Novembro azul Mal terminou Outubro Rosa e já começou o

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Novembro azul Mal terminou Outubro Rosa e já começou o
Novembro azul
Mal terminou Outubro Rosa e já começou o Novembro Azul.
O primeiro, embalado pela tradicional fita rosa, iniciado no Brasil em
outubro de 2002, é uma campanha que visa chamar a atenção das mulheres
para o diagnóstico precoce de câncer na mama e do colo de útero.
O segundo, a reboque do primeiro, enlaçado pela fita azul, com o tema
“Um Toque, um Drible”, alerta os homens sobre a importância do
diagnóstico preventivo do câncer de próstata.
A campanha conseguiu maior adesão entre as mulheres mesmo porque,
com certa regularidade, frequentam ginecologistas desde a adolescência,
com a realização dos exames recomendados rotineiramente. Com relação
aos homens a campanha encontrou resistência inicial, mas já conta com
uma acentuada adesão. E, pode-se dizer, que tanto para os homens como
para as mulheres, se a doença for descoberta no início, há uma confortável
margem de cura. E, para a Organização Mundial da Saúde, o tratamento
preventivo é o mais recomendado.
A biotecnologia proporciona a realização de exames sofisticados que
perscrutam lado a lado os segredos das células que circulam nos nossos
corpos, silenciosas e inatingíveis até mesmo pela mente, responsável geral
pelo invejável latifúndio que carregamos. E transportam elas um roteiro
genético imutável, uma missão a ser cumprida de acordo com a
programação do DNA, que estabelece todo o histórico de vida da pessoa.
De acordo com a avaliação de Sanches “a genética, partindo da análise do
ser humano como organismo, sentir-se-ia mais confortável em afirmar que
cada membro da espécie Homo Sapiens – apesar de sua inconfundível
busca consciente de um sentido para tudo o que faz – é biologicamente
determinado, se inicia a partir da loteria genética, se constitui de um ácido
(DNA) e tem seu fim na dissolução das moléculas com o processo de
morte”.1
Angelina Jolie, como é sabido, submeteu-se a uma mastectomia dupla
(retirada dos seios) porque, segundo os médicos, carregava 87% de chances
1
Sanches, Mário Antonio. Bioética ciência e transcendência. São Paulo: Edições Loyola, 2004, p. 58.
1
de desenvolver o mesmo câncer que vitimou sua mãe. É uma atitude
inusitada e que causou repercussão mundial. A decisão foi tomada após a
realização de um mapeamento genético capaz de detectar o crescimento das
células defeituosas com o consequente viciamento do DNA. Sua iniciativa
fez com que muitas mulheres investigassem seus históricos genéticos para
avaliar a possibilidade de se submeterem a uma mastectomia preventiva.
Pode se imaginar, no mesmo caminho, a situação de um homem que
carrega histórico familiar favorável ao desenvolvimento de câncer na
próstata e se submeta a um mapeamento genético, conclusivo pela
potencialidade da doença, unicamente pelas informações genéticas, sem
apresentar, no presente, qualquer início da moléstia. A indagação que se faz
é no sentido de que, mesmo sem a efetiva comprovação da doença, mas
pela potencialidade genética, justifica-se a intervenção médica preventiva,
com a confiança no provável desenvolvimento das células cancerosas?
Quer dizer, a cirurgia será realizada em um paciente saudável, que não
apresenta a doença e nem mesmo os sintomas, mas há possibilidade de
desenvolvê-la, como no caso da filha dos atores Jon Voight e Marcheline
Bertrand.
Não se pode afirmar que a fundamentação do exame seja duvidosa porque
vem revestida de caráter científico embasada em anos de pesquisa e
acompanhada por outras provas médicas conclusivas. Daí resta ao paciente
tomar uma decisão a respeito de evitar preventivamente a doença. Para
tanto, conta com o suporte da autonomia de sua vontade, que é a mola
propulsora do Código de Ética Médica.
Na relação médico-paciente, após ter sido diagnosticada determinada
moléstia, nasce o conflitante dilema que se estabelece entre o profissional
da saúde, preparado tecnicamente para o exercício de seu mister, e o
paciente que integra esta relação como parte interessada em definir os
procedimentos diagnósticos e terapêuticos a serem adotados. É uma relação
linear que procura, de um lado, reconhecer o direito do paciente em
determinar-se de acordo com sua vontade no tocante à saúde e vida, assim
como decidir, dentre as opções apresentadas, qual seja a melhor para si
mesmo, de outro, o profissional da saúde em apontar os procedimentos
médicos convenientes para o paciente, sem, no entanto, obrigá-lo a tanto.
2
O médico somente aceitará a escolha expressa pelo paciente, desde que
adequada ao caso, cientificamente reconhecida e recomendada. Na
tentativa de responder à questão levantada, parece que não há dúvida com
relação à resposta afirmativa. A tecnologia revela novos contornos que
trazem benefícios para o homem, no sentido de proporcionar-lhe uma vida
com melhor qualidade, evitando doenças incuráveis e sofrimentos
dolorosos, sem qualquer ofensa ao princípio da dignidade humana.
Trata-se de uma nova realidade que se avizinha e com ela extensas nuvens
precisam ser dissipadas. O procedimento invasivo, se optado pelo paciente,
será realizado ainda sem a manifestação da doença e, no caso de
prostatectomia radical, além da aplicação da radioterapia, carregará o
receio da impotência sexual e da incontinência urinária. É, realmente, uma
decisão que irá marcar uma nova etapa na prevenção médica da
humanidade, tendo como sustentáculo os princípios da autonomia da
vontade do paciente e beneficência, ambos da Bioética.
Eudes Quintino de Oliveira Júnior, promotor de justiça aposentado, mestre
em direito público, pós-doutorado em ciências da saúde, advogado, reitor
da Unorp.
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