meninas iradas perguntam

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meninas iradas perguntam
Hilary Black
por
camila
ViegasLee
Casar
por
de
Nova York
meninas iradas perguntam
dinheiro?
Numa sociedade em que não há segredos nem sobre a vida sexual, falar
em dinheiro ainda é tabu, diz a escritora norte-americana Hilary Black
A escritora norte-americana Hilary Black: o que acontece quando amor e dinheiro se chocam
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Elas&Lucros
Fotos: Gilberto Tadday
Quando Hilary Black terminou um namoro de muitos anos com o
milionário Ted, suas amigas disseram desconsoladas que ela estava perdendo uma oportunidade única. “Esse homem poderia tomar conta de
você para sempre.” “Você tinha tirado a sorte grande.” Black ficou surpresa que suas amigas – educadas, inteligentes e independentes – mantivessem idéias tão arcaicas. “A sociedade (americana) mudou muito desde os tempos de Jane Austin, quando o futuro de uma mulher dependia
da união com um homem de renda confiável”, diz Black. “Mas a noção
de encontrar um príncipe encantado e rico ainda existe.”
De fato, uma pesquisa recente da Prince & Associates, empresa
americana especializada em gerenciamento de fortunas, mostra que
dois terços das mulheres entrevistadas responderam que estavam
“muito” ou “extremamente” dispostas a casar por dinheiro. Pensando
nisso, Black começou a se perguntar se é mesquinharia, ou simplesmente pragmatismo, o que move essas mulheres. Por que algumas
são capazes de contar com o amor para passar por dificuldades financeiras e outras não? Como o dinheiro interfere nas decisões que
tomamos e até que ponto ele determina os valores que decidimos
manter? O que acontece quando dinheiro e amor se chocam?
Acostumada a encomendar perfis de celebridades para revistas
como More e Tango, Black começou a perguntar se as jornalistas
tinham histórias pessoais sobre
dinheiro e relacionamentos. O
resultado se transformou em um
livro, editado por Black, com 27
ensaios, publicado nos Estados
Unidos em janeiro pela editora William Morrow. The Secret
Currency of Love: the Unabashed
Truth about Women, Money, and
Relationships (A Moeda Secreta
do Amor: a Verdade Descarada
sobre Mulheres, Dinheiro e Relacionamentos) é dividido em
três partes: dinheiro e romance,
dinheiro e família, dinheiro e si
próprio. Black falou com Camila Viegas-Lee, correspondente de Elas & Lucros, antes da
festa de lançamento do livro, no
antiquário do novo namorado,
em West Village.
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Hilary Black
Você levou um ano para organizar o livro. O que é tão secreto
sobre a moeda do amor?
Eu trabalhei muitos anos como
editora de revistas e tinha um relacionamento profissional com
muitas dessas autoras. Com o passar dos anos, coisas como “minha
cor preferida é verde”, “moro em
Westchester”, “não gosto de praia”
acabavam entrando na conversa
e eu achava que conhecia minhas colaboradoras. Mas, quando
comecei a ler os textos que elas
mandaram sobre dinheiro, fiquei
chocada, não fazia a menor idéia
de que elas tinham passado por
isso. Dinheiro é um assunto muito pessoal.
Você pesquisou o assunto para
editar o livro?
Não encontrei muito material
que tratasse desse tema sob um
ângulo pessoal. Até sexo é menos
secreto que dinheiro nessa cultura, e é por isso que o tema é particularmente intrigante. Encontrei
nos jornais muito sobre dinheiro e finanças como auto-ajuda:
“como ganhar mais dinheiro’,
“como investir bem”, “como economizar”, “como se preparar para
a aposentadoria”. E há muitas matérias que dão ênfase ao público
feminino: “tome as rédeas de seu
dinheiro”, “não deixe que seu marido faça tudo”... Mas não se publica o lado pessoal das finanças,
e é isso que eu queria ver.
Você tem dito que dinheiro é
o último tabu de uma cultura
que fala sobre tudo, como a
americana. Por quê?
Por uma série de razões e, principalmente, porque dinheiro está
associado à auto-estima, especialmente para homens. As pessoas
relacionam dinheiro com valor
próprio e a quanto sucesso elas
conseguiram obter em vida. Digamos que você esteja passando
por uma fase difícil no trabalho,
ou você esteja correndo o risco
de perder o emprego, ou você não
recebeu o aumento que esperava.
Para muita gente, isso não é algo
que simplesmente acontece por
azar. Isso faz com que a pessoa se
sinta mal, e é por isso que ela não
quer que os outros saibam – até
mesmo seus melhores amigos,
porque dá vergonha. Numa cultura em que todo mundo fala sobre
tudo, no show da Oprah ou do Dr.
Phil, dinheiro é um dos últimos
vestígios de um passado em que
não se falava de religião, sexo, política ou dinheiro. Até pouco tem-
“Até sexo é menos secreto que dinheiro na
cultura norte-americana, e é por isso que o
tema é particularmente intrigante. Pouco se
publica sobre o lado pessoal das finanças”
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Fotos: Gilberto Tadday
“Dinheiro é tabu porque está associado
à auto-estima. As pessoas o relacionam
com seu valor próprio e a quanto sucesso
elas conseguiram obter em vida”
po atrás, as mulheres não falavam
sobre peso, e isso deu a volta completa. Vivemos numa sociedade
diferente agora, e o que era considerado mal-educado mudou.
Qual foi a reação das jornalistas quando você perguntou
se elas tinham histórias pessoais sobre dinheiro e relacionamento?
Muitas das autoras viram o processo como uma oportunidade de
encarar o passado. Elas trataram
do assunto de forma muito apaixonada. Debaixo da superfície
reticente há muita emoção associada com esse tipo de revelação.
A imprensa tem coberto muito o
lado de dinheiro e romance, mas
o livro traz histórias de relacionamentos entre pais e filhos, como
ensinar os filhos a dar valor ao
dinheiro. Uma das histórias é
sobre um casal que está fazendo
das tripas coração para colocar os
filhos numa escola privada. E os
coleguinhas convidam os filhos
para pegar o jatinho particular
e passar o dia na fazenda. Outro
texto é sobre como a mãe da autora tenta controlá-la, ameaçando
deserdá-la. Esse tipo de coisa não
se fala em coquetéis. Uma das autoras me escreveu um texto incrível, mas depois se arrependeu e
pediu que eu não o publicasse. Ela
estava com medo de perder uma
amiga de infância. Essas questões
monetárias pegam tão fundo, que
um texto tem a capacidade de terminar uma amizade de anos.
Quais são seus ensaios favoritos? E o que neles chamou sua atenção?
Eu adoro todos eles e não queria publicar nada que não fosse
intrigante. Mas, como o assunto
é muito subjetivo, alguns textos
vão atrair algumas pessoas mais
do que outras. Um dos que eu
mais gosto foi escrito por Jennifer
Wolff Perrine e trata de como ela
adotou sua filha. A criança era a
terceira de um casal que já tinha
dois meninos e não tinha recursos para criar mais um. Jennifer
acabou ajudando o casal durante o período de gravidez e
contou como foi a experiência.
As pessoas me ligam em lágrimas
para comentar a história. E gosto
do texto de Kathryn Harrison, que
descreve a obsessão de sua mãe
por sapatos antes de morrer, aos 40
anos. No leito de morte, o câncer
já tinha se espalhado pelo corpo
todo, menos para os pés. Ela encomendou dúzias de sapatos pela
internet. Os sapatos continuaram
chegando depois de ela morrer. É
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Hilary Black
interessante como o dinheiro afeta a emoção, e como as compras a
ajudavam a lidar com a morte.
Quando você estava editando
esse livro, pensou no tipo de
leitor ele iria atrair?
À medida que os textos iam chegando, meu namorado e eu os líamos juntos e tínhamos conversas
muito francas sobre nossas próprias experiências e finanças. Acho
que, como os textos são muito
pessoais e escritos por mulheres, o
público feminino pode acabar entendendo melhor, mas espero que
o livro estimule conversas entre os
dois sexos. Muito do livro é como
homens e mulheres lidam diferentemente com dinheiro. E acho
que ele pode atingir todo mundo,
porque, seja rico, seja pobre, pródigo ou caxias, ninguém escapa de
questões financeiras, e elas afetam
nossos relacionamentos quer a
gente queira, quer não.
Você aborda questões de raça
e classe social?
O texto de Sheri Holman, por
exemplo, trata de noções de classe.
Ela descreve um relacionamento
de três anos, quando ela tinha acabado de concluir a faculdade, com
um mendigo viciado em drogas.
Ela se apaixonou por ele quando
mudou para Nova York, e isso deixou seus pais de classe média enlouquecidos. O texto analisa o que
fez com que ela fosse atraída por
ele. O ensaio de Veronica Chambers é sobre como ela teve uma
infância difícil e sem dinheiro e
como conseguiu estudar e hoje
quer dar tudo a sua filha. Dinheiro para ela é segurança. Elizabeth
Williams escreve sobre a sensação
de culpa por não querer ajudar o
irmão, que não se deu tão bem na
vida quanto ela.
Esses ensaios são de autoria
de profissionais da escrita.
Você não pensou em contatar
pessoas que trabalhassem em
outros meios?
Essa é uma boa pergunta,
e pensei nisso quando estava
produzindo o livro. Eu cheguei
a pedir textos para mulheres
que trabalham no mercado financeiro, por exemplo, mas
elas não escreviam muito bem
(sobre algo tão pessoal). Se o
assunto fosse cachorro, seria diferente, mas o tema é tão difícil
e pessoal que optei pelas escritoras profissionais, e acabei com
textos de quem não tem muito
dinheiro. (Risos.)
“Um dos textos do meu livro descreve
um relacionamento de três anos de uma
mulher de classe média, recém-formada,
com um mendigo viciado em drogas”
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Foto: Gilberto Tadday