Entrevista Completa - Instituto Criar de TV, Cinema e Novas Mídias

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Entrevista Completa - Instituto Criar de TV, Cinema e Novas Mídias
GISELE RAMOS
Por Maria Beatriz Alves de Araujo, em 09.11.2012

TEM TEATRO LOGO ALI, V PRÊMIO CRIANDO ASAS 2011-2012
GISELE RAMOS, idealizadora e diretora do projeto
vencedor do V Prêmio Criando Asas, “Tem Teatro Logo
Ali”, nasceu no dia das bruxas, mas não convence. A
atriz, maquiadora, professora e editora leva só
criatividade, alegria e esperança para a criançada. Mais
do que do bem. Aos 22 anos, ela tem sede de
mudança. Confira sua fala entusiasmada.
Gisele Ramos, 22, é atriz e já sabe dirigir. Mas quer muito mais.
A HISTÓRIA COMEÇA AQUI
GISELE RAMOS é de 31.10.1990, do Grajaú, zona sul de São Paulo, onde mora com a irmã caçula Juliana
e sua mãe. Aos sete anos, o teatro chegou a sua vida. Quando os pais se separaram Gisele tinha 14. A
mãe “tranquilona” é chefe de cozinha em um restaurante da zona sul, “só quer trabalhar, cuidar da casa
e dos filhos mesmo que eles estejam grandes”.
Gisele é uma negação na cozinha, mas é viva a lembrança que tem dos almoços de domingo quando seu
tio, hoje músico profissional, tocava violão e todos cantavam. A mãe a incentivou e deu-lhe o violão que
ela tanto queria. Assistiu muito TV Cultura e se encantou com Contação de Histórias. Aos sete anos, uma
experiência inesquecível, oficina de palhaço com os irmãos. Depois da primeira performance, em todos
os trabalhos na escola a menina que gostava de português sugeria “vamos fazer teatro”, “vamos fazer
uma música”. No bairro, não contou com nenhum grupo de teatro ou coisa parecida. A memória de
Gisele é boa, como deve ser a de uma boa atriz. Aos nove anos, montou uma peça sobre a história da
mandioca, com figurino e maquiagem. “Sempre tive essa pegada de direção, de tomar a frente. Nada
muito egoísta, ditador, mas é a minha natureza.”
A primeira participação pública foi aos 13 anos quando, a convite de amigos, substituiu um ator em um
espetáculo infanto-juvenil. “Sofri bastante, porque o diretor era um carrasco.” Pensou em desistir, mas
também pensou que outros diretores existiam. Aguentou o “carrasco” por quase um ano e foi para uma
oficina em Santo Amaro. Também sem muitos ganhos, “não tinha conteúdo”. E sua mãe cobrando o
gasto de dinheiro “à toa”. Muito frustrada, Gisele fica dois anos sem atuar.
Sempre teve um chamado forte para o teatro. Mesmo com dificuldades em casa, sem apoio do
namorado, Gisele nunca se sentiu inteira fora dos palcos. “Era um vazio muito grande, tudo ficava banal,
ir à escola, voltar, encontrar o namorado, voltava pra casa, ajudava dentro de casa, tal. Só que faltava
alguma coisa, alguma inquietação que ficava ali em mim, que me fazia refletir muitas coisas... aí eu falei,
‘meu, vou voltar’.”
A oportunidade de entrar para um grupo aconteceu quando Gisele conheceu o “Identidade Oculta” ao
fazer o Programa Vocacional – Núcleo de Teatro e Dança, no CEU Navegantes (Centro Educacional
Unificado), no Grajaú. Junto com os artistas orientadores e amigos, já no mesmo ano, produzia os saraus
mensais. Na ONG Nossa Senhora de Fátima, no bairro do Socorro, a atriz assumia algumas oficinas de
teatro e as atividades de contação de histórias, quando soube do Instituto Criar.
Instituto Criar
Gisele ficou surpresa com o galpão, encantada com as oficinas, apavorada com todos aqueles
candidatos. Achou que não fosse passar. Entrou para sua segunda opção e cursou a 6ª Oficina de Cabelo
e Maquiagem do Instituto Criar.
Gisele saia às quatro horas da manhã para chegar diariamente às oito no Criar. “Na raça, pegava o
trenzão, chegava, pegava busão, ia andando até chegar, mas ia.” Não só adorou a turma de maquiagem,
como achou muito interessante conviver com as outras oficinas. A maquiadora aprendeu a valorizar
mais não só seu material e seu trabalho, mas o ser humano em si, outros modos de trabalho, a
convivência em grupos.
Foi freelando em maquiagem que Gisele foi “picada” pelo cinema, que não tinha muito o costume de
frequentar. “O Criar me incentivou a assistir muitos filmes. Hoje sou viciada.” Em 2011, integrou a
equipe de um desfile e de um curta-metragem. Apaixonada pelo filme, pegou sua “camerazinha semiprofissional” e começou a escrever, filmar escondidas cenas do cotidiano, cenas do teatro, a editar no
próprio movie maker, quando surgiu o edital do Prêmio Criando Asas.
O PRÊMIO CRIANDO ASAS ACONTECE
V PRÊMIO CRIANDO ASAS 2011-2012
Projeto TEM TEATRO LOGO ALI
Inspiração
Gisele tinha vontade de compartilhar um pouco da realidade que vive no teatro, o processo de
produção, as dificuldades, os temas, os erros e acertos. Um dos principais desafios é alcançar público na
periferia. Mesmo de graça, as pessoas não vão – falta de costume talvez. A TV acomoda muito o
espectador que não precisa sair de casa. “Hoje é tudo meio imediatista, as pessoas tentam fazer tudo
meio corrido, então elas não encaixam essa questão de sair da sua casa para assistir um espetáculo.”
Com a ajuda do artista orientador e amigo Ricardo Gimenez a atriz escreveu o projeto “Tem Teatro Logo
Ali”, que tem o objetivo de realizar um documentário sobre a realidade do teatro na periferia de São
Paulo, inscreveu no edital e venceu o V Prêmio Criando Asas 2011-2012.
Participantes: Damiana Sobral, Felipe Pedro de Oliveira Santos, Fernando Alves de Sá Tales, Gisele
Ramos, Jullieth Sarmento de Sena, Marcos Santos Silva, Rafael Otaviano da Silva.
Graças ao convite no facebook, juntou-se à equipe o amigo da 6ª turma de Produção, Fernando Alves de
Sá Tales. “Ele é muito rápido no gatilho, já chegou mandando o nome de todo mundo, com RG,
endereço. Tudo.” Isso foi mais do que um sinal que o projeto ia dar certo. A correria só começou. “Tinha
essa coisa de orçamento, a burocracia e o Fernando lá ajudando.” A etapa de quem são os vencedores
foi estressante para a candidata. “Eu estava muito nervosa na entrevista”, referindo-se à bancada.
Gisele é engraçada. Depois que apresentou o projeto, pensou “deu certo. O bicho pegou. Agora o
problema maior é depois”.
Expectativas
A atriz, diretora do curta, queria incluir cinco grupos de teatro, mas teve que adequar para dois, e
depois queria prolongar, mas só ela tinha disponibilidade de tempo – “eu era a única desempregada do
grupo”. Na verdade, gostaria de aprofundar o debate. O documentário tem 13 minutos.
Desafios
“O maior desafio é lidar com as pessoas.” Gisele avalia seu aprendizado sobre poder confiar ou não nas
pessoas. “Eu compreendo as situações de cada um, imprevistos. Mas a pessoa não te dar nem uma
resposta, não dá. Comigo é assim.” A experiência com “Tem teatro logo ali” trouxe para ela a lição de
como lidar com certos tipos de profissionais. Gisele ressalta que se não fosse um trabalho voluntário, se
houvesse uma remuneração, as pessoas se comprometeriam mais.
A artista confere à vida as escolhas que cada um faz. “A vida me ensinou a dar valor para as pequenas
coisas, sabe?” Discorre sobre os desejos de consumo estimulados pela sociedade versus as dificuldades
que não são às vezes digeridas a nosso favor. “Eu não tive uma família rica, a gente batalha pra
sobreviver até hoje. É isso que a gente dá valor, o arrozinho, o feijãozinho ali de cada dia, e eu acho que
isso faz a gente enxergar o outro.” A mãe de Gisele diz que ela nasceu para ajudar o mundo. Para ela,
tem sentido. “Se você não fizer algo que você se sinta bem, que você faça sempre querendo algo em
troca, você não evolui em nada. Acho que o trabalho social é isso, você não tem que esperar algo em
troca. Se está dando certo, você já está recebendo.”
O que é dar certo? “Transformar.”
Histórias de transformação
O curta-metragem “Tem teatro logo ali” abriu portas para o grupo de teatro Identidade Oculta onde
Gisele está há quase quatro anos. Ela explica que o grupo estava já “adolescente, querendo criar asas e
voar”. Os ensaios eram até então no CEU Navegantes, um espaço da prefeitura, com suas implicações
burocráticas e limitações políticas que, descobriram isso no processo, acabam por afastar o público
também. “Se a gente esquecesse a carteirinha, não tinha ensaio, não tinha apresentação.” E veio a
proposta de um novo “mega” espaço na Associação de Moradores do Cantinho do Céu, no Grajaú.
O filme gerou questionamento para o grupo. Todas as vezes que foi exibido nas escolas, o grupo ficava
impactado com o número de jovens que nunca tinha ido ao teatro ou poucos que já tinham assistido a
uma peça em uma excursão. Vários DVDs foram disponibilizados para as escolas e, ao todo, estima-se de
já foram mais de 2000 visualizações.
Nas gravações externas, as pessoas param para saber o que está acontecendo. Gisela e Fernando falam,
“a gente tá discutindo sobre o teatro, você topa filmar?”. Mesmo que a pessoa não tope aparecer, a
semente do teatro na periferia foi plantada. “Vem um monte de pergunta na cabeça daquela pessoa.
‘Será que nosso bairro vai sair na TV?’, ‘Será que eu devia ter falado?’” E assim vai se cumprindo o papel
social de uma simples captação de imagens.
Muitos moradores passaram a ter vontade de conhecer o próprio bairro, seu próprio lugar. Gisele ouviu
os sentimentos de alguns espectadores, entre eles o que se despertaram para o audiovisual também.
Fala de jovens de 12 a 14 anos, que receberam dela incentivos e sugestões para que fizessem filminhos
no celular. “Gente, experimentem, brinquem, faça as coisas acontecerem, filmem.” Quando alegavam
que no bairro não tinha oficina de teatro, Gisele os esperançava. “É assim, aos poucos a gente vai
conquistando. Eu posso sair daqui um dia e vocês podem dar continuidade no que eu tava fazendo.
Afinal de contas, o que vocês tão aprendendo aqui é pra vocês levarem pra vida.”
O que a arte faz
“Tem Teatro Logo Ali” começa com o seguinte lettering: “por que os teatros estão vazios, mas
continuam a existir?”. A entrevistada diz que essa pergunta é a “nossa luta”. Mas às vezes é tão simples,
basta aceitar que o ser humano é acomodado. “Mas a gente insiste nesse olhar. De transformar através
da arte.”
Gisele, exigente, diz que o documentário ficou bom, mas podia ser mais. “Mas pra primeiro filho tá
bom” consola-se. Pensando bem, nunca pensou que poderia abordar as pessoas na rua, editar, refletir.
“Causa uma reflexão na gente também. Muita.” Diz que ficou muito feliz quando ele ficou disponível no
YouTube, quando começou a compartilhar paras as pessoas e distribuir o DVD.
“Os alunos mais bagunceiros são os que mais se interessam e gostam da aula.” A informação de Gisele
abre brecha para algumas hipóteses, a de que a criança mais inquieta precisa “fazer”, de que essa
criança se atrai para o criativo assim como por qualquer coisa que aparecer primeiro, que o teatro/a
arte é uma ferramenta de transformação social.
“Ela (a arte) faz você refletir. A gente quer cutucar esse povo que tá parado. A gente quer fazer ele
levantar do sofá e acordar, sabe? Começar a refletir que a vida não é só isso. Tomar cervejinha no final
de semana já é rotina. É tudo muito robótico, o tempo todo. A gente quebra a rotina quando sai na rua
de palhaço, em cortejo. De alguma forma, a pessoa fica alucinada.” A propósito, no dicionário,
“alucinado” é adjetivo, “aquele que tem visões fantásticas”.
Ela compara a sétima arte a uma religião. “Você vai lá, reza, faz sua oraçãozinha e sai em paz”, diz e
cinéfila que no dia anterior à entrevista assistiu “Frankenweenie” (Tim Burton) e diz ter chorado demais.
“Saio respirando. Uma paz.”
“É um desabafo calado. Você não pode falar, mas você está vendo aquele espetáculo que está
abordando aquilo e você se identifica com.”
Temos todos mais que um personagem
A atriz tem questionamento de sobra. “Tem a mãe que é dona de casa que é professora que é avó que é
tia que é mulher... esses são os papéis da nossa vida. E quem é a gente no meio desses papéis todos?”
Mudar é difícil
“As pessoas gostam de se iludir. Esse é o fato, a gente gosta de se iludir, é um mecanismo de defesa. Pra
não se decepcionar a gente se ilude.”
Gisele dá um exemplo de quanto a mudança é difícil. “Minha mãe não vai nem assistir minhas peças. Ela
tem a desculpa que trabalha aos sábados. Mas ela já foi em alguns saraus, alguns eventos que a gente
fez.” Embora goste de arte, sua mãe não tem tempo. Gisele descreve a mãe como “tranquila com as
coisas que eu faço” e a avó, 75 anos, “uma fofa”, que a considera a “artista da família” e espera o dia
que a neta vai aparecer na TV.
Dicas para os próximos vencedores
“Mergulhe de cabeça. Dá trabalho, mas não desiste. Vai até o fim. Por mais que pareça que tudo está
dando errado, complicado, você esteja de saco cheio, se você começou, termina. Porque querendo ou
não você vai ganhar aprendizagem, vai crescer com isso, vai fazer parte da sua vida.”
O Prêmio Criando Asas sob o olhar do vencedor
“Criei asas. Me mostrou que tem formas de usar o audiovisual como ferramenta mesmo de ação social,
dá pra utilizar o audiovisual pra mudar. A internet tá bombando de causas, de vídeos pra causas sociais
e é uma ferramenta que ganha muito status assim, ela ganha uma dimensão grande. Então audiovisual,
na verdade, ele é um leque gigante. Mas acho que eu criei asas assim, me deu mais tesão pra eu
continuar.”
“O Criando Asas, nossa, demais isso de pegar os ex-alunos e trabalhar a ideia deles assim. Eu que nunca
tinha mexido com câmera, eu que não fazia produção – quer dizer fazia do teatro, mas nunca de
audiovisual – fiz, sabe? Dirigi! No meio de uma galera mega criativa. Meu filme podia passar no cinema.
Lógico. Pra mim foi muito bom. Foi um filho que nasceu, sabe? Nasceu no susto, mas nasceu.”
A HISTÓRIA CONTINUA
A cada nova amizade, Gisele divulga o “Tem teatro
logo ali” que, em breve, vai ser exibido no ETC, que é o
grupo de debates do Grajaú. Nessa semana, o
documentário está sendo exibido na Cinecleta, um dos
projetos vencedores do VI Prêmio Criando Asas.
Com a conquista do Cantinho no Céu, o Identidade
Oculta agora tem liberdade para ensaiar até de
madrugada, “de movimentar a arte, levar a galera do
grafite”. O grupo saiu do Programa Vocacional e hoje é
independente, com crises financeiras, pois essa é a
realidade. O grupo ganhou o VAI 2012 (Valorização de
Iniciativas Culturais) com o projeto “Canja de Artistas”.
Gisele no Cine SESC, SP.
O “Canja dos Artistas” fomenta a arte e a cultura no bairro. Artistas e grupos da região do Grajaú foram
convidados a se apresentar no novo espaço, que foi reformado, os espetáculos são grátis para os
moradores e no final acontece um debate acompanhado de canja de galinha. Uma das peças
apresentadas é a que Gisele atua, “O lobo que há em mim”, escrito pelo coletivo em momento de crise
– “o espetáculo é expressionista, sem fala, baseado nos contos de fadas e seus signos e símbolos”.
Gisele dá aulas de teatro em duas escolas públicas, na Escola Estadual Samuel Wainer (10 alunos, da 8ª
série) e no “Reverendo” (20 alunos, da 1ª a 4ª série). Incentiva a leitura e a contação de histórias,
deixando que eles criem o final da história. Os bagunceiros ficaram felizes em saber que existe teatro de
graça. Mas quando dizem que a mãe não pode levar, Gisele fica com “dor no coração”.
Gisele não é só atriz. É agente cultural e abraça a comunidade. Quer escrever, produzir, dirigir. “Eu
tenho um sonho muito grande, só de falar meu coração palpita. É sério. Eu saio do cinema assim, eu
tenho tantas ideias pro cinema brasileiro que dá pra revolucionar. A louca!”
De onde vem essa vontade de transformar? “Acho que tenho esperança. Acredito que algo mude.
Tenho sede de mudança.” É isso aí.