RiM

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RiM
“Eu não compararia com essa geração, não sei...
Cada artista tem um traço diferente, mas o que
admiro no desenho dele é como ele cria, é bem
fluido e criativo. Gosto das situações e de como
usa as linhas. E ele é um desenhista de verdade.
Eu, ao contrário dele, não me considero um
desenhista, não sei desenhar como ele e admiro
isso. Ele é mais solto do que eu, sou mais
acadêmico.” A afirmação do jovem artista Pjota
faz todo sentido em relação ao igualmente
jovem curitibano Rimon Guimarães, ou
simplesmente Rim, cujo trabalho de linhas
sinuosas apresenta figuras dissolvidas em
meio ao entrelaçamento de formas obtusas,
linhas irregulares e padronagens mil. O
preto no branco predomina, mas é a cor
que o diferencia, o que imprime o traço de
personalidade do autor, que a usa com certa
parcimônia. “Sempre desenhei e sempre
busquei me aprimorar nisso. Só de estar 99%
do dia ativando essa prática, mesmo que seja
desenhando em meu cérebro, já é um bom
exercício”, explica o artista sulino de apenas
21 anos, assinando embaixo a máxima de
Thomas Edison: “a genialidade é fruto de 1% de
inspiração e 99% de transpiração”. 1
livre e inquieto
Por Arthur Dantas
Retrato por jaime vasconcelos
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Sou um pouco índio, africano,
italiano, português – não
consigo especificar ao certo.
Curitiba, acima de tudo, é
uma cidade brasileira, mas
com muitos gringos
im é tranquilo – nas poucas vezes que
que fugiram de
o vi parecia observar algo que não nos
guerras e situações
era possível ver. “Aqui tá tranquilo”,
escreveu, quando me desculpei pelo avançar das
desconfortáveis em
horas madrugada adentro. A indeterminação de
seu país de origem.
seus desenhos é transposta em seu discurso. “As
organizações naturais, que vão além do físico,
Racismo tem sido
a pura intenção de uma semente crescendo,
essa imaterialidade do impulso que nos mantém
um problema tão
infinitos” foi sua resposta ao perguntar o que era
bobo no mundo
necessário para um trabalho lhe inspirar.
No caso de um artista autodidata tão jovem,
inteiro... Ainda mais
é natural e importante que o imponderável aja
no Brasil.
sobre seu discurso e prática.
Como você gostaria de ser lembrado pelos
que te conhecerem no futuro?
Gostaria de ser lembrado pelos meus
atos, e não só por palavras. Atos de liberdade
e inquietação.
Acompanhar isso te influenciou de
alguma maneira?
Sim, tem essa coisa de fazer com as próprias
mãos, não pegar as coisas prontas, entender
todo o processo industrial.
Seu trabalho expressa isso em algum sentido?
Sim, em todo o processo.
Você falou sobre pesquisa contínua. Tem algo
que te interesse em particular? Alguma
questão ou temática?
Estou fazendo muitas experiências com sons,
composições atmosféricas. Também sempre
gostei de fazer vestimentas – desenho minhas
próprias roupas e às vezes lanço algo em
pequena escala pra ser vendido.
Como é sua rotina de trabalho? Disciplinada
ou caótica? O seu estúdio é daqueles que
parecem um hospital ou quarto de moradia
estudantil?
Minha rotina é bem volúvel, nunca é igual
– até fujo disso. A disciplina que tenho é
natural, sempre estou desenhando algo ou
observando de maneira investigativa as
coisas. Meu ateliê mais parece uma instalação
em processo contínuo.
Sendo autodidata, como tomou
conhecimento de todo esse mundo das artes,
ateliê, galerias etc?
Sempre transitei nesses espaços, busco o
que me instiga no momento. Tenho uma
pesquisa permanente.
Alguém de sua família é envolvido com artes?
Minha mãe sempre foi criativa, fazia minhas
roupas quando era menor. Na costura ela não
tem limites (risos).
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Se eu olhasse no seu mp3 player ou iPod, o
que encontraria?
Música espanhola e latina, Axel Krieger,
Juana Molina, afrobeat, novos compositores
brasileiros, Moacir Santos, Bonobo, Tosca
Tango Orchestra, tudo do Evard. Muita coisa de
vários estilos.
4tabuleiro romã, 2008
A produção de pôsteres e flyers é algo
presente na vida de vários artistas. Como
você se interessou por esses meios? Quais os
critérios que usa para ilustrar esse tipo
de material?
Geralmente ilustro flyers e pôsteres de
festas que eu ou algum amigo meu promove.
O critério é liberdade e calma.
O fato de ser negro influencia de alguma
forma seu trabalho? Para você, isso é um
assunto a ser discutido em uma pintura?
Na realidade, sou uma grande mistura, como a
grande maioria no Brasil.
Seu foco no momento é mais em música do
que em artes plásticas?
Não, o lance é muito mesclado: sempre se cria
uma relação. É algo de percepção, com várias
vias novas e distintas.
Vi uma foto sua tocando trompete. Que
instrumentos você toca?
Flauta barroca de bambu com palheta de sax e
piano. Com o trompete ando meio parado – às
vezes arrisco um violão. Mas os instrumentos
vocais são os meus prediletos.
Quais seus interesses em música?
Experimentar, descobrir, compor, ampliar,
desmistificar, gravar, remixar etc.
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Creio que espaços
expositivos têm que ser
livres pra manifestações
totalmente novas e
desconcertantes – é bom
que tenha uma mutação
no espaço de acordo
com o que o trabalho
vem discutir, e que essa
discussão seja pertinente à
quebra de formalidades >
meticulosamente a disposição dos elementos
na tela (na rua sempre é mais livre, penso
eu), seu traço é muito solto. É como se não
respeitasse nunca a ideia do esboço, tem uma
indeterminação no ato em si.
Sim, meus desenhos falam coisas que eu não
sabia, muitas descobertas e novos ângulos.
Lembro da parede que você pintou com
a Nina Moraes em Porto Alegre: pintava,
preenchia uma parte do rascunho, começava
uma nova linha e parava, observava, depois
continuava. É como se tivesse uma ideia
inicial, mas que se transformava na ação,
por isso suas formas parecem mais livres,
menos arquitetadas.
Tem muito o lance de auto-observação nas
composições visuais e também nas reflexões
filosóficas e espirituais, e ambas acabam se
ligando. Isso é muito rico e fértil, acabam
surgindo consciências aleatórias e ao mesmo
tempo providenciais.
Qual é a mistura, no caso? Curitiba é
conhecida pela migração europeia e tem fama
de ser uma cidade bem racista.
Sou um pouco índio, africano, italiano,
português – não consigo especificar ao
certo. Curitiba, acima de tudo, é uma
cidade brasileira, mas com muitos gringos
que fugiram de guerras e situações
desconfortáveis em seu país de origem.
Racismo tem sido um problema tão bobo no
mundo inteiro... Ainda mais no Brasil, onde
tem essa mescla maravilhosa.
4fêmea guilhotina ou manhã gélida
Você participa do Interlux, um coletivo
formado por pessoas das mais variadas áreas
que criam arte interativa. Qual o propósito
de vocês? Essa formalidade dos museus e
galerias, sobretudo daquelas em que há uma
separação rígida entre obras e espectadores,
te incomoda de alguma forma?
O Interlux, além de interagir, é vivencial.
Creio que espaços expositivos têm que ser
livres pra manifestações totalmente novas
e desconcertantes – é bom que tenha uma
mutação no espaço de acordo com o que o
trabalho vem discutir, e que essa discussão
seja pertinente à quebra de formalidades
tradicionais e provincianas. Às vezes, o que me
incomoda é a posição do artista de abaixar a
cabeça diante dessa imposições.
Conta como você se juntou aos outros três
sócios do estúdio de criação Banzai. Onde se
conheceram? Como é o mercado em Curitiba?
Conheci o Luan na escola, morávamos perto,
e o Thales e o Fernando através dele. O
mercado é morno e raramente busca algo novo.
Trabalhamos com a OUS, marca curitibana de
tênis, MTV, Nike etc.
É comum que artistas façam trabalhos
direcionados à publicidade, com finalidade
comercial imediata. Você fez um trabalho para
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com cabeça na mão, 2009
a Nike, por exemplo. Existe
diferenciação entre trabalho
para publicidade e para
galerias etc?
Claro! As questões são outras,
mas é só saber como se
trabalha. Na publicidade há
muitas limitações de clientes, às
vezes. A galeria, em tese, seria
um espaço de arte mais livre
para mostrar o trabalho pessoal.
> tradicionais e
provincianas.
Às vezes, o que
me incomoda
é a posição
do artista de
abaixar a cabeça
diante dessa
imposições.
Tem gente hoje que acha que
vai pintar um ou dois muros e
já vai expor em galeria. Como
foi para você alcançar certa notoriedade, ir
para exposições, galerias? Isso te assusta? O
que se alterou na sua visão de mundo e na
sua rotina com tudo isso?
Foi natural – com 17 anos já estava expondo.
Antes disso já pintava. Claro que o raciocínio e a
visão de mundo se altera naturalmente quando
se decide viver disso. Na real, é um lance de
adaptação, depende das coisas que vão se
apresentando na sua frente. Acho que essa
mudança é sempre pro bem, sempre pra cima.
Seu trabalho encontra certo parentesco
com alguns nomes de destaque na
cena de arte urbana nacional. Mas, ao
contrário da maioria, que parece planejar
Rimon começou como todo
garoto: desenhando distraído
na sala de aula, observando
revistas em quadrinhos e
o grafitti nas ruas, e muito
rapidamente passou a espalhar
seus trabalhos em desenhos
colados na rua. Poucos fizeram
tão rapidamente a transição
para galerias e museus, em
exposições como a individual
Madrugada, na Galeria Polinésia
(SP) e a Volúvel – em parceria
com o artista Pjota, no Museu de
Arte Contemporânea do Paraná
e na Transfer, no Santander
Cultural, em Porto Alegre.
Os poucos tons e mesmo a disposição e
formas de elementos da natureza de um artista
botânico como Ernest Haeckel encontram
reflexos em seu trabalho. Mas é a chamada
arte primitiva que move seus desenhos. A
liberdade e inquietude da juventude sintetizam
uma poética em que a aparente simplicidade,
ingenuidade e inobservância dos padrões
eruditos esconde um trabalho que ganhou um
refinamento absurdo em pouquíssimo tempo.
Tudo diluído num frenesi de linhas tortas. 3
2Saiba Mais:
banzaistudio.com.br
flickr.com/photos/rimon
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