Status Nutricional das Populações ribeirinhas da amazônia: um

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Status Nutricional das Populações ribeirinhas da amazônia: um
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Status Nutricional das Populações
Ribeirinhas da Amazônia: um
estudo comparativo entre várzea
estacional e estuarina
Autores:
Cristina Adams
[email protected]
Laboratório de Ecologia Humana, EACH-USP, Brasil
Walter A. Neves | Rui S. S. Murrieta
[email protected] | [email protected]
Laboratório de Ecologia Humana, EACH-USP, Brasil
Andrea D. Siqueira
[email protected]
Center for Latin-American & Caribbean Studies,
Indiana University, EE.UU.
Rosely A. Sanches
[email protected]
Instituto Socioambiental, Brasil
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Resumo
Assim como outros países latino-americanos, o Brasil vem atravessando um rápido
processo de transição nutricional e demográfica nas últimas décadas, influenciado
por intensas mudanças político-econômicas, culturais e ambientais. As tendências
nacionais no que se refere ao estado nutricional da população brasileira mostram
diferenças regionais significativas, inclusive entre áreas urbanas e rurais. A relativa
ausência das populações amazônicas não urbanas nestes estudos nutricionais,
somada às características ambientais peculiares desta região, fazem com que a
avaliação do impacto e da sustentabilidade das políticas públicas de segurança
alimentar e nutricional (SAN) sejam difíceis de realizar na Amazônia.
Neste trabalho apresentamos os resultados de um estudo comparativo realizado
entre populações ribeirinhas assentadas na bacia do rio Amazonas em dois tipos
diferentes de ecossistemas: várzea estacional (Ilha de Ituqui, município de SantarémPA) e várzea estuarina (município de Ponta de Pedras, Ilha de Marajó, PA). O principal
objetivo deste estudo foi avaliar a relação entre as estratégias de subsistência, as
mudanças ambientais estacionais, o status nutricional e a saúde dos ribeirinhos.
Para isso foi realizado um levantamento antropométrico e de consumo alimentar.
Os resultados mostraram um quadro de elevada prevalência de déficit de estatura
associado à prevalências moderadas de baixo peso segundo a idade e a estatura.
De maneira geral a população da várzea estacional está em melhor situação
nutricional que a da região estuarina. Embora o consumo alimentar nas unidades
domésticas apresente valores médios relativamente satisfatórios de ingestão
calórica e elevados de proteínas, observou-se uma certa instabilidade no consumo
de energia devido principalmente à variabilidade da produção agrícola na várzea.
Desta forma acreditamos que as diferenças observadas no estado nutricional destas
populações estejam muito mais relacionadas a fatores médicos e epidemiológicos
(condições precárias de saneamento e altas taxas de parasitose intestinal), que ao
consumo alimentar.
Palavras-chave: Segurança alimentar, Amazônia, caboclos, ecologia nutricional,
várzea.
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Abstract
In the last decades, Brazil and other Latin-American countries have been
undergoing a rapid process of nutritional and demographic transition, influenced
by political, economic, cultural and environmental changes. In Brazil, trends in
nutritional status show regional and urban/rural differences. Nevertheless, these
trends are difficult to evaluate in the Amazon region, since rural populations are
rarely included in national surveys. Here we compare the nutritional status of two
riverine populations living in different ecosystems in the Amazon basin: seasonal
(Ituqui island, Santarém, Pará) and estuarine (Ponta de Pedras, Marajó island, Pará)
floodplains. The main objective was to evaluate the relation among subsistence
strategies, seasonal environmental changes and the nutritional status, food intake
and health of riverine populations. Z-scores for height-for-age, weight-for-age,
weight-for-height and BMI-for-age, were determined and significant nutritional
stress was assumed at z < −2.0. High stunting, moderate wasting and low weightfor-height prevalences were found. The seasonal varzea population had a better
nutritional status. Results suggest that the main problem in the region might be
poor health assistance and high incidence of worms, rather than insuficient food
intake.
Key words: Food security, Amazon, caboclos, nutritional ecology, floodplains.
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INTRODUÇÃO
A análise sobre o estado nutricional da população brasileira nas últimas três décadas
mostra um declínio marcante na desnutrição medida através da prevalência do
déficit de estatura. Entre as crianças menores de cinco anos houve uma redução
de 72% neste período, e entre os adultos a queda foi de 49% no meio rural e 52,7%
no meio urbano (Monteiro et al., 2002; Batista Filho e Rissin, 2003).
Apesar da redução relativamente rápida nas taxas de desnutrição infantil, o
problema ainda não foi sanado no país e, além disso, as diferenças regionais e
entre os meios rural e urbano ainda são significativas. O declínio do déficit de
estatura nas áreas urbanas por exemplo, foi muito mais acentuado que no meio
rural brasileiro, aumentando a diferença que já existia entre as duas áreas (de 52%
em 1975, para 145% em 1996). Em têrmos regionais as maiores prevalências do
retardo na estatura em crianças menores de cinco anos (dados de 1996) ocorrem
nas regiões Nordeste (25,2% na área rural) e Norte (16,6% nas áreas urbanas)
(Batista Filho e Rissin, 2003).
Paradoxalmente, neste mesmo período, a freqüência da obesidade na população
brasileira alcançou dimensões epidêmicas (Monteiro et al., 2002; Batista Filho e
Rissin, 2003; Mendonça e Anjos, 2004; Veiga et al., 2004; Ferreira e Magalhães,
2005). Entre 1974/75 e 1995/96 a prevalência agregada de sobrepeso (IMC entre
25,0 e 29,9) e obesidade (IMC > 30,0) aumentou 112% entre as mulheres adultas
do Nordeste e Sudeste do Brasil (Batista Filho e Rissin, 2003). A partir da década
de 1990, a prevalência de obesidade na população adulta passou a aumentar
nos segmentos da população de renda mais baixa (Batista Filho e Rissin, 2003;
Ferreira e Magalhães, 2005), refletindo uma tendência mundial (Popkin, 2001).
Os padrões de obesidade no Brasil também mostram diferenças entre os sexos.
Enquanto a obesidade aumenta proporcionalmente à renda entre os homens,
entre as mulheres ela aumenta em proporção à pobreza (Sichieri et al., 1994;
Monteiro et al., 2002; Sawaya e Roberts, 2003; Ferreira e Magalhães, 2005).
Somado a este cenário, parece existir uma associação entre a obesidade na idade
adulta e a desnutrição na infância de um mesmo indivíduo, principalmente entre
as mulheres (Sawaya e Roberts, 2003; Sawaya, 2006). A tendência de aumento
da obesidade entre os adolescentes é semelhante a da população adulta, mas
entre 1974 e 1989 o salto na prevalência foi ainda mais dramático (100% em
comparação a 80% nos adultos) ( Veiga et al., 2004).
Estas tendências de redução da desnutrição e aumento da obesidade caracterizam
o processo de transição demográfica e nutricional pelo qual o Brasil (Bogin e Keep,
1999; Uauy et al., 2001; Batista Filho e Rissin, 2003; Mendonça e Anjos, 2004) e
outros países latino-americanos vêm atravessando (Bermudez e Tucker, 2003;
Kain et al, 2003). A transição nutricional caracteriza-se por uma rápida alteração
na estrutura da dieta e nos padrões de atividade física da população, relacionada
às mudanças sócio-econômicas e demográficas (Popkin, 2001). No caso do Brasil
estas tendências refletem importantes mudanças sociais e econômicas ocorridas
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desde a década de 1970, tais como o aumento de renda, a melhoria das condições
de saneamento e acesso a serviços de saúde, o aumento da população urbana e
passagem de uma economia agrícola a outra baseada no setor secundário/terciário
(Uauy et al., 2001; Popkin, 2001, 2003; Monteiro et al., 2002; Batista Filho e Rissin,
2003; Kain et al., 2003; Mendonça e Anjos, 2004).
Por outro lado a distribuição social da renda no país não melhorou nas últimas
décadas, assim como a da terra, colocando-o entre os mais desiguais do mundo
no que se refere à divisão da riqueza produzida (Batista Filho e Rissin, 2003).
Além disso as disparidades regionais em quanto à distribuição da renda ainda
são consideráveis, sendo as regiões Norte e Nordeste as mais desfavorecidas em
relação às outras regiões do país. Este contraste se repete entre áreas rurais e
concentrações urbanas, sendo as primeiras as mais desfavorecidas.
Estes padrões refletem o que alguns autores denominam ˝distribuição espacial da
desnutrição e da obesidade˝ (Batista Filho e Rissin, 2003). Segundo Monteiro (2003:
11), a prevalência do déficit de estatura segundo a idade no Brasil entre crianças
de 0 a 5 anos de idade, por exemplo, é de 10,4%, sendo 7,7% nas áreas urbanas e
18,9% nas áreas rurais. Já em relação à obesidade, na população adulta existe uma
variação regional, encontrando-se prevalências mais altas no Sul e mais baixas no
Nordeste. Além disso, a prevalência da obesidade nos homens é maior nas áreas
urbanas em todas as regiões, enquanto para as mulheres é maior nas áreas rurais,
com exceção das regiões Nordeste e Sudeste (Sichieri et al., 1994).
Uma das características mais intrigantes na ocorrência de desnutrição e obesidade
no Brasil, na América Latina e outros países em desenvolvimento, é a existência
de altas prevalências de déficit de estatura em populações de baixo nível socioeconômico. Não ocorrem prevalências importantes de déficit ponderal (índice de
peso segundo a altura), ao contrário do padrão observado em outros continentes
(Victora, 1992; Victora et al., 1998;Post et al., 1999).
Um levantamento realizado por Victora (1992: 1107) sobre as medidas da prevalência
média de déficits de estatura por idade, peso por idade e peso por estatura em
crianças latino-americanas (12 a 23 meses), mostra que elas equivalem a 33,8 %,
22,8 % e 2,7 %, respectivamente. No caso do Brasil, os valores obtidos por Victora
et al. (1998: 324) para crianças de 0 a 5 anos de idade foram 21,3 %, 10,7 % e 2,6 %,
respectivamente.
Alguns sugerem que a baixa prevalência de déficit ponderal talvez possa ser
explicada pela menor intensidade de desnutrição associada à condições socioeconômicas razoáveis, quadro comum à maioria dos países latino-americanos, ou
pelas diferentes proporções e/ou constituição física das crianças latino-americanas
em relação à população de referência americana (NCHS) ( Victora, 1992; Post et
al.,1999; Morais et al., 2003). Victora (1992) sugere ainda, que o déficit ponderal e
de estatura podem não ter a mesma etiologia. Embora certamente ambos tenham
causas em comum, como o consumo energético insuficiente e a ocorrência de
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infecções contínuas, devem haver outras causas envolvidas na determinação
de cada um destes indicadores, incluindo fatores ecológicos ( Victora 1992). As
pesquisas nutricionais que adotam abordagens ecológicas, analisando relações
causais e feedbacks entre aspectos ambientais, o uso dos recursos naturais e a
saúde humana, ainda são pouco numerosas (Leonard et al.,1993; Murray e SánchezChoy, 2001; Orr et al., 2001, Silva et al., 2006).
A Ecologia Nutricional das Populações Ribeirinhas da Amazônia
No caso específico das várzeas do rio Amazonas, a compreensão de como as
estratégias de subsistência estão relacionadas e sincronizadas com as mudanças
estacionais decorrentes das inundações periódicas e seus desdobramentos para
o estado nutricional, o consumo alimentar e a saúde dos ribeirinhos , ainda
é incipiente (Murray e Sánchez-Choy 2001). Mesmo assim, os poucos estudos
realizados sugerem que o estado nutricional das populações amazônicas pode ser
afetado pela diversidade e acesso diferenciado a micro-ambientes (Neves 1992;
Siqueira 1997; Murrieta et al. 1999), por fatores ambientais como a produtividade
do ecossistema, qualidade da água, disponibilidade de recursos naturais e fatores
sócio-econômicos como o acesso a serviços de saúde e educação, práticas de
higiene e renda. (Murray e Sánchez-Choy, 2001; Orr et al., 2001; Silva et al., 2006;
Piperata, 2007).
Um outro agravante no que se refere à caracterização da alimentação e do estado
nutricional das populações amazônicas, é que a maioria dos levantamentos
nacionais (ENDEF 1974/75, PNSN 1989, PNDS 1995/96, PPV 1997, PNAD/IBGE ) não
inclui as áreas rurais da região norte do país ( Victora et al., 1998; Batista Filho
e Rissin, 2003; Monteiro, 2003). Assim, as tendências que vêm sendo observadas
(incidência moderada do déficit nutricional na infância, coexistindo com taxas
crescentes de sobrepeso) em outras regiões do país e da América Latina devem
ser inferidas quando se trata das populações rurais amazônicas. Esta falta de
conhecimento mais abrangente sobre a saúde e nutrição de populações rurais nãoíndias da Amazônia, acentua sua invisibilidade em relação às políticas públicas de
segurança alimentar e nutricional (SAN) (Adams et al., 2006; Silva 2006).
Os estudos técnicos feitos para embasar a criação do projeto Fome Zero (o
mais ambicioso programa governamental de eliminação da fome e garantia da
segurança alimentar já implantado na história do Brasil e de grande repercussão
internacional), por exemplo, basearam-se nos dados da Pesquisa Nacional de
Originários da miscigenação de europeus (principalmente portugueses), índios destribalizados e
negros (em menor escala), os Caboclos ou Ribeirinhos desenvolvem uma economia diversificada
baseada na pesca, caça, agricultura de derrubada e queima e agricultura, intensiva, coleta e
comercialização de produtos da floresta (Murrieta et al. 1999).
Estudo Nacional de Despesas Familiares (ENDEF), Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição (PNSN),
Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS), Pesquisa de Padrões de Vida (PPV), Pesquisa Nacional
por Amostra de Domicílios (PNAD, apenas a partir de 2004 passou a incluir as áreas rurais de Rondônia,
Acre, Amazonas, Roraima, Pará e Amapá e alcançou a cobertura completa do Território Nacional).
“Ter segurança alimentar significa garantir que todas as famílias tenham condições de se alimentar
dignamente com regularidade, quantidade e qualidade necessárias à manutenção de sua saúde física
e mental” (FAO 2006: 3).
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Amostragem por Domicílio (PNAD) do IBGE de 1999 e 2001 (Belick 2003; FAO 2006),
excluindo a região Norte rural do diagnóstico da população-alvo .
Todavia, a atual invisibilidade destas populações não reflete a importância que a
Amazônia teve no debate travado na antropologia americana sobre a ocupação
humana desta porção das terras baixas da América do Sul (Meggers, 1954, 1958,
1984; Lathrap, 1968; Carneiro, 1970, 1995; Gross, 1975; Ross, 1978; Beckerman,
1979, 1991; Chagnon e Hames, 1980; Milton, 1984; Sponsel, 1986; Hames, 1987;
Vickers, 1988; Viertler, 1988; Neves, 1989; Roosevelt, 1989,1991,1994). Baseados
na noção de que a Amazônia apresenta grandes obstáculos ambientais para o
estabelecimento de grandes contingentes populacionais, alguns antropólogos
e arqueólogos tentaram identificar os fatores por trás da aparente ausência
de sociedades complexas no passado pré-Cabralino . Durante algum tempo
prevaleceu neste debate a distinção entre várzea e terra firme, e vários autores
argumentavam que ambas apresentavam oportunidades e limitações distintas à
ocupação humana, sendo que a primeira teria uma capacidade de suporte maior
em relação à segunda (Steward, 1949; Lathrap, 1968; Carneiro, 1970; Meggers, 1987;
Roosevelt, 1989, 1991). Todavia, apesar de ter solos relativamente mais férteis que a
terra firme, a várzea é um ambiente de alto risco que apresenta desvantagens para
sua ocupação, como a impossibilidade de cultivos perenes devido a inundações
anuais que recobrem quase a totalidade dos terrenos durante o seu pico, e ainda,
na região estuarina, as variações diárias da maré (Carneiro, 1995; Denevan, 1996).
Quando a divisão entre várzea e terra firme mostrou-se insuficiente para responder
a questão da relação entre produtividade primária dos ecossistemas amazônicos
e sustentabilidade das populações humanas, Moran (1990) propôs um modelo
baseado na tipologia de bacias, inspirada no estudo seminal de Sioli (1984). De
acordo com Moran (1990), deveríamos esperar um aumento na sustentabilidade
e qualidade de vida das populações humanas assentadas nos ecossistemas
ribeirinhos de acordo com o aumento na produtividade primária, ligada ao tipo de
água dos rios. As bacias de águas brancas características das várzeas do Amazonas
seriam, de acordo com este modelo, as mais produtivas. Todavia, poucos estudos
foram realizados para testar a validade desta hipótese, particularmente no que se
refere à avaliação da qualidade de vida biológica através de estudos nutricionais
(Adams, 2002).
As pesquisas sobre o estado nutricional de grupos populacionais amazônicos
são relativamente raros, muitas vezes antigos, fragmentados e/ou incompletos.
Ademais, o uso destes trabalhos em análises comparativas é bastante limitado,
dado as diferentes metodologias utilizadas (Santos, 1993, Alencar et al., 1999).
Apesar disso, as poucas pesquisas realizadas nas últimas décadas com populações
amazônicas não-indígenas apontam para a existência de um quadro pluricarencial,
caracterizado pela baixa ingestão de zinco, tiamina, riboflavina, cálcio e calorias;
Mesmo assim, estimou-se que 27,3% da população brasileira não teria renda suficiente para obter
uma alimentação satisfatória, em 2001, e que 47,3% dos pobres estaria nas áreas rurais, contando
com uma renda média mensal per capita de R$ 39,11 (Belick 2003).
Este debate foi retomado recentemente, devido às inúmeras evidências de grandes assentamentos
humanos no passado recente, em vários ecossistemas amazônicos (para uma visão recente ver Mann
2007 e Hornborg 2005).
200
elevada prevalência de déficit de estatura-por-idade; baixa prevalência de déficit de
peso-por-idade e peso-por-estatura; baixo peso ao nascer; prevalência de obesidade
nos adultos em elevação; grande ocorrência de parasitose gastrointestinal e
cáries dentárias; e mudanças nos padrões de dieta e atividade física na última
década (Giugliano e Shrimpton, 1976; Giugliano et al., 1978, 1981, 1984; Araújo e
Shrimpton,1982; Dufour, 1992; Santos, 1993; Eve, 1995; Santos e Coimbra Jr., 1996;
Murrieta et al., 1998, 1999; Alencar et al., 1999; Orr et al., 2001; Morais et al., 2003,
Murrieta e Dufour, 2004; Pucciarelli et al., 2005; Silva 2001, 2006; Piperata, 2007).
Diante deste cenário, apresentamos neste artigo os resultados de um estudo
comparativo entre populações assentadas na bacia do rio Amazonas, em dois
tipos diferentes de ecossistemas: a várzea estacional (Ilha de Ituqui, município de
Santarém-PA) e a várzea estuarina (município de Ponta de Pedras, Ilha de Marajó,
PA). O principal objetivo da investigação foi testar se a qualidade de vida biológica
das populações ribeirinhas amazônicas pode ser influenciada pelas diferenças
ecossitêmicas, e investigar a influência da diversidade ambiental regional sobre
seus sistemas sociais. Este estudo faz parte de um projeto maior, que pretende
investigar se as características ecológicas das bacias amazônicas teriam um caráter
preditivo no que se refere à qualidade de vida das populações que vivem na
Amazônia (Moran 1990).
Como parâmetro para a avaliação da qualidade de vida biológica utilizou-se o estado
nutricional obtido através de estudos antropométricos, complementados com uma
investigação do consumo alimentar. Os dados sobre o consumo alimentar já foram
apresentados em outras publicações (Adams et al. 2006; Murrieta 1998, 2001a,b;
Murrieta e Dufour 2004; Murrieta et al. 1999), e aqui serão apenas referidos.
MATERIAIS E MÉTODOS
Áreas de Estudo
As populações que fazem parte deste estudo estão compostas pelos habitantes
das comunidades ribeirinhas de Paricatuba, Praia Grande e Marajó-açú, na várzea
estuarina (município de Ponta de Pedras, na Ilha de Marajó-PA), e de Aracampina
e São Benedito, na várzea estacional (Ilha do Ituqui, município de Santarém-PA).
Estas populações são chamadas Caboclas ou Ribeirinhas, e tem sua origem na
miscigenação de europeus (principalmente portugueses), índios destribalizados e
negros (em menor escala).
A partir da segunda metade do século XIX uma grande onda migratória proveniente
do Nordeste brasileiro, atraída pela próspera extração de borracha, contribuiu para
constituir o campesinato histórico Amazônico, também conhecido como Caboclos
ou Ribeirinhos. Estudos realizados no estuário do Amazonas indicam cerca de 53%
de ancestralidade européia, 22% indígena e 25% africana no pool genético caboclo
(Salzano 1986), confirmando o processo histórico de sua formação.
201
Os dois ecossistemas estudados estão situados na bacia do rio Amazonas,
classificada como de águas brancas (Moran 1990). A característica ecológica
mais marcante da várzea estacional é a cheia anual do rio Amazonas, que dita os
padrões migratórios da fauna, os ciclos de produção agrícola (Adams et al. 2005,
Futema 2000, Murrieta 2001a; Murrieta e WinklerPrins, 2003), e a disponibilidade
estacional dos recursos florestais e aquáticos (Castro e McGrath, 2005; Castro, 1999;
Futema, 2000; Murrieta, 2001b), assim como a prevalência de vetores de doenças, a
periodicidade das epidemias e a qualidade da água de consumo (Murray e SánchezChoy 2001).
Na região estuarina, apesar da variação estacional no nível do rio, o aspecto mais
relevante é a variação diária das marés. O estuário é uma região ecológicamente
complexa e altamente produtiva em recursos alimentares para a fauna e as
populações humanas, caracterizada em quanto à sua vegetação pela presença
de áreas de manguezais, savanas, matas ciliares, campos inundados e florestas
pluviais adaptadas à inundação (Goulding 1997).
Ilha de Ituqui (Várzea Estacional)
As comunidades da várzea estacional –Aracampina e São Benedito– estão
localizadas na Ilha de Ituqui, na calha principal do rio Amazonas, 30 km à jusante
da cidade de Santarém (PA), no Baixo Amazonas (Figura 1). O clima na região é
o Tropical de Monções (Köppen Amw), apresentando duas estações distintas: o
inverno (dezembro a junho) e o verão ( julho a novembro). A temperatura média é
de 26 oC, sendo as variações diárias (10 oC) maiores que as estacionais. A umidade
média anual é de 80 a 85 % (WinklerPrins, 1999), e a precipitação anual é de 1.973
mm, sendo que na época do plantio (verão) apenas 20 % das chuvas atinge a ilha.
A ilha é coberta por um mosaico de floresta de várzea e campos naturais altamente
adaptados à inundação estacional, embora sua vegetação natural tenha sido
amplamente alterada ao longo dos últimos séculos. A parte periférica da ilha é
circundada por um anel de terras mais altas – as restingas. O terreno sofre um ligeiro
declive em direção à parte central, onde se forma uma rede de lagos rasos. A zona
de transição entre as restingas florestadas e os lagos permanentes é coberta por
gramíneas. As habitações e as atividades agrícolas estão concentradas nas terras
altas, em restingas. Os limites das propriedades estão alinhados perpendicularmente
ao rio, de maneira que cada unidade doméstica tenha acesso a todos os principais
ambientes da várzea (rio, restinga, pastio, lago) (McGrath et al., 1999, Murrieta,
2000, WinklerPrins, 2001). Uma descrição mais detalhada do ambiente natural do
Ituqui pode ser vista em WinklerPrins (1999) e Futemma (2000).
Durante o inverno a maior parte da ilha fica submersa, por se tratar do período de
chuvas. O nível das águas do rio pode subir mais de 9 metros e cobrir a maior parte
das florestas e campos naturais, o que altera radicalmente a paisagem. A interação
entre a cheia e a estação de chuvas é a maior fonte de instabilidade para o agricultor
202
da várzea que, somada à existência de um período de seca relativamente intenso
no meio do verão, pode fazer com que ele perca, ocasionalmente, boa parte da
produção anual (Winklerprins, 1999). Mesmo assim, Câmara e McGrath (1995)
estimam que no início da década de 1990, 81% das unidades domésticas da ilha
desenvolviam algum tipo de agricultura.
A maior parte dos moradores da ilha de Ituqui é formada por pequenos proprietários,
que provavelmente residem na área desde o fim do século XIX e começo do XX
(Murrieta, 2000). No início da década de 1990 a população total da ilha era de cerca
de 2.000 habitantes (Câmara e McGrath, 1995), distribuída em 8 comunidades. A
maioria das unidades domésticas da região do Ituqui (76 %) depende dos recursos
da ilha para sua subsistência, embora também mantenham laços econômicos com
outras regiões da várzea e com a terra firme (Câmara e McGrath, 1995). Castro
(1999), Futemma (1995), Murrieta (1998, 2000, 2001), Murrieta e WinklerPrins (2003)
e WinklerPrins (1999) aportam mais detalhes sobre as atividades econômicas e o
histórico de ocupação do Ituqui.
A pesca e a agricultura são as duas atividades econômicas de maior importância
para a renda das famílias do Ituqui. Câmara e McGrath (1995) estimam que a
renda média anual por unidade doméstica é de US$ 950,00 (McGrath et al., 1999).
A importância dessas atividades é refletida na grande importância que o peixe e a
farinha de mandioca desempenham na dieta básica em Ituqui (Murrieta e Dufour,
2004; Adams et al., 2005, 2006). Enquanto a farinha de mandioca corresponde a
cerca de 35,2 % das calorias consumidas nas unidades domésticas de Aracampina
e 31,1 % de São Benedito, posicionando-se como o carboidrato mais importante da
alimentação local, o peixe contribui com 54,3 % e 67,3 % das proteínas ingeridas
nas respectivas comunidades (Tabela 1) (Murrieta, 2000; Adams, 2002). Além de
principal fonte protéica, o peixe também é a segunda fonte mais importante de
energia, contribuindo com 17,5 % em Aracampina e 26,0 % em São Benedito
(Murrieta, 2000; Adams 2002; Murrieta e Dufour, 2004). Frutas e verduras são pouco
consumidas e desempenham um papel secundário e estacional na dieta local,
aportando baixos valores de micronutrientes (Murrieta e Dufour, 2004; Adams et
al., 2005). A Tabela 1 mostra as principais fontes calóricas e protéicas na dieta das
comunidades estudadas.
As duas comunidades escolhidas para a pesquisa, Aracampina e São Benedito,
representam os dois extremos ambientais da Ilha de Ituqui (Murrieta, 2000;
Murrieta e Dufour, 2004). Aracampina se localiza às margens da calha principal do
rio Amazonas, na área mais baixa da ilha, motivo pelo qual é a mais afetada pelas
cheias estacionais e pela correnteza do rio (Castro, 1999). Na segunda metade da
década de 1990, era a comunidade com o maior número de habitantes (550) e
a que ocupava a maior área (Futema, 1995; Castro, 1999). Além de usufruir dos
lagos interiores da ilha, os moradores de Aracampina têm rápido acesso à calha
principal do Amazonas, o que lhes proporciona a oportunidade de participar na
pesca estacional de grandes bagres (verão), o que complementa a renda familiar
(Castro, 1999).
203
Figura 1 - Localização das comunidades de Aracampina e São Benedito na Ilha de Ituqui, Santarém
(PA)
São Benedito se localiza na face oposta da ilha, na várzea do Paraná do Ituqui,
um dos braços do rio Amazonas. Em 1997 havia 164 moradores, em 36 casas.
Esta comunidade está situada próximo a duas lagoas interiores e possui uma das
maiores áreas disponíveis para a agricultura e a pecuária em relação às outras.
Além disso é circundada por um mosaico de micro-ambientes formado por
florestas secundárias de inundação, pântanos, savanas e pastagens (Murrieta,
2000; Murrieta e WinklerPrins, 2003; Murrieta e Dufour, 2004). Devido à localização
204
desta comunidade seus moradores estavam menos envolvidos com a pesca no rio
que os moradores de Aracampina (Murrieta, 2000).
Tabela 1 - Principais fontes calóricas e protéicas (% do consumo total) nas comunidades
das várzeas estacional e estuarina (estações do ano combinadas)
SB
A
(1995/6) (1995/6)
A
(1997)
SB
(1997)
25,2
35,2
31,1
17,5
26,0
11,5
24,6
18,7
-
-
-
-
-
-
11,5
11,5
11,2
10,0
-
-
-
8,2
10,5
10,4
5,7
Leite/derivados
-
-
-
7,3
2,7
4,7
1,3
Óleo vegetal
-
-
-
4,2
2,6
3,6
3,1
40,2
28,5
48,1
17,3
21,5
23,4
24,2
Peixe
13,3
34,3
23,1
54,3
64,1
43,5
67,3
Camarão
12,9
8,9
13,3
-
-
-
-
Porco
16,4
4,4
6,0
-
-
-
-
Boi
5,5
18,8
16,4
-
-
3,5
0,6
Caça
17,2
2,6
0,5
-
-
13,6
1,0
Frango
-
1,7
6,5
-
-
4,8
8,9
Cereais
-
-
-
5,4
5,4
4,2
2,1
Leite
-
-
-
11,6
3,1
4,0
1,1
Ovos
1,6
1,4
0,3
-
-
0,4
1,5
26,0
17,5
P
(1990)
MA
(1990)
PG
(1990)
45,8
41,5
33,2
34,0
Peixe
-
-
-
Açaí
14,0
30,0
Açúcar
-
Cereais
Calóricas
Mandioca
Outros
Protéicas
33,1
28,0
33,9
28,7
27,4
Outros
Fonte: Adams, 2002; Murrieta, 2000; Siqueira, 1997.
Ponta de Pedras (Várzea Estuarina)
O município de Ponta de Pedras, onde se localizam as comunidades estuarinas de
Praia Grande, Paricatuba e Marajó-açú, situa-se na região sudeste da Ilha de Marajó
(PA), dentro da micro-região de Arari (Brondízio e Siqueira, 1997; Siqueira, 1997;
Murrieta et al., 1999) (Figura 2). Encontra-se no ecótono entre a floresta densa
(oeste) e os campos naturais (leste), e a maior parte de sua área é coberta pela
floresta de várzea. A área restante é recoberta por floresta de terra firme, floresta
de transição (entre a floresta e o campo), campos, igapós, manguezais, pousios em
diferentes estágios de regeneração e florestas de açaí (Euterpe oleraceae) (Brondízio,
1996; Brondízio e Siqueira, 1997; Siqueira 1997). Está localizado no limite entre a
região de clima Tropical Úmido (Köppen Af ) e Tropical de Monções (Köppen Am)
205
(Lima et al., 2005). Sua temperatura média anual é de 27 oC e a pluviosidade média
é de 3.000 mm/ano. A estação seca (verão) vai de maio até o fim de novembro, e o
inverno de dezembro ao início de maio (Murrieta et al., 1999; Siqueira, 1997).
A distância entre Ponta de Pedras e a capital do estado, Belém, é de 44 km, a três
ou quatro horas de viagem de barco. O acesso a outros lugares da ilha só é possível
de barco ou avião (Siqueira, 1997).
Figura 2 - Localização do município de Ponta de Pedras na Ilha de Marajó (PA)
Ao longo da história do município diferentes atividades econômicas ganharam e
perderam importância, tais como a agricultura, a pesca, a pecuária, a extração de
palmito, madeira e outras atividades agro-florestais. Durante a década de 1990 a
maior parte da renda do município provinha da pecuária extensiva, seguida das
atividades agro-florestais, especialmente a extração de madeira. No Estado a extração
e produção de açaí (suco e palmito), Euterpe oleracea, vem crescendo dramáticamente
nas duas últimas décadas (Brondízio e Siqueira 1997; Siqueira 1997).
206
Nas comunidades de Ponta de Pedras a mandioca é a maior fonte de calorias na
dieta, variando de 33,2 % de contribuição em Praia Grande (que abandonou o
padrão tradicional de subsistência, conforme se verá abaixo) a 45,8 % em Paricatuba
(Tabela 1) (Siqueira, 1997; Adams et al., 2006). Este consumo é relativamente mais
elevado que na várzea estacional, e provavelmente reflete a ausência das cheias
anuais do rio, que reduzem o período agrícola no Ituqui a seis meses por ano. A
segunda maior fonte de calorias é o açaí (Euterpe oleraceae Mart.), espécie que não
se apresenta naturalmente na várzea estacional, que contribui com até 30,0 % das
calorias consumidas na dieta da população de Marajó-açú.
O peixe é a principal fonte protéica no estuário (13,3 % a 34,3 % da dieta, dependendo
da comunidade), mas as fontes secundárias diferem em relação ao Ituqui: camarão
(8,9 % a 12,9 %), carne bovina (5,5 % a 18,8 %) e de porco (4,4 % a 16,4 %) (Tabela
1). Frutas e verduras também são pouco consumidas, desempenhando um papel
secundário na dieta local (Siqueira, 1997; Adams et al., 2006).
As três comunidades investigadas no município de Ponta de Pedras (Praia Grande,
Paricatuba e Marajó-açú) são eqüidistantes da sede homônima do município, e
seus moradores estão em contato freqüente com seu dia-a-dia urbano. Em 1991
a população de Marajó-açú localizava-se ao longo do rio de igual nome e estava,
segundo a pesquisa, formada por 371 indivíduos em 46 unidades domésticas.
Quando as pesquisas foram realizadas, as principais atividades de subsistência
eram o cultivo do açaí, cuja demanda crescia no mercado urbano regional, a
pesca do camarão, e o comércio fluvial (marretagem) com outras áreas da Ilha
de Marajó. A agricultura restringia-se a algumas roças de mandioca. A situação
fundiária era dominada pelo sistema de meia – o proprietário ficava com 50 % da
produção do morador. Ocorriam disputas ocasionais sobre a partilha da produção
ou permanência no terreno que podiam evoluir, transformando-se em conflitos
relativamente sérios (Murrieta et al., 1989, 1999; Brondízio et al., 1994; Murrieta,
1994; Brondízio e Siqueira, 1997).
A população de Paricatuba localiza-se às margens do rio Paricatuba e na terra firme
adjacente. Na época da pesquisa era composta de 144 indivíduos em 19 unidades
domésticas. As principais atividades produtivas eram baseadas na agricultura
de subsistência (principalmente mandioca, arroz, feijão, milho), pesca, caça de
pequenos animais e no cultivo de açaí e outras frutas. A maior parte dos moradores
era proprietária de suas terras. Apesar de possuírem um padrão semelhante ao
de Marajó-Açú (cultivo de açaí, pesca de camarão e marretagem), as unidades
domésticas de Paricatuba pareciam ser mais independentes do mercado local, e
mais integradas entre si. Esta integração caracterizava-se por uma intensa rêde de
troca de alimentos, trabalho de mutirão e acesso a recursos com base em laços de
parentesco (Siqueira et al., 1993; Murrieta, 1994; Murrieta et al., 1999).
A população de Praia Grande situa-se às margens da baía de Marajó, numa área de
terra firme. Em 1991 era composta por 111 indivíduos e 21 unidades domésticas.
Históricamente seu sistema de subsistência era baseado na agricultura de coivara,
207
pesca, caça, e no cultivo e extração de alguns produtos destinados ao mercado
(como a malva, Urena sp. e a borracha Hevea spp). Entretanto, desde o final da
década de 1960, uma cooperativa agrícola estabelecida pela Igreja Católica
começou a mudar o padrão de subsistência local, e o cultivo de mandioca foi em
grande parte abandonado a favor de novos cultivos mecanizados (coco da Bahia,
milho, arroz, feijão) e pecuária. Entretanto, apesar dos esforços da Igreja, dos
moradores e do input externo de recursos em forma de projetos de intervenção,
todas as tentativas de implantar um sistema auto-sustentável falharam. Um dos
efeitos colaterais destas tentativas foi a degradação ambiental da área devido,
provavelmente, ao uso de tecnologias inadequadas e à expansão das pastagens
(Murrieta et al., 1992, 1999; Brondízio et al., 1994; Murrieta, 1994; Brondízio e
Neves,1996; Siqueira,1997).
Antropometria
Os dados antropométricos da várzea estuarina foram coletados por Walter Neves,
Andréa Siqueira e Rui Murrieta no verão (setembro) de 1990. Os procedimentos da
coleta foram baseados em Frisancho (1990), e as variáveis mensuradas foram: altura,
peso, circunferência do braço, pregas do tríceps, subescapular e supra-ilíaca. Em
total foram mensurados 408 indivíduos, sendo 152 crianças (0-9,9 anos de idade),
106 adolescentes (10,0-19,9 anos) e 149 adultos (> 20,0 anos) (ver Tabelas 2 e 3). Os
dados foram coletados em indivíduos entre 0 e 88 anos de idade, e a participação
foi voluntária. As mulheres grávidas foram excluídas da amostra. As medidas foram
coletadas nas escolas locais e nas unidades domésticas.
A altura foi medida com um antropômetro GPM fixo em milímetros, exceto para as
crianças abaixo de três anos de idade, cujas medidas foram tiradas com o auxílio
de um infantômetro em decúbito dorsal sobre uma superfície plana. O peso foi
medido com uma balança portátil com escala de 500 g. Nenhum fator de correção
foi aplicado para a roupa dos indivíduos, já que a maioria usava peças leves quando
foi medida (short, camiseta, vestido de algodão).
A circunferência do braço foi mensurada com uma fita métrica inelástica em
centímetros, e as pregas com um adipômetro da marca Lange, em milímetros
(Neves, 1992; Siqueira, 1997).
Na várzea estacional as medidas antropométricas foram coletadas por Cristina
Adams e Rosely Sanches, no verão (novembro) de 1997. Os procedimentos de
coleta de dados foram baseados em Frisancho (1990) e Weiner e Lourie (1969,
1981), e as variáveis coletadas foram: altura, peso, circunferência do braço e da
perna, e pregas do tríceps, subescapular e supra-ilíaca. Em total foram mensurados
350 indivíduos, sendo 109 crianças (0-9,9 anos de idade), 96 adolescentes (10,019,9 anos) e 144 adultos (> 20,0 anos) (ver Tabelas 2 e 3).
As medidas foram feitas através de visitas às unidades domésticas, com exceção
das crianças, que foram medidas na escola. Todas as pessoas que concordaram em
208
participar da pesquisa foram medidas e a idade variou entre 0 e 88 anos de idade. As
mulheres grávidas foram excluídas da amostra. A estatura foi medida com o mesmo
antropômetro GPM utilizado na várzea estuarina, fixo numa base de madeira, e o
valor foi anotado em milímetros. Crianças com menos de 2 anos de idade tiveram
a estatura medida com o infantômetro, em decúbito dorsal sobre uma superfície
plana, e a medida anotada em centímetros. O peso de todos os indivíduos foi
medido com uma balança digital com escala de 200 g. Nenhum fator de correção
foi aplicado para a roupa dos indivíduos pelo mesmo motivo apresentado no caso
da população da várzea estuarina. As circunferências dos braços e das pernas foram
medidas com o uso de uma fita métrica inelástica, em centímetros. As pregas do
tríceps, subescapular e supra-ilíaca foram tomadas com um adipômetro da marca
Baseline em milímetros. Para cada dimensão antropométrica considerada foram
realizadas três medidas, e a média aritmética anotada (Himes 1989).
Tabela 2 – Número de indivíduos investigados por ecossistema, sexo e faixa etária
(verão)
Faixa etária
Idade
Várzea Estacional
Várzea Estuarina
Total
(anos)
M
F
M
F
0 – 1,9
9
4
13
13
39
2,0 – 3,9
12
13
10
17
52
4,0 – 5,9
17
10
20
13
60
6,0 – 7,9
11
10
15
21
57
8,0 – 9,9
11
12
19
11
53
Adolescentes
10,0 – 19,9
47
49
60
46
202
Adultos
≥ 20,0
64
80
70
79
293
171
179
207
201
758
Crianças
Total
Para efeito da análise estatística as comunidades foram agrupadas de acordo com
o ecossistema, formando duas populações. Os resultados antropométricos foram
transformados em escores z, padronizando as medidas dos indivíduos de acordo
com as referências internacionais CDC/WHO 1978 e NHANES I e II (Frisancho, 1990;
Kuczmarski et al., 2000), e apresentados segundo o sexo e a faixa etária, de acordo
com as recomendações internacionais ( Waterlow et al., 1977; WHO, 1995). As
referências internacionais foram utilizadas apenas com finalidade comparativa e
não supõe, necessariamente, standards a serem atingidos.
O estudo sobre o status nutricional das crianças (0-9,9 anos de idade) nos dois
ecossistemas seguiu as recomendações de WHO (1995), e os índices antropométricos
calculados foram: estatura-por-idade (HAZ), peso-por-idade ( WAZ), peso-paraestatura (WHZ) índice de massa corporal-para-idade (ZBMI), soma das pregas
cutâneas (ZSSF) e área muscular do braço (ZUMA). Os três primeiros (HAZ, WAZ e
209
WHZ) foram calculados com o software Epi-Info 2000 (versão 3.3.2), tendo como
referência os dados de CDC/WHO 1978. O índice de massa corporal-para-idade
(ZBMI) e os indicadores de reservas de gordura (ZSSF) e proteína (ZUMA) foram
calculados com o uso do software SPSS (versão 10.0), utilizando como referência os
dados de NHANES I e II (Frisancho, 1990; Jelliffe et al., 1989). Para os adolescentes
(10,0-19,9 anos) e adultos (> 20,0 anos), foram calculados os mesmos índices
antropométricos e indicadores das crianças, com base nas referências de NHANES
I e II (Jelliffe et al., 1989; Frisancho 1990), com o software SPSS (versão 10.0).
A estatura-para-idade (HAZ) e o peso-para-idade ( WAZ) foram usados como
indicadores de status nutricional crônico e agudo, respectivamente, para todas as
faixas etárias. A área muscular do braço (ZUMA) foi utilizada como uma estimativa
das reservas protéicas, e escores z < -2,0 foram considerados como indicativos
de desnutrição (Frisancho 1990). A soma das pregas cutâneas (ZSSF) foi utilizada
como indicador do estoque de gordura corpórea em adolescentes e adultos
(Frisancho 1990). A existência de déficit estatural foi considerada para indivíduos
com baixa estatura (z-score <-2,0) e o déficit ponderal para aqueles com baixo
peso (z-score <-2) (WHO 1995). Em relação aos valores do índice de massa
corporal (IMC), foram estabelecidas as seguintes categorias: indivíduos magros
(< 18,5), normais (18,5 – 24,9), com sobrepeso (25,0-29,9) e obesos (> 30,0), de
acordo com WHO (1995).
210
Tabela 3 - Características antropométricas das populações ribeirinhas das várzeas estuarina e estacional no verão, por sexo e faixa
etária
Várzea Estacional
Medida
Estatura (cm)
Peso (kg)
Peso para altura (kg/cm)
IMC (kg/m2)
Idade (anos)
0-1,9
2,0-3,9
4,0-5,9
6,0-7,9
8,0-9,9
10,0-19,9
> 20,0
0-1,9
2,0-3,9
4,0-5,9
6,0-7,9
8,0-9,9
10,0-19,9
> 20,0
0-1,9
2,0-3,9
4,0-5,9
6,0-7,9
8,0-9,9
10,0-19,9
> 20,0
0-1,9
2,0-3,9
4,0-5,9
6,0-7,9
8,0-9,9
10,0-19,9
> 20,0
N
4
12
10
10
12
49
80
4
13
10
10
12
49
80
4
12
10
10
12
49
79
4
12
10
10
12
49
80
Feminino
Média
71,0
86,0
98,9
114,9
126,3
147,4
150,3
9,0
11,2
14,6
19,5
24,1
43,3
58,5
0,13
0,13
0,15
0,17
0,19
0,29
0,39
17,9
15,2
14,8
14,7
15,0
19,7
25,9
DP
8,6
5,2
5,7
6,3
5,4
8,2
6,1
1,5
1,3
2,2
2,7
3,5
10,7
10,8
0,02
0,01
0,02
0,02
0,02
0,06
0,07
2,1
1,1
1,0
1,1
1,2
3,4
4,4
N
8
11
17
11
11
46
64
9
11
17
11
11
46
64
8
11
17
11
11
46
64
8
11
17
11
11
46
64
Várzea Estuarina
Masculino
Média
68,2
89,8
101,1
115,1
123,8
147,4
160,1
7,5
13,0
15,7
19,6
23,8
42,0
63,3
0,11
0,14
0,16
0,17
0,19
0,28
0,40
16,4
16,0
15,3
14,7
15,5
18,8
24,7
DP
1,1
6,1
5,2
4,7
3,9
13,2
5,4
2,3
1,9
1,6
3,3
1,7
13,8
9,5
0,02
0,01
0,01
0,02
0,01
0,07
0,05
1,4
1,1
0,9
2,0
0,7
3,2
3,4
N
13
14
11
21
11
45
89
13
15
12
21
11
45
89
13
14
11
21
11
45
89
13
14
11
21
11
45
89
Feminino
Média
66,4
87,5
97,8
110,1
118,6
142,3
149,6
7,2
11,6
14,2
18,0
21,9
40,0
49,1
0,11
0,13
0,14
0,16
0,18
0,28
0,33
15,8
15,1
14,8
14,8
15,5
19,3
22,0
DP
9,8
6,0
6,0
6,1
6,2
10,1
6,1
2,6
1,8
1,4
2,7
2,8
11,9
7,9
0,03
0,01
0,01
0,02
0,02
0,07
0,05
2,7
0,8
0,8
1,2
1,0
3,6
3,5
N
12
9
17
12
19
59
70
12
9
17
12
19
59
70
12
9
17
12
19
59
70
12
9
17
12
19
59
70
Masculino
Média
70,8
87,5
98,7
111,2
119,8
146,1
160,3
8,3
12,0
14,7
18,6
22,5
40,0
57,9
0,12
0,14
0,15
0,17
0,19
0,27
0,36
16,5
15,6
15,0
15,1
15,6
18,3
22,4
DP
7,6
5,2
5,8
4,3
6,1
13,8
7,6
1,8
2,0
1,6
1,7
4,3
12,0
9,5
0,01
0,02
0,01
0,01
0,03
0,06
0,05
1,4
1,4
0,9
1,0
1,8
2,7
3,1
211
212
Tabela 3 – Características antropométricas das populações ribeirinhas das várzeas estuarina e estacional no verão, por sexo e faixa etária
– cont.
Várzea Estacional
Várzea Estuarina
Feminino
Masculino
Feminino
Masculino
Medida
Idade (anos)
N
Média
DP
N
Média
DP
N
Média
DP
N
Média
DP
Circunferência do braço (cm)
0-1,9
2
15,2
1,7
3
15,3
1,7
13
13,8
1,3
12
14,1
1,1
2,0-3,9
13
16,0
0,9
10
15,9
0,8
14
14,7
0,7
8
15,1
1,5
4,0-5,9
10
15,9
1,2
17
16,5
0,7
11
15,2
0,6
17
15,3
0,8
6,0-7,9
10
16,6
1,4
11
17,3
1,1
21
16,0
1,1
12
16,4
1,1
8,0-9,9
12
18,1
1,5
11
18,2
1,2
11
17,3
1,5
19
17,1
1,2
10,0-19,9
49
23,8
3,6
46
23,3
4,2
45
22,6
3,7
58
22,0
3,3
> 20,0
80
30,2
3,5
64
30,3
2,9
89
25,4
2,7
70
27,6
2,8
0-1,9
2
19,9
6,4
3
15,2
1,6
13
17,5
4,4
12
16,2
2,6
2,0-3,9
12
16,6
3,5
10
14,6
2,0
14
14,7
2,7
8
14,2
3,4
4,0-5,9
9
12,3
0,9
17
13,3
3,5
11
13,3
2,2
17
12,8
2,3
6,0-7,9
10
13,8
3,2
11
13,1
4,5
21
13,4
4,0
12
11,7
1,7
8,0-9,9
12
15,0
4,2
11
12,4
4,2
11
13,0
2,5
18
11,6
2,1
10,0-19,9
49
29,0
13,1
46
14,8
5,1
45
24,2
9,7
59
13,4
4,8
> 20,0
80
50,4
17,3
64
23,1
12,7
89
29,6
11,2
70
17,0
7,6
Soma das pregas (mm)
Área muscular do braço (cm )
2
0-1,9
2
11,0
1,1
3
12,8
2,9
13
9,7
1,8
12
10,6
1,5
2,0-3,9
12
13,2
1,8
10
13,4
1,7
14
11,6
1,4
8
12,7
2,0
4,0-5,9
9
14,3
2,3
17
15,8
1,9
11
13,5
1,3
17
13,5
1,7
6,0-7,9
10
16,1
2,8
11
18,0
1,8
21
14,9
2,1
12
16,6
2,6
8,0-9,9
12
18,9
2,8
11
20,8
1,9
11
17,9
3,3
19
18,3
2,6
10,0-19,9
49
28,5
6,3
46
36,6
14,7
45
28,3
8,1
58
32,0
10,0
> 20,0
80
37,2
7,9
64
58,8
9,9
89
35,6
6,9
70
52,5
9,8
Para avaliar as diferenças existentes entre os escores z médios por ecossistema
foram realizados testes τ entre amostras independentes (SPSS 10.0). O nível de
significância foi estabelecido em 5 % e assumiu-se que as variâncias eram iguais.
Os outliers foram identificados através de gráficos de distribuição e excluídos da
amostra. A precisão das medidas antropométricas foi avaliada através do Erro
Técnico de Medida (ETM) e do Coeficiente de Confiabilidade (CC), seguindo a
recomendação de Frisancho (1990). Nas duas populações investigadas 10 % das
medidas coletadas foram repetidas para realizar os cálculos de ETM e CC. Na
várzea estuarina os dados já haviam sido considerados confiáveis (Neves, 1992).
Na várzea estacional os dados também foram considerados satisfatórios, já que
todos mostraram coeficientes de confiabilidade (CC) acima de 0,9, o que indica
que mais de 90 % da variância deve-se a outros fatores e não ao erro de medida
(Adams, 2002).
RESULTADOS
Crianças (2,0 – 9,9 anos)
A Tabela 4 traz os escores z de estatura-para-idade (HAZ), peso-para-idade
(WAZ), peso-para-estatura (WHZ), índice de massa corporal-para-idade (IMCZ),
soma das pregas cutâneas (SSFZ) e área muscular do braço (UMAZ), com
os resultados dos testes t entre ecossistemas. De maneira geral as crianças
da região estuarina são mais baixas que na várzea estacional, sendo que as
diferenças são significativas para os meninos entre 4,0 - 7,9 anos de idade (t =
-2,4 ± 1,0, ρ = 0,018), e para as meninas de 8,0 - 9,9 anos (t = -2,0 ± 1,0,
ρ = 0,004). Quando a população total de crianças foi comparada (Tabela
5), ambos sexos apresentaram estatura mais baixa no estuário, e entre
os meninos a diferença se mostrou estatisticamente significativa (t = 2,0 ± 1,2, ρ = 0,003). A prevalência de baixa estatura-para-idade (HAZ
<-2,0) entre os meninos é bem mais acentuada na várzea estuarina (variando de
33,3 %-65,0 %), exceto para a faixa de 2,0 - 3,9 anos, em que as prevalências são
iguais (Tabela 6). Entre as meninas a prevalência de baixa estatura é maior na várzea
estacional até os 3,9 anos de idade, mas chega a 76,9 % na várzea estuarina entre
4,0 - 5,9 anos de idade. As altas prevalências de baixa estatura são confirmadas
pela alta porcentagem de crianças com IMC abaixo de 16,9 (Tabela 8).
213
214
Tabela 4 - Comparação entre os escores Z médios para estatura-por-idade (HAZ), peso-por-idade (WAZ), peso-para-estatura (WHZ), índice de
massa corpórea (IMCZ), soma das pregas cutâneas (SSFZ) e área muscular do braço (UMAZ) entre ecossistemas, por faixa etária e sexo
HAZ
Faixa etária
(anos)
0-1,9
2,0-3,9
4,0-5,9
6,0-7,9
8,0-9,9
10,0-19,9
20,0-74,9
WAZ
WHZ
Sexo
N
Estacional
N
Estuarina
ρ
N
Estacional
N
Estuarina
ρ
N
Estacional
N
Estuarina
ρ
M
8
-1,2 ± 0,6
13
-1,2 ± 2,0
0,975
9
-0,7 ± 0,6
13
-1,0 ± 1,6
0,560
8
0,0 ± 0,8
13
-0,3 ± 1,1
0598
F
4
-0,8 ±2,9
13
-0,6 ±0,9
0,905
4
0,0 ±1,8
13
-0,4 ±1,1
0,522
4
0,8 ±1,3
13
-0,1 ±1,3
0,254
M
12
-1,4 ±1,0
10
-1,7 ±0,9
0,483
12
-1,1 ±0,7
10
-1,6 ±1,0
0,180
12
-0,2 ± 0,7
10
-0,7 ± 1,0
0,231
F
12
-1,4±1,3
16
-1,4±1,2
0,935
13
-1,5±0,9
17
-1,5±1,0
0,977
12
-0,8±0,7
16
-0,8±0,7
0,999
M
17
-1,6 ±0,8
20
-2,4 ±1,0
0,018
17
-1,2 ±0,7
20
-1,8 ±0,7
0,017
17
-0,3 ±0,6
20
-0,5 ±0,6
0,242
F
10
-2,0±1,0
12
-2,3±0,7
0,371
10
-1,5±0,9
13
-1,8±0,5
0,365
10
-0,5±0,8
12
-0,5±0,5
0,850
M
11
-1,3 ±0,7
15
-2,1 ±0,8
0,015
11
-1,3 ±1,1
15
-1,6 ±0,5
0,350
11
-0,6 ±1,5
15
-0,3 ±0,6
0,500
F
10
-1,1±1,0
21
-1,7±0,9
0,073
10
-0,9±0,8
21
-1,3±0,9
0,212
10
-0,4±0,8
21
-0,3±0,9
0,961
M
11
-1,6 ±0,7
19
-2,1 ±1,0
0,121
11
-1,2 ±0,6
19
-1,5 ±1,0
0,370
11
-0,1 ±0,5
19
-0,1 ±1,0
0,929
F
12
-0,6±0,9
11
-2,0±1,0
0,004
12
-0,8±0,8
11
-1,4±0,7
0,073
11
-0,5±0,7
11
0,1±0,6
0,045
M
46
-1,5 ± 1,0
59
-2,2 ± 0,9
0,000
46
-0,9 ± 0,6
59
-1,3 ± 0,5
0,000
-
-
-
-
-
F
49
-1,3 ± 1,0
45
-1,8 ± 0,9
0,016
49
-0,6 ± 0,7
45
-0,8 ± 0,7
0,163
-
-
-
-
-
M
64
-2,2 ± 0,7
70
-2,2 ± 1,1
0,967
64
-1,1 ± 0,7
70
-1,5 ± 0,7
0,002
-
-
-
-
-
F
79
-1,9 ± 0,9
89
-2,0 ± 0,9
0,497
79
-0,5 ± 0,7
89
-1,1 ± 0,6
0,000
-
-
-
-
-
Crianças: HAZ, WAZ e WHZ calculados no Epi Info 2000 com base em CDC/WHO 1978. Adultos: HAZ e WAZ calculados no SPSS (10.0) com base em NHANES I e II (Frisancho 1990; Kuczmarski
et al. 2000). Diferenças significativas em negrito.
Tabela 4 - Comparação entre os escores Z médios para estatura-por-idade (HAZ), peso-por-idade (WAZ), peso-para-estatura (WHZ), índice
de massa corpórea (IMCZ), soma das pregas cutâneas (SSFZ) e área muscular do braço (UMAZ) entre ecossistemas, por faixa etária e sexo
- Cont.
ZBMI
Faixa etária
(anos)
0-1,9
2,0-3,9
4,0-5,9
6,0-7,9
8,0-9,9
10,0-19,9
20,0-74,9
ZSSF
ZUMA
Sexo
N
Estacional
N
Estuarina
ρ
N
Estacional
N
Estuarina
ρ
N
Estacional
N
Estuarina
ρ
M
3
-0,4 ± 0,5
5
-0,8 ± 0,5
0,304
3
-0,4 ± 0,4
6
-0,5 ± 0,3
0,623
3
-0,2 ± 1,3
5
-1,1 ± 0,7
0,224
F
2
-0,3 ± 0,1
4
-0,7 ± 0,8
0,518
2
0,7 ± 1,4
4
-0,1 ± 0,7
0,361
2
-0,6 ± 0,5
4
-0,5 ± 0,2
0,766
M
11
0,0 ± 0,8
9
-0,5 ± 1,1
0,318
10
-0,2 ± 0,5
8
-0,4 ± 0,8
0,590
10
-0,5 ± 0,5
8
-0,6 ± 0,6
0,701
F
12
-0,5 ± 0,7
14
-0,5 ± 0,6
0,803
12
0,0 ± 0,8
14
-0,5 ± 0,6
0,115
12
-0,2 ± 0,7
14
-0,9 ± 0,6
0,013
M
17
-0,2 ± 0,7
17
-0,4 ± 0,6
0,319
17
-0,2 ± 0,8
17
-0,4 ± 0,5
0,592
17
-0,3 ± 0,7
17
-1,0 ± 0,6
0,003
F
10
-0,5 ± 0,7
11
-0,4 ± 0,6
0,920
9
-0,8 ± 0,2
11
-0,6 ± 0,4
0,200
9
-0,6 ± 0,6
11
-0,9 ± 0,4
0,171
M
11
-0,7 ± 1,0
12
-0,5 ± 0,5
0,516
11
-0,2 ± 0,7
12
-0,4 ± 0,2
0,353
11
-0,4 ± 0,5
12
-0,7 ± 0,8
0,271
F
10
-0,6 ± 0,6
21
-0,5 ± 0,7
0,878
10
-0,5 ± 0,5
21
-0,6 ± 0,6
0,920
10
-0,7 ± 0,7
21
-0,9 ± 0,5
0,351
M
11
-0,5 ± 0,4
19
-0,5 ± 0,7
0,841
11
-0,4 ± 0,5
18
-0,6 ± 0,2
0,524
11
-0,6 ± 0,4
19
-1,0 ± 0,7
0,078
F
12
-0,6 ± 0,4
11
-0,5 ± 0,3
0,310
12
-0,5 ± 0,3
11
-0,7 ± 0,2
0,117
12
-0,6 ± 0,6
11
-0,8 ± 0,6
0,506
M
46
-0,3 ± 0,6
59
-0,6 ± 0,6
0,042
46
-0,5 ± 0,4
59
-0,5 ± 0,4
0,231
46
-0,2 ± 0,9
58
-0,9 ± 1,0
0,000
F
49
-0,2 ± 0,7
44
-0,3 ± 0,6
0,563
49
0,0 ± 0,8
45
-0,3 ± 0,6
0,038
49
-0,4 ± 0,7
45
-0,3 ± -0,2
0,621
M
64
-0,2 ± 0,8
69
-0,7 ± 0,8
0,000
64
-0,5 ± 1,0
70
-0,9 ± 0,6
0,002
64
0,5 ± 0,9
70
0,0 ± 1,0
0,001
F
79
0,1 ± 0,7
89
-0,6 ± 0,7
0,000
79
0,4 ± 0,9
89
-0,7 ± 0,6
0,000
89
0,2 ± 0,7
79
0,3 ± 0,9
0,386
Crianças e Adultos: ZBMI, ZSSF e ZUMA calculados no SPSS (10.0) com base em NHANES I e II (Frisancho 1990; Kuczmarski et al. 2000). Diferenças significativas em
negrito.
215
Além de mais baixas, as crianças do Marajó são também mais magras, e entre os
meninos esta diferença foi significativa tanto para a população em geral (t = -1,5 ±
1,0, ρ = 0,008), quanto para a faixa etária de 4,0 - 5,9 anos de idade (t = -1,8 ± 0,7,
ρ = 0,017). Esta situação repete-se para as meninas, embora entre 2,0 - 3,9 anos
de idade os pesos-para-idade sejam iguais e não haja diferenças estatisticamente
significativas entre os dois ecossistemas. Estas tendências são ratificadas pelos
dados de prevalência de baixo peso (Tabela 6) entre as crianças, que varia de 20,0
% a 45,0 % entre os meninos do estuário, e de 9,1 a 18,2 % no Ituqui. Entre as
meninas esta variação é de 7,7 % a 29,4 % no estuário, e de 8,3 % a 38,5 % na várzea
estacional. Apesar das diferenças de estatura-para-idade e peso-para-idade entre
as crianças de Ituqui e do Marajó, quando são comparados apenas os valores de
peso-para-estatura (Tabela 4), a única diferença significativa encontrada é entre as
meninas de 8,0 - 9,9 anos de idade, sendo que neste caso o escore z mais baixo é
encontrado na várzea estacional (t = -0,5 ± 0,7, ρ = 0,045).
Os indicadores de gordura corpórea e massa muscular por faixa etária (Tabela
4) mostram que em relação ao primeiro não existe uma tendência definida em
favor de um ou outro ecossistema, para nenhum dos sexos. Por outro lado a massa
muscular dos indivíduos do estuário é menor para ambos sexos em todas as faixas
etárias, à exceção das meninas entre 0 - 1,9 ano de idade, embora a amostra seja
pequena. Ainda assim as diferenças em massa muscular foram estatisticamente
significativas somente em duas situações: nas meninas entre 2,0 - 3,9 anos
e nos meninos entre 4,0 - 5,9 anos, sempre a favor do Ituqui (t = -0,2 ± 0,7,
ρ = 0,013 e t = -0,3 ± 0,7, ρ = 0,003, respectivamente).
Tabela 5 - Escores z médios para estatura-por-idade (HAZ), peso-por-idade (WAZ) e
peso-para-estatura (WHZ) entre ecossistemas para a população total de crianças (09,9, anos)
Índice
HAZ
WAZ
WHZ
Sexo
N
Estacional
N
Estuarina
ρ
M
59
-1,5 ± 0,8
77
-2,0 ± 1,2
0,003
F
48
-1,2 ± 1,3
73
-1,6 ± 1,1
0,096
M
60
-1,1 ± 0,7
77
-1,5 ± 0,1
0,010
F
49
-1,1 ± 1,0
75
-1,3 ± 1,0
0,244
M
59
-0,3 ± 0,9
77
-0,4 ± 0,8
0,583
F
47
-0,4 ± 0,9
73
-0,4 ± 0,9
0,721
Com base em CDC/WHO 1978 (Epi Info 2000). Diferenças significativas em negrito.
216
Adolescentes (10,0 – 19,9 anos de idade)
Os escores z médios dos adolescentes são apresentados na Tabela 4, juntamente
com os resultados dos testes t. De uma forma geral os indicadores nutricionais
mostram uma situação mais crítica na região estuarina, principalmente no que
se refere ao sexo masculino, acompanhando uma tendência que vinha sendo
observada na infância. Foram observadas diferenças significativas de estaturapara-idade em ambos sexos, sendo que a população estuarina é mais baixa que
a da várzea estacional, tanto para o masculino (t = -2,2 ± 0,9, ρ = 0,000), quanto
para o feminino (t = –1,8 ± 0,9, ρ = 0,016). A prevalência de baixa estatura (HAZ <
-2,0) entre os adolescentes do sexo masculino (Tabela 6) foi de 31,9 % na várzea
estacional e 30,0 % no estuário; para o sexo feminino os valores foram 39,1 % e
16,3 %, respectivamente.
Além das diferenças de estatura-para-idade, os adolescentes do sexo masculino
da várzea estuarina apresentaram WAZ (t = –0,9 ± 0,6 ρ = 0,000), ZBMI (t = -0,6 ±
0,6, ρ = 0,042) e ZUMA (t = -0,9 ± 1,0, ρ = 0,000) significativamente inferiores aos
da população da várzea estacional. As adolescentes do estuário também possuem
estoques de gordura corporal significativamente menores que as da várzea
estacional (t = -0,3 ± 0,6, ρ = 0,038). A prevalência de baixo peso-para-idade na
várzea estuarina foi de 8,3 % entre os adolescentes do sexo masculino e de 4,3 % no
sexo feminino, sendo que na várzea estacional não foram encontrados indivíduos
com baixo peso. Para os demais indicadores nutricionais as prevalências também
foram nulas com exceção do indicador de massa muscular, para o qual os valores
encontrados foram 6,7 % para o sexo masculino no estuário e 2,0 % para o sexo
feminino na várzea estacional.
217
218
Tabela 6 - Prevalências de indivíduos com escore z <-2 para estatura-para-idade (HAZ), peso-para-idade (WAZ), peso-para-estatura (WHZ),
índice de massa corpórea (ZBMI), soma das pregas cutâneas (ZSSF) e área muscular do braço (ZUMA) nas várzeas estacional (S) e estuarina
(E), por faixa etária e sexo
HAZ
WAZ
S
Faixa etária
(anos)
0-1,9
2,0-3,9
4,0-5,9
6,0-7,9
8,0-9,9
10,0-19,9
20,0-74,9
E
WHZ/IMCZ
S
E
S
SSFZ
E
UMAZ
S
E
S
E
Sexo
N
(%)
N
(%)
N
(%)
N
(%)
N
(%)
N
(%)
N
(%)
N
(%)
N
(%)
N
(%)
M
1
(11,1)
4
(33,3)
-
-
3
(25,0)
-
2
(16,7)
-
-
-
-
-
-
1
(8,3)
F
1
(20,0)
1
(7,7)
1
(20,0)
1
(7,7)
-
1
(7,7)
-
-
-
-
-
-
-
M
4
(36,4)
4
(36,4)
1
(9,1)
3
(27,3)
-
1
(9,1)
-
-
-
-
-
-
-
F
5
(38,5)
6
(35,3)
5
(38,5)
5
(29,4)
-
-
-
-
-
-
-
-
1
(5,9)
M
6
(33,3)
13
(65,0)
-
- 9
(45,0)
-
-
-
-
-
-
-
-
2
(10,0)
F
5
(50,0)
10
(76,9)
2
(20,0)
3
(23,1)
-
-
-
-
-
-
-
-
-
M
3
(27,3)
8
(53,3)
2
(18,2)
3
(20,0)
1
(9,1)
-
-
-
-
-
-
-
-
F
2
(20,0)
6
(28,6)
-
-
5
(23,8)
-
-
-
-
-
-
-
-
-
M
2
(18,2)
8
(42,1)
1
(9,1)
5
(26,3)
-
-
-
-
-
-
-
-
1
(5,3)
F
1
(8,3)
5
(41,7)
1
(8,3)
2
(16,7)
1
(8,3)
-
-
-
-
-
-
-
-
M
15
(31,9)
36
(30,0)
-
-
5
(8,3)
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
4
(6,7)
F
8
(16,3)
18
(39,1)
-
-
2
(4,3)
-
-
-
-
-
-
-
-
1
(2,0)
-
-
M
42
(65,6)
37
(52,9)
4
(6,3)
13
(18,6)
1
(1,6)
1
(1,4)
-
-
-
-
-
-
2
(2,9)
F
32
(40,0)
37
(46,8)
1
(1,3)
2
(2,5)
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
-
WHZ para as crianças (0-9,9 anos), com base em CDC/WHO 1978. / IMCZ para os adultos (>20,0 anos) com base em NHANES I e II (Frisancho 1990; Kuczmarski et al. 2000).
Adultos (20,0 – 74,9 anos de idade)
A
tendência
observada
entre
os
adolescentes
de
altas
prevalências de déficit estatural, médias a altas prevalências de
déficit
ponderal
e
praticamente
nenhum
indivíduo
com
ZBMI
<-2,0, é acentuada na população adulta (Tabela 6). A prevalência de déficit
estatural entre os homens é maior na região estacional do que na estuarina (65,5
% em comparação a 52,9 %), mas entre as mulheres a situação se inverte (40,0 %
na várzea estacional e 46,8 % no estuário). Para ambos sexos não há diferenças
significativas da HAZ. Já em relação a WAZ as diferenças são significativas tanto
para os homens (t = -1,5 ± 0,7, ρ = 0,0002), quanto para as mulheres (t = -1,1 ± 0,6,
ρ = 0,000), sendo a população do estuário mais leve. A prevalência de baixo pesopara-idade é de 18,6 % no estuário e 6,3 % na várzea estacional para os homens, e
de 2,5 % e 1,3 % respectivamente para as mulheres.
A prevalência de baixo IMC (ZBMI <-2,0) é praticamente inexistente para ambos
sexos. Entretanto existem diferenças significativas entre as duas populações, tanto
para homens quanto para mulheres, ambos desfavoráveis para a região estuarina: t
= -0,7 ± 0,8, ρ = 0,000 (homens), e t = -0,6 ± 0,7, ρ = 0,000 (mulheres). Não ocorrem
casos de baixo estoque de gordura (ZSSF <-2,0) e massa muscular (ZUMA <-2,0),
com exceção de ZUMA entre os homens da várzea estuarina (2,9 %). Mesmo assim
existem diferenças significativas de ZSSF entre ecossistemas para ambos sexos,
sendo que a população do estuário apresenta os menores estoques: t = -0,9 ± 0,6,
ρ = 0,002 (homens), e t = -0,7 ± 0,6, ρ = 0,000 (mulheres). O mesmo repete-se com
ZUMA entre os homens, na região estuarina os estoques são significativamente
menores (0,0 ± 1,0, ρ = 0,001).
Comparação dos resultados com outras populações rurais amazônicas
Poucos estudos realizados com populações rurais amazônicas trazem os escores
z dos índices antropométricos investigados, permitindo uma comparação mais
confiável entre populações de diferentes localidades. Duas exceções são Eve
(1995) e Piperata (2007), que serão aqui consideradas, embora ambas tenham
trabalhado em ecossistemas de terra firme. Eve (1995) estudou a população infantil
de treze comunidades caboclas de terra firme localizadas nos municípios de Coari,
Iranduba e Barreirinha (entorno de Manaus, AM), e Piperata (2007) investigou sete
comunidades ribeirinhas de terra firme na região de Caxiuanã (PA), considerado
um ecossistema de águas negras, embora sob a influência das águas brancas do
estuário do Amazonas.
219
Tabela 7 - Distribuição dos indivíduos de acordo com categorias de IMC (WHO, 1995)
nas várzeas estacional e estuarina, por sexo e faixa etária
Várzea Estacional
IMC (kg/m2)
Várzea Estuarina
M
(%)
F
(%)
M
(%)
F
(%)
Total
(%)
0,0 – 9,9 anos
< 16,00
37
(60,7)
36
(72,0)
54
(69,2)
56
(75,7)
183
(69,6)
16,0-16,99
15
(24,6)
10
(20,0)
16
(20,5)
12
(16,2)
53
(20,2)
17,0-18,49
6
(9,8)
-
-
7
(9,0)
4
(5,4)
17
(6,5)
18,5-24,99
2
(3,3)
2
(4,0)
1
(1,3)
2
(2,7)
7
(2,7)
25,00-29,99
1
(1,6)
1
(2,0)
-
-
-
-
2
(0,8)
>30,0
-
-
1
(2,0)
-
-
-
-
1
(0,4)
61
(100,0)
50
(100,0)
78
(100,0)
74
(100,0)
263
(100,0)
10
22,2
5
10,2
12
20,3
11
24,4
38
19,2
10,0 – 19,9 anos
< 16,00
16,0-16,99
7
15,6
6
12,2
4
6,8
1
2,2
18
9,1
17,0-18,49
7
15,6
9
18,4
18
30,5
6
13,3
40
20,2
18,5-24,99
19
42,2
26
53,1
24
40,7
25
55,6
94
47,5
25,00-29,99
2
4,4
3
6,1
-
-
2
4,4
7
3,5
>30,0
-
-
-
-
1
1,7
-
-
1
0,5
45
100,0
49
100,0
59
100,0
45
100,0
198
100,0
< 16,00
1
1,6
-
-
1
1,4
16,0-16,99
-
-
-
-
1
1,4
2
2,5
≥ 20,0 anos
1
0,3
4
1,4
17,0-18,49
-
-
3
3,9
2
2,9
8
10,1
13
4,5
18,5-24,99
35
56,5
35
45,5
56
80,0
55
69,6
181
62,8
25,00-29,99
22
35,5
19
24,7
8
11,4
12
15,2
61
21,2
4
6,5
20
26,0
2
2,9
2
2,5
28
9,7
62
100,0
77
100,0
70
100,0
79
100,0
288
100,0
>30,0
Com base em NHANES I e II (Frisancho, 1990; Kuczmarski et al., 2000).
As crianças (0-10,0 anos) do sexo masculino (201 indivíduos) investigadas por Eve
(1995) na terra firme apresentaram os escores z médios de -2,2, -1,5 e –0,1 para
HAZ, WAZ e WHZ, respectivamente. Os mesmos índices obtidos para as meninas
(206 indivíduos) foram -2,0, -1,4 e –0,1 (a autora não publicou os desvios padrão).
Considerando todas as crianças investigadas no presente estudo sem distinção de
faixa etária, os valores médios obtidos (Tabela 5) mostram que os valores de HAZ
e WAZ são mais críticos na terra firme (Eve, 1995) e mais satisfatórios na várzea
estacional, sendo que a região estuarina ocupa uma posição intermediária (com
exceção apenas do WAZ para o sexo masculino, em que a situação da terra firme
e do estuário são semelhantes). Todavia, quando WHZ é analisado a situação se
inverte, e a terra firme apresenta os valores mais satisfatórios. As faixas etárias
apresentadas por Piperata (2007) não permitem comparação.
No caso dos adolescentes, apenas HAZ e ZUMA puderam ser comparados. Para o
sexo masculino (12,0 - 17,0 anos) os valores encontrados por Piperata (2007) foram,
220
respectivamente, -2,2 ± 0,9 e –1,0 ± 0,5, e para o feminino (11 - 17 anos) -2,1 ± 0,9 e
-0,3 ± 0,7, respectivamente. Comparados com nossos resultados (Tabela 4), os
adolescentes de Caxiuanã são os mais baixos e os da várzea estacional os mais
altos. A mesma situação se repete para os estoques de massa muscular do sexo
masculino, mas nas adolescentes a situação se inverte.
Já em relação aos adultos (> 18,0 anos), a comparação mostra que os homens
de Caxiuanã (PA) são ligeiramente mais baixos (–2,3 ± 1,0) (Piperata 2007) que a
população das várzeas (-2,2 ± 1,1 estuarina e –2,2 ± 0,7 estacional). As mulheres
seguem a mesma tendência: -2,5 ± 0,8 em Caxiuanã, -2,0 ± 0,9 no estuário e –1,9 ±
0,9 na várzea estacional.
Quando a massa muscular das três populações é comparada (Tabela 4), os homens
de Caxiuanã estão numa situação intermediária (0,2 ± 0,9) em relação às várzeas
estuarina (0,0 ± 1,0) e estacional (0,5 ± 0,9). Em relação às mulheres, é Caxiuanã
que apresenta os valores mais elevados (0,7 ± 0,9) (Piperata, 2007), seguido pelo
estuário (0,3 ± 0,9) e pela várzea estacional (0,2 ± 0,7).
Quando as prevalências de baixo HAZ, WHZ e WAZ (<-2,0) em populações amazônicas
são consideradas, três autores podem ser incluídos na comparação. Alencar et al.
(1999) e Giugliano et al. (1981) trabalharam com populações ribeirinhas do rio
Negro, enquanto Giugliano et al. (1984) trabalhou na várzea do Solimões. Entre as
crianças, as altas prevalências de baixa estatura observadas no presente estudo
são comparáveis às obtidas para outras populações amazônicas não-indígenas
(Tabela 8), que variaram de 25,6 % (Alencar et al., 1999) a 70,0 % (Giugliano et al.,
1984) e são confirmadas pela alta porcentagem de crianças com IMC abaixo de
16,9 (Tabela 7). Esta situação indica que o problema da desnutrição crônica parece
persistir ainda nas áreas rurais da Amazônia, em taxas superiores às áreas urbanas
(Batista Filho e Rissin, 2003), contrariando a tendência nacional de queda (Batista
Filho e Rissin, 2003; Monteiro et al., 2002). As prevalências de baixos valores de
peso-para-idade encontradas neste estudo (Tabela 6) também são comparáveis
às observadas em outras populações amazônicas (Tabela 7), com exceção das
meninas da várzea estacional entre 2,0 - 3,9 anos de idade (38,5 %) e dos meninos
da várzea estuarina entre 4,0 - 5,9 anos de idade (45,0 %).
Em relação aos adolescentes, a prevalência de baixa estatura nas várzeas estuarina
(30,0 % para o sexo masculino e 39,1 % para o feminino) e estacional (31,9 % e 16,3
%, respectivamente) (Tabela 6) é relativamente mais baixa que a encontrada por
Piperata (2007) em Caxiuanã (53,0 % e 50,0 %, respectivamente, para indivíduos entre
0 e 17,9 anos de idade) (Tabela 8). Já a prevalência de baixo peso é maior na várzea
estuarina (8,3 % para o sexo masculino e 4,3 % para o feminino) do que em Caxiuanã
(1,7 % e 2,2 %, respectivamente). Na várzea estacional não foi observada prevalência
de baixo peso nos adolescentes. Entre os adultos, a prevalência de baixa estatura
entre as mulheres de Caxiuanã (70,0 %) foi maior do que na várzea estuarina (46,8 %)
e estacional (40,0 %) (Tabelas 6 e 8). Nos homens foi maior na várzea estacional (65,6
%), seguida por Caxiuanã (60,0) e a região estuarina estuário (52,9 %).
221
Tabela 8 - Prevalências de déficit estatural, ponderal, de peso-para-estatura e IMCpara-idade em populações rurais da Amazônia
Autor
Ambiente
Idade
Sexo
N
(anos)
Alencar et al.
(1999)
Eve (1995)
Giugliano et al.
(1981)
Prevalência déficit (%)
Estatura
para
idade
Peso
para
idade
Peso
para
estatura
IMC
para
idade
Rio Negro (AM)
0 – 5,0
M/F
43
25,6
-
2,3
-
Coari, Iranduba e
Barreirinha (AM,
terra firme)
0 – 10,0
M
201
57,0
28,0
1,0
-
F
206
51,0
21,0
1,0
-
0 – 6,0
M/F
140
59,0
10,8
-
-
Mães
F
54
5,5
Rio Solimões (AM,
várzea)
Giugliano et al.
(1984)
Rio Negro (AM,
várzea)
0 – 6,0
M/F
121
70,0
18,3
Piperata (2007)
Caxiuanã (PA, terra
firme, águas pretas)
0 – 17,9
M
145
53,0
1,7
-
-
>18,0
F
M
152
85
50,0
60,0
2,2
-
-
11,0
F
89
70,0
-
-
10,0
Fonte: Giugliano et al., 1981,1984; Eve 1995; Alencar et al., 1999; Piperata, 2007.
DISCUSSÃO
A análise das prevalências de indivíduos com escore z <-2,0 (Tabela 6) nos dois
ecossistemas aqui analisados, confirma apenas parcialmente o quadro encontrado
por Post et al. (1999), Victora (1992) e Victora et al. (1998) para populações de
baixa renda na América Latina, caracterizado por altas prevalências de déficit
estatural sem a ocorrência expressiva de déficit ponderal. Neste estudo foram
encontradas altas prevalências de déficit estatural (inclusive entre adolescentes
e adultos), associadas a prevalências médias ou altas de déficit ponderal entre as
crianças, principalmente na várzea estuarina. Quando os resultados deste estudo
são comparados àqueles encontrados por Victora (1992) e Victora et al. (1998),
observa-se que as prevalências de déficits estatural e ponderal na população
infantil de ambos ecossistemas são semelhantes às das crianças latino-americanas
(Victora, 1992: 1107), porém mais elevadas que as das brasileiras ( Victora et
al.,1998: 324). Em relação à prevalência de baixo peso-para-estatura na várzea
estacional ela não ocorreu, mas as prevalências observadas na várzea estuarina
são consideravelmente mais elevadas que nas crianças brasileiras em geral e nas
222
latino-americanas (Victora, 1992; Victora et al., 1998).
A mesma tendência foi encontrada em outros estudos realizados com populações
rurais amazônicas (Tabela 8), e parece ocorrer independentemente do tipo de
ambiente (várzea/terra firme, águas brancas/negras), apontando para a existência
de um stress nutricional crônico na região rural da Amazônia ( WHO, 1995; Piperata,
2007). Entre as hipóteses levantadas para explicar a alta prevalência de déficit
estatural em populações rurais amazônicas estão o stress nutricional sofrido na
época do desmame, por volta dos 2 anos de idade (Murrieta et al., 1998; Piperata,
2007) e a existência de fatores ecológicos limitantes que afetam a disponibilidade
calórica e de micronutrientes para o consumo alimentar dessas populações
(Giugliano et al., 1978 a,b, 1979; Shrimpton e Giugliano, 1979; Araújo e Shrimpton,
1982; Adams, 2002; Murrieta e Dufour, 2004; Adams et al,. 2005, 2006).
Os resultados da análise sobre o consumo alimentar nas comunidades das várzeas
estacional e estuarina aqui apresentados evidenciaram a grande dependência dos
ribeirinhos à produção da mandioca e do peixe (Siqueira, 1997; Brondizio e Siqueira,
1997; Murrieta et al., 1998, 1999; Murrieta, 1998, 2000, 2001 a,b; Adams, 2002;
Murrieta e Dufour, 2004; Adams et al., 2005, 2006). Notou-se também uma certa
instabilidade durante o ciclo anual (e entre diferentes anos) no consumo calórico
das populações do Ituqui (Tabela 1 e Figura 3), o que parece estar diretamente
ligado aos problemas e limitações do cultivo da mandioca nas áreas de várzea, vis a
vis o ciclo anual e diário de inundações, as tecnologias tradicionais e a limitação da
mão-de-obra decorrente da organização familiar do trabalho entre os ribeirinhos.
Paradoxalmente, o mesmo não foi detectado quanto à ingestão protéica, cuja
média de consumo foi muito além dos requerimentos mínimos estabelecidos pela
FAO (Siqueira, 1997; Murrieta et al., 1999; Adams, 2002; Murrieta e Dufour, 2004;
Adams et al., 2005, 2006) (Figura 3), o que está relacionado à alta produtividade
pesqueira do rio Amazonas e da área estuarina. Mesmo levando em consideração o
uso de múltiplos microambientes complementares, a captação da energia derivada
dos carboidratos se mantém como o aspecto mais crítico da sobrevivência das
populações ribeirinhas da Amazônia, aspecto extensivamente defendido por
Meggers (1954, 1958), desde suas primeiras pesquisas na região. Fato é que mesmo
nos contextos que permitem um alinhamento efetivo destas populações com os
mercados regionais, e portanto com a geração de renda, os recursos financeiros
daí obtidos são prioritariamente empregados na compra de farinha, ou produtos
alimentares de rico conteúdo calórico (Murrieta e Dufour, 2004).
223
Figura 3 - Consumo médio de calorias e proteínas (%) por unidade doméstica em
relação aos requerimentos mínimos internacionais
400
350
300
397
300
Proteína
250
200
150
193
Caloria
244
217
193
190
140
81
100
81
63
76
89
64
50
0
M ar aj ó -açú
(9 1 -2 )
Pa r i cat uba
(9 1 -2 )
Pr ai a Gr ande
(9 1 -2 )
A r acampi na
(9 5-6 )
A r acampi na
(9 7)
S. B enedi t o
(9 5-6 )
S. B enedi t o
(9 7)
Fonte: FAO/WHO/UNU, 1985; Franco, 1987; Siqueira, 1997; Murrieta, 2000; Adams,
2002.
Associado ao quadro geral de desnutrição observado nas populações ribeirinhas
na Amazônia, houve uma tendência crescente à obesidade de acordo com a faixa
etária em ambos ecossistemas (Tabela 8). Isto pode indicar que estas comunidades
atravessam um processo de transição nutricional característico dos países do
terceiro mundo: altas prevalências de crianças magras de ambos sexos (IMC <18,5),
que vão sendo substituídas por porcentagens mais elevadas de adolescentes
na faixa da normalidade (IMC = 18,5 - 24,9), e uma população adulta com taxas
relativamente altas de obesos (IMC > 25,0), principalmente na várzea estacional
(41,5 % dos homens e 50,7 % das mulheres). Esta mesma tendência foi observada
por Florêncio et al. (2001 citado em Kain et al. 2003) em bairros pobres de Maceió,
e parece confirmar os encontrados por Ferreira (2006), Martins e Sawaya (2006),
Sawaya (2006) e Sawaya e Roberts (2003). Esses autores mostram que a obesidade
em populações que atravessam uma transição nutricional pode ser uma seqüela
da desnutrição na infância. A desnutrição durante a fase fetal e a infância pode
ainda aumentar a propensão do indivíduo a desenvolver doenças cardiovasculares
e pressão alta no futuro (Huxley et al. 2000).
Um fator que pode ter um papel importante no aumento da obesidade em
populações de baixa renda na América Latina é o aumento do consumo de
alimentos processados de alto conteúdo energético (como óleos vegetais e açúcar
refinado), em detrimento da alimentação tradicional (Mendonça e Anjos, 2004;
Popkin 2003) . No Ituqui por exemplo, tanto o açúcar quanto os óleos vegetais
Nas comunidades estudadas, boa parte dos itens alimentares não foi produzida localmente, mas
adquirida através de compra no comércio: Aracampina (67,7 %), São Benedito (68,7 %), Paricatuba
224
contribuem consideravelmente como fontes energéticas na alimentação e variam
entre 10,0-11,5 % e 2,6-4,2 %, respectivamente, dependendo da comunidade
investigada e do ano (Murrieta e Dufour, 2004; Adams et al., 2006). O açúcar parece
ter um papel importante como fonte energética confiável durante o inverno no
Ituqui, assim como na manutenção de longas horas de trabalho sob condições
ambientais muitas vezes extenuantes (Murrieta, 2001a; Murrieta, Dufour, 2004;
Adams et al., 2006). Uma outra explicação pode estar ligada às mudanças
estacionais nos níveis de atividade física. Segundo relatos etnográficos (Murrieta,
1998; Murrieta, 2001a, Murrieta e WinklerPrins, 2003), durante o período da cheia
em Ituqui as mulheres se vêm obrigadas a permanecer em suas casas, reduzindo
sua atividade física; enquanto os homens parecem aumentar seu gasto energético
devido às longas horas dedicadas à busca diária de capim flutuante em barcos a
remo, para a alimentação do gado aglomerado nos currais elevados (marombas).
Esse fato poderia ser responsável pela maior prevalência de sobrepeso/obesidade
observada entre as mulheres do Ituqui em comparação com os homens, e destas
com as mulheres do Marajó. Todavia Silva et al. (2006) não encontraram diferenças
estacionais significativas de IMC ou estoque de gordura na população adulta das
comunidades de Aracampina (Ituqui) e Caxiuanã.
Entretanto, quando o consumo alimentar das populações ribeirinhas do Ituqui e
do Marajó é analisado em comparação aos requerimentos mínimos internacionais
(RMI) (Franco, 1987; FAO/WHO/UNU, 1985), percebe-se que o consumo calórico
na várzea estuarina (100,8 % RMI) é maior do que na várzea estacional (72,7 %
RMI), o que teoricamente poderia refletir uma maior produtividade ambiental
(Figura 3) (Siqueira, 1997; Murrieta et al., 1999; Adams, 2002; Adams et al., 2006) .
Mas por outro lado o consumo protéico no estuário (236,7 % RMI) é menor que
na várzea estacional (255,9 % RMI) (Siqueira, 1997; Murrieta et al., 1999; Adams,
2002; Adams et al., 2006). Se consideramos que a população da várzea estacional
pode estar compensando a diferença no consumo de calorias através da conversão
metabólica de proteína, e que além disso a diferença de consumo alimentar entre
as duas populações não é tão grande assim, como explicar então as diferenças de
status nutricional no presente estudo?
Uma explicação em base a diferenças de produtividade ligadas ao ambiente (e
refletidas na alimentação) deve ser descartada temporariamente, até que uma análise
mais refinada dos fatores ambientais críticos possa ser feita. Mesmo supondo que
diferentes populações humanas possuem potenciais distintos de crescimento com
base genética, não poderíamos lançar mão desta solução, dadas as semelhanças
históricas e biológicas das populações ribeirinhas amazônicas. O mais provável é
portanto, que as diferenças de status nutricional entre as populações da várzea
estacional e estuarina devam-se a fatores médicos e epidemiológicos, ligados à
(62,0 %), Marajó-açú (77,5 %) e Praia Grande (58,1 %).
O consumo recomendado foi calculado com base nos membros permanentes da unidade doméstica,
considerando sexo, idade, status reprodutivo e nível de atividade. Sabe-se, entretanto, que o número de
participantes nas refeições é extremamente variável. Neste sentido, os resultados apresentados devem
ser considerados como medidas relativas da disponibilidade de alimento nas unidades domésticas em
relação ao número fixo de residentes. Assim, não deve ser usado para medir consumo individual ou
como padrão único de status nutricional (Murrieta et al., 1999: 470; Adams et al. 2006: 310).
225
ecologia da parasitose (Murrieta et al., 1998, 1999; Adams, 2002; Murrieta e Dufour,
2004; Silva, 2006) , ou ainda a um gasto energético diferencial dependendo de
suas principais atividades de subsistência.
Assim, embora a base de dados antropométricos sobre populações rurais
amazônicas ainda seja pequena para permitir maiores generalizações e mereça
um esforço maior de pesquisa, nossas investigações indicam que:
1. O reflexo da produtividade ambiental sobre a qualidade de vida biológica
das populações rurais amazônicas ainda não está claro. Por um lado a clássica
dicotomia várzea/terra firme (Steward, 1949; Meggers, 1958) parece ter um
valor explicativo (conforme sugerido pela comparação com os dados de Eve
1995), assim como a tipologia de bacias (Moran, 1990), na comparação do status
nutricional da população investigada por Piperata (2007). Por outro lado, apesar
de que ambas comunidades investigadas estão situadas em bacias de águas
brancas (de alta produtividade), as prevalências de desnutrição são altas, e além
disso as comunidades do estuário apresentam um status nutricional menos
satisfatório;
2. A possibilidade de ocorrência de “fome oculta”, ainda pouco investigada no
Brasil (Victora, 1992; Ferreira, 2006), nestas populações é grande, tendo em
vista que a dieta dos ribeirinhos caracteristicamente exclui verduras e legumes,
e pode ser pobre em frutas e laticínios (normalmente o leite só é consumido
industrializado, em pó, e durante a infância; porém foi observado em Ituqui
o consumo estacional de leite in natura em pouca quantidade), fontes de
micronutrientes que podem afetar seu crescimento e desenvolvimento.
Finalmente, estudos recentes sugerem que o foco da pesquisa e da intervenção na
qualidade nutricional dos ribeirinhos amazônicos deve ser deslocado da produção e da
segurança alimentar, para aspectos mais básicos de saneamento e acompanhamento
médico. Como bem demonstra Silva (2006), as populações caboclas amazônicas
padecem de altíssima freqüência de parasitas intestinais variados (ver também
Giugliano et al., 1984). Mesmo ingerindo-se quantidades satisfatórias de nutrientes,
como parece ser o caso em Marajó e Ituqui, altos níveis de poliparasitismo podem
perfeitamente comprometer o desenvolvimento adequado do organismo humano,
sobretudo nos primeiros anos de vida (Silva, 2001, 2006). Sendo assim, podemos
dizer que os estressores mais impactantes que agem nessas populações são de
caráter epidemiológico e não alimentar. Esses dados –principalmente se confirmados
no futuro entre populações caboclas assentadas em ecossistemas menos benignos
em têrmos de produtividade natural– revelam mais uma idéia equivocada sobre as
dimensões da vida cabocla: a de que essas populações estão sempre padecendo
de deficiências nutricionais severas por escassez de alimento. Tal concepção deverá
ser reavaliada com o fim de estabelecer os programas de intervenção estatais ou
não-governamentais entre essas populações, levando em consideração os fatores
ambientais críticos em cada caso.
As condições e o histórico dos serviços de saúde nestas comunidades também precisariam ser
analisadas com mais cuidado.
226
Neste sentido, a situação das comunidades investigadas nas várzeas estacional e
estuarina, no que se refere à área da saúde, continua relativamente inalterada desde
a época das pesquisas, o que pode ser verificado por observações etnográficas
realizadas em 2005 e 2007 por uma das autoras, comprovando informações
levantadas na literatura.
O poder público ainda tem um alcance insuficiente na área da saúde das populações
rurais dos municípios de Santarém e Ponta de Pedras (PA), devido principalmente
às grandes distâncias entre as comunidades e à baixa arrecadação de impostos
(Barroso, 2003). Em Santarém a rede assistencial permanece precária, deixando as
populações rurais praticamente excluídas, favorecendo o êxodo rural e a ocorrência
de problemas como a diarréia, infecções respiratórias, anemias, parasitose,
doenças de pele, infecções bucais e outras doenças imunizáveis. A maioria das
gestantes não realiza exames pré-natais e têm seus filhos em casa. Neste quadro,
as organizações não-governamentais (ONGs) vêm ocupando o espaço deixado
pelo poder público, como no caso do Projeto Saúde e Alegria - PSA, a Fundação
Esperança e a Pastoral da Terra. Algumas, como o PSA, aparentemente com bons
resultados, principalmente no que se refere à queda da mortalidade infantil através
de medidas simples ligadas à qualidade da água de consumo, com o envolvimento
das comunidades (Barroso, 2003). Entretanto, as comunidades investigadas na
várzea estacional estão fora da área de atuação do PSA. Outras organizações, como
a Fundação Esperança e a Pastoral da Terra têm tentado implantar na região de
Ituqui, algumas práticas e tecnologias simples (filtros de água e medicamentos
caseiros), mas ainda não há uma avaliação confiável destas iniciativas.
Por outro lado, os agentes de saúde municipais, que muitas vezes também
trabalham para a Pastoral da Criança, parecem desempenhar um importante papel
no diagnóstico dos problemas de saúde nas comunidades rurais. Cada agente
é responsável por cerca de 25 - 40 familias, mantendo um controle mensal da
incidência de ocorrências básicas de saúde (como diarréias, febre, pressão alta,
diabete), além de informações sobre a origem da água consumida e do número
de animais domésticos. Os agentes também acompanham o crescimento e o peso
das criancas de até 5 anos. Assim, o poder público parece ter alguma atuação
no diagnóstico dos problemas de saúde das populações ribeirinhas, mas pouco
consegue fazer em termos de intervenção, por falta de infra-estrutura.
O município de Ponta de Pedras também conta com uma rede de agentes de saúde
trabalhando nas três comunidades investigadas. Entretanto, a infra-estrutura
de saúde no município é ainda mais precária que em Santarém. Os projetos de
intervenção de organizações não-governamentais neste município têm focado
mais no desenvolvimento comunitário e no meio ambiente (Belick, 2003). O Poema
(Programa Pobreza e Meio Ambiente na Amazônia, ligado ao Núcleo de Meio
Ambiente da Universidade Federal do Pará) atuou no município por vários anos,
aparentemente resultando num aumento da renda da população de Praia Grande
enquanto os projetos estavam em andamento. O programa possuía projetos
voltados à área de saúde (melhoria da água de consumo e construção de fossas
227
sépticas) e alimentação (os “quintais sustentáveis”), mas ainda não foi possível
avaliar seu impacto na segurança alimentar das comunidades. Em Paricatuba e
Marajó-açú, as famílias continuam consumindo água diretamente do rio, sem
nenhuma estrutura sanitária. Todavia, quase todas as famílias nas três comunidades
investigadas estão recebendo a Bolsa Família do governo federal, o que deve ter
impactado positivamente na renda familiar, mas o quanto isso vai se converter em
segurança alimentar, ainda é uma questão a ser investigada.
AGRADECIMENTOS
Às famílias e comunidades de Aracampina, São Benedito, Marajó-açú, Paricatuba e
Praia Grande pela sua disponibilidade em participar das pesquisas e pelo carinho
constante durante todo o nosso trabalho. À Renate Brigite Viertler (FFLCH-USP),
Hilton Pereira da Silva (Museu Nacional, UFRJ) e Eduardo Sonnewend Brondizio
(ACT, Indiana University), na Ilha de Marajó, e Perpétuo Socorro de Sousa, no Ituqui,
pelo auxílio em campo. À Barbara Piperata (Ohio State University) pelas valiosas
sugestões à versão final deste artigo. Às nutricionistas Sílvia Konno, Ana Paula
B Martins e Ana Carolina Feldenheimer (Laboratório de Avaliação Nutricional da
Faculdade de Saúde Pública da USP), pelo auxílio com o Epi-Info. À Scott Hetrick, do
Anthropogical Center for Training and Research on Global Environmental Change
and the Center for the Study of Insitutions, Population and Environmental Change
(Indiana University) pelos mapas de localização das comunidades. A Roy F. Ellen
(University of Kent at Canterbury, UK), S. Strickland (University College London,
UK), Darna Dufour e Terry McCabe (University of Colorado at Boulder, USA) pelos
aportes teóricos e metodológicos às pesquisas de doutorado de Cristina Adams e
Rui Murrieta. À Fapesp (Processos 96/7485-2 e 97/03757-0), à Capes (Processo BEX
0388/99-8) e ao CNPq (Processos 2000337-2 e 301126-04.6), cujos financiamentos
possibilitaram a realização de boa parte dos trabalhos. Ao IPAM pelo apoio logístico
e financeiro dado à pesquisa de Rui Murrieta na Ilha de Ituqui. Ao Museu Paraense
Emílio Goeldi pelo apoio logístico, financeiro e institucional durante a pesquisa
em Marajó.
228
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