NOTHING HURTS Falk Richter

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NOTHING HURTS Falk Richter
NOTHING HURTS
Falk Richter
Archibald
PERSONAGENS
SILVANA K., realizadora, especialista na arte da vida, antes, depois e durante o seu sucesso
VIVIANA B., jornalista, uma mulher acossada
O DJ
O RAPAZ
A MULHER
JOVENS RAPAZES E RAPARIGAS NO ATELIER
OS SOBREVIVENTES DA SALA DE CHILL-OUT
Um grande espaço vazio, um corredor de um aeroporto, um atelier, uma galeria de arte, uma
clínica, um espaço para corpos exaustos incapazes de encontrar repouso. Os diferentes
espaços também podem apenas ser sugeridos por instalações sonoras; as cenas podem-se
diluir umas nas outras, sem cortes ou mudanças de cenário. Nenhuma indicação cénica é
obrigatória.
1. INVERNO
Atelier, noite.
Numa divisão que poderia ser o seu atelier, Silvana escreve um texto no seu computador,
recita parte dele, as palavras inscrevem-se num ecrã, à sua volta jovens rapazes e raparigas,
põem discos, estão deitados, bebem, dormem uns com os outros, filmam os objectos
presentes na divisão, filmam-se a si próprios (o filme aparece no ecrã), aproximam-se dela,
tocam-lhe, afastam-se dela, dizem o texto ao mesmo tempo que ela, dançam e atiram-se para
o chão.
SILVANA
Sim, era Inverno.
Muito frio, dentro e fora, sem movimento e…
Como se alguém me tivesse arrancado a alma e…
E agora olho-me de frente,
tenho medo,
ou, que a colisão…
De repente, alguém me chama e diz a rir-se "Estás uma lástima." e desato a correr,
pergunto angustiada: "O que é que estás a dizer? Estou o quê?",
"Estás com ar de não estares bem. Mas não importa, isso vai passar."
Um prazer destes acaba com o medo…
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Pois, o desespero e o prazer extremos tocam-se, para explodir algures.
Eu não sei
se me devo mexer, dançar, sem parar, dançar desesperadamente rápido e
e, e…
e quando finalmente descobri o repouso
a minha cabeça sussurrou
todas as cores, como um choque, uma explosão, como é que se diz? Mas,
muito, muito lentamente
não, na minha cabeça, nada, nada choca;
o azul, o vermelho alternavam;
a música flui, fluía, como é que se diz,
que outra estava lá.
(„I´d rather be in a soft place now and melt with the bodies around me, warm and soft
bodies and music“)
que ninguém se interessa por mim,
que de qualquer forma colo-me ao muro, só, negligente - cool, trágica ou que me colo ao chão?
E que as minhas energias atravessam o meu corpo e o espaço sem a mínima concentração –
como se se quisessem precipitar para fora de mim
através de mim, para depois se verem livres de mim.
Sinto que neva em mim
E isto, não é uma metáfora,
não, não falo de metáforas,
cai neve em mim, e é muito agradável, ela apodera-se do calor, do ardor do meu corpo,
arrefece as feridas, ela gela o meu desejo de outro corpo, por algum tempo.
Depois deito-me numa espécie de banco e todos os corpos à minha volta são maravilhosos
e uma ameaça, e por vezes um olhar difuso passa sobre mim, todos parecem ter posto os
seus olhos em modo olhar longínquo e perdido.
Que não podemos nunca ver o espaço e os homens como um todo, como a música, tudo
flui.
Não há nada a reflectir. Nenhum pensamento. Nenhuma informação. A troca de informação
mantém-se tremendamente desinteressante, o importante é que sosseguemos os amigos
com uma frase, ou que os mantenhamos a par, em contacto
"Ainda estou aqui, não tenhas medo."
É o que dizemos verdadeiramente?
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"e, como é que te sentes?"
"porque é que a Terra gira tão rápida? Não pára. Mas é agradável"
"neste momento não posso dizer nada"
De repente uma viatura precipita-se dentro de mim. Há um choque, e alguém me ajuda a
levantar e diz: " Não é grave, não se passou nada, ainda sinto a tua respiração, sim.
Esta noite ainda é necessário que eu me bata com o meu próprio corpo, que eu expluda,
que eu sangre, que eu seja ferida, que me corte,
hoje é preciso que eu me atire de mim mesmo contra um muro uma vez mais, oh, já estou a
dormir, hmmm,
hmmmmm, tocamo-nos docemente, hmmmm,
seria bom fazer amor agora,
ou, para falar sinceramente, seria indispensável,
preciso de outro corpo, agora, já, que choque contra o meu e que o faça quebrar agora,
um choque tão belo, lento, doce, agradável, hmmmm,
será que poderia chocar agora?
mas não há ninguém aqui…
hmmmm, tocando-nos lentamente, unimo-nos um ao outro
tocando-nos lentamente reconstruimos qualquer coisa, como alguém,
qualquer coisa que possa novamente nomear os sentimentos que passam,
que o atravessam, lentamente, sim, sim, lentamente, que o atravessam a nado,
Porque aquilo que olha há já duas horas esta massa graciosa de homens que brilham, vê-os
com um olhar intensamente vazio, apercebe qualquer coisa sem a perseguir.
olha esta massa imprecisa de homens que brilha por causa de uma reacção química,
uma massa de homens, em que se um avança, estrebucha, atira-se de volta para trás, com
medo dos olhos vazios
grandes
abertos que o fixam, que querem qualquer coisa,
que ocultam um desejo, um desejo sem fim, concreto,
um simples desejo vazio, que se atira como um louco de uma mancha para outra,
como um ser desesperado, sufocado, mas que não é infeliz
rápido, como um ser desesperado, ou muito, muito feliz, ligado a ele mesmo, ou anulado,
flutuando livremente como…
Não é o meu corpo de ontem.
Não, não é o meu corpo de ontem.
Sinto que neva em mim, e isto não é uma metáfora
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Neve cai em mim, e é muito agradável, ela apodera-se do calor, do ardor do meu corpo,
arrefece as feridas, ela gela o meu desejo de outro corpo, por algum tempo.
Próximas
Apartamento, noite, tudo arrumado.
Silvana e Viviana estão no apartamento de Viviana, de fundo ouve-se o som de explosões e
colisões, trata-se do som do filme de que elas falarão mais tarde. Um homem (um dos DJs) está
deitado no sofá, meio a dormir, intervém na acção ocasionalmente.
SILVANA
Eu gostava que fossemos próximas.
VIVIANA
Mas nós somos próximas.
SILVANA
Quer dizer sim, sim, nós somos próximas, mas eu quero dizer, oh Deus, eu quero dizer
próximas próximas, realmente próximas, próximas de uma forma diferente, sim, nós somos
próximas, mas não somos próximas.
VIVIANA
Mas nós somos próximas.
SILVANA
Sim, eu sei, mas eu quero dizer, não sei. Eu quero dizer próximas de outra maneira, meu
Deus, de outra maneira.
VIVIANA
Estás a querer dizer que devíamos dormir juntas?
SILVANA
Não, não sei.
VIVIANA
Porque isso já nós o fizemos. Quer dizer, eu não sei o que é que queres dizer com próximas
próximas, o que é que entendes por próximas?
SILVANA
Bem, isso mesmo, próximas.
VIVIANA
Próximas como?
SILVANA
Próximas.
VIVIANA
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Próximas.
SILVANA
Próximas.
VIVIANA
Próximas?
SILVANA
Sim, mas um próximas diferente, mesmo próximas, não "próximas" próximas.
VIVIANA
É demasiado abstracto para mim.
SILVANA
Próximas.
VIVIANA
"Próximo" – desculpa, mas é demasiado abstracto para mim.
SILVANA
Abstracto?
VIVIANA
Sim, abstracto.
SILVANA
Próximo é abstracto?
VIVIANA
Bom. Sim, abstracto.
O RAPAZ
O que é que quer dizer abstracto?
VIVIANA
Oh meu Deus, abstracto é abstracto.
O RAPAZ
Ok, mas abstracto como?
VIVIANA
Bem, abstracto.
SILVANA
Próximo, abstracto.
VIVIANA
Sermos próximas?
SILVANA
Próximas.
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VIVIANA
É demasiado abstracto para mim
SILVANA
Sermos próximas, abstracto?
VIVIANA
Bem, sim. Essa forma de proximidade.
SILVANA
Qual?
O RAPAZ
Sê mais concreta.
VIVIANA
Mas ela não consegue.
O RAPAZ
Mas explica simplesmente, concretamente.
VIVIANA
Mas ela não consegue.
SILVANA
Próximas, próximas, próximas.
VIVIANA
Isso é completamente abstracto.
SILVANA
Está bem.
VIVIANA
Concordo.
SILVANA
Eu amo-te.
VIVIANA
Mas isso é completamente abstracto.
SILVANA
Eu gostaria realmente que fossemos próximas.
VIVIANA
Sim.
SILVANA
Próximas.
VIVIANA
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Sim, próximas.
Silvana uiva. Silêncio.
VIVIANA
O quê?
SILVANA
Não sei.
VIVIANA
O quê?
SILVANA
Não sei.
Viviana gesticula
VIVIANA
É isso que queres dizer?
SILVANA
Não sei.
VIVIANA
É o que eu digo, é completamente abstracto.
SILVANA
Próximas.
VIVIANA
Hmm.
Long Distance Relationship
Aeroporto, noite.
Sala de espera vazia. Som de telemóveis. Anúncios sonoros. No ecrã ao fundo explosões,
imagens e sons do filme de Silvana.
VIVIANA
Estou
Eu
Que horas são ai? Pensei
Talvez agora
E
Talvez seja simplesmente difícil
Estou?
Estás aí e não atendes?
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Estás com medo?
Talvez seja simplesmente difícil tornarmo-nos um só?
Pode-se dizer assim?
Estou?
Eu pensei, hum, estás aí?
Tu tinhas dito
Estou?
Partiu-se qualquer coisa, fomos todos atirados sei lá para onde, tudo o que eu tenho está
num sítio que eu não sei.
Estou
Que barulho é este?
Tu disseste que telefonavas, que irias telefonar de qualquer maneira ou esperavas até eu,
estás com medo? Tu tinhas dito à hora do costume e que devíamos tentar, querias pelo
menos deixar uma mensagem a dizer aonde eu poderia ir ter contigo ou quando tentarias
vir ter comigo, para que pudéssemos ao menos falar, antes que um de nós tivesse de partir.
Estou, o que é que se passa? Bem, agora claro que não vou saber e não posso esperar a
noite toda, tenho de ir embora. Tu querias… Não nos deixaram sair mais cedo, tens medo?
De repente já não podíamos passar… Gritos, houve uma mulher que se passou, não sabia
do marido nem da mala, desapareceu tudo de repente.
Estou? Não vais atender?
Ela atirou-se contra o vidro, horrível.
Merda, agora não ouço mesmo nada,
O que é que se está a passar?
Não consigo ouvir nada.
Estou, ouves-me
O que é que aconteceu agora?
Foda-se, merda, o que é que aconteceu agora,
Está tudo morto ou quê?
Estou?
Por amor de Deus atende, espera, ainda estou aqui, também tenho de ir embora. De
repente ficou tudo tão calmo, ninguém, absolutamente ninguém, absolutamente ninguém.
A minha pele está a começar a desfazer-se, está cheia de cortes, manchas, feridas
minúsculas por todo lado, como se já estivesse morta, ou qualquer coisa assim, horrível,
esta máquina, este corpo estranho, será que não o podes agarrar outra vez, senão
desintegra-se, desaparece de qualquer maneira, já nem se reconhece, esconde-se de mim,
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horrível, meu Deus, onde é que estás? Querias dizer-me, de qualquer forma, onde e quando
eu te poderia encontrar, sim, merda, foi abaixo, e a seguir não vai haver mais nada.
Estou, estás com medo?
Que barulho súbito é este agora
Quem é que está a falar?
2. CRASH
to somebody, to myself, to the blood, to the bones,
and to count the bones
Viviana e Silvana num estúdio de gravação em frente a um ecrã vazio. Viviana está a
entrevistar Silvana. No início, a banda sonora do filme começa por ser suave, como um ruído
de fundo, depois vai aumentando até se sobrepor a acção. Viviana vai descrevendo e
observando cada vez menos, ela passa a fazer parte do filme. Lentamente, o filme vai
ganhando forma no ecrã.
VIVIANA
O seu novo filme começa por nos mostrar, nos primeiros dez minutos que
precedem o genérico, um jovem muito belo, de capuz, com uma cara,
podemos dizer assim, bastante
interessante, passada,
que ele não pára de bater à noite contra o vidro de uma estação de serviço, enquanto pede
à empregada!?
SILVANA
Sim, o quê?
VIVIANA
Sim, hum, bem, ele está a convidá-la a…
SILVANA
Sim?
VIVIANA
Exactamente.
SILVANA
O quê?
VIVIANA
Sim, é um filme bastante comovente, e também bastante violento. Mostrar durante
bastantes minutos esse jovem que cai e que continua a tentar levantar-se uma e outra vez,
na estação de serviço, e depois deixa-se escorregar pelo vidro ao som de uma espécie de
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música flutuante, indistinta, enfim, uma música não música, e nós a vermos como ele tenta
levantar-se uma e outra vez
só para bater com a cabeça contra o vidro uma vez mais
SILVANA
Sim, ele deseja outro corpo
VIVIANA
Sim, estou a ver, e ao mesmo tempo…
SILVANA
Um carro vem a acelerar atrás dele, vai contra a estação de serviço em câmara lenta
e o seu corpo desfaz-se em pedaços que voam pelos ares
VIVIANA
Sim.
SILVANA
Sim
VIVIANA
Sim, e a cabeça da empregada da caixa é lançada com a força do impacto para fora do seu
corpo em chamas contra a janela e despedaça-se, enquanto o tal jovem continua a
escorregar, sempre muito lentamente, muito concentrado, quase como um insecto em
sangue, a sua carcaça interior
SILVANA
Os insectos não sangram.
VIVIANA
Explodiu, certo?
SILVANA
Os insectos não sangram.
VIVIANA
Sim, pois… Enfim… Decompõe-se lentamente, mas mesmo em agonia, continua a esforçarse para se levantar, na essência do seu esplendor.
SILVANA
Fica apenas uma espécie de baba.
VIVIANA
Cair, levantar-se, sozinho, outra vez, sim, cair, lutar para se levantar outra vez, e aí,
manter-se concentrado para conseguir continuar a dizer:
SILVANA
"por favor, beija-me, fode-me"
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VIVIANA
Volta a cair.
SILVANA
"Agarra-me com força, qualquer coisa, mas faz qualquer coisa comigo, não interessa o quê,
o que quiseres, não interessa o quê. Mas, por favor, agarra-me com força."
VIVIANA
Devagar, volta a levantar-se, cai, o sangue escorre-lhe da cabeça, atrás dele tudo
está o mais atrozmente devastado possível
SILVANA
Sim, filmámos isso na Jugoslávia.
VIVIANA
E lá, em grande plano, sussurra muito muito lentamente, eu acho que o plano dura cerca de
cinco minutos, como se o tempo quase ficasse suspenso:
SILVANA
"Agarra-me com força, esta noite ainda preciso de um corpo para chocar contra ele, ainda
preciso de abrir mais feridas, procuro um parceiro de acidente"
VIVIANA
Sim, é a Silvana que interpreta esse jovem
SILVANA
Sim.
VIVIANA
Esta é a primeira vez desde há muitos anos que volta a trabalhar como actriz nos seus
filmes.
SILVANA
Sim.
VIVIANA
Escorrega a sangrar contra uma bomba de gasolina, apesar de uma vã tentativa para se
manter de pé, atrás de si acidentes fatais, pessoas a chocar contra paredes, a arder, os
gritos que se misturam com essa espécie de música… e depois, outra vez uma série de
grandes planos do jovem, isto é, de si, que já nem sequer consegue falar.
SILVANA
Sim.
VIVIANA
Sim, e durante cerca de quinze minutos vemo-la a mutilar-se, escorregando e levantando-se
contra a bomba de gasolina.
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SILVANA
Sim.
VIVIANA
E a pedir às pessoas que passam para lhe baterem.
SILVANA
Sim.
VIVIANA
E acho que para violá-la também.
SILVANA
Sim. Bem… Enfim…
VIVIANA
E depois escorrega e levanta-se, fere-se à força de tanto esfregar o corpo dorido contra a
bomba de gasolina, mutila-se? as feridas que faz a si mesma são o assunto do filme? é
possível dizer isto, acha que sim? tendo em conta que mistura pedaços de corpos desfeitos
à sua volta com os destroços da estação de serviço…
SILVANA
Sim.
VIVIANA
Misturados e… Sim…
SILVANA
Sim, o quê?
VIVIANA
O quê?
SILVANA
Sim, o quê?
VIVIANA
Eu só estou a fazer uma pergunta.
SILVANA
Mas está a perguntar o quê?
VIVIANA
Nada.
SILVANA
"Nada".
VIVIANA
O que é que se passa ali? Parece tudo muito real.
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SILVANA
Sim.
VIVIANA
Por exemplo, quem são aquelas pessoas que passam
SILVANA
Bem, pessoas que passam.
VIVIANA
Sim.
SILVANA
Sim.
VIVIANA
Sim, e depois há uma analepse.
SILVANA
Sim.
VIVIANA
Um televisor explode, em frente, um homem de uma certa idade sentado numa espécie de
sofá em pele, a cara é rasgada pelos bocados de vidro, e isto mistura-se tudo com a imagem
do ecrã, em plano de fundo uma mulher jovem chega, bate com um bastão de basebol no
que resta deste corpo masculino que estremece à sua frente.
uma mulher velha, deitada no sofá, grita em estado de choque quando reconhece
a rapariga, sua filha, a Silvana.
tenta fugir, mas é apanhada pela rapariga, interpretada por si, o seu grito é abafado pelos
golpes do bastão de basebol, o cérebro da senhora espalha-se pelos cantos da sala, a
rapariga curva-se sobre ela, e, bem, como é que eu hei-de dizer isto, começa uma espécie
de acto sexual com o que resta do corpo em sangue.
SILVANA
Não, ela ainda está viva.
VIVIANA
Beija-a ao de leve, enquanto a penetra, isto é, enfim… euh… a filha penetra a mãe e
continua a bater com a cabeça dela contra o chão até a mãe não se mexer mais, e se
submeter a tudo enquanto se ouve cantar docemente: "Good-bye to a perfect world"
SILVANA
"See you in a perfect world"
VIVIANA
Sim
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SILVANA
Sim
VIVIANA
Bom, tudo explode à sua volta.
SILVANA
Bem, sim.
VIVIANA
Claro que a mãe é interpretada pela sua própria mãe, e a câmara volta uma última vez ao
olhar vazio dela.
SILVANA
Sim, a violação da mãe que se esvai em sangue e a procura de um outro corpo na estação
de serviço decorrem quase ao mesmo tempo.
VIVIANA
Há uma relação lógica de uma com a outra, uma é consequência da outra?
SILVANA
Não sei…
VIVIANA
Que tipo de sensação é essa, a de primeiro desfazer o cérebro dos seus pais com um bastão
de basebol e depois violá-los?
SILVANA
Bem, ela não chega a violar o pai no filme, só a mãe.
VIVIANA
Sim
SILVANA
Bem…é uma sensação muito particular
VIVIANA
Sim
SILVANA
Para ambas as partes
VIVIANA
Sim
SILVANA
Traz uma nova dimensão à relação que temos com os nossos pais.
VIVIANA
Sim
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SILVANA
Sim, enfim…foi só uma tentativa de trabalhar com os meus pais
VIVIANA
Sim
SILVANA
Mais alguma coisa?
VIVIANA
Sim. Pode-se dizer, talvez que… bem, falar sobre experiências nas quais as pessoas se usam
a si e aos seus sentimentos, roçando o limite do explicável, num domínio que, de qualquer
forma, ninguém consegue alcançar,
Enfim, onde lhes acontece alguma coisa,
Bem, pode-se dizer isto?
É sobre isto, não sei, a tal zona, pode-se pôr a questão assim?
Trata-se de… trata-se de, não sei, colisões que libertam energias e permitem aos homens
sair das suas estruturas?
Então, podemos dizer que as pessoas colocam-se propositadamente em situações que as
transformam em actores de si próprios, uma espécie de cobaias, situações através das quais
se libertam das suas estruturas, que mesmo assim permanecem inexplicáveis… enfim,
podemos dizer isto, não?
SILVANA
Sim, acho que sim. Creio que podemos dizer tudo isso. Sim.
VIVIANA
Please, I love you, I want you, I need you, I am thinking about you all the time,
kiss me, touch me, sleep with me, fuck me, don’t let me go, I love you I love you I love
you I love you, don’t let me go, please, don’t let me go, I have been thinking about you
all the time, every day, every minute, every second, even if I have sex with someone
else I only have you on my mind, you are so beautiful and strong and free and sensitive
and sexy and cool and intelligent and talented... I need you.
Banda Sonora com acidentes, ambulâncias, gritos, sirenes, barulhos de hospital. Gradualmente,
vemos imagens no ecrã ainda difusas.
SILVANA
Eu sonho com colisões, quero-te encontrar no momento do embate, partilhar a viatura
contigo, a ambulância contigo que nos leva para o hospital. Num dia quente de Verão, às
cinco da tarde, eu espero pelas viaturas num cruzamento isolado no limite da floresta e
salto de dentro de mim directamente para cima de um carro, o teu carro, vou contra a
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janela, voo pelo ar e encontro-me com o teu carro outra vez vinte metros à frente, atinjo o
teu corpo, sou projectada para trás, travo, atravesso a rua a derrapar até parar
completamente, o teu carro enfiado numa vala, entre dois pinheiros.
VIVIANA
O rapaz, inexperiente e ansioso, que por acaso estava de serviço, desata a chorar durante a
viagem até ao hospital, segura-nos nas mãos e eu pergunto:
A que distância estão os meus ossos do meu corpo?
Porque é que o sangue da minha cabeça não escorre para baixo?
Para onde é que vão estes tubos todos que saem das profundezas das minhas feridas?
Alguém me vai ajudar?
Será que vou passar o resto da minha vida assim, em estado de alerta, em estado de choque?
Em que tudo, até o mais pequeno ruído, é claro e preciso e em que a minha vida corre fora
de mim?
SILVANA
As rodas continuavam a girar no vazio, tudo continuava a girar no vazio, até ao momento
em que os dois jovens médicos da equipa de emergência nos levaram às duas ligadas ao
mesmo soro, na única ambulância da vila. Numa divisão do pequeno hospital cheia de
máquinas, tudo era frio e azul e verde e tremíamos, o médico chefe aproximou-se, logo
seguido por três enfermeiras, de cara séria, angustiada, olhou para nós e só disse:
"Sempre as mesmas!"
VIVIANA
Outra vez e outra vez e outra vez e sempre diferentes de cada vez, e de cada vez de um
ponto de vista diferente, um novo ritmo, uma nova cor e com personagens diferentes a
aparecerem e a desaparecerem.
SILVANA
E porque é que estes lençóis estão vermelhos?
VIVIANA
Sim, porque é que estes lençóis estão vermelhos?
SILVANA
Ele tremia e chorava e agarrava as nossas mãos com ainda mais força.
Viviana torna-se visível no ecrã, torna-se uma personagem do filme. À volta dela acidentes de
carro, pessoas a sangrar, ela procura desesperadamente qualquer coisa.
VIVIANA
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Onde é que foi parar o meu cartão de crédito? Onde é que está a mola do meu cabelo, por
favor? Onde é que está o meu batôn? Estava tudo aqui ainda agora, tinha tudo no bolso das
calças. Tinha ou não tinha?
Hei! Hei!
Agora, quem são vocês? Quem és tu?
Não digas nada à minha mãe, por favor não contes nada, ela matava-me, a minha mãe
matava-me se descobrisse.
Mas onde é que está o meu cartão de estudante e o meu cartão de crédito, o cartão do
clube de vídeo, e o meu código secreto?
Hei!
Porque é que ninguém me ouve?
Esqueci-me do meu código secreto…
Mas onde é que está o meu passe de comboio?
Hei!
O meu cartão visa, o cartão do ginásio e o meu cartão de membro?
Sou cliente habitual, não sou?
Vocês reconhecem-me? Sabem quem eu sou? Hei!
Onde é que está o meu batôn? Hei!
O meu telemóvel, onde é que está? Quem é que o levou?
Onde é que está o meu pente e a minha escova de cabelo, a minha mãe mata-me se
descobre, por favor, tens de me prometer não dizer uma palavra sobre o assunto.
E o meu amigo, onde é que está o meu amigo? Ele estava aqui. Eu tinha tudo aqui no bolso
das calças, na minha mochila. O meu amigo estava aqui no fundo da minha mochila, no meu
porta-moedas ou então no bolso das minhas calças, onde é que ele está?
Merda!
Onde é que está tudo, o cartão do clube de vídeo, onde é que está tudo?
Eu tinha tudo aqui no bolso das calças, agora onde é que está o meu porta-moedas, o meu
dinheiro, tenho a certeza que estava tudo aqui no bolso das minhas calças.
Podes, por favor, dar-me o meu batôn?
Silvana aparece também no ecrã, observa-se e vai ficando cada vez mais calma, apesar das suas
feridas visíveis.
SILVANA
Os meus olhos não mexem e eu acho, sim, acho que é agradável, muito, mesmo muito
agradável, muito agradável, uma calma tal é muito muito agradável, esta calma assim de
repente, de repente tudo tão calmo, uma queda tão rápida.
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Huuuuuumm.
Os meus olhos já não se mexem e eu acho, sim, acho que é agradável, muito muito
agradável, muito agradável, esta calma, esta calma é tão tão agradável, uma calma, de
repente, tão rápida, uma calma, uma queda, tão rápida.
Huuuuummmmmm.
3. CHILL-OUT
Uma grande sala vermelha com pessoas deitadas, que se mexem muito muito lentamente,
tocam-se ao de leve, param a cada movimento, levantam-se, caem, falam-se, continuam
deitadas, procuram qualquer coisa, agarram-se e colam-se umas às outras.São cerca de oito
horas da manhã, os últimos sobreviventes da noite estão deitados pela sala, dois DJs (o Rapaz
e o DJ) põem os seus discos mais raros, cada um tenta obter melhor som que o outro, uma
mulher dança sozinha na pista. Em plano de fundo, um televisor passa uma entrevista com
Silvana.
SILVANA/ TELEVISÃO
Acredito que passámos todos o ano inteiro deitados numa espécie de banco ou um género
de sofá? levantávamo-nos um pouco, corríamos um pouco, dizíamos algumas palavras,
olhávamo-nos, voltávamos a cair por terra, escutávamos, não escutávamos, sim, acredito
que pensávamos muito, sim, chegávamos a algum lado, sim, algures, era diferente… ou
será que existia só eu? é possível que estivesse sozinha e que já não me conseguisse mexer?
Maybe it’s just difficult to become one
A mulher que dança avança na direcção de um dos DJs, ele quer tocá-la, mas a tentativa de
contacto é mal sucedida, de repente a música pára.
A MULHER
I'm so sorry
The DJ laughs. Silence for a long time, we hear them breathing, waiting for the other one to
talk.
O DJ
Maybe, it´s just very very difficult to ... to become one
Pausa.
A MULHER
I´m so sorry, that´s all I can say
O DJ
Well, that´s not very much
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A MULHER
I know, I´m sorry
O DJ
Yeah, you´re always sorry, wow, yeah, always sorry
A MULHER
I am, really, I am really really sorry, peço desculpa
O DJ
Yeah, just be sorry
A MULHER
I´m sorry. And I don´t know what you are talking about
O DJ
Sim
A MULHER
Yeah, sorry.
Reparaste
O Rapaz aproxima-se de Viviana, que está deitada, exausta.
O RAPAZ
Reparaste?
VIVIANA
Sim.
O RAPAZ
Sim?
VIVIANA
Sim.
Silêncio.
O RAPAZ
Amo-te.
VIVIANA
Chiu.
O RAPAZ
Amo-te.
VIVIANA
Eu sei.
O RAPAZ
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Sabes?
VIVIANA
Sei.
O RAPAZ
E então?
VIVIANA
E então o quê?
Amo-te
O DJ aproxima-se de Silvana que está deitada a um canto da sala a escutar o ritmo das batidas
da música.
Calam-se.
O DJ
Então.
SILVANA
Não, deixa-me em paz.
Calam-se de novo.
O DJ
Então, eu.
SILVANA
Não, isso não! Deixa-me em paz um segundo, merda.
O DJ
Mas
SILVANA
O quê? O quê o quê o quê?
Silêncio.
O que é que foi agora?
Silêncio
O que é que queres?
O DJ
Amo-te
Silêncio
SILVANA
Isso é completamente idiota, pá. Não é nada o teu género.
Silêncio.
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Bom, por outro lado até é agradável.
O DJ
Então, eu, ehh
SILVANA
Não, cala-te, schh.
Silêncio
… Schh, schh.
I Can Be Cruel And I Don´t Know Why
O DJ e o Rapaz voltam para os seus lugares e começam a pôr discos e a mexer nos botões,
criam diferentes efeitos, depois conseguem um som harmonioso. O Rapaz pega num
microfone e começa a dizer o próximo texto. Os outros estão deitados na sala de chill-out e de
vez em quando dizem partes do texto, o DJ passa a consola ao Rapaz e dirige-se para a pista de
dança, está só, começa a mexer-se muito lentamente, muito suavemente, mergulha na música.
Silvana e Viviana observam-no entusiastas. Depois Silvana aproxima-se dele, seguida de perto
por Viviana.
I CAN BE CRUEL AND I DON’T KNOW WHY
THE DAY I TRIED TO NUMB MYSELF AND WANTED TO LISTEN TO MY BLOOD
STREAM HMMM FELL TO THE FLOOR HEARD THE SOUND AND AHHH DID
NOT FEEL ANY PAIN
The day I watched the chemicals work my body and watched a chemically coloured sun-rise
in
an orange city sky ... everything just happened and I was the coolest insect around, nobody
could harm me, and if I harmed myself, I did it just to experiment on the facts of life, hmmm,
stop breathing, hmm, fall to the ground, kiss that spider, kiss that lion, kiss that dead body
on
the floor, hmm, tell them how much I love them, I have this uhm strange ticking in my head
and it‘s getting faster and faster and it‘s forcing my body to move faster and faster, move
on
and slam my head against the wall, hmm, and float with the sound of my blood stream: I
WAS MY OWN TEST TUBE INSECT WATCHING MYSELF CRAWL THROUGH A
NIGHT MAZE, rooms, and video screens and people talking, telling their stories, hmmmmm,
and me in between it all, all these arms holding me, I felt these people breathing, they were
close to me, I heard them breathing, hmmm, touching me and, yeah hmmmm, falling,
hmmmm, falling, hmmm, hold me, hold me, falling hmmm, crawling, hmmm, like an insect,
22
darkness, early morning noise, sound of engine, sound of seagulls, cats screaming, hmmm,
crawling, fast, and curling, hmmm, five in the morning, hold me, cold and ugly my blood
going faster, falling, catch me, imagine all these colours in my blood, all these chemicals and
how they mix and how they move around inside of me and how they move me around and
what they do to my head, and my body, and what they do to all these different people
inside of me, hmmm, and everybody wants to drink from it, hmmm, drink from me, swallow
my blood, hmmm, follow my trace, hmmm, touch my skin, hmmm, I need this, my blood
going crazy, make my head explode, and all these pictures inside of me, and all these funny
little pills and drinks and powders, how they love and hate each other inside of me, hmmm,
and make me run and fall and catch myself, hmmm, I am moving in all different directions at
the same time and it feels kinda nice, kinda shaky, kinda hmmmm, can I feel your tongue on
my, on my, on my, uhm, uuh, uhm, take me or leave me, but lick my body with your tongue,
whoever you are, I don´t care, I enjoy, falling, crawling, catch me as I catch you, hah, did you
hear that: my skull: did it break?, uhm, the music sounds like trains passing by, crashing into
each other and people flying all over mixing with glass, free fall, bodies mixed with plastic,
the music sounds like people crashing into each other, bodies collide, moving around, kinda
fast, kinda weird, hmmm, I am amidst the flying body parts in the second of the explosion,
hmm, feels kinda interesting, blood, faster, seeing clearer, hmmm, yes, please, faster,
weirder, straighter, I‘m seeing clearer now, much clearer, hmmm.
Silvana tenta em vão criar contacto com o DJ, ele está a dançar e não a vê, não sendo ofensivo.
Subitamente Viviana lança-se para cima do DJ, a música pára.
VIVIANA
Sorry, lamento, a sério.
O DJ responde antes mesmo dela acabar a frase.
I know.
VIVIANA
Não, peço mesmo desculpa.
SILVANA
Dizes sempre isso.
VIVIANA
O quê
SILVANA
Dizes sempre isso.
VIVIANA de novo para o DJ
Eu só queria dizer isto, quer dizer, isto.
23
SILVANA
Dizes sempre isso. Estás sempre a pedir desculpa de alguma coisa.
VIVIANA
O quê?
SILVANA
Estás sempre a pedir desculpa de alguma coisa
VIVIANA para o DJ
I'm sorry
SILVANA
Mas o que é que na verdade lamentas, se te estás sempre a desculpar.
VIVIANA para o DJ
I'm sorry
SILVANA
Mas deixa-o em paz.
O DJ
Não, não há problema. No Big Deal.
VIVIANA
O quê?
SILVANA
Deixa-o em paz, por amor de Deus.
VIVIANA para o DJ como se Silvana estivesse a dizer outra coisa
Desculpa lá, a sério, sinceramente.
Breve Silêncio.
SILVANA
E pára de te atirares assim.
VIVIANA
O quê?
SILVANA
Pára de te atirares assim a ele, o que é que queres com isso? Não podes ficar quieta?
VIVIANA
Deixa-me em paz.
SILVANA
Não
VIVIANA
O quê?
24
SILVANA
Não.
VIVIANA
Deixa-me em paz.
SILVANA
O que é que se passa contigo?, sempre a atirares-te, não te aguentas em pé ou quê?
VIVIANA para o DJ
Bem, eu só queria pedir desculpa.
SILVANA
Mas deixa-o em paz.
VIVIANA
Peço desculpa.
O DJ
Ok, não há problema.
VIVIANA
Não, mas a sério.
SILVANA
Mas deixa-o em paz, por amor de Deus.
VIVIANA
Deixa-me em paz.
SILVANA
E pára de te atirares a ele.
VIVIANA para o DJ
Percebes, alguma coisa mudou. Alguma coisa mudou em mim. E agradeço-te…
SILVANA
Meu Deus, isto é horrível.
VIVIANA
E desculpa.
SILVANA
Agora já chega. Deixa-o em paz.
VIVIANA
Não.
SILVANA
E não o agarres.
VIVIANA
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Vou agarrá-lo.
SILVANA
Não
VIVIANA
Eu quero agarrá-lo.
Silêncio.
Olha, vou agarrá-lo.
Ela agarra-o e beija-o.
SILVANA
Meu Deus, que nojo.
Silêncio.
Um Outro Corpo
Uma sala vazia, muito iluminada, silêncio total
VIVIANA
O que é que foi?
SILVANA
Nada.
VIVIANA
Passa-se alguma coisa?
SILVANA
O quê, então?
VIVIANA
Tu não estás bem.
SILVANA
Não estou bem?
VIVIANA
Sim. Alguma coisa tens.
SILVANA
Eu estou bem.
VIVIANA
Não.
SILVANA
O quê?
VIVIANA
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Não.
SILVANA
O quê?
VIVIANA
Não.
SILVANA
Como não?
VIVIANA
Não, tu não estás nada bem.
SILVANA
O quê?
VIVIANA
Vê-se.
Silêncio.
Nos teus olhos, no teu corpo, qualquer coisa mudou.
SILVANA
E o que é que mudou?
VIVIANA
Qualquer coisa mudou.
SILVANA
O quê?
VIVIANA
Qualquer coisa mudou.
SILVANA
O quê?
VIVIANA
Na verdade, já não é o mesmo corpo, na verdade tornou-se outro corpo.
SILVANA
O quê?
VIVIANA
Perdeste o equilíbrio? Eu ouvi-te a cair, não?
SILVANA
Não.
VIVIANA
Tu tinhas um chapéu bizarro, estavas nua, deitada no chão, mas eu ouvi-te cair, não?
27
SILVANA
Não.
VIVIANA
Mas tu tens qualquer coisa.
SILVANA
Não.
VIVIANA
Alguma coisa mudou.
SILVANA
Não.
VIVIANA
Houve qualquer coisa que realmente mudou.
SILVANA
Não.
VIVIANA
É um corpo completamente diferente.
SILVANA
Não.
VIVIANA
Não é o mesmo corpo.
SILVANA
O quê, este aqui?
VIVIANA
Sim esse aí, não é o teu corpo.
SILVANA
Mas claro que é o meu corpo, sim, acho eu, bem? Claro que é.
VIVIANA
Mas há qualquer coisa que não está bem no teu corpo, há qualquer coisa que não está bem.
Eu ouvi-te cair, estatelares-te, como é que se diz?
SILVANA
Não.
VIVIANA
Então nada mudou?
SILVANA
Não.
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VIVIANA
Bom, então não é nada?
SILVANA
Não.
VIVIANA
Mas
SILVANA
Não
VIVIANA
Eu
SILVANA
Não.
Caipirinha
Manhã, muito tarde, cerca das onze horas da manhã na sala de chill-out, corpos exaustos,
completamente estourados. Silvana está no bar, Viviana está sozinha na pista de dança, dir-seia a representação de uma novela das duas mulheres. Num computador vê-se o filme de
Silvana: imagens de choques violentos, Viviana pasmada ao centro, a voz de Silvana na banda
sonora, percebem-se pedaços da cena seguinte ditas em voz pedrada. Silvana dá uma
entrevista e são difundidos extractos do seu filme. Os dois Djs e outras raparigas que ficaram,
estão ao lado uns dos outros.
SILVANA
Diz-me, ainda têm aquele cocktail completamente fora, caipirinha, ou qualquer coisa do
género.
O RAPAZ
Não, não temos.
SILVANA
Não era aqui, cocktails completamente fora: Jager Bomb, Black Russian, cenas hiper
tripantes.
O DJ
I don't know
VIVIANA
Desculpa.
SILVANA
Sim?
29
VIVIANA
Aqui não se diz fora.
SILVANA
O quê?
VIVIANA
Não se entra aqui para dizer: " fora ".
SILVANA
Mesmo assim eu posso entrar aqui e dizer " fora "
VIVIANA
Não se entra aqui para se pedir uma caipirinha e dizer " fora "
O RAPAZ
Deixa-a.
A MULHER
Deixa-a dizer " fora ".
VIVIANA
Não
O RAPAZ
Deixa-a dizer " fora ", se ela tem vontade de dizer " fora "
VIVIANA
Não.
SILVANA
O quê?
VIVIANA
Não podemos simplesmente entrar aqui e dizer " fora "
O DJ
É claro que uma pessoa pode entrar aqui e dizer " fora ".
VIVIANA
Não.
A MULHER
É claro que uma pessoa pode entrar aqui e dizer " fora ".
VIVIANA
Não, isso não é verdade.
SILVANA
Mas mesmo assim posso dizer " fora ".
VIVIANA
30
Não podes de maneira nenhuma dizer " fora ".
A MULHER
Ela mesmo assim pode dizer " fora ", enfim.
VIVIANA
Não.
O RAPAZ
Toda a gente tem o direito de entrar onde quer que seja.
VIVIANA
Mas não dizer " fora ".
A MULHER
O quê?
VIVIANA
Não se pode entrar aqui, assim, e dizer "fora": uma caipirinha completamente "fora". Não.
O RAPAZ
Mas ela pode de qualquer maneira pedir uma caipirinha, por amor de Deus.
A MULHER
Deixa-a pedir uma caipirinha.
VIVIANA
Mas ela pediu uma caipirinha completamente fora.
SILVANA
Então posso pedir uma caipirinha.
VIVIANA
Mas não uma caipirinha completamente fora.
A MULHER
O quê?
VIVIANA
Já não há caipirinhas completamente fora. Talvez haja caipirinhas completamente fora na
estação de serviço aqui ao lado. Aqui as caipirinhas completamente fora estão infelizmente
em ruptura de estoque.
SILVANA
O quê?
VIVIANA
E agora, desaparece, vá, põe-te a andar.
SILVANA
O quê?
31
VIVIANA
Vai-te foder, sua puta.
O RAPAZ
O quê?
VIVIANA
Que ela se vá foder
O RAPAZ
Mas ela não fez nada.
VIVIANA
Ela que vá beber a sua caipirinha para fora daqui, ela que beba a sua caipirinha
completamente fora no caralho, vá, vai-te foder sua puta.
A MULHER
Mas ela não fez nada.
VIVIANA
Alguma coisa ela fez.
O DJ
Mas ela não fez nada.
VIVIANA
Alguma coisa ela fez.
SILVANA
Mas eu não fiz nada.
VIVIANA
Puta de cona, alguma coisa fizeste.
SILVANA
O quê?
VIVIANA
Caluda! Alguma coisa fizeste.
O RAPAZ
Mas o quê, então?
O DJ
It's a free country.
SILVANA
Precisamente: It's a free country.
VIVIANA
Não é nada um free country, e agora, vai-te foder, puta, e depressa, se fizeres o favor.
32
SILVANA
Mas então diz-me o que é que eu fiz.
O RAPAZ
Sim, diz-lhe.
O DJ
Diz lá.
A MULHER
Exacto, diz lá.
VIVIANA
Não! Estão todos deficientes, ou quê? Aqui, não se diz mais nada, aqui calam-se todos.
SILVANA
Diz lá.
VIVIANA
Tu fecha-me essa boca, aqui, agora, não se diz "fora", não há "fora", aqui e agora, vai-te
foder.
Ela põe-na na rua, vai para o bar, todos a olham.
Bom, já está.
Todos a olham.
O que é que foi? Como se alguém pudesse chegar aqui, assim, vir ao balcão e dizer "fora",
por amor de Deus, estão todos parvos ou quê? E agora uma cerveja, se faz favor. E música.
4. CLÍNICA
Tudo também
Silvana sozinha.Uma sala vazia, ao meio uma larga faixa prateada, como uma rua ou um rio
gelado ou uma pista de aterragem ou uma pista de dança ou o hall de entrada de uma
instituição qualquer. Silvana está sob a vigilância de câmaras. Nos ecrãs podemos ver várias
secções: cara, partes do corpo. Ela mexe-se com muito muito cuidado através da faixa na
direcção da audiência. Excertos de entrevistas anteriores continuam a ecoar nela. Ouvimos
barulhos de hospital, o bip de uma máquina de respiração artificial, aviões a descolar e a
aterrar. Ouvimos barulhos terríveis de acidentes, choques de automóveis; nos intervalos surge,
repetidamente, um abrupto silêncio absoluto.Ao fundo, reconhecemos Viviana nua, atada a
uma espécie de banco, a apreciar o barulho das colisões.
SILVANA
Pode-se?
Sim, talvez, eu não sei, não, huummmm…
33
Sim? Não, então…bem…que talvez, pode-se?
Sim? Então, euh, bem, eu sei, euh, já não, agora já não, sim, bem, que que euh…que, bem
Bem
Bem, pode-se dizer tudo assim, não? Pode-se? Eu não sei, pode-se?
Eu não sei, pode-se? Sim?
Sim?
Talvez…sim?
Sim, pode ser que se possa
Pode ser que se possa
Pode-se dizer tudo,
Dizer tudo assim?
Sim?
Eu não sei, eu acho que sim
Eu acho que sim, sim, claro, óbvio, TAMBÉM…
Sim, pode-se, pode-se,
Claro, talvez sim,
Talvez se possa dizer tudo assim, TUDO
TAMBÉM, sim, tudo isso, acho
TAMBÉM,
Sim, também, sim, é tudo uma questão…euh…,tremendamente,
Podemos dizer…talvez diferentes?
Bem, sim, neste momento não sei,
Mas mesmo agora, naturalmente, também estou a pensar
No ano que passou, sim, TAMBÉM, sim,
E eu estava mesmo muito só.
Como TAMBÉM acabei agora de dizer, como acontece sempre,
Mas desta vez todos à minha volta desapareceram, todos,
E de repente tive ESTE SENTIMENTO
Sim, bem eu não consigo dizer mais nada agora, huuummmm, sorry, ou?
Eu não sei, sim, talvez? Não?
Eu não sei, não? Bem, sim ou?
É isto um facto? Que que Que que depois, ou? Não?
Um facto portanto que que, que que também?
Eu não sei, não, ou?
Pode alguém?
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Bem, sim, então eles são uma espécie de, mas enfim talvez sim,
Talvez se possa naturalmente, acho que sim, pode-se ou? Não?
Não sei
Agora não
Agora estou só a sentir-me não sei como ou? Não?
Durante todo o ano, penso, deito-me numa espécie de banco, ou tratava-se de uma estrada
de campo gelada? Ou uma espécie de ponte para peões sobre o mar, ou uma instituição
qualquer, eu não tinha o meu pé, eu tinha o meu pé engessado, não tinha?
Eu já não sei nada, bloqueei
Também? Eu estava, estava?
Foi aquilo, aquilo que então, não? Ou não foi? Pode ser? Ou não?
Ou, huummmm, mas os meus pais tinham morrido, eu ainda me lembro disso, o meu pai,
sim, ele tinha morrido de repente,
Não dizia mais nada, os olhos cada vez mais vermelhos, a cara azul, de certa forma
interessante,
Deitado ali assim durante semanas na cama ao meu lado, acho eu, sem se mexer
A minha mãe está ali sentada, ficou por ali, deitada, primeiro em frente das escadas e
depois debaixo da cama, de olhar fixo, sem expressão, sem expressão nenhuma, sem
vontade, sem nada de nada, sim?
Ou? Vontade? Ou estaria ela já morta? Fui eu que a pus lá, que a matei a pontapé?
Depois daquela discussão sobre…
Bem, eu já não sei bem como foi,
E a minha irmã não desapareceu de repente também não sei como, não foi? Foi?
Não estavam eles todos entubados ou qualquer coisa assim?
Aquele som, o som da máquina com as batidas do coração, à noite, no corredor dos
cuidados intensivos, quase agradável, a desembaraçar-me deles, a mandá-los embora.
Deram-me um saco de plástico com o cérebro dela, as unhas e as tripas.
Não sobrou nada depois da queda, de onde?
Bem…Mas ela não bateu contra uma carruagem de mercadorias e foi projectada pelo ar e
não ficou espalhada ao longo de quilómetros da linha de comboio e não tive eu de olhar
para aqueles vestígios e dizer "Sim, eu conheço, conheço-os", ou será que só desliguei o
aparelho?
O bip tornou-se fraco, cada vez mais fraco, ou era eu que estava ali deitada?
Será que eu me desliguei a mim própria por uns momentos?
35
Não? Ou sim? Ou outra pessoa qualquer, poderá alguém, poderá alguém fazer isso
porventura, sim?
Eu não sei. Sim? Pode? Pode alguém?
Tudo à minha volta está a morrer, uma sensação estranha, o meu apartamento também
está a colapsar, o meu televisor assusta-se comigo, à noite especialmente, assusta-se, está
sempre a fugir de mim, e a minha máquina de lavar também, sempre a fugir de mim, o meu
carro também, vai todos os dias trabalhar sem mim, vai. Sim.
Pode-se? Será que se pode?
Pode-se dizer que é também uma possibilidade corpos exaustos numa situação extrema?
Não, eu acredito, não sim não não, claro, pode-se TAMBÉM, mas só se também…sim, acho
que sim.
Sim, estas pessoas todas, eu não amo nenhuma delas, eu trabalho com elas, sim, mas o meu
corpo não se move, o meu corpo só consegue explodir, e então eu vejo imagens, e também
já não durmo com mulheres, com homens ainda menos, mas com mulheres também já não,
já não aguento aquele cheiro, nem quando estou completamente bêbada ou pedrada, não,
Eu vou ficar sozinha. Sim, também já não como, a comida faz-me inchar, e tenho feridas de
fome a sério. Eu não acredito, tenho medo. Medo? Ou o quê?
Não, nada me vai acontecer, absolutamente nada,
Mas os outros têm medo, sim, eu reparo nisso, eles estão sempre, eu penso, eu acho que,
eu acredito, eu sei, sim, todos com medo de mim, que eu os leve comigo talvez. Sim?
Podia ser. Pode alguém fazer isso, pode? Não?
Pode alguém dizer isso assim, sim? Pode? Eles têm medo que eu os leve comigo, eles não
querem ser levados, querem ficar em casa, de qualquer maneira eles ficam todos em casa,
todos, sim? Ou não, sim? Pode ser?
Pode talvez, sim? Não? Pode ser isso, não?
No momento do nosso choque gostava de estar perto de ti, próxima?
Não, estar próxima? O quê? Isto aqui no meu corpo, ou?
O quê? Pode alguém? Pode alguém?
De repente saio e olho para uma paisagem muito muito tranquila algures numa cidade
diferente, gelada, gelo, neve, eu continuo a correr para a parede, mas não sinto as feridas,
todos os meus movimentos são subtis, já não há sangue, o edifício cada vez mais perto, a
estrada gelada, subitamente a explosão, toda a gente morta, na rádio ouvia-se tocar:
GOOD-BYE TO A PERFECT WORLD
Isso foi, huumm huuumm, era suposto então eu ter, sim, acho eu, sobre colisões talvez, sim?
E talvez não, hhhummm
36
Ter dito
Sim, eu penso que, sim, tudo isto, huumm
Também de alguma maneira
Para, mais ou menos, pôr-se numa variedade de,
Não, não, claro que isso também, mas, não, eu não sei, sim, pode-se?
Sim, eu penso que sim, pode-se, huumm…sim, pode-se basicamente fazer tudo…
Pela primeira vez na vida eu percebi isso, isto, bem, o que é que vocês lhe chamam?
Esta proximidade da morte, que se pode simplesmente acabar, que isto é muito
simplesmente possível, é possível, que isso interrompe esta solidão, só assim, e então são
os outros a sentir as feridas, não eu, hhumm.
Pausa.
Pela primeira vez na vida apercebo-me desta proximidade da morte, que se tem de
decidir…e subitamente a minha energia dispara, num instante, num instante já não tenho
energia, estou simplesmente vazia, estou a ver-me a mim própria vazia, vejo-me a repetir,
continuamente a repetir-me, sem me mexer de todo, só a repetir:
Sim, eu penso que, oh meu Deus, sim, esta gente toda, e eu não amo nenhum deles,
trabalho com eles e penso sim, penso, penso que já senti tantas vezes isto que estou agora
a sentir.
37