualquer suspeita
a poesia está morta
mas juro que não fui eu
eu até que tentei fazer o melhor que podia para salvá-la
imitei diligentemente augusto dos anjos paulo torres carlos drummond de andrade manuel bandeira murilo
mendes vladmir maiakóvski joão cabral de melo neto
paul éluard oswald de andrade guillaume appolinaire
sosígenes costa bertolt brecht augusto de campos
não adiantou nada
33
em desespero de causa cheguei a imitar um certo (ou
incerto) josé paulo paes poeta de ribeirãozinho estrada
de ferro araraquarense
porém ribeirãozinho mudou de nome a estrada de ferro
araraquarense foi extinta e josé paulo paes parece
nunca ter existido
nem eu
José Paulo Paes
EPITÁFIO PARA UM BANQUEIRO
negócio
ego
ócio
cio
o
José Paulo Paes
À televisão
Teu boletim metereológico
me diz aqui e agora
se chove ou se faz sol.
Para que ir lá fora?
A comida suculenta
que pões à minha frente
como-a toda com os olhos.
Aposentei os dentes.
Nos dramalhões que encenas
há tamanho poder
de vida que eu próprio
nem me canso em viver.
Guerra, sexo, esporte
- me dás tudo, tudo.
Vou pregar minha porta:
já não preciso do mundo.
PAES, José Paulo. Prosas seguidas de odes mínimas.
São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 71
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Décio Pignatari
A Festa
Atrás do balcão, o rapaz de cabeça pelada e avental olha o crioulão de roupa limpa e remendada,
acompanhado de dois meninos de tênis branco, um mais velho e outro mais novo, mas ambos com
menos de dez anos.
Os três atravessam o salão, cuidadosa mas resolutamente, e se dirigem para o cômodo dos
fundos, onde há seis mesas desertas.
O rapaz de cabeça pelada vai ver o que eles querem. O homem pergunta em quanto fica uma
cerveja, dois guaranás e dois pãezinhos.
– Duzentos e vinte.
O preto concentra-se, aritmético, e confirma o pedido.
– Que tal o pão com molho? – sugere o rapaz.
– Como?
– Passar o pão no molho da almôndega. Fica muito mais gostoso.
O homem olha para os meninos.
– O preço é o mesmo – informa o rapaz.
– Está certo.
Os três sentam-se numa das mesas, de forma canhestra, como se o estivessem fazendo pela
primeira vez na vida.
O rapaz de cabeça pelada traz as bebidas e os copos e em seguida, num pratinho, os dois pães
com meia almôndega cada um. O homem e (mais do que ele) os meninos olham para dentro dos
pães, enquanto o rapaz cúmplice se retira.
Os meninos aguardam que a mão adulta leve solene o copo de cerveja até a boca, depois cada um
prova o seu guaraná e morde o primeiro bocado do pão.
O homem toma a cerveja em pequenos goles, observando criteriosamente o menino mais velho e
o menino mais novo absorvidos com o sanduíche e a bebida.
Eles não têm pressa. O grande homem e seus dois meninos. E permanecem para sempre,
humanos e indestrutíveis, sentados naquela mesa.
Wander Piroli
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A POESIA BRASILEIRA VANGUARDA
Introduzido no Brasil por Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos, causou na
época as mais sérias polêmicas, traçando assim a trajetória da Vanguarda Brasileira.
Para o crítico e poeta Walmir Ayala — "O Concretismo é o movimento mais
controvertido e sensacional da poesia brasileira. Em princípio visou a objetividade do
poema e suas relações com o espaço gráfico. A página onde o poema é escrito
(impresso) funcionava como elemento visual na apreensão do mistério poético, que
passa a ser menos enigma e mais geografia. O trabalho sobre a palavra em si foi um
dos núcleos de ação desta coluna. A palavra e a relação de suas partes, a palavra no
contexto despojado, antidiscursivo, ou um discurso em que até os claros da página
são movimentos valiosos. A palavra-objeto."
Como exemplo de um poema concretista transcrevemos um trabalho de Augusto de
Campos.
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Considera-se o Concretismo como um movimento de conscientização poética tanto
para o leitor como para o próprio Poeta, que veio descobrir definitivamente sua
responsabilidade diante da arte. Deve-se considerar também que apareceram na
época muitos pseudo-poetas, tirando proveito da situação, para expor ideias muitas
vezes ao plano oposto da poesia.
Passado a fase áurea do Concretismo, que teve seus pontos altos em São Paulo e
Rio, vai aparecer uma nova tendência dentro da poesia: "Praxis".
PRAXIS
Diz a crítica que a experiência Praxis nasceu como um manifesto publicado no livro
Lavra Lavra, de Mário Chamie, em 1962.
Falando acerca das novas experiências dentro da poesia, Mário Chamie, assim
comentou:
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"O autor praxis possui na palavra uma matéria- prima transformável, nunca
um mero componente subsidiário. Seu trabalho desenvolve um processo
comum que ampara todas as opções pessoais."
Sobre o mesmo problema escreveu Cassiano Ricardo: — "Em qualquer hipótese, a
praxis se distingue de todos os experimentos de vanguarda, hoje, justamente pelo apreço
que dá à palavra, único meio de formulação de um novo produto poemático, numa
estrutura como a caracteriza o mundo da atualidade, em que a palavra vale mais, precisamente pelo não verbal que a ela se juntou. Ao invés do poema que se faz com palavras, o
que se instaura é a palavra em sua energia procria- tiva irradiadora, mas manipulável."
De Mário Chamie transcreveremos o poema Veículos de Massa — TV.
o vidro transparência / o olho cego consciência
a consciência no vídeo / a transparência do vidro
o povo cego da praça / o olho negro da massa
a praça de olho cego / a massa de olho negro
o vidro transparência
o cego consciência
a massa diante do vídeo
a massa = globo de vidro
a praça de olho negro
o povo = olho morcego
sem ver o povo com a venda
a câmara negra = sua tenda
sem ver / a venda no olho do povo
te vê / a câmara negra do sono
Embora tenha conseguido grande número de adeptos, o Praxismo, assim como o
Concretismo, teve pouca duração, restando apenas o fruto do trabalho de alguns
grupos mais sérios e dedicados.
POEMA-PROCESSO
Como derivação direta da Poesia Concreta, aparece em fins de 67, no Rio, liderados
por Wladimir Dias-Pino, um grupo de poetas, que busca em sua criação destacar uma
nova linguagem poética, onde a palavra é o que menos importa.
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Em seu livro "Processo: Linguagem e Comunicação" — Dias-Pino escreveu:
"Poema-processo é aquele que, a cada nova experiência, inaugura processos
informacionais. Essa informação pode ser estética ou não: o importante é que
seja funcional e, portanto, consumida. O poema resolve-se por si mesmo,
desencadeando-se (projeto), não necessitando de interpretação para sua
justificação. (...) Não se trata, como alguns poderiam pensar, de um combate
rígido e gratuito ao signo verbal, mas de uma exploração planificada das
possibilidades encerradas em outros signos (não verbais). É bom lembrar que
mesmo as estruturas não se traduzem: são codificadas pelos processos que
visam a comunicação internacional."
Para alguns críticos o Poema/processo não passa de uma antilitera- tura, que visa
muito mais a imagem plástica do que novas descobertas dentro da palavra.
Entre os vários tipos de poema/processo, destacamos — o poema animação,
explosão tipográfica, gráfico, montagem e objeto-poema. Como exemplo de nova
tendência literária transcrevemos 3 poemas; o primeiro de Neide Sá, o segundo de
Sônia Figueiredo, e o terceiro de Luís A. Fachini Gomes
POEMA/PROCESSO
NEIDE SA
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POEMA/PROCESSO
* leitura pela aproximação dos cantos do código
In — "Processo: Linguagem e Comunicação"
WLADIMIR DIAS-PINO,
Editora Vozes, Rio, 1971
39
in — "Processo: Linguagem e Comunicação"
WLADIMIR DIAS-PINO,
Editora Vozes, Rio, 1971
POEMA/ PROCESSO
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POESIA MARGINAL
In — "Processo: Linguagem e Comunicação"
WLADIMIR DIAS-PINO,
Editora Vozes, Rio, 1971
41
Nos anos setenta, logo após o movimento tropicalista, surgiu um tipo de produção
poética que foi chamada de Poesia Marginal. Na época da Ditadura - anos 70 - a
repressão política conduziu poetas e escritores a busca de um poetar livre: da
censura, da estruturação erudita, da repressão política, etc.
A geração da Poesia Marginal vai levar a poesia às praças, universidades e os textos
circulavam em cópias mimeografadas pelas ruas e praças deixando de lado a
formalidade das editoras e livrarias. A poesia marginal terá como marca o humor e a
alegria. Entre os nomes mais notáveis ganham destaque poetas como Chacal, Charles,
Francisco Alvim, Cacaso, Paulo Liminski além de outros poetas.
Textos para leitura
Fogo-Fátuo
Ela é uma mina versátil
O seu mal é ser muito volúvel
Apesar do seu jeito volátil
Nosso caso anda meio insolúvel
Se ela veste seu manto diáfano
Sai de noite e só volta de dia
Eu escuto os cantores de ébano
E espero ela chegar da orgia
Ela pensa que eu sou fogo-fátuo
Que me esquenta em banho-maria
Se estouro sou pior que o átomo
Ainda afogo essa nega na pia.
(Chacal)
Publicado no livro Nariz aniz (1979).
Razão de ser
Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?
RECEITA
Paulo Leminski
Ingredientes
2 conflitos de gerações
42
4 esperanças perdidas
3 litros de sangue fervido
5 sonhos eróticos
2 canções do beatles
Modo de preparar
dissolva os sonhos eróticos
nos 2 litros de sangue fervido
e deixe gelar seu coração
leve a mistura ao fogo
adicionando dois conflitos
de gerações às esperanças
perdidas
corte tudo em pedacinhos
e repita com as canções dos beatles
o mesmo processo usado com os
sonhos eróticos mas desta vez
deixe ferver um pouco mais e
mexa até dissolver
parte do sangue pode ser
substituído por suco de
groselha mas os resultados
não serão os mesmos
sirva o poema simples ou com
ilusões
Nicolas Behr
Papo de Índio
Veiu uns ômi di saia preta
cheiu di caixinha e pó branco
qui eles disserum qui chamava açucri
aí eles falarum e nós fechamu a cara
depois eles arrepitirum e nós fechamu o corpo
aí eles insistirum e nós comemu eles.
vocês repararam como o povo anda triste ?
é a cachaça que subiu de preço
a cachaça e outros gêneros de primeira
necessidade
cachaça a dois contos, ora veja,
veja a hora,
que horas são,
atenção
apontar:
FOGO
Chacal
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