SESSÃO 10 – CARTOGRAFIAS: TERRITÓRIO EJA A GRADE

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SESSÃO 10 – CARTOGRAFIAS: TERRITÓRIO EJA A GRADE
SESSÃO 10 – CARTOGRAFIAS: TERRITÓRIO EJA
A GRADE
Thiago Donda Rodrigues 1
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
(No Meio do Caminho – Carlos Drummond de
Andrade)
O objetivo deste trabalho é apresentar a Educação de Jovens e Adultos em Paranaíba no
estado do Mato Grosso do Sul, que é campo de pesquisa do projeto de doutorado intitulado
“Práticas de exclusão em ambiente escolar” desenvolvido no programa de Pós Graduação em
Educação Matemática da UNESP – Campus de Rio Claro/SP.
Buscando compreender a EJA a partir de uma concepção Foucault-Deleuze, nos
valeremos do conceito de dispositivo que Foucault (2005a, p.144) delimita como:
[...] um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos,
instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis,
medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas,
morais, filantrópicas. Em suma o dito e o não dito são elementos do
dispositivo. O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre estes
elementos.
No entanto, a ideia germinal de dispositivo, como uma forma de abordar estruturas de
elementos heterogêneos, tem início na obra A Arqueologia do Saber quando Foucault analisa
o discurso e descreve a épistémè e os problemas metodológicos por ela colocados (CASTRO,
2009). Mas a partir de Vigiar e Punir, Foucault aborda dispositivo como algo mais geral,
enquanto épistémè é um dispositivo especificamente discursivo, Foucault aponta para a
possibilidade deste ser tanto discursivo quanto não discursivo, tendo elementos bem mais
heterogêneos. (FOUCAULT, 2005a)
Levando em conta esta heterogeneidade própria do dispositivo, Deleuze (1990, p. 155)
indica-o como:
[...] uma espécie de novelo ou meada, um conjunto multilinear. É composto
por linhas de natureza diferente e essas linhas do dispositivo não abarcam
nem delimitam sistemas homogêneos cada um dos quais seriam homogêneos
por conta própria (o objeto, o sujeito, a linguagem), mas seguem direções
diferentes, formam processos sempre em desequilíbrio, e essas linhas tanto
se aproximam como se afastam umas das outras. Cada uma está quebrada e
submetida a variações de direção (bifurcada, enforquilhada), submetida a
derivações. Os objetos visíveis, as enunciações formuláveis, as forças em
exercício, os sujeitos numa determinada posição, são como que vetores ou
tensores.
1
Doutorando em Educação Matemática – IGCE/UNESP – Rio Claro/SP. Integrante do Grupo de Estudos
Múltiplos Um – UNS. Professor Assistente do Curso de Licenciatura em Matemática – UFMS – Paranaíba/MS.
Contato: [email protected]
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Neste prisma, essas linhas heterogêneas que formam um dispositivo podem ser
distinguidas como: linhas de captura (AGAMBEN, 2011), “linhas de visibilidade, linhas de
enunciação, linhas de força, linhas de subjetivação, linhas de ruptura, de fissura, de fratura
que se entrecruzam e se misturam”. (DELEUZE, 1990, p. 157 e 158)
Dizendo de outro modo, dispositivo é “tudo aquilo [...] que tem a capacidade de
capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar os gestos, as
condutas, as opiniões e os discursos dos seres vivos.” (AGAMBEN, 2011, p. 257)
Dentre os exemplos de dispositivo temos:
[...] as prisões [...] os asilos, o panóptico, as escolas, a confissão, as fábricas,
as disciplinas e as medidas jurídicas, nas quais a articulação com o poder
tem um sentido evidente; mas também a caneta, a escrita, a literatura, a
filosofia, a agricultura, o charuto, a navegação, os computadores, os
celulares e, porque não, a linguagem mesmo, que muito bem poderia ser o
dispositivo mais antigo, que, há milhares de anos, um primata,
provavelmente incapaz de se dar conta das consequências que acarretaria,
teve a inconsciência de adotar. (AGAMBEN, 2011, p. 257)
Deste modo, o local de pesquisa desse projeto de doutorado, por conter todas essas
linhas heterogêneas, pode ser considerado um dispositivo. A seguir este será apresentado
buscando contemplar algumas dessas linhas.
A pesquisa está sendo realizada na Escola Estadual José Garcia Leal, da cidade de
Paranaíba/MS, nas turmas de Educação de Jovens e Adultos. Dentre os motivos que
culminaram na escolha desta escola tem-se o fato de ela estar localizada no centro da cidade e
receber alunos de várias partes do município. A escola conta com cerca de 1500 alunos
matriculados, distribuídos entre Ensino Fundamental (Primeira e Segunda Fase) e Ensino
Médio regulares, e os três segmentos da EJA (Equivalentes aos 9 anos do Ensino
Fundamental e o Ensino Médio).
O terreno onde funciona a escola é amplo (têm cerca de 50 metros de frente e 100
metros de fundo) e a escola funciona nos períodos matutino, vespertino e noturno. O prédio
conta com 17 salas de aula, sendo que em cinco delas funciona a EJA no período da noite;
conta também com uma quadra poliesportiva coberta, laboratório de informática, biblioteca,
refeitório, cantina e uma seção que compreende o setor administrativo (sala do diretor, sala de
coordenação, secretaria, sala de professores e almoxarifado).
No ano de 2012, quando iniciamos o contato com a escola, o projeto estadual de EJA
seguia o modelo de seriação, deste modo, no período noturno estavam em andamento seis
salas, distribuídas em turmas que compreendiam o Ensino Fundamental e Médio.
Entretanto, o projeto estadual de Educação de Jovens e Adultos do estado do Mato
Grosso do Sul foi totalmente reformulado 2, um dos motivos alegados pela Secretaria da
Educação do Estado para a mudança foi a observação de que no segundo semestre era comum
haver desistência de estudantes, salas esvaziadas e diminuição do número de turmas de EJA.
Assim, o novo projeto busca um modelo em que o aluno tenha uma maior flexibilidade para
frequentar as aulas e ao mesmo tempo tenha mais responsabilidade quanto a sua participação
na EJA.
Outro motivo apontado foi que, por contratar professores anualmente, o Estado era
obrigado a mantê-los e não podia, buscando diminuir os custos, reagrupar os alunos que
restavam de cada turma e rescindir o contrato com os docentes excedentes. Deste modo, o
novo projeto prevê que não sejam atribuídas aulas de EJA aos professores efetivos e também
2
O novo projeto entrou em vigência no início de 2013.
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que sejam feitos contratos semestrais com os docentes da EJA para que, diminuindo a
quantidade de turmas, o Estado possa dispensá-los.
Assim, dentre as principais mudanças, o projeto atual abandona o sistema seriado e
adota um modelo em que o aluno deve superar componentes curriculares 3 que podem ser
feitos segundo a disponibilidade do aluno 4. Para cada componente são direcionados 50% de
sua carga horária para o Atendimento Coletivo, que são as aulas em que os professores
trabalham com toda a turma e os outros 50% são dispensados ao Atendimento Personalizado,
em que o professor trabalha com os alunos individualmente, lidando com dúvidas e
dificuldades dos alunos.
Outra mudança diz respeito às avaliações, estas, no novo projeto, são feitas ao final de
toda Unidade de Ensino e o aluno pode fazer quantas avaliações necessitar para que atinja a
média para aprovação. No entanto, os estudantes só podem fazer a avaliação quando atingem
ao menos 75% da carga horária da unidade estudada e entregam os trabalhos propostos
durante as Unidades de Ensino.
Entretanto, o novo projeto está, desde a sua implantação, sofrendo adaptações devido às
dificuldades do seu desenvolvimento, um dos problemas detectados inicialmente foi à
dificuldade de os alunos estudarem para todos os componentes curriculares simultaneamente,
pois, com as Unidades de Ensino com duração média de um mês, os alunos precisavam fazer
os trabalhos de todos os componentes curriculares e realizarem suas avaliações mensalmente,
desta forma, foi observado que esta prática estava sobrecarregando os alunos.
Para a solução deste problema foi limitado pela Secretaria de Educação do Estado que
os alunos façam simultaneamente seis componentes curriculares, e que os restantes sejam
feitos conforme os primeiros forem sendo superados. Outro recurso usado é que os
componentes “Matemática” e “Língua Portuguesa e Literatura” não poderão ser feitos
concomitantemente.
Outra mudança foi necessária por consequência da adaptação anteriormente explicada,
pois, com a diminuição de componentes curriculares e o aumento do número de aulas dos
componentes restantes para completar a carga horária semanal, houve conflito de aulas e
insuficiência de horário para que o Atendimento Coletivo e Personalizado fosse realizado.
Para a solução deste problema, em alguns atendimentos personalizados, dois professores de
áreas diferentes dão atendimento em um mesmo horário, para a mesma sala de aula.
O novo projeto também prevê que os alunos podem escolher os componentes
curriculares que desejam fazer, a intenção é possibilitar que o aluno cumpra a carga horária
exigida segundo suas possibilidades/limitações. No entanto, a possibilidade de o aluno da EJA
ir à escola apenas para fazer um/alguns dos componentes oferecidos e não participar de toda a
semana de aula, exige que a escola permita que este aluno entre e saia da escola quase que
livremente, pois, ele deverá acessá-la segundo o horário da aula.
Entretanto, esta mobilidade, característica da EJA, se confrontou com o controle de
horários de entrada e saída dos alunos do ensino regular, pois estes se aproveitavam denta
mobilidade para sair também. É importante deixar claro que a escola tem um funcionário que
cuida especificamente do controle de entrada e saída dos alunos, entretanto, os alunos do
ensino regular, muitas vezes, se passavam por alunos da EJA e fugiam da escola.
3
Os componentes curriculares comuns aos dois níveis de ensino são Língua portuguesa e Literatura,
Matemática, Línguas Estrangeiras Modernas, Artes, Educação Física, História e Geografia. São componentes
somente do Ensino Fundamental: Ciências da Natureza e Ensino Religioso e somente do Ensino Médio:
Química, Física, Biologia, Filosofia e Sociologia. Os conteúdos dos componentes curriculares são agrupados em
Unidades de Ensino.
4
Os alunos devem somar com os componentes curriculares 1600 horas na fase única do Ensino Fundamental e
1250 horas na fase única do Ensino Médio.
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Buscando impedir a fuga desses alunos, a escola, por ter concentradas as salas de EJA
próximo à saída, colocou uma grade separando as salas de EJA do restante da escola,
facilitando assim o controle de entrada e saída de alunos.
É interessante salientar que o local em que foi colocada a grade deixa o setor
administrativo da escola e a EJA separadas do restante da escola (cantina, refeitório,
biblioteca, quadra). No entanto, esta grade fica aberta no inicio do período noturno para que
os alunos possam ir fazer as refeições no refeitório (ela é fechada 20 minutos após o inicio da
primeira aula) e também no horário de intervalo.
Entretanto, acreditamos que esta grade pode conter outros significados que não ficam
restritos a impedir que os alunos fujam da escola. A grade pode ser um arquivo arqueológico
ou um discurso material da perda de controle dentro deste dispositivo. Esperamos que, ao
decorrer desta pesquisa, estes significados possam ser desvendados.
Referências
AGAMBEN, Giorgio. ¿Que és un dispositivo? Sociológica. Azcapotzalco. Ano 26. n. 73, p.
249-264. 2011. Disponível em: www.revistasociologica.com.mx/pdf/7310.pdf. Acesso em: 27
set. 2012
CASTRO, Edgardo. Vocabulário de Foucault: um percurso pelos seus temas, conceitos e
autores. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.
DELEUZE, Gilles. ¿Que és un dispositivo? In: Michel Foucault, Filósofo. Barcelona: Gedisa,
1990.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. 21º ed. Rio de Janeiro: Graal, 2005a.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. 30º ed. Petrópolis: Vozes,
2005b.
PENNA, João Camillo. Drummond : testemunho da experiência humana. Brasília:
Abravídeo, 2011.
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