Untitled - Composição - Revista de Ciências Sociais/UFMS

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Untitled - Composição - Revista de Ciências Sociais/UFMS
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Coordenadoria de Biblioteca Central – UFMS, Campo Grande, MS, Brasil)
Composição : revista de ciências sociais / Universidade Federal de Mato Grosso do
Sul. – a. 7, n. 12 (Janeiro – Junho de 2013)- Campo Grande, MS : A
Universidade, 2013. .
Semestral
Revista eletrônica: http://www.revistacomposicao.ufms.br/index.php
ISSN 1983-3784
1. Ciências Sociais - Periódicos. 2. Ciências Humanas – Periódicos. I.
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.
CDD (22) 300.5
2
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Célia Aparecida Ferreira Tolentino – UNESP (Marília)
Ethel Volfzon Kosminsky - UNESP (Marília)
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Francisco Ther Rios – Universidade de Los Lagos
Gilton Mendes - Universidade Federal de Amazonas
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José Zanardini – Universidade Católica de Assunção
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Normas e Critérios para publicação
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS)
Reitora: Célia Maria da Silva Oliveira
Composição, Revista de Ciências Sociais da Universidade Federal de Mato Grosso do
Sul
ISSN 1983-3784
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Editoração eletrônica:
Aparecido Francisco dos Reis
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permitir a constante atualização desconhecimentos nas áreas de Antropologia, Ciência
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anos, entre autoridades com reconhecida produção científica em âmbito nacional e
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circunstanciado, exarado por membro do Conselho Editorial.
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externos, para apreciação e parecer, em decorrência de especificidades do assunto
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I - Artigos originais, de revisão ou de atualização, que envolvam, sob forma de estudos
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Ciência Política, Sociologia e afins e que apresentem contribuição relevante à temática
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em língua portuguesa que constituam fundamentos da área específica da revista e que,
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III - Entrevistas com autoridades reconhecidas na área temática da revista, que vêm
apresentando trabalhos inéditos, de relevância nacional e internacional, com o propósito
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IV - Resenhas de obras inéditas e relevantes que possam manter a comunidade
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Art. 6 - A entrega dos originais para Composição deverá obedecer aos seguintes critérios:
I - Os artigos deverão conter obrigatoriamente:
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resumo, acompanhados, respectivamente, de palavras-chave e key words, ambos em
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d) texto com as devidas remissões bibliográficas no corpo do próprio texto;
e) notas finais, eliminando-se os recursos das notas de rodapé;
f) referências bibliográficas.
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Art. 8 - Uma vez publicados os trabalhos, Composição reserva-se todos os direitos
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Inclusive os de tradução, permitindo, entretanto, a sua posterior reprodução como
transcrição, e com a devida citação da fonte.
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Editorial
É com muita alegria que apresentamos à comunidade acadêmica o número 12 de
Composição, Revista de Ciências Sociais da universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Neste
número, estão publicadas as seguintes colaborações: A feira e os vendedores de cds e dvs “piratas”;
Imolação do corpo e “santificação” das mulheres assassinadas no Ceará: uma análise sob a
perspectiva foucaultiana; O beco e a arte Esquizo em Natal-RN; O reisado do Cipó: resistência de
uma sociabilidade tradicional; O ringue escolar: as meninas no tatame; A morte da esquerda
comunista e a perspectiva histórica da revolução social; Conhecimento: desafio para as
exportações brasileiras; “Do agronegócio!”: O trabalho de tratadores de gado, peões de manejo e
peões de rodeio em feiras de pecuária; O homem negro no cururu paulista: apontamentos
etnográficos; Antonio Gramsci e o tema da nação: o caso italiano. Destaca-se que a contribuição
de pesquisadores de diversas universidades brasileiras, reforçando a proposta de ser um periódico
que procurar intercambiar as diferentes produções da pesquisa em ciências humanas e sociais. Boa
leitura.
Prof. Dr. Aparecido Francisco dos Reis – Editor
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SUMÁRIO
A feira e os vendedores de CDs e DVDs “piratas”.
José Julierme Furtado dos Santos e Carmem Izabel Rodrigues..........................................................................................8
A morte da esquerda comunista e a perspectiva histórica da revolução social.
Claudinei Cássio de Rezende.............................................................................................................................................23
O homem negro no cururu paulista: apontamentos etnográficos.
Elisângela de Jesus Santos.................................................................................................................................................45
Imolação do corpo e “santificação” das mulheres assassinadas no Ceará: uma análise sob a perspectiva.
foucaultiana.
Daniele Ribeiro Alves, Clara Maria Holanda Silveira e Maria Helena de Paula Frota.....................................................60
O reisado do Cipó: resistência de uma sociabilidade tradicional.
Luciano de Melo Sousa......................................................................................................................................................73
Conhecimento: desafio para as exportações brasileiras.
Silvana Schimanski............................................................................................................................................................92
Antonio Gramsci e o tema da nação: o caso italiano.
Claudio Reis.....................................................................................................................................................................108
O beco e a arte Esquizo em Natal-RN.
José Marcilio de Sousa Façanha......................................................................................................................................124
Do agronegócio!”: O trabalho de tratadores de gado, peões de manejo e peões de rodeio em feiras de pecuária.
Natacha Simei Leal..........................................................................................................................................................150
O ringue escolar: as meninas no tatame.
Maíra da Cunha Darido, José dos Santos Reis Filho e Jéssica Silva...............................................................................165
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A feira e os vendedores de CDs e DVDs “piratas”1
The fair and sellers of CDs and DVDs "pirates
José Julierme Furtado dos Santos2
Carmem Izabel Rodrigues 3
Recebido em 06/01/2013; aceito em 01/06/2013
Resumo: O objetivo deste artigo é levantar questões concernentes à venda de CDs e DVDs “piratas” na Feira Livre do
Guamá, bairro periférico de Belém-PA. Com base em estudos anteriores sobre feiras livres e mercados populares no
contexto da economia atual, buscamos refletir sobre essas vendas, vistas por muitos como prática de pirataria, a partir
de uma visão antropológica sobre informalidade/pirataria.
Palavras-chave: Vendedores de CDs/DVDs, Pirataria, Feira do Guamá.
Abstract: The aim of this article is to raise issues concerning the sale of CDs and DVDs "pirates" in marketplace in
Guamá, suburb of Belém-PA. Based on previous studies about fairs and popular markets in the context of the current
economy, we reflect on those sales, seen by many as a practice of piracy, from an anthropological vision about
informality / piracy.
Keywords: Vendors of CDs / DVDs, Piracy, Fair Guamá.
Introdução
Neste artigo busca-se apresentar um outro olhar sobre a pirataria de CDs e DVDs, incitando
um debate que pretende enfatizar a importância sociológica que a venda de CDs e DVDs
“falsificados” traz para a população menos favorecida da sociedade. Não se trata de fazer uma
apologia à pirataria, mas apenas de levantar algumas questões para pensarmos juntos como os
trabalhadores (os vendedores de CDs e DVDs) tentam sobreviver, de maneira alternativa, nas
margens ou interstícios do sistema capitalista formal.
A metodologia utilizada nesta pesquisa foi de cunho etnográfico, incluindo visitas em
intervalos regulares à Feira, para aplicação de formulários, tanto de naturezas quantitativa (com
1 Este artigo é um produto do Projeto de Pesquisa sobre Mercados Populares em Belém: sociabilidades, práticas e
identidades ribeirinhas em espaço urbano, coordenado pela Profa. Carmem Izabel Rodrigues, PROPESP/UFPA (20092011).
2 Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Pará. Bolsista PIBIC/FAPESPA/UFPA (2010-2011).
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Pará (2013-2015). Faz
parte do Grupo de Estudos sobre Mercados Populares (GEMP), PROPESP/UFPA.
[email protected]
3 Doutora em Antropologia, docente da Faculdade de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Ciências
Sociais-PPGCS da Universidade Federal do Pará. [email protected], [email protected]
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levantamento de dados estatísticos sobre a renda, escolaridade, estado civil, sexo, idade etc., dos
trabalhadores) quanto de natureza qualitativa (suas opiniões, auto-representações e identificações no
mundo da informalidade e da ilegalidade de suas praticas comerciais e suas formas de vendas).
O Conceito e a Definição de Feira Livre
Considera-se ‘feira livre’ o local previamente designado para a administração pública
municipal, dotado de equipamento padronizado removíveis ou não, destinados às atividades
comerciais a nível de varejo, voltada para o abastecimento de gêneros alimentícios à
população, especialmente os de origem hortigranjeira (Decreto Municipal n° 26. 579, de
14/04/1994. Cap. I. Art. 1°- Conceito e Finalidade).
O conceito acima se refere à definição legal (jurídica) interposto pela Secretaria Municipal
de Economia (SECON) da cidade de Belém (PA). E, nessa perspectiva, podemos pensar que a feira
livre, para a SECON, somente existe se o poder público municipal ordenar/fiscalizar o local, pelo
qual se constituirá a feira. Contudo, autores como Ferretti (2000), Sato (2007), Leitão (2010),
Mascarenhas e Dolzani (2008), apresentam outros olhares sobre a Feira Livre e seus significados.
Para Luis Mott (2000), por exemplo, as feiras livres e mercados possuem dinâmicas e leis
próprias, especificidades que podem ou não se distinguir culturalmente uma das outras. Segundo
este autor, as feiras livres são instituições do sistema econômico, tendo o papel social de
distribuição dos bens de primeira ordem para a cidade, funcionando em tempo parcial, geralmente,
pela parte da manhã, por causa dos seus produtos perecíveis.
Para Sato (2007), a feira livre é uma “organização” social muito peculiar, porque nela há
trabalho, há lazer, há comércio, há divertimentos tudo mesclados nas suas relações sociais. Segundo
a autora, a “Feira livre” tem origem no século IX, na Europa medieval. As feiras cumpriam (e
cumprem) uma função de abastecimento dos mercados locais com gêneros de primeira necessidade.
Leitão (2010) tenta compreender “feira livre”, buscando na origem da palavra o seu
significado. Para esta a autora, a palavra “feira” vem do latim feria – dia de festa. Daí muitos
autores fazerem menção com as feiras da idade média, que eram grandes reuniões de mercadores
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que trocavam produtos ao som de festas e festejos religiosos.
Ainda segundo esta concepção, Mascarenhas e Dolzani (2008) procuram definir e explicar
“feria livre” partindo do pressuposto de que a feira “[...] constitui modalidade de mercado varejista
ao ar livre [...] organizada como serviço de utilidade pública pela municipalidade e voltada para a
distribuição local de gêneros alimentícios e produtos básicos. [...]” (p. 75).
Nesse contexto, fica compreensível explicarmos que as feiras livres são, antes de tudo,
relações sociais de cunho economicamente explícito cumprindo o papel eficaz de abastecimento
local, com gêneros alimentícios, na maioria das vezes.
O Bairro e a Feira do Guamá
A Feira Livre pesquisada neste trabalho está localizada em Belém (PA), no bairro do Guamá.
Por conta disso, será oportuno fazer menção sobre esse bairro, antes mesmo de falar sobre a Feira.
Marlene Cruzinha (2003), mestre em sociologia pela UFPA, explica o bairro do Guamá buscando
compreendê-lo através do crescimento populacional e da popularidade do bairro. A autora faz um
pequeno escorço histórico do bairro, superficial, segundo ela, no qual busca em documentos e
depoimentos de familiares e moradores antigos, informações relevantes sobre a história deste bairro,
considerado tradicional da cidade de Belém do Pará.
Conforme Cruzinha (2003), no Guamá já houve, no final do século XIX até 1930, uma
“colônia” de segregação de Hansenianos, onde hoje está localizada o Campus da Universidade
Federal do Pará (UFPA). As autoridades sanitárias, com a finalidade de separar as pessoas sadias
das pessoas com hanseníase, levavam as pessoas enfermas para este espaço da cidade, alegando que
tal doença era contagiosa. Para a socióloga, nesse momento, houve muita tristeza de famílias que
tinham membros infectados por tal doença, porque as autoridades usavam de violência física para
arrancá-los de seus lares e levá-los para a “colônia”. Nessa perspectiva, muitas famílias que tinham
parentes nessas condições, resolveram construir moradias (residências) próximas a “colônia”,
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aumentando, portanto, o número de moradores no bairro.
Outro ponto igualmente importante para a popularidade do Guamá é o fato de ter abrigado,
até as primeiras décadas do século XX, o único cemitério da cidade: o Cemitério Santa Isabel, na
Avenida José Bonifácio. Tal cemitério foi desativado em 1960 e hoje mantém jazigos perpétuos. No
dia de “finados”, segundo a autora, há um enorme afluxo de pessoas e veículos em frente ao
cemitério, vindos de todos os bairros da cidade, causando interdição no trânsito.
Outro ponto a se salientar refere-se aos investimentos públicos no bairro. Segundo Cruzinha,
tais empreendimentos contribuíram para a popularidade do Guamá, como, por exemplo, a
construção do Campus da UFPA, na década de 1960, que fez com que migrassem, para o bairro,
pessoas e empresas ligadas a serviços e comércios, somadas com as já existentes Madeireiras e
Serrarias ao longo da Av. Bernardo Sayão.
Em decorrência das intensas “invasões” de pessoas “sem teto” em frente à UFPA, mais tarde
intitulada “invasão do Riacho Doce”, espaço sem infraestrutura e sem saneamento básico, com
parcos investimentos do poder público, a UFPA demandou, para esta parte do Guamá, projetos
assistenciais que sanassem ou amenizassem um pouco os problemas sociais e urbanos desta parte do
bairro, segundo Cruzinha.
Outro empreendimento, agora da esfera estadual, também contribuiu para que houvesse uma
procura pelo bairro do Guamá: a construção do SACI - Serviço de Atendimento ao Cidadão 4, que
oferece à comunidade serviços referentes à emissão de documentos (RG, CPF, Titulo Eleitor etc.),
além de oferecer atendimento de demandas jurídicas de pequenas causas para a parcela mais carente
do bairro. Em nível municipal, a autora não hesita em ressaltar a construção importante (e
necessária) do Pronto Socorro do Guamá.
Outro ponto que contribuiu para o aumento da popularidade (e também do crescimento do
bairro) concerne ao Rio Guamá, que serviu, durante muito tempo, segundo Cruzinha, como o único
4 Atualmente, no governo Jatene, essa esfera estadual está conhecida como SEAD- Secretaria de Estado de
Administração, cujo emblema que está na frente da Secretaria chama-se Tá na mão!
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meio (fluvial) para as pessoas que moram do outro lado da cidade de Belém se locomoverem. Até
hoje, este rio é importante, pois traz cotidianamente ribeirinhos e nativos para a cidade, seja em
busca de trabalho, seja em busca de educação, etc.
Portanto, com base no trabalho de Marlene Cruzinha (2003), tentou-se contextualizar alguns
pontos que contribuíram para o crescimento populacional e popularidade do bairro do Guamá, na
cidade de Belém (PA).
A Feira, espaço da referida pesquisa, está localizada no cruzamento das Avenidas José
Bonifácio e Barão de Igarapé-Miri, na cidade de Belém do Pará, no bairro do Guamá. Ela é
composta por dois prédios: o Mercado Municipal e o Mercado de Farinha, além da “Feira
informal”, isto é, os espaços socialmente construídos (e não cadastrados pela SECON) que vão
sendo ocupados e ressiginificados por outros vendedores que produzem, de certa forma, uma
territorialidade no entorno desses estabelecimentos e, especialmente, daqueles que estão ao longo da
Avenida Barão de Igarapé-Miri.
À época da pesquisa (começo de 2011), o Mercado Municipal do Guamá ainda não estava
em reforma, isto é, o prédio era antigo, velho e alguns permissionários estavam insatisfeitos com a
estrutura desse prédio. Contudo, na metade do ano de 2012, a Prefeitura da cidade resolveu realizar
uma reforma no mercado. Desse modo, o número de boxes, mercearias, permissionários, etc.,
aumentaram nesse estabelecimento, além de terem melhorado bastante as condições de trabalho dos
feirantes, segundo informações deles próprios.
O Mercado de Farinha é outro prédio que faz parte da feira. Lá os feirantes comercializam
produtos importados, roupas (réplicas), vários tipos de bijuterias, há boxes de lanches, e é claro,
nesse estabelecimento, comercializam-se diversos tipos de farinhas.
Nas partes laterais desses prédios é comum observar pessoas (ou seja, a “feira informal”)
vendendo (trocando, comercializando) produtos, mercadorias, alimentos, importados etc..., ao longo
da Av. Barão de Igarapé Miri, notando-se nesses espaços a presença constante de vendedores
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ambulantes de CDs e DVDs piratas.
Portanto, falar em Feira do Guamá é fazer alusão a esses três elementos que a formam: o
Mercado Municipal, o Mercado de Farinha e a “feira informal” ao longo da Av. Barão de Igarapé
Miri, especialmente.
Sobre a Pirataria, especialmente a de CDs/DVDs
Existem muitas produções a respeito do tema pirataria, não obstante a maioria delas
criticando tal prática social. É o caso, por exemplo, do deputado federal Luiz Antônio de Medeiros.
Medeiros (2005), que foi o presidente da CPI da pirataria que houve em 2004, no Congresso
Nacional.
Medeiros (2005) alerta que as falsificações de produtos (sejam estes remédios, produtos
eletrônicos, roupas, CDs e DVDs, etc) são extremamente prejudiciais a todos. As pessoas morrem
ao comprarem remédios falsificados, ficam prejudicadas com mercadorias falsas e de má qualidade,
e o Estado, para completar, deixa de arrecadar os impostos que seriam revestidos em políticas, obras
e investimentos públicos. Segundo ele, todo mundo perde.
Para o autor, a definição de pirataria refere-se à “[...] atividade ilícita de copiar, reproduzir e
utilizar sem autorização do autor ou do fabricante original, qualquer produto, com o objetivo de
lucro” (Medeiros, 2005, p. 21). Medeiros observa que toda pirataria (falsificação) é prejudicial para
a economia de um país. O Deputado comenta que:
A compra de produtos piratas faz com que a indústria legal, aquela que dá empregos e paga
os impostos, não venda. E se a indústria legal não vende, fica sem recursos para investir no
seu crescimento. E aí, além de não crescer, ela definha e morre, o que equivale ao
fechamento de muitas postos de trabalho (Medeiros, 2005, p. 28).
A grande preocupação de Medeiros, portanto, está em torno de que a pirataria causa sérios
prejuízos às indústrias nacionais, à sociedade e ao Estado brasileiro. Nessa perspectiva, o deputado
da CPI da Pirataria não hesita em propor para o Estado a criação de leis mais rígidas e punições
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severas para quem pratica a pirataria. No que se refere às falsificações de CDs/DVDs, o deputado
alega que as indústrias que mais perderam com essa nova modalidade de pirataria foram as
indústrias fonográficas e as cinematográficas. Houve pirataria de músicas e filmes em quantidades
em série.
Medeiros (2005) elucida que músicas e filmes são copiados em CDs- ROMs (CDRs), CDs
virgens, cujo grande centro produtor é Taiwan. Vale frisar que a CPI constatou, ainda, que o
Paraguai é um dos maiores importadores de CDs virgens do mundo, e grande parte dessa
mercadoria é exportada para o Brasil. No país, o produto é copiado e vendido nos mercados
populares, nas ruas e feiras das cidades.
Para ilustrar esta discussão, podemos fazer menção a Jon Lech Johansen5, um nerd e hacker
norueguês nascido em 1983, que tinha apenas 15 anos de idade quando descobriu como quebrar
(burlar) o código de proteção do DVD e, a partir daí, impulsionando (e facilitando) a pirataria desse
produto. DVD Jon, como é mais conhecido, foi contratado aos vinte um anos de idade pela empresa
MP3 Tunes, para desenvolver softwares de violação de dispositivos, com a finalidade de melhorar
os programas de computadores. Atualmente, DVD Jon reside em San Francisco, Estados Unidos da
América.
Outra visão sobre Informalidade/Pirataria
Autores como Santos (2008), Cruzinha (2003), Ribeiro (2009), Pinheiro-Machado (2008)
explicam que a informalidade (ou mercado informal) complementa o capitalismo, gera empregos
para milhões de pessoas que estão à margem do sistema formal de emprego. E, a pirataria seria uma
consequência social do desemprego.
Santos (2008) pontua que a informalidade passou a ser uma face característica do mercado
5 Jon Johansen: bandido ou herói? Publicado no caderno “internet” do Jornal do Brasil, em 20/04/00. Prof. Pedro
Antonio Rezende, Departamento de Ciências da Computação da Universidade de Brasilia, 10 de abril de 2000. Site
http://www.cic.unb.br/~pedro/trabs/dvd.htm
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de trabalho brasileiro. Em virtude do desemprego, ampliou-se o excedente estrutural da força de
trabalho, e a parte da sociedade excluída do emprego formal procurou criar meios alternativos de
sobrevivências, com destaque especial, por exemplo, à informalidade. Todavia, para a socióloga,
outros meios também são consequências do desemprego como, por exemplo, os intensos sequestros,
o tráfico de drogas, a prostituição, os assaltos, o contrabando, a pirataria etc. Meios estes que são
considerados “crimes” pela ótica do Estado e também pela maioria da sociedade. Segundo Santos,
esse fenômeno, chamado pela autora de “mercado ilegal de trabalho”, é uma consequência do
excedente estrutural da força de trabalho (o desemprego).
Cruzinha (2003) explicando o desenvolvimento do setor primário, secundário e terciário na
região amazônica, confirma que a atividade econômica predominante em Belém é aquela ligada ao
setor terciário, tanto no mercado formal quanto no informal. Conforme a autora, com o advento da
reestruturação produtiva do capital, na década de 1990, e a flexibilização do trabalho, somados ao
desemprego em massa de trabalhadores, em Belém as atividades informais cresceram
exorbitantemente.
Nesse contexto “na capital do Estado – Belém – os reflexos da reestruturação produtiva, em
curso no país, aumentaram ainda mais os efeitos do processo de informalização das atividades
econômicas”. Nessa perspectiva, a informalidade tornou-se a única alternativa para os trabalhadores
desempregados (p. 65-66).
Gustavo Ribeiro (2009) discute alguns pontos concernentes à comercialização de produtos
“pirateados”, através da “globalização econômica que vem de baixo para cima” – ou globalização
popular – que é estabelecida à margem da economia e coagida, comumente, pelas normatizações do
Sistema Mundial Hegemônico. O autor procura explicar que o Sistema Hegemônico (o sistema
normativo), conforme suas incessantes operações policiais, intenta destruir, muitas vezes, uma gama
enorme de criatividade empreendedora que funciona nas fímbrias da “informalidade” e
“ilegalidade” e, quiçá, não se dá conta de que este tipo de Globalização, com o advento do
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capitalismo eletrônico-informático, só tende a crescer, e que uma atitude mais sensata do sistema
normativo seria uma liberalização econômica dessa criatividade popular.
O antropólogo elucida que existem muitas pessoas envolvidas, direta ou indiretamente, com
“a globalização que vem de baixo para cima”. Ao crescimento notório dos bens falsificados de
produtos como, por exemplo, roupas, calçados, produtos eletrônicos, bugigangas, etc., e o acesso (e
venda) dessas mercadorias tão comuns nas feiras e mercados populares das cidades, Ribeiro chama
de Globalização Popular.
Nessa perspectiva, o antropólogo ressalta que, atualmente, as cópias de superlogomarcas de
sapatos, de roupas, de acessórios etc., estão perdendo seu lugar de principal fonte de lucro para os
produtos “pirateados” de CDs/DVDs e softwares de computadores, em decorrência exclusivamente
do capitalismo eletrônico-informático hoje vigente. Desse modo, os downloads de músicas, de
textos, de filmes etc., não se restringem mais aos adolescentes trancados em seus quartos, pois
muitas outras pessoas, interessadas em fazer deste novo universo uma fonte de renda, procuram
baixar músicas e filmes, por exemplo, e vendê-los nas fímbrias do Sistema Mundial não
Hegemônico, nas Feiras e ruas das cidades (Ribeiro, 2009, p.520).
O autor pondera que tem que haver uma liberalização dessas “práticas” econômicas ilegais,
uma vez que o Sistema Mundial Hegemônico incrimina e estigmatiza as pessoas que estão
comercializando produtos na Globalização Popular. Para Ribeiro (2009), o sistema normativo não
se dá conta de que existe uma gigantesca energia empreendedora e criativa, em todo o globo, não só
no Brasil, funcionando nas franjas da “informalidade” e da “criminalidade”, e que coerção,
repressão, não vai adiantar (Ibid., p.521).
Pinheiro-Machado (2008) intenta desconstruir a ideia de “informal” e ilegal. Para PinheiroMachado, os conceitos de “formal/ informal”, “legal/ ilegal”, “lícito/ ilícito”, são tênues, fluidos.
Isto é, em cada Estado-político, a noção de informal e ilícito sofre uma metamorfose, na qual uma
dada mercadoria ora terá face da legalidade, ora da informalidade/ ilegalidade, ao ser transportada
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para outros países.
Para contextualizar tal ideia, a antropóloga dá o exemplo dos brinquedos fabricados na
China (made in China), encontrados, muitas vezes, entre os camelôs brasileiros, os quais vendem
por R$ 1,99 no mercado. De acordo com a autora, as fábricas que produzem tais mercadorias são
estabelecimentos legais e cumprem, de certa forma, com as leis trabalhistas vigentes desse Estado.
Não obstante, é comum e habitual observar práticas informais atravessando as legalidades
correntes: os excessos de carga horária (extrapolando dez horas diariamente), o trabalho infantil, a
ausência de carteira assinada (nem todos têm a carteira assinada etc.). Em outros termos, práticas
informais e ilegais mergulhadas na formalidade lícita estatal e, muitas vezes, com o consentimento e
legitimidade do próprio Estado.
Nessa perspectiva, o comércio das falsificações e da “pirataria” é mais legítimo e tolerado na
China e no Paraguai, enquanto no Brasil, o Estado reprime e coage fisicamente a informalidade
econômica da sociedade. É exatamente a partir deste contexto que a autora desconstrói a noção de
informal e ilegal. Segundo Pinheiro-Machado, cada Estado-nação tem uma convenção jurídica
particular.
Continuando nessa mesma linha, para complementar, a pesquisadora dá o exemplo da cidade
de Foz do Iguaçu e de algumas cidades próximas da fronteira Brasil-Paraguai, relacionadas com os
“sacoleiros”. Quando houve, um dia, uma mega operação da Polícia Federal e da Receita Federal,
nessa região, com o fim de “acabar” com a informalidade neste local, essa ação teve consequências
sociais, pois os maiores prejudicados foram os proprietários de hotéis e restaurantes dessa região,
para os quais os maiores consumidores eram os “sacoleiros” que vivem intermitentemente nas idas
e vindas na fronteira.
A partir desse quadro, a autora diz que a informalidade é importantíssima para o capitalismo,
pois o complementa, no geral. Segundo Pinheiro-Machado, o mercado informal é responsável,
ainda, por criar novos consumidores para as lojas regularizadas da cidade. Vale lembrar, porém, que
17
alguns estabelecimentos comerciais e, muitos Bancos já têm o costume de abrirem sistema de
crédito e financiamentos para a maioria dos camelôs. Sem contar, todavia, que a informalidade é
responsável, em grande parte, em levar bens de consumo às classes de baixa renda.
Segundo Pinheiro-Machado, este fenômeno representa a dependência econômica notória
entre o setor formal e legal para com a informalidade e ilicitude. “O mercado dominante se
beneficia da pirataria” (p. 128). Portanto, a autora conclui que “o informal [...] é parte constitutiva
do Estado, do capitalismo e dos ditos mercados formais” (p. 129).
Pinheiro-Machado, diante disso, tentou tratar o fenômeno da informalidade e da “pirataria”,
buscando contextualizar as faces e as metamorfoses pelas quais os produtos, juntamente com as
noções de informal e ilegal, se alteram de país para país, frisando também a complexidade existente
para identificar e separar as práticas legais (lícitas) das práticas informais e ilegais.
Os Vendedores de CDs/DVDs “piratas”
Os vendedores de CDs/DVDs pirateados 6 que participaram da pesquisa estão dispersos ao
longo da Feira Livre do Guamá, mas especificamente alocados (mas não fixos) na Avenida Barão de
Igarapé Miri. Os vendedores dessas mídias montam pequenas barracas em caixotes de madeiras,
que servirão de suporte para os CDs e DVDs, e sobre os quais colocam um pano para expor os
produtos. Outros utilizam um carro de mão de madeira e o empurram ao longo da Avenida Barão de
Igarapé-Miri, oferecendo seus produtos.
A criatividade desses trabalhadores é refletida, ainda, na organização das suas mídias nas
barracas: eles organizam os filmes, documentários, músicas etc., em blocos enfileirados chamados
por eles mesmos, de “Lotes”. Por exemplo, o “Lote” dos filmes de sexo, o “Lote” dos filmes
evangélicos, o “Lote” dos filmes de terror etc.. Toda essa organização permite que as pessoas (os
consumidores) possam escolher o conteúdo do que querem comprar. Além desta disposição das
6 Aqui, neste trabalho, esses vendedores também são chamados de Feirantes, pois trabalham diariamente na feira do
Guamá.
18
mídias “falsificadas”, há outra, igualmente importante: os instrumentos que os trabalhadores levam
para as barracas como, por exemplo, tevês, aparelhos de DVDs e caixa amplificadora, os quais são
meios de chamar a atenção dos seus fregueses e também de testar as mercadorias.
Esses feirantes têm o costume, já comum entre muitos deles, de assinar uma rubrica nos CDs
e DVDs que estão sendo comercializados. Quando perguntados por que eles assinavam as
mercadorias, eles disseram que era uma forma de garantia que eles davam para seus consumidores
(fregueses), caso houvesse defeitos nas mídias. Desse modo, o comprador podia trocar o objeto por
outro, em boas condições de uso.
Considerações Finais
Neste artigo buscou-se discutir conceitos e definições de feiras livres para, a partir dessa
definição, contextualizar a Feira Livre do bairro do Guamá e os feirantes que comercializam
CDs/DVDs “piratas”. O artigo ainda tratou de polemizar as ideias e opiniões do deputado federal
Luiz Antônio de Medeiros (2005) no que tange à pirataria. O deputado e mentor da CPI da Pirataria
critica veemente a prática da pirataria no Brasil e no mundo, que estaria contribuindo para o avanço
visível do desemprego.
Em contraposição à opinião de Medeiros, buscamos outros caminhos para perguntar se a
pirataria, de fato, reduz tanto os empregos formais do país, ou seria, de certa forma, a reestruturação
produtiva do capital e os e os seus novos modelos produtivos de trabalho, hoje vigentes, que
estariam contribuindo para a redução drástica dos empregos, no Brasil?
Segundo Medeiros (2005), a pirataria prejudica todo mundo... Prejudicial, para quem? Para
as grandes e médias empresas do país, que querem especialmente elevar os seus lucros? Ou para os
trabalhadores (vendedores ambulantes e outros) que tentam os mais variados meios, para sobreviver
numa sociedade de modo de produção capitalista? Para o deputado a pirataria não tem escrúpulos.
Mas o sistema capitalista, que tornou-se um sistema mundial, até que ponto valoriza os seres
19
humanos, o bem-estar de todos, a humanidade entre as pessoas? No século XVI, por exemplo,
quando havia o capitalismo comercial, era comum (e legítimo) a comercialização de negros
escravos da África para as Colônias nas Américas, o Estado Absolutista e a Igreja católica, à época,
legitimavam tal prática, era legal (lícito) este tipo de comércio.
Ainda nesse contexto, o deputado argumenta que a pirataria prejudica o Estado e a
sociedade, porque desse modo o poder público não arrecada os impostos e não pode, portanto,
investir em obras, programas e políticas públicas. Contudo, na Amazônia, por exemplo, houve na
década de 1980 a efetivação dos Grandes Projetos de Polos Industriais, Carajás foi um deles. O
Estado brasileiro, visando desenvolver a região, isentou totalmente algumas empresas de quaisquer
formas de impostos, de modo que essas empresas não pagavam nada ao Estado, ainda que obtendo
lucros grandiosos. Se a discussão da CPI gira em torno do pagamento ou não de impostos que a
pirataria deixa de “dar”, por que, então, o próprio Estado isenta as grandes indústrias, já que é
através dos impostos que o governo pretende investir em obras/políticas/projetos públicos?
Talvez os deputados da CPI da Pirataria e os empresários não percebam a pirataria (assim
como a informalidade) como mais uma consequência do modo de produção capitalista atual, ou
seja, uma consequência da estruturação produtiva do capitalismo. No entanto, tal fenômeno não
pretende acabar com capitalismo, mas dele desfrutar. Para isso, buscou-se em autores como Ribeiro
(2009) e Pinheiro-Machado (2008), antropólogos que pesquisaram a Globalização Popular, para
compreendermos que a pirataria (e a informalidade) complementa o capitalismo. Porque leva bens
de consumo para grande parcela da sociedade menos favorecida – no caso aqui analisado, os
CDs/DVDs “piratas” –, além de transformar os vendedores dessas mídias “falsificadas” em
consumidores potenciais, no capitalismo.
Referências
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20
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21
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22
A morte da esquerda comunista e a perspectiva histórica da revolução social
The death of communist left and historical view of social revolution.
Claudinei Cássio de Rezende1
Recebido em 30/03/2012; revisado e aceito em 15/02/2013
Resumo: Este artigo trata das conclusões de minha pesquisa sobre a esquerda brasileira dos anos 1958-1974; pesquisa
publicada em livro pela editora Unesp – Suicídio Revolucionário (2010). Seu foco central tece o conjunto teórico do
qual a esquerda brasileira se valeu no embate contra a ditadura militar, o que determinou decisivamente nas ações que
culminaram com o genocídio da esquerda comunista que mantinha em seu programa um estatuto de revolução social.
Palavras-chave: Esquerda comunista. Luta armada. Revolução social.
Abstract: This article discusses the conclusions of my research about the Brazilian left between 1958-1974; research
published in a book by Unesp: Suicídio Revolucionário (2010). The central focus of this article weaves complex theory
wich drew the Brazilian left the clash against the military dictatorship, which ruled decisively in the actions that
culminated in the genocide of communist left that maintained in his program a status of social revolution.
Kweywords: Communist left. Armed struggle. Social revolution.
Em nenhum outro momento da história, as contradições geradas pelo capital e seu caráter
anti-humano estiveram tão expostos quanto estão agora, com a inflexão do capital pelas suas vias de
mundialização. Se pensarmos em alguns dos avanços técnicos e tecnológicos alcançados ainda no
século XX, da descoberta dos antibióticos em 1928 à clonagem de mamíferos em menos de setenta
anos depois, percebemos que o nível atual do desenvolvimento das forças do trabalho está em nítida
contradição com as relações sociais de produção engendradas pela lógica da propriedade privada
em sua forma histórica mais evoluída. De maneira direta, conforme anunciada por Chasin (2000 a),
a capacidade humana alcançada para a produção de seu mundo próprio é potencialmente superior à
organização social que os homens permanecem obrigados a suportar.
No aflitivo início do século XXI nos deparamos com a crise estrutural do capital. A crise no
mercado financeiro, com seu cume em 2008, reflete diretamente na economia européia; a Espanha
tem hoje mais de 4 milhões de desempregados. Apesar disso, em nenhum momento dessa crise
1
Professor do Centro Universitário Fundação Santo André. Pesquisador do Núcleo de Estudos de História: Trabalho,
Ideologia e Poder (PUC/SP). Mestre e Doutorando em Ciências Sociais pela Unesp-Marília. Contato:
[email protected]
23
algum grupo influente no cenário político apresentou um horizonte de resolução pela perspectiva do
trabalho, a fim de superar a lógica globalizada do capital; superação fundamental para a efetividade
da autoconstrução humana. Nessa reordenação do capital por sua própria dinâmica, a esquerda pósstalinista esteve diluída pela crença na eficácia da política, não apresentando nenhuma saída para
além do capital e da perfectibilização do Estado, porque esteve, em parte, arrimada na postura da
“democracia como valor universal”, de talhe eurocomunista. Problemas evidenciados, portanto,
desde muito antes da derrocada do Estado soviético – observados no arrefecimento do marxismo
ocidental, na filosofia do “pensamento 68” de talhe pós-estruturalista 2 –, perdurando depois de
assentada a poeira de seu entulho. Diante disso, o movimento operário não tivera resposta para a
globalização transnacional do capital. Sobretudo porque o movimento operário sempre se
comportara de forma setorial e defensiva. Por sua característica defensiva, o movimento operário
esteve impossibilitado de romper com as restrições setoriais paralisantes advindas da dependência
da pluralidade dos capitais. Por esse motivo, entrara num círculo vicioso em que sua setorialidade
defensiva legitimou a ordem sociometabólica do capital; pois, por omissão, essa postura representou
tacitamente a aceitação da ordem política e econômica estabelecida – a democracia liberal – como
sendo a estrutura ineliminável, fazendo o movimento operário lutar dentro dos liames políticos,
mantendo intacta a forma econômica desse sociometabolismo; como foi o caso do movimento
operário no ABC paulista, ressurgido após a esquerda ter sido ceifada pela ditadura militar. De
modo que a esquerda tradicional organizada entrou num momento tão peculiar que acabou
entendendo as conquistas da democracia como o mais elevado patamar atingível pela radicalidade
operária. Isso se reflete de modo semelhante nos âmbitos nacional e internacional.
Como a história nos demonstra, esse não é um problema exatamente novo: ainda no final
2
Entendemos por pensamento 68 o conjunto de formulações expostas, cronologicamente, da refutação da teoria de
Marx à enxurrada de obras vinculadas ao movimento de Maio de 1968, no qual se decreta a “morte do homem” pela
trajetória foucaultiana inscrita em As Palavras e as Coisas, pelas obras de Jacques Derrida – a filosofia da
desconstrução –, bem como pelo pressuposto filosófico de talhe nietzsche-heideggeriano, donde se almeja uma
ruptura formal com o humanismo dialético hegeliano – e, por via de conseqüência, com a propositura revolucionária
marxiana. Não foi sem razão que Luc Ferry afirmou que essa corrente promove a morte do sujeito nas estruturas.
Para uma reflexão acerca deste tema, Cf. Ferry e Renaut (1988).
24
dos anos 1930, a teoria do “socialismo em um só país”, decretada por Stalin no momento de declive
dos movimentos operários, emasculava qualquer possibilidade de realização de uma revolução nãoorquestrada pela União Soviética; se não bastasse, essa teoria desencontrava a tese marxiana
exposta na Ideologia Alemã (2007), a saber, a de que os povos dominantes, todos de uma só vez e
simultaneamente teriam de embarcar no processo de revolução socialista como forma de assegurar a
positividade de seu resultado, o que sucederia somente com o desenvolvimento universal das forças
do trabalho e o intercurso mundial a elas articulado. Portanto, o que estava em jogo – e que
permanece em jogo, a despeito da morte da esquerda – não era a questão do subdesenvolvimento
ou, no seu limite, a questão nacional, mas a viabilidade da estratégia revolucionária.
Simultaneamente à inexistência de uma estratégia revolucionária global que atue de maneira
ameaçadora às atuais estruturas sociometabólicas, a não-resistência formal da esquerda atual ao
mundo do capital se fortalece pela reprodução do marxismo vulgar por toda uma casta da
intelectualidade internacional, que por simples ignorância ou por interesse de classe, propaga o
marxismo vulgar para criticá-lo como se esse fosse o autêntico pensamento marxiano.
Interpretações vantajosas para a execração da esquerda, que pretendem demonstrar que não resta
outra opção senão o descarte da revolução social. Descarte da revolução, que significa o descarte in
limine da emancipação humana: a esquerda hoje está prostrada, impossibilitada de apresentar
alguma estratégia revolucionária unificada e organizada para a superação da propriedade privada.
A propriedade privada trouxe consigo um avanço das forças produtivas nunca antes
presenciado na história. Por esse motivo, não podemos considerá-la um retrocesso histórico, mas
uma forma de avanço que elevou qualitativamente a condição produtiva da humanidade e que,
paradoxalmente, ao mesmo tempo criou o entrave para a emancipação humana. Marx (1995 b)
apresenta a questão da essência da transição socialista não como um fenômeno que nega
simplesmente a propriedade privada mas como um movimento que a transforma em um supra-sumir
de toda a sociabilidade que se baseia na forma da propriedade privada, transmutando-a em
25
propriedade social. Ainda de acordo com Marx (2007), o momento possível da transição é quando
há uma existência efetiva material e espiritual de um mundo com possibilidade produtiva em esfera
global. Quando então, contraditoriamente, os benefícios desse avanço não atingem a todos os
homens, a necessidade de uma revolução social urge. A possibilidade material para a transformação
social está posta hoje mais do que na época em que Marx fazia essas reflexões; aliás, mais hoje do
que em qualquer outro momento da história; pois, a revolução social, a tentativa do homem, como
um ser genérico, de recuperar sua condição humana, depende do aparato tecnológico desenvolvido
pelas forças do trabalho.
A supra-sunção dessa contradição do capital não será alcançada dentro da lógica do capital,
exceto pelo fato de que essa supra-sunção parte do mundo existente do capital a fim de atingir um
estágio superior de humanização que ultrapasse o capitalismo. Essa condição de supra-sunção do
capital, embora já materialmente viável, jamais se efetivou na história; nem mesmo anunciou
elementos de superação quando da existência da sociedade soviética ou pós-capitalista. De acordo
com Chasin (1988) e Mészáros (2002), no transcurso da fase pós-capitalista, mesmo quando essa se
compreendia no quadro mais favorável possível para a transição socialista, não se operou o
desaparecimento completo da lógica do capital. O que significa dizer que nas sociedades póscapitalistas o trabalho, regido pelo capital coletivo/não-social, manteve-se sujeito às determinações
da lógica do capital, apesar das formas diferenciadas que assumiram o Estado e a propriedade.
Essa urgente revolução social, ipso facto, é ainda historicamente inédita. Retornando ao
seu principal formulador, Marx (1969; 2005 a), percebemos que ela não é a afirmação de uma
classe universal mas a afirmação universal do homem. Não é a afirmação do proletariado ou de
alguma outra classe como classe universal, como quer Mészáros (2002, p. 568 e p. 1051), mas a
determinação de uma universalidade humana que não reivindica nenhum privilégio ou título
histórico senão a condição humana. Se a revolução social, pois, não é a afirmação de uma ou de
outra classe, mas a negação das classes na afirmação universal do homem, fica evidente que o
26
processo soviético não chegou ao termo da emancipação humana, pois o proletariado não conseguiu
realizar o seu processo de dupla negação, dissolvendo todas as classes. Esse processo nos remete a
pensar a capacidade do proletariado que agora se encontra prostrado e superado como agente
tecnológico de ponta, de coordenar o processo contemporâneo de emancipação humana, isto é, o
processo da revolução social que irá supra-sumir a propriedade privada e a política – porque se
tornarão obsolescências – com base na lógica objetiva do trabalho, ou seja, tomando como princípio
seu centro nervoso. De sorte que a ilação do proletariado como portador desse papel nos dias atuais
depende de uma profunda análise acerca do novo patamar técnico-produtivo do capital. O que não
significa, em hipótese alguma, impugnar o proletariado como agente histórico da verossímil
revolução que não ocorreu, mas chegar à compreensão de que a
[...] revolução – a desobstrução e o recentramento da atividade crítico-prática nos processos
de autoconstrução humano-societária, culminando na reconversão por inteiro do
metabolismo social – é infinitamente mais importante que qualquer categoria social, ou
seja, dito com todas as letras: a revolução universal ou emancipação humana é mais
importante que qualquer um de seus agentes reais ou imaginários, inclusive mais
importante do que aquele que até aqui foi mais reconhecido e valorizado – o proletariado,
em especial quando evidências largamente acumuladas apontam que sua esperada função
histórica não se cumpriu, nem mais poderá ser cumprida na forma e sob a encarnação que,
no passado e com razão, lhe foi conferida. (CHASIN, 2000 a, p. 64)
O proletariado possuía a possibilidade de ser a negação da negação apenas pela sua situação
vital na lógica onímoda do trabalho. Essa potência ou propriedade, como explica Chasin (2000 a),
não é uma particularidade exclusiva do proletariado ou de qualquer contingente temporário do
trabalho alienado. Os contingentes de ponta em geral podem ter a possibilidade de encarnar essa
potência, mas não a realizam obrigatoriamente. Todavia o fracasso ou a impossibilidade de um
desses agentes, em seu momento histórico, de realizar sua tarefa – até onde pudemos determinar, o
proletariado – não significa o desaparecimento dessa potencialidade revolucionária. Por esse
motivo, observar essa incapacidade do proletariado não significa sepultar a perspectiva histórica da
esquerda, tampouco negar a centralidade do trabalho no processo de ultrapassagem da forma de
sociabilidade do capital, mas, pelo contrário, significa dizer que
27
O proletariado, estritamente como a classe dos trabalhadores urbano-industriais, não foi
propriamente vencido em seus 150 anos de lutas, mas simplesmente não foi capaz de se
realizar como a dupla negação prevista por Marx. Materializou-se apenas enquanto
primeira negação, enquanto expressão da pobreza e da opressão, só como figura da
exploração capitalista, lutou apenas como vítima da miséria. Jamais se materializou como
negação da negação, aquele que, ao negar a própria negatividade e se auto-suprimir,
suprime a miséria espiritual e material de modo universal. Foi simplesmente incapaz de
lutar como a negação da negação. (CHASIN, 2000 a, p. 66-67)
Com a reordenação do capital, após seu processo de mundialização, o âmbito nacional
continuou sendo o palco das mazelas e das palpitações dos problemas sociais, sem, contudo,
continuar a ser palco da dinâmica da resolução desses problemas. Diante disso, uma pergunta se
impõe: o movimento de vanguarda do trabalho abandonara sua postura defensiva para começar a
agir internacionalmente? Há algum grupo realmente organizado com grande contingente em torno
da preocupação da emancipação humana, em escala internacional? A resposta é negativa às duas
perguntas. Não há um grupo com contingente significativo, ou que tenha de fato inserção no
movimento de vanguarda, organizado com base na perspectiva do trabalho, nacional ou
internacionalmente. Por isso, há uma grande valia na elucidação da história da esquerda; mais
precisamente, na de como se processou a idéia de revolução na última esquerda comunista que
manteve em seus programas a revolução social como tônica. E como essa esquerda, organizada e
com inserção sindical, pensando a revolução socialista, foi vencida pela reação no Brasil.
A ofensiva internacional do capital e da extrema-direita no Brasil se beneficiou do
raquitismo teórico e prático da esquerda comunista – fraqueza emanada desde a tentativa de
qualificação da anatomia do capitalismo brasileiro até a elaboração de prospectivas de ações mais
imediatas após o golpe de 1964. Especialmente porque, no Brasil, a burguesia jamais engendrou um
projeto revolucionário que rompesse com sua condição subordinada, e essa não-realização de um
processo modernizador com base numa ruptura revolucionária – burguesa – com a estrutura
colonial lançou o Brasil tardiamente no processo de industrialização. De acordo com Chasin (2000
d), a industrialização subordinada ao capital externo, capitaneada pela produção de bens de
consumo duráveis, conciliada com a estrutura agrária herdada da colônia e assentada na
superexploração do trabalho, portanto na exclusão econômica dos trabalhadores, marcou a política28
econômica da burguesia brasileira. Classe essa que se revelou incapaz de dominar sob forma
efetivamente democrática – porque esteve impossibilitada de lutar ou sequer perspectivar sua
autonomia econômica e, assim, de se pôr à frente de um projeto de cunho nacional, apto a incluir,
embora nos limites do capitalismo, as classes a ela subordinadas. Assim, a burguesia tinha duas
formas possíveis de ação, caso pretendesse a superação de tal condição ainda em sua
protoformação: ou ocupar a radicalidade do gradiente burguês completando o itinerário da
burguesia européia para formar uma unidade burguesa nacional, desenvolvendo rapidamente as
forças produtivas a fim de edificar o capitalismo verdadeiro – o que chamamos de revolução
burguesa; ou a radicalidade operária, lutando em termos ou princípios gerais do trabalho por uma
sociabilidade que ultrapassaria o capital numa dupla transição – numa revolução permanente –,
perspectiva incomum, inclusive, às burguesias revolucionárias européias. A verificação do histórico
da burguesia brasileira, seja por sua não-revolução burguesa resultando no acordo com o
historicamente velho, seja por sua contra-revolução bonapartista resultando no agrilhoamento das
classes subalternas, revela o fato de que em nenhum momento essa burguesia almejou alguma
dessas duas alternativas. Decorrente dessa inação, a burguesia brasileira exerceu seu poder político
sob a forma de uma autocracia.
Portanto, como verificou Chasin (2000 b), a via colonial de entificação do capital se
caracterizou pela ausência de processos revolucionários para a objetivação do capitalismo
industrial, gerando um capitalismo atrófico, de natureza ainda mais perversa que a entificação do
capital pela via prussiana. Pois a burguesia brasileira, caudatária desde o início da via colonial até a
sua completude com a inflexão da mundialização do capital no final dos anos oitenta do século XX,
não procurou estabelecer um desenvolvimento autônomo que objetivasse o ingresso do país no
panteão dos países centrais; tampouco buscou cortar seus laços de dependência econômica que a
ligava ao imperialismo.
A esquerda brasileira, por sua vez, nasceu umbilicalmente ligada a essa debilidade burguesa.
29
Ou seja, a esquerda brasileira não nasceu do combate a um antigo corpo burguês revolucionário,
nasceu, isto sim, do inacabamento de classe. Atinando com a finalização da revolução burguesa de
feto natimorto, a esquerda principiou sua atuação no Brasil de maneira muito aquém da esquerda
européia; sobretudo, por não se deparar com uma entificação histórico-social integralizada.
Resultantes de uma interpretação não-equivalente das vias de objetivação do capital no país, na qual
se procurava os resquícios feudais para a efetivação da revolução antifeudal, todas as tentativas de
uma revolução ordenada pela conduta pecebista frustrara-mse. Todas as possibilidades de resolução
pela via do trabalho, como o processo de resistência ao golpe de 1964 ou como a resolução política
adotada na Declaração de Março de 1958, foram frustradas em detrimento de um paradigma
previamente estabelecido para guiar o movimento comunista internacional: a teoria da revolução em
etapas. A esquerda brasileira, desse modo, não principia sua atuação a partir donde parou a atuação
do horizonte burguês, mas principia a partir da tentativa de formar esse próprio horizonte. Todavia,
a ausência da empresa da revolução burguesa pela burguesia fez com que a esquerda sucumbisse à
tentativa de realização dessa revolução com base na mesma planta.
Enquanto a nova esquerda3 surgida da distensão da ditadura militar, já despojada de qualquer
intenção de revolução social, almeja a perfectibilização do capital e da política, o debate entre
3
Utilizamos o conceito “nova esquerda” para determinar a esquerda que nasce despojada da idéia da revolução
social, ou seja, a esquerda após os anos 1970, incluindo aqui a esquerda não-comunista nascida do movimento
grevista dos anos 1978–1980 – o Partido dos Trabalhadores (PT) e suas dissidências. [Atenção! Daniel Aarão Reis
Filho (1990) utiliza o conceito de “nova esquerda” para descrever os grupos que romperam com o PCB, ou seja, a
esquerda armada]. Diluída no pensamento neocontratual e liberal, essa esquerda não-comunista teve seu apoio na
analítica paulista. Analítica paulista é a expressão com a qual é referida a vertente teórica produzida desde a virada
da década de 1950 por destacados intelectuais acadêmicos de São Paulo; vertente que se difundiu por todo o país
como tributária e melhor intérprete do legado científico de Marx. Chasin tece pesadas críticas à analítica paulista (ao
marxismo adstringido) e à sua característica gnosiológica. Escreve: “Germinada, segundo seus próprios mentores, a
partir do agora afamado Seminário sobre O Capital, que os mesmos levaram a efeito em fins dos anos 50, a
analítica paulista se afirmou, desde o princípio e daí por diante, como uma modalidade epistêmica de aproximação
e apropriação seletiva da obra marxiana de maturidade. Isso compreendeu, pela mesma via, a exclusão praticamente
completa dos textos de Marx dos anos quarenta, sob o entendimento de que eram caudatários da antropologia
feuerbachiana. Por efeito, foram ignoradas as críticas ontológicas, a primeira das quais voltada à política, com as
quais foi instaurado e teve continuidade a elaboração do corpus teórico marxiano. Operações redutoras que
perfilaram uma versão do marxismo circunscrito à condição de lógica ou método analítico e de ciência do
capitalismo, para a qual ficou irremediavelmente perdido o centro nervoso do pensamento marxiano, – a
problemática, real e idealmente inalienável, da emancipação humana ou do trabalho, na qual e somente pela qual a
própria questão radical ou crítico-revolucionária encontra seu télos, identificando na universalidade da trama das
atividades sociais seu território próprio e resolutivo, em distinção à finitude da política, meio circunscrito dos atos
negativos nos processos reais de transformação” (CHASIN, 2000 a, p. 7).
30
alguns intelectuais livres, atualmente isolados por força da quebra da coluna vertebral do
movimento operário mundial, aspira determinar quem é o novo proletariado e, por conseguinte, o
agente capaz de levar a cabo a revolução social. Entretanto, essa determinação categorial –
proletariado – por vezes incorre no impasse de ou entender por proletariado (i) todos os
trabalhadores, isto é, “a classe que vive do trabalho”, apresentando um conceito vazio uma vez que
toda a humanidade vive do trabalho – trabalhando ou se apropriando dele; ou (ii) somente aquele
trabalhador que transforma diretamente a natureza, como os trabalhadores manuais. Enquanto na
primeira determinação se encaixa todo o contingente da humanidade – e, logo, não há determinação
concreta por ser muito abrangente –, na segunda, por sua vez, restringe-se o conceito de
proletariado a um momento histórico anterior ao de Marx, pois ignora o desenvolvimento da
tecnologia. A advertência de Chasin é imperiosa no sentido de expor o fato de que o agente que
possui a potencialidade nuclear da revolução social será sempre a do contingente que trabalha com
a tecnologia de ponta:
Assim, se quiserem chamar de proletariado os novos contingentes de ponta da lógica
onímoda do trabalho, paciência, não são os nomes que decidem a natureza das coisas, mas
não é uma idéia propriamente feliz, nem como homenagem a um lutador vencido. Se os
mais renitentes ou saudosos assim o quiserem, o termo pode ser conservado, contanto que
retenha a noção fundamental de significar trabalhador que opera por meio das forças
produtivas de ponta. (CHASIN, 2000 a, p. 68)
O agente capaz de efetivação da revolução social é aquele locado no centro nervoso do
trabalho. Essa constatação impugna a imputação, realizada por alguns grupos da esquerda anã atual,
de um potencial revolucionário a alguns grupos sociais desvinculados do trabalho de ponta, como o
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Independentemente se o MST mantém em
seu programa um estatuto revolucionário, esse movimento não possui a capacidade de realização e
coordenação de uma revolução social, sobretudo pela ausência de uma posição estratégica dentro do
processo produtivo do capital.
É importante observar que o século XX tomou de forma direta e unilateral seções
discursivas do pensamento marxiano e o converteu apenas num autor político, consentindo a defesa
31
do estado pela esquerda vulgar e depois pela esquerda adstringida. Essa derrelição – a suposição
indefectível de uma ontopositividade da política nos escritos marxianos – não se deveu
simplesmente ao fato de que Marx tenha sido malcompreendido, mas, sim, à ocorrência de eventos
históricos que forçaram a ablação de sua filosofia. Visto dessa perspectiva, esse foi o século da
derrota do movimento comunista internacional como tragédia política. Ao se concentrarem na luta
política, os partidos do movimento operário não puderam elaborar uma alternativa viável à ordem
sociometabólica do capital, pois eram completamente dependentes do objeto que negavam. A
dimensão que os partidos do movimento operário não puderam suprir não era a da negação política
do capital, mas a do próprio capital como regulador sociometabólico do processo de reprodução
material. Como detém o controle efetivo de todos os aspectos vitais do sociometabolismo, o
capitalismo tem condições de definir a esfera de legitimação política separadamente, constituída
como um assunto estritamente formal, excluindo assim, a priori, a possibilidade de ser
legitimamente contestado em sua esfera substantiva de operação reprodutiva socioeconômica.
Empurrados para a resolução apenas da emancipação política de seus grupos isolados, aliás,
pendendo pesadamente para o descarte da revolução social, os movimentos sociais nesta fase da
depleção da vanguarda do trabalho mantêm a idéia de resolução dos conflitos por esferas
independentes: as chamadas “questões de gênero”, as questões ambientais e a luta pela conquista de
direitos políticos das “minorias”; que deixam intocada a forma atual da sociabilidade. Em outras
palavras, descartam a possibilidade de uma revolução social. A revolução social passa a ser vista
como retrocesso histórico, como se o processo revolucionário fosse descartar as conquistas do
desenvolvimento do trabalho, como a rede mundial de computadores ou outros eventos
fundamentais que, pelo contrário, tornam possíveis os passos para frente rumo à superação desse
metabolismo social. Quando não vista como um retrocesso, o tema da revolução é simplesmente
ignorado como estratégia ultrapassada e inverossímil. E os movimentos sociais, desamparados de
uma teoria estratégico-revolucionária, acabam por estabelecer a ordem sociometabólica atual como
32
natural e intransponível; não conseguindo negar o capital como regulador sociometabólico do
processo de reprodução material4. Justamente por esse motivo, somente o movimento do trabalho,
dotado de um agente no centro nervoso da lógica onímoda do trabalho, possui a capacidade da
transformação radical do metabolismo social, transformando a possibilidade de emancipação
política de cada grupo isolado em possibilidade de emancipação humana completa.
No Brasil, o último momento em que a esquerda esteve organizada pela perspectiva do
trabalho, programando uma revolução social e mantendo, concomitantemente, uma substantiva
inserção sindical e um valioso apoio das classes subalternas foi nos anos 1960. Essa esquerda ainda
servia, de uma maneira geral, de barra condutora dos movimentos sociais. Os movimentos sociais
tinham seu eixo gravitacional na perspectiva do trabalho, apesar dos problemas teóricos da esquerda
comunista de então – o seu nascimento no limbo: “entre o inacabamento de classe do capital e o
imperativo meramente abstrato de dar início ao processo de integralização categorial dos
trabalhadores” (CHASIN, 2000 b, 230). A partir do golpe de 1964, momento em que a esquerda
4
Perry Anderson elabora um conjunto explicativo preciso sobre a centralidade do trabalho na luta pela emancipação
humana. Historicamente mais antiga do que a divisão de classes, a diferenciação entre as duas partes do gênero
humano é um fator natural. Qualquer luta pela emancipação feminina encontrará pela frente os pilares do capital e a
existência da sociedade de classes, de tal modo que o governo do capital e a emancipação das mulheres são
praticamente irreconciliáveis. A pergunta realizada por Anderson circundaria o como abolir a divisão de gêneros sem
abolir a divisão internacional do trabalho que divide a sociedade em classes: “Por universal que possa ser a causa da
emancipação feminina, tão radical que, com ela, também os homens sejam libertados de suas condições existentes,
ela é ainda insuficientemente operacional, como ação coletiva, real ou potencial, capaz de eliminar a economia e a
política do capital. Para tal, é necessário uma força social dotada de alguma força estratégica. Apenas o ‘trabalhador
coletivo’ moderno, os trabalhadores que constituem os produtores imediatos de qualquer sociedade industrial
possuem tal força – devido à sua ‘capacidade de classe’ específica ou à posição estrutural no processo geral de
maquinofatura capitalista, que só eles podem paralisar ou transformar, assim como só eles, em razão de sua coesão e
massa potencial, podem fornecer os contingentes centrais do exército potencial da vontade e aspiração populares
requeridos para tal confronto decisivo com o Estado burguês”. (ANDERSON, 1987, p. 108). De forma alguma isso
significa afirmar que o movimento feminista não tenha que lutar por sua emancipação política, mas significa afirmar
que essa não alterará a forma básica da sociabilidade do capital, não alterando, por conseguinte, radicalmente as
formas de exploração sexual do trabalho. Do mesmo modo, os legítimos temores do movimento verde acabam por
decretar como permanente a ordem sociometabólica do capital, procurando soluções para a incontrolabilidade do
capital, e de sua forma destrutiva – atenção!, não confundir a forma destrutiva do capital com autodestrutividade; do
contrário, suporia-se que o capitalismo ruiria por si mesmo –, do próprio ponto de vista do capital. Por isso, o
fracasso das tentativas de protestos que não ferem a lógica do capital por sua dinâmica central. Aqui, ainda, a
centralidade do trabalho é a única medida para a superação dessa lógica destrutiva desta fase superior do capital.
Nesse sentido, também somente o movimento do trabalho seria capaz de dar uma resposta satisfatória, por estar no
centro nervoso do capital. István Mészáros (2002) dedica parte de suas reflexões a este tema: ao afirmar que o
movimento verde não discute a causa sui dos problemas ambientais, o autor demonstra que a perspectiva do
trabalho “representa a necessidade gritante da humanidade de discutir as causas como causas no modo de controle
sociometabólico estabelecido, para erradicar, antes que seja tarde demais, todas as tendências destrutivas do capital,
já bastante visíveis e cada vez mais preponderantes”. (MÉSZÁROS, 2002, p. 133).
33
pecebista – a mais importante e significativa esquerda comunista até então – se fratura em uma
constelação enorme de agremiações, a ofensiva dos gestores do capital atrófico destrói toda e
qualquer mobilização nacional em torno do trabalho. A esquerda pecebista, a partir disso, acaba
perdendo definitivamente sua hegemonia no cenário da esquerda comunista e dos movimentos
sociais. Esse fator foi significativo; pois a luta operária, que também foi derrotada de chofre com a
esquerda, passou a não ter mais uma vanguarda política organizada; ainda que as vicissitudes do
partido somadas com a trajetória do capitalismo verdadeiro no Brasil e com o refluxo do socialismo
mundial emperrassem um processo autêntico de revolução social. A esquerda que empunha armas a
partir de 1968 – que deixa de ser a esquerda para se tornar as esquerdas – esteve despojada do
movimento operário. Sua inserção sindical fora praticamente nula e seu apoio social, minúsculo.
Sua inserção no movimento dos trabalhadores rurais foi, no mínimo, desastrosa. O que implica
dizer que a luta armada não conseguiu sequer corporificar uma tentativa de atuar enquanto
vanguarda do trabalho.
Daniel Aarão Reis Filho afirma que essa fragmentação orgânica da esquerda não constituiu
um fator negativo; mas, antes de tudo, constituiu uma positiva “derrubada do mito do monolitismo
da representação política das classes populares, ou seja, a derrota do mito do partido único” (REIS
F. & SÁ, 2006, p. 24). Em verdade, ocorreu a quebra do monólito pecebista. Todavia, o fato de
todas as esquerdas agirem de maneira completamente desligada umas das outras e num abandono
teórico pulsante – com uma pesada carga estratégica legada pelo seu passado recente – faz de suas
derrotas um processo de dupla falência: sua falência física, a saber, o desmantelamento da esquerda
pela opressão; e sua falência teórica, impossibilitando a apreensão da realidade imediata para uma
prospecção resoluta. Antes de significar uma quebra do monolitismo pecebista, a esquerda do pós64 significou a depleção da esquerda comunista, resultando num sucessivo fracasso completo do
seu movimento de aproximação com as massas, iniciado nos anos 1950. Ao contrário do que propõe
Daniel Aarão Reis Filho, a “derrubada do mito do monolitismo” não representou um avanço, porque
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não veio acompanhada de uma ascensão popular, mas, pelo contrário, representou um recuo, porque
veio por um golpe militar que objetivava destruir a esquerda, representando uma quebra definitiva
da esquerda comunista, isto é, uma corrosão da – antes aglutinada – esquerda que mantinha a
revolução social em seu programa e que estava ligada aos movimentos do trabalho.
Ainda nessa época, apesar da dissolução do Komintern durante a Segunda Guerra Mundial,
o PCB continuava a exercer seu papel de umbrícola do Partido Comunista da União Soviética, a
exemplo da grande maioria dos partidos comunistas no mundo todo. O impacto do cataclismo das
ameaças nucleares da Guerra Fria, que fez com que Nikita Khrushchev atenuasse os conflitos –
divulgando a via pacífica da revolução mundial –, incumbiu o PCB de ser um propagador prático
dos soviéticos, gerando sua crença na possibilidade de alianças com a burguesia por uma solução
revolucionária pacífica. Ainda que não percebessem uma parcial subordinação do PCB à política
soviética, muitos militantes do PCB criticaram o comportamento do partido no tocante à idéia da
revolução pacífica e, acima de tudo, no tocante à idéia da revolução orquestrada pela burguesia.
Carlos Marighella foi um desses críticos; seus conflitos dentro do próprio partido o empurraram
para a criação de uma outra agremiação.
Não obstante, não é equivocada a afirmação de que a esquerda armada, sobretudo sua
parcela mais significativa – a que girava em torno da figura de Carlos Marighella –, tenha ficado
aquém do limite possível da consciência revolucionária de sua época. Essa fraqueza facilitou o
massacre perpetrado pela opressão nessa dupla morte da esquerda aqui exposta. Com métodos
científicos de repressão e tortura, a ditadura, especialmente após 1968 (exatamente quando há uma
imersão geral na luta armada), consegue promover a aniquilação física da esquerda comunista. Essa
morte física não esteve completamente desligada de sua morte teórica. A opção pela luta armada
talvez não fosse a única saída, embora concluir isso em post festum seja tarefa muito mais fácil e
sem implicações de vida ou morte. Assim sendo, a ditadura militar massacrou violentamente toda a
esquerda. O Dossiê Brasil Nunca Mais revela que pelo menos um terço dos que pegaram em armas
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contra a ditadura foram mortos – isso tudo sem que calculemos o número de afetados diretamente
pela tortura e pela morte de amigos, de familiares e de companheiros –; os estudos de Jacob
Gorender demonstraram que a vida de um guerrilheiro urbano durava, depois de seu ingresso na
luta armada, uma média de dois anos. Soma-se a isso o despreparo teórico da esquerda, a
subserviência pecebista à política soviética – herança que suas dissidências jamais conseguiram
abandonar – e a eficiência do aparato repressivo; os homens que resistiram através das armas, sem
outra alternativa aparente, caminharam para o suicídio iminente. Daniel Aarão Reis Filho (1990)
lembra mais um fator importante no fracasso da luta armada: a inexperiência dos seus atores –
evidentemente, aqui não se inclui Carlos Marighella. Em sua grande maioria, os revolucionários
eram recém-ingressantes na luta política. A luta armada, encabeçada por Marighella, foi seguida por
um grupo de estudantes. Os militantes comunistas que abandonavam o PCB para reordenar a
esquerda em outras novas agremiações, não conseguiram, pois, abandonar o princípio da
inexorabilidade da revolução. Ainda que houvesse uma confusão sobre a etapa da revolução em
marcha, toda a esquerda armada acreditava que o momento era favorável.
Apesar de figurar um grande herói da resistência por sua physique du rôle, Carlos
Marighella não considerou dois aspectos importantes em sua batalha romântica contra a ditadura
militar5. O primeiro aspecto, o movimento de massas. Marighella dizia que a propaganda armada
não significava que o esforço da Ação Libertadora Nacional seria dispensado a fim de ganhar o
apoio das massas, mas que “bastava ganhar o apoio de uma parte da população”. A ALN não
ganhou apoio das massas, nem sequer de uma parte da população, de tal modo que não agiu como
vanguarda do trabalho. Para Marighella, seriam necessários vários grupos armados para que
ocorresse a revolução que derrubaria a ditadura, dita autoritária e fascista, admitindo-se um partido
5
Estas conclusões são parte de meu livro intitulado Suicídio Revolucionário (ed. Unesp, 2010) e caminham em
sentido oposto à maioria dos estudos monográficos sobre a trajetória da resistência armada à repressão da ditadura
militar que são, de um modo geral, românticos e apologéticos. Ainda que esses estudos apologéticos tenham a
importância documental de demonstrar que a violência desferida pela esquerda não foi mais nada do que revide à
opressão e uma imposição do momento – e não o contrário, como tentou impor a ditadura militar por meio de uma
propaganda massiva – esses estudos caem na armadilha de cultuar figuras consagradas de nossa história, com a
intenção de celebrar a memória dos imolados. Reconhecimento justo e humanamente merecido para com esses
atores de nossa história, mas que acabam por celebrar os erros por eles cometidos.
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de massas como vanguarda num segundo momento, como ocorre na Revolução Cubana. Marighella
abandonou toda e qualquer volição de aproximação com as massas no decorrer da luta armada. O
segundo aspecto, a impossibilidade da completação do incompletável embrião do capital no Brasil
por meio de uma revolução de libertação nacional. Marighella acreditou que a revolução antifeudal
fosse imprescindível. Ao fazer isso, Marighella não conseguiu reconhecer a particularidade histórica
do capitalismo no Brasil, trazendo de modo mecanicista a teoria que Caio Prado Júnior havia
denominado como “consagrada”, a saber, a do resquício feudal no campo brasileiro; daí a
necessidade da revolução antifeudal e da libertação nacional. O improviso teórico e a excitação pela
ação imediata fizeram com que a esquerda armada não possuísse uma formulação original e
coerente sobre a revolução brasileira, acabando por incorporar por osmose a teoria etapista.
Diante de um impasse histórico e da aniquilação da esquerda radical promovida pela
repressão ainda nos dez primeiros anos da autocracia burguesa bonapartista, a esquerda tradicional
brasileira estava com as mãos atadas; pois não lhe cabia, uma vez fragmentada e isolada dos
trabalhadores como um todo, guiar um projeto de modernização para tentar completar o
capitalismo, tampouco intentar a revolução socialista. Do ponto de vista político, a esquerda estava,
portanto, vencida. O período 1964–1968 esgotou os elementos fundamentais da substância
pecebista, mas não fez o partido se dissolver por completo. Se a revolução burguesa não fora
realizada nem pela burguesia nem mutatis mutandis pelo conjunto dos trabalhadores, e se a
propositura pecebista – maculada pela sua trajetória de debilidade analítica congênita e de
subordinação ao movimento comunista internacional – não conseguira dar conta do projeto de
modernização da economia, a possibilidade histórica de uma guerrilha, acossada pela repressão
militar e sem nenhum apoio popular, de realizar o papel que caberia historicamente à burguesia era
praticamente nula e imprópria à gravidade do momento. A idéia da revolução burguesa através das
armas parte do absurdo de que a guerrilha poderia despertar per se a modernização capitalista.
A análise de J. Chasin, nesse sentido, revela-nos que a forma mais adequada de ação da
37
esquerda naquele momento era a da “dupla transição”. A esquerda deveria ordenar uma
aproximação implacável com os movimentos do trabalho – a despeito das dificuldades impostas
pela ditadura militar através de seus sofisticados instrumentos de repressão das classes subalternas –
a fim de reordenar o conjunto das relações sociais sob a perspectiva do trabalho, abrindo caminho
para a superação do capital pela própria estrutura produtiva. A classe trabalhadora, premida por
carências básicas e organizada em torno de um programa de transformação das raízes geradoras
dessas carências, ao mesmo tempo que reordenaria o processo produtivo alterando sua produção
para fins de suprimento das classes subalternas, possibilitaria o desenvolvimento nacional centrado
no progresso social, acumulando forças, objetivas e subjetivas, para a superação do
sociometabolismo do capital. A proposta da “dupla transição” exposta por J. Chasin se baseava,
especialmente, no processo de greves após 1978.
Depois de 1968 a imersão da esquerda na luta armada foi enorme, ficando de fora somente
os trotskistas e o que restou do PCB. Vale lembrar que uma fração de trotskistas ainda tentou dispor
de uma organização armada chamada Movimento Revolucionário Primeiro de Maio, que foi
desmantelada pela repressão no fim do ano de 1969. Uma característica comum entre todos os
grupos que embarcaram na luta armada foi a falta de uma análise da realidade conjuntural. A luta
armada se configurou, objetivamente, como resistência democrática. Isso não significa, de modo
algum, que a esquerda armada mantivesse as guerrilhas ativas para garantir um certo conjunto de
liberdades democráticas, ou, ainda, que esses guerrilheiros tivessem apenas a intenção de agirem
como resistência democrática. Pelo contrário, a esquerda comunista almejava a revolução, mas,
dado o seu fracasso, funcionaram parcamente como movimentos de resistência à ditadura. A luta
armada serviu, pelo menos, para demonstrar que a aceitação da ditadura militar pela sociedade não
era plena e pacífica. No entanto, como resistência democrática, a funcionalidade da luta armada foi
insignificante, especialmente porque não atingiu as massas. De qualquer modo, a opção pela luta
armada não chegou a representar uma ameaça real à ditadura militar. Enquanto ação prática de
38
enfrentamento da ditadura, os guerrilheiros comunistas tiveram poucos trunfos estratégicos, como a
onda de seqüestros de 1970, o assassínio de um militar americano, Charles Chandler, e a execução
do presidente da Ultragaz, Henning Boilesen, ativo colaborador da tortura. E o episódio mais
impressionante da luta armada fora o caso do seqüestro do embaixador americano em 4 de setembro
de 1969. O embaixador fora trocado por 15 presos políticos. Entretanto, o seqüestro do embaixador
atesta a veracidade da análise de Florestan Fernandes (1999), a de que a ditadura utilizou as
pequenas ações armadas da esquerda a fim de justificar os assassínios e as torturas, isto é, o terror e
a intensificação da repressão contra toda a sociedade e mais especificamente contra o movimento
operário. A prova disso veio na seqüência: logo após o assassínio do oficial americano fora criada a
OBAN; e cinco dias depois do seqüestro do embaixador dos Estados Unidos fora publicado o Ato
Institucional nº 13, que permitia o banimento do território nacional dos brasileiros que se tornassem
“perigosos” para a Segurança Nacional; e, na seqüência, em 10 de setembro de 1969 é instituída a
pena de morte no Brasil através do Ato Institucional número 14. Dentro de dois meses, o GTA – a
mais alta patente na hierarquia militar da agremiação – da Ação Libertadora Nacional era
desmantelado e Carlos Marighella era assassinado. A Ação Libertadora Nacional, a partir disso
comandada por Joaquim Câmara Ferreira, acabou destruída antes de praticar a guerrilha rural. O
novo líder da organização fora assassinado na seqüência, em bárbaras torturas. As greves e o
movimento operário estavam num beco sem saída. A ditadura militar aumentou seu apoio popular
quando os índices adulterados de crescimento econômico chegaram a público; demais, a ditadura
não se colocava como regime de exceção: toda a institucionalização da ditadura militar fora
composta por decretos-leis, atos institucionais e emendas na Constituição – com exceção do Ato
Institucional nº 5 e dos “decretos secretos”.
A ditadura encontrava dura resistência dos populares até 1968. Todavia, alguns fatores
simultâneos acabaram afastando os populares de qualquer mobilização social, ao longo dos anos
1964–1968, a saber: a Lei de Greve, de junho de 1964; a extinção dos tradicionais partidos
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políticos, em outubro de 1965, com o Ato Institucional nº 2; a criação do FGTS, em setembro de
1966, possibilitando as demissões em massa; o emprego sistemático da tortura; a Lei de Segurança
Nacional, permitindo que cidadãos fossem presos sem acusação e ficassem incomunicáveis, sem
direito ao hábeas corpus; o controle geral dos meios de comunicação pela brutal censura; as altas
taxas de exploração da força de trabalho; e o assassínio dos principais líderes da esquerda
comunista armada depois de 1969. As passeatas nas ruas, o embate da mídia, a participação popular
em greves e outros movimentos sociais foram jugulados por essa seqüência de atrocidades que se
completa com o Ato Institucional nº 5. A esquerda depois disso, acreditando estar impossibilitada de
se organizar de outra maneira, embarca na luta armada. Historicamente, podemos perceber que a
intensificação da ditadura militar não ocorrera para a efetivação do embate contra os movimentos
revolucionários, mas para derrubar as últimas manifestações populares de esquerda. Somente a
partir disso a esquerda opta pela luta armada, como última alternativa aparente. Jacob Gorender
(1987) delimitou acertadamente o problema da luta armada ao afirmar que a esquerda, não se
armando para resistir ao golpe, arma-se tardiamente e num momento de isolamento dos movimentos
de base.
Exatamente ao contrário do suposto pelas organizações armadas, sobretudo pela facção de
Carlos Marighella, o país não atravessava uma “situação-limite” de uma revolução proletária, em
que se esgotavam as instituições burguesas. Longe disso, após 1964, a ditadura estabeleceu um
esforço na manutenção das instituições, inclusive do próprio Estado, quebrando o padrão de
representação política que as lutas sociais haviam conquistado durante as duas décadas anteriores ao
golpe de 1964. A luta armada nem sequer conseguiu reconstruir – ainda que não fosse seu objetivo
direto por ter como certa a possibilidade da revolução – a representação social burguesa perdida
com o golpe, e a construção de uma nova representação mostrou-se completamente ineficaz. Até
1968, ainda foram possíveis algumas representações trabalhistas na esquerda, mas a partir desse ano
exauriu-se a base de sustentação dos movimentos sociais. De 1968 a 1974, as organizações
40
clandestinas foram perdendo a representatividade nos sindicatos, marginalizando-se socialmente,
rumo ao seu iminente desaparecimento. De tal sorte que a dinâmica social, maculada pela
agudização da repressão ditatorial, não permitiu a aproximação da esquerda com as bases da
sociedade. Como vimos, o golpe militar foi antes de tudo um golpe na esquerda, tratando de acabar
com as organizações sindicais e com os movimentos de massa em torno da perspectiva do trabalho.
A revolução social não sucedeu porque ela se ausentou do encontro, como quer Daniel Aarão Reis
Filho (1990)? De fato, a revolução social foi impossibilitada pela dinâmica imposta pela ditadura
militar. A ditadura, por esse motivo, foi um bonapartismo contra-revolucionário. Para Reis (1990), a
possibilidade da revolução era iminente, e somente o acaso fora responsável pelo desencontro, aliás,
o mesmo acaso responsável pela revolução onde elas ocorreram. A despeito da tese de Reis (1990),
não foi o acaso que impossibilitou a revolução social, mas foi o desligamento dos grupos
revolucionários com sua base, ou seja, com os movimentos sociais e com os movimentos dos
trabalhadores. Desenraizando-se, esses grupos se tornaram marginais à dinâmica da realidade
social, passando a sobreviver como facção armada clandestina de uma esquerda que teve seu pilar
esfacelado6.
Sem experiência histórica de lutas operárias, a esquerda armada agiu desordenadamente e
sem estratégia previamente estabelecida, e, por isso, buscou um posterior arrimo paradigmático
exógeno a fim de justificar a sua prática – o que se vê na busca classificatória da luta armada no
Brasil como sendo uma “guerra popular prolongada” ou um castro-guevarismo –, ao invés de ter um
corpus teórico parti pris para guiar as suas ações, estabelecido numa profunda análise da realidade
brasileira e na experiência da luta operária. Portanto, a esquerda – arrastada pela violência da
ditadura militar – empunha armas e parte para a ação revolucionária através da violência, como
6
Escreveu Daniel Aarão Reis Filho: “Não se trata, porém, de atribuir a derrota a debilidades de percepção, de
concepção ou de formulação, como se os acontecimentos revolucionários pudessem ter tido lugar se outro fosse o
‘nível’ teórico, ou outro fosse o ‘conhecimento’ da realidade. Características intrínsecas predispunham as
organizações comunistas num determinado sentido de ação e de pensamento: elas estavam preparadas, coesas e
mobilizadas, em uma palavra, prontas – mas a revolução faltou ao encontro...”. Adiante, escreve: “Mas a
comparação das experiências sugere a hipótese de que os comunistas brasileiros foram derrotados pelas
semelhanças que os aproximam (e não pelas diferenças que os separam) das organizações e partidos vitoriosos”
(REIS Fº, 1990, p. 186).
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resposta aos ataques sofridos e somente depois tenta adaptar uma teoria, externa ao movimento e
descolada da realidade brasileira, à sua prática. A única teoria que se apresentou formada e que se
manteve, malograda, na esquerda armada esteve desconectada da análise da realidade nacional,
procurando sustentação na idéia da revolução burguesa imprescindível, aliás, na crença dos estágios
inexoráveis de desenvolvimento das forças produtivas. O etapismo foi a herança negativa que a
esquerda carregou para a luta armada; inclusive Carlos Marighella. As outras esquerdas clandestinas
que não possuíam obrigatoriamente o preceito nacional-libertador em seus projetos não estavam
totalmente imunes à herança etapista. Vejamos: se, por um lado, as organizações da esquerda
clandestina que intentavam a completação da revolução burguesa acreditavam que haveriam de
passar primeiro pela revolução democrático-burguesa para somente depois batalhar pela revolução
socialista; por outro, os grupos crentes na possibilidade da imediata revolução socialista tãosomente assim estruturavam suas lutas por acreditar que a etapa da revolução burguesa já havia sido
anteriormente completada. Como já afirmado, a quimera do etapismo não havia sido superada em
nenhuma dessas esquerdas mais significativas que combateu nas trevas – uma feliz expressão de
Gorender – a ditadura bonapartista, especialmente porque essas esquerdas mantinham sua antiga
filiação à cartilha do Komintern. As divergências no campo da organização necessária entre essas
frações da esquerda armada também eram miúdas: todas as guerrilhas pensavam em instalar a
guerrilha rural, porém todas agiram primeiro na cidade – exceto a guerrilha do PCdoB, no Araguaia,
pioneiramente maoísta. Todas estavam descoladas da massa e do movimento operário e acreditavam
dirigir uma vanguarda poderosa, por uma inapropriada alusão à conspiração vanguardista
bolchevique. Todas possuíam um desapreço enorme à teorização e à aproximação com o
trabalhador de ponta. Todas rejeitavam a noção de que um partido pudesse guiar uma revolução
naquele momento, sobretudo a partir do exemplo da Revolução Cubana. Subestimando a força
repressiva do Estado, essas esquerdas se isolaram das massas com uma imprecisa idéia de que
estariam na vanguarda política da revolução – ignorando o fato de que a vanguarda política da
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revolução deveria ter como ponto fulcral o centro nervoso do sociometabolismo, a saber, o trabalho
– de tal sorte que caminharam ao implexo suicídio revolucionário.
Referências
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44
O homem negro no cururu paulista: apontamentos etnográficos.
The man black in cururu paulista: ethnographic notes
Elisângela de Jesus Santos1
Recebido em 01/04/2013; revisado e aceito em 07/06/2013
Resumo: O trabalho consiste na apresentação dos resultados parciais de etnografia integrante de nossa pesquisa de
doutorado acerca do cururu do Médio Tietê. O cururu é forma de canto popular e de sociabilidade do caipira paulista,
modalidade específica de desafio/peleja no repente acompanhado da viola como principal instrumento. É vivência que
se estrutura por meio da oralidade e tem a memória dos envolvidos como principal “recurso” de difusão de
conhecimentos. As questões delineadas têm o cururu como fazer coletivo que aproxima e contrapõe dualidades como
sagrado-profano, cristão-pagão, feminino-masculino, rural-urbano, popular-erudito.
Palavras-chave: cururu paulista; cantoria de improviso; desafio entre duplas.
Abstract: This paper is the presentation of partial results of ethnography and parcel of our doctorade about the Middle
Tietê cururu. The Cururu is a form of popular song and sociability ‘caipira’ in São Paulo, a specific form of outburst
/impromptu accompanied by the viola as the main instrument. All the issues outlined here allow an approach that has
the collective cururu how to do that now approaching, now opposes important dualities as sacred-profane, paganChristian, male-female, rural-urban, popular, classical, among others.
Key words: cururu from São Paulo; singing impromptu; challenge between doubles.
Apresentação
O artigo em questão pretende iluminar algumas situações vivenciadas em trabalho de campo
e em outros aspectos de nossa pesquisa de doutorado. Neste sentido, mais do que esgotar
concepções relativas a um pretenso estereótipo ou representações sociais sobre o homem negro no
cururu paulista, partiremos das observações das rodas e de gravações em áudio das cantorias onde
cururueiros brancos se referiram de modo pejorativo aos cururueiros negros com o intuito de
desqualificá-los junto à plateia, um dos principais objetivos do cururu enquanto brincadeira
masculina realizada como desafio em duplas cantado e acompanhado de viola caipira.
O objetivo deste enfoque é verificar como são construídas ou reproduzidas representações
sobre o negro no imaginário e cotidiano caipira e, principalmente, dentre o grupo realizador do
cururu no Médio Tietê, atentando ainda para os contextos de derrisão nestes processos.
1 SANTOS, Elisângela de Jesus. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, UNESP, Araraquara. É membro do
NUPE/CLADIN/LEAD onde coordena as atividades do grupo de estudos Catavento: Redes e Territórios de Culturas e Identidades. Bolsista de
Doutorado da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, FAPESP. Faculdade de Ciências e Letras, UNESP-Araraquara:
Rodovia Araraquara-Jaú, Km 1. Telefones: (16) 3334-6218/6490. [email protected]
45
Introdução
A consolidação de um processo civilizador (ELIAS, 1994) no Brasil contribuiu para que
noções morais difundidas pelas classes dominantes forjassem representações das práticas
socioculturais populares como se fossem desqualificadas historicamente. As tentativas de
negativizar práticas culturais de grupos humanos portadores de atitudes que destoam de
comportamentos prescritos pelo ordenamento socialmente estabelecido aponta para a importância
das práticas culturais como campo de luta constituinte das relações de poder em nossa sociedade.
Levando em consideração este atributo de (des)ordem, tratamos das formas de reprodução
de estereótipos negativos atribuídos à população negra dentro do grupo caipira que estudamos2. Este
trabalho dialoga ainda com as diferentes gradações ou diferentes níveis que estes processos de
subalternidade e inferiorização atingem no meio estudado, apontando para aspectos que denotem
tentativas deliberadas de submeter referências culturais populares, sejam de grupos negros ou
brancos pobres, à inferioridade de suas produções estéticas e culturais quando inseridas no todo
social.
Como já pudemos esboçar, trataremos destas contradições no caso do grupo caipira que
acompanhamos em nossos trabalhos de campo durante pesquisa etnográfica acerca do curur paulista
em cidades como Sorocaba, Votorantim e Porto Feliz. O cururu é modalidade de desafio no repente
ou cantoria de improviso acompanhado pela viola caipira que acontece na região paulista conhecida
como Vale do Médio Tietê.
Prática de cultura popular caipira paulista o cururu consiste, entre outros elementos, num
ritual de desafio entre cantadores. Neste duelo poético realizado entre duplas de cururueiros3, são
2
Em pesquisa de doutoramento acerca do cururu paulista concluída em 2013 e financiada pela Fundação de Amparo
à Pesquisa do Estado de São Paulo, FAPESP (2009-2013).
3 Termo “nativo” para tratar do realizador do cururu, o cantador, o poeta popular que também é muitas vezes referido
como “trovador”.
46
cantados versos na forma de trova improvisada e ritmada ao som da viola.
As origens deste diálogo entre cantador e violeiro parecem resultar de uma síntese entre
práticas culturais de diversos grupos étnicos forjadas durante o período colonial brasileiro 4. Seu
forte vínculo com a oralidade dificulta qualquer tentativa de fixar um momento datado para seu
surgimento, mas por conta de sua realização no contexto da festa do Divino Espírito Santo na
região5, presume-se de que o cururu exista há aproximados duzentos anos.
O processo de colonização e de transfiguração das cosmologias ameríndia e africana são
elementos importantes neste contexto, uma vez que o cururu guarda em sua forma elementos
relacionados ao universo mítico de grupos tupis e suas narrativas carregam ambivalências que nos
permitem associá-las a rituais de grupos pagãos, mesmo quando associado às práticas de louvor e
devoção católica. Os planos profanos estão contidos no sagrado e o âmbito religioso está
intimamente relacionado ao cotidiano e vice-versa. Além disso, elementos lendários e atemporais
são acionados para explicar essas mesmas origens no tempo histórico e muitos realizadores
atribuem à categoria “dom”6 como elemento definidor do que é um bom cururueiro ou do que é
preciso para se fazer um “cururu bão”.
Do encontro civilizatório entre diferentes grupos étnicos indígenas com europeu-ibérico, os
grupos negros brasileiros foram acolhidos no cururu ainda que em minoria. No momento histórico
posterior à situação de colônia e em decorrência das imigrações europeias para São Paulo, enquanto
projeto nacional de mestiçagem com fins de garantir mão-de-obra assalariada para o cultivo
sistemático de café, a população imigrante também passa a incorporar as práticas rituais cotidianas
do caipira, ao menos no que tange ao gosto pelo cururu enquanto forma de sociabilidade identitária
no Médio Tietê e à lide com o trabalho agrícola7.
4
O cururu também é realizado no estado do Mato Grosso apresentando, no entanto, forma muito diversa do cururu
realizado em São Paulo.
5 Embora ainda seja realizado em contextos de devoção articulados à lógica do catolicismo popular (Brandão, ) o
cururu possui uma dimensão de brincadeira ou jogo, podendo também ser elogioso realizado em contextos de
sociabilidade dos grupos caipiras no Médio Tietê. Para além dessa dimensão de sociabilidade ou divertimento do
grupo, pode comportar também uma dinâmica de espetáculo.
6 Elemento de dádiva recebida do plano celeste e para o qual já se nasce qualificado.
7 Antonio Candido (1982) vai nos dizer que não é possível pensar o termo “caipira” para caracterizar grupos étnicos
47
O cururu como conquista de prestígio
As estratégias discursivas acionadas nos desafios de cururu pressupõem uma igualdade
compartilhada pelos homens participantes. Nos desafios realizados fora do contexto litúrgico, são
tratados temas cotidianos do grupo, tais como o trabalho, a família, política e religião. O ritual do
desafio que caracteriza o cururu como brincadeira, quando é feito em duplas resulta também num
riso ritual com objetivo de desqualificar os adversários simbolicamente. No entanto, quando se trata
de uma peleja entre brancos e negros, os temas jocosos acionados no discurso para desqualificar o
negro, remetem-se à atributos físicos como o cor/po, como representações que remetem ao negro
submetido, no passado, a condição de escravizado.
Neste sentido, o cururu comporta uma dimensão ritual que pode ser vista como espécie de
“guerra com hora marcada” (EVANS-PRITTCHARD, 1978) sendo ele mesmo um modo de
enfrentamento de questões incômodas da vida grupal, momentos em que o riso e a zombaria
estabelecem movimentos que delimitam o espaço do conflito e do prestígio. Trata-se de uma
ocasião coordenada para resolver, ainda que pontual e simbolicamente, questões delicadas relativas
à própria masculinidade grupal, contemplando questões de enfrentamento do machismo e da
sexualidade do outro; questões de status social, como a situação econômica dos participantes; ou de
status cultural que pode contemplar desde o grau de instrução, a cor da pele ou ainda, a roupa que
se veste ou a casa em que se mora.
As narrativas improvisadas e cantadas podem ser construídas a partir de fatos retirados da
realidade do grupo ou de situações imaginadas que enquanto representações são tornadas reais
apenas quando proferidas. No entanto, mesmo que tal poética seja produto forjado na cabeça do
per se. Neste sentido, os parceiros são não apenas um tipo racial, mas um tipo social (CANDIDO, 1982, p. 22). A
questão da miscigenação neste sentido, não é de fundamental importância para Antonio Candido que caracteriza o
grupo caipira. Para o autor, é a forma de organização social do caipira marcada por uma relação de vínculo forte
com o campo e por uma dieta alimentar que prevê o mínimo necessário para a subsistência do grupo. Este mínimo
para sobrevivência do grupo, o autor chamou de "mínimo vital" e disso resultaria o "mínimo social" (idem, p. 48)
que caracteriza as relações mais fechadas do grupo em seu território ou “bairro rural” no contexto dos anos 1950.
Atualmente, ainda que tenhamos que rever essa interpretação, preferimos notar que o autor trata do cururu como
marca identitária importante do caipira no Médio Tietê paulista.
48
inventor e no calor da disputa têm repercussão no âmbito coletivo.
Em termos narrativos, deparamo-nos com diversas ambigüidades que compõem os termos
do discurso do cururu e que conduzem ao riso da plateia e dos cantadores. Uma delas nos permite
pensar nas hierarquias sociais praticadas pelo grupo.
Os gracejos realizados no cururu podem ser indicativos de relações de conflito suspenso e
indicar relações sociais permeadas por tabus entre brancos e negros. O contexto da derrisão
provocada pelas narrativas construídas de modo satírico é importantes para que possamos entender
este conflito suspenso com mais propriedade.
Assim, transcrevemos alguns trechos de gravações do desafio realizado entre “Parafuso” e
Horácio Neto. Primeiro, transcrevemos o trecho gravado em áudio onde improvisa o cantador
negro. Parafuso faleceu em 1973 com 56 anos de idade:
Vô cantá o primero verso
na carrera do Sagrado
meu amigo Horácio Neto
eu piso firme lá pra seu lado
Este tar de Horácio Neto
ele é um causo complicado
ele é muito invejoso
é o que eu acho engraçado
depois vê o Pelé jogá
e vortô entusiamado
ele quis fazê iguar
eu fiquei envergonhado
pegô a bola de pano
foi um causo complicado
jogô a bola pra cima
deu um pulão desagerado
ô minha moçada alerta
o tar pulô de perna aberta
carça largo no quadrado
Pra cantá com Parafuso
você precisa prestá cuidado
tenho dó de Horácio Neto
este é um, pobre coitado
quando vai cantar comigo
ele fica encorujado
com a mim até representa
fêmea de pardá moiado 8
8
Parafuso, carreira do Sagrado. Trecho. CD Os Reis do Cururu.
49
Em resposta ao negro Parafuso, segue Horácio Neto9:
Quero vê se eu tamém canto
é na carrera do Sagrado
pra respondê ao Parafuso
porque a hora tá chegado
eu não sei o que que tem
que o pretinho tá entusiamado
meu colega Parafuso
já vô ino pra seu lado
uma fêmea de pardá
que tinha me comparado
por você falô pro povo
no seu verso improvisado
que o cabocro tatuiano
ia iguar pardá moiado
por você falô pro povo
que sô iguar pardá moiado
você é uma fêmea de chupim
que nóis anda acumpanhado
meu colega Parafuso
você iscuta o resurtado
largue mão de fazê graça
que'hoje cê vai tentá trocado
esse feição de macaco
que vive empulerado
esse feição de macaco
de que vive empulerado
eu sô cabocro caçadô
sempre eu sô apreparado
na copa de perobera
fica co' rabo embolado
mas na hora que'u dô tiro
o tar vem de atravessado
Horácio Neto, carreira do Sagrado
CD Os Reis do Cururu
O “homem com aparência de animal” é uma das formas de comicidade onde o “objeto de
confronto é tomado do mundo cirscuntante” (PROPP, 1992, p. 61). A comparação do homem com
animais só tem conotação cômica quando alude a algum defeito e pretende desvendá-lo. No texto da
cantoria aqui reproduzida tanto o primeiro quanto o segundo cantador, pretendem “rebaixar” o outro
tornando-o não-humano. Ao forjar representações que pretendem animalizar o humano, o cantador
expõe o outro à plateia que, por sua vez, reconhece os defeitos deste outro animalizado e por causa
disto, ri.
9
Considerado um dos cururueiros mais antigos em atividade recente, Horácio Neto começou a cantar em 1962,
levado à Sorocaba por influência de Parafuso de quem foi parceiro por muitos anos. Faleceu em agosto de 2009 aos
86 anos de idade.
50
Como já pudemos verificar, em algumas das rodas que presenciamos, de um modo geral
expressões como estas que acabamos de destacar provocam muitos risos e aplausos por parte da
plateia. Isso não significa dizer que o cururueiro, ao responder através de elementos narrativos
racistas, esteja deliberadamente contribuindo para forjar manifestações sociais de cunho racista. O
objetivo aqui é desqualificar o outro e obter prestígio pessoal por fazer isto, algo que não pode ser
feito sem diálogo com valores compartilhados num contexto social mais ampliado. Neste sentido, o
cururueiro é um tradutor dos valores que pautam as relações estabelecidas no mundo em que vive e
no qual está inserido culturalmente.
O que o cururueiro branco faz é se apropriar de um discurso racista, que embora ele não
tenha criado, cabe como luva para desqualificar o outro que, neste caso, é um cantador negro.
Assim, o cururueiro estabelece um diálogo com o contexto social mais ampliado de onde retira
elementos que estão de acordo com este mesmo ordenamento racista, onde o ideal seria que o negro
não existisse.
Não podemos esquecer que o cururu, embora reproduza os discursos da prática cotidiana e
os valores da sociedade ampliada, constitui momento de suspensão deste mesmo ordenamento e seu
caráter de brincadeira pressupõe o palco como um campo de batalha, lugar onde são acionados
elementos ofensivos que não são expressos no dia-a-dia, que é o lugar da polidez e da disciplina
necessárias para se viver o convívio.
Em síntese, podemos verificar que tanto no cotidiano vivido, quanto no contexto festivo de
suspensão da ordem, existe uma relação importante entre as práticas sociais polidas e elevadas com
as práticas consideradas vulgares, vinculadas ao baixo corporal, à animalização e à indisciplina em
grupo (BAKHTIN, 2008).
O intervalo que permeia o plano celeste e o plano terrestre é híbrido, mas não uniforme.
Fosse esse mesmo discurso proferido num contexto fora da roda de cururu, seria considerado
51
prática racista. A derrisão neste caso específico é indicativa de conflitos entre brancos e negros tanto
no contexto caipira, quanto na sociedade mais ampliada.
É justamente este movimento de contrários que provoca o riso. O ato de rir não existe num
espaço harmônico. É apresentando outros ordenamentos pautados na articulação e tensão entre os
planos alto e baixo, celeste e terrestre, religioso e lúdico, sério e cômico, cotidiano e festivo que o
cururueiro, manipula com habilidade poética, as palavras que pronuncia. Os valores compartilhados
dentro e fora do grupo são expressos pelo cururueiro que, como contador de histórias, apenas alude
aos diferentes contextos e os ouvintes entendem por si o que ele propõe de forma insinuada,
interagindo e explodindo em risos, aplausos, assobios entre outros gestos de euforia.
Ao relatar uma porfia contra um cururueiro negro, observemos o que diz Cido Garoto (2003)
a partir do trecho da narrativa e da reflexão que ele mesmo faz sobre o que considerou expressão de
cunho racista:
Esse negão africano
Tá pensando que é campeão
Aqui chegou declarando
Que os pretos têm instrução
Só que eu tive pesquisano
E cheguei numa conclusão
Que os pretos não são sabidos
A metade são bandidos
A outra parte é ladrão.
(GAROTO, 2003, p.14).
Após ter dito isso, a plateia reagiu rindo muito. Mas o próprio Cido garante que jamais
deveria ter cantado este verso e o fez, à época, por falta de experiência. Tanto que o cururueiro
negro cantou, em resposta:
Os preto são inocente
O Garoto se enganô
O Brasil de antigamente
Os preto que levantô
Já mataro um presidente
Não foi preto que atirô
Também quero dizê isto
Foi branco que mato Cristo
52
E foi branco que condenô.
(GAROTO, 2003, p.15).
Mesmo que Cido Garoto não tivesse feito a reflexão posterior que fez, foi no momento da
peleja que percebeu que correu grande risco em desqualificar o cantador a partir de sua
cor/poralidade. Ao fazer isto, deu brechas para que o cantador atacado reagisse acionando o caráter
de branquitude contraposto à negritude, questionando até que ponto a cor da pele é determinante
para emitir juízos de valor ou para avaliar o caráter do outro. De “lambuja”, o desafiante ainda
exalta o negro de um modo geral, dizendo que foram “os preto” que “levantaram o Brasil”.
Por sua vez, embora Cido Garoto perceba o mote como falta de experiência, sua vivência
societária permitiu-lhe atentar para tensões que pautam as relações entre negros e brancos. É deste
lugar e a partir deste pressuposto padrão, enquanto portador de branquitude que Cido Garoto fala.
Partindo deste lugar, questiona o desafiante que, não poderia se comportar ou “se pensar” como
campeão do cururu porque, sendo negro, não teria instrução que lhe qualificasse para isto.
O que está em jogo aqui não é apenas um fato inventado pelo cantador para abater o
desafiante, mas algo que faz parte do contexto social ampliado, pois historicamente e em termos
comparativos a grupos brancos, são desiguais as condições de efetiva escolarização e de inclusão
social da população negra brasileira. Tal narrativa denuncia, entrelinhas, questões de (in)justiça
cognitiva presentes em nossa sociedade.
Portanto, o cururu enquanto ritual de combate funciona como uma espécie de suporte das
relações sociais do grupo caipira. A disputa poética travada entre os participantes constitui um
confronto de identidades masculinas forjado simbolicamente para que o cantador alcance algum
destaque perante o outro, seu desafiante. Esse modo de se expressar por meio identitrio preza pela
singularidade, mas é também um movimento que dá sentido e reforça a vivência coletiva.
Alcançando a vitória sobre seu adversário, o ganhador tem a extensão dessa conquista simbólica
ampliada na totalidade do grupo em que está inserido.
53
Para alcançar notoriedade, o cantador de cururu profere versos repletos de malícia. A
capacidade inventiva de improviso também chama atenção para o grau de criatividade do
cururueiro atentando para a dimensão da subjetividade e de sua prática enquanto prática poética.
Este elemento criativo é valorizado e atribui positividade ao comportamento social deste cantador.
A rivalidade entre cururueiros é efetivada sob forma de performance.
Neste caso, a ofensa e o insulto expressões associadas à violência, comumente vinculada à
masculinidade, são elementos acionados na constituição da identidade masculina dos cururueiros.
No cururu, a brincadeira ganha estatuto de masculinidade. De acordo com a linha
argumentativa com a qual costuramos este texto, podemos estender essa mesma noção para
entender que proferir expressões capazes de desqualificar socialmente o outro não cabem no
comportamento padrão de mulheres e crianças. Limitando-se ao universo masculino, essas práticas
marcam comportamentos inseridos em práticas culturais específicas, atribuídas
somente aos
homens do grupo. Assim, mulheres e crianças são parte integrante da plateia que, embora interaja
nas dinâmicas dos desafios, têm espaço e comportamentos diferenciados do “padrão” masculino.
O conhecimento do que é comportamento padrão é transmitido oralmente, daí a
importância de haver uma plateia10. O código oral é reconhecido e, portanto, legítimo enquanto
instrumento mediador da transmissão do conhecimento efetuado pelo grupo. Sob um tom de
brincadeira, os principais valores morais e padrões aceitáveis de comportamento social são
difundidos. Ao riso, neste sentido, pode ser articulada outra faceta: a derrisão como medida de
correção e de enquadramento.
Caminhando no sentido de finalizar nossas reflexões, apontaremos uma situação de trabalho
de campo, que nos permite pensar em dadas representações da condição do negro na sociedade de
um modo geral e, em especial, no contexto de sociabilidade caipira.
10 Denominada também “assistência” ou “apovado” dos desafios de cururu.
54
Em Porto Feliz11, ao acompanhar uma roda de cururu realizada num palco montado em
frente à praça do coreto que abriga a belíssima igreja que ostenta o nome da padroeira, Nossa
Senhora Mãe dos Homens, ao longe já poderíamos avistar a diversidade de pessoas que
compunham a plateia do desafio. O público era composto por famílias, inclusive crianças pequenas
e havia grande o número de homens idosos. A assistência foi abrigada embaixo de uma tenda para
olhar e escutar atenta ao cururu e ao protegida da fina chuva que caía. O evento foi organizado pela
prefeitura da cidade no dia primeiro de maio, dia do trabalhador.
Enquanto o primeiro cantador, residente em Sorocaba, cantava durante a segunda volta 12 do
cururu, ele mencionava o tempo da escravidão negra perguntando em tom de provocação a um dos
cantadores negros se ele tinha lembranças daquele período, fruto de imensas dificuldades. O
cantador em questão, ao adotar a escravidão como tema, sugeria ser interessante aos negros que
atentassem às suas atuais condições materiais de vida, infinitamente melhores. Este passado,
marcado pelo processo de escravização do negro, quando representado no presente, trata do homem
negro livre ainda na condição de ser escravizado. O cantador negro, em resposta, cantou o seguinte:
É no toque da viola, de novo eu voltei cantar/toca viola caipira porque eu gosto de escutar/e
no som desta viola pra vocês quero contar/quando escuto o som da viola da vontade de
cantar/até dos tempos passados, eu começo recordar... Tô com 60 anos de idade/ não me
canso de falar/eu estou com 60 anos, meu povo pode escutar/que o Carrara aqui falou, meu
distinto pessoal/ que eu não conheci (consegui) casa de barro, o senhor enganado está...
Eu morei em casa de barro, pro senhor posso aprovar/ e diga se tá certo ou não tá/eu nasci
na casa de barro, foi pelas bandas de lá/ só que não tinha buraco, que nós sempre ia tapar/
só porque não tinha... quando o tempo tava chovendo, não dava pra trabalhar/o meu pai
reunia a turminha e nós começava sapatear/ que’ra pra fazer o barro, diga lá meu pessoal/
que’era pra reformar a casa que era pra gente morar.
Não precisava de pedreiro, sua ideia onde é que tá?/Em caso sério e complicado, eu não me
canso de falar/ a idade vai chegando, a idade avançada tá/e o cantador de idade, já começa a
caducar.
E entrando propriamente na zombaria pessoal, prosseguiu:
11 Cidade do interior do estado que dista aproximados 120 km da capital paulista, conhecida por seu importante papel
durante o período das monções paulistas do século XVIII e por sua inserção na dinâmica cultural caipira.
12 Uma volta é o nome que se dá à cada vez que o grupo de cantadores realiza a sua narrativa improvisada, relativo à
uma rodada.
55
Ditão vai surrar eu co’Zé, sua ideia onde é que tá?/ quando o Carrara era novo, era bamba
pra cantar/eu conheci Dito Carrara, escutava’ele improvisar/hoje ele tá mais velho, cantador
taracaca...
Prezado Dito Carrara, a razão explico já pro povo, não tem jeito dele falar/e no bairro do
Varejão, um dia eu fui passear/lá na casa do Carrara, ele convidou pra entrar/venha ver
minhas criação, que eu tenho aqui no quintal.
Eu tenho um monte de coelho que eu comprei pra criar/a casa tudo esburacada, meu pessoal
escute lá/onde eu vi as criação correndo pra todo lugar/era um monte de rato esparramado
no quintal/ai tinha um monte de rato esparramado no quintal.
No buraco da parede a rataiada começaram a entrar/compadre Dito Carrara, ele começou
rezar/tinha rato pra todo lado, meu pessoal que aqui está/e tinha um gato vagabundo deitado
em cima do sofá.
Ao ouvir isto, a plateia se manifesta numa gargalhada geral. Como num contínuo ao riso e
enquanto prolongamento dessa situação de êxtase em que a plateia rompe o silêncio que lhe
permitia escutar o que era dito, o público passa a exclamar o nome do cantador, a aplaudir e
assobiar gritando palavras de ordem e impulso. Pela manifestação da plateia, podemos pressupor o
prestígio que o cantador negro obteve ao problematizar ainda mais a questão levantada pelo
primeiro cantador, respondendo a todas as demandas impostas por ele e inventando que a casa do
cururueiro branco era cheia de ratos. Para piorar o constrangimento do primeiro cantador, o segundo
diz que a casa é habitada por um gato que, ao invés de acabar com a festa dos ratos, não faz nada
além de dormir sobre o sofá – numa nítida analogia à postura pretensamente preguiçosa do dono da
casa.
Apontamentos finais
Mais uma vez, o contexto de derrisão no cururu não está descolado do plano cotidiano e da
realidade vivida. Ainda que as situações propostas como narrativas poético-cantadas sejam
imaginadas, tais brincadeiras estão contidas num plano real mas que está suspenso enquanto tempo
cotidiano e do ordenamento civilizatório “padrão”. Não à toa muitas dessas rodas onde acontecem
episódios como os que acabamos de narrar são realizadas aos sábados, domingos ou feriados. O
domingo além de ser um dia dedicado à folga do trabalho, é também dia de missa para os católicos.
Em todos os casos aqui ilustrados seja na fala de Cido Garoto, no trecho da gravação em
56
áudio ou no relato de Porto Feliz, percebemos um contexto para o riso e verificamos que, mesmo
em se tratando de temas delicados como o racismo contra a população negra, não basta reproduzir
valores para condicionar os participantes a um comportamento enquadrado, ainda que elementos
educativos também estejam em jogo na sociabilidade. Há, sobretudo, uma imensa capacidade de
transformar o ordenamento social em brincadeira, em tiração de sarro. No plano individual, os
cantadores dispõem de diversos elementos narrativos retirados da vivência coletiva (sociocultural) a
fim de conquistar seu objetivo maior que é zombar do outro e obter prestígio por meio dessa
zombaria.
Com uma infinidade de temas possíveis, o cururu também trata do negro, de quem se fala
sobre e através de adjetivações. Os cantadores manipulam tais adjetivos, não como dado para
reproduzir comportamentos racistas dentro do grupo, mas para rebaixar e impor ao outro uma
condição depreciada perante uma plateia que ri destas mesmas condições – ou para marcar o lugar
da depreciação, educando para que comportamentos desviantes sejam valorizados e reproduzidos.
Trata-se de uma prática reveladora da consciência que se tem dos conflitos e do ordenamento social
como um todo. É justamente essa consciência que permite a manipulação deste ordenamento,
tornando-o burla do sério: brincadeira passível de riso.
Sendo inegável a difusão de concepções e teorias raciais e de branqueamento que
contribuíram para reforçar, nos planos prático e imaginário, a exclusão dos negros do processo de
consolidação do estado republicano brasileiro até os dias de hoje, o que pretendemos neste artigo é
contemplar a dimensão da poesia oral realizada como desafio ritual entre homens negros e brancos
para problematizar efetivas questões do cotidiano do grupo em sua sociabilidade e em sua vida
social ampliada, destacando as relações familiares, de parentesco, compadrio, amizade e
religiosidade bem como as relações de trabalho, este último entendido como produção da vida
material e simbólica.
Para que possamos ampliar o entendimento da construção dos saberes populares,
57
necessitamos reformular radicalmente nossas concepções científicas, revendo uma infinidade de
noções historicamente construídas para, enfim, propor investigações aprofundadas sobre estes
mesmos saberes.
Longe de negligenciar a complexidade dos elementos que resultam em práticas racistas em
nossa sociedade, enfatizamos apenas um aspecto da riquíssima prática do cururu do Médio Tietê
paulista, manifestação identitária do grupo caipira, enquanto realização artístico-poética dos
cantadores e violeiros individualmente e como expressão popular e coletiva de mundo. E neste
último plano percebemos o cururu como meio pelo qual o grupo caipira se apropria das lógicas que
regulam o ordenamento social para imprimir outra ordem, isto é, para viver ritualmente uma
(des)ordem mediada pelo riso e possibilitada por ele. E faz isso muito antes de simplesmente
reproduzir mecanicamente o ordenamento social a fim de reforçá-lo. Trata-se de uma forma singular
de entendimento do mundo, e uma forma específica de produzir e transmitir conhecimentos.
É com este sentimento, proveniente da necessidade de aprofundar nosso entendimento sobre
os saberes provenientes das concepções populares do mundo, que finalizamos este artigo.
Referência
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Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Ciências e
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Imolação do corpo e “santificação” das mulheres assassinadas no Ceará: uma análise sob a
perspectiva foucaultiana.
Imolation of the body and "Sanctification" of women killed in Ceará: An analysis under perspective
of Foucault.
Daniele Ribeiro Alves1
Clara Maria Holanda Silveira2
Maria Helena de Paula Frota3
Recebido em 30/03/2013; aceito em 20/05/2013
Resumo: O presente artigo objetiva compreender, sob a perspectiva foucaultiana, o assassinato e a “santificação” de
mulheres no estado do Ceará. A discussão converge para o entendimento de que esse fenômeno se origina de uma
cultura machista marcada pela dominação masculina e pela submissão do feminino, onde o aniquilamento da mulher
representa a necessidade de controle do macho e da manutenção de seu poder.
Palavras-chave: santificação, imolação dos corpos, assassinato de mulheres.
Summary: This article aims to understand the perspective of Foucault, about the murder and the "sanctification" of
women in the State of Ceará. The discussion converges to the understanding of this phenomenon originates from a
culture marked by male domination and female submission where the annihilation of the woman represents the need of
male control and maintenance of his power. At the same time, the ordeal suffered by the women killed, make them
closer of the martyrs of the Catholic Church, who populate the popular imagination, contributing to his acceptance as
sacred entities.
Keywords: sanctification, immolation of the bodies, the murder of women.
Introdução
A violência contra a mulher ocorre em nível mundial, em todas as camadas da
sociedade. Tem por base a herança oriunda de uma cultura de honra, de dominação masculina e de
subordinação do feminino que separa de forma misógina os lugares ocupados por homens e
mulheres, assim como suas funções na sociedade e na família. Esses papéis são consolidados ao
longo da história e reforçados pela ideologia patriarcal, induzindo relações violentas entre os
gêneros.
1 Mestranda em Políticas Públicas e Sociedade pela Universidade Estadual do Ceará (bolsista CAPES). Pesquisadora
do Observatório da Violência contra a Mulher-OBSERVEM. [email protected]
2 Mestranda em Políticas Públicas e Sociedade pela Universidade Estadual do Ceará (bolsista CAPES).
[email protected]
3 Doutora em Sociologia pela Universidade de Salamanca- Espanha. Líder do Grupo de Gênero, Família e Geração
vinculado ao CNPq. Coordenadora do Observatório da Violência contra a Mulher- OBSERVEM. Professora Adjunta do
Curso de Serviço Social e do Programa de Pós Graduação em Políticas Públicas e Sociedade da Universidade Estadual
do Ceará. [email protected]
Endereço institucional: Av. Paranjana, 1700, Campus do Itaperi. Fone/Fax: (85) 3101-9600 / 9601
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O assassinato de mulheres, por questões de gênero, é a manifestação mais atroz da
violência contra a mulher. Origina-se na intrínseca relação entre poder e masculinidade que
constitui a matriz relacional hegemônica das relações sociais de gênero. (BANDEIRA, 2008). É
nesse viés que pretendemos compreender quais as contribuições de Foucault para a análise do
assassinato e veneração de mulheres no estado do Ceará. A partir da técnica análise de documentos,
inquirimos a materialidade da documentação, conforme Frehse (2005) e coletamos informações
sobre histórias de mulheres cearenses “canonizadas” de forma espontânea pela população, no jornal
“O Povo”, um dos principais meios de circulação diária de Fortaleza, que lançou cadernos especiais
com o tema “Santificados”.
Nessa averiguação, obtivemos os seguintes resultados: dezesseis histórias de mulheres
cearenses mortas e “santificadas”, com idade entre 12 e 47 anos, eminentemente da zona rural,
protagonistas dos episódios que tiveram como característica principal o martírio e o crime
passional. O que nos chama atenção é a característica comum a todos esses delitos: a imolação do
corpo, o sacrifício, pois não basta matar, mas se faz necessário a aniquilação, desfigurar o corpo
feminino como sinônimo de honra e controle. Tal aspecto contribui de forma decisiva para a
“santificação” dessas mulheres.
Portanto, agregando todas essas informações, realizaremos nossas reflexões baseadas nas
ideias de Foucault. Os questionamentos que nortearão esse estudo serão: Qual a função do suplício
para a “santificação” dessas mulheres? Como se estabelece a relação Igreja Católica e a produção
da imagem feminina, ora profana, ora sagrada? Há micropoderes e resistências femininas nesse
fenômeno?
1. Relações de gênero e o conceito de poder em Foucault
As relações desiguais de gênero são engendradas a partir da transformação das
diferenças biológicas entre homens e mulheres em desigualdades sociais. Sobre essa questão,
61
Osterne (2001) afirma que o gênero dos indivíduos é definido pelas relações sociais, pela cultura e
pelo sistema simbólico no qual os seres humanos estão inseridos, e não pelas diferenças biológicas
entre os sexos.
Para Scott (1995), as formas de representação do ser homem e do ser mulher na
sociedade, transmitidos por meio de símbolos, conceitos e metáforas, contribuem para que o
indivíduo, desde criança, assimile as normas, os costumes e as regras sociais e incorpore a visão
naturalizada do domínio masculino em detrimento do feminino.
Consideramos também que o conceito de gênero comporta a interpretação de que as
relações entre homens e mulheres estão baseadas em relações de poder, onde o sexo feminino
encontra-se em desvantagem. Scott (1995) destaca que o gênero é uma forma primária de dar
significado às relações de poder, utilizada de maneira recorrente nas tradições judaico-cristãs e
islâmicas.
De acordo com Foucault (1996), o poder deve ser analisado como algo que circula e que
não se localiza em um ponto específico da estrutura social. Funciona como uma rede de dispositivos
que se exerce de maneiras diversas, de acordo com técnicas e táticas próprias, perpassando todas as
relações sociais e atingindo todos os indivíduos. Resulta dessa acepção, a ideia de que o poder não
existe, o que existe são relações de poder nas quais todas as partes o exercem, porém, não de forma
igualitária.
O autor ainda diferencia o poder e a violência ao afirmar que esta age sobre os corpos e
os objetos, quebrando, destruindo, minando as possibilidades de resistência. As relações de poder,
ao contrário, dizem respeito a dois sujeitos que podem tanto exercer como ser alvo dos efeitos do
poder, havendo espaço para a luta, a resistência e a resposta.
Mesmo que o poder seja distribuído de maneira desigual entre os sexos, tanto os
homens se utilizam dele para a manutenção da dominação masculina como as mulheres utilizam o
mesmo para a sustentação ou combate as desigualdades e a submissão feminina. Queiroz (2008)
62
ressalta que o poder não se estrutura de forma rígida, na oposição binária entre opressor e oprimido.
Em uma relação de poder ora um, ora outro pode estar em posição de comando. Reforça que seu
exercício se constitui como manobras e técnicas que são contestadas, aceitas ou transformadas.
Não existem aqueles que detêm e os que não detêm o poder, este não é algo concreto,
mas sim se manifesta por meio de práticas, de relações. Onde há poder, haverá resistência dentro de
sua própria teia relacional. Por essa razão, não há um local próprio de resistências, mas sim diversos
pontos de resistência espalhados pelo corpo social. O poder não aprisiona. Porém, para modificar a
dominação exercida por ele, são necessárias técnicas e estratégias tão móveis e inventivas quanto o
próprio poder. (FOUCAULT, 1996).
Consideramos que a mulher apresenta meios de resistência dentro de uma relação
conjugal violenta. Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que as mulheres “santificadas” no
imaginário social se aproximam dos ideais católicos pela crueldade sofrida e o controle do desejo da
carne, por outro lado, no âmago das narrativas, são explícitas as resistências do feminino ao modelo
de submissão. Muitas delas não acataram as normas estabelecidas pelo companheiro, opuseram-se
ao casamento ou não cederam seus corpos. Tais resistências culminaram no assassínio.
É notório destacar algumas dessas narrativas: Isabel, 28 anos de idade, foi assassinada,
em outubro de 1929, na cidade de Guaraciaba do Norte, a facadas e seu corpo foi jogado ao abismo
pelo companheiro que ficou enciumado com o corte de cabelo da mesma; Maria de Bil foi morta a
facadas no ano de 1926, na cidade de Várzea Alegre-Cariri, pelo ex- companheiro que não aceitava
o fim do relacionamento; Regina de Fátima, 12 anos de idade, ao não ceder às tentativas do tio de
manter relação sexual foi estuprada e morta, em outubro de 1982, na cidade de Fortaleza-CE.
Nestes casos, é explícito que a desigualdade de gênero, que consiste em valores
culturais hierárquicos e machistas, marca o extermínio das mulheres. Portanto, tais práticas de
crimes passionais ocorrem no momento que o homem não tem a posse da mulher, é desprezado,
sente-se lesado na sua masculinidade e assim, busca reaver a sua honra. Age acreditando que é seu
63
direito ter a posse da morte.
Essas mulheres assassinadas, no entanto, tornam-se figuras sagradas da modernidade a
partir da morte e da crença de que são milagrosas, gerando respeito e devoção. Transformam-se
num emblema na região e atraem a coletividade.
2. O poder disciplinador da igreja católica e a produção da imagem feminina, ora profana,
ora sagrada
Para Foucault, o poder tem uma face positiva, produtora e, dessa maneira, incide sobre
os corpos dos indivíduos com o objetivo de aprimorá-los, adestrá-los. Entra em questão aqui, o
conceito de poder disciplinar utilizado por esse autor, como sendo um tipo específico de poder que
permite o controle minucioso do corpo humano, o adestramento de suas ações, a produção de
corpos dóceis, de maneiras de agir, sentir e pensar nos seres humanos. Osterne (2008) acrescenta
que a disciplina contribui para a aceitação da dominação masculina, raiz do fenômeno da violência
de gênero. Segundo Foucault (1996), a disciplina é um conjunto de técnicas que tem como objetivo
criar a singularidade dos indivíduos.
Dessa forma, a distribuição dos corpos em um espaço individualizado é fundamental. A
“Casa” representa o espaço simbólico do feminino, uma vez que é associada ao confinamento e ao
doméstico; a “Rua” é o âmbito masculino, de desbravamento, do político, (DAMATTA, 1997). Essa
separação entre o público e privado tem uma intensa conotação de gênero e reforça as divisões de
papéis entre o homem e a mulher.
O poder se exerce através das interrelações entre os saberes, articulando conhecimentos
teóricos (filosóficos, médicos, psiquiátricos) e as instâncias sociais, como a família, a escola e a
justiça, na construção de discursos que se centram nos espaços institucionais e objetivam o controle
do corpo feminino, (FOUCAULT, 1996). Nesse sentido, as ideias foucaltianas apresentadas nos
fornecem reflexões quando estudamos a história das mulheres e as elaborações de múltiplos
64
discursos ao longo do tempo que vinculam o feminino ora ao sagrado, ora ao profano. O inventário
das representações dessa feminilidade foi realizado pela arte, a filosofia, a medicina e a igreja
católica. Esta, por sua vez, contribuiu e contribui de forma decisiva para a elaboração da imagem
ambígua da mulher.
Segundo Perrot (2002), as mulheres, durante longas épocas, foram educadas conforme
os princípios da igreja. Seu habitus era a piedade, a virgindade era vigiada excessivamente, já que a
igreja consagrava Maria, virgem e mãe, como modelo a ser seguido. O casamento de branco
simbolizava a pureza, elas deveriam se manter silenciosas em público e cobrir os cabelos, símbolo
da carne, da tentação e sedução.
Na cultura judaico-cristã, o monoteísmo é masculino, reforçando a hierarquia do
domínio patriarcal no sistema religioso, Deus-Homem-Mulher. O feminino torna-se secundário e
com uma identidade negativa, (RUETHER, 1993). Anterior ao século XVII, o feminino aparece
atrelado à figura de Eva pecadora, encarnação do mal do antigo testamento. Imortalizou-se, assim, a
idéia da mulher frívola, responsável pelos severos castigos divinos infligidos aos homens. “Como
na grande maioria das religiões antigas orientais, essa parte da bíblia reitera uma visão patriarcal e
autoritária do mundo, na qual a mulher tem um papel equívoco” (COSTA, 2002, p.66-67).
Observa-se que os dispositivos de poder que impõem limites e proibições sempre
existiram em diversas sociedades. No entanto, o que há de novo no século XVIII? São as novas
técnicas que buscam controlar os corpos minunciosamente, deixando-os disciplinados de forma
dócil e útil. O corpo dócil é aquele que pode ser manipulável, transformado e aperfeiçoado.
Na verdade, são técnicas mais sutis de manipulação calculada de gestos e de
comportamentos. É, portanto, a disciplina, “uma anatomia política do detalhe”, segundo Foucault
(1993a, p.128), que se atenta para o controle das mínimas partes da vida. São os novos mecanismos
de poder e saber, totalmente imbricadas, que penetram nos atores sociais, introjetando práticas
discursivas nos corpos, adestrando-os e controlando os comportamentos. (FOUCAULT, 1996). A
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força e a coragem não fazem parte dos elementos principais dessa nova forma de dominação, mas
outros conjuntos de elementos, como, lugar, tempo, regularidade, codificação das atividades, tática,
disposição anatômica e a moral da obediência, para não haver nenhum questionamento.
Nesse novo contexto, o dispositivo da sexualidade prolifera, inventa, penetra nos corpos
com práticas sociais, técnicas de poder, mecanismos de conhecimentos específicos centrados no
sexo. Sabe-se que as construções sociais e históricas se direcionam aos corpos através de discursos
que produzem “verdades” e normatizações.
Várias instituições, como a igreja católica e algumas ciências (a medicina, a psiquiatria
e a sexologia) direcionaram seu olhar para o controle dos corpos femininos, assim, era visto como
anomalia qualquer comportamento, contrária, a representação imaginada de esposa e mãe. Surgem
as “scientia sexualis” com o conjunto de técnicas e disciplinas relativas ao comportamento sexual,
objetivando adestrar corpos e produzir subjetividades. Esse saber- verdade, de controle da
população consolida-se, no século XIX, através do Estado.
Foucault (1993b) analisa a sexualidade como dispositivo de poder que acarreta o
disciplinamento, a normatização do corpo feminino e constrói, dessa forma, diversos projetos
políticos através das práticas discursivas. Dessa forma, os papéis de gênero são construídos em
cima dos corpos sexuados. A religião e seus textos sagrados lançam sistemas simbólicos que
perpassa as subjetividades dos indivíduos e influenciam nas relações de gênero, definindo papéis
masculinos e femininos, sustentando, muitas vezes, a violência sexista.
Como se nota, as produções discursivas da sexualidade e dos corpos foram fundamentais
para estabelecer relações de poderes e falas que controlam os sexos, pois expressam conceitos,
valores e ideologias. Por muito tempo, as mulheres foram “naturalizadas” através do amor materno,
do romantismo, sendo transformadas em objetos de prazer e inferiorizadas.
66
3. A passagem do profano para o sagrado e a santificação.
O sacrifício para Mauss; Hubert (2005) é uma passagem do domínio comum para o
religioso, do profano para o sagrado, a vítima torna-se sagrada apenas quando é morta. A coisa
consagrada é o intermédio entre os atores sociais e a divindade. Girard (1990) argumenta que a
violência desempenha um papel fundamental nos sacrifícios, uma vez que desvia da sociedade o ato
violento entre seus membros e o canaliza apenas para uma vítima relativamente indiferente. Além
disso, no ritual sacrifical a violência e o sagrado são inseparáveis.
Diante dessas considerações, podemos nos remeter a história bíblica sobre a agonia de
Cristo, que se sacrificou a favor da humanidade, foi uma noção que auferiu forças quando o
cristianismo se tornou “religião oficial”. A parir de então, ao sofrer, os seres humanos participavam
do sacrifício expiatório de Cristo, assim, a passividade, a resignação virou um ethos cristão,
(NEUENFELDT ET AL, 2008). Diante disso, a penitência, a flagelação e a renúncia sexual eram
modos de alterar a realidade de pecado. Controlar o corpo, até mesmo mortificá-lo, controlar os
desejos da carne transformou-se num ideal de moral cristã, pois ao negar o corpo estaria se
elevando a alma.
O aniquilamento é o ato essencial para as vítimas separarem-se do mundo profano,
santificando-se. A pureza é assegurada nesse momento. A imolação do corpo feminino, ou seja, o
sacrifício é uma das principais causas para a “santificação” das mulheres, pois o grande teor de
violência repercute e comove a população.
O sofrimento, a agonia, a imolação do corpo e a morte tem o viés de purificar o feminino e
aproximar do divino, (re) significando o “papel” da mulher submissa em sujeito capaz de resolver e
interceder por problemas terrenos. No imaginário social a “santificação” é relacionada à morte
trágica, porque evoca a memória os temas religiosos valorizados pelo universo cristão, como o
sacrifício, a “via crucis” e o sofrimento purificador.
Segundo Woodward (1992, p.64) “O mártir cristão clássico é uma vítima inocente que morre
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por causa da fé, mas nas mãos de um tirano que se opõe a ela”. O termo santo, no inicio do
cristianismo, era reservado apenas ao mártir, o que morria pela fé cristã, mas depois, essa concepção
foi ampliada, incluindo, os que faleciam de doenças graves ou mortes violentas. (ANDRADE,
2010).
Associam-se ainda, no catolicismo, a mulher à passividade, ao sacrifício e à dor, sendo este
o ideal máximo de feminilidade. Maria simboliza todos os valores femininos: virgem e mãe.
Coincidentemente ou não, na história de várias mulheres “santificadas”, é explicito nas narrativas
dos atores sociais que consideram essas mulheres “santas”, enfatizar a morte (sacrifício) e a
veneração devido à questão da virgindade, da esposa submissa que vivia apenas em função do
marido e dos filhos.
Na modernidade, a mãe transformou-se em mártir, devendo sacrificar seus direitos civis,
políticos em nome do filho e do marido, sendo santificada pelo sofrimento e renúncia. A igreja
católica acolhe o modelo de mulher bondosa, ou seja, Maria com o menino Jesus é o protótipo da
feminilidade santa, é o marianismo, o culto da superioridade espiritual feminina, que representa sua
capacidade infinita de humildade e sacrifício. (ARY, 2000; NUNES, 2000).
Mas esses valores católicos ainda refletem na nossa realidade atual? Exemplo marcante, na
contemporaneidade, é o caso do Juiz Edilson Rumbelsperger Rodrigues, da cidade de Sete LagoasMG que argumentou, ao se referir à lei Maria da Penha, como "um conjunto de regras diabólicas":
Ora, a desgraça humana começou no Éden: por causa da mulher, todos nós sabemos, mas
também em virtude da ingenuidade, da tolice e da fragilidade emocional do homem (…). O
mundo é masculino! A idéia que temos de Deus é masculina! Jesus foi homem! Para não se
ver eventualmente envolvido nas armadilhas dessa lei absurda, o homem terá de se manter
tolo, mole, no sentido de se ver na contingência de ter de ceder facilmente às pressões. A
vingar esse conjunto de regras diabólicas, a família estará em perigo, como inclusive já
está: desfacelada, os filhos sem regras, porque sem pais; o homem subjugado. O mundo é
masculino... (Folha de São Paulo, Domingo, Outubro 21, 2007).
Na pesquisa “Assassinatos de mulheres no ceará: antes e depois da Lei Maria da Penha” do
Observatório de Violência contra a Mulher - Observem¹, que buscou investigar a incidência de
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assassinato de mulheres por seus maridos e/ou companheiros no Ceará, tendo por referência o
período anterior e posterior à publicação da Lei 11.340/2006 (Lei Maria da Penha), observamos que
o elemento religioso permeia alguns discursos dos indiciados. Exemplo disso é a explicação de um
dos autores do crime, que justifica a morte da esposa porque, segundo ele, a mesma estava
envenenando-o com água e óleo que trazia da igreja. Em outro episódio, o assassino escolheu a data
de uma festa religiosa para matar. No outro caso, após assassinar a mulher e os filhos, o autor da
violência colocou os corpos com os pés virados em direção à porta, costume que integra os rituais
fúnebres em algumas tradições religiosas. Notamos, dentre outras questões, que valores machistas
atrelados a dogmas clericais são justificativas de vários autores do assassinato. Essas ideologias
religiosas permeiam leis, mentalidades e sustentam estereótipos de gênero.
Destaca-se ainda em tal pesquisa, que as mulheres assassinadas estavam na faixa etária entre
18 e 42 anos de idade; companheiros, maridos e ex-maridos foram os que mais mataram as
mulheres, além do que, as armas mais utilizadas para o cometimento dos atos delituosos foram
armas de fogo e/ou armas brancas. Esse perfil é revelador, pois comparando com a investigação
mulheres “santificadas” percebemos que ainda prevalece o crime passional e os maiores algozes são
pessoas que mantém uma relação afetiva com a vítima. Segundo Osterne (2005, pág. 150) “As
mulheres são assassinadas quase sempre em consequência da desigualdade de gênero”.
Considerações Finais
Os discursos elaborados pela Igreja Católica contribuem, decisivamente, na formação,
conformação e transformação da mulher. Imagens e símbolos criados por tal instituição agem sobre
o imaginário social como categorias de discursos que explicam os significados do que é ser mulher
numa determinada época, revelando nas entrelinhas os reversos utilizados para constituir um padrão
feminino. Arquétipo este baseado numa moral cristã, como a virgindade, a castidade e os códigos
rígidos de uma conduta universal. Tais dispositivos de poder (imagens, símbolos do profano e do
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sagrado) legitimam discursos e constroem a história de “santificação” das mulheres assassinadas.
É certo e não podemos deixar de salientar que a história das mulheres não é linear, mas
descontínua, haja vista as peculiaridades de cada mulher em diferentes contextos históricos,
culturais, de classe e etnia. É bem verdade, entretanto, que essa representação ambígua da mulher e
o controle dos seus corpos são uma expressão religiosa, de ocultação do corpo e do prazer, levando
toda uma percepção diferente de como devem ser os comportamentos masculinos e femininos, o
que interfere de forma desigual nas relações entre os gêneros.
Notas finais
1. É um espaço de monitoramento das condições de vida da mulher cearense e da violência que se
abate sobre as mesmas.
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72
O reisado do Cipó: resistência de uma sociabilidade tradicional1
The epiphany of the vine: resistance of a traditional sociability
Luciano de Melo Sousa
Recebido em 27/03/2013, revisado e aceito em 21/04/2013
Resumo: Esta pesquisa estuda a tradição do reisado da comunidade Cipó de Baixo, do município piauiense de Pedro II.
A leitura feita procura ressaltar a processualidade da brincadeira que navega entre a permanência e a transformação.
Este artigo faz uma contextualização social da comunidade que dialoga com a história de vida do dono do reisado,
Raimundo Milú: figura forte que, juntamente com suas redes familiares, de compadrio e amizade, luta pela resistência
da brincadeira.
Palavras-chave: reisado; tradição; memória
Abstract: This research studies the tradition of epiphany in the community of Cipó de Baixo, which belongs to the city
of Pedro II, in the state of Piauí. Readings were made seeeking to emphasize the processivity of the play that navigates
between permanence and change. This article does a social context of the community, in dialogue with the life history
of the owner of the epiphany, Raimundo Milú: strong figure who, along with his family networks, as well as networks
of patronage and friendship, struggles for the resistence of the play.
Key words: epiphany; tradition; memory
1) Apresentação
A pesquisa que originou este artigo avalia, a partir de um estudo de caso do reisado da
comunidade Cipó de Baixo (município de Pedro II, Piauí), como se comporta uma tradição cultural
e seus atores envolvidos: passeamos pelas relações sociais vividas pelos atores do reisado,
caracterizamos a brincadeira de Reis e perquirimos sobre que transformações e permanências
aqueles atores sociais e a prática cultural do reisado vêm passando. Ano após ano, a brincadeira de
Reis, como um sistema de redes sociais que vai bem mais longe do que as fronteiras da
comunidade, vem interagindo com fatos novos que passam a fazer parte daquele sistema de redes
sociais. O elemento mais emblemático de suas transformações é a redução do número de casas por
onde os brincantes circulam, logo, uma limitação das redes sociais em movimento. Alguns dos laços
sociais que impulsionavam as rodas de brincadeira do reisado vêm fragilizando-se ou extinguindo
1 Artigo proveniente de pesquisa de doutoramento junto ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (UFRN),
com orientação do professor Luiz Assunção. O autor ([email protected]) é professor adjunto dedicação
exclusiva de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Piauí (Rua João Cabral, 2231, bairro Matinha, Teresina – PI.
Telefone: (86) 3213-7524. Endereço eletrônico: www.uespi.br). Pesquisa subsidiada pela FAPEPI (Fundação de
Amparo à Pesquisa do Piauí) e UESPI.
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enquanto outros resistem apesar de todas as pressões externas.
A brincadeira do reisado faz parte de um mundo antigo que resiste por meio de redes sociais
de solidariedade (família, compadrio e amizade), a vida religiosa dos festejos, leilões e novenas, as
memórias de vida daquelas pessoas, os trajes, o transporte a pé, animal ou bicicleta etc. Em meio a
essas permanência surgem novas práticas sociais: monetarização das relações, o transporte de
motocicleta e carro, a extensão da escolaridade, mudanças nos trajes e modos de entretenimento, a
presença da tv, a individualidade, expansão das políticas públicas (assentamentos rurais,
eletrificação, projetos de geração de renda, bolsa-família, distribuição de água encanada etc.). O
novo é protagonizado pelas pressões da modernidade que, paulatinamente, passam a fazer parte do
cotidiano das comunidades rurais piauienses.
Nesse universo complexo e mútiplo, o presente artigo ressalta as permanências do reisado.
Analisa como o reisado dialoga com práticas e tradições culturais resistentes na comunidade Cipó e
como a figura de Raimundo Milú, o “dono” do reisado, personifica esse mar de relações, valores e
significados sociais. Em outras palavras, apesar de todas as pressões modernizantes, como o reisado
resiste pela atuação do griô Raimundo e pelas relações estreitas que mantem com a sociabilidade
viva da comunidade Cipó de Baixo.
2) Reisado: uma breve revisão conceitual
Segundo Luís da Câmara Cascudo, no Dicionário do Folclore Brasileiro, o reisado:
É denominação erudita para os grupos que cantam e dançam na véspera e dia de Reis (6 de
janeiro). Em Portugal diz-se reisada e reiseiros, que tanto pode ser o cortejo de pedintes,
cantando versos religiosos ou humorísticos, quanto os auto sacros, com motivos sagrados
da história de Cristo (...) O auto popular profano-religioso, pertencente ao ciclo natalino, é
formado por grupos de músicos, cantadores e dançadores que vão de porta em porta
anunciar a chegada do Messias e homenagear os três Reis Magos (...) O Reisado pode ser
apenas a cantoria como também possuir enredo ou série de pequenos atos encadeados ou
não. (2001, p. 581 – verbete Reisado)
Grupos que brincam e dançam, às vésperas do dia de Reis ou no próprio dia, compostos por
músicos, cantadores e dançadores que desenvolvem uma cantoria ou um auto dramático que narra o
fato particular da história de Cristo, que é o seu nascimento e a visita dos três Reis Magos. Ou na
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forma de cortejos ou como autos sacros, os brincantes de Reis reinventam a memória do nascimento
de Cristo bem como dos credos e valores daqueles sujeitos.
Daniel Bitter, em seu trabalho de doutoramento “A bandeira e a máscara: a circulação de
objetos rituais nas folias de reis” (2010), apresenta um quadro geral de estudos brasileiros sobre as
“folias de reis”. Destaca, inicialmente, a perspectiva geral dos folcloristas que priorizam a
“descrição formal” da folia e “se esforçam continuamente na pesquisa das origens dessa prática,
apontando, particularmente, para seus antecedentes ibéricos” (p. 10). Estes estudos se voltam para a
descrição dos “traços culturais” e de como se dá a “difusão” de seus elementos na sociedade
brasileira. Ainda estão muito preocupados com o risco do desaparecimento de tais práticas no
complexo cadinho cultural brasileiro.
Em seguida, Bitter pontua o olhar diferenciado de Carlos Rodrigues Brandão sobre o
reisado, ao tratá-lo como “sistema de prestações totais”, sustentado no pensamento de Marcel
Mauss sobre o sistema de trocas de dons. “Essa abordagem permite deslocar o olhar objetificado
sobre uma determinada manifestação cultural para as relações sociais, interações e alianças
concretas que, por meio dela, se constroem” (BITTER, 2010, p. 11). Nosso estudo toma essa
orientação como pressuposto teórico-metodológico.
Ao percorrer algumas das conclusões desses pesquisadores, pode-se constatar o quanto são
múltiplas as formas de ritual/festa/brincadeira do reisado. Na dissertação de mestrado de Paloma Sá
de Castro Cornélio (2012), há uma reflexão relevante sobre a multiplicidade de compreensões sobre
o reisado. Entre elas, destaco a do pesquisador Oswald Barroso: “... um folguedo tradicional do
ciclo natalino, que se estrutura na forma de um cortejo de brincantes, representando a peregrinação
dos Reis Magos à Belém, e se desenvolve em autos, como uma rapsódia de cantos, danças e
entremeses incluindo obrigatoriamente o episódio do Boi” (BARROSO apud CORNÉLIO, 2012, p.
31). Contudo, Paloma Cornélio identifica que, em reisados do Maranhão, o boi não ocupa posição
central no folguedo, tampouco há sua morte ao final: “... é o careta velho que morre e ressuscita no
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meio da brincadeira” (p. 31). Seu inventário registra concepções de outros pesquisadores que
apresentam visões diferenciadas acerca do reisado. Por fim, opta por uma conceituação mais
genérica e que abre margem para apreender a diversidade social das brincadeiras de Reis: “uma
brincadeira do período natalino, com música, canto, coreografia e poesia” (p. 32).
Entre as pesquisas consultadas, há também o trabalho da professora Eloísa Brantes, “A
espetacularidade da performance ritual no Reisado do Mulungu (Chapada Diamantina – Bahia)”.
Seu objeto é ler no reisado a dimensão espetacular do corpo na interação entre brincantes/donos de
casa/santos sob a batuta da Antropologia Teatral. Conforme Bitter (2010), esse artigo é bem
representativo das mudanças de abordagem verificadas nos estudos sobre o reisado no Brasil, a
partir da década de 70:
Muitos estudos sobre os Reisados e as Folias de Reis foram feitos no campo do folclore até
a década de 1960. A partir dos anos 1970/80, esta manifestação religiosa foi analisada no
contexto do catolicismo popular pelos cientistas sociais que focalizaram as relações de
trocas sociais no meio rural brasileiro. Os Reisados, Folias de Reis e festas de Santo saíram
do campo das sobrevivências culturais traçadas pelo folclore, para serem pesquisados em
seus contextos sócio-culturais através de estudos de casos desenvolvidos no campo da
sociologia e da antropologia. (BRANTES, 2007)
É neste escopo de um estudo de caso que se situa o trabalho ora apresentado. Avaliamos o
reisado da comunidade Cipó de Baixo como experiência cultural em processo ou como prática
cultural em movimento. Procuramos descrever “a” brincadeira do reisado a partir de múltiplos cipó
de sua configuração cultural. Faz parte de nossa orientação metodológica considerar as construções
da cultura não somente como coisas estabelecidas como tal, mas que, apesar de seu caráter de
permanência social, há trançados constantes de tensão histórica que os levam a distensões,
movimentos ou paroxismos nas suas existências.
Os brincantes do reisado fazem parte de uma
trama complexa de vivências sociais: o seu mundo não é simples como aparenta ser ao primeiro
olhar; participar da tradição do reisado do Cipó não é um exercício singelo de moradores do campo;
resistir com a brincadeira não implica somente na vontade propositiva de um grupo de pessoas. Há
mais cipós nessa trama social do que geralmente as outras pessoas querem ver: muito mais do que
uma “expressão do folclore pedrossegundense”, ou “algo típico da região”, ou a “forma passada de
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divertir-se”, ou o “jeito pitoresco de ser de um povo”. Além dessas realidades aparentes, os
brincantes do reisado experimentam o drama de suas existências como homens e mulheres do
campo pedrossegundense. Em suas idas e vindas revivem os dramas sociais de suas existências.
O reisado do Cipó não é uma tradição alheia ao tempo que gira velozmente. Na roda do
reisado, são encenados dramas pretéritos e recentes num continuum temporal denso e contraditório.
Homens encenam e re-encenam um drama tragicômico de suas experiências cotidianas. O reisado
não existe em si: ele sobrevive por meio dos dramas de seus expectadores e das comunidades que o
acolhem.
3) A comunidade rural Cipó de Baixo, o brincante Raimundo Milú e os significados
subjacentes ao “movimento” do Reisado
Descrever a comunidade rural Cipó de Baixo a ponto de caracterizar o espaço social onde
está fincada a tradição do reisado e seus principais atores sociais bem como suas relações com a
resistência da tradição é a trama central de seu artigo. Outros fios significativos dessa trama está na
figura do “dono” do reisado, Raimundo Milú, e como sua história reflete a rica conexão que a
brincadeira de Reis mantém com uma rede de solidariedade social (DURKHEIM, 1995) muito
particular às comunidades onde acontece o “movimento” (expressão que empregam para referir-se
ao reisado).
A comunidade Cipó de Baixo está localizada a aproximadamente dezoito quilômetros da
sede do município de Pedro II; três quilômetros e meio dessa distância são compostos por estradas
de terra. À medida que o inverno intensifica-se, um trecho desse percurso fica bastante deteriorado,
somente entre os meses de julho e setembro que a prefeitura autoriza obras de raspagem com um
trator para efetuar a melhoria da estrada.
Diariamente, há uma picape que realiza o transporte das pessoas que desejam ir à cidade;
parte às seis horas da manhã e retorna às onze e meia. As pessoas são transportadas na carroceria do
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veículo onde levam, por vezes, animais, feijão, arroz ou farinha para vender na feira: estes são os
principais bens produzidos pelos habitantes da comunidade Cipó de Baixo. Essas pessoas buscam o
centro urbano também para realizar consultas médicas, exames e operações bancárias (recebimento
da aposentadoria ou benefícios como o bolsa-escola).
Na comunidade, há somente uma pequena escola que oferece de modo multisseriado os
cinco primeiros anos do ensino fundamental: um salão de alvenaria coberto, de aproximadamente
50 metros quadrados, que reúne uma turma não superior a vinte crianças. A professora é funcionária
pública municipal e ministra aulas no turno da manhã. Em uma licença médica dessa professora,
Francisco Milú, filho de seu Raimundo, sanfoneiro, careta e grande colaborador do pai, a substituiu
(esses são os únicos funcionários públicos da comunidade). Chiquinho, como carinhosamente é
denominado por muitos, desenvolveu a mesma versatilidade do pai: além de professor, é
responsável pelo poço da comunidade (para prestar este serviço que é contratado pela prefeitura); é
também mecânico, marceneiro, metalurgista, agricultor, criador de animais, capoeirista, motorista,
pedreiro, sanfoneiro, brincante e possui uma picape com a qual realiza pequenos transportes.
No ano de 2010, a população da comunidade Cipó de Baixo era composta por cento e
sessenta pessoas. Fora esta, há uma população migrante, na sua grande maioria, composta por
homens (solteiros ou casados) que passam temporadas fora ou, diferentemente, já se fixaram em
algum grande centro. Estes últimos vêm periodicamente no período de férias: no caso do Cipó de
Baixo, preferencialmente, entre os meses de dezembro e janeiro (período do festejo da padroeira da
cidade, Nossa Senhora da Conceição, do reisado e tempo de maior número de festas por se tratar
também das férias escolares dos jovens). Aqueles migrantes sazonais, quando retornam, além das
atividades agrícolas e pecuárias tradicionais (quando não as abandonam), investem em pequenos
negócios (mercearias, bares, oficinas para motos, marcenaria ou metalurgia) ou priorizam profissões
autônomas (pedreiro, marceneiro, carpinteiro, eletricista, bombeiro etc.).
Os 160 habitantes da comunidade Cipó de Baixo estão distribuídos entre quarenta e duas
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famílias e trinta e sete casas. Todos possuem, entre si, alguma espécie de parentesco: irmãos, primos
e sobrinhos de seu Raimundo Milú são seus vizinhos. Essa rede de relacionamentos e
compromissos sociais serve como liga que aglutina os moradores de comunidades rurais tanto para
o trabalho (plantio, colheita, farinhada, construção de casas) como para uma diversidade de
vivências e festas comunitárias (organização e participação de festejos, leilões e novenas, assistir as
famílias nos momentos de perda de entes queridos, festas de aniversário, batizado e casamento, e, a
própria brincadeira do reisado). Este cipoal de compromissos sociais oxigena e garante seiva doce
para a vida social das comunidades e do reisado.
Ainda sobre a manutenção das famílias, observamos que as mesmas sobrevivem por meio de
roças de subsistência (plantio de milho, feijão, mandioca e arroz), criação de animais (galinhas,
porcos e caprinos) e a comercialização desses produtos (ou na própria comunidade, em
comunidades vizinhas ou na feira da cidade na manhã de toda sexta-feira). Outra fonte de renda é a
prestação temporária de trabalho, identificada na região como “diária”: no ano de 2010, com o
salário mínimo de quinhentos e dez reais, custava quinze reais. Não podemos esquecer da
contribuição da renda dos aposentados e programa social “Bolsa-Família”. Um pequeno
comerciante da comunidade possui uma casa de farinha que cede a parentes e compadres para
realizar farinhadas, no segundo semestre, para produção de farinha e goma (ambos servem para o
consumo das famílias e para a comercialização na cidade). Da goma, faz-se tapioca, beiju, mingau e
bolos. Dada a grande necessidade de mão-de-obra para o beneficiamento da mandioca e os
pequenos valores obtidos pela farinha e goma, a farinhada tem-se demonstrado uma atividade de
pequena rentabilidade – o que vem desmotivando a sua realização.
Outras profissões exercidas por alguns de seus moradores são: pedreiro, marceneiro,
mecânico de motos e automóveis, motorista (transporte coletivo e de cargas) e artesão. Esta última é
domínio feminino. O artesanato local consiste principalmente na produção de redes e peças em
crochê. A matéria-prima do crochê tanto pode ser o fio beneficiado como o fio cru de algodão. Este
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último é mais comum, mas não é produzido na região como fora outrora. As artesãs recorrem ao
comércio da cidade para obter novelos de linha de algodão. Com eles, são produzidos centros de
mesa, babados para panos de prato, tapetes, varandas para redes as quais são identificadas pelas
artesãs das comunidades de Pedro II como “grades” e outras peças de ornamentação doméstica.
Com a venda descontínua, as mulheres (na sua grande maioria, casadas) contribuem com a
aquisição de mantimentos e outros bens para o consumo familiar (café, açúcar, sal, escova e creme
dental, sabonete etc.). Também constatamos que, nesse mundo dominado pelo homem provedor, o
trabalho artesanal, para as mulheres, além de ser uma ocupação cotidiana da qual obtém pequeno
retorno financeiro, agrega (esporadicamente) as mulheres em meio a fios, conversas, sorrisos e
brincadeiras. Muitas das mulheres que têm seus maridos ausentes, pela migração, aproximam-se de
outras para conversar, cuidar da casa, fazer crochê, costurar ou simplesmente passar o tempo. Pode
ser sua mãe, sua sogra, vizinha, irmã ou comadre. De modo semelhante, elas acompanham os
brincantes do reisado: se, em alguns poucos momentos ajudam a se arrumar (especialmente, as
“damas” – homens disfarçados como mulheres), na maior parte do tempo, estão entretidas com suas
conversas e brincadeiras. Aquele espaço é um universo eminentemente feminino costurado por
linhas de cumplicidade, amizade e de um tempo surpreendente como um cacto.
Com a eletrificação rural e a progressiva apropriação dos meios de comunicação, além de
outros meios da tecnologia moderna, têm estimulado a população a formar novos interesses e
preocupações. Os brincantes e pessoas que prezam o reisado se ressentem pelo fato de que os
moradores das comunidades da região dedicam-se a “coisas novas”. Essa dualidade entre a tradição
e o novo, tanto na comunidade Cipó de Baixo como nas comunidades circunvizinhas, tem
perpassado a continuidade não somente do reisado, mas de outros “movimentos” tradicionais como
os festejos e leilões.
Identificamos que a melhoria da qualidade de vida da população, motivada pela maior
apropriação de papel-moeda e os bens sociais modernos que podem ser adquiridos pelo mesmo
80
(saúde, informação, educação, alimentação, vestuário, habitação, saneamento etc.), motiva novos
interesses, hábitos sociais e projetos individuais, principalmente entre as crianças e jovens. Desde os
novos interesses de consumo e status social (aquisição de motocicleta, vestuário em consonância
com as tendências da moda que se renovam constantemente, substituição das velhas casas com
tijolos de adobe por tijolos de barro queimado, posse de celulares com variados recursos etc.),
passando por hábitos novos (usufruto de seu tempo livre em clubes sociais com piscinas, bares e
festas com grandes bandas, incorporação do frango na alimentação cotidiana e a progressiva
rejeição do caprino e dos pratos guisados, recusa do trabalho “pesado” da roça, formação de
famílias menores de um a três filhos etc.) aos novos projetos de vida (dedicação de maior tempo à
formação escolar, substituição do trabalho na roça por outras profissões como servidor público,
mecânico de motocicletas, pedreiros, carpinteiros e comerciantes etc.).
A análise da história de vida do ator social Raimundo Milú apresenta-se como estratégia de
compreensão do reisado do Cipó de Baixo como fato social intimamente associado a sua vida.
Nosso percurso analítico é considerar elementos de sua história que dialogam com a conformação
peculiar do reisado do Cipó. Para tanto, partimos dos depoimentos dele, de seus filhos e amigos.
Logo que iniciamos nossas visitas na comunidade, verificamos que a pessoa desse velho brincante
era peça fundamental para compreender o que é o reisado do Cipó de Baixo e como ele resistia às
pressões da modernidade (BAUMAN, 2001; GIDDENS, 2002; HARVEY, 2007). Sua pessoa é
emblemática de um padrão de sociabilidade que dá sustento a tradições como o reisado, os festejos
e os leilões das comunidades rurais de Pedro II.
Seu trabalho na roça o aproxima de suas origens familiares (desde criança trabalhou para
ajudar a criar seus irmãos) e da sua identidade de trabalhador rural que não foi capaz de abandonar
o campo: por essas condições, verificamos na vida de seu Milú um forte liame com os hábitos
antigos das comunidades rurais piauienses. Este homem, com inúmeros parentes espalhados pelas
comunidades da região, não se vê distante desse nicho de afeto e reconhecimento familiar. Essa
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vida, orientada conforme os padrões tradicionais de vivência no campo, reforça a resistência
cultural do reisado. Em outras palavras, se a brincadeira de Reis ainda persiste na comunidade rural
Cipó de Baixo, deve-se fortemente ao fato de ser encaminhada e defendida por homens afeitos aos
costumes tradicionais dessa e de outras comunidades rurais.
O reisado é uma prática cultural familiar: apesar dele ser o “dono” da brincadeira, a mesma é
feita com a participação dos filhos que moram ainda no município de Pedro II (ele possuía, na
época da pesquisa, três filhos morando em São Paulo) além de contar com a participação de um
irmão, um cunhando e compadres (todos são agricultores e/ou aposentados). Assim como quem
recebe os brincantes em suas casas são o “capitão” e sua família. A brincadeira depende da
associação de esforços entre as famílias; não é uma iniciativa exclusiva dos indivíduos que
negociam a realização do “movimento”.
Podemos constatar que a figura de um sujeito individual anda distante das vivências do
brincante Raimundo Milú e de uma parte significativa de sua família (e de tantas outras da zona
rural de Pedro II). Ainda é Roberto DaMatta que lança luzes sobre essa figura do “indivíduo”
consagrada pela sociedade ocidental moderna: “... repositório de sentimentos, emoções, liberdade,
espaço interno, capaz portanto de pretender a liberdade e a igualdade, sendo a solidão e o amor dois
de seus traços básicos (...) e o poder de optar e escolher, um dos seus direitos mais fundamentais”
(1990, p. 181). Diferentemente, Milú é um homem fortemente marcado pelas “redes de
sociabilidade” tradicional: a família faz parte de um desses campos de pertencimento social. Nosso
personagem é uma pessoa fortemente entranhada nos cipós de solidariedade social familiar. Roberto
DaMatta explica-nos o significado da noção de pessoa: “o indivíduo contido e imerso na sociedade
(...) a entidade capaz de remeter ao todo, e não mais à unidade, e ainda como o elemento básico
através do qual se cristalizam relações essenciais e complementares do universo social” (1990, p.
182).
Assim como observamos no reisado, os passos dados por Milú e seus parentes são, em
82
grande parte, condicionados por sua inserção familiar. É no jogo das interações entre as famílias que
muitas das escolhas e comportamentos são tomados pelos indivíduos. A família é uma espécie de
segunda identidade que localiza a pessoa num universo de valores e potencialidades. Ser ou não
trabalhador, ser ou não justo, ser ou não correto e tantas outras possibilidades de caráter ou de
comportamento podem ser medidas pelo pertencimento familiar. Se não é um princípio absoluto,
por sua vez serve como parâmetro que orienta determinadas escolhas, negócios e até casamentos.
Sobre sua juventude, o próprio Raimundo Milú faz questão de diferenciá-la da juventude
atual. Um comportamento que singulariza essa juventude contemporânea é sua postura passiva,
como quando senta um grupo de jovens numa mesa para beber e despender muito dinheiro: a banca
se fecha entre eles. Seja um pequeno grupo, seja uma grande roda, eles se colocam alheios às
demais pessoas que estão no espaço a sua volta. Tive oportunidade de constatar essa postura juvenil
nos “movimentos” feitos no terreiro de seu Raimundo Milú: os jovens sempre se posicionam em
uma ou duas bancas distantes dos demais participantes. Diferentemente, as outras pessoas
posicionam suas cadeiras ou mantem-se em pé, de modo a não fechar-se num círculo: o
posicionamento delas sempre permite ver e comunicar-se com as demais. Um “movimento” (leilão,
ensaio do reisado, bingo, festa de aniversário, reisado etc.) é uma oportunidade para rever parentes,
compadres, afilhados e amigos, atualizar as informações, matar saudades, recordar, conversar, de
um modo que todos circulem livremente e possam sair de uma roda de prosa para outra. A abertura
para a interação com todos é uma característica forte desses encontros coletivos.
Importante ressaltar que o sentido de festa e brincadeira, para Milú, está intimamente
associado ao mundo social do qual faz parte. Brincar, divertir não se realiza num desejo de fuga ou
esquecimento temporário dos compromissos sociais a que todos estão sujeitos. Pelo contrário,
quando se brinca ou se diverte, reafirmam-se suas posições sociais como pessoa de família,
trabalhador que ajudou a criar os irmãos, aquele amigo de todos. A brincadeira do reisado também
apresenta esse caráter de festa reafirmadora de uma determinada moralidade comunitária.
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Como bem realça o brincante, sua condição de dono do reisado começou muito cedo: “eu
recebi eu tinha doze anos. E de doze anos pra cá eu venho enfrentando”. Se o mesmo não se recorda
quando iniciou o seu interesse pela brincadeira, lembra-se, no entanto, quando recebeu do “velho”
que brincava o reisado na comunidade – aos doze anos. Antes mesmo de casar já conquista o
reisado o que lhe é motivo de grande dedicação e profundo orgulho. No ano de 2010, comemorou
cinquenta anos como “dono” do reisado. Além de demonstrar desde muito jovem identificação com
a brincadeira, importante por em relevo a sua afirmação “de doze anos pra cá eu venho
enfrentando”: enfrentar significa estar continuamente lutando pela tradição. Tradição não é algo
dado e inatacável. Para sua manutenção, é necessária a dedicação de seus atores associada à luta
constante. Por outro lado, suas palavras traduzem também o caráter desse homem: Raimundo Milú
é um homem dedicado e perseverante nas coisas que faz. Tenacidade e capacidade de articulação e
motivação dos parceiros, famílias e comunidades levam à resistência do reisado.
No depoimento de sua filha que acompanha o reisado, constata-se que a “empolgação” e
“prazer” de Milú contagiaram muitos de seus filhos: da festa de Reis realizada anualmente
participam filhos, esposa, genro, noras e alguns, netos além da colaboração de outros parentes e
vizinhos. “A gente, assim, faz as coisa tudo aqui em casa”: a casa é o espaço privilegiado para as
festas (seja o reisado, seja a “festinha dos pais” ou a “festinha das mães”). A casa é também lugar de
reunir todos, pois fazem parte de uma só família. Sentir-se parte de uma mesma família contribui
para que o espaço da casa seja vivido como extensão daquela determinada rede de relações
comunitárias.
Seu filho Francisco recorda-se de como era a antiga casa de seus pais onde atualmente está
construída sua casa: “era um galpão já apropriado pra ele fazer as festa dele, né? Tinha uns
batentezim aqui, um bocado de batente. Mas quando ele fazia festa aqui era lotado”. Sua antiga
residência era também seu local de festas: desde festas movidas ao som das velhas radiolas e dos
vinis de outrora ou por pequenos grupos musicais de forró ou seresta. Importante reconhecer na
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memória de seu filho o fato de não haver distância entre o espaço doméstico e o das festas. Essa
conjunção de espaços mostra bem o caráter desse homem amante de festas (das quais também
advinha uma parte do sustento de sua família). Se sabemos que “prazer” e “empolgação” são
expressões recorrentes para explicar o vínculo entre Milú e as festas, por outro lado, identificamos
que o mesmo obtém uma determinada renda, não somente pelas festas que realiza, mas também
pelos leilões que “grita”. No entanto, essa associação entre a realização de festas e a remuneração
advinda das mesmas não é destacada pelas falas de seus familiares e amigos. Pelo contrário, em
muitos momentos, é elogiado o desapego do brincante em relação ao acúmulo de pecúlio,
principalmente quando se referem à brincadeira do reisado. Sobre este, há mais citações de
“prejuízos”, “despesas” do que obtenção de alguma renda. Termos como dinheiro e lucro são
evitados. Não que sejam pessoas desinteressadas ou que não possuam necessidades materiais. O que
verificamos, além das reservas de escrúpulo em tornar públicas suas movimentações econômicas, é
a relevância dada ao ato em si de festejar e brincar: “é prazer mesmo”.
Sua satisfação pessoal reside muito mais fortemente nas inúmeras espécies de
reconhecimento social que ele conquistou do que em qualquer outra coisa: o maior gritador de
leilão da região, um negociante honesto, organizador de grandes e animadas festas onde toda
família pode frequentar, uma pessoa amiga e solidária, um bom pai, esposo e avô, o “homem do
reisado”, um homem batalhador e determinado, um homem de boa prosa e fácil relacionamento etc.
Uma espécie de honra social conquistada por seus posicionamentos, valores e ações em sua família
e nas comunidades. Essa dignidade social o faz ser o que é. Seus relatos sempre nos levam a
contemplar esse conjunto de atributos que o torna respeitado por sua família, comunidade e região.
Apesar do menor ou maior retorno pecuniário, sua maior recompensa está na continuidade daquelas
inúmeras formas de reconhecimento social conquistadas durante toda sua vida: as festas que
organiza refletem também essa postura frente ao mundo.
E o que são essas festas? Além de colocar-se como um momento de diversão – desde o ato
85
de divertir-se com o(a) namorado(a) ou com um grupo de amigos ao exercício de jogos de sedução,
ou, simplesmente beber e conversar com os colegas –, a festa mostra-se como uma oportunidade de
relacionar-se (principalmente os festejos, as serestas, os leilões ou as festas pretéritas). Esses
“movimentos” festivos são oportunidades singulares de interação e reconhecimento social. Por um
lado, aqueles que vão às festas têm uma oportunidade singular de rever e interagir com pessoas
simplesmente conhecidas ou com aquelas que mantêm alguma relação de afeto e/ou de parentesco.
Nessas interações, reforçam-se os laços de proximidade, afeto e companheirismo. Do mesmo modo,
são momentos nos quais suas identidades também são reforçadas. Os registros sociais de cada
pessoa (pai, agricultor, estudante, mãe, gritador de leilão, comerciante, criador de animais,
presidente da associação, homem de farinhada, jogador de futebol, artesã, revendedora de
cosméticos etc.) são reafirmados por meio da interação com as pessoas conhecidas das
comunidades. São ocasiões para as pessoas reanimarem suas identidades sociais: ao revigorarem
suas personas sociais, confirmam para si e para todos o que elas são.
Ir a uma festa pressupõe disponibilizar-se para a interação social entre pessoas simplesmente
conhecidas ou muito próximas, graças aos laços de parentesco ou amizade. Diferentemente dos
grandes centros urbanos, os “movimentos” nas comunidades rurais são frequentados por pessoas
que guardam entre si algum grau de afinidade – o que leva os seus participantes a comportarem-se
de uma forma bem própria. Uma festa é um momento oportuno para animar suas referências de
identificação social. Crianças e jovens solteiros colocam-se relativamente alheios a esse processo
continuado de reafirmação de identidades. Mas, à medida que esses jovens se casam, passam a
animar essas trocas sociais.
Podemos afirmar que a identificação de Milú com a organização de festas desde criança e o
fato dos “movimentos” acontecerem no seu quintal, levam-no a tratar as festas com certa
pessoalidade. Ali não está acontecendo tão somente um evento que visa ao entretenimento de seus
participantes e que, para o seu organizador, não passa de uma fonte de obtenção de renda. Milú
86
organiza festas, pois sente prazer em reunir as pessoas e divertir-se com elas.
Como já explicamos, a recompensa financeira é necessária, mas não é uma condição
imprescindível. No dia de Reis, há, na parte da tarde, a matança do boi – é o último dia de
brincadeira – e, à noite, há o que sua filha Conceição denomina “festa dançante”, com uma grande
banda de forró de um município vizinho. Sobre esta festa dançante recai a cobrança de uma entrada
que serve para custear as despesas, mas a brincadeira da tarde, até poucos anos atrás, não onerava
quem quisesse participar: “à tarde, até uns três anos atrás, era tudo liberado, sabe, as porta tudo de
graça. As pessoas vinham, assistiam a brincadeira e tudo”. Para aqueles que se estendiam na
brincadeira ou que desejavam ficar para a “festa dançante”, sempre era oferecida uma refeição: “a
gente faz a comida e tudo assim. Se, no dia, o pessoal não quiser esperar pra jantar e tudo, aí fica as
coisas aí. Às vezes, à noite, vende na festa, na madrugada, às vezes, chega uma pessoa pedindo
comida”. O importante é receber bem a família dos “capitães” que já havia acolhido os brincantes
em suas casas, bem como todos os demais convidados (parentes e amigos de Raimundo Milú). Ao
tempo que a festa de Reis serve para aquele homem retribuir a gentileza dos outros em terem-no
acolhido junto com os demais brincantes, ela promove aquele momento de alegria e prazer para
todos.
Raimundo Milú não associa o reisado ao cumprimento de uma promessa: “isso é um
trabalho que eu gosto e não é promessa”. Não constatamos nenhum momento de devoção ou oração
entre os brincantes, à exceção do hino de Santo Reis e o terço rezado no dia vinte e oito de
dezembro, antes do “ensaio geral” do reisado, realizado no quintal de sua casa à noite; oração esta
aclamada somente pelas mulheres (sua esposa, filha, cunhadas e demais convidadas). Tampouco na
festa de Reis, realizada na tarde do último dia, é feita alguma oração. O que se constatou foi um ato
profano onde expressões como “prazer”, “diversão”, “felicidade”, “realização”, “trabalho”,
“serviço” são empregadas inúmeras vezes para explicá-lo. Por outra vez, é um “serviço pesado”
porque “dá trabalho demais!”. É um trabalho a serviço da “diversão” e do “prazer” de todos. Ele sai
87
de banca em banca cumprimentando os amigos e parentes, relembra histórias e atualiza os últimos
acontecimentos em suas andanças e de seus convidados. E assim vai urdindo com seus convidados
os fios que unem a trama social de suas vidas. Durante esses encontros, a memória desses sujeitos e
de suas comunidades é rememorada por meio de suas narrativas e causos.
Raimundo Milú é essa pessoa profundamente vinculada aos códigos de vivência
comunitária. A totalidade de Raimundo Milú está presente tanto nas festas como no convívio
cotidiano nas comunidades. Sua pessoa não se cinde em “especialidades” que são interpeladas
conforme o ambiente ou a atribuição social que esteja exercendo: no momento em que realiza uma
festa, não se comporta tão somente como um organizador que deve cuidar da segurança e
tranquilidade de seus clientes e almeja lucrar. Aqueles tempo e espaço da festa continuam
comunicando-se com os tempos e espaços da não festa: ele permanece sendo o velho Milú, parente
de muitos dos participantes, uma pessoa que acompanhou o crescimento de grande parte daqueles
jovens, padrinho de alguns deles e “... que o pessoal respeita muito”.
Não se trata de um respeito racional devido àquele proprietário do clube. Diferentemente, é
um respeito relacional (DAMATTA, 1990) movido pela convivência com aquela pessoa conhecida
por todos e que há décadas organiza festas naquela comunidade. Diferentemente das demais festas
onde “os dono da festa não tão nem aí não”, Raimundo Milú “vai lá, conversa com a pessoa”.
Novamente verificamos que, para ele, a festa é mais que um negócio: há também um conjunto de
responsabilidades sociais com as quais ele se sente à vontade para arcar além de sentir prazer pelo
que está fazendo.
Amabilidade, generosidade, persistência, firmeza, sabedoria, bom humor são outros tantos
ingredientes dessa figura carismática que somente pela convivência com a comunidade fomos
observando e identificando-os. Não é somente uma pessoa, é um homem singular. Essa figura
generosa e sempre disposta a retribuir os favores dos amigos e conhecidos são características desse
homem: “nada pra ele vale nada”. Seu desprendimento e capacidade de corresponder aos favores e
88
gentilezas recebidos é fato reconhecido por todos. Assim, esse homem vai conquistando admiração
e respeito. Sua forte figura social foi construída paulatinamente no decorrer de tantas festas, de sua
integração ao cotidiano comunitário, de atos de solidariedade, de posturas dignas etc. Todos
reconhecem a sua “autoridade” na comunidade. Certamente que sua posição como “dono” do
reisado, uma tradição da comunidade, projeta-o como figura representativa da localidade.
É um homem que “não abre”: ao receber um convite ou um pedido, sempre está disposto a
aceitar. Mesmo que lhe custe uma forte rouquidão. Certamente que todo leilão tem sua recompensa
financeira (ou um valor fixo, ou um percentual sobre o valor arrecadado) e ele é a principal figura
provedora de sua família. No entanto, o maior motivador para sua dedicação são sua paixão e
orgulho pelo que faz. Raimundo Milú demonstra forte orgulho sobre suas habilidades e sobre tudo o
que realiza. Além de seu vigor físico (apesar do corpo franzino), demonstra uma personalidade forte
e tenaz. Em suas posturas e escolhas, constatamos uma positividade bastante evidente. Em seus
discursos, não se ressaltam as dificuldades e obstáculos; pelo contrário, destacam-se resoluções e
realizações. Por esse motivo, seu discurso é envolvente e persuasivo. Impossível não acreditar em
suas palavras e não se sentir motivado para acompanhar suas festas e tudo o mais que ele faz.
Sua sabedoria ressalta que “ajuda-se quem tem precisão”. Associada a ela, soma-se um
pungente senso de generosidade: “porque eu tenho pena quando eu vejo uma pessoa com
necessidade acolá e, se eu puder ajudar, eu ajudo. Não sei por que é não, mas, se eu puder ajudar eu
ajudo”. Esta disposição interior de colaborar com um amigo ou parente está nele como uma de suas
grandes virtudes. O sentido de solidariedade é o que mais caracteriza sua condição de “homem
público”: não tem envolvimento com política sindical, partidária ou comunitária. Quando
incluíamos essa temática em nossas conversas, desconversava ou expressava abertamente a sua
reprovação a esses matizes da política. Se seu filho Francisco o denominou como “homem público”,
deve-se às suas práticas de solidariedade e as suas qualidades como figura comunitária excepcional.
Por essas razões, construiu, com a ajuda dos filhos, a casa do pandeirista Luís, um homem simples e
89
muito calado que o acompanha nas brincadeiras de Reis. Os brincantes não são somente
companheiros de pândegas e outras troças: são homens moralmente comprometidos uns com os
outros.
Importante ressaltar também que suas experiências de solidariedade sempre contam com a
participação de algum filho: a família sempre se envolve com os atos de generosidade do pai. Essa
pessoa eminentemente vinculada pelas teias sociais das quais faz parte (pai, parente, amigo,
negociante polivalente, pedreiro, gritador de leilão, promotor de festas e brincante de reisado) a
projeta como pessoa “pública” capaz de aconselhar, “ajudar”, negociar, brincar e viver intensamente
seus vínculos familiares e comunitários. E os habitantes da região reconhecem suas iniciativas:
Essa figura com forte representatividade social, de grande credibilidade e capaz de ajudar
amigos e parentes é o “dono” do reisado do Cipó de Baixo: uma pessoa, desde tenra idade, marcada
por valores de responsabilidade, generosidade, alegria, solidariedade, positividade e apreço familiar.
Reflete fortemente os valores e atitudes esperadas pelos moradores da comunidade. Por essa razão,
as festas de Reis ainda hoje permanecem graças às relações de parentesco, amizade e liderança
comunitária compartilhadas por aquelas pessoas e suas famílias. O reisado do Cipó resiste pois
ainda mantem-se firme uma sociabilidade comunitária que o sustenta.
4) Referências
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.
BITTER, Daniel. A bandeira e a máscara: a circulação de objetos rituais nas folias de reis. Rio de
Janeiro: 7Letras; Iphan/CNFCP, 2010.
CASCUDO, Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. São Paulo: Global, 2001.
CORNELIO, Paloma Sá de Castro. Reisado careta: brincadeira para louvar Santo Reis. Disponível
em: http://www.tedebc.ufma.br//tde_busca/arquivo.php?codArquivo=376. Acesso em julho de
2012.
DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio
de Janeiro: Guanabara, 1990.
90
DURKHEIM, Émile. Sociologia. José Albertino Rodrigues (org.). São Paulo: Ática, 1995.
_________________. Educação e Sociologia. Petrópolis: Vozes, 2011.
GIDDENS, Anthony. Modernidade e identidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.
HARVEY, David. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São
Paulo: Edições Loyola, 2007.
SOUSA, Luciano de Melo. Perfil sócio-político da juventude de Lagoa do Sucuruju (Pedro II).
Teresina: mimeo, 2011.
91
Conhecimento: desafio para as exportações brasileiras
Knowledge: challenge to brazilian exports
Silvana Schimanski1
Recebido em 24/4/2012; revisado e aceito em 12/03/2013
“Com o tempo, tudo virará commodity”
Steve Heyer
Resumo: Este trabalho apresenta o conhecimento como um desafio para as exportações brasileiras. Entende-se que o
desafio seja aplicá-lo na transformação de algo que a princípio não é considerado em termos econômicos, em algo que
possa ser comercializável. A abordagem é qualitativa baseada em fontes secundárias e com finalidade analítica.
Conclui-se que o país tem apresentado um retorno às características de “país agroexportador” e uma alternativa viável,
seria investir mais em conhecimento a fim de diversificar a inserção internacional.
Palavras-chave: Comércio. Exportações. Conhecimento.
Abstract: This article presents knowledge as a challenge to Brazilian exports. Is here considered as the challenge to
transform something that, at first is not considered in economic terms, in something that can be marketable. This paper
has qualitative approach, based on secondary sources with analytical purposes. It is possible conclude that the country
has shown a return to the characteristics of "agro-export country" and a viable alternative, would be invest in knowledge
in order to diversify the international insertion.
Key words: Trade. Exports. Knowledge.
INTRODUÇÃO
O comércio é, em essência, uma das forças capazes de promover o desenvolvimento
econômico e o bem-estar nos países. Entre os defensores do livre comércio, há o entendimento de
que essa prática oferece insumos para equilibrar o balanço de pagamentos, a possibilidade de troca
de tecnologias e que seus ganhos podem ser utilizados em melhorias das condições sociais,
ambientais, de infra-estrutura, entre outros.
No debate moderno sobre comércio e desenvolvimento, merece destaque Raúl Prebisch2. Em
seus textos, o autor ensina que a solução não está em crescer à custa do comércio exterior, mas
saber extrair do comércio exterior cada vez maior, os elementos propulsores para o
1 Graduada em Administração com Habilitação em Comércio Exterior pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali).
Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Doutoranda do Curso de
Relações Internacionais da UNB. Bolsista do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq). ([email protected]). Versão
preliminar deste artigo foi apresentada como avaliação da Disciplina Relações Internacionais no Pós II Guerra Mundial,
do Curso de Doutorado em Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UNB), ministrada pelo Prof. Dr.
Argemiro Procópio, no primeiro semestre de 2011.
2
Economista argentino, que foi um dos mais destacados intelectuais da Comissão Econômica para a América Latina
(CEPAL).
92
desenvolvimento econômico (PREBISH, 2000, p.73).
Na década de sessenta, autor preocupava-se com a relação de dependência que se estabelecia
nas relações comerciais internacionais. Os países em desenvolvimento e de menor desenvolvimento
relativo dependentes das exportações produtos primários, cujos preços se depreciavam ao longo das
décadas, em virtude da utilização de novas tecnologias e produção em escala 3. Esses por sua vez,
importavam produtos manufaturados dos países desenvolvidos, cujos preços eram cada vez mais
elevados, em virtude da alta tecnologia e das pesquisas realizadas para desenvolvê-los.
Prebisch assim, sugeria que para romper com essa dependência seria necessário uma uma
mudança na estrutura produtiva, tornando-a mais diversificada e complexa, com o fim de incorporar
na atividade econômica e social, o conhecimento. A obtenção do desenvolvimento, de uma maneira
geral não poderia se dar com a exploração exclusiva de produtos primários, uma vez que que os
avanços tecnológicos de conhecimento, abrangem todos os tipos de atividades industriais e cadeias
de valor agregado (FERRER, 2010).
Nesse sentido, este trabalho discute a primarização da pauta de exportação brasileira na
última década, que vem impulsionada pela alta dos preços dos prudutos primários no mundo, bem
como os parcos esforços no sentido de buscar a comoditização, ou seja, novos elementos
comercializáveis, como alternativas viáveis para gerar ingressos financeiros e um desenvolvimento
sustentável para o país.
A hipótese central é que mesmo com os preços dos produtos primários em alta, o Brasil deve
atentar para a criação de alternativas ao modelo agroexportador. Entende-se que o país não está
cuidando devidamente de áreas que podem representar ganhos maiores para o país, a médio e longo
prazo, como é o caso do setor de serviços e o rico conhecimento tradicional que o vasto território
possui.
Assim, na primeira parte do trabalho, é realizada uma breve abordagem das características
3
Demonstrou a deterioração do poder de compra da principal fonte de renda dessas economias: os produtos
primários, em geral. Do contrário, os bens industrializados, com maior valor agregado, importados dos países mais
desenvolvidos, não deixavam de valorizar-se (PREBISCH, 1964).
93
das exportações brasileiras. Na segunda parte, são apresentados os elementos considerados ainda
desafiadores para a inserção internacional do país: o setor de serviços e a administração do
conhecimento tradicional.
1
A PRIMARIZAÇÃO DAS EXPORTAÇÕES BRASILEIRAS
É necessário um breve olhar sobre as estatísticas do comércio exterior brasileiro do ano de
2011 para compreender a situação do país no contexto internacional. No ano, registrou-se corrente
de comércio (soma em valores das exportações e importações) recorde: US$ 482,3 bilhões. As
exportações encerraram o período com valor de US$ 256,0 bilhões e as importações de US$ 226,2
bilhões (BRASIL, 2012). Tais números acenam para a recuperação do comércio do país no período
pós crise financeira do ano de 2008 e um saldo positivo na Balança Comercial.
Estados Unidos, China e Argentina são respectivamente os três principais fornecedores, com
37% de tudo que é comprado pelo país. Os mesmos países, são os principais compradores de
mercadorias brasileiras, com 36,3% de tudo o que é vendido, havendo apenas uma inversão para a
China como principal comprador, seguido dos Estados Unidos e Argentina (BRASIL, 2012).
Os Bens de Capitais e Bens Intermediários representam mais da metade da pauta
importadora. Já nas exportações, os produtos básicos alcançaram 47,8% do total de produtos
exportados (BRASIL, 2012). Um dos grandes desafios das relações comerciais internacionais é
manter em valores, o equilíbrio entre o que se exporta e o que se importa e pelo que aponta o
resultado da Balança Comercial, que é positiva em US$ 29,8 bilhões isso está ocorrendo e
representa um desafio às premissas de Prebish.
A Figura 1 apresenta o Gráfico das exportações brasileiras, por fator agregado, considerando
a participação dos produtos básicos, semimanufaturados e manufaturados no volume total das
exportações da década de 1960 até 2010. É possível observar que os produtos básicos sofreram um
declínio como principais elementos da pauta de exportações até o ano 2000. Os semimanufaturados
94
não tem sofrido grandes variações ao longo das décadas. Ao contrário dos produtos manufaturados,
que viveram o período áureo de crescimento e participação na pauta até os anos 1980, mantiveramse relativamente no mesmo patamar até o ano 2000, quando, começa a ocorrer um considerável
declínio da sua participação nas exportações.
Figura 1: Exportação Brasileira por Fator Agregado.
Fonte: BRASIL (2011a).
Essa situação preocupa, pois estratégico para um país com proporções continentais como o
Brasil, seria justamente buscar a aproximação de parceiros que favorecessem a ascensão tanto a
curva dos produtos básicos quanto a dos manufaturados, além de prover as outras formas de
inserção rentáveis, baseadas na vocação local: serviços, conhecimento tradicional baseado na
biodiversidade local, etc.
Considera-se que a industrialização é o processo socioeconômico que visa transformar uma
área da sociedade em fonte de maior riqueza e lucro. Isso se dá por meio da implantação de
máquinas em processos produtivos que substituem a força humana, aumentando a produtividade e a
escala diminui os preços. A preocupação em agregar valor ao que se produz é constante, já que tem
95
estreita relação com a saúde econômica, tanto da sociedade quanto do país.
Portanto é preocupante a observação das estatísticas comerciais que apontam uma tendência
à primarização4 das exportações brasileiras, ou seja, o aumento da participação dos produtos
primários ou com baixo grau de industrialização. Uns diriam que não é uma situação preocupante,
pois esta é uma tendência mundial, impulsionada por países como a China e India, que estão em
processo acelerado de urbanização e ao mesmo tempo, não são capazes de produzir todos os
alimentos e energia que consomem nesse processo5. Ambos tem contribuído para o aumento dos
preços internacionais dos produtos primários e para o crescimento da participação destes produtos
no comércio mundial.
Por isso vale destacar o estudo realizado por Negri e Alvarenga (2011) sobre a participação
dos produtos de diferentes intensidades tecnológicas nas exportações mundiais (2000-2009), que
aponta para o gradual incremento da participação de produtos primários e um leve declínio dos bens
de alta intensidade tecnológica. Os produtos primários no ano 2000 participavam com 11,6% e os
produtos com alta intensidade tecnológica com 30,4%. Em 2009, os primários representavam a
maior escala do período, com 13,4%, enquanto os de alta intensidade, 28,8%.
Mas, para Negri e Alvarenga (2011) esse aumento de participação dos produtos primários no
mercado mundial não foi tão intenso quanto o que está acontecendo na pauta de exportações
brasileira. Desde os anos 1990 sua participação nas exportações brasileiras oscila ao redor de 40%.
Mas entre 2007 e 2010, esta participação alcançou 51%.
Esse movimento de primarização da pauta de exportações brasileiras se acentuou com a
crise econômica internacional e com o fato de que a China, continuou crescendo, cerca de 80%. O
4
Observa-se que a primarização dos serviços ou mão-de-obra é a denominação dada a inversão do processo de
terceirização. Este conceito surgiu no ínicio do século XXI como vertente contrária aos efeitos negativos da
proposta de terceirização de mão-de-obra. As principais referências são as de Peter Drucker, Michael Porter, Eugene
Brigham e Luciano Trindade.
5 Buscar a entrevista da Secretaria de Comércio Exterior, Tatiana Lacerda Prazeres, para o Programa Agenda
Econômica da TV Senado. Exibido em 16/09/2011 e Disponível em:
<http://www.senado.gov.br/noticias/TV/programaListaPadrao.asp?ind_click=6&txt_titulo_menu=Agenda
EconÃ
´mica&IND_ACESSO=S&IND_PROGRAMA=S&COD_PROGRAMA=6&COD_VIDEO=115903&ORDEM=0&
QUERY=&pagina=2>.
96
Brasil aumentou seu nível de exportações de minérios (principalmente de ferro) em relação a 2009 e
este produto foi o principal responsável pelos 51% do total de exportações de produtos primários
em 2010. (NEGRI; ALVARENGA, 2011).
Entre 2006 e 2009 o Brasil perdeu market share mundial em todos os grupos de produtos,
exceto commodites e petróleo. Ou seja, nos últimos três anos, a primarização da pauta de comércio
do país não é apenas resultado do bom desempenho das exportações brasileiras de commodities,
mas também reflete a perda de competitividade do país no comércio internacional em todos os
outros grupos de produtos especialmente os mais intensivos de tecnologia BRASIL (2011b).
Em 2000, o Brasil respondia por 0,88% do comércio mundial de bens e chegou a 2010 com
uma participação de 1,3% (BRASIL, 2012). Apesar disso, observa-se que o aumento esteve
concentrado nas commodities enquanto perdeu mercados em industrializados de baixa, media e alta
intensidade tecnológica, movimentos os quais merecem atenção6.
Apesar de Negri e Alvarenga (2011) não concordarem com a tese da desindustrialização, há
sim o risco do deslocamento produtivo para áreas com crescimento da demanda e rentabilidade e
isso tem impactos sobre as decisões de investimento na economia brasileira. Porque embora as
exportações de commodities tenham desempenhado um papel importante na sustentação do saldo
comercial recentemente, os efeitos da primarização da pauta de exportações podem acarretar efeitos
danosos para a estrutura produtiva montada, no longo prazo.
De acordo com dados da CNI (2011) a indústria brasileira iniciou o ano de 2011 em ritmo
moderado e com os níveis de atividade abaixo do usual. Tal ritmo repercute negativamente nas
condições financeiras das empresas, sobretudo as de menor porte.
Para IPEA (2011), o aumento dos preços nos mercados de commodities tem sido o principal
6
“Quaisquer que sejam as causas para a primarização da pauta, o fato é que esse tipo de inserção comercial e seu
aprofundamento no período recente certamente trazem preocupações para o desempenho futuro da economia
brasileira. Ao observá-la, alguns economistas tem falado em uma suposta desindustrialização. Parece prematuro,
todavia defender a tese da desindustrialização em um cenário de crescimento econômico que é duradouro quando
comparado com a história recente do país, e que só foi brevemente interrompido em 2009, em virtude da crise. Ao
que tudo indica, o crescimento da demanda doméstica tem sustentado, até o momento, o aumento da produção
industrial do país, mesmo em face da perda de market share internacional em produtos de maior valor agregado”
(NEGRI; ALVARENGA, 2011, p. 11)
97
responsável pelo bom desempenho da Balança Comercial. Negri e Alvarenga (2011) apontam que
os fatores que conduziram ao ciclo de valorização das commodities podem se sustentar por um
tempo ainda relativamente longo uma vez que este ciclo está associado com o desequilíbrio na
oferta mundial de alimentos que tende a se manter nos próximos anos. Além disso, a China, o maior
parceiro comercial do Brasil, ainda tem um longo processo de urbanização pela frente.
Tal realidade preocupa porque, se mesmo em tempos de preços baixos, os produtores rurais
pouco fizeram para buscar alternativas à agricultura, com a alta dos preços “[...] o modelo
exportador abocanha florestas e cerrados numa compulsiva sede por superávits na balança
comercial” (PROCÓPIO, 2011, p.57).
Além disso, o país que não produz tecnologia de forma competitiva, também não poderá
exportar tecnologia. Por isso, políticas de inovação são fundamentais para agregar valor à estrutura
produtiva. Negri e Alvarenga (2011) apontam que é necessário fazer apostas ousadas na produção
de conhecimento e de inovações na economia brasileira, estimulando setores e/ou tecnologias nas
quais o país teria condições de se tornar um ator relevante. Acredita-se que, acima de tudo, é preciso
que as políticas sejam capazes de fomentar novos setores, novas atividades e novos negócios.
2 COMODITIZAÇÃO: alternativa estratégica para as exportações
Embora alguns autores7 optem pelo termo de comoditização, numa referência a commodity
(produtos primários), para este trabalho, optou-se utilizar o termo comoditização para a
transformação de “conhecimento” ou coisas consideradas sem valor, em algo comercializável.
Segundo a Enciclopédia de Marxismo, comoditização (ou comodificação) é a transformação coisas
que podem não ser normalmente percebidos como bens e serviços (a exemplo de seres humanos,
meio ambiente) em algo com valor no mercado.
Segundo D’Aveni, (2011) a comoditização ocorre quando há um aperfeiçoamento constante
com relação à qualidade ou outras vantagens do produto. O mercado consumidor é ávido por
7
Souza;Borges e Neto (2010, p.1); Procópio (2011, p. 63).
98
novidades e a subjetividade é um elemento importante e deve ser explorado, como o desejo de
adquirir algo que faz bem à natureza, a exclusividade no acesso a algo produzido com base no
conhecimento específico de uma tribo distante, o atendimento personalizado, etc.
D’Aveni defende que as novas idéias são geradas pela mistura de experiências, culturas e
conhecimentos, portanto a commodity depende de visão para apreender o que cada local, cada
cultura e cada especificidade tem a oferecer. Nesse contexto, acredita-se que o Brasil precisa
investir no desenvolvimento de áreas como Serviços e Conhecimento Tradicional.
2.1 Serviços
Este é um setor bastante favorável, pois custa menos a criação de um emprego em serviços
do que na indústria, por exemplo. Além disso, enquanto a indústria tende a automação, reduzindo a
participação humana, o setor de serviços não consegue facilmente prescindir o elemento humano,
sua inteligência e conhecimento: agências de propaganda, escolas, consultorias, clínicas médicas
são fortemente dependentes das pessoas que ali trabalham. Os serviços representam uma importante
atividade econômica e estes podem ser comercializados internacionalmente, caracterizando o
comércio internacional de serviços, que é definido como “[...] movimento transfronteira de
invisíveis ou de pessoas que os executam, sem envolver mercadorias” (MERCADANTE, 2000, p.
106).
A comoditização dos serviços, nesse sentido, consiste em agregar algum diferencial para a
customização e diferenciação: e as pessoas são essenciais nesses processos, bem como sua
formação e por isso representam um desafio para o Brasil.
Por meio da publicação Panorama do Comércio Internacional de Serviços (BRASIL, 2012b)
a Secretaria de Comércio e Serviços, divulga o desempenho do setor. Verifica-se que o país está na
31º posição nas exportações mundiais de serviços e os principais fornecedores mundiais são:
Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França e China.
O Saldo Comercial do Setor de Serviços no Brasil ainda é negativo, apontando que a
99
dependência de prestadores de serviços internacionais tem sido significativamente maior que nossas
prestações de serviços para o exterior. O país vem acumulando, crescentes déficits na Conta de
Serviços: de US$ 7,6 bilhões em 2005 para US$ 29,4 bilhões em 2010 (BRASIL, 2012b).
As exportações brasileiras de serviços são fortemente concentradas o que evidencia outro
desafio: a necessidade de diversificação de parceiros. Os EUA importam 42,1% e os outros 57,9%
estão pulverizados entre diversos importadores, dos quais os mais significativos são países da União
Européia (31,2%). Segundo dados do mesmo relatório, no que se refere à importação de serviços a
concentração é um pouco menor, ainda que bastante elevada: os EUA correspondem a 28,2%, a
União Européia a 49,6% e os demais a 22% (BRASIL, 2012b).
E por meio dos saldos da conta de Serviços, é possível verificar que o Brasil tem acumulado
gastos consideráveis especialmente com aluguéis de equipamentos, viagens, serviços de transportes,
computação, Royalties e Licenças (BRASIL, 2012b).
Os desafios para o Brasil nesse contexto seriam: em primeiro lugar, investir na formação
humana e capacitação técnica, (uma vez que serviços empresariais, profissionais e técnicos
dependem de Engenheiros, Arquitetos, Profissionais Liberais, Publicidade, Atletas, Projetos, etc).
Em segundo lugar, diversificar os seus parceiros comerciais, por meio de parcerias verdadeiramente
estratégicas. Em terceiro lugar, estimular, por meio de políticas, empresas de todos os portes e
pessoas físicas a comercializarem internacionalmente os seus serviços e por último, mas não menos
importante, prospectar internamente novas fontes de recursos de Royalties e Licenças, como
aquelas oriundas do conhecimento tradicional.
Uma recente iniciativa que pode ser citada como exemplo, nesse sentido, é a adotada pelo
Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, que simplificou os procedimentos
para Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro (SICAB), (que simplifica o
cadastro dos trabalhadores e permite a emissão da Carteira Nacional do Artesão e da Carteira
Nacional do Trabalhador Manual) e está realizando diversas atividades como o Programa do
100
Artesanato Brasileiro (PAB), com vistas a consolidar o artesanato brasileiro como setor econômico
de desenvolvimento das comunidades, a partir da consideração de que a atividade é disseminada em
todo território nacional, possuindo variações e características peculiares conforme o ambiente e a
cultura regional (BRASIL, 2011c).
Esse tipo de iniciativa contribui para a inclusão de atividades locais na geração de emprego e
renda além de valorizar o que o país tem de característico na sua inserção internacional.
2.2 Conhecimento tradicional
Conhecimento tradicional consiste na informação ou prática individual ou coletiva de
comunidade indígena ou de comunidade local8, com valor real ou potencial, associada ao
patrimônio genético9.
Para Santos (2011) o "conhecimento tradicional" constitui-se de práticas, conhecimentos
empíricos e costumes passados de pais para filhos e crenças das comunidades tradicionais que
vivem em contato direto com a natureza; ou seja, é o resultado de um processo cumulativo, informal
e de longo tempo de formação. Constitui-se, assim, patrimônio comum do grupo social e tem
caráter difuso, pois não pertence a este ou aquele indivíduo mas a toda comunidade.
O Brasil é especialmente favorecido com tais conhecimentos, dada a sua extensão territorial,
biodiversidade e multiplicidade étnica. Historicamente, o uso dos recursos genéticos e
conhecimentos tradicionais têm sido apropriados de forma injusta, muitas vezes agravada pelo uso
das patentes. A isso se dá o nome de Biopirataria 10. Ao longo dos séculos, inúmeros são os
exemplos: no século XVI, o uso das propriedades corantes do Pau Brasil na Europa; no século XIX,
o envio de mudas de seringueira para a Ásia determinando a ruína econômica da cultura no norte do
país; e recentemente, o uso do veneno da jararaca como base para um dos fármacos anti8
São os pescadores artesanais, os seringueiros, a comunidade quilombola formada pelos negros e índios
remanescentes de quilombos, a população ribeirinha, entre outras.
9 Art. 7º, II, da Medida Provisória 2186-16/2001.
10 O termo "biopirataria" não existe juridicamente; fala-se, na verdade, em "acesso não autorizado a recursos genéticos
presentes na biodiversidade e a conhecimentos tradicionais associados".
101
hipertensivos mais comercializados no país, com faturamento anual de milhões de dólares
(BRASIL, 2011c).
O combate à biopirataria, nesse contexto, é mais um desafio que o Brasil deve enfrentar
como uma estratégia para seu comércio exterior, tendo em vista que podem representar ganhos
financeiros e acima de tudo, preservação. Ela representa um claro exemplo de como os recursos de
países em desenvolvimento podem ser acessados sem consentimento e transformados em direitos
proprietários de fortes grupos econômicos, os quais passam a vendê-los aos próprios detentores
originais desses materiais biológicos.
A Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), de 1992, prevê o acesso ao patrimônio
genético, proteção e acesso ao conhecimento tradicional, repartição de benefícios, transferência de
tecnologias para sua conservação e utilização. Em linhas gerais, propõe regras para assegurar a
conservação da biodiversidade, o seu uso sustentável e a justa repartição dos benefícios
provenientes do uso econômico dos recursos genéticos.
Importante sublinhar que a referida Convenção, em seu preâmbulo reconhece a “estreita e
tradicional dependência de recursos biológicos de muitas comunidades locais e populações
indígenas com estilos de vida tradicionais”. Estabelece também em seu artigo 8, “j”, que “os países
signatários devem preservar o conhecimento e práticas das comunidades locais e encorajar a
repartição dos benefícios oriundos da aplicação destes conhecimentos". As críticas à Convenção são
que ela notadamente privilegia os aspectos econômicos em detrimento da proteção.
O Brasil instituiu um órgão governamental, o Conselho de Gestão do Patrimônio Genético
(CGEN), responsável por autorizar e dar anuência ao Contrato de Repartição de benefícios que se
estabelece entre a comunidade e empresas interessadas. E uma Legislação nacional 11 para regular o
acesso aos recursos genéticos e ao conhecimento tradicional associado, bem como a repartição dos
benefícios derivados do seu uso.
Por meio da Legislação, resguardou-se para o detentor do conhecimento tradicional, o
11 Medida Provisória 2.186-16, de 23 de Agosto de 2001.
102
direito de decidir sobre o acesso de terceiros à informação e de participar da repartição dos
benefícios derivados de sua utilização, além de se regular a transferência de conhecimentos a
respeito do patrimônio genético brasileiro. O sistema estabelece que atividades com potencial
comercial, dependem de autorização como para os casos pesquisa científica e bioprospecção. No
caso da bioprospecção, exige-se um Contrato de repartição de benefícios.
Segundo divulgado pelo Ministério do Meio Ambiente (BRASIL, 2011c), os benefícios
monetários ou não, são negociados diretamente com os proprietários das áreas (públicas ou
privadas) onde se encontram os recursos genéticos ou com as comunidades detentoras de
conhecimentos tradicionais associados. Enzo Roppo critica:
[...] a MP que disciplinou o acesso ao conhecimento tradicional, transformou a comunidade
em Sujeito de Direito, o conhecimento tradicional associado à biodiversidade em
mercadoria, negociado mediante contrato de repartição de benefícios. Tais processos
encontram-se de acordo com as exigências da expansão do capital, que centra a sua ação
estratégica na eliminação de todo e qualquer obstáculo que possa se opor à livre e segura
circulação dos bens. (ROPPO, 1988, p.29-31)
Em verdade, esse direito, no seu aspecto prático, visa precipuamente a evitar a exploração
das tradições das comunidades, sem que lhes reverta qualquer benefício; tutelando-se o uso deste
conhecimento. Mas a verdade, é que a exploração muitas vezes continua ocorrendo por outras vias,
já que os grupos sociais detentores desse conhecimento são presas fáceis aos interesses das grandes
indústrias. As demoradas discussões para a regulamentação doméstica e internacional 12 sobre
aspectos relacionados ao conhecimento tradicional, favorecem as grandes indústrias que se utilizam
de diferentes estratégias para a compra do conhecimento tradicional.
Neto e Dantas (2010, p. 4519) observam que os investimentos das indústrias tem se dirigido
no sentido de compor um “estoque de conhecimentos tradicionais” para utilização posterior e
criticam o tratamento da questão como um negócio.
Afora as posturas idealistas e críticas sobre o fato de transformar a natureza em mercadoria,
12 Um dos conflitos entre a CDB e o tratado internacional Trade Related Aspects of Intellectual Property Rights
(TRIPS) é que, enquanto a CDB, estabelece princípios de repartição justa e equitativa dos benefícios, valorização
dos conhecimentos tradicionais entre outros, o sistema de patentes do TRIPs protege, assegura monopólio e
propriedade àquele que detém e desenvolve novas tecnologias e produtos, inclusive os oriundos da biodiversidade
acessada por meio de conhecimento tradicional
103
a grande preocupação está em repartir esses benefícios de forma justa, com aquelas populações e de
orientá-las que seu conhecimento tem valor incomensurável. Os ideais de preservação e
conservação do meio ambiente que compõe as campanhas publicitárias das empresas que vendem
os produtos, cujas origens remontam ao conhecimento tradicional, transformam-se em excelentes
recursos a serem incorporados à marca. Esses lucros sequer são objeto de negociação dos contratos
de repartição dos benefícios, mesmo que esse rendimento resulte do acesso ao conhecimento
tradicional associado à biodiversidade (NETO, DANTAS, 2010, p. 4331).
Segundo dados disponibilizados pelo Ministério do Meio Ambiente (BRASIL, 2011c),
mesmo após duas décadas da CDB, a situação ainda pouco se alterou. Uma análise sobre patentes
concedidas a produtos ou processos elaborados à partir de espécies de plantas brasileiras revela a
dimensão desta problemática, já que em nenhum destes casos houve solicitação de acesso para o
uso destes recursos genéticos, conforme demonstra a Tabela 1, cujos países usuários são, Estados
Unidos, Japão, França, Alemanha, Suíça, Polônia, Países Baixos e Áustria.
Espécie
No. De Patentes após a CDB
Unha de Gato
26
Copaíba
09
Jaborandi
22
Andiroba
6
Tabela 1: Patentes concedidas a produtos ou processos elaborados à partir de espécies de plantas brasileiras sem
solicitação de Licença
Fonte: BRASIL, (2011c).
Há que atentar para essa área e proteger o conhecimento tradicional do povo brasileiro, pois
estes têm sido utilizados e pesquisados como uma via rápida de se alcançar resultados para a
indústria. Coloca Procópio (2011, p. 32) que “[...] preconceitos e ausência de erudição ensinam ser
inútil receber lições do povo. Camadas e camadas de verniz cultural e pouco conteúdo relegam ao
esquecimento línguas ouvidas na fronteira brasileira, como o guarani, o aimará e o quíchua”.
Particularmente, é possível contribuir com o Professor e complementar que além das línguas, ao
conhecimento tradicional por muito foi guardado o rótulo de crendice e agora vale correr atrás do
prejuízo e tentar resgatar o que ainda resta dessa commodity tão preciosa que guarda o povo do país:
104
o conhecimento.
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Já que o comércio é uma das vias para atrair recursos para o desenvolvimento econômico, o
ideal seria que estratégias de exportações fossem pensadas de forma a incrementá-lo usufruindo o
que se tem em abundância e que melhores resultados gerassem, especialmente no médio e longo
prazo.
Se o interesse é pensar a curto prazo e manter a Balança Comercial com saldo positivo, a
estratégia das exportações de produtos primários é adequada, pois está aproveitando a recente onda
de aumentos dos preços internacionais. Mas a médio e longo prazo não se pode afirmar, uma vez
que os preços dessa categoria de produtos variam muito no cenário internacional.
Se o interesse é ampliar as possibilidades de inserção internacional do país, valorizando
aspectos que permitam maior inclusão social e as características únicas do seu povo, é chegada a
hora de estabelecer mecanismos que estimulem a expansão do conhecimento para estimular o setor
de serviços e por sua vez, proteger o conhecimento tradicional.
Não há apenas como pensar que as parcerias externas serão a solução para as dificuldades
comerciais se o país não realizar um investimento massivo em educação e pesquisa. Como
apontado, a comoditização requer identificação de vantagens, peculiaridades e a inclusão de
elementos subjetivos nos produtos finais.
Assim, o desafio para o país é estabelecer mecanismos de inserção internacional que
permitam ao país vender de uma maneira equilibrada e sustentável, o que tem de melhor e não
aquelas relações que perpetuam a lógica do país “celeiro do mundo”.
105
Referências
BRASIL. MEDIDA PROVISÓRIA nº 2.186-16, de 23 de agosto de 2001 . Regulamenta o inciso II
do § 1o e o § 4o do art. 225 da Constituição, os arts. 1o, 8o, alínea "j", 10, alínea "c", 15 e 16,
alíneas 3 e 4 da Convenção sobre Diversidade Biológica, dispõe sobre o acesso ao patrimônio
genético, a proteção e o acesso ao conhecimento tradicional associado, a repartição de benefícios e
o acesso à tecnologia e transferência de tecnologia para sua conservação e utilização, e dá outras
providências.
_____. Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior (MDIC). Secretaria de
Comércio Exterior. Departamento de Desenvolvimento e Planejamento do Comércio Exterior
(Depla). 2011a.
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107
Antonio Gramsci e o tema da nação: o caso italiano
Antonio Gramsci and the issue of nation: the italian case
Claudio Reis1
Recebido em 26/03/2013; revisado e aceito em 20/05/2013
Resumo: A abordagem desenvolvida no presente texto corresponde a uma reflexão de Antonio Gramsci no que se
refere ao entendimento das origens da questão nacional italiana. Para o autor dos Quaderni del carcere o ponto de
partida para se entender a temática envolvendo a nação italiana, deveria ser o Império Romano. Na presente discussão
será demonstrada justamente a análise que Gramsci faz do longo movimento histórico entre a Roma antiga e o
Renascimento, enfatizando os elementos decisivos da construção posterior da nação italiana.
Palavras-chave: Antonio Gramsci. história italiana. questão nacional
Abstract: The approach developed in this text corresponds to a reflection of Antonio Gramsci in relation to
understanding the origins of the Italian national question. For the author of Prison Notebooks the starting point to
discern the matter involving the Italian nation should be the Roman Empire. In the present discussion will be
demonstrated precisely the Gramsci's analysis for the long historical movement between ancient Rome and the
Renaissance, emphasizing the key elements of the later construction of the Italian nation.
Keywords: Antonio Gramsci. Italian history. national issue.
Gramsci definindo o tema
Segundo Gramsci, a vida nacional italiana somente se torna uma questão político-cultural
sistematizada e publicizada, a partir de Nicolau Maquiavel (século XVI). Além disso, somente com
o pensamento maquiaveliano é que a construção da nação italiana passa a ser problematizada e
refletida de um modo progressista e popular.
Todavia, o autor sardo, em algumas passagens dos Quaderni del carcere identifica que,
como problema concreto e histórico, o início da questão nacional italiana é ainda mais antigo. Isso
fica evidente, quando ele analisa certos aspectos do Império Romano. Como o próprio pontua:
A mudança da condição da posição social dos intelectuais em Roma, do tempo da
República ao Império (de um regime aristocrático-corporativo a um regime democráticoburocrático), está ligada a César, que conferiu a cidadania aos médicos e aos mestres das
artes liberais, a fim de que habitassem com mais satisfação em Roma e de que outros
fossem para lá atraídos (...) César, portanto, se propõe: 1) estabelecer em Roma os
intelectuais que já residiam nela, criando assim uma categoria permanente deles, pois sem a
permanência não se podia criar uma organização cultural. Havia antes uma flutuação, que
era preciso deter, etc.; 2) atrair para Roma os melhores intelectuais de todo o Império
Romano, promovendo uma centralização de grande alcance. Tem assim início aquela
1Doutor em Ciências Sociais pelo IFCH/UNICAMP. Professor de Ciência Política da FCH/UFGD. Endereço: Rodovia
Dourados – Itahum, Km 12, Dourados – MS, CEP: 79.804-970. Email: [email protected]
108
categoria de intelectuais “imperiais” em Roma, que continuará no clero católico e deixará
muitas marcas em toda a história dos intelectuais italianos, com sua característica de
“cosmopolitismo” até o século XVIII. (GRAMSCI, Quaderno 8, 2001, p. 954)
No entanto, de acordo com o pensamento gramsciano, o “cosmopolitismo”, fenômeno
bastante prejudicial à vida nacional italiana e muito forte entre seus intelectuais, ainda exercia
influência e poder em sua época. Um bom exemplo era Benedetto Croce que foi uma importante
influência para os intelectuais e para o Estado da Itália (BUCI-GLUCKSMANN, 1990), mas, em
vários momentos, sentia-se descolado dos conflitos existentes na realidade (MORDENTI, 2007).
Na verdade, em praticamente todos os temas presentes nos Quaderni é possível notar a
preocupação do autor em inserir a questão nacional no interior do amplo processo histórico da
península. As questões do presente são constantemente ligadas às heranças do passado. Sobre a
nação, essa forma de análise foi corrente, ou seja, Gramsci, partindo da necessidade de pensar um
projeto nacional progressista para sua realidade contemporânea, lança-se ao desafio de compreender
a complexa história italiana.
Como se sabe um dos principais momentos históricos da Itália, relacionado diretamente à
questão nacional, corresponde ao Risorgimento. Aliás, a análise feita por Gramsci sobre esse
processo de unificação do Estado-nação italiano, merece um espaço especifico de reflexão, o que
não é o caso da presente abordagem. O que de fato interessa agora é o planejamento de pesquisa
feito pelo autor, no início do caderno 19 – responsável pelo Risorgimento. Nele, são destacados
alguns momentos da história da península, com o intuito de se entender a formação político-social
da vida nacional dos italianos. Segundo sua leitura, era necessário desenvolver uma dupla série de
investigações:
uma sobre a Era do Risorgimento e uma segunda sobre a precedente história que teve lugar
na península italiana, por ter criado elementos culturais que tiveram uma repercussão na
Era do Risorgimento (...) e também continuam a operar (ainda que como dados ideológicos
de propaganda) na vida nacional italiana... (GRAMSCI, Q. 19, 2001, p. 1959)
Neste seu plano de pesquisa, o autor seleciona algumas discussões centrais da história
anterior ao Risorgimento. Para ele, a série de investigações sobre o longo processo histórico que
antecedeu a unificação nacional, ocorrida somente no final do século XIX, deveria ser orientada por
109
um “conjunto de ensaios sobre as épocas da história européia e mundial que tiveram um reflexo na
península.” (Idem)
Os temas privilegiados deveriam ser:
1) Os diversos significados que teve a palavra “Itália” nas diferentes épocas (...); 2) O
período da história romana que marca a passagem da República ao Império, por criar o
quadro geral de algumas tendências ideológicas da futura nação italiana. (...) Este nexo
histórico é da máxima importância para a história da península e de Roma, porque é o
início do processo de “desnacionalização” de Roma e da península e de sua transformação
em “terreno cosmopolita”. A aristocracia romana, que, com os modos e os meios adequados
ao tempo, tinha unificado a península e criado uma base de desenvolvimento nacional, é
sobrepujada pelas forças imperiais (...); 3) Idade Média ou Era das Comunas, em que se
constituem molecularmente os novos grupos sociais urbanos, sem que o processo atinja a
fase mais alta de maturação, como na França, na Espanha, etc; 4) Era do mercantilismo e
das monarquias absolutas, que na Itália, precisamente, tem manifestação de escasso alcance
nacional porque a península está sob a influência estrangeira, ao passo que nas grandes
nações européias os novos grupos sociais urbanos, inserindo-se poderosamente na estrutura
estatal de tendência unitária, fortalecem a própria estrutura e o unitarismo, introduzem um
novo equilíbrio nas forças sociais e criam para si as condições de um desenvolvimento
rapidamente progressivo. (GRAMSCI, Q. 19, 2001, pp. 1959-60).
Portanto, o quadro de pesquisas sobre a história e a vida da nação italiana deveria dar conta
de várias questões. Em sua opinião, esse conjunto de investigações tinha que ser desenvolvido e
difundido para um público determinado, com o objetivo de se contrapor a certas concepções
antiquadas, escolásticas e retóricas, fontes de idéias nacionalistas e naturalistas sobre a história
nacional italiana, absorvidas passivamente em razão do predomínio do “senso comum” existente
num dado ambiente de cultura popular. Com isso, pretendia-se suscitar um interesse científico pelas
questões abordadas, as quais mesmo situadas no passado deveriam ser tratadas como vivas e
operantes também no presente, como forças em movimento, sempre atuais (GRAMSCI, Q. 19,
2001).
Império Romano e o cosmopolitismo
Ainda que a discussão sobre a nação seja iniciada no mundo antigo, especificamente no
Romano, Gramsci não pretende defender a presença de um “sentimento nacional” já nesta época.
Para ele, afirmar a existência de uma “nacionalidade” na península na época do Império Romano
era ser anti-histórico, “pois era impossível falar nessa época de fenômeno ‘nacional’, mas somente
de romanismo que unifica juridicamente a Itália (e uma Itália que ainda não corresponde ao que
110
hoje entendemos por Itália...)” (GRAMSCI, Q. 17, 2001, p. 1935)
Dialogando com o autor Augusto Rostagni – defensor da existência de uma literatura latina
como expressão de um sentimento nacional, no período das Guerras Púnicas – Gramsci
argumentará:
Que Rostagni tenha razão ao falar de “autonomia” da literatura latina, ou seja, de sustentar
que esta é autônoma com relação à literatura grega, é algo que pode ser aceito; mas, na
realidade, existia mais “nacionalidade” no mundo grego do que no romano-itálico.
Ademais, mesmo que se admita terem as primeiras guerras púnicas modificado algo nas
relações entre Roma e a Itália, que tenha ocorrido uma maior unidade até mesmo territorial,
isso não altera o fato de que este período é muito breve e tem escassa importância literária:
a literatura latina floresce após César, com o Império, isso é, precisamente quando a função
da Itália torna-se cosmopolita, quando não mais se coloca o problema da relação entre
Roma e a Itália, mas entre Roma-Itália e o Império. Não se pode falar de nacional sem o
territorial: em nenhum desses períodos, o elemento territorial teve uma importância que não
fosse meramente jurídico-militar, isto é, “estatal” em sentido governamental, sem conteúdo
ético-passional. (GRAMSCI, Q. 17, 2001, pp. 1935-36).
Aqui fica evidente a preocupação do autor em conectar as questões que o incomodavam no
presente ao passado, mas sem criar uma história natural da nação italiana. Como já foi possível
perceber, para Gramsci, somente seria possível compreender a questão nacional de seu país uma vez
recuperado o passado. E dentro dos quatro pontos ressaltados, referentes ao período anterior ao
Risorgimento, apenas o primeiro não teve maior desenvolvimento.
Entender certos elementos de Roma Antiga se colocava como fundamental para o
reconhecimento de aspectos importantes do período posterior dominado pela Igreja Católica. Eram
nessas duas grandes épocas que se encontravam os fundamentos da “nação” moderna italiana. Para
o autor, um dos possíveis vínculos entre uma e outra, poderia ser visualizado por meio da forma de
relacionamento existente entre imperador/súdito e o papa/fiéis. Como o respeito e o culto ao
Imperador significavam o fim das diversas diferenças morais, culturais e políticas – entre os mais
variados povos conquistados, isto é, a igualdade na obediência e na reverência para com um
indivíduo – Gramsci argumenta que: “o culto do imperador liga-se ao império universal e ao
cosmopolitismo, cuja expressão necessária é o império.” (GRAMSCI, Q. 5, 2001, p. 668) Dessa
forma, o autor sugere a seguinte questão:
Seria interessante ver se se tentou encontrar um vínculo entre o culto do imperador e a
posição do papa como vigário de Deus na terra. Decerto, tributam-se honrarias divinas ao
111
papa e ele é chamado de “pai comum”, como Deus. O Papado teria feito uma mistura entre
os atributos do Sumo Pontífice e os do Imperador divinizado... (GRAMSCI, Q. 5, 2001,
pp. 668-69)
Gramsci, então, parece acreditar na absorção de uma certa herança imperial na Igreja
romana. E esta, por sua vez, foi difundida pela Igreja durante a Idade Média. Assim, por meio do
“Papado, deve ter nascido também o direito divino das monarquias, reflexo do culto imperial.”
(GRAMSCI, Q. 5, 2001, p. 669) Portanto, a Igreja, ao que tudo indica, absorveu profundamente
importantes princípios da cultura dos romanos, por ela negados quando do seu momento originário.
Por exemplo, um dos principais motivos das perseguições sobre os cristãos, na Roma imperial, deuse justamente por eles negarem o culto tanto ao Imperador quanto a qualquer divindade pagã.
Então, a incorporação de certas tradições romanas pode ser uma das explicações do predomínio do
caráter “cosmopolita” dos intelectuais italianos, tão prejudiciais ao desenvolvimento das bases
iniciais de uma nacionalidade na península, durante a Idade Média e mesmo no chamado
Renascimento. A
“romanização” do “mundo clássico promovida por Cesar foi obra da ação dos chamados
intelectuais “imperiais”, substituídos após a queda do Império pelo clero católico e pela
difusão do catolicismo enquanto cosmovisão da medievalidade, que perdurou até a
emergência do movimento renascentista, espécie de “internacional espiritual” que,
favorecida pelo cosmopolitismo humanista e laicizante de intelectuais sobretudo italianos e
franceses, desenvolveu e cristalizou um novo tipo de cultura transnacional, agora de
conteúdo mais profano e secularizado, adaptado às exigências de uma nova era de
transformações econômicas e políticas que estava a exigir padrões de comportamento mais
racionalizados. (MELLO, 1996, p.59)
Os impactos dos cenários sócio-econômicos e político-culturais do Império Romano, foram
decisivos para a futura organização nacional italiana. E será partindo deste contexto que Gramsci
analisará o Renascimento.
Renascimento, Igreja e Intelectuais
O Renascimento é um período fundamental para o pensamento gramsciano e que certamente
tem centralidade em suas pesquisas acerca da história italiana. Recorrendo a outro autor, Gramsci
expõe:
112
Para Rossi, corretamente, o reflorescimento dos estudos em torno das literaturas clássicas
foi um fator secundário, um indício, um sintoma, e não o mais visível, na formação da
essência profunda da época que traz o nome de Renascimento. ‘O fato central e
fundamental, a partir do qual todos os outros germinam, foi o nascimento e o
amadurecimento de um novo mundo espiritual, que, a partir da enérgica e coerente virtude
criativa que se libera, após o ano Mil, em todos os campos da atividade humana, foi então
trazido à cena da história não somente italiana, mas européia’. Depois do ano Mil, inicia-se
a reação contra o regime feudal, ‘que deixava sua marca em todos os aspectos da vida’
(através da aristocracia fundiária e do clero): nos dois ou três séculos seguintes, transformase profundamente a ordem econômica, política e cultural da sociedade: revigora-se a
agricultura, reanimam-se, ampliam-se e organizam-se as atividades industriais e comerciais;
surge a burguesia, nova classe dirigente...(GRAMSCI, Q. 5, 2001, pp. 640-41)
Então, o Renascimento significou um movimento muito mais amplo do que aquele de
recuperação da literatura e da arte clássicas. Todavia, diferentemente de outros países, neste
momento, as Comunas burguesas da península não foram capazes de romper com a sua fase
político-social corporativa de interesses imediatos. O que facilitou o predomínio da anarquia feudal
sobre a nova situação burguesa contribuindo para a dominação estrangeira (GRAMSCI, Q. 5,
2001). Portanto, a não projeção “nacional” das Comunas, durante o período renascentista, acabou
possibilitando a invasão na península de forças externas. Para o autor, era importante compreender
a função histórica das Comunas e da primeira burguesia italiana, que teve um papel
desagregador da unidade existente, sem saber ou sem poder substituí-la por uma nova e
própria unidade: o problema da unidade territorial não foi nem sequer colocado ou
suspeitado e este florescimento burguês não teve continuação: foi interrompido pelas
invasões estrangeiras. O problema é muito interessante do ponto de vista do materialismo
histórico e, ao que me parece, pode ser relacionado com o problema da função internacional
dos intelectuais italianos. (...) por que Cristóvão Colombo serviu à Espanha e não a uma
república italiana? Por que os grandes navegadores italianos serviram a outros países? A
razão disso tudo deve ser buscada na própria Itália (...) A burguesia se desenvolveu melhor,
nesse período, com os Estados absolutistas, isto é, com um poder indireto, e não quando
tinha todo o poder. Eis o problema, que deve ser relacionado com o dos intelectuais: os
núcleos burgueses italianos, de caráter comunal, tiveram condições de elaborar uma
categoria própria de intelectuais imediatos, mas não de assimilar as categorias tradicionais
de intelectuais (particularmente o clero), as quais, ao contrário, mantiveram e acresceram
seu caráter cosmopolita. Já os grupos burgueses não italianos, através do Estado absolutista,
alcançaram esta finalidade muito facilmente, pois absorveram os próprios intelectuais
italianos. Esta tradição histórica explica, talvez, o caráter monarquista da burguesia italiana
moderna e pode contribuir para uma melhor compreensão do Risorgimento. (GRAMSCI, Q.
5, 2001, pp. 568-69)
Portanto, a preocupação em encontrar as raízes da questão nacional italiana, fez o autor
analisar de perto a particularidade da formação social e política da península. Sem descartar, ao
mesmo tempo, o contexto internacional do período histórico analisado. De certo modo, foi sobre
essa frágil base político-social “nacional” legada pelas Comunas que o movimento renascentista se
colocou como “tradutor” da antiga Roma.
113
Sobre esse vinculo à cultura românica, argumenta-se:
A arquitetura românica. Rossi tem muita razão ao afirmar que todas estas manifestações,
desde 1000 até 1300, não são fruto de artificiosa vontade imitadora, mas manifestação
espontânea de uma energia criativa, que vem de dentro e torna aqueles homens capazes de
sentir e de reviver a antiguidade. Esta última proposição, porém, é errônea, porque aqueles
homens, na realidade, tornam-se capazes de sentir e de viver intensamente o presente, mas,
em seguida, forma-se um estrato de intelectuais que sente e revive a antiguidade e que se
afasta cada vez mais da vida popular, porque a burguesia, na Itália, decai ou se degrada até
o fim do século XVIII. (GRAMSCI, Q. 5, 2001, p. 644)
Essa é uma passagem central para se entender a questão nacional italiana, pois aqui Gramsci
identifica no processo de formação do Renascimento, o momento em que os intelectuais passam a
se distanciar do “povo”, em decorrência da debilidade da principal classe progressista e popular da
época: a burguesia.
O retorno ao mundo antigo, principalmente ao romano, fez os renascentistas incorporarem
além da literatura e das artes em geral, também uma forma de relacionamento distante para com o
“povo”. Ao ser o palco de Roma e do Império, a península italiana acabou sendo um ponto de
encontro das classes cultas de todos os territórios imperiais. Assim, os “quadros dirigentes” se
tornavam “cada vez mais imperiais e cada vez menos latinos”, ou seja, tornavam-se “cosmopolitas:
mesmo os imperadores não” eram “latinos, etc.” Existe, portanto,
Uma linha unitária no desenvolvimento das classes intelectuais italianas (que operaram no
território italiano), mas esta linha de desenvolvimento não é de modo algum nacional: o
fato leva a um desequilíbrio interno na composição da população que vive na Itália, etc.
(GRAMSCI, Q. 3, 2001, p. 371)
Esta é uma indicação importante para se entender os intelectuais e as conseqüências de sua
formação na península.
Como exemplo do “espírito anti-nacional” dos renascentistas, a língua falada pelos grandes
artistas e pensadores não se popularizou, criando mais um obstáculo para o surgimento de uma
unidade nacional. Sobre a existência de um “bilingüismo” entre os intelectuais da época, isto é, o
“latim” e o “vulgar”, Gramsci questiona a interpretação de Rossi. Segundo a análise gramsciana,
este autor não soube explicar o bilingüismo dos intelectuais. Não quis admitir que o “vulgar”, para
os humanistas, era como um dialeto, isto é, não era visto como uma expressão nacional. Por isso, os
114
humanistas acabaram sendo os continuadores do universalismo medieval, certamente sob outras
formas, desconsiderando os elementos potencialmente nacionais. Para o autor sardo, os intelectuais
do Renascimento podem ser considerados como uma “casta cosmopolita” que via a Itália
simplesmente como um lugar sem vida própria. Por isso, não se interessavam pelos problemas
políticos e “nacionais” da península (GRAMSCI, Q. 5, 2001).
Ainda sobre a trajetória da língua na relação intelectuais/“povo-nação”, ressalta-se o
seguinte:
Latim literário e latim vulgar. Do latim vulgar, desenvolvem-se os dialetos neolatinos, não
só na Itália, mas em toda a área européia romanizada; o latim literário se cristaliza no latim
dos doutos, dos intelectuais, o chamado “latim médio” (...) que não pode ser comparado
absolutamente com uma língua falada, nacional, historicamente viva, ainda que não possa
tampouco ser confundido com um jargão ou com uma língua artificial como o esperanto.
De qualquer modo, existe uma fratura entre o povo e os intelectuais, entre o povo e a
cultura. Também os livros religiosos são escritos em latim médio, de modo que mesmo as
discussões religiosas escapam ao povo, embora a religião seja o elemento cultural
predominante: da religião, o povo vê os ritos e ouve as prédicas exortativas, mas não pode
acompanhar as discussões e os desenvolvimentos ideológicos, que são monopólio de uma
casta. (GRAMSCI, Q. 3, 2001, pp. 353-54)
Um dos elementos que motivaram o nascimento da Reforma Protestante foi justamente a
crítica a esta elitização da língua e do conhecimento. Assim, a partir da defesa de uma língua falada
e escrita “nacionalmente”, os reformadores acabaram estabelecendo um vínculo estreito entre
intelectual/povo. Na Itália, a falta de uma produção literária voltada às massas populares fazia com
que elas não tivessem nenhum acesso ao universo da política. A utilização do latim, enquanto língua
erudita estava intimamente ligada ao cosmopolitismo católico. E essa distinção, quase que
originária, entre intelectual/“povo-nação”, será sentida fortemente séculos mais tarde.
De um modo sintético, pode-se dizer que
na Itália – de 600 d.C., quando se pode presumir que o povo não mais compreenda o latim
dos doutos, até 1250, quando começa o florescimento do vulgar, isto é, durante mais de 600
anos – o povo não compreendia os livros e não podia participar no mundo da cultura. O
florescimento das Comunas faz com que as línguas vulgares se desenvolvam, e a
hegemonia de Florença empresta unidade ao vulgar, isto é, cria um vulgar ilustre. Mas o
que é esse vulgar ilustre? É o florentino elaborado pelos intelectuais da velha tradição: é
florentino no vocabulário e também na fonética, mas é um latim na sintaxe. De resto, a
vitória do vulgar sobre o latim não era fácil: os doutos italianos, com exceção dos poetas e
dos artistas em geral, escreviam para a Europa cristã e não para a Itália, eram uma
concentração de intelectuais cosmopolitas e não nacionais. A queda das Comunas e o
advento do principado, a criação de uma casta de governo separada do povo, cristalizam
esse vulgar, do mesmo modo que se havia cristalizado o latim literário. O italiano é
115
novamente uma língua escrita e não falada, dos eruditos e não da nação. (GRAMSCI, Q. 3,
2001, p. 354)
Nesta passagem, fica evidente a profundidade social na qual o distanciamento entre
intelectuais e classes populares foi submetido. Aqui também fica explicito a complexidade e o alto
grau de dificuldade para qualquer movimento político-cultural que tivesse como meta a superação
desse tipo de ligação. Afinal, foram muitos séculos baseados numa relação estranhada entre um e
outro, com avanços e retrocessos. Por muito tempo, praticamente não houve qualquer construção de
uma “subjetividade histórica” coletiva e “nacional-popular” fundamental para a península.
Ao fim de todo esse processo, restaram duas línguas eruditas na Itália: o latim e o italiano, e
este último termina por preponderar e por triunfar completamente no século XIX, com a
separação entre os intelectuais laicos e os eclesiásticos (os eclesiásticos continuam ainda
hoje a escrever livros em latim, mas hoje até o Vaticano usa cada vez mais o italiano
quando trata de coisas italianas; e assim terminará por fazer em relação aos outros países,
em concordância com a sua atual política das nacionalidades). De qualquer modo, pareceme que se deva estabelecer o seguinte ponto: que a cristalização do vulgar ilustre não pode
ser separada da tradição do latim médio e representa um fenômeno análogo. Após um breve
parênteses (liberdades comunais), no qual ocorreu um florescimento de intelectuais saídos
das classes populares (burguesas), houve uma reabsorção da função intelectual na casta
tradicional, onde os elementos singulares são de origem popular, mas onde o caráter de
casta prevalece neles sobre suas origens. Em suma: não se trata de um estrato da população
que, chegando ao poder, cria seus intelectuais (o que ocorreu no século XIV), mas de um
organismo tradicionalmente selecionado, que assimila aos seus quadros indivíduos
singulares (o típico exemplo disto é dado pela organização eclesiástica). (GRAMSCI, Q. 3,
2001, pp. 354-55)
Em outras palavras, mesmo quando houve o surgimento de alguns intelectuais originados
dos setores populares, logo suas forças foram absorvidas pelos estratos superiores de casta. Esse
processo impedia a existência de um vínculo entre intelectuais/povo, mesmo quando aqueles tinham
como origem este.
Recorrendo a um outro autor (G. Toffanin), Gramsci reforça a idéia de que “o fato
verdadeiramente característico do Humanismo ‘é a paixão pelo mundo antigo, através da qual,
quase subitamente, mediante uma língua morta, tenta-se suplantar uma língua popular...’”
(GRAMSCI, Q. 7, 2001, p. 905) E a Igreja desempenhou um papel importante neste processo, pois
ela “favoreceu a separação entre cultura e povo iniciada com o retorno ao latim, considerando-a
como uma sadia reação a toda indisciplina mística.” (GRAMSCI, Q. 7, 2001, p. 906) De maneira
116
geral, a Igreja foi “uma organização intelectual cosmopolita.” (PORTELLI, 2002, p.114)
Como forma de justificar suas preocupações com a história da língua no território italiano,
afirma:
parece-me que, entendida a língua como elemento da cultura e, conseqüentemente, da
história geral, e como manifestação precípua da ‘nacionalidade’ e ‘popularidade’ dos
intelectuais, este estudo não é ocioso e puramente erudito. (GRAMSCI, Q. 3, 2001, p. 355)
O autor dos Quaderni, diz ainda:
Toffanin nega que o Humanismo desemboque vivo na Reforma, já que esta – com sua
separação da romanidade, com a desforra rebelde dos idiomas vulgares e com muitas outras
coisas – renova as agitações da cultura comunal (...), contra a qual surgira o Humanismo.
(GRAMSCI, Q. 7, 2001, p. 906)
Aceitando as argumentações deste seu interlocutor, Gramsci afirma que o Humanismo não
esteve em oposição à Igreja Católica. Na verdade, o movimento humanista foi o
primeiro fenômeno ‘clerical’ no sentido moderno, uma Contra-Reforma por antecipação (de
resto, era Contra-Reforma em relação à época comunal). Eles (os humanistas) se opunham
à ruptura do universalismo medieval e feudal que estava implícita nas Comunas e que foi
sufocada no nascedouro, etc. (GRAMSCI, Q. 7, 2001, p. 907)
Segundo argumenta, a “Comuna era uma heresia em si mesma, pois devia entrar
tendencialmente em luta com o papado e tornar-se independente dele.” (Q. 7, 2001, p. 906) Na
verdade, existiu uma relação significativa entre o êxito político das forças restauradoras
(culminando na Contra-Reforma) e o caráter cultural antipopular do Humanismo (FROSINI, 2007).
As forças oriundas do Vaticano desempenharam “um papel muito significativo nesse processo, pois
desenvolveram uma política voltada para o atendimento de seus interesses na Europa, deixando em
segundo plano a Itália.” (BEIRED, 1998, p. 126)
Ainda sobre esse diálogo é possível ver o seguinte:
Estas teses de Toffanin coincidem freqüentemente com as notas que já redigi em outros
cadernos. Só que Toffanin se mantém sempre no campo cultural-literário e não põe o
humanismo em conexão com os fatos econômicos e políticos que se desenvolviam na Itália
no mesmo período: passagem aos principados e às senhorias, perda da iniciativa burguesa e
transformação dos burgueses em proprietários rurais. O Humanismo foi um evento
reacionário na cultura porque toda a sociedade italiana estava se tornando reacionária.
(GRAMSCI, Q. 7, 2001, p. 906)
Por esses e outros motivos que para o autor, Maquiavel e Lutero podiam ser situados fora do
movimento humanista, afinal eles lutaram contra as tradições mais atrasadas da época e buscaram
117
uma ligação com as massas populares. O “humanismo do Renascimento foi um movimento cultural
essencialmente elitista sem conseqüências para além das classes dominantes.” (CREHAN, 2004,
p.106)
Na história da península os exemplos de tentativas de unificar “intelectual” e “povo”, por
meio da língua, de acordo com a reflexão do autor sardo, deu-se precisamente até o século XVI,
quando Florença exerce uma hegemonia cultural ligada
à sua hegemonia comercial e financeira (o papa Bonifácio VIII dizia que os florentinos
eram o quinto elemento do mundo), há um desenvolvimento lingüístico unitário a partir de
baixo, que vai do povo às pessoas cultas, desenvolvimento reforçado pelos grandes
escritores florentinos e toscanos. Após a decadência de Florença, o italiano torna-se cada
vez mais a língua de uma casta fechada, sem contato vivo com uma fala histórica.
(GRAMSCI, Q. 23, 2001, p. 2237)
Em outras palavras:
os italianos possuíam uma língua literária normativa e padronizada desde o fim da Idade
Média ou começo do Renascimento. Pode-se reconhecer que essa variação normativa da
língua talvez só fosse usada por uma minoria (na Itália, afirmou-se que essa minoria
continuou minúscula pelo século XIX adentro), não havendo penetração nas camadas
inferiores da sociedade ou das regiões periféricas. (GELLNER, 2000, p. 137)
Ainda no início do século XIV, Dante representou essa tentativa de se construir uma língua
unitária para a península, o que não se transformou em movimento cultural amplo. Justamente pelo
caráter predominantemente elitista das origens da cultura moderna italiana que o Humanismo e o
Renascimento foram considerados “essencialmente reacionários do ponto de vista nacionalpopular”, mesmo apresentando certos elementos progressistas no âmbito da alta cultura, restrita aos
“grupos intelectuais italianos e europeus.” (GRAMSCI, Q.29, 2001, p. 2350) Na verdade, a
“questão da língua”, foi uma reação dos intelectuais ao esfacelamento da unidade política que
existiu na Itália sob o nome de “equilíbrio dos Estados italianos”, ao esfacelamento e à
desintegração das
classes econômicas e políticas que se vinham formando após o século XI com as Comunas,
e representa a tentativa, que em grande parte pode-se dizer exitosa, de conservar, e mesmo
de reforçar, uma camada intelectual unitária, cuja existência devia ter um significado não
insignificante nos séculos XVIII e XIX (no Risorgimento). (GRAMSCI, Q.29, 2001, p.
2350)
Em parte, a destruição desta “unidade” ocorreu porque as “cidades-Estado italianas nunca
118
tentaram – individual ou coletivamente – uma transformação deliberada do sistema de governo
medieval.” (ARRIGHI, 2007, p. 239)
De maneira ampla, Gramsci ao identificar os intelectuais de toda uma época com a
expressão “anacionais”, na realidade está afirmando, em termos políticos, que eles não participaram
ativamente do processo histórico concreto, em curso na península. Não se preocuparam com os
problemas centrais da península – como, por exemplo, a exploração de seu território por potências
estrangeiras (BURGIO, 2002; 2007). Um dos motivos que poderia explicar, segundo Gramsci, o
caráter tardio da unificação nacional italiana estaria justamente na configuração cosmopolita dos
intelectuais (COUTINHO, 2003).
Existiam duas correntes político-sociais em luta no século XVI, sendo a de caráter
conservadora mais poderosa e por isso vitoriosa sobre a progressista. Este ganho não se
fundamentou, obviamente, em elementos político-nacionais, mas exclusivamente em aspectos
culturais abstratos, isto é, como fenômeno de uma aristocracia separada do “povo-nação”, enquanto,
no
povo se preparava a reação a este esplêndido parasitismo, com a Reforma protestante (...) e
outros movimentos que seria interessante registrar e analisar, pelo menos, como sintomas
indiretos. O próprio pensamento político de Maquiavel é uma reação ao Renascimento, é
uma referência à necessidade política e nacional de se aproximar do povo, como o fizeram
as monarquias absolutistas da França e da Espanha... (GRAMSCI, Q 5, 2001, p. 648)
Foi isso, então, o que o Renascimento significou para a Itália, em termos políticos, ou seja,
distanciamento entre intelectuais e “povo-nação”. Diferentemente da Reforma protestante
(BERMANI, 2007) e de Maquiavel (PORTANTIERO, 2003). – este no âmbito interno.
Contrariando certas interpretações, o autor argumenta que apesar dos humanistas terem estendido a
produção cultural da Itália a praticamente toda Europa, não houve qualquer avanço concreto e
histórico para a península. Todo o desenvolvimento da cultura, neste momento, deu-se sem a
presença do caráter nacional, aspecto garantido pela configuração cosmopolita dos intelectuais.
Como afirna Gruppi: “a ausência de uma cultura nacional e popular é conseqüência do fato de que
não se verificou na Itália uma verdadeira reforma intelectual e moral (...) A Igreja Católica não só
119
não podia guiar uma reforma intelectual e moral, como mesmo a impediu com a Contra-Reforma. ”
(GRUPPI, 2000, p. 86)
Portanto, o conteúdo ideológico do movimento renascentista italiano não se desenvolveu na
Itália, mas na Alemanha e na França, principalmente, sob as formas cultural, política e filosófica.
No caso da península, o que houve foi a necessidade de importar o Estado e a política modernos,
“porque nossos intelectuais eram a-nacionais e cosmopolitas, como na Idade Média, sob formas
diversas mas nas mesmas relações gerais.” (GRAMSCI, Q. 5, 2001, p. 653) Enquanto os pensadores
italianos forneciam à Europa um novo olhar sobre as artes e sobre o homem, a vida concreta da
Itália se esvaziava de auto-compreensão histórica. Daí a dimensão de o Príncipe de Maquiavel que
didatizou as relações de poder, tão fundamentais para a construção de um Estado unificado
(Monarquia Absoluta), resgatando as massas populares da península da anarquia feudal. Isso, a
partir do que Gramsci chama de “grande política” (BIANCHI, 2008).
No entanto, durante a Contra-Reforma católica, com o afastamento da Igreja em relação aos
“humildes” para se aproximar dos “poderosos”, determinados intelectuais do Humanismo pensaram
em inverter esse movimento. Tentaram criar um nexo com o “povo”, e, por isso, podem ser
considerados como os primeiros precursores históricos da Revolução Francesa e do jacobinismo.
Em outras palavras, contribuíram para processo que pôs fim à Contra-Reforma, difundindo a
heresia liberal, muito mais eficaz contra a Igreja do que o protestantismo (GRAMSCI, Q. 25, 2001).
De qualquer forma, sendo a Contra-Reforma uma saída reacionária para os problemas não
apenas morais, mas também político, social e cultural, da Igreja Católica, Gramsci a identificou
como uma força que sufocava o “desenvolvimento intelectual” (GRAMSCI, Q. 5, 2001, p. 614),
quer dizer, impedia também o aprimoramento científico na Itália. Nos países em que a força contrareformadora era menor, maior era a liberdade científica (GRAMSCI, Q. 6, 2001).
Esta saída contrapopular frente aos problemas sociais, culturais e políticos, sempre esteve
presente nos momentos decisivos da história italiana.
120
A Igreja na península sempre se colocou como um problema a ser resolvido pelos
movimentos político-intelectuais preocupados com a unidade nacional. Essa instituição contribuiu
para a
desnacionalização dos intelectuais italianos de duas maneiras: positivamente, enquanto
organismo universal que preparava pessoal para todo o mundo católico; e, negativamente,
obrigando os intelectuais que não queriam se submeter à disciplina da Contra-Reforma a
emigrarem. (GRAMSCI, Q. 6, 2001, p. 809)
Para Gramsci, o único autor renascentista importante preocupado com a necessidade de
unificação político-cultural entre dirigentes e dirigidos, intelectuais e “povo”, foi Nicolau
Maquiavel. Ele, na leitura gramsciana, foi o primeiro a expor em linguagem política a questão
nacional da península.
Considerações finais
No interior das reflexões feitas por Gramsci, sobre esse longo e importante período da
história italiana, existe o objetivo de compreender o seu próprio momento histórico. Todo o
desdobramento político-cultural das relações sociais construídas na sociedade romana, no contexto
imperial, para os italianos, não servia apenas para compreender o Renascimento e o pensamento de
Maquiavel, mas também o processo de unificação nacional do século XIX – conhecido do
Risorgimento. Até mesmo no século XX era possível, segundo o seu olhar, sentir a força dessa
tradição cosmopolita e anti-nacional dos intelectuais italianos. Em certo sentido, Benedetto Croce
expressava esse movimento, em sua época.
De qualquer maneira, o período destacado aqui, entre o Império Romano e o Renascimento,
coloca-se como chave para entender, por exemplo, os motivos que levaram os italianos a não
construírem a sua Monarquia Absoluta, tal como fizeram os franceses e os espanhóis. Como foi
demonstrado, na leitura gramsciana, o papel da Igreja foi decisivo para tal fato. A sua influência
cultural e política sobre os intelectuais deu continuidade ao processo iniciado pelos romanos.
Esse trabalho historiográfico de Gramsci, não tinha como objetivo a erudição, ao contrário, a
sua preocupação era como, a partir de tal herança, poder-se-ia criar uma força realmente nacional na
121
península. Isso não no sentido do nacionalismo que acabou caracterizando o fascismo, por exemplo,
mas na tentativa de fomentar um movimento nacional progressista partindo das classes populares,
isto é, rompendo com o distanciamento entre nação/povo (BARATTA, 2004). O seu projeto original
de nação, fundado no nacionalpopular (REIS, 2009), era a principal motivação para se compreender
o longo e complexo processo histórico italiano. A luta que Gramsci trava contra o cosmopolitismo,
ou seja, “contra a subestimação da importância de pertencer a uma comunidade nacional”, sinaliza
que “a nação lhe parece uma passagem dificilmente contornável na longa marcha para a
‘reunificação do gênero humano’.” (LIGUORI, 2007, p. 70)
E foi graças a esse seu esforço intelectual que pôde contribuir, de maneira singular, sobre a
possibilidade de se pensar e construir uma nação partindo do popular.
Referências
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GRAMSCI, Antonio. Quaderni del carcere. Torino: Einaudi, Edizione critica dell’Istituto Gramsci
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GRUPPI, Luciano. O conceito de hegemonia em Gramsci. Rio de Janeiro: Graal, 2000.
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MELLO, Alex Fiuza de. Mundialização e política em Gramsci. São Paulo: Cortez, 1996.
122
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Fortuna y virtud en la república democrática: ensayos sobre Maquiavelo. Buenos Aires:
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PORTELLI, Hugues. Gramsci e o bloco histórico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.
REIS, Claudio. O nacional-popular em Antonio Gramsci. Tese (Doutorado), Universidade
Estadual de Campinas – UNICAMP, SP, 2009.
123
O beco e a arte Esquizo em Natal-RN
The alley and the Squizo art in Natal-RN
José Marcilio de Sousa Façanha1
Recebido em 14/02/2013; revisado e aceito em 22/05/2013
Resumo: Realizamos pesquisa na cidade do Natal-RN onde buscamos compreender o ressoar de manifestações
inventivas de artistas oriundos das “periferias” do campo “estabelecido” das artes plásticas na reflexão a respeito do
cotidiano na cidade. Tratasse de perceberos os efeitos das criações de sujeitos-artistas de uma determinada “trama": o
complexo cultural conhecido pelo nome de Beco da Lama.
Palavras - chave: Arte, periferia, cotidiano.
Abstract: Research conducted in the city of Natal-RN where we seek to understand the resounding demonstrations of
inventive artists from the "periphery" of the "established" in the visual arts reflection on everyday in the city. Perceberos
were dealing with the effects of subject-creations of artists from a particular "plot": the cultural complex known as the
Beco da Lama.
Key words: Art; periphery; everyday.
Seja com pincel, giz de cera, lápis ou caneta, artistas da Cidade do Natal-RN transformam
o complexo boêmio conhecido popularmente como Beco da Lama 2 em um espaço de exposição e
criação de arte e vida. Aproveitando qualquer superfície plana, uma parcela de artistas trazem para
as telas sentimentos de batalhas em um ritmo que não se podia alcançar sem a emergência de um
espaço poético que cintila a verve do acontecimento da arte-esquizo que virtualmente ocorre às
bordas dos campos referendados das instituições de fomento a arte e cultura.
Trazemos determinada probematização a partir de nosso contágio com as práticas de
alguns artistas do espaço artístico do complexo - Beco da Lama – Natal RN. Escavamos
sociologicamente àquele terreno e encontramos, junto às obras, ditos e não ditos de uma poética das
formas.
Observamos nessa zona de contágio artístico uma
emergência de
si em práticas
espontâneas de personagens que passaram a ser sujeitos de sua própria arte.
1 José Marcilio de Sousa Façanha é estudante do programa de Doutorado em Ciências Sociais pela Universidade
Federal do Rio Grande do Norte( Fone : 32153613), sob orientação da Prof. Dra. Norma Missae Takeuti.
Atualmente é bolsista do programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais – REUNI.
2 A Rua Doutor José Ivo e a Rua Cel. Cascudo - Bairro Cidade Alta\ Natal são a referencia geográfica do que seria o
Beco da Lama, porém o termo Beco da Lama ganhou efeito de referência maior e agora ruas circunvizinhas
também carregam esse nome extraoficialmente. Um exemplo disso é que a maioria dos eventos que ocorrem no
bairro Cidade Alta levam o nome do Beco: Festival Gastronômico do Beco; MPBECO etc.
124
Deparamo-nos com um complexo artístico que parece se atualizar diariamente, e logo
acreditamos estar também em meio a um cenário da emergência dos possíveis, a emergência do
tempo em devir, do tempo da arte em movimento, para além de qualquer disciplinamento
institucional, para além de um tempo técnico promovido por galerias, institutos oficiais, academias
etc.
Tratamos de uma arte que aqui chamamos arte-esquizo em alusão ao termo “esquizo”
proposto por Gilles Deleuze e Félix Guatarri (1995). São formas de pensar que consideram
comportamentos desviantes (semelhantes aos apresentados em um quadro clínico de esquizofrenia)
como parte importante para compreende as sociedades em seus movimentos subterrâneos. O
esquizo escoa por caminhos multilineares, errantes, repletos de linhas de fuga que escapam
principalmente aos aprisionamentos de organizações hierárquicas. Dessa forma, surgiria também
para nossa proposta a busca por um olhar – esquizo – voltado para determinados acontecimentos
sociais, em nosso caso, as práticas artísticas ocorridas no Beco da Lama – Natal\RN. Seria um
espaço que se aproximaria de: uma arte esquizo onde temos: obras dispostas em um universo
caótico; personagens artistas das mais diversas tribos; um mundo de afetações onde a loucura é
brindada, onde não existem heróis nem zona de conforto. Arte esquizo seria um conjunto de
coordenadas que devem nos levar por trilhas desconhecidas, por telas sinalizando para todas as
direções. Telas, esculturas, espaços de recepção e promoção se misturando a bares; sebos e
oficinas; espaços boêmios; espaços marginais; poetas; bêbados; viciados; personagens de levantes
artísticos que passam a ocorrer sem o intermédio das burocracias de institutos e museus.
Encontramos uma arte que se alastra tal qual um rizoma que define sua própria geografia. A arte
esquizo.
Em sua condição de “multitude” e ocorrendo num circuito paralelo aos dos centros de
controle estético ( institutos nacionais e internacionais, museus, universidades etc. ), a arte-esquizo
é também aquela que encontramos ali em meio aos afazeres comuns dos frequentadores, artistas em
geral(reconhecidos e anônimos), passantes. Observamos manifestações de potência de vida que
125
cintilam nos sebos e nas paredes de praticamente todos os bares e estabelecimentos do complexo do
Beco da Lama. Acreditamos se tratar de um espaço de prática artística que emergiria com força de
acontecimento propondo determinadas formas de agir e criando resistências a vida cotidiana da
cidade.
Re-esculpindo olhares nas inventividades de Jordão3
A entrada do Edifício Kefrem4 em Natal - RN nos convida para um passeio por conexões
artísticas moldadas em suas paredes, onde podemos ver emergir o mirmidão Aquiles 5 em sua
carruagem, após ter vingado a morte de Pátrocolo seu sobrinho, matando o maior guerreiro do lado
troiano, o príncipe Heitor.
Fig. 1 - Guerreiro Aquíles no mito da guerra de Troia . Foto Marcilio Façanha.
3
Em um dos nossos últimos encontros com José Jordão de Arimatéia, esse artista informou seu afastamento do
espaço das galerias do Beco do Lama, lugar boêmio da cidade do Natal. Para esse autor o espaço deixou de ser um
atrativo para suas artes e Jordão diz preferir trabalhar agora diretamente com os compradores sem deixar mais seus
quadros e esculturas naquelas galerias do Beco. No entanto, muitas de suas obras ainda ilustram a paisagem das
galerias do daquele espaço sendo facilmente encontradas nos Sebo Galerias de Severino Ramos e Jotó por exemplo.
Além disso, suas andanças naquela atmosfera boemia, também segundo depoimento de outros personagens artistas
daquele espaço, ajudaram a construir o que é hoje um dos principais espaços das artes em Natal, o Beco da Lama.
4 Referimo-nos ao edifício localizado na avenida salgado filho em um bairro nobre da cidade. O local é de
propriedade particular e funciona como albergue para estudantes recém-ingressos na Universidade Federal do Rio
Grande do Norte. O local é repleto de obras do artista Jordão. Todas as obras construídas utilizando como matéria
prima o cimento comum encontrado em lojas de construção.
5 Aquiles é um dos personagens míticos apresentado por Homero (Poeta grego que viveu nos séculos VIII ou VII
antes de Cristo) como um dos principais guerreiros da batalha de Troia.
126
Essa6 é uma das muitas obras que o artista José Jordão Arimateia, 58 anos, esculpiu na
cidade do Natal. Em um de nossos primeiros encontros, Jordão disse-nos sempre ter tido vontade
de ser artísta, mesmo não tendo certeza da especialidade em que iria atuar. Ainda criança,
brincando de desenhar em chão de terra, esse personagem diz ter percebido em seus traços, algo
que lhe satisfazia, e isso o fazia querer cada vez mais se dedicar a arte de desenhar. Seus primeiros
elogios foram dados pelos que passavam por ele, e viam suas práticas de desenho em ação. Sim, os
desenhos eram na terra, não deveriam durar até a próxima chuva ou até a próxima rajada de vento,
mas se territorializavam no imaginário daquele garoto que reiventava sua realidade e resistia às
condiçoes adversas com o que tinha em mãos.
Jordão informa-nos ser: pintor; desenhista; escultor e entalhador.
Em nosso primeiro
contato, Jordão informou que gosta de trabalhar com material que seja de fácil acesso para ele. A
obra descrita anteriormente e que retrataria a figura mitológica do guerreiro Aquiles, além de muitas
outras, foi feitas apenas com tinta de parede comum, verniz, cimento e massa de construção. Jordão
revelou ainda não ter conhecido outro artísta que faça uso da mesma técnica. Em uma exposição na
cidade de Fortaleza,-CE no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, promovida pelo Governo do
Estado do Ceará, onde haveria premiação para o melhor trabalho artístico em diferentes categorias,
Jordão relatou que teve que ensinar um outro artísta, sua técnica para que houvesse ao menos um
candidato concorrendo com ele, na mesma categoria.
Esse foi um dos primeiros episódios marcantes para nosso olhar sobre a arte da Cidade do
Natal. Esse encontro nos incitou a descobrir mais sobre esse universo da arte, aqui interpelada
inicialmente pelas falas e obras de Jordão. Era dele o Anjo Azul 7, escultura erguida na Avenida
Hermes da Fonseca que parecia nos avisar: aqui tem arte! Isso pelo menos era a intenção do dono
da galeria à época. Atualmente, a galeria depois de já estar desativada há alguns anos, foi vendida
para um empresário do ramo de tapeçaria e o destino do anjo ficou incerto.
6
7
Ver Figura 1 em anexo.
Ver figura 2 em anexo
127
Fig. 2 - O Anjo Azul. Imagem disponível no endereço eletrônico:
jornaldasartes.blgspot.com/2010_07_01_archive...
Fig. 3 - O anjo Azul sendo removido da Avenida Hermes da Fonseca, Natal RN. Foto Marcilio Façanha 2012.
A expressão da arte de Jordão é apregoada em qualquer superfície. Em um de seus quadros
que encontramos nos ateliês do Beco da Lama vimos retratada uma dança de capoeira em que
128
Jordão nos apresenta as sensações que teve em seu encontro com aquela u arte marcial. Jordão a
pintou em uma tábua tirada de um móvel usado8. São capoeiristas sem rosto e com os corpos
retorcidos dançando ao som do berimbau e atabaque. Onde mãos se tornam pés e os pés são o
prolongamento do chão. Os corpos não estão nem de frente nem de costas, não há referencia para o
corpo, porém Jordão parece preocupar-se mais em colocá-los no
compasso e no ritmo dos
berimbaus e atabaques. As velas das jangadas, o cenário de oceano ao fundo e o próprio jogo de
capoeira são caracteres que poderiam levar a obra para a esfera da arte figurativa, mas Jordão, ao
trazer quase que para fora do quadro os dois personagens de destaque, chama o figurativo para o
terreiro, onde ele, é quebrado e retorcido no movimento dos corpos. O figurativo fica para trás.
Jordão com seu jogo de cores e deformações apresenta o movimento que faz o cenário fluir junto,
se misturar. A ideia se rende ao ritmo e o olhar é convidado a dançar junto com a obra.
Fig. 4 - Obra de Jordão pintada em um compensado de madeira. A obra estava junto a outras obras também pintadas
sobre outras restos de madeira de moveis usados. . Foto: Marcilio Façanha. Foto tirada no espaço de Angelus
Desmoulins- Jotó. Abril 2012.
A esquizo oficina de Jotó
Aqui, apontamos para a “ré-existência” de agrupamentos que, mesmo coexistindo no
cotidiano com o saber personificado dos institutos, tanto do campo estabelecido das artes plásticas,
como também de outras esferas sociais, consegue, em pequenos movimentos, procriar em seus
8
Ver figura 4 em anexo
129
novos espaços, fomentando cada vez mais, possibilidades que ultrapassam imposições de campos
de saber hegemônicos.
Fig. 5 - Obra de Jotó exposta em sua Galeria. Foto Marcilio Façanha 2011.
Partem dali efeitos signatários que constitui em seus desdobramentos o imediato de uma
vida resistente em inventividades ao presente. Presente esse, repensando ou “re-existindo” em
práticas artísticas nesse território. Nessa proposta de vida e arte anunciamos um personagem que é
ao mesmo tempo artista plástico, agenciador de obras de arte e marceneiro: Ângelo Desmoulins, o
Jotó, que, dentre outras características, é divulgador artístico e conhecedor, tanto do modo como são
produzidas as telas, como de aspectos biográficos dos artistas que as produziram. Esse território de
Jotó
é na verdade uma mistura de oficina de fabricação de molduras e galeria de arte, além de
outros desdobramentos possíveis. Seria Jotó quase um marchand, mas, mais que isso, é também
artista e crítico em seu maquinário, seu sistema, que é não necessariamente seu, mas o envolve
nessa relação de produção mútua. É o mundo de Jotó que parece ser também de uma parcela da
arte potiguar que se pretende autônoma, “periférica”, aquela que “acontece” fora dos museus,
resistente aos “panoptismos”9 dos palácios e de seus institutos.
Foi nesse ambiente que
encontramos todos os artistas que deveremos citar nos tópicos seguintes.
9
Termo referente ao conceito de “olhar panóptico” trabalhado por Foucault em Microfísica do Poder e outros
Textos.
130
Fig. 6 - Obra de Fabio Eduardo exposta na Galeria de Jotó em Abril de 2012. Foto Marcilio Façanha.
Em alguns momentos, conversando com Jotó, esse personagem astuto do território das
artes “periféricas”, captamos o desdobramento
de novas histórias, de
micro-histórias
re-
cotidianizadas, contadas, não somente pelos registros gerais da história das artes, mas agora, por
aqueles que sentem os efeitos do fenômeno dessa produção antropológica “re-territorializante”. Na
fala de Jotó:
“...aqui na verdade rapaz é uma comunidade(...) pra expor aqui basta a gente se
conhecer... Eu recebo qualquer artista: novo; velho; bom, porque aqui a gente não
tem esse negócio não(...) e ao contrário,se precisar de alguma ajuda tem Eu, tem
Fábio, agente dá uma mão. Não é dizer que a gente vai ensinar... mas a gente
ensina também. Já aparecerem muitos aqui(...) aqui é uma oficina como uma
galeria também...”( Ângelo Desmoulins – Jotó 2010.)
Diferente de como, por ventura, ocorre em museus ou galerias, onde obras ficam expostas
de forma bem calculada para dar destaque e/ou distinção aos quadros, em luzes adequadas, o ateliê
de Jotó surge-nos mais como uma espécie de “oficina”, onde, seu mundo estaria em construção e
essa construção não cessaria. Os quadros ficam amontoados no chão ou em estantes e mesas, todos
dispostos sem hierarquia e de forma aleatória.
131
O “acontecimento” da arte potiguar pincelada no beco da lama e em suas adjacências,
passa, como já descrevemos anteriormente, a ocorrer também, como é o caso do ateliê de Jotó, à
margem dos grandes centros promotores de distinção política e artística. Centros que tem como um
de seus pontos importantes de representação o museu, pois, o museu seria: “um lugar onde
visitantes solitários e passivos vêm encontrar a solidão e a passividade de obras despojadas de
suas antigas funções de ícones da fé, de emblemas do poder ou de decoração da vida dos
Grandes”.( RANCIÈRE, 2011 p. 03)
Apesar dessa aparente “não organização” de seu espaço, Jotó identifica com precisão, onde
está cada obra e até a ocasião em que lhe foi entregue. Tudo isso, como observamos, sem o cuidado
de reproduzir as maneiras estéticas tecnicistas dos salões de obras de arte tradicionais 10. Assim,
numa espécie de “oficina viva”, ocorrem também produções autônomas em passos nômades,
soltos, “esquizos”11. São potências não ramificadas por correntes unívocas, mas sim, advindas de
territórios múltiplos que, nesse tipo de organização, parecem ganhar força para resistir às
adversidades de um presente disciplinarizante em nossa sociedade.
Os quadros e os personagens corriqueiros nos sebos galerias nos dão pistas de seus
desvios. Trazem relações outras que para contemplarmos devemos chegar bem mais perto do que
chegamos quando estamos nos espaços determinados pelas linhas que separam a arte dos
freqüentadores de galerias convencionais. Acreditamos que nos contatos com esses artistas e seus
respectivos espaços ultrapassamos barreiras que nos separavam dos artista da arte e talvez da
vizualização de uma vida criativa em vias de desenvolvimento.
Pensamos enxergar aqui esses personagens como artífices de si e do mundo. Vislumbramos
a possibilidade de os artistas do Beco escaparem a captação instrumental dos institutos e,
promoverem, com sua disposição nômade, no popularmente nomeado
“Beco da Lama”, um
maquinário de guerra apontado contra as centralidades dos Institutos. Para Deleuze, a máquina de
10 Não há livros de assinatura, não há luzes específicas, não há nada que se assemelhe à estrutura de um salão
tradicional de artes plásticas.
11 Sobre o termo “esquizo” conferir Deleuze e Guattari 1995.
132
guerra:
Faz valer um furor contra a medida, uma celeridade contra a gravidade, um segredo
contra o público, uma potência contra a soberania, uma máquina contra o aparelho (Deleuze 1997,
p.08)
Edvaldo Correia - Catarrô e a plástica da rua.
Um de seus poucos quadros12 considerado por outros artistas de lá do Beco como uma obra
Naif, estava em destaque na sala principal da oficina de Jotó até o momento de nossa última
passagem por lá.13 Sua obra encontrava-se em posição privilegiada em meio à quadros de artistas
premiados e consagrados do Beco da Lama e do estado do Rio Grande do Norte como Assis
Marinho e Tiago Vicente. Mas, o que dizer desse personagem que já dormiu nas calçadas da
Cidade Alta, vive dia após dia com o pouco de dinheiro que consegue, pequenos favores aos
comerciantes e frequentadores do lugar, e que, no interstício formado entre a urgência de garantir
sua sobrevivência e os enfrentamentos para com aqueles que, a ele menosprezam, consegue
desdobrar sua vida em momentos de arte lançados sobre telas? Obras que, por mais que sejam
cinco ou seis e não tenham daquele lugar saído para enfeitar um salão de algum nobre comprador,
obtiveram respeito e consideração entre demais artistas, apreciadores e alguns agenciadores de arte
que frequentam as galerias do beco? Voltando à imagem do quadro, o que dizer da imagem de um
rio que poderia ser o que está há alguns metros dalí? Perguntamos a Catarro, que em depoimento,
diz ter o sentido o efeito do em sua intimidade, tomando-o de empréstimo junto ao voar de pássaros
e a passividade de um farol que parece só olhar para Catarrô, quadro que parece que lhe dirigir o
olhar.
O quadro dele está lá apregoado na Oficina-Galeria de Jotó. Lá ele obteve um espaço que
potencializou sua arte, sua extensão artística de vida, rizomas de sua existência. Sua força criadora
chutou então para longe a necessidade de um título de artista ou mesmo alguma idéia que o julgasse
12 Ver figura 7 em Anexo.
13 Meados do mês e Março de 2012.
133
incapaz por viver como mendigo, pois, mesmo enfrentando o que poderíamos considerar serem
adversidades advindas da prática de mendicância ( ao menos em certos aspectos), preservou e
manifestou sua força vital, deu voz e cores a sua vida que parece cintilar agora o momento eterno de
seu infinito apregoado na parede do atelier de Jotó.
Edvaldo Corrêa ou simplesmente “Catarrô”, natural de Recife-PE, nascido no ano de 1974,
já teve dois quadros participando de amostras coletivas na Suíça. Veio para Natal em 1992, mas
ainda não fixava residência aqui à época, pois acompanhava movimentos anarco-punks 14 pelo
nordeste Brasileiro. Declara-se fã das obras dos artistas Van Gogh e Basquiat. Tem o Beco da lama
como uma de suas escolas e sua atual casa. Em um rápido encontro perguntamos se, ao enfrentar
essa situação de morar na rua, havia nele algum sentimento de solidão, Catarrô respondeu-nos:
“nunca senti solidão, sempre tem algo ao meu lado”.
Falando sobre a sua condição de artista, Catarrô ressalta que a vida do artista na batalha
do cotidiano para sobrevivência é como um jogo de perda e ganho: “ele sempre perde; ganha;
perde; isso é a história dele, passa para o dia a dia dele. Tanto faz ele perder ou ele ganhar, é o
outro preço da vida e o artista sempre mete as caras”.
14 Agrupamentos caracterizados por seguirem ideais anarquistas e comportamentos da cultura punk. Em
aproximadamente seis anos de aproximação que tive com os grupos denominados anarco-punks posso descrevê-los
brevemente como grupos de resistência política e cultural que ganharem força no Brasil dos anos de 1980 munidos
de ideais anarquistas remanescentes de movimentos nacionais e internacionais que lutavam e ainda lutam por
liberdade. O comportamento nômade, à critica a cultura ocidental ou qualquer forma de organização hierárquica, as
musicas de protesto embaladas pela melodia do hardcore e o visual punk copiado dos punks da Inglaterra (jaqueta
de couro, botas, corte de cabelo estilo moicano) fazem um pouco do perfil histórico desse grupo.
134
Figura 7. arte de Edvaldo Correia exposta na galeria de Jotó. Foto Marcilio Façanha 2012.
Fig. 8 - A lenda do bicho de revelação exposta no Bardall’os. Autor: Cícero Marques. Foto Marcilio Façanha
2010
135
Fig. 9 - Henri Rousseau: A Guerra, 1894. Imagem disponível em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Henri_Rousseau. Acessada em dezembro de 2010.
Fig. 10 - A lenda do Boi e seu Capitão. Autor: Newton Avelino, exposta np Bardallós, 2010. Foto Marcilio Façanha.
A Disposição primitiva em Djalma Paixão
“eu sou artista popular, eu vim do popular eu pinto o popular”
Djalma Paixão – Abril 2011
Djalma Paixão, em depoimento revela-nos sua disposição em pintar a cultura popular ligada
a festas religiosas: a “lapinha”, o “pastoril”15, o profano dos cordéis, boi de reis – “mascarados e
15 O pastoril e a lapinha são representações cênicas em festejos de cunho religioso que tem parte de suas origens
localizados na Península Ibérica e que no Brasil, por meio de setores sociais mais populares agregou-se
características novas, apontando novas formas para a apropriação das tradições, onde o sagrado e o profano são
representados, e nesse contexto de festejo, ao mesmo tempo também entra em cena puxando os grupos a figura do
“Bedegueba”, também chamado bufão( e que pode receber outras denominações). Ver mais informações na página:
136
enfeitados”. Os quadros de D. Paixão16, ainda segundo informação colhida com esse Artista,
carregariam lembranças de expressões populares.
Resgates de sensações de manifestações
populares mais remetentes ao centro oeste, norte e nordeste brasileiro. Apesar de podermos
encontrar
traços culturais de outras regiões e nações17, esses traços “primitivos” de Paixão,
mesclam-se aos adereços dos festejos nas telas de Djalma Paixão, dando-nos, assim como ocorre
também nas próprias danças do pastoril e lapinha, margem
para pensarmos em ações mais
inventivas, do que miméticas em relação a outras culturas. E é justamente no “engodo” dessas
“linhas difusas” que justamente surgem composições desse artista norte rio-grandense. Com suas
andanças pelo sertão brasileiro e á bordo de uma trupe circense, assim como Djalma Paixão nos
informou, pensamos a possibilidade de esse artista ter sido afetado por diversas representações de
figuras arquetípicas, desdobradas em festejos religiosos ditos “populares”.
Fig. 11 - Pastoril, tela de Djalma Paixão exposta no ateliê de Jotó. Foto Marcilio Façanha, 2011
O sujeito-artista, Djalma Paixão diz ter encontrado seu território nas diretrizes do que,
http://www.recife.pe.gov.br/especiais/brincantes/8a.html Acessado em 12 de junho de 2011.
16 Ver figura 11 em anexo.
17 Seria em Portugal que encontraríamos reminiscências desses festejos, mas, com outro formato.
http://www.recife.pe.gov.br/especiais/brincantes/8a.html. Acessado em 12 de junho de 2011.
Cf.
137
depois de Rousseau18, ganhou notoriedade como sendo arte naif, termo que carrega consigo o lugar
para onde devem ir os que não obedecem aos padrões técnicos da pintura clássica das escolas
europeias, não obedecem ao que chamam de noções de “profundidade” ou outros termos que, por
vezes, passam quase despercebidos como sendo verdades “naturais” em arte.
Se, a pintura clássica, o realismo, hiper-realismo e os outros estilos que seguem e se
orientam por técnicas de desenho e pintura, lançam para o interior da tela, essências que buscam
revelar, por quê não dizer que o artista naif , lança para a superfície: o interior, o que, por “fora”
se perdia em sua mente? Daí, a saber: qual discurso poderia afirmar que o artista naif seria
ingênuo?
Pablo Picasso foi um dos primeiros artistas a reconhecer o alcance desse tipo de
manifestação artística do que se chamou arte ingênua, essa ação que deveras se esforça para tirar a
imagem de seu alcance e pô-la em perspectivas distanciadas, em adorná-la com outras imagens ao
fundo. Essa arte a que procuram chamar “popular” associando-as ao estilo naif é posta bem
“chapada”(sem a impressão de profundidade). Mesmo sendo por meio de deformações ou de
formas fantásticas do imaginário criativo, a arte naif é lançada à superfície nos atingindo.
D. Paixão vive da arte naif ou, ainda segundo ele, da arte “popular”. Nas palavras desse
artista, e isso podemos procurar também em suas obras, esse “popular” pode indicar algo mais
relacionado ao “imediato” das manifestações folclóricas, das danças
e figuras do imaginário
arquetípico de um tempo agora “redescoberto” na mente de D. Paixão, nas formas e cores das
paisagens sociais que afetaram seu olhar.
Em conversa com D. Paixão, nas proximidades do Beco da Lama em meados de abril de
2011, esse artista revelou-nos ainda esperar reconhecimento de seu trabalho por parte dos institutos
de cultura do estado do Rio Grande do Norte. Em maio desse mesmo ano, D. Paixão ministrou um
curso sobre historia da arte naif , evento organizado pela Fundação Cultural Capitania das Artes, e
18 Henri Rousseau obteve reconhecimento de seus trabalhos em exposição organizada Salon des Independents [Salão
dos Independentes], de 1886, em Paris. A boa impressão que seus quadros causaram a pintores como Pablo Picasso
(1881 – 1973), Odilon Redon (1840 - 1916), Paul Gauguin (1848 - 1903) rendeu lugar especial para arte naif no
salão de arte moderna de Paris. Conferir mais informações sobre arte naif no sítio:
http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/arte-naif/arte-naif.php
138
que fez parte das comemorações do Dia do artista Plástico em Natal.
Assis Marinho: da Paraíba à consagração artística nos Terrítorios do“Beco da lama”.
“viram que eu não pinto por pintar, que eu pinto com minha
alma, e isso me deixou muito feliz para que eu pudesse
pintar cada vez mais” Assis Marinho 01/10/2011
Natural de Cubati, sertão da Paraíba, Assis Marinho 19 veio ainda criança para o Rio Grande
do Norte com a família. Filho de escultor de imagens sacras, Walfredo Marinho, Assis enveredou
pelos caminhos do desenho e pintura ainda na infância. Seu nome é prontamente reconhecido no
meio das artes plásticas potiguares. Suas obras também já ilustraram exposições em grandes centros
culturais do estado do Rio Grande do Norte e demais estados brasileiros. Suas desenhos nos levam
à imagens sacras, imagens do cotidiano sertanejo, cenas corriquieras de pescadores natalenses e até
quadros em homenagem a personagens da literatura mundial como “Dom Quixote de la Mancha”,
personagem da Obra de Miguel de Cervantes que encantou Assis Marinho, e que, para demonstrar
seu amor , segundo Assis, ele pintou mais de 1500 obras retratando a figura do famoso “cavaleiro
andante”.
Fig. 12 - Assis Marinho expondo uma de suas obras. Imagem disponível em:
http://www.portalunep.com.br/noticia.php?id=3483 Acesado em 04/04/2011
19 Ver figuras 12; 13; 14.
139
Fig. 13 - Obra de Assis Marinho. Imagem disponível em:
http://www.geraldo2006.com/producao/interna_noticia.php?cds=100&cdn=651# Acessada em 04/04/2011
Fig. 14 - Obra de Assis Marinho. Foto Marcilio Façanha 2012
140
Além de participar de importantes exposições no Estado do Rio grande do Norte, Assis
Marinho já expôs suas obras no: Museu de Arte Contemporânea - MAC - São Paulo/SP - 1983;
Mostra livra da Praça da República – São Paulo/SP 1979; Casa da cultura de Votuporanga Votuporanga/SP 1979. Nosso encontro com esse artista se deu no primeiro semestre do ano de
2010, no que é hoje um lugar que abriga encontros de novos artistas, artistas da década de 1980,
1970, artistas plásticos potiguares, músicos, poetas, atores - o “Bardallo`s Comida e Arte”. Foi um
encontro repentino que rendeu uma conversa longa que nos levou a investigar e nos debruçar sobre
os passos desse “sujeito-artista”. Nesse primeiro encontro, Assis Marinho contou-nos um pouco de
sua trajetória desde a infância no sertão da Paraíba até os dias atuais. Na ocasião de nosso primeiro
contato Assis andava de mesa em mesa tentando vender uma de suas mais recentes obras em giz de
cera. Era uma imagem da Santa Ceia.
A Fama de Assis Marinho no estado é constatada facilmente, bastam algumas visitas ás
galerias de arte particulares, sebos, alguns estabelecimentos de pequeno porte da cidade e também
em blogs da internet destinados aos trabalhos de artista potiguares, porém, reportá-lo como artista
referência, como figura reconhecida institucionalmente como é o caso dos já consagrados Newton
Navarro e Doryan Gray Caldas talvez, ainda não sabemos ser possível. Para o atual diretor da
Pinacoteca do Estado – Novenil Barros 20, Assis Marinho, apesar de ser considerado um talentoso
artista, permanece no “semi-anomimato” que, ainda segundo Novenil Barros, devido em parte, à
falta de políticas direcionadas ao campo das artes plásticas, que venham a dar maior amplitude ao
trabalho de artistas como Assis e, em parte também, a postura do Próprio Assis Marinho, que, ainda
de acordo com Novenil, detém um comportamento muito “anárquico” e por vezes “auto-destruidor”
que estaria prejudicando sua própria promoção frente aos aparelhos políticos de fomento cultural e
artístico.
Demais artistas potiguares como Newton Navarro e Dorian Gray Caldas já tem seus
quadros em exposição permanente na pinacoteca do estado. Newton Navarro, por exemplo, dá
20 Entrevista cedida à pesquisa em setembro abril de 2011
141
nome a uma das maiores obras arquitetônicas da Cidade de Natal: a ponte “Newton Navarro”, uma
obra de grandes proporções arquitetônicas que liga zona norte à zona sul da cidade.
Assis Marinho, Jordão Arimatéia,
No entanto
Tiago Vicente, Djalma Paixão( e mais artistas que são
localizáveis nos desvios do Beco da Lama)
são ainda figuras marginais à propostas de
institucionalização de suas artes.
São situações como essas anteriormente descritas que nos levam a observar esses
personagens e seus respectivos territórios em seus signos visuais, e, buscamos sim, percepções que
trasbordam dessas obras e se espalham para além das galerias, invadem a subjetividade de ruas e
becos deixando rastros . A cena “undergroud” das artes plásticas potiguares parece ser ao mesmo
tempo, mãe e filha da continua atuação desses artistas.
Arte Esquizo, Erotismo e Subversão nos subúrbios ocultos da Cidade Alta
Mais uma vez a arte esquizo nos leva agora para o giro em seu agenciamento maquínico,
seu “corpo sem orgãos”21, que se reiventa na resistência aos parâmetros organizacionais de massa,
propostos pelos mecanismos disciplinarizantes da geopolitica capitalística.
Suas conexões
múltiplas e rizomáticas afrontam e penetram nas especificidades do solo, invadem os terrenos mais
do que em suas extensões, adentrando em seus conteúdos substanciais. A arte se esparrama por
territórios que são terra, globo, esfera e gente. Nós a localizamos em sua trajetória nômade
expressa por mãos, pés, vozes e corpos de esquizo artístas.
A arte que encontramos contextualizada em “centralidades”, museus, centros culturais,
pinacotecas; se está nesses locais é porque passa por caminhos diversos (mesmo que estes possam
estar territorializados em situações urbanas). Lembremos que se a encontramos na “periferia” de
estruturas objetivas e subjetivas da sociedade, ela também passeia e não se desconecta
completamente de territórios circulares - esferas sociais estabelecidas, pois, assim como escrevem
21
Conceito de Antonin Artaud também trabalhado por Deleuze e Guatarri que deverá ser esclarecido em nossos
escritos posteriores. Para mais esclarecimentos Conferir Galeno, Alex: Antonin Artaud – Cartógrafo do Abismo.
Material online, acessado em 19/11/2011, disponível em: www.eca.usp.br/nucleos/filocom/alex.doc
142
Deleuze & Guatarri “as árvores tem linhas rizomáticas, mas os rizomas tem pontos de
arborescência”(Deleuze, Gatarri, 1995 p.47). A arte do beco nos lembra o caminho circular, é o
sair, voltar, se esquivar, o projetar-se em linhas de fuga e perceber de forma inteligível o mundo
que o circundante, o sensível.
Conversamos com Tiago Vicente, artista local que já tem seu nome reconhecido em
lugares contenedores de práticas artísticas, mais precisamente das artes plásticas da Cidade do
Natal. Encontramos em seus relatos, indícios de um percursso criativo guiado por percepções
reflexivas, voltadas para o sentimento,
impresões cognitivas, suas impressões de pele, seu
cotidiano.
Fomos a uma exposição de obras de artistas naifs, na cidade do Natal no dia 19 de agosto
do ano de 2010. Conversamos com os organizadores do evento, fotografamos algumas obras. O
espaço da exposição é também um bar frequentado por artistas e demais pessoas envolvidas de
alguma forma com o território da arte Potiguar. Quando passeávamos e flertávamos o lugar da
exposição, chamou-nos a atenção um jovem que bebia com amigos e segurava em suas mãos uma
tela com a imagem de mulheres nuas jogando baralho 22.
No primeiro momento poderiamos
acreditar que o quadro que vimos era apenas uma reprodução de uma prática comum de um lugar
“moderno” ou cena clichê de comportamentos que já preenchem cenas de uma sociedade burguesa.
Talvez uma propaganda de cigarro? Ou de um cassino?
O fato é que para nós não bastaria
conhecer a obra em uma das partes, a outra parte ou as outras, o artista, seu território e os
agenciamentos circundantes complementariam o corpo da obra.
22 Ver figura 15 em anexo.
143
Fig. 15 - Obra de Tiago Vicente exposta no Bardall’os. Foto Marcilio Façanha 2010
O quadro foi feito com um papel especial para pintura (papel cansôn) e uma cêra resultante
do derretimento e mistura de diversas tonalidades de cêras. O nômade: Tiago Vicente, natural do
estado da Bahia, residente em Natal, Bairro de Mãe Luiza, trinta anos de idade. Seu rosto parecia
refletir seu desejo naquilo que estava em suas mãos. Quando perguntamos sobre “gosto artístico”,
Tiago revelou ser aquele seu tema preferido, o lado agressivo do mundo “suburbano marginal”.
Misturado a esse “prato” vem a sobremesa dark do imáginário de Tiago, seu muno fantástico
adquirido em trajetórias errantes.
Tiago com 7 anos de idade, ainda no estado da Bahia, descobriu seu talento através do
reconhecimento de seus colegas de mesma idade e de seus professores do ensino escolar. Buscou
aprimorar seus desenho e na adolescência, na cidade de Natal buscou inspiração para continuar
produzindo pinturas que o destacariam e o colocariam em evidência à partir dáquela atmosfera do
Beco da Lama . Tiago percebeu que sua arte lhe mostrava diversas trilhas de vida, outras
possibilidade de visão. Não tardou para Tiago encontrar outros seres semelhantes em disposição e
potência. Na adolescência conheceu Assis Marinho, já premiado pintor residente em Natal –RN
com exposições por várias partes do território brasileiro, porém, não menos esquizo por isso, pelo
144
contrário, bem dentro da trilha que buscamos investigar, esse artista se tornou importante no
caminhar de Tiago.
Tiago aos 20 anos de idade seguiu viagem com Assis Marinho, aprendendo e percebendo,
construindo algo e destruindo também. Aplausos, portas abertas, e por vezes fechadas, a fama e o
“Beco da Lama”, são caminhos dos quais Tiago decide percorrer tal como “o louco” do Tarô de
Marselha, onde o “louco é um andarilho enérgico, ubíquo e imortal. É o mais poderoso de todos os
Trunfos do Tarô, como não tem número fixo, está livre para viajar à vontade, perturbando, não
raro, a ordem estabelecida com as suas travessuras”(Nichols, 2007, p.39).
Tiago, em nossa conversa, demonstrou muito apego aos momentos passados com Assis
Marinho. Em exposições de Assis, como ajudante, como amigo, houveram momentos de grande
aprendizagem para esse artista que diz nunca ter frequentado uma escola de arte, seu aprendizado
foi no dia a dia, nos caminhos da arte pulsante nas veias das ruas.
Segundo Tiago, Assis pinta o triste dos traços de figuras tradicionais do imaginário social
como a Santa Ceia, a Familia Cristã, etc. Tiago também diz pintar o triste, mas o triste do
submundo urbano em que vive. Tiago diz que Assis Marinho pinta a miséria em que viveu, a fome
que passou no sertão nordestino e a ausência de perspectivas que Assis perpassou. Tiago diz ainda
que tinha tudo aqui, mas também por outro lado, muito lhe faltava, ou ainda lhe faltava o que seria
importante: seu caminho livre e seu pensar liberto, sua arte como propulsora de suas vontades e a
vida vestida de possibilidades e devires.
Tiago pinta mais que os fantasmas que lhe assombram e os lobos que o libertam. Sua arte
se mostrou esquizo e o seu pensamento apontou rastros nômades. Suas demais obras nos aparecem
como corpos sem orgãos que poderiam ser o que Deleuze nos diz:
tanto biológico quanto coletivo e político; é sobre ele em que os agenciamentos se fazem e
se desfazem; é ele o portador das pontas de desterritorialização dos agenciamentos ou
linhas de fuga. O corpo sem órgãos varia (o da feudalidade não é o mesmo do
capitalismo)23. Se o denomino corpo sem órgãos, é porque ele se opõe a todos os estratos de
organização, tanto aos da organização do organismo quanto aos das organizações de poder.
(Deleuze1994, p.07).
23 Parêntese do Autor.
145
Na imagem das mulheres jogando baralho24, encontramos três mulheres semi nuas, jogando
baralho em uma sala. Há ainda uma quarta mulher que parece querer participar do quadro. A
parede, ao fundo é preta, a fumaça do cigarro de uma das mulheres lembra traços de tatuagens de
estilo tribal. Essa mesma mulher que fuma, foi retratada sem rosto . Uma outra que está de pé, com
os seios à mostra, mostra a carta que tem na mão anunciando seu trunfo ou sua perdição. As
garrafas de vinho na mesa e a disposição das personagens parecem rememorar rituais dionisíacos
tratados nos discursos mitologicos.
O erotismo do quadro parece ser também profano e de
disposição selvagem. A sutileza se reinventa nos jogos de azar, cigarros e bebidas, assim como nas
noites boêmias do Natal.
No fim de nossa conversa, perguntei a Tiago o valor daquela obra. Tiago diz que ela já
havia sido vendida e até chamou o comprador para que eu pudesse conhecê-lo. A obra foi vendida
pela quantia aproximada de quinhentos reais. Essa é a média de preço das obras nàquelas
proporções com a assinatura de Tiago Vicente.
As tramas do Beco- uma micropolítica de resistência esquizo-artística
“Incitar, induzir, desviar, tornar fácil ou difícil, ampliar ou limitar, tornar mais ou menos
provável... essas são as categorias do poder” (Foucault 2005, p.78;79).
O conceito de poder foi tratado por Michel Foucault como uma relação de forças, e, as
relações de forças tem um poder-saber entrelaçando-as e externando-se em diversas manifestações.
É uma relação que não é identificada como se identificam objetos físicos, mas sim, sentida, em
relações móveis e não localizáveis, onde, um “exercício de poder aparece como um afeto, já que a
própria força se define pelo seu poder de afetar outras forças”. (Gilles Deleuze,1998, p. 79) O
poder quando dobrado, ou seja, quando reinvestido, retrabalhado à parti de si, para si e apara além
de si e não mais em prol de alguma forma disciplinar induzida por alguma organização
centralizante, essa força, esse poder-saber, poderia incitar manisfestações de “resistência”. As
24 Conferir figura 15.
146
relações de poder e os seus efeitos passam a ser investidas em potenciais de resistência e ações que
operam como “máquinas de guerra” apontadas contra as facetas das instituições e demais estratos
disciplinantes. Aqui em nossa pesquisa acreditamos tratar
de uma
máquina de guerra em
operação: o território da produção artística periférica autoprodutora de si.
Sobre essa autonomia nos terrenos das artes, Félix Guattari nos lembra que, só tardiamente
a arte se separou do cotidiano da vida dos agrupamentos sociais. O autor observa que:
na história do Ocidente só tardiamente a arte destacou-se como atividade específica, da
ordem de uma referência axiológica particularizada. Nas sociedades arcaicas, a dança, a
música, a elaboração de formas plásticas e de signos no corpo, nos objetos, no chão,
estavam intimamente mescladas às atividades rituais e às representações
religiosas(Guatarri, 1992, p. 127)
Após a ruptura, ou mais precisamente, a retirada, dos rituais de dança, canto, musica, e
demais manifestações, do que hoje conceituamos como práticas artísticas, de um contexto de vida
nos agrupamentos sociais, com o fim de classificá-los e isola-los em salões, museus pinacotecas,
studios, etc., mudamos também a maneira de percebermos essas práticas. Dessa forma, poderíamos
percebê-las distantes das ações mais comuns da vida. Ainda, passamos do momento em que nossa
sociedade não distinguia o que era arte e o que era vida, para o momento da racionalização dessas
práticas inventivas ritualisticas ou até mesmo elementares para os povos que a continham.
Assim,
ainda
nesse
pensamento,
indagamos
se
restaram
apenas
fragmentações(especializações) de arte, no interior também de nossas próprias sociedades, onde :
arte A, arte B, arte do povo C, foram separadas do dia a dia. Pensamos se as práticas de arte, após
processos históricos de disciplinarização, anunciariam seus campos estabelecidos para nos guiar ou
nos sujeitar?
No entanto, dentre as ações sociais contemporâneas, algumas manifestações inventivas,
criativas de povos, ainda pediriam seu retorno em forma de resistência frente às coerções de um
formato mass media25 da qual nos acostumamos utilizar para fins comunicativos.
Chegamos
25 O termo mass media é formado pela palavra latina media (meios), plural de medium (meio), e pela palavra inglesa
mass (massa).
147
novamente a um dos aspectos da arte esquizo que procuramos.
possibilidades que,
Apontamos então para as
espaços de pequenos sebos, bares culturais, salões “menores’ onde o saber
disciplinarizante ainda não ganhou terreno suficiente para servir de guia, resistem e buscam
reestruturar algo como: uma
autonomia individualizante sobre práticas inventivas do, agora,
personagens sujeitos de suas práticas de arte e das práticas artísticas fomentadas nos territórios de
uma arte micropolítica.
A arte marginal do Beco da Lama, reterritorializando-se em espaços “menores”, percebidos aqui
como não institucionalizados e que apresentam poucos recursos se comparados aos espaços
institucionais ou grandes galerias privadas, esses espaços também funcionariam como galerias de
arte com público cativo, porém, um público mais próximo do contato com a arte e o artista, àquele
público que não teve necessariamente seus passos guiados até a tela, mas incitados até o território
artístico por vias múltiplas. Lá surgem também sujeitos-artistas que, por entre “micro-processos”
de subjetivação, podem lançar olhares para o “lado de fora” das percepções guiadas, levando-nos
assim, talvez, para uma nova maneira de pensar a vida não mais relegada somente ao que foi
posto nos processos de padronização e disciplina.
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148
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ROCHA, Silvia pimenta Velloso. Tornar-se quem se é – a vida como exercício de estilo. In Daniel
Lins, Org. Nietzche Deleuze. Arte e Resistência. Rio de Janeiro: Forensce 2007.
149
Do agronegócio!”: O trabalho de tratadores de gado, peões de manejo e peões de rodeio
em feiras de pecuária.
“The agribusiness!” : The work of cowboys on rodeos and agricultural fairs.
Natacha Simei Leal1
Recebido em 01/11/2012; revisado em aceito em 21/01/2013.
Resumo: Este artigo apresenta reflexões, a partir de uma pesquisa em Antropologia, acerca do cotidiano e ofício de
peões no contexto de eventos agropecuários ( feiras, rodeios, exposições) que ocorrem por todo Brasil. Para pensar a
questão, discute a dicotomia campo X cidade e a idéia de agronegócio. O termo, acionado no discurso desses peões,
funciona como um mediador, que constrói hierarquias, prestígio e dá significado ao seu universo de sociabilidade e de
trabalho.
Palavras- chave: agronegócio, feiras agropecuárias, peões.
Abstract: This article discusses, from a research in anthropology, about the everyday life of cowboys in the context of
agricultural events (fairs, rodeos, exhibitions) that occur throughout Brazil. To think about the issue, discusses the
dichotomy city X countryside and the idea of agribusiness. The term, engaged in the discourse of those cowboys , acts
as a mediator, which constructs hierarchies, prestige and gives meaning to their universe of sociability and work.
Key-words: agribusiness, agricultural fairs, cowboys.
O presente artigo apresenta parte das reflexões de meu mestrado, defendido em 2008 pelo
Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade de São Paulo. De título: “É
de agronegócio!”: Circuitos, relações e trocas entre peões de manejo, peões de rodeio e tratadores
de gado em feiras de pecuária, teve como pano de fundo pensar os sentidos do rural e do urbano na
contemporaneidade.
Na literatura e nas ciências sociais brasileiras a figura do homem do campo é tema clássico.
Estudiosos e romancistas como Guimarães Rosa, Câmara Cascudo e Antônio Cândido descreveram
o cotidiano e o modo de vida de vaqueiros, sertanejos e caipiras. Minha dissertação pretendeu, de
certo modo, pensar os sentidos que essas personagens ganham na atualidade a partir de uma
etnografia do trabalho que vaqueiros e peões (tratadores de gado, peões de manejo e peões de
rodeio) realizam em feiras de pecuária.
Uma certa antropologia rural brasileira, especialmente aquela inspirada pelos estudos de
comunidade da Escola de Chicago, ocupou-se em pensar os limites e extensões do campo e da
1 Doutoranda em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo ( USP). Bolsista pela Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado de São Paulo ( FAPESP). Endereço profissional: Departamento de Antropologia FFLCH- USP.
Caixa Postal: 72042. Rua Professor Luciano Gualberto, 315. Cep: 05508-010. São Paulo- SP. E-mail:
[email protected]
150
cidade. A intensa migração aos centros urbanos do Brasil, intensificada a partir de meados do século
vinte, sugeriu que pesquisadores tais como Maria Isaura Pereira de Queiroz (1979), Eunice Durham
(2004) e o próprio Antônio Cândido (2003) realizassem não só trabalhos de campo e descrições
etnográficas em bairros rurais, sítios e em pequenas e grandes cidades, mas que organizassem e
propusessem metodologias e conceitos para analisar o cenário que se constituía.
Mais contemporaneamente, autores brasileiros como José Eli da Veiga (2005) e José
Graziano Silva (1999) tem se esforçado para pensar o rural. Seriam as atividades próximas à
agricultura ou pecuária que definiriam o campo? Os autores apostam que não. Tanto as definições
espaciais, quanto àquelas vinculadas à economia e ao trabalho (ligadas às atividades estritamente
agrícolas ou pastoris) são incompletas para pensar os sentidos do rural na contemporaneidade,
porque para esses autores pensar o campo é pensar a cidade.
O título desse artigo (Do agronegócio!) recupera uma fala nativa utilizada por muitos peões
e vaqueiros no contexto das feiras de pecuária. Para esses atores a dicotomia rural X urbano não era
uma questão. Suas preocupações vinculavam-se mais a um outro tema: agronegócio. As atividades
que realizavam e mesmo o modo de se auto-analisarem eram sempre mediados por duas categorias:
“ser do agronegócio” ou “não ser do agronegócio”.
Tais categorias nativas (ser ou não ser do agronegócio) vinculam-se em parte ao conceito
acadêmico do termo: pensar a produção agrícola e pastoril para além do contexto das propriedades
rurais, de forma mais sistêmica, englobando a soma de todas as operações e participantes da
produção – processamento, marketing, compra e venda dos produtos do campo.
Muitos peões conhecem, utilizam e incorporam em seu cotidiano a idéia de ver a economia
do campo partir de um sentido mais sistêmico 2, mas o que torna um vaqueiro “ser de agronegócio”
2 O termo agrobusiness surge no ano de 1957 em um texto publicado pelos professores John Davis e Ray Goldberg da
Universidade de Harvard. O artigo “The Genesis and Evolution of Agribusiness” destaca que a produção agrícola e
pastoril deveria ser vista a partir de um prisma mais sistêmico. Os especialistas dessa área costumam utilizar as
expressões “antes da porteira”, dentro da porteira” e “pós-porteira” para cunhar todas as etapas que constituem as
atividades de agronegócio. Os setores “ antes da porteira” são fornecedores de insumos e tecnologia para a produção do
campo (implementos, máquinas, medicamentos, sementes, defensivos, conhecimentos da genética). O setor “ dentro da
porteira” opera com as atividades que ocorrem dentro das propriedades rurais (criação de animais, plantio) e os setores
pós-porteira lidam com a industrialização, distribuição, marketing e armazenamento e comercialização dos produtos.
151
é lidar e conhecer tecnologias (especialmente as de aprimoramento genético).
O agronegócio (em suas amplas conceituações) é fio condutor das feiras agropecuárias. Não
só porque esses eventos são espaços de mostra das atividades agrícolas e pastoris, mas porque neles
há uma atmosfera que o celebra como a principal atividade econômica do país.
Além de exporem animais, máquinas, insumos agrícolas, as feiras agropecuárias são ponto
de encontro de empresários, fazendeiros, políticos, veterinários, zootecnistas. E no Brasil ganham
um outro sentido: são comemorações, festas para pequenas e grandes cidades. Juntamente com os
negócios (compras e vendas de insumos, leilões e exposições de gado), realizam-se grandes shows,
bailes e rodeios.
Eventos agropecuários
O sociólogo João Marcos Além (1996) desenvolveu uma tese sobre os alcances da
celebração dos eventos agropecuários. Atento aos sentidos que a ruralidade ganhava na década de
noventa, realizou vários trabalhos de campo em feiras agropecuárias e rodeios nos estados de Minas
Gerais e São Paulo. Na época, uma série de telenovelas tinham o campo como cenário (Ana Raio e
Zé Trovão, Pantanal, O Rei do Gado), as festas de peão ganhavam grande popularidade e uma certa
valorização da “ qualidade de vida” sugeria um retorno ao universo rural.
No mesmo ano, 1996, também foram publicados dois outros trabalhos sobre feiras de
pecuária e festas de peão. O antropólogo Sidney Pimentel defendeu uma tese pela Universidade de
Brasília sobre a festa do peão da cidade de Pirajuba- GO. E a historiadora Dulce Pamplona
Guimarães publica um doutorado pela Universidade de São Paulo sobre feiras agropecuárias do
nordeste paulista.
Todos esses trabalhos, muito bem elaborados, diga-se de passagem, estavam atentos aos
sentidos que a ruralidade ganhava no Brasil e à descrição do funcionamento desses eventos.
Preocupados em registrar as lógicas de organização das feiras e festas agropecuárias, pensaram
como as populações das cidades se apropriavam desses eventos do campo.
152
Acontecem no Brasil mais de 1500 eventos agropecuários por ano. Todos os estados da
federação possuem ao menos uma feira ou festa que celebra a produção agropecuária. As vocações
econômicas de cada região, no entanto, fazem com que esses eventos apresentem atividades mais
vinculadas à agricultura ou mais próximas da pecuária.
Documentos oficiais tratam todas essas festas da mesma maneira3 (todas são feiras
agropecuárias), mas os participantes e organizadores desses eventos, durante os trabalhos de campo
que realizei, faziam questão de separá-los. Não só porque existem diferenças entre eles, mas porque
o trabalho realizado por certos atores ganha sentido e maior ou menor importância se pensado (e
vivenciado) no contexto específico de cada um desses eventos.
Essas feiras e festas são tipificadas de quatro maneiras: existem as “festas temáticas”, os
“agrishows”, as “festas de peão” e as “feiras de pecuária”. Tal classificação, nativa, é um tanto
complexa. Não só para aqueles que desconhecem esse contexto, mas também porque certas
atividades (especialmente as de entretenimento) podem acontecer com uma relativa intensidade em
todos os eventos agropecuários.
O dono de uma barraquinha de churrasquinho, durante o trabalho de campo na feira de
Campo Grande-MS, explicou a diferença entre todas essas feiras e festas:
“A feira de pecuária é uma feira de amostras pra negócio. Quando os criadores mostram
o plantel, vêm pessoas que mexem com genética de animal, vem venda de sêmen, vem
trator, vem camionete. Esse povo vem pra vender, é pros fazendeiros...envolve a grana, o
dinheiro, o agronegócio. A festa de peão é um evento mais pobre! Ela não tem esse
movimento financeiro, festa de peão é um evento de montaria de boi. Pra mim, pro meu
comércio é bom porque as pessoas vão lá se divertir, vão comer... Eu também faço festa
temática, tipo a Festa da Lingüiça de Maracajú em abril. Daqui faço a Festa da Uva em
Primavera, faço a Festa da Soja em Rondonópolis...
No agrishow eles são mais reservados, é mais pra negócio. Não tem esse tipo de coisa, não
tem pé-sujo, lanchonete, esse tipo de coisa lá eles não permitem...Lá é só restaurante.
Porque o público que eu tenho aqui vem à noite, eles não, não vão lá pra ver nada, vão
comprar, vender, vão almoçar... Os negócios são feitos de dia, quando dá cinco, quatro
3 Categorizar todas essa feiras e festas da mesma maneira não é errôneo, de alguma maneira, todas elas compartilham a
celebração do agronegócio e da ruralidade. Mas existem algumas diferenças, sutis em alguns casos, que merecem
desdobramentos. Tais diferenças são marcadas por um conjunto de atores que conhecem muito de perto todos esses
eventos. São peões, donos e funcionários de barraquinhas de comes e bebes, vendedores de insumos e tecnologias
agrícolas, fazendeiros e empresários rurais, trupes de parques de diversões que circulam durante todo ano ,com muita
intensidade, por todos esses eventos. Tais atores são os grandes conhecedores das atividades que ocorrem em cada uma
dessas feiras e festas e por isso são os personagens que categorizam, tipificam e de algum modo, nomeiam, esses
eventos. Para freqüentadores ocasionais e mesmo para o poder o público as diferenças existentes entre os eventos
agropecuários não são evidentes.
153
horas da tarde não tem ninguém no parque...”
Para os peões, atores privilegiados nessa pesquisa, tal tipificação ganhava especial sentido.
Primeiramente porque parte deles (especialmente tratadores de gado, peões de manejo) não
participava de certos eventos: as festas temáticas são comemorações de algum fruto ou produto
específico e não incluem em sua programação a mostra de gado. E os agrishows, que são feiras de
máquinas e tecnologias, são contextos voltados, exclusivamente, a fazendeiros e empresários.
Depois, porque no discurso desses peões havia uma especial ênfase em diferenciar as festas
de peão das feiras de pecuária. Como os rodeios são eventos mais conhecidos e populares, muitos
freqüentadores desconhecem o trabalho que tratadores de gado e peões de manejo executam.
Elton, um tratador de gado, explicou a diferença entre o trabalho que realiza daquele que é
realizado por peões de rodeio:
“O peão de rodeio não trata um animal, nada. Ele vem só pra fazer a montaria no dia do
rodeio e vai embora da feira e o tratador de gado tem o convívio todo o dia com o
animal...O peão de rodeio vem participar do show, não trata o gado. Tem um pessoal que
mexe com boiada de rodeio que nem é peão. Porque na exposição a gente vêm pra expor
tecnologias... A festa de peão é esporte!”
Muitas feiras de pecuária possuem em sua programação atividades de lazer, que incluem
provas de laço ou montaria, mas esses eventos de entretenimento ocupam uma posição e significado
“menor” diante de outros acontecimentos. Nas feiras realizam- se encontros de grandes criadores,
leilões e julgamentos de vacas e touros que chegam a custar mais de um milhão de reais, além da
apresentação e comercialização das mais novas tecnologias genéticas (clonagem, inseminação
artificial, vertilização in vitro).
Segundo os peões com que conversei as feiras de pecuária são “mais de agronegócio” do
que as festas de peão4. Enquanto nas primeiras as principais atividades são negócios e exposição de
4 É necessário ressaltar essa questão. Festas de peão são muitas vezes confundidas com feiras de pecuária. Algumas
feiras possuem provas de montaria bastante prestigiadas em sua programação, que compõem os grandes circuitos de
rodeio. Tanto as feiras, quanto as festas de peão são eventos que atraem muitos visitantes (seja para ver os animais
expostos, comer quitutes, brincar em parques de diversões e assistir aos rodeios e leilões), mas apesar de incluírem em
suas programações atividades coincidentes, esses eventos têm finalidades distintas: as primeiras são eventos de
negócios, as segundas eventos de entretenimento.
154
tecnologias, nas segundas a celebração é protagonista exclusiva, são festas que reúnem populações
para participar dos eventos de lazer e entretenimento.
Mas tanto peões de rodeio, quanto tratadores de gado e peões de manejo circulam durante
todo ano por uma série de feiras agropecuárias. Como uma trupe circense viajam por várias cidades.
Tal fato se dá porque essas feiras e festas não são eventos isolados, organizam circuitos 5 (de
comercialização, no caso dos julgamentos e leilões de gado, de competição no caso dos rodeios).
As provas de laço e montaria podem acontecer tanto em uma feira de pecuária como em
uma festa de peão. Elas funcionam como etapas de um grande campeonato. Um bom peão de rodeio
é aquele que ganhou os primeiros lugares de muitas provas. Vale acrescentar que as pontuações
ganhas em alguns rodeios compõem um ranking mais amplo, que inclui a somatória dos pontos
adquiridos em várias provas, por isso a necessidade desses peões em participar durante o ano de
uma série de festas de peão e feiras de pecuária.
São os julgamentos de bovinos que propiciam o trânsito de tratadores de gado. Anualmente,
as associações de ruralistas promovem uma série de julgamentos que avaliam características
genotípicas e fenotípicas de vacas e touros. Estabelece-se que animais devem participar de um
conjunto de avaliações (que ocorrem nas feiras de pecuária) para compor o ranking anual das
melhores reses. Os tratadores de gado são os profissionais responsáveis pelo trato, zelo e
apresentação desses bovinos nessas competições, por isso viajam durante todo ano por uma série de
feiras agropecuárias.
Os touros e vacas mais apreciados do país são comercializados em leilões que acontecem
nas feiras de pecuária. Esses eventos são promovidos por fazendeiros, mas organizados por
5 José Guilherme Cantor Magnani (2000) utiliza a categoria circuito para descrever de que maneira certos atores
sociais se apropriam de determinados equipamentos e acabam por efetuar deslocamentos entre pontos de encontro
marcados por agregar sujeitos que compartilham os mesmos gostos, orientações sexuais e até mesmo religiões. Tal
categoria, pensada para a cidade de São Paulo permite muitas analogias com o contexto das feiras de pecuária que
acontecem em todo o Brasil. No decorrer de um ano há um calendário de feiras, que incluem em sua programação
julgamentos, leilões e rodeios. Os peões organizam seus trajetos a partir da ocorrência desses eventos, organizando
assim, circuitos de circulação e trabalho.
155
empresas leiloeiras. Os peões de manejo são funcionários dessas empresas leiloeiras, por isso seu
trânsito e deslocamento também é uma constante: leilões ocorrem em feiras de diversas cidades do
país.
Os cenários escolhidos para realização da pesquisa de campo foram feiras de pecuária nas
cidades de São Paulo – SP, Londrina- PR e Campo Grande-MS. Foi necessário realizar observações
e entrevistas em mais de um desses eventos não só porque o trabalho dos vaqueiros estudados por
mim (peões de manejo, tratadores de gado e peões de rodeio) só consegue ser descrito se mediado
pelas lógicas do trânsito e da circulação. Mas porque certas regras desses eventos, de sociabilidade,
reciprocidade e de comércio, ganham forma se pensadas no contexto das várias feiras que
acontecem por todo o Brasil.
Os personagens privilegiados pela minha pesquisa foram profissionais cuja trajetória está
vinculada ao boi. Como vaqueiros que trabalham em fazendas são responsáveis por separar,
alimentar, vacinar, domar, transportar e banhar o gado. Mas diferentemente dos peões tradicionais,
que realizam atividades no campo, trabalham em cidades, nas feiras de pecuária.
Os peões
A maioria dos peões que realiza trabalhos nessas feiras tem vínculo com universo rural, são
filhos ou netos de vaqueiros e aprendeu nas fazendas a lidar com o gado. Nem sempre moram no
campo, muitos tem suas residências nas cidades. E apesar de estarem bastante atentos às tecnologias
(de insumos, genética), freqüentaram pouco a escola.
O tipo de atividade que realizam organiza entre eles uma espécie de gradação (sempre
valorativa), existem aqueles que são “mais de agronegócio” e aqueles que são “menos de
agronegócio”.
Entre esses atores saber lidar com o gado é uma prática constitutiva e muito valorizada. O
trabalho com bovinos na cidade não exige menos aptidão ou destreza (como apresentarei a seguir)
do que exige no contexto das fazendas. Pretendo, no entanto, mostrar que o cenário das feiras
156
agropecuárias ajuda a organizar uma série de laços e vínculos, que sugerem uma nova roupagem ao
vaqueiro tradicional.
Os peões de rodeio são os personagens mais conhecidos porque as provas de laço e montaria
têm muito apreço entre a população brasileira. Certos rodeios, inclusive, como os das festas de
Barretos e Jaguariúna, são transmitidos por redes de televisão. Por esse motivo, para muitos
freqüentadores de feiras agropecuárias, os peões de rodeio são os únicos vaqueiros a realizarem
tarefas nesses cenários.
A montaria em touros, apesar de muitíssimo apreciada, é recente no Brasil. Somente a partir
da década de sessenta do século vinte, através de uma iniciativa de vaqueiros do interior do estado
de São Paulo, os rodeios, inspirados no modelo norte-americano, ganharam caráter de competição.
Ser peão de rodeio é muito compensador, não exatamente por questões financeiras. Esses
atores são astros, os protagonistas das provas de laço e montaria. Diferentemente de peões de
manejo ou tratadores de gado que permanecem nos bastidores das exposições, as atividades
realizadas pelos peões de rodeio são sempre vistas e reconhecidas. Vale acrescentar que permanecer
no lombo de touros indômitos, segundo meus interlocutores, exige não somente força, mas um certo
talento quase inato ( que pode não ser conquistado com técnicas ou treinamentos intensivos).
No contexto das feiras agropecuárias são sempre narradas estórias de peões de rodeio que
estão milionários, que por conta das provas de montaria conhecem o mundo todo e possuem várias
casas, carros e motos. Pouquíssimos peões de rodeio atingem esse status econômico no Brasil, mas
é impossível negar que alguns deles conseguiram, de fato, constituir patrimônio e riqueza. Situação
econômica semelhante não é encontrada entre tratadores de gado ou peões de manejo, se esses
vaqueiros estão ricos, não é em virtude da remuneração6 ganha pela lida com o gado.
O reconhecimento e valorização dos peões de rodeio nas feiras de pecuária se dá por
motivos que estão pouco vinculados com a categoria nativa “ser de agronegócio”. Entre os próprios
6 Tratadores de gado recebem de um a dois salários mínimos. Já os peões de manejo recebem pelo dia de trabalho (uma
diária).
157
peões de rodeio e, especialmente, entre peões de manejo e tratadores de gado há um consenso:
rodeios estão mais próximos da indústria do entretenimento do que do agronegócio. Como os
grandes shows de música sertaneja e bailes, os rodeios são parte da festa, ganham sentido porque
atraem um público pouco vinculado à cadeia produtiva da pecuária para essas feiras. Ao participar
dessas atividades de entretenimento a população das cidades7 entra em contato com a produção do
campo e juntamente com fazendeiros, peões e empresas “celebra” a importância do agronegócio.
“Ser menos de agronegócio” não quer dizer que peões de rodeio não saibam lidar com o
gado nas exposições ou que desconheçam técnicas reprodutivas de bovinos, mas que seus caminhos
profissionais são distintos dos de seus colegas tratadores de gado ou peões de manejo, mas não
menos vinculadas com a pecuária.
Leilões, diferentemente de rodeios, são atividades “de agronegócio”. Os profissionais
responsáveis pelos animais nesses cenários são os peões de manejo. Esses vaqueiros são freelancers, apesar de estarem lidando mais diretamente com o comércio da pecuária (que nesse
contexto confere certo status), são pior remunerados.
O trabalho como peão de manejo é visto pelos próprios vaqueiros que realizam tal atividade
como transitório e “menor”: menos glamouroso que o dos peões de rodeio e mais incerto que o dos
tratadores de gado. É um serviço temporário 8, que emprega tratadores e peões de fazenda
desempregados ou mesmo ex-peões de rodeio que por conta de acidentes não podem mais participar
de montarias.
Tal caráter “transitório”, no entanto, não os deslegitima enquanto bons vaqueiros ou
conhecedores das lógicas do agronegócio, muito pelo contrário. Tratadores de gado, por exemplo,
7 Tais estratégias de atração de um público externo são promovidas por associações de ruralistas, os organizadores das
feiras. Essas associações de classe, congregam pecuaristas, para coletivamente, pensarem em ações que os beneficiem,
tanto economicamente, como polticamente. A promoção destes eventos e ,principalmente, a atração de um público
urbano, é estratégica para a manutenção do poder dessas associações. Há nesses eventos uma ênfase na pecuária e no
agronegócio enquanto atividades fundamentais para a economia do país. O público pouco vinculado à pecuária, ao
participar desses eventos, ir aos rodeios, frequentar leilões, assistir os julgamentos de gado ou ao shows de duplas neosertanejas, pode não só incorporar, como promover o discurso das associações de ruralistas e fazendeiros.
8 Um peão de manejo ( free-lancer) da feira de Londrina, trabalhava “ fixo” de motoboy em sua cidade de origem. No
passado tinha atuado como peão de fazenda, por isso sabia lidar com o gado e pegava serviços temporários nas feiras de
pecuária do interior do Paraná.
158
reconhecem que as tarefas que os peões de manejo realizam podem ser bastante árduas. O trabalho
de receber, apartar, separar e apresentar o gado que irá ser comercializado nos leilões requer muita
destreza, força e habilidade porque as compras e vendas ocorrem durante todo dia numa feira de
pecuária e os peões de manejo têm que estar aptos a permanecer em um constate vai-e-vem entre
pista e bretes9.
Um peão de manejo, Anderson, explicou como funciona seu trabalho:
“Eu trabalho com manejo. Trabalho pra leiloeira e eu ando na exposição inteira. O
manejo mexe com o gado, ele aparta, marca, pesa, é a gente que coloca o boi pra dentro
da pista pra vender. A gente que faz o serviço pesado do lado de fora...”
Peões de manejo são também considerados “do agronegócio”, mas lidam no seu cotidiano
com menos tecnologia (já que trabalham mais indiretamente com os adventos da genética). Eles são
“mais do agronegócio” do que seus colegas peões de rodeio e “menos do agronegócio” do que os
tratadores de gado.
Já os tratadores trabalham cotidianamente com tecnologias reprodutivas porque são
funcionários de fazendas de pecuária bovina que produzem animais de genética “altamente
qualificada”10. Tais propriedades rurais criam vacas e touros reprodutores, caríssimos, utilizados
para aprimorar a genética de gado comum. São esses animais que são expostos, julgados e leiloados
nas feiras de pecuária.
Tratadores são uma espécie de “cuidador”: banham, alimentam, escovam, vacinam, domam
e transportam animais. Quase sempre são responsáveis pelo tratamento de uma única rês e isso os
torna muito próximos dos animais que cuidam. Não é incomum, por exemplo, que essas vacas ou
touros só aceitem carinho ou se alimentem na presença de seus tratadores. Ou que esses vaqueiros
9 Leilões de gado são atividades que ocorrem com bastante intensidade em uma feira de pecuária. Geralmente
acontecem durante todo o dia e noite. Nesses encontros comerciais, animais ou suas células reprodutoras (doses de
sêmen ou embriões) são comercializados. São eventos de muito requinte, são servidos almoços e jantares suntuosos
com muita bebida para estimular os compradores a dar lances para a aquisição das reses. Mas nos bastidores desses
eventos, os locais onde os peões de manejo trabalham, não há qualquer luxo ou glamour. Imensos currais, localizados
atrás das pistas onde os touros e vacas são apresentados, organizam a entrada e saída de touros e vacas que serão
comercializadas. Os peões de manejo devem domar esses animais, marcá-los, pesá-los, apresentá-los nas pistas do
leilão e encaminhá-los para caminhões que os transportarão para as fazendas.
10 Genética altamente qualificada é uma categoria nativa utilizada para caracterizar vacas e touros com pedigree, cujos
ascendentes e descendentes possuem caracteres fenotípicos e genotípicos considerados únicos, especiais.
159
comemorem, veementemente, a premiação ganha em um julgamento por um animal de que tratam
como se fosse seu.
É difícil a gente entrar com o animal na pista do julgamento, rodar lá e perder pra outro, é
custoso... É o trabalho da gente que foi em vão. A gente trabalha com o gado o ano inteiro,
o mês inteiro e perde pra outros animais (Bola, tratador de gado)
O trabalho que realizam não está restrito ao contexto das feiras de pecuária (que é o cuidado
com o gado para apresentação nos julgamentos, exposições e leilões). Nas fazendas de que são
empregados, para além de tratar animais, contribuem com procedimentos de coleta de sêmen ou
inseminação artificial. Tratadores de gado são considerados “mais do agronegócio” do que seus
colegas peões de rodeio ou peões de manejo.
Os efeitos da tecnologia no cotidiano de tratadores de gado é constante. Não só porque esses
vaqueiros durante a carreira realizarão ou participarão de procedimentos de coleta ou inseminação
artificial, mas porque são as misturas genéticas certeiras (o cruzamento entre touros e vacas
reprodutoras) que conferem preço aos animais.
Vale acrescentar que as feiras agropecuárias, locais onde tratadores realizam a maior parte
de seu trabalho, são os espaços de apresentação e comércio das vantagens e alcances da genética
(via insumos ou mesmo através da apresentação ou venda das vacas, touros e bezerros). Os avanços
do agronegócio e das tecnologias reprodutivas são as principais mercadorias trocadas nestas feiras.
Os animais corporificam os efeitos das misturas certeiras, da “boa genética”, do pedigree, do uso
acertado da inseminação artificial, fertilizaçào in vitro e clonagem. E são esses efeitos, que geram
os preços milionários destas reses reprodutoras nos leilões.
“ A exposição seria assim uma maneira de mostrar o que a gente produz, entendeu?
Porque muita gente imagina que a gente põe o boi lá e põe a vaca lá e vai nascer o
bezerrinho. E não é! Em cima do acasalamento a gente tem várias ferramentas, pra se
virar um produto bom. Pra isso acontecer a gente tem vários técnicos trabalhando, então
não é um negócio simples assim...Tudo graças ao trabalho de pesquisa...É um trabalho
investido, né? Que vai ter resultado depois, pra mostrar que a gente tá conseguindo. Todas
essas exposições são mostras de ferramentas que podem melhorar o seu custo-benefício do
agronegócio”. (Sandro, tratador de gado)
160
Um certo discurso
sobre genética, mas principalmente sobre o agronegócio 11 é
compartilhado entre peões. Tal discurso valoriza o trabalho desses vaqueiros os colocando no
mesmo patamar de veterinários ou pesquisadores que estão por trás das misturas genéticas
realizadas em laboratórios para produzir animais exemplares. Porque por trás de todas estas
técnicas, está o trato adequado, os banhos, a alimentação, o uso de remédios e vitaminas, realizado
pelos tratadores .
A idéia de agronegócio, de entender as atividades “antes da porteira, “dentro da porteira” e
“depois da porteira” como parte de um mesmo processo produz efeitos – apropriados,
especialmente, por tratadores no contexto das feiras – que tenta desfazer algumas hierarquias,
enfatizando a idéia de que o serviço realizado por todos os atores envolvidos – sejam eles mais ou
menos estudados ou pior ou melhor remunerados – são essenciais para que essa cadeia funcione e
gere lucros.
Mas esse mesmo discurso que tenta desconstruir hierarquias organiza outros arranjos
classificatórios. Como tentei pontuar a categoria nativa “ser de agronegócio” tem um sentido
valorativo. Estar mais próximo “do agronegócio” confere certo status aos vaqueiros. Ser um
tratador de gado é mais prestigioso que ser um peão de manejo e mesmo um peão de rodeio, cujo
trabalho ultrapassa os muros dos parques de exposição e as arenas de montaria.
No início da pesquisa, inspirada pela literatura clássica que ressaltava um certos ethos do
vaqueiro rústico, que lida com as adversidades do tempo e da natureza para tratar e domar touros e
vacas, imaginava que as relações entre os peões que realizavam tarefas nas feiras de pecuária
fossem mediadas pela categoria rural x cidade.
Na época, estava certa de que o fator que consagrasse peões no contexto das feiras de
pecuária fosse o vínculo com campo. Como se houvessem diferenças que valorizassem aqueles que
11 É necessário destacar, todavia, que o “agronegócio” enquanto categoria nativa é apropriado por atores que
compõem os cenários das feiras de pecuária. Vaqueiros ou peões que atuam em outros contextos (em plantações,
fazendas de gado de animais comuns) e que, como os tratadores de gado, peões de rodeio e peões de manejo, executam
trabalhos que também fazem parte de cadeias produtivas, certamente não estabelecem a mesma relação com o termo.
161
habitassem, crescessem e trabalhassem em fazendas em detrimento dos peões da cidade, das feiras
de pecuária.
Reflexões finais: campo, cidade, tecnologia e agronegócio
Durante os trabalhos de campo realizei uma série de entrevistas. Uma das perguntas era se as
feiras agropecuárias eram do campo ou da cidade. Chiquinho, um dos meus informantes
privilegiados, deu a seguinte resposta:
“Acho que é coisa da cidade e do campo também. Porque isso aqui melhora pro povo da
cidade ver o pessoal do campo...É as duas coisas junto, eles vão ver que o pessoal do
campo tá trabalhando realmente pra que ele tenha o conforto da cidade, sem o campo não
ia ter alimentação pro pessoal da cidade, não teria carne, não teria nenhum tipo de
alimento...Cê vê que o PIB brasileiro é mais pelo campo, né? Então tem uma importância
muito grande o campo na cidade e a cidade no campo.
Campo e cidade são pensados em conjunto no contexto das feiras de pecuária. A celebração
do agronegócio presente nesses eventos, no entanto, instiga a celebração e valorização do campo,
mas de um “campo modernizado”, tecnológico, atento às inovações da economia e da genética. Tal
pauta, não é discurso exclusivo dos organizadores ou empresários desses eventos, mas também dos
peões, que também vivenciam essa realidade.
Essa idéia de um “campo moderno”, em certa medida, teria no termo agronegócio a
possibilidade de romper a velha dicotomia rural X urbano, especialmente, se estas categorias forem
pensadas, exclusivamente, em termos espaciais, já que cadeia produtiva do agronegócio não é de
uma paisagem específica. Como aponta o discurso dos peões, a produção e o comércio gera efeitos
tanto nas fazendas, como nas cidades.
A categoria nativa “agronegócio”, no entanto, não é exatamente o substituto (simbólico,
semântico) de “economia do campo”. Ganha uma amplitude maior, está mais próxima de um
sentido de tecnologia do que propriamente do universo rural.
Ser mais ou menos do agronegócio, nesse sentido, vincula-se ao controle (de tecnologias).
Entre os peões das feiras de pecuária, as relações de prestígio estão relacionadas com a
162
possibilidade de um domínio do aprimoramento genético. Um tratador de gado é reconhecido não
somente por suas habilidades com as reses, mas por trabalhar em uma fazenda que lida com tais
tecnologias e por isso se consagra nos julgamentos e leilões.
Tal busca pelo controle de tecnologias não é o oposto do controle da natureza 12. Se os
vaqueiros dos sertões consagravam-se pelo controle de animais indômitos, rústicos, os peões das
feiras de pecuária querem dominar os mecanismos genéticos que tornam as reses que tratam raras,
únicas, caríssimas. O que os diferencia não é o espaço em que realizam suas atividades (o campo ou
a cidade), tampouco sua bravura ou habilidade para lidar com vacas e touros, mas um enunciado: do
agronegócio.
A ideia de agronegócio, no contexto das feiras de pecuária, é de um tom específico.
Vincula-se aos conhecimentos da genética, da economia, da gestão. Anseia eficiência,
produtividade. Em certa medida, relaciona-se aos preceitos dos teóricos dos administradores e
economistas que cunharam o termo agribusiness, mas nem por isso deixa de ter um significado
nativo: está no cotidiano e no discurso de peões e outros trabalhadores (que compõem a base da
cadeia).
Este artigo dá algumas pistas sobre os múltiplos sentidos da ideia de agronegócio e sobre
seus efeitos. Apesar de ser, indubitavelmente, pernicioso ao meio ambiente e às populações
tradicionais, dá sentido ao cotidiano e ao universo de trabalho e de sociabilidade de muitos agentes,
como os peões privilegiados nessa pesquisa. Se a antropologia é de fato, como aponta Claude LéviStrauss, a ciência do observado e se a ideia de agronegócio tem alcançado diversas instâncias, a
disciplina deve estar atenta aos alcances e significados que ela tem ganhado.
12 Roy Wagner aponta que a Cultura opera ao organizar e mensurar o mundo natural. Para o autor todo esse conjunto
de conhecimentos, um “arsenal de técnicas produtivas” (123), no entanto, são dispositivos para a invenção do mundo
natural. Mas quando assumimos que estamos apenas mensurando esse mundo natural e fenomênico ocultamos que o
criamos. A tecnologia, nesse sentido, combina mecanismos e técnicas complexas diante dos quais a natureza se impõe.
Sua eficiência ou capacidade de previsão está na nossa percepção de que a natureza sempre é maior e se impõe à nós.
Tal discussão vai ao encontro das técnicas do agronegócio, a genética e os conhecimentos da economia, anseiam a
produção de uma pecuária mais eficiente ( roduzir vacas e touros geneticamente raras, especiais). Mas o investimento
em toda essa tecnologia pode não gerar os resultados esperados e esse é o jogo do agronegócio: dominar tais
tecnologias para controlar o que não é facilmente domável, a natureza.
163
Referências
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apresentada ao departamento de Sociologia da FFLCH/USP, 1996
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WAGNER, Roy. A invenção da cultura. São Paulo: Cosac Naify, 2010.
164
O ringue escolar: as meninas no tatame
The ring school: girls in tatami
Maíra da Cunha Darido 1
José dos Santos Reis Filho2
Jéssica Silva3
Recebido em 25/01/2013, revisado em aceito em 18/05/2013
Resumo: Considerando que ações de violência no ambiente escolar refletem as mudanças culturais, sociais e
econômicas vivenciadas pela sociedade contemporânea, um aspecto relevante a ser estudado diz respeito às questões de
gênero, mais especificamente aquelas relacionadas ao novo papel assumido pela mulher na contemporaneidade. Diante
disso, este projeto propõe analisar a relação existente entre as questões de gênero e a violência escolar, a partir da
investigação da percepção que os alunos de uma turma do ensino médio, de uma escola pública da cidade de Rio Claro,
possuem sobre o tema. Além disso, buscou-se contextualizar historicamente as relações de gênero ao longo da história;
identificar em qual gênero há a maior ocorrência de brigas; assim como elencar os motivos identificados pelos alunos
para a ocorrência de violência no ambiente escolar. Os resultados encontrados demonstraram que a violência escolar
praticada pelo gênero feminino está se sobressaindo à realizada pelo gênero masculino. E que em síntese, os motivos
identificados para a ocorrência da violência escolar estão relacionados a desrespeito, preconceitos, desentendimentos,
questões afetivas e conflitos pontuais ocorridos no cotidiano.
Palavras-chave: Violência; escola; gênero.
Abstract: Whereas acts of violence in the school environment reflect cultural changes and social developments
experienced by contemporary society, an important aspect to be studied with regard to gender issues, specifically those
related to the new role assumed by women in contemporary society. Thus, this project aims to analyze the relationship
between gender and school violence from the investigation of the perception that students in a class of high school, a
public school in the city of Rio Claro, have on the subject. In addition, we attempted to contextualize historically gender
relations throughout history; identify which gender is the highest occurrence of fights, as well as list the reasons
identified by students for violence in the school environment. The results showed that school violence committed by
females is performed by the towering male. And that in a nutshell, the reasons identified for the occurrence of school
violence are related to disrespect, prejudices, misunderstandings, emotional issues and conflicts occurring in everyday
spot.
Key words: Violence; school; gender.
INTRODUÇÃO
Por toda a história da sociedade sabemos o quanto à violência tem se apresentado marcante.
Violência sempre existiu, e segundo Minayo (1994, p.7) “é um dos eternos problemas da teoria
social e da prática política e relacional da humanidade”. A violência de forma simbólica, psicológica
e real vem sendo desenvolvida por uma cultura de agressões, tanto física quanto emocional e moral.
Tanto a violência urbana quanto as diversas formas de violência estão se alastrando por toda
1
2
3
Mestranda do programa em Educação Escolar pela Faculdade de Ciências e Letras – UNESP Araraquara, SP. Brasil. CEP:
14800-901, Araraquara, SP, Brasil. [email protected]
Docente do Departamento de Sociologia pela Faculdade de Ciência e Letras – UNESP Araraquara, SP, Brasil. CEP: 14800-901,
Araraquara, SP, Brasil. [email protected]
Especialista em “Ética, Valores e Cidadania” pela USP, Universidade de São Paulo, SP, Brasil. [email protected]
165
a sociedade. Apesar de melhores condições de vida, diminuição das desigualdades sociais e o
fortalecimento da democracia, esse processo de aumento da criminalidade em todas as esferas da
sociedade é, no mínimo, paradoxal. (GONÇALVES; SPOSITO, 2002).
Assim, é pertinente a análise do fenômeno da violência dentro do ambiente escolar, onde há
a necessidade de reflexão sobre os acontecimentos sociais para uma possível transformação
cotidiana. Se a violência habita até mesmo a instituição que deveria preparar cidadãos para
combatê-la, torna-se inquestionável a necessidade de averiguação desse fenômeno dentro da escola.
Quando nos referimos ao âmbito educacional nos remetemos às instituições escolares de
ensino. Na concepção de Marriel (2006, p.36), para a sociedade,
a escola é um lugar privilegiado para refletir sobre as questões que envolvem crianças e
jovens, pais e filhos, educadores e educandos, bem como as relações que se dão na
sociedade. É também nesse universo onde a socialização, a promoção da cidadania, a
formação de atitudes, opiniões e o desenvolvimento pessoal podem ser incrementados ou
prejudicados.
Sendo assim, por todas essas e demais características advindas do espaço escolar, torna-se
difícil, apesar de visível, tomarmos o conhecimento de que a violência tem ocupado também as
escolas, e, portanto, denominando tal modalidade de ação como “violência escolar”.
Considerando que as ações de violência no ambiente escolar refletem as mudanças culturais,
sociais e econômicas vivenciadas pela sociedade contemporânea, ao analisarmos os aspectos da
violência nas escolas é importante não estudarmos de forma isolada, mas sim a partir de uma ótica
global que não discrimine quaisquer fenômenos ou elemento da sociedade.
Nesse sentido, um aspecto relevante a ser estudado, no que diz respeito às atuais mudanças
vivenciadas pela sociedade é a violência escolar, mais especificamente, as que correspondem às
questões de gênero, que estão relacionadas ao novo papel assumido pela mulher na
contemporaneidade.
Partindo do pressuposto de que as mudanças ocorridas no papel empenhado pela mulher na
sociedade interferem direta e indiretamente nas relações existentes e demarcadas pelo gênero; e,
166
considerando o ambiente escolar como um local em que há um reflexo e continuidade do que se
acontece na sociedade; é plausível dizer que a violência escolar também possui influências nas
questões de gênero.
Diante disso, este projeto possui como problemática o seguinte questionamento: Qual a
relação existente entre as questões de gênero e a violência escolar?
Ao nos depararmos com um questionamento tão amplo, optamos por trabalhar o tema a
partir da ótica daqueles que estão diretamente envolvidos: os alunos. Por isso, este projeto tem
como objetivo principal analisar a relação existente entre as questões de gênero e a violência
escolar, a partir da investigação e da percepção que os alunos demonstram.
Além disso, buscaremos contextualizar historicamente as relações de gênero ao longo da
história; identificando em qual gênero há a maior ocorrência de brigas; assim como, elencar os
motivos identificados pelos alunos para a ocorrência de violência no ambiente escolar.
Pensando em atingir os objetivos propostos, a metodologia utilizada em síntese se resume
em três etapas: a primeira consiste na realização de um levantamento do referencial teórico
existente sobre o tema; a segunda etapa compreende na pesquisa de campo que se constitui na
coleta de dados, a partir da realização de uma aula expositiva a respeito do tema da pesquisa será
aplicado um questionário semi-estruturado; a terceira e última etapa consistiram na tabulação dos
dados coletados com consecutiva análise qualitativa e quantitativa dos mesmos, no intuito de
respaldar as análises realizadas referentes a relação existente entre as questões de gênero e a
violência escolar.
Aplicou-se os questionários a todos os alunos do 2º ano noturno do Ensino Médio. Optou-se
por entregá-los para meninos e meninas visando à importância de compreender a forma com que
eles entendem a violência como uma totalidade e não somente em uma visão unilateral quando
focada em um dos sexos.
167
UM BREVE PANORAMA SOBRE AS DIFERENÇAS ENTRE GÊNEROS
É observado por diversos profissionais da educação uma mudança no lócus da violência
escolar. Se antes era nítida uma subcultura criminosa marcada pela atuação masculina (ZALUAR,
1992) hoje é significativo salientarmos o aumento das brigas entre meninas dentro do ambiente
escolar.
Para que possamos elencar as causas e tecer observações acerca de pesquisas empíricas
realizadas, é preciso recorrer à História para entendermos em qual contexto as diferenças entre
gêneros moldaram a construção de diferentes atores sociais (GOFFMAN, 1975) que interagem e se
socializam na escola.
A história da nossa sociedade evidencia que a mulher foi por muito tempo, foco da opressão
e, atualmente, vem conquistando seu espaço na sociedade em busca da igualdade em diferentes
aspectos da sociedade.
Segundo Bobbio (1992) o advento do Iluminismo, datado do início do século XVIII, trouxe
ao cenário de discussão política a necessidade de ampliação dos direitos civis a todos. A noção de
cidadania foi reconstruída e expandida a diversos grupos emergindo a discussão de direitos iguais
entre homens e mulheres.
Na esteira da história, se o Iluminismo pregava que todos os homens são iguais por natureza
havia a extrema separação entre a esfera pública e a esfera privada. Segundo Scavone (1991) a
esfera pública perpassava pelas discussões políticas engendradas no governo onde a participação
das mulheres era restrita. A esfera privada era compreendida a da família e do lar, na qual homens e
mulheres tinham papéis sociais completamente distintos, assim, a chamada teoria da
complementaridade sexual, soava natural. Dizia-se que as mulheres não eram iguais aos homens, e
sim, opostos complementares (DEUTSCH, 1987), teoria esta que se adaptou facilmente aos moldes
da época e fez a desigualdade parecer algo inerente às relações entre homens e mulheres.
Assim sendo, as mulheres não eram vistas somente como inferiores a eles, mas
168
incomparáveis, por diferenças fundamentais. Elas eram diferentes; física, moral e intelectualmente.
Scott (1990) afirma que pesquisadoras feministas com uma visão política mais global apelavam
regularmente às categorias de classe, raça e gênero para “a escrita de uma nova história”. A
utilização do termo “gênero” pelas feministas americanas objetivava enfatizar o caráter
fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo. A palavra indicava uma rejeição do
determinismo biológico implícito no uso de termos como “sexo” ou “diferença sexual”. Há um
marco então entre as conceitualização de sexo e gênero.
O termo “gênero” enfatizava igualmente o aspecto relacional das definições normativas da
feminilidade. Passou-se, através desta visão, a descentrar a mulher, única e exclusivamente, como o
foco de estudos, e a analisar homens e mulheres como definidos em termos recíprocos, não se
podendo compreender qualquer um dos sexos de maneira separada. Para Scott (1990, p. 68):
A partir do gênero pode-se perceber a organização concreta e simbólica da vida social e as
conexões de poder nas relações entre os sexos; o seu estudo é um meio de decodificar e de
compreender as relações complexas entre diversas formas de interação humana.
O surgimento do conceito de gênero e, mais especificamente, a formação da identidade de
gênero, se deu no bojo da trajetória do movimento feminista que conjuntamente com as Ciências
Sociais procurou encontrar uma explicação, seja ela teórica ou prática, para a situação social das
mulheres.
Segundo Blay (2003) é a partir da segunda metade do século XIX que há uma
reconfiguração do cenário da instituição família, o panorama econômico e cultural sofreu drásticas
mudanças quando se atribuiu a mulher novos papéis sociais. A industrialização e a urbanização
alteraram a vida cotidiana, particularmente das mulheres, que passaram a, cada vez mais, ocupar o
espaço das ruas, a trabalhar fora de casa, a estudar, entre outras atividades em âmbito social.
Para Giddens (1991), é com a modernidade e os constantes processos de industrialização, em
especial a partir dos anos 60, que se observam profundas transformações sociais, políticas,
econômicas e culturais que modificam toda a estrutura da sociedade (SCAVONE, 1991), a começar
pela noção de família. A inserção da mulher no mercado de trabalho reorganizou e desconstruiu
169
padrões tradicionais de família e transformou o papel da mulher na sociedade.
As profundas transformações ocorridas no cenário social no século XX, oriundos
principalmente do movimento feminista vão resignificar todos os pilares e valores de uma
sociedade gerando novos problemas e desafios à contemporaneidade (BAUMAN, 2001). Ainda que
validemos as profundas transformações em que passou nossa sociedade, principalmente a estrutura
da família e o papel da mulher não se pode esquecer que ainda encontramos a discriminação social
das mais variadas ordens.
Segundo Londa Shinbierger (1995), podemos observar que a estruturação das instituições
científicas e o contexto histórico em que elas estão inseridas podem encorajar ou desencorajar a
participação das mulheres nesse novo contexto do mercado de trabalho. No entanto, pela divisão de
trabalho, as mulheres têm que geralmente optar ou pela carreira profissional, ou pela manutenção da
dita família tradicional. Via de regra, não podem optar por dedicação exclusiva a uma e outra esfera
e são obrigadas a uma dupla jornada de trabalho. São provedoras e responsáveis pelo
funcionamento do lar.
No quadro das mudanças sociais mais recentes, o que se espera das mulheres é que além de
mães e esposas exemplares, sejam boas profissionais. Nas últimas décadas o papel da mulher foi
revisto e sua função na sociedade passa por alterações importantes, assim, a maternidade pode ser
vista como um desvio social na medida em que a realização pessoal feminina poderá ser alterada
com a chegada dos filhos.
Atualmente, embora a maternidade seja “aparentemente” opcional, ela continua a definir a
identidade feminina, e é aceita como uma situação inexoravelmente ligada à situação social das
mulheres. Partindo de uma perspectiva de gênero transmitida pelo modelo familiar a maternidade
aparece como um referencial definidor da feminilidade.
Ainda na esteira de Scott (1990) se evidencia a necessidade de se entender o gênero
enquanto a relação entre os sexos, de como é assegurado um significado para os conceitos de
170
homem e mulher e as práticas pelas quais os significados da diferença sexual são definidos.
Segundo Torrão Filho (2002, p. 186), o gênero dá significado às distinções entre os sexos, e
“transforma seres biologicamente machos e fêmeas em homens e mulheres, seres sociais”. Se há
diferenças biológicas entre os sexos, não são elas que determinam as desigualdades entre eles. Pois
as mulheres não são obedientes, castas, perfumosas e caprichosamente enfeitadas já por natureza.
Só podem conseguir essas graças, sem as quais não lhes é dado desfrutar nenhuma das delícias da
vida, mediante a mais enfadonha disciplina.
No entanto, mesmo reconhecida pela academia, a história das mulheres passou a ser
entendida muitas vezes, como um assunto especificamente feminista, ou como uma história que diz
respeito aos aspectos privados da casa, da família, da reprodução e do sexo, em oposição ao que
realmente importaria à História, que é o domínio público da existência. A guerra, a economia, a
política e outros temas nobres não teriam assim nenhuma relação com as questões de gênero. Para
Scott (1990), essa visão da história das mulheres coloca um desafio teórico, que questiona: Como o
gênero funciona nas relações sociais? Como o gênero dá sentido à organização e à percepção do
conhecimento histórico? As respostas dependem do gênero como categoria de análise.
A VIOLÊNCIA ESCOLAR RELACIONADA À QUESTÃO DE GÊNERO
A escola foi entendida, por muito tempo, como uma instituição protegida, neutra e distante das
manifestações sociais transformadoras. Atualmente, não entendemos que a escola seja considerada
de forma apartada de sua comunidade e da realidade em que está inserida; pois está imersa na
cultura, na comunidade, na representação social e política, em contínua interação com o seu
contexto. Assim, a escola ganha na modernidade um papel importante de difusão de valores e
reprodução de crenças e aspectos culturais que nortearão toda a estrutura de uma sociedade. Para
Castells (2003, p. 380), a escola é:
171
[...] um dos principais agentes de difusão de inovações sociais porque gerações após
gerações de jovens que por ali passam, ali conhecem novas formas de pensamento,
administração, atuação e comunicação e se habituam com elas.
É na escola que coexistem inúmeras relações de poder, reformulando as estruturas
hierárquicas internas a todo mundo. Logo, é preciso compreender as estruturas de poder de uma
sociedade para que se possa entender a dimensão da reprodução social (BOURDIEU, 1997) que
existe no espaço escolar. É difícil pensarmos nos múltiplos problemas sociais, sem entendermos o
seu reflexo na escola.
Diante desta dimensão onde optou-se por compreender a violência escolar dentro de uma
esfera mais ampla ou seja, a relação de poderes e a microfísica do poder existente na sociedade
moderna capitalista.
Não podemos falar em violência na escola sem recorrermos a uma análise das relações
presentes dentro do âmbito escolar. Para tanto, é fundamental basearmos nossas discussões em
Michel Foucault. Por ser seu maior interesse de estudo, o sujeito. Foucault foca-se neste sujeito,
enquanto detentor de conhecimentos e saberes, principalmente, em como é formada a figura do
sujeito.
Buscou então, diretamente na formação dos indivíduos, através de dados recortes da
História o que nos faz sujeitos. Encontrou, com apoio em posições de Friedrich Nietzsche, o
chamado processo que faz os homens serem capazes de cumprir com suas obrigações. Através de
simples práticas disciplinares, de mecanismos de poder, forjamos um sujeito que é consciente de
seus pensamentos e atos, responsável por suas decisões e que cria sua vida social calcada em
promessas, feitas e a serem cumpridas. Este sujeito, coagido, atua não por necessidade pessoal, mas
por medos e receios, por culpa e angústia, por arrependimento e temor de punição. Assim, nossa
subjetividade é preenchida por práticas disciplinares e o êxito da sociedade moderna está apoiado na
disciplinação dos corpos e mentes, que garante um pensamento unitário. Sobre a punição e
estruturas hierárquicas, Foucault diz:
172
A divisão segundo as classificações ou os graus tem um duplo papel: marcar os
desvios, hierarquizar as qualidades, as competências e as aptidões; mas também
castigar e recompensar... a disciplina recompensa unicamente pelo jogo das
promoções que permitem hierarquias e lugares; pune rebaixando e degradando. O
próprio sistema de classificação vale como recompensa ou punição. (FOUCAULT,
1987, p.151)
A partir desta constituição, a relação entre poder e educação é muito aproximada, uma vez
que os moldes escolares modernos têm suas bases em modelos disciplinares. Assim, ao invés de
considerar que existe a construção do saber somente na ausência dos poderes coercitivos, Foucault
faz o caminho reverso e considera que é justamente com a relação de poder que se produz o saber.
Ao mesmo tempo, inexiste saber que não construa relações de poderes e não pressuponha um
campo de conhecimento.
Baseado no disciplinamento, na vigilância, nas práticas de controle e poder, nas provas e
exames é possível construir um retrato das estruturas escolares. Desde a disposição das carteiras, da
construção dos corredores até a postura dos professores em sala de aula e na construção do currículo
escolar. Tudo isso refletem hierarquias e relações de poderes que impõem uma multiplicidade de
indivíduos condutas unificadas, que formam sujeitos disciplinados, obedientes que respondem às
necessidades das instituições geradas pela sociedade moderna. Desta maneira, é possível dizer que a
escola possibilita a realização da modernidade da maneira como ela está.
É nessa multiplicidade de indivíduos que podemos focar a importância da mídia para a
constituição de uma relação hierárquica de poder, sendo necessário a reprodução das desigualdades
e da violência dentro da escola. A violência escolar entre as meninas está permeada de simbologia
que vai além da análise do senso comum, sendo pautada na reprodução de habitus (BOURDIEU,
1999) e de padrões de beleza e comportamento permeada por uma esfera da microfísica do poder
(FOUCAULT, 1987).
Foucault ainda aborda as questões dos corpos dóceis. A domesticação dos corpos estaria
baseda na ideia de que a disciplina molda o corpo para aceitação dos acontecimentos cotidianos,
sem questioná-los, mantendo-se no senso comum.
173
A disciplina auxilia na formação de sujeitos cujos corpos são submissos, dóceis. Ela
intensifica a utilidade corporal, de produtividade econômica e ao mesmo tempo em que diminui esta
força quando se tem obediência. Foucault explica que o poder é dissociado do corpo: ao mesmo
tempo em que o torna capaz, potente, restringe estas potencialidades pelas normas e limites que
impõe, direta ou indiretamente.
O corpo, então, se manipula, se modela, é hábil. Os corpos disciplinados permitem que se
tenha um controle minucioso de suas ações, sua docilidade é o que permite forçar também uma
utilidade, é o tanto mais obediente quanto é mais útil. Sobre este corpo docilizado, a manipulação é
simples, se consente o cálculo de suas atitudes e comportamento.
Os corpos dóceis ficam suscetíveis, em uma ordem capitalista permeada pela microfísica do
poder, ao consumo. A ideia de consumo está hoje inteiramente ligada ao desejo de posse, como
explica Freire (2004, p.77):
Consumismo, portanto, é o modo que o imaginário econômico encontrou de se
legitimar culturalmente, apresentando as mercadorias como objetos de necessidades
supostamente universais e pré-culturais, e ocultando, por esse meio, as desigualdades
econômico-sociais entre os potenciais compradores.
O consumismo ligado à moda está cada vez mais sendo exaltado. A marca puramente
estética da moda faz com que a criação, não responda a nenhuma finalidade objetiva, mas favorece
a reunião, o particular das emoções; sendo assim, há o caráter irrealista da moda. A comunicação
exacerbada, a globalização, não remete simplesmente ao desenvolvimento tecnológico; também tem
outras conotações. Podemos notar como há a massificação da cultura, do lazer, do turismo, do
consumo e é evidente que são causa e efeito de um tribalismo exacerbado.
Bauman (1998) afirma que a marca da pós-modernidade é a “vontade de liberdade”, capaz
de acompanhar a velocidade das mudanças econômicas, tecnológicas, culturais e do cotidiano.
Neste mundo não há como se sentir seguro e estável; pois é tudo muito incerto e porque não dizer:
assustador. Isso porque, as questões pós-modernas não encontram utilidade para a “certeza”, para a
“segurança”, ou mesmo para a “estabilidade”. Como afirma Bauman (1999a), aquele desejo imenso
174
de poder que animou a busca do definitivo desperta agora pouco entusiasmo. Já o que desperta
grande paixão é o que a sociedade atual incita-nos a fazer, que é desempenhar o papel de
consumidor.
Contrera (2003, p.105) faz a seguinte pergunta: “Por que a necessidade aparentemente
exagerada de pertencer ao grupo, mesmo que isso signifique consumir, consumir, consumir?”.
É através da posse dos objetos que muitas pessoas se expressam hoje, portanto o desejo é
realizado na compra, posse e descarte das coisas. Enfatizamos aqui a dimensão simbólica do
consumo como prática de representação das estruturas de significação da sociedade capitalista.
Consumir torna-se, sob o ponto de vista antropológico, verdadeira prática ritual que representa a
organização social e o universo simbólico dessas sociedades. O consumo, pelo fato de possuir um
sentido, é uma atividade de manipulação sistemática de signos. O indivíduo não consome a
materialidade do produto, mas os significados que, por intermédio do produto, geram uma série de
valores compartilhados pela sociedade capitalista.
Tendo como base Foucault para a explicação das relações de poder e a importância de um
aparelhamento disciplinador para a propagação das desigualdades sociais da violência na escola,
podemos refletir de que forma a indústria cultural ou a cultura de massa influência no cotidiano das
estudantes.
As origens da violência contra a mulher são diversificadas e aqui cabe a nós apenas
fazermos alguns apontamentos sobre os desdobramentos desta para a violência escolar. É, também,
importante ressaltarmos que a luta por equidade de gêneros é uma luta ainda recente e resquícios de
desigualdades ainda estão por todas as partes da sociedade.
Ao levantar a literatura sobre violência escolar percebe-se que quando a mesma é analisada
a partir do gênero de seus agressores e vítimas, há uma tendência em se polarizar a situação,
colocando os meninos como os principais agressores e as meninas como suas possíveis vítimas.
175
Percebe-se que, freqüentemente, esta violência é dirigida às meninas. Por
culturalmente terem sido representadas como frágeis tornam-se alvos preferenciais
dos meninos que as agridem utilizando os diversos tipos de linguagem da violência
desde a ameaça, aos socos e tapas. Em geral as meninas são tratadas com pouco
respeito, de modo jocoso, a partir de apelidos e palavras grosseiras de cunho sexual.
(COUTO, 2007, p. 208)
Há diversas razões pelas quais as meninas briguem na escola. Estes fatores perpassam por
várias dimensões: familiar, social, midiática, cultural entre outros, nas quais as marcas de gênero
estão presentes e relacionam-se com outros fatores, tais como a violência na escola, a fofoca e a
ausência de outra prática de solução de conflitos. As meninas se defendem e são capazes de
intimidar também os meninos, como uma forma de garantir respeito a elas.
Como as estudantes passam a maior parte do tempo na escola, refletem essas práticas se
confrontando por interesses diversos e construindo estereótipos de gênero, para romper a
invisibilidade. Elas também agem assim como forma a alcançar a popularidade e reconhecimentos:
as brigas na escola garantem bom público para aquelas que buscam popularidade.
Ao aumento da violência masculina, Assis e Constantino (2001) observaram e associaram
mudanças e influências que as jovens estão tendo também em relação à violência. A linguagem da
violência tem ocorrido de forma tão cruel entre as meninas quanto ocorre normalmente entre os
meninos (NJAINE; MINAYO, 2003).
Segundo Neves (2008), podemos dizer que a violência na questão de gênero , muitas vezes é
vista como “coisas de garotos” ou seja, em
nossa sociedade é considerado “normal”, pois
culturalmente os garotos utilizam essa prática para solucionar conflitos. No entanto, estamos
encontrando meninas que afirmam poder enfrentar e solucionar conflitos no mesmo patamar de
violência e agressões que os garotos.
Como vimos então, parte dessa violência está ligada à mudança no papel feminino.
Ziemkiewicz, Mendonça e Guimarães (2011) mostram que em um levantamento com 320
adolescentes entre 10 e 19 anos, feito pelo Centro de Atendimento e Apoio ao Adolescente da
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), sugeriu que 22% das meninas atendidas têm
176
comportamento violento contra outras pessoas (como meninos, amigas, pais ou professores),
enquanto esse padrão só aparece em 12% dos meninos. Essas autoras, também colocaram os
apontamentos de Miriam Abramovay, explicando que ano a ano, a agressividade entre as meninas
está aumentando, e em um estudo coordenado por ela com 13 mil estudantes das capitais brasileiras,
10% das meninas afirmaram já ter batido em alguém na escola.
Ainda na reportagem feita por Ziemkiewicz, Mendonça e Guimarães (2011), o psicanalista
Davis Leo Levisky explica que o comportamento agressivo das jovens estudantes também se dá
devido os fatores de instabilidade emocional, mudanças biológicas, hormonais e emocionais
característicos da adolescência. Por isso, para mostrarem mais independência, diante das pressões
dos grupos de amigos, as jovens sucumbem até às atitudes violentas se for necessário.
Em um artigo de jornal, escrito por Miriam Abramovay e Jorge Werthein (2009), vemos
como tem sido cada vez mais frequente esses episódios relacionados à violência envolvendo
adolescentes do gênero feminino em vários municípios e não é só nos grandes centros. Por
exemplo, em meados de outubro de 2009, na cidade de Ribeirão Preto (interior do estado de São
Paulo), 13 meninas com idade entre 11 e 15 anos prestaram depoimento no Ministério Público por
serem suspeitas de integrar o “Bonde do Capeta”, um grupo de alunas da sétima série do ensino
fundamental de uma escola estadual na periferia. As jovens se reuniam para ameaçar e estapear
colegas mais bem vestidas e com notas melhores.
Esses episódios realmente já fazem parte do cotidiano das escolas, envolvendo estudantes do
sexo feminino em atos de violência física, microviolencia e violência símbólica.
ANÁLISE DOS RESULTADOS
Tabela 1. Existe ou não violência na escola
Existe
Não existe
Às vezes
50
01
01
177
É possível observarmos que quase todos os entrevistados confirmam a existência da
violência, sendo apenas dois que contrapõem, e destes apenas um afirma existir violência “às
vezes”. Nos possibilitando acreditar que atualmente tem sido “comum” convivermos com atos de
violência. Certamente a história da humanidade demonstra fatos que denotam a sociedade
convivendo com a violência por diferentes aspectos.
Dentro ou fora da escola, tanto a violência vivida como a testemunhada surtem efeitos na
vida dos estudantes adolescentes. As formas de violência afetam seus desempenhos e relações, além
de contribuírem com a ampliação da violência social geral. E a escola passa a ser parte desse
problema, apesar de ao mesmo tempo ser uma das possibilidades para sua solução (CARDIA,
1997).
Tabela 2. Presenciou algum ato de violência na escola
Sim
Não
50
02
Diante das respostas da questão 4, está cada vez mais nítida a presença da violência, pois dos
52 participantes da pesquisa, 50 afirmam terem presenciado atos de violência e apenas 2 dizem que
não.
Identificaram como os principais motivos para a ação de atos violentos situações envolvendo
futilidades e falta de diálogo, como por exemplo: as pessoas brigam por motivos que não existem;
são pessoas que não sabem conversar.
Podemos pensar que a geração atual está se formando diante de atos de violência e que
talvez estejam legitimando a ideia de normalidade para esta temática.
178
Tabela 3. Presenciou mais brigas entre:
Meninas/meninas
Meninos/meninos
Meninas/meninos
37
13
02
Nesta questão é importante, em especial, para esta pesquisa quando observarmos o
percentual alto da presença de brigas entre meninas, sendo 37 dentre os 52 questionários
respondidos.
Em pesquisas sobre violência escolar, realizadas por Njaine e Minayo (2003), também
constataram que, apesar dos atos considerados como mais violentos serem cometidos por meninos,
suas manifestações estão cada vez mais envolvendo as meninas, principalmente quando os assuntos
envolvem relacionamentos de namoro.
Deste modo, sobre essa perspectiva de violência entre meninas, Neves (2008, p. 55) expõe
que “ao recorrerem à agressão, as jovens recusam um determinado modo de ser garota e feminina e
podem expressar uma agenda de mudanças que problematizam a associação da identidade feminina
como necessariamente avessa à agressão.”
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Atualmente a violência se faz presente em todos os ambientes permeados por relações
sociais, atingindo até mesmo o reduto escolar, espaço que até então era notório como responsável
pela aprendizagem, educação e formação do aluno e de cidadãos.
Ao considerar que a escola reflete as mudanças culturais, sociais, políticas e econômicas da
sociedade contemporânea, a violência escolar tem se tornado cada vez mais um fenômeno
preocupante; pois, como apresentado na mídia, vivemos um momento de considerável aumento da
violência praticada no ambiente escolar; assim como de banalização desses atos, que muitas vezes
são desencadeados por motivos triviais e até mesmo irrelevantes; e pela constante sensação de que a
violência já é algo natural à sociedade.
179
Sendo a escola um ambiente em que há o encontro da repercussão das atuais mudanças
vivenciadas pela sociedade e da perpetuação de práticas sociais históricas; ao se trabalhar a temática
da violência escolar sob a ótica do gênero, percebeu-se que muitas das pesquisas realizadas, ao
identificar o gênero dos agressores e vítimas tinham a tendência de polarizar a situação, baseandose em construções históricas em que a mulher era vista como recatada, dona do lar e submissa ao
marido; e os homens como provedores do lar, o “sexo forte”; destacando assim, as mulheres como
vítimas e os homens como seus possíveis agressores.
Buscando analisar a relação existente entre as questões de gênero e a violência escolar, a
partir de investigação da percepção que o aluno tem acerca da violência presente no ambiente
escolar nos deparamos com a forte influência que a mídia possui na construção da identidade dos
adolescentes.
Diante do poder de manipulação da mídia e do retrato que esta construiu ao novo papel
social da mulher na sociedade, observou-se que houve uma reviravolta na imagem de valorização
da mulher, um feminismo distorcido; em que as mulheres não mais são vistas pela ótica familiar, em
que ocupavam o papel de donas do lar; mas sim, como provedoras sexuais, evidenciando o corpo
em prol da escolaridade, e que através dele buscam a ascensão na vida.
Essa empobrecida imagem vendida pelos meios de comunicação influencia diretamente a
vida das adolescentes, que a todo o momento buscam afirmar tal identidade, fomentando ainda mais
o sentimento de posse nas relações afetivas; o que justifica o resultado encontrado nessa pesquisa, o
qual identifica como o principal motivo para a prática de atos violentos pelo gênero feminino
questões de cunho amorosas, como namoro e ciúmes.
Nesta pesquisa ao se deparar com o dado de que o gênero feminino é o que mais se envolve
com ações de violência no ambiente escolar, empenhando muitas vezes o papel de agressoras,
percebemos que a violência escolar não deve ser trabalhada de forma a corroborar com a produção e
reprodução das desigualdades de gênero, em que se analisa uma situação apenas a partir dos
180
estereótipos de feminilidade e masculinidade.
É importante que as construções históricas referentes às relações de gênero sejam utilizadas
como meio para se entender as atuais mudanças evidenciadas na sociedade e pela mídia sobre o
papel da mulher contemporânea; e não apenas como justificativas para a existência de uma imagem
vitimizadora baseada em um passado de opressão e submissão do sexo feminino.
No que diz respeito à violência, embora saibamos da complexidade e multiplicidade deste
fenômeno, e que seus fatores externos geram impactos sobre o âmbito escolar; propomos que dentro
da própria escola seja possível lidar com as diversas modalidades de violência de forma diferente,
construindo estratégias de educação e cultura de paz, sob o desafio de uma ótica multidimensional,
pluricausal e transdisciplinar. (ABRAMOVAY, 2003)
É por isso que consideramos ser de suma importância que as escolas trabalhem como
mediadoras, incentivando uma reflexão crítica dos alunos a respeito das mudanças vivenciadas na
sociedade e de tudo o que a mídia apresenta como realidade.
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