A poética da diferença entre obra literária e fílmica e... Davina

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A poética da diferença entre obra literária e fílmica e... Davina
A poética da diferença entre obra literária e fílmica e...
Davina Marques
Mestra em Educação e Doutora em Letras
Docente no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo - Campus
Hortolândia
Resumo: Na discussão da adaptação fílmica de textos literários, apresenta-se neste trabalho a
proposta de que as obras precisam transformar-se em monumentos, como os postulados por Gilles
Deleuze e Félix Guattari em O que é a filosofia? Partindo do pressuposto de que esse monumento
se constrói em fabulação e, no caso das obras estudadas, através da poética das sonoridades, trago
para o Conexões um vídeo experimental, resultado dessa posição teórica e desdobramento da minha
tese de doutorado.
Palavras-chave: fabulação, reverberações poéticas, vídeo experimental.
Muito já se escreveu sobre a relação literatura e cinema. Tenho explorado-a desde o trabalho
do doutorado (MARQUES, 2013) e encontrei, nos trabalhos de Gilles Deleuze e Félix Guattari,
maneiras de pensá-la estabelecendo ainda outras conexões. Instrigava-me a questão da adaptação de
obras literárias para o cinema. Trabalhei com “Campo Geral”, novela de João Guimarães Rosa,
publicada pela primeira vez em Corpo de Baile (1956), em relação ao filme Mutum (2007), de
Sandra Kogut. Não queria pensar uma arte, o cinema, em relação de submissão, de negatividade –
daquilo que falta, à literatura. Em O que é a filosofia? (DELEUZE; GUATTARI, 1997d),
vislumbrei a primeira perspectiva intrigante para essa relação: a obra precisa ser um monumento,
uma composição de forças que permite que ela se sustente sozinha, independente de quem a
experimenta, de quem a fez, do material que lhe serve de base.
Entretanto, precisava ainda tentar entender o que é que servia de liga a essas forças de
composição, o que fazia com que uma obra se sustentasse. Não se tratava de transformar um livro
em livro falado (filme) (GRILO, 2006)... O filme precisava ser outra coisa, outra coisa que não
fosse perda por motivo de analogia e julgamento, na sua relação com o livro. E foi então que
encontrei o pensamento sobre fabulação.
Na cartografia que o professor Ronald Bogue estabeleceu a partir dos escritos de Deleuze e
Guattari sobre fabulação (cf. BOGUE, 2010; 2011; 2003a; 2003b), encontrei elementos que me
permitiram pensar o livro e filme em suas potências maiores, naquilo que fazia deles monumentos.
Já escrevi sobre isso antes (MARQUES, 2013; 2011) e aqui gostaria de experimentar um
deslocamento outro, visual, sonoro.
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Na tese (MARQUES, 2013), tentava entender a potência que transformava isto – “Estou
sempre pensando lá por detrás dele [do morro do Mutum] acontecem outras coisas, que o morro
está tapando mim, e que eu nunca hei de poder ver..." (ROSA, 1984, p.14) – nisto:
Figura 01.
Fotograma do filme Mutum, de Sandra Kogut
A fabulação é a potência que permite ao artista “elaborar um material cada vez mais rico,
cada vez mais consistente, apto a partir daí a captar forças cada vez mais intensas” (DELEUZE;
GUATTARI, 1997b, p.141); em imanência. Os artistas, em fabulação, nos convidam a fazer
deslocamentos.
Entendi então a adaptação fílmica de obras literárias como um exercício de diferença
motivada por reverberações: a obra de João Guimarães Rosa em reverberações produzidas na obra
de Sandra Kogut. Essas reverberações são, bem ao gosto de Rosa, eternidades1, monumentos que
são, no sentido deleuziano. No caso dessas obras, colocam-nos em conexão com um país ainda não
visto2. A “língua” é recriada e coloca a terra, neste caso o Mutum, em transe, faz vibrar. “A língua
comum, ferida, torcida, desrespeitada, gaguejada, em tensão, a-gramatical, estrangeira, torna-se
potente, viva, visionária, musical.3” (MARQUES, 2013, p.207).
1
2
3
Cf. ROSA em entrevista a Gunter Lorenz (COUTINHO, 1993).
Cf. VASCONCELOS, 2008.
Cf. DELEUZE, 1997, p. 127 e 128.
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Um aspecto não explorado por Bogue em seus elementos da fabulação é a sonoridade, algo
que entendo ser forte tanto em Rosa quanto Kogut nessas duas obras que estudei.4
Minha proposta para o Seminário Conexões é a criação de um vídeo experimental em que
outras reverberações poéticas sejam experimentadas entre Rosa e Kogut. Em fabulação sonora,
segue minha segunda versão do ue mutum eu, disponível em: <https://vimeo.com/148071251>.
Referências Bibliográficas
BOGUE, R. Deleuzian Fabulation and the Scars on History. Edinburg: Edinburgh University Press,
2010.
______. Deleuze on Cinema. New York and London: Routledge, 2003a.
______. Deleuze on Literature. New York and London: Routledge, 2003b.
______. Por uma teoria deleuziana de fabulação. Tradução de Davina Marques. In: AMORIM,
A.C.; MARQUES, D.; OLIVEIRA DIAS, S. Conexões: Deleuze e Vida e Fabulação e… Petrópolis,
RJ: De Petrus; Brasília, DF: CNPq; Campinas: ALB, 2011.
COUTINHO, E. F. (Org.). Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993.
DELEUZE, G. O ato de criação. Tradução de José Marcos Macedo. Folha de São Paulo, caderno
MAIS, p.04-05/cópia em pdf. Domingo, 27/06/99.
______. Cinema 2 - A imagem-tempo. Tradução de Heloísa de Araújo Ribeiro. São Paulo:
Brasiliense, 2007.
______. Conversações. Tradução de Peter Pál Pelbart. São Paulo: Ed. 34, 1992.
DELEUZE, G.; GUATARRI, F. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Volume 1. Tradução de
Aurélio Guerra. São Paulo: Ed. 34, 1995.
______. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Volume 2. Tradução de Ana Lúcia de Oliveira e
Lúcia Cláudia Leão. São Paulo: Ed. 34, 1997a.
______. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Volume 3. Tradução de Aurélio Guerra Neto, Ana
Lúcia de Oliveira, Lúcia Cláudia Leão e Suely Rolnik. São Paulo: Ed. 34, 1996.
______. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Volume 4. Tradução de Suely Rolnik. São Paulo:
Ed. 34, 1997b.
______. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Volume 5. Tradução de Peter Pál Pelbart e Janice
Caiafa. São Paulo: Ed. 34, 1997c.
______. O que é a Filosofia? Tradução de Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. Rio de Janeiro:
Ed. 34, 1997d.
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Cf. Capítulo 4: Composições II – Sonoridades, Temporalidades e Máquinas de Guerra, em MARQUES, 2013.
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GRILO, J. M. O Homem Imaginado. Lisboa: Livros Horizonte, 2006.
KOGUT, S. Mutum. Brasil, 2007, filme 35 mm.
MARQUES, D. Entre literatura, cinema e filosofia: Miguilim nas telas. Tese de Doutorado em
Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013.
______. Vida, literatura e cinema: fabuloviver, fabulocriar. In: AMORIM, A.C.; MARQUES, D.;
OLIVEIRA DIAS, S. Conexões: Deleuze e Vida e Fabulação e… Petrópolis, RJ: De Petrus;
Brasília, DF: CNPq; Campinas: ALB, 2011.
ROSA, J. G. Corpo de Baile – edição comemorativa 1956-2006. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
2006.
______. Manuelzão e Miguilim. 9ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
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