O segundo primeiro filme

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O segundo primeiro filme
O segundo primeiro filme
Marcelo Rezende
Poucas coisas são tão misteriosas quanto aquilo que se chama, ou se aprendeu a
chamar, de “vida cotidiana”. Essa expressão guarda algumas desconfianças (a mais
assustadora, a de que tudo se repete, todos os dias) e um certo número de certezas. A
mais evidente, a de que essa existência acontece em um determinado tempo, e em um
lugar particular. Como agora, neste instante, nesta “Casa de Espelhos”. Mas, aqui, nada
está sendo repetido, reprisado. Trata-se sobretudo de uma interrupção.
Conjunto Nacional, em Casa de Espelhos, Galeria Vitrine Paulista,
São Paulo, 2009
Mas por qual razão sob o cotidiano se esconde esse fantasma da repetição? Uma
resposta provável está na idéia de que na sucessão de fatos, acontecimentos de uma
jornada – logo, de uma vida – se formam crenças e verdades que são apenas
convenções. Nos modos de vida cotidianos se esconderia uma mentira, uma invenção
perversa fazendo com que parecesse ter sido tudo, de todas as formas, escolhido e
decidido antes mesmo de alguém ter chegado ao mundo, que passa a ser sempre algo
“que é”, e raramente “o que poderá ser”. As relações de dominação são o que também se
repete.
www.luciakoch.com
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Conjunto Nacional, em Casa de Espelhos, Galeria Vitrine Paulista,
São Paulo, 2009
Contra essa repetição, Lucia Koch faz uso de um momento de suspensão. Com “Casa de
Espelhos” algo se interrompe a partir de uma experiência coletiva urbana. Este lugar não
é mais o lugar que se conhece, assim como a vivência com este espaço, neste momento,
não é a mesma. Há agora um corte, uma outra situação, uma outra possibilidade criada a
partir de uma insurreição estética contra os modos habituais de se pensar ou sentir um
território. Ganha-se assim uma renovada condição: se cada um vive a vida como cenas
que apenas se repetem (o cotidiano) em um mesmo cenário (a cidade), agora é possível
fazer, pela segunda vez, um primeiro filme, como se tudo não pudesse se repetir jamais.
Publicado no folder da exposição Casa de Espelhos, Lucia Koch, realizada na Caixa Cultural, Galeria Vitrine
Paulista, Conjunto Nacional, 2009
Marcelo Rezende é autor do romance "Arno Schmidt" (Planeta 2005) e do ensaio "Ciência do Sonho – A
imaginação sem fim do diretor Michel Gondry" (Alameda, 2005). Curador da exposição “Estado de Exceção”
(Paço das Artes, 2008) e co-curador dos projetos "Comunismo da Forma" (Galeria Vermelho, São Paulo,
2007), e "À la Chinoise" (Microwave International Media Arts Festival, Hong Kong, 2007).
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