Acao Humana- Ludwig von Mises

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Acao Humana- Ludwig von Mises
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Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando
por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo
nível.
Ludwig von Mises
AÇÃO HUMANA
UM TRATADO DE ECONOMIA
3.1ª Edição
Título original em inglês
HUMAN ACTION:
A TREATISE ON ECONOMICS
Tradução para a língua portuguesa por:
Donald Stewart Jr.
Editado por:
Instituto Ludwig von Mises Brasil
R. Iguatemi, 448, cj. 405 – Itaim Bibi
CEP: 01451-010, São Paulo – SP
Tel.: +55 11 3704-3782
Email: [email protected]
www.mises.org.br
Printed in Brazil / Impresso no Brasil
1ª edição, por Yale University Press, 1949
2ª edição, por Yale University Press, 1963
3.1ª edição, revista, publicada por Henry Regnery
Company, em convênio com a Yale University Press, 1966.
ISBN – 978-85-62816-39-0
(ISRN edição original 0-8092-9743-4)
Revisão:
Tatiana Gabbi
Projeto gráfico:
André Martins
Capa:
Neuen Design
Imagem da capa:
Theenc
Ficha Catalográfica elaborada pelo bibliotecário
Sandro Brito – CRB8 – 7577
Revisor: Pedro Anizio
C947 avon Mises, Ludwig
Ação Humana / Ludwig von Mises. – São Paulo:
Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010
Bibliografia
1. Economia de Mercado 2. Liberadade 3. Socialismo
4. Capitalismo 5. Escola Austríaca I. Título.
CDU – 339:330.82
Sumário
Capa
Sumário
Prefácio à Terceira Edição
Introdução
1. Economia e Praxeologia
2. O problema epistemológico de uma teoria geral da ação humana
3. Teoria econômica e a prática da ação humana
4. Resumo
Rodapé
Parte I - Ação Humana
O Agente Homem6
1. Ação Propositada e Reação Animal
2. Os pré-requisitos da ação humana
Sobre a felicidade
Sobre instintos e impulsos
3. Ação humana como um dado irredutível
4. Racionalidade e irracionalidade; subjetivismo e objetividade da
investigação praxeológica
5. Causalidade como um requisito da ação
6. O alter ego
Rodapé
Os Problemas Epistemológicos da Ciência da Ação Humana
1. Praxeologia e história
2. O caráter formal e apriorístico da praxeologia
3. O apriorismo e a realidade
4. O princípio do individualismo metodológico
5. O princípio do singularismo metodológico
6. As características individuais e variáveis da ação humana
7. O escopo e o método específico da história
8. Concepção e compreensão
9. Sobre tipos ideais
10. O modo de proceder da economia
11. As limitações dos conceitos praxeológicos
Rodapé
A Economia e a Revolta Contra a Razão
1. A revolta contra a razão
2. O exame lógico do polilogismo
3. O exame praxeológico do polilogismo
4. O polilogismo racista
5. Polilogismo e compreensão
6. Em defesa da razão
Rodapé
Uma Primeira Análise da Categoria Ação
1. Meios e fins
2. A escala de valores
3. A escala de necessidades
4. A ação como troca
O Tempo
1. O Tempo Como um Fator Praxeológico
2. Passado, presente e futuro
3. A economia de tempo
4. A relação temporal entre ações
Rodapé
A Incerteza
1. Incerteza e ação
2. O significado da probabilidade
3. Probabilidade de classe
4. Probabilidade de caso
5. Avaliação numérica da probabilidade de caso
6. Apostas, jogos de azar e jogos recreativos
7. A predição praxeológica
Rodapé
Ação no Mundo
1. A lei da utilidade marginal
2. A lei dos rendimentos
3. O trabalho humano como um meio
O gênio criador
4. Produção
Rodapé
Parte II - Ação na Sociedade
A Sociedade Humana
1. Cooperação Humana
Sociedade é ação concertada, cooperação.
2. Uma crítica da visão holística e metafísica da sociedade
A praxeologia e o liberalismo
Liberalismo e religião
3. A divisão do trabalho
4. A lei de associação de Ricardo
Erros comuns sobre a lei de associação
5. Os efeitos da divisão do trabalho
6. O indivíduo na sociedade
7. A grande sociedade
8. O instinto de agressão e destruição
Rodapé
O Papel das Ideias
1. A Razão Humana
2. Visão de mundo e ideologia
A luta contra o erro
3. O poder
4. O meliorismo e a ideia de progresso
Rodapé
O Intercâmbio na Sociedade
1. Troca autística125 e troca interpessoal
2. Vínculos contratuais e vínculos hegemônicos
3. A ação e o cálculo
Rodapé
Parte III - Cálculo Econômico
Valoração sem Cálculo
1. A gradação dos meios
2. A ficção da troca na teoria elementar do valor e dos preços
A teoria do valor e o socialismo
3. O problema do cálculo econômico
4. O cálculo econômico e o mercado
Rodapé
O Âmbito do Cálculo Econômico
1. O significado das Expressões Monetárias
O cálculo econômico abrange tudo o que possa ser trocado por
moeda.
2. Os limites do cálculo econômico
3. A variabilidade dos preços
4. A estabilização
5. A base da ideia de estabilização
Rodapé
O Cálculo Econômico como um Instrumento da Ação
1. O Cálculo Monetário como um Método de Pensar
2. O cálculo econômico e a ciência da ação humana
Rodapé
Parte IV - Cataláxia ou Economia de Mercado
Âmbito e Metodologia da Cataláxia
1. A delimitação dos Problemas Catalácticos
2. O método das construções imaginárias
3. A autêntica economia de mercado
A maximização dos lucros
4. A economia autística
5. O estado de repouso e a economia uniformemente circular162
6. A economia estacionária
7. A integração das funções catalácticas
Rodapé
O Mercado
1. As características da economia de mercado
2. Capital e bens de capital
3. Capitalismo
4. A soberania do consumidor
5. Competência
6. Liberdade
7. A desigualdade de riqueza e de renda
8. Lucro e perda empresarial
9. Lucros e perdas empresariais numa economia em desenvolvimento
10. Promotores, gerentes, técnicos e burocratas
11. O processo de seleção
12. O indivíduo e o mercado
13. A propaganda comercial
14. A Volkswirtschaft
Rodapé
Os Preços
1. O processo de formação dos preços
3. Os preços dos bens de ordens superiores
4. Contabilidade de custo
5. Cataláxia lógica versus cataláxia matemática
6. Preços monopolísticos
O tratamento matemático da teoria de preços monopolísticos
7. Reputação comercial
9. Efeitos de preços monopolísticos sobre o consumo
10. A discriminação de preços por parte do vendedor
11. A discriminação de preço por parte do comprador
12. A conexidade dos preços
13. Preços e renda
14. Preços e produção
15. A quimera de preços sem mercado
Rodapé
A Troca Indireta
1. Meios de Troca e Moeda233
2. Observações sobre alguns erros frequentes
3. Demanda por moeda e oferta de moeda
4. A determinação do poder aquisitivo da moeda
5. O problema de Hume e Mill e a força motriz da moeda
6. Mudanças no poder aquisitivo de origem monetária e de origem material
Inflação e deflação; inflacionismo e deflacionismo
7. O cálculo monetário e as mudanças no poder aquisitivo
8. A antecipação de prováveis mudanças no poder aquisitivo
9. O valor específico da moeda
10. As implicações da relação monetária
11. Os substitutos da moeda
12. A limitação da emissão de meios fiduciários
Observações sobre as discussões relativas à atividade bancária livre
13. Tamanho e composição dos encaixes
14. O balanço de pagamentos
15. As taxas de câmbio interlocais
16. A taxa de juros e a relação monetária
Estabilizar o câmbio de moeda estrangeira a uma determinada taxa
equivale a resgatá-la por essa taxa.
17. Os meios de troca secundários
18. A visão inflacionista da história
19. O padrão-ouro
Cooperação monetária internacional
Rodapé
A Ação na Passagem do Tempo
1. A Valoração dos Diferentes Períodos de Tempo
2. A preferência temporal como um requisito essencial da ação
3. Os bens de capital
4. Período de produção, período de espera e período de provisão
A prolongação do período de provisão além da expectativa de vida do
ator
5. A conversibilidade dos bens de capital
6. A influência do passado sobre a ação
7. Acumulação, manutenção e consumo de capital
8. A mobilidade do investidor
9. Moeda e capital; poupança e investimento
Rodapé
A Taxa de Juros
1. O Fenômeno do Juro
2. Juro originário
3. O nível da taxa de juros
4. O juro originário numa economia mutável
5. O cálculo do juro
Rodapé
O Juro, a Expansão de Crédito e o Ciclo Econômico
1. Os Problemas
2. O componente empresarial na taxa bruta de juro do mercado
3. O prêmio compensatório314 como um componente da taxa bruta de
juros de mercado
4. O mercado de crédito
5. Os efeitos das mudanças na relação monetária sobre o juro originário
6. Os efeitos da inflação e da expansão de crédito sobre a taxa bruta de
juros do mercado
7. Os efeitos da deflação e da contração do crédito sobre a taxa bruta e juro
do mercado
8. A teoria monetária, ou do crédito circulante, relativa ao ciclo econômico
9. Efeitos da recorrência do ciclo econômico sobre a economia de mercado
O papel dos fatores de produção disponíveis nos primeiros estágios do
boom
Os erros das explicações não monetárias do ciclo econômico
Rodapé
Trabalho e Salários
1. Trabalho Introvertido e Trabalho Extrovertido
2. O trabalho como fonte de alegria e de tédio
3. O salário
4 . Desemprego cataláctico
5 . Salário bruto e salário líquido
6 . Salários e subsistência
7. Efeitos da desutilidade do trabalho sobre a disponibilidade de mão de
obra
8. O s efeitos das vicissitudes do mercado sobre os salários
9. O mercado de trabalho
Rodapé
A Realidade do Mercado
1. A Teoria e a Realidade
2. O papel do poder
3. O papel histórico da guerra e da conquista
4. O homem como um dado da realidade
5. O período de ajustamento
6. A limitação do direito de propriedade e os problemas relativos aos custos
e aos benefícios externos
As externalidades da criação intelectual
Privilégios e quase privilégios
Rodapé
Harmonia e Conflito de Interesses
1. A Origem dos Lucros e Perdas no Mercado
2. A limitação da progenitura
3. A harmonia dos interesses “corretamente entendidos”
4. A propriedade privada
5. Os conflitos do nosso tempo
Rodapé
Parte V - A Cooperação Social sem o Mercado
A Construção Imaginária de uma Sociedade Socialista
1. A Origem Histórica da Ideia Socialista
2. A doutrina socialista
3. O caráter praxeológico do socialismo
Rodapé
A Impossibilidade do Cálculo Econômico no Sistema Socialista
1. O Problema
2. Erros passados na concepção do problema
3. Sugestões recentes para o cálculo econômico socialista
4. Tentativa e erro
5. O quase mercado
6. As equações diferenciais da economia matemática
Rodapé
Parte VI - A Intervenção no Mercado
O Governo e o Mercado
1. A Ideia de um Terceiro Sistema
2. O intervencionismo
Existem duas maneiras de se chegar ao socialismo.
3. A delimitação das funções governamentais
4. A probidade como padrão supremo das ações individuais
5. O significado de laissez-faire
6. A interferência direta do governo no consumo
Rodapé
O Intervencionismo via Tributação
1. O Imposto Neutro
2. O imposto total
3. Objetivos fiscais e não fiscais da tributação
4. Os três tipos de intervencionismo fiscal
Rodapé
A Restrição da Produção
1. A Natureza da Restrição
2. O preço da restrição
3. A restrição como um privilégio
4. A restrição como sistema econômico
Rodapé
A Interferência na Estrutura de Preços
1. O Governo e a Autonomia do Mercado
2. A reação do mercado à interferência do governo
Observações sobre as causas do declínio da civilização antiga
3. O salário mínimo
Rodapé
Manipulação da Moeda e do Crédito
1. O Governo e a Moeda
2. O aspecto intervencionista da moeda de curso legal
3. A evolução dos métodos de manipulação dos meios de pagamento
4. Os objetivos da desvalorização da moeda
5. A expansão do crédito
A quimera das políticas anticíclicas
6. O controle de câmbio e os acordos bilaterais
Rodapé
Confisco e Redistribuição
1. A Filosofia do Confisco
2. A reforma agrária
3. Taxação confiscatória
Taxação confiscatória e risco empresarial
Rodapé
Sindicalismo e Corporativismo
1. O Sindicalismo
2. As falácias do sindicalismo
3. Influxos sindicalistas nas políticas econômicas populares
4. O socialismo de guildas e o corporativismo
Rodapé
A Economia de Guerra
1. A Guerra Total
2. A guerra e a economia de mercado
3. Guerra e autarquia
4. A inutilidade da guerra
Rodapé
Estado Provedor Versus Mercado
1. A Acusação Contra a Economia de Mercado
2. A pobreza
3. A desigualdade
4. A insegurança
5. A justiça social
Rodapé
A Crise do Intervencionismo
1. Os Frutos do Intervencionismo
2. A exaustão do fundo de reserva
3. O fim do intervencionismo
Rodapé
Parte VII - A Importância da Ciência Econômica
A Importância do Estudo da Economia
1. O Estudo da Economia
2. A economia como profissão
3. A previsão econômica como profissão
4. A economia e as universidades
5. Educação geral e economia
6. A economia e o cidadão
7. A economia e a liberdade
Rodapé
A Economia e os Problemas Essenciais da Natureza Humana
1. A ciência e a vida
2. A economia e os julgamentos de valor
3. O conhecimento econômico e a ação humana
Prefácio à Terceira Edição
É com grande satisfação que vejo este livro em sua terceira edição, com uma bela
impressão e por uma editora tão bem-conceituada.
Cabem aqui duas observações terminológicas.
Primeira: emprego o termo “liberal” com o sentido a ele atribuído no século XIX e,
ainda hoje, em países da Europa continental. Esse uso é imperativo, porque
simplesmente não existe nenhum outro termo disponível para significar o grande
movimento político e intelectual que substituiu os métodos pré-capitalísticos de
produção pela livre empresa e economia de mercado; o absolutismo de reis ou
oligarquias pelo governo representativo constitucional; a escravatura, a servidão e
outras formas de cativeiro pela liberdade de todos os indivíduos.
Segunda: nas últimas décadas, o significado do termo “psicologia” tem ficado
cada vez mais restrito a psicologia experimental, uma disciplina que emprega os
métodos de pesquisa das ciências naturais.Por outro lado, tornou-se usual
desprezar os estudos que anteriormente haviam sido chamados de psicológicos,
considerando-os “psicologia literária” ou uma forma não científica de entendimento.
Sempre que se faz referência a “psicologia” em estudos econômicos, tem-se em
mente exatamente essa psicologia literária. E, portanto torna-se aconselhável
introduzir um termo especial neste sentido. Sugeri em meu livro Theory and
History (New Haven, 1957, p. 264-274) o termo “temologia” e o uso em meu
ensaio The Ultimate Foundation of Economic Science (Princeton,1962),
recentemente publicado. Entretanto, a minha sugestão não teve a intenção de ser
retroativa e de alterar o uso do termo “psicologia” em livros já previamente
publicados; portanto, continuo a empregar o termo “psicologia” nesta nova edição
da mesma forma como empreguei na primeira.
Existem duas traduções já publicadas da primeira edição de Ação Humana: uma
tradução italiana feita pelo Sr. Tullio Bagiotti, professor da Universidade Boconni
em Milão, sob o título L’Azione Umana,Trattato di economia, publicada pela
Unione Tipografico-Editrice Torinese, em 1959; e uma tradução espanhola feita
pelo Sr. Joaquin Reig Albiol, sob o título de La Acción Humana (Tratado de
Economia), publicada em dois volumes pela Fundação Ignácio Villalonga, em
Valença (Espanha), em 1960.
Sinto-me em dívida com muitos amigos pela ajuda e por conselhos que recebi
durante a preparação deste livro.
Antes de tudo, gostaria de lembrar dois estudiosos já falecidos, Paul Mantoux e
William E. Rappad, que, por me terem dado a oportunidade de ensinar no famoso
Graduate Institute of International Studies em Genebra, Suíça, proporcionaram-me
o tempo e o incentivo para iniciar os trabalhos de um plano tão em longo prazo.
Gostaria de expressar meus agradecimentos ao senhor Arthur Goddard, senhor
Percy Greaves, doutor Henry Hazlitt, professor Israel M. Kirzner, senhor Leonard E.
Read, senhor Joaquin Reig Albiol e doutor George Reisman, pelas valiosas e úteis
sugestões.
Mas, acima de tudo, quero agradecer a minha esposa pelo seu firme estímulo e
ajuda.
Ludwig von Mises
Nova York
Março, 1966
Introdução
1. Economia e Praxeologia
A economia é a mais nova das ciências. É verdade que, nos últimos duzentos
anos, surgiram muitas ciências novas, além das disciplinas que eram familiares aos
antigos gregos. Essas ciências novas, entretanto, eram apenas partes do
conhecimento já existentes no sistema tradicional de ensino e que se tornaram
autônomas. O campo de estudo foi mais bem subdividido e tratado com novos
métodos; foram, assim, descobertos novos campos de conhecimento que até então
não tinham sido percebidos, e as pessoas começaram a ver as coisas por ângulos
novos, diferentes daqueles de seus precursores. O campo mesmo não se expandiu.
Mas a economia abriu para as ciências humanas um domínio até então inacessível,
no qual não se havia jamais pensado. A descoberta de uma regularidade na
sequência e interdependência dos fenômenos de mercado foi além dos limites do
sistema tradicional de saber, pois passou a incluir um conhecimento que não podia
ser considerado como lógica, matemática, psicologia, física, nem como biologia.
Durante muito tempo os filósofos ansiaram por identificar os fins que Deus ou a
Natureza estariam procurando atingir no curso da história humana. Tentaram
descobrir a lei que governa o destino e a evolução do gênero humano. Mas mesmo
aqueles cuja investigação não sofria influência de tendências teológicas tiveram
seus esforços inteiramente frustrados, porque estavam comprometidos com um
método defeituoso. Lidavam com a humanidade como um todo ou através de
conceitos holísticos tais como nação, raça ou igreja. Estabeleciam de forma
bastante arbitrária os fins que fatalmente determinariam o comportamento de tais
conjuntos. Mas não conseguiam responder satisfatoriamente a indagação relativa a
que fatores compeliriam os indivíduos a se comportarem de maneira tal que fizesse
com que o suposto objetivo pretendido pela inexorável evolução do conjunto, fosse
atingido. Recorreram a artifícios insensatos: interferência milagrosa da Divindade,
seja pela revelação, seja pela delegação a profetas ou líderes consagrados
enviados por Deus; harmonia pré-estabelecida, predestinação; ou, ainda, influência
de uma fabulosa e mística “alma mundial” ou “alma nacional”. Houve quem falasse
de uma “astúcia da natureza”, que teria implantado no homem impulsos que o
guiam involuntariamente pelos caminhos determinados pela Natureza.
Outros filósofos foram mais realistas. Não tentaram adivinhar os desígnios de
Deus ou da Natureza. Encaravam as coisas humanas sob o ângulo do poder.
Tinham a intenção de estabelecer regras de ação política, como se fossem uma
técnica de governo e de condução dos negócios públicos. As mentes mais
especulativas formulavam planos ambiciosos para reformar e reconstruir a
sociedade. Os mais modestos se contentavam em coletar e sistematizar os dados
de experiência histórica. Todos estavam convencidos de que no curso de eventos
sociais não existiam regularidades e invariâncias de fenômenos, como já havia sido
descoberto no funcionamento do raciocínio humano e no encadeamento de
fenômenos naturais. Não tentavam descobrir as leis da cooperação social, porque
pensavam que o homem podia organizar a sociedade como quisesse. Se as
condições sociais não preenchessem os desejos dos reformadores, se suas utopias
se mostrassem irrealizáveis, a culpa era atribuída à deficiência moral do homem.
Problemas sociais eram considerados problemas éticos. O que era necessário para
construir a sociedade ideal, pensavam eles, eram bons princípios e cidadãos
virtuosos. Com homens honrados, qualquer utopia podia ser realizada.
A descoberta da inevitável interdependência dos fenômenos do mercado
destronou essa opinião. Desnorteadas, as pessoas tiveram de encarar uma nova
visão da sociedade. Aprendendo estupefatas que existe outro aspecto, diferente do
bom e do mau, do justo e do injusto, segundo o qual a ação humana podia ser
considerada. Na ocorrência de fenômenos sociais prevalecem regularidades as
quais o homem tem de ajustar suas ações, se deseja ser bem-sucedido. É inútil
abordar fatos sociais com a postura de um censor que os aprova ou desaprova
segundo padrões bastante arbitrários e julgamentos de valor subjetivos. Devemos
estudar as leis da ação humana e da cooperação social como um físico estuda as
leis da natureza. Ação humana e cooperação social vistas como objeto de uma
ciência que estuda relações existentes e não mais como uma disciplina normativa
de coisas que deveriam ser – esta foi a revolução com consequências enormes para
o conhecimento e para a filosofia, bem como para a ação em sociedade.
Por mais de cem anos, entretanto, os efeitos dessa mudança radical nos métodos
de raciocínio foram bastante restritos porque se acreditava que só uma pequena
parte do campo total da ação humana seria afetada, sejam quais forem os
fenômenos de mercado. Os economistas clássicos, nas suas investigações,
esbarraram num obstáculo que não conseguiram superar: o aparente paradoxo de
valor. Sua teoria do valor era defeituosa e os forçou a restringirem o escopo de sua
ciência. Até o final do século XIX a economia política permaneceu uma ciência dos
aspectos “econômicos” da ação humana, uma teoria da riqueza e do egoísmo.
Lidava com a ação humana apenas na medida em que esta fosse impelida pelo que
era – muito insatisfatoriamente – considerada como motivação pelo lucro, e
acrescentava que existiam outras ações humanas cujo estudo era tarefa de outras
disciplinas. A transformação do pensamento que os economistas clássicos haviam
iniciado só foi levada às suas últimas consequências pela moderna economia
subjetivista, que transformou a teoria dos preços do mercado numa teoria geral da
escolha humana.
Durante muito tempo os homens não foram capazes de perceber que a transição
da teoria clássica de valor para a teoria subjetiva de valor era muito mais do que a
substituição de uma teoria de mercado menos satisfatória por outra mais
satisfatória. A teoria geral da escolha e preferência vai muito além dos limites que
cingiam o campo dos problemas econômicos estudados pelos economistas, de
Cantillon, Hume e Adam Smith até John Stuart Mill. É muito mais do que
simplesmente uma teoria do “aspecto econômico” do esforço humano e da luta
para melhoria de seu bem estar material. É a ciência de todo tipo de ação humana.
Toda decisão humana representa uma escolha. Ao fazer sua escolha, o homem
escolhe não apenas entre diversos bens materiais e serviços. Todos os valores
humanos são oferecidos para opção. Todos os fins e todos os meios, tanto os
resultados materiais como os ideais, o sublime e o básico, o nobre e o ignóbil são
ordenados numa sequência e submetidos a uma decisão que escolhe um e rejeita
outro. Nada daquilo que os homens desejam obter ou querem evitar fica fora dessa
ordenação numa escala única de gradação e de preferência. A moderna teoria de
valor estende o horizonte científico e amplia o campo dos estudos econômicos. Da
economia política da escola clássica emerge a teoria geral da ação humana, a
praxeologia1. Os problemas econômicos ou catalácticos2 estão embutidos numa
ciência mais geral da qual não podem mais ser separados. O exame dos problemas
econômicos tem necessariamente de começar por atos de escolha: a economia
toma-se uma parte – embora até agora a parte elaborada – de uma ciência mais
universal: a praxeologia.
2. O problema epistemológico de uma teoria geral da ação
humana
Na nova ciência, tudo parecia problemático. Ela era uma intrusa no sistema
tradicional de conhecimento; as pessoas estavam perplexas e não sabiam como
classificá-la nem como designar o seu lugar. Por outro lado, estavam convencidas
de que a inclusão da economia no sistema de conhecimento não necessitava de
uma reorganização ou expansão do programa existente. Consideravam completos o
seu sistema de conhecimento. Se a economia não cabia nele, a falha só podia estar
no tratamento insatisfatório aplicado pelos economistas aos seus problemas.
Rejeitar os debates sobre a essência, o escopo e o caráter lógico da economia,
como se fossem apenas uma tergiversação escolástica de professores pedantes, é
prova de desconhecimento total do significado desses debates; é um equívoco
bastante comum supor que enquanto pessoas pedantes desperdiçavam seu tempo
em conversas inúteis acerca de qual seria o melhor método de investigação, a
economia em si mesma, indiferente a essas disputas fúteis, seguia tranquilamente
o seu caminho. No Methodenstreit3,– entre os economistas austríacos e a Escola
Historicista Alemã – que se auto intitulava “guarda-costas intelectual da Casa de
Hohenzollern” – bem como nas discussões entre a escola de John Bates Clark e o
Institucionalismo americano4 havia muito mais em jogo do que a simples questão
sobre qual seria o melhor procedimento.
A verdadeira questão consistia em definir os fundamentos epistemológicos da
ciência da ação humana e sua legitimação lógica. Partindo de um sistema
epistemológico para o qual o pensamento praxeológico era desconhecido e de uma
lógica que reconhecia como científica – além da lógica e da matemática – apenas a
história e as ciências naturais empíricas, muitos autores tentaram negar a
importância e a utilidade da teoria econômica. O historicismo pretendia substituí-la
por história econômica; o positivismo recomendava substituí-la por uma ilusória
ciência social que deveria adotar a estrutura lógica e a configuração da mecânica
newtoniana. Ambas as escolas concordavam numa rejeição radical de todas as
conquistas do pensamento econômico. Era impossível aos economistas
permanecerem calados em face de todos esses ataques.
O radicalismo dessa condenação generalizada da economia foi logo superado por
um niilismo ainda mais universal. Desde tempos imemoriais, os homens, ao pensar,
falar e agir consideraram a uniformidade e imutabilidade da mente humana como
um fato inquestionável. Toda investigação científica estava baseada nessa
hipótese. Nas discussões sobre o caráter epistemológico da economia, pela
primeira vez na história do homem, este postulado também foi negado. O
marxismo afirma que a forma de pensar de uma pessoa é determinada pela classe
a que pertence. Toda classe social tem sua lógica própria. O produto do
pensamento não pode ser nada além de um “disfarce ideológico” dos interesses
egoístas da classe de quem elabora o pensamento. A tarefa de uma “sociologia do
conhecimento” é desmascarar filosofias e teorias científicas e expor o seu vazio
“ideológico”. A economia é um expediente “burguês”; os economistas são
sicofantas do capital. Somente a sociedade sem classes da utopia socialista
substituirá as mentiras “ideológicas” pela verdade.
Este polilogismo, posteriormente, assumiu várias outras formas. O historicismo
afirma que a estrutura lógica da ação e do pensamento humano está sujeita a
mudanças no curso da evolução histórica. O polilogismo social atribui a cada raça
uma lógica própria. Finalmente, temos o irracionalismo sustentando que a razão
em si não é capaz de elucidar as forças irracionais que determinam o
comportamento humano.
Tais doutrinas vão muito além dos limites da economia. Elas questionam não
apenas a economia e a praxeologia, mas qualquer conhecimento humano e o
raciocínio em geral. Referem-se à matemática e à física, tanto quanto à economia.
Parece, portanto, que a tarefa de refutá-las não cabe a nenhum setor específico do
conhecimento, mas à epistemologia e à filosofia. Essa é, aparentemente, a
justificativa para a atitude daqueles economistas que tranquilamente continuam
seus estudos sem se importar com problemas epistemológicos nem com as
objeções levantadas pelo polilogismo e pelo irracionalismo. Ao físico, pouco
importa se alguém estigmatiza suas teorias como burguesas, ocidentais ou judias;
da mesma maneira, o economista deveria ignorar a calúnia e a difamação. Deveria
deixar os cães latirem e não prestar atenção aos seus latidos. É conveniente que se
lembre do ditado de Spinoza: Sane sicut lux se ipsamet tenebras manifestat sic
veritas norma sui et falsi est5.
Entretanto, no que concerne à economia, a situação não é bem a mesma que em
relação à matemática e às ciências naturais. O polilogismo e o irracionalismo
atacam a praxeologia e a economia. Embora suas afirmações sejam feitas de
maneira geral, referindo-se a todos os ramos do conhecimento, na realidade visam
às ciências relativas à ação humana. Afirmam ser uma ilusão acreditar que a
pesquisa científica pode produzir resultados válidos para gente de todas as épocas,
raças e classes sociais, e se comprazem em depreciar certas teorias físicas e
biológicas como burguesas ou ocidentais. Mas, se a solução de questões práticas
necessita da aplicação dessas doutrinas estigmatizadas, esquecem sua
desaprovação. A tecnologia da União Soviética utiliza sem escrúpulos todos os
resultados da física, química e biologia burguesa. Os físicos e engenheiros nazistas
não desprezaram a utilização de teorias, descobertas e invenções das raças e
nações “inferiores”. O comportamento dos povos de todas as raças, religiões,
nações, grupos linguísticos ou classes sociais demonstra claramente que eles não
endossam as doutrinas do polilogismo e do irracionalismo no que concerne à
matemática, à lógica e às ciências naturais.
Mas, no que diz respeito à praxeologia e à economia, as coisas se passam de
maneira inteiramente diferente. O principal motivo do desenvolvimento das
doutrinas do polilogismo, historicismo e irracionalismo foi proporcionar uma
justificativa para desconsiderar os ensinamentos da economia na determinação de
políticas econômicas. Os socialistas, racistas, nacionalistas e estatistas fracassaram
nas suas tentativas de refutar as teorias dos economistas e demonstrar o acerto de
suas doutrinas espúrias. Foi precisamente essa frustração que os impeliu a negar
os princípios lógicos e epistemológicos sobre os quais se baseia o raciocínio
humano, tanto nas atividades cotidianas como na pesquisa científica.
Não é admissível desembaraçar-se dessas objeções meramente com bases nos
motivos políticos que as inspiraram. A nenhum cientista é permitido presumir de
antemão que a desaprovação de suas teorias deve ser infundada porque seus
críticos estão imbuídos de paixão ou preconceito partidário. Ele deve responder a
cada censura sem considerar seus motivos subjacentes ou sua origem. Não menos
admissível é silenciar em face de frequente opinião de que os teoremas de
economia são válidos apenas em condições hipotéticas que não se verificam na
vida real e que, portanto, são inúteis para a compreensão da realidade. É estranho
que algumas escolas aprovem esta opinião e, ao mesmo tempo, calmamente,
desenhem suas curvas e formulem suas equações. Não se importam com o
significado do seu raciocínio e nem como este se relaciona com o mundo real da
vida e da ação.
Essa atitude é, sem dúvida, indefensável. O primeiro dever de qualquer
investigação científica é descrever exaustivamente e definir todas as condições e
suposições, com base nas quais pretende validar suas afirmações. É um erro
considerar a física como um modelo e um padrão para a pesquisa econômica. Mas
as pessoas comprometidas com esta falácia deviam ter aprendido pelo menos uma
coisa: nenhum físico jamais acreditou que o esclarecimento de algumas condições
e suposições de um teorema da física esteja fora do campo de interesse da
pesquisa da física. A questão central que a economia tem obrigação de responder é
sobre a relação entre suas afirmações e a realidade da ação humana, cuja
compreensão é o objeto dos estudos da economia.
Portanto, compete à economia examinar minuciosamente a afirmativa segundo a
qual seus ensinamentos são válidos apenas para o sistema capitalista, durante o
curto e já esvaecido período liberal da civilização ocidental. É dever da economia, e
de nenhum outro campo do saber, examinar todas as objeções levantadas de
diversos ângulos contra a utilidade das afirmativas da teoria econômica para a
elucidação dos problemas da ação humana. O sistema de pensamento econômico
deve ser construído de tal maneira que se mantenha a prova de qualquer crítica
por parte do irracionalismo, do historicismo, do panfisicalismo, do behaviorismo e
de todas as modalidades de polilogismo. É uma situação intolerável a de que os
economistas ignorem os argumentos que diariamente são promovidos para
demonstrar a futilidade e o absurdo dos esforços da economia.
Não se pode mais continuar lidando com os problemas econômicos da maneira
tradicional. É necessário construir a teoria cataláctica sobre a sólida fundação de
uma teoria geral da ação humana, a praxeologia. Este procedimento não apenas a
protegerá contra inúmeras críticas falaciosas, mas possibilitará o esclarecimento de
muitos problemas que até agora não foram adequadamente percebidos e, menos
ainda, satisfatoriamente resolvidos. Especialmente no que se refere ao problema
fundamental do cálculo econômico.
3. Teoria econômica e a prática da ação humana
É comum a muita gente censurar a economia por ser retrógrada. Ora, é óbvio que
a nossa teoria econômica não é perfeita. Não existe perfeição no conhecimento
humano, nem em qualquer outra conquista humana. A onisciência é negada ao
homem. A teoria mais elaborada que parece satisfazer completamente a nossa
sede de conhecimento pode um dia ser emendada ou superada por uma nova
teoria. A ciência não nos dá certeza final e absoluta. Apenas nos dá convicção
dentro dos limites de nossa capacidade mental e do prevalecente estado do
conhecimento científico. Um sistema científico não é senão um estágio na
permanente busca de conhecimento. É necessariamente afetado pela insuficiência
inerente a todo esforço humano. Mas reconhecer estes fatos não implica que o
estágio atual da economia seja retrógrado. Significa apenas que a economia é algo
vivo – e viver implica tanto imperfeição como mudança.
A acusação do alegado atraso é levantada contra a economia a partir de dois
pontos de vista diferentes.
Existem, de um lado, alguns naturalistas e físicos que censuram a economia por
não ser uma ciência natural e não aplicar os métodos e procedimentos de
laboratório. Um dos propósitos deste tratado é demolir a falácia dessas ideias.
Nestas observações introdutórias, será suficiente dizer algumas palavras sobre seus
antecedentes psicológicos. É comum, a quem tem mentalidade estreita, depreciar
diferenças encontradas nas outras pessoas. O camelo, na fábula, desaprova todos
os outros animais por não terem uma bossa, e os ruritânios criticam os laputânios
por não serem ruritânios. O pesquisador que trabalha em laboratório considera este
trabalho como a única fonte válida para investigação, e equações diferenciais como
a única forma adequada de expressar os resultados do pensamento científico. É
simplesmente incapaz de perceber os problemas epistemológicos da ação humana.
Para ele, a economia não pode ser nada além de uma espécie de mecânica.
Há outros que asseguram que algo deve estar errado com as ciências sociais,
porque as condições sociais são insatisfatórias. As ciências sociais conseguiram
resultados espantosos nos últimos duzentos ou trezentos anos e a aplicação prática
desses resultados foi o que deu origem a uma melhoria, sem precedentes, no
padrão de vida em geral. Mas, dizem esses críticos, as ciências sociais falharam
completamente no que diz respeito a tornar mais satisfatórias as condições sociais.
Não eliminaram a miséria e a fome, crises econômicas e desemprego, guerra e
tirania. São estéreis e não contribuíram para a promoção da liberdade e do bem
estar geral.
Esses rabugentos não chegam a perceber que o tremendo progresso da
tecnologia de produção e o consequente aumento de riqueza e bem estar só foram
possíveis graças à adoção daquelas políticas liberais que representavam a
aplicação prática dos ensinamentos da economia. Foram as ideias dos economistas
clássicos que removeram os controles que velhas leis, costumes e preconceitos
impunham sobre o progresso tecnológico, libertando o gênio dos reformadores da
camisa de força das guildas, da tutela do governo e das pressões sociais de vários
tipos. Foram essas ideias que reduziram o prestígio de conquistadores e
expropriadores e demonstraram o benefício social decorrente da atividade
empresarial. Nenhuma das grandes invenções modernas teria tido utilidade prática
se a mentalidade da era pré-capitalista não tivesse sido completamente demolida
pelos economistas. O que é comumente chamado de “revolução industrial” foi o
resultado da revolução ideológica efetuada pelas doutrinas dos economistas. Foram
eles que explodiram velhos dogmas: que é desleal e injusto superar um competidor
produzindo melhor e mais barato; que é iníquo desviar-se dos métodos tradicionais
de produção; que as máquinas são um mal porque trazem desemprego; que é
tarefa do governo evitar que empresários fiquem ricos e proteger o menos eficiente
na competição com o mais eficiente; que reduzir a liberdade dos empresários pela
compulsão ou coerção governamental em favor de outros grupos sociais é um meio
adequado para promover o bem estar nacional. A economia política inglesa e a
fisiocracia francesa indicaram o caminho do capitalismo moderno. Foram elas que
tornaram possível o progresso decorrente da aplicação das ciências naturais,
proporcionando às massas benefícios nunca sequer imaginados.
O que há de errado com a nossa época é precisamente a difundida ignorância do
papel desempenhado por essas políticas de liberdade econômica na evolução
tecnológica dos últimos duzentos anos. As pessoas tornaram-se prisioneiras da
falácia segundo a qual o progresso nos métodos de produção foi contemporâneo à
política de laissez-faire apenas por acidente. Iludidos pelos mitos marxistas,
consideram o estágio atual de desenvolvimento como o resultado da ação de
misteriosas “forças produtivas” que não dependem em nada de fatores ideológicos.
A economia clássica, estão convencidos, não foi um fator no desenvolvimento do
capitalismo, mas, ao contrário, foi seu produto, sua “superestrutura ideológica”, foi
uma doutrina destinada a defender os interesses espúrios dos exploradores
capitalistas. Consequentemente, a abolição do capitalismo e a substituição da
economia de mercado e da livre iniciativa pelo socialismo totalitário não
prejudicaria o ulterior progresso da tecnologia. Ao contrário, promoveria o
desenvolvimento tecnológico pela remoção dos obstáculos que os interesses
egoístas dos capitalistas colocaram no seu caminho.
O traço característico dessa era de guerras destrutivas e de desintegração social é
a revolta contra a economia. Thomas Carlyle denominava a economia de “ciência
triste” e Karl Marx estigmatizou os economistas como sicofantas da burguesia.
Charlatães – exaltando suas poções mágicas e seus atalhos para o paraíso
terrestre – se satisfazem em desdenhar a economia, qualificando-a como
“ortodoxa” ou “reacionária”. Demagogos se orgulham do que chamam de suas
vitórias sobre a economia. O homem “prático” alardeia sua ignorância em
economia e seu desprezo pelos ensinamentos de economistas “teóricos”. As
políticas econômicas das últimas décadas têm sido o resultado de uma mentalidade
que escarnece de qualquer teoria econômica bem fundamentada e glorifica as
doutrinas espúrias de seus detratores. O que é conhecido como economia
“ortodoxa” não é ensinado nas universidades da maior parte dos países, sendo
virtualmente desconhecida dos líderes políticos e escritores. A culpa da situação
econômica insatisfatória certamente não pode ser imputada à ciência que os
governantes e massas ignoram e desprezam.
É preciso que se enfatize que o destino da civilização moderna desenvolvida pelos
povos de raça branca nos últimos duzentos anos está inseparavelmente ligado ao
destino da ciência econômica. Esta civilização pôde surgir porque esses povos
adotaram ideias que resultavam da aplicação dos ensinamentos da economia aos
problemas de política econômica. Necessariamente sucumbirá se as nações
continuarem a seguir o rumo que tomaram, enfeitiçadas pelas doutrinas que
rejeitam o pensamento econômico.
É verdade que a economia é uma ciência teórica e, como tal, se abstém de
qualquer julgamento de valor. Não lhe cabe dizer que fins as pessoas deveriam
almejar. É uma ciência dos meios a serem aplicados para atingir os fins escolhidos
e não, certamente, uma ciência para escolha dos fins. Decisões finais, a avaliação e
a escolha dos fins, não pertencem ao escopo de nenhuma ciência. A ciência nunca
diz a alguém como deveria agir; meramente mostra como alguém deve agir se
quiser alcançar determinados fins.
Para muita gente pode parecer que isso é muito pouco, e que uma ciência
limitada à investigação do ser, e incapaz de expressar um julgamento de valor
sobre os mais elevados e definitivos fins não tem qualquer importância para a vida
e a ação humana. Isto também é um erro. Entretanto, o desmascaramento desse
erro não é tarefa destas notas introdutórias. É um dos objetivos deste tratado.
4. Resumo
Estas observações preliminares se faziam necessárias a fim de explicar por que
este tratado coloca os problemas econômicos no vasto campo de uma teoria geral
da ação humana. No estágio atual, tanto do pensamento econômico como das
discussões políticas acerca dos problemas fundamentais da organização social, não
é mais possível isolar o estudo dos problemas catalácticos. Estes problemas são
apenas um segmento de uma ciência geral da ação humana, e só assim podem ser
tratados.
Rodapé
1 O termo praxeologia foi empregado pela primeira vez em 1890 por Espinas, ver
seu artigo “Les orígenes de la technologie!”, Revue philosophique, p.114-115, ano
XV, vol. 30, e seu livro publicado em Paris em 1897 com o mesmo titulo.
*Praxeologia: do grego praxis – ação, hábito, prática – e logia – doutrina, teoria,
ciência. É a ciência ou teoria geral da ação humana. Mises definiu ação como
“manifestação da vontade humana”: ação como sendo um “comportamento
propositado”. A praxeologia a partir deste conceito apriorístico da categoria ação
analisa as implicações plenas de todas as ações. A praxeologia busca conhecimento
que seja válido sempre que as condições correspondam exatamente àquelas
consideradas na hipótese teórica. Sua afirmação e sua proposição não decorrem da
experiência: antecedem qualquer compreensão dos fatos históricos. (Extraído de
Mises Made Easier. Percy L. Greaves Jr., Nova York, Free Market. Books, 1974. N.T.)
2 O termo cataláxia* ou a ciência das trocas foi usado primeiramente por Whately.
Ver seu livro Introductory Lectures on Political Economy, Londres, 1831, p.6.
* Cataláxia – a teoria da economia de mercado, isto é, das relações de troca e dos
preços. Analisa todas as ações baseadas no cálculo monetário e rastreia a
formulação de preços até a sua origem, ou seja, até o momento em que o homem
fez sua escolha. Explica os preços de mercado como são e não como deveriam ser.
As leis da cataláxia não são julgamentos de valor; são exatas, objetivas e de
validade universal. Extraído de Mises Made Easier. Percy Greaves Jr. op. cit. (N.T.)
3
Methodenstreit
–
disputa,
argumento
ou
controvérsia
sobre
métodos;
especificamente a controvérsia sobre o método e o caráter epistemológico da
economia na década de 80 do século XIX, entre os seguidores da Escola Austríaca
de Economia, liderados por Car1 Menger (1840-1921) e os proponentes da Escola
Historicista Alemã, liderados por Gustav von Schmioller (1838-1917). A Escola
Historicista Alemã sustentava que a história é a única fonte de conhecimento sobre
a ação humana e sobre assuntos econômicos, e que só no estudo dos dados e
estatísticas históricas a economia poderia formular suas leis e teorias. (N.T.)
4 Institucionalismo americano uma versão americana da Escola Historicista.
Considera que as atividades humanas são determinadas por pressões sociais
irresistíveis, denominadas Instituições. Propõe a intervenção política como o melhor
meio de mudar tais hábitos do homem e de aprimorar o gênero humano. Atribui o
infortúnio da humanidade ao capitalismo do tipo laissez – faire e procura mudar as
instituições pela adoção de soluções coletivas e intervencionistas. (N.T.)
5 Em português, “Sem dúvida que assim como a luz se manifesta a si mesma e às
trevas, da mesma forma a verdade é, ao mesmo tempo, a norma de si e do falso”.
(N.T.)
Parte I - AÇÃO HUMANA
CAPÍTULO 1
O Agente Homem6
1. Ação Propositada e Reação Animal
Ação humana é comportamento propositado. Também podemos dizer: ação é a
vontade posta em funcionamento, transformada em força motriz; é procurar
alcançar fins e objetivos; é a significativa resposta do ego aos estímulos e às
condições do seu meio ambiente; é o ajustamento consciente ao estado do
universo que lhe determina a vida. Estas paráfrases podem esclarecer a definição
dada e prevenir possíveis equívocos. Mas a própria definição é adequada e não
necessita de complemento ou comentário.
Comportamento consciente ou propositado contrasta acentuadamente com
comportamento inconsciente, isto é, os reflexos e as respostas involuntárias das
células e nervos do corpo aos estímulos. As pessoas têm uma tendência para
acreditar que as fronteiras entre comportamento consciente e a reação involuntária
das forças que operam no corpo humano são mais ou menos indefinidas. Isto é
correto apenas na medida em que, às vezes, não é fácil estabelecer se um
determinado comportamento deve ser considerado voluntário ou involuntário.
Entretanto, a distinção entre consciência e inconsciência é bastante nítida e pode
ser bem determinada.
O comportamento inconsciente dos órgãos e células do organismo, para o nosso
ego, é um dado como qualquer outro do mundo exterior. O homem, ao agir, tem
que levar tudo em conta: tanto o que se passa no seu próprio corpo quanto outros
dados externos, como por exemplo, as condições meteorológicas ou as atitudes de
seus vizinhos. Existe, é claro, certa margem dentro da qual o comportamento
propositado pode neutralizar o funcionamento do organismo. Se torna factível,
dentro de certos limites, manter o corpo sob controle. Às vezes o homem pode
conseguir, pela sua força de vontade, superar a doença, compensar insuficiências
inatas ou adquiridas de sua constituição física, ou suprimir reflexos. Até onde isto
seja possível, estende-se o campo de ação propositada. Se um homem se abstém
de controlar reações involuntárias de suas células e centros nervosos, embora
pudesse fazê-lo, seu comportamento, do nosso ponto de vista, é propositado.
O campo da nossa ciência é a ação humana e não os eventos psicológicos que
resultam numa ação. É isto, precisamente, que distingue a teoria geral da ação
humana, praxeologia, da psicologia. O objeto da psicologia são os fatores internos
que resultam ou podem resultar numa determinada ação. O tema da praxeologia é
a ação como tal. É isto também que estabelece a relação entre a praxeologia e o
conceito psicoanalítico do subconsciente. A psicanálise também é psicologia, e não
investiga a ação, mas as forças e fatores que impelem o homem a agir de uma
determinada maneira. O subconsciente psicanalítico é uma categoria psicológica e
não praxeológica. Quer uma ação provenha de uma clara deliberação, quer
provenha de memórias esquecidas e desejos reprimidos que, das profundezas onde
se encontram, dirigem a vontade, sua natureza não se altera. Está agindo tanto o
assassino, cujo impulso subconsciente (o id) conduz ao crime, quanto o neurótico,
cujo comportamento aberrante parece sem sentido para o observador superficial;
ambos, como todo mundo, procuram atingir certos objetivos. É mérito da
psicanálise ter demonstrado que mesmo o comportamento de neuróticos e
psicopatas tem um sentido, que eles também agem com o objetivo de alcançar
fins, embora nós, que nos achamos normais e sãos, consideremos sem sentido o
raciocínio que lhes determina a escolha de fins, e inadequados os meios que
escolhem para atingir esses fins.
O termo “inconsciente”, como usado pela praxeologia, e os termos
“subconsciente” e inconsciente”, como aplicados pela psicanálise, pertencem a dois
diferentes sistemas de pensamento e pesquisa. A praxeologia, não menos que
outros campos do conhecimento, deve muito à psicanálise. Portanto, é ainda mais
necessário perceber bem a linha que separa a praxeologia da psicologia.
Ação não é simplesmente uma manifestação de preferência. O homem também
manifesta preferência em situações nas quais eventos e coisas são inevitáveis ou
se acredita que o sejam. Assim sendo, o homem pode preferir bom tempo a chuva
e pode desejar que o sol dispersasse as nuvens. Aquele que apenas almeja ou
deseja não interfere ativamente no curso dos acontecimentos nem na formação de
seu destino. Por outro lado, o agente homem escolhe, determina e tenta alcançar
um fim. Entre duas coisas, não podendo ter ambas, seleciona uma e desiste da
outra. Ação, portanto, sempre implica tanto obter como renunciar.
Expressar desejos e esperanças ou anunciar uma ação planejada podem ser
formas de ação, na medida em que tenham o propósito de atingir um determinado
objetivo. Mas não devem ser confundidas com as ações a que se referem; não são
idênticas às ações que anunciam, recomendam ou rejeitam. Ação é algo real. O
que conta é o comportamento total do homem e não sua conversa sobre ações
planejadas, mas não realizadas. Por outro lado, é preciso distinguir claramente
ação e trabalho. Ação significa o emprego de meios para atingir fins. Geralmente,
um dos meios empregados é o trabalho do agente homem. Mas nem sempre é
assim. Em circunstâncias especiais, apenas uma palavra é necessária: quem emite
ordens ou proibições pode estar agindo sem que esteja realizando trabalho. Falar
ou não falar, sorrir ou ficar sério podem ser ações. Consumir e divertir-se são ações
tanto quanto abster-se do consumo e do divertimento que nos são acessíveis.
A praxeologia, portanto, não distingue o homem “ativo” e enérgico do homem
“passivo” e indolente. O homem vigoroso que diligentemente se empenha em
melhorar suas condições age tanto quanto o homem letárgico que indolentemente
aceita as coisas como lhe acontecem. Porque não fazer nada e ser indolente
também são ações e também determinam o curso dos eventos. Onde quer que
haja condições para interferência humana, o homem age, pouco importando se o
faz por meio de ação ou omissão. Aquele que aceita o que poderia mudar age
tanto quanto aquele que interfere no sentido de obter um resultado diferente. Um
homem que se abstém de influenciar o funcionamento de fatores psicológicos e
instintivos também age. Ação é não somente fazer, mas, não menos, omitir aquilo
que possivelmente poderia ser feito.
Podemos dizer que ação é a manifestação da vontade humana. Mas isto não
acrescentaria nada ao nosso conhecimento. Porque o termo vontade significa nada
mais do que a faculdade do homem de escolher entre diferentes situações; preferir
uma, rejeitar outra, e comportar-se em consonância com a decisão tomada,
procurando alcançar a situação escolhida e renunciando a outra.
2. Os pré-requisitos da ação humana
Chamamos contentamento ou satisfação aquele estado de um ser humano que
não resulta, nem pode resultar, em alguma ação. O agente homem está ansioso
para substituir uma situação menos satisfatória, por outra mais satisfatória. Sua
mente imagina situações que lhe são mais propícias, e sua ação procura realizar
esta situação desejada. O incentivo que impele o homem à ação é sempre algum
desconforto7. Um homem perfeitamente satisfeito com a sua situação não teria
incentivo para mudar as coisas. Não teria nem aspirações nem desejos; seria
perfeitamente feliz. Não agiria; viveria simplesmente livre de preocupações.
Mas, para fazer um homem agir não bastam o desconforto e a imagem de uma
situação melhor. Uma terceira condição é necessária: a expectativa de que um
comportamento propositado tenha o poder de afastar ou pelo menos aliviar o seu
desconforto. Na ausência desta condição, nenhuma ação é viável. O homem tem de
se conformar com o inevitável. Tem de se submeter a sua sina.
Estas são as condições gerais da ação humana. O homem é um ser que vive
submetido a essas condições. É não apenas homo sapiens, mas também homo
agens. Seres humanos que, por nascimento ou por defeitos adquiridos, são
irremediavelmente incapazes de qualquer ação (no estrito senso do termo e não
apenas no senso legal), praticamente não são humanos. Embora as leis e a
biologia os considerem homens, faltam-lhes a característica essencial do homem. A
criança recém-nascida também não é um ser agente. Ainda não percorreu o
caminho desde a concepção até o pleno desenvolvimento de suas capacidades.
Mas, ao final desta evolução, torna-se um ser agente.
Sobre a felicidade
Coloquialmente dizemos que alguém é “feliz” quando consegue atingir seus fins.
Uma descrição mais adequada deste estado seria dizer que está mais feliz do que
estava antes. Entretanto, não há nenhuma objeção válida ao costume de definir a
ação humana como a busca da felicidade.
Mas devemos evitar equívocos geralmente aceitos por todos. O objetivo final da
ação humana é, sempre, a satisfação do desejo do agente homem. Não há outra
medida de maior ou menor satisfação, a não ser o julgamento individual de valor,
diferente de uma pessoa para outra, e para a mesma pessoa em diferentes
momentos. O que faz alguém sentir-se desconfortável, ou menos desconfortável, é
estabelecido a partir de critérios decorrentes de sua própria vontade e julgamento,
de sua avaliação pessoal e subjetiva. Ninguém tem condições de determinar o que
faria alguém mais feliz.
Estabelecer este fato de forma alguma o identifica com as antíteses de egoísmo e
altruísmo, de materialismo e idealismo, de ateísmo e religião. Há pessoas cujo
único propósito é desenvolver as potencialidades de seu próprio ego. Há outras
para as quais ter consciência dos problemas de seus semelhantes lhes causa tanto
desconforto ou até mesmo mais desconforto do que suas próprias carências. Há
pessoas que desejam apenas a satisfação de seus apetites para a relação sexual,
comida, bebida, boas casas e outros bens materiais. Mas existem aquelas que se
interessam mais por satisfações comumente chamadas de “ideais” ou “elevadas”.
Existem pessoas ansiosas por ajustar suas ações às exigências da cooperação
social; existem, por outro lado pessoas refratárias, que desprezam as regras da
vida social. Há pessoas para quem o objetivo final da peregrinação terrestre é a
preparação para uma vida beata. Há outras que não acreditam nos ensinamentos
de nenhuma religião e não permitem que suas ações sejam influenciadas por eles.
A praxeologia é indiferente aos objetivos finais da ação. Suas conclusões são
válidas para todos os tipos de ação. Independentemente dos objetivos pretendidos.
É uma ciência de meios e não de fins. Emprega o termo felicidade no sentido
meramente formal. Na terminologia praxeológica, a proposição “o único objetivo do
homem é alcançar a felicidade” é tautológica. Não implica nenhuma afirmação
sobre a situação da qual o homem espera obter felicidade.
O conceito segundo o qual o incentivo da atividade humana é sempre algum
desconforto e que seu objetivo é sempre afastar tal desconforto tanto quanto
possível, ou seja, fazer o agente homem sentir-se mais feliz, é a essência dos
ensinamentos do eudemonismo e do hedonismo.A ataraxia epicurista é aquele
estado de perfeita felicidade e contentamento que toda atividade humana pretende
alcançar sem nunca atingi-lo plenamente. Em face da importância desta percepção,
tem pouco valor o fato de que muitos representantes dessa filosofia tenham
falhado em reconhecer o caráter meramente formal das noções de “dor” e “prazer”
e lhes tenham dado um significado carnal e material. As doutrinas teológicas e
místicas, bem como as de outras escolas de uma ética heteronômica, não abalaram
a essência do epicurismo porque não puderam levantar outras objeções além de
sua negligência em relação aos prazeres “nobres” e “elevados”. É verdade que os
escritos de muitos dos primeiros defensores do eudemonismo, do hedonismo e do
utilitarismo são, em muitos aspectos passíveis de mal-entendido. Mas a linguagem
de filósofos modernos e, mais ainda aquela dos economistas modernos é tão
precisa e direta que não deixa margem a equívocos.
Sobre instintos e impulsos
O método utilizado pela sociologia dos instintos não favorece a compreensão dos
problemas fundamentais da ação humana. Essa escola classifica os vários objetivos
concretos da ação humana e atribui a cada classe um instinto específico como seu
propulsor. O homem é considerado um ser guiado por vários instintos e propensões
inatos. Supõe-se que esta explicação arrasa de uma vez por todas com os
ensinamentos odiosos da economia e da ética utilitária. Entretanto, Feuerbach já
observara corretamente que todo instinto é um instinto para a felicidade8. O
método usado pela psicologia do instinto e pela sociologia do instinto consiste
numa classificação arbitrária dos objetivos imediatos da ação e uma hipóstase de
cada um deles. Onde a praxeologia diz que o objetivo de uma ação é remover
algum desconforto, a psicologia do instinto o atribui à satisfação de um impulso
instintivo.
Muitos defensores da escola do instinto estão convencidos de terem provado que
a ação não é determinada pela razão, mas provêm das insondáveis profundezas
das forças, impulsos, instintos e propensões inatas que não são passíveis de
qualquer explicação racional. Estão certos de terem conseguido revelar a
superficialidade do racionalismo e desacreditar a economia, comparando-a a um
tecido de conclusões falsas extraídas de falsas pressuposições psicológicas9. No
entanto, racionalismo, praxeologia e economia não lidam com as causas e
objetivos finais da ação, mas com os meios usados para a consecução do fim
pretendido. Por mais insondáveis que sejam as profundezas de onde emerge um
impulso ou instinto, os meios que o homem escolhe para satisfazê-lo são
determinados por uma consideração racional de custos e benefícios10.
Quem age por impulso emocional também exerce uma ação. O que distingue uma
ação emocional de outras ações é a avaliação do seu custo e do seu beneficio.
Emoções perturbam as avaliações. Para quem age arrebatado pela paixão, o
objetivo parece mais desejável e o preço a ser pago parece menos oneroso do que
quando avaliado friamente. Ninguém contesta que, mesmo agindo
emocionalmente, o homem avalia meios e fins e dispõe-se a pagar um preço maior
pela obediência ao impulso apaixonado. Punir de forma mais suave ofensas
criminais cometidas num estado de excitação emocional ou de intoxicação do que
se punem outras ofensas equivale a encorajar tais excessos. A ameaça de severa
retaliação não deixa de frear mesmo as pessoas guiadas por uma paixão
aparentemente irresistível.
Interpretamos o comportamento animal com a pressuposição de que o animal
cede aos impulsos que prevalecem no momento. Como observamos que o animal
se alimenta, coabita e ataca outros animais ou os homens, falamos de instintos de
alimentação, de reprodução e de agressão. Supomos que esses instintos sejam
inatos e requeiram satisfação.
Mas o mesmo não ocorre com o homem. O homem não é um ser que não possa
abster-se de ceder ao impulso que mais urgentemente lhe exija satisfação. O
homem é um ser capaz de subjugar seus instintos, emoções e impulsos: que pode
racionalizar seu comportamento. É capaz de renunciar à satisfação de um impulso
ardente para satisfazer outros desejos. O homem não é um fantoche de seus
apetites. Um homem não violenta qualquer mulher que excite seus sentidos; não
devora qualquer pedaço de comida que lhe apeteça; não agride qualquer pessoa
que gostaria de matar. O homem organiza suas aspirações e desejos numa escala
e escolhe; em resumo, ele age. O que distingue o homem de uma besta é
precisamente o fato de que ele ajusta seu comportamento deliberadamente. O
homem é o ser que tem inibições, que pode controlar seus impulsos e desejos, que
tem o poder de reprimir desejos e impulsos instintivos.
Pode ocorrer que um impulso apresente-se com tal veemência que nenhum ônus
provocado por sua satisfação pareça suficientemente forte para impedir o indivíduo
de satisfazê-lo. Neste caso, também há escolha: o homem decide por ceder ao
impulso em questão.11
3. Ação humana como um dado irredutível
Desde tempos imemoriais os homens têm manifestado ansiedade por saber qual
é a fonte de toda energia, a causa de todos os seres e de toda mudança, a
substância última da qual tudo deriva e que é a causa de si mesmo. A ciência é
mais modesta. Tem consciência dos limites da mente humana e da sua busca de
conhecimento. Procura investigar cada fenômeno até as suas causas. Mas
compreende que esses esforços esbarram inevitavelmente em muros
intransponíveis. Existem fenômenos que não podem ser analisados nem ter sua
origem rastreada até outros fenômenos. Estes são os dados irredutíveis. O
progresso da pesquisa científica pode conseguir demonstrar que algo ate então
considerado como um dado básico pode ser subdividido em componentes. Mas
haverá sempre alguns fenômenos irredutíveis, indivisíveis, algum dado irredutível.
O monismo ensina que existe apenas uma substância básica; o dualismo diz que
existem duas; o pluralismo, que existem muitas. Não tem sentido discutir tais
questões. São meras disputas metafísicas insolúveis. O presente estado do nosso
conhecimento não nos proporciona os meios de resolvê-las com uma explicação
que um homem razoável considerasse satisfatória.
O monismo materialista afirma que vontades e pensamentos humanos são o
produto do funcionamento dos órgãos, das células do cérebro e dos nervos. O
pensamento, a vontade e a ação são produzidos apenas por processos materiais
que um dia serão completamente explicados pela investigação no campo da física
ou da química. Essa também é uma hipótese metafísica, embora seus adeptos a
considerem como uma verdade científica inegável e inabalável.
Várias doutrinas têm sido formuladas para explicar a relação entre corpo e mente.
São meras conjecturas sem qualquer referência a fatos reais. Tudo o que se pode
afirmar com certeza é que existem relações entre processos mentais e fisiológicos.
Quanto à natureza e ao funcionamento desta conexão, sabemos muito pouco, se é
que sabemos alguma coisa.
Julgamentos concretos de valor e ações humanas definidas não são passíveis de
maiores análises. Podemos honestamente supor ou acreditar que sejam
inteiramente dependentes de (ou condicionados por) suas causas. Mas, uma vez
que não sabemos como fatos exteriores – físicos ou fisiológicos – produzem na
mente humana pensamentos e vontades definidas que resultam em atos concretos,
temos de enfrentar um insuperável dualismo metodológico. No estado atual de
nosso conhecimento, os postulados fundamentais do positivismo, do monismo e do
panfisicalismo são meros postulados metafísicos, desprovidos de qualquer base
científica, sem sentido e sem utilidade na pesquisa científica. A razão e a
experiência nos mostram dois mundos diferentes: o mundo exterior dos fenômenos
físicos, químicos e fisiológicos e o mundo interior do pensamento, do sentimento,
do julgamento de valor e da ação propositada. Até onde sabemos hoje, nenhuma
ponte liga esses dois mundos. Idênticos eventos exteriores resultam, às vezes, em
respostas humanas diferentes, enquanto que eventos exteriores diferentes
produzem, às vezes, a mesma resposta humana. Não sabemos por quê.
Em face desta realidade, não podemos deixar de apontar a falta de bom senso
dos postulados essenciais do monismo e do materialismo. Podemos acreditar ou
não que as ciências naturais conseguirão um dia explicar a produção de ideias
definidas, julgamentos de valor e ações, da mesma maneira como explicam a
produção de um composto químico: o resultado necessário e inevitável de certa
combinação de elementos. Até que chegue esse dia, somos obrigados a concordar
com o dualismo metodológico.
Ação humana é um dos instrumentos que promovem mudança. É um elemento de
atividade e transformação cósmica. Portanto, é um tema legítimo de investigação
científica. Como – pelo menos nas condições atuais – não pode ser rastreada até
suas origens, tem de ser considerada como um dado irredutível e como tal deve ser
estudada.
É verdade que as mudanças produzidas pela ação humana são insignificantes
quando comparadas com a ação das poderosas forças cósmicas. Do ponto de vista
da eternidade e do universo infinito, o homem é um grão infinitesimal. Mas, para o
homem, a ação humana e suas vicissitudes são a coisa real. Ação é a essência de
sua natureza e de sua existência, seu meio de preservar a vida e de se elevar
acima do nível de animais e plantas. Por mais perecível e evanescente que todo
esforço humano possa ser, para o homem e para sua ciência é de fundamental
importância.
4. Racionalidade e irracionalidade; subjetivismo e objetividade
da investigação praxeológica
Ação humana é necessariamente sempre racional. O termo “ação racional” é,
portanto, pleonástico e, como tal deve ser rejeitado. Quando aplicados aos
objetivos finais da ação, os termos racional e irracional são inadequados e sem
sentido. O objetivo final da ação é sempre a satisfação de algum desejo do agente
homem. Uma vez que ninguém tem condições de substituir os julgamentos de valor
de um indivíduo pelo seu próprio julgamento, é inútil fazer julgamentos dos
objetivos e das vontades de outras pessoas. Ninguém tem condições de afirmar o
que faria outro homem mais feliz ou menos descontente. Aquele que critica está
informando-nos o que imagina que faria se estivesse no lugar do seu semelhante,
ou então está proclamando, com arrogância ditatorial, o comportamento do seu
semelhante que lhe seria mais conveniente.
É usual qualificar uma ação como irracional se ela visa a obter satisfações ditas
“ideais” ou “elevadas” à custa de vantagens tangíveis ou “materiais”. Neste
sentido, as pessoas costumam dizer – algumas vezes aprovando, outras vezes
desaprovando – que um homem que sacrifica sua vida, saúde ou riqueza para
atingir objetivos “elevados” (como a fidelidade às suas convicções religiosas,
filosóficas ou políticas, ou a libertação e florescimento de sua nação) está movido
por considerações irracionais. Não obstante, a tentativa de atingir esses objetivos
elevados não é mais nem menos racional ou irracional do que aquela feita para
atingir outros objetivos humanos. É um erro admitir que a vontade de satisfazer as
necessidades mais simples da vida e da saúde é mais racional, mais natural ou
mais justificada, que a tentativa para obter outros bens ou amenidades. É claro que
o apetite por comida e abrigo é comum aos homens e a outros mamíferos e que,
como regra, um homem, ao qual falta comida e abrigo, concentra seus esforços na
satisfação dessas necessidades urgentes e não se importa muito com outras coisas.
O impulso para viver, para preservar sua própria vida e para aproveitar as
oportunidades de fortalecer suas forças vitais é característica primordial da vida,
presente em todo ser vivo. Entretanto, ceder a este impulso não é – para o homem
– uma necessidade inevitável.
Enquanto todos os animais são incondicionalmente guiados pelo impulso de
preservação de sua própria vida e pelo de proliferação, o homem tem o poder de
comandar até mesmo esses impulsos. Ele pode controlar tanto seus desejos
sexuais, como sua vontade de viver. Pode renunciar à sua vida quando as
condições para preservá-la parecem insuportáveis. O homem é capaz de morrer por
uma causa e de suicidar-se. Viver, para o homem, é o resultado de uma escolha,
de um julgamento de valor.
O mesmo se passa com o desejo de viver com fartura. A simples existência de
ascetas e de homens que renunciam a ganhos materiais por amor e fidelidade, as
suas convicções, preservação de sua dignidade e respeito próprio, é uma evidência
de que a luta por amenidades tangíveis não é inexorável, mas, sobretudo, fruto de
uma escolha. Naturalmente, a imensa maioria prefere a vida à morte, e a riqueza à
pobreza.
É uma arbitrariedade considerar apenas a satisfação das necessidades fisiológicas
do organismo como “natural” e, portanto, “racional”, e tudo mais como “artificial”,
e, portanto, “irracional”. O traço característico da natureza humana é o de buscar
não apenas comida, abrigo e coabitação, como outros animais, mas, também, o de
buscar outros tipos de satisfação. O homem tem desejos e necessidades
especificamente humanos, que podemos chamar de “mais elevados” do que
aqueles que têm em comum com outros mamíferos.12
Quando aplicados aos meios escolhidos para atingir os fins os termos racional e
irracional implicam um julgamento sobre a oportunidade e a adequação do
procedimento empregado. O crítico aprova ou desaprova um método conforme seja
ou não mais adequado para atingir o fim em questão. É fato que a razão não é
infalível e que o homem frequentemente erra ao selecionar e utilizar meios. Uma
ação inadequada ao fim pretendido fracassa e decepciona. Embora não consiga
atingir o fim desejado, é racional, ou seja, é o resultado de uma deliberação
sensata – ainda que defeituosa —, é uma tentativa de atingir um objetivo
determinado – embora uma tentativa ineficaz. Os médicos que há cem anos
empregavam certos métodos no tratamento do câncer, métodos esses rejeitados
pelos médicos contemporâneos, estavam, do ponto de vista da patologia de nossos
dias, mal informados e eram consequentemente ineficientes. Mas eles não agiam
irracionalmente; faziam o melhor possível. É provável que daqui a cem anos os
médicos tenham à sua disposição métodos mais eficientes para o tratamento dessa
doença. Serão, então, mais eficientes, mas não mais racionais que os médicos
atuais.
O oposto de ação não é comportamento irracional, mas a resposta automática
aos estímulos por parte dos órgãos e instintos do organismo que não podem ser
controlados pela vontade de uma pessoa. Ao mesmo estímulo o homem pode, sob
certas condições, reagir tanto por uma resposta automática como pela ação. Se um
homem absorve um veneno, os órgãos reagem organizando a sua defesa; além
disso, pode haver a interferência da sua ação pela administração de um antídoto.
Quanto ao problema contido na antítese racional e irracional, não há diferença
entre as ciências naturais e as ciências sociais. A ciência sempre é, tem de ser,
racional. É um esforço para conseguir um domínio mental dos fenômenos do
universo, através da organização sistemática de todo o conjunto de conhecimento
disponível. Entretanto, conforme já foi assinalado anteriormente, a decomposição
de qualquer conhecimento em seus elementos constituintes tem necessariamente
de, mais cedo ou mais tarde, atingir um ponto além do qual não pode prosseguir. A
mente humana nem mesmo é capaz de conceber um tipo de conhecimento que não
seja limitado por um dado irredutível, inacessível a uma maior análise e ao
desdobramento. O método científico que conduz a mente até esse ponto é racional.
O dado irredutível pode ser considerado um fato irracional.
É moda, nos dias de hoje, criticar as ciências sociais por serem meramente
racionais. A objeção mais frequente levantada contra a economia é a de que ela
negligencia a irracionalidade da vida e da realidade e tenta confinar a variedade
infinita de fenômenos em áridos esquemas racionais ou em abstrações insípidas.
Nenhuma censura podia ser mais absurda. Como todo ramo do conhecimento, a
economia vai até onde pode ser conduzida por métodos racionais. Em determinado
momento para, reconhecendo o fato de que está diante de um dado irredutível,
isto é, diante de um fenômeno que não pode ser mais desdobrado ou analisado –
pelo menos no presente estágio do nosso conhecimento.13
Os ensinamentos da praxeologia e da economia são válidos para qualquer ação
humana, independentemente de seus motivos, causas ou objetivos subjacentes. Os
julgamentos finais de valor e os objetivos finais da ação humana são dados para
qualquer tipo de investigação científica; não são passíveis de maior análise. A
praxeologia lida com os meios e recursos escolhidos para a obtenção de tais
objetivos finais. Seu objeto são os meios, não os fins.
É neste sentido que nos referimos ao subjetivismo da ciência geral da ação
humana. Esta ciência considera os objetivos finais escolhidos pelo agente homem
como dados, é inteiramente neutra em relação a eles e se abstém de fazer
julgamentos de valor. O único padrão que utiliza é o de procurar saber se os meios
escolhidos para a obtenção dos fins pretendidos são ou não os mais adequados. Se
o eudemonismo fala em felicidade, se o utilitarismo e a economia falam em
utilidade, devemos interpretar estes termos subjetivamente, como sendo aquilo
que o agente homem procura obter porque, a seu juízo, considera desejável. É
neste formalismo que consiste o progresso do significado moderno do
eudemonismo, do hedonismo e do utilitarismo, contrapondo-se ao seu antigo
significado materialista, bem como o progresso da moderna teoria subjetivista de
valor, que contrasta com a teoria objetivista de valor como é interpretada pela
economia política clássica. Ao mesmo tempo, é neste subjetivismo que se assenta
a objetividade da nossa ciência. Por ser subjetivista e considerar os julgamentos de
valor do agente homem como dados irredutíveis não passíveis de qualquer outro
exame crítico, coloca-se acima de disputas de partidos e facções, é indiferente aos
conflitos de todas as escolas de dogmatismo ou doutrinas éticas, é livre de
valorações e de ideias ou julgamentos preconcebidos, é universalmente válida e
absoluta e simplesmente humana.
5. Causalidade como um requisito da ação
O homem tem condições de agir porque tem a capacidade de descobrir relações
causais que determinam mudanças e transformações no universo. Ação requer e
pressupõe a existência da causalidade. Só pode agir o homem que percebe o
mundo à luz da causalidade. Neste sentido é que podemos dizer que a causalidade
é um requisito da ação. A categoria, meios e fins pressupõe a categoria causa e
efeito. Num mundo sem causalidade e sem a regularidade dos fenômenos, não
haveria campo para o raciocínio humano nem para a ação humana. Um mundo
assim seria um caos no qual o homem estaria perdido e não encontraria orientação
ou guia. O homem nem é capaz de imaginar um universo caótico de tal ordem.
O homem não pode agir onde não percebe nenhuma relação causal. A recíproca
desta afirmativa não é verdadeira. Mesmo quando conhece a relação causal, o
homem também pode deixar de agir, se não tiver condições de influenciar a causa.
O arquétipo da pesquisa da causalidade era: onde e como devo interferir de
forma a mudar o curso dos acontecimentos, do caminho que eles seguiriam na
ausência da minha interferência, para uma direção que melhor satisfaça meus
desejos? Neste sentido, o homem levanta a questão: quem ou o que está na
origem das coisas? Ele procura a regularidade ou a “lei”, porque quer interferir. Só
mais tarde é que esta procura foi mais extensivamente interpretada pela metafísica
como uma procura da causa final da vida e da existência. Foram necessários
séculos para fazer retornar ideias extravagantes e exageradas à questão bem mais
modesta: de que modo alguém deve interferir ou deveria ser capaz de interferir
para conseguir atingir este ou aquele fim.
O tratamento dado ao problema da causalidade nas últimas décadas foi bastante
insatisfatório, graças à confusão provocada por alguns físicos eminentes.
Esperemos que este desagradável capítulo da história da filosofia seja uma
advertência para futuros filósofos.
Existem mudanças cujas causas são desconhecidas para nós, pelo menos no
momento atual. Algumas vezes conseguimos adquirir um conhecimento parcial que
nos permite afirmar: em 70% de todos os casos, resulta A em B; nos casos
remanescentes, resulta em C, ou mesmo em D, E, F e assim por diante. A fim de
substituir esta informação fragmentada por informação mais precisa, seria
necessário decompor A em seus componentes. Enquanto isto não for conseguido,
temos de aquiescer com o que é conhecido como lei estatística. Mas isso não afeta
o significado praxeológico da causalidade. Ignorância total ou parcial em algumas
áreas não elimina a categoria da causalidade.
Os problemas filosóficos, epistemológicos e metafísicos da causalidade e da
indução imperfeita estão fora do escopo da praxeologia. Devemos simplesmente
estabelecer o fato de que, para poder agir, o homem precisa conhecer a relação
causal entre eventos, processos ou situações. E, somente se conhecer essa relação,
sua ação pode atingir os objetivos pretendidos. Temos consciência de que ao fazer
esta afirmativa, estamo-nos movendo num círculo. Porque a evidência de que
percebemos corretamente uma relação causal só é estabelecida quando a ação
guiada por este conhecimento conduz ao resultado esperado. Mas não podemos
evitar este círculo vicioso precisamente porque a causalidade é um requisito da
ação. E por ser um requisito, a praxeologia não pode deixar de dedicar alguma
atenção a esse problema fundamental da filosofia.
6. O alter ego
Se estivermos preparados para utilizar o termo causalidade no seu lato sensu, a
teleologia pode ser denominada uma espécie de investigação das causas. Causas
finais são, antes de tudo, causas. A causa de um evento é entendida como uma
ação ou quase ação que procura atingir algum fim.
Tanto o homem primitivo como a criança, numa ingênua atitude antropomórfica,
considera bastante plausível que toda mudança ou evento seja o resultado da ação
de um ser agindo da mesma maneira que eles. Acreditam que animais, plantas,
montanhas, rios e fontes, e até mesmo pedras e corpos celestes são, como eles,
seres que agem, sentem e têm propósitos. Somente num estágio mais avançado
do desenvolvimento cultural é que o homem renuncia a essas ideias animistas e as
substitui por uma visão mecanicista do mundo. O mecanicismo se revela um
principio de conduta tão satisfatório que as pessoas acabam por acreditá-lo, capaz
de resolver todos os problemas do pensamento e da pesquisa cientifica. O
materialismo e o panfisicalismo proclamam o mecanicismo como a essência de
todo conhecimento e os métodos experimentais e matemáticos das ciências
naturais como a única forma científica de pensamento. Todas as mudanças devem
ser compreendidas como movimentos sujeitos às leis da mecânica.
Os defensores do mecanicismo não se preocupam com os problemas ainda não
resolvidos da base lógica e epistemológica dos princípios da causalidade e da
indução amplificante. Para eles, esses princípios são corretos porque funcionam. O
fato de que experiências em laboratório conseguem obter os resultados previstos
pelas teorias e de que nas fábricas as máquinas funcionam da maneira prevista
pela tecnologia prova – assim dizem eles – a confiabilidade dos métodos e
conclusões da ciência natural moderna. Sendo certo que a ciência não nos pode dar
a verdade – e quem sabe realmente o que é a verdade? —, não se pode negar que
ela consegue conduzir-nos ao sucesso.
Mas justamente quando aceitamos este ponto de vista pragmático é que o vazio
do dogma panfisicalista se toma manifesto. A ciência, como já foi assinalada acima,
não conseguiu resolver os problemas da relação mente/corpo. Os panfisicalistas
certamente, não podem sustentar que os procedimentos que recomendam tenham,
em algum momento, solucionado os problemas das relações inter-humanas e das
ciências sociais. No entanto, é fora de dúvida que o princípio segundo o qual um
ego lida com todo ser humano como se fosse um ser que pensa e age como ele
mesmo já evidencia sua utilidade tanto no dia a dia como na pesquisa científica.
Não se pode negar que este princípio é correto.
É fora de dúvida que a prática de considerar os semelhantes como seres que
pensam e agem como eu, o ego, tem dado certo; por outro lado, parece ser
impossível fazer uma verificação prática equivalente para um postulado que
determine que os seres devam ser tratados da mesma maneira que os objetos das
ciências naturais. Os problemas epistemológicos que são suscitados pela
compreensão do comportamento de outras pessoas não são menos complicados do
que os suscitados pela causalidade e pela indução amplificante. Pode-se admitir
que fosse impossível apresentar evidência conclusiva para a proposição de que a
minha lógica é a lógica de todas as outras pessoas e, certamente, a única lógica
humana; que as categorias da minha ação são as categorias da ação de todas as
pessoas e, certamente, também as categorias de toda ação humana. Não obstante,
o pragmático deve lembrar-se de que essas proposições funcionam tanto na prática
como na ciência, e o positivista não deve esquecer que, ao dirigir-se a seus
semelhantes, pressupõe – tácita e implicitamente – a validade intersubjetiva da
lógica e, portanto, a realidade da existência do pensamento e ação do alter ego e
de seu caráter eminentemente humano.14
Pensar e agir são características próprias do homem. São privilégios exclusivos de
todos os seres humanos. Caracterizam o homem, independentemente de sua
qualidade de membro da espécie zoológica, mesmo como homo sapiens. Não é
propósito de a praxeologia investigar a relação entre pensar e agir. Para a
praxeologia, é suficiente estabelecer o fato de que há somente um modo de ação
que é humano e que é compreensível para a mente humana. Se existem, ou
podem existir, em algum lugar, outros seres – super-humanos ou subumanos – que
pensam e agem de maneira diferente, é algo que está fora do alcance da mente
humana. Devemos restringir nossos esforços ao estudo da ação humana.
Esta ação humana, inextricavelmente ligada ao pensamento humano, está
condicionada pela necessidade da lógica. É impossível à mente humana conceber
relações lógicas diferentes da sua estruturação lógica. É impossível à mente
humana conceber um modo de ação cujas categorias sejam diferentes das
categorias que determinam suas próprias ações.
O homem só dispõe de dois princípios para apreensão mental da realidade: a
teleologia e a causalidade. O que não puder ser colocado em qualquer destas duas
categorias é inacessível à mente humana. Um evento que não possa ser
interpretado por um desses dois princípios é, para o homem, inconcebível e
misterioso. Uma mudança pode ser concebida como consequência de uma
causalidade mecanicista ou de um comportamento propositado; para a mente
humana, não há outra hipótese disponível.15 Na realidade, como já foi
mencionado, a teleologia pode ser considerada uma espécie de causalidade. Mas
assinalar este fato não anula as diferenças essenciais entre essas duas categorias.
A visão pan-mecanicista do mundo está comprometida com um monismo
metodológico; admite apenas a causalidade mecanicista porque lhe atribui todo
valor cognitivo ou, pelo menos, um valor cognitivo maior do que a teleologia. Isto é
uma superstição metafísica. Ambos os princípios da cognição – causalidade e
teleologia – são, por força das imitações da razão humana, imperfeitos e não
implicam conhecimento definitivo. A causalidade nos leva a um regressus in
infiniturn16 que a razão nunca consegue exaurir. A teleologia quer saber, tão logo
se coloca a questão, qual é a fonte da energia primeira. Os dois métodos logo
esbarram num dado irredutível que não pode ser analisado ou interpretado. O
raciocínio e a investigação científica nunca podem proporcionar uma completa
tranquilidade de espírito, uma certeza apodítica ou uma cognição perfeita de todas
as coisas. Quem pretende isso tem de recorrer à fé e tentar acalmar sua
consciência adotando um credo ou uma doutrina metafísica.
Se não transcendermos o uso da razão e a experiência, temos de admitir que
nossos semelhantes agem. Não podemos negar este fato em favor de um
preconceito ou de uma opinião arbitrária. A experiência do dia a dia não prova
apenas que o único método adequado para estudar as condições do nosso meio
ambiente não é o fornecido pela categoria da causalidade; prova ainda,
convincentemente, que nossos semelhantes são seres agentes, como nós também
o somos. O único processo viável para interpretação e análise da ação humana é o
proporcionado pela compreensão e análise do nosso próprio comportamento
propositado.
O problema do estudo e análise da ação das outras pessoas não está de forma
alguma ligado ao problema da existência de uma alma ou de uma alma imortal.
Enquanto as objeções do empirismo, behaviorismo e positivismo forem dirigidas
contra qualquer espécie de teoria da alma, não têm nenhum valor para a análise
do nosso problema. A questão que temos de enfrentar é a de saber se é possível
compreender intelectualmente a ação humana se nos recusarmos a compreendê-la
como comportamento propositado, que procura atingir determinados fins. O
behaviorismo e o positivismo querem aplicar à realidade da ação humana os
métodos empíricos das ciências naturais. Interpretam a ação como uma resposta
aos estímulos. Mas esses estímulos, em si mesmos, não são passíveis de descrição
pelos métodos das ciências naturais. Qualquer tentativa de descrevê-los tem de se
referir ao significado que o agente homem lhes dá. Podemos chamar de estímulo a
oferta de uma mercadoria à venda. Mas o que é essencial nesta oferta e a
distingue de outras ofertas não pode ser explicado sem que se considere o
significado que os agentes atribuem a essa situação. Não há artifício dialético que
possa negar o fato de que o homem é movido pelo desejo de atingir determinados
fins. É este comportamento propositado – ação – que é o objeto de nossa ciência.
Não podemos abordá-lo, se negligenciarmos o significado que o agente homem
associa a uma situação, ou seja, a uma dada conjuntura, e ao seu próprio
comportamento diante da mesma.
Não é apropriado ao físico buscar causas finais, porque não há indicação de que
os eventos que são o objeto do estudo da física possam ser interpretados como o
resultado da ação de um ser que quer atingir fins a maneira humana. Tampouco é
apropriado ao praxeologista desconsiderar a existência da vontade e da intenção
dos seres agentes; são fatos inquestionáveis. Quem desconsiderá-los não estará
mais estudando a ação humana. Algumas vezes – mas não sempre – os eventos
em questão podem ser investigados tanto pelo ângulo da praxeologia como pelo
ângulo das ciências naturais. Mas quem lida com a descarga de uma arma de fogo,
sob o ângulo da física ou da química, não é um praxeologista. Negligencia o próprio
problema que a ciência do comportamento propositado do homem procura
esclarecer.
Sobre a utilidade dos instintos
A prova do fato de que só existem duas vias para a pesquisa humana –
causalidade ou teleologia – é fornecida pelos problemas relacionados com a
utilidade dos instintos. Existem tipos de comportamento que, por um lado, não
podem ser interpretados pelos métodos das ciências naturais e, por outro lado, não
podem ser considerados como ação humana propositada. Para compreender esses
tipos de comportamento, temos de recorrer a um artifício. Atribuímos-lhes o caráter
de uma quase ação; estamo-nos referindo aos instintos úteis.
Destacamos duas observações: primeira, a tendência, inerente a um organismo
vivo, de responder a um estímulo, de acordo com um mesmo padrão; segunda, os
efeitos favoráveis deste tipo de comportamento para o fortalecimento ou a
preservação das forças vitais do organismo. Se pudéssemos interpretar tal
comportamento como o resultado de ação propositada visando a determinados
fins, poderíamos qualificá-lo como ação e lidar com ele de acordo com os métodos
teleológicos da praxeologia. Mas como não encontramos nenhum vestígio de uma
mente consciente por trás desse comportamento, supomos que um fator
desconhecido – chamamo-lo instinto – o provocou. Dizemos que o instinto dirige
este quase propositado comportamento animal, bem como, as respostas úteis,
embora inconscientes, dos músculos e nervos do homem. Entretanto, o simples
fato de hipostasiar o elemento inexplicado desse comportamento como uma força e
chamá-lo de instinto, não aumenta nosso conhecimento. Não devemos esquecer
que apalavra instinto é apenas um marco divisório que indica um ponto além do
qual somos incapazes, pelo menos até o presente momento, de prosseguir com
nossa investigação.
A biologia conseguiu descobrir uma explicação “natural”, isto é, mecanicista, para
vários processos que anteriormente eram atribuídos ao funcionamento dos
instintos. Não obstante, muitos outros subsistem que não podem ser interpretados
como respostas mecânicas ou químicas a estímulos mecânicos ou químicos. Os
animais manifestam atitudes que não podem ser compreendidas, a não ser pela
suposição da existência de um fator atuante.
O intuito do behaviorismo de estudar a ação humana, exteriormente, com os
métodos da psicologia animal, é ilusório. Tão logo o comportamento animal vai
além dos simples processos fisiológicos, como a respiração e o metabolismo, só
pode ser investigado com a ajuda dos conceitos desenvolvidos pela praxeologia. O
behaviorista aborda o objeto de suas investigações com as noções humanas de
propósito e êxito. Aplica inadvertidamente ao objeto de seus estudos os conceitos
humanos de utilidade e perniciosidade. Ilude-se ao excluir qualquer referência
verbal à consciência e à busca de objetivos. Na verdade, sua mente procura por
objetivos em toda parte e mede cada atitude com o gabarito de uma noção
deturpada de utilidade. A ciência do comportamento humano – a não ser a
fisiologia – não pode deixar de se referir a significado e propósito. Não pode
aprender nada da psicologia animal nem da observação das reações inconscientes
de crianças recém-nascidas. Ao contrário, é a psicologia animal e a psicologia
infantil que não podem rejeitar a ajuda proporcionada pela ciência da ação
humana. Sem as categorias praxeológicas, não teríamos condições de conceber e
compreender o comportamento tanto de animais como de crianças.
A observação do comportamento instintivo de animais enche o homem de
espanto e levanta questões às quais ninguém pode responder satisfatoriamente.
No entanto, o fato de animais e até mesmo plantas reagirem de uma maneira
quase propositada não é mais nem menos milagroso do que a capacidade do
homem para pensar e agir, do que o fato de prevalecerem, no universo inorgânico,
as correspondências funcionais descritas pela física, ou do que o fato de ocorrerem
processos biológicos no universo orgânico. Tudo isso é milagroso no sentido de que
é um dado irredutível para a nossa mente perscrutadora.
O que chamamos instinto é também um dado irredutível. Como os conceitos de
movimento, força, vida, consciência, o conceito de instinto também é,
simplesmente, um termo para designar um dado básico. Com toda certeza, não
“explica” nada nem indica uma causa ou uma causa final.17
O objetivo absoluto
Para evitar qualquer possível mal-entendido quanto às categorias praxeológicas,
parece ser necessário enfatizar um truísmo.
A praxeologia, como as ciências históricas da razão humana, lida com a ação
propositada do homem. Se mencionar fins, o que tem em vista são os fins que o
agente homem procura atingir. Falar de significado, referir-se ao significado que o
agente homem atribui às suas ações.
A praxeologia e a história são manifestações da mente humana e, como tal, estão
condicionadas pela aptidão intelectual dos homens mortais. A praxeologia e a
história não pretendem saber nada sobre as intenções de uma mente superior e
objetiva, sobre um significado objetivo inerente ao curso dos acontecimentos e a
evolução histórica; nem sobre os planos que Deus ou a Natureza ou Weltgeist ou o
Destino está tentando realizar ao dirigir o universo e os negócios humanos. Não
têm nada em comum com o que se chama de filosofia da história. Não pretendem
revelar informações sobre o verdadeiro, objetivo e absoluto significado da vida e da
história, como pretendem fazê-lo Hegel, Comte, Marx e muitos outros autores.18
O homem vegetativo
Algumas filosofias aconselham o homem a buscar como objetivo final de sua
conduta a renúncia completa a qualquer ação. Encaram a vida como um mal, cheia
de dor, sofrimento e angústia, e apoditicamente negam que qualquer esforço
humano possa tomá-la tolerável. A felicidade só pode ser alcançada pela completa
extinção da consciência, da vontade e da vida. A única maneira de alcançar a glória
e a salvação é tornar-se perfeitamente passivo, indiferente, inerte como as plantas.
O bem supremo é o abandono do pensamento e da ação.
Esta é a essência dos ensinamentos de várias filosofias indianas, especialmente
do budismo, e de Schopenhauer. A praxeologia não tem nada a comentar sobre
elas. É neutra em relação a todos os julgamentos de valor e à escolha de objetivos
finais. Sua tarefa não é a de aprovar ou desaprovar, mas a de descrever o que é.
O objeto do estudo da praxeologia é a ação humana. Lida com o homem e não
com o homem transformado numa planta e reduzido numa existência meramente
vegetativa.
Rodapé
6 A expressão acting man é frequente em toda esta obra de Ludwig von Mises. Por
seu poder de síntese – que facilita a sintaxe sem trair a semântica – preferimos
traduzi-la literalmente por “agente homem”, em vez de utilizar as formas “homem
em ação” ou “homem que age” como fizeram as traduções francesa e espanhola
(N.T.)
7 Cf Locke, J. An Essay Concerning Human Understanding, Oxford, Fraser, 1894,
vol. 1, p. 331-333; Leibniz, Nouveaux essais sur l’entendement humain, Fammarion,
p. 119.
8 Cf. Feuerbach , Saammtliche Werke Stuttgart, Bolin and Jodo, 1907, vol. 10, p.
231.
9 Cf. William McDougall, An Introduction to Social Psychology, 14 ed. Boston, 1921,
p. 11.
10 Cf. Mises, Epistemological Problems of Economics. Trad. G. Reisman (New York,
1960), p. 52 e segs.
11 >Nestes casos, tem especial importância a circunstância de que as duas
satisfações em questão – aquela esperada se cedermos e aquela que teríamos se
evitássemos suas consequências desagradáveis – não são simultâneos. Ver adiante
p. 485 – 496.
12 Sobre os erros na lei de ferro dos salários veja adiante p. 688; sobre o mal
entendido acerca da teoria de Malthus, ver adiante p. 760-765.
13 Veremos mais adiante (p. 77-78) como as ciências sociais empíricas lidam com
o dado irredutível.
14 Cf. Alfred Schütz, Der sinnhafte Aufbau der sozialen Welt .Viena. 1932), p. 18.
15 Cf. Karel Englis, Begründung der Teleologie als Form des empirischen Erkennens
.Brünn, 1930, p. 15 e segs.
16 Processo de procurar indefinitivamente em cada situação à etapa precedente.
(N.T.)
17 “La vie est une cause premiere qui nous échappe comme toutes les causes
premiéres et dont la science expérimentale n’a pas à se préoccuper.” Claude
Bernard, Law science expérimentale (Paris, 1878), p. 137.
18 Sobre filosofia de a história ver Mises, Theory and History, New Haven, 1957, p.
159 e segs.
CAPÍTULO 2
Os Problemas Epistemológicos da
Ciência da Ação Humana
1. Praxeologia e história
Existem dois ramos principais das ciências da ação humana: a praxeologia e a
história.
História é o conjunto e a arrumação sistemática de todos os dados relativos à
experiência da ação humana. Lida com o conteúdo concreto da ação humana.
Estuda todos os esforços humanos na sua infinita variedade e multiplicidade, e
todas as ações individuais com todas as suas implicações acidentais, especiais ou
particulares. Examina as ideias que guiam o agente homem e o resultado de suas
ações. Abrange todos os aspectos das atividades humanas. É, por um lado, história
geral e, por outro, a história de vários segmentos mais específicos. Existe a história
da ação política e militar, das ideias e da filosofia, das atividades econômicas, da
tecnologia, da literatura, arte e ciência, da religião, dos hábitos e costumes e de
muitos outros aspectos da vida humana. Há também a etnologia e a antropologia,
desde que não seja uma parte da biologia, e há ainda a psicologia enquanto não
seja fisiologia, nem epistemologia, nem filosofia. Existe ainda a linguística,
enquanto não seja lógica nem fisiologia do idioma.19
O tema de todas as ciências históricas é o passado. Elas não nos podem ensinar
algo que seja aplicável a todas as ações humanas, ou seja, aplicável também ao
futuro. O estudo da história torna um homem sábio e judicioso. Mas não
proporciona conhecimento e habilidade que possam ser utilizados na execução de
tarefas concretas.
As ciências naturais também lidam com eventos passados. Toda experiência é
uma experiência de algo que já se passou; não há experiência de acontecimentos
futuros. Mas a experiência à qual as ciências naturais devem todo seu sucesso é
aquela em que os elementos específicos que sofrem alteração podem ser
observados isoladamente. As informações assim acumuladas podem ser usadas
para indução, um processo peculiar de inferência que já deu evidência pragmática
de sua utilidade, embora ainda necessite de uma satisfatória caracterização
epistemológica.
A experiência com a qual as ciências da ação humana têm de lidar é sempre uma
experiência de fenômenos complexos. No que diz respeito à ação humana, não se
pode realizar experiência em laboratório. Nunca temos condição de observar a
mudança em um elemento isolado, mantendo-se todos os demais inalterados. A
experiência histórica, na condição da experiência de fenômenos complexos, não
nos fornece fatos, no sentido com que as ciências naturais empregam este termo,
para designar eventos isolados testados em experiências. A informação
proporcionada pela experiência histórica não pode ser usada como material para a
construção de teorias ou para previsão de eventos futuros. Toda experiência
histórica está aberta a várias interpretações e de fato, é interpretada de diversas
maneiras.
Os postulados do positivismo e escolas metafísicas congêneres são, portanto,
ilusórios. É impossível reformar as ciências da ação humana obedecendo a padrões
da física ou de outras ciências naturais. Não há possibilidade de estabelecer a
posteriori uma teoria de conduta humana e dos eventos sociais. A história não
pode provar nem refutar qualquer afirmação de caráter geral, da mesma maneira
que as ciências naturais aceitam ou rejeitam uma hipótese, com base em
experiências de laboratório. Neste campo, não é possível provar por experiências
que uma hipótese seja falsa ou verdadeira.
Os fenômenos complexos para cuja existência contribuem diversas causas não
nos permitem afirmar que uma teoria esteja certa ou errada. Pelo contrário, esses
fenômenos só se tornam inteligíveis através da interpretação que lhes é dada com
base em teorias já existentes e que foram desenvolvidas a partir de outras fontes.
No caso dos fenômenos naturais, a interpretação de um evento não pode contrariar
teorias já satisfatoriamente testadas por experiências. No caso de eventos
históricos, não há tal restrição. Os analistas desses eventos estão livres para
recorrer a interpretações bastante arbitrárias. Onde existe algo a ser explicado, a
mente humana sempre conseguiu inventar ad hoc alguma teoria imaginária,
desprovida de qualquer justificação lógica.
No campo da história, é a praxeologia que proporciona uma limitação semelhante
à representada pela experimentação no caso das teorias que tentam interpretar e
elucidar eventos físicos, químicos ou fisiológicos. A praxeologia não é uma ciência
histórica, mas uma ciência teórica e sistemática. Seu escopo é a ação humana
como tal. Independentemente de quaisquer circunstâncias ambientais, acidentais
ou individuais que possam influir nas ações efetivamente realizadas. Sua percepção
é meramente formal e geral, e não se refere ao conteúdo material nem às
características peculiares de cada ação. Seu objetivo é o conhecimento válido para
todas as situações onde as condições correspondam exatamente àquelas indicadas
nas suas hipóteses e inferências. Suas afirmativas e proposições não derivam da
experiência. São como a lógica e a matemática. Não estão sujeitas a verificação
com base na experiência e nos fatos. São tanto lógica como temporalmente
anteriores a qualquer compreensão de fatos históricos. É um requisito necessário
para qualquer percepção intelectual de eventos históricos. Sem sua ajuda, nossa
percepção do curso dos eventos históricos ficaria reduzida ao registro de mudanças
caleidoscópicas ou de uma desordem caótica.
2. O caráter formal e apriorístico da praxeologia
É moda na filosofia contemporânea a tendência de negar a existência de qualquer
conhecimento a priori. Todo conhecimento humano, afirmam, deriva da
experiência. Esta atitude pode ser facilmente compreendida como reação excessiva
contra as extravagâncias da teologia ou contra filosofias espúrias da história e da
natureza. Os metafísicos estavam ansiosos para descobrir, de modo intuitivo, os
preceitos morais, o significado da evolução histórica, as propriedades da alma e da
matéria e as leis que governam eventos físicos, químicos e fisiológicos. Suas
especulações etéreas manifestavam uma alegre indiferença por conhecimentos
corriqueiros. Estavam convencidos de que a razão poderia explicar todas as coisas
e responder a todas as questões, sem recorrer à experiência.
As ciências naturais modernas devem seu sucesso ao método de observação e
experimentação. Não há duvida de que o empirismo e o pragmatismo estão certos,
na medida em que simplesmente descrevem os processos das ciências naturais.
Mas também é certo que estão inteiramente errados ao pretender rejeitar qualquer
tipo de conhecimento a priori e considerar a lógica, a matemática e a praxeologia
como disciplinas empíricas e experimentais ou como meras tautologias.
No que diz respeito à praxeologia os erros dos filósofos se devem a sua completa
ignorância em economia20 e, frequentemente, à sua indecorosa insuficiência de
conhecimentos de história. Aos olhos do filósofo, o tratamento de temas filosóficos
têm uma vocação nobre e sublime que não deve ser colocada no mesmo baixo
nível de outras ocupações lucrativas. O professor ressente o fato de que ele obtém
um rendimento com a filosofia; ele se ofende com a ideia de que ganha dinheiro da
mesma maneira que um artesão ou um lavrador. Assuntos pecuniários são coisas
desprezíveis, e o filósofo, investigando os transcendentes problemas da verdade e
dos valores absolutos eternos, não deveria conspurcar sua mente, dando atenção a
assuntos de economia.
O problema de saber se existem ou não elementos de pensamento a priori – isto
é, condições intelectuais de pensamento, necessárias e inevitáveis, anteriores a
qualquer momento real de concepção e experiência – não deve ser confundido com
o problema genético de como o homem adquiriu sua capacidade mental,
caracteristicamente humana. O homem é descendente de ancestrais não humanos
que não tinham essa capacidade. Esses ancestrais estavam dotados de alguma
potencialidade que, no curso dos séculos de evolução, os transformou em seres
dotados de razão. Essa transformação foi conseguida pela influência do meio
cósmico atuando sobre sucessivas gerações. Resulta daí a conclusão dos partidários
do empirismo filosófico: o raciocínio é fruto da experiência e representa uma
adaptação do homem as condições do seu meio ambiente.
Essa ideia, quando coerentemente adotada, nos leva à conclusão de que teriam
existido entre nossos ancestrais pré-humanos vários estágios intermediários.
Teriam existido seres que, embora ainda não equipados com a faculdade da razão,
estariam dotados com alguns elementos rudimentares de raciocínio. Não tinham
ainda uma mente lógica, mas uma mente pré-lógica (ou de uma lógica bastante
imperfeita). Suas funções lógicas desconexas e defeituosas evoluíram passo a
passo do estado pré-lógico até o estado lógico. A razão, a inteligência e a lógica
são, portanto, fenômenos históricos. Há uma história da lógica como existe a
história das diferentes técnicas. Nada sugere que a lógica, como a conhecemos,
seja o último estágio, o estágio final da evolução intelectual. A lógica humana é
uma fase histórica entre a ausência de lógica pré-humana por um lado e a lógica
sobre-humana por outro. A razão e a mente – os equipamentos mais eficientes de
que são dotados os seres humanos na sua luta pela sobrevivência – fazem parte do
contínuo fluxo de eventos zoológicos. Não são eternos nem imutáveis. São
transitórios.
Além disso, não há dúvida de que todo ser humano repete na sua evolução
pessoal não apenas a metamorfose fisiológica de uma simples célula em um
organismo mamífero de grande complexidade, mas, também, a metamorfose
espiritual de uma existência meramente vegetativa e animal em uma mente
dotada de razão. Esta transformação não se completa na vida pré-natal do embrião
e sim mais tarde, quando a criança recém-nascida, passo a passo, desperta para a
consciência humana. Portanto, todo homem na sua primeira infância, começando
das profundezas da escuridão, evolui por vários estágios de estrutura lógica da
mente.
Há também o caso dos animais. Estamos inteiramente a par do abismo
intransponível que separa a nossa razão dos processos reativos do cérebro e dos
nervos dos animais. Mas, ao mesmo tempo, podemos imaginar as forças que neles
se debatem, tentando encontrar a luz da compreensão. Os animais são como
prisioneiros ansiosos para se libertarem da condenação à escuridão eterna e ao
inevitável automatismo. Solidarizamo-nos com eles porque nós mesmos estamos
numa posição semelhante: lutamos, em vão, para romper as limitações de nosso
aparato intelectual, empenhando-nos inutilmente em conseguir obter inatingível
cognição perfeita.
Porém, o problema do a priori é de outra espécie. Não lida com o problema de
saber como a razão e a consciência surgiram. Refere-se à característica necessária
e essencial da estrutura lógica da mente humana.
As relações lógicas fundamentais não estão sujeitas a prova ou refutação.
Qualquer tentativa de prová-las tem que pressupor sua validade. É impossível
explicá-las a um ser que já não as possua, por conta própria. Os esforços para
defini-las, de acordo com as regras de uma definição, inevitavelmente fracassam.
São proposições básicas que antecedem qualquer definição real ou nominal. São
categorias finais, impossíveis de serem analisadas. A mente humana é
absolutamente incapaz de imaginar outras categorias lógicas diferentes das suas.
Para o homem, suas relações lógicas são imprescindíveis e inevitáveis, qualquer
que seja a forma que possam assumir no caso de seres sobre-humanos. É o prérequisito indispensável da percepção e da experiência.
É também um pré-requisito indispensável da memória. Há uma tendência, nas
ciências naturais, em descrever a memória como um caso particular de um
fenômeno mais geral. Todo organismo vivo conserva os efeitos de um estímulo
anterior; o estado atual da matéria inorgânica é consequência de todos os efeitos
que sobre ela atuaram no passado. O estado atual do universo é o produto de seu
passado. Podemos, portanto, num sentido metafórico livre, dizer que a estrutura
geológica do nosso planeta conserva a memória de mudanças cósmicas anteriores,
e que o organismo de um homem é a sedimentação das fatalidades e vicissitudes,
suas e de seus ancestrais. Mas memória é algo inteiramente diferente do fato de
haver uma unidade estrutural e uma continuidade da evolução cósmica. É um
fenômeno de consciência e, como tal, condicionado a priori pela lógica. Psicólogos
ficam intrigados com o fato de que o homem não se lembre de nada do tempo em
que era um embrião ou uma criança de colo. Freud tenta explicar esta falta de
lembrança como produzida pela supressão de reminiscências desagradáveis. Na
realidade, não há nada a ser lembrado de estágios inconscientes. O automatismo
animal e as respostas inconscientes e estímulos fisiológicos não são elementos
para lembrança, nem por embriões ou criancinhas, nem por adultos. Somente
situações conscientes podem ser lembradas.
A mente humana não é uma tábula rasa na qual os eventos externos registram
sua própria história. Está equipada com o ferramental necessário para compreender
a realidade. O homem adquiriu esse ferramental, isto é, a estrutura lógica de sua
mente, ao longo de sua evolução de uma ameba até o estado atual. Mas as
ferramentas são anteriores a qualquer experiência.
O homem não é apenas um animal totalmente sujeito aos estímulos inevitáveis
que determinam as circunstâncias de sua vida. É também um ser agente. E a
categoria ação é logicamente antecedente a qualquer ato concreto. O fato de que o
homem não tenha o poder criativo para imaginar categorias diferentes das suas
relações lógicas fundamentais nem dos princípios de causalidade e teologia nos
impõe o que pode ser chamado de apriorismo metodológico.21
Qualquer pessoa no seu dia a dia frequentemente é testemunha da imutabilidade
e da universalidade das categorias do pensamento e da ação. Quem se dirige aos
seus semelhantes, querendo informá-los ou convencê-los, perguntando e
respondendo, só pode assim proceder porque está dotado de algo comum a todos
os homens: a estrutura lógica da razão humana. A ideia de que A possa ser ao
mesmo tempo anti A, ou que preferir A e B possa ser a mesma coisa que preferir B
e A é simplesmente inconcebível e absurda para a mente humana. Não temos
condição de compreender qualquer tipo de pensamento pré-lógico ou metalógico.
Não podemos imaginar um mundo sem causalidade e teleologia.
Não interessa ao homem determinar se existem, além da esfera acessível à sua
inteligência, outras esferas nas quais haja algo categoricamente diferente do
pensamento e ação humanos. Nenhum conhecimento dessas outras esferas
penetra na mente humana. É inútil perguntar se as coisas, em si mesmas, são
diferentes de como as vemos, ou se existem mundos inacessíveis e ideias
impossíveis de serem compreendidas. Esses problemas estão além do alcance da
cognição humana. O conhecimento humano é condicionado pela estrutura da
mente humana. Se, como tema de investigação, se escolhe a ação humana, isto
significa que forçosamente iremos estudar as categorias da ação que são próprias à
mente humana e que são sua projeção no mundo exterior em evolução e mudança.
Todos os teoremas da praxeologia se referem sempre a essas categorias da ação e
são válidos apenas na órbita em que operam tais categorias. Assim sendo, não
contribuem com qualquer informação acerca de mundos e relações nunca sonhados
ou nunca imaginados.
Portanto, a praxeologia é duplamente humana. É humana porque reclama para os
seus teoremas validade universal em toda ação humana. É humana também
porque lida apenas com a ação humana e não pretende saber nada sobre ações
não humanas – sejam elas sub-humanas ou super-humanas.
A pretensa heterogeneidade lógica do homem primitivo
Constitui equívoco bastante generalizado supor que os escritos de Lucien LévyBruhl dão suporte à doutrina segundo a qual a estrutura lógica da mente do
homem primitivo era e continua a ser categoricamente diferente da do homem
civilizado. Ao contrário, o que Lévy-Bruhl demonstra sobre as funções mentais do
homem primitivo, com base num exame cuidadoso de todo material etnológico
disponível, evidencia claramente que os relances lógicos fundamentais e as
categorias do pensamento e da ação desempenham nas atividades intelectuais dos
selvagens o mesmo papel que desempenham na nossa própria vida. O conteúdo do
pensamento do homem primitivo difere do conteúdo do nosso pensamento, mas a
estrutura formal e lógica é comum a ambos.
É verdade que o próprio Lévy-Bruhl afirma que a mentalidade dos povos
primitivos é essencialmente “mística e pré-lógica; as representações coletivas do
homem primitivo são reguladas pela “lei da participação” e consequentemente são
indiferentes à lei da contradição. Entretanto, a distinção que Lévy-Bruhl faz entre
pensamento pré-lógico e lógico refere-se ao conteúdo e não à forma e à estrutura
categorial do pensamento. Ele mesmo declara que também entre as pessoas como
nós existem ideias e relações entre ideias comandadas pela “lei de participação”,
lado a lado com aquelas sujeitas à lei do raciocínio. “O pré-lógico e o místico são
coexistentes com o lógico”.22
Lévy-Bruhl relega os ensinamentos essenciais do cristianismo ao âmbito da mente
pré-lógica.23 Ora, podem-se apresentar, e têm sido apresentadas, muitas objeções
contra as doutrinas cristãs, e sua interpretação pela teologia. Mas ninguém se
atreveria a afirmar que os filósofos e precursores do cristianismo – entre eles Santo
Agostinho e Santo Tomás – tivessem uma mente cuja estrutura lógica fosse
categoricamente diferente da dos nossos contemporâneos. A disputa entre um
homem que acredita em milagres e outro que não acredita refere-se ao conteúdo
do pensamento e não à sua estrutura lógica. Alguém que tente demonstrar a
possibilidade da existência de milagres pode errar. Mas desmascarar seu erro –
como mostram os brilhantes ensaios de Hume e Mill – não é menos complicado do
que demonstrar o erro de qualquer falácia filosófica ou econômica.
Exploradores e missionários relatam que na África e na Polinésia o homem
primitivo se contém diante da primeira percepção que lhe causam os
acontecimentos e nunca raciocina se pode de alguma maneira, modificá-los.24
Educadores americanos e europeus, às vezes, relatam o mesmo de seus alunos.
Com relação aos Mossi, no Niger, Lévy-Bruhl cita a observação de um missionário:
“a conversa com eles gira em torno de mulheres, comida e, na época das chuvas,
colheitas”.25 Que outros assuntos preferem muitos dos contemporâneos e vizinhos
de Newton, Kant e Lévy-Bruhl?
A conclusão a se tirar dos estudos de Lévy-Bruhl pode ser mais bem expressa em
suas próprias palavras: “a mente primitiva, como a nossa, está ansiosa para
encontrar as causas dos acontecimentos, mas não as procura na mesma direção
em que nós o fazemos”.26
Um camponês ansioso por obter uma boa colheita pode – dependendo do
conteúdo de suas ideias – escolher vários métodos. Pode realizar algum ritual
mágico, pode partir numa peregrinação, pode acender uma vela ao seu santo
padroeiro ou pode empregar mais fertilizante e de melhor qualidade. Mas, qualquer
que seja a sua escolha, ela é sempre ação, isto é, o emprego de meios para atingir
fins. Mágica, num sentido mais amplo é uma variedade de tecnologia. Exorcismo é
uma ação deliberada, propositada, baseada numa visão de mundo que a maior
parte
dos
nossos
contemporâneos
condena
como
superstição
e,
consequentemente, como inadequada. Mas o conceito de ação não implica que a
mesma seja orientada por uma teoria correta e por uma tecnologia que garanta a
obtenção do objetivo pretendido. Implica apenas que o executante da ação
acredite que os meios aplicados produzirão o efeito desejado.
Nenhum ensinamento proporcionado pela etnologia ou pela história contradiz a
afirmação segundo a qual a estrutura lógica da mente é uniforme em todos os
homens, de todas as raças, idades e países.27
3. O apriorismo e a realidade
O raciocínio apriorístico é meramente conceitual e dedutivo. Não pode produzir
nada além de tautologias e raciocínios analíticos. Todas as suas implicações
derivam logicamente das premissas e nelas estão contidas. Decorre daí a objeção
frequentemente feita ao apriorismo, segundo a qual este modo de pensar não pode
acrescentar nada ao nosso conhecimento.
Todos os teoremas geométricos já estão contidos nos seus axiomas. O conceito
de um triângulo retângulo já contém o teorema de Pitágoras. Este teorema é uma
tautologia e sua dedução resulta num raciocínio analítico. Não obstante, ninguém
pretenderia afirmar que a geometria em geral e o teorema de Pitágoras em
particular não acrescentam nada ao nosso conhecimento. A cognição a partir de
raciocínio meramente dedutivo também é criativa e abre para a nossa mente
acesso a regiões antes inacessíveis. A tarefa mais importante do raciocínio
apriorístico é, por um lado, revelar tudo o que se pode inferir das categorias,
conceitos e premissas e, por outro, mostrar o que não se pode inferir. Sua função é
tornar claro e evidente o que antes era obscuro e desconhecido.28
No próprio conceito da moeda já está implícito todos os teoremas da teoria
monetária. A teoria quantitativa não acrescenta nada ao nosso conhecimento que
já não esteja virtualmente contido no conceito de moeda. Essa teoria não faz mais
do que transformar, desenvolver e revelar conhecimento; analisa apenas, sendo,
portanto tautológica como o teorema de Pitágoras em relação ao conceito de
triângulo retângulo. No entanto, ninguém negaria o valor cognitivo da teoria
quantitativa. Só poderá ignorá-la aquele que não estiver familiarizado com o
raciocínio econômico. Uma longa série de fracassos na solução de problemas, que
deveriam ter sido abordados sob a luz da teoria quantitativa, atesta bem que não
foi tarefa fácil atingir o presente estágio de conhecimento.
Não é deficiência do sistema o fato de a ciência apriorística não nos proporcionar
uma percepção total da realidade. Seus conceitos e teoremas são ferramentas
mentais que facilitam o acesso a uma melhor compreensão da realidade; é claro
que não é em si mesma a totalidade do conhecimento factual sobre todas as
coisas. A teoria, por um lado, e a compreensão da vida e da realidade instável por
outro, não estão em oposição. Sem a teoria, sem uma ciência apriorística da ação
humana, não é possível compreender a realidade da ação humana.
A correspondência entre conhecimento racional e experimental constitui, há muito
tempo, um dos problemas fundamentais da filosofia. Como para todos os outros
problemas da crítica do conhecimento, a abordagem dos filósofos refere-se apenas
às ciências naturais. Os filósofos ignoram as ciências da ação humana. Por isso,
suas contribuições não têm utilidade para a praxeologia.
Habitualmente, adota-se, no tratamento dos problemas epistemológicos da
economia, uma das soluções sugeridas para as ciências naturais. Alguns autores
recomendam o convencionalismo de Poincaré. 29 Há quem considere as premissas
do
raciocínio
econômico uma questão de linguística ou de postulados
convencionais.30 Outros preferem aceitar as ideias desenvolvidas por Einstein, que
levanta a seguinte questão: “como pode a matemática, um produto da razão
humana, que não depende de nenhuma experiência, corresponder tão
primorosamente à realidade? Seria a razão humana, sem ajuda da experiência,
através apenas do raciocínio, capaz de descobrir a essência das coisas reais?” E ele
mesmo responde: “na medida em que os teoremas de matemática referem-se à
realidade, não são exatos, e, na medida em que são exatos, não se referem à
realidade”.31
Ocorre, entretanto, que as ciências da ação humana são radicalmente diferentes
das ciências naturais. Todos os autores que pretendem estabelecer uma base
epistemológica das ciências da ação humana segundo o padrão das ciências
naturais erram lamentavelmente.
O verdadeiro tema da praxeologia, ação humana tem a mesma origem que o
raciocínio humano. Ação e razão são congêneres e homogêneas; podem até serem
considerados dois aspectos diferentes da mesma coisa. O poder que tem a razão
de esclarecer, através de simples raciocínio, as características essenciais da ação é
consequência do fato de que a ação é um produto da razão. Os teoremas que o
raciocínio praxeológico consegue adequadamente estabelecer são não apenas
impecavelmente verdadeiros e incontestáveis como os teoremas matemáticos.
Mais ainda, referem-se, com a plena rigidez de sua certeza apoditica e de sua
incontestabilidade. A realidade da ação como ela se apresenta na vida e na
história. A praxeologia transmite conhecimento exato e preciso das coisas reais.
O ponto de partida da praxeologia não consiste numa escolha de axiomas nem
numa decisão sobre métodos de investigação, mas na reflexão sobre a essência da
ação. Em qualquer ação as categorias praxeológicas se manifestam completa e
perfeitamente. Não há modo de ação imaginável no quais meios e fins ou custos e
benefícios não possam ser claramente distinguidos e precisamente separados. Não
existe nada que corresponda apenas aproximadamente ou incompletamente a
categoria econômica da troca. Existe apenas troca e não troca; e, no que diz
respeito a qualquer troca, todos os teoremas gerais relativos a trocas são válidos
com toda sua rigidez e com todas as suas implicações. Não existe uma transição
gradual de troca para não troca nem de troca direta para troca indireta. Jamais se
poderá realizar uma experiência que possa contradizer estas afirmativas.
Tal experiência seria desde logo impossível porque toda experiência relativa à
ação humana está condicionada pelas categorias praxeológicas e só pode ser
realizada mediante sua aplicação. Se não tivéssemos em nossas mentes os
esquemas lógicos estabelecidos pelo raciocínio praxeológico, nunca estaríamos em
condição de discernir e compreender qualquer ação. Perceberíamos os movimentos,
mas não o ato de comprar ou vender, nem tampouco preços, salários, juros e assim
por diante. Somente pela utilização dos esquemas praxeológicos é que nos
tornamos capazes de realizar a experiência de um ato de compra e venda: e o
fazemos independentemente dos nossos sentidos perceberem, concomitantemente,
quaisquer movimentos de homens ou coisas no mundo exterior. Sem a ajuda do
conhecimento praxeológico jamais aprenderíamos algo sobre meios de troca. Uma
moeda, sem esse conhecimento, seria apenas um disco de metal, nada mais. A
prática relativa ao uso de moeda só é possível graças à compreensão da categoria
praxeológica meio de troca.
A experiência relativa à ação humana difere da relativa aos fenômenos naturais
porque requer e pressupõe o conhecimento praxeológico. Por esta razão, os
métodos das ciências naturais são inadequados para o estudo da praxeologia, da
economia e da história.
Ao afirmar caráter apriorístico da praxeologia não estamos esboçando um plano
para uma futura nova ciência diferente das ciências tradicionais da ação humana.
Não estamos afirmando que a ciência teórica da ação humana deveria ser
apriorística, mas sim que é, e sempre foi, apriorística. Qualquer tentativa de refletir
sobre os problemas suscitados pela ação humana está necessariamente ligada ao
raciocínio apriorístico. Não faz nenhuma diferença neste particular se os homens,
ao discutirem um problema, são teóricos, buscando apenas o conhecimento puro,
ou estadistas, políticos e cidadãos comuns, ansiosos por compreender o que está
ocorrendo e por descobrir que tipo de política ou de conduta melhor serviria aos
seus próprios interesses. As pessoas podem começar uma discussão a partir do
significado de alguma experiência concreta, mas o debate inevitavelmente se
desvia dos aspectos acidentais e ambientais e encaminha-se para uma análise de
princípios fundamentais; imperceptivelmente abandonam-se os acontecimentos
factuais que haviam provocado a discussão. A história das ciências naturais é o
registro de teorias e hipóteses descartadas porque refutadas pela experiência.
Lembrem-se, por exemplo, das ideias erradas da velha mecânica, refutadas por
Galileu, ou o que ocorreu com a teoria flogística. Isto não ocorre na história da
economia. Os defensores de teorias logicamente incompatíveis indicam os mesmos
eventos como prova de que seu ponto de vista foi testado pela experiência. A
verdade é que a ocorrência de um fenômeno complexo – e no campo da ação
humana todas as ocorrências são fenômenos complexos – pode sempre ser
interpretado com base em várias teorias antitéticas. Esta interpretação será
considerada satisfatória ou insatisfatória, conforme seja nossa opinião acerca das
teorias em questão, estabelecida de antemão com base em raciocínio
apriorístico.32
A história não nos pode ensinar qualquer regra geral, princípio ou lei. Não há
meio de extrair de uma experiência histórica, a posteriori, qualquer teoria ou
teorema relativo à conduta humana ou às políticas. Os dados da história não
seriam nada além de uma tosca acumulação de ocorrências sem nexo, um monte
de confusão, se não pudessem ser esclarecidos, amimados e interpretados pelo
conhecimento praxeológico sistematizado.
4. O princípio do individualismo metodológico
A praxeologia lida com as ações individuais dos homens. Só mais tarde no curso
de suas investigações, é que consegue compreender a cooperação humana, e a
ação social é então considerada como um caso particular da categoria mais
universal da ação humana.
Este individualismo metodológico tem sido veementemente atacado por várias
escolas metafísicas e depreciado como uma falácia nominalista. A noção de um
individuo, dizemos críticos, é uma abstração vazia. O homem verdadeiro é,
necessariamente, sempre um membro de um conjunto social. É até mesmo
impossível imaginar a existência de um homem separado do resto da humanidade,
dissociado da sociedade. O homem como homem é o produto de uma evolução
social. Sua característica mais importante, a razão, só poderia surgir numa
estrutura de interdependência social. Não há pensamento que não dependa dos
conceitos e noções da linguagem. E a linguagem é manifestamente um fenômeno
social. O homem é sempre membro de uma coletividade. Como o conjunto é tanto
lógica como temporalmente anterior às suas partes ou membros, o estudo do
indivíduo é posterior ao estudo da sociedade. O único método adequado para o
tratamento científico dos problemas humanos é o método utilizado pelo
universalismo ou pelo coletivismo.
Ora, a controvérsia quanto à anterioridade do conjunto ou de seus componentes é
inútil. Logicamente as noções de um conjunto e suas partes são correlativas. Como
conceitos lógicos, ambos estão desvinculados do tempo.
Não menos inadequado em relação ao nosso problema é a referência ao
antagonismo entre realismo e nominalismo, ambos os termos sendo entendidos
com o sentido que lhes atribuíam o escolasticismo medieval. Não se contesta que,
na esfera da ação humana, as entidades sociais têm existência real. Ninguém se
atreveria a negar que nações estados, municipalidades, partidos, comunidades
religiosas são fatores reais determinantes do curso dos eventos humanos. O
individualismo metodológico longe de contestar o significado desses conjuntos
coletivos, considera como uma de suas principais tarefas descrever e analisar o seu
surgimento e o seu desaparecimento, as mudanças em suas estruturas e em seu
funcionamento. E escolhe o único método capaz de resolver este problema
satisfatoriamente. Inicialmente, devemos dar-nos conta de que todas as ações são
realizadas por indivíduos.
Um conjunto opera sempre por intermédio de um ou de alguns indivíduos cujas
ações estão relacionadas ao conjunto de forma secundária. É o significado que os
agentes individuais, e todos que são afetados pela sua ação, atribuem a uma ação
que determina o seu caráter. É o significado que distingue uma ação como ação de
um indivíduo e outra como ação do estado ou da municipalidade. É o carrasco, e
não o estado, que executa um criminoso. É o significado daqueles interessados na
execução que distingue, na ação do carrasco, uma ação do estado. Um grupo de
homens armados ocupa um local. É o significado daqueles envolvidos nesta
ocupação que a atribui não aos soldados e oficiais, mas à sua nação. Se
investigarmos o significado das várias ações executadas pelos indivíduos,
necessariamente aprenderemos tudo sobre as ações dos conjuntos coletivos.
Porque um coletivo social não tem existência e realidade fora das ações de seus
membros individuais. A vida de um coletivo é vivida nas ações dos indivíduos que
constituem o seu corpo. Não há coletivo social concebível que não seja operativo
pelas ações de alguns indivíduos. A realidade de um todo social consiste em seus
rumos e resoluções das ações especificas por parte dos indivíduos. Portanto, a
maneira de compreender conjuntos coletivos é através da análise das ações
individuais.Como ser agente e pensante, o homem já emerge de sua existência
pré-humana como um ser social. A evolução da razão, da linguagem e da
cooperação é o resultado de um mesmo processo; estes três elementos estão
inseparável e necessariamente ligados. Mas esse processo ocorreu nos indivíduos.
Consiste em mudanças no comportamento dos indivíduos.Não se dá a não ser nos
indivíduos. A essência da sociedade é a própria ação dos indivíduos.
Que existem nações, estados, igrejas, que existe cooperação social na divisão do
trabalho, é algo que só pode ser percebido pelas ações de alguns indivíduos.
Ninguém jamais percebeu uma nação sem perceber seus membros. Neste sentido,
podemos dizer que um coletivo social começa a existir através das ações de seus
indivíduos. Isto não significa que o indivíduo seja temporalmente antecedente.
Significa apenas que são as ações específicas dos indivíduos que constituem o
coletivo.
Não é necessário discutir se a sociedade é a soma resultante da adição de seus
elementos ou se, além disso, é um ser sui generis ou ainda, se é razoável ou não
falar de sua vontade, planos, desejos e ações e atribuir-lhe uma “alma” própria.
Essa discussão pedante é inútil. Um conjunto coletivo é um aspecto particular das
ações de vários indivíduos e, como tal, é algo verdadeiro que influencia o curso dos
eventos.
É ilusório acreditar que se podem visualizar conjuntos coletivos. Nunca são
visíveis; nossa percepção de um conjunto coletivo depende sempre dos significados
que lhe atribuímos. Podemos ver uma multidão, isto é, uma grande quantidade de
pessoas. Se essa multidão é um mero ajuntamento ou uma massa humana (no
sentido com que este termo é usado pela psicologia contemporânea), se é um
corpo organizado ou qualquer outra entidade social, é uma questão que só pode
ser respondida pela compreensão do significado que cada um atribui à sua
existência. E esse significado supõe sempre uma apreciação individual. É a nossa
compreensão, um processo mental, e não os nossos sentidos, que nos permite
perceber a existência de entidades sociais.
Quem pretende iniciar o estudo da ação humana a partir de entidades coletivas
esbarra num obstáculo insuperável, qual seja, o fato de que um indivíduo pode
pertencer ao mesmo tempo, e na realidade pertence – com exceção das tribos
mais primitivas —, a várias entidades coletivas. Os problemas suscitados pela
coexistência de um grande número de entidades sociais e seus antagonismos
recíprocos só podem ser resolvidos pelo individualismo metodológico33.
Eu e nós
O Ego é a unidade do ser agente. É um dado irredutível cuja existência não pode
ser negada ou decomposta por nenhum argumento ou sofisma.
O Nós é sempre o resultado de uma soma que junta dois ou mais Egos. Se
alguém diz Eu, nenhuma outra informação é necessária para estabelecer o seu
significado. O mesmo é válido com relação ao Tu e desde que a pessoa em questão
seja precisamente indicada, com relação ao Ele. Mas, se alguém diz Nós, é preciso
alguma informação adicional para indicar quais Egos estão compreendidos nesse
Nós. É sempre um simples individuo que diz Nós; mesmo que muitos indivíduos o
digam em coro, permanece sendo diversas manifestações individuais.
O Nós não pode agir de maneira diferente do modo como os indivíduos agem no
seu próprio interesse. Eles podem tanto agir juntos, em acordo como um deles
pode agir por todos. Neste último caso, a cooperação dos outros consiste em
propiciar uma situação que torna a ação de apenas um homem efetiva para todos.
Somente nesse sentido é que o representante de uma entidade social age pelo
todo; os membros individuais do corpo coletivo ou obrigam ou permitem que a
ação de uma só pessoa lhes seja também concernente.
As tentativas da psicologia para anular o Ego e desmascará-lo como uma ilusão,
são inúteis. O Ego praxeológico está além de qualquer dúvida. Pouco importa o que
um homem foi ou o que virá a ser; ao agir, e no próprio ato de escolher, ele é um
Ego.
Do pluralis logicus (e do meramente protocolar pluralis majestaticus) devemos
distinguir o pluralis gloriosus. Se um canadense, sem a menor noção de patinação
no gelo, proclama “nós somos os melhores jogadores de hóquei do mundo”, ou se
um campeão italiano orgulhosamente afirma “nós somos os mais notáveis pintores
do mundo”, ninguém se sentirá enganado. Mas, no que diz respeito aos problemas
políticos e econômicos, o pluralis gloriosus evolui para o pluralis imperialis e, como
tal, representa um papel significativo na propagação de doutrinas que influirão
significativamente na determinação de políticas econômicas internacionais.
5. O princípio do singularismo metodológico
A investigação praxeológica tem sua origem na ação individual – na ação de um
indivíduo. Não lida, de forma imprecisa, com a ação humana em geral, mas com
ação específica, concreta, que uma determinada pessoa realiza numa determinada
data e num determinado local. Evidentemente, não se interessa pelas
circunstâncias acidentais ou ambientais desta ação nem pelo que a distingue de
outras ações, mas apenas pelo que é necessário e universal na ação do homem.
A filosofia do universalismo, desde tempos imemoriais, bloqueou o acesso a uma
compreensão satisfatória dos problemas praxeológicos e, por isso mesmo, os
universalistas contemporâneos são inteiramente incapazes de encontrar a forma de
abordá-los. Universalismo34, coletivismo e realismo conceitual35 só sabem lidar
com conjuntos e universos. Especulam sobre o gênero humano, nações, estados,
classes, sobre vício e virtude, certo e errado, sobre conjuntos inteiros de
necessidades ou de mercadorias. Perguntam, por exemplo: por que o valor do
“ouro” é maior do que o do “ferro”? Assim sendo, nunca encontram soluções, mas
somente antinomias e paradoxos. O caso mais ilustrativo é o do paradoxo do valor
que frustrou até mesmo o trabalho dos economistas clássicos.
A praxeologia pergunta: o que acontece quando alguém age? O que significa dizer
que um indivíduo, aqui e agora, em qualquer tempo e em qualquer lugar, age? O
que resulta se ele escolhe uma coisa e rejeita outra?
O ato de escolher é sempre uma decisão entre várias oportunidades franqueadas
à sua escolha individual. O homem nunca escolhe entre vício e virtude, mas
somente entre dois modos de ação que consideramos do nosso ponto de vista,
virtuoso ou vicioso. O homem nunca escolhe entre “ouro” e “ferro” de forma
abstrata, mas sempre entre uma determinada quantidade de ouro e uma
determinada quantidade de ferro. Cada ação é estritamente limitada por suas
consequências imediatas. Se quisermos tirar conclusões corretas, precisamos, antes
de tudo, examinar essas limitações.
A vida humana é uma sequência incessante de ações singulares. Mas a ação
singular não é, de forma alguma, isolada. É um elo numa cadeia de ações que,
juntas, formam uma ação de um nível mais elevado, objetivando um fim mais
distante. Toda ação tem dois aspectos. Por um lado, é uma ação parcial no
conjunto de uma ação mais abrangente, a realização parcial de um objetivo maior.
Por outro lado é, em si mesma, um todo no que diz respeito ao seu propósito de
realizar apenas uma parte do objetivo final.
Depende do escopo do projeto que o agente homem pretenda realizar naquele
momento, quer se trate de uma ação de objetivo mais distante ou de uma ação
parcial visando a um objetivo mais imediato. A praxeologia não tem necessidade
de levantar questões do tipo das levantadas pela Gestaltpsychologie.36 O caminho
de grandes realizações sempre passa pela execução de pequenas tarefas. Uma
catedral é algo mais do que um monte de pedras colocadas juntas. Mas a única
maneira de construir uma catedral é colocar pedra sobre pedra. Para o arquiteto, o
projeto global é o principal. Para o pedreiro, é a simples parede, é cada pedra em
si. O que conta para a praxeologia é o fato de que o único método para realizar
tarefas maiores consiste em construir desde as fundações, passo a passo, etapa
por etapa.
6. As características individuais e variáveis da ação humana
O conteúdo da ação humana, isto é, os fins pretendidos e os meios escolhidos e
aplicados na consecução destes fins, é determinado pelas qualidades pessoais de
cada agente homem. O homem é o produto, é a herança fisiológica de uma longa
evolução zoológica. Nasce como descendente e herdeiro de seus ancestrais; seu
patrimônio biológico é o sedimento, o precipitado, de toda experiência vivida por
seus antepassados. O homem não nasce no mundo em geral, mas num
determinado meio ambiente. Suas características inatas ou herdadas e tudo o que
a vida lhe imprimiu fazem do homem o que ele é durante a sua peregrinação
terrestre. Tal é a sua sina e o seu destino. Sua vontade não é “livre” no sentido
metafísico do termo. É determinada pelo seu passado e por todas as influências a
que estiveram expostos ele mesmo e os seus ancestrais.
A herança e o meio ambiente moldam as ações do ser humano. Sugerem-lhe
tanto os fins como os meios. O homem não vive simplesmente como homem in
abstrato; vive como um membro de sua família, de sua raça, de seu povo e de sua
época; vive como cidadão de seu país; como membro de um determinado grupo
social; como profissional de certa profissão; como seguidor de determinadas ideias
religiosas, metafísicas, filosóficas e políticas; como partidário em muitas lutas e
controvérsias. Não cria, por si mesmo, suas ideias e padrões de valores; toma-os
de empréstimo a outras pessoas. Sua ideologia é influenciada pelo seu meio
ambiente. São poucos os homens que têm o dom de pensar ideias novas e originais
e de mudar o corpo tradicional de crenças e doutrinas.
O homem comum não especula sobre os grandes problemas. Ampara-se na
autoridade de outras pessoas, comporta-se como “um sujeito decente deve
comportar-se”, como um cordeiro no rebanho. É precisamente esta inércia
intelectual que caracteriza um homem como um homem comum. Entretanto,
apesar disso, o homem comum efetivamente escolhe. Prefere adotar padrões
tradicionais ou padrões adotados por outras pessoas porque está convencido de
que esse procedimento é o mais adequado para atingir o seu próprio bem estar. E
está apto a mudar sua ideologia e, consequentemente, o seu modo de ação,
sempre que estiver convencido de que a mudança servirá melhor a seus interesses.
A maior parte do comportamento cotidiano de um homem é pura rotina. Pratica
determinados atos sem lhes emprestar uma atenção especial. Muitas coisas faz
porque foi treinado em sua infância para fazê-las, porque outras pessoas
comportam-se da mesma maneira e porque é esse o costume em seu meio.
Adquire hábitos, desenvolve reações automáticas. Condescende com esses hábitos
somente porque aprecia seus efeitos. Tão logo percebe que agir da forma habitual
pode dificultar a obtenção de fins desejados, muda seu comportamento. Um
homem criado num local onde a água é limpa adquire o hábito de
descuidadamente bebê-la ou usá-la para banho e limpeza. Mas, quando se muda
para outro local onde a água é poluída e insalubre, dedicará a maior atenção a
procedimentos e cautelas com os quais não se preocupava antes. Deixa de
proceder de acordo com a rotina tradicional e automática, com o objetivo de
preservar sua saúde. O fato de uma ação ser praticada normalmente, de um modo
que poderíamos denominar de automático não significa que não seja graças a uma
vontade consciente e a uma escolha deliberada. Condescender com uma rotina que
possivelmente poderia ser mudada também é ação.
A praxeologia não se ocupa do conteúdo variável da ação, mas de sua forma pura
e de sua estrutura categorial. O estudo dos aspectos ambientais e acidentais da
ação humana é tarefa da história.
7. O escopo e o método específico da história
O escopo da história é o estudo de todos os dados relativos à ação humana. O
historiador recolhe e analisa criticamente todos os documentos disponíveis. Com
base nas informações encontradas desenvolve o seu trabalho.
Tem sido afirmado que a tarefa da história é a de mostrar como os eventos
aconteceram, sem sujeitá-los a pressuposições e valores (wertfrei, isto é, neutro
em relação a julgamentos de valor). O relato do historiador deveria ser uma
imagem fiel do passado, como se fosse uma fotografia intelectual, fornecendo uma
completa e imparcial descrição dos fatos. Deveria reproduzir, diante de nosso
intelecto, o passado com todas as suas características.
Ora, uma reprodução real do passado requereria uma duplicação humanamente
impossível de se conseguir. A história não é uma reprodução intelectual, mas uma
representação condensada do passado em termos conceituais. O historiador não
deixa, meramente, que os fatos falem por si. Na formulação de sua narrativa, o
historiador ordena os fatos segundo o ponto de vista das ideias subjacentes à sua
exposição. Não relata os fatos como aconteceram, mas apenas os fatos relevantes.
Não aborda os documentos livre de pressuposições, mas equipado com todo o
aparato do conhecimento científico de sua época, ou seja, com todos os
ensinamentos contemporâneos da lógica matemática, da praxeologia e da ciência
natural.
É óbvio que o historiador não se deve deixar influenciar por preconceitos ou por
dogmas partidários. Aqueles que consideram os eventos históricos como
instrumentos para apoio das teses defendidas por seu partido não são
historiadores, mas propagandistas e apologistas. Não pretendem adquirir
conhecimento, mas, apenas, justificar o programa de seus partidos. Estão lutando
pelos dogmas de uma doutrina metafísica, religiosa, nacional, política ou social.
Usam o nome de história como fachada, com o intuito de iludir os crédulos. Um
historiador deve, antes de tudo, procurar obter o conhecimento. Deve libertar-se de
qualquer parcialidade. Deve ser neutro em relação a qualquer julgamento de valor.
O aludido postulado da Wertfreiheit pode ser facilmente obedecido no campo da
ciência apriorística – lógica matemática e praxeologia – e no campo da ciência
natural. Não é difícil estabelecer logicamente a linha de separação entre um
tratamento científico, imparcial, essas disciplinas e um tratamento deformado pela
superstição, ideias preconcebidas e paixão. No caso da história é muito mais difícil
respeitar o requisito da neutralidade de julgamento de valor, porque o tema dessa
disciplina – o real conteúdo acidental e ambiental da ação humana – consiste
exatamente em julgamentos de valor. Ao exercer a sua atividade, o historiador
está sempre fazendo julgamentos de valor. Os julgamentos de valor dos homens
cujas ações ele relata são o substrato de suas investigações.
Tem sido afirmado que o historiador não pode evitar julgamentos de valor.
Nenhum historiador – nem mesmo o cronista ingênuo ou o repórter de jornal –
registra os fatos como acontecem. Ele tem que discriminar, que selecionar alguns
eventos que considera dignos de serem registrados, e silenciar sobre outros. Essa
escolha implica em si mesma, um julgamento de valor. É necessariamente
condicionada pela visão que o historiador tem do mundo e, portanto, não é
imparcial e sim o resultado de ideias preconcebidas. A história não pode ser nada
além do que uma distorção de fatos; nunca pode ser verdadeiramente científica,
isto é, neutra em relação a valores, pretendendo apenas descobrir a verdade.
Não há dúvida de que pode haver abuso no arbítrio que a seleção de fatos coloca
nas mãos do historiador. Pode ocorrer, e tem ocorrido que a escolha do historiador
seja orientada por preconceitos partidários. Não obstante, os problemas em
questão são muito mais complicados do que parecem. Sua solução deve ser
buscada com base num exame mais profundo dos métodos da história.
Ao lidar com um problema histórico, o historiador usa todo o conhecimento
proporcionado pela lógica, matemática, ciências naturais e, especialmente, pela
praxeologia. Contudo, as ferramentas mentais proporcionadas por essas disciplinas
não históricas não são suficientes para que o historiador desempenhe sua tarefa.
Embora sejam ajudas indispensáveis, não são suficientes para responder às
questões que lhe são colocadas.
O curso da história é determinado pelas ações dos indivíduos e pelos efeitos
dessas ações. As ações são determinadas pelos julgamentos de valor dos agentes
individuais, isto é, pelos fins que pretendem obter e pelos meios que utilizam para
atingir esses fins. A escolha dos meios é o resultado de todo um conjunto de
conhecimentos tecnológico dos agentes individuais. Em muitos casos, é possível
avaliar os efeitos dos meios escolhidos do ponto de vista da praxeologia ou das
ciências naturais. Mas ainda persiste muita coisa cuja elucidação não pode ser
conseguida apenas com a ajuda dessas disciplinas.
A tarefa específica da história, para a qual utiliza um método específico, é o
estudo desses julgamentos de valor e dos efeitos das ações, na medida em que
não possam ser analisados à luz dos ensinamentos de outros ramos do
conhecimento. O problema genuíno do historiador está em interpretar as coisas tal
como aconteceram. Mas não consegue fazê-lo baseando-se unicamente nos
teoremas das outras ciências. Sempre remanesce no fundo de cada um de seus
problemas algo que resiste à análise feita com base nos ensinamentos das outras
ciências. Estas são as características singulares e peculiares a cada evento histórico
e só podem ser analisadas recorrendo-se à compreensão.37
A unicidade ou individualidade que existe no fundo de qualquer fato histórico,
quando já se exauriram todas as possibilidades de interpretá-lo pela lógica, pela
matemática, pela praxeologia e pelas ciências naturais, é um dado irredutível. Mas,
se as ciências naturais diante de seus dados irredutíveis não têm alternativas a não
ser a de aceitá-los como tal, a história pode pretender explicar seus dados
irredutíveis. Embora não seja possível explicar suas causas – não seriam dados
irredutíveis se tal explicação fosse possível —, o historiador pode tentar
compreendê-los por ser ele mesmo um ser humano. Na filosofia de Bergson, essa
compreensão é chamada de intuição, ou seja, “la sympathie par laquelle on se
transporte à l’intérieur d’un objet pour coïncider avec ce qu’il a d’unique et par
conséquent d’inexprimable”.38 A epistemologia alemã nos fala das spezifische
Verstehen der Geisteswissenschaften ou, simplesmente, Verstehen. É o método
que todos os historiadores e todas as pessoas aplicam quando comentam eventos
humanos passados ou quando tentam prever eventos futuros. A descoberta e a
delimitação dessa compreensão foi uma das mais importantes contribuições da
epistemologia moderna. Não é, certamente, um projeto para uma nova ciência que
ainda não existe e que deve ser criada, nem tampouco uma recomendação para
um novo método a ser aplicado nas ciências já existentes.
A compreensão não deve ser confundida com aprovação ainda que condicional ou
circunstancial. O historiador, o etnólogo e o psicólogo às vezes registram ações que
são, no seu entender, repulsivas e repugnantes; eles as compreendem apenas
como ações, ou seja, estabelecendo os propósitos subjacentes e os meios
tecnológicos e praxeológicos empregados na sua execução. Compreender um caso
individual não significa justificá-lo ou desculpá-lo.
Tampouco se deve confundir a compreensão com o prazer da experiência
estética. A empatia (Einfühlung) e a compreensão são duas atitudes
completamente diferentes. Uma coisa é compreender uma obra de arte do ponto
de vista histórico, determinar seu lugar, significado e importância no fluxo de
eventos, e outra é apreciá-la emocionalmente como uma obra de arte. Podemos
contemplar uma catedral com os olhos de um historiador. Mas também podemos
contemplá-la, seja com entusiástica admiração, seja como um turista indiferente.
Os mesmos indivíduos são capazes de ambas as reações: a apreciação estética e a
compreensão científica.
A compreensão registra o fato de que um indivíduo ou um grupo de indivíduos se
engaja numa determinada ação impelida por determinadas escolhas e julgamentos
de valor e pelo desejo de atingir determinados fins, aplicando, para a obtenção
desses fins, determinados meios que lhe são sugeridos por determinadas doutrinas
tecnológicas, terapêuticas e praxeológicas. Além disso, procura avaliar a
intensidade dos efeitos ocasionados por uma ação; tenta atribuir a cada ação a sua
relevância, ou seja, sua particular influência no curso dos acontecimentos.
O escopo da compreensão é a percepção mental de fenômenos que não podem
ser plenamente elucidados pela lógica, matemática, praxeologia, nem pelas
ciências naturais; sua investigação prossegue quando estas disciplinas já não têm
contribuição a oferecer. Ao mesmo tempo, não pode contradizer os ensinamentos
desses outros ramos do conhecimento.39 A existência real do demônio é atestada
por inúmeros documentos históricos que são bastante confiáveis sob muitos
aspectos. Muitos tribunais, funcionando com plenas garantias processuais, com
base no depoimento de testemunhas e na confissão dos acusados, proclamaram a
existência de relações carnais entre o diabo e as bruxas. Não obstante, nenhum
apelo à compreensão justificaria a tentativa de algum historiador afirmar que o
diabo realmente existiu e interferiu em eventos humanos, a não ser nas
perturbações visionárias de algum cérebro humano.
Enquanto isto é normalmente aceito no que diz respeito às ciências naturais,
existem historiadores que adotam outra atitude quanto à teoria econômica.
Tentam objetar os teoremas da economia apelando para documentos que
presumivelmente conteriam provas de que a realidade seria incompatível com tais
teoremas. Não percebem que fenômenos complexos não podem provar ou refutar
qualquer teorema e, portanto, não podem ser confrontados com qualquer
afirmação teórica. A história econômica só é possível porque existe uma teoria
econômica capaz de explicar as consequências das ações econômicas. Se não
houvesse uma teoria econômica, toda a história relativa a fatos econômicos não
seria mais do que uma coleção de dados desconexos, sujeita a qualquer
interpretação arbitrária.
8. Concepção e compreensão
As ciências da ação humana têm como tarefa a compreensão do significado e da
relevância da própria ação humana. Para isso, recorrem a dois procedimentos
epistemológicos diferentes: concepção e compreensão. A concepção é a ferramenta
mental da praxeologia; compreensão é a ferramenta mental específica da história.
O conhecimento praxeológico é conhecimento conceitual. Refere-se ao que é
indispensável na ação humana. É conhecimento de categorias e proposições
universais.
O conhecimento da história refere-se ao que é único e peculiar em cada classe de
eventos. Primeiramente, analisa cada objeto de seu estudo com o auxílio das
ferramentas mentais proporcionadas por todas as outras ciências. Tendo concluído
este trabalho preliminar, enfrenta o seu problema específico: a elucidação das
características singulares e específicas de cada caso por meio da compreensão.
Como foi mencionado acima, tem sido afirmado que a história não pode ser
científica porque a compreensão da história depende dos julgamentos de valor do
historiador. A compreensão, afirmam, é apenas um termo eufemista para designar
arbitrariedade. Os escritos dos historiadores são sempre unilaterais e parciais; não
relatam os fatos; deformando-os.
É um fato irrefutável o de que livros sobre história são escritos a partir de vários
pontos de vista. Existem histórias da Reforma escritas tanto do ponto de vista
católico como do protestante. Existem histórias “proletárias” e histórias
“burguesas”; existem historiadores conservadores e historiadores liberais. Cada
nação, partido e grupo linguístico tem seus próprios historiadores e suas próprias
ideias sobre história.
Mas o problema que essas diferenças de interpretação acarretam não deve ser
confundido com a distorção intencional de fatos feita por propagandistas e
apologistas disfarçados de historiadores. Aqueles acontecimentos que possam ser
explicados de forma inquestionável, com base na documentação existente, devem
ser estabelecidos preliminarmente pelo historiador. Nestes casos, não cabe a
interpretação pessoal. É uma tarefa a ser realizada com o emprego das
ferramentas fornecidas pelas ciências não históricas. As informações são coligidas
através de uma cautelosa e crítica observação dos registros existentes. Sempre que
as teorias das ciências não históricas, nas quais o historiador se baseia para
examinar criticamente as fontes de informação, são razoavelmente confiáveis ou
certas, não pode haver discordâncias importantes quanto à interpretação das
informações. As afirmativas do historiador ou estão certas ou contrariam a
realidade, podem ser provadas ou refutadas com base nos documentos disponíveis;
ou então são vagas, porque as fontes não nos fornecem informação suficiente.
Neste caso, os autores podem discordar, mas apenas com base numa interpretação
sensata das evidências disponíveis. Na discussão em torno dessas divergências não
cabem afirmativas arbitrárias.
Entretanto, os historiadores frequentemente divergem em relação aos
ensinamentos das ciências não históricas. Resultam, então, divergências em
relação ao exame crítico dos registros disponíveis e em relação às conclusões que
deles derivam. Surge um conceito incontornável, cuja causa não decorre de
interpretação contraditória em relação ao acontecimento histórico em questão, mas
de uma controvérsia não resolvida, relacionada com as ciências não históricas.
Um antigo historiador chinês poderia relatar que os pecados do imperador
provocaram uma seca catastrófica e que as chuvas só voltaram quando ele expiou
suas faltas.
Nenhum historiador moderno aceitaria este relato, porque tal explicação
meteorológica contraria fundamentos incontestáveis da ciência contemporânea.
Mas a mesma unanimidade não existe em relação a inúmeras questões teológicas,
biológicas ou econômicas. Daí as divergências entre os historiadores.
Um defensor da doutrina racial do arianismo nórdico consideraria como espantoso
e simplesmente inacreditável um relato sobre realizações morais e intelectuais de
raças “inferiores”. Trataria tais relatos da mesma maneira com que os historiadores
modernos tratariam o relato do historiador chinês. Nenhum acordo pode ser
alcançado, em relação à história do cristianismo, entre autores que consideram os
evangelhos como escrituras sagradas e os que os consideram como documentos
humanos. Historiadores católicos e protestantes discordam acerca de muitas
questões de fato porque partem de ideias teológicas diferentes. Um mercantilista
ou um neomercantilista sempre divergirá de um economista. Uma explicação da
história monetária alemã dos anos de 1914 a 1923 estará condicionada pelas
doutrinas monetárias do autor. Os fatos da Revolução Francesa são apresentados
de maneira diferente por aqueles que acreditam nos direitos sagrados do rei e
aqueles que defendem outros pontos de vista.
Os historiadores divergem nessas questões, não em decorrência de sua
capacidade como historiadores, mas na aplicação das ciências não históricas aos
temas históricos. Discordam como os médicos agnósticos discordam em relação aos
milagres de Lourdes, da comissão médica designada para recolher as provas
relativas àqueles milagres. Somente os que acreditam que os fatos escrevem sua
própria história na tábula rasa da mente humana culpam os historiadores por tais
diferenças de opinião. Não percebem que a história não pode ser estudada sem
pressuposições, de tal sorte que são as divergências em relação às pressuposições,
ou seja, em torno do conteúdo dos ramos não históricos do conhecimento, que
determinam o sentido da narrativa dos fatos históricos.
São também essas pressuposições que determinam a decisão do historiador
relativa à escolha dos fatos que devem ser mencionados e dos que devem ser
omitidos por serem considerados irrelevantes. Para descobrir por que uma vaca não
está dando leite, um veterinário moderno não considerará como há trezentos anos
se consideravam informações relativas à maldição de alguma bruxa. Da mesma
maneira, o historiador seleciona, da infinidade de acontecimentos que precederam
o fato objeto de seu estudo, aqueles que poderiam contribuir para o seu
surgimento – ou para o seu retardamento – e negligencia aqueles que, de acordo
com sua compreensão das ciências não históricas, não o influenciam.
Mudanças nos ensinamentos das ciências não históricas implicam,
consequentemente, reescrever a história. Cada geração tem que rever os mesmos
problemas históricos porque estes lhe aparecem sob uma nova luz. A antiga visão
teológica do mundo conduziu a um enfoque da história diferente daquele sugerido
pelos ensinamentos da ciência natural moderna. A teoria econômica subjetivista dá
lugar a um relato histórico completamente diferente daquele que se baseia em
doutrinas mercantilistas. Na medida em que as divergências entre os historiadores
se originem dessas discordâncias, não é o resultado de uma suposta imprecisão ou
incerteza nos estudos históricos. Ao contrário, é o resultado da falta de
unanimidade no campo dessas outras ciências que são comumente chamadas de
ciências exatas.
Para evitar possíveis equívocos, é necessário enfatizar alguns outros pontos. As
divergências acima referidas não devem ser confundidas:
1. Com distorções mal-intencionadas dos fatos.
2. Com tentativas para justificar ou condenar ações de um ponto de vista legal ou
moral.
3. Com a inserção, meramente incidental, de observações que impliquem
julgamentos de valor, numa exposição rigorosa e objetiva sobre determinados
assuntos. A objetividade de um tratado de bacteriologia não fica prejudicada se o
seu autor, adotando o ponto de vista humano, considera a preservação da vida
humana como um bem supremo e, aplicando este critério, qualifica como bom um
método eficaz de matar germes e, como mau, um método que seja ineficaz. Um
germe se escrevesse este livro, inverteria estes julgamentos, embora o conteúdo
material do livro não diferisse do escrito pelo bacteriologista. Da mesma maneira,
um historiador europeu, ao tratar das invasões mongólicas do século XIII pode falar
de acontecimentos “favoráveis” ou “desfavoráveis”, porque adota o ponto de vista
dos defensores da civilização ocidental. Mas a adoção dos valores de uma das
partes não interfere necessariamente no conteúdo material do seu estudo. Pode –
do ponto de vista do conhecimento contemporâneo – ser absolutamente objetivo.
Um historiador mongol poderia endossá-lo completamente, salvo quanto àquelas
observações incidentais.
4. Com o exame feito por uma das partes nos casos de antagonismos militares ou
diplomáticos, a luta de grupos em conflito pode ser tratada do ponto de vista das
ideias, motivos e desejos que impulsionaram um dos lados em disputa. Para um
completo entendimento do que aconteceu, é necessário considerar as ações de
ambos os lados. O resultado é o produto da interação de ambas as partes. Mas,
para compreender suas ações, o historiador deve tentar ver como as coisas se
apresentaram ao agente homem no momento crítico e não apenas como as vemos
hoje, amparados por todo o conhecimento contemporâneo. A história da política de
Lincoln nas semanas e meses que precederam a Guerra Civil é, sem dúvida,
incompleta. Na realidade, nenhum estudo histórico é completo. Independente da
simpatia que possa ter pelos confederados ou pelos nortistas, ou mesmo sendo
neutro, o historiador deve tratar, de maneira objetiva, a política de Lincoln na
primavera de 1861. Tal investigação é uma preliminar indispensável para
responder à questão maior de como irrompeu a Guerra Civil.
Finalmente, aclarados estes problemas, podemos enfrentar a verdadeira questão:
existe algum elemento subjetivo na compreensão da história e, se existe, de que
maneira influencia o resultado dos estudos históricos?
Na medida em que a tarefa da compreensão seja estabelecer que as pessoas
agissem motivadas por determinados julgamentos de valor e objetivando
determinados fins, não pode haver discordância entre autênticos historiadores, isto
é, aqueles desejosos de compreender efetivamente como ocorreram os
acontecimentos passados. Pode haver incerteza, devido à insuficiência de
informações. Mas isso nada tem a ver com a compreensão. Refere-se ao trabalho
preliminar a ser realizado pelo historiador.
Entretanto, a compreensão tem outra tarefa a cumprir. Deve avaliar os efeitos
produzidos por uma ação e a intensidade dos mesmos; deve lidar com a relevância
das causas de cada ação.
Defrontamo-nos agora com uma das principais diferenças entre a física e a
química, de um lado, e as ciências da ação humana, do outro. No domínio dos
eventos físicos e químicos existem (ou, pelo menos, é correntemente aceitável que
existam) relações constantes entre magnitudes, e o homem é capaz de descobrir
essas constantes com um razoável grau de precisão, através de experiências de
laboratório. No campo da ação humana, não existem tais relações constantes. Os
economistas acreditaram, por algum tempo, que haviam descoberto uma relação
constante entre as variações da quantidade de moeda e o preço das mercadorias.
Supunham que um aumento ou diminuição da quantidade de moeda em circulação
resultaria numa variação proporcional no preço das mercadorias. A economia
moderna já demonstrou clara e irrefutavelmente a falácia desta suposição.40 Estão
inteiramente equivocados os economistas que pretendem substituir o que chamam
de “economia qualitativa” por uma “economia quantitativa”. Não existem, no
campo da economia, relações constantes e, consequentemente, nenhuma medição
é possível. Se um estatístico conclui que um aumento de 10% na oferta de batatas
em Atlantis, num determinado momento, foi acompanhado de uma queda de 8%
no preço, não está estabelecido de forma alguma o que aconteceu ou o que poderá
acontecer com uma variação na oferta de batatas em qualquer outro país ou em
qualquer outro momento. Não “mediu” a “elasticidade da demanda” das batatas.
Apenas estabeleceu um fato histórico único e específico. Nenhum homem
inteligente duvida de que o comportamento dos homens em relação a batatas ou a
qualquer outra mercadoria é variável. As pessoas avaliam as coisas de maneira
diferente; a mesma pessoa muda sua avaliação quando mudam as
circunstâncias.41
Fora do campo da história econômica, ninguém jamais ousou afirmar que
prevalecem relações constantes na história humana. Nos conflitos armados do
passado, um soldado europeu equivalia a vários soldados de povos mais atrasados.
Mas ninguém cometeria a tolice de “medir” a dimensão da superioridade europeia.
A impraticabilidade da medição não decorre da falta de meios técnicos para a
efetivação da medida. Deve-se à ausência de relações constantes. Se o problema
fosse apenas de insuficiência técnica, pelo menos uma estimativa aproximada seria
possível em alguns casos. Não é possível porque o problema principal está no fato
de que não existem relações constantes. Os ignorantes positivistas repetem
frequentemente que a economia é uma disciplina retrógrada por não ser
“quantitativa”.
Ela não é quantitativa e não pode efetuar medições porque não existem
constantes. Dados estatísticos referentes a eventos econômicos são dados
históricos. Referem-se àquilo que já aconteceu numa situação histórica e que não
acontecerá de novo. Fenômenos físicos podem ser interpretados com base no
nosso conhecimento das relações constantes descobertas pela experimentação. Os
acontecimentos históricos não permitem idêntico tratamento.
O historiador pode enumerar todos os fatores que contribuíram para provocar um
determinado acontecimento, bem como todos os que o dificultaram ou concorreram
para retardá-lo ou abrandá-lo. Mas não pode, a não ser pela compreensão,
relacionar quantitativamente os vários fatores causais com os efeitos produzidos.
Não pode, a não ser pela compreensão, atribuir, a cada um dos n fatores, seu peso,
sua importância na produção do efeito P. No âmbito da história, a compreensão
equivale, por assim dizer, à análise quantitativa e à medição.
A tecnologia nos pode dizer à espessura que deve ter uma chapa de aço para não
ser perfurada por um tiro de um fuzil Winchester a uma distância de trezentas
jardas. Pode, portanto, explicar por que um homem que se protegeu com uma
chapa de aço de espessura conhecida foi ou não atingido por um tiro. A história,
por outro lado, é incapaz de explicar com a mesma segurança por que o preço do
leite subiu 10%, ou por que o presidente Roosevelt derrotou o governador Dewey
nas eleições de 1944, ou por que a França adotou de 1870 a 1946 uma constituição
republicana. Tais problemas só podem ser abordados pela compreensão.
A compreensão tenta atribuir a cada fator histórico sua relevância. Ao utilizar a
compreensão, não podemos recorrer à arbitrariedade nem ao capricho. A liberdade
do historiador é limitada pelo seu empenho de explicar satisfatoriamente uma
realidade. Sua aspiração maior deve ser a busca da verdade. Mas há, na
compreensão, necessariamente, um elemento de subjetividade. A compreensão do
historiador está, sempre, matizada pelos traços de sua personalidade. Reflete sua
mentalidade.
As ciências apriorísticas – a lógica, a matemática e a praxeologia – pretendem
formular conclusões válidas incondicionalmente para todos os seres dotados da
estrutura lógica da mente humana. As ciências naturais buscam obter
conhecimentos válidos para todos os seres dotados não só da faculdade de
raciocinar, mas também dos sentidos humanos. A uniformidade da lógica e das
sensações humanas confere a esses ramos do conhecimento o caráter de validade
universal. Pelo menos é esse o princípio que norteava o estudo dos físicos.
Somente em anos recentes começaram eles a perceber os limites dos seus esforços
e, abandonando a excessiva pretensão dos físicos mais antigos, descobriram o
“princípio da incerteza”. Admite, hoje, que existem fatos inobserváveis cuja
impossibilidade de observação é uma questão epistemológica.42
A compreensão histórica nunca pode chegar a conclusões que sejam aceitas por
todas as pessoas. Dois historiadores que estejam de inteiro acordo no que diz
respeito aos ensinamentos das ciências não históricas e que também estejam de
acordo em relação à interpretação dos fatos a serem considerados poderão
discordar quanto à compreensão da relevância desses fatos. Podem estar de inteiro
acordo ao estabelecer que os fatos a, b e c contribuíram para produzir o efeito P;
não obstante, poderão discordar profundamente quanto à relevância da
contribuição de a, b e c para produzir o resultado final. Na medida em que a
compreensão pretende atribuir a cada fator a sua relevância, está sujeita à
influência de julgamentos subjetivos. Certamente, estes não são julgamentos de
valor, nem expressam as preferências do historiador. São julgamentos de
relevância.43
Os historiadores podem divergir por várias razões. Podem adotar pontos de vista
diferentes em relação aos ensinamentos das ciências não históricas; podem basear
seu raciocínio no maior ou menor conhecimento dos dados históricos; podem ter
uma compreensão diferente acerca dos motivos e objetivos dos agentes homens e
dos meios que utilizaram. Sobre todas essas divergências, pode haver acordo
mediante um exame racional “objetivo”; é possível alcançar um acordo em termos
gerais. Mas quando os historiadores divergem com respeito a julgamentos de
relevância, é impossível encontrar uma solução aceitável a todos os homens
sensatos.
Os métodos intelectuais da ciência não diferem, em espécie, daqueles aplicados
pelo homem comum no seu raciocínio cotidiano. O cientista utiliza as mesmas
ferramentas que o leigo, embora com maior precisão e perícia. A compreensão não
é um privilégio dos historiadores. Qualquer pessoa faz uso dela. Quando observa as
condições de seu meio ambiente, qualquer pessoa é um historiador. Todas as
pessoas usam a compreensão ao lidar com a incerteza de eventos futuros aos quais
precisam ajustar suas próprias ações. O que distingue o raciocínio de um
especulador é a compreensão que tem da relevância dos fatores que determinarão
os eventos futuros. E – deixem-nos enfatizar mesmo neste princípio de nossas
investigações – a ação visa sempre a situações futuras e, portanto, incertas. Sendo
assim, é sempre especulação. O agente homem olha o futuro, por assim dizer, com
olhos de historiador.
História natural e história humana
A cosmogonia, a geologia e a ciência que se ocupa das mutações biológicas são
disciplinas históricas na medida em que lidam com eventos específicos do passado.
Entretanto, utilizam os mesmos métodos epistemológicos das ciências naturais e,
portanto, não precisam recorrer à compreensão. Às vezes, recorrem a estimativas
aproximadas das magnitudes que são objeto de seu estudo. Mas tais estimativas
não são julgamentos de relevância. São apenas um método de determinar relações
quantitativas menos perfeito do que uma medição “exata“. Não devem ser
confundidas com a situação no campo da ação humana, que se caracteriza pela
ausência de relações constantes.
Quando falamos de história, o que temos em mente é apenas história da ação
humana, cuja ferramenta mental específica é a compreensão.
A afirmativa de que a moderna ciência natural deve todo seu progresso ao
método experimental é algumas vezes criticada, fazendo-se referência ao caso da
astronomia. Ora, a astronomia moderna é essencialmente uma aplicação das leis
físicas, descobertas experimentalmente em nosso planeta, aos corpos celestes.
Antigamente, a astronomia estava baseada, sobretudo, na suposição de que os
movimentos dos corpos celestes eram imutáveis. Copérnico e Kepler simplesmente
tentaram descobrir que tipo de curva a Terra faz em torno do Sol. Como o círculo
era considerado a curva “mais perfeita”, Copérnico o escolheu para a sua teoria.
Mais tarde, por idêntica suposição, Kepler substituiu o círculo pela elipse. Somente
depois dos descobrimentos de Newton é que a astronomia tornou-se,
verdadeiramente, uma ciência natural.
9. Sobre tipos ideais
A história lida com eventos singulares que não se repetem no fluxo irreversível
dos acontecimentos humanos. Um evento histórico não pode ser descrito sem que
se faça referência às pessoas nele envolvidas e ao local e data de sua ocorrência.
Se um acontecimento pode ser narrado sem a necessidade de tais referências, não
é um evento histórico, mas um fato das ciências naturais. A informação de que o
professor X, no dia 20 de fevereiro de 1945, realizou determinada experiência em
seu laboratório é uma informação de natureza histórica. O físico considera,
entretanto, que devemos abstrair-nos da pessoa do experimentador e da data e
local da experiência. Considera apenas as circunstâncias que, em sua opinião, têm
importância para atingir o resultado pretendido; essas circunstâncias, quando
repetidas, produzirão de novo o mesmo resultado. Transforma o evento histórico
num fato das ciências naturais empíricas. Desdenha a ativa participação do
experimentador e tenta imaginar-se como um observador imparcial, narrando a
realidade. Não compete à praxeologia tratar desses problemas epistemológicos.
Embora os eventos históricos sejam singulares e não se repitam, sua
característica comum consiste no fato de serem, sempre, ação humana. A história
os entende como ações humanas; concebe o seu significado por meio da cognição
praxeológica e tenta compreender este significado pesquisando seus aspectos
específicos e individuais. O que importa para a história é sempre o significado que
os homens atribuem em cada caso: o significado que atribuem à situação que
pretendem alterar, o significado que atribuem às suas ações e o signi ficado que
atribuem aos efeitos produzidos por suas ações.
O aspecto segundo o qual a história ordena e classifica a infinita variedade de
eventos é o seu significado. O único princípio que aplica para sistematização do
objeto de seus estudos – homens, ideias, instituições, entidades sociais e artefatos
– é a afinidade de seus significados. De acordo com esta afinidade de significados é
que a história concebe os tipos ideais.
Os tipos ideais são conceitos específicos empregados na investigação histórica e
na apresentação de seus resultados. São conceitos de compreensão e, como tal,
são inteiramente diferentes dos conceitos e categorias praxeológicos e dos
conceitos das ciências naturais. Um tipo ideal não é um conceito de classe, porque
sua descrição não indica os elementos característicos cuja presença determina com
precisão e sem ambiguidade a que classe pertence. Um tipo ideal não pode ser
definido; deve ser caracterizado pela enumeração dos aspectos cuja presença, de
um modo geral, determina se, num caso concreto, estamos ou não diante do tipo
ideal em questão. É peculiar ao tipo ideal o fato de que nem todas as
características precisam estar sempre presentes. Se a falta de algumas
características impede, ou não, que se considere um determinado espécime como
tipo ideal depende do julgamento de relevância que é feito pela compreensão. O
tipo ideal, em si mesmo, é o resultado de uma compreensão dos motivos, ideias e
objetivos dos indivíduos agentes e dos meios de que se utilizam.
Um tipo ideal não tem nada a ver com dados estatísticos ou com médias. A maior
parte de suas características não é passível de determinação numérica e, por esta
razão, não poderia ser objeto do cálculo de médias. Mas esta não é a razão
principal. Estatísticas médias indicam o comportamento dos membros de uma
classe ou de um tipo já definido em relação a aspectos que têm em comum,
aspectos estes que não são os mesmos que foram adotados para defini-lo. O fato
de já pertencer a uma classe ou a um tipo deve ser do conhecimento do estatístico
antes de começar a investigar outros aspectos e de utilizar o resultado dessa
investigação para o estabelecimento de médias. Podemos calcular a idade média
dos senadores ou podemos calcular médias relativas a algum aspecto específico
para todas as pessoas de uma mesma idade. Mas é logicamente impossível dizer
que uma pessoa é membro de uma classe em função de dados médios.
Nenhum problema histórico pode ser tratado sem a ajuda dos tipos ideais. Mesmo
quando o historiador lida com um só personagem ou com um único evento, não
tem como evitar a referência a tipos ideais. Fala-se de Napoleão, tem que se
reportar a tipos ideais como comandante, ditador, líder revolucionário; se trata da
Revolução Francesa, utiliza tipos ideais como revolução, desintegração de um
regime estabelecido, anarquia. Às vezes, a referência a um tipo ideal consiste
meramente no registro de sua inaplicabilidade ao caso em questão. De qualquer
forma, todos os eventos históricos são descritos e interpretados com base em tipos
ideais. O leigo, também, ao lidar com eventos do passado ou do futuro, faz uso,
ainda que inconscientemente, de tipos ideais.
Se a alusão a um determinado tipo ideal é ou não útil e conveniente para a
percepção adequada dos fenômenos, é algo que só pode ser determinado por meio
da compreensão. Não é o tipo ideal que determina a compreensão; ao contrário, é
o desejo de uma melhor compreensão que requer a elaboração e a utilização dos
tipos ideais.
Os tipos ideais são elaborados utilizando-se ideias e conceitos formulados pelas
ciências não históricas. Qualquer cognição de fenômenos históricos está
condicionada pelos ensinamentos de outras ciências, depende delas e não pode
jamais contradizê-las. Mas o conhecimento histórico lida com temas e métodos
diferentes dos das outras ciências, as quais, por sua vez, não utilizam a
compreensão. Consequentemente, os tipos ideais não devem ser confundidos com
conceitos das ciências não históricas, nem tampouco com conceitos e categorias
praxeológicas. Eles – os tipos ideais – nos proporcionam, certamente, as
ferramentas mentais indispensáveis ao estudo da história. Entretanto, não nos
proporcionam a compreensão de eventos singulares que constituem o próprio tema
da história. Um tipo ideal, portanto, nunca pode resultar exclusivamente de um
conceito praxeológico.
Ocorre com frequência que um termo usado pela praxeologia para designar um
conceito praxeológico também é utilizado pelo historiador para designar um tipo
ideal. Neste caso, o historiador usa uma mesma palavra para expressar duas coisas
diferentes. O termo é aplicado, às vezes, com seu significado praxeológico e, mais
frequentemente, para designar um tipo ideal. Neste último caso, o historiador
atribui ao termo em questão um significado diferente daquele que lhe atribui a
praxeologia; transforma o seu significado ao transferi-lo para outro campo de
conhecimento. O conceito da palavra “empresário” para a economia é diferente do
que é atribuído pela história econômica ao tipo ideal “empresário”. (Um terceiro
conceito para a mesma palavra é o seu significado legal). O conceito econômico da
palavra “empresário” é um conceito precisamente definido e que representa uma
função claramente integrada na estrutura de uma teoria econômica de mercado.44
O tipo ideal “empresário”, como entendido pela história, não abrange as mesmas
pessoas. Ninguém, ao se referir ao “empresário” do ponto de vista histórico, estará
referindo-se ao engraxate, ao motorista de seu próprio táxi, ao pequeno
comerciante ou ao pequeno agricultor. O que a economia estabelece com relação à
função empresarial é rigorosamente válido para qualquer empresário,
independentemente de quaisquer condições geográficas ou temporais e dos
diversos ramos de atividade. O que a história econômica estabelece para seus tipos
ideais pode variar em função das circunstâncias particulares de idade, país, ramo
de negócio e muitas outras condições. Para a história, tem pouca utilidade um
conceito geral de empresário. Interessa-se mais por tipos de empresários, tais
como o americano da época de Jefferson, o alemão da indústria pesada no tempo
de Guilherme II, o da indústria têxtil da Nova Inglaterra nas décadas que
precederam a Primeira Guerra Mundial, o protestante da haute finance de Paris, os
empresários autodidatas etc. etc.
Se a utilização de um determinado tipo ideal é recomendável, ou não, depende
essencialmente do modo como compreendemos os acontecimentos. É muito
comum, hoje em dia, recorrer a dois tipos ideais: o regime político dos partidos de
esquerda (progressista) e o dos partidos de direita (fascistas). Entre os primeiros,
encontram-se as democracias ocidentais, algumas ditaduras latino-americanas e o
bolchevismo russo; o segundo compreende o fascismo italiano e o nazismo alemão.
Esta tipificação é o resultado de um determinado modo de compreensão. Outro
modo seria contrastar democracia e ditadura.Neste caso, o bolchevismo russo, o
fascismo italiano, o nazismo alemão e a ditadura latina americana fariam parte do
tipo ideais ditadura e os sistemas ocidentais pertenceriam ao tipo ideal
democracia.
A Escola Historicista de Wirtschaftliche Staatswissenschaften45 na Alemanha, e o
Institucionalismo, nos Estados Unidos, cometeram um erro fundamental ao
considerar a economia como uma ciência que estuda o comportamento de um tipo
ideal, o homo oeconomicus. De acordo com essa doutrina, a economia clássica ou
ortodoxa não lida com o homem como ele realmente é e se limita a analisar a
conduta de um ser fictício ou hipotético guiado exclusivamente por motivos
“econômicos”, isto é, pelo desejo de conseguir o maior ganho possível, material ou
monetário. Este suposto personagem, fruto da imaginação de uma filosofia espúria,
não tem, nem nunca teve contrapartida na realidade. Nenhum homem é motivado
exclusivamente pelo desejo de se tornar tão rico quanto possível; muitos sequer
são influenciados por este anseio desprezível. É desnecessário, ao se estudar a vida
e a história, perder tempo ocupando-se de tal homúnculo irreal.
Mesmo que fosse esse o significado da economia clássica, o homo oeconomicus
certamente não seria um tipo ideal. O tipo ideal não é apenas a personificação de
uma faceta ou de um aspecto dos vários desejos e objetivos do homem. É a
representação de fenômenos complexos da realidade tanto de homens como de
instituições ou de ideologias.
Os economistas clássicos tentaram explicar a formação dos preços. Tinham plena
consciência do fato de que preços não são um produto das atividades de um grupo
de pessoas, mas o resultado de uma interação de todos aqueles que atuam no
mercado. Era esse o significado de sua afirmativa segundo a qual a oferta e a
procura determinam a formação de preços. Entretanto, os economistas clássicos
falharam nas suas tentativas de estabelecer uma teoria de valor que fosse
satisfatória. Não conseguiram encontrar uma explicação para o aparente paradoxo
de valor. Ficaram desorientados diante do pretenso paradoxo que afirma ser o
“ouro” mais valioso que o “ferro”, embora este seja mais “útil” que aquele. Por isso
não puderam elaborar uma teoria geral de valor e não puderam perceber que o
comportamento dos consumidores é a verdadeira fonte dos fenômenos de
produção e de troca no mercado. Esta deficiência os forçou a abandonar o
ambicioso propósito de desenvolver uma teoria geral da ação humana. Tiveram
que se contentar com uma teoria que explicava apenas as atividades dos homens
de negócio, sem remontar às escolhas individuais como razões finais,
determinantes da ação. Lidaram apenas com as ações dos homens de negócios
ansiosos por comprar pelo menor preço e vender pelo mais caro. O consumidor não
foi considerado na elaboração de suas teorias. Mais tarde, os epígonos da
economia clássica explicaram e justificaram essa deficiência como um
procedimento intencional e metodologicamente necessário. Asseguravam que os
economistas clássicos restringiam, deliberadamente, o campo de suas
investigações a apenas um aspecto da ação humana: o aspecto “econômico”.
Asseguravam, ainda, que os economistas clássicos desejavam usar a imagem
fictícia de um homem impelido apenas por motivos “econômicos”, embora tivessem
plena consciência do fato de que os homens reais são impelidos por muitos outros
motivos “não econômicos”. Lidar com estes outros motivos, asseverava um grupo
desses exegetas, não é tarefa da economia, mas de outros ramos do
conhecimento. Outro grupo admitia que o estudo desses motivos “não econômicos”
e de sua influência na formação dos preços também era tarefa da economia, mas
acreditavam que devia ser deixada para futuras gerações. Mostraremos, num
estágio posterior destas nossas investigações, que essa distinção entre motivos
“econômicos” e “não econômicos” da ação humana é insustentável.46 Por ora o
importante é consignar que essa doutrina do lado “econômico” da ação humana
deturpa inteiramente os ensinamentos dos economistas clássicos. Nunca afirmaram
o que essa doutrina lhes atribui. Tentaram compreender a verdadeira formação de
preços – não de preços fictícios, como os que seriam determinados se os homens
agissem sob a influência de hipotéticas condições, diferentes daquelas que
realmente ocorrem. Os preços que tentavam explicar e realmente explicam –
embora sem remontar suas origens às preferências do consumidor – são preços
reais de mercado. A oferta e procura a que se referem são fatores reais
determinados por todos os motivos que instigam os homens a comprar ou vender.
O que havia de errado na sua teoria era o fato de não associar a demanda às
preferências dos consumidores; faltou-lhes uma teoria da demanda que fosse
plenamente satisfatória. Mas nunca em seus textos consideraram que a demanda
fosse determinada exclusivamente por motivos “econômicos”, no sentido de serem
distintos de motivos “não econômicos”. Como restringiram sua teorização às ações
dos homens de negócios, não trataram dos motivos do consumidor final. Não
obstante, sua teoria dos preços pretendia ser uma explicação dos preços reais,
independentemente dos motivos e ideias que impulsionavam os consumidores.
A moderna economia subjetiva tem seu início com o esclarecimento do aparente
paradoxo do valor. Nem limita seus teoremas apenas às ações dos homens de
negócios, nem lida com um fictício homo oeconomicus. Trata das categorias
inexoráveis de qualquer ação humana. Seus teoremas relativos a preços de
mercadorias, salários e juros se referem a todos esses fenômenos, sem qualquer
referência aos motivos que levavam as pessoas a comprar ou vender ou a se abster
de comprar ou de vender. Já é tempo de abandonar inteiramente qualquer
referência à tentativa estéril de justificar a deficiência dos economistas mais
antigos através do apelo ao ilusório homo oeconomicus.
10. O modo de proceder da economia
O escopo da praxeologia é a explicação da categoria ação humana. Tudo o que
precisamos para deduzir qualquer teorema praxeológico é o conhecimento da
essência da ação humana. É um conhecimento que já possuímos, porque somos
seres humanos; está presente em todos os seres de descendência humana que, por
razões patológicas, não tenham sido reduzidos a uma existência meramente
vegetativa. Nenhuma experiência especial é necessária para que se compreendam
esses teoremas e nenhuma experiência, por mais rica que fosse, poderia revelá-los
a um ser que não soubesse, a priori, o que é ação humana. O único modo de
perceber estes teoremas é a análise lógica do conhecimento, inerente ao ser
humano, do que seja a categoria ação. Precisamos refletir e procurar entender em
que consiste a ação humana. Como a lógica e a matemática, o conhecimento
praxeológico está em nós; não vem de fora.
Todos os conceitos e teoremas da praxeologia estão implícitos na categoria ação
humana. A tarefa fundamental consiste em extraí-los e deduzi-los, em explicar suas
implicações e definir as condições universais da ação em si. Uma vez conhecidas as
condições necessárias para qualquer ação, devemos ir mais adiante e procurar
definir – é claro que num sentido formal e categorial – que condições gerais
mínimas são necessárias para determinadas formas de ação. Seria possível lidar
com esta segunda tarefa delineando todas as condições imaginárias e deduzindo, a
partir delas, todas as consequências logicamente possíveis. Um sistema que
procurasse tudo compreender estabeleceria uma teoria relativa à ação humana,
não apenas como ocorre nas condições e circunstâncias existentes no mundo real
onde o homem vive e age. Lidaria também com ações hipotéticas que poderiam
ocorrer sob condições irrealizáveis em mundos imaginários.
Porém, o objetivo da ciência é entender a realidade. Não é uma ginástica mental
ou um passatempo lógico. Por esse motivo, a praxeologia restringe suas
investigações ao estudo da ação sob as condições e pressuposições que existem no
mundo real. Somente estuda a ação sob condições que não ocorreram ou que
nunca ocorrerão, nas duas hipóteses seguintes: quando trata de situações que,
embora não reais mais no presente e no passado, poderiam tornar-se reais no
futuro; e quando examina condições irreais ou irrealizáveis se este exame é
necessário para uma adequada percepção do que está ocorrendo sob as condições
existentes na realidade.
Entretanto, essa referência à percepção da realidade, à experiência, não afeta o
caráter apriorístico da praxeologia e da economia. A experiência meramente
orienta nossa curiosidade na direção de certos problemas e a desvia de outros.
Indica o que devemos pesquisar, mas não nos diz como deveríamos proceder na
nossa busca do conhecimento. Além do mais, não é a experiência, mas
simplesmente o raciocínio, que nos indica as situações hipotéticas irrealizáveis que
devemos investigar para entender melhor o que acontece no mundo real.
A desutilidade47 do trabalho não é uma característica categorial e apriorística.
Podemos, sem incorrer em contradição, imaginar um mundo no qual o trabalho não
provoque desconforto, e podemos descrever as situações que prevaleceriam em tal
mundo.48 Mas, no mundo real, o que existe é a desutilidade do trabalho. Somente
teoremas baseados no pressuposto de que ninguém paga para trabalhar, são
aplicáveis para a compreensão do que ocorre em nosso mundo.
A experiência nos ensina que existe a desutilidade do trabalho. Mas não nos
ensina diretamente. Não há nenhum fenômeno que se apresente como desutilidade
do trabalho. Existem apenas dados colhidos pela nossa experiência que são
interpretados, com base em conhecimento apriorístico, como significando que os
homens consideram o lazer – ou seja, a ausência do trabalho – como uma situação
mais desejável do que o dispêndio de trabalho, evidentemente mantidas
constantes as demais condições. Percebemos que os homens renunciam a
vantagens que poderiam obter se trabalhassem mais – isto é: estão dispostos a
fazer sacrifícios para usufruir o lazer. Inferimos deste fato que o lazer é considerado
um bem e que o trabalho é considerado uma carga. Mas não seria possível chegar
a essa conclusão sem uma prévia percepção praxeológica.
Uma teoria de troca indireta e todas as teorias que dela derivam – como a teoria
do crédito circulante49 – são aplicáveis apenas para interpretar eventos num
mundo no qual seja praticada a troca indireta. Num mundo em que só se praticasse
a troca direta, uma teoria da troca indireta seria mero passatempo intelectual. É
pouco provável que os economistas de tal mundo se ocupassem com os problemas
da troca indireta, moeda e tudo o mais. É menos provável ainda que a ciência
econômica viesse a existir nesse mundo imaginário. Entretanto, em nosso mundo
real, esses estudos são uma parte essencial da teoria econômica.
O fato de a praxeologia, ao se preocupar com a compreensão da realidade,
intensificar sua investigação sobre aqueles problemas de maior interesse para seu
propósito não altera o caráter apriorístico de seu raciocínio. Mas determina a
maneira pela qual a economia, até agora a única parte estruturada da praxeologia,
apresenta os resultados de seus esforços.
A economia não adota o mesmo procedimento que a lógica e a matemática. Não
se limita a formular um sistema de meros raciocínios aprioristas desvinculados da
realidade. Adota, nas suas análises, pressupostos que sejam úteis para
compreensão da realidade. Não existe, nos tratados e monografias sobre
economia, uma separação marcada entre a ciência pura e a aplicação prática de
seus teoremas e situações históricas ou políticas específicas. Para apresentação
sistematizada de suas conclusões, a economia adota uma forma na qual estão
entrelaçadas a teoria apriorística e a interpretação de fenômenos históricos.
É óbvio que este procedimento é necessário, tendo em vista a própria natureza e
essência do tema que a economia aborda. Já deu provas de sua utilidade.
Entretanto, não devemos subestimar o fato de que a utilização deste procedimento
singular, e inclusive algo estranho do ponto de vista da lógica, requer cautela e
sutileza, e que mentes superficiais e pouco críticas são frequentemente induzidas
ao erro pelo emprego descuidado desses dois diferentes métodos epistemológicos.
Não existe algo que se possa chamar de método histórico de análise econômica
ou mesmo uma economia institucional. Existem economia e história econômica; e
as duas não devem ser confundidas. Todos os teoremas de economia são
necessariamente válidos, sempre que ocorrerem as premissas por eles adotadas.
Claro está que não têm significação prática em situações onde tais condições não
existam. Os teoremas referentes à troca indireta não são aplicáveis a situações
onde não exista troca indireta. Mas isto não diminui sua validade.50
As tentativas, por parte de muitos políticos e importantes grupos de pressão, de
desacreditar a economia e de difamar os economistas têm provocado confusão no
debate econômico. O poder embriaga tanto um ditador como uma maioria
democrática. Ainda que, relutantemente, sejam forçados a admitir que estejam
sujeitos às leis da natureza, rejeitam a própria noção de lei econômica. Não são
eles os que legislam como lhes convém? Não são eles que têm o poder de derrotar
seus adversários? Nenhum senhor guerreiro admite qualquer limite ao seu poder, a
não ser aquele que lhe é imposto por uma força militar superior à sua. Sempre
existirão penas servis para redigir complacentemente doutrinas adequadas aos
detentores do poder. E chamam estas deturpações de “economia histórica”. De
fato, a história econômica é um extenso registro de políticas de governo que
falharam porque foram elaboradas com um imprudente desrespeito às leis da
economia.
É impossível compreender a história do pensamento econômico se não
atentarmos para o fato de que a economia tem sido um desafio à vaidade dos
detentores do poder. Um verdadeiro economista jamais será benquisto por
autocratas e demagogos, que sempre o considerarão um intrigante e que, quanto
mais estiverem intimamente convencidos de que suas objeções são corretas e
fundamentadas, mais o odiarão.
Diante de toda essa agitação frenética, é oportuno consignar o fato de que o
ponto de partida de todo raciocínio praxeológico e econômico, ou seja, a categoria
ação humana, não dá margem a qualquer crítica ou objeção. Nenhum apelo a
quaisquer considerações históricas ou empíricas pode invalidar a afirmativa
segundo a qual os homens têm o propósito de atingir determinados fins. Nada que
se possa dizer sobre irracionalidade, sobre os abismos insondáveis da alma
humana, sobre a espontaneidade dos fenômenos vitais, sobre automatismos,
reflexos ou tropismos, pode invalidar a afirmativa segundo a qual o homem usa sua
razão para realizar seus desejos e aspirações. Tendo por princípio inabalável a
categoria ação humana, a praxeologia e a economia progridem passo a passo por
meio do raciocínio dedutivo. Definindo, com precisão, premissas e condições,
constroem um sistema de conceitos e extraem por meio de raciocínio logicamente
incontestável todas as conclusões possíveis. Em relação às conclusões assim
obtidas, só se podem admitir duas atitudes: ou se evidenciam erros lógicos na série
de deduções que produziram as conclusões ou se deve reconhecer sua correção e
validade.
É inútil alegar que a vida e a realidade não são lógicas. A vida e a realidade não
são nem lógicas nem ilógicas; são simplesmente dados. Entretanto, a lógica é o
único instrumento de que o homem dispõe para compreendê-las. É inútil alegar que
a vida e a história são inescrutáveis e inefáveis e que a razão humana não
consegue penetrar na sua essência.Aqueles que assim pensam se contradizem ao
formular teorias – sem dúvida teorias espúrias – sobre aquilo que consideram
inescrutáveis. Muitas coisas estão fora do alcance da mente humana. Mas o homem
só poderá adquirir um conhecimento, por menor que seja se utilizar a capacidade
que lhe é proporcionada pela razão.
Não menos ilusórias são as tentativas de contrapor a compreensão aos teoremas
da economia. O domínio da compreensão histórica é tão somente a elucidação
daqueles problemas que não podem ser inteiramente explicados pelas ciências não
históricas. A compreensão não pode contradizer as teorias formuladas pelas
ciências não históricas. A compreensão não pode ir além de, por um lado,
estabelecer o fato de que as pessoas são motivadas por certas ideias, visam a
atingir certos fins e aplicam certos meios para atingir estes fins; e, por outro,
atribuir aos vários fatores históricos a sua relevância, na medida em que isto não
possa ser feito pelas ciências não históricas. A compreensão não autoriza nenhum
historiador a afirmar que o exorcismo foi, em algum momento, um meio adequado
de devolver a saúde a uma vaca doente. Tampouco lhe é permitido sustentar que
uma lei econômica não era válida na antiga Roma ou no império dos incas.
O homem não é infalível. Busca a verdade, isto é, a mais adequada compreensão
da realidade que lhe é permitida pelas limitações de sua mente e de sua razão. O
homem nunca poderá ser onisciente. Nunca poderá ter absoluta certeza de não
serem equivocadas as suas conclusões e de não ser um erro aquilo que considera
uma verdade incontestável. O mais que o homem pode fazer é submeter sempre
todas as suas teorias ao mais rigoroso exame crítico. Para o economista, isto
significa rastrear todos os teoremas econômicos até a sua origem certa e
inquestionável – a categoria ação humana – e comprovar, pela mais cuidadosa
análise, todas as premissas e inferências desde esta origem até o teorema em
exame. De modo algum pudesse pretender que esse procedimento seja uma
garantia de que erros não serão cometidos. Mas é, sem dúvida, o método mais
eficaz de evitá-los.
A praxeologia – portanto também a economia – é um sistema dedutivo. Sua força
provém do ponto de partida de suas deduções, ou seja, de categoria ação humana.
Nenhum teorema econômico, que não esteja consistentemente ligado a esta
origem por uma irrefutável sequência lógica, pode ser considerado como válido.
Qualquer afirmativa proclamada sem esta ligação é arbitrária e insustentável. Não
é possível tratar qualquer parte da economia sem enquadrá-la numa teoria geral
da ação.
As ciências empíricas partem dos eventos singulares e progridem do que é
individual e específico para o que é mais universal, o que lhes possibilita um
tratamento mais compartimentalizado. Podem lidar com segmentos de seu campo
de investigação sem se preocupar com o conjunto. Em contrapartida, o economista
não pode, jamais, ser um especialista. Ao lidar com qualquer problema, deve ter
sempre uma visão abrangente de todo o conjunto.
Os historiadores costumam incorrer neste erro. São propensos a inventar teorias
ad hoc. Chegam, às vezes, a esquecer de que é impossível inferir relações causais
do estudo de fenômenos complexos. Sua pretensão de investigar a realidade sem
qualquer referência ao que depreciativamente qualificam como ideias
preconcebidas e inúteis. Na verdade, aplicam inadvertidamente doutrinas populares
que há muito tempo já foram desmascaradas como falaciosas e contraditórias.
11. As limitações dos conceitos praxeológicos
As categorias e conceitos praxeológicos foram formulados para compreensão da
ação humana. Tornam-se contraditórios e sem sentido, se tentarmos aplicá-los a
circunstâncias diferentes das existentes na vida real. O ingênuo antropomorfismo
das religiões primitivas é inaceitável ao pensamento filosófico. Da mesma forma, é
igualmente questionável a pretensão de certos filósofos em definir, usando
conceitos praxeológicos, os atributos de um ser absoluto, livre de todas as
limitações e fraquezas do ser humano.
Os filósofos e teólogos escolásticos, e também os teístas e deístas do Iluminismo,
conceberam um ser absoluto e perfeito, eterno, onisciente e onipotente e que,
apesar disso, planejava e agia, objetivava atingir fins e empregava meios para
atingir esses fins. Ora, só age quem se considera em uma situação insatisfatória, e
só reitera a ação quem não é capaz de suprimir o seu desconforto de uma vez por
todas. Quem age está descontente com sua situação e, portanto, não é onipotente.
Se estivesse satisfeito, não agiria e se fosse onipotente, já teria, há muito tempo,
suprimido completamente a sua insatisfação. Um ser todo-poderoso não tem
necessidade de escolher entre várias situações de maior ou menor desconforto. A
onipotência pressupõe o poder de atingir qualquer objetivo e desfrutar a felicidade
plena, sem ser incomodado por quaisquer limitações. Mas isto é incompatível com
o próprio conceito de ação. Para um ser todo-poderoso, não existem as categorias
meios e fins. Está acima de qualquer percepção, conceitos ou compreensão que
sejam inerentes ao ser humano. Para um ser todo-poderoso, quaisquer “meios” lhe
permitem realizar tarefas ilimitadas; pode empregar todos os “meios” para atingir
qualquer fim ou pode atingir todos os fins sem empregar nenhum “meio”. Está
além da capacidade da mente humana lucubrar o conceito de onipotência até as
suas últimas consequências lógicas. Os paradoxos são insolúveis. Teria o ser todopoderoso o poder de realizar algo que não lhe fosse possível modificar mais tarde?
Se tiver este poder, então existem limites à sua força e ele não é todo-poderoso;
se lhe falta este poder, só por este fato já não é todo-poderoso.
Acaso serão compatíveis a onipotência e a onisciência? A onisciência pressupõe
que todos os acontecimentos futuros já estão inalteravelmente determinados. Se
existe a onisciência, a onipotência é inconcebível. A impossibilidade de alterar o
predeterminado curso dos acontecimentos é uma restrição de poder incompatível
com o conceito de onipotência; são limitados o seu poder e o seu controle sobre os
fenômenos. A ação é uma manifestação do homem que está restringida pelos
limitados poderes de sua mente, pelas características fisiológicas de seu corpo,
pelas vicissitudes de seu meio ambiente e pela escassez de fatores dos quais
depende o seu bem estar. É inútil aludir às imperfeições e fraquezas do ser
humano, quando se pretende descrever um ente absolutamente perfeito. A própria
ideia de perfeição absoluta é, sob todos os aspectos, autocontraditória. O estado
de perfeição absoluta só pode ser concebido como algo completo, final e não
sujeito a qualquer mudança. A menor mudança poderia apenas reduzir sua
perfeição e transformá-lo num estado menos perfeito que o anterior; a simples
possibilidade de que ocorra uma mudança é incompatível com o conceito de
perfeição absoluta. Mas a ausência de mudança – isto é, a completa imobilidade,
imutabilidade e rigidez – são equivalentes à ausência de vida. A vida e a perfeição
são incompatíveis, como também o são a morte e a perfeição.
O ser vivo não é perfeito porque é passível de sofrer mudanças; o morto não é
perfeito porque lhe falta a vida.
A linguagem dos homens que vivem e agem utiliza formas comparativas e
superlativas ao comparar situações melhores ou piores. A noção de absoluto não
permite comparações; é uma noção limite. O absoluto é indeterminável,
impensável e inexprimível. É uma concepção quimérica. Não existe felicidade
plena, nem pessoas perfeitas, nem eterno bem estar. Qualquer tentativa para
descrever as condições de um País das Maravilhas ou a vida dos anjos resulta em
paradoxos insuperáveis. Em qualquer situação existem limitações e não perfeição;
existem tentativas de superar obstáculos, assim como frustração e
descontentamento.
Quando os filósofos já não se interessavam mais pelo absoluto, os utopistas
retomaram o tema, elaborando sonhos sobre o estado perfeito. Não percebem que
o estado, o aparato social de compulsão e coerção, é uma instituição criada para
lidar com a imperfeição humana, e que sua função essencial consiste em aplicar
punições em minorias, a fim de proteger as maiorias das consequências danosas de
certas ações. Com homens “perfeitos”, não haveria necessidade de compulsão e
coerção. Os utopistas, entretanto, não levam em consideração a natureza humana
nem as inexoráveis condições de vida humana. Godwin imaginava que o homem
pudesse tornar-se imortal quando fosse abolida a propriedade privada.51 Charles
Fourier tartamudeava sobre oceanos contendo limonada ao invés de água
salgada.52 O sistema econômico de Marx, cegamente, ignora a existência da
escassez material dos fatores de produção. Trotsky chegou a afirmar que no
paraíso proletário “o homem médio alcançará o nível intelectual de um Aristóteles,
de um Goethe ou de um Marx. E sobre estes cumes, novas alturas serão
alcançadas”.53
Atualmente, as quimeras mais populares são a estabilização e a segurança.
Analisaremos estes slogans mais adiante.
Rodapé
19 A história econômica, a economia descritiva e a estatística econômica também
são história. O termo sociologia é empregado com dois significados diferentes. A
sociologia descritiva lida com os fenômenos históricos da atividade da ação
humana que não são abordados pela economia descritiva; de certo modo, invade o
campo da etnologia e da antropologia. Por outro lado, a sociologia geral aborda
experiência histórica de unir o ponto de vista mais universal de vista do que os
outros ramos da história. A própria história, por exemplo, se ocupa de unir
determinada cidade ou cidades num período especifico, ou de um determinado ou
de certa geografia. Max Weber em seu tratado principal (Wirtschaft und
Gesellschaft Tülingen, 1922, p. 513-600) trata da cidade em geral, isto é, com toda
a experiência histórica relativa às cidades, sem qualquer limitação de períodos
históricos, áreas geográficas, individual ou povos, nações, raças e civilizações.
20 Poucos filósofos tinham mais familiaridade com vários ramos do conhecimento
contemporâneo que Bergson. Entretanto, uma observação casual do seu último
livro, evidencia claramente que Bergson ignorava totalmente o teorema
fundamental de valor e de troca. Falando de troca ele comenta: “l’on ne peut le
pratiquer sans s’être demandé si les deux objets échangés sont bien de même
valeur, c’est-à-dire échangeables contre un même troisiéme”, Les Deux Sources de
la morale et de la religion , Paris, 1932, p. 68.
21 Apriorismo metodológico é a doutrina segundo a qual existe conhecimento que
antecede a experiência (ou as percepções sensoriais). (N.T.)
22 Lévy-Bruhl, How Natives Think, trans. by L.A. Clare. New York, 1932, p. 386.
23 Ibid., p. 377.
24 Lévy-Bruhl, Primitive Mentality, trans. by L.A. Clare New York, 1923, p. 27-29.
25 Ibid., p. 27.
26 Ibid., p. 437.
27 Ver os brilhantes estudos de Ernest Cassirer, Philosophie der symbolischen
Formen. Berlin, 1925, vol. 2, 78.
28 A ciência diz Meyerson é “l’acte par lequel nous ramenons a l’identique ce qui
nous a, tout d’abord, paru n’être pas tel.” (De L’explication dans dles sciences ,
Paris, 1927, p. 154). Ver também Morris R. Cohen, A Preface to Logic. New York,
1944, pp. 11-14.
29 Henri Poincaré, La science et L’ hypothèse, Paris, 1918, p. 69.
30 Felix Kaufmann, Methodolgy of Social Science, Londres, 1944, p. 46-47.
31 Albert Einstein, Geometrie und Erfahrung, Berlin, 1923, p. 3.
32 Ver E.P. Cheyney, Law in History and Other Essays, New York, 1927, p. 27.
33 Ver adiante p. 185-193, a crítica da teoria coletivista da sociedade.
34 Universalismo é o conceito holístico ou coletivista que considera a sociedade
como uma entidade que tem vontade e objetivos próprios, independentes e
separados daqueles dos indivíduos. Ao sustentar que famílias e comunidades
dirigem o desenvolvimento dos indivíduos, os universalistas consideram os
agregados sociais, tais como as nações, como um todo articulado ao qual as
funções do
indivíduo
devem
subordinar-se. Um
proponente
moderno
do
universalismo foi Othmar Spanm, 1878-1950, cujas ideias serviram de base ao
nazismo. Extraído de Mises Made Easier. Percy Greaves Jr., op. cit. (N.T.)
35 Realismo conceitual é a teoria segundo a qual abstrações universais, classes
gerais ou tipos ideais não constatáveis na prática têm uma realidade independente,
igual e, às vezes, superior à realidade de suas partes componentes individuais. Por
exemplo, o realismo conceitual considera o termo abstrato “capital” como algo
concreto e real, com usos e características diferentes dos “bens de capital” que o
constituem. Outro exemplo é o de “renda nacional”. Extraído de Mises Made Easier.
Percy Greaves Jr., op. cit. (N.T.)
36 Gestaltpsychologie – escola de psicologia que sustenta que os homens
percebem o significado ou a realidade das coisas de acordo com a forma, padrão,
configuração ou arranjo como um todo, e não pela decomposição em partes ou
unidades separadas do todo. Exemplos: uma melodia tem maior significado para o
ouvinte do que as notas isoladas; três linhas iguais formando um triângulo
equilátero têm uma significação diferente das mesmas linhas dispostas de outra
maneira. (N.T.)
37
Understanding
–
esta
palavra,
traduzida
por
“compreensão”,
será
frequentemente usada, ao longo deste livro, com o seguinte significado: “o poder
da mente humana de perceber ou apreender o significado de uma situação com a
qual se defronta. Compreensão é mais o resultado da percepção intelectual do que
do conhecimento factual, embora não deve nunca contradizer os ensinamentos
válidos dos outros ramos do conhecimento, inclusive os das ciências naturais. A
compreensão é usada por todo o mundo e é o único método apropriado para lidar
com a história e com a incerteza das condições futuras, ou em qualquer situação
em que o nosso conhecimento seja incompleto.” Extraído de Mises Made Easier,
Percy L. Greaves Jr., op. cit. (N.T.)
38 Henri Bergson, La pensée et le mouvant, 4. ed., Paris, 1934, p. 205.
39 Ver Ch. V. Langlois e Ch. Seignobos, Introduction to the Study of History. Trad.
G.G. Berry, Londres, 1925, p. 205-208.
40 Ver adiante p. 479-483.
41 Ver adiante p. 412-414.
42 Ver A. Eddington, The Philosophy of Physical Science, Nova York, 1939, p. 28-48.
43 Como não estamos fazendo uma dissertação sobre epistemologia geral, mas,
apenas, a base indispensável de um tratado de economia, não é necessária
enfatizar as analogias entre a compreensão da relevância histórica e a tarefa do
médico ao fazer um diagnóstico. A epistemologia da biologia está fora dos limites
da nossa investigação.
44 Ver adiante p. 306-310.
45 Os aspectos econômicos da ciência política. (N.T.)
46 Ver adiante p. 287-289 e 295-299.
47 Disutility – o estado ou capacidade de produzir consequências indesejáveis, tais
como aborrecimento, desconforto, irritação, incômodo, dor ou sofrimento. O
contrário de utilidade. (N.T.)
48 Ver adiante p. 167-170.
49 Crédito circulante – crédito oferecido pelos bancos sob a forma de notas
bancárias (notas promissórias sem juros, pagáveis contra apresentação) ou
depósitos à vista criados especialmente para este fim. Distingue-se do crédito
oferecido com base em seus próprios fundos ou com base em fundos depositados
pelos seus clientes. O crédito circulante coloca, à disposição dos tomadores, fundos
novos, criados sem que tenha havido diminuição ou restrição nos fundos
disponíveis para as demais pessoas. (N.T.)
50 Ver Frank H. Knight, The Ethics of Competition and Other Essays, Nova York,
1935, p.139.
51 William Godwin, An Enquiry Concerning Political Justice and its Influence on
General Virtue and Happiness, Dublin, 1793, vol. 2, p. 393-403.
52 Charles Fourier, Théorie des quatre mouvements, Obras completas, 3. ed., Paris,
1846, vol. 1, p. 43.
53 Leon Trotsky, Literature and Revolution. Trad. por R. Strunsky, Londres, 1925, p.
256.
CAPÍTULO 3
A Economia e a Revolta Contra a Razão
1. A revolta contra a razão
Houve, ao longo da história, filósofos que não hesitaram em superestimar a
capacidade da razão. Supunham que o homem fosse capaz de descobrir, pelo
raciocínio, as causas originais dos eventos cósmicos ou os objetivos que a força
criadora do universo, determinante de sua evolução, pretendia alcançar.
Discorreram sobre o “absoluto” com a tranquilidade de quem descreve o seu
relógio de bolso. Não hesitaram em anunciar valores eternos e absolutos nem em
estabelecer códigos morais que deveriam ser respeitados por todos os homens.
Houve também uma longa série de criadores de utopias. Imaginavam paraísos
terrestres onde só prevaleceria a razão pura. Não percebiam que aquilo que
consideravam como razões finais ou como verdades manifestas eram tão somente
fantasia de suas mentes. Consideravam-se infalíveis e, com toda tranquilidade,
defendiam a intolerância e o uso da violência para oprimir dissidentes e heréticos.
Preferiam a implantação de um regime ditatorial, ou para si mesmo, ou para
aqueles que se dispusessem a executar fielmente os seus planos. Acreditavam que
essa era a única forma de salvação para uma humanidade sofredora.
Houve Hegel. Certamente foi um pensador profundo; suas obras são um rico
acervo de ideias estimulantes. Não obstante, escreveu sempre dominado pela
ilusão de que Geist, o Absoluto, revelava-se por seu intermédio. Não havia nada no
universo que não estivesse ao alcance da sabedoria de Hegel. Pena que sua
linguagem fosse tão ambígua, a ponto de ensejar múltiplas interpretações. Os
hegelianos de direita entenderam-na como um endosso ao sistema prussiano de
governo autocrático, bem como aos dogmas da igreja prussiana. Os hegelianos de
esquerda extraíram de suas teorias o ateísmo, o radicalismo revolucionário mais
intransigente e doutrinas anarquistas.
Houve Augusto Comte. Pensava conhecer o futuro que estava reservado para a
humanidade. E, portanto, considerava-se o supremo legislador. Pretendia proibir
certos estudos astronômicos, por considerá-los inúteis. Planejava substituir o
cristianismo por uma nova religião e chegou a escolher uma mulher para ocupar o
lugar da Virgem. Comte pode ser desculpado, já que era louco, no sentido mesmo
com que a patologia emprega este vocábulo. Mas como desculpar os seus
seguidores?
Muitos outros exemplos deste tipo poderiam ser enumerados. Mas não podem ser
usados como argumentos contra a razão, o racionalismo ou a racionalidade. Tais
desvarios não têm nada a ver com o problema essencial que consiste em procurar
saber se a razão é ou não o instrumento adequado e único de que dispõe o homem
para obter tanto conhecimento quanto lhe seja possível. Aqueles que, honesta e
conscienciosamente, procuram a verdade jamais pretenderam que a razão e a
pesquisa científica possam responder a todas as questões.
Sempre tiveram plena consciência das limitações da mente humana. Não podem
ser responsabilizados pela tosca filosofia de um Haeckel, nem pelo simplismo de
diversas escolas materialistas.
Os filósofos racionalistas sempre estiveram preocupados em mostrar tanto os
limites da teoria apriorística quanto os da investigação empírica.54 David Hume, o
fundador da economia política inglesa, os utilitaristas e os pragmatistas americanos
não podem ser acusados de haver superestimado a capacidade do homem para
alcançar a verdade. Seria mais justificável acusar a filosofia dos últimos duzentos
anos de um excesso de agnosticismo e de cepticismo do que de um excesso de
confiança no que poderia ser alcançado pela mente humana.
A revolta contra a razão, atitude mental típica de nossa época, não se origina na
falta de modéstia, cautela ou autocrítica por parte dos filósofos. Tampouco pode
ser atribuída a falhas na evolução da moderna ciência natural. Ninguém pode
ignorar as fantásticas conquistas da tecnologia e da terapêutica. É inútil atacar a
ciência moderna, seja do ponto de vista do intuicionismo e do misticismo, seja de
qualquer outro ângulo. A revolta contra a razão foi dirigida para outro alvo. Não
tinham em mira as ciências naturais, e sim a economia. O ataque às ciências
naturais foi uma consequência lógica e natural do ataque à economia. Seria
inconcebível impugnar o uso da razão em um determinado campo do
conhecimento, sem impugná-lo também nos demais.
Esta insólita reação teve sua origem na situação existente em meados do século
XIX. Os economistas já tinham, naquela época, demonstrado cabalmente que as
utopias socialistas não passavam de ilusões fantasiosas. Entretanto, as deficiências
da ciência econômica clássica os impediram de compreender por que qualquer
plano socialista é irrealizável; mas eles já sabiam o suficiente para demonstrar a
futilidade dos programas socialistas. As ideias comunistas já estavam derrotadas.
Os socialistas não tinham como responder às devastadoras críticas que lhes eram
feitas, nem como aduzir qualquer argumento novo em seu favor.Parecia que o
socialismo estava liquidado, e para sempre.
Só havia um caminho para evitar a derrocada: atacar a lógica e a razão e
substituir o raciocínio pela intuição mística. Estava reservado a Karl Marx o papel
histórico de propor esta solução. Com base no misticismo dialético de Hegel, Marx,
tranquilamente, arrogou-se a capacidade de predizer o futuro. Hegel pretendia
saber que Geist, ao criar o universo, desejava instaurar a monarquia de Frederico
Guilherme III. Mas Marx estava mais bem informado sobre os planos de Geist:
havia descoberto que a evolução histórica nos conduziria, inevitavelmente, ao
estabelecimento do milênio socialista. O socialismo estava fadado a acontecer
“com a inexorabilidade de uma lei da natureza”. E como, segundo Hegel, cada fase
ulterior da história é melhor e superior do que a que a antecedeu, não cabia
nenhuma dúvida de que o socialismo, a etapa final da evolução da humanidade,
seria perfeito sob todos os aspectos. Assim sendo, resultava inútil a discussão dos
detalhes do funcionamento de uma comunidade socialista. A história, no devido
tempo, disporia todas as coisas da melhor maneira; e para isso não necessitava da
ajuda dos homens, meros seres mortais.
Mas havia ainda um obstáculo principal a superar: a crítica devastadora dos
economistas. Marx, entretanto, já tinha uma solução para superar este obstáculo. A
razão humana, afirmava ele, por sua própria natureza, não tem condições de
descobrir a verdade. A estrutura lógica da mente varia segundo as várias classes
sociais. Não existe algo que se possa considerar como uma lógica universalmente
válida. A mente humana só pode produzir “ideologias”, ou seja, segundo a
terminologia marxista, um conjunto de ideias destinadas a dissimular os interesses
egoístas da classe social de quem as formula. Portanto, a mentalidade “burguesa”
dos economistas é absolutamente incapaz de produzir algo que não seja uma
apologia ao capitalismo. Os ensinamentos da ciência “burguesa”, que são uma
consequência da lógica “burguesa”, não têm nenhuma validade para o proletariado,
a nova classe social que abolirá todas as classes e transformará a Terra num
paraíso.
Mas, evidentemente, a lógica da classe proletária não é apenas a lógica de uma
classe. “As ideias que a lógica proletária engendra não são ideias partidárias, mas
emanações da lógica mais pura e simples”. 55 Mais ainda, em virtude de algum
privilégio especial, a lógica de certos burgueses não estava manchada pelo pecado
original de sua condição burguesa. Karl Marx, o filho de um próspero advogado,
casado com a filha de um nobre prussiano, e seu colaborador Frederick Engels, um
rico fabricante de tecidos, se consideravam acima de suas próprias leis e, apesar da
origem burguesa, se julgavam dotados da capacidade de descobrir a verdade
absoluta.
Compete à história explicar as condições que fizeram com que essa doutrina tão
primária se tornasse tão popular. A tarefa da economia é outra. Compete-lhe
analisar o polilogismo marxista, bem como todos os demais tipos de polilogismo
formados segundo o mesmo modelo, e demonstrar suas falácias e contradições.
2. O exame lógico do polilogismo
O polilogismo marxista assegura que a estrutura lógica da mente é diferente nas
várias classes sociais. O polilogismo racial difere do polilogismo marxista apenas na
medida em que atribui uma estrutura lógica peculiar a cada raça, e não a cada
classe. Assim, todos os membros de uma determinada raça, independentemente da
classe a que pertencem, são dotados da mesma estrutura lógica.
Não há necessidade de fazer, agora, uma análise crítica de como essas doutrinas
entendem os conceitos social, classe e raça. Não é necessário perguntar aos
marxistas como e quando um proletário que ascende à condição burguesa
transforma sua mente proletária em uma mente burguesa. Tampouco interessa
solicitar aos racistas que expliquem qual a lógica peculiar a alguém cuja estirpe
racial não seja pura. Existem objeções bem mais sérias a serem levantadas. Nem
os marxistas, nem os racistas, nem os defensores de qualquer outra forma de
polilogismo foram além de afirmar que a estrutura lógica da mente é diferente para
as várias classes, raças ou nações. Nunca tentaram demonstrar precisamente em
que aspectos a lógica dos proletários difere da lógica dos burgueses, ou de que
modo a lógica dos arianos difere da lógica dos não arianos, ou a lógica dos
alemães, da lógica dos franceses ou dos ingleses. Aos olhos dos marxistas, a teoria
dos custos comparativos elaborada por Ricardo é falsa, porque seu autor era
burguês. Os racistas alemães condenam a mesma teoria, porque Ricardo era judeu;
e os nacionalistas alemães, porque ele era inglês. Alguns professores alemães
recorreram aos três argumentos para invalidar as teorias ricardianas. Entretanto,
não basta rejeitar uma teoria inteira meramente em função da origem do seu
autor. O que se espera é que, primeiro, seja apresentado um sistema lógico
diferente do utilizado pelo autor criticado para, em seguida, examinar ponto por
ponto da teoria contestada e mostrar onde, em seu raciocínio, são feitas
inferências que, embora corretas do ponto de vista da lógica do autor, sejam
desprovidas de validade segundo o ponto de vista da lógica proletária, ariana ou
alemã. Finalmente, deveria ser explicado o tipo de conclusões a que chegaríamos
pela substituição de inferências defeituosas por inferências corretas, segundo a
lógica adotada pelo crítico. Como todos sabem esta tentativa nunca foi e nunca
poderá ser feita por ninguém.
Além disso, é fato inegável que existem divergências, quanto a questões
essenciais, entre pessoas que pertencem à mesma classe, raça ou nação.
Infelizmente existem alemães – diziam os nazistas – que não pensam como um
verdadeiro alemão. Mas se um alemão nem sempre pensa como deveria, e, ao
contrário, pensa segundo uma lógica não germânica, a quem caberá decidir qual
forma de pensar é verdadeiramente alemã e qual não é? O já falecido professor
Franz Oppenheimer assegurava que “o indivíduo erra com frequência, por perseguir
seus interesses; uma classe, no geral, não erra nunca”. 56 Esta afirmativa sugere a
infalibidade do voto majoritário. Entretanto, os nazistas rejeitavam o critério de
decisão pelo voto majoritário como sendo manifestamente antigermânico. Os
marxistas fingem aceitar o princípio democrático do voto majoritário.57 Mas, na
hora da verdade, são a favor de que uma minoria governe, desde que esta minoria
pertença ao seu próprio partido. Lembremo-nos de como Lenin dissolveu, à força, a
Assembleia Constituinte – eleita sob os auspícios de seu próprio governo, sob
sufrágio universal de homens e mulheres – porque apenas um quinto de seus
membros eram bolchevistas!
Um defensor do polilogismo, para ser consistente, terá de sustentar que certas
ideias são corretas, porque seu autor pertence a uma determinada classe, nação ou
raça. Mas a consistência lógica não é uma de suas virtudes. Por isso, os marxistas
não hesitam em qualificar como “pensador proletário” qualquer pessoa que
defenda suas doutrinas. Todos os outros são taxados de inimigos da classe e de
traidores da sociedade. Hitler, ao menos, era mais franco ao afirmar que o único
método disponível para distinguir os verdadeiros alemães dos “mestiços” e dos
alienígenas consistia em enunciar as características de um alemão genuíno e
verificar quem nelas se enquadrava.58 Ou seja, um homem moreno, cujas
características físicas de modo algum se enquadravam no protótipo da raça
superior dos louros arianos, se arrogou ao dom de descobrir a única doutrina
adequada à mente alemã e de não aceitar como alemães todos aqueles que não
aceitassem essa doutrina, quaisquer que fossem as suas características físicas. Não
é necessário acrescentar mais nada para provar a insanidade dessa teoria.
3. O exame praxeológico do polilogismo
Uma ideologia, no sentido com que os marxistas empregam o termo, é uma
doutrina que, embora errada do ponto de vista da autêntica lógica proletária, é
conveniente aos interesses egoístas da classe que a formulou. Assim sendo, uma
ideologia é sempre falsa, mas atende aos interesses da classe que a formulou,
precisamente por causa de sua falsidade. Muitos marxistas acreditam ter provado
este princípio ao alegarem que as pessoas não almejam o conhecimento em si. O
que interessa ao cientista é ser bem-sucedido. As teorias são formuladas,
invariavelmente, objetivando-se sua aplicação prática. A ciência pura ou a
desinteressada busca da verdade é algo que, na realidade, não existe.
Só para argumentar, admitamos que todo esforço para alcançar a verdade seja
motivado por considerações sobre sua aplicação prática para atingir determinado
objetivo. Ainda assim, isto não explica por que uma teoria “ideológica” – isto é,
falsa – seria mais proveitosa do que uma teoria correta. O fato de a aplicação
prática de uma teoria produzir o resultado previsto é universalmente aceito como
uma confirmação de sua validade. É um paradoxo afirmar que uma doutrina falsa
possa ser mais útil do que uma doutrina correta.
Os homens usam armas de fogo. Para aprimorá-las, desenvolveu-se a balística.
Mas é claro que, precisamente porque desejavam uma maior eficácia, fosse para
caçar animais, fosse para se matarem uns aos outros, procuraram desenvolver uma
teoria balística correta. De nada serviria uma balística meramente “ideológica”.
Para os marxistas, não passa de uma “pretensão arrogante” o fato de os
cientistas afirmarem ter na simples busca do conhecimento uma motivação
suficiente para seu trabalho. Assim, afirmam que Maxwell chegou à sua teoria das
ondas eletromagnéticas graças a interesses comerciais na implantação do telégrafo
sem fio.59 É irrelevante, neste nosso exame da questão da ideologia, se isto é
verdade ou não. O que importa é saber se o suposto interesse dos industriais do
século XIX, que consideravam o telégrafo sem fio como “a pedra filosofal e o elixir
da juventude”, 60 induziu Maxwell a formular uma teoria correta sobre as ondas
eletromagnéticas ou se o induziu a formular uma superestrutura ideológica dos
interesses egoístas da classe burguesa. Não há dúvida de que a pesquisa
bacteriológica foi motivada não apenas pelo desejo de combater doenças
contagiosas, mas também pelo desejo dos produtores de vinho e de queijo em
melhorar seus métodos de produção. Mas o resultado obtido, certamente, não é
“ideológico”, no sentido com que os marxistas empregam este termo.
O que levou Marx a formular sua doutrina sobre ideologias foi o desejo de solapar
o prestígio da ciência econômica. Marx tinha plena consciência da sua incapacidade
para refutar as objeções levantadas pelos economistas quanto à praticabilidade dos
projetos visionários dos socialistas. Na verdade, estava tão fascinado pelas teorias
dos economistas clássicos ingleses, que as considerava intocáveis. Ou Marx nunca
chegou, a saber, das dúvidas que a teoria clássica de valor suscitava nas mentes
mais judiciosas, ou, se chegou, a saber, não compreendeu suas transcendências.
Suas ideias econômicas são pouco mais do que uma versão deturpada das teorias
de Ricardo. Quando Jevons e Menger abriram uma nova era do pensamento
econômico, a carreira de Marx como autor de textos sobre economia já tinha
terminado; o primeiro volume de Das Kapital já havia sido publicado alguns anos
antes. A única reação de Marx à teoria do valor marginal foi o adiamento da
publicação dos subsequentes volumes de sua obra principal, que só vieram a ser
publicados depois da sua morte.61
Ao desenvolver sua doutrina sobre ideologia, Marx tinha em vista a economia e a
filosofia social do utilitarismo. Sua única intenção era destruir a reputação dos
ensinamentos econômicos que não conseguia refutar por meio da lógica e do
raciocínio. Deu à sua doutrina o caráter de lei universal, válida para todas as
classes sociais em todos os tempos, porque, se sua aplicabilidade ficasse restrita a
um único evento histórico, não poderia ser considerada como lei universal. Pelas
mesmas razões não limitou a validade de sua doutrina ao pensamento econômico,
estendendo-a a todos os ramos do conhecimento.
Segundo Marx, a economia burguesa prestou à burguesia um duplo serviço.
Primeiro, na luta contra o feudalismo e o despotismo real e, depois, na luta contra
a nascente classe proletária. A economia propiciava uma justificativa racional e
moral para a exploração capitalista. Era se quisermos empregar um termo posterior
a Marx, a racionalização das reivindicações dos capitalistas.62 Foram os
capitalistas, envergonhados de sua cobiça e das motivações mesquinhas de sua
própria conduta, e desejosos de evitar a condenação por parte da sociedade, que
encorajaram seus sicofantas, os economistas, a formular doutrinas que lhes
reabilitassem perante a opinião pública.
Ora, recorrer ao conceito de racionalização proporciona apenas uma descrição
psicológica dos motivos que impelem um homem ou um grupo de homens a
formular um teorema ou mesmo toda uma teoria. Mas não nos informa nada sobre
a validade ou nulidade da teoria em exame. Se for constatada a falsidade da teoria
proposta, o conceito de racionalização serve apenas como uma interpretação
psicológica das causas que levaram seus autores ao erro. Mas, se não conseguimos
apontar falhas na teoria proposta, nenhum apelo ao conceito de racionalização
pode anular sua validade. Se fosse verdade que os economistas não teriam outro
intuito que não o de defender as injustas reivindicações dos capitalistas, ainda
assim suas teorias poderiam ser bastante corretas. O único meio aceitável de
refutar uma teoria é submetê-la ao exame da razão e substituí-la por outra teoria
melhor. Ao lidar com o teorema de Pitágoras ou com a teoria dos custos
comparativos, não estamos interessados na motivação psicológica que impeliu
Pitágoras e Ricardo a formularem estes teoremas, embora isto possa ser
importante para o historiador ou para o biógrafo. Para a ciência, a única questão
relevante é saber se esses teoremas resistem a um exame lógico e racional. Os
antecedentes sociais ou raciais de seus autores são irrelevantes do ponto de vista
da ciência.
É verdade que as pessoas, quando querem justificar seus interesses particulares,
procuram usar doutrinas que são mais ou menos aceitas pela opinião pública em
geral. Mais ainda, são perfeitamente capazes de inventar e propagar doutrinas que
possam servir aos seus próprios interesses. Mas isto não explica por que tais
doutrinas, que favorecem os interesses de uma minoria em detrimento dos demais,
são aceitas pela opinião pública em geral. Essas doutrinas “ideológicas” quer sejam
o produto de uma “falsa consciência” que força o homem a pensar
inadvertidamente de uma maneira que convém aos interesses de sua classe, quer
sejam o produto de uma deliberada distorção da verdade, terão sempre que se
defrontar com as ideologias formuladas pelas demais classes e superá-las. Surge
então uma disputa entre ideologias conflitantes. Os marxistas explicam a vitória ou
a derrota nesses conflitos como uma consequência do determinismo histórico.
Geist, a fonte mítica de toda energia, segue um plano definido e predeterminado.
Conduz a humanidade, etapa por etapa, até o estágio final representado pela bem-
aventurança do socialismo. Cada etapa é o produto de certo estágio tecnológico;
todas as demais características da época são a necessária superestrutura
ideológica daquele estágio tecnológico. Geist vai forçando o homem a conceber, e
a realizar, no devido tempo, a tecnologia adequada ao momento que está vivendo.
Tudo o mais é consequência desse estágio tecnológico. O moinho manual tornou
possível a sociedade feudal; a máquina a vapor, por seu turno, deu lugar ao
capitalismo.63 A vontade e a razão humanas desempenham apenas um papel
secundário nessas mudanças. A inexorável evolução histórica obriga o homem –
independentemente de sua vontade – a pensar e agir de acordo com os padrões
correspondentes à sua época. Os homens se iludem ao acreditar que são livres
para escolher entre várias ideias ou entre o que pensam ser certo e errado. Os
homens em si não pensam; é o determinismo histórico que se manifesta através de
seus pensamentos.
Isto é simplesmente uma doutrina mística, que se apoia apenas na dialética
hegeliana: a propriedade privada capitalista é a primeira negação da propriedade
privada individual; provoca, com a inexorabilidade de uma lei da natureza, a sua
própria negação, qual seja, a propriedade pública dos meios de produção.64 É claro
que uma doutrina mística, baseada na intuição, não deixa de ser mística por se
apoiar em outra doutrina igualmente mística. Este artifício, de forma alguma,
explica por que um pensador tem que necessariamente formular ideologias que
atendam aos interesses de sua classe. Admitamos, só para argumentar, que o
homem formule doutrinas benéficas aos seus interesses. Mas, será que o interesse
de um homem coincide sempre com o interesse de toda a sua classe? O próprio
Marx teve de admitir que a organização do proletariado como classe e,
consequentemente, como partido político, foi continuamente perturbada por
conflitos entre os próprios trabalhadores.65 É fato inegável que existem conflitos
de interesses irreconciliáveis entre os trabalhadores que recebem salários obtidos
pelos sindicatos e os trabalhadores que permanecem desempregados porque a
obrigação de pagar os salários obtidos por pressão sindical impede que haja
demanda para atender a toda a oferta de mão de obra. Também não se pode
negar que os trabalhadores de países relativamente mais populosos e os de países
menos populosos têm interesses nitidamente antagônicos em relação às leis de
imigração. A declaração de que a substituição do capitalismo pelo socialismo é do
interesse de todos os proletários não passa de afirmativa arbitrária de Marx e de
outros socialistas. Não pode ser provada pela mera alegação de que a ideia
socialista é a emanação do pensamento proletário e, portanto, certamente
benéfica aos interesses do proletariado.
Com base nas ideias de Sismondi, Frederick List, Marx e da Escola Historicista
Alemã, foi elaborada, e teve grande aceitação, a seguinte interpretação acerca das
vicissitudes do comércio exterior britânico: na segunda metade do século XVIII e na
maior parte do século XIX, era conveniente aos interesses da burguesia inglesa
uma política de livre comércio. Como consequências disso, os economistas ingleses
elaboraram uma doutrina do livre comércio e os empresários organizaram um
movimento popular que, finalmente, conseguiu abolir as tarifas protecionistas. Mais
tarde, mudaram as condições: a burguesia inglesa, já não podendo suportar a
competição dos produtos estrangeiros, passou a exigir tarifas protecionistas. Os
economistas, então, elaboraram uma teoria protecionista para substituir a
ideologia do livre comércio e a Inglaterra retornou ao protecionismo.
O primeiro erro dessa interpretação é considerar a “burguesia” como uma classe
homogênea composta de membros cujos interesses são os mesmos. Um
empresário está sempre premido pela necessidade de ajustar sua atividade
empresarial e comercial às condições institucionais de seu país. Sua atuação como
empresário ou como capitalista, em longo prazo, não é favorecida nem prejudicada
pela existência ou não de tarifas. Quaisquer que sejam as condições institucionais
ou de mercado, o empresário procurará produzir os produtos que lhe proporcionam
maior lucro. O que pode prejudicar ou favorecer seus interesses, em curto prazo,
são apenas as mudanças no cenário institucional. Mas estas mudanças não afetam
da mesma maneira, nem com a mesma intensidade, todos os ramos de negócio ou
todas as empresas. Uma medida que beneficia um setor ou uma empresa pode ser
prejudicial a outros setores ou empresas. Quando são estabelecidos direitos
alfandegários, apenas um reduzido número de itens pode interessar a cada
empresário. E, para cada item, os interesses das diversas firmas e setores são
geralmente antagônicos.
Um determinado setor ou empresa pode ser favorecido pelos privilégios
concedidos pelo governo. Mas, se os mesmos privilégios são concedidos a todos os
setores e empresas, todo empresário perde – não só como consumidor, mas
também como comprador de matérias primas, produtos quase acabados, máquinas
e equipamentos – de um lado, tanto quanto ganha de outro. O interesse egoísta de
um indivíduo pode levá-lo a solicitar proteção para seu próprio setor ou empresa.
Mas não pode motivá-lo a solicitar proteção generalizada para todos os setores ou
empresas, se não estiver certo de que será mais protegido do que todas as outras
atividades.
Os industriais ingleses, do ponto de vista dos interesses de sua classe, não
estavam mais interessados do que os demais cidadãos ingleses na revogação das
Corn Laws.66 Os proprietários de terra se opunham à revogação dessas leis,
porque uma diminuição nos preços dos produtos agrícolas reduziria o valor do
aluguel da terra. Um interesse que seja comum a todos os industriais só pode ser
concebido com base na já ultrapassada lei de ferro dos salários ou na não menos
insustentável doutrina que estabelece serem os lucros o resultado da exploração
dos trabalhadores.
Num mundo organizado com base na divisão do trabalho, qualquer mudança
afeta, de alguma maneira, os interesses imediatos de muitos setores. Por isso, é
sempre fácil rejeitar uma doutrina que proponha alterações nas condições
existentes, acusando-a de ser um disfarce “ideológico” dos interesses de um
determinado grupo. Este tipo de acusação tem sido a principal atitude de muitos
escritores contemporâneos. Não foi Marx o primeiro a assim proceder; antes dele,
outros já haviam adotado tal procedimento.
Neste sentido, cabe recordar as tentativas de alguns escritores do século XVIII de
qualificar os credos religiosos como uma maneira de os sacerdotes iludirem
fraudulentamente as pessoas, com o objetivo de aumentar o poder e a riqueza,
tanto para si, como para seus aliados, os exploradores. Os marxistas endossaram
esta afirmativa, ao qualificar a religião como “ópio das massas”. 67 Nunca ocorreu
aos defensores dessas ideias que, onde existem interesses egoístas a favor, deve
necessariamente haver também interesses egoístas contra. O fato de
simplesmente proclamar que um evento favorece os interesses de uma
determinada classe não pode ser aceito como explicação satisfatória para a
realização desse evento. O que se faz necessário é procurar saber por que o resto
da população, cujos interesses foram prejudicados, não conseguiu frustrar os
esforços daqueles a quem tal evento favorecia.
Qualquer firma e qualquer ramo de negócio tem interesse em aumentar as
vendas de seus produtos. Entretanto, em longo prazo, prevalece a tendência para
equalizar o retorno das várias atividades produtoras. Se a demanda para os
produtos de um determinado setor aumenta, fazendo crescer os seus lucros, novos
capitais se deslocarão para esse setor e a competição provocada pelos novos
investimentos fará diminuir os lucros. De forma alguma se pode afirmar que a
venda de produtos nocivos é mais lucrativa do que a venda de produtos saudáveis.
Se a produção de determinada mercadoria é considerada ilegal e aqueles que a
produzem correm o risco de serem processados, multados ou presos, seus lucros
deverão ser suficientemente altos para compensar os riscos incorridos. Este fato,
entretanto, não altera a taxa média de retorno dos produtores da mercadoria em
questão.
Os ricos, os proprietários das fábricas que já estão em operação, não têm um
interesse específico na manutenção do mercado livre. Embora não desejem que
suas fortunas sejam confiscadas ou expropriadas, são favoráveis a medidas que os
protejam de novos competidores. Aqueles que defendem a livre iniciativa e o livre
mercado não defendem os interesses dos que são ricos hoje. Ao contrário, querem
que seja aberta a possibilidade para homens desconhecidos – os empresários de
amanhã – usarem sua habilidade e engenho, proporcionando, desta forma, uma
vida mais agradável para as gerações vindouras. Querem que se mantenha aberto
o caminho para maior progresso econômico. São eles que formam a verdadeira
vanguarda do progresso.
As ideias a favor do livre comércio, que foram tão bem-sucedidas no século XIX,
estavam respaldadas pelas teorias dos economistas clássicos. O prestígio dessas
ideias era tão grande, que nada, nem mesmo os grupos cujos interesses eram
contrariados por elas, podia impedir que fossem apoiadas pela opinião pública e
que as medidas legislativas necessárias ao seu funcionamento fossem
promulgadas. São as ideias que fazem a história e não a história que faz as ideias.
É inútil argumentar com místicos e profetas. Eles baseiam suas afirmativas na
intuição e não são capazes de submetê-las ao exame racional. Os marxistas se
julgam dotados de uma voz interior que lhes revela o curso da história. Se existem
pessoas que não ouvem esta voz, isto é apenas uma evidência de que não fazem
parte do grupo dos eleitos. É uma insolência dessas pessoas, que vivem no mundo
das trevas, pretender contradizer os iluminados. Deviam, por uma questão de
decência, retirar-se para um canto e lá permanecerem caladas.
Não obstante, a ciência não pode deixar de examinar todas as questões, embora
seja óbvio que nunca conseguirá convencer aqueles que negam a supremacia da
razão. Para estabelecer, entre várias doutrinas antagônicas, qual é a certa e quais
são as erradas, a ciência não pode recorrer à intuição. É fato inegável que o
marxismo não é a única doutrina existente. Existem outras “ideologias” além do
marxismo. Os marxistas alegam que a aplicação dessas outras doutrinas seria
prejudicial à maioria. Mas os defensores dessas doutrinas dizem exatamente o
mesmo em relação ao marxismo.
Os marxistas consideram que só um autor de origem proletária pode elaborar
uma doutrina que não seja viciada pelos interesses da classe dominante. Mas,
quem é proletário? Certamente o doutor Marx, o industrial e “explorador” Engels e
Lênin, descendentes de famílias nobres, não eram de origem proletária. Por outro
lado, Hitler e Mussolini eram genuínos proletários que conheceram a pobreza
quando jovens. O conflito entre os bolcheviques e os mencheviques, ou entre Stálin
e Trotsky, não pode ser considerado como conflito de classes. Foram conflitos entre
seitas de fanáticos que se acusavam, uns aos outros, de traidores.
A essência da filosofia marxista consiste em proclamar: somos nós que temos
razão, porque somos os porta-vozes da nascente classe proletária; a argumentação
lógica não pode invalidar nossos ensinamentos, porque eles são inspirados no
poder supremo que determina o destino da humanidade. Nossos adversários erram,
porque lhes falta a intuição que guia o nosso pensamento; não podemos culpá-los
de, por pertencerem a outras classes, não serem dotados da genuína lógica
proletária e se tornarem vítimas de ideologias. O impenetrável desígnio da história,
que nos escolheu para a vitória, os condenou à derrota. O futuro nos pertence.
4. O polilogismo racista
O polilogismo marxista é uma tentativa fracassada de salvar as insustentáveis
doutrinas socialistas. Tentou substituir o raciocínio pela intuição, apelando para o
supersticioso das massas populares. Mas é precisamente esta atitude que coloca o
polilogismo marxista e seu subproduto, a chamada “sociologia do conhecimento”,
numa posição definitivamente antagônica em relação à ciência e ao raciocínio.
Com o polilogismo dos racistas, as coisas se passam de maneira diferente. Este
tipo de polilogismo está em consonância com tendências atuais do empirismo,
tendências estas que, embora erradas, estão muito em moda. É irrefutável o fato
de que a humanidade está dividida em várias raças, que têm características físicas
diferentes. Para os partidários do materialismo filosófico, os pensamentos são uma
secreção do cérebro, como a bílis é uma secreção da vesícula biliar. Sendo assim, a
consistência lógica lhes impede de rejeitar a hipótese de que os pensamentos
segregados pelas diversas raças possam ter diferenças essenciais. O fato de a
anatomia, até o momento, não ter descoberto diferenças anatômicas nas células
do cérebro das diversas raças não invalida a doutrina segundo a qual a estrutura
lógica da mente seria diferente nas diversas raças, uma vez que sempre seria
possível, em futuras pesquisas, descobrir tais diferenças.
Na opinião de alguns etnólogos, não se pode falar de civilizações superiores ou
inferiores, nem considerar certas raças como mais atrasadas. Há civilizações, de
várias raças, diferentes da civilização ocidental dos povos de origem caucasiana,
mas elas não são inferiores. Cada raça tem uma mentalidade própria. Não se
podem comparar civilizações usando padrões de comparação extraídos de uma
delas. Os ocidentais consideram a civilização chinesa como estagnada e os
habitantes da Nova Guiné como bárbaros primitivos. Mas os chineses e os nativos
da Nova Guiné desprezam a nossa civilização tanto quanto desprezamos a deles.
Tais opiniões são julgamentos de valor e, portanto, arbitrárias. As diversas raças
têm estruturas lógicas diferentes. Cada civilização é adequada à mente da sua
raça, assim como a nossa civilização é adequada à nossa mente. Somos incapazes
de compreender que aquilo que chamamos de atraso, para alguns, não é atraso.
Visto pelo ângulo de sua lógica, é uma forma de se ajustar às condições da
natureza, melhor do que a nossa, supostamente progressista.
Estes etnólogos enfatizam, com razão, que não é tarefa do historiador – e o
etnólogo também é um historiador – formular juízos de valor. Entretanto, estão
inteiramente errados quando pretendem que as outras raças tenham sido guiadas
por objetivos distintos daqueles que estimularam o homem branco. O maior desejo
dos asiáticos e dos africanos, tanto quanto dos povos de origem europeia, é o
sucesso na luta pela sobrevivência; e, para isso, usam a razão, sua arma mais
importante e mais antiga. Procura livrar-se dos animais ferozes e da doença, evitar
a fome e aumentar a produtividade do trabalho. Não há dúvida de que na
consecução desses objetivos os brancos foram mais bem-sucedidos. Todas as
outras raças procuram aproveitar-se das conquistas do mundo ocidental. Aqueles
etnólogos estariam certos se os mongóis ou os africanos, atormentados por uma
doença penosa, renunciassem a ajuda de um médico europeu, porque, segundo
sua mentalidade ou sua visão do mundo, é preferível sofrer a ser aliviado da dor.
Gandhi negou a sua própria teoria, ao dar entrada num hospital moderno para ser
operado da apendicite.
Aos índios norte-americanos faltou a engenhosidade para inventar a roda. Os
habitantes dos Alpes não foram capazes de fabricar esquis que lhes tornariam a
vida bem mais agradável. Tais deficiências não se devem a uma mentalidade
diferente daquelas outras raças que há muito tempo já conheciam a roda e os
esquis; foram falhas, mesmo quando consideradas do ponto de vista dos índios ou
dos montanheses alpinos.
Entretanto, estas reflexões se referem apenas aos motivos que determinam ações
específicas e não ao único problema realmente relevante, qual seja, o de saber se
existe entre as várias raças uma diferença na estrutura lógica da mente, uma vez
que é isto que os racistas alegam.68
Podemos repetir aqui o que já foi dito nos capítulos precedentes sobre a estrutura
lógica da mente e sobre os princípios categoriais do pensamento e da ação. Umas
poucas observações adicionais serão suficientes para refutar definitivamente o
polilogismo racial ou qualquer outro tipo de polilogismo.
As categorias pensamento e ação humana não são nem produtos arbitrários da
mente humana, nem convenções. Não têm uma existência própria, externa ao
universo e alheio ao curso dos eventos cósmicos. São fatos biológicos e têm uma
função específica na vida e na realidade. São instrumentos do homem na sua luta
pela existência, no seu esforço para se ajustar tanto quanto possível à realidade do
universo e para eliminar o desconforto até onde lhe seja possível. São, portanto,
apropriadas às condições do mundo exterior e refletem as circunstâncias com que a
realidade se apresenta. Funcionam e, neste sentido, são verdadeiras e válidas.
Consequentemente, erram todos aqueles que supõem que a percepção
apriorística e o raciocínio puro não nos proporcionam informações sobre a realidade
e sobre a estrutura do universo. As relações lógicas fundamentais e as categorias
pensamento e ação constituem a fonte de onde brota todo conhecimento humano.
São adequadas à estrutura da realidade, revelam esta estrutura à mente humana
e, nesse sentido, são para o homem fatos ontológicos básicos.69 Não podemos
saber o que um intelecto super-humano seria capaz de pensar ou compreender.
Para o homem, toda cognição está condicionada pela estrutura lógica de sua mente
e implícita nesta estrutura. Os êxitos alcançados pelas ciências empíricas e sua
aplicação prática são uma demonstração desta evidência. Onde a ação humana é
capaz de atingir os fins a que se propõe não há lugar para agnosticismo.
Se tivesse existido uma raça que houvesse desenvolvido uma estrutura lógica da
mente diferente da nossa, ela não teria podido recorrer à razão na sua luta pela
vida. Os únicos meios de que disporia para sobreviver seriam suas reações
instintivas. A seleção natural se encarregaria de eliminar todos os espécimes desta
hipotética raça que tentassem empregar o raciocínio para determinar o seu
comportamento; só sobreviveriam aqueles que se fiassem apenas nos seus
instintos. Isto significa que só poderiam sobreviver aqueles cujo nível mental não
fosse superior ao dos animais.
Os pesquisadores ocidentais reuniram uma expressiva quantidade de informações
relativa às civilizações mais refinadas da China e da Índia, bem como acerca das
civilizações primitivas dos aborígenes asiáticos, americanos, australianos e
africanos. Podemos dizer que tudo o que vale a pena saber sobre estas raças, já o
sabemos. Mesmo assim, nunca um defensor do polilogismo tentou usar estes dados
para explicar a alegada diferença lógica desses povos ou dessas civilizações.
5. Polilogismo e compreensão
Alguns defensores dos princípios do marxismo e do racismo interpretam a base
epistemológica de seus partidos de uma maneira peculiar. Admitem que a estrutura
lógica da mente seja a mesma para todas as raças, nações ou classes. O
marxismo, ou o racismo, afirmam seus defensores, nunca pretendeu negar este
fato inegável. O que estas doutrinas queriam dizer é que a compreensão histórica,
a apreciação estética e os juízos de valor dependem dos antecedentes pessoais de
cada um. Esta nova interpretação, na realidade, não encontra apoio no que
escreveram os defensores das doutrinas polilogistas. Não obstante, devemos
analisá-la como se fosse uma doutrina nova e independente.
Não há necessidade de repetir uma vez mais que os julgamentos de valor, assim
como a escolha de objetivos de qualquer pessoa, refletem suas características
físicas e todas as vicissitudes de sua vida.70 Mas, do reconhecimento disto à crença
de que a herança racial ou o fato de pertencer a uma classe social, em última
análise, determinam os julgamentos de valor e a escolha de objetivos, vai uma
grande distância. As notórias diferenças na forma de ver o mundo ou nos padrões
de comportamento de maneira alguma correspondem às diferenças de raça,
nacionalidade ou classe.
Seria difícil imaginar uma maior discrepância quanto a julgamento de valor do
que a existente entre os ascetas e os desejosos de gozar a vida
despreocupadamente. Um abismo separa devotos, monges e freiras do resto da
humanidade. Entretanto, existem pessoas que se dedicam a uma vida monástica
entre todas as raças, nações, classes ou castas. Enquanto alguns descendiam de
reis e de nobres, outros eram simples mendigos. São Francisco e Santa Clara e
seus ardentes seguidores eram todos nascidos na Itália, e não se pode dizer que os
italianos sejam um povo que despreze os prazeres temporais. O puritanismo é de
origem anglo-saxônica, mas também o mesmo se pode dizer da luxúria que existia
nos reinados dos Tudor, dos Stuart e da casa de Hannover. O principal defensor do
ascetismo no século XIX foi o conde Leon Tosltoy, um rico membro da libertina
aristocracia russa. Tolstoy considerava a sonata Kreutzer, de Beethoven, obraprima de um filho de pais extremamente pobres, como a manifestação mais
importante da filosofia que ele tanto considerava.
O mesmo ocorre com valores estéticos. Todas as raças e nações tiveram períodos
clássicos e românticos. Apesar de todo esforço de propaganda, os marxistas nunca
conseguiram criar uma arte ou literatura especificamente proletária. Os escritores,
pintores e músicos “proletários” não criaram novos estilos nem estabeleceram
novos valores estéticos. O que os caracteriza é tão somente a tendência a
qualificar tudo o que detestam como burguês” e tudo o de que gostam como
“proletário”.
A compreensão histórica, tanto do historiador como do agente homem, reflete a
personalidade do seu autor. 71 Mas, se o historiador e o político estão imbuídos do
desejo de buscar a verdade, não se deixarão iludir por preconceitos partidários, a
não ser que sejam muito ineptos e ineficientes. É irrelevante que um historiador ou
político considerem um determinado fator como benéfico ou prejudicial; não lhes
advirá nenhuma vantagem em exagerar ou depreciar a relevância de um entre os
diversos fatores intervenientes. Somente um pseudo-historiador inepto ainda
acredita que possa servir à sua causa ao distorcer a realidade.
Podemos dizer o mesmo com relação à compreensão do político. Que vantagem
teria um defensor do protestantismo em desprezar o tremendo poder do
catolicismo, ou um liberal em ignorar a relevância dos ideais socialistas? Para ser
bem-sucedido, o político deve ver as coisas como elas realmente são; quem se
apoia em fantasias acaba fracassando. Os julgamentos de relevância diferem dos
julgamentos de valor, porque têm por objetivo avaliar uma situação que não
depende do arbítrio do autor. Cada autor avaliará a relevância de uma situação
segundo sua personalidade, o que impossibilita a existência de unanimidade de
pontos de vista. Então, cabe novamente a pergunta: que vantagem poderia uma
raça ou uma classe obter de uma distorção “ideológica” da realidade?
Como já foram assinaladas, as mais sérias divergências encontradas nos estudos
de história são decorrentes de diferenças no campo das ciências não históricas e
não de diferentes modos de compreensão.
Muitos historiadores e escritores modernos estão imbuídos do dogma marxista,
segundo o qual o advento do socialismo é não só inevitável, como também
extremamente desejável, e as forças trabalhistas foram designadas para a histórica
missão de destruir o sistema capitalista. Partindo dessa premissa, consideram
natural que os partidos de “esquerda”, os eleitos, recorram à violência e ao crime
para atingir seus objetivos. Uma revolução não pode ser feita por meios pacíficos.
Não vale a pena perder tempo com insignificâncias como a chacina das quatro
filhas do último tzar, de Leon Trotsky, de dezenas de milhares de burgueses russos,
e assim por diante. Por que mencionar os ovos quebrados, se todos sabem que não
se pode fazer uma omelete sem quebrar os ovos? Mas, se alguma dessas vítimas
ousa defender-se ou mesmo revidar a agressão, será duramente criticada. São
poucos os que se atrevem a simplesmente mencionar os atos de sabotagem,
destruição e violência praticados por grevistas. Em compensação, são pródigos em
condenar as medidas que as companhias, quando atacadas, adotam para proteger
sua propriedade e a vida de seus empregados e clientes.
Tais discrepâncias não são devidas nem a julgamentos de valor nem a uma
compreensão diferente da realidade. São consequências de teorias contraditórias
sobre a evolução histórica e econômica. Se o advento do socialismo é inevitável e
só pode ser alcançado por métodos revolucionários, os crimes cometidos pelos
“progressistas” são incidentes menores, sem importância. Por outro lado, a
autodefesa e o contra-ataque dos “reacionários”, que possivelmente retardarão a
vitória final do socialismo, são considerados crimes gravíssimos. Enquanto estes
são amplamente destacados, aqueles são considerados meros atos de rotina.
6. Em defesa da razão
Um racionalista judicioso não teria a pretensão de afirmar que a razão humana
pode chegar a fazer com que o homem se torne onisciente. Teria consciência do
fato de que, por mais que aumente o conhecimento, sempre haverá dados
irredutíveis que não são passíveis de elucidação ou compreensão. Não obstante,
acrescentaria o nosso racionalista, na medida em que o homem é capaz de adquirir
conhecimento, necessariamente terá que contar com a razão. Um dado irredutível
é o irracional. Tudo o que é conhecível, na medida em que já seja conhecido, é
necessariamente racional. Não existe uma forma irracional de cognição nem
tampouco uma ciência da irracionalidade.
Com relação a problemas ainda não resolvidos, podemos formular diversas
hipóteses, desde que não contradigam a lógica ou conhecimento incontestáveis.
Mas serão apenas hipóteses.
Ignoramos quais sejam as causas das diferenças inatas da capacidade ou do
talento humano. A ciência não é capaz de explicar por que Newton e Mozart foram
geniais, enquanto a maioria dos homens não tem tanto talento. Mas o que não é
aceitável é atribuir a genialidade à raça ou à ancestralidade. A questão a ser
respondida é por que uma pessoa difere de seus irmãos de sangue e dos outros
membros de sua raça.
Supor que as grandes realizações da raça branca se devem a alguma
superioridade racial constitui um erro um pouco mais compreensível. De qualquer
forma, não é mais do que uma hipótese vaga em flagrante contradição com o fato
de que devemos a outras raças a própria origem da civilização. Tampouco podemos
saber se no futuro outras raças suplantarão a civilização ocidental.
Entretanto, esta hipótese deve ser avaliada pelos seus próprios méritos. Não deve
ser condenada de antemão só porque os racistas nela se baseiam para postular
que existe um conflito irreconciliável entre os vários grupos raciais e que as raças
superiores devem escravizar as inferiores. A lei de associação formulada por
Ricardo há muito tempo já mostrou o equívoco representado por esta maneira de
interpretar a desigualdade dos homens.72 Não tem sentido combater o racismo,
negando fatos óbvios. É inútil negar que, até o momento, algumas raças muito
pouco ou mesmo nada contribuíram para o progresso da civilização e podem, neste
sentido, ser chamadas de inferiores.
Se quisermos extrair, a qualquer preço, alguma verdade dos ensinamentos
marxistas podemos dizer que as emoções influenciam muito o raciocínio humano.
Ninguém pode negar este fato óbvio; tampouco devemos creditar ao marxismo
esta descoberta. E nada disso tem qualquer importância para a epistemologia. São
inúmeros os fatores, tanto de sucesso, como de erro. É tarefa de a psicologia
enumerá-los e classificá-los.
A inveja é uma fraqueza muito comum. Muitos intelectuais invejam a renda
elevada de negociantes prósperos e este ressentimento os conduz ao socialismo.
Acreditam que as autoridades de uma comunidade socialista lhes pagariam salários
maiores do que aqueles que poderiam ganhar no regime capitalista. Mas o fato de
essa inveja existir não desvia a ciência do dever de examinar cuidadosamente as
doutrinas socialistas. Os cientistas devem analisar qualquer doutrina como se os
seus defensores não tivessem outro propósito a não ser a busca do conhecimento.
Os vários tipos de polilogismo, em vez de analisar teoricamente doutrinas
contrárias às suas, preferem revelar os antecedentes e os motivos de seus autores.
Tal procedimento é incompatível com os mais elementares princípios do raciocínio.
É um artifício medíocre julgar uma teoria por seus antecedentes históricos, pelo
“espírito” de seu tempo, pelas condições materiais de seu país de origem ou por
alguma qualidade pessoal de seu autor. Uma teoria só pode ser julgada pelo
tribunal da razão. O único critério a ser aplicado é o critério da razão. Uma teoria
pode estar certa ou errada. Ocorre que, dado o nosso estágio de conhecimento,
talvez não seja possível determinar seu acerto ou erro. Mas uma teoria jamais
poderá ser válida para um burguês ou um americano, se não for igualmente válida
para um proletário ou um chinês.
Se as doutrinas marxistas ou racistas fossem corretas, seria impossível explicar
por que seus seguidores, quando estão no poder, procuram logo silenciar teorias
que lhes sejam dissidentes e perseguir quem as defende. O próprio fato de que
existem governos intolerantes e partidos políticos que procuram colocar seus
opositores fora da lei, ou mesmo exterminá-los, é uma prova manifesta do poder
da razão. Isto não significa que uma doutrina esteja correta só porque os seus
adversários recorrem à polícia e à violência das massas para combatê-la. Significa
que aqueles que recorrem à violência estão, no seu subconsciente, convencidos da
improcedência de suas próprias doutrinas.
É impossível demonstrar a validade dos fundamentos apriorísticos da lógica e da
praxeologia, sem recorrer a estes mesmos fundamentos. A razão é um dado
irredutível e não pode ser analisada ou questionada por si mesma. A própria
existência da razão humana é um fato não racional. A única afirmação que pode
ser feita sobre a razão é que ela é o marco que separa os homens dos animais e a
ela devemos todas as realizações que consideramos especificamente humanas.
Para aqueles que pensam que o homem seria mais feliz se renunciasse ao uso da
razão e tentasse deixar-se conduzir somente pela intuição e pelos instintos, não há
melhor resposta do que recordar as conquistas da sociedade humana. A economia,
ao descrever a origem e o funcionamento da cooperação social, fornece todas as
informações necessárias a uma escolha entre a racionalidade e a irracionalidade.
Se o homem cogitasse de se libertar da supremacia da razão, deveria procurar
saber ao que, forçosamente, estaria renunciando.
Rodapé
54 Ver, por exemplo, Louis Rougier, Les paralogismes du rationalisme, Paris, 1920.
55 Ver Joseph Dietzgen, Briefe über Logik speziell demokratisch-proletarische
Logik, 2. ed., Stuttgart, 1903, p. 112.
56 Ver Franz Oppenheimer, System der Soziologie, Viena, 1926, vol. 2, p. 559.
57 Deve-se enfatizar que a justificação da democracia não se baseia na suposição
de que as maiorias têm sempre razão, e menos ainda de que são infalíveis. Ver
adiante p. 188-191.
58 Ver seu discurso na convenção do partido em Nuremberg, 03/09/1933,
Frankfurter Zeitung, 04/09/1933, p. 2.
59 Ver Lancelot Hogben, Science for the Citizen, Nova York, 1938, p. 726-728.
60 Ibid, p. 726.
61 (Extraída da tradução espanhola de Human Action, feita por Joaquim Reig
Albiol, Madrid, 1980, p. 132). Mises alude aqui, com a sobriedade de sempre, ao
silêncio absoluto e suspeito em que Marx se encerra, depois da publicação do
primeiro volume de O capital, circunstância que verdadeiramente chama a atenção
do estudioso, levando em conta, atuem, que até o momento Marx havia sido um
prolífico escritor. Com efeito, aos 28 anos, publica sua primeira obra, Economia
política e filosofia (1844), seguindo-se A Sagrada Família (1845), A ideologia alemã
(1846), Miséria da filosofia (1847), O manifesto comunista (1848) e Contribuição à
crítica da economia política (1857). Quando, em 1867, publica O capital, Marx tem
49 anos; está na plenitude de sua forma física e intelectual.
Por que, então, desde este momento, deixa de escrever, particularmente se já
tinha redigido os segundo e terceiro volumes, antes mesmo de estruturar o
primeiro, conforme afirma Engels ao prefaciar o citado segundo volume? Teriam
por acaso os descobrimentos subjetivistas de Jevons e Menger lhe condenado ao
silêncio? Há quem sustente que Marx não entregou aos seus editores o manuscrito
original, por ter visto demonstrada a invalidez da célebre teoria da mais valia; por
ter percebido que era indefensável a tese do salário vitalmente necessário, assim
como o dogma fundamental do progressivo empobrecimento das massas no regime
de mercado.Teria então decidido abandonar sua atividade científico-literária,
deixando, voluntariamente, de oferecer ao público os dois volumes seguintes de O
capital, que só seriam editados por Engels em 1884, quase trinta anos depois da
publicação do primeiro volume. Como diria Mises, este é um tema que pode ser
abordado pela via da compreensão histórica. (N.T.)
62 Se bem que o termo racionalização seja novo, a ideia em si já era conhecida há
muito tempo. Ver, por exemplo, as palavras de Benjamin Franklin: “É tão
conveniente ser uma criatura razoável, porque isto nos permite encontrar uma
razão para tudo o que pretendemos fazer”. Autobiography, Nova York, 1944, p. 41.
63 “Le moulin à bras vous donnera la société avec le souzerain; le moulin à vapeur,
La société avec le capitaliste industriel.” Marx, Misére de la philosophie, Paris e
Bruxelas, 1847, p. 100.
64 Marx, Das Kapital, 7. ed., Hamburgo, 1914, vol. 1, p. 728-729.
65 The Communist Manifesto, vol. 1.
66 Corn Laws – leis que prevaleceram na Inglaterra de 1436 a 1846 para
regulamentar o comércio de grãos. Por volta de 1790, foi se tornando cada vez
mais evidente que estas leis tinham como principal efeito proteger os proprietários
de terra da competição externa e, dessa maneira, aumentavam os preços do pão e
dos cereais que eram a dieta básica dos operários na indústria. Em 1838, foi
fundada em Manchester a Anti-Corn Law League, liderada por Richard Cobden
(1804-1865), o “apóstolo do livre comércio”, e por Jon Bright (1811-1889), que
conseguiram em 1846 a revogação das Corn Laws e a aceitação crescente dos
princípios do laissez-faire da Escola de Manchester. Obs: Corn, traduzido para o
português geralmente como milho, é a expressão usada na língua inglesa para
designar cereal ou o cereal de maior consumo na alimentação. Assim, na
Inglaterra, corn é trigo; nos EUA, milho; na Escócia, aveia e, nos países da Europa
continental, centeio. (N.T.)
67 O significado que o marxismo contemporâneo atribuiu a esta expressão, a
saber, que a droga religiosa tenha sido propositalmente administrada ao povo,
pode ter sido o significado que lhe atribuía o próprio Marx. Mas não resulta da
passagem na qual – em 1843 – Marx cunhou esta expressão. Ver R. P. Casey,
Religion in Russia, Nova York, 1946, p. 67-69.
68 Ver L. G. Tirala, Rasse Geist und Seele, Munique, 1935, p. 190 e segs.
69 Ver Morris R. Cohen, Reason and Nature, Nova York, 1931, p. 202-205; A
Preface to Logic, Nova York, 1944, p. 42-44, 54-56, 92, 180-187.
70 Ver p. 74-75.
71 Ver p. 85-87.
72 Ver adiante p. 198-205.
CAPÍTULO 4
Uma Primeira Análise da Categoria Ação
1. Meios e fins
Denominamos fim, meta ou objetivo o resultado que se pretende alcançar com
uma ação. Estes termos também são usados, habitualmente, quando nos referimos
a fins, metas ou objetivos intermediários, ou seja, etapas que o agente homem
quer atingir porque acredita que, dessa maneira, alcançará o seu fim, meta ou
objetivo definitivo. Na essência, o fim, meta ou objetivo de qualquer ação é sempre
aliviar algum desconforto.
Denominamos meios tudo aquilo que utilizamos para atingir qualquer fim, meta
ou objetivo. No nosso universo não existem meios; só existem coisas. Uma coisa só
se torna um meio quando a razão humana percebe a possibilidade de empregá-la
para atingir um determinado fim e realmente a emprega com este propósito. O
homem percebe mentalmente a utilidade das coisas, isto é, a capacidade que elas
têm de servir aos seus fins, e, ao agir, ele as transforma em meios. É de
fundamental importância compreender que tudo aquilo que compõe o mundo
exterior ao homem só se transforma em meios pelo funcionamento da mente
humana e pela ação por ela engendrada. Os objetos do mundo exterior são apenas
fenômenos do universo físico; é o tema das ciências naturais. O que os transforma
em meios é o significado que o homem lhes atribui e a ação daí resultante. A
praxeologia não lida com o mundo exterior, mas com a conduta do homem em
relação ao mundo exterior. A realidade praxeológica não é o universo físico, mas a
reação consciente do homem ao estado em que se encontra o universo. A
economia não trata de coisas ou de objetos materiais tangíveis; trata de homens,
de suas apreciações e das ações que daí derivam. Bens, mercadorias, riquezas,
assim como todos os outros conceitos econômicos, não são elementos da natureza;
são elementos que derivam do significado que o homem lhes atribui e de sua
conduta em relação a eles. Quem quiser lidar com estes elementos não deve
procurá-los no mundo exterior, porque só poderá encontrá-los no significado que
lhes atribui o agente homem.
A praxeologia e a economia não consideram a ação humana e seus propósitos
como seriam, ou como deveriam ser, se todos os homens se guissem uma mesma
filosofia absolutamente válida e fossem dotados de um perfeito conhecimento
tecnológico. Uma ciência, cujo tema é o homem, imperfeito como ele é, não pode
abrigar noções tais como validade absoluta ou onisciência. Um fim é tudo aquilo
que os homens procuram obter. Um meio é tudo aquilo que os homens empregam
na sua ação.
É tarefa da tecnologia e da terapêutica, em seus respectivos campos de atuação,
refutar teorias científicas erradas. É tarefa da economia desmascarar doutrinas
errôneas no campo da ação social. Mas, se os homens, em vez de seguirem a
recomendação da ciência, deixarem-se guiar por preconceitos falaciosos, os erros
passam a ser a realidade e, como tal, devem se tratados. Os economistas, por
exemplo, consideram que o controle de câmbio é um meio inadequado para atingir
os objetivos pretendidos por aqueles que a ele recorrem. Entretanto, se a opinião
pública se deixa iludir e os governos recorrem ao controle de câmbio, o curso dos
acontecimentos é determinado por essa atitude. A medicina de nossos dias
considera a doutrina que atribuía efeitos terapêuticos à mandrágora apenas um
mito. Entretanto, enquanto este mito era considerado verdade, a mandrágora era
um bem econômico, e as pessoas se dispunham a pagar um preço para sua
aquisição. Ao lidar com preços, à economia não interessa quanto uma coisa deve
valer, mas sim quanto vale segundo aqueles que têm interesse em obtê-la. A
economia lida com preços reais, pagos e recebidos em transações reais, e não com
preços hipotéticos, que existiriam se as pessoas fossem diferentes do que são na
realidade.
Os meios são, necessariamente, sempre escassos, isto é, insuficientes para
alcançar todos os objetivos pretendidos pelo homem. Se não fosse assim, seria
desnecessária qualquer ação humana para obtê-los. Se não houvesse a
insuficiência de meios, não haveria necessidade de ação.
É usual chamar de objetivo ao fim último que se pretende alcançar, e de bens aos
meios empregados para alcançá-lo. Ao aplicar estes termos, os economistas são
levados a raciocinar como tecnólogos e não como praxeólogos. Fazem uma
distinção entre bens livres e bens econômicos. Chamam de bens livres tudo aquilo
que, existindo em abundância, não precisa ser economizado. Tais bens, entretanto,
não são objeto de qualquer ação humana. São condições gerais do bem estar do
homem; são parte do meio ambiente no qual o homem vive e age. Somente os
bens econômicos são o substrato da ação e somente deles se ocupa a economia.
Os bens econômicos, que servem diretamente para satisfazer as necessidades
humanas e cuja utilização não necessita do concurso de outros bens econômicos,
são chamados bens de consumo ou bens de primeira ordem. Os meios que só
podem satisfazer as necessidades humanas indiretamente, ou seja, quando
complementados pelo concurso de outros bens, são chamados de bens de produção
ou fatores de produção, ou bens de uma ordem mais remota ou mais elevada. O
serviço prestado por um bem de produção consiste em permitir a obtenção de um
produto, mediante a cooperação com outros bens de produção complementares.
Este produto pode ser um bem de consumo; pode também ser um bem de
produção que, quando combinado com outros, proporcionará um bem de consumo.
Podemos imaginar os bens de produção ordenados de acordo com a proximidade
em relação ao bem de consumo para cuja produção é utilizada. Os bens de
produção que estão mais próximos dos bens de consumo são considerados como
de segunda ordem; os bens de produção usados para produzir os de segunda
ordem são chamados de bens de terceira ordem, e assim sucessivamente.
O propósito desta organização dos bens em ordens é proporcionar uma base para
a teoria do valor e dos preços dos fatores de produção. Veremos mais adiante
como o valor e o preço dos bens de uma ordem mais elevada dependem do valor e
do preço dos bens de ordens mais baixas em cuja produção são utilizados. Os bens
de consumo são a base e a origem da valoração de todos os demais bens, em
função de sua importância na produção dos referidos bens de consumo.
Na prática, não é necessário ordenar bens de produção em várias ordens, da
segunda até a enésima. Também é supérflua a discussão bizantina sobre a
ordenação mais elevada ou mais baixa de um determinado bem. Pouco importa
chamar o grão de café, ou o café torrado, ou o pó de café, ou o café pronto na
xícara, de bem de consumo; a terminologia adotada é irrelevante. Porque, no que
tange ao problema de valor, tudo o que dissermos sobre um bem de consumo pode
ser aplicado a qualquer bem de uma ordem mais elevada (exceto em relação
àqueles da ordem mais elevada de todas) se o consideramos como um produto.
Um bem econômico não precisa estar necessariamente representado por algo
tangível. Os bens econômicos imateriais são chamados de serviços.
2. A escala de valores
O agente homem sempre escolhe entre várias oportunidades que lhe são
oferecidas. Prefere uma alternativa e rejeita outras.
Costuma-se dizer que o agente homem, ao organizar suas ações, tem uma escala
de necessidades ou de valores em sua mente. Com base nessa escala, satisfaz às
necessidades a que atribui maior valor, isto é, às necessidades mais urgentes, e
deixa de satisfazer àquelas a que atribui menor valor, isto é, às necessidades
menos urgentes. Não há objeção a que assim se interprete o comportamento
humano. Entretanto, não devemos esquecer-nos de que a escala de valores ou de
necessidades só se manifesta na realidade da ação. Estas escalas não têm uma
existência real, distinta do comportamento efetivo dos indivíduos. A única fonte da
qual deriva nosso conhecimento em relação a estas escalas é a observação das
ações do homem. Toda ação está sempre perfeitamente ajustada à escala de
valores ou de necessidades, porque estas escalas nada mais são do que um
instrumento para interpretar a ação do homem.
As doutrinas de caráter ético pretendem estabelecer escalas de valores segundo
as quais o homem deveria agir, embora nem sempre o faça. Atribuem-se a estas
doutrinas o papel de distinguir o certo do errado e o de aconselhar o homem sobre
que objetivos devem ser perseguidos como bem supremo. São disciplinas
normativas que pretendem saber como as coisas deveriam ser. Não são neutras em
relação aos fatos; preferem julgá-los à luz dos pontos de vista que adotaram como
padrão.
A praxeologia e a economia condenam esta atitude, porque têm consciência do
fato de que os objetivos da ação humana não podem ser avaliados por nenhum
padrão absoluto. Os objetivos finais são um dado irredutível; são meramente
subjetivos e diferem de pessoa para pessoa e para a mesma pessoa em momentos
diferentes de sua vida. A praxeologia e a economia lidam com os meios
empregados para atingir fins escolhidos pelos indivíduos. Não se manifestam sobre
questões tais como se o sibaritismo é melhor do que o ascetismo. Só se preocupam
em verificar se os meios empregados são ou não apropriados para atingir os
objetivos que o homem deseja alcançar.
As noções de anormalidade e perversidade não têm significado no campo
econômico. A economia não qualifica de desarrazoado o indivíduo que prefira o
desagradável, o prejudicial e o penoso ao agradável, ao benéfico e ao prazeroso.
Afirma, apenas, que este indivíduo é diferente dos outros; que ele gosta do que os
outros detestam que considera útil o que os outros evitam; que tem prazer em
suportar a dor que os outros evitam porque os machuca. As noções de normal e
anormal podem ser usadas antropologicamente para distinguir entre os que se
comportam como a maioria das pessoas e os que são considerados exceções, casos
atípicos e extravagantes; podem ser aplicadas biologicamente para distinguir
aqueles cujo comportamento preserva as forças vitais, daqueles cujo
comportamento é autodestrutivo; podem ser aplicadas num sentido ético, para
distinguir quem age corretamente de quem age de forma diferente da que deveria.
Entretanto, no campo de uma ciência teórica da ação humana, não cabem tais
distinções. A escolha de objetivos finais resulta ser, sempre, meramente subjetiva
e, portanto, arbitrária.
Valor é a importância que o agente homem atribui aos seus objetivos finais.
Somente a objetivos finais é que se atribui um valor primário, original. Os meios
são valorados de forma derivativa, segundo sua utilidade e contribuição para
alcançar o objetivo final. Sua valoração deriva do valor atribuído ao respectivo
objetivo. Só têm importância na medida em que tornam possível atingir algum
objetivo, algum fim. Valor não é algo intrínseco à natureza das coisas. Só existe em
nós; é a maneira pela qual o homem reage às condições de seu meio ambiente.
Da mesma forma, o valor não está nas palavras ou nas doutrinas. É a conduta
humana, exclusivamente, que cria o valor. O que importa é como os homens agem
e não o que dizem sobre valor. A retórica dos moralistas e a pompa dos programas
partidários têm importância apenas na medida em que possam influenciar ou
determinar as ações dos homens.
3. A escala de necessidades
Não obstante haver quem discorde, a realidade é que a imensa maioria das
pessoas objetiva, antes de tudo, a uma melhoria de suas condições materiais.
Desejam comida melhor e mais farta, melhores casas e roupas e milhares de
outras comodidades. Aspiram a ter saúde e fartura. Considerando a existência
destes objetivos, a fisiologia aplicada tenta determinar que meios sejam mais
indicados para prover a maior satisfação possível. Distingue, segundo este ponto
de vista, entre as necessidades “reais” e os apetites espúrios do homem. Ensina às
pessoas como devem agir e que meios devem empregar para atingir seus
objetivos.
A importância de tais doutrinas é evidente. O fisiologista deve distinguir entre
uma ação sensata e uma ação contraproducente, segundo seu ponto de vista. Deve
contrastar métodos judiciosos de alimentação com métodos insensatos. Pode
condenar certos tipos de comportamento como absurdos e contrários às
necessidades “reais”. Entretanto, tais julgamentos estão fora do campo de
interesse de uma ciência que lida com a realidade da ação humana. O que
interessa à praxeologia e à economia é o que um homem faz e não o que devia
fazer. A medicina pode estar certa ou errada ao qualificar o álcool e a nicotina
como venenos. Mas a economia tem que explicar os preços do tabaco e da bebida
tais como são e não como seriam em outras condições.
No campo da economia, não há lugar para uma escala de necessidades diferente
de uma escala de valores que seja reflexo do próprio comportamento humano. A
economia lida com o homem real, frágil, e não como seres ideais, oniscientes e
perfeitos como só os deuses poderiam ser.
4. A ação como troca
Qualquer ação é uma tentativa para substituir uma situação menos satisfatória
por outra mais satisfatória. Denominamos troca a uma alteração voluntariamente
provocada. Uma condição menos desejável é trocada por outra mais desejada.
Abandonamos o que nos satisfaz menos, para obter algo que nos agrada mais.
Aquilo que se abandona, chamamos de preço pago para atingir o objetivo
desejado. Ao valor do preço pago, chamamos de custo. O custo é igual ao valor
atribuído à satisfação de que nos privamos, a fim de obter o objetivo pretendido.
A diferença entre o valor do preço pago (os custos incorridos) e o valor da meta
alcançada é chamada de ganho ou lucro ou renda líquida. Neste sentido elementar,
o lucro tem um caráter meramente subjetivo; é um incremento de satisfação do
agente homem; é um fenômeno psíquico que não pode ser medido nem pesado. A
remoção de um desconforto pode ser maior ou menor; mas o quanto uma
satisfação supera outra é algo que só pode ser sentido; não pode ser estabelecido
ou determinado de uma maneira objetiva. Um julgamento de valor não mede;
apenas ordena segundo uma escala, ou seja, gradua. Expressa uma ordem de
preferência e sequência, mas não significa uma medida ou um peso. Somente os
números ordinais podem ser aplicados, quando se trata de valor, e não os números
cardinais.
Não faz sentido falar de cálculo de valores. O cálculo só é possível quando
lidamos com números cardinais. A diferença de valor entre duas situações é
inteiramente psíquica e pessoal. Não se pode projetá-la no mundo exterior. Só o
indivíduo pode senti-la e nem mesmo ele poderia transmiti-la a outra pessoa. É
uma grandeza de intensidade e não de quantidade.
A fisiologia e a psicologia desenvolveram vários métodos por meio dos quais
pretendem ter conseguido um substituto para a impossível quantificação –
grandezas de intensidade. A economia não tem por que analisar conceitos tão
questionáveis. Até mesmo os seus defensores se dão conta de que tais conceitos
não são aplicáveis a julgamentos de valor.
E mesmo que fossem, ainda assim não teriam interesse no exame de problemas
econômicos, porque a economia lida com a ação em si, e não com os fatos
psíquicos que podem resultar em determinadas ações.
Ocorre que, frequentemente, uma ação não consegue atingir o objetivo desejado.
Às vezes, embora o resultado seja inferior ao pretendido, ainda assim constitui uma
melhoria em relação à situação anterior; neste caso, ainda existe um ganho,
embora menor que o esperado. Mas também pode ocorrer que a ação acarrete um
estado de coisas menos desejável que a situação anterior que se desejava
modificar. Neste caso, a diferença entre o resultado obtido e o custo incorrido é o
que denominamos de prejuízo.
CAPÍTULO 5
O Tempo
1. O Tempo Como um Fator Praxeológico
A noção de mudança implica a noção de sequência temporal. Num universo
rígido, eternamente imutável, não haveria a noção de tempo. Este universo seria
uma coisa morta. Os conceitos de mudança e de tempo estão inseparavelmente
ligados. Toda ação pretende uma determinada mudança e, portanto, implica uma
ordem temporal. A razão humana não é capaz de conceber uma existência ou uma
ação sem a noção de tempo.
Quem age distingue entre o tempo antes da ação, o tempo usado na ação, e o
tempo depois de terminada a ação. O ser humano não pode abstrair-se da
passagem do tempo.
A lógica e a matemática lidam com um sistema ideal de pensamento. Suas
relações e implicações são coexistentes e interdependentes. Podemos também
dizer que são síncronas ou que são atemporais. Uma mente perfeita poderia
compreendê-las, todas ao mesmo tempo. A incapacidade da mente humana em
realizar esta síntese faz do pensamento em si uma ação, que progride, passo a
passo, de um estado menos satisfatório, de menor conhecimento para outro estado
mais satisfatório, de maior conhecimento. Não obstante, é preciso não confundir a
ordem temporal na qual o conhecimento é adquirido com a simultaneidade lógica
de todas as partes que integram um sistema dedutivo apriorístico. Em tal sistema,
as noções de anterioridade e consequência são apenas metafóricas, pois não se
referem ao sistema, mas sim à nossa própria ação intelectiva. O sistema lógico em
si não implica as noções de tempo nem de causalidade. Há uma correspondência
funcional entre seus elementos, mas não há nem causa, nem efeito.
A distinção epistemológica entre o sistema lógico e o sistema praxeológico
consiste exatamente no fato de que este pressupõe as categorias tempo e
causalidade. O sistema praxeológico também é apriorístico e dedutivo; como
sistema, é atemporal. A diferença entre um e outro reside no fato de a praxeologia
ter a mudança como um de seus elementos; as noções de mais cedo ou mais tarde
e de causa e efeito fazem parte do sistema. Anterioridade e consequência são
conceitos essenciais no raciocínio praxeológico; o mesmo ocorre com a
irreversibilidade dos eventos. No contexto do sistema praxeológico, qualquer
referência à correspondência funcional é tão metafórica e ilusória quanto a
referência à anterioridade e consequência no sistema lógico.73
2. Passado, presente e futuro
O que proporciona ao ser humano a noção de tempo, a consciência da passagem
do tempo, é a ação. A ideia de tempo é uma categoria praxeológica.
A ação está sempre dirigida ao futuro; consiste essencial e necessariamente em
planejar e agir com vistas a um futuro melhor. O objetivo da ação é sempre fazer
com que as condições futuras sejam mais satisfatórias do que seriam sem sua
interferência. O desconforto que impele um homem a agir é causado pela
insatisfação com as condições futuras que provavelmente adviriam caso nada fosse
feito para impedi-las. A ação só pode influir o futuro, nunca o presente, que a cada
fração infinitesimal de segundo se transforma em passado. O homem adquire
consciência do tempo, quando planeja converter uma situação presente menos
satisfatória numa situação futura mais satisfatória.
Para a meditação contemplativa, o tempo é apenas duração, “la durée pure, dont
l’écoulement est continu, et où l’on passe, par gradations insensibles, d’un état à
l’autre: continuité réellement vécue”. 74 O “agora” do presente é sempre deslocado
para o passado, ficando retido apenas na memória. Refletindo sobre o passado,
dizem os filósofos, o homem toma consciência do tempo.75 Entretanto, não é o
recordar que proporciona ao homem as categorias mudança e tempo, mas sim o
desejo de aprimorar suas condições de vida.
O tempo que medimos graças a aparelhos mecânicos é sempre passado, e o
tempo a que os filósofos se referem pode ser tanto passado como futuro. Neste
sentido, o presente é apenas uma linha ideal que separa o passado do futuro. Mas,
do ponto de vista praxeológico, existe entre o passado e o futuro um momento
presente real. A ação se processa no presente real porque utiliza esse instante e,
portanto, encarna sua realidade.76 A reflexão retrospectiva posterior distingue, no
instante que passou, em primeiro lugar, a ação praticada e as condições que
aquele instante oferecia à ação. Aquilo que não pode mais ser feito ou consumido,
porque passou o momento de fazê-lo, contrasta o passado com o presente. Aquilo
que ainda não pode ser feito ou consumido, porque ainda não chegou o momento
de fazê-lo, contrasta o futuro com o passado. O momento presente oferece à ação
oportunidades e tarefas para as quais, até então, era muito cedo e para as quais,
daqui em diante, será muito tarde.
O presente, enquanto duração, é a continuação das condições e oportunidades
oferecidas à ação. Qualquer tipo de ação necessita de condições especiais às quais
deve ajustar-se para atingir os objetivos pretendidos. O conceito de presente é,
portanto, diferente para os vários tipos de ação. Nada tem a ver com o tempo
astronômico ou com os vários métodos de medir a passagem do tempo. O
presente, para a praxeologia, compreende todo o tempo passado que ainda tenha
atualidade, isto é, que ainda possibilite a ação. O presente se estende, conforme a
ação que se tenha em vista, até a Idade Média, até o século XIX, até o ano ou mês
passado, até ontem e até o minuto ou fração de segundo que acabou de passar.
Quando alguém diz: “hoje em dia já não se adora Zeus”, está referindo-se a um
presente distinto daquele que o motorista do carro tem em mente quando pensa:
agora ainda é cedo para fazer a curva.
Como o futuro é incerto, permanece sempre indefinida e vaga a sua parcela que
podemos considerar como agora, ou seja, como presente. Alguém que tivesse dito
em 1913: “atualmente, agora, a liberdade de pensamento na Europa é
incontestável” não imaginava que esse presente muito cedo viria a ser o passado.
3. A economia de tempo
O homem está sujeito à passagem do tempo. Ele nasce, cresce, fica velho e
morre. Seu tempo é escasso. Precisa economizá-lo como economiza outros fatores
escassos.
Economizar tempo tem uma característica peculiar em virtude da singularidade e
da irreversibilidade da ordem temporal. A importância disto se manifesta ao longo
de toda a teoria da ação humana.
Há um fato que precisa ser destacado: economizar tempo é algo distinto de
economizar bens e serviços. Mesmo no “país da fantasia”, o homem seria forçado a
economizar tempo, a não ser que fosse imortal ou dotado de uma eterna juventude
e de uma saúde indestrutível. Embora todos os seus apetites pudessem ser
satisfeitos imediatamente, sem qualquer trabalho, o homem teria de ordenar o seu
tempo, uma vez que existem satisfações incompatíveis entre si, impossíveis de
serem desfrutadas ao mesmo tempo. Mesmo para esse homem, o tempo seria
escasso e sujeito à circunstância do mais cedo ou do mais tarde.
4. A relação temporal entre ações
Duas ações de um indivíduo nunca são sincrônicas; sua relação temporal é
necessariamente a de mais cedo ou mais tarde. As ações de vários indivíduos
podem ser consideradas sincrônicas somente à luz dos métodos físicos de medição
do tempo. O sincronismo só é uma noção praxeológica quando se refere à ação
conjunta de vários homens77.
As ações individuais sucedem-se uma às outras. Nunca podem ser realizadas no
mesmo instante; podem apenas ocorrer numa sucessão mais ou menos rápida.
Certas ações servem a vários propósitos de uma só vez. Seria errôneo considerá-las
como uma coincidência de várias ações.
As pessoas, frequentemente, não entendem bem o significado do termo “escala
de valores” e, consequentemente, menosprezam os obstáculos que impossibilitam
considerar a existência de sincronismo nas várias ações de um indivíduo. Supõem
essas pessoas que os vários atos de um homem são o resultado de uma escala de
valores independente e anterior aos seus próprios atos, e de um plano previamente
traçado, segundo o qual esses atos são realizados. A escala de valores e o plano,
aos quais se atribui imutabilidade por certo período de tempo, são hipostasiados
como sendo a causa e o motivo das várias ações individuais. Assim, o sincronismo
que não existia em relação aos vários atos passa a ser facilmente encontrado na
escala de valores e no plano. Mas não podemos esquecer que a escala de valores é
apenas uma ferramenta lógica. A escala de valores só se manifesta na ação real;
só pode ser percebida a partir da observação da ação real. Portanto, é inadmissível
compará-la com a ação real ou usá-la como critério para avaliação das causas das
efetivas ações realizadas pelo homem.
É igualmente inadmissível pretender diferenciar ação racional e ação denominada
de irracional, com base numa comparação entre a ação real e a ação que havia
sido planejada para ser realizada. É muito possível que os objetivos estabelecidos
ontem para uma ação a ser realizada hoje não coincidam com os objetivos que
agora nos interessam; aqueles planos feitos ontem para orientar a ação de hoje
não são um padrão mais objetivo e menos arbitrário para avaliação da ação real do
que qualquer outro conjunto de ideias e normas.
Tem-se tentado conceituar a noção de ação não racional pelo seguinte raciocínio:
se a é preferido a b e b a c, logicamente a deveria ser preferido a c. Mas se c é
preferido a a, estamos diante de um modo de agir ao qual não podemos atribuir
consistência e racionalidade.78 Este raciocínio não leva em consideração o fato de
que duas ações de um indivíduo nunca são sincrônicas. Se, numa ação, a é
preferido a b e, em outra, b a c, por menor que seja o intervalo entre as duas
ações, não se pode construir uma escala de valores uniforme na qual a precede b e
b precede c. Também não se pode considerar uma posterior terceira ação como
coincidente com as duas anteriores. Este exemplo só serve para provar que
julgamentos de valor não são imutáveis e que, portanto, uma escala de valores
que se abstrai do fato de que as várias ações de um indivíduo não são sincrônicas
pode resultar contraditória em si mesma.79
Não devemos confundir o conceito lógico de coerência (isto é, ausência de
contradição) com o conceito praxeológico de coerência (isto é, constância ou
fidelidade aos mesmos princípios). A coerência lógica só tem lugar no pensamento
e a constância só tem lugar na ação.
A constância e a racionalidade são noções completamente diferentes. Se nossos
valores mudaram, permanecer fiel a princípios de ação anteriormente adotados por
razões de constância não seria um procedimento racional, mas simplesmente
teimosia. Somente num caso a ação pode ser constante: quando se prefere o de
maior valor ao de menor valor. Se os valores mudam, a ação também tem que
mudar. Se as circunstâncias não são mais as mesmas, não tem sentido manter-se
fiel a um plano de ação anterior. Um sistema lógico deve ser coerente e sem
contradições, porque implica a coexistência de todas as suas partes e teoremas. Na
ação, que segue necessariamente a ordem temporal, não tem sentido pretender-se
tal coerência. A ação deve ser adequada ao seu propósito e, portanto, deve sempre
ajustar-se a condições que variam.
A presença de espírito é considerada uma virtude. Um homem tem presença de
espírito se tem a habilidade de ajustar a sua ação tão rapidamente, que torne o
menor possível o intervalo entre a emergência de novas condições e o ajuste de
suas ações. Se entendemos a constância como fidelidade a um plano
anteriormente traçado, independente das mudanças de condições, seremos
forçados a concluir que a presença de espírito e a reação rápida são o oposto da
constância.
Quando o especulador vai à Bolsa, pode ter esboçado um determinado plano para
suas operações. Quer se mantenha fiel ao seu plano, ou não, suas ações não
deixam de ser racionais, mesmo no sentido que aqueles que pretendem distinguir
ação racional de irracional atribuem ao termo “racional”. Este nosso especulador,
ao longo do dia, talvez realize operações que sejam consideradas incoerentes por
um observador que não estivesse atualizado das mudanças ocorridas no mercado.
Isso não obstante do fato de o especulador continuar fiel ao princípio de obter
lucros e evitar prejuízos.
Consequentemente, deverá ajustar sua conduta às mudanças nas condições de
mercado e ao seu próprio julgamento quanto à futura evolução dos preços.80
Por mais que se deturpem as coisas, não será possível formular uma noção de
ação “irracional” cuja “irracionalidade” não esteja baseada num julgamento de
valor arbitrário. Suponhamos que uma pessoa resolva agir inconsequentemente,
apenas com o propósito de refutar a afirmativa praxeológica de que não há ação
irracional. Esta pessoa também estaria pretendendo alcançar um determinado
objetivo: refutar um teorema praxeológico, o que é razão suficiente para ter um
comportamento diferente do que teria em outras condições. Seria apenas uma
maneira inadequada de tentar refutar a praxeologia.
Rodapé
73 Num tratado de economia não há necessidade de discutir a possibilidade de se
formular a mecânica como um sistema axiomático no qual o conceito de causa e
efeito fosse substituído pelo de função. Será mostrado mais adiante que a
mecânica axiomática não pode servir de modelo para o estudo do sistema
econômico. Ver adiante p. 415-420.
74 Henri Bergson, Matière et mémoire, 7 ed., Paris, 1911, p. 205: “duração pura,
cujo fluxo é contínuo, na qual se passa, por gradações insensíveis, de um estado a
outro: continuidade realmente vivida”.
75
Edmund
Hussel,
“Vorlesungen
zur
Phänomenologie
des
inneren
Zeitbewusstseins”, Jahrbuch für Philosophie und Phänomenologische Forschung,
vol.9, 1923, p. 391 e segs.; A. Schütz, loc. cit., p. 152.
76 “Ce que j’appelle mon présent, c’est mon attitude vis-à-vis de l’avenir immédiat,
c’est mon action imminente”. Bergson, op. cit., p. 152: “O que chamo de meu
presente é minha atitude frente ao futuro imediato, é minha ação iminente”.
77 Para evitar qualquer interpretação errônea, é importante que se enfatize que
este teorema não tem nada a ver com o teorema de Einstein relativo à relação
temporal de eventos distantes entre si no espaço.
78 Ver Felix Kaufmann, “On the Subject-Matter of Economics Science”, Economica,
vol. 18, p. 390.
79 Ver P.H. Wicksteed, The Common Sense of Political Economy, ed. Robbins,
Londres, 1933, vol. 1, p.32 e segs.; L. Robbins, An Essay on the Nature and
Significance of Economic Science, 2 ed., Londres, 1935, p. 91 e segs.
80 É claro que os planos também podem ser contraditórios. Algumas vezes, as
contradições podem existir em virtude de um julgamento equivocado. Mas, em
outras vezes, podem ser intencionais, a serviço de um determinado propósito. Se,
por exemplo, o programa de um governo ou de um partido político promete
melhores preços aos produtores e, ao mesmo tempo, promete baixar o custo de
vida, poderá estar propondo objetivos incompatíveis, por razões demagógicas. O
programa em si é contraditório; mas o objetivo que seus autores querem atingir,
ao defenderem e anunciarem as medidas incompatíveis, não contém nenhuma
contradição.
CAPÍTULO 6
A Incerteza
1. Incerteza e ação
A incerteza do futuro está implícita na própria noção de ação. Que o homem aja e
que o futuro seja incerto não constituem, de forma alguma, realidades
independentes. São apenas duas diferentes maneiras de enunciar a mesma coisa.
Podemos supor que o resultado de todos os eventos e mudanças seja
determinado unicamente por leis eternas e imutáveis que regulam a evolução e o
desenvolvimento do universo. Podemos considerar a interconexão e
interdependência de todos os fenômenos, isto é, sua concatenação causal, como
uma realidade fundamental e suprema. Podemos rejeitar completamente a noção
de acaso. Mas, por mais que assim seja, ou pareça ser para uma mente dotada de
uma inteligência perfeita, permanece indubitável que para o agente homem o
futuro é desconhecido. Se o homem pudesse conhecer o futuro, não teria que
escolher e, portanto, não agiria. Seria um autômato, reagindo aos estímulos, sem
vontade própria.
Alguns filósofos procuram desacreditar a noção de vontade humana,
considerando-a uma ilusão, ou autoilusão, porque o homem tem fatalmente que
obedecer às inevitáveis leis da causalidade. Podem ou não ter razão, se estão
referindo-se a uma força motriz fundamental ou a sua causa. Entretanto, no que diz
respeito ao homem, a ação é algo definitivo. Não estamos afirmando que o homem
seja “livre” para escolher e agir. Simplesmente estamos enunciando o fato de que o
homem escolhe e age, e de que os métodos das ciências naturais para explicar por
que ele age de uma maneira e não de outra não são aplicáveis.
As ciências naturais não podem prever o futuro. Podem prever os resultados a
serem obtidos com determinadas ações. Não obstante, dois tipos de situação
permanecem imprevisíveis: aquele em que os fenômenos naturais não são
suficientemente conhecidos, e aquele decorrente de atos de escolha humana.
Nossa ignorância em relação a essas duas situações cobre de incerteza todas as
ações humanas. Certeza apodítica só existe na órbita do sistema dedutivo da teoria
apriorística. Quando lidamos com a realidade, a certeza limita-se a uma
probabilidade.
Não é tarefa da praxeologia investigar se devem ou não ser tidos como certos
alguns dos teoremas das ciências naturais empíricas. Esta questão não tem
importância prática para as considerações praxeológicas. De qualquer maneira, os
teoremas da física e da química têm um grau tão elevado de probabilidade que
podemos considerá-los certos para aplicações práticas. Podemos prever, na prática,
o funcionamento de uma máquina construída de acordo com uma determinada
tecnologia. Mas a construção de uma máquina é apenas uma etapa de um
programa mais amplo, qual seja o de fornecer ao consumidor o que a máquina
produz. Se este produto atenderá ou não convenientemente ao consumidor, é
problema que depende de condições futuras imprevisíveis no momento em que
construímos a máquina. Portanto, qualquer que seja o grau de certeza no que diz
respeito à previsibilidade do que a máquina produzirá não pode eliminar a
incerteza inerente à ação como um todo. Futuras necessidades ou valorações, a
reação dos homens às novas condições, novos conhecimentos tecnológicos e
científicos, novas ideologias ou políticas, não podem ser antecipadas a não ser com
maior ou menor probabilidade. Toda ação refere-se a um futuro desconhecido.
Os problemas relativos à verdade e à certeza são do interesse de uma teoria
geral do conhecimento humano. O problema da probabilidade, por outro lado,
interessa principalmente à praxeologia.
2. O significado da probabilidade
Os matemáticos têm provocado confusão em torno do estudo da probabilidade.
Desde que esse tema começou a ser estudado, foi tratado com ambiguidade.
Quando o Chevalier de Méré consultou Pascal sobre problemas relativos ao jogo de
dados, o grande matemático devia ter usado de franqueza e dito ao seu amigo que
a matemática não tem como ajudar um jogador em jogos de pura sorte. Em vez
disso, formulou sua resposta empregando a linguagem simbólica da matemática. O
que poderia ter sido facilmente explicado em linguagem coloquial foi enunciado
numa terminologia pouco familiar à imensa maioria, e por isso mesmo recebido
com um respeito reverencial. As pessoas imaginavam que aquelas fórmulas
enigmáticas continham alguma revelação importante que só os iniciados poderiam
perceber; ficaram com a impressão de que existia um método científico de jogar e
de que os ensinamentos esotéricos da matemática continham uma maneira de
ganhar sempre. Assim, o místico Pascal tornou-se, sem pretendê-lo, o padroeiro
dos jogadores. Os livros teóricos sobre o cálculo de probabilidade fazem
propaganda gratuita para os cassinos, exatamente porque são incompreensíveis
para os leigos.
Não foram menores os danos provocados pelos equívocos do cálculo de
probabilidades no campo da pesquisa científica. A história de todos os ramos do
conhecimento registra exemplos de má aplicação do cálculo de probabilidades,
tornando-o, como observara John Stuart Mill, “o verdadeiro opróbrio da
matemática”.81
O problema decorrente de inferências feitas a partir de uma probabilidade é
muito mais complexo do que os problemas específicos tratados pelo cálculo de
probabilidades. Somente um enfoque matemático obsessivo poderia resultar no
preconceito segundo o qual probabilidade significa sempre frequência.
Outro erro foi aplicar ao problema da probabilidade o raciocínio indutivo usado
nas ciências naturais. A tentativa de substituir a categoria de causalidade por uma
teoria universal de probabilidade foi a característica principal de um fracassado
sistema filosófico que alguns anos atrás estava muito em moda.
Uma afirmação se diz provável quando o nosso conhecimento sobre seu conteúdo
é insuficiente; quando não sabemos tudo o que é necessário para precisar e
separar o verdadeiro do falso. Mas, por outro lado, embora insuficiente, possuímos
algum conhecimento e podemos dizer algo mais do que non liquet82 ou
ignoramus.83
Existem dois tipos de probabilidades. Podemos chamá-los de probabilidade de
classe (ou probabilidade de frequência) e probabilidade de caso (relativa às
ciências da ação humana). O campo de aplicação da primeira é o das ciências
naturais, regido inteiramente pela causalidade; o campo de aplicação da segunda é
o das ciências da ação humana, regido inteiramente pela teleologia.
3. Probabilidade de classe
Probabilidade de classe significa o seguinte: sabemos ou presumimos saber tudo
sobre o comportamento de uma classe de eventos ou fenômenos; mas, quanto a
específicos eventos singulares, não sabemos nada, a não ser que são elementos
dessa classe.
Sabemos, por exemplo, que existem noventa bilhetes numa loteria, dos quais
cinco serão sorteados. Portanto, sabemos tudo sobre o comportamento de toda a
classe de bilhetes. Mas, em relação aos bilhetes que serão premiados, só sabemos
que integram a classe de bilhetes.
Suponhamos uma estatística sobre mortalidade registrada em uma determinada
área, num certo período de tempo. Se considerarmos que não haverá variação em
relação à mortalidade, podemos dizer que sabemos tudo em relação à mortalidade
da população em questão. Mas, quanto à expectativa de vida de um determinado
indivíduo, nada podemos afirmar, a não ser que este indivíduo faz parte daquele
grupo de pessoas.
Os símbolos matemáticos do cálculo de probabilidade refletem essa deficiência de
conhecimento. Não aumentam, não aprofundam, nem complementam o nosso
conhecimento.
Apenas expressam-no em linguagem matemática; exprimem em fórmulas
algébricas o que já sabíamos de antemão. Não acrescentam nada ao nosso
conhecimento acerca de eventos singulares. Tampouco, evidentemente,
acrescentam algo ao nosso conhecimento em relação ao comportamento da classe,
uma vez que este conhecimento já era total – ou era assim considerado – no início
de nossas considerações sobre o assunto.
É um erro grave pensar que o cálculo de probabilidade fornece ao jogador
informações que possam eliminar ou diminuir seus riscos. Ao contrário do que
popularmente se acredita, o cálculo de probabilidade é inútil ao jogador, tanto
quanto qualquer outro tipo de raciocínio lógico ou matemático. A característica
essencial do jogo é a de lidar com a sorte, com o desconhecido. As esperanças de
sucesso do jogador não se baseiam em considerações sólidas. O jogador não
supersticioso pensa da seguinte maneira: “tenho uma pequena chance, (ou melhor:
não é impossível) de ganhar, estou disposto a fazer a aposta. Sei que, apostando,
estou me comportando como um tolo. Mas os maiores tolos são os que têm mais
sorte. Seja o que Deus quiser!”
O raciocínio frio deve mostrar ao jogador que suas chances não aumentam ao
comprar dois bilhetes em vez de um, numa loteria na qual o total de prêmios é
menor do que o valor dos bilhetes. Se comprasse todos os bilhetes, certamente
perderia uma parte de seu desembolso. Não obstante, todo jogador de loteria
prefere comprar mais de um bilhete. Os frequentadores de cassinos e de máquinas
caça-níqueis não conseguem parar de jogar. Não chegam a pensar no fato de que,
se as regras do jogo favorecem o banqueiro, quanto mais jogarem, mais perderão.
A tentação do jogo consiste exatamente na sua imprevisibilidade e na chance de
ganhar.
Imaginemos que uma caixa contenha bilhetes com o nome de dez pessoas e que
o nome sorteado teria de pagar cem dólares. Quem contratasse um seguro com
todos os participantes, mediante um prêmio de dez dólares cada, poderia garantir
ao perdedor uma indenização integral, uma vez que haveria arrecadado cem
dólares e pagaria esta importância a um deles. Mas, se segurasse apenas um deles
pelo mesmo prêmio de dez dólares, não estaria fazendo uma operação de seguro
e, sim, jogando. Estaria substituindo-se ao segurado. Receberia dez dólares e teria
a chance ou de ganhá-los ou de perdê-los junto com outros noventa dólares.
Se alguém promete pagar uma determinada importância, em caso de morte de
uma terceira pessoa, e cobra por essa promessa uma quantia adequadamente
calculada de acordo com a expectativa de vida, não estará procedendo como um
segurador, mas como um jogador. Uma operação de seguro implica
necessariamente segurar uma classe inteira ou aquilo que possa razoavelmente ser
considerado como tal. O conceito básico da operação de seguros é formar um pool
e distribuir os riscos e não o cálculo de probabilidade. O cálculo matemático
necessário pode ser feito com as quatro operações elementares da aritmética. O
cálculo de probabilidade é inteiramente desnecessário.
Isto fica claramente evidenciado quando percebemos que a eliminação de riscos
pela formação de um pool pode ser efetuada sem que se recorra a métodos
atuariais. É conduta habitual na vida cotidiana. Qualquer comerciante inclui no seu
custo uma parcela para compensar perdas que regularmente ocorrem no seu
negócio. “Regularmente”, neste contexto, significa: o montante dessas perdas é
conhecido em relação ao conjunto de artigos em questão. O vendedor de frutas
sabe, por exemplo, que uma em cada cinquenta maçãs apodrecerá antes de ser
vendida, sem poder precisar qual delas. Desta forma, acrescenta aos seus custos o
montante necessário para cobrir a perda.
A definição, como apresentada acima, do que seja a característica fundamental
da probabilidade de classe, é a única satisfatória do ponto de vista lógico. Evita o
círculo vicioso implícito nas definições que se referem à idêntica probabilidade de
ocorrência dos eventos. Ao proclamar nossa ignorância sobre eventos singulares –
sabemos apenas que são elementos de uma classe cujo comportamento é bem
conhecido – desfaz-se o círculo vicioso. Além disso, torna-se desnecessário fazer
referência à ausência de regularidade numa sequência de eventos singulares.
O aspecto característico de uma operação de seguro consiste em lidar com toda a
classe de eventos. Supondo que conhecemos tudo sobre o comportamento de
todos os elementos da classe, deixa de haver risco comercial numa operação de
seguro.
Tampouco existe o risco na operação de um cassino ou de uma loteria. No caso
da loteria, o resultado é previsível, se todos os bilhetes foram vendidos. Se algum
bilhete não foi vendido, o empresário da loteria está, em relação a esse bilhete, na
mesma situação que um comprador qualquer de bilhetes.
4. Probabilidade de caso
Probabilidade de caso significa: conhecemos alguns dos fatores que determinam o
resultado de um evento; mas existem outros fatores que também podem
influenciar o resultado e sobre os quais nada sabemos.
A probabilidade de caso só tem em comum, com a probabilidade de classe, a
deficiência de nosso conhecimento. Em todos os outros aspectos, estas duas
formas de probabilidade são completamente diferentes.
Frequentemente queremos prever um evento futuro com base no nosso
conhecimento sobre o comportamento da classe a que esse evento pertence. Um
médico pode estimar a chance de cura de um paciente, se ele sabe que 70% das
vítimas da mesma doença se recuperam. Se expressar corretamente este
conhecimento, dirá apenas que a probabilidade de cura é de 0.7, isto é, de cada
dez pacientes, em média, morrem três. Todas as previsões sobre eventos externos,
isto é, eventos no campo das ciências naturais, são deste tipo. Não são previsões
sobre o resultado de casos futuros, mas informações sobre a frequência dos
possíveis resultados. São baseadas ou em informações estatísticas ou
simplesmente numa estimativa aproximada e empírica.
Estes tipos de declaração sobre o que é mais provável não constituem
probabilidade de caso. Na realidade, não sabemos nada acerca do caso em
questão, a não ser que se enquadra numa classe, cujo comportamento conhecemos
ou pensamos que conhecemos.
Imaginemos que um cirurgião diz a um paciente, a quem vai operar, que trinta
em cada cem dos que se submetem a essa operação morrem. Se o paciente
perguntar se o número de mortes já está completo, é porque não entendeu o
sentido da afirmação do médico. Estará incorrendo no erro conhecido como “ilusão
do jogador”, da mesma maneira que o jogador de roleta que confunde
probabilidade de caso com probabilidade de classe ao supor que, após uma série
de dez vermelhos sucessivos, a possibilidade de a próxima bola cair no preto é
maior do que antes. Todos os prognósticos médicos, quando baseados em
conhecimento fisiológico, lidam com probabilidade de classe. Um médico a quem se
perguntam quais as chances de cura de uma determinada doença poderá
responder que são de sete para três. Se, entretanto, o médico examinar o
paciente, poderá ter uma opinião diferente. Se o paciente é jovem e vigoroso, e
tinha boa saúde antes de contrair a doença, o médico pode achar que as chances
de cura são maiores: em vez de 7:3, são, digamos, 9:1. O enfoque lógico continua
o mesmo, embora possa não estar baseado em dados estatísticos, mas num
resumo aproximado da própria experiência anterior do médico com casos
semelhantes. O que o médico sabe é apenas o comportamento de uma classe. No
exemplo acima, é a classe dos jovens e vigorosos atacados pela doença em
questão.
A probabilidade de caso é uma característica específica do nosso enfoque em
relação aos problemas que ocorrem no campo da ação humana, onde qualquer
referência à frequência é inadequada, uma vez que lidamos com eventos que, por
serem únicos, não pertencem a nenhuma classe. Podemos conceber a classe
“eleições presidenciais americanas”. Este conceito de classe pode ser útil ou até
mesmo necessário para vários tipos de considerações, como, por exemplo, para
tratar do assunto sob o ângulo da lei eleitoral. Mas, se estamos lidando com a
eleição de 1944 – seja antes dela, para avaliar seu futuro resultado, seja depois,
analisando os fatores que o determinaram —, estamos tratando de um caso
individual, único e que não se repetirá. Cada caso se caracteriza por suas
circunstâncias únicas; é em si mesmo uma classe. Todas as características que
permitiriam enquadrá-lo em alguma classe são irrelevantes para o problema em
questão.
Suponhamos que dois times de futebol, os Azuis e os Amarelos, vão jogar
amanhã. Os Azuis, até agora, sempre ganharam dos Amarelos. Este conhecimento
não é conhecimento sobre uma classe de eventos. Se fosse, teríamos de concluir
que os Azuis são sempre vitoriosos e que os Amarelos são sempre derrotados. Não
teríamos dúvida quanto ao resultado do jogo; teríamos certeza de que os Azuis
ganhariam mais uma vez. O simples fato de considerarmos o resultado do jogo de
amanhã como apenas provável mostra que o consideramos como um evento único
e não como uma classe de eventos.
Por outro lado, em relação à previsão do resultado do jogo de amanhã,
consideramos relevante o fato de os Azuis terem sido sempre vitoriosos. Nosso
prognóstico seria favorável a uma nova vitória dos Azuis. Se fôssemos argumentar
com base no raciocínio apropriado à probabilidade de classe, não atribuiríamos
importância àquele fato. Se, ao contrário, incidíssemos na “ilusão do jogador”,
sustentaríamos que o jogo de amanhã seria ganho pelos Amarelos.
Se arriscássemos alguma quantia na chance de vitória de um dos dois times, isto
seria qualificado como uma aposta. Seria considerado jogo, se tratasse de
probabilidade de classe.
Fora do campo da probabilidade de classe, tudo aquilo compreendido comumente
pelo termo probabilidade refere-se ao modo especial de raciocinar empregado no
exame de eventos históricos singulares e individualizado, ou seja, refere-se à
compreensão de eventos históricos, que é matéria específica das ciências
históricas.
A compreensão se baseia, sempre, em conhecimento incompleto. Podemos
pensar que conhecemos os motivos que impelem os homens a agir, os fins que
pretendem alcançar e os meios que pretendem empregar para a consecução
desses fins. Podemos ter uma opinião precisa em relação aos efeitos a serem
esperados da operação desses fatores. Não obstante, esse conhecimento é
insuficiente. Não podemos deixar de considerar a possibilidade de termos avaliado
mal a sua influência ou de não termos considerado alguns fatores cuja interferência
não preveria ou, pelo menos, não preveríamos na medida certa.
O jogo, a engenharia e a especulação são três maneiras diferentes de lidar com o
futuro.
O jogador não sabe nada sobre o evento do qual depende o resultado de seu
jogo. Tudo o que sabe é a frequência do resultado favorável de uma série desses
eventos, conhecimento esse que é inútil para sua aposta. Confia na sorte, que é
sua única forma de planejamento.
A vida em si está exposta a muitos riscos. A qualquer momento sofre a ameaça
de acidentes fatídicos que não podem ser controlados ou, pelo menos, não na
medida necessária. Todo homem confia na sorte; depende da sorte para não ser
atingido por um raio ou mordido por uma cobra. Há, na vida humana, um
componente de risco de jogo. O homem pode atenuar algumas das consequências
desses desastres e acidentes sobre o seu patrimônio, subscrevendo apólices de
seguro. Ao fazê-lo, está como que apostando na chance contrária. Da parte do
segurado, o seguro é um jogo. Os prêmios pagos são gastos em vão, se não ocorre
o sinistro.84 Em relação a eventos naturais incontroláveis, o homem está sempre
na posição do jogador.
O engenheiro, por outro lado, sabe tudo o que precisa para uma solução
tecnicamente satisfatória de seu problema, por exemplo, a construção de uma
máquina. Na medida em que tenha alguma incerteza decorrente de algum
conhecimento imperfeito, procura eliminá-la adotando margens de segurança. O
engenheiro sabe apenas resolver problemas solúveis ou, então, sabe que existem
problemas que não podem ser resolvidos no atual estágio de conhecimento. Às
vezes, descobre pela experiência adversa que o seu conhecimento era menos
completo do que imaginava e que, portanto, deixou de perceber a indeterminação
de algumas questões que supunha poder controlar. Tentará então tornar seu
conhecimento
mais
completo. Naturalmente, nunca
poderá
eliminar
completamente o elemento de risco presente na vida humana. Mas, em princípio,
opera sempre numa órbita de certeza. Seu objetivo é ter completo controle dos
elementos com que lida.
É costume, hoje em dia, falar de “engenharia social”. Este termo é, da mesma
forma que planejamento, sinônimo de ditadura e de tirania totalitária. A ideia
implícita nesse conceito é a de que se podem tratar seres humanos da mesma
maneira que o engenheiro manipula os elementos com os quais constrói pontes,
estradas e máquinas. Na construção de sua utopia, o engenheiro social substitui a
vontade das pessoas pela sua própria vontade. A humanidade se dividiria em duas
classes: de um lado, o ditador todo-poderoso e, do outro, os tutelados, que ficam
reduzidos à condição de mero peão de um plano ou engrenagens de uma máquina.
Se isto fosse possível, o engenheiro social não precisaria preocupar-se em
compreender as ações das demais pessoas. Teria ampla liberdade para lidar com
elas, como a tecnologia lida com madeira e ferro.
No mundo real, o agente homem defronta-se com o fato de que seu semelhante
age por conta própria. A necessidade de ajustar suas ações às dos outros faz dele
um especulador, para quem sucesso e fracasso dependem de sua maior ou menor
habilidade em compreender o futuro. Toda ação é uma especulação. No curso da
vida humana não há estabilidade e, consequentemente, não há segurança.
5. Avaliação numérica da probabilidade de caso
A probabilidade de caso não é passível de avaliação numérica. O que é
comumente considerado como tal, quando examinado mais detidamente, mostra
ter uma característica diferente.
Na véspera da eleição presidencial de 1944, alguém poderia dizer:
a) Estou disposto a apostar três dólares contra um que Roosevelt será eleito.
b) Acho que, do total de eleitores, 45 milhões exercerão o seu direito de votar,
dos quais, 25 milhões votarão por Roosevelt.
c) Estimo as chances de Roosevelt em 9 por 1.
d) Tenho certeza de que Roosevelt será eleito.
A afirmativa (d), obviamente, é arbitrária. Esse alguém perguntado, como
testemunha juramentada, se tem tanta certeza da futura vitória de Roosevelt
quanto do derretimento de um bloco de gelo exposto a uma temperatura de 150
graus, certamente responderá não. Retificaria sua afirmativa e diria: “Estou
pessoalmente convencido de que Roosevelt ganhará a eleição. Esta é a minha
opinião. Mas, é claro, não posso ter certeza; apenas posso expressar a minha
compreensão das condições existentes”.
O caso da afirmativa (a) é semelhante. Quem a afirma acredita que tem grandes
chances de ganhar a aposta. A relação 3:1 resulta da interação de dois fatores: a
opinião de que Roosevelt será eleito e a propensão para apostar.
A afirmativa (b) é uma avaliação do resultado da próxima eleição. Sua estimativa
numérica refere-se não a um maior ou menor grau de probabilidade, mas ao
resultado esperado da votação. Tal afirmativa pode ser baseada numa pesquisa
sistemática do tipo Gallup ou simplesmente em estimativas.
A afirmativa (c) é diferente. É uma proposição acerca do resultado esperado,
expresso em termos aritméticos. Certamente não significa que, em dez casos
semelhantes, nove sejam favoráveis a Roosevelt e um desfavorável. Não tem nada
a ver com probabilidade de classe. Então, qual é o seu significado?
É uma expressão metafórica. As metáforas são usadas na linguagem comum
geralmente para identificar, imaginariamente, um objeto abstrato com outro que
pode ser percebido pelos sentidos. Entretanto, esta não é uma característica
necessária da linguagem metafórica, mas simplesmente uma consequência do fato
de que o concreto, normalmente, nos é mais familiar do que o abstrato. As
metáforas, por pretenderem explicar algo que é menos conhecido pela comparação
com algo mais conhecido, consistem, na maior parte das vezes, em identificar algo
abstrato com algo concreto, mais conhecido. No nosso caso específico, pretende-se
tornar mais compreensível uma situação complexa, recorrendo a uma analogia com
um ramo da matemática, o cálculo de probabilidade. Certamente, este cálculo
matemático é mais popular do que a análise da natureza epistemológica da
compreensão.
De nada adianta usar a lógica para uma crítica da linguagem metafórica.
Analogias e metáforas são sempre imperfeitas e insatisfatórias do ponto de vista
da lógica. É comum procurar-se um tertium comparationis.85 Nem mesmo a isso se
pode recorrer no caso da nossa metáfora, porque a comparação seria baseada num
conceito que é, em si mesmo, falso no próprio campo do cálculo de probabilidades,
qual seja, a “ilusão do jogador”. Ao afirmar que as chances de Roosevelt são de
9:1, a ideia é a de que Roosevelt está, em relação à próxima eleição, na posição de
alguém que tenha 90% de todos os bilhetes de uma loteria. Está implícito que esta
proporção 9:1 nos diz algo real acerca do resultado do caso específico que estamos
tratando. Não é necessário evidenciar de novo o erro contido nessa ideia.
Não menos inadmissível é recorrer ao cálculo de probabilidade ao lidar com
hipóteses no campo das ciências naturais. As hipóteses são explicações provisórias,
conscientemente baseadas em argumentos logicamente insuficientes. Sobre uma
hipótese, tudo o que se pode perguntar é se contradiz, ou não, tanto o princípio
lógico como fatos testados experimentalmente e considerados verdadeiros.
Contradiz-se, terá que ser rejeitada; se não, poderá ser considerada possível – para
o atual estágio de conhecimento. (A intensidade da convicção pessoal é puramente
subjetiva). No exame de uma hipótese, não são consideradas nem a frequência
provável nem a compreensão histórica.
O termo “hipótese” é uma denominação errônea, quando aplicado a
determinados modos de interpretar eventos históricos. Se um historiador afirma
que, para a queda da dinastia Romanoff, teve especial importância o fato de que a
família real era de origem alemã, não está formulando uma hipótese. Os fatos em
que se baseia são fora de dúvida. Havia, na Rússia, uma animosidade geral contra
os alemães e, como os Romanoff, por duzentos anos, vinham casando-se com
descendentes de famílias alemãs, eram tidos por muitos russos como uma família
germanófila, mesmo por aqueles que acreditavam que o tzar Paulo não era filho de
Pedro III. Não obstante, permanece a questão sobre que relevância teriam tido
esses fatos na série de eventos que culminaram com a queda dessa dinastia. Não
há nenhuma outra forma de elucidar tais problemas, a não ser pela compreensão
histórica.
6. Apostas, jogos de azar e jogos recreativos
Aposta é um comprometimento com outra pessoa, através do qual arriscamos
dinheiro ou outros bens, antecipando o resultado de um determinado evento. Sobre
esse resultado, não sabemos mais do que se pode saber pela compreensão. Assim
sendo, podemos apostar no resultado de uma próxima eleição ou de um jogo de
tênis. Também podemos apostar, em relação a uma afirmativa factual, qual a
opinião certa e qual a errada.
Jogo de azar é um comprometimento com outra pessoa, através do qual
arriscamos dinheiro ou outros bens no resultado de um evento. Tudo o que se
conhece é o comportamento da classe a que pertence o evento.
Às vezes, a aposta e o jogo de azar associam-se na mesma operação. O resultado
de uma corrida de cavalos depende tanto da ação humana – da parte do
proprietário, do tratador e do jóquei – como de fatores não humanos – as
qualidades do cavalo. A maior parte dos que arriscam dinheiro no turfe é,
simplesmente, de jogadores. Mas, por conhecer as pessoas envolvidas, os
aficionados do turfe acreditam saber algo mais; na medida em que este fator
influencia sua decisão, são apostadores. Além disso, supõem conhecer os cavalos;
fazem um prognóstico com base no seu conhecimento acerca do comportamento
das diversas classes de cavalos. Nesta medida, são jogadores.
Em outros capítulos trataremos dos métodos que os homens de negócio aplicam
ao lidar com o problema da incerteza do futuro. Por ora, faremos apenas mais uma
observação.
Participar de jogos recreativos pode ser tanto um fim como um meio. É um fim
para aqueles que anseiam pela estimulação e excitação que as vicissitudes do jogo
recreativo lhes proporcionam, ou para aqueles cuja vaidade é favorecida pela
demonstração de habilidade e superioridade, frutos de sua maior destreza e
perícia. É um meio para os profissionais que, vencendo, ganham dinheiro.
Participar de um jogo recreativo pode ser considerado uma ação. Mas não se
deve inverter esta afirmação e considerar qualquer ação um jogo, ou lidar com as
ações como se fosse uma mera recreação. O objetivo imediato, ao participar de um
jogo recreativo, é o de derrotar o parceiro, respeitando as regras estabelecidas. É
um caso especial e peculiar de ação; a maior parte das ações não tem por objetivo
derrotar alguém. Aspiram a uma melhoria das condições de vida. Pode ocorrer que
esta melhoria seja obtida à custa de alguém, mas, certamente, não é sempre
assim. Certamente não é assim, para não dizer menos, no funcionamento normal
de uma sociedade operando segundo princípios da divisão do trabalho.
Numa sociedade regida pelos princípios do mercado livre, não há a menor
analogia entre a participação em jogos e a condução de negócios. O jogador de
cartas ganha dinheiro de seu antagonista servindo-se de habilidades e astúcias. O
empresário ganha dinheiro fornecendo aos consumidores os bens que desejam
adquirir. Pode haver uma analogia entre o jogador de cartas e o blefista. Não há
necessidade de aprofundamento neste assunto. Quem considerar a condução de
negócios como trapaça está na pista errada.
O aspecto característico dos jogos é o antagonismo de dois ou mais jogadores ou
grupo de jogadores.86 O aspecto característico dos negócios numa sociedade, isto
é, numa ordem baseada na divisão do trabalho, é a harmonia dos esforços de seus
membros. Quando começam a se antagonizar, caminham para a desintegração
social.
Numa economia de mercado, competição não significa antagonismo, no sentido
com que este termo é aplicado para exprimir a confrontação de interesses
incompatíveis. É verdade que a competição pode, às vezes, ou mesmo
frequentemente, evocar nos competidores aqueles sentimentos de ódio e malícia
que com frequência acompanham o desejo de prejudicar outras pessoas. Por isso,
os psicólogos são propensos a confundir combate e competição. A praxeologia deve
resguardar-se dessas ambiguidades artificiais enganosas. Do ponto de vista
praxeológico, existe uma diferença fundamental entre competição cataláctica e
combate. Os competidores aspiram à excelência e proeminência de suas
realizações dentro de uma ordem de cooperação mútua. A função da competição é
a de atribuir a cada membro de um sistema social aquela posição na qual pode
melhor servir à sociedade como um todo. É uma maneira de selecionar o mais apto
para cada tarefa. Onde existir cooperação social, alguma forma de seleção terá que
ser aplicada. Somente quando a atribuição das várias tarefas aos vários indivíduos
é feita por decisão de um ditador, sem que os indivíduos em questão possam fazer
valer suas virtudes e habilidades, é que não há competição.
Mais adiante, teremos de lidar com a função da competição.87 Por ora, devemos
apenas enfatizar que é errado aplicar a terminologia de extermínio mútuo a
problemas de cooperação mútua como os existentes numa sociedade. As
expressões militares são inadequadas para descrever operações comerciais. Não é
mais do que uma pobre metáfora falar da conquista de um mercado. Não há
conquista quando uma firma oferece produtos melhores e mais baratos. Somente
num sentido metafórico pode-se falar de estratégia em operações comerciais.
7. A predição praxeológica
O conhecimento praxeológico permite predizer com certeza apodítica as
consequências de vários modos de agir. Mas, é claro, tal predição nunca pode
implicar em aspectos quantitativos. Os problemas quantitativos, no campo da ação
humana, só podem ser abordados pela compreensão.
Podemos predizer como veremos mais tarde, que – mantidas constantes as
demais condições – uma queda na demanda de a resultará numa queda de preço
de a. Mas não podemos prever a extensão dessa queda. Esta questão só pode ser
resolvida pela compreensão.
A deficiência fundamental implícita em todo enfoque quantitativo dos problemas
econômicos consiste em negligenciar o fato de que não existem relações
constantes entre as chamadas dimensões econômicas. Tampouco existe constância
ou continuidade nas valorações e na formação das relações de troca dos diversos
bens. Cada dado novo provoca um remanejamento de toda a estrutura de preços.
A compreensão, ao tentar perceber o que ocorre na mente das pessoas, pode
abordar o problema de prognosticar situações futuras. Podemos considerar esse
método insatisfatório e os positivistas podem, arrogantemente, desprezá-lo. Mas
tais julgamentos arbitrários não devem e não podem obscurecer o fato de que a
compreensão é o único método apropriado para lidar com a incerteza de situações
futuras.
Rodapé
81 John Stuart Mill, A System of Logic Ratiocinative and Inductive, p.353, nova
impressão, Londres, 1936.
82 Em linguagem jurídica: o que não está claro ou provado. (N.T.)
83 O que não sabemos do ponto de vista legal. (N.T.)
84 No seguro de vida, o gasto em vão do segurado consiste apenas na diferença
entre a quantia recebida do segurador e a que teria acumulado pela poupança.
85 Base de comparação. (N.T.)
86 O jogo de “paciência” ou “solitário” não é um jogo de uma só pessoa; é apenas
um passatempo, um meio de escapar do tédio. Certamente não representa um
padrão do que acontece numa sociedade comunista, como supõem John von
Neumann e Oscar Morgenstern. Theory of Games and Economic Behavior, p.86,
Princeton, 1944.
87 Ver adiante p. 332-336.
CAPÍTULO 7
Ação no Mundo
1. A lei da utilidade marginal
A ação ordena e prefere; a princípio conhece apenas os números ordinais e não
os cardinais. Mas o mundo exterior ao qual o agente homem tem que ajustar sua
conduta é um mundo de definições quantitativas, onde entre causa e efeito
existem relações quantitativas. Se não fosse assim, se determinadas coisas
pudessem render serviços ilimitados, elas não seriam escassas e não seriam
consideradas como meios.
O agente homem valora as coisas como meios para diminuir o seu desconforto.
Do ângulo das ciências naturais, os diversos eventos que satisfazem às
necessidades humanas são vistos de formas bastante diferentes. Para o agente
homem, esses eventos são mais ou menos da mesma espécie. Ao avaliar estados
de satisfação bem diferentes e os meios para alcançá-los, o homem ordena todas
as coisas em uma única escala, qual seja a escala da sua própria satisfação. A
satisfação obtida com a alimentação ou com a contemplação de uma obra de arte
constitui segundo o juízo do agente homem, uma necessidade mais urgente ou
menos urgente; avaliando-as e agindo, o homem as ordena segundo uma escala do
que é mais intensamente ou menos intensamente desejado. Para o agente homem
só existem vários graus de relevância e urgência em relação ao seu próprio bem
estar.
Quantidade e qualidade são categorias do mundo exterior. Só indiretamente
adquirem importância e significado para a ação. Uma vez que cada coisa só pode
produzir um efeito limitado, algumas coisas são consideradas escassas e tratadas
como meios. Como os efeitos que as coisas são capazes de produzir são diferentes,
o agente homem distingue vários tipos de coisas. Como uma mesma quantidade e
qualidade de meios pode sempre produzir um mesmo efeito, a ação não faz
distinção entre quantidades idênticas de um meio homogêneo. Mas isto não
significa que o homem atribua o mesmo valor às várias idênticas porções do meio
em questão. Cada porção é valorada separadamente. A cada porção é atribuída
uma posição própria na escala de satisfações, embora as diversas porções, de
mesma magnitude, possam ser intercambiadas ad libitum.88
Quando o agente homem tem que optar entre dois ou mais meios diferentes, ele
ordena as distintas porções de cada um deles. Atribui a cada porção sua posição
segundo uma hierarquia de satisfação. Isto não significa que as várias porções do
mesmo meio tenham que ocupar posições sucessivas nesta hierarquia.
O estabelecimento desta hierarquia mediante a valoração é feito exclusivamente
pela ação e através da ação. O tamanho que uma porção precisa ter para merecer
uma posição isolada na hierarquia depende das condições únicas e individuais
segundo as quais o homem age em cada caso. A ação não lida com unidades físicas
ou metafísicas avaliadas de maneira abstrata e acadêmica; a ação é sempre uma
escolha entre alternativas. Esta escolha tem que ser feita, necessariamente, entre
quantidades específicas de meios. Podemos chamar de unidade a menor
quantidade que possa ser objeto de uma escolha. Mas devemos estar prevenidos
para não incorrermos no erro de considerar que o valor de uma soma de tais
unidades deriva do valor das unidades; o valor da soma não coincide com a adição
do valor atribuído a cada unidade.
Suponhamos que um homem possua cinco unidades do bem a e três unidades do
bem b, e que atribua às unidades de a as seguintes posições na hierarquia de
satisfação: 1, 2, 4, 7 e 8; e às unidades de b, as posições 3, 5 e 6. Isto significa: se
tiver que escolher entre duas unidades de a e duas unidades de b, preferirá perder
duas unidades de a a duas unidades de b.
Mas, se tiver que escolher entre três unidades de a e duas unidades de b,
preferirá perder as duas unidades de b às três unidades de a. Ao valorar um
conjunto de diversas unidades, o que importa sempre e somente é a utilidade do
conjunto como um todo – isto é, o incremento de bem estar que dele depende ou,
o que é o mesmo, a redução de bem estar que sua perda provocaria. Não é
necessário recorrer a processos aritméticos, nem a somas, nem a multiplicações;
trata-se tão somente de estimar a utilidade decorrente de possuir o conjunto, ou
uma parte dele.
Neste contexto, utilidade significa simplesmente: relação causal para a redução
de algum desconforto. O agente homem supõe que os serviços que um
determinado bem podem produzir irão aumentar o seu bem estar e a isto
denomina utilidade do bem em questão. Para a praxeologia, o termo utilidade é
equivalente à importância atribuída a alguma coisa em razão de sua suposta
capacidade de reduzir o desconforto. A noção praxeológica de utilidade (valor de
uso subjetivo segundo a terminologia dos primeiros economistas da Escola
Austríaca) deve ser claramente diferenciada da noção tecnológica de utilidade
(valor de uso objetivo, segundo a terminologia dos mesmos economistas). Valor de
uso objetivo é a relação entre uma coisa e o efeito que a mesma pode produzir. É
ao valor de uso objetivo que nos referimos ao empregar termos tais como “valor
calórico” ou “potência calorífica” do carvão. O valor de uso subjetivo não coincide
necessariamente com o valor de uso objetivo. Existem coisas às quais é atribuído
um valor de uso subjetivo, porque as pessoas erroneamente acreditam que tenham
capacidade de produzir um efeito desejado. Por outro lado, existem coisas capazes
de produzir um efeito desejado, às quais nenhum valor de uso é atribuído, porque
as pessoas ignoram esta possibilidade.
Recordemos o estágio do pensamento econômico que prevalecia quando foi
elaborada a moderna teoria do valor, por Carl Menger, William Stanley Jevons e
Leon Walras. Quem pretender formular uma teoria de valor, ainda que elementar,
tem que, primeiro, considerar o conceito de utilidade. Na verdade, nada é mais
plausível do que admitir que as coisas sejam valoradas de acordo com a sua
utilidade. Mas surge então um problema que os economistas clássicos não
conseguiram resolver. Percebiam que havia coisas cuja “utilidade” era maior e que
eram valoradas por menos que outras de menor utilidade. O ferro tem menos valor
que o ouro. Este fato parece ser incompatível com uma teoria de valor e preços
baseada nos conceitos de utilidade e valor de uso. Os economistas clássicos, por
isso, abandonaram esta teoria e tentaram explicar, por outras teorias, os
fenômenos de valor e de troca no mercado. Somente mais tarde perceberam os
economistas que esse aparente paradoxo era fruto de uma formulação defeituosa
do problema em questão. As valorações e decisões que resultam nas relações de
troca do mercado não decorrem de uma escolha entre ouro e ferro. O agente
homem nunca está numa situação de ter de escolher entre todo o ouro e todo o
ferro.
Escolhe, num determinado momento e lugar, sob determinadas condições, entre
certa quantidade de ouro e certa quantidade de ferro. Sua decisão, ao escolher
entre 100 onças de ouro e 100 toneladas de ferro, nada tem a ver com a decisão
que tomaria se estivesse na situação bastante improvável de ter que escolher entre
todo o ouro e todo o ferro. Para sua decisão, a única coisa que importa é saber se,
nas condições existentes, considera que a satisfação direta ou indireta
proporcionada pelas 100 onças de ouro é maior ou menor do que a satisfação
proporcionada pelas 100 toneladas de ferro. Ao tomar sua decisão, não está
expressando um julgamento filosófico ou acadêmico em relação ao valor “absoluto”
do ouro e do ferro; não está julgando o que é mais importante para a humanidade,
se o ouro ou o ferro; não está perorando como um tratadista de princípios éticos ou
de filosofia da história. Está simplesmente escolhendo entre duas satisfações que
não pode ter ao mesmo tempo.
O ato de preferir ou rejeitar (e as escolhas e decisões daí decorrentes) não
significa uma medição. A ação não mede a utilidade ou o valor, simplesmente
escolhe entre alternativas. É inconcebível o conceito de utilidade total ou valor
total.89 Não há nenhuma operação racional que nos permita deduzir do valor de
uma determinada quantidade ou número de coisas o valor de uma maior ou menor
quantidade ou número dessas mesmas coisas. Não há como calcular o valor total
de um gênero de coisas, se conheceu apenas o valor de uma parte. Não há como
estabelecer o valor de uma parte, se conheceu apenas o valor total do gênero em
questão. Não há operações matemáticas, quando se trata de valor e valorações; o
que se costuma chamar de cálculo de valor simplesmente não existe. A valoração
do estoque total de dois bens pode diferir da valoração de partes desse estoque.
Um homem isolado que possua sete vacas e sete cavalos pode atribuir um valor
maior a um cavalo do que a uma vaca e pode, se defrontado com a alternativa,
preferir perder uma vaca a um cavalo. Mas, ao mesmo tempo, o mesmo homem, se
defrontado com a alternativa de escolher entre todos os seus cavalos e todas as
suas vacas, pode preferir ficar com as vacas e perder os cavalos. Os conceitos de
utilidade total e valor total só têm sentido se aplicados a situações onde tenhamos
de escolher entre quantidades totais de bens. Procurar saber o que é mais útil e
valioso, se o ouro em si ou o ferro em si, só teria sentido numa situação em que a
humanidade, ou uma parte isolada da humanidade, tivesse de escolher entre todo
o ouro e todo o ferro disponíveis.
O julgamento de valor refere-se apenas àquela quantidade com a qual está
relacionado o específico ato de escolha. Uma quantidade de um determinado bem
é ex definitione, composta de partes homogêneas, sendo que cada uma destas
partes pode sempre prestar os mesmos serviços, ou ser substituída por qualquer
outra parte. Portanto, ao se efetuar a escolha, não é necessário definir qual a parte
que foi escolhida. Todas as partes – unidades – do estoque disponível são julgadas
igualmente úteis e valiosas, quando se considera o problema de renunciar a uma
delas. Se a quantidade diminui pela perda de uma unidade, o agente homem tem
que decidir de novo como utilizar as várias unidades do estoque remanescente. É
óbvio que o estoque menor não poderá mais render os mesmos serviços que o
maior poderia. A utilização que se faria das diversas unidades diminuídas do
estoque era, para o agente homem, a utilização menos importante entre todas
aquelas que ele pretendia obter das várias unidades do estoque maior. A satisfação
que obteria com o uso de uma das unidades cedidas era a menor entre aquelas
satisfações que o estoque total poderia proporcionar-lhe. É apenas o valor desta
satisfação marginal que o homem considerará, ao decidir renunciar a uma unidade
do estoque completo. Quando defrontado com o problema de que valor atribuir a
uma unidade de um conjunto homogêneo, o homem decide atribuindo-lhe o menor
valor de uso entre todos aqueles que pode obter de todas as unidades do conjunto;
decide, tomando por base a utilidade marginal.
Se um homem defronta-se com a alternativa de ceder uma unidade de sua
provisão de a ou de ceder uma unidade de sua provisão de b, não fará a
comparação entre o valor total de seu estoque de a e o valor de seu estoque de b.
Comparará apenas os valores marginais de a e b. Embora possa considerar o valor
de toda a quantidade de a maior do que o valor de toda a quantidade de b, o valor
marginal de b poderá ser maior que o valor marginal de a.
O mesmo raciocínio se aplica quando se trata de aumentar a quantidade
disponível de um bem pela aquisição de uma quantidade adicional do mesmo bem.
Para descrever esses fatos, a economia não necessita recorrer à terminologia
empregada pela psicologia. Tampouco precisa recorrer a raciocínios e argumentos
psicológicos para prová-los. Quando afirmamos que os atos de escolha não
dependem do valor atribuído a toda uma classe de necessidades, mas apenas do
valor atribuído às necessidades específicas em questão, independentemente da
classe a que pertençam, não estamos adicionando nada ao nosso conhecimento
nem estamos relacionando-o a algum conhecimento mais fundamentado ou mais
geral. Esta maneira de falar, em termos de classes de necessidades, só tem sentido
se lembrarmos da importância que teve o paradoxo do valor para a história do
pensamento econômico. Carl Menger e Böhm-Bawerk tiveram que empregar o
termo “classe de necessidades” para poder refutar as objeções levantadas pelos
que consideravam o pão mais valioso que a seda, porque a classe “necessidade de
alimentação” é mais importante que a classe “necessidade de roupas de luxo”. 90
Hoje, o conceito “classe de necessidades” é inteiramente desnecessário. Não tem
significado para a ação e, portanto, também não o tem para a teoria do valor; além
do mais, é capaz de induzir ao erro e à confusão. Os conceitos e as classificações
não são mais que ferramentas mentais; só adquirem sentido e significação no
contexto das teorias que os utilizam.91 Não há sentido em ordenar as várias
necessidades em “classes de necessidades”, para depois concluir que tal
classificação não tem interesse para a teoria do valor.
A lei da utilidade marginal e do valor marginal decrescente não tem nada a ver
com a lei de Gossen relativa à saturação de necessidades (primeira lei de Gossen).
Ao tratar da utilidade marginal, não estamos lidando nem com prazer sensual nem
com saturação ou saciedade. Não transpomos a esfera do raciocínio praxeológico,
ao estabelecermos a seguinte definição: a utilização que um indivíduo faz de uma
unidade de um conjunto homogêneo de bens, se dispõe de n unidades, e que não
faria se só dispusessem de n-1 unidades, mantidas iguais às demais circunstâncias,
constitui a utilização menos urgente, ou seja, a sua utilização marginal. Por isso,
consideramos a utilidade derivada da unidade em questão como utilidade marginal.
Para chegar a esta conclusão, não precisamos de nenhuma experiência fisiológica
ou psicológica, de nenhum conhecimento ou raciocínio. Decorre necessariamente
de nossa premissa o fato de que o homem age (escolhe) e de que, no primeiro
caso, tinha n unidades de um conjunto homogêneo de bens e, no segundo caso, n1 unidades. Nestas condições, não se pode conceber outro resultado. Nossa
afirmativa é formal e apriorística, e não depende de nenhuma experiência.
Só há duas alternativas: ou existem ou não existem estágios intermediários entre
o desconforto que impele um homem a agir e a situação na qual não pode mais
haver nenhuma ação (seja porque foi atingido um estado de perfeita satisfação ou
porque o homem não é capaz de conseguir nenhuma melhoria nas suas condições).
Se não existem estágios intermediários, então só caberia uma ação; tão logo esta
ação fosse consumada, atingiríamos uma situação em que nenhuma nova ação
seria possível. Ora, isto é manifestamente incompatível com a nossa pressuposição
de que existe ação; contraria as condições gerais pressupostas na categoria ação.
Portanto, só a primeira alternativa é aceitável. Mas, então, existem vários graus na
aproximação assintótica ao estado em que não haveria mais ação. Assim sendo, a
lei de utilidade marginal já está implícita na categoria ação. É simplesmente o
reverso da afirmativa que diz preferirmos o que nos dá mais satisfação ao que nos
dá menos satisfação. Se a quantidade disponível aumenta de n-1 para n unidades,
este incremento só pode ser usado para atender a uma necessidade que é menos
urgente ou menos penosa do que todas aquelas que pudessem ser atendidas por
meio da quantidade n-1.
A lei de utilidade marginal não se refere a valor de uso objetivo, mas a valor de
uso subjetivo. Não lida com a capacidade física ou química que as coisas têm para
produzir um determinado efeito, mas com a sua relevância para o bem estar de um
homem como ele o entende em cada momento e em cada situação. Não lida com o
valor das coisas, mas com o valor dos serviços que um homem espera delas obter.
Se admitíssemos que a utilidade marginal se referisse a coisas e ao seu valor de
uso objetivo, seríamos forçados a concluir que a utilidade marginal poderia tanto
aumentar como diminuir, ao se incrementar a quantidade de unidades disponíveis.
Pode suceder que o emprego de certa quantidade mínima – n unidades – de um
bem a proporcione uma satisfação maior do que uma unidade de um bem b. Mas,
se a quantidade disponível de a é menor do que n, a só pode ser usado para outro
serviço que é considerado menos valioso do que o serviço esperado de uma
unidade b. Neste caso, um incremento na quantidade de a, de n-1 para n unidades,
resulta num aumento do valor atribuído a uma unidade de a. O possuidor de cem
toras de madeira poderá construir uma cabana que o protegerá da chuva melhor
que uma capa impermeável. Mas, se só dispõe de menos de cem toras, poderá
usá-las para fazer o piso da cabana que o protegerá da umidade do solo. Se tivesse
noventa e cinco toras, estaria disposto a trocar a capa impermeável por cinco toras.
Se só tivesse dez toras, não trocaria sua capa nem por outras dez toras. Um
homem cuja poupança fosse $100 poderia não querer executar um determinado
trabalho para receber $200. Mas se sua poupança fosse $2.000 e estivesse
extremamente ansioso para adquirir um bem indivisível que custasse $2.100,
estaria disposto a executar o mesmo trabalho por apenas $100. Tudo isso está em
perfeito acordo com a lei da utilidade marginal corretamente formulada, segundo a
qual o valor das coisas depende da utilidade dos serviços que elas são capazes de
proporcionar. Não tem cabimento algo como uma lei de utilidade marginal
crescente.
A lei da utilidade marginal não deve ser confundida nem com a doutrina de
mensura sortis, de Bernoulli, nem com a lei Weber-Fechner. Na base da
contribuição de Bernoulli estava o fato, conhecido e nunca negado, de que as
pessoas desejam satisfazer suas necessidades mais urgentes antes de satisfazer as
menos urgentes, e de que um homem rico tem mais condições de satisfazer suas
necessidades do que um homem pobre. Entretanto, as inferências que Bernoulli
sacou destes truísmos estão todas erradas. Formulou uma teoria matemática
segundo a qual o incremento de satisfação diminui quando aumenta a riqueza do
indivíduo. Sua afirmativa de que, como regra geral, é muito provável que, para um
homem cuja renda seja de 5.000 ducados, um ducado significa tanto quanto meio
ducado para um homem cuja renda seja de 2.500 ducados, é simplesmente
fantasiosa. Deixemos de lado, como objeção a essa afirmativa, que não há meio de
fazer comparações que não sejam apenas arbitrárias entre as valorações de
pessoas diferentes. O método de Bernoulli também é inadequado às valorações de
uma mesma pessoa, conforme varie o seu nível de renda. Não percebe que a única
coisa que se pode dizer no caso é que, com uma renda crescente, cada novo
incremento é usado para satisfazer uma necessidade menos urgente do que a
anteriormente satisfeita antes de ocorrer o incremento. Não soube ver que, ao
valorar, escolher e agir, não fazemos medições nem estabelecemos equivalências;
apenas comparamos, isto é, preferimos ou recusamos.92 Assim sendo, nem
Bernoulli, nem os matemáticos e economistas que adotaram este raciocínio
poderiam esclarecer o paradoxo do valor.
Os erros decorrentes do fato de confundir a lei de Weber-Fechner da psicofísica
com a teoria de valor subjetivo já foram bem analisados por Max Weber, que
apesar de não ser suficientemente versado em economia, estava por demais
influenciado pelo historicismo para ter uma percepção correta dos princípios básicos
do pensamento econômico. Não obstante, sua engenhosa intuição lhe permitiu
seguir a direção certa.
A teoria da utilidade marginal, afirma Weber, “não foi formulada fundamentandose na psicologia, mas, mais exatamente – se devemos usar um termo
epistemológico – de maneira pragmática, isto é, fundamentando-se nas categorias
meias e fins.” 93
Se alguém deseja eliminar um estado patológico tomando certa quantidade de
remédio, não obterá melhor resultado se simplesmente aumentar a dose. O
excedente ou não fará mais efeito do que a dose apropriada, ou será
contraproducente. O mesmo ocorre com todos os tipos de satisfação, embora o
ótimo, frequentemente, só seja atingido pela aplicação de uma grande dose, e
esteja longe o ponto em que novos aumentos são contraproducentes. E assim é
porque o nosso mundo é um mundo de causalidade e de relações quantitativas
entre causa e efeito. Quem quiser eliminar o desconforto de viver num quarto com
a temperatura de 2 graus centígrados, procurará aquecê-lo até uma temperatura
de 19 ou 20 graus. Certamente não é pelo estabelecido na lei de Weber-Fechner
que alguém pretenderá aquecê-lo até uma temperatura de 80 ou 150 graus.
Tampouco isso tem a ver com a psicologia; tudo o que a psicologia pode fazer para
explicar este caso é estabelecer como um dado irredutível o fato de que o homem,
como regra, prefere a preservação da vida e da saúde à morte e à doença. O que
importa para a praxeologia é apenas a certeza de que o agente homem escolhe
entre alternativas. O fato de o homem se ver diante de alternativas, tendo que
escolher – e efetivamente escolhe —, se deve ao fato de ele viver em um mundo
quantitativo, e não em um mundo onde não existe o conceito de quantidade, o que
é até mesmo inimaginável para a mente humana.
A confusão do conceito de utilidade marginal com a lei de Weber-Fechner teve
sua origem no equívoco de se considerarem apenas os meios de atingir satisfação
e não a satisfação em si mesma. Se tivessem pensado na satisfação, não
adotariam a absurda ideia de explicar o desejo por mais calor aludindo à
intensidade decrescente da satisfação provocada por sucessivos incrementos do
correspondente estímulo. O fato de que o indivíduo, normalmente, não queira
aumentar a temperatura de seu quarto para 50 graus nada tem a ver com a
intensidade da sensação de calor. Que um indivíduo não aqueça seu quarto até a
temperatura que outras pessoas normais o fariam e que ele mesmo preferiria se
não estivesse mais interessado em comprar um terno novo ou em assistir a uma
sinfonia de Beethoven, não pode ser explicado recorrendo-se às ciências naturais.
Somente os problemas relativos ao valor de uso objetivo podem ser analisados
pelas ciências naturais; a valoração deste valor de uso objetivo, feita pelo agente
homem, é algo bem diferente.
2. A lei dos rendimentos
Dizemos que um bem econômico produz efeitos quantitativamente definidos, em
se tratando de bens de primeira ordem (bens de consumo), quando uma
quantidade a de causa produz – seja de uma só vez, seja em diversas vezes num
determinado período de tempo – uma quantidade A de efeito. Quando se trata de
bens de ordens mais elevadas (bens de produção), isto significa: uma quantidade b
de causa produz uma quantidade B de efeito, desde que a causa complementar c
contribua com a quantidade C de efeito; somente a contribuição dos efeitos B e C
produz a quantidade p do bem de primeira ordem D. Existem, neste caso, três
quantidades: b e c dos dois bens complementares B e C, e p do produto D.
Mantendo-se b constante, chamamos de ótimo o valor de c que resulta no maior
valor de p/c. Se diversos valores de c resultam no maior valor de p/c, consideramos
como ótimo aquele valor que resulta no maior valor p. Se os dois bens
complementares são utilizados na proporção ótima, ambos produzem o rendimento
máximo; seu poder de produzir, seu valor de uso objetivo, é plenamente utilizado;
nenhuma fração de um ou de outro é desperdiçada. Se nos afastamos dessa
combinação ótima, aumentando a quantidade de c sem alterar a quantidade de B,
o rendimento, geralmente, aumentará, mas não na proporção do aumento da
quantidade de C. Se for possível aumentar a produção de p para p1, aumentando a
quantidade de apenas um dos fatores complementares – por exemplo, substituindo
c por cx, sendo x maior que 1 – teremos sempre que p1>p e p1c<pcx. Pois, se
fosse possível compensar qualquer diminuição de b por um correspondente
aumento de c, de tal maneira que a quantidade p permanecesse inalterada, a
produtividade física de B seria ilimitada e B não seria considerado como escasso e,
portanto, não seria um bem econômico. Seria indiferente ao agente homem se a
quantidade disponível de B fosse maior ou menor. Até mesmo uma dose
infinitesimal de B seria suficiente para produzir qualquer quantidade de D, desde
que a quantidade de C fosse suficientemente grande. Por outro lado, um aumento
na quantidade disponível de B não poderia aumentar a produção de D, se não
aumentasse a quantidade de C. O rendimento total do processo se deveria a C; B
não poderia ser um bem econômico. Um fator capaz de prestar tais serviços
ilimitados é, por exemplo, o conhecimento de qualquer relação causal. A fórmula, a
receita que nos ensina a preparar café, uma vez conhecida, rende serviços
ilimitados. Não perde sua capacidade de produzir, por mais que seja usada; sua
capacidade produtiva é inesgotável; não é, portanto, um bem econômico. O agente
homem nunca se acha diante do dilema de ter que escolher entre o valor de uso de
uma fórmula conhecida e qualquer outra coisa útil.
A lei dos rendimentos afirma que existem combinações ótimas de bens
econômicos de uma ordem mais elevada (fatores de produção). Se nos afastamos
desse ótimo, incrementando a quantidade de apenas um dos fatores, a produção
ou não aumenta ou pelo menos não aumenta na proporção da quantidade
incrementada. Esta lei, como foi demonstrada acima, é consequência obrigatória do
fato de que uma relação quantitativa determinada entre um bem econômico e os
efeitos produzidos pela sua aplicação constitui condição necessária para que este
bem seja um bem econômico.
Que existe esta combinação ótima é tudo o que a lei dos rendimentos, também
chamada lei dos rendimentos decrescentes, ensina. Existem inúmeras outras
questões que esta lei não esclarece e que só a posteriori podem ser resolvidas pela
experiência.
Se o efeito causado por um dos fatores complementares é indivisível, o ótimo é a
única combinação que produz o resultado pretendido. Para tingir uma peça de
tecido com certa tonalidade, é necessária uma quantidade determinada de tinta.
Uma quantidade maior ou menor frustraria o objetivo pretendido. Quem tiver mais
corante que o necessário não deve usar o excedente. Quem tiver menos corante
que o necessário deve tingir apenas uma parte da peça. O rendimento decrescente,
neste exemplo, resulta na completa inutilidade da quantidade adicional, que não
deve sequer ser utilizada para não frustrar o objetivo pretendido.
Em outros casos, certa quantidade mínima é necessária para produzir o mínimo
de efeito. Entre esse efeito mínimo e o ótimo existe uma zona na qual doses
crescentes resultam num incremento proporcional ou mais que proporcional do
efeito. Para fazer uma máquina funcionar é necessário uma quantidade mínima de
lubrificante. Se uma quantidade adicional de lubrificante aumenta o rendimento da
máquina proporcionalmente ou mais que proporcionalmente à quantidade
adicionada é algo que só pode ser apurado se recorrermos à experiência
tecnológica.
A lei dos rendimentos não responde às seguintes questões: 1) se a dose ótima é
ou não a única capaz de produzir o efeito desejado; 2) se existe ou não um limite
rígido acima do qual qualquer aumento do fator variável é inteiramente inútil; 3) se
a queda na produção provocada por um desvio progressivo do ótimo ou o aumento
de produção provocado pela aproximação progressiva do ótimo são ou não
proporcionais ao aumento ou diminuição do fator variável. Estas questões só
podem ser resolvidas experimentalmente. Mas a lei de rendimentos em si, isto é, o
fato de que existe uma combinação ótima, é válida a priori.
A lei de Malthus da população e os conceitos de superpopulação absoluta e de
população ótima que dela derivam são a aplicação da lei de rendimentos a um
problema específico. Referem-se a mudanças na quantidade de trabalho humano,
mantidos constantes os demais fatores. As pessoas, que por considerações políticas
rejeitaram a lei de Malthus, combateram com paixão, embora com argumentos
falhos, a lei dos rendimentos – lei essa que, incidentalmente, só conheciam como a
lei dos rendimentos decrescentes da aplicação de capital e trabalho ao fator terra.
Hoje não é mais necessário dar atenção a essas objurgações vazias. A validade da
lei dos rendimentos não está limitada ao emprego de fatores de produção em
relação à terra. Os esforços para refutar ou demonstrar sua validade por
investigações históricas ou experimentais da produção agrícola são tão supérfluos
quanto seus resultados. Quem quisesse refutar essa lei deveria explicar por que as
pessoas estão dispostas a pagar um preço pela terra. Se a lei não fosse válida, um
agricultor nunca procuraria expandir sua fazenda. Bastaria multiplicar
indefinidamente a produção de qualquer pedaço de terra, multiplicando o seu
aporte de capital e trabalho.
Às vezes as pessoas supõem que, enquanto a lei dos rendimentos decrescentes é
válida no caso da produção agrícola, no que diz respeito à produção industrial,
prevaleceria uma lei de rendimentos crescentes. Foi necessário muito tempo para
que compreendessem que a lei dos rendimentos se aplica igualmente a todos os
setores da produção. É um erro distinguir, na aplicação desta lei, entre agricultura
e indústria. O que é chamado – numa terminologia imperfeita ou mesmo errada –
lei dos rendimentos crescentes nada mais é do que um reverso da lei dos
rendimentos decrescentes que, em si mesma, é uma formulação inadequada da lei
dos rendimentos. Se nos aproximamos da combinação ótima aumentando a
quantidade de apenas um dos fatores, mantendo os demais sem alteração, a
produção por unidade do fator variável aumenta proporcionalmente ou mais que
proporcionalmente do que o aumento do mencionado fator variável. Suponhamos
que uma máquina operada por 2 trabalhadores produz p; quando operada por 3
trabalhadores, 3p; quando operada por 4 trabalhadores, 6p; quando operada por 5
trabalhadores, 7p; e quando operada por 6 trabalhadores, também 7p. Neste caso,
o rendimento ótimo por trabalhador ocorre quando a máquina é operada por 4
trabalhadores, ou seja, 6/4 p, enquanto nas outras combinações os rendimentos
por trabalhador são respectivamente 1/2p, p, 7/5p e 7/6p. Se, em vez de 2
trabalhadores, empregamos 3 ou 4, o rendimento aumenta numa proporção maior
do que o aumento do número de trabalhadores; a produção aumenta numa
proporção de 1:3:6 e o número de trabalhadores numa proporção 2:3:4. Estamos
diante de um rendimento crescente por trabalhador. Mas isso nada mais é do que o
reverso da lei dos rendimentos decrescentes.
Uma usina ou empresa que se afasta da combinação ótima dos fatores
empregados será necessariamente menos eficaz do que uma usina ou empresa que
se afasta menos da combinação ótima. Tanto na agricultura como na indústria,
existem muitos fatores de produção que não são perfeitamente divisíveis. Por isso,
sobretudo nas indústrias de transformação, é geralmente mais fácil obter a
combinação ótima ao se ampliar, em vez de se reduzir, o tamanho da usina ou da
empresa. Se a menor unidade de um dos fatores, ou de diversos fatores, é tão
grande a ponto de não se poder obter a exploração ótima numa usina ou empresa
pequena ou média, a única maneira de atingir o ótimo será através do aumento
das instalações. São esses fatos que explicam a superioridade da produção em
larga escala. A importância deste problema será plenamente mostrada, mais
adiante, ao examinarmos as questões relativas à contabilidade de custos.
3. O trabalho humano como um meio
Denomina-se trabalho o emprego das funções e manifestações fisiológicas da
vida humana como um meio. A simples manifestação das potencialidades da
energia humana e dos processos vitais, quando não são utilizados para atingir os
objetivos externos, diferentes do mero funcionamento desses processos vitais e do
papel fisiológico que desempenham na consumação biológica, não é trabalho; é
simplesmente vida. O homem trabalha ao usar suas forças e habilidades como um
meio para diminuir seu desconforto, e ao substituir o escoamento espontâneo de
suas faculdades físicas e tensões nervosas pela exploração propositada de sua
energia vital. O trabalho é um meio e não um fim em si mesmo.
Qualquer indivíduo tem apenas uma quantidade limitada de energia para gastar e
cada unidade de trabalho só pode produzir um efeito limitado. Não fosse assim, o
trabalho humano seria disponível em abundância; não seria escasso e não seria
considerado um meio para eliminar o desconforto e, como tal, economizado.
No mundo onde o trabalho fosse economizado somente em razão do fato de estar
disponível em quantidade insuficiente para atingir todos os objetivos para os quais
pudesse ser usado como um meio, a quantidade de trabalho disponível seria igual
à quantidade total de trabalho que todos os homens fossem capazes de despender.
Em tal mundo, todos desejariam trabalhar até que se exaurisse sua momentânea
capacidade de trabalho. O tempo que não fosse consumido pela recreação ou pela
restauração da capacidade de trabalho despendida no trabalho precedente seria
inteiramente dedicado ao trabalho. Qualquer não utilização da plena capacidade de
trabalhar seria considerada uma perda. Trabalhando mais, aumentaríamos o nosso
bem estar. Deixar de utilizar uma parte do potencial existente seria considerado
uma renúncia a um bem estar não compensado por um correspondente aumento
de bem estar. A própria noção de preguiça seria desconhecida. Ninguém pensaria:
posso fazer isso ou aquilo; mas: não vale a pena, não compensa, prefiro o meu
lazer. Todos considerariam sua total capacidade de trabalho como uma
disponibilidade de fatores de produção que deveria ser utilizada completamente.
Até mesmo uma chance de um pequeno aumento de bem estar seria incentivo
suficiente para trabalhar, se por acaso não houvesse, no momento, melhor uso
para a quantidade de trabalho em questão.
No nosso mundo real, as coisas são diferentes. O dispêndio de trabalho é penoso.
Não trabalhar é considerado mais satisfatório do que trabalhar. O lazer, tudo o
mais sendo igual, é preferível ao esforço. As pessoas trabalham somente porque
consideram o rendimento do trabalho maior do que a diminuição da satisfação
acarretada pela redução do lazer. Trabalhar implica uma desutilidade.
A psicologia e a fisiologia podem tentar explicar este fato. Não há necessidade de
a praxeologia investigar se conseguirão tal intento ou não. Para a praxeologia, é
um dado de fato o de que os homens preferem usufruir o lazer e, portanto,
consideram sua própria capacidade de produzir efeitos de maneira diferente
daquela com que consideram a capacidade dos fatores de produção materiais. O
homem, ao considerar o dispêndio de seu próprio trabalho, examina não somente
se há outro objetivo mais desejável que possa ser obtido com o emprego da
quantidade de trabalho em questão, como também se não seria mais desejável
abster-se de qualquer dispêndio suplementar de trabalho. Também podemos
exprimir este fato dizendo que a obtenção de lazer é um objetivo da ação
propositada ou um bem econômico de primeira ordem. Ao empregar esta
terminologia um pouco rebuscada, devemos considerar o lazer como qualquer outro
bem econômico do ponto de vista da utilidade marginal. Devemos concluir que a
primeira unidade de lazer satisfaz um desejo mais urgentemente sentido do que a
segunda, e esta, um desejo mais urgente que a terceira, e assim por diante.
Invertendo esta posição, temos a afirmativa de que a desutilidade do trabalho
sentida pelo trabalhador aumenta numa proporção maior do que a quantidade de
trabalho despendida.
Não obstante, não é necessário que a praxeologia estude a questão de saber se a
desutilidade do trabalho aumenta proporcionalmente ao aumento da quantidade de
trabalho, ou mais que proporcionalmente. (Se este problema tem alguma
importância para a fisiologia e para a psicologia, e se estas ciências poderão ou
não elucidá-lo, é algo que pode ser deixado sem resposta). O que importa é que o
trabalhador suspende o trabalho no momento em que deixa de considerar a
utilidade de continuar a trabalhar como uma suficiente compensação para a
desutilidade do dispêndio adicional de trabalho. Ao fazer este julgamento, ele
compara – deixando de lado a queda de rendimento provocada pela fadiga
crescente – cada porção de tempo de trabalho com a mesma quantidade de
produto obtido nas porções precedentes. Mas a utilidade das unidades produzidas
diminui à medida que prossegue o trabalho e que aumenta a quantidade já
produzida. Os produtos das unidades de trabalho anteriores proporcionaram a
satisfação de necessidades mais importantes do que aquelas satisfeitas por
trabalho realizado posteriormente. A satisfação dessas necessidades menos
importantes pode não ser considerada como uma recompensa suficiente para
continuar trabalhando, ainda que a comparação seja feita com a mesma
quantidade de produção física.
Portanto, é irrelevante para a praxeologia procurar saber se a desutilidade do
trabalho é proporcional ao dispêndio total de trabalho ou se aumenta numa
proporção maior do que o tempo gasto no trabalho. De qualquer maneira, a
propensão a despender as porções de trabalho ainda não utilizadas diminui –
mantidas constantes as demais condições – à medida que aumentam as porções já
despendidas. Se esta queda na propensão a trabalhar se manifesta com uma
intensidade maior ou menor, é sempre uma questão de dados econômicos e não de
princípios categoriais.
A desutilidade atribuída ao trabalho explica por que, ao longo da história,
concomitantemente com o progressivo aumento da produtividade física do
trabalho, proporcionado pelo avanço tecnológico e pela maior abundância de
capital, desenvolveu-se uma tendência nítida na direção de reduzir a jornada de
trabalho. Um dos prazeres que o homem moderno pode desfrutar mais que os seus
antepassados é o tempo disponível para o lazer. Neste sentido, é possível
responder à questão, frequentemente levantada por filósofos e filantropos, se o
progresso econômico tornou ou não o homem mais feliz. Se a produtividade do
trabalho fosse menor do que é hoje no mundo capitalista, o homem seria forçado
ou a trabalhar mais ou a renunciar a muitos prazeres.
Ao estabelecer este fato, os economistas não estão afirmando que o único meio
de alcançar a felicidade é através do maior conforto material, da vida luxuosa ou
de mais lazer. Estão apenas registrando o fato de que os homens se encontram
numa melhor posição para prover-se com aquilo que consideram suas
necessidades.
O insight praxeológico fundamental, segundo o qual os homens preferem o que
lhes dá mais satisfação ao que lhes dá menos satisfação e valoram as coisas com
base na sua utilidade, não precisa ser corrigido ou complementado com alguma
alusão à desutilidade do trabalho. Estas proposições já implicam afirmar que o
trabalho é preferível ao lazer somente quando o produto do trabalho é mais
urgentemente desejado do que o desfruto do lazer.
A posição singular que o fator trabalho ocupa no nosso mundo se deve ao seu
caráter não específico. Todos os fatores de produção primários obtidos na natureza
– isto é, todas as coisas e forças naturais que o homem pode usar para melhorar
seu bem estar – têm poderes e virtudes específicos. Existem fins para cuja
obtenção tais fatores são mais adequados, fins para os quais são menos adequados
e fins para os quais são totalmente inadequados. Mas o trabalho humano é ao
mesmo tempo adequado e indispensável para a realização de qualquer processo ou
sistema de produção que se possa imaginar.
Evidentemente, não se pode generalizar quando falamos de trabalho humano. É
um erro fundamental não perceber que os homens e sua capacidade de produzir
são diferentes. O trabalho que certo indivíduo pode realizar é mais adequado para
atingir certos fins, menos adequado para outros fins e de todo inadequado para
outros mais. Uma das deficiências da economia clássica foi não dar suficiente
atenção a este fato e não considerá-lo na formulação de sua teoria de valor, preços
e salários. Os homens não fazem do trabalho em geral o objeto de seu interesse
econômico, mas, sim, de tipos específicos de trabalho. Os salários não são pagos
pelo trabalho despendido, mas pelos resultados do trabalho que diferem muito em
qualidade e quantidade. A produção de cada produto específico requer o emprego
de trabalhadores capazes de realizar o tipo de trabalho em questão. É absurdo
pretender minimizar esta realidade, alegando que a principal demanda e oferta de
trabalho são por trabalho comum, não qualificado, que qualquer pessoa com boa
saúde pode realizar; e que os trabalhos qualificados daqueles que têm aptidões
particulares inatas e adquiridas por treinamento especial, são em larga medida,
uma exceção. É inútil tentar averiguar se eram essas as condições num passado
remoto ou mesmo se, nas tribos primitivas, as diferenças na capacidade de
trabalho, inata ou adquirida, foram o fator principal para que o trabalho fosse
considerado como objeto de interesse econômico. Ao lidarmos com as
circunstâncias dos povos civilizados, é inadmissível não considerar as diferenças na
qualidade do trabalho efetuado. O trabalho que as várias pessoas são capazes de
realizar é diferente, porque os homens não nascem iguais e porque a habilidade e
a experiência que adquirem ao longo de suas vidas acentuam ainda mais essa
diferença.
Ao falar do caráter não específico do trabalho humano, certamente não estamos
afirmando que todo trabalho humano seja da mesma qualidade. O que queremos
dizer é, mais precisamente, que as diferenças no tipo de trabalho necessário à
produção dos vários bens são maiores que as diferenças nas capacidades inatas
dos homens. Ao enfatizar este ponto, não estamos tratando da performance do
gênio; o trabalho do gênio está fora da órbita do agir humano ordinário – é como
um dom do destino, que ocorre na humanidade de um momento para outro.94
Além disso, não consideramos as barreiras institucionais que impedem alguns
grupos de pessoas de ter acesso a certas ocupações e ao treinamento que estas
requerem. As diferenças inatas dos vários indivíduos não rompem a uniformidade
zoológica nem a homogeneidade da espécie humana a ponto de dividir a oferta de
trabalho em compartimentos estanques. Portanto, a oferta potencialmente
disponível para realizar qualquer tipo de trabalho excede a demanda real para este
tipo de trabalho. A oferta de qualquer tipo de trabalho especializado pode ser
aumentada, ao se retirarem trabalhadores de outros setores e treiná-los
adequadamente. A possibilidade de atender às necessidades de qualquer setor de
produção nunca é limitada, permanentemente, pela falta de gente capaz de
realizar tarefas especializadas. Apenas em curto prazo pode ocorrer uma escassez
de especialistas. Em longo prazo, esta pode ser eliminada, treinando-se pessoas
que tenham as aptidões inatas requeridas.
O trabalho é o mais escasso de todos os meios primários de produção, porque
não tem um caráter específico e porque todas as variedades de produção requerem
o dispêndio de trabalho. Consequentemente, a escassez dos outros meios primários
de produção – isto é, os meios de produção não humanos obtidos na natureza –
torna-se para o agente homem uma escassez daqueles meios primários de
produção cuja utilização requeira o menor dispêndio de trabalho.95 Por isso, é a
oferta de trabalho disponível que determina em que medida o fator natureza, em
cada uma de suas variedades, pode ser explorado para a satisfação de
necessidades.
Se a oferta de trabalho que os homens são capazes e estão dispostos a realizar
aumenta, a produção também aumenta. O trabalho não pode deixar de ser
utilizado sob a alegação de ser inútil para o atendimento de novas necessidades. O
homem isolado, autossuficiente, sempre pode melhorar suas condições ao
trabalhar mais. No mercado de trabalho de uma sociedade regida pelas leis de
mercado, há comprador para toda oferta de trabalho. Pode haver abundância e
excesso apenas em segmentos do mercado de trabalho; isto resultaria no
deslocamento do trabalho desses setores para outros, provocando um aumento de
produção nestes outros setores do sistema econômico. Por outro lado, um aumento
na quantidade de terra disponível – mantidos constantes os outros fatores – só
resultaria num aumento de produção se a terra adicional fosse mais fértil do que a
anteriormente disponível.96 O mesmo ocorreria em relação a equipamentos aptos
a realizar uma produção futura. A possibilidade de utilização de bens de capital
também depende da quantidade de trabalho disponível. Seria desperdício usar a
capacidade de produção existente, se o trabalho necessário pudesse ser
empregado para satisfação de necessidades mais urgentes.
Fatores complementares de produção só podem ser usados na medida da
disponibilidade do mais escasso entre eles. Suponhamos que a produção de uma
unidade de p requeira a utilização de 7 unidades de a e de 3 unidades de b, e que
tanto a como b só possam ser usados para a produção de p. Se estão disponíveis
49 a e 2.000 b, não se poderá produzir mais que 7p. A quantidade disponível de a
determina a quantidade de b que pode ser aproveitada. Somente a é considerado
um bem econômico; somente por a as pessoas estarão dispostas a pagar um
preço; o preço total de p é função do preço de 7 unidades de a. Por outro lado, b
não é um bem econômico e nenhum preço lhe é atribuído, já que existem
quantidades de b que permanecem sem aproveitamento.
Podemos tentar imaginar um mundo no qual todos os fatores de produção
estivessem tão plenamente empregados que não haveria oportunidade de
empregar todas as pessoas ou, pelo menos, de empregá-las na medida em que
estivessem dispostas a trabalhar. Em tal mundo, haveria abundância de mão de
obra; um aumento na oferta de trabalho não poderia acarretar nenhum aumento
na quantidade total produzida. Pressupõe-se, ainda, que todos os homens têm a
mesma capacidade e disposição para o trabalho, e que inexiste a desutilidade do
trabalho, em tal mundo o trabalho não seria um bem econômico. Se este mundo
fosse uma comunidade socialista, um aumento na população seria considerado
como um aumento no número de consumidores ociosos. Se fosse uma economia de
mercado, os salários pagos não seriam suficientes para evitar a fome. Quem
quisesse trabalhar estaria disposto a fazê-lo por qualquer salário, por mais baixo
que fosse, mesmo que insuficiente para suas necessidades vitais. Ficariam felizes
em retardar um pouco a morte por inanição.
Não há necessidade de maior delonga sobre os paradoxos dessa hipótese, nem
de discussão sobre os problemas de tal mundo. Nosso mundo é diferente. O
trabalho é mais escasso do que os fatores materiais de produção. Não estamos
lidando, por ora, com o problema da população ótima. Estamos lidando, apenas,
com o fato de que existem fatores materiais de produção que permanecem sem ser
utilizados, porque o trabalho necessário é utilizado para a satisfação de
necessidades mais urgentes. No nosso mundo, não há abundância, mas
insuficiência de força de trabalho, e existem fatores materiais de produção
inaproveitados, quais sejam: terras, jazidas minerais e até mesmo usinas e
equipamentos.
Esta situação poderia ser mudada por um aumento de população, de tal forma
que todos os fatores materiais necessários à produção de alimentos, indispensáveis
– no sentido estrito deste termo – à preservação da vida humana, estivessem
sendo plenamente utilizados. Mas, não sendo esse o caso, esta situação não pode
ser alterada por qualquer progresso tecnológico dos métodos de produção. A
substituição de métodos de produção menos eficientes por outros mais eficientes
não torna o trabalho abundante, enquanto existirem fatores materiais disponíveis
cuja utilização possa aumentar o bem estar humano. Ao contrário, tais progressos
aumentam a produção e, portanto, a quantidade de bens de consumo. Os
procedimentos para “economizar a mão de obra” aumentam a oferta de bens. Não
ocasionam “desemprego tecnológico”.97
Todo produto é o resultado do emprego de trabalho e de fatores materiais. O
homem economiza tanto o trabalho como fatores materiais.
Trabalho imediatamente gratificante e trabalho mediatamente gratificante
Como regra geral, o trabalho gratifica de forma indireta a quem trabalha, ou seja,
pela supressão do desconforto provocado pela obtenção de um fim. O trabalhador
renuncia ao lazer e suporta a desutilidade do trabalho para usufruir o produto de
seu trabalho ou o que outras pessoas estão dispostas a lhe dar por esse produto. O
dispêndio de trabalho é, para quem trabalha, um meio para atingir fins, um preço
pago e um custo incorrido.
Mas existem casos em que o trabalho gratifica imediatamente o trabalhador. Ele
obtém uma satisfação imediata de seu dispêndio de trabalho. O rendimento é
duplo. Consiste, de um lado, na realização do produto e, de outro, na satisfação
que a própria execução do trabalho proporciona ao trabalhador.
Muitas pessoas interpretaram este fato de forma absurda e basearam neste
equívoco plano fantásticos de reforma social. Um dos principais dogmas do
socialismo é que o trabalho tem desutilidade apenas no sistema capitalista de
produção, enquanto que no regime socialista seria puro prazer. Não precisamos
considerar as efusões lunáticas do pobre Charles Fourier. Mas o socialismo
“científico” de Marx não difere neste ponto dos utopistas. Alguns de seus mais
notáveis defensores, Frederick Engels e Karl Kautsky, expressamente declaram que
um dos principais efeitos do regime socialista seria transformar em prazer o
padecimento do trabalho.98
O fato, frequentemente ignorado, é que as atividades que nos trazem uma
gratificação imediata e que são, portanto, fontes diretas de prazer e deleite são
essencialmente diferentes do trabalho. Somente um tratamento muito superficial
dos fatos em questão pode deixar de perceber essas diferenças. Remar numa
canoa em parque público aos domingos só do ponto de vista da hidromecânica
pode ser comparado a remar numa galé. Quando o ato de remar é considerado
apenas um meio para atingir fins, ele se torna diferente, assim como cantarolar
uma ária no chuveiro é diferente de cantá-la num recital. O remador
despreocupado e o cantor de banheiro tiram uma satisfação imediata da sua
atividade e não uma gratificação indireta. O que fazem, portanto, não é trabalho,
não é o emprego de suas funções fisiológicas para atingir fins outros além do
simples exercício dessas funções. É um mero prazer. É um fim em si mesmo; é feito
pelo prazer de fazer, sem qualquer outro benefício. Como não é trabalho, não pode
ser chamado de trabalho imediatamente gratificante.99
Às vezes, a um observador superficial, parece que o trabalho alheio constitui
fonte de satisfação imediata, porque ele mesmo gosta de se imaginar realizando
aquele trabalho. Da mesma forma que as crianças brincam de escola, de soldado,
de trem, também os adultos gostam de se imaginar nesta ou naquela função.
Pensam que o maquinista adora dirigir sua locomotiva tanto quanto eles gostariam,
se lhes fosse permitido brincar com ela. O contador, indo apressado para o
escritório, sente inveja do guarda civil que, pensa ele, é pago para passear
tranquilamente, fazendo sua ronda. Mas o guarda civil sente inveja do contador
que, sentado numa cadeira confortável, em ambiente refrigerado, ganha dinheiro
fazendo alguns rabiscos, o que não pode a seu juízo, ser chamado de trabalho. Não
vale a pena perder tempo analisando as opiniões de quem, por interpretar
erroneamente o trabalho alheio, o considera mero passatempo.
Existem, entretanto, casos em que o trabalho é imediatamente gratificante.
Existem alguns tipos de trabalho que, em pequenas doses e em certas condições,
proporcionam uma gratificação imediata. Mas essas doses são tão pequenas, que
não representam papel importante no conjunto da ação humana e na produção
para satisfação de necessidades. Nosso mundo se caracteriza pelo fenômeno da
desutilidade do trabalho. As pessoas trocam a desutilidade provocada pelo trabalho
pelo produto do trabalho; para elas, o trabalho é fonte de gratificação indireta.
Na medida em que certo tipo de trabalho proporciona prazer em vez de pena,
uma gratificação imediata e não a sensação de sua desutilidade, nenhum salário é
pago a quem o executa. Ao contrário, o executante deste “trabalho” é que deve
comprar o prazer e pagar por ele. A caça foi e é para muitas pessoas um trabalho
normal, gerador de desutilidade. Mas, para outras pessoas, é puro prazer. Na
Europa, amantes da caça compram dos proprietários das zonas de caça o direito de
matar certo número de determinados animais. O preço pago por este direito é
separado do preço a ser pago pela unidade de animal efetivamente caçado. Se os
dois preços fossem somados, o total certamente excederia a quantia que teríamos
que despender se quiséssemos comprar a mesma caça no mercado. Um cervo
vagando entre rochedos e penhascos tem um preço maior do que terá mais tarde,
depois de morto, trazido para o vale e preparado para que sua carne, sua pele e
seus chifres sejam aproveitados, muito embora, para matá-lo, tenha sido
necessário fazer uma fatigante escalada e gastar algum material. Podemos dizer
que um dos serviços que um cervo vivo é capaz de prestar é o de proporcionar ao
caçador o prazer de matá-lo.
O gênio criador
Muito acima dos milhões de indivíduos que nascem e morrem, destacam-se os
pioneiros, os homens cujos atos e ideias abriram novos caminhos para a
humanidade. Para esses gênios desbravadores 100, criar é a essência da vida.
Viver, para eles, significa criar.
As atividades desses homens prodigiosos não podem ser inteiramente
enquadradas no conceito praxeológico de trabalho. Não são trabalho porque, para
o gênio, não são meios, mas fins em si mesmos. Para o gênio, viver é criar e
inventar. Para ele, não há lazer, mas apenas intervalos de esterilidade e frustração.
Seu estímulo não vem do desejo de obter um resultado, mas do próprio ato de
produzi-lo. A realização não o gratifica nem direta nem indiretamente. Não o
gratifica indiretamente porque seus semelhantes, na melhor das hipóteses, não
manifestam, por sua realização, nenhum interesse e, até mesmo, frequentemente
a recebem com escárnio, chacota e perseguição. Muitos gênios poderiam usar seus
dons para tornar sua vida agradável e alegre; mas sequer cogitam desta
possibilidade e escolhem o seu caminho sem hesitação, mesmo se espinhoso. O
gênio quer realizar o que considera sua missão, mesmo sabendo que pode ser
conduzido ao seu próprio desastre.
Tampouco o gênio obtém de sua atividade criativa uma gratificação imediata.
Criar, para ele, é uma agonia e um tormento; é uma luta incessante e penosa
contra obstáculos internos e externos, que o consome e esgota. O poeta austríaco
Grillparzer soube descrever esta situação num poema comovente: “Adeus a
Gastein”.101 Podemos supor que, ao escrevê-lo, não pensou somente em suas
próprias penas e atribulações, mas também nos sofrimentos ainda piores de um
grande homem, Beethoven, com cuja sorte muito se identificava e a quem
compreendeu, melhor do que qualquer de seus contemporâneos, graças à sua
zelosa afeição e compreensiva admiração pelo grande compositor. Nietzsche se
comparava à chama que insaciavelmente se consome e se destrói.102 Tais agonias
são fenômenos que não têm nada em comum com as conotações geralmente
atribuídas às noções de trabalho e esforço, de produção e sucesso, de ganhar o pão
e gozar a vida.
As obras do gênio criador, seus pensamentos e teorias, seus poemas, pinturas e
composições, não podem ser classificadas, praxeologicamente, como produtos do
trabalho. Não são o resultado do emprego de uma capacidade de trabalho que
poderia ser usada para produzir outras amenidades, para a “produção” de uma
obra-prima de filosofia, arte ou literatura. Pensadores, poetas e artistas são,
frequentemente, incapazes de realizar qualquer outro trabalho. Seja como for, o
tempo e esforço que devotam às atividades criadoras não é subtraído do que
empregariam para outros propósitos. As circunstâncias, às vezes, condenam à
esterilidade um homem que teria tido a capacidade de criar coisas inauditas; talvez
não lhe deixem alternativa a não ser morrer de fome ou usar todas as suas forças
na luta pela simples sobrevivência. Mas, se o gênio consegue alcançar as metas a
que se propôs, ninguém, além dele, pagará pelos “custos” incorridos. Goethe talvez
tenha sido estorvado por suas funções na corte de Weimar. Mas certamente não se
teria desincumbido melhor de seus deveres como ministro de estado, diretor de
teatro e administrador de minas, se não tivesse escrito suas peças, poemas e
novelas.
Além do mais, é impossível substituir o trabalho de um gênio criador pelo
trabalho de qualquer outra pessoa. Se Dante e Beethoven não tivessem existido,
não seria possível produzir a Divina comédia ou a Nona sinfonia, atribuindo esta
tarefa a outras pessoas. Nem a sociedade nem qualquer indivíduo podem fazer
existir um gênio e sua obra. Nem a “demanda”, por maior que seja, nem ordens
peremptórias de governo produzem o menor efeito. O gênio não produz por
encomenda. Os homens não podem aperfeiçoar as condições naturais e sociais de
forma a provocar o surgimento do gênio criador e sua obra. É impossível formar
gênios pela eugenia, treiná-los nas escolas ou organizar suas atividades. Mas, sem
dúvida, a sociedade pode ser organizada de tal maneira que impeça o surgimento
de pioneiros e suas descobertas.
O talento criativo do gênio é, para a praxeologia, um fato irredutível. Aparece na
história como um presente do destino. Não é, de forma alguma, o resultado de
uma produção no sentido com que a economia emprega este termo.
4. Produção
A ação, se bem-sucedida, atinge o objetivo pretendido. Produz o produto
desejado.
A produção não é um ato de criação; não gera algo que não existia. É a
transformação de elementos dados mediante arranjos e combinações. O produtor
não é um criador. O homem só é criativo no plano do pensamento e da
imaginação. No mundo dos fenômenos externos, é apenas um transformador. Tudo
o que pode fazer é combinar os meios disponíveis de tal maneira, que em
decorrência das leis da natureza ocorra o resultado pretendido.
Houve época em que era costume distinguir entre a produção de bens tangíveis e
a prestação de serviços. O carpinteiro que fabricava mesas e cadeiras era
considerado produtivo; mas o mesmo não se dizia do médico cujos conselhos
ajudavam o carpinteiro a recuperar sua capacidade de fabricar mesas e cadeiras.
Fazia-se uma diferenciação entre o vínculo médico-carpinteiro e o vínculo
carpinteiro-alfaiate. O médico, afirmava-se, não produz nada por si mesmo; tira sua
subsistência do que os outros produzem, é mantido por carpinteiros e alfaiates.
Num período ainda anterior, os fisiocratas franceses sustentavam que todo trabalho
que não tirasse algo do solo era improdutivo. Em sua opinião, só eram produtivas a
agricultura, a pesca, a caça e a exploração de minas e jazidas. A indústria não
acrescentava nada ao valor dos materiais empregados, a não ser o valor das coisas
consumidas pelos trabalhadores.
Os economistas de hoje riem de seus predecessores por terem feito distinções tão
insustentáveis. Melhor fariam se tirassem a venda dos seus próprios olhos. A
maneira como muitos autores contemporâneos abordam diversos problemas
econômicos – como, por exemplo, publicidade e marketing – nada mais é do que
uma recaída em erros grosseiros que já não deviam mais ser cometidos.
Outra opinião também muito aceita pretende fazer diferenças entre o emprego de
trabalho e o de fatores materiais de produção. Sustentam os seus seguidores que a
natureza dispensa seus dons gratuitamente; mas o trabalho, tendo em vista a sua
desutilidade, deve ser pago. Ao despender esforço e superar a desutilidade do
trabalho, o homem acrescenta algo que não existia antes no universo. Neste
sentido, o trabalho era considerado criativo. Este conceito também está errado. A
capacidade de trabalho do homem é um dado do universo, como o são as
capacidades inerentes ao solo e às substâncias animais. Nem mesmo o fato de que
uma parte da capacidade de trabalho pode permanecer sem ser usada a diferencia
dos fatores de produção não humanos; estes também podem permanecer sem
serem usados. A disposição dos indivíduos para superar a desutilidade do trabalho
resulta do fato de preferirem o produto do trabalho à satisfação que derivaria de
um lazer mais prolongado.
Só a mente humana, que dirige a ação e a produção, é criativa. A mente também
pertence ao universo e à natureza; é uma parte do mundo existente e dado.
Chamar a mente de criativa não implica entregar-se a especulações metafísicas.
Qualificamo-la de criativa porque só conseguimos rastrear as mudanças provocadas
pela ação humana até o ponto em que nos defrontamos com a intervenção da
razão dirigindo as atividades humanas. A produção não é algo físico, material e
externo; é um fenômeno intelectual e espiritual. Seus requisitos essenciais não são
o trabalho humano e as forças naturais e coisas externas, mas a decisão da mente
de usar esses fatores como meios para alcançar fins. O que produz o produto não é
o esforço e o aborrecimento em si mesmos, mas o fato de que os esforços são
guiados pela razão. Só a mente humana é capaz de diminuir o desconforto.
A metafísica materialista dos marxistas interpreta esta realidade de maneira
inteiramente falsa. As propaladas “forças produtivas” não são algo material. A
produção é um fenômeno espiritual, intelectual e ideológico. É o método que o
homem dirigido pela razão, emprega para diminuir o seu desconforto na medida do
possível. O que distingue a nossa situação da dos nossos ancestrais que viveram há
mil ou vinte mil anos não é algo material, mas algo espiritual. As mudanças
materiais são fruto de mudanças espirituais.
Produzir é alterar o que existe segundo os desígnios da razão. Tais desígnios – as
receitas, as fórmulas, as ideologias – são o fundamental; transformam os fatores
originais – tanto os humanos como não humanos – em meios. O homem produz
usando a razão; escolhe os fins e emprega os meios para atingi-los. A suposição
popular segundo a qual a economia lida com as condições materiais da vida
humana é um grande equívoco. A ação humana é uma manifestação da mente.
Neste sentido, a praxeologia pode ser considerada uma ciência moral
(Geisteswissenschaft).
Naturalmente, não sabemos o que é a mente, do mesmo modo que não sabemos
o que são a vida, o movimento, a eletricidade. Mente é apenas a palavra
empregada para designar aquele fator desconhecido que possibilitou aos homens
tantas realizações: as teorias e os poemas, as catedrais e as sinfonias, os
automóveis e os aviões.
Rodapé
88 Livremente. (N.T.)
89 É importante notar que este capítulo não trata de preços ou valores de
mercado, mas de valor de uso subjetivo. Preço é uma consequência do valor de uso
subjetivo. Ver capítulo XVI.
90 Ver Carl Menger, Grundsätze der Volkswirtschaftslehre, Viena, 1871, p. 88 e
segs.; Böhm-Bawerk, Kapital und Kapitalzins , 3. ed., Innsbruck, 1909, parte 2, p.
237 e segs.
91 No mundo, não existem classes. É a nossa mente que classifica os fenômenos
para assim ordenar o nosso conhecimento. A questão de saber se certo modo de
classificar os fenômenos atinge ou não esse objetivo é diferente da questão de
saber se esta classificação é logicamente admissível ou não.
92 Ver Daniel Bernoulli, Versuch einer neuen Theorie zur Bestimmung von
Glücksfällen. Trad. Pringsheim, Leipzig, 1896, p. 27 e segs.
93 Ver Max Weber, Gesammelte Aufsätze zur Wissenschaftslehre, Tübingen, 1922,
p. 149 e 372. O termo “pragmático”, como empregado por Weber, naturalmente se
presta à confusão. É impróprio aplicá-lo fora do contexto da filosofia do
pragmatismo. Se Weber tivesse conhecido o termo “praxeologia”, provavelmente o
teria preferido.
94 Ver adiante p. 175-177.
95 É claro que certos recursos naturais são tão escassos, que são inteiramente
utilizados.
96 Havendo liberdade de mobilidade do trabalho, seria desperdício explorar terras
incultas, se estas não forem tão férteis de modo a compensar o custo total desta
operação.
97 Ver adiante p. 871-881.
98 Karl Kautsky, Die soziale Revolution, Berlim, 1911, p. 16 e segs., vol. 2. Com
relação a Engels ver adiante p. 675.
99 Remar seriamente, como um esporte, e praticar o canto seriamente, embora
como amador, constituem trabalho introvertido. Ver adiante p. 671-672.
100 Líderes (führers) não são pioneiros. Conduzem o povo pelos caminhos que os
pioneiros abriram. O pioneiro abre o caminho por regiões antes inacessíveis, sem
se importar se alguém trilhará este novo caminho. O líder dirige seu povo para os
objetivos que esse povo deseja alcançar.
101 Parece não haver tradução inglesa deste poema. O livro de Douglas Yates,
Franz Grillparzer, a Critical Biography , Oxford, 1946, p. 57, vol. 1, faz um pequeno
resumo, em inglês, do seu conteúdo.
102 Para uma tradução inglesa do poema de Nietzsche, ver M. A. Mügge, Friedrich
Nietzsche, Nova York, 1911, p. 275.
Parte II - Ação na Sociedade
CAPÍTULO 8
A Sociedade Humana
1. Cooperação Humana
Sociedade é ação concertada, cooperação.
A sociedade é a consequência do comportamento propositado e consciente. Isso
não significa que os indivíduos tenham firmado contratos por meio dos quais teria
sido formada a sociedade. As ações que deram origem à cooperação social, e que
diariamente se renovam, visavam apenas à cooperação e à ajuda mútua, a fim de
atingir objetivos específicos e individuais. Esse complexo de relações mútuas
criadas por tais ações concertadas é o que se denomina sociedade. Substitui, pela
colaboração, uma existência isolada – ainda que apenas imaginável – de
indivíduos. Sociedade é divisão de trabalho e combinação de esforços. Por ser um
animal que age, o homem torna-se um animal social.
O ser humano nasce num ambiente socialmente organizado. Somente nesse
sentido é que podemos aceitar quando se diz que a sociedade – lógica e
historicamente – antecede o indivíduo. Com qualquer outro significado, este dito
torna-se sem sentido ou absurdo. O indivíduo vive e age em sociedade. Mas a
sociedade não é mais do que essa combinação de esforços individuais. A sociedade
em si não existe, a não ser através das ações dos indivíduos. É uma ilusão imaginála fora do âmbito das ações individuais. Falar de uma existência autônoma e
independente da sociedade, de sua vida, sua alma e suas ações, é uma metáfora
que pode facilmente conduzir a erros grosseiros.
É inútil perguntar se é a sociedade ou o indivíduo que deve ser considerado como
fim supremo, e se os interesses da sociedade devem ser subordinados aos do
indivíduo ou vice-versa. Ação é sempre ação de indivíduos. O elemento social ou
relativo à sociedade é certa orientação das ações individuais. A categoria fim só
tem sentido quando referida à ação. A teologia e a metafísica da história podem
discutir os fins da sociedade e os desígnios que Deus pretende realizar no que
concerne à sociedade, da mesma maneira que discutem a razão de ser de todas as
outras partes do universo. Para a ciência, que é inseparável da razão – instrumento
evidentemente inadequado para tratar de problemas desse tipo —, seria inútil
envolver-se em especulações desta natureza.
No quadro da cooperação social podem emergir, entre os membros da sociedade,
sentimentos de simpatia e amizade e uma sensação de comunidade. Esses
sentimentos são a fonte, para o homem, das mais agradáveis e sublimes
experiências. São o mais precioso adorno da vida; elevam a espécie animal homem
às alturas de uma existência realmente humana. Entretanto, esses sentimentos
não são como tem sido afirmado, os agentes que engendraram as relações sociais.
São fruto da cooperação social e só vicejam no seu quadro; não precederam o
estabelecimento de relações sociais e não são a semente de onde estas germinam.
Os fatos fundamentais que fizeram existir a cooperação, a sociedade e a
civilização, e que transformaram o animal homem num ser humano, é o fato de
que o trabalho efetuado valendo-se da divisão do trabalho é mais produtivo que o
trabalho solitário, e o fato de que a razão humana é capaz de perceber esta
verdade. Não fosse por isso, os homens permaneceriam sempre inimigos mortais
uns dos outros, rivais irreconciliáveis nos seus esforços para assegurar uma parte
dos escassos recursos que a natureza fornece como meio de subsistência. Cada
homem seria forçado a ver todos os outros como seus inimigos; seu intenso desejo
de satisfazer seus próprios apetites o conduziria a um conflito implacável com seus
vizinhos. Nenhum sentimento de simpatia poderia florescer em tais condições.
Alguns sociólogos têm afirmado que o fato subjetivo original e elementar na
sociedade é uma “consciência da espécie”. 103 Outros sustentam que não haveria
sistemas sociais se não houvesse um “senso de comunidade ou de propriedade
comum”.104 Podemos concordar, desde que estes termos um pouco vagos e
ambíguos sejam corretamente interpretados. Podemos chamar de consciência da
espécie, senso de comunidade ou senso de propriedade comum, o reconhecimento
do fato de que todos os outros seres humanos são virtuais colaboradores na luta
pela sobrevivência, porque são capazes de reconhecer os benefícios mútuos da
cooperação, enquanto que os animais não têm essa faculdade. Entretanto, não
devemos esquecer que são os dois fatos essenciais acima mencionados que fazem
existir tal consciência ou tal senso de existência. Num mundo hipotético, onde a
divisão do trabalho não aumentasse a produtividade, não haveria sociedade. Não
haveria qualquer sentimento de benevolência e de boa vontade.
O princípio da divisão do trabalho é um dos grandes princípios básicos do devenir
cósmico e da mudança evolucionária. Os biologistas tinham razão em tomar
emprestado da filosofia social o conceito de divisão do trabalho e em adaptá-lo a
seu campo de investigação. Existe divisão do trabalho entre as várias partes de
qualquer organismo vivo. Mais ainda, existem no reino animal, colônias integradas
por seres que colaboram entre si; tais entidades, formadas, por exemplo, por
formigas ou abelhas, costumam ser chamadas, metaforicamente, de “sociedades
animais”. Mas não devemos jamais nos esquecer de que o traço característico da
sociedade humana é a cooperação propositada; a sociedade é fruto da ação
humana, isto é, apresenta um esforço consciente para a realização de fins. Nenhum
elemento desse gênero está presente, ao que se saiba, nos processos que
resultaram no surgimento dos sistemas estruturais e funcionais de plantas e de
corpos animais ou no funcionamento das sociedades de formigas, abelhas e
vespas. A sociedade humana é um fenômeno intelectual e espiritual. É a
consequência da utilização deliberada de uma lei universal que rege a evolução
cósmica, qual seja a maior produtividade da divisão do trabalho. Como em todos os
casos de ação, o reconhecimento das leis da natureza é colocado a serviço dos
esforços do homem desejoso de melhorar suas condições de vida.
2. Uma crítica da visão holística e metafísica da sociedade
Segundo as doutrinas do universalismo, do realismo conceitual, do holismo, do
coletivismo e de alguns representantes da Gestaltpsychologie, a sociedade é uma
entidade que vive sua própria vida, independente e separada das vidas dos
diversos indivíduos, agindo por sua própria conta e visando a seus próprios fins,
que são diferentes dos pretendidos pelos indivíduos. Assim sendo, é evidente que
pode surgir um antagonismo entre os objetivos da sociedade e os objetivos
individuais. Para salvaguardar o florescimento e futuro desenvolvimento da
sociedade, torna-se necessário controlar o egoísmo dos indivíduos e obrigá-los a
sacrificar seus desígnios egoístas em benefício da sociedade. Chegando a esta
conclusão, todas as doutrinas holísticas têm forçosamente de abandonar os
métodos tradicionais da ciência humana e do raciocínio lógico e adotar uma
profissão de fé teológica ou metafísica. Forçosamente têm de admitir que a
Providência, através de seus profetas, apóstolos e líderes carismáticos, obrigam os
homens – que são perversos por natureza, isto é, dispostos a perseguir seus
próprios fins – a entrar no caminho certo que o Senhor ou o Weltgeist ou a história
quer que eles trilhem.
Esta filosofia é a mesma que desde tempos imemoriais caracteriza as crenças de
tribos primitivas. Tem sido um elemento de todos os ensinamentos religiosos. O
homem é obrigado a respeitar a lei promulgada por um poder super-humano e
obedecer às autoridades, encarregadas por este poder de fazer cumprir a lei. A
ordem criada por esta lei, à sociedade humana, é consequentemente obra de uma
Divindade e não do homem. Se o Senhor não tivesse interferido e não tivesse
iluminado a humanidade pecadora, a sociedade não teria surgido. Não há dúvida
de que a cooperação social é uma bênção para os homens; não há dúvida de que o
homem só conseguiu livrar-se do barbarismo e da miséria moral e material de seu
estado primitivo porque se organizou em sociedade. Entretanto, por si mesmo,
jamais encontraria o caminho da sua própria salvação, uma vez que a adaptação às
exigências da cooperação social e a submissão aos preceitos da lei moral lhe
impunham restrições por demais pesadas. Do ponto de vista de sua débil
inteligência, consideraria qualquer renúncia a alguma vantagem esperada como um
mal e uma privação. Não seria capaz de perceber as vantagens incomparavelmente
maiores, mas posteriores, que a renúncia a prazeres imediatos e visíveis lhe
proporcionaria. Se não fosse pela revelação sobrenatural, não teria jamais
percebido o que o destino exigia que fizesse para seu próprio bem e o da sua
descendência.
A teoria científica elaborada pela filosofia social do racionalismo e do liberalismo
do século XVIII e pela moderna economia não recorre a nenhuma interferência
miraculosa de poderes sobre-humanos. Toda vez que o indivíduo substitui a ação
isolada pela ação concertada, resulta uma melhora imediata e perceptível de sua
situação. As vantagens advindas da cooperação pacífica e da divisão do trabalho
são universais. Beneficiam imediatamente quem assim age e não apenas,
futuramente, os seus descendentes. Aquilo que o indivíduo sacrifica em favor da
sociedade é amplamente compensado por vantagens ainda maiores. Seu sacrifício
é apenas temporário e aparente; renuncia a um ganho menor para poder obter um
maior em seguida. Nenhum ser razoável deixa de perceber fato tão evidente. O
que motiva a intensificação da cooperação social – ampliando a divisão de
trabalho, fortalecendo a proteção legal e garantindo a paz – é o desejo de todos os
interessados em melhorar suas próprias condições de vida. Ao defender o seu
próprio – corretamente compreendido – interesse, o indivíduo contribui para
intensificar a cooperação e a convivência pacífica. A sociedade é fruto da ação
humana, isto é, do desejo humano de diminuir seu desconforto tanto quanto lhe
seja possível. A fim de explicar seu surgimento e evolução, não é necessário
recorrer a uma doutrina, certamente ofensiva a uma pessoa verdadeiramente
religiosa, segundo a qual a criação original foi tão defeituosa, que reiteradas
intervenções sobre-humanas seriam necessárias para evitar seu fracasso.
O papel histórico da teoria da divisão do trabalho tal como foi elaborada pela
economia política inglesa, de Hume a Ricardo, consistiu em demolir completamente
todas as doutrinas metafísicas relativas à origem e ao funcionamento da
cooperação social. Consumou a emancipação espiritual, moral e intelectual da
humanidade, que fora iniciada pelo epicurismo. Substituiu a antiga ética
heterônoma e intuicionista por uma moralidade racional e autônoma. A lei e a
legalidade, o código moral e as instituições sociais não são mais reverenciados
como decretos insondáveis da Providência. Sua origem é humana e o único critério
que lhes deve ser aplicado é o da sua adequação ao bem estar humano. O
economista utilitarista não diz: Fiat justitia, pereat mundus.105 O que diz é: Fiat
justitia, ne pereat mundus.106 Não pede ao homem que renuncie ao seu bem estar
em benefício da sociedade. Recomenda-lhe que compreenda quais são os seus
verdadeiros interesses. Aos seus olhos, a grandeza de Deus não se manifesta pela
diligente interferência nos diversos interesses de príncipes e de políticos, mas por
dotar as criaturas com a razão e com o impulso para a busca da felicidade.107
O problema essencial de todas essas filosofias sociais do tipo universalista,
coletivista, holística é o seguinte: como identificar a verdadeira lei, o autêntico
profeta de Deus e a autoridade legítima? Pois muitos pretendem terem sido
enviados pela Providência e cada um prega um evangelho diferente. Para o crente
fiel, não pode haver dúvida; tem plena confiança de haver adotado a única doutrina
verdadeira. Mas é exatamente essa firmeza de convicções que torna os
antagonismos irreconciliáveis. Cada grupo está disposto a fazer prevalecer seus
próprios princípios. Como não há argumentação lógica capaz de decidir entre os
vários credos dissidentes, não resta outro meio para resolver tais disputas a não
ser o conflito armado. As doutrinas sociais não racionalistas, não utilitaristas e não
liberais têm de provocar conflitos armados e guerras civis até que um dos
adversários seja aniquilado ou subjugado. A história das grandes religiões é um
registro de batalhas e guerras como também o é a história das pseudorreligiões
modernas que são o socialismo, a estatolatria e o nacionalismo.
A intolerância e a propaganda apoiadas na espada do verdugo ou do carrasco são
inerentes a qualquer sistema de ética heterônoma. As leis de Deus ou do Destino
reivindicam uma validade universal e proclamam que todos os homens devem
obediência às autoridades que elas declaram serem legítimas. Enquanto durou o
prestígio dos códigos de moralidade heterônomos e seu corolário filosófico – o
realismo conceitual – não houve lugar para a tolerância e para a paz duradoura.
Quando uma luta cessava, era somente para se reunirem forças para nova batalha.
A ideia de tolerância para com pontos de vista divergentes só pôde prosperar
quando as doutrinas liberais quebraram o feitiço do universalismo. Para a filosofia
utilitarista, a sociedade e o estado deixam de ser considerados como instituições
para manutenção de uma ordem mundial que, por considerações inacessíveis à
mente humana, agradava à Divindade, embora manifestamente contrariasse os
interesses temporais de muitos ou mesmo da imensa maioria dos que vivem hoje
em dia. A sociedade e o estado são, ao contrário, o principal meio para que
qualquer pessoa possa atingir os fins a que se propõe. São criações do esforço
humano; sua sustentação e seu aperfeiçoamento são tarefas que não diferem
essencialmente das demais preocupações da ação humana. Os defensores de uma
moralidade heterônoma e da doutrina coletivista não conseguem demonstrar
racionalmente a correção de seu conjunto de princípios éticos nem a superioridade
ou a exclusiva legitimidade de seu ideal social. São obrigados a pedir às pessoas
que aceitem credulamente seu sistema ideológico e que se submetam à autoridade
que elas consideram como legítima; ou então silenciar o dissidente e impor-lhe a
submissão.
Haverá sempre, naturalmente, indivíduos ou grupos de indivíduos de inteligência
tão curta, que não conseguem perceber os benefícios que a cooperação social lhes
proporciona. Há outros cuja solidez moral e força de vontade, são tão fracas, que
não conseguem resistir à tentação de obter uma vantagem efêmera através de
ações prejudiciais ao funcionamento natural do sistema social. Isto porque o
ajustamento dos indivíduos às exigências da cooperação social requer sacrifícios.
Em verdade são sacrifícios apenas temporários e aparentes, uma vez que são mais
do que compensados pelas vantagens incomparavelmente maiores que a vida em
sociedade proporciona. Mas, no instante mesmo em que renunciamos uma
satisfação desejada, sentimos certo desconforto, e não é qualquer pessoa que
percebe benefícios posteriores e se comporta em função disso. O anarquismo
sustenta que a educação poderia fazer com que todos compreendessem qual seria
o comportamento mais condizente com os seus interesses; devidamente instruídos,
todos se conformariam com as regras de conduta indispensáveis à preservação da
sociedade. Os anarquistas afirmam que uma ordem social na qual ninguém tivesse
privilégios à custa de seus concidadãos poderia existir sem necessidade de
qualquer compulsão ou coerção para impedir ações prejudiciais à sociedade. Tal
sociedade ideal poderia prescindir do estado e do governo, isto é, poderia
prescindir do poder de polícia que é o aparato social de coerção e compulsão.
Os anarquistas deixam de perceber o fato inegável de que algumas pessoas são
ou muito limitadas intelectualmente ou muito fracas para se ajustar
espontaneamente às condições da vida social. Mesmo se admitirmos que todos os
adultos sadios sejam dotados da faculdade de compreender as vantagens da
cooperação social e de agir consequentemente, ainda assim restaria o problema
das crianças, dos velhos e dos loucos. Podemos concordar com a afirmação de que
pessoas que agem de maneira antissocial devem ser consideradas como doentes
mentais e receber cuidados médicos. Mas, enquanto não forem curados e,
enquanto existirem crianças e velhos, algo precisa ser feito para que não se
coloque em risco a sociedade. Uma sociedade anarquista estaria à mercê de
qualquer indivíduo. A sociedade não pode existir sem que a maioria das pessoas
esteja disposta a impedir, pela ameaça ou pela ação violenta, que minorias
venham a destruir a ordem social. Este poder é atribuído ao estado ou ao governo.
O estado ou o governo é o aparato social de compulsão e coerção. Tem o
monopólio da ação violenta. Nenhum indivíduo tem o direito de usar violência ou
ameaça de violência se o governo não o investir neste direito. O estado é
essencialmente uma instituição para a preservação de relações pacíficas entre os
homens. Não obstante, para preservar a paz, deve estar preparado para reprimir as
tentativas de violação da paz.
A doutrina social liberal, baseada nos ensinamentos da ética utilitarista e da
economia, vê o problema da relação entre governo e governados de um ângulo
diferente daquele do universalismo e do coletivismo. O liberalismo entende que os
governantes, que são sempre uma minoria, não podem permanecer
indefinidamente no poder sem o apoio consentido da maioria dos governados.
Qualquer que seja o sistema de governo, a base sobre a qual é construído e que o
sustenta é sempre o entendimento dos governados de que obedecer e ser leal a
este governo serve melhor os seus próprios interesses do que a insurreição e o
estabelecimento de um novo regime. A maioria tem o poder de rejeitar um governo
impopular e usa este poder quando se convence de que o seu bem estar assim o
exige. Em longo prazo, não pode haver governo impopular. A guerra civil e a
revolução são os meios pelos quais as maiorias descontentes derrubam
governantes e métodos de governo que não lhes convêm. Para preservar a paz
social, o liberalismo é favorável ao governo democrático. A democracia, portanto,
não é uma instituição revolucionária. Ao contrário, é precisamente o modo de
evitar revoluções e guerras civis, porque possibilita o ajustamento pacífico do
governo à vontade da maioria. Quando os homens no poder e suas políticas,
desagradam à maioria, na primeira eleição são substituídos por outros que
defendem outras políticas.
O conceito de governo majoritário ou governo pelo povo como recomenda o
liberalismo não visa à supremacia do medíocre, do inculto ou dos bárbaros. Os
liberais também acham que uma nação deve ser governada pelos mais aptos a
esta tarefa. Mas acreditam que a aptidão para governar é mais bem demonstrada
pela capacidade de convencer os seus cidadãos do que pelo uso da força. Nada
garante, evidentemente, que os eleitores confiarão o poder ao candidato mais
competente. Mas nenhum outro sistema poderia oferecer tal garantia. Se a maioria
da nação está dominada por princípios falsos e prefere candidatos indignos, não há
outro remédio a não ser tentar mudar suas ideias, explicando princípios mais
consistentes e recomendando homens melhores. Nenhuma minoria conseguirá
êxitos duradouros ao recorrer a outros métodos.
O universalismo e o coletivismo não podem aceitar a solução democrática para o
problema do poder. Em sua opinião, o indivíduo, ao agir de acordo com o código
ético, não o faz em benefício direto de seus interesses particulares, mas, ao
contrário, renuncia aos seus próprios objetivos em benefício dos desígnios da
Divindade ou da comunidade. Ademais, a razão, por si só, não é capaz de conceber
a supremacia dos valores absolutos e a validade incondicional da lei sagrada, nem
de interpretar corretamente cânones e mandamentos.Portanto, na visão do
universalismo e do coletivismo, é inútil tentar convencer a maioria pela persuasão
e conduzi-la, amigavelmente, ao caminho certo. Os que receberam a inspiração
celestial, iluminados por tal carisma, têm o dever de pregar o evangelho aos dóceis
e de recorrer à violência contra os intratáveis. O líder carismático é o vigário da
Divindade, o representante da comunidade, instrumento da história. É infalível e
tem sempre razão. Suas ordens são a norma suprema.
O universalismo e o coletivismo são necessariamente sistemas de governo
teocrático. A característica comum de todas as suas variantes é a postulação de
uma entidade sobre-humana à qual os indivíduos devem obediência. O que as
diferencia uma das outras é apenas a denominação que dão a esta entidade e o
conteúdo das leis que proclamam em seu nome. O poder ditatorial de uma minoria
não encontra outra forma de legitimação a não ser apelando para um suposto
mandato recebido de uma autoridade suprema e sobre-humana. Pouco importa se
o autocrata baseia sua autoridade no direito sagrado dos reis ou na missão
histórica da vanguarda do proletariado; nem se o ser supremo se denomina Geist
(Hegel) ou Humanité (Auguste Comte). Os termos sociedade e estado, como
empregados pelos adeptos contemporâneos do socialismo, do planejamento e do
controle social das atividades dos indivíduos, têm o significado de uma divindade.
Os padres dessa nova religião atribuem a seu ídolo todas aquelas virtudes que os
teólogos atribuem a Deus: onipotência, onisciência, bondade infinita, etc.
Se admitirmos que exista, acima e além das ações individuais uma entidade
imperecível que visa a seus próprios fins, diferentes dos homens mortais, teremos
já estruturado o conceito de um ser sobre-humano. Não podemos, então, fugir da
questão sobre que fins têm precedência, sempre que houver um conflito: se os do
estado ou sociedade, ou os do indivíduo. A resposta a esta questão já está implícita
no próprio conceito de estado ou sociedade como entendido pelo coletivismo e pelo
universalismo. Postularam-se a existência de uma entidade que por definição é
mais elevada, mais nobre e melhor do que os indivíduos, não pode haver qualquer
dúvida de que os objetivos desse ser eminente devem prevalecer sobre os dos
míseros mortais. (É verdade que certos amantes de paradoxos – Max Stirner108,
por exemplo – se divertem invertendo as coisas e, assim, sustentam que a
precedência é do indivíduo). Se a sociedade, ou o estado, é uma entidade dotada
de vontade e intenção e de todas as outras qualidades que lhe são atribuídas pela
doutrina coletivista, então é simplesmente absurdo confrontar as aspirações triviais
do pobre indivíduo com seus majestosos desígnios.
O caráter quase teológico de todas as doutrinas coletivistas torna-se evidente nos
seus conflitos mútuos. Uma doutrina coletivista não proclama a superioridade do
ente coletivo in abstrato; proclama sempre a proeminência de um determinado
ídolo coletivista e, ou nega liminarmente a existência de outros ídolos do mesmo
gênero, ou os relega a uma posição subordinada e auxiliar em relação ao seu
próprio ídolo. Os adoradores do estado proclamam a excelência de um determinado
estado, qual seja o seu próprio estado; os nacionalistas, a excelência da sua
própria nação. Se dissidentes contestam o seu programa, anunciando a
superioridade de outro ídolo coletivista, sua única resposta é repetir muitas vezes:
nós estamos certos porque uma voz interior nos diz que nós estamos certos e vocês
estão errados. Os conflitos entre coletivistas de seitas ou credos antagônicos não
podem ser resolvidos pela discussão racional; só podem ser resolvidos pelo recurso
à força das armas. As alternativas aos princípios liberais e democráticos do governo
da maioria são os princípios militares do conflito armado e da opressão ditatorial.
Todas as variantes de credos coletivistas estão unidas na sua implacável
hostilidade às instituições políticas fundamentais do sistema liberal: governo da
maioria, tolerância para com as opiniões divergentes, liberdade de pensamento, de
expressão e de imprensa, igualdade de todos perante a lei. Essa união dos credos
coletivistas nas suas tentativas de destruir a liberdade deu origem à suposição
equivocada de que a controvérsia política atual seja entre individualismo e
coletivismo. Na verdade, é uma luta entre o individualismo de um lado e uma
variedade de seitas coletivistas do outro. E o ódio e hostilidade mútuos entre essas
seitas são ainda mais ferozes que sua aversão ao sistema liberal. Não é uma seita
marxista uniforme que ataca o capitalismo, mas um bando de grupos marxistas.
Esses grupos – por exemplo, stalinistas, trotskistas, mencheviques, seguidores da II
Internacional, entre outros – lutam uns contra os outros de forma desumana e
brutal. Ademais, existem muitas outras seitas não marxistas que aplicam os
mesmos métodos atrozes nas suas lutas internas. Se o coletivismo vier a substituir
o liberalismo, o resultado será uma luta sangrenta e interminável.
A terminologia corrente deturpa inteiramente os fatos. A filosofia comumente
denominada individualismo é uma filosofia de cooperação social e de intensificação
progressiva dos vínculos sociais. Por outro lado, a aplicação das ideias coletivistas
só pode resultar na desintegração social e na luta armada permanente. É claro que
todas as variedades de coletivismo prometem a paz eterna a partir do dia de sua
vitória final e da derrota completa de todas as outras ideologias e seus defensores.
Entretanto, para que estes planos sejam realizados, é necessária uma mudança
radical no gênero humano. Os homens devem ser divididos em duas classes: de um
lado, o ditador onipotente, quase divino, e, do outro, as massas, que devem
abdicar da vontade e do raciocínio próprio para se tornarem meros peões no
tabuleiro do ditador. As massas devem ser desumanizadas, para que se possa fazer
de um homem o seu senhor divinizado. Pensar e agir, as características primordiais
do homem, tornar-se-iam o privilégio de um só homem. Não é necessário mostrar
que tais desígnios são irrealizáveis. Os impérios milenaristas dos ditadores são
fadados ao fracasso; nunca duram mais do que alguns anos. Já assistimos à queda
de muitas destas ordens “milenares”. As remanescentes não terão melhor sorte.
O atual ressurgimento das ideias coletivistas, causa principal das agonias e
desastres de nosso tempo, tem sido tão bem-sucedido, que fez esquecer as ideias
essenciais da filosofia social liberal. Hoje em dia, mesmo aqueles que são a favor
das instituições democráticas ignoram essas ideias. Os argumentos que invocam
para justificar a liberdade e a democracia estão infectados por erros coletivistas;
suas doutrinas são muito mais uma distorção do que uma adesão ao verdadeiro
liberalismo. Em sua opinião, as maiorias têm sempre razão simplesmente porque
têm o poder de derrotar qualquer oposição; governo majoritário equivale à
ditadura do partido mais numeroso e a maioria no poder não sente necessidade de
se refrear na utilização do seu poder nem na condução dos negócios públicos. Logo
que uma facção consegue obter o apoio da maioria dos cidadãos e, desse modo,
assume o controle da máquina governamental, considera-se com a faculdade de
negar à minoria todos aqueles direitos democráticos por meio dos quais conseguiu
alcançar o poder.
Este pseudoliberalismo, evidentemente, é a própria antítese da doutrina liberal.
Os liberais não divinizam as maiorias nem as consideram infalíveis; não sustentam
que o simples fato de uma política ser apoiada por muitos seja prova de seus
méritos para o bem comum. Não recomendam a ditadura da maioria nem a
opressão violenta das minorias dissidentes. O liberalismo visa a estabelecer uma
constituição política que assegure o funcionamento pacífico da cooperação social e
a intensificação progressiva das relações sociais mútuas. Seu objetivo principal é
evitar conflitos violentos, guerras e revoluções que necessariamente desintegram a
colaboração social e fazem os homens retornarem ao barbarismo primitivo, quando
todas as tribos e grupos políticos viviam permanentemente em luta uns com os
outros. Como a divisão do trabalho necessita de uma paz duradoura, o liberalismo
procura estabelecer um sistema de governo capaz de preservar a paz: a
democracia.
A praxeologia e o liberalismo
O liberalismo, no sentido com que esta palavra foi empregada no século XIX, é
uma doutrina política. Não é uma teoria, e sim a aplicação das teorias
desenvolvidas pela praxeologia, e especialmente pela economia, aos problemas
suscitados pela ação humana na sociedade.
Como doutrina política, o liberalismo não é neutro em relação a valores e fins
últimos que se pretendem alcançar pela ação. Pressupõe que todos, ou pelo menos
a maioria das pessoas, desejem atingir certos objetivos, e lhes informa sobre os
meios adequados para a realização de seus planos. Os defensores das doutrinas
liberais sabem perfeitamente que os seus ensinamentos só têm validade para as
pessoas que estejam comprometidas com essa escolha de valores.
Enquanto a praxeologia e, portanto, também a economia empregam os termos
felicidade e diminuição do desconforto num sentido puramente formal, o
liberalismo lhes confere um significado concreto. Pressupõe que as pessoas
prefiram a vida à morte, a saúde à doença, o alimento à fome, a abundância à
pobreza. Indica ao homem como agir em conformidade com essas valorações.
É comum qualificar estas preocupações como materialistas e acusar o liberalismo
de incorrer num materialismo grosseiro e de negligenciar as aspirações “mais
elevadas” e “mais nobres” da humanidade. Nem só de pão vive o homem, dizem os
críticos, ao menoscabar a mediocridade e a desprezível baixeza da filosofia
utilitária. Entretanto, estas diatribes exaltadas não têm fundamento porque
deformam grosseiramente os ensinamentos do liberalismo.
Primeiro: os liberais não afirmam que os homens deveriam empenhar-se para
alcançar os objetivos mencionados acima. O que sustentam é que a imensa maioria
prefere uma vida de saúde e abundância à miséria, à fome e à morte. A correção
desta afirmativa é incontestável. Prova disso é o fato de que todas as doutrinas
antiliberais – os programas teocráticos dos diversos partidos religiosos, estatistas,
nacionalistas e socialistas – adotam a mesma atitude em relação a estas questões.
Todos prometem a seus seguidores uma vida de abundância. Nunca se atreveram a
dizer que a implementação do seu programa prejudicaria o bem estar das pessoas.
Muito ao contrário, todas essas facções reafirmam insistentemente que a realização
dos planos dos seus rivais resultaria no empobrecimento geral, enquanto que os
seus planos proporcionariam abundância aos seus adeptos. Os partidos cristãos,
quando se trata de prometer às massas um nível de vida mais alto, não são menos
exaltados em suas palavras do que os nacionalistas ou os socialistas. As igrejas
modernas falam mais sobre a elevação de salários e de preços agrícolas do que
sobre os dogmas da doutrina cristã.
Segundo: os liberais não desdenham as aspirações intelectuais e espirituais dos
homens. Ao contrário, são estimulados por um ardente entusiasmo pela perfeição
moral e intelectual, pela sabedoria e pela excelência estética. Mas sua visão desses
nobres e elevados interesses é muito diferente da visão primária de seus
adversários. Não compartilham a ingênua opinião daqueles que creem que
qualquer sistema de organização social é capaz de encorajar o pensamento
filosófico e científico a produzir obras-primas de arte e de literatura e de tornar as
massas mais cultas. Entendem que tudo o que a sociedade pode fazer neste
particular é proporcionar um ambiente que não coloque obstáculos insuperáveis no
caminho dos gênios e libere suficientemente o homem comum de preocupações
materiais para que possa interessar-se por outras coisas além de simplesmente
ganhar sua subsistência. No seu entender, o melhor meio de tornar o homem mais
humano é combater a pobreza. A sabedoria, as ciências e as artes florescem
melhor num mundo de abundância do que num mundo de pobreza.
É uma distorção dos fatos acusar o período liberal de um suposto materialismo. O
século XIX não foi somente um século de progresso sem precedente quanto a
técnicas de produção e a conforto material das massas. Fez muito mais do que
aumentar a duração média da vida humana: suas realizações artísticas e científicas
são imperecíveis. Foi uma era que assistiu ao surgimento de músicos, escritores,
poetas, pintores e escultores que são imortais; revolucionou a filosofia, a
economia, a matemática, a física, a química e a biologia. E, pela primeira vez na
história, tornou as grandes obras e os grandes pensamentos acessíveis ao homem
comum.
Liberalismo e religião
O liberalismo se baseia numa teoria puramente racional e científica de
cooperação social. As políticas que recomenda são a aplicação de um sistema de
conhecimento que não tem nada a ver com sentimentos, com credos intuitivos para
os quais não se possam apresentar provas logicamente suficientes, com
experiências místicas, nem com percepções pessoais de fenômenos sobre-
humanos. Neste sentido, podem lhe ser atribuídos os epítetos frequentemente mal
compreendidos e erroneamente interpretados – de ateísta e agnóstico. Seria,
entretanto um erro grave concluir que as ciências da ação humana e a política
derivada de seus ensinamentos – o liberalismo – sejam antiteístas e hostis à
religião. Opõem-se radicalmente a todo sistema teocrático, mas são inteiramente
neutras em relação a crenças religiosas que não pretendam interferir na condução
dos assuntos sociais, políticos e econômicos.
A teocracia é um sistema social que depende de um título sobre-humano para sua
legitimação. A lei fundamental de um regime teocrático traduz-se por um insight
que não é passível de exame racional e não pode ser demonstrado por métodos
lógicos. Seu critério máximo é a intuição, que dota a mente com uma certeza
subjetiva sobre coisas que não podem ser concebidas pela razão e pelo raciocínio.
Quando esta intuição refere-se a um dos tradicionais sistemas, que predica a
existência de um Criador Divino, soberano do universo, é religioso. Quando se
refere a outro sistema, é chamada de crença metafísica. Portanto, um sistema de
governo teocrático não precisa amparar-se em uma das grandes religiões do
mundo. Pode ser o produto de doutrinas metafísicas que rejeitam todas as igrejas e
seitas tradicionais e que se orgulha de seu caráter antiteísta e antimetafísico. Nos
dias de hoje, os partidos teocráticos mais poderosos se opõem ao cristianismo e a
todas as religiões que derivaram do monoteísmo judaico. O que os caracteriza
como teocráticos é seu esforço de organizar os assuntos terrenos da humanidade
segundo um conjunto de ideias cuja validade não pode ser demonstrada pela
razão. Pretendem que seus líderes estejam dotados de um conhecimento
inacessível ao resto da humanidade, oposto às ideias sustentadas por aqueles a
quem foi negado o carisma. Os líderes carismáticos foram investidos, por um poder
místico superior, da missão de dirigir os interesses de uma humanidade transviada.
Somente eles são iluminados; todos os demais são ou cegos e surdos, ou
malfeitores.
É fato que muitas variantes das grandes religiões históricas foram contaminadas
por tendências teocráticas. Seus apóstolos estavam animados de uma paixão pelo
poder a fim de subjugar e aniquilar todos os grupos dissidentes. Entretanto, não
devemos confundir religião com teocracia.
William James considera como religiosos “os sentimentos, atos e experiências dos
indivíduos em sua solidão, na medida em que acreditam ter uma relação com o que
consideram ser o divino”.109 Enumera as seguintes crenças como características da
vida religiosa: que o mundo visível é parte de um universo mais espiritual do qual
retira sua significação principal; que a união ou a relação harmoniosa com este
universo superior é nosso verdadeiro fim; que a oração ou a comunhão interior com
o espírito desse universo mais elevado – seja ele “Deus” ou “a lei” – é um processo
real e efetivo do qual flui uma energia espiritual que produz efeitos tanto materiais
como psicológicos. A religião, continua James, também compreende as seguintes
características psicológicas: um novo encantamento que se agrega à vida como um
dom, tomando a forma tanto de um arrebatamento lírico como de um apelo à
seriedade e ao heroísmo, juntamente com uma sensação de segurança e de paz,
assim como uma disposição para o afeto e o amor em relação aos outros.110
Esta caracterização das experiências e sentimentos religiosos da humanidade não
faz qualquer referência à organização da cooperação social. A religião, como James
a entende, é uma relação puramente pessoal e individual entre o homem e uma
divina Realidade, sagrada e misteriosa, que inspira respeito e temor. Impõe ao
homem certo modo de conduta individual. Mas não faz nenhuma referência em
relação aos problemas de organização social. São Francisco de Assis, o maior gênio
religioso do Ocidente, jamais se interessou por política ou por economia. Queria
ensinar aos seus discípulos como viver piamente; mas nunca imaginou elaborar um
plano para organizar a produção, nem incitou seus seguidores a recorrerem à
violência contra dissidentes. Não pode ser responsabilizado pela interpretação de
seus ensinamentos feita pela ordem religiosa que fundou.
O liberalismo não coloca obstáculos no caminho do homem que deseja ajustar
sua conduta pessoal e seus interesses privados segundo a forma como ele,
pessoalmente, ou sua igreja, ou seita interpretam o evangelho. Mas se opõe
radicalmente a qualquer tentativa de impedir a discussão racional dos problemas
de bem estar social mediante um apelo à intuição religiosa e à revelação. Não
impõe a ninguém o divórcio ou a prática do controle da natalidade. Mas combate
àqueles que querem impedir outras pessoas de discutirem livremente os prós e os
contras desses assuntos.
Segundo o entendimento liberal, o objetivo da lei moral é forçar os indivíduos a
ajustarem sua conduta às exigências da vida em sociedade, a se absterem de
quaisquer atos contrários à preservação da cooperação social pacífica e ao
aprimoramento das relações inter-humanas. Os liberais acolhem prazerosamente o
apoio que ensinamentos religiosos possam dar a estes preceitos morais, que eles
também aprovam, mas se opõem a todas aquelas regras que certamente haverão
de provocar a desintegração social, qualquer que seja a fonte de onde provenham.
É uma distorção dos fatos dizer, como o fazem muitos defensores da teocracia
religiosa, que o liberalismo se opõe à religião. Onde for admitido o princípio da
intervenção da igreja nos assuntos temporais, as diversas igrejas, confissões e
seitas lutarão entre si. Ao separar a Igreja do estado, o liberalismo estabelece a
paz entre as diversas facções religiosas e dá a cada uma delas a oportunidade de
pregar seu evangelho sem ser molestada.
O liberalismo é racionalista. Sustenta que é possível convencer a imensa maioria
de que os seus próprios interesses, corretamente entendidos, serão mais bem
atendidos pela cooperação pacífica no quadro da sociedade do que pela luta
intestina e pela desintegração social. Tem plena confiança na razão humana. Pode
ser que esse otimismo seja infundado e que os liberais estejam errados. Se for
assim, o futuro da humanidade é desesperador.
3. A divisão do trabalho
A divisão do trabalho, com sua contrapartida, a cooperação humana, constitui o
fenômeno social básico.
A experiência ensina ao homem que a ação em cooperação é mais eficiente e
mais produtiva do que a ação isolada de indivíduos autossuficientes. As condições
naturais determinantes da vida e do esforço humano fazem com que a divisão do
trabalho aumente o resultado material por unidade de trabalho despendido. Esses
fatos naturais são:
Primeiro: a inata desigualdade dos homens com relação à sua capacidade de
realizar diversos tipos de trabalho. Segundo: a distribuição desigual dos recursos
naturais, não humanos, sobre a superfície da terra. Pode-se também considerar
estes dois fatos como um mesmo fato, qual seja, a diversidade da natureza que faz
do universo um complexo de infinita variedade. Se a superfície da terra fosse de tal
ordem que as condições físicas de produção fossem as mesmas em qualquer parte,
e se os homens fossem entre si tão iguais como o são dois círculos de mesmo
diâmetro na geometria euclideana, não teriam surgido, entre os homens, a divisão
do trabalho.
Há ainda um terceiro fato: o de existirem tarefas cuja realização excede as forças
de um só homem e exige o esforço conjunto de muitos. Algumas tarefas requerem
uma quantidade de trabalho que nenhum homem sozinho seria capaz de
despender, pelo simples fato de sua capacidade de trabalho ser limitada. Outras
poderiam ser realizadas por um indivíduo, mas o tempo que teria que despender
seria tão longo, que o resultado só seria alcançado tarde demais, não
compensando o trabalho despendido. Em ambos os casos, somente o esforço
conjunto torna possível atingir o fim pretendido.
Se houvesse apenas esta terceira condição, certamente a cooperação temporária
teria surgido entre os homens. Entretanto, tais alianças transitórias para realizar
tarefas específicas que estão acima da capacidade de um só indivíduo não teriam
ocasionado uma cooperação social duradoura. As tarefas que só podiam ser
executadas dessa maneira não eram muito numerosas nos primeiros estágios da
civilização. Além disso, nem sempre todos os interessados estariam de acordo em
considerar que o trabalho em questão fosse mais urgente e necessário do que
outras tarefas que cada um poderia realizar sozinho. A grande sociedade humana,
englobando todos os homens e todas as suas atividades, não se originou de tais
alianças ocasionais. A sociedade é muito mais do que uma aliança passageira feita
com um propósito específico e que se dissolve logo que o objetivo é alcançado,
mesmo que seus participantes estejam dispostos a refazê-la sempre que
necessário.
Quando, na divisão de trabalho, um indivíduo ou uma parcela de terra é superior,
pelo menos em um aspecto, aos outros indivíduos ou parcelas de terra, fica
evidente o aumento de produtividade daí decorrente. Se A pode produzir por
unidade de tempo 6p ou 4q, e B apenas 2p, ou então 8q, A e B, trabalhando
isoladamente, produzirão em média 4p + 6q; se dividirem o trabalho e cada um
cuidar apenas de executar o trabalho em que é mais eficiente, produzirão 6p + 8q.
Mas o que acontece quando A é mais eficiente do que B, não só na produção de p,
mas também na produção de q?
Foi esse problema que Ricardo levantou, para resolvê-lo em seguida.
4. A lei de associação de Ricardo
Ricardo formulou a lei da associação para demonstrar quais são as consequências
da divisão do trabalho quando um indivíduo ou um grupo coopera com outro
indivíduo ou grupo menos eficiente sob todos os aspectos. Seu objetivo era
investigar os efeitos do comércio entre duas regiões desigualmente dotadas pela
natureza, pressupondo que os produtos, mas não os trabalhadores e os bens de
produção acumulados (bens de capital), pudessem livremente circular de uma
região para outra. A divisão do trabalho entre as duas áreas, como mostra a lei de
Ricardo, aumentará a produtividade do trabalho e é, portanto, mais vantajosa,
mesmo que as condições materiais de produção de qualquer bem sejam mais
favoráveis em uma dessas áreas do que na outra. É mais vantajosa para a região
mais bem-dotada concentrar seus esforços na produção de bens em que sua
superioridade seja maior e deixar para a região menos bem-dotada a produção de
outros bens onde a superioridade da primeira seja menor. Este paradoxo – que
seja mais vantajoso a uma determinada região não aproveitar condições
domésticas mais favoráveis à produção de uma mercadoria e adquiri-la de outra
região onde as condições de produção sejam menos favoráveis – é o resultado da
imobilidade do capital e do trabalho, aos quais não é permitido o acesso aos locais
onde as condições de produção são mais favoráveis.
Ricardo tinha plena consciência de que esta sua lei da vantagem comparativa,
formulada principalmente para lidar com um problema específico de comércio
internacional, era um caso particular da mais universal lei da associação.
Se A é mais eficiente que B de tal maneira que necessite de 3 horas para produzir
uma unidade de p, enquanto B precisa de 5 horas, e de 2 horas (contra 4 horas
necessárias a B) para produzir uma unidade de q, resulta que ambos sairão
ganhando se A se limitar a produzir q e deixar para B a produção de p. Se cada um
deles dedicar 60 horas à produção de p e 60 horas à produção de q, o resultado do
trabalho de A será 20p + 30q; o de B será 12p + 15q; e os dois somados, 32p +
45q. Mas A, limitando-se produzir somente q, produz 60q em 120 horas, enquanto
B, limitando-se a produzir p, produz no mesmo tempo 24p. A soma de suas
atividades será portanto 24p + 60q, a qual – como para A, p tem uma relação de
substituição de 3/2 de q, e para B esta relação é de 5/4 de q – significa uma
produção maior do que 32p + 45q. Portanto, é evidente que a divisão de trabalho
traz vantagens para todos que dela participam. A colaboração dos mais talentosos,
mais capazes e mais esforçados com os menos talentosos, menos capazes e menos
esforçados resulta em benefício para ambos. Os ganhos obtidos com a divisão do
trabalho são recíprocos.
A lei da associação nos faz compreender as tendências que resultaram na
intensificação progressiva da cooperação humana. Concebemos assim o incentivo
que induziu as pessoas a não se considerarem simplesmente adversárias na luta
pela apropriação dos limitados meios de subsistência fornecidos pela natureza.
Constatamos o que as impeliu, e permanentemente as impele, a se juntarem para
colaborar. Cada passo na direção de um mais elaborado sistema de divisão do
trabalho favorece os interesses de todos os que dele participam. Para compreender
por que o homem não permaneceu solitário em busca de alimento e abrigo, como
os animais, apenas para si ou, quando muito, para sua companheira e sua prole
não precisamos recorrer à miraculosa interferência divina nem à hipótese vazia de
sentido de um impulso inato para associação. Tampouco precisamos supor que os
indivíduos isolados ou as hordas primitivas um belo dia se comprometeram, por
contrato, a estabelecer vínculos sociais. O fator que fez nascer a sociedade
primitiva e que contribui diariamente para seu desenvolvimento é a ação humana
estimulada pela percepção da maior produtividade alcançada pela divisão do
trabalho.
Nem a história, nem a etnologia, nem qualquer outro ramo do conhecimento
podem fornecer uma descrição da evolução do homem desde os bandos de
ancestrais não humanos até os primitivos grupos sociais de que nos informam as
escavações, os mais antigos documentos da história e as notícias dos exploradores
e viajantes que encontraram tribos selvagens. A tarefa da ciência no que se refere
às origens da sociedade só pode consistir em mostrar os fatores que podem e
devem resultar na associação e na sua progressiva intensificação. A praxeologia
resolve o problema. Se, e na medida em que, pela divisão do trabalho obtém-se
maior produtividade do que a obtida pelo trabalho isolado, e se, e na medida em
que, o homem seja capaz de perceber este fato, a ação humana tende,
naturalmente, para a cooperação e para a associação; o homem torna-se um ser
social não por sacrificar seus interesses em favor de um mítico Moloch, a
sociedade, mas porque pretende melhorar seu próprio bem estar. A experiência
ensina que esta condição – maior produtividade alcançada pela divisão do trabalho
– se torna efetiva porque sua causa – a desigualdade inata dos homens e a
desigual distribuição geográfica dos fatores naturais de produção – é real. É este
fato que nos permite compreender o curso da evolução social.
Erros comuns sobre a lei de associação
Muitos sofismas têm surgido em virtude da lei de associação de Ricardo, mais
conhecida como lei das vantagens comparativas. A razão é óbvia. Esta lei contraria
todos aqueles que procuram justificar o protecionismo e o isolamento econômico,
ao deixar claro que sua única justificativa é a defesa dos interesses egoístas de
alguns produtores ou a preparação para a guerra.
O principal objetivo de Ricardo ao formular esta lei foi refutar uma objeção
levantada contra a liberdade de comércio internacional. O protecionista pergunta:
num regime de livre comércio, qual seria o destino de um país no qual as condições
de produção fossem menos favoráveis do que em todos os outros países? Ora, num
mundo onde haja liberdade de movimentação, não apenas para mercadorias, mas
também para bens de capital e mão de obra, um país tão mal dotado para
produção deixaria de ser usado como local de qualquer atividade humana. Se as
pessoas têm mais vantagem não explorando as possibilidades físicas oferecidas por
este país – porque são comparativamente desvantajosas —, não se estabelecerão
nele e o deixarão desabitado como as regiões polares, as tundras e os desertos.
Mas Ricardo lida com um mundo cujas condições são determinadas por
assentamentos humanos já existentes, um mundo no qual os bens de capital e a
mão de obra estão ligados ao solo por determinadas instituições. Em tais
circunstâncias, o livre comércio, isto é, a liberdade apenas para circulação de
mercadorias, não pode resultar num estado de coisas tal, que capital e trabalho
sejam distribuídos pela superfície da terra de acordo com as maiores ou menores
oportunidades físicas oferecidas à produtividade do trabalho. É aqui que a lei das
vantagens comparativas começa a funcionar. Cada país se dedica aos setores de
produção para os quais pode oferecer, comparativamente, embora não
absolutamente, condições mais favoráveis. Para os habitantes de um país, é mais
vantajoso se abster de explorar algumas oportunidades que sejam – absoluta e
tecnologicamente – mais propícias e importar mercadorias produzidas em outro
país em condições que são – absoluta e tecnologicamente – menos vantajosas do
que os recursos domésticos não utilizados. O caso é análogo ao de um cirurgião
que acha mais conveniente contratar alguém para fazer a limpeza da sala de
operação e dos instrumentos, embora ele mesmo fosse mais eficiente também
nesta tarefa, e, assim, poder dedicar-se exclusivamente à cirurgia, atividade em
que sua superioridade é maior.
O teorema das vantagens comparativas não tem nada a ver com a teoria do valor
da economia clássica. Não lida com valor nem com preços. É um julgamento
analítico; a conclusão está implícita nas duas premissas segundo as quais os
fatores de produção tecnicamente possíveis de transportar têm produtividades
diferentes de acordo com sua localização e têm sua mobilidade institucionalmente
restringida. Este teorema pode, sem prejuízo da correção de suas conclusões,
deixar de lado problemas de valoração, porque lhe é possível recorrer a um
conjunto de suposições simples. Estas suposições são: que apenas duas
mercadorias sejam produzidas; que estas mercadorias tenham livre circulação; que
para a produção de cada uma delas sejam necessários dois fatores; que um destes
fatores (pode ser tanto trabalho como bens de capital) seja idêntico na produção
de ambas as mercadorias, enquanto o outro fator (uma propriedade específica do
solo) seja diferente para cada um dos dois processos; que a maior escassez do
fator comum a ambos os processos determine a extensão da exploração do fator
diferente. Considerando-se estas suposições, que possibilitam estabelecer as
relações de substituição entre os dispêndios do fator comum e o produto obtido, o
teorema responde à questão levantada.
A lei da vantagem comparativa é independente da teoria clássica de valor, como
também o é da lei dos rendimentos, cujo raciocínio é semelhante. Em ambos os
casos podemos contentar-nos em comparar apenas os recursos empregados e o
produto obtido. Usando a lei dos rendimentos, comparamos a quantidade produzida
de uma mesma mercadoria. Usando a lei da vantagem comparativa, comparamos a
quantidade produzida de duas mercadorias diferentes. Tal comparação é possível
porque se supõe que para a produção de cada uma, além de um fator específico,
somente são utilizados fatores não específicos de mesma natureza.
Alguns críticos censuram a hipótese simplista da lei da vantagem comparativa.
Entendem que a moderna teoria do valor exige uma reformulação da lei em
conformidade com o princípio do valor subjetivo. Somente tal reformulação poderia
fornecer uma demonstração conclusiva e satisfatória. Entretanto, não querem este
cálculo feito em termos monetários. Preferem recorrer àqueles métodos de análise
da utilidade que eles consideram como um meio de fazer cálculo de valor em
termos de utilidade. Veremos mais adiante que essas tentativas de eliminar os
termos monetários do cálculo econômico são ilusórias. Carecem de coerência e são
contraditórias, resultando defeituoso qualquer sistema que nelas se baseie.
Nenhum método de cálculo econômico é possível, a não ser o que se baseia em
preços monetários estabelecidos pelo mercado.111
As premissas simples que serviram de base à lei da vantagem comparativa não
têm exatamente, para os economistas modernos, o mesmo significado que tiveram
para os economistas clássicos. Alguns seguidores da escola clássica as
consideravam como o ponto de partida de uma teoria do valor no comércio
internacional. Sabemos hoje que estavam equivocados. Ademais, já percebemos
que, em relação à determinação de valores e preços, não há diferença entre
comércio doméstico e internacional. O que leva as pessoas a distinguirem entre
mercado interno e mercado externo é apenas uma diferença nos dados, isto é,
diferentes condições institucionais que restringem a circulação dos fatores de
produção e das mercadorias.
Se não quisermos lidar com a lei da vantagem comparativa adotando as
suposições simplificadas utilizadas por Ricardo, devemos empregar abertamente o
cálculo monetário. Não devemos incidir no erro de supor que uma comparação
entre a utilização de fatores de produção de vários tipos e a produção de
mercadorias de vários tipos possa ser feita sem a ajuda do cálculo monetário. Ao
considerarmos o caso do cirurgião e seu ajudante, devemos dizer: se o cirurgião
pode empregar o seu tempo de trabalho, que é limitado, para realizar operações
pelas quais ele recebe 50 dólares por hora, é de o seu interesse empregar um
ajudante, para manter seu instrumentos em ordem, pagando-lhe 2 dólares por
hora, embora este ajudante necessite de três horas para fazer o que o cirurgião
faria em uma hora. Ao comparar as condições de dois países, devemos dizer: se as
condições são de tal ordem que, na Inglaterra, a produção de 1 unidade de cada
uma das mercadorias a e b necessita o dispêndio de 1 dia de trabalho do mesmo
tipo de mão de obra, enquanto que na Índia, com o mesmo investimento de
capital, para produção de a são necessários 2 dias e, para b, 3 dias, e se os bens
de capital, tanto quanto a e b, podem circular livremente da Inglaterra para a Índia
e vice-versa, enquanto que a mão de obra não pode ser deslocada de um lugar
para o outro, os salários na Índia para a produção de a tendem a ser 50% e, para a
produção de b, 33%, 1/3 em relação aos salários na Inglaterra. Se o salário na
Inglaterra é de 6 xelins, os salários na Índia seriam equivalentes a 3 xelins na
produção de a e a 2 xelins na produção de b. Tal discrepância de salários para
trabalho do mesmo tipo não pode perdurar, se existe mobilidade da mão de obra
no mercado interno da Índia. Os trabalhadores se deslocariam da produção de b
para a produção de a; esta migração faria reduzir os salários na fabricação de a e
aumentá-los na fabricação de b. Finalmente, os salários da Índia seriam idênticos
em ambas as indústrias. A produção de a tenderia a expandir-se e a superar a
concorrência inglesa. Por outro lado, a produção de b deixaria de ser rentável na
Índia e acabaria desativada, enquanto que se expandiria na Inglaterra. O mesmo
raciocínio se aplica quando consideramos que a diferença nas condições de
produção consiste também, ou exclusivamente, no montante do capital de
investimento necessário.
Tem sido afirmado que a lei de Ricardo era válida apenas na sua época e que não
tem validade hoje, quando as condições são diferentes. Ricardo via a diferença
entre comércio doméstico e comércio internacional pela diferente mobilidade que o
capital e o trabalho tinham num caso e no outro. Se supusermos que a circulação
de capital, trabalho e mercadorias são livres, só existiria diferença entre comércio
interno e comércio internacional na medida em que se considerasse o custo de
transporte.
Neste caso, seria supérfluo formular uma teoria de comércio internacional distinta
daquela do comércio interno. O capital e o trabalho se distribuiriam na superfície da
terra de acordo com as melhores ou piores condições oferecidas à produção pelas
diversas regiões. Haveria zonas mais densamente povoadas e mais bem equipadas
com capital e outras menos densamente povoadas e com menos capital.
Prevaleceria no mundo uma tendência à equalização dos salários para o mesmo
tipo de trabalho.
Ricardo, entretanto, parte da suposição de que há mobilidade de capital e
trabalho apenas no interior de cada país, e não entre os diversos países. Investiga
as consequências da livre circulação de mercadorias nestas condições. (Se também
não há circulação de mercadorias, então cada país está isolado economicamente,
autárquico, e não existe comércio internacional). A teoria da vantagem
comparativa responde a esta questão. É certo que a hipótese de Ricardo era, em
larga medida, válida na sua época. Mais tarde, durante o século XIX, as condições
mudaram. A imobilidade do capital e do trabalho cedeu terreno; transferências
internacionais de capital e mão de obra se tornaram cada vez mais frequentes.
Então veio a reação. Hoje, capital e trabalho estão novamente com sua mobilidade
restringida. A realidade atual volta a coincidir com as premissas ricardianas.
Os ensinamentos da teoria clássica de comércio internacional estão acima de
quaisquer mudanças nas condições institucionais. Permitem-nos estudar os
problemas envolvidos em qualquer situação que imaginarmos.
5. Os efeitos da divisão do trabalho
A divisão do trabalho é o resultado da reação consciente do homem à
multiplicidade de condições naturais. Por outro lado, é em si mesmo um fator que
acentua essas diferenças. Atribui às diversas regiões geográficas funções
específicas no complexo do processo de produção. Faz de algumas áreas, zonas
urbanas, de outras, zona rural; localiza os vários ramos da indústria, mineração e
agricultura em locais diferentes. Mais importante ainda é o fato de que a divisão do
trabalho intensifica a desigualdade inata dos homens. O treinamento e a prática de
tarefas específicas ajustam melhor os indivíduos às exigências de suas atividades;
os homens desenvolvem algumas de suas faculdades inatas e tolhem o
desenvolvimento de outras. Surgem as vocações, as pessoas se tornam
especialistas.
A divisão do trabalho divide os vários processos de produção em tarefas mínimas,
muitas das quais podendo ser realizadas por dispositivos mecânicos. Este fato
tornou possível o uso de máquinas e provocou o assombroso progresso das
técnicas de produção. A mecanização é fruto da divisão do trabalho, sua
consequência mais benéfica, e não sua causa e sua fonte. A maquinaria
especializada movida a motor só poderia ser empregada num ambiente social onde
predominasse a divisão do trabalho. Cada avanço na direção do uso de máquinas
mais especializadas, mais refinadas e mais produtivas exige uma maior
especialização das tarefas.
6. O indivíduo na sociedade
A praxeologia, ao estudar o indivíduo isolado, agindo por conta própria e
independentemente de seus semelhantes, assim procede para permitir uma melhor
compreensão dos problemas da cooperação social. Não assegura que tais seres
humanos solitários e autárquicos tenham algum dia existido, nem que o estágio
social da história do homem tenha sido precedido por uma era de indivíduos
independentes, vagando como animais em busca de comida. A humanização
biológica dos ancestrais não humanos do homem e o surgimento dos primitivos
laços sociais constituem um mesmo processo. O homem apareceu no cenário dos
eventos terrestres como um ser social. O homem isolado, insocial, é uma
construção fictícia.
Vista pelo ângulo do indivíduo, a sociedade é o grande meio para atingir todos os
fins. A preservação da sociedade é uma condição essencial de quaisquer planos que
um indivíduo pretenda realizar. Mesmo o delinquente contumaz que não consegue
ajustar sua conduta às exigências da vida num sistema social de cooperação não
está disposto a renunciar a nenhuma das vantagens que resultam da divisão do
trabalho. Não pretende, conscientemente, destruir a sociedade. O que pretende é
apropriar-se de uma parcela da riqueza produzida em conjunto, maior do que
aquela que a ordem social lhe consignaria. Ficaria muito infeliz se o
comportamento antissocial se generalizasse, acarretando como resultado inevitável
o retorno ao estágio de primitiva indigência.
É uma ilusão pensar que o indivíduo, ao renunciar às alegadas benesses de um
quimérico estado natural para integrar a sociedade, privou-se de certas vantagens
e tem, por isso, direito a uma indenização para compensar o que perdeu. A ideia de
que alguém poderia viver melhor se não existisse a sociedade humana, e que,
portanto teria sido lesado pela própria existência da sociedade, é uma ideia
absurda. Graças à maior produtividade da cooperação social, a população mundial
cresceu a um nível muito superior ao que teria crescido, se o rudimentar grau de
divisão do trabalho tivesse continuado a prevalecer. Todos os homens usufruem um
padrão de vida muito mais elevado do que os seus ancestrais selvagens. A
condição natural do homem é de extrema pobreza e insegurança. É uma tolice
romântica lamentar o fim daqueles tempos felizes de barbarismo primitivo. Os que
lamentam o fim dessa época, se nela tivessem vivido, não teriam atingido a idade
adulta, e se o tivessem, estariam privados das oportunidades e amenidades que a
civilização proporciona. Jean-Jacques Rousseau e Frederick Engels se tivessem
vivido naquele estado primitivo que descrevem com uma ternura nostálgica, não
teriam tido o tempo necessário aos seus estudos, nem teriam escrito seus livros.
Um dos privilégios que o indivíduo desfruta em sociedade é o privilégio de viver
apesar de doente ou incapacitado fisicamente. O animal doente está condenado à
morte. Sua fraqueza torna-lhe difícil encontrar comida e repelir o ataque de outros
animais. Os selvagens surdos, míopes ou aleijados não sobrevivem. Mas estes
defeitos não privam o homem da possibilidade de se ajustar à vida em sociedade.
A maioria dos nossos contemporâneos sofre de alguma deficiência física que a
biologia considera patológica. Nossa civilização é, em grande parte, obra desses
homens. As forças eliminadoras da seleção natural são grandemente reduzidas
pelas condições sociais. É por isso que alguns afirmam que a civilização tende a
deteriorar as qualidades hereditárias dos membros da sociedade.
Tais julgamentos são compreensíveis se consideramos a humanidade com os
olhos de um criador que pretende produzir uma raça de homens dotados de certas
características. Mas a sociedade não é um haras funcionando com o objetivo de
produzir um determinado tipo de homem. Não há nenhum critério “natural” para
estabelecer o que é desejável e o que é indesejável na evolução biológica do
homem. Qualquer padrão que se escolha é arbitrário, meramente subjetivo, em
suma, um juízo de valor. Os termos melhoria racial ou degeneração racial são
desprovidos de sentido quando não estão relacionados com planos específicos
elaborados para definir o futuro da humanidade.
Na verdade, o homem civilizado está ajustado para viver em sociedade e não
para viver como um caçador numa floresta virgem.
A fábula da comunhão mística
A teoria praxeológica da sociedade é exprobrada pela fábula da comunhão
mística.
A sociedade, afirmam os defensores dessa doutrina, não é o produto da ação
propositada do homem; não é a cooperação e a divisão de tarefas. Deriva de
profundezas insondáveis, de um impulso intrínseco à natureza essencial do homem.
É, para um grupo, fecundação pelo espírito, que é Realidade Divina, e participação
no poder e no amor de Deus, em virtude de uma unio mystica.112 Para outro
grupo, a sociedade é um fenômeno biológico; é consequência da voz do sangue, o
laço que une os descendentes da mesma ancestralidade com seus ancestrais e
entre si; é a harmonia mística entre o lavrador e o solo por ele cultivado.
É verdade que esses fenômenos psíquicos realmente existem. Existem pessoas
que sentem a união mística e colocam esta experiência acima de tudo; e existem
homens que creem escutar a voz do sangue e que sentem com o coração e a alma
o aroma inconfundível de sua terra natal. A experiência mística e o êxtase
arrebatador são fatos que a psicologia deve considerar reais, como qualquer outro
fenômeno psíquico. O erro das doutrinas de comunhão não consiste na sua
afirmativa de que tais fenômenos realmente existem, mas na crença de que são
fatos primordiais não suscetíveis de exame racional.
A voz do sangue, que aproxima o pai de seu filho, não era ouvida pelos selvagens
que não percebiam a relação causal entre coabitação e gravidez. Hoje, como esta
relação é conhecida de todo o homem que tenha total confiança na fidelidade de
sua esposa pode percebê-la. Mas, se tem dúvidas quanto à fidelidade da esposa, a
voz do sangue não lhe informa nada. Ninguém jamais se aventurou a afirmar que
as dúvidas relativas à paternidade pudessem ser esclarecidas pela voz do sangue.
A mãe que tenha cuidado de seu filho desde seu nascimento pode ouvir a voz do
sangue. Mas, se perde o contato com a criança muito cedo, pode mais tarde
identificá-la por meio de alguma marca no corpo, como por exemplo, aquelas
manchas e cicatrizes a que costumavam recorrer os novelistas. Mas o sangue é
mudo, se tais observações e as conclusões daí derivadas não lhe fazem falar. A voz
do sangue, afirmam os racistas alemães, misteriosamente une todos os membros
do povo alemão. Mas a antropologia nos revela que a nação alemã é uma mistura
de descendentes de várias raças, sub-raças e linhagens, e não um grupo
homogêneo descendente de uma mesma ancestralidade. O eslavo recentemente
germanizado, e que só há pouco tempo mudou o seu nome de família por outro
cujo som pareça mais germânico, pode acreditar que tenha ligações substanciais
com os alemães. Mas não sente nenhum impulso interior impelindo-o a se juntar a
seus irmãos e primos que permaneceram tchecos ou poloneses.
A voz do sangue não é um fenômeno original e primordial. É instigada por
considerações racionais. Quando um homem acredita estar relacionado com outras
pessoas por uma ancestralidade comum, desenvolve sentimentos que são
poeticamente descritos como a voz do sangue.
O mesmo se pode dizer do êxtase religioso e do misticismo do solo. A união
mística de um crente devoto está condicionada pela sua familiaridade com os
ensinamentos básicos de sua religião. Somente aqueles a quem tenha sido
ensinada a grandeza e a glória de Deus podem experimentar a comunhão direta
com Ele. O misticismo do solo está ligado ao desenvolvimento de determinadas
ideias geopolíticas. Assim, pode ocorrer que habitantes da planície ou do litoral
incluam na imagem do solo, ao qual se consideram ardorosamente unidos e
apegados, regiões montanhosas que lhes são desconhecidas e a cujas condições
não conseguiriam adaptar-se, somente por este território pertencer ao corpo
político do qual são ou gostariam de ser membros. Por outro lado, frequentemente,
não incluem nessa imagem do solo, cuja voz pretendem ouvir, áreas vizinhas com
uma estrutura geográfica muito semelhante à do local onde vivem, só porque essas
áreas fazem parte de uma nação estrangeira.
Os vários membros de uma nação ou grupo linguístico e os agrupamentos por
eles formados nem sempre estão unidos por sentimentos de amizade e boa
vontade. A história de cada nação é um repertório de antipatias recíprocas e
mesmo de ódio entre suas subdivisões. Bastam lembrar os ingleses e os escoceses,
os ianques e os sulistas, os prussianos e os bávaros. Foram as ideologias que
superaram tais animosidades e que inspiraram a todos os membros de uma nação
ou grupo linguístico os sentimentos de comunidade e de solidariedade que os
nacionalistas de nossos dias consideram como um fenômeno natural e original.
A mútua atração sexual entre macho e fêmea é inerente à natureza animal do ser
humano e independe de qualquer raciocínio ou teorização. Podemos qualificá-la de
original, vegetativa, instintiva ou misteriosa; não há inconveniente em afirmar
metaforicamente que faz com que dois seres se sintam um só. Podemos considerála como uma comunhão mística de dois corpos, uma comunidade. Entretanto, nem
a coabitação nem o que a precede ou sucede geram a cooperação social e os
modos de vida em sociedade. Os animais também se juntam para cruzar, mas não
desenvolveram relações sociais. A vida em família não é apenas um produto da
relação sexual. Não é, de modo algum, nem natural, nem necessário que pais e
filhos vivam juntos como se faz em uma família. A relação sexual não resulta
necessariamente na formação da família. A família humana é resultado do
pensamento, do planejamento e da ação. É este o fato que a distingue
radicalmente dos grupos animais que, por analogia, chamamos de famílias animais.
A experiência mística da comunhão ou comunidade não é a fonte das relações
sociais, mas o seu produto.
O reverso da fábula da comunhão mística é a fábula da repulsão natural e original
entre raças e nações. Tem sido dito que um instinto ensina o homem a distinguir
entre congêneres e estrangeiros e a detestar os últimos. Os descendentes de raças
nobres abominam qualquer contato com os membros de raças inferiores. Para
refutar esta assertiva, basta mencionar a existência da mistura racial. Como não
existe atualmente na Europa nenhuma raça pura, somos forçados a concluir que,
entre os membros das diversas raças que um dia se estabeleceram no continente
europeu, havia atração sexual e não repulsão. Milhões de mulatos e outros
mestiços são a evidência viva da falsidade da afirmativa de que existe uma
repulsão natural entre as várias raças.
Da mesma forma que o sentimento místico de comunhão, o ódio racial não é um
fenômeno natural inato no homem. É o produto de ideologias. Mas mesmo que
existisse algo como um ódio natural e inato entre as várias raças, nem por isso a
cooperação social seria inútil nem invalidaria a teoria da associação de Ricardo. A
cooperação social nada tem a ver com amor pessoal, nem com um mandamento
que nos diz para amarmos uns aos outros. As pessoas não cooperam sob a égide
da divisão do trabalho porque amam ou deviam amar uns aos outros. Cooperam
porque assim servem melhor a seus próprios interesses. Não é o amor, nem a
caridade ou qualquer outro sentimento afetuoso, mas sim o egoísmo, corretamente
entendido, que originalmente impeliu o homem a se ajustar às exigências da
sociedade, a respeitar as liberdades e direitos de seus semelhantes e a substituir a
inimizade e o conflito pela cooperação pacífica.
7. A grande sociedade
Nem toda relação inter-humana é uma relação social. Quando grupos de homens
se acometem mutuamente em guerras de extermínio total, quando homens lutam
entre si tão impiedosamente como se estivessem destruindo animais e plantas
perniciosos, existe, entre as partes combatentes, recíproco efeito e mútua relação,
mas não sociedade. Sociedade é ação conjunta e cooperação, na qual cada
participante vê o sucesso alheio como um meio de atingir o seu próprio.
As lutas que as tribos e hordas primitivas travavam entre si pelos pontos de água
limpa, pelos locais de caça e pesca, pelas pastagens e pelos despojos, eram
impiedosas guerras de aniquilação. Eram guerras totais. Do mesmo gênero foram
os primeiros encontros, no século XIX, entre os europeus e os aborígenes dos
territórios até então inacessíveis. Mas já na era primitiva, muito antes do tempo
sobre o qual nos ensinam os documentos históricos, outro tipo de procedimento
começou a se desenvolver. As pessoas, mesmo na guerra, preservavam alguns
rudimentos de relações sociais previamente estabelecidos; ao lutar contra povos
com os quais nunca tinham tido qualquer contato, começaram a considerar a ideia
de que entre seres humanos, não obstante a inimizade do momento, seria possível
encontrar, posteriormente, formas de cooperação. As guerras eram empreendidas
para causar dano ao adversário; mas os atos de hostilidade não eram mais cruéis e
impiedosos no pleno sentido dessas expressões. Os beligerantes começaram a
respeitar certos limites que numa luta contra homens – diferentemente de contra
animais – não deveriam ser ultrapassados. Acima do ódio implacável e do frenesi
de destruição e de aniquilação, uma noção social começou a prevalecer. Emergiu a
ideia de que todo adversário devia ser considerado como um parceiro potencial
numa futura cooperação e que este fato não devia ser negligenciado na condução
das operações militares. A guerra deixava de ser considerada como o estado
normal das relações inter-humanas. As pessoas começavam a perceber que a
cooperação pacífica é a melhor maneira de proceder na luta pela sobrevivência.
Podemos mesmo dizer que, quando as pessoas perceberam que é melhor
escravizar os derrotados do que matá-los, os guerreiros, embora ainda lutando,
estavam também pensando na paz que viria em seguida. A escravidão foi, em larga
medida, um passo preliminar no sentido da cooperação.
O reconhecimento de que, mesmo na guerra, nem todo ato deve ser considerado
como permissível, que existem atos de guerra legítimos e outros ilícitos, que
existem leis, isto é, afinidades sociais que estão acima de todas as nações, mesmo
daquelas que estão momentaneamente em luta, foi o que finalmente estabeleceu
a Grande Sociedade, que engloba todos os homens e todas as nações. As várias
sociedades regionais passaram a constituir uma única sociedade ecumênica.
Os beligerantes não fazem a guerra de forma selvagem, como as bestas, mas,
respeitando normas de guerra “humanas” e sociais, renunciam ao uso de alguns
métodos de destruição a fim de obter a mesma concessão de seus adversários. Na
medida em que tais regras são respeitadas, existem relações sociais entre as
partes em luta. Os atos de hostilidade são não apenas associais, mas antissociais.
É impróprio definir o termo “relações sociais” de tal maneira que incluam, nesta
definição, ações que tenham por objetivo a aniquilação de outras pessoas e a
frustração de suas atividades.113 Onde as únicas relações entre os homens são as
dirigidas ao mútuo detrimento, não existem sociedade nem relações sociais.
A sociedade não é apenas interação. Há interação – influência recíproca – de
todas as partes do universo: do lobo com o carneiro devorado; do micróbio com o
homem que ele mata; da pedra que cai com o objeto sobre o qual ela cai. A
sociedade, ao contrário, implica sempre a cooperação de homens com outros
homens, de forma a permitir que todos os participantes atinjam seus próprios fins.
8. O instinto de agressão e destruição
Tem sido dito que o homem é um predador cujos instintos naturais e inatos
impelem a lutar, a matar e a destruir. A civilização, ao criar um laxismo
humanitário antinatural que aliena o homem de sua origem animal, teria
abrandado esses impulsos e apetites. Fez do homem civilizado um poltrão
decadente que tem vergonha de sua animalidade e orgulhosamente qualifica de
humanitarismo sua depravação. Para impedir uma maior degeneração da espécie
humana, é imperativo libertá-la dos efeitos perniciosos da civilização. Porque a
civilização é tão somente uma invenção engenhosa dos seres inferiores. Estes
lacaios são fracos demais para enfrentar os heróis vigorosos, são covardes demais
para suportar o merecido castigo de sua completa aniquilação, e são preguiçosos e
insolentes demais para serem usados como escravos. Por isso, recorreram a um
artifício astucioso. Reverteram os eternos padrões de valor, fixados de forma
absoluta pelas imutáveis leis da natureza; propagaram uma moralidade que
qualifica como virtude sua própria inferioridade e como vício a proeminência dos
nobres heróis. Essa rebelião moral dos escravos deve ser desfeita por uma
transposição de todos os valores. A ética dos escravos, esse produto vergonhoso do
ressentimento dos mais fracos, deve ser inteiramente rejeitada; deve ser
substituída pela ética dos fortes ou, para ser mais preciso, pela supressão de
qualquer restrição de natureza ética. O homem deve tornar-se um digno
descendente de seus ancestrais, as nobres bestas dos tempos passados.
Usualmente essas doutrinas são chamadas de darwinismo social ou sociológico.
Não é necessário examinar se esta terminologia é apropriada ou não. De qualquer
forma, é um erro atribuir os epítetos evolucionário e biológico a ensinamentos que,
tranquilamente amesquinhando toda a história da humanidade, desde a época em
que o homem começou a se alçar acima da existência puramente animal de seus
ancestrais não humanos, qualificam-na de marcha contínua em direção à
degeneração e à decadência. A biologia, para avaliar as mutações ocorridas nos
seres vivos, não dispõe de nenhum outro critério que não seja procurar saber se
essas mutações foram ou não bem-sucedidas em seu objetivo de ajustar os
indivíduos às condições de seu meio ambiente e, portanto, aumentar suas chances
na luta pela sobrevivência. É um fato o de que a civilização, quando avaliada por
este critério, deve ser considerada como um benefício e não como um mal.
Possibilitou ao homem não ser derrotado na luta contra todos os outros seres vivos,
fossem eles animais ferozes ou ainda os mais perniciosos micróbios; multiplicou os
meios de subsistência do homem; aumentou sua altura, sua agilidade, sua
versatilidade e a duração média de sua vida; deu ao homem o domínio inconteste
da terra; multiplicou os números populacionais e elevou o padrão de vida a um
nível nunca imaginado pelos rudes habitantes das cavernas da era pré-histórica.
Certamente essa evolução bloqueou o desenvolvimento de certas habilidades e
dons que lhes haviam sido úteis na luta pela vida e que perderam a utilidade nas
novas condições. Por outro lado, desenvolveu outros talentos e habilidades que são
indispensáveis à vida em sociedade. Não obstante, uma visão evolucionária e
biológica não deve sofismar quanto a essas mudanças. Para o homem primitivo,
punhos fortes e combatividade eram tão úteis como o conhecimento da aritmética
e da gramática o é para o homem moderno. É totalmente arbitrário, e certamente
contrário a qualquer critério biológico, considerar como naturais e adequadas à
natureza humana apenas aquelas características que foram úteis ao homem
primitivo e condenar os talentos e competências extremamente necessários ao
homem civilizado como sinais de degenerescência e de deterioração biológica.
Recomendar ao homem que recupere as condições físicas e intelectuais de seus
ancestrais pré-históricos é tão absurdo quanto pedir-lhe que renuncie ao seu andar
ereto e que deixe crescer o rabo.
Vale a pena lembrar que alguns dos que mais se distinguiram na exaltação dos
impulsos selvagens de nossos bárbaros antepassados eram tão frágeis, que sua
saúde não teria suportado as exigências do “viver perigosamente”. Nietzsche,
mesmo antes de seu colapso mental, era tão doente, que o único clima que podia
suportar era o do vale do Engadin e alguns distritos italianos. Não teria tido
condições de realizar o seu trabalho, se a sociedade civilizada não tivesse
protegido seus delicados nervos contra a rudeza da vida. Os apóstolos da violência
escreveram seus livros sob o manto protetor da “segurança burguesa”, que tanto
ridicularizavam e depreciavam. Eram livros para publicar seus sermões incendiários,
porque o liberalismo, que desprezavam, lhes garantia liberdade de imprensa.
Ficariam desesperados se tivessem que renunciar às vantagens da civilização
desdenhada pela sua filosofia. Que espetáculo, ver o tímido escritor que foi
Georges Sorel ir tão longe ao seu elogio à brutalidade, a ponto de condenar o
sistema moderno de educação por este enfraquecer a inata violência do
homem.114
Podemos admitir que, no homem primitivo, a propensão a matar e destruir e a
disposição para a crueldade fossem inatas. Podemos também supor que, nas
condições daqueles tempos, as tendências agressivas e homicidas favorecessem a
preservação da vida. Houve um tempo em que o homem foi uma besta brutal (não
é necessário investigar se o homem pré-histórico era carnívoro ou herbívoro). Mas
não devemos nos esquecer de que era fisicamente um animal fraco; não teria
podido enfrentar os grandes predadores se não estivesse equipado com uma arma
especial: a razão. O fato de que o homem é um ser racional, e de que, portanto,
não cede, sem inibições, a qualquer impulso e determina sua conduta segundo uma
deliberação racional, não deve ser considerado como não natural de um ponto de
vista zoológico. Falar de conduta racional significa dizer que o homem, diante do
fato de não poder satisfazer todos os seus impulsos, desejos e apetites, renuncia
àqueles que considera menos urgentes. Para não comprometer o funcionamento da
cooperação social, o homem é forçado a se abster de satisfazer aqueles desejos
cuja satisfação pudesse perturbar o estabelecimento de instituições sociais. Não há
dúvida de que tal renúncia seja penosa. Não obstante, o homem fez a sua escolha.
Renunciou à satisfação de alguns desejos incompatíveis com a vida social e deu
prioridade à satisfação daqueles desejos que só podem ser realizados, pelo menos
de forma plena, mediante um sistema de divisão do trabalho. E assim empreendeu
o caminho que conduz à civilização, à cooperação social e à prosperidade.
Esta decisão não é irreversível e final. A escolha dos pais não elimina a liberdade
de escolher dos filhos. Estes podem reverter à decisão anterior. Podem,
diariamente, proceder a uma inversão de valores e preferir o barbarismo à
civilização ou, como colocam alguns autores, a alma ao intelecto, o mito à razão e
a violência à paz. Mas terão de escolher. Não é possível ter, ao mesmo tempo,
coisas incompatíveis.
A ciência, do ponto de vista de sua neutralidade quanto a valores, não condena
os apóstolos da violência por exaltarem o frenesi da morte e os prazeres loucos do
sadismo. Os julgamentos de valor são subjetivos, e a sociedade liberal reconhece o
direito que todos possuem de expressar livremente seus sentimentos. A civilização
não extirpou a tendência original à agressão, à sede de sangue e à crueldade que
caracterizaram o homem primitivo. Em muitos homens civilizados, estas tendências
estão adormecidas, mas despertam tão logo as barreiras desenvolvidas pela
civilização cedam. Lembremo-nos dos horrores inqualificáveis dos campos de
concentração nazistas. Os jornais continuamente nos informam sobre crimes
abomináveis que atestam os impulsos bestiais latentes. As novelas e filmes mais
populares são os que lidam com violência e derramamento de sangue. As corridas
de touros e brigas de galo continuam atraindo multidões.
Se um autor diz: “a ralé tem sede de sangue e eu com ela”, pode estar tão certo
quanto ao afirmar que o homem primitivo também tinha prazer em matar. Mas
erra, se omitir o fato de que a satisfação desses desejos sádicos põe em perigo a
existência da sociedade; ou quando afirma que a civilização “verdadeira” ou a
“boa” sociedade são uma consequência de pessoas que despreocupadamente
procuram satisfazer suas paixões violentas, homicidas e cruéis; ou, ainda, quando
sustenta que a repressão dos impulsos de brutalidade compromete a evolução do
gênero humano e que a substituição do humanitarismo pelo barbarismo salvaria o
homem da degenerescência. A divisão do trabalho e a cooperação social repousam
no ajuste conciliatório das disputas. Não é a guerra, como dizia Heráclito, mas a
paz, que é a fonte de todas as relações sociais. Existem outros desejos inatos no
homem, além dos instintos sanguinários. Se ele deseja satisfazer esses outros
desejos, terá de abafar o impulso de matar.
Quem deseja preservar a vida e a saúde tem de compreender que o respeito pela
vida e pela saúde de outras pessoas serve melhor a seus propósitos do que o
procedimento inverso. Podemos lamentar que o mundo seja assim. Mas tais
lamentações não alteram a realidade concreta.
É inútil censurar esta afirmação, fazendo referência à irracionalidade. Todos os
impulsos instintivos desafiam o exame pela razão porque a razão lida apenas com
os meios para atingir os fins desejados e não com os fins últimos em si. Mas o que
distingue o homem de outros animais é precisamente o fato de ele não ceder, sem
alguma vontade própria, a um impulso instintivo. O homem usa a razão para
escolher entre satisfações incompatíveis de desejos opostos.
Não se deve dizer às massas: “satisfaz os teus desejos homicidas: é
genuinamente humano e contribui melhor ao seu bem estar”. Deve-se dizer: “se
quiseres satisfazer tua sede de sangue, deves estar preparado para renunciar a
muitos outros desejos. Queres comer, beber, viver numa boa casa, vestir-te e mil
outras coisas que só a sociedade pode proporcionar. Não podes ter tudo, tens de
escolher. Viver perigosamente e o frenesi do sadismo podem ser do teu agrado,
mas são incompatíveis com a segurança e a fartura que também não queres
perder”.
A praxeologia, como ciência, não pode usurpar o direito do indivíduo de escolher
e agir. As decisões finais cabem aos homens e não aos teóricos. A contribuição da
ciência à vida e à ação não consiste em estabelecer julgamentos de valor, mas em
esclarecer em que condições o homem deve agir, e em elucidar os efeitos dos
diversos modos de ação. Coloca à disposição do agente homem todas as
informações necessárias de maneira a que a escolha seja feita com pleno
conhecimento de suas consequências. Prepara, por assim dizer, uma estimativa de
custos e benefícios. Estaria falhando na sua tarefa, se omitisse dessa estimativa
um dos itens que poderiam influenciar as decisões e escolhas das pessoas.
Equívocos correntes da moderna ciência natural especialmente do darwinismo
Alguns dos atuais adversários do liberalismo, tanto de direita como de esquerda,
apoiam suas teses em interpretações erradas das contribuições da moderna
biologia.
1. Os homens não são iguais. O liberalismo do século XVIII e, da mesma forma, o
igualitarismo de nossos dias partem da “verdade autoevidente” que afirma que
“todos os homens são criados iguais, e são dotados pelo Criador com certos direitos
inalienáveis”. Entretanto, dizem os advogados de uma filosofia biológica da
sociedade, a ciência natural já demonstrou, de maneira irrefutável, que os homens
são diferentes. No quadro da observação experimental dos fenômenos naturais,
não há espaço para o conceito de direitos naturais. A natureza é insensível em
relação à vida e à felicidade de qualquer pessoa. A natureza é necessidade e
regularidade férreas. É um disparate metafísico juntar a “escorregadia” e vaga
noção de liberdade com as leis absolutas e invariáveis da ordem cósmica. Assim, a
ideia básica do liberalismo é desmascarada como uma falácia.
Ora, é verdade que o movimento liberal e democrático dos séculos XVIII e XIX
tirou uma boa parte de sua força da doutrina da lei natural e dos direitos inatos e
imprescritíveis do indivíduo. Essas ideias, que foram originariamente desenvolvidas
pela filosofia antiga e pela teologia judaica, impregnaram o pensamento cristão.
Algumas seitas anticatólicas fizeram delas o ponto focal de seus programas
políticos. Uma longa série de filósofos eminentes as consolidou. Tornaram-se
populares e foram a força mais poderosa a atuar na evolução em direção à
democracia. Ainda hoje, têm muitos adeptos. Seus defensores não se importam
com o fato incontestável de Deus ou a natureza não terem criado os homens
iguais, como prova a evidência de que muitos nascem sãos e fortes, enquanto
outros nascem aleijados e deformados. Para eles, todas as diferenças se devem à
educação, às oportunidades e às instituições sociais.
Mas os ensinamentos da filosofia utilitarista e da economia clássica não têm nada
a ver com a doutrina do direito natural. Para elas, o que realmente importa é a
utilidade social. Recomendam governo popular, propriedade privada, tolerância e
liberdade. Não por serem naturais e justos, mas por serem benéficos. A essência da
filosofia de Ricardo é a demonstração de que a cooperação social e a divisão do
trabalho são benéficas tanto aos grupos de homens que sob todos os aspectos, são
mais eficientes e superiores, como aos grupos de homens menos eficientes e
inferiores. Bentham, o radical, clamava: “Direitos naturais é puro nonsense; direitos
naturais e imprescritíveis, nonsense retórico”.115 Para ele, “o único objetivo do
governo devia ser a maior felicidade do maior número possível de membros da
comunidade”.116 Consequentemente, ao investigar o que devia ser considerado
um direito, não se preocupa com as ideias preconcebidas concernentes aos planos
e intenções de Deus ou da natureza, eternamente inacessíveis aos homens
mortais; procura descobrir o que melhor promove o bem estar e a felicidade do
homem. Malthus mostrou que a natureza, ao limitar os meios de subsistência, não
reconhece a nenhum ser vivo o direito à existência, e que o homem, ao deixar-se
levar imprudentemente pelo impulso natural da proliferação, jamais se livraria do
espectro da fome. Afirmava ele que a civilização e o bem estar humanos só
poderiam desenvolver-se na medida em que o homem aprendesse a controlar os
seus apetites sexuais por meio de restrições de ordem moral. Os utilitaristas não
combatem o governo arbitrário e os privilégios por serem contrários à lei natural,
mas por serem prejudiciais à prosperidade. Recomendam igualdade perante a lei
civil, não porque os homens sejam iguais, mas porque tal política é benéfica à
comunidade. Ao rejeitar as noções ilusórias de lei natural e igualdade humana, a
moderna biologia não fez mais do que repetir o que os utilitaristas defensores do
liberalismo e da democracia já haviam ensinado antes, e de maneira bem mais
persuasiva. É óbvio que nenhuma doutrina biológica poderá jamais invalidar o que
a filosofia utilitarista predica em relação à utilidade social do governo democrático,
da propriedade privada, da liberdade e da igualdade perante a lei.
A preponderância atual de doutrinas favoráveis à desintegração social e ao
conflito violento resulta não de uma alegada adaptação da filosofia social às
descobertas da biologia, mas sim da rejeição quase universal da filosofia utilitária e
da teoria econômica. As pessoas substituíram a ideologia “ortodoxa” da harmonia
dos interesses corretamente entendidos – isto é, os interesses em longo prazo de
todos os indivíduos, grupos ou nações – por uma ideologia de conflitos
irreconciliáveis entre classes e entre nações. Os homens estão lutando uns contra
os outros porque estão convencidos de que a liquidação e extermínio de
adversários é o único meio de promover o seu próprio bem estar.
2. As implicações sociais do darwinismo. A teoria da evolução como exposta por
Darwin, afirma uma escola do darwinismo social, demonstrou claramente que, na
natureza, não há nada que se possa chamar de paz ou respeito pela vida e bem
estar de outrem. Na natureza, o que existe é a permanente luta e o implacável
aniquilamento dos fracos, que não conseguem se defender. Os planos do
liberalismo para uma paz eterna – tanto nas relações domésticas como nas
internacionais – são o produto de um racionalismo ilusório em contradição evidente
com a ordem natural.
Entretanto, o conceito de luta pela existência, que Darwin tomou emprestado a
Malthus e aplicou à sua teoria, deve ser entendido num sentido metafórico. Seu
significado está na afirmação de que um ser vivo resiste ativamente às forças que
possam prejudicar a sua própria vida. Essa resistência, para ser bem-sucedida,
deve ajustar-se às condições do meio ambiente onde o ser em questão deseja
subsistir. Não é necessariamente uma guerra de extermínio, como nas relações
entre os homens e os micróbios morbíficos. A razão tem demonstrado que, para o
homem, o meio mais adequado de melhorar sua condição é a cooperação social e a
divisão do trabalho. Estas são as ferramentas mais importantes na sua luta pela
sobrevivência. Mas só funcionam onde existe a paz. As guerras, as guerras civis e
as revoluções são prejudiciais ao sucesso do homem na sua luta pela existência,
porque desarticulam o aparato da cooperação social.
3. A razão e o comportamento racional, qualificados de antinaturais. A teologia
cristã condenou as funções animais do corpo humano e descreveu a “alma” como
algo externo aos fenômenos biológicos. Numa reação excessiva contra esta
filosofia, alguns contemporâneos têm uma propensão para desvalorizar tudo aquilo
que diferencia o homem dos outros animais. Aos seus olhos, a razão humana é
inferior aos instintos e impulsos animais; é antinatural e, portanto, inferior. Para
eles, os termos racionalismo e comportamento racional têm uma conotação de
opróbrio. O homem perfeito, o homem verdadeiro, é um ser que obedece mais aos
seus instintos primordiais do que à sua razão.
A verdade evidente é que a razão, o traço mais característico do homem, também
é um fenômeno biológico. Não é mais nem menos natural do que qualquer outra
característica da espécie homo sapiens, como, por exemplo, o caminhar ereto e a
falta de pelagem.
Rodapé
103 F.H. Giddings, The Principles of Sociology. Nova York, 1926, p. 17.
104 R.M. MacIiver, Society. Nova York, 1937, p. 6-7.
105 Faça-se justiça, (embora) o mundo seja destruído. (N.T.)
106 Faça-se justiça, (e) o mundo não será destruído. (N.T.)
107 Muitos economistas, entre eles Adam Smith e Bastiat, acreditavam em Deus.
Portanto, admiravam nos fatos que haviam descoberto o zelo providencial do
“Grande Diretor da Natureza”. Os críticos ateus os condenam por isso. Entretanto,
estes críticos não percebem que zombar das referências à “mão invisível” não
invalida os ensinamentos essenciais da filosofia social racionalista e utilitarista. É
preciso compreender que a alternativa é a seguinte: ou a associação é um processo
humano porque atende melhor aos interesses dos indivíduos e os indivíduos em si
são capazes de perceber as vantagens que derivam de ajustar suas vidas às regras
da cooperação social, ou então um ser superior impõe sobre homens relutantes a
subordinação à lei e às autoridades sociais. Pouco importa se chamamos esse ser
superior de Deus, Weltgeist *, Destino, História, Wotan** ou Forças Produtivas, e
que título seja conferido aos seus apóstolos, os ditadores.
* – O Espírito do Mundo. (N.T.)
** – Deus da Guerra e da Sabedoria. (N.T.)
108 Ver Max Stirner (Johann Kaspar Schmidt), The Ego and his Own, Trad. S.T.
Byngton, Nova York, 1907.
109 W. James, The Varieties of Religious Experience, 35. ed., Nova York, 1925, p.
31.
110 Ibid, p. 485-486.
111 Ver adiante p. 251-260.
112 União espiritual de um indivíduo com um deus, ou com algum outro ser
superior, ou com um líder. (N.T.)
113 Esta é a terminologia usada por Leopold von Wiese, Allgemeine Soziologie,
Munique, 1924, vol. 1, p. 10 e segs.
114 George Sorel, Réflexions sur la violence, 3. ed., Paris, 1912, p. 269.
115 Bentham, Anarchical Fallacies; Being an Examination of the Declaration of
Rights Issued During the French Revolution, in Works, (Bowring), vol. 2, p. 501.
116 Bentham, Principles of the Civil Code, in Works, vol. 1, p. 301.
CAPÍTULO 9
O Papel das Ideias
1. A Razão Humana
A razão é o traço particular e característico do homem. Não é necessário, à
praxeologia, procurar saber se a razão é um instrumento adequado para a
percepção da verdade final e absoluta. A praxeologia lida com a razão apenas na
medida em que esta habilita o homem a agir.
Todos os objetos que são o substrato da sensação, percepção e observação
humanas também passam diante dos sentidos dos animais. Mas somente o homem
tem a faculdade de transformar estímulos sensoriais em observações e experiência.
E somente o homem pode ordenar suas várias observações e experiências num
sistema coerente.
O pensamento precede a ação. Pensar é deliberar sobre a ação antes de agir, e
refletir em seguida sobre a ação efetuada. Pensar e agir são inseparáveis. Toda
ação está sempre baseada numa ideia específica quanto a relações causais. Quem
pensa uma relação causal, pensa um teorema. Ação sem pensamento e prática
sem teoria são inimagináveis. O raciocínio pode ser falso e a teoria incorreta; mas
o pensamento e a teoria estão presentes em toda ação. Por outro lado, pensar
implica sempre imaginar uma futura ação. Mesmo quem pensa sobre uma teoria
pura pressupõe que a teoria é correta, isto é, que uma ação efetuada de acordo
com o seu conteúdo teria por resultado um efeito compatível com seus
ensinamentos. Para a lógica, o fato de esta ação ser factível ou não é irrelevante.
É sempre o indivíduo que pensa. A sociedade não pensa, da mesma forma que
não come nem bebe. A evolução do raciocínio humano, desde o pensamento
simples do homem primitivo até o pensamento mais sutil da ciência moderna,
ocorreu no seio da sociedade. Não obstante, o pensamento em si é uma façanha
individual. Existe ação conjunta, mas não pensamento conjunto. Existe apenas a
tradição, que preserva e transmite pensamentos a outros, como um estímulo para
sua reflexão. Entretanto, o homem não tem como se apropriar dos pensamentos de
seus precursores, a não ser repensando-os de novo. Só então, partindo da base dos
pensamentos de seus predecessores, terá condições de ir mais adiante. O principal
veículo da tradição é a palavra. O pensamento está ligado à palavra e vice-versa.
Os conceitos estão embutidos em termos. A linguagem é uma ferramenta do
pensamento, como também da ação na sociedade.
A história do pensamento e das ideias é um discurso transmitido de geração em
geração. O pensamento de uma época se apoia no pensamento das épocas
anteriores. Sem esta ajuda, o progresso intelectual teria sido impossível. A
continuidade da evolução humana, semeando para a descendência e colhendo no
solo preparado e cultivado pelos ancestrais, se manifesta também na história da
ciência e das ideias. Herdamos dos nossos antepassados não apenas uma provisão
de vários tipos de bens que são a fonte de nossa riqueza material; herdamos
também ideias e pensamentos, teorias e tecnologias, às quais nosso pensamento
deve a sua produtividade.
Mas pensar é sempre uma manifestação individual.
2. Visão de mundo e ideologia
As teorias que orientam a ação são frequentemente imperfeitas e insatisfatórias.
Podem ser contraditórias e, portanto, inadequadas à ordenação em um sistema
amplo e coerente.
Se considerarmos como um conjunto coerente todas as teorias que guiam a
conduta de certos indivíduos ou grupos e tentarmos ordená-las tanto quanto
possível em um sistema, isto é, um corpo abrangente de conhecimento, pode-se
qualificar tal sistema de visão de mundo. Uma visão de mundo é, como teoria, uma
interpretação de todas as coisas e, como norma para ação, uma opinião quanto a
melhor maneira de diminuir o desconforto na medida do possível. Uma visão de
mundo, portanto, é, por um lado, uma explicação de todos os fenômenos e, por
outro, uma tecnologia, ambos os termos considerados no seu sentido mais amplo.
A religião, a metafísica e a filosofia almejam fornecer uma visão de mundo.
Interpretam o universo e aconselham aos homens uma maneira de agir.
O conceito de ideologia é menos amplo do que o de visão de mundo. Ao nos
referirmos à ideologia, temos em mente apenas a ação humana e a cooperação
social. Problemas decorrentes da metafísica, de dogmas religiosos ou das ciências
naturais, assim como das tecnologias que deles derivam, não são considerados.
Ideologia é o conjunto de todas as nossas doutrinas relativas à conduta individual e
às relações sociais. Tanto a visão de mundo como a ideologia vão além dos limites
impostos a um estudo, neutro e acadêmico, das coisas como são na realidade. Não
são apenas teorias científicas, mas também doutrinas acerca do que deveria ser,
isto é, acerca dos fins últimos que o homem deveria pretender atingir nas suas
preocupações terrenas.
O ascetismo ensina que o único meio de que o homem
e atingir a quietude plena, a alegria e a felicidade é a
terrenas e mundanas. Não há salvação fora da renúncia
aceitação passiva das adversidades da peregrinação
dispõe para remover a dor
renúncia às preocupações
ao bem estar material, da
terrestre e da dedicação
exclusiva à preparação para a glória eterna. Entretanto, o número daqueles que
coerente e sistematicamente adotam os princípios do ascetismo é tão pequeno,
que não é fácil citar mais do que alguns poucos nomes. Parece que a passividade
completa recomendada pelo ascetismo contraria a natureza. A atração pela vida
triunfa. Os princípios ascéticos têm sido adulterados. Até os mais beatos eremitas,
contrariando seus princípios rígidos, fazem concessões à vida e às preocupações
terrenas. Mas, quando alguém considera um interesse material e substitui ideais
puramente vegetativos pelo reconhecimento da importância das coisas deste
mundo, por mais que esta atitude seja incompatível com as doutrinas que professa,
estará lançando uma ponte que o liga aos que aprovam a realização de fins
temporais. Ao fazê-lo, passa a ter algo em comum com todas as demais pessoas.
Sobre coisas que nem o raciocínio puro nem a experiência são capazes de
elucidar, o pensamento humano pode diferir tão radicalmente ao ponto impedir a
realização de qualquer acordo. Nesta esfera onde a livre fantasia da mente não
sofre restrição – nem do pensamento lógico, nem da experiência sensorial —, o
homem pode dar vazão à sua individualidade e à sua subjetividade. Nada é mais
pessoal do que as noções e imagens sobre a transcendência. Os termos da
linguagem são incapazes de transmitir o que é dito sobre o transcendente;
ninguém pode afirmar que aquele que escuta lhes atribui o mesmo sentido que
lhes é atribuído por aquele que fala. Em relação a coisas que estão além da
compreensão, não pode haver acordo. As guerras religiosas são as mais terríveis,
porque são empreendidas sem qualquer perspectiva de conciliação.
Mas, quando se trata de coisas terrenas, a afinidade natural de todos os homens
e a identidade das condições biológicas necessárias à preservação da vida entram
em cena. A maior produtividade da cooperação sob a divisão do trabalho torna a
sociedade o principal meio de que dispõe qualquer indivíduo para atingir seus
próprios fins, quaisquer que eles sejam. A manutenção da cooperação social e sua
progressiva intensificação tornam-se do interesse de todos. Qualquer visão de
mundo e qualquer ideologia que não estejam inteiramente e incondicionalmente
comprometidas com a prática do ascetismo e com a reclusão anacorética devem
prestar atenção ao fato de que a sociedade é o grande meio para atingir objetivos
temporais. Sendo assim, surge uma base comum da qual se deve partir para
resolver os problemas secundários e os detalhes da organização da sociedade. Por
mais que as várias ideologias sejam conflitantes entre si, estarão sempre de acordo
numa questão: a conveniência de se manter a vida em sociedade.
Este fato, às vezes, passa despercebido porque, ao lidar com filosofias e
ideologias, as pessoas se preocupam mais com o que essas doutrinas afirmam em
relação às coisas transcendentes e impenetráveis e menos com o que postulam em
relação às atividades terrenas. Entre as várias partes de um sistema ideológico,
frequentemente, existe um abismo intransponível. Para o agente homem, somente
os ensinamentos que resultam em preceitos de ação têm realmente importância, e
não as doutrinas puramente acadêmicas, que não se aplicam no quadro da
cooperação social. Podemos deixar de considerar a filosofia do ascetismo como
consistente e inflexível, uma vez que tão rígido ascetismo resultaria,
necessariamente, na extinção de seus adeptos. Todas as outras ideologias, ao
admitirem a procedência das preocupações terrenas, são forçadas, em alguma
medida, a reconhecer o fato de que a divisão do trabalho é mais produtiva do que
o trabalho isolado. Reconhecem, portanto, a necessidade da cooperação social.
A praxeologia e a economia não têm condições de examinar os aspectos
transcendentes e metafísicos de qualquer doutrina. Mas, por outro lado, nenhum
apelo a dogmas e credos, religiosos ou metafísicos, pode invalidar os teoremas e
teorias relativos à cooperação social como elaborados pelo raciocínio praxeológico
correto. Se uma filosofia admite a necessidade de laços sociais entre os homens,
ela se coloca, quanto aos problemas de ação em sociedade, numa posição básica
da qual não se pode afastar apelando para convicções pessoais ou profissões de fé
insusceptíveis de um rigoroso exame pelos métodos racionais.
Este fato fundamental é frequentemente ignorado. As pessoas creem que
diferentes visões de mundo criam conflitos irreconciliáveis. Os antagonismos
básicos entre partidos comprometidos com diferentes visões de mundo não podem,
dizem essas pessoas, ser resolvidos pelo compromisso. Derivam das profundezas
da alma humana e são a expressão da comunhão inata do homem com as forças
sobrenaturais e eternas. Não pode haver, jamais, cooperação entre pessoas
separadas por diferentes visões de mundo.
Entretanto, se examinarmos os programas de todos os partidos – tanto os
programas habilmente elaborados e difundidos, como aqueles que os partidos
realmente adotam quando no poder —, podemos facilmente denunciar o caráter
falacioso dessa interpretação. Todos os partidos políticos de nossos dias têm por
objetivo o bem estar material e a prosperidade de seus adeptos. Prometem
proporcionar condições econômicas mais satisfatórias aos seus seguidores. Neste
particular, não há diferença entre a Igreja Católica Romana e as várias confissões
protestantes, quando se envolvem em questões sociais e políticas; nem entre o
cristianismo e as religiões não cristãs, ou entre os defensores da liberdade
econômica e as várias espécies de materialismo marxista, ou entre nacionalistas e
internacionalistas, ou entre racistas e amigos da paz internacional. É verdade que
muitos desses partidos acreditam que só poderão prosperar a expensas de outros
partidos e chegam a considerar a aniquilação ou a submissão de outros grupos
como condição necessária à prosperidade do seu grupo. Entretanto, o extermínio
ou a submissão de outros não é o objetivo final, mas um meio de atingir aquilo a
que visam como objetivo final o florescimento do seu próprio grupo. Se
percebessem que os seus próprios desígnios são inspirados por teorias espúrias que
não conduzirão aos resultados esperados, mudariam os seus programas.
As declarações pomposas que as pessoas fazem sobre coisas incognoscíveis e que
transcendem o poder da mente humana, suas cosmologias, visões de mundo,
religiões, misticismos, metafísicas e fantasias conceituais, diferem bastante umas
das outras. Mas a essência prática de suas ideologias, isto é, seus ensinamentos
relativos aos fins a serem atingidos na vida terrena e os meios para consecução
desses fins, mostram muita semelhança. Existem, sem dúvida, diferenças e
antagonismos em relação tanto aos fins quanto aos meios. Entretanto, as
diferenças em relação a fins não são irreconciliáveis; não se opõem à cooperação e
ao ajuste amigável no campo da ação em sociedade. Na medida em que as
divergências sejam apenas de meios e modos, são de caráter técnico e, como tal,
passíveis de exame por métodos racionais. Quando, no calor de conflitos
partidários, uma das facções declara: “não podemos prosseguir nossas negociações
com você porque estamos diante de uma questão que afeta a nossa visão de
mundo; neste particular devemos ser inflexíveis e fiéis aos nossos princípios, haja o
que houver”, basta examinar o assunto mais detidamente para perceber que o
antagonismo não é tão sério como parece. De fato, para todos os partidos
comprometidos com a promoção do bem estar material das pessoas e, portanto,
em favor da cooperação social, questões de organização social e da condução da
ação em sociedade não são problemas de princípios fundamentais nem de visões
de mundo, mas apenas questões ideológicas. São problemas técnicos em relação
aos quais algum acordo é sempre possível. Nenhum partido preferiria,
deliberadamente, a desintegração social, a anarquia e o retorno ao barbarismo
primitivo a uma solução que custasse o sacrifício de algum aspecto ideológico.
Num programa partidário, estas questões técnicas têm, certamente, uma grande
importância. Um partido está comprometido com certos meios; recomenda certos
métodos de ação política e rejeita inteiramente todos os outros métodos e
políticas, por julgá-los inadequados. Um partido é um corpo que reúne homens
desejosos de empregar os mesmos meios de ação. O que diferencia os homens e
forma os partidos é a escolha dos meios. Portanto, para o partido como tal, os
meios escolhidos são essenciais. Um partido acaba, se a inutilidade dos meios que
recomenda se tornar evidente. Os líderes partidários, cujo prestígio e carreira
política estão ligados ao programa do partido, podem ter amplos motivos para
recusar a discussão aberta de seus princípios; podem atribuir-lhes o caráter de fins
últimos que não devem ser questionados por estarem baseados numa visão de
mundo. Mas para as pessoas em nome de quem os líderes partidários pretendem
agir, para os eleitores que eles desejam atrair e cujos votos cabalam, as coisas se
apresentam de outra maneira. Essas pessoas não fazem objeção a que se examine
cada ponto do programa partidário. Consideram tal programa apenas uma
recomendação de meios a serem usados para atingir seus próprios fins, qual seja o
bem estar na terra.
O que divide esses partidos que se dizem representativos de uma visão de
mundo, isto é, partidos comprometidos com decisões basicamente filosóficas sobre
os fins últimos, é apenas um desacordo aparente quanto aos fins últimos. Seus
antagonismos se referem ou a crenças religiosas, ou a problemas de relações
internacionais, ou a problemas de propriedade dos meios de produção, ou a
problemas de organização política. Pode-se demonstrar que todas estas
controvérsias são concernentes a meios e não a fins últimos.
Comecemos pelos problemas da organização política de uma nação. Existem
defensores de um sistema democrático de governo, da monarquia hereditária, da
administração por uma autodenominada elite e de uma ditadura cesarista.117 É
verdade que esses programas frequentemente são recomendados por referência a
instituições divinas, a leis eternas do universo, à ordem natural, à inevitável
tendência da evolução histórica e a outros conceitos transcendentais. Tais
afirmativas não passam de ornamentos acidentais. Ao apelar aos eleitores, os
partidos apresentam outros argumentos. Querem mostrar que o sistema que
defendem será mais bem-sucedido do que o proposto por outros partidos na
realização dos fins visados pelos cidadãos. Enumeram os resultados benéficos
alcançados no passado ou em outros países; atacam o programa dos outros
partidos, relatando seus fracassos. Recorrem tanto ao raciocínio puro como à
interpretação da experiência histórica para demonstrar a superioridade de suas
propostas e a futilidade de seus adversários. O argumento principal é sempre: o
sistema político que defendemos os fará mais prósperos e mais felizes.
No campo da organização econômica da sociedade, existem os liberais – que
defendem a propriedade privada dos meios de produção —, os socialistas – que
defendem a propriedade pública dos meios de produção – e os intervencionistas –
que defendem um terceiro sistema que, no seu entender, está equidistante do
socialismo e do capitalismo. No entrechoque desses partidos também se discute
muito sobre questões filosóficas básicas. As pessoas falam da liberdade verdadeira,
de igualdade, de justiça social, dos direitos do indivíduo, de comunidade, de
solidariedade e de humanitarismo. Mas cada partido pretende demonstrar, pelo
raciocínio e por referências à experiência histórica, que só o sistema por ele
recomendado poderá tornar os cidadãos prósperos e felizes. Dizem ao povo que a
realização de um programa elevará o padrão de vida a um nível mais alto do que o
decorrente da adoção do programa de qualquer outro partido. Insistem na
conveniência e na utilidade de seus planos. É óbvio que não diferem um do outro
quanto aos fins, mas apenas quanto aos meios. Todos querem proporcionar o mais
elevado nível de bem estar para a maioria dos cidadãos.
Os nacionalistas asseguram que existem conflitos irreconciliáveis entre os
interesses de várias nações, mas que, por outro lado, os interesses de todos os
cidadãos na mesma nação podem ser harmonizados. Uma nação só pode prosperar
à custa de outras nações; o cidadão individual só pode passar bem se sua nação
floresce. Os liberais têm uma opinião diferente. Acreditam que os interesses das
várias nações se harmonizam tanto quanto os de vários grupos, classes e camadas
da população em uma mesma nação. Acreditam que a cooperação internacional
pacífica é um meio, mais apropriado, do que o conflito para atingir o fim pretendido
tanto por eles como pelos nacionalistas: o bem estar de sua própria nação. Não
defendem a paz e o comércio livre para trair os interesses de sua própria nação em
favor de estrangeiros – como acusam os nacionalistas. Ao contrário, consideram a
paz e o comércio livre como o melhor meio de enriquecer a sua própria nação. O
que separa os partidários do livre comércio dos nacionalistas não são os fins, mas
os meios recomendados para atingir os fins comuns tanto a uns como aos outros.
As divergências relativas a credos religiosos não podem ser resolvidas por
métodos racionais. Os conflitos religiosos são de natureza implacável e
irreconciliável. Todavia, quando uma confissão religiosa se interessa pela ação
política e tenta lidar com os problemas da organização social, ela se obriga a levar
em conta preocupações terrenas, embora estas possam ser conflitantes com seus
dogmas e seus artigos de fé. Nenhuma religião, em suas atividades esotéricas,
jamais se aventurou a dizer francamente: a implantação de nossos planos de
organização social vos empobrecerá e reduzirá o vosso bem estar. Aqueles que
estão consistentemente comprometidos com uma vida de pobreza se retiram da
cena política e se refugiam na reclusão anacorética. Mas igrejas e confissões
religiosas que visam a angariar adeptos e a influenciar as atividades políticas e
sociais de seus seguidores estão adotando princípios de conduta seculares. Ao
lidarem com as questões da peregrinação terrestre do homem, são praticamente
iguais a qualquer outro partido político. Ao solicitar apoio, enfatizam, mais do que a
glória eterna, as vantagens materiais que prometem conseguir para os seus
companheiros de fé.
Somente uma visão de mundo cujos adeptos renunciassem a toda atividade
terrena, qualquer que ela fosse, poderia negligenciar a importância das
comunicações racionais que provam ser a cooperação social o grande meio para
atingir todos os objetivos do homem. Uma vez que o homem é um animal social
que só pode prosperar em sociedade, todas as ideologias são forçadas a
reconhecer a importância primordial da cooperação social. Necessariamente, visam
a mais satisfatória organização da sociedade e, necessariamente, aprovam a
preocupação do homem em aumentar o seu bem estar material. Portanto, todas as
ideologias se colocam sobre um mesmo terreno, que lhes é comum. O que as
distingue umas das outras não são as visões de mundo nem as questões
transcendentes insusceptíveis de um exame racional, mas sim os meios e caminhos
que escolhem. Tais antagonismos ideológicos podem ser meticulosamente
examinados pelos métodos científicos da praxeologia e da economia.
A luta contra o erro
Um exame crítico dos sistemas filosóficos elaborados pelos grandes pensadores
da humanidade tem frequentemente revelado fissuras e falhas na impressionante
estrutura desses corpos de pensamento universal, aparentemente consistentes e
coerentes. Mesmo o gênio, ao delinear uma visão de mundo, nem sempre
consegue evitar contradições e silogismos falaciosos.
As ideologias aceitas pela opinião pública são ainda mais infestadas por essas
deficiências da mente humana. São, em sua maior parte, justaposições ecléticas de
ideias totalmente incompatíveis entre si. Não resistem a um exame lógico de seu
conteúdo. Suas inconsistências são irremediáveis e desafiam qualquer tentativa de
juntar suas várias partes num sistema de ideias compatíveis umas com as outras.
Alguns autores tentam justificar as contradições das ideologias universalmente
aceitas ao ressaltar as alegadas vantagens de um compromisso que, embora
insatisfatório do ponto de vista lógico, favoreça o funcionamento tranquilo das
relações inter-humanas. Referem-se à falácia muito popular contida na afirmação
de que a vida e a realidade são “ilógicas”; sustentam que um sistema contraditório
pode revelar sua conveniência ou, mesmo, sua verdade, por funcionar
satisfatoriamente; enquanto que um sistema logicamente consistente poderia
resultar num desastre. Não há necessidade de refutar novamente tais erros tão
populares. O pensamento lógico e a vida real não são órbitas distintas. A lógica é o
único meio de que o homem dispõe para dominar os problemas da realidade. O
que é contraditório em teoria é não menos contraditório na realidade. Nenhuma
inconsistência ideológica pode proporcionar uma solução satisfatória, ou seja, uma
solução para os problemas que os fatos da realidade nos apresentam. O único
efeito das ideologias contraditórias é esconder os problemas reais e,
consequentemente, impedir as pessoas de encontrarem a tempo a política
adequada para resolvê-los. As ideologias inconsistentes podem, às vezes, adotar a
eclosão de um conflito evidente. Mas certamente agravam os males que escondem
e tornam uma solução final mais difícil. Multiplicam as agonias, intensificam os
ódios e tornam impossível o ajuste pacífico. É um erro crasso considerar
contradições ideológicas como inofensivas ou mesmo benéficas.
O objetivo principal da praxeologia e da economia é substituir os credos
contraditórios do ecletismo popular por ideologias consistentes e corretas. Não há
outro meio de prevenir a desintegração social e de salvaguardar o constante
melhoramento das condições humanas, a não ser aquele que nos proporciona a
razão. Os homens devem tentar examinar a fundo todos os problemas que lhes
afetam até o ponto além do qual a mente humana não consegue avançar. Não
devem se conformar com quaisquer soluções transmitidas pelas gerações
anteriores, devem sempre questionar novamente toda teoria e todo teorema; não
devem jamais relaxar seus esforços para eliminar as ideias falsas e para encontrar
o melhor conhecimento possível. Devem lutar contra o erro, desmascarando as
doutrinas espúrias e divulgando a verdade.
Os problemas em questão são puramente de ordem intelectual e, como tal,
devem ser tratados. É desastroso deslocá-los para o plano moral e desembaraçarse dos partidários de ideologias rivais qualificando-os como vilãos. É inútil insistir
na afirmação de que nossos propósitos são bons e os de nossos adversários são
maus. A questão a ser resolvida é, precisamente, o que deve ser considerado bom
ou mau. O dogmatismo rígido, peculiar aos grupos religiosos e aos marxistas,
resulta apenas num conflito irreconciliável. Condena de antemão todos os
dissidentes como malfeitores, põe em dúvida sua boa-fé, exige-lhes rendição
incondicional. Nenhuma cooperação social é possível onde prevaleça uma atitude
deste gênero.
Pior ainda é a propensão, bastante popular hoje em dia, para qualificar de
lunáticos os partidários de outras ideologias. Os psiquiatras não são capazes de
precisar a fronteira entre sanidade e insanidade. Seria absurdo o leigo pretender
interferir nesta questão fundamental da psiquiatria. Entretanto, é claro que, se o
simples fato de alguém defender opiniões erradas e conformar seus atos a esses
erros o caracteriza como doente mental seria difícil encontrar uma pessoa a quem
se pudesse atribuir o epíteto de são ou normal. Neste caso, teríamos que
considerar como loucas todas as gerações passadas, porque suas ideias sobre os
problemas das ciências naturais e, concomitantemente, suas técnicas eram
diferentes das nossas. As futuras gerações nos chamarão de loucos pela mesma
razão. O homem está sujeito ao erro. Se errar fosse o traço característico da
incapacidade mental, então todos deveriam ser considerados como mentalmente
incapazes.
O fato de um homem discordar da opinião da maioria de seus contemporâneos
não basta para qualificá-lo de lunático. Acaso eram loucos Copérnico, Galileu e
Lavoisier? É próprio do curso normal da história que o homem conceba novas
ideias, contrárias àquelas de outras pessoas. Algumas dessas ideias são, mais
tarde, incorporadas ao sistema de conhecimento considerado como verdadeiro pela
opinião pública. Seria admissível aplicar o epíteto “são” apenas às pessoas rústicas,
que nunca tiveram ideias próprias, e negá-lo a todos os inovadores?
O procedimento de alguns psiquiatras contemporâneos é verdadeiramente
ultrajante. São totalmente ignorantes das teorias da praxeologia e da economia.
Seu conhecimento das ideologias atuais é superficial e acrítico. Não obstante,
levianamente, chamam de paranoicos os partidários de outras ideologias.
Há pessoas que defendem zelosamente medidas monetárias não ortodoxas,
confiantes em que tais medidas farão com que todos prosperem. Seus planos são
ilusórios. Entretanto, são a aplicação consistente de uma ideologia monetária
inteiramente aprovada pela opinião pública contemporânea e adotada por quase
todos os governos. As objeções levantadas pelos economistas contra estes erros
ideológicos não são levadas em consideração pelos governos, pelos partidos
políticos e pela imprensa.
As pessoas não familiarizadas com a teoria econômica geralmente acreditam que
a expansão do crédito e o aumento na quantidade de dinheiro em circulação são
meios eficazes para diminuir a taxa de juros e mantê-la abaixo do nível que
atingiria num mercado de capitais e empréstimos não manipulado. Esta teoria é
completamente ilusória.118 Não obstante, serve de guia à política monetária e
creditícia de quase todos os governos contemporâneos. Ora, com base nessa
ideologia defeituosa, não se podem objetar os planos preconizados por Pierre
Joseph Proudhon, Ernest Solvay, Clifford Hugh Douglas e uma legião de outros
aspirantes a reformadores. Eles são apenas mais consistentes do que outras
pessoas. Querem reduzir a taxa de juros a zero e, assim, abolir ao mesmo tempo a
escassez de “capital”. Quem quiser refutá-los terá de condenar as teorias
subjacentes às políticas monetárias e creditícias das grandes nações.
O psiquiatra poderia redarguir que o que caracteriza um homem como lunático é
precisamente a falta de moderação e a atitude extremista. Enquanto o homem
normal é judicioso o bastante para se controlar, o paranoico ultrapassa todos os
limites. Essa resposta não é satisfatória. Todos os argumentos usados em favor da
tese de que a taxa de juros pode ser reduzida, pela expansão creditícia, de 5 ou
4% para 3 ou 2%, são igualmente válidos para reduzi-la a zero. À luz das falácias
monetárias normalmente aceitas pela opinião pública, os monetaristas que
defendem medidas não ortodoxas estão certos.
Há psiquiatras que consideram lunáticos os alemães que esposaram os princípios
do nazismo, e pretendem curá-los por procedimentos terapêuticos. Estamos
novamente diante do mesmo problema. As doutrinas do nazismo são condenáveis,
mas na essência não diferem das ideias socialistas e nacionalistas aceitas pela
opinião pública de outros países. O que caracterizou os nazistas foi apenas a
aplicação consistente dessas ideologias à situação específica da Alemanha. Como
todas as outras nações da mesma época, os nazistas desejavam o controle
governamental da atividade econômica, bem como a autossuficiência, ou seja, a
autarquia econômica para seu próprio país. O traço característico de sua política foi
a recusa em aceitar as desvantagens que a adoção do mesmo sistema por outras
nações lhes imporia. Não estavam dispostos a ficarem eternamente “prisioneiros”,
como diziam numa área relativamente superpovoada, na qual as condições físicas
tornavam a produtividade do esforço humano menor do que em outras áreas.
Acreditavam que suas grandes cifras populacionais, a favorável posição geográfica
de seu país, do ponto de vista estratégico, e a proverbial vitalidade e bravura de
suas forças armadas lhes proporcionariam uma boa chance para remediar, pela
agressão, os males que deploravam.
Ora, quem aceita como verdadeira a ideologia do nacionalismo e do socialismo,
adotando-a como padrão para a política de sua própria nação, não está em
condições de refutar as conclusões que os nazistas delas extraíram. O único meio
de refutar o nazismo de que dispunham as nações que adotaram aqueles dois
princípios foi derrotar os nazistas numa guerra. E, enquanto a ideologia do
socialismo e do nacionalismo dominar a opinião pública mundial, os alemães ou
outros povos tentarão de novo recorrer à agressão e à conquista, se acaso lhes
surgir uma nova oportunidade. Não há esperança de que a mentalidade agressiva
seja erradicada, se as falácias ideológicas que a condicionam não forem
inteiramente refutadas. Esta não é uma tarefa para psiquiatras, mas para
economistas.119
O homem só dispõe de um instrumento para combater o erro: a razão.
3. O poder
A sociedade é um produto da ação humana. A ação humana é conduzida pelas
ideologias. Portanto, a sociedade e qualquer ordenamento concreto dos assuntos
sociais são fruto de ideologias; as ideologias não são, como supõe o marxismo, o
produto de certo estágio da sociedade. Seguramente, os pensamentos e ideias do
homem não são uma realização de indivíduos isolados. O próprio pensamento só
prospera através da cooperação entre os pensadores. Nenhum indivíduo poderia
fazer progredir o seu raciocínio se tivesse necessidade de repensar tudo de novo. O
homem só pode avançar seu pensamento porque seus esforços se apoiaram sobre
os de gerações passadas, que forjaram as ferramentas do pensamento, os
conceitos e as terminologias, e formularam os problemas.
Toda ordem social existente foi pensada e imaginada antes de ser realizada. Esta
precedência temporal e lógica do fator ideológico não significa que alguém formule
um plano completo de organização social à maneira dos utopistas. O que é
pensado antes não é um sistema integrado de organização social que ajuste as
ações individuais; o que é e tem que ser pensado antes são as ações de indivíduos
em relação aos seus semelhantes e as de grupos de indivíduos já formados em
relação a outros grupos. Antes de um homem ajudar seu semelhante a cortar uma
árvore, tal cooperação tem de ser imaginada. Antes de se efetuar um ato de
escambo, a ideia de mútua troca de bens e serviços tem de ser concebida. Não é
necessário que os indivíduos tenham consciência do fato de que essa reciprocidade
resulte no estabelecimento de laços sociais e na formação de um sistema social. O
indivíduo não planeja e executa ações com o propósito de construir uma sociedade.
É a sua conduta e a correspondente conduta dos outros que geram os corpos
sociais.
Todo ordenamento social existente é o produto de ideologias previamente
pensadas. Numa sociedade, novas ideologias podem surgir e suplantar as mais
antigas e assim transformar o sistema social. Não obstante, a sociedade é sempre
a criação de ideologias anteriores, tanto no sentido temporal como lógico. A ação é
sempre dirigida pelas ideias; realiza o que foi antes pensado.
Se atribuirmos um caráter antropomórfico à ideologia podemos dizer que ela tem
poder sobre os homens. Poder é a faculdade ou a capacidade de dirigir ações. Em
geral, dizemos apenas que um homem, ou um grupo de homens, é poderoso.
Assim sendo, poder se define como a capacidade de dirigir a ação de outras
pessoas. Quem tem poder, deve-o a uma ideologia. Somente as ideologias podem
conferir a um homem o poder de influenciar a conduta e a escolha de outras
pessoas. Alguém só pode vir a ser um líder se estiver apoiado em uma ideologia
que torne as outras pessoas dóceis e submissas. O poder, portanto, não é algo
tangível e material, mas um fenômeno moral e espiritual. O poder de um rei
repousa sobre o reconhecimento da ideologia monárquica por parte de seus
súditos.
Quem usa o seu poder para comandar o estado, isto é, o aparato social de
coerção e compulsão, governa. Governar é exercer o poder no corpo político. O
governo apoia-se sempre no poder, isto é, no poder de dirigir as ações de outras
pessoas.
Certamente é possível estabelecer um governo baseado na violenta opressão de
pessoas relutantes. O traço característico do estado e do governo consiste no uso
da coerção violenta, ou na ameaça de usá-la sobre aqueles que não estão
dispostos a ceder voluntariamente. Mas mesmo esta opressão violenta também se
baseia no poder ideológico. Quem pretender aplicar a violência necessita da
cooperação voluntária de algumas pessoas. Um indivíduo que só possa contar
consigo mesmo jamais poderá governar por meio da violência física.120 Necessita
do apoio ideológico de um grupo a fim de subjugar outros grupos. O tirano precisa
ter um séquito de adeptos que obedeçam, voluntariamente, a suas ordens. Esta
espontânea obediência lhe proporciona o aparato necessário para dominar os
demais. O sucesso ou o fracasso de sua dominação depende da relação numérica
de dois grupos: dos que apoiam voluntariamente e dos que ele domina pela força.
Embora um tirano possa governar durante algum tempo apoiado numa minoria,
estando essa minoria armada e a maioria não, em longo prazo uma minoria não
consegue manter submissa a maioria. Os oprimidos farão uma rebelião para se
libertarem do jugo do tirano.
Um sistema durável de governo tem que estar baseado numa ideologia aceita
pela maioria. O “verdadeiro” fator – as “forças efetivas” que sustentam o governo e
que atribuem aos governantes o poder de usar violência contra grupos minoritários
renitentes – é essencialmente ideológico, moral e espiritual. Os governantes que
não reconheceram este princípio básico de governo e, confiando na suposta
invencibilidade de suas forças armadas, menosprezaram o espírito e as ideias
foram finalmente depostos por seus adversários. A interpretação muito comum em
diversos livros sobre política e história, que afirma ser o poder um fator “real” não
dependente de ideologias, é um equívoco. O termo Realpolitik só tem sentido se
usado para designar uma política que considere ideologias comumente aceitas, em
contraste com uma política baseada em ideologias não muito conhecidas e,
portanto, inadequadas para servir de base a um sistema durável de governo.
Quem interpreta o poder como sendo o poder físico ou “real” de se impor, e
considera a ação violenta como a própria origem do governo, vê as coisas do
ângulo estreito de um oficial subalterno no comando de uma unidade do exército
ou da polícia. A estes subordinados é atribuída uma tarefa específica, na estrutura
da ideologia dominante. Seus chefes confiam à sua responsabilidade tropas que
não apenas estão equipadas, armadas e treinadas para o combate, como também
imbuídas do espírito de obediência às ordens recebidas. Os comandantes dessas
unidades menores consideram este fator moral como algo natural, porque eles
também estão animados pelo mesmo espírito e nem mesmo podem imaginar outra
ideologia. O poder de uma ideologia consiste precisamente no fato de que as
pessoas a ela se submetem sem hesitação e sem escrúpulos.
Para o chefe do governo, entretanto, as coisas são diferentes. Ele precisa
esforçar-se para preservar a moral das forças armadas e a lealdade do resto da
população, uma vez que estes fatores morais são os únicos elementos “reais” sobre
os quais repousa a duração do seu domínio. Seu poder definha, se a ideologia que
o suporta perde a força.
As minorias também podem, às vezes, assumir o poder por meio de uma maior
capacidade militar e estabelecer, assim, o domínio. Mas tal situação não pode ser
duradoura. Se os conquistadores vitoriosos não conseguirem converter logo o
sistema de dominação pela força num sistema de governo consentido pela adesão
dos governados a uma ideologia, sucumbirão em novos combates. Todas as
minorias vitoriosas que estabeleceram um sistema de governo duradouro
conseguiram prolongar o seu domínio por meio da adoção de uma ideologia, ainda
que tardiamente. Legitimaram sua própria supremacia, seja adotando a ideologia
dos vencidos, seja transformando-a. Quando não ocorre nem uma nem outra
destas duas hipóteses, o grande número de oprimidos desaloja a minoria
opressora, quer por rebelião aberta, quer através da silenciosa, mas constante
pressão das forças ideológicas.121
Muitas das grandes conquistas históricas puderam durar porque os invasores se
aliaram às classes da nação derrotada que tinha o respaldo de ideologia dominante
e, assim, foram considerados como governantes legítimos. Foi esse o sistema
adotado pelos tártaros na Rússia, pelos turcos nos principados do Danúbio e em
grande parte da Hungria e da Transilvânia, e pelos ingleses e holandeses nas
Índias Orientais. Um número relativamente insignificante de ingleses podia
governar muitas centenas de milhões de indianos, porque os príncipes indianos e a
aristocracia proprietária de terras viam na dominação inglesa um meio de preservar
seus privilégios e lhe transferiam o apoio que a ideologia aceita pelos indianos em
geral dava à sua própria supremacia. O império britânico na Índia foi estável
enquanto a ordem social tradicional tinha aprovação da opinião pública. A Pax
Britannica salvaguardava os privilégios dos príncipes e dos latifundiários e protegia
as massas das agonias de guerras entre principados e de guerras intestinas de
sucessão. Nos dias de hoje,122 a infiltração de ideias subversivas provenientes do
exterior pôs fim à dominação inglesa e à ameaça de preservação da sua antiga
ordem social.
Algumas vezes, minorias vitoriosas devem o seu sucesso a uma superioridade
tecnológica. Isto não altera a questão. Em longo prazo, não é possível impedir que
a maioria tenha acesso às melhores armas. Foram fatores ideológicos, e não o
poder de fogo de suas forças armadas, que garantiram o domínio inglês na
Índia.123
A opinião pública de um país pode estar tão dividida ideologicamente, que
nenhum grupo seja suficientemente forte para estabelecer um governo durável.
Surge, então, a anarquia. As revoluções e os conflitos internos tornam-se
permanentes.
O tradicionalismo como uma ideologia
O tradicionalismo é uma ideologia que considera a fidelidade a valores, costumes
e modos de proceder, transmitidos ou supostamente transmitidos pelos ancestrais,
como certa e conveniente. Não é necessário que esses antepassados sejam os
ancestrais no sentido biológico do termo, ou possam honestamente ser assim
considerados; às vezes, trata-se apenas daqueles que já habitavam o país, ou que
eram adeptos da mesma fé religiosa ou simplesmente precursores no exercício de
alguma tarefa específica. Para saber quem deve ser considerado um ancestral e
qual o conteúdo do corpo de tradição transmitido, é necessário recorrer aos
ensinamentos concretos de cada variedade de tradicionalismo. A ideologia destaca
alguns dos ancestrais e relega outros ao esquecimento; às vezes, considera como
ancestrais pessoas que nem têm relação direta com a suposta descendência.
Frequentemente constrói uma doutrina “tradicional” cuja origem é recente e que
difere das ideologias realmente sustentadas pelos ancestrais.
O tradicionalismo tenta justificar suas proposições, alegando que deram
excelentes resultados no passado. Saber se os fatos confirmam esta assertiva é
outra questão. Pela pesquisa, seria possível, em alguns casos, desmascarar erros
nas afirmações históricas de uma crença tradicional. Entretanto, isto nem sempre é
suficiente para desacreditá-la. Porque a essência do tradicionalismo não está em
fatos históricos reais, mas na opinião sobre eles mantida – por mais errada que
seja – e no desejo de acreditar em coisas às quais se atribui a autoridade da
antiguidade.
4. O meliorismo e a ideia de progresso
As noções de progresso e retrocesso só fazem sentido num sistema teleológico de
pensamento. Numa tal estrutura, faz sentido chamar de progresso o aproximar-se
da meta desejada, e de retrocesso um movimento na direção oposta. Tais
conceitos, se não fazem referência à ação de algum agente e a um objetivo
definido, são vazios e desprovidos de sentido.
Uma das deficiências das filosofias do século XIX foi ter interpretado erradamente
o significado da mudança cósmica ao introduzir, indevidamente, a ideia de
progresso na teoria da transformação biológica. Quando comparamos um
determinado estado de coisas com estados anteriores, podemos honestamente
usar os termos desenvolvimento e evolução, num sentido neutro. Neste caso,
evolução significa o processo que provocou a passagem do estado anterior para o
estado atual. Mas devemos prevenir-nos para não cometer o erro fatal que consiste
em confundir mudança com melhoria, e evolução com uma passagem para formas
superiores de vida. Tampouco é admissível substituir o antropocentrismo religioso e
antigas doutrinas metafísicas por um antropocentrismo pseudocientífico.
Não obstante, não é necessário que a praxeologia faça uma crítica desta filosofia.
Sua tarefa é refutar os erros contidos nas ideologias correntes.
A filosofia social do século XVIII supunha que a humanidade, finalmente, havia
entrado na idade da razão. Enquanto no passado predominaram os erros teológicos
e metafísicos, doravante prevaleceria a razão. As pessoas iriam libertar-se cada vez
mais das cadeias da superstição e dedicariam todos os seus esforços à melhoria
constante das instituições sociais. Cada nova geração daria sua contribuição para
essa tarefa gloriosa. Com o tempo, a sociedade se tornaria, cada vez mais, a
sociedade dos homens livres, visando ao máximo de felicidade para o maior
número de pessoas. É claro que é possível ocorrerem recuos temporários. Mas ao
final de tudo triunfaria a boa causa, por ser a causa da razão. As pessoas se diziam
felizes por viver uma era de luzes que, pela descoberta das leis que regem a
conduta racional, haviam aberto o caminho a uma constante melhoria das
condições de vida do homem. Só lamentavam o fato de já serem muito velhas para
poder testemunhar todos os benefícios da nova filosofia. “Eu gostaria”, dizia
Bentham a Philarète Chasles, “de ter o privilégio de viver os anos que me restam
no fim de cada século que se seguir a minha morte; assim, eu poderia testemunhar
os efeitos de meus escritos”.124
Todas essas esperanças se baseavam na firme convicção, própria da época, de
que as massas são moralmente boas e razoáveis. As camadas superiores, os
aristocratas privilegiados que tinham de tudo, eram considerados depravados. O
homem comum, especialmente os camponeses e os operários, eram
romanticamente glorificados como nobres e como incapazes de fazer um
julgamento errado. Os filósofos estavam, portanto, persuadidos de que a
democracia, o governo pelo povo, traria a perfeição social.
Este preconceito foi o erro fatal dos humanitaristas, dos filósofos e dos liberais.
Os homens não são infalíveis: ao contrário, erram com frequência. Não é verdade
que as massas tenham sempre razão e saibam quais são os melhores meios para
atingir os fins. “A crença no homem comum” não é mais bem fundamentada do que
a crença nos dons sobrenaturais dos reis, dos padres e dos nobres. A democracia
garante um sistema de governo de acordo com os desejos e planos da maioria.
Mas não pode impedir as maiorias de serem vítimas de ideias falsas nem de
adotarem políticas que não só são inadequadas para atingir os fins pretendidos,
como também podem ser desastrosas. As maiorias também podem errar e destruir
a nossa civilização. A boa causa não triunfará apenas por ser razoável e
conveniente. Somente se os homens forem capazes de adotar políticas razoáveis e
suscetíveis de atingir os fins por eles mesmos desejados, a civilização se
aperfeiçoará e a sociedade e o estado poderão fazer com que os homens fiquem
mais satisfeitos, embora não felizes num sentido metafísico. Se esta condição se
concretizará ou não, só o futuro imprevisível poderá revelar.
Não há lugar, num sistema praxeológico, para o meliorismo ou para o fatalismo
otimista. O homem é livre no sentido de ter que escolher de novo, diariamente,
entre políticas que conduzem ao sucesso e políticas que conduzem ao desastre, à
desintegração social e ao barbarismo.
O termo progresso não faz sentido quando aplicado a eventos cósmicos ou a uma
visão de mundo abrangente. Não temos informações acerca dos planos da fonte de
energia que primeiro moveu o mundo. Mas o problema é diferente, se aplicamos
este termo no contexto de uma doutrina ideológica. A imensa maioria da
humanidade se esforça para ter uma maior e melhor abundância de comida,
roupas, casas e outros bens materiais. Ao considerarem como melhoria e progresso
uma elevação no nível de vida das massas, os economistas não estão aderindo a
um materialismo mesquinho. Estão simplesmente reconhecendo o fato de que as
pessoas são motivadas pelo desejo de melhorar as condições materiais de sua
existência. Julgam as políticas do ponto de vista dos objetivos que os homens
querem atingir. Quem desdenha a queda na taxa de mortalidade infantil e o
gradual desaparecimento da fome e das epidemias, que atire a primeira pedra no
materialismo dos economistas.
Só há um critério para avaliar a ação humana: saber se ela é ou não adequada
para atingir os fins escolhidos pelos agentes homens.
Rodapé
117 O cesarismo, em nossos dias, é representado pela ditadura bolchevista,
fascista ou nazista.
118 Ver adiante, cap. 20.
119 Ver Mises, Omnipotent Government, New Haven, 1944, p. 221-228, 129-131,
135-140.
120 Um gangster pode dominar uma pessoa mais fraca ou desarmada. Mas isso
não tem nada a ver com a vida em sociedade. É uma ocorrência antissocial.
121 Ver adiante p. 741-743.
122 O autor se refere à década de 1940, quando este livro foi escrito. (N.T.)
123 Estamos lidando neste caso com a preservação do domínio de uma minoria
europeia em países não europeus. Quanto às possibilidades de uma agressão
asiática ao Ocidente, ver adiante p. 761-763.
124 Philarète Chasles. Études sur les hommes et les moeurs du XIX siècle, Paris,
1849, p. 89.
CAPÍTULO 10
O Intercâmbio na Sociedade
1. Troca autística125 e troca interpessoal
A ação é sempre, essencialmente, a troca de um estado de coisas por outro
estado de coisas. Se a ação é praticada por um indivíduo sem qualquer referência à
cooperação com outros indivíduos, podemos chamá-la de troca autística. Exemplos:
o caçador isolado que mata um animal para seu próprio consumo estará trocando o
seu lazer e um cartucho por alimento.
Na sociedade, a cooperação substitui a troca autística pela troca interpessoal ou
social. O homem dá a outros homens e recebe deles. Surge a interdependência. O
homem serve para poder ser servido.
A relação de troca é a relação social fundamental. A troca interpessoal de bens e
serviços tece a ligação que une os homens em sociedade. A fórmula social é: do ut
des126. Quando não há reciprocidade internacional, quando uma ação é praticada
sem qualquer desejo de ser beneficiada por uma ação concomitante de outros
homens, não há troca interpessoal, mas apenas troca autística. É indiferente se a
ação autística é benéfica ou prejudicial a outras pessoas, ou se não lhes concerne
de forma alguma. Um gênio pode realizar sua tarefa para seu próprio prazer, e não
para a multidão: entretanto, é um benfeitor da humanidade. O ladrão, mata sua
vítima em seu próprio proveito; o homem assassinado não é, de forma alguma, um
parceiro neste crime, mas apenas o seu objeto; o crime, evidentemente, é
cometido contra sua vontade. A agressão hostil era uma prática comum aos
antepassados não humanos do homem.
A cooperação propositada e consciente é o resultado de um longo processo de
evolução. A etnologia e a história nos proporcionam informações interessantes a
respeito do surgimento e das formas primitivas de troca interpessoal. Alguns
consideram o costume de dar e receber presentes, de estimular previamente um
determinado presente a ser recebido, como uma forma precursora da troca
interpessoal.127 Outros consideram a troca silenciosa como a forma primitiva de
comércio. Entretanto, dar presentes, na expectativa de ser recompensado por um
presente de volta, ou para os favores de alguém cuja animosidade poderia ser
desastrosa, já equivale à troca interpessoal. O mesmo se pode dizer da troca
silenciosa, que se distingue de outras formas de troca ou de comércio apenas pela
ausência de discussão verbal.
É uma característica essencial das categorias da ação humana o fato de ser
apolítica e absoluta e de não admitir qualquer gradação. Existe ação ou não ação,
troca ou não troca; havendo ação ou troca, tudo o que se aplica à ação e à troca
em geral aplica-se a cada caso individual. Da mesma maneira, a fronteira entre
troca autística e troca interpessoal é perfeitamente nítida. Dar presente
unilateralmente, sem pretender ser recompensado por qualquer forma de conduta
da parte do recebedor ou de terceiras pessoas, constitui troca autística. O doador
usufrui a satisfação que lhe é proporcionada pela melhoria de condição do
recebedor. Para o recebedor, é como se tivesse recebido um presente do céu.
Porém, se os presentes são dados para influenciar a conduta de alguma pessoa, já
não são unilaterais, mas uma forma de troca interpessoal entre o doador e a
pessoa cuja conduta pretende influenciar.
Embora o surgimento de troca interpessoal tenha sido o resultado de uma grande
evolução, não se pode conceber uma transição gradual entre troca autística e troca
interpessoal. Entre uma e outra não houve nenhuma forma intermediária de troca.
A passagem da troca autística para a interpessoal foi um salto para algo
inteiramente novo e essencialmente diferente, da mesma forma que também o foi
a passagem da reação automática das células e nervos para o comportamento
propositado e consciente, ou seja, para a ação.
2. Vínculos contratuais e vínculos hegemônicos
Existem dois tipos de cooperação social: cooperação em virtude de contrato e
coordenação, e cooperação em virtude de comando e subordinação, ou seja,
hegemônica.
Quando a cooperação é baseada em contrato, a relação lógica entre os indivíduos
cooperantes é simétrica. Todos são partes nos contratos de troca interpessoal.
João tem com Paulo a mesma relação que Paulo tem com João. Quando a
cooperação é baseada no comando e subordinação, há o homem que comanda e
aqueles que obedecem às suas ordens. A relação lógica entre essas duas classes
de homens é assimétrica. Há um diretor e pessoas sob suas ordens. Somente o
diretor escolhe e decide; os outros – os comandados – são meros peões nas suas
ações.
O poder que dá vida e anima qualquer corpo social é sempre poder ideológico, e
o fato que transforma um indivíduo em membro de um corpo social é sempre sua
própria conduta. Isto também é verdadeiro em relação ao vínculo social
hegemônico. Em verdade, as pessoas geralmente já nascem dentro de sistemas
hegemônicos, como a família e o estado, o mesmo ocorrendo no caso dos vínculos
hegemônicos mais antigos, como a escravidão e a servidão, que, no âmbito da
civilização ocidental, já deixaram de existir. Mas nem a violência física, nem a
compulsão podem, por si só, forçar um homem a permanecer, contra sua vontade,
na condição de vassalo de uma ordem hegemônica. O que a violência ou a ameaça
de violência fazem existir é um estado de coisas no qual a submissão é geralmente
considerada como preferível à rebelião. Colocado diante da escolha entre as
consequências da obediência e as da desobediência, o vassalo prefere a primeira e
assim se submete ao vínculo hegemônico. Cada nova ordem de comando o coloca
novamente diante dessa escolha. Ao ceder repetidas vezes, ele mesmo dá sua
contribuição para a continuação da existência do vínculo social hegemônico. Mesmo
submisso a tal sistema, comporta-se como um ser humano que age, isto é, um ser
que não cede simplesmente a impulsos cegos, mas usa a sua razão para escolher
entre alternativas.
O que diferencia o vínculo hegemônico do vínculo contratual é o alcance das
escolhas individuais na determinação do curso dos acontecimentos. Quando um
homem decide submeter-se a um sistema hegemônico, torna-se, no âmbito das
atividades deste sistema e pelo tempo de sua submissão, um peão manipulado
pelas ações daquele que o dirige. Num corpo social hegemônico, e na medida em
que dirige a conduta dos seus subordinados, só o diretor age. Os tutelados só agem
ao escolher a subordinação. Uma vez escolhida a subordinação, já não agem por si
mesmos: são comandados.
No quadro de uma sociedade contratual, os indivíduos que a compõem trocam
quantidades definidas de bens e serviços de uma qualidade definida. Ao escolher a
submissão num corpo hegemônico, um homem não dá nem recebe nada que seja
definido. Integra-se num sistema em que tem de prestar serviços indeterminados e
receberá aquilo que o diretor considerar como sendo o seu quinhão. Está à mercê
do diretor. Apenas o diretor tem liberdade para escolher. Pouco importa o que
concerne à estrutura do sistema, que o diretor seja um indivíduo ou um grupo
organizado de indivíduos, um colegiado, ou que o diretor seja um tirano maníaco e
egoísta ou um déspota benevolente e paternal.
A distinção entre duas formas de cooperação social é comum a todas as teorias
sobre a sociedade. Ferguson a descrevia como o contraste entre nações guerreiras
e nações de índole comercial;128 Saint-Simon, como o contraste entre nações
combativas e nações pacíficas ou industriais; Herbert Spencer, como o contraste
entre sociedade de liberdade individual e aquelas com uma estrutura militante;129
Sombart, como o contraste entre heróis e mascates.130 Os marxistas distinguiam
entre a “organização pagã” de um fabuloso estado social primitivo e a glória eterna
do socialismo, por um lado, e a inominável degradação do capitalismo, por outro
lado.131 Os filósofos nazistas distinguiam o falso sistema de segurança burguesa
do sistema heroico do autoritário Fühertum. A valoração de ambos os sistemas é
diferente, segundo os vários sociólogos. Mas todos estão plenamente de acordo em
estabelecer o contraste e também em reconhecer que uma terceira solução não é
factível nem imaginável.
A civilização ocidental, bem como a civilização dos
adiantados, são conquistas de homens que cooperaram
coordenação contratual. Essas civilizações, é verdade,
aspectos, vínculos de natureza hegemônica. O estado,
compulsão e coerção, é necessariamente uma organização
ocorre com a família e com uma comunidade de famílias.
povos orientais mais
segundo o padrão de
adotaram, em alguns
como um aparato de
hegemônica. O mesmo
Entretanto, o traço característico dessas civilizações reside numa estrutura
contratual, adequada à cooperação das famílias individuais. Houve um tempo em
que prevalecia uma quase completa autarquia e isolamento econômico de cada
unidade familiar. A autossuficiência econômica de cada família foi substituída pela
troca interfamiliar de bens e serviços, em todas as nações comumente
consideradas como civilizadas, mediante uma cooperação baseada em contrato. A
civilização humana, tal como até agora é conhecida pela experiência histórica, é
preponderantemente um produto de relações contratuais.
Qualquer tipo de cooperação humana e de reciprocidade social é essencialmente
uma ordem pacífica e de solução conciliatória de disputas. Nas relações domésticas
de qualquer unidade social, seja ela do tipo contratual ou hegemônico, é
indispensável que haja paz. Onde existem conflitos violentos, e na medida em que
esses conflitos perdurem, não há cooperação nem vínculo sociais. Os partidos
políticos que, na ânsia de substituir o sistema contratual pelo sistema hegemônico,
evocam a decadência da paz e da segurança burguesa, exaltam a nobreza da
violência e do derramamento de sangue, e enaltecem a guerra e a revolução como
o método eminentemente natural das relações inter-humanas, são intrinsecamente
contraditórios. Porque suas próprias utopias nos são apresentadas como desejosas
de paz. O Reich dos nazistas e a comunidade dos marxistas são anunciados como
sociedades nas quais reinará uma paz inalterável. Devem ser criadas pela
pacificação, isto é, pela submissão violenta de todos aqueles que não estejam
dispostos a ceder sem violência. Num mundo contratual, diversos estados podem
coexistir. Num mundo hegemônico, só pode haver um Reich ou uma comunidade e
apenas um ditador. O socialismo tem que escolher entre a renúncia às vantagens
da divisão do trabalho que se estenda a toda a humanidade e o estabelecimento
de uma ordem hegemônica mundial. É este fato que faz do bolchevismo russo, do
nazismo alemão e do fascismo italiano movimentos tão “dinâmicos”, isto é, tão
agressivos. Sob condições contratuais, os impérios se dissolvem em associações
livres de nações autônomas. O sistema hegemônico fatalmente tende a absorver
qualquer estado independente.
A organização contratual da sociedade pressupõe uma ordem baseada na lei e no
direito. É o governo sob o império da lei (Rechtsstaat), diferentemente do welfare
state (Wohlfahrtsstaat), ou estado paternalista. O direito e a lei são o conjunto de
regras que determinam a órbita na qual os indivíduos têm liberdade de ação. Tal
órbita não existe para os tutelados de uma sociedade hegemônica. No estado
hegemônico, não há direito nem lei; só existem ordens e regulamentos que o
diretor pode mudar diariamente e aplicar tão discriminadamente quanto queira, e
às quais os tutelados devem obedecer. Os tutelados só têm uma liberdade:
obedecer sem fazer perguntas.
3. A ação e o cálculo
Todas as categorias praxeológicas são eternas e imutáveis, pois são
determinadas unicamente pela estrutura lógica da mente humana e pelas
condições naturais da existência do homem. Tanto ao agir, como ao formular
teorias sobre a ação, o homem não pode se libertar dessas categorias nem ir além
delas. Um tipo de ação categoricamente diferente daquela determinada por essas
categorias não é possível nem concebível para o homem. Algo que não seja nem
ação nem não ação é completamente incompreensível para o homem. Não há uma
história da ação; não há uma evolução que tenha conduzido de não ação até a
ação; não há estágios transitórios entre ação e não ação. Há somente agir e não
agir. E, para qualquer ação concreta, o que é rigorosamente válido é o que está
estabelecido categoricamente em relação à ação em geral.
Toda ação pode usar números ordinais. Para que possa empregar números
cardinais, utilizando-os para computação, são necessárias condições especiais.
Essas condições emergiram ao longo da evolução histórica da sociedade contratual.
Tornou-se, assim, possível a utilização da computação e do cálculo no
planejamento da ação futura e no registro dos efeitos da ação passada. Os
números cardinais e seu uso nas operações aritméticas também são categorias
eternas e imutáveis da mente humana. Mas sua aplicabilidade à premeditação e ao
registro da ação depende de certas condições que não existiam nos primeiros
estágios da organização social, que só apareceram mais tarde e que podem vir a
desaparecer de novo.
Foi a percepção do que estava acontecendo num mundo onde a ação podia ser
calculada e computada que levou os homens a elaborar as ciências da praxeologia
e da economia. A economia é, essencialmente, uma teoria deste campo da ação,
ao qual se aplica o cálculo, ou pode ser aplicado desde que ocorram determinadas
condições. Nenhuma outra distinção tem maior significado, tanto para a vida
humana como para o estudo da ação humana, do que esta entre ação calculável e
ação não calculável. A civilização moderna se caracteriza, acima de tudo, pelo fato
de ter elaborado um método que torna possível o uso da aritmética num vasto
campo de atividade. É isso que as pessoas têm em mente quando lhe atribuem o –
não muito adequado e frequentemente enganador – epíteto de racionalidade.
A compreensão mental e a análise de problemas que estão presentes num
sistema de mercado que se utiliza do cálculo foram o ponto de partida do
pensamento econômico, o qual finalmente conduziu ao conhecimento praxeológico
geral. Entretanto, não é a consideração deste fato histórico que torna necessário
iniciar o estudo de um amplo sistema econômico por uma análise da economia de
mercado e colocar, antes mesmo desta análise, um exame do problema do cálculo
econômico. Não são os aspectos históricos nem heurísticos que impõem tal
procedimento, mas as exigências do rigor lógico e sistemático. Os problemas em
questão só são visíveis e de natureza prática no âmbito de uma economia de
mercado que possibilite o cálculo econômico. Somente através de uma
transposição hipotética e figurativa podemos utilizar o cálculo econômico para
examinar outros sistemas de organização econômica da sociedade, sistemas esses
nos quais nenhum cálculo é possível. O cálculo econômico é a questão fundamental
na compreensão de todos os problemas comumente chamados de econômicos.
Rodapé
125 Autística – Que envolve só uma pessoa (N.T.)
126 Do latim – “(Eu) dou como (tu) dás”. (N.T.)
127 Gustav Cassel, The Theory of Social Economy, Trad. S.L. Banon, nova edição,
Londres, 1932, p. 371.
128 Ver Adam Ferguson, An Essay on the History of Civil Society, nova edição,
Basiléia, 1789, p. 208.
129 Ver Herbert Spencer, The Principles of Sociology. Nova York, 1914, vol. 3, p.
575 – 611.
130 Ver Werner Sombart, Haendler und Helden, Munique, 1915.
131 Ver Frederick Engels, The Origin of the Family, Private Property and the State ,
Nova York, 1942, p. 144.
Parte III - Cálculo Econômico
CAPÍTULO 11
Valoração sem Cálculo
1. A gradação dos meios
O agente homem transfere, para os meios, a valoração dos fins que pretende
atingir. Mantidas inalteradas as demais circunstâncias, atribui ao montante total
dos vários meios o mesmo valor que atribui ao fim que aqueles meios têm
condições de ocasionar. Por ora não precisamos considerar o tempo necessário à
produção do fim desejado e a sua influência sobre a relação entre o valor dos fins e
o dos meios.
A gradação dos meios, da mesma forma que a dos fins, é um processo de preferir
a a b. Implica em preferir e rejeitar. É manifestação de um julgamento desejar a
mais intensamente do que b. Possibilita a aplicação de números ordinais, mas não
a de números cardinais, nem as operações aritméticas que neles se baseiam. Se
alguém me oferece a possibilidade de escolher entre três bilhetes que dão direito
de assistir às óperas Aída, Falstaff e La Traviata , e, só podendo pegar um, prefiro
Aída, ou, podendo pagar mais um, prefiro em seguida Falstaff, terei feito uma
escolha. Isto significa: em determinadas condições, eu prefiro Aída e Falstaff a La
Traviata; se só pudesse escolher uma delas, preferiria Aída e renunciaria a Falstaff.
Chama-se o bilhete para Aída de a, o para Falstaff de b e o para La Traviata de c,
posso dizer: eu prefiro a a b e b a c.
O objetivo imediato da ação é frequentemente a aquisição de um suprimento de
coisas tangíveis, contáveis e mensuráveis. Assim sendo, o agente homem tem de
escolher entre quantidades contáveis; prefere, por exemplo, 15r a 7p; mas se
tivesse de escolher entre 15r e 8p, poderia preferir 8p. Podemos enunciar esta
situação dizendo que o agente homem atribui a 15r um valor menor do que 8p e
maior do que 7p. Isto equivale à constatação de que prefere a a b e b a c. A
substituição de 8p por a, de 15r por b e de 7p por c não altera o significado da
constatação feita nem o fato que ela descreve. Isto certamente não torna possível
o cálculo com utilização de números cardinais. Não possibilita o cálculo econômico
nem as operações mentais baseadas nele.
2. A ficção da troca na teoria elementar do valor e dos preços
A formulação da teoria econômica é tão intrinsecamente dependente dos
processos lógicos de cálculo que os economistas não chegaram a perceber o
problema fundamental implícito na questão cálculo econômico. Estavam propensos
a considerá-lo como algo evidente em si mesmo; não percebiam que o cálculo
econômico não é um dado irredutível, mas algo que pode ser reduzido a fenômenos
mais elementares. Equivocaram-se em relação ao cálculo econômico. Tomaram-no
como uma categoria de toda ação humana e ignoraram o fato de que é apenas
uma categoria inerente à ação em circunstâncias especiais. Tinham plena
consciência do fato de que a troca interpessoal e, consequentemente, a troca
efetuada no mercado utilizando um meio comum – a moeda e, portanto, os preços
– são características especiais de certo estágio da organização econômica da
sociedade que não existia nas civilizações primitivas e que poderá desaparecer
mais adiante no curso das transformações históricas.132 Mas não chegavam a
compreender que os preços expressos em moeda são o único veículo do cálculo
econômico. Por isso, a maior parte de seus estudos tem pouca utilidade. Mesmo os
escritos dos economistas mais eminentes são, numa certa medida, viciados pelas
falácias implícitas nas suas ideias acerca do cálculo econômico.
A teoria moderna do valor e dos preços mostra como as escolhas dos indivíduos,
sua preferência por certas coisas e rejeição por outras, resultam no campo da troca
interpessoal, no surgimento dos preços de mercado.133 Estas demonstrações
magistrais são insatisfatórias em alguns pontos menores e desfiguradas por
expressões inadequadas. Mas, na essência, são irrefutáveis. Na medida em que
seja necessário emendá-las, isto deve ser feito através de uma elaboração
consistente das ideias fundamentais de seus autores e não pela refutação de seu
raciocínio.
Para poder rastrear os fenômenos de mercado até a categoria universal da
preferência de a a b, a teoria elementar do valor e preços é obrigada a usar
algumas construções imaginárias. O uso de construções imaginárias, às quais nada
corresponde no mundo real, é uma ferramenta indispensável do pensamento.
Nenhum outro método contribuiria para uma melhor compreensão da realidade.
Não obstante, um dos maiores problemas da ciência consiste em evitar as falácias
que o emprego inadequado dessas construções pode acarretar.
A teoria elementar do valor e dos preços, além de outras construções imaginárias
de que trataremos mais tarde,134 recorre à construção de um mercado no qual
todas as transações são efetuadas por troca direta. Não há moeda; os bens e
serviços são trocados diretamente por outros bens e serviços. Esta construção
imaginária é necessária. Deixando de lado o papel intermediário representado pela
moeda, podemos compreender melhor que, no fundo, o que é trocado são sempre
bens de primeira ordem por outros bens da mesma ordem. A moeda não é mais do
que um meio de troca interpessoal. Mas devemos prevenir-nos cautelosamente
contra os erros a que esta construção de um mercado de troca direta pode
facilmente conduzir.
Um erro crasso que deve sua origem e sua persistência a esta construção
imaginária foi supor que o meio de troca é apenas um fator neutro. Segundo essa
suposição, a única diferença entre troca direta e indireta consistia em que, nesta
última, era usado um meio de troca. A introdução de moeda na transação, diziam,
não afetaria as características principais da operação. Não se ignorava o fato de
que ao longo da história ocorreram enormes alterações no poder de compra da
moeda e que tais alterações frequentemente convulsionavam todo o sistema de
trocas. Mas acreditava-se que tais eventos eram excepcionais, causados por
políticas inadequadas. Somente a “má” moeda, diziam, poderia produzir tais
perturbações. Ademais, as pessoas não compreendiam as relações de causa e
efeito desses distúrbios. Admitiam tacitamente que as mudanças no poder de
compra ocorriam em relação a todos os bens e serviços, ao mesmo tempo, e na
mesma proporção. É isso, certamente, o que está implícito na fábula da
neutralidade da moeda. Sustentava-se que toda a teoria cataláctica podia ser
elaborada sobre a pressuposição de que só existiria troca direta. Uma vez que
fosse elaborada esta teoria, bastaria “simplesmente inserir” a moeda no conjunto
de teoremas relativos à troca direta. Entretanto, esta complementação final do
sistema cataláctico era considerada como sendo sem importância. Não se
acreditava que pudesse alterar algo de essencial na estrutura do estudo de
economia. A tarefa principal da economia era concebida como o estudo da troca
direta. Além disso, o mais que poderia interessar era o exame dos problemas
suscitados pela “má” moeda.
Conformados com esta tese, os economistas negligenciaram a importância do
correto exame dos problemas da troca indireta. Seu exame dos problemas
monetários era superficial; ligava-se apenas vagamente ao corpo principal dos seus
estudos do funcionamento do mercado. Por volta do início do século XX, os
problemas de troca indireta estavam relegados a um lugar secundário. Havia
tratados de cataláxia que lidavam apenas incidental e sumariamente com assuntos
monetários, e havia livros sobre moeda e sistema bancário que sequer tentavam
integrar esse tema no conjunto do sistema cataláctico. Nas universidades dos
países anglo-saxônicos, havia cadeiras separadas para economia e para moeda e
sistema bancário; e na maior parte das universidades alemãs os problemas
monetários eram quase que totalmente desprezados.135 Só mais tarde os
economistas perceberam que alguns dos mais importantes e mais complicados
problemas catalácticos se situam no campo da troca indireta e que uma teoria
econômica que não lhes dê a devida atenção é lamentavelmente incompleta.
O despertar do interesse pelas investigações concernentes à relação entre a “taxa
natural de juros” e a “taxa monetária de juros”, a ascendência da teoria monetária
do ciclo econômico, e a completa demolição da doutrina da simultaneidade e
uniformidade das mudanças no poder aquisitivo da moeda foram os marcos do
novo teor do pensamento econômico. É claro que estas novas ideias eram
essencialmente a continuação do trabalho gloriosamente iniciado por David Hume,
pela Escola Monetária Inglesa (British Currency School)136, por John Stuart Mill e
por Cairnes.
Ainda mais nocivo foi um segundo erro provocado pelo uso imprudente da
construção imaginária de um mercado de troca direta. Segundo uma afirmativa
falaciosa, os bens e serviços trocados teriam o mesmo valor.
O valor seria considerado como algo objetivo, como uma qualidade intrínseca,
inerente às coisas, e não meramente como a expressão do desejo de várias
pessoas em adquiri-las. Supunha-se que, primeiro, as pessoas atribuiriam um grau
de valor aos bens e serviços, por meio de um ato de medição, para, em seguida,
efetuar a troca por outros bens e serviços de igual valor. Esta falácia frustrou o
pensamento econômico de Aristóteles e, por quase dois mil anos, o raciocínio de
todos aqueles que tinham por definitivas as opiniões desse filósofo. Perturbou
seriamente a maravilhosa contribuição dos economistas clássicos, e tornaram
inteiramente fúteis os escritos de seus epígonos, especialmente os de Marx e os da
escola marxista. A base da economia moderna é a noção de que é precisamente a
disparidade de valor atribuída aos objetos trocados que resulta na sua troca. As
pessoas compram e vendem unicamente porque atribuem um maior valor àquilo
que recebem do que àquilo que cedem. Assim sendo, a noção de uma medição de
valor é inútil. Um ato de troca não é precedido nem acompanhado por qualquer
processo que possa ser considerado como uma medição de valor.
Um indivíduo pode atribuir o mesmo valor a duas coisas; neste caso, nenhuma
troca ocorrerá. Mas se há uma diferença de valor, tudo o que se pode afirmar é que
a tem mais valor do que b. Valores e valorações são quantidades intensivas e não
extensivas. Não são suscetíveis de serem compreendidos pela aplicação de
números cardinais.
Entretanto, a ideia espúria de que valores são mensuráveis e são realmente
medidos na condução de transações econômicas estava tão enraizada, que mesmo
economistas eminentes foram vítimas dessa falácia. Até mesmo Friedrich von
Wieser e Irving Fisher aceitavam como verdadeira a ideia de que deve haver
alguma forma de medir o valor e de que a economia deve ser capaz de indicar e
explicar o método pelo qual se poderá fazer esta medição.137 Os economistas de
menor envergadura simplesmente supõem que a moeda serve “de medida de
valor”.
Ora, é preciso que se compreenda que valorar significa preferir a a b. Só existe –
do ponto de vista do lógico, epistemológico e praxeológico – uma maneira de
preferir. Não há diferença entre essa situação e o fato de um enamorado preferir
uma mulher às demais; ou de um homem preferir um amigo a outras pessoas; ou
de um colecionador preferir um quadro entre muitos; ou de um consumidor preferir
um pão a um pedaço de bolo. Preferir significa sempre querer ou desejar a mais
que b. Da mesma maneira como não existe padrão de medida para a atração
sexual, ou para a amizade e simpatia, ou para o prazer estético, também não
existe medida de valor das mercadorias. Se alguém troca um quilo de manteiga por
uma camisa, o que podemos dizer desta transação é que – no instante da
transação e nas circunstâncias específicas daquele instante – esse alguém prefere
uma camisa a um quilo de manteiga. É claro que cada ato de escolha se caracteriza
por certa intensidade psíquica de sentimentos. Existem gradações de intensidade
no desejo de atingir um determinado objetivo e esta intensidade é que determina o
ganho psíquico que a ação bem-sucedida traz no indivíduo que age. Mas as
quantidades psíquicas só podem ser sentidas. São inteiramente pessoais, não
sendo possível expressar sua intensidade por meios semânticos, nem transmitir
informações a seu respeito a outras pessoas.
Não há nenhum método conhecido para calcular uma unidade de valor. Convém
recordar que as duas unidades de um mesmo conjunto homogêneo de bens são
valoradas diferentemente. O valor atribuído à enésima unidade é menor do que o
atribuído à unidade (n – 1).
Na sociedade de mercado, existem preços expressos em moeda. O cálculo
econômico se efetua com base nos preços monetários. As várias quantidades de
bens e serviços entram neste cálculo considerando-se o montante em moeda pela
qual são comprados ou vendidos no mercado ou pelo qual poderiam sê-lo. É uma
ficção presumir que um indivíduo autossuficiente isolado ou o gerente geral de um
sistema socialista, isto é, um sistema no qual não exista um mercado para os bens
de produção, possa calcular. Não há nenhuma maneira que possa levar-nos do
cálculo monetário de uma economia de mercado para qualquer tipo de cálculo num
sistema onde não exista o mercado.
A teoria do valor e o socialismo
Os socialistas, os institucionalistas e os adeptos da Escola Historicista recriminam
os economistas por recorrerem à construção imaginária do pensamento e ação de
um indivíduo isolado. Esse imaginário Robinson Crusoé, afirmam eles, não serve
para o estudo das condições da economia de mercado. Esta censura, até certo
ponto, se justifica. Construções imaginárias de um indivíduo isolado e de uma
economia planificada sem mercado só se tornam utilizáveis se adotamos a hipótese
fictícia, autocontraditória no pensamento e contrária à realidade, de que o cálculo
econômico é possível mesmo num sistema desprovido de mercado para os meios
de produção.
Foi certamente um erro crasso, da parte dos economistas, não perceberem a
diferença entre as condições de uma economia de mercado e as de uma economia
sem mercado. Os socialistas, entretanto, são os que menos podem criticar este
erro. Isto porque o que lhes permitiu imaginar possível a realização dos planos
socialistas foi precisamente imaginar o fato de os economistas terem tacitamente
admitido que uma organização socialista da sociedade pudesse recorrer ao cálculo
econômico.
É claro que os economistas clássicos e seus epígonos não poderiam perceber os
problemas implícitos na impossibilidade do cálculo econômico. Se fosse verdade
que o valor das coisas fosse determinado pela quantidade de trabalho necessário à
sua produção ou reprodução, não haveria nenhum outro problema para o cálculo
econômico. Os adeptos da teoria do valor-trabalho não podem ser acusados de não
terem compreendido corretamente os problemas do sistema socialista. Sua falha
irremediável foi a de terem adotado uma doutrina de valor insustentável. Os que
entre eles, estavam inclinados a considerar a construção imaginária de uma
economia socialista, como um modelo viável de ampla reforma da organização
social não estavam em contradição com o conteúdo essencial de sua própria teoria.
Mas, no caso da cataláxia subjetiva, a situação é diferente; é imperdoável que os
economistas modernos não tenham chegado a perceber a essência do problema.
Wieser tinha razão ao declarar que muitos economistas, por tratarem
superficialmente a teoria comunista de valor, negligenciaram a elaboração de uma
teoria compatível com a própria organização social vigente.138 É incompreensível
que ele mesmo não tenha conseguido evitar esta falha.
A ilusão de que seja possível uma direção racional da ordem econômica numa
sociedade baseada na propriedade pública dos meios de produção deve sua origem
à teoria do valor dos economistas clássicos, e deve sua persistência aos inúmeros
economistas modernos que não foram capazes de levar às últimas conclusões o
teorema fundamental da teoria subjetiva. Portanto, as utopias socialistas foram
geradas e preservadas pelas deficiências daquelas escolas de pensamento que os
marxistas rejeitam como “um disfarce ideológico dos interesses egoístas da
burguesia exploradora”. Na verdade, foram os erros daquelas escolas que fizeram
prosperar as ideias socialistas. Este fato demonstra claramente o vazio dos
ensinamentos marxistas a respeito das “ideologias”, bem como o de seu
descendente moderno, a sociologia do conhecimento.
3. O problema do cálculo econômico
O agente homem utiliza o conhecimento proporcionado pelas ciências naturais
para elaborar a tecnologia, ou seja, a determinação da ação possível no campo dos
eventos externos. A tecnologia nos informa o que poderia ser conseguido e como
poderia ser conseguido, desde que estejamos dispostos a empregar os meios
necessários. Com o progresso das ciências naturais, a tecnologia também
progrediu; alguns preferem dizer que o desejo de aprimorar métodos tecnológicos
acarretou o progresso das ciências naturais. A quantificação das ciências naturais
acarretou a quantificação da tecnologia. A moderna tecnologia é essencialmente a
arte aplicada da previsão quantitativa do resultado de uma ação possível. Calculase com um razoável grau de precisão o resultado de ações planejadas e isto se faz
com o objetivo de orientar a ação de maneira a que um determinado resultado se
produza.
Entretanto, a mera informação técnica fornecida pela tecnologia só seria
suficiente para efetuar o cálculo econômico, se todos os meios de produção – tanto
materiais como humanos – pudessem ser perfeitamente substituídos uns pelos
outros segundo proporções determinadas, ou se fossem todos absolutamente
específicos. No primeiro caso, todos os meios de produção permitiriam atingir todos
os fins, quaisquer que estes fossem, embora segundo proporções diferentes; as
coisas se passariam como se só existisse uma única classe de meios – uma única
classe de bens econômicos de ordem mais elevada. No segundo caso, cada meio só
poderia ser empregado para atingir um determinado fim; neste caso, seria
atribuído ao conjunto de fatores complementares, necessários à produção de um
bem de primeira ordem, o mesmo valor atribuído a este último. (Mais uma vez,
provisoriamente, não estamos considerando as modificações que seriam produzidas
pelo fator tempo). Nenhuma dessas duas condições está presente no universo em
que o homem age. Os meios só podem ser substituídos uns pelos outros dentro de
limites estreitos; são meios mais ou menos específicos para obtenção de vários
fins. Mas, por outro lado, os meios, em sua maior parte, não são absolutamente
específicos; podem ser empregados para diversas finalidades. O fato de existirem
diferentes classes de meios, da maior parte dos meios ser mais adequada para
realizar certos fins e menos adequada para atingir outros e absolutamente inútil à
produção de outros mais, e que, portanto, os diversos meios possibilitam várias
utilizações, coloca para o homem a tarefa de escolher como alocá-los de forma a
que possam prestar o melhor serviço. Para esta escolha, de nada adianta recorrer à
computação, como faz a tecnologia. A tecnologia opera com quantidades
mensuráveis de coisas e efeitos externos; conhece relações causais entre eles, mas
desconhece sua relevância em relação às necessidades e desejos humanos. Só se
aplica a valor de uso objetivo. Julga todos os problemas segundo o desinteressado
ponto de vista de um observador neutro contemplando eventos físicos, químicos e
biológicos. No que se refere a valor de uso subjetivo, ao ponto de vista
especificamente humano e aos dilemas do agente homem, a tecnologia não tem
nada a ensinar. A tecnologia ignora o problema econômico: empregar os meios
disponíveis de tal maneira que uma necessidade mais urgentemente sentida não
deixe de ser atendida porque os meios apropriados à sua satisfação foram
empregados – desperdiçados – para atingir uma necessidade menos urgentemente
sentida. Para solucionar tais problemas, a tecnologia e seus métodos de medir e
contar são inadequados. A tecnologia nos informa como um dado objetivo pode ser
atingido pelo emprego de vários meios que podem ser usados segundo várias
combinações, ou como vários meios disponíveis podem ser empregados para certos
fins. Mas não consegue informar ao homem quais procedimentos escolher diante da
infinita variedade de modos de produção possíveis e imaginários. O que o agente
homem quer saber é como empregar os meios disponíveis para remover da melhor
forma possível – a mais econômica – o seu desconforto. A tecnologia não lhe
fornece mais do que informações acerca das relações causais existentes entre os
diversos fatores do mundo externo, como por exemplo: 7a + 3b + 5c +... x n são
capazes de produzir 8P. Mas, embora conheça os valores atribuídos pelo agente
homem aos vários bens de primeira ordem, não pode decidir se é esta fórmula ou
qualquer outra, entre a infinita variedade de fórmulas semelhantemente
construídas, a que melhor serve à realização dos objetivos perseguidos pelo agente
homem. A arte da engenharia pode estabelecer como uma ponte deve ser
construída para atravessar um rio, num determinado ponto e com uma
determinada capacidade de carga; mas não é capaz de dizer se a construção da
ponte em questão absorverá ou não mão de obra e fatores materiais de produção
que poderiam ser usados para satisfazer uma necessidade mais urgente. Não pode
dizer, sequer, se a ponte devia ser construída, onde devia ser construída e que
capacidade de carga deveria ter, e qual deveria ser o sistema de construção
escolhido, entre os diversos possíveis. A computação tecnológica pode estabelecer
relações entre várias classes de meios apenas na medida em que tais meios
possam ser substituídos uns pelos outros para atingir um determinado fim. Mas a
ação humana é compelida a descobrir as relações entre todos os meios, por mais
díspares que sejam, sem considerar se podem ou não substituir uns aos outros na
prestação do mesmo serviço.
A tecnologia e as considerações que dela derivam seriam de pouca utilidade para
o agente homem, se não fosse possível introduzir nos seus esquemas técnicos os
preços em moeda dos bens e serviços. Os projetos e desenhos dos engenheiros
seriam exercícios meramente acadêmicos, se não pudessem comparar custo e
receita em relação a uma mesma base. Um pesquisador teórico, na solidão de seu
laboratório, não se preocupa com essas questões triviais; só se preocupa com as
relações causais entre os vários elementos do universo. Mas o homem prático,
ávido em melhorar suas condições de vida, diminuindo o seu desconforto tanto
quanto possível, deve saber se, nas condições existentes, o que planeja é o melhor
método – ou mesmo se é um método – para tornar a vida menos desconfortável.
Deve saber se o que pretende realizar será uma melhoria em relação à situação
presente ou em relação às vantagens esperadas de outros projetos tecnicamente
possíveis que não podem ser realizadas porque o seu projeto absorverá os meios
disponíveis. Tais comparações só podem ser feitas recorrendo-se ao uso de preços
monetários.
Assim sendo, a moeda se torna o veículo do cálculo econômico. Não estamos,
desta forma, atribuindo outra função à moeda. A moeda é o meio de troca usado
universalmente e nada mais. Precisamente porque a moeda é o meio de troca
universal, porque a maior parte dos bens e serviços pode ser comprada e vendida
no mercado pela utilização da moeda, e somente na medida em que assim seja, é
que o homem pode utilizar os preços em moeda para efetuar os seus cálculos. As
relações de troca entre moeda e os vários bens e serviços estabelecidos no
mercado até ontem, e as que, segundo se espera, serão estabelecidas amanhã,
são as ferramentas mentais do planejamento econômico. Onde não existirem
preços em moeda, não existirão quantidades econômicas. Neste caso, existirão
apenas várias relações quantitativas entre as várias relações de causa e efeito do
mundo exterior; não haverá meio de o homem descobrir qual o tipo de ação melhor
serviria aos seus esforços para diminuir, tanto quanto possível, o desconforto.
Não precisamos nos deter no exame das condições primitivas da economia
doméstica de camponeses autossuficientes, que lidavam apenas com processos de
produção extremamente simples. Neste caso, não havia necessidade de cálculo
econômico, uma vez que se poderia comparar diretamente o custo e o benefício. Se
quisessem camisas, cultivavam o cânhamo, desfiavam, teciam e cosiam. Podiam,
sem recorrer a qualquer cálculo, decidir se o trabalho e o esforço despendido
seriam compensados pelo produto. Mas para o homem civilizado, o retorno a este
tipo de vida não é mais admissível.
4. O cálculo econômico e o mercado
O tratamento quantitativo dos problemas econômicos não deve ser confundido
com os métodos quantitativos que são aplicados no lidar com os problemas dos
eventos físicos ou químicos do mundo exterior. O traço característico do cálculo
econômico é não ser ele baseado em algo que possa ser considerado como uma
medição.
Uma medição consiste em estabelecer a relação numérica de um objeto em
relação a outro objeto, que se toma como unidade de medida. A medição se
baseia, inevitavelmente, em dimensões espaciais. Com a ajuda da unidade definida
de modo espacial, podemos medir a energia e a potência, a capacidade que
determinado fenômeno possui de produzir mudanças nas coisas e nas situações e,
inclusive, de medir a passagem do tempo. O ponteiro de um mostrador indica
diretamente uma relação espacial, e só indiretamente inferimos outras
quantidades. A assunção subjacente à medição é a imutabilidade da unidade. A
unidade de comprimento é, definitivamente, a base de toda medição. Assume-se
que o homem não tem como não considerá-la imutável.
As últimas décadas testemunharam uma revolução no cenário epistemológico
tradicional da física, da química e da matemática. Estamos no limiar de inovações
cujo alcance é difícil de prever. Pode ser que as futuras gerações de físicos tenham
de enfrentar problemas de certo modo semelhantes àqueles com os quais a
praxeologia tem de lidar. Talvez venham a ser forçados a abandonar a ideia de que
exista algo que não seja afetado por mudanças cósmicas e que possa ser usado
como um padrão de medida. Mas, ainda que assim seja a estrutura lógica da
medição de entidades terrestres no campo da física macroscópica não se alterará.
A medição, no que diz respeito à física microscópica, também é feita com escalas
métricas, micrômetros, espectrógrafos – e, definitivamente, com os órgãos
sensoriais do homem, o observador e o experimentador, que são definitivamente
macroscópicos.139 Ela não pode se libertar da geometria euclidiana e da noção de
um padrão invariável.
Existem unidades monetárias e existem unidades que permitem medir
fisicamente os vários bens econômicos e muitos – mas não todos – serviços que
são objeto de compra e venda. Mas as relações de troca com as quais lidamos
estão sempre variando. Não têm nada de constante ou invariável. Desafiam
qualquer tentativa de medição. Não são fatos no sentido com que a física emprega
esse termo ao proclamar que o peso de uma quantidade de cobre é um fato. São
eventos históricos que exprimem algo que aconteceu uma vez, num determinado
instante, segundo circunstâncias específicas. A mesma expressão numérica de uma
relação de troca pode surgir de novo, mas não se pode garantir que isso ocorrerá e,
se ocorrer, não se pode assegurar que esse resultado idêntico terá sido
consequência da preservação ou do retorno às mesmas circunstâncias, ou terá sido
o resultado da interação de um conjunto de fatores bem diferentes. Os números
aplicados pelo agente homem no cálculo econômico não se referem a quantidades
medidas, mas a relações de troca que se espera – com base na compreensão – que
ocorram no mercado, no futuro. Toda ação humana se orienta por essas relações
de troca futuras e somente elas têm importância para o agente homem.
Não estamos lidando, a esta altura da nossa investigação, com o problema de
uma “ciência econômica quantitativa”, mas apenas com a análise dos processos
mentais adotados pelo agente homem que, ao planejar sua conduta, se utiliza de
considerações de natureza quantitativa. Como a ação visa sempre a influenciar um
futuro estado de coisas, o cálculo econômico está sempre lidando com o futuro. Na
medida em que considera eventos passados ou relações de troca já ocorridas, só o
faz para melhor orientar a sua ação futura.
A tarefa que o agente homem pretende realizar utilizando-se do cálculo
econômico é a de estabelecer o resultado da ação pelo contraste de custos e
benefícios. Pelo cálculo econômico, ou se estima qual será o resultado de uma
futura ação ou se constata o resultado de uma ação passada. Neste segundo caso,
a constatação não é feita apenas com propósitos didáticos e históricos. Seu
significado prático é mostrar quanto cada um pode consumir sem prejudicar a
futura capacidade de produzir. Foi tendo em vista esse problema que se
desenvolveram as noções fundamentais do cálculo econômico – de capital e renda,
lucro e prejuízo, consumo e poupança, custo e benefício. A utilização, na prática,
dessas noções, e de todas as outras que delas derivam, está inseparavelmente
ligada ao funcionamento de um mercado no qual bens e serviços de qualquer
natureza sejam trocados mediante o uso de um meio de troca universalmente
aceito, qual seja, a moeda. Seriam noções meramente acadêmicas, sem qualquer
importância para a ação, num mundo em que a estrutura da ação fosse diferente
do que realmente é.
Rodapé
132 A Escola Historicista Alemã* reconhecia esta realidade ao afirmar que a
propriedade privada dos meios de produção, o intercâmbio no mercado e a moeda
são “categorias históricas”.
* Escola Historicista Alemã – German Historical School – É uma escola de
pensamento surgida no século XIX na Alemanha, que sustentava que o estudo de
história era a única fonte de conhecimento sobre a ação humana e sobre assuntos
econômicos. Essa escola afirmava que os economistas poderiam desenvolver novas
e melhores leis da sociedade no estudo das estatísticas e dados históricos. O
domínio da Escola Historicista nas universidades alemãs fez com que a economia
“liberal” fosse considerada como ridícula e deu ensejo a que promovesse o
socialismo de estado e as ideias de planejamento central. Assim, a Escola
Historicista forneceu a base ideológica para o surgimento do nazismo. Ver Mises
Made Easier, Percy L. Greaves Jr, Free Market Books, Nova York, 1974, (N.T.)
133 Ver especialmente Eugen von Böhm-Bawerk, Kapital und Kapitalzins , parte 2,
livro III.
134 Ver adiante p. 291-311.
135 O descuido com os problemas de troca indireta certamente foi influenciado por
preconceitos políticos. Ninguém queria renunciar à tese segundo a qual as
depressões econômicas seriam um mal inerente ao modo de produção capitalista e
que não poderiam ser, de forma alguma, causadas pela tentativa de diminuir a
taxa de juros pela expansão de crédito. Os professores de economia mais em
evidência consideravam “não científico” explicar as depressões como um fenômeno
que se origina “apenas” nos eventos no campo da moeda e do crédito. Havia até
estudos sobre a história dos ciclos que sequer aludiam às questões monetárias.
Ver, p. ex., Eugen von Bergmann,
Geschichte
der nationalökonomischen
Krisentheorien, Stuttgart, 1895.
136 Escola Monetária Inglesa – British Currency School – Grupo que se originou dos
escritores de David Ricardo (1772-1823) em oposição à Banking School. Em suma,
se opunham à prática de emissão fiduciária de notas promissórias pelos bancos
comerciais. Eram favoráveis à proibição legal de qualquer emissão de notas
bancárias que não fosse 100% lastreada em reservas de ouro. Para maiores
referências, ver adiante p. 510. Ver Mises Made Easier, Percy L. Greaves Jr. op. cit.
(N.T.)
137 Para uma análise crítica e refutação do argumento de Fisher, ver Mises, The
Theory of Money and Credit. Trad H. E. Batson, Londres, 1934, p. 42-44; o mesmo,
em relação ao argumento de Wieser: Mises, Nationalökonomie, Genebra, 1940, p.
192-194.
138 Ver Friedrich von Wieser, Der natürliche Wert, Viena, 1889, p. 60, nota 3.
1398 Ver A. Eddington, The Philosophy of Physical Science, p. 98-107, 210-221.
CAPÍTULO 12
O Âmbito do Cálculo Econômico
1. O significado das Expressões Monetárias
O cálculo econômico abrange tudo o que possa ser trocado por
moeda.
Os preços dos bens e serviços ou são dados históricos que descrevem eventos
passados ou, então, são antecipações de um evento futuro. Uma informação acerca
de um preço passado transmite o conhecimento de que um ou mais atos de troca
interpessoal foram efetuados segundo aquela relação de troca. Não nos fornece,
diretamente, nenhuma informação sobre preços futuros. Podemos presumir como
frequentemente o fazemos, que as condições de mercado que determinaram a
formação dos preços no passado recente permanecerão inalteradas ou pelo menos
não mudarão substancialmente por certo período, de tal sorte que os preços não se
alterarão ou sofrerão apenas pequenas variações. Tais expectativas são razoáveis
desde que os preços em questão sejam o resultado de interação de muitas pessoas
dispostas a vender e a comprar, desde que as relações de troca lhes pareçam
propícias, e que a situação do mercado não tenha sido influenciada por condições
que possam ser consideradas como acidentais extraordinárias e que,
provavelmente, não se repetirão. Entretanto, a tarefa principal do cálculo
econômico não é lidar com os problemas de uma situação de mercado em que não
ocorrem mudanças ou só ocorrem pequenas mudanças, mas, sim, lidar com a
mudança. O indivíduo, ao agir, ou bem antecipa as mudanças que irão ocorrer sem
a sua interferência e procura ajustar suas ações à situação antecipada; ou bem
toma a iniciativa de mudar as condições existentes, mesmo que outros fatores
possam contribuir para tal mudança. Os preços do passado são para ele simples
pontos de partida das suas tentativas de antecipar os futuros preços.
Historiadores e estatísticos se interessam pelos preços passados. O homem, na
prática, concentra seu interesse nos preços do futuro, mesmo que seja o futuro
imediato do próximo mês, dia ou hora. Para ele, os preços passados representam
meramente uma ajuda para antecipar preços futuros. Não só nos seus cálculos
preliminares quanto ao possível resultado da ação planejada, como também no seu
desejo de avaliar o resultado de suas transações anteriores, o que lhe interessa,
sobretudo são os preços futuros.
Pelos balanços e declarações de lucros e perdas, ficamos sabendo qual foi o
resultado da ação pela diferença entre o equivalente em moeda do patrimônio
líquido (ativo total menos passivo total) no princípio e no fim do período
considerado, e pela diferença entre o equivalente em moeda das receitas auferidas
e dos custos incorridos. Nessas declarações, é necessário traduzir em moeda todos
os elementos do ativo e passivo que não sejam recursos em caixa. Esses
elementos devem ser avaliados de acordo com os preços pelos quais poderiam
provavelmente ser vendidos no futuro ou, é o caso dos instrumentos de produção,
com base nos preços que se espera obter pela venda das mercadorias fabricadas
com sua ajuda. Entretanto, práticas antigas dos produtores e disposições do direito
comercial e do direito fiscal introduziram uma deformação nos princípios sadios da
contabilidade que visam apenas ao maior grau possível de exatidão. Essas práticas
e essas leis não estão especialmente interessadas na exatidão dos balanços e das
contas de lucros e perdas; são outros os seus objetivos. A legislação comercial
procura estabelecer um método de contabilidade que possa indiretamente proteger
os credores do risco de perda. Tende, numa certa medida, a avaliar os ativos
abaixo de seu valor de mercado, de maneira a fazer o lucro líquido e o patrimônio
líquido parecerem menores do que realmente são. Portanto, uma margem de
segurança é criada para reduzir o perigo de que, em prejuízo dos credores, possam
ser retirados da firma somas elevadas a título de lucro, e de que uma firma já
insolvente possa continuar exaurindo os meios disponíveis necessários à satisfação
de seus credores. Por outro lado, o direito fiscal é propenso a métodos de
computação que fazem com que os ganhos pareçam maiores do que seriam se um
método correto e imparcial fosse utilizado. A ideia é aumentar o imposto, sem
tornar este aumento visível na taxa nominal do imposto. Devemos, portanto
distinguir entre cálculo econômico, conforme praticado pelos empresários ao
planejarem suas futuras transações, e a contabilidade de fatos econômicos que
atende a outros objetivos. A determinação do imposto a pagar e o cálculo
econômico são duas coisas diferentes. Se uma lei submete quem tem empregados
domésticos a um imposto, e se estabelece que um empregado homem deva ser
computado como duas empregadas mulheres, ninguém interpretaria tal provisão
como algo mais do que um método para determinar o valor do imposto devido. Da
mesma maneira, se uma lei de heranças estabelece que valores mobiliários devam
ser avaliados pela cotação na Bolsa de Valores no dia da morte do falecido, estará
simplesmente estipulando uma maneira de calcular o valor do imposto.
Registros contábeis bem feitos, num sistema de contabilidade correto, são exatos
até o nível dos centavos. Exibem uma precisão impressionante e a exatidão
numérica de seus lançamentos faz supor absoluta certeza quanto aos números
escriturados. Na realidade, as cifras mais importantes de uma contabilidade são
especulações quanto às futuras condições do mercado. É um erro comparar os itens
de qualquer registro contábil aos itens usados num cálculo tecnológico, como por
exemplo, no projeto para construção de uma máquina. O engenheiro – no que se
refere ao aspecto puramente técnico de seu trabalho – utiliza apenas relações
numéricas estabelecidas pelos métodos experimentais das ciências naturais; o
empresário tem de usar cifras que resultam de seu entendimento quanto à futura
conduta das outras pessoas. O problema principal nos balanços e nas declarações
de lucros e perdas é a avaliação dos elementos do ativo e do passivo que não são
representados por valores em espécie. Todos esses balanços e declarações são
provisórios. Descrevem, na medida do possível, o estado das contas num instante
arbitrariamente escolhido, enquanto a vida e a ação prosseguem sem interrupção.
É possível encerrar negócios específicos, mas o sistema de produção como um todo
não se interrompe. Nem mesmo os ativos e passivos representados por valores em
espécie estão imunes a essa indeterminação inerente a todos os lançamentos
contábeis. Dependem da futura situação do mercado, tanto quanto qualquer outra
conta de inventário ou equipamento. A exatidão numérica das contas e
assentamentos contábeis não nos deve impedir de perceber o caráter incerto e
especulativo de suas cifras e dos cálculos que com elas se efetuam.
Não obstante, esses fatos não diminuem a eficiência do cálculo econômico. O
cálculo econômico é tão eficiente quanto pode ser. Nenhuma reforma poderia
aumentar sua eficiência. Propicia ao agente homem todos os serviços que podem
ser obtidos com a computação numérica. Não consiste, evidentemente, num meio
de conhecer condições futuras com certeza, nem retira da ação o seu caráter
especulativo. Mas isto só pode ser considerado como uma deficiência por aqueles
que não chegam a perceber o fato de que a vida não é rígida, que todas as coisas
estão em permanente mutação e que os homens não podem ter nenhuma certeza
quanto ao futuro.
Não é tarefa do cálculo econômico aumentar o conhecimento do homem quanto a
condições futuras. Sua tarefa é ajustar as ações do homem, tanto quanto possível,
à sua própria opinião relativamente à satisfação de necessidades no futuro. Para
isso, o agente homem necessita de um método de computação que se aplique a
todos os elementos considerados. Este denominador comum do cálculo econômico
é a moeda.
2. Os limites do cálculo econômico
O cálculo econômico não se aplica às coisas que não podem ser compradas ou
vendidas com dinheiro.
Existem coisas que não estão à venda e para cuja aquisição são necessários
outros sacrifícios além do dispêndio de dinheiro. Aquele que pretende preparar-se
para grandes realizações terá de empregar muitos meios, alguns dos quais
implicam em dispêndio de dinheiro. Mas as coisas essenciais necessárias à
realização deste intento não são compráveis. A honra, a virtude, a glória, assim
como o vigor físico, a saúde e a própria vida representam na ação um papel tanto
de meios como de fins, sem que possam ser considerados no cálculo econômico.
Existem coisas que não podem ser, de forma alguma, avaliadas em moeda, e
existem outras que podem ser avaliadas em moeda apenas em relação a uma
fração do valor que lhes é atribuído. A avaliação de um prédio antigo não considera
sua importância artística ou histórica, na medida em que estas qualidades não são
uma fonte de renda em moeda ou em bens vendáveis. O que sensibiliza a apenas
uma pessoa, e não induz outras pessoas a fazer sacrifícios para obter o mesmo
prazer, está fora do âmbito do cálculo econômico.
Entretanto, estas considerações não prejudicam a utilidade do cálculo econômico.
Todas aquelas coisas que não se incluem entre as que podem ser contabilizadas e
calculadas ou são fins ou são bens de primeira ordem. Nenhum cálculo é necessário
para que elas sejam levadas em consideração e para que seu valor seja
reconhecido. Tudo o que o agente homem precisa para fazer sua escolha é
contrastá-las com o custo necessário à sua aquisição ou preservação. Suponhamos
que uma municipalidade tenha que decidir entre dois projetos de abastecimento de
água. Um deles implica na demolição de um marco histórico, enquanto o outro, à
custa de um maior dispêndio, preservaria o marco histórico em questão. O fato de
que os sentimentos que recomendam a preservação do monumento não possam
ser representados por uma quantia em moeda não impede a decisão da
municipalidade. Ao contrário, por não poderem ser expressos em moeda, são
içados a uma posição especial que torna a decisão mais fácil. Nenhuma queixa
pode ser mais infundada do que lamentar que coisas não vendáveis estejam fora
do âmbito do cálculo econômico. Os valores morais e estéticos não sofrem nenhum
dano com este fato.
A moeda, os preços em moeda, as transações mercantis, assim como o cálculo
econômico que se baseia nesses elementos, são os principais alvos dos críticos.
Pregadores loquazes condenam a civilização ocidental como um sistema perverso
de traficantes e mascates. A presunção, o farisaísmo e a hipocrisia exultam em
escarnecer a ‘‘filosofia do dólar’’, que se supõe típica de nossa época. Reformadores
neuróticos, literatos mentalmente desequilibrados e demagogos ambiciosos sentem
prazer em acusar a ‘‘racionalidade’’ e em pregar o evangelho do ‘‘irracional’’. Aos
olhos desses falastrões, a moeda e o cálculo são as fontes dos piores males.
Entretanto, o fato de os homens terem elaborado um método para avaliar tanto
quanto possível a conveniência de suas ações e para diminuir o desconforto da
maneira mais prática e econômica não impede alguém de ajustar sua conduta aos
princípios que considere mais certos. O ‘‘materialismo’’ da Bolsa de Valores e da
contabilidade comercial não proíbe a ninguém viver segundo os padrões do monge
Thomás de Kempis, nem morrer por uma causa nobre. O fato de as massas
preferirem estórias de detetives a poesia, tornando esta menos lucrativa do que
aquelas, não tem nada a ver com o uso de moeda nem com contabilidade
monetária. Não é culpa da moeda o fato de existirem bandidos, ladrões,
assassinos, prostitutas, funcionários e juízes corruptos. Não é verdade que não
‘‘valha a pena’’ ser honesto. Vale a pena para aqueles que preferem a fidelidade
aos princípios que consideram certos às vantagens que poderiam obter com outra
atitude.
Há outro grupo de críticos que não chega a perceber que o cálculo econômico é
um método disponível tão somente às pessoas que atuam num sistema econômico
baseado na divisão do trabalho e numa ordem social alicerçada na propriedade
privada dos meios de produção. Só pode servir às considerações de indivíduos ou
grupos de indivíduos que operem no quadro institucional desta ordem social.
Consequentemente, é um cálculo de benefícios privados e não de ‘‘bem estar
social’’. Isto significa que os preços de mercado são o fato básico para o cálculo
econômico. Só pode ser aplicado em considerações que se baseiem na demanda
dos consumidores manifestada no mercado, e não segundo valorações hipotéticas
de um ente ditatorial, diretor supremo da economia nacional ou mundial. Aquele
que pretende julgar as ações do ponto de vista de uma pretensa ‘‘ordem social’’,
isto é, do ponto de vista da ‘‘sociedade como um todo’’, e criticá-las comparando-as
com o que se passaria num imaginário sistema socialista onde sua própria vontade
fosse soberana, não precisa do cálculo econômico. O cálculo econômico, em termos
de preços monetários, é o cálculo feito por empresários produzindo para os
consumidores numa sociedade de mercado. Não tem nenhuma utilidade fora desse
contexto.
Quem desejar empregar o cálculo econômico não pode considerar a atividade
econômica como algo manipulável por uma mente despótica. Os preços podem ser
usados para cálculo, pelos empresários, investidores, proprietários e assalariados
de uma sociedade capitalista. De nada servem, preços e cálculos, para tratar de
questões estranhas às categorias da sociedade capitalista. Não tem sentido avaliar
em dinheiro objetos que não são negociáveis no mercado e introduzir, nos cálculos,
dados arbitrários sem qualquer base na realidade. A lei pode determinar o valor a
ser pago como indenização por quem tenha causado a morte de alguém. Mas isto
não significa que esse seja o preço da vida humana. Onde há escravidão, há preços
de mercado para comprar e vender escravos. Onde não há escravidão, o homem, a
vida humana e a saúde são res extra comercium.140 Numa sociedade de homens
livres, a preservação da vida humana e da saúde são fins e não meios. Não podem
ser considerados em nenhum sistema de contabilização de meios.
É possível calcular a soma das rendas e da fortuna de certo número de pessoas,
utilizando-se os preços em moeda. Mas não tem sentido calcular a renda nacional
ou a riqueza nacional. Na medida em que passamos a raciocinar sobre situações
estranhas ao funcionamento de uma sociedade de mercado, não podemos mais nos
valer da ajuda dos métodos de cálculo monetário. As tentativas para definir em
termos monetários a riqueza de uma nação ou de toda a humanidade são tão
infantis quanto os esforços místicos para resolver os enigmas do universo a partir
de elucubrações sobre as dimensões da pirâmide de Queops. Se um cálculo
mercantil dá o valor de $100 a um fornecimento de batatas, isto significa que será
possível vendê-las ou repô-las por esta quantia. Se uma unidade empresarial
inteira é estimada em $1.000.000, é porque se supõe que ela possa ser vendida
por este montante. Mas qual o significado das diversas rubricas de um balanço da
riqueza total de uma nação? Qual o significado do saldo final resultante? O que
deve ser incluído e o que deve ser excluído de tal balanço? Seria correto incluir, ou
excluir, o ‘‘valor’’ do clima do país ou as habilidades inatas ou adquiridas da
população? As pessoas podem converter suas propriedades em moedas, mas uma
nação não pode.
Os equivalentes monetários que a ação e o cálculo econômico utilizam são preços
em moeda, isto é, relações de troca entre moeda e outros bens e serviços. Os
preços não são medidos em moeda: eles consistem numa certa quantidade de
moeda. Os preços ou bem são preços do passado ou preços esperados no futuro.
Um preço é necessariamente um fato histórico passado ou futuro. Não há nada nos
preços que possibilite equipará-los à medição de fenômenos físicos ou químicos.
3. A variabilidade dos preços
As relações de troca estão permanentemente sujeitas a mudanças porque as
condições que as determinam estão permanentemente mudando. O valor que um
indivíduo atribui tanto à moeda como aos bens e serviços são o resultado de uma
escolha num momento determinado. O instante seguinte pode engendrar algo novo
e introduzir outras considerações e valorações. O que devia ser considerado como
um problema digno de exame não é propriamente o fato de os preços flutuarem,
mas, sobretudo, o fato de não variarem mais rapidamente.
A experiência de todos os dias ensina, a todos, que as relações de troca no
mercado são variáveis. Podemos supor que todos têm consciência desse fato. Não
obstante, todas as noções populares de produção e consumo, de técnicas de
comercialização e preços são mais ou menos contaminadas por uma vaga e
contraditória noção de rigidez dos preços. O leigo tende a considerar como normal
e justa a manutenção dos preços registrados ontem e a condenar as mudanças nas
relações de troca como violação das leis da natureza e da justiça.
Seria um erro explicar essas crenças populares como a sedimentação de velhas
opiniões concebidas ao tempo em que as condições de produção e comercialização
eram mais estáveis. Pode-se colocar em dúvida se antigamente havia maior ou
menor estabilidade de preços do que hoje em dia. Entretanto, seria mais exato
afirmar que a integração de mercados locais em mercados nacionais, resultando
finalmente num mercado mundial que cobre todo o planeta, bem como a evolução
do comércio no sentido de procurar provisionar continuamente os consumidores
fizeram com que as mudanças de preços fossem menos frequentes e menos
intensas. Nos tempos pré-capitalistas, havia maior estabilidade quanto a métodos
tecnológicos de produção, mas havia uma maior irregularidade no suprimento aos
vários mercados locais e no ajuste deste suprimento às variações de demanda. Mas
mesmo sendo verdade que os preços fossem um pouco mais estáveis num passado
distante, isto teria pouca importância nos dias de hoje. As noções populares de
moeda e de preços em moeda não derivam de ideias formadas no passado. Seria
errado interpretá-las como reminiscências atávicas. Atualmente, todo indivíduo é
confrontado diariamente com tantas situações de compra e venda que seria
equivocado imaginar que suas opiniões sobre o assunto decorram simplesmente da
aceitação irrefletida de ideias tradicionais.
É fácil compreender por que aqueles cujos interesses de curto prazo são
prejudicados por mudanças nos preços reclamam destas mudanças, enfatizando
que os preços anteriores eram não só mais justos, como mais normais, e
sustentado que a estabilidade dos preços está em conformidade com as leis da
natureza e da moralidade. Mas toda mudança de preços favorece os interesses de
curto prazo de outras pessoas. Os favorecidos certamente não se sentem impelidos
a enfatizar a equidade e a normalidade da rigidez dos preços.
A existência de reminiscências atávicas ou de interesses egoístas de grupos não é
suficiente para explicar a popularidade da ideia da estabilidade de preços. Suas
raízes devem ser encontradas no fato de as noções concernentes às relações
sociais terem sido concebidas segundo o padrão das ciências naturais. Os
economistas e os sociólogos que pretendem moldar as ciências sociais segundo o
modelo da física ou da fisiologia estão simplesmente cedendo a uma forma de
pensar que as ilusões populares adotariam mais tarde.
Mesmo os economistas clássicos não foram capazes de se libertar desse erro.
Para eles, valor era algo objetivo, isto é, um fenômeno do mundo exterior, uma
qualidade inerente às coisas e, portanto, mensurável. Falharam inteiramente ao
não perceber o caráter puramente humano e voluntarista dos julgamentos de valor.
Tanto quanto podemos saber hoje, foi Samuel Bailey quem primeiro desvendou o
que ocorre quando se prefere uma coisa a outra.141Mas o seu livro, assim como os
escritos de outros precursores da teoria subjetiva de valor, passou despercebido.
O dever de refutar o erro contido na ideia de que a ação é mensurável não cabe
apenas à ciência econômica. É também um dever da política econômica. Porque os
fracassos das políticas econômicas dos nossos dias se devem, em certa medida, à
lamentável confusão provocada pela ideia de que existe algo fixo e, portanto,
mensurável nas relações inter-humanas.
4. A estabilização
Uma excrescência fruto de todos esses erros, é a ideia de estabilização.
Os danos causados pela intervenção governamental nos assuntos monetários e as
consequências desastrosas de políticas adotadas com o propósito de reduzir a taxa
de juros e incrementar a atividade econômica através da expansão do crédito
deram origem às ideias que acabaram gerando o slogan ‘‘estabilização’’. Podemos
explicar seu surgimento e sua popularidade; podemos compreendê-lo como sendo
o fruto da história da moeda e do crédito nos últimos 150 anos; podemos, por
assim dizer, alegar circunstâncias atenuantes para os erros cometidos. Mas
nenhuma explicação benevolente conseguirá fazer com que essas falácias possam
ser um pouco mais defensáveis.
A estabilidade pretendida por um programa de estabilização é uma noção vazia e
contraditória. O impulso para agir, isto é, para melhorar as condições de vida, é
inato no homem. O próprio homem muda de momento em momento, e suas
valorações, vontades e atos mudam com ele. No domínio da ação, nada é
perpétuo, a não ser a mudança. Nada é permanente nessa incessante flutuação;
somente as categorias apriorísticas da ação é que são eternas. É inútil tentar
separar a valoração e a ação da instabilidade e da variabilidade de seu
comportamento e argumentar como se existissem no universo valores eternos
independentes dos julgamentos de valor dos homens, capazes de servir como
unidade de medida para avaliação da ação.142
Todos os métodos sugeridos para medir as variações do poder de compra das
unidades monetárias são baseados, de forma mais ou menos inconsciente, na
imagem ilusória de um ser eterno e imutável que determina, pela aplicação de um
padrão invariável, a quantidade de satisfação que uma unidade de moeda lhe
proporciona. Alegar que só se deseja medir as mudanças no poder de compra da
moeda constitui uma justificativa pobre dessa ideia mal concebida. O ponto crucial
da noção de estabilidade reside principalmente nesse conceito de poder aquisitivo.
O leigo, influenciado pelas ideias da física, considerava a moeda como um padrão
de medida dos preços. Acreditava que as flutuações das relações de troca ocorriam
apenas entre as várias mercadorias e serviços, e não entre a moeda e a
‘‘totalidade’’ dos bens e serviços. Mais tarde, as pessoas inverteram o argumento.
Não era mais à moeda que se atribuía a constância de valor, mas à ‘‘totalidade’’
das coisas que podiam ser objeto de compra e venda. Começaram a imaginar
conjuntos de mercadorias para serem contrastados com a unidade monetária. A
ânsia de encontrar índices para medir o poder de compra da moeda silenciava
todos os escrúpulos. Tanto a ambiguidade e a incomparabilidade dos registros de
preços como o caráter arbitrário dos procedimentos usados no cálculo das medidas
não eram levados em consideração.
O eminente economista americano Irving Fisher, grande paladino do movimento
de estabilização nos EUA, contrastava o dólar com uma cesta contendo todas as
mercadorias que a dona de casa compra no mercado para o aprovisionamento
habitual de sua despensa. Na proporção em que a quantidade de dinheiro
necessária para comprar o conteúdo dessa cesta variasse, o poder aquisitivo do
dólar também variaria. O objetivo pretendido por essa política de estabilização era
a preservação da imutabilidade deste gasto em moeda.143 Isto teria cabimento se
a dona de casa e sua cesta imaginária fossem elementos constantes, se a cesta
contivesse sempre os mesmos produtos e a mesma quantidade de cada um, e se
não variasse, na vida das famílias, o papel representado por este conjunto de bens.
No mundo em que vivemos, nenhuma dessas condições é real.
Em primeiro lugar, existe o fato de que a qualidade das mercadorias varia
continuamente. É um erro considerar que todo trigo produzido é de mesma
qualidade; isto para não falar de sapatos, chapéus e outras manufaturas. As
grandes diferenças de preços que podem ser observadas em vendas simultâneas
de mercadorias que a linguagem corrente e as estatísticas colocam sob a mesma
rubrica evidenciam claramente esse truísmo. Uma expressão idiomática assevera
que duas ervilhas são iguais;144 mas compradores e vendedores distinguem várias
qualidades e tipos de ervilhas. É inútil comparar preços pagos em diferentes locais
ou momentos por mercadorias que a tecnologia e a estatística designam pelo
mesmo nome, se não houver certeza de que sua qualidade – exceto quanto à
diferença de local – é exatamente a mesma. Qualidade neste contexto significa:
todas as propriedades às quais os compradores ou os potenciais compradores
atribuem importância. O simples fato de que a qualidade de todos os bens e
serviços de primeira ordem está sujeita a mudanças desmoraliza um dos
pressupostos fundamentais de todos os métodos de cálculo de índices. É
irrelevante o fato de que um pequeno número de bens de ordens mais elevadas –
especialmente metais e produtos químicos que podem ser bem definidos por meio
de fórmulas – seja suscetível de uma descrição precisa de suas características. Uma
medição do poder de compra teria que depender dos preços dos bens e serviços de
primeira ordem. E não só de alguns, mas de todos eles. Empregar os preços dos
bens de produção para se medir o poder aquisitivo é um método que não resolveria
o problema, porque implicaria em computar várias vezes as diversas fases de
produção de um mesmo bem de consumo, o que falsearia o resultado. Restringir-se
a um grupo selecionado de bens seria bastante arbitrário e consequentemente
vicioso.
Mas, mesmo deixando de lado estes obstáculos intransponíveis, a tarefa
continuaria sem solução. Porque não só as características tecnológicas das
mercadorias mudam, fazendo surgir novos tipos de bens enquanto outros
desaparecem, como o valor que lhes atribuímos também muda, provocando
alterações na demanda e na produção. Os pressupostos em que se ampara a
doutrina da medição exigiriam homens cujos desejos e valorações fossem
imutáveis.
Somente se as pessoas valorassem as mesmas coisas sempre da mesma
maneira, poderíamos considerar mudanças nos preços como representativas de
mudanças no poder aquisitivo da moeda. Sendo impossível estabelecer a
quantidade total de moeda dispendida em bens de consumo, numa determinada
fração de tempo, as estatísticas são obrigadas a recorrer aos preços pagos por
mercadoria. Isto suscita dois outros problemas, para os quais não há solução
apodítica. Torna-se necessário atribuir, às várias mercadorias, coeficientes de
importância. Seria evidentemente errado computar os preços das várias
mercadorias sem considerar sua respectiva importância na economia doméstica dos
indivíduos. Mas o estabelecimento de uma ponderação adequada também é
arbitrário. Em segundo lugar, torna-se necessário calcular médias dos dados
coletados e ponderados. Mas existem diferentes métodos para cálculo de médias.
Existe a média aritmética, a geométrica, a harmônica; existe a quase média,
conhecida como a mediana. Cada uma delas conduz a um resultado diferente.
Nenhuma delas pode ser considerada como o único modo de obter uma resposta
logicamente inatacável. A decisão em favor de um desses métodos de cálculo é
arbitrária.
Se todas as circunstâncias humanas fossem imutáveis; se todas as pessoas
repetissem sempre as mesmas ações – por ser sempre o mesmo o seu desconforto
e a mesma a forma de removê-lo —, ou se pudéssemos assegurar que as
mudanças ocorridas em alguns indivíduos ou grupos fossem contrabalançadas por
mudanças em sentido contrário em outros indivíduos ou grupos e, portanto, não
afetassem a demanda total nem a oferta total, estaríamos vivendo num mundo de
estabilidade. Mas nesta hipótese, a ideia de que o poder aquisitivo da moeda
pudesse variar é contraditória. Como serão demonstradas mais adiante, mudanças
no poder aquisitivo da moeda afetam necessariamente os preços dos vários bens e
serviços, em momentos diferentes e numa proporção diferente; consequentemente,
produzem mudanças na oferta e procura, na produção e no consumo.145 A ideia
implícita no impróprio termo nível de preços, como se – mantidas iguais as demais
circunstâncias – todos os preços pudessem aumentar e diminuir uniformemente, é
uma ideia insustentável. As demais circunstâncias não podem permanecer iguais,
quando varia o poder de compra da moeda.
No campo da praxeologia e da economia, carece de sentido a ideia de medição.
Numa hipotética situação em que todas as condições fossem rígidas, não haveria
mudanças a serem medidas. No nosso mundo sempre cambiante, não existem
pontos fixos, dimensões ou relações que possam servir de padrão de medida. O
poder de compra da unidade monetária nunca varia uniformemente em relação a
todas as coisas vendáveis ou compráveis. As noções de estabilidade e estabilização
são vazias de sentido, se não se referem a um estado de rigidez e à sua
preservação. Entretanto, esse estado de rigidez não pode sequer ser
consistentemente imaginado até suas últimas consequências lógicas; muito menos
ainda pode existir na realidade.146 Onde há ação, há mudança. A ação é uma
alavanca para mudanças.
A solenidade pretensiosa exibida pelos estatísticos e pelas agências estatísticas
ao anunciarem índices de custo de vida e de poder de compra é desmedida. Esses
índices numéricos não são mais do que ilustrações grosseiras e inexatas de
mudanças já ocorridas. Nos períodos em que a relação entre a oferta e a demanda
por moeda se altera muito lentamente, os índices não nos fornecem nenhuma
informação. Nos períodos de inflação e, consequentemente, de variações bruscas
de preços, os índices nos proporcionam uma imagem tosca de eventos que cada
indivíduo percebe por experiência própria, no seu dia a dia. Uma dona de casa
judiciosa sabe mais sobre mudanças de preços que afetam sua economia
doméstica do que lhe poderiam ensinar as médias estatísticas. Para ela, de pouco
adiantam cálculos feitos sem considerar as mudanças tanto em qualidade quanto
em quantidade dos bens que ela pode adquirir aos preços utilizados para calcular o
índice. Se, numa apreciação pessoal, ela ‘‘medir’’ as mudanças, considerando
apenas os preços de duas ou três mercadorias como um padrão, não estará sendo
menos ‘‘científica’’ e nem menos arbitrária do que matemáticos sofisticados ao
escolher os seus métodos para computar os dados do mercado.
Na vida prática, ninguém se deixa iludir por índices numéricos. Ninguém aceita a
ficção segundo a qual tais índices devem ser considerados como medições. Quando
quantidades são medidas, desaparecem as dúvidas e discussões em relação às
suas dimensões. É questão resolvida. Ninguém ousaria discutir com os
meteorologistas sobre medições de temperatura, umidade, pressão atmosférica e
outros dados meteorológicos. Por outro lado, ninguém concorda com um índice
numérico, se não espera uma vantagem pessoal resultante de sua aceitação pela
opinião pública. O estabelecimento de índices numéricos não resolve as disputas;
simplesmente as desloca para um campo onde o choque de opiniões e interesses é
irreconciliável.
A ação humana provoca mudanças. Na medida em que há ação humana, não há
estabilidade, mas incessante alteração. O processo histórico é uma sucessão de
mudanças. O homem não tem possibilidade de detê-lo nem de criar uma era de
estabilidade fazendo cessar o curso da história. É da natureza humana querer
melhorar, conceber novas ideias e ajustar as condições de sua vida em
conformidade com essas ideias.
Os preços do mercado são fatos históricos que exprimem um estado de coisas
que prevaleceu num determinado instante do irreversível processo histórico. Para a
praxeologia, o conceito de medição é desprovido de sentido. No imaginário – e,
obviamente, irrealizável – estado de rigidez e estabilidade, não existem mudanças
a serem medidas. No mundo real de permanente mudança, não existem pontos
fixos, objetos, qualidades ou relações fixas que permitam medir as mudanças
ocorridas.
5. A base da ideia de estabilização
O cálculo econômico não necessita de estabilidade monetária no sentido com que
este termo é empregado pelos defensores da estabilização. O fato de que a rigidez
do poder de compra da unidade monetária é inconcebível e irrealizável não impede
o cálculo econômico. O que o cálculo econômico requer é um sistema monetário
cujo funcionamento não seja sabotado pela interferência do governo. Quando as
autoridades governamentais expandem a quantidade de moeda em circulação, seja
para aumentar sua capacidade de gastar, seja para produzir uma temporária baixa
na taxa de juros, desarticulam todas as relações monetárias e perturbam o cálculo
econômico. O primeiro objetivo de uma política monetária deve ser o de impedir o
governo de adotar medidas inflacionárias e de criar condições que estimulem a
expansão do crédito por parte dos bancos. Este programa seria bastante diferente
do confuso e autocontraditório programa de estabilização do poder de compra.
Para o bom funcionamento do cálculo econômico, basta evitar flutuações grandes
e abruptas na oferta de dinheiro. O ouro e, até meados do século XIX, a prata,
atenderam muito bem às necessidades do cálculo econômico. As variações na
relação entre a oferta e a demanda destes metais preciosos e as consequentes
alterações no poder de compra foram tão lentas que o cálculo econômico dos
empresários podia desprezá-las sem correr o risco de grandes desvios. A precisão
no cálculo econômico é inatingível, mesmo excluindo as imperfeições decorrentes
do fato de não se dar a devida atenção às variações monetárias.147 Ao fazer seus
planos, o empresário não pode deixar de empregar dados relativos a um futuro
desconhecido; lida necessariamente com preços e custos de produção que só serão
conhecidos no futuro. A contabilidade, no seu esforço para estabelecer o resultado
da ação passada, tem o mesmo problema, na medida em que depende da
estimativa do valor de instalações fixas, estoques e realizáveis contra terceiros. A
despeito de todas estas incertezas, o cálculo econômico pode cumprir sua função.
Isto porque as incertezas não decorrem do sistema de cálculo. São inerentes à
essência da ação que lida sempre com a incerteza do futuro.
A ideia de tornar estável o poder de compra não teve sua origem na tentativa de
tornar o cálculo econômico mais preciso. Ela decorreu do desejo de criar algo que
ficasse imune ao incessante fluir da atividade humana, um campo que não pudesse
ser afetado pelo processo histórico. As dotações destinadas a prover
perpetuamente as necessidades de um corpo eclesiástico, de uma instituição de
caridade ou de uma família foram durante muito tempo estabelecidas em terras ou
em produtos agrícolas. Mais tarde, a elas se acrescentaram anuidades definidas em
moeda. Doadores e beneficiários supunham que uma anuidade definida em termos
de uma quantidade certa de metais preciosos não seria afetada por mudanças nas
condições econômicas. Tais esperanças eram ilusórias. As gerações seguintes
constataram que os planos de seus antecessores não se realizaram. Estimulados
por esta experiência, começaram a investigar como poderiam atingir os objetivos
visados. Foi assim que tiveram início as tentativas de medir as mudanças no poder
aquisitivo e as de eliminar essas mudanças.
O problema assumiu maior importância quando os governos começaram a
recorrer a empréstimos em longo prazo, perpétuos, cujo principal não seria nunca
reembolsado. O estado, essa nova deidade da nascente estatolatria, essa eterna e
super-humana instituição imune às fraquezas humanas, oferecia ao cidadão uma
oportunidade de colocar sua riqueza a salvo de qualquer vicissitude. Abria o
caminho para libertar o indivíduo da necessidade de arriscar e de ter que conseguir
sua renda novamente, cada dia, no mercado capitalista. Quem investisse seus
recursos em títulos emitidos pelo governo ou por entidades paraestatais ficava
liberado das inevitáveis leis do mercado e da soberania dos consumidores. Deixava
de ter necessidade de investir recursos para melhor servir os desejos e
necessidades dos consumidores. Passava a ter segurança, protegido dos perigos da
competição no mercado onde os prejuízos são a punição pela ineficiência; o estado
eterno o acolhia sob sua asa e lhe garantia o desfrute tranquilo de seus recursos.
Desde então, sua renda não mais decorria do processo de atender os desejos, mas
dos impostos arrecadados pelo aparato de compulsão e coerção. Em vez de servir
os seus concidadãos, submisso à sua soberania, passava a ser um sócio do governo
que arrecadava impostos do povo. O que o governo pagava como juros eram
menos do que o mercado oferecia. Mas esta diferença era fartamente compensada
pela indiscutível solvência do devedor, o estado, cuja receita não dependia de
satisfazer o público, mas da cobrança inflexível do pagamento dos impostos.
Apesar das desagradáveis lembranças deixadas pelos primeiros empréstimos
públicos, as pessoas estavam dispostas a confiar generosamente no estado
modernizado do século XIX. Em geral, tinha-se como evidente que esse novo
estado cumpriria escrupulosamente as obrigações que voluntariamente havia
assumido. Os capitalistas e os empresários tinham plena consciência do fato de
que, numa sociedade de mercado, o único meio de preservar a riqueza é ganhá-la
de novo a cada dia, numa árdua competição com todos, com as firmas já
existentes e com as que estão ‘‘começando do nada’’. O empresário envelhecido e
cansado, que não estava mais disposto a arriscar sua riqueza duramente
conquistada em novas tentativas de servir aos desejos do consumidor, e o herdeiro
dos lucros de alguém, indolente e cônscio de sua própria ineficiência, preferiam
investir em títulos da dívida pública, libertando-se, assim, da lei do mercado.
Ora, uma dívida pública perpétua e não amortizável pressupõe a estabilidade do
poder de compra. Embora o estado e seu poder de coerção possam ser eternos, os
juros pagos sobre a dívida pública só podem ser eternos se baseados num padrão
de valor imutável. Desta forma, o investidor, que por razões de segurança evita o
mercado, a atividade empresarial e o investimento na livre iniciativa, preferindo
títulos do governo, defrontam-se novamente com o problema da mutabilidade de
todos os assuntos humanos. Descobre que no quadro de uma sociedade de
mercado não há lugar para uma riqueza que não seja dependente do mercado.
Seus esforços para encontrar uma fonte inesgotável de renda são inúteis.
Não há neste mundo nada que se possa chamar de estabilidade ou segurança e
nenhum esforço humano será capaz de criá-las. Numa sociedade regida pelo
mercado, a única maneira de adquirir riqueza e preservá-la é a de ser bemsucedido ao servir o consumidor. O estado, é claro, pode impor pagamentos aos
seus súditos ou tomar recursos por empréstimo. Entretanto, mesmo o mais
implacável governante não é capaz de, em longo prazo, violentar as leis que regem
a vida e a ação do homem. Se o governo usa os recursos tomados por empréstimo
de maneira a melhor servir os desejos dos consumidores, e se é bem-sucedido
nessas atividades empresariais, competindo livremente e sem privilégios com
empresários privados, está na mesma posição de qualquer outro empreendedor;
pode pagar juros porque teve superávit. Mas se o governo investe mal os seus
recursos e não produz resultados superavitários, ou se os utiliza para despesas
correntes, o capital tomado por empréstimo diminui ou desaparece
completamente, secando a fonte de onde deveriam provir os recursos para pagar
os juros e o principal. Assim sendo, a única maneira de que dispõe para cumprir os
compromissos assumidos nos contratos de crédito é a cobrança de impostos. Ao
cobrar impostos com este fim, o governo penaliza os cidadãos pelos recursos que
malbaratou no passado. Pelos impostos pagos, os cidadãos não recebem nenhuma
contrapartida do aparato governamental. O governo paga juros sobre um capital
que consumiu e que já não existe. O Tesouro é onerado pelos resultados
desastrados de políticas anteriores.
Em certas circunstâncias, podem-se justificar empréstimos de curto prazo ao
governo. Evidentemente, a justificativa popular de empréstimo de guerra não tem
sentido. Todos os materiais necessários para conduzir uma guerra devem ser
obtidos pela restrição do consumo civil, pelo maior volume de trabalho e pelo
consumo de uma parte do capital disponível. O peso do esforço de guerra deve
recair sobre a geração em luta. As futuras gerações são afetadas apenas na
medida em que, devido ao esforço de guerra, herdarão menos do que herdariam se
não tivesse havido uma guerra. Financiar uma guerra através de empréstimos evita
a transferência do ônus para os filhos e netos.148 É simplesmente um modo de
distribuir a carga entre os cidadãos. Se toda a despesa fosse coberta por impostos,
somente aqueles que tivessem recursos disponíveis poderiam ser taxados. As
demais pessoas não contribuiriam de maneira adequada. Empréstimos em curto
prazo podem ser um recurso para diminuir essa desigualdade, uma vez que
permitem uma oportuna tributação sobre os detentores de capital fixo.
O crédito em longo prazo, público ou semipúblico, é um elemento estranho e
perturbador à estrutura da sociedade de mercado. Seu estabelecimento foi uma
tentativa inútil de ir além dos limites da ação humana e de criar uma órbita de
segurança eterna que não pudesse ser afetada pela transitoriedade e instabilidade
dos assuntos terrenos. Que presunção arrogante esta de pactuar empréstimos
perpétuos, de fazer contratos para a eternidade, de estipular para todo o sempre!
Neste particular, pouco importa se os empréstimos eram formalmente perpétuos ou
não; intencional e praticamente, eram assim considerados e transacionados. No
apogeu do liberalismo, algumas nações ocidentais redimiram parte de sua dívida
de longo prazo mediante honrado reembolso do principal. Mas, na maior parte dos
casos, as novas dívidas se foram acumulando sobre as antigas. A história financeira
do último século mostra um contínuo aumento do montante da dívida pública.
Ninguém acredita que os Estados irão suportar eternamente a carga dos juros a
pagar. É óbvio que, mais cedo ou mais tarde, todos estes débitos serão liquidados
de alguma maneira, diferente daquela prevista no contrato. Uma legião de autores
inescrupulosos já se ocupa em preparar a justificação moral para o dia do ajuste
final.149
O fato de o cálculo econômico, em termos de moeda, não ser apropriado às
tarefas que lhe são atribuídas pelos quiméricos planos que visam à implantação de
um impraticável regime de absoluta quietude e de eterna segurança, imune às
inevitáveis limitações da ação humana, não pode ser considerado uma deficiência.
Não há nada que possa ser considerado como valores eternos, absolutos e
invariáveis. A procura de um padrão para medir tais valores é inútil. O cálculo
econômico não deve ser considerado como imperfeito por não corresponder às
ideias confusas de pessoas que desejam uma renda estável que não dependa do
processo produtivo dos homens.
Rodapé
140 Coisas fora de comércio. (N.T.)
141 Ver Samuel Bailey, A Critical Dissertation on the Nature, Measures and Causes
of Values, Londres, 1825, n. 7 in ‘‘Series of Reprints of Scarce Tracts in Economics
and Political Science’’, London School of Economics, Londres, 1931.
142 Para a propensão da mente em considerar a rigidez e a imutabilidade como o
essencial, e o movimento e a mudança como o acidental, ver Bergson, La pensée
et le mouvant, p.85 e segs.
143 Ver Irving Fisher, The Money Illusion, Nova York, 1928, p. 19-20.
144 Para designar coisas exatamente iguais, a língua inglesa possui a expressão
‘‘as like two peas’’, cuja tradução literal é ‘‘iguais como duas ervilhas’’. (N.T.)
145 Ver adiante p. 479-482.
146 Ver adiante p. 303-305.
147 Nenhum cálculo prático pode jamais ser preciso. A fórmula adotada para o
cálculo pode ser exata; mas o cálculo em si utiliza sempre quantidades
aproximadas e, portanto, é necessariamente impreciso. A economia é, como já foi
mostrado anteriormente, (p. 66), uma ciência exata de coisas reais. Mas quando
começamos a raciocinar com dados de preços, desaparece a exatidão e a teoria
econômica é substituída pela história econômica.
148 Empréstimos, neste contexto, significam recursos tomados por empréstimo
daqueles que têm recursos para emprestar. Não nos estamos referindo ao
problema da expansão de crédito que ocorre, hoje em dia na América,
principalmente em consequência da expansão do crédito feita através dos bancos
comerciais.
149 A mais popular dessas doutrinas está cristalizada na seguinte frase: uma dívida
pública não é uma obrigação, porque devemo-la a nós mesmos. Se isto fosse
verdade, o cancelamento da dívida pública seria uma operação inofensiva, um
mero lançamento contábil. Na realidade, a dívida pública compreende direitos de
pessoas que, no passado, confiaram seus recursos ao governo, contra todos
aqueles cidadãos que diariamente estão produzindo novas riquezas. Onera-se o
segmento produtivo da sociedade em benefício de outro segmento. Há uma
maneira de se liberarem os produtores de novas riquezas desta carga: aplicar os
impostos necessários aos pagamentos exclusivamente sobre os portadores de
títulos. Mas isto significa um flagrante desrespeito ao compromisso assumido.
CAPÍTULO 13
O Cálculo Econômico como um
Instrumento da Ação
1. O Cálculo Monetário como um Método de Pensar
O cálculo monetário é a estrela guia da ação no sistema social baseado na divisão
do trabalho. É a bússola do homem que pretende produzir algo. O homem usa o
cálculo para distinguir um processo de produção lucrativo dos não lucrativos; para
distinguir aquilo que os consumidores soberanos provavelmente aprovarão daquilo
que provavelmente desaprovarão. Todo o simples passo da atividade empresarial
está sujeito a um exame minucioso a ser feito por intermédio do cálculo
econômico. A premeditação de ações planejadas torna-se, com o cálculo, uma
antecipação dos custos e receitas esperadas. A constatação retrospectiva do
resultado da atividade passada torna-se a contabilidade de lucros e perdas.
O sistema de cálculo econômico em termos monetários está condicionado por
certas instituições sociais. Só pode funcionar num quadro institucional de divisão do
trabalho e de propriedade privada dos meios de produção, no qual bens e serviços
de todas as ordens são comprados e vendidos através do uso generalizado de um
meio de troca chamado moeda.
O cálculo monetário é o método de cálculo empregado pelas pessoas que agem
no contexto de uma sociedade baseada no controle privado dos meios de
produção. É um instrumento da ação dos indivíduos; é um modo de computar que
tem por objetivo avaliar a riqueza e a renda privada e os lucros e perdas dos
indivíduos que agem por conta própria numa sociedade de livre empresa.150 Todos
os seus resultados referem-se somente a ações individuais. Quando os estatísticos
sumarizam esses resultados, o total obtido é uma soma de ações autônomas da
pluralidade de indivíduos que se dirigem a si mesmos, e não o resultado da ação de
um corpo coletivo, de um conjunto ou de uma totalidade. O cálculo monetário é
inteiramente inaplicável e inútil para qualquer consideração que não contemple as
coisas do ponto de vista de indivíduos. Implica no cálculo de lucros individualizados
e não no de valores ‘‘sociais’’ imaginários ou de bem estar ‘‘social’’.
O cálculo monetário é o principal veículo de planejamento e ação no contexto de
uma sociedade livre, dirigida e controlada pelo mercado e seus preços.
Desenvolveu-se nesse contexto e foi sendo gradualmente aperfeiçoado, na medida
em que no mecanismo de mercado se expandia o conjunto de coisas negociadas
com o uso de moeda. Foi o cálculo econômico que conferiu à quantificação, aos
números e às operações aritméticas o papel que representam em nossa civilização
quantitativa e calculadora. As medições da física e da química só fazem sentido
para a ação prática porque existe o cálculo econômico. Foi o cálculo monetário que
fez da aritmética uma ferramenta na luta por uma vida melhor. Proporciona um
modo de usar as conquistas obtidas em experiências de laboratório para diminuir o
desconforto de maneira mais eficaz.
O cálculo monetário atinge sua maior perfeição na contabilidade de capital.
Estabelece os preços em moeda dos meios disponíveis e confronta este total com
as mudanças produzidas pela ação e pela operação de outros fatores. Esta
confrontação mostra as mudanças que ocorreram nos negócios dos indivíduos e a
magnitude dessas mudanças; torna legível o sucesso e o fracasso, o lucro e a
perda. Intitulou-se de capitalismo o sistema de livre empresa com o evidente
intuito de denegri-lo e difamá-lo. Entretanto, esse termo pode ser considerado
como bastante pertinente. Evoca o traço mais característico do sistema, seu
aspecto mais eminente, qual seja o papel que a noção de capital representa na
gestão da livre empresa.
Há pessoas para as quais o cálculo econômico é algo repugnante. Não querem ser
despertadas de seus devaneios pela voz crítica da razão. A realidade lhes aborrece,
preferem fantasiar sobre um mundo de oportunidades ilimitadas. Incomoda-lhes a
maldade de uma ordem social onde tudo é primorosamente calculado em dólares e
centavos. Consideram seus resmungos de desaprovação como um comportamento
nobre, digno dos amigos do espírito, da beleza e da virtude em contraposição à
baixeza ignóbil e à torpeza dos Babbitt.151 Entretanto, o culto da beleza e da
virtude, a sabedoria e a busca do conhecimento não são prejudicadas pela
racionalidade de uma mente que conta e calcula. Aquela atitude se trata apenas de
devaneio romântico que não pode prosperar diante de uma crítica séria. O
calculador de cabeça fria é o censor severo do visionário estático.
Nossa civilização está inseparavelmente ligada aos métodos de cálculo
econômico. Pereceria, se tivesse de renunciar a essa preciosa ferramenta
intelectual da ação. Goethe tinha razão em qualificar a contabilidade de partidas
dobradas como ‘‘uma das mais belas invenções da mente humana”.152
2. O cálculo econômico e a ciência da ação humana
A evolução do cálculo econômico capitalista foi a condição necessária para o
estabelecimento de uma ciência da ação humana, sistemática e coerentemente
lógica. A praxeologia e a economia têm um lugar definido na evolução da história
humana e no processo de pesquisa científica. Só poderiam tomar corpo quando o
agente homem tivesse êxito na criação de um método de pensar que tornasse
possível calcular suas ações. A ciência da ação humana, no seu início, era
simplesmente uma disciplina que lidava com as ações que podiam ser testadas
pelo cálculo monetário. Lidava exclusivamente com o que poderia ser chamado de
economia, num sentido restrito, isto é, com aquelas ações que numa sociedade de
mercado são efetuadas com a intermediação da moeda. Os primeiros passos no
caminho de seu aprimoramento foram investigações avulsas relativas às moedas
em circulação, ao crédito e aos preços dos vários produtos. O conhecimento
transmitido pela lei de Gresham, as primeiras formulações aproximadas da teoria
quantitativa da moeda – como as de Bodin e Davanzati – e a lei de Gregory King
são o primeiro albor da percepção da regularidade de fenômenos e da necessidade
inevitável que prevalecem no campo da ação humana. O primeiro sistema mais
abrangente de teoria econômica – essa brilhante realização dos economistas
clássicos – foi essencialmente uma teoria da ação calculável. Traçou implicitamente
a linha divisória entre o que deve ser considerado como econômico e como extra
econômico, segundo a linha que separa as ações que podem ser calculadas em
termos monetários das demais ações. Partindo dessa base, os economistas tiveram
condições de ampliar pouco a pouco o campo de seus estudos, até finalmente
desenvolverem um sistema capaz de lidar com todas as escolhas humanas, uma
teoria geral da ação.
Rodapé
150 Nas sociedades ou companhias embora constituídas de mais de um indivíduo,
são sempre figuras individuais que agem.
151 Babbitt – termo tirado do livro de mesmo título do escritor norte-americano
Sinclair
Lewis
(1885-1951).
É
empregado
nos
EUA
depreciativamente, empresários ou homens de negócios. (N.T.)
152 Ver Goethe, Wilhelm Meister’s Apprenticeship, livro I, cap. X.
para
designar,
Parte IV - Cataláxia ou Economia de
Mercado
CAPÍTULO 14
Âmbito e Metodologia da Cataláxia
1. A delimitação dos Problemas Catalácticos
Nunca houve qualquer dúvida ou incerteza quanto ao âmbito da ciência
econômica. Desde que se começou a estudar sistematicamente economia ou
economia política, têm estado todos de acordo com a ideia de que a tarefa deste
ramo do conhecimento é investigar os fenômenos do mercado, isto é, a
determinação da relação de troca dos bens e serviços negociados no mercado, sua
origem na ação humana e seus efeitos nas ações posteriores. A complexidade de
definir com precisão o âmbito da economia não deriva da incerteza quanto à
natureza dos fenômenos a serem investigados. Decorre do fato de que os esforços
para elucidar os fenômenos em questão devem ir além da órbita do mercado e das
transações do mercado. Para conceber plenamente o mercado, é necessário por um
lado, estudar a ação de hipotéticos indivíduos vivendo isoladamente e, por outro,
contrastar o sistema de mercado com uma imaginária comunidade socialista. Ao
estudar a troca interpessoal, não podemos deixar de lidar com a troca autística
(intrapessoal). Torna-se, então, difícil definir claramente que ações devem estar
compreendidas no âmbito da ciência econômica, em sentido restrito, e quais
devem ser excluídas. A economia ampliou seu horizonte e se transformou numa
ciência geral de toda e cada ação humana, ou seja, na praxeologia. A questão que
emerge está em distinguir os limites concretos dos problemas estritamente
econômicos.
As tentativas de definir precisamente os limites do âmbito da cataláxia
fracassaram porque escolheram como critério ou os motivos que provocam a ação
ou, então, os objetivos que se pretendem alcançar. Mas a variedade e
multiplicidade de motivos que instigam a ação de um indivíduo são irrelevantes
para um estudo abrangente da ação humana. Toda ação é motivada pelo desejo
de suprimir um determinado desconforto. Pouco importa, para a ciência da ação, a
maneira pela qual as pessoas qualificam esse desconforto do ponto de vista
fisiológico, psicológico ou ético. A tarefa da economia é lidar com os preços de
todos os bens, tais como são cobrados e pagos nas transações de mercado. Não
deve restringir suas investigações ao estudo daqueles preços que resultam, ou
parecem resultar, de comportamentos que possam ser rotulados pela psicologia,
pela ética ou por qualquer outra maneira de considerar o comportamento humano.
A classificação das ações segundo seus vários motivos pode ser importante para a
psicologia e pode proporcionar um termo de referência para uma avaliação moral;
não obstante, para a economia, são irrelevantes. Pode-se dizer o mesmo em
relação às tentativas de limitar o âmbito da economia às ações que têm por
objetivo suprir os indivíduos com os bens tangíveis e materiais do mundo exterior.
Estritamente falando, as pessoas não almejam os bens tangíveis em si mesmos;
almejam isto sim, os serviços que esses bens podem prestar-lhes. Querem obter o
incremento de bem estar que esses serviços são capazes de lhes proporcionar.
Mas, sendo assim, é inadmissível excluir do âmbito da ação ‘‘econômica’’ ações que
diminuam o desconforto, sem a interposição de coisas tangíveis e visíveis. O
conselho de um médico, o ensinamento de um professor, o recital de um artista e
outros muitos serviços pessoais são objeto de estudo econômico tanto quanto o
desenho de um arquiteto para construir um edifício, a fórmula de um cientista
usada na produção de um composto químico ou a contribuição de um autor para a
publicação de um livro.
O objeto de estudo da cataláxia são todos os fenômenos de mercado com todas
as suas raízes, ramificações e consequências. É um fato o de que as pessoas, ao
transacionarem no mercado, não são motivadas apenas pelo desejo de obter
alimento, abrigo e satisfação sexual, mas também por inúmeros desejos de
natureza “ideal”. O agente homem nem sempre está interessado apenas em coisas
“materiais”, mas também em coisas “ideais”. Escolhe entre várias alternativas, sem
considerar se elas são classificadas como materiais ou ideais. Nas escalas de valor
efetivas, as coisas materiais e espirituais estão entrelaçadas. Mesmo se fosse
possível traçar uma separação nítida entre interesses ideais e materiais, é preciso
considerar que toda ação concreta ou visa à realização de objetivos tanto materiais
como ideais ou é o resultado de uma escolha entre algo ideal e algo material.
Podemos deixar sem resposta a questão de saber se é possível separar as ações
que visam à satisfação de necessidades condicionadas pela fisiologia das outras
ligadas a necessidades “mais elevadas”. Mas não devemos subestimar o fato de
que, na realidade, nenhum alimento é valorado apenas pelo seu valor nutritivo e
nenhuma casa ou vestimenta apenas por proteger da chuva e do frio. Não se pode
negar que a demanda por bens é largamente influenciada por considerações
metafísicas, religiosas e éticas, por julgamentos de valor estéticos, por costumes,
hábitos, preconceitos, tradições, modas e muitas outras coisas. Para um
economista que tentasse restringir suas investigações apenas aos aspectos
“materiais”, o objeto de sua pesquisa se esvaneceria tão logo começasse a estudálo.
A única afirmativa cabível é a seguinte: o principal interesse da economia é a
análise da determinação dos preços em moeda dos bens e serviços intercambiados
no mercado. Para cumprir essa tarefa, deve partir de uma teoria abrangente da
ação humana. Além disso, deve estudar não apenas os fenômenos de mercado,
mas também a hipotética conduta de um homem isolado e de uma comunidade
socialista. Finalmente, não deve restringir suas investigações às ações que em
linguagem comum são chamadas de “econômicas”, mas deve também considerar
ações que numa linguagem imprecisa são chamadas de “não econômicas”.
O âmbito da praxeologia – a teoria geral da ação humana – pode ser
precisamente definido e delimitado. Os problemas tipicamente econômicos, os
problemas da ação econômica no sentido mais estrito, só de forma aproximada
podem ser dissociados do corpo de uma teoria geral praxeológica. Fatos acidentais
registrados pela história da ciência econômica ou circunstâncias meramente
convencionais influem, quando se trata de definir o campo da economia
“propriamente dita”.
Não são razões de natureza lógica ou epistemológica, mas consideração de
natureza prática e de convenções tradicionais que nos fazem declarar que o campo
da cataláxia ou economia no sentido estrito é a análise dos fenômenos de
mercado. Isto equivale a dizer: a cataláxia é a análise daquelas ações que são
conduzidas com base no cálculo econômico. O intercâmbio mercantil e o cálculo
econômico estão ligados de forma inseparável. Um mercado no qual exista apenas
troca direta é uma construção imaginária. Por outro lado, a moeda e o cálculo
econômico são condicionados pela existência do mercado.
Certamente uma das tarefas da economia consiste em analisar o funcionamento
de um imaginário sistema socialista de produção. Mas um estudo dessa natureza só
é possível através do estudo da cataláxia, ou seja, através de um sistema onde
existam preços em moeda e cálculo econômico.
A negação da economia
Existem doutrinas que simplesmente negam a existência de uma ciência
econômica. O que hoje em dia se ensina nas universidades sob o rótulo de
economia é praticamente uma negação da economia.
Aquele que contesta a existência da economia está virtualmente negando que o
bem estar da humanidade possa ser afetado pela escassez de fatores externos.
Imagina que todo mundo poderia desfrutar a perfeita satisfação de todos os seus
desejos, desde que fosse feita uma reforma para superar certos obstáculos
causados por instituições inadequadas feitas pelo homem. A natureza é pródiga e
generosamente cumula a humanidade com presentes. As condições poderiam ser
paradisíacas para um número ilimitado de pessoas. A escassez é uma situação
artificialmente criada por práticas estabelecidas. A abolição dessas práticas
resultaria em abundância.
Na doutrina de Karl Marx e de seus seguidores, a escassez é apenas uma
categoria histórica. É a parte essencial da história primitiva da humanidade que
desaparecerá para sempre pela abolição da propriedade privada. Assim que a
humanidade efetuar a transição do mundo de necessidade para o mundo de
liberdade,153 atingindo desta forma “a fase superior da sociedade comunista”,
haverá abundância e, consequentemente, será possível dar “a cada um de acordo
com suas necessidades”. 154 Não há, no vasto fluxo de escritos marxistas, a menor
alusão à possibilidade de que uma sociedade comunista da “fase superior” possa
ter que enfrentar uma escassez dos fatores naturais de produção. A realidade da
existência da desutilidade do trabalho desaparece pela afirmativa de que trabalhar,
numa sociedade comunista, evidentemente não será um encargo, mas um prazer,
“a necessidade primordial da vida”. 155 As desagradáveis realidades da
“experiência” russa são atribuídas à hostilidade dos capitalistas, ao fato de o
socialismo não ter ainda alcançado sua “fase superior” por ter sido implantado
apenas em um país, e, mais recentemente, pela guerra.
Existem também os inflacionistas radicais, como por exemplo, Proudhon e Ernest
Solvay. Para eles, a escassez é criada por restrições artificiais à expansão do
crédito e outros métodos de aumentar a quantidade de dinheiro em circulação,
restrições essas que são impostas ao público crédulo pelos egoísticos interesses de
classe dos banqueiros e de outros exploradores. Recomendam como panaceia que
as despesas públicas sejam ilimitadas.
Tal é o mito da possibilidade de fartura e abundância. A economia pode deixar
aos historiadores e psicólogos a tarefa de explicar a popularidade dessa maneira de
tomar os desejos por realidade e de satisfazer-se com fantasias. O que a economia
tem a dizer sobre essa conversa fiada é que a economia lida com os problemas que
o homem tem que enfrentar devido ao fato de que sua vida é condicionada por
fatores naturais. Lida com a ação, isto é, com os esforços conscientes para diminuir
tanto quanto possível o desconforto. Não tem nada a dizer sobre o que sucederia
num mundo, não só inexistente como também inconcebível para mente humana,
onde as oportunidades fossem ilimitadas. Em tal mundo, pode-se admitir, não
haveria nem lei de valor, nem escassez, nem problemas econômicos. Essas coisas
não existiram porque não haveria escolhas a serem feitas, não haveria ação nem
tarefas a serem resolvidas pelo raciocínio. Os seres que porventura tivessem
florescido num tal mundo jamais teriam desenvolvido o raciocínio e o pensamento.
Se algum dia um mundo assim fosse dado aos descendentes da raça humana,
estes seres bem-aventurados veriam sua capacidade de pensar se atrofiar e
deixariam de ser humanos. Porque a tarefa primordial da razão é enfrentar
conscientemente as limitações que a natureza impõe ao homem, é lutar contra a
escassez. O homem que age e que pensa é o produto de um universo de escassez
onde qualquer gênero de bem estar que possa ser alcançado será fruto de esforço
e preocupação, de uma conduta que comumente chamamos de econômica.
2. O método das construções imaginárias
O método específico da economia é o método das construções imaginárias.
É o método usado pela praxeologia. O fato de que tenha sido cuidadosamente
elaborado e aperfeiçoado no campo dos estudos econômicos, no sentido estrito,
resulta do fato de que a economia, pelo menos até agora, tem sido a parte mais
desenvolvida da praxeologia. Quem quiser expressar uma opinião sobre problemas
comumente chamados de econômicos recorre a esse método. O emprego dessas
construções imaginárias não é, certamente, um procedimento exclusivo da análise
científica dos problemas econômicos. O leigo, ao lidar com eles, recorre ao mesmo
método. Mas enquanto as construções do leigo são mais ou menos confusas e
embaralhadas, a ciência econômica procura elaborá-las com o máximo cuidado,
escrúpulo e precisão, analisando criticamente suas condições e suposições.
Uma construção imaginária é uma imagem conceitual de uma série de eventos
resultantes, como consequência lógica, dos elementos de ação empregados na sua
formação. É um resultado obtido por dedução; obtido, em última análise, a partir
da categoria fundamental da ação, ou seja, do ato de preferir ou rejeitar. Ao
configurar tal construção imaginária, o economista não está preocupado em saber
se sua construção representa ou não as condições da realidade que ele quer
analisar. Tampouco se preocupa em saber se um sistema tal como suposto na sua
construção imaginária realmente poderia existir e funcionar. Mesmo construções
imaginárias que são inconcebíveis, intrinsecamente contraditórias, ou irrealizáveis,
podem ser úteis e até mesmo indispensáveis para a compreensão da realidade,
desde que o economista saiba como delas se servir corretamente.
O método das construções imaginárias se justifica pelo seu sucesso. A
praxeologia não pode, como as ciências naturais, basear seus ensinamentos em
experiências de laboratório, nem na percepção sensorial de objetos externos. Teve
que desenvolver métodos inteiramente diferentes dos da física e da biologia. Seria
um grave erro buscar no campo das ciências naturais, analogias para as
construções imaginárias. As construções imaginárias da praxeologia não podem
jamais ser confrontadas com qualquer experiência feita com coisas externas e nem
podem ser avaliadas a partir de tais experiências. Sua função é auxiliar o homem
num exame que não pode ser feito pelos seus sentidos. Ao confrontar as
construções imaginárias com a realidade, não podemos perguntar se correspondem
à experiência ou se descrevem adequadamente os dados empíricos. Devemos
questionar se as suposições de nossa construção são idênticas às condições das
ações que queremos conceber.
A maneira mais adequada para se conceber uma construção imaginária consiste
em nos abstrairmos de algumas condições existentes na ação real. Assim fazendo,
podemos tentar entender as hipotéticas consequências da ausência dessas
condições e conceber os efeitos de sua existência. Portanto, concebemos a
categoria ação construindo uma situação imaginária na qual seria inconcebível agir,
seja porque o indivíduo estaria plenamente satisfeito e não sente nenhum
desconforto, seja porque desconhece qualquer procedimento que permitisse
incrementar o seu bem estar (seu estado de satisfação). Assim, podemos conceber
a noção de juro originário156 a partir de uma construção imaginária na qual
nenhuma distinção é feita entre satisfações obtidas em períodos de tempo iguais
na sua duração independentemente de ocorrerem mais cedo ou mais tarde em
relação ao momento da ação.
O método de construções imaginárias é indispensável para a praxeologia; é o
único método de investigação praxeológica e econômica. É, com certeza, um
método difícil de manejar porque pode facilmente resultar em silogismos
falaciosos. É como caminhar numa crista estreita: de ambos os lados abrem-se os
abismos do absurdo e do inconsistente. Somente uma impiedosa autocrítica pode
impedir alguém de cair nessas profundezas abissais.
3. A autêntica economia de mercado
A construção imaginária de uma autêntica economia de mercado, ou seja, de uma
economia não obstruída, pressupõe que exista divisão do trabalho e propriedade
privada (controle) dos meios de produção e que, consequentemente, exista troca
de bens e serviços no mercado. Pressupõe que o funcionamento do mercado não
seja obstruído por fatores institucionais. Pressupõe que o governo, o aparato social
de compulsão e coerção, pretenda preservar, ou seja, abster-se de impedir o
funcionamento do sistema de mercado, protegendo-o das tentativas de
transgressão e abuso. O mercado é livre; não há interferência de fatores estranhos
ao mercado, tanto nos preços, como nos salários e nos juros. Partindo desses
pressupostos, a economia tenta elucidar a operação de uma autêntica economia de
mercado. Somente num estágio posterior, depois de ter exaurido tudo o que pode
ser apreendido pelo estudo dessa construção imaginária, a ciência econômica
passa a examinar os vários problemas provocados pela interferência do governo e
de outras organizações que empregam coerção e compulsão no mercado.
É surpreendente que esse procedimento logicamente incontestável, o único modo
de resolver os problemas em questão, tenha sido objeto de ataques tão passionais.
As pessoas estigmatizaram-no como uma ideia preconcebida em favor de uma
política econômica liberal que qualificam de reacionária, imperialista,
manchesteriana, negativista e assim por diante. Negam que o conhecimento da
realidade possa ser ampliado pela utilização dessas construções imaginárias.
Entretanto, esses críticos veementes se contradizem, uma vez que recorrem ao
mesmo método para sustentar suas proposições. Ao proporem que seja fixado um
salário mínimo, descrevem as hipotéticas condições insatisfatórias de um mercado
livre para o trabalho; e ao defenderem o estabelecimento de tarifas aduaneiras,
referem-se aos alegados inconvenientes produzidos pelo livre comércio.
Certamente, o único meio disponível para elucidar os efeitos de uma medida que
limita a livre interação dos fatores que operam num mercado sem interferências
externas é através do estudo, antes de tudo, da situação prevalecente num regime
de liberdade econômica.
É verdade que os economistas, a partir de suas investigações, concluíram que os
objetivos da maior parte das pessoas, ou mesmo praticamente de todas as
pessoas, podem ser melhor alcançados, através de seu esforço e trabalho e da
política econômica, quando o sistema de livre mercado não é obstruído por
decretos governamentais. Não há razão para considerar esta conclusão como
preconcebida ou fruto de uma análise superficial. Ao contrário, é o resultado de um
exame rigorosamente imparcial de todos os aspectos do intervencionismo.
Também é verdade que os economistas clássicos e seus epígonos costumavam
chamar de “natural” o sistema baseado na livre economia de mercado, e de
“artificial” e “perturbadora” a intervenção governamental no funcionamento do
mercado. Esta terminologia também era fruto do cuidadoso exame que faziam dos
problemas do intervencionismo. Ao se expressarem dessa maneira, estavam em
conformidade com a prática semântica de seu tempo, que qualificava de “contrária
à natureza” qualquer instituição social tida como indesejável.
O teísmo e o deísmo na época do Iluminismo consideravam a regularidade dos
fenômenos naturais como uma manifestação da Providência. Quando os filósofos
dessa mesma época descobriram que na ação humana e na evolução social
também existe uma regularidade de fenômenos, interpretaram essa realidade
como sendo mais uma evidência do zelo paternal do Criador do universo. Era esse
o verdadeiro significado da doutrina da harmonia preestabelecida adotada por
alguns economistas.157 A filosofia social do despotismo paternalista acentuava o
caráter divino da missão dos reis e autocratas destinados a governar os povos. Os
liberais replicavam dizendo que o funcionamento do mercado livre, onde o
consumidor – isto é, qualquer cidadão – é o soberano, produz melhores resultados
do que os decretos de governantes sagrados. Observem o funcionamento do
sistema de mercado, diziam eles, e lá descobrirão a mão de Deus.
Ao mesmo tempo em que elaboraram a construção imaginária de uma genuína
economia de mercado, os economistas clássicos também elaboraram sua
contrapartida lógica, a construção imaginária de uma comunidade socialista. No
processo heurístico que finalmente resultou na descoberta do funcionamento de
uma economia de mercado, essa imagem de uma ordem socialista tinha até
mesmo uma prioridade lógica. A questão que preocupava os economistas era saber
como um alfaiate poderia ser provido de pão e de sapatos, se não houvesse um
decreto governamental obrigando o padeiro e o sapateiro a satisfazerem as
necessidades do alfaiate. A primeira ideia era a de que a interferência da
autoridade seria necessária para fazer com que cada especialista sirva seus
concidadãos. Os economistas ficaram surpreendidos quando descobriram que não
havia necessidade dessa compulsão. Ao contrastar produtividade e lucratividade,
interesse pessoal e bem público, egoísmo e altruísmo, referiam-se implicitamente à
imagem de um sistema socialista. Seu espanto com a regulagem “automática”, por
assim dizer, do sistema de mercado se devia precisamente ao fato de eles se
darem conta de que um sistema “anárquico” de produção atendia melhor às
necessidades das pessoas do que as ordens de um governo central onipotente. A
ideia do socialismo – um sistema de divisão de trabalho inteiramente controlado e
dirigido por uma autoridade planejadora – não teve sua origem na cabeça de
reformadores utopistas. Esses utopistas visavam mais precisamente à coexistência
autárquica de pequenos organismos autossuficientes; veja-se por exemplo o
phalanstére de Fourier. O desejo de mudanças radicais fez com que os reformistas
se voltassem para o socialismo, adotando como modelo a imagem de uma
economia dirigida por um governo nacional ou uma autoridade central, imagem
essa implícita nas teorias dos economistas.
A maximização dos lucros
Costuma-se dizer que os economistas, quando tratam dos problemas de uma
economia de mercado, são bastante irrealistas ao supor que todos os homens
estão sempre querendo obter a maior vantagem possível. Assim procedendo,
constroem a imagem de um ser totalmente egoísta e racionalista que só se
interessa pelo lucro. Tal homo oeconomicus pode servir para retratar um
especulador inescrupuloso. Mas, na sua grande maioria, as pessoas são bem
diferentes. Para a compreensão da realidade, nada contribui o estudo do
comportamento desta imagem irreal.
Não é necessário refutar, uma vez mais, toda confusão, erro e distorção inerentes
a essa alegação. As duas primeiras partes deste livro já desmascararam essas
falácias. Basta agora tratar do problema da maximização de lucros.
A praxeologia em geral e a economia no seu campo específico, no que concerne à
motivação da ação humana, limitam-se a afirmar que o agente homem pretende
diminuir o seu desconforto. No contexto específico do mercado, ação significa
comprar e vender. O que a ciência econômica tem a afirmar a respeito da oferta e
da procura refere-se a todos os casos de oferta e procura e não apenas a oferta e
procura ocasionadas por circunstâncias especiais que requeiram uma descrição ou
definição especial. Afirmar que um homem, diante da alternativa de obter mais ou
menos por uma mercadoria que deseja vender, ceteris paribus, escolhe o maior
preço, não necessita de nenhum esclarecimento suplementar. O preço maior
significa para o vendedor uma melhor satisfação de seus desejos. O mesmo se
aplica mutatis mutandis ao comprador. O montante poupado na compra da
mercadoria em questão pode ser gasto para satisfação de outras necessidades.
Comprar no mercado mais barato e vender no mercado mais caro – tudo o mais
sendo igual – é uma conduta que não necessita de explicações especiais acerca da
motivação e moralidade do agente. É simplesmente o procedimento normal de
qualquer transação efetuada no mercado.
Um homem na qualidade de comerciante está a serviço dos consumidores; está
fadado a atender aos seus desejos. Não se pode deixar levar por seus caprichos e
fantasias. No entanto, os caprichos e fantasias de seus clientes são a lei suprema,
sempre que esses clientes estejam dispostos a pagar o preço. O comerciante tem
necessidade de ajustar sua conduta à demanda dos consumidores. Se os
consumidores, sem gosto pelo belo, preferem coisas feias e vulgares, ele terá de
fornecer esses produtos, mesmo contrariando o seu próprio gosto.158 Se os
consumidores não querem pagar pelos produtos nacionais um preço superior aos
dos produtos produzidos no exterior, ele deverá comprar produtos estrangeiros,
desde que sejam mais baratos. Um empregador não pode conceder fatores à custa
de seus clientes. Não pode pagar salários mais altos do que os determinados pelo
mercado, se os compradores não estão dispostos a pagar mais caro pelos produtos
produzidos em fábricas onde os salários sejam mais elevados do que em outras.
As coisas se passam de maneira completamente diferente quando se trata de
gastar a sua própria renda. Qualquer pessoa pode fazer o que bem quiser. Pode dar
esmolas. Pode deixar-se levar por doutrinas e preconceitos, discriminar
mercadorias de certa origem ou proveniência e preferir o produto pior e mais caro
ao melhor – tecnologicamente – e mais barato.
Em regra geral, as pessoas, ao comprarem, não estão presenteando o vendedor.
Não obstante, isso pode acontecer. A fronteira entre comprar bens e serviços
necessários e fazer caridade é, às vezes, difícil de ser percebida. Quem compra
numa feira de caridade geralmente combina uma compra com um donativo. Quem
dá uma moeda a um músico cego na calçada certamente não está pagando pela
questionável performance musical: está simplesmente dando esmolas.
O homem, ao agir, é uma unidade. O comerciante, proprietário único de sua
firma, pode às vezes abstrair-se das fronteiras entre negócio e caridade. Se quiser
ajudar a um amigo necessitado, sua delicadeza de sentimentos pode levá-lo a
tomar uma atitude que permita a esse amigo evitar o constrangimento de viver de
esmolas: dá um emprego ao amigo, mesmo não precisando de sua ajuda ou
podendo contratar um ajudante equivalente por um salário menor. O salário assim
pago aparece formalmente como uma despesa da firma. Na realidade, o
comerciante está gastando uma parte de sua renda. Trata-se, estritamente
falando, de consumo e não de despesa destinada a aumentar os lucros da
firma.159
A tendência de considerar apenas o que é tangível, visível e mensurável pode
conduzir a erros grosseiros. O que o consumidor compra não é simplesmente
alimento ou calorias. Ele não deseja se alimentar como se fosse um lobo: quer
fazê-lo na sua condição de homem. A comida satisfaz o apetite de muitas pessoas
na medida em que seja melhor preparada e mais saborosa, em que a mesa esteja
bem posta e em que o ambiente onde se faz a refeição seja agradável. Estes
detalhes são tidos como sem importância à luz de considerações preocupadas
exclusivamente com os aspectos químicos da digestão.160 Mas o fato de terem um
papel importante na determinação dos preços de alimentos é perfeitamente
compatível com a afirmativa de que as pessoas preferem, ceteris paribus, comprar
pelo menor preço. Quando um comprador, ao escolher entre dois produtos que os
químicos e os técnicos consideram perfeitamente iguais, prefere o mais caro, ele
tem uma razão. Se não estiver incidindo em erro, ao pagar mais caro está pagando
por serviços que não podem ser percebidos pelos métodos de investigação
específicos da química e da tecnologia. Se um homem prefere ir a um restaurante
mais caro só porque quer tomar seus coquetéis perto de um duque, podemos tecer
comentários quanto à sua ridícula vaidade, mas não podemos deixar de reconhecer
que o comportamento deste homem visa a aumentar o seu estado de satisfação.
O homem, ao agir, está sempre procurando aumentar o seu próprio estado de
satisfação. Neste sentido – e em nenhum outro – podemos empregar o termo
egoísmo e dizer que a ação é necessariamente egoísta. Mesmo uma ação que visa
diretamente a melhorar as condições de outra pessoa é egoísta. O agente tem
mais satisfação em fazer outras pessoas comerem do que em comer. A causa do
seu desconforto é a consciência do fato de que outras pessoas estão passando
necessidade.
Muitas pessoas, é fato, se comportam de outra maneira e preferem encher o
próprio estômago e não o dos seus concidadãos. Mas isso não tem nada a ver com
economia; é um dado da experiência histórica. Toda e qualquer ação diz respeito à
economia, seja ela motivada pela fome do agente, seja pelo seu desejo de aplacar
a fome de outras pessoas.
Dizer que a maximização de lucros é definida pelo comportamento do homem que
visa em qualquer transação de mercado, a aumentar o máximo possível suas
vantagens são nada mais do que estabelecer um circunlóquio pleonástico e
perifrástico, pois simplesmente repete o que já está implícito na própria categoria
ação. Atribuir-lhe qualquer outro significado seria expressão de uma ideia errada.
Alguns economistas pensam que a tarefa da ciência econômica é determinar a
forma de obter a maior satisfação possível para todos ou, pelo menos, para a
grande maioria das pessoas. Não se dão conta de que não há como medir a
satisfação alcançada pelos vários indivíduos. Interpretam de forma equivocada a
característica específica de julgamentos que são feitos com base na comparação da
felicidade de diversas pessoas. Ao formular julgamentos de valor arbitrários,
acreditam estar estabelecendo fatos. Algumas pessoas podem qualificar de justo o
ato de roubar o rico para dar presentes ao pobre. Entretanto, qualificar algo de
justo ou injusto é sempre um julgamento de valor subjetivo e, portanto, um
julgamento puramente pessoal que não é passível de ser verificado ou refutado. A
economia não pretende emitir juízos de valor; aspira tão somente a conhecer as
consequências de certos modos de agir.
Tem sido afirmado que as necessidades fisiológicas de todos os homens são
idênticas e que essa igualdade pode servir de base para medir o grau de satisfação
objetiva. Quem expressa tais opiniões e recomenda o uso desse critério na
formulação de políticas governamentais na realidade está propondo que se tratem
os homens da mesma maneira que um criador lida com o seu gado. Tais
reformadores não percebem que não há um princípio universal válido para todos os
homens. O princípio que vier a ser escolhido dependerá dos objetivos que se quer
atingir. O criador de gado não alimenta suas vacas com a intenção de fazê-las
felizes, mas visando a objetivos específicos que ele mesmo estabelece. Pode
preferir mais leite ou mais carne ou qualquer outra coisa. Que tipo de pessoas os
criadores de homem querem formar: atletas ou matemáticos? Soldados ou
operários? Quem pretender fazer do homem a matéria-prima de um sistema
preestabelecido de criação e alimentação na verdade estará arrogando-se poderes
despóticos e usando seus concidadãos como um meio para atingir seus próprios
fins, que são indubitavelmente diferentes dos que eles mesmos pretenderiam
atingir.
Mediante seus próprios julgamentos de valor, um indivíduo distingue entre o que
lhe causa mais ou menos satisfação. Os julgamentos de valor que um homem
emite sobre a satisfação de outro homem não asseveram nada quanto à satisfação
deste outro. Asseguram apenas que a situação deste outro homem melhor satisfaz
a quem formula o julgamento. Os reformadores que buscam o máximo de
satisfação geral nos dizem apenas qual o estado de coisas que melhor lhes
convém.
4. A economia autística
Nenhuma outra construção imaginária causou mais celeuma do que a de um
agente econômico isolado dependente apenas de si mesmo. Não obstante, a
economia não pode prescindir desse modelo. A fim de estudar a troca interpessoal,
a economia precisa compará-la com situações onde não haja troca interpessoal.
Assim sendo, imagina duas variantes de uma economia autística: a economia de
um indivíduo isolado e a economia de uma sociedade socialista. Ao empregar essa
construção imaginária, os economistas não se preocupam com o problema de saber
se tal sistema poderia realmente funcionar. 161 Têm plena consciência do fato de
que sua construção imaginária é fictícia. Robinson Crusoé – que, apesar de tudo,
pode ter existido – e o dirigente supremo de uma comunidade socialista
perfeitamente isolada – que nunca existiu – não poderiam planejar e agir como o
fazem as pessoas que podem recorrer ao cálculo econômico. Não obstante, na
nossa construção imaginária, nada nos impede de considerar que eles utilizassem o
cálculo sempre que essa ficção fosse útil na discussão do problema específico a ser
estudado.
A construção imaginária de uma economia autística está na raiz da distinção que
popularmente se faz entre produtividade e lucratividade, distinção essa que evoluiu
até passar a servir de critério para julgamentos de valor. Aqueles que recorrem a
essa distinção consideram a economia autística, especialmente a do tipo socialista,
o sistema de organização econômica mais desejável e mais perfeita. O julgamento
de qualquer fenômeno da economia de mercado é feito com base no fato de tal
fenômeno ser ou não justificável do ponto de vista de um sistema socialista.
Somente as ações que estejam em conformidade com os planos do gerente desse
sistema são consideradas positivas e merecem o epíteto de produtivas. Todas as
outras atividades efetuadas na economia de mercado são consideradas
improdutivas, apesar do fato de poderem ser lucrativas para quem as exerce.
Assim sendo, por exemplo, promoção de vendas, publicidade, sistema bancário são
considerados atividades lucrativas, mas improdutivas. A economia, é claro, não tem
nada a dizer sobre estes julgamentos de valores arbitrários.
5. O estado de repouso e a economia uniformemente
circular162
A única maneira de lidar com o problema da ação é compreender que ela visa
sempre a atingir um estado que prescinde de qualquer outra ação, seja porque
todo desconforto foi removido, seja porque não é mais possível reduzir o
desconforto remanescente. A ação, portanto, tende a um estado de repouso, à
ausência de ação.
A teoria dos preços, em consequência, analisa a troca interpessoal a partir desse
aspecto. As pessoas seguem trocando bens e serviços no mercado, até que
nenhuma outra troca seja possível, pela razão de nenhuma das partes anteverem a
possibilidade de obter qualquer melhoria de suas próprias condições como
resultado de um novo ato de troca. Os compradores potenciais consideram
insatisfatórios os preços solicitados pelos vendedores potenciais e vice-versa.
Nenhuma outra transação se realiza. Surge um estado de repouso. Este estado de
repouso, que podemos denominar de estado de repouso natural, não é uma
construção imaginária. Acontece de tempos em tempos. Quando a Bolsa de Valores
fecha, os corretores efetuaram todas as transações que podiam ser feitas ao preço
do mercado. Somente os potenciais vendedores e compradores que consideram o
preço de mercado muito baixo ou muito alto deixaram, respectivamente, de vender
ou comprar. 163 O mesmo é válido em relação a todas as transações. A economia
de mercado, em seu conjunto, é, por assim dizer, um grande local de trocas. Nele,
permanentemente, estão sendo realizadas as operações que as partes estão
dispostas a efetuar ao preço vigente. Novas vendas só podem ser efetuadas
quando mudarem as valorações de pelo menos uma das partes.
Há quem considere insatisfatória esta noção de estado de repouso final. Este
estado se refere, alegam tais críticos, apenas à determinação de preços dos bens
já disponíveis em uma determinada quantidade, sem acrescentar nada quanto aos
efeitos provocados por esses preços na produção. A objeção não tem fundamento.
Os teoremas implícitos na noção de estado de repouso natural são válidos em
relação a todas as transações, sem exceção. É bem verdade que os compradores
de fatores de produção começarão imediatamente a produzir e voltarão logo ao
mercado para vender seus produtos e comprar o que precisam para seu próprio
consumo e para continuar o processo de produção. Mas isso não invalida a noção
de estado de repouso natural, pois não se está afirmando que o mesmo será
permanente. A calmaria certamente desaparecerá tão logo se modifiquem as
momentâneas condições que a provocaram.
A noção de estado de repouso natural não é uma construção imaginária, mas a
adequada descrição do que acontece constantemente em qualquer mercado. Neste
particular, difere radicalmente da construção imaginária de um estado de repouso
final.
Ao tratar do estado de repouso natural, limitamo-nos a examinar o que está
acontecendo agora, neste instante. Restringimos nossa atenção ao que acaba de
acontecer, sem nos preocuparmos com o que acontecerá mais tarde, seja no
instante seguinte, seja amanhã ou mais adiante. Estamos lidando apenas com
preços efetivamente pagos em transações realizadas, isto é, com os preços
ajustados em transações que acabaram de ocorrer, sem nos importarmos em saber
se os preços futuros serão ou não iguais a estes.
Mas agora vamos um pouco mais adiante. Passemos a nos interessar pelos
fatores capazes de provocar uma tendência à variação de preços. Tentemos
descobrir até onde nos levará esta tendência antes que sua força motriz se esgote,
fazendo emergir novo estado de repouso. O preço correspondente a este futuro
estado de repouso era chamado de preço natural pelos economistas mais antigos;
hoje em dia, emprega-se frequentemente o termo preço estático. A fim de evitar
associações enganosas, é mais conveniente chamá-lo de preço final e,
correlatamente, falar de estado de repouso final. Este estado de repouso final é
uma construção imaginária e não uma descrição da realidade. Porque este estado
de repouso final nunca poderá ser alcançado. Antes disso, surgirão novos fatores
desestabilizadores. O que torna necessário recorrer a essa construção imaginária é
o fato de que o mercado, a todo instante, tende a um estado de repouso final. Em
cada novo instante posterior, podem surgir fatos novos que alterem esse estado de
repouso final. O mercado, embora tendente a um determinado estado de repouso
final, nunca o atinge.
O preço de mercado é um fenômeno real; é a relação de troca pela qual foram
feitas transações. O preço final é um preço hipotético. Os preços de mercado são
fatos históricos e, portanto, temos condição de expressá-los em dólares e centavos,
com exatidão numérica. O preço final só pode ser definido se definirmos as
condições necessárias ao seu surgimento. Não se lhe pode atribuir valor numérico
exato, seja em termos de moeda, seja em termos de quantidades de outros bens.
Nunca surgirá no mercado. O preço de mercado nunca pode coincidir com o preço
final relativo ao instante em que se realizou a transação no mercado. Mas a
cataláxia falharia lamentavelmente na sua tarefa de analisar os problemas de
determinação dos preços, se viesse a negligenciar o conceito de preço final.
Porque, na situação do mercado da qual emerge o preço de mercado, já estão
latentes as forças que continuarão a provocar mudanças nos preços, até que, não
surgindo nenhum fato novo, seja estabelecido o preço final e o estado de repouso
final. Estaríamos restringindo indevidamente nosso estudo da determinação dos
preços, se nos limitássemos a considerar os momentâneos preços de mercado e o
estado de repouso natural, e negligenciássemos o fato de que o mercado está
sempre sendo perturbado por fatores que provocarão novas mudanças de preço e
uma tendência a novo estado de repouso.
O fenômeno, com o qual temos que lidar, é o fato de que as mudanças nos
fatores que determinam a formação dos preços não produzem todos os seus efeitos
imediatamente. Um lapso de tempo decorre antes que todos os efeitos se tenham
exaurido. Entre o surgimento de um dado novo e o perfeito ajustamento do
mercado ao mesmo decorre algum tempo. (E, naturalmente, enquanto decorre este
período de tempo, surgem outros dados novos). Ao lidar com os efeitos de
qualquer mudança nos fatores que influem no mercado, não devemos esquecer de
que estamos lidando com eventos que se sucedem, e com uma série de efeitos que
também se sucedem uns aos outros. Não temos possibilidade de saber de antemão
quanto tempo terá de transcorrer; mas sabemos, com certeza, que algum lapso de
tempo deverá transcorrer, embora esse período possa às vezes ser tão curto que
nem chegue a desempenhar, na prática, um papel importante.
Os economistas frequentemente cometem o erro de negligenciar o fator tempo.
Veja-se, por exemplo, a controvérsia relativa aos efeitos provocados pela mudança
na quantidade de dinheiro. Alguns se preocupam apenas com os seus efeitos de
longo prazo, isto é, com os preços finais e o estado final de repouso. Outros veem
apenas os efeitos de curto prazo, isto é, os preços no instante seguinte ao da
mudança. Ambos se equivocam e suas conclusões, consequentemente, são
viciadas. Muitos outros exemplos desse mesmo tipo de erro poderiam ser citados.
A construção imaginária do estado de repouso final se caracteriza por dar a
máxima importância à mudança na sucessão temporal de eventos. Neste particular,
distingue-se da construção imaginária da economia uniformemente circular, que se
caracteriza por não considerar o fator tempo e as mudanças de dados. (É impróprio
e enganador denominar esta construção imaginária, como se faz frequentemente,
de economia estática ou de equilíbrio estático, e constitui erro grosseiro confundi-la
com a construção imaginária de uma economia estacionária).164 A economia
uniformemente circular é um sistema fictício no qual os preços de mercado de
todos os bens e serviços coincidem com os preços finais. No seu contexto, os
preços nunca mudam; a estabilidade de preços é total. As mesmas transações se
repetem incessantemente. Os bens de uma ordem mais elevada são usados nas
mesmas quantidades, através dos mesmos processos, até que os bens de consumo
produzidos cheguem às mãos dos consumidores e sejam consumidos. Não ocorrem
mudanças nos dados do mercado. Hoje é igual a ontem e amanhã será igual a
hoje. O sistema, no seu fluxo perpétuo, fica sempre no mesmo lugar. Gira
uniformemente em torno de um centro fixo; sua rotação é uniforme. Seu estado de
repouso natural, toda vez que se desequilibra, retorna instantaneamente ao nível
anterior. Todos os fatores, inclusive aqueles que provocam desequilíbrio no estado
de repouso natural, são constantes. Portanto, os preços – comumente chamados
preços estáticos ou de equilíbrio – também permanecem constantes.
A essência dessa construção imaginária é a eliminação do lapso de tempo e da
perpétua mudança nos fenômenos de mercado. A noção de qualquer mudança em
relação à oferta e demanda são incompatíveis com essa construção. No seu
contexto, só podem ser consideradas as mudanças que não afetem a configuração
dos fatores que determinam os preços. Não é necessário povoar o mundo
imaginário da economia uniformemente circular com homens imortais que não
envelhecem nem procriam. Podemos admitir que as crianças nasçam, cresçam e
morram, desde que a população total e sua distribuição etária permaneçam
inalteradas. Assim, a demanda por mercadorias, cujo consumo seja limitado a
certas faixas de idade, não se altera, embora os consumidores não sejam os
mesmos.
Na realidade, nada existe que se assemelhe a uma economia uniformemente
circular. Não obstante, para poder analisar os problemas de mudança nos dados e
do movimento desigual e irregularmente variável, somos obrigados a confrontá-los
com uma situação fictícia em que ambos são hipoteticamente eliminados. Portanto,
não tem sentido supor que a construção de uma economia uniformemente circular
não ajude a elucidar o que ocorre no nosso universo cambiante, e querer que os
economistas substituam sua preocupação alegadamente exclusiva com a “estática”
por um estudo da “dinâmica”. Esse assim chamado método estático é precisamente
a ferramenta adequada para o exame da mudança. Não há maneira de estudar os
fenômenos complexos da ação, a não ser começando pela abstração completa de
qualquer mudança; introduzindo, a seguir, um fator isolado que provoque mudança
e, finalmente, analisando seus efeitos na pressuposição de que tudo o mais
permaneceu igual. Ademais, é absurdo pensar que a validade do modelo de uma
economia uniformemente circular seja tanto maior quanto mais o objeto de nossos
estudos, a saber, a ação real, for semelhante a essa construção imaginária, no que
diz respeito à ausência de mudança”. O método estático, o emprego da construção
imaginária de uma economia uniformemente circular, é o único método adequado à
análise das mudanças em questão, sejam elas grandes ou pequenas súbitas ou
lentas.
As objeções até agora levantadas contra o uso da construção imaginária de uma
economia uniformemente circular erraram o alvo completamente. Seus autores não
chegaram a perceber quais os problemas engendrados por essa construção, nem
por que ela pode suscitar erros e confusão.
Ação é mudança e mudança implica sequência temporal. Mas, na economia
uniformemente circular, a mudança e a sucessão de eventos são eliminadas. Agir é
fazer escolhas e enfrentar um futuro incerto. Mas, na economia uniformemente
circular, não há escolhas e o futuro não é incerto, uma vez que não difere do
estado atual já conhecido. Um sistema rígido como esse não pode ser povoado por
homens fazendo escolhas e cometendo erros; é um mundo de autômatos sem alma
e incapazes de pensar; não é uma sociedade humana, é um formigueiro.
Essas contradições insolúveis, entretanto, não afetam o serviço prestado por essa
construção imaginária quando aborda os problemas para cuja solução ela é não só
apropriada como também indispensável: o problema da relação entre os preços dos
produtos e os dos fatores necessários à sua produção, bem como os problemas
implícitos na atividade empresarial e na conta de lucros e perdas. A fim de
compreender a função do empresário e o significado da conta de lucros e perdas,
construímos um sistema onde tais realidades não existem. Essa imagem é
meramente uma ferramenta para o nosso pensamento. Não é a descrição de um
estado de coisas possível ou realizável. É até mesmo inconcebível levar a
construção imaginária de uma economia uniformemente circular às suas últimas
consequências porque é impossível eliminar a figura do empresário do quadro de
uma economia de mercado. Os fatores de produção não se podem juntar
espontaneamente. Precisam, para ser combinados, dos esforços intencionais de
homens que visam a atingir certos fins e são motivados pelo desejo de melhorar
seu estado de satisfação. Ao eliminar o empresário, elimina-se a força motriz do
sistema de mercado.
Há também outra deficiência. Na construção imaginária de uma economia
uniformemente circular, estão tacitamente implícitos a troca indireta e o uso de
moeda. Mas que tipo de moeda pode ser essa? Num sistema onde não há
mudanças e no qual não há incertezas de qualquer espécie em relação ao futuro,
ninguém precisa dispor de dinheiro. Qualquer pessoa sabe precisamente a
quantidade de dinheiro de que precisará em qualquer data futura. Está, portanto,
em condições de aplicar tudo o que receber de tal maneira que as aplicações
vençam na data necessária. Suponhamos que exista apenas ouro em moeda e
apenas um banco central. Na medida em que se avança na direção de uma
economia uniformemente circular, todos os indivíduos e firmas restringem passo a
passo seus encaixes e as quantidades de ouro assim liberadas fluirão para uma
utilização não monetária – industrial. Quando o equilíbrio da economia
uniformemente circular é finalmente atingido, não há mais encaixes; o ouro não é
mais usado com propósitos numéricos. Os indivíduos e as firmas possuem direitos
contra o banco central, cuja maturidade corresponde precisamente às suas
necessidades nas respectivas datas de suas obrigações. O banco central não
precisa de reservas, já que a soma total dos pagamentos de seus clientes é igual à
soma total das retiradas. Todas as transações podem ser efetuadas por simples
transferência na contabilidade do banco, sem que seja necessário recorrer à
moeda. Assim sendo, o “dinheiro” desse sistema não é um meio de troca; nem
mesmo é dinheiro; é meramente um numerário, uma unidade contábil etérea e
indeterminada, com o caráter vago e indefinido que a ilusão de alguns economistas
e os erros de muitos leigos têm equivocadamente atribuído à moeda. A
interposição dessas expressões numéricas entre vendedor e comprador não afetará
a essência da transação; ela é neutra em relação às atividades econômicas das
pessoas. Mas a noção de uma moeda neutra é inconcebível e irrealizável.165 Se
fôssemos usar a terminologia imprópria, empregada por muitos autores
contemporâneos, teríamos de dizer: moeda é necessariamente um “fator
dinâmico”; não há lugar para moeda num sistema “estático”. Mas a própria noção
de um sistema de mercado sem moeda é autocontraditória.
A construção imaginária de um sistema uniformemente circular é uma noção
limitativa. No seu contexto, não existe mais qualquer ação. A luta consciente do ser
pensante para diminuir o seu desconforto é substituída pela reação automática. Só
podemos utilizar essa construção imaginária tendo sempre em mente o objetivo
pelo qual foi criada. Queremos, em primeiro lugar, analisar a tendência, existente
em toda ação, no sentido de estabelecer uma economia uniformemente circular; ao
fazê-lo atingir o seu objetivo num universo que não seja rígido e imutável, isto é,
num universo que esteja vivo e não morto. Em segundo lugar, é necessário que
compreendamos as diferenças entre um mundo vivo, onde existe ação, e um
mundo rígido. Isto só pode ser constatado pelo argumentum a contrario
proporcionado pela imagem de uma economia rígida. Desta forma, somos levados
à percepção de que lidar com as incertezas do futuro desconhecido – isto é,
especular – é inerente a toda ação, e que lucro e prejuízo são características da
ação que não podem ser descartadas por crenças baseadas em desejos e não em
fatos. Os procedimentos adotados pelos economistas que têm plena consciência
destes conhecimentos fundamentais podem ser chamados de método lógico de
economia, em contraste com o método matemático.
Os economistas matemáticos falham por não considerar as ações que, na
hipótese imaginária e irrealizável de não surgirem dados novos, provocariam a
instauração da economia uniformemente circular. Não chegam a notar a existência
do especulador individual que age com o propósito de diminuir ao máximo possível
o seu desconforto e não com o propósito de implantar uma economia
uniformemente circular. Fixam sua atenção exclusivamente no imaginário estado
de equilíbrio que o conjunto de todas essas ações individuais engendraria se não
houvesse nova mudança nos dados. Descrevem esse equilíbrio imaginário por
conjuntos de equações diferenciais simultâneas. Não chegam a perceber que, em
tal situação, não haveria mais ação, mas apenas uma sucessão de eventos
provocados por uma mística força motriz. Dedicam todos os seus esforços à
descrição, por meio de símbolos matemáticos, dos vários “equilíbrios”, isto é,
estados de repouso e de ausência de ação. Consideram o equilíbrio uma entidade
real e não uma noção limitativa, uma simples ferramenta mental. Estão apenas
manipulando símbolos matemáticos, um passatempo incapaz de aduzir qualquer
conhecimento.166
6. A economia estacionária
A construção imaginária de uma economia estacionária tem sido às vezes
confundida com a de uma economia uniformemente circular. Mas, na realidade,
estas duas construções são diferentes.
A economia estacionária é uma economia na qual a riqueza e a renda dos
indivíduos permanecem inalteradas. Nela podem ocorrer mudanças, o que não
seria admissível na construção de uma economia uniformemente circular. As cifras
populacionais podem aumentar ou diminuir, desde que sejam acompanhadas por
um correspondente aumento ou diminuição no total da riqueza e da renda. A
demanda por algumas mercadorias pode mudar; mas tais mudanças devem ocorrer
tão lentamente, que a transferência de capital dos setores de produção que devem
ser reduzidos para aqueles a serem expandidos possa ser feita pela não
substituição dos equipamentos usados nos setores em regressão e investidos nos
setores em expansão.
A construção imaginária de uma economia estacionária conduz a duas outras
construções imaginárias: a economia em crescimento (expansão) e a economia em
declínio (contração). Na primeira, tanto a quota per capita de riqueza e renda
quanto a população tendem a valores numéricos maiores; na segunda, a valores
numéricos menores.
Na economia estacionária, a soma de todos os lucros e todos os prejuízos é zero.
Na economia em crescimento, o total de lucros excede o total de prejuízos. Na
economia em declínio, o total de lucros é menor do que o total de prejuízos.
A precariedade dessas três construções imaginárias fica evidente ao se constatar
que elas implicam na possibilidade de medir a riqueza e a renda. Como tais
medições não podem ser feitas e nem mesmo concebidas, é inadmissível aplicá-las
a uma classificação rigorosa das situações reais. Sempre que a história econômica
se atreve a classificar a evolução econômica de um determinado período histórico
como estacionário, em crescimento ou em declínio, está, na realidade, recorrendo à
compreensão histórica, não significando, portanto, que tenha feito uma “medição”.
7. A integração das funções catalácticas
Quando os homens, ao lidarem com os problemas de suas próprias ações, e
quando a história econômica, a economia descritiva e a estatística econômica, ao
reportarem as ações de outras pessoas, empregam termos como empresário,
capitalista, proprietário, trabalhador e consumidor, estão falando de tipos ideais.
Quando a economia emprega os mesmos termos, está falando de categorias
catalácticas. Os empresários, capitalistas, proprietários, trabalhadores e
consumidores da teoria econômica não são as pessoas vivas que encontramos na
realidade da vida e na história. São a corporificação de funções distintas no
funcionamento do mercado. O fato de os agentes homens, assim como as ciências
históricas, aplicarem, ao raciocinar, conceitos econômicos e construírem seus tipos
ideais com base nas categorias da teoria praxeológica não modifica a distinção
lógica radical entre tipo ideal e categoria econômica. As categorias econômicas de
que nos ocupamos são meras funções integradas; os tipos ideais referem-se a
eventos históricos. O homem, vivendo e agindo, exerce necessariamente diversas
funções. Nunca é apenas um consumidor. É também empresário, proprietário,
capitalista ou trabalhador, ou alguém sustentado pela renda de algum deles. Além
disso, as funções do empresário, proprietário, capitalista e trabalhador coexistem
muitas vezes na mesma pessoa. A história procura classificar os homens segundo
os fins que pretendem atingir e os meios que empregam para atingi-los. A
economia, investigando a ação na sociedade de mercado, sem se preocupar com os
fins pretendidos pelas pessoas nem com os meios por elas empregados, procura
discernir categorias e funções. São duas tarefas diferentes. A diferença pode ser
melhor percebida ao se discutir o conceito cataláctico de empresário.
Na construção imaginária da economia uniformemente circular, não há lugar para
a atividade empresarial porque essa construção pressupõe ausência de mudança
nos dados que afetam os preços. Se abandonarmos esta suposição de rigidez de
dados, perceberemos que a ação, forçosamente, deverá ser afetada por uma
mudança nos dados. Como toda ação tem por objetivo, necessariamente,
influenciar um futuro estado de coisas – mesmo que, às vezes, seja apenas o futuro
imediato do próximo instante —, ele é afetada por todas as mudanças de dados,
incorretamente previstos, que venham a ocorrer no lapso de tempo decorrido entre
o início e o fim do período no qual se realiza a ação (período de provisão).167
Portanto, o resultado da ação é sempre incerto. Agir é sempre especular. Isto é
válido não só numa economia de mercado, como também no caso de um Robinson
Crusoé, o imaginário agente isolado, ou numa economia socialista. Numa
construção imaginária de um sistema uniformemente circular, ninguém é
empresário nem especulador. Numa economia real, todo ator é sempre um
empresário e um especulador; as pessoas dependentes dos atores – os menores
numa sociedade de mercado e as massas numa sociedade socialista – são afetadas
pelo resultado das especulações dos agentes, embora não sejam elas agentes nem
especuladores.
A economia, ao falar de empresários, não se refere a pessoas, mas a uma função
específica. Esta função não é uma característica própria de um determinado grupo
ou classe de pessoas; é inerente a todas as ações e é exercida por todos os
agentes. Ao corporificar esta função numa figura imaginária, estamos recorrendo a
um artifício metodológico. O termo empresário, conforme a cataláxia o emprega,
significa: agente homem visto exclusivamente do ângulo da incerteza inerente a
qualquer ação. Ao usar este termo, não se deve jamais esquecer que toda ação
está inserida no fluxo do tempo e que, portanto, envolve especulação. Os
capitalistas, os proprietários e os trabalhadores são necessariamente
especuladores. O consumidor também o é, ao prover suas necessidades futuras. Do
prato à boca muito coisa pode acontecer.
Tentemos conceber a construção imaginária de um puro empresário até as suas
últimas consequências. Este empresário não tem capital. O capital necessário à sua
atividade empresarial lhe é emprestado pelos capitalistas sob a forma de
empréstimo em dinheiro. A lei, sem dúvida, o considera proprietário dos diversos
meios de produção adquiridos com o aludido empréstimo, uma vez que seu ativo é
igual ao seu passivo exigível. Se for bem sucedido o lucro líquido é seu. Se
fracassar, a perda recairá sobre os capitalistas que lhe emprestaram os recursos.
Tal empresário seria, de fato, um empregado que especula com o dinheiro do
capitalista, ficando com todo o lucro líquido, sem ser responsável pelas perdas.
Mas, mesmo que o empresário possa prover uma parte do capital necessário e
tomar emprestado apenas o que faltar, na essência, as coisas não são diferentes.
Na medida em que as perdas não possam ser absorvidas apenas pelo próprio
empresário, recairão sobre o capitalista emprestador. Um capitalista também é,
sempre, um empresário e um especulador. Sempre corre o risco de perder seu
dinheiro. Não existe algo que se possa chamar de investimento absolutamente
seguro.
O proprietário autossuficiente que cultiva sua terra apenas para prover as
necessidades de sua própria família sofre a influência das mudanças na fertilidade
do solo ou nas suas necessidades pessoais. Numa economia de mercado, o
resultado das atividades de um agricultor é afetado por todas as mudanças que
alterem a importância de sua propriedade agrícola no aprovisionamento do
mercado. O agricultor, evidentemente, mesmo segundo a terminologia corrente, é
um empresário. Nenhum proprietário de quaisquer meios de produção, sejam eles
bens tangíveis ou moeda, fica imune à incerteza do futuro. O emprego de
quaisquer bens tangíveis ou de moeda para produzir algo, ou seja, a provisão para
o dia de amanhã, é em si mesmo uma atividade empresarial.
As coisas são essencialmente as mesmas no caso do trabalhador. Ele é possuidor
de certas habilidades; suas propriedades inatas são um meio de produção mais
adequado a certas tarefas e menos adequado a outras.168 Se adquiriu a habilidade
necessária para efetuar certos tipos de trabalho, está no que diz respeito ao tempo
e às despesas absorvidas por esse treinamento, na posição de um investidor. Fez
um investimento na expectativa de ser compensado por um rendimento adequado.
O trabalhador é um empresário na medida em que seu salário é determinado pelo
preço que o mercado atribui ao tipo de trabalho que ele pode executar. Esse preço
varia em função de mudanças de condições, da mesma forma que qualquer outro
fator de produção.
No contexto da teoria econômica, o significado dos termos em questão é o
seguinte: empresário significa o agente homem em relação às mudanças que
ocorrem nos dados do mercado. Capitalista e proprietário significam o agente
homem em relação às mudanças de valor e de preço que, mesmo quando os dados
do mercado permanecem inalterados, decorrem da mera passagem de tempo em
consequência da diferença na valoração de bens presentes e bens futuros.
Trabalhador significa o homem em relação à utilização do fator de produção
trabalho humano. Assim, cada função é primorosamente integrada: o empresário
ganha lucros e sofre perdas; os donos dos meios de produção (bens de capital ou
terra) ganham o juro original; os trabalhadores ganham salários. Neste sentido,
elaboramos a construção imaginária da distribuição funcional, que é diferente da
distribuição histórica real.169
A economia, entretanto, sempre usou e ainda usa o termo “empresário” num
sentido diferente daquele que lhe atribui à construção imaginária da distribuição
funcional. Ela também denomina de empresário, aqueles que estão ansiosos por
lucrar com o ajustamento da produção às prováveis mudanças de situação, aqueles
que têm mais iniciativa, maior espírito de aventura, maior rapidez de percepção
que a maioria das pessoas, enfim todos os pioneiros dinâmicos que promovem o
progresso econômico. Esta noção é bem mais estreita do que o conceito de
empresário usado na construção da distribuição funcional; deixa de considerar
inúmeros casos que são abrangidos pelo conceito mais amplo. É pena que o
mesmo termo tenha sido usado para significar duas noções diferentes. Teria sido
mais conveniente usar outro termo para esta segunda noção – por exemplo, o
termo “promotor”.
Devemos admitir que a noção de empresário-promotor não pode ser definida com
rigor praxeológico. (Neste ponto, assemelha-se à noção de dinheiro, que também
escapa – diferentemente da noção de meio de troca – a uma rígida definição
praxeológica).170 Não obstante, a economia não pode dispensar o conceito de
promotor porque ele se refere a um dado que é uma característica da natureza
humana, que está presente em todas as transações do mercado, marcando-as
profundamente. Referimo-nos ao fato de que vários indivíduos não reagem a uma
mudança de condições com a mesma rapidez e nem da mesma maneira. A
desigualdade dos homens, que se deve a diferenças tanto nas suas qualidades
inatas como nas vicissitudes de suas vidas, se manifesta também dessa maneira.
Há no mercado os que abrem o caminho, os que dão o ritmo e os que apenas
imitam os procedimentos dos seus concidadãos mais ágeis. O fenômeno da
liderança é tão real no mercado como em qualquer outro setor da atividade
humana. A força motriz do mercado, o impulso que engendra inovação e progresso
incessantes provém do estado de alerta do promotor e de sua avidez de lucros tão
grandes quanto possíveis.
Entretanto, não há perigo de que o uso equivocado desse termo possa resultar
numa ambiguidade no estudo do sistema cataláctico. As dúvidas que, porventura,
surjam podem ser esclarecidas pelo emprego do termo promotor, em vez de
empresário.
A função empresarial na economia estacionária
O mercado de futuros pode aliviar o promotor de uma parte de sua função
empresarial. Na medida em que um empresário se protege por meio de operações
a termo no mercado futuro, ele deixa de ser um empresário e a parte da função
empresarial passa a ser exercida pelo outro contratante. O empresário têxtil que,
comprando algodão em bruto para sua fábrica, vende a mesma quantidade a
termo, estará renunciando a uma parte da sua função empresarial. Não lucrará
nem perderá com as mudanças no preço do algodão durante o período em questão.
É claro que não estará deixando de exercer a função empresarial. Continuará sendo
afetado por aquelas mudanças no preço do fio em geral ou nos preços de artigos
especiais de sua fabricação, os quais não são influenciados por uma mudança no
preço do algodão bruto. Mesmo que fabrique tecidos apenas como um contratante,
mediante uma remuneração pactuada, continua exercendo a função empresarial no
que diz respeito aos fundos investidos na sua instalação fabril.
Podemos construir a imagem de uma economia na qual existam mercados de
futuros para todos os bens e serviços. Numa tal construção imaginária, a função
empresarial é completamente separada de todas as outras funções. Teríamos
então uma classe de empresários puros. Os preços determinados nos mercados de
futuros orientariam todo o aparato de produção. Só os operadores a termos teriam
ganhado ou perdido. Todas as demais pessoas estariam, por assim dizer,
seguradas contra os possíveis efeitos adversos da incerteza do futuro; gozariam
nesse sentido de plena segurança. Os dirigentes das diversas empresas seriam, por
assim dizer, empregados com uma retirada fixa.
Se, além do mais, supusermos que essa economia é uma economia estacionária e
que todas as transações futuras estão concentradas numa única empresa, é claro
que o total de lucros dessa empresa é equivalente ao total de prejuízos. Bastaria
estatizar essa empresa para que surgisse um estado socialista sem lucros nem
prejuízos, uma situação de segurança e estabilidade inabaláveis. Mas isso só ocorre
porque nossa definição de economia estacionária implica numa igualdade de lucros
e perdas. Numa economia em que haja mudanças, aparecerá forçosamente um
excesso de lucros ou de perdas.
Seria perda de tempo estender ainda mais essas imagens supersofisticadas que
não podem levar mais adiante a análise dos problemas econômicos. A única razão
para mencioná-las é a de que elas refletem ideias que servem de base para
algumas críticas feitas contra o sistema econômico do capitalismo e para alguns
planos ilusórios que visam ao estabelecimento de um controle socialista das
atividades empresariais. Ora, é certo que um programa socialista é logicamente
compatível com uma economia uniformemente circular e com uma economia
estacionária. A predileção dos economistas matemáticos por lidar quase que
exclusivamente com essas construções imaginárias e com o estado de “equilíbrio”
nelas implícito fez com que as pessoas esquecessem o fato de que tais construções
são nada mais do que expedientes do pensamento, imaginando situações irreais e
autocontraditórias. Certamente não são modelos adequados à construção de uma
sociedade viva, formada por homens que agem.
Rodapé
153 Ver Engels, Herro Eugen Dübrings Umwälzung der Wissenschaft – 7. ed.
Stuttgart, 1910, p. 306.
154 Ver Karl Marx, Zur Kritik des sozialdemokratischen Parteiprogramms von Gotha,
ed. Kreibich, Reichenberg, 1920, p. 17.
155 Ver ibid.
156 Juro originário – originary interest – é a diferença entre o valor presente de
bens no futuro imediato e no futuro mais distante. O juro de mercado acrescenta
ao juro originário o componente empresarial (incerteza de recebimento) e um
componente relativo à expectativa de mudança no valor futuro dos bens, inclusive
da unidade monetária em questão. Ver Mises Made Easier, Percy L. Greaves Jr,
Nova York, Free Market Books, 1974. (N.T.)
157 A doutrina da harmonia preestabelecida no funcionamento de um mercado não
obstruído não deve ser confundida com o teorema da harmonia dos interesses
corretamente entendidos num sistema de mercado, se bem que exista algo em
comum entre ambos. Ver adiante p. 765-775.
158 Um pintor, se pretende pintar quadros que possam ser vendidos pelo mais alto
preço possível, é um comerciante. Um pintor que não se compromete com o gosto
do público comprador e, desdenhando todas as consequências desagradáveis, guiase exclusivamente pelos seus próprios ideais é um artista, um gênio criador. Ver p.
175-177.
159 Esta superposição das fronteiras entre despesas da empresa e gastos de
consumo frequentemente é encorajada por condições institucionais. Um gasto
debitado na conta de despesas comerciais reduz o lucro líquido e, portanto, o
imposto devido. Se o imposto absorve 50% do lucro, o comerciante caridoso gasta
apenas 50% de seu próprio bolso. O resto fica por conta do fisco.
160 Com certeza, a fisiologia da nutrição não negligencia esses detalhes.
161 Estamos tratando de problemas de teoria e não de história. Podemos,
consequentemente, abstrair-nos da necessidade de refutar as objeções levantadas
contra o conceito de um agente isolado, e fazer referência ao papel histórico da
economia familiar autossuficiente.
162 Economia uniformemente circular – evenly rotating economy – é uma
economia imaginária, na qual as transações e as condições se repetem sem
alteração em cada ciclo de tempo idêntico. Imagina-se que tudo continuará
exatamente como antes, inclusive os objetivos e as ideias dos homens. Em tais
condições fictícias e repetitivas, não pode haver mudança na oferta e na procura de
bens e, portanto, não pode haver mudança nos preços. (N.T.)
163 Para simplificar, não levamos em conta as flutuações de preço ao longo do dia.
164 Ver adiante p. 251-307.
165 Ver adiante p. 484-487.
166 Para um exame crítico mais detalhado da economia matemática, ver adiante p.
412-419.
167 Ver adiante p. 557.
168 Ver p. 169-173, em que sentido o trabalho deve ser considerado como um fator
de produção não específico.
169 Enfatizemos mais uma vez o fato de que todo mundo, inclusive o leigo, ao lidar
com os problemas de determinação de renda, recorre sempre a essa construção
imaginária. Os economistas não a inventaram; apenas extraíram-na das
deficiências próprias a uma noção popular. Para uma análise epistemológica da
distribuição funcional, ver John Bates Clark, The Distribution of Wealth, Nova York,
1908, p. 5, e Eugen von Böhm – Bawerk, Gesammelte Schriften, ed. F. X. Weiss,
Viena, 1924, p. 299. O termo “distribuição” não deve induzir ninguém a erro; seu
emprego nesse contexto deve ser explicado pelo papel representado na história do
pensamento econômico pela construção imaginária de um estado socialista (ver p.
294). No funcionamento de uma economia de mercado, não há nada que possa ser
chamado de distribuição. Os bens não são primeiro produzidos e depois
distribuídos, como seria o caso num estado socialista. A palavra “distribuição”,
como empregada no termo “distribuição funcional”, tem o significado que, há 150
anos, lhe era atribuído. Na linguagem atual, “distribuição” significa a dispersão de
bens entre os consumidores, efetuada pelo comércio.
170 Ver adiante p. 465-466.
CAPÍTULO 15
O Mercado
1. As características da economia de mercado
A economia de mercado é o sistema social baseado na divisão do trabalho e na
propriedade privada dos meios de produção. Todos agem por conta própria; mas as
ações de cada um procuram satisfazer tanto as suas próprias necessidades como
também as necessidades de outras pessoas. Ao agir, todos servem seus
concidadãos. Por outro lado, todos são por eles servidos. Cada um é ao mesmo
tempo um meio e um fim; um fim último em si mesmo e um meio para que outras
pessoas possam atingir seus próprios fins.
Este sistema é guiado pelo mercado. O mercado orienta as atividades dos
indivíduos por caminhos que possibilitam melhor servir as necessidades de seus
semelhantes. Não há, no funcionamento do mercado, nem compulsão nem coerção.
O estado, o aparato social de coerção e compulsão, não interfere nas atividades
dos cidadãos, as quais são dirigidas pelo mercado. O estado utiliza o seu poder
exclusivamente com o propósito de evitar que as pessoas empreendam ações
lesivas à preservação e ao funcionamento regular da economia de mercado.
Protege a vida, a saúde e a propriedade do indivíduo contra a agressão violenta ou
fraudulenta por parte de malfeitores internos e de inimigos externos. Assim, o
estado cria e preserva o ambiente onde a economia de mercado pode funcionar em
segurança. O slogan marxista “produção anárquica” retrata corretamente essa
estrutura social como um sistema econômico que não é dirigido por um ditador, um
tzar da produção que pode atribuir a cada um uma tarefa e obrigá-lo a obedecer a
esse comando. Todos os homens são livres; ninguém tem de se submeter a um
déspota. O indivíduo, por vontade própria, se integra num sistema de cooperação.
O mercado o orienta e lhe indica a melhor maneira de promover o seu próprio bem
estar, bem como o das demais pessoas. O mercado comanda tudo; por si só coloca
em ordem todo o sistema social, dando-lhe sentido e significado.
O mercado não é um local, uma coisa, uma entidade coletiva. O mercado é um
processo, impulsionado pela interação das ações dos vários indivíduos que
cooperam sob o regime da divisão do trabalho. As forças que determinam a –
sempre variável – situação do mercado são os julgamentos de valor dos indivíduos
e suas ações baseadas nesses julgamentos de valor. A situação do mercado num
determinado momento é a estrutura de preços; isto é, o conjunto de relações de
troca estabelecido pela interação daqueles que estão desejosos de vender com
aqueles que estão desejosos de comprar. Não há nada, em relação ao mercado,
que não seja humano, que seja místico. O processo de mercado resulta
exclusivamente das ações humanas. Todo fenômeno de mercado pode ser
rastreado até as escolhas específicas feitas pelos membros da sociedade de
mercado.
O processo de mercado é o ajustamento das ações individuais dos vários
membros da sociedade aos requisitos da cooperação mútua. Os preços de mercado
informam aos produtores o que produzir, como produzir e em que quantidade. O
mercado é o ponto focal para onde convergem e de onde se irradiam as atividades
dos indivíduos.
A economia de mercado deve ser estritamente diferenciada do segundo sistema
imaginável – embora não realizável – de cooperação social sob um regime de
divisão de trabalho: o sistema de propriedade governamental ou social dos meios
de produção. Esse segundo sistema é comumente chamado de socialismo,
comunismo, economia planificada ou capitalismo de estado. A economia de
mercado, ou capitalismo, como é comumente chamada, e a economia socialista
são mutuamente excludentes. Não há mistura possível ou imaginável dos dois
sistemas; não há algo que se possa chamar de economia mista, um sistema que
seria parcialmente socialista. A produção ou é dirigida pelo mercado, ou o é por
decretos de um tzar da produção, ou de um comitê de tzares da produção.
Se, numa sociedade baseada na propriedade privada dos meios de produção,
alguns desses meios são possuídos e operados por um ente público – ou seja, pelo
governo ou uma de suas agências —, isto não significa um sistema misto que
combine socialismo e capitalismo. O fato de o estado ou de municipalidades
possuírem e operarem algum tipo de instalação industrial não altera as
características essenciais da economia de mercado. Essas empresas públicas estão
sujeitas à soberania do mercado. Têm de se ajustar – como compradoras de
matérias-primas, equipamento e mão de obra, e como vendedoras de bens e
serviços – à mecânica da economia de mercado. Estão sujeitas às leis do mercado
e, portanto, dependem dos consumidores que lhes podem dar ou negar
preferência. Precisam empenhar-se para obter lucros ou, pelo menos, para evitar
prejuízos. O governo pode cobrir o déficit de suas empresas recorrendo a fundos
públicos. Mas isto também não elimina nem diminui a supremacia do mercado;
apenas desloca o déficit para outro setor: os meios para cobrir as perdas serão
arrecadados através da cobrança de impostos. Mas as consequências que esta
taxação produzirá no mercado e na estrutura econômica serão sempre as previstas
pelas leis do mercado. É o funcionamento do mercado, e não a arrecadação de
impostos pelo governo, que decide sobre quem incidirão os impostos e como eles
afetarão a produção e o consumo. Portanto, é o mercado, e não uma repartição do
governo, que determina o funcionamento dessas empresas públicas.
Nada que seja de alguma forma, relacionado com o funcionamento do mercado
pode, no sentido praxeológico171 ou econômico do termo, ser chamado de
socialismo. A noção de socialismo, tal como é concebida e definida por todos os
socialistas, implica na ausência de um mercado para os fatores de produção e na
ausência de preços para esses fatores. A “socialização” de instalações industriais,
comerciais e agrícolas – isto é, a transferência de sua propriedade de privada para
pública – é um método de conduzir pouco a pouco ao socialismo.
É um passo na direção do socialismo, mas não é em si mesmo o socialismo. (Marx
e os marxistas ortodoxos negaram claramente a possibilidade dessa aproximação
gradual para o socialismo. Segundo suas doutrinas, a evolução do capitalismo
atingirá inevitavelmente um estágio no qual, de um só golpe, ele se transformaria
em socialismo).
As empresas públicas operadas pelo governo e a economia da Rússia Soviética,
pelo simples fato de comprarem e venderem em mercados, estão conectadas ao
sistema capitalista. Dão testemunho dessa conexão ao utilizarem a moeda em seus
cálculos. Assim, fazem uso dos métodos intelectuais do sistema capitalista que
fanaticamente condenam.
Isto porque o cálculo econômico é a base intelectual da economia de mercado. Os
objetivos perseguidos pela ação em qualquer sistema baseado na divisão do
trabalho não podem ser alcançados sem o cálculo econômico. A economia de
mercado calcula em termos de preços em moeda. Ser capaz de efetuar tal cálculo
foi determinante na sua evolução e condiciona seu funcionamento nos dias de hoje.
A economia de mercado é uma realidade porque é capaz de calcular.
2. Capital e bens de capital
Há, em todos os seres vivos, um impulso inato para assimilar tudo aquilo que
preserve, renove e fortaleça sua energia vital. A superioridade do agente homem
se manifesta no fato de ele procurar, consciente e intencionalmente, manter e
aumentar sua vitalidade. Ao perseguir este objetivo, sua engenhosidade o leva a
construir ferramentas que, primeiramente, o ajudam a obter alimentos;
posteriormente, o induz a descobrir métodos de aumentar a quantidade de
alimento disponível e, finalmente, o habilita a satisfazer seus desejos mais
urgentes entre aqueles que são especificamente humanos. Böhm-Bawerk assim
descreveu este processo: o homem escolhe métodos indiretos de produção que
requerem mais tempo, mas que compensam este atraso por gerarem produtos
mais abundantes e de melhor qualidade.
No ponto de partida de todo progresso em direção a uma existência mais bem
fornida está a poupança – o provisionamento de produtos que torna possível
prolongar o período médio de tempo que decorre entre o início do processo de
produção e a obtenção de um produto pronto para ser usado ou consumido. Os
produtos acumulados com esse objetivo são de duas naturezas: estágios
intermediários no processo tecnológico, isto é, ferramentas e produtos quase
acabados; ou bens prontos para consumo que permitam ao homem substituir um
processo que absorva menos tempo por outro que absorva mais tempo, sem com
isto sofrer necessidades no período de espera. Esses bens são chamados de bens
de capital.Portanto, a poupança e a consequente acumulação de bens de capital
estão na origem de qualquer tentativa do homem de melhorar suas condições de
vida; são a base da civilização humana. Sem poupança e sem acumulação de
capital não teria sido possível almejar fins não materiais.172
Da noção de bens de capital devemos claramente distinguir o conceito de
capital.173 O conceito de capital é o conceito fundamental no cálculo econômico, a
ferramenta intelectual mais importante na condução dos negócios numa economia
de mercado. Seu correlativo é o conceito de renda.
As noções de capital e renda, como empregadas em contabilidade e nas reflexões
rotineiras, das quais a contabilidade é meramente um refinamento, contrastam
meios e fins. A mente do agente, ao calcular, traça uma linha divisória entre os
bens de consumo que ele pretende utilizar para imediata satisfação de seus
desejos e os bens de todas as ordens – inclusive os de primeira ordem174 – que
ele pretende utilizar no futuro, para satisfação de futuras necessidades. A
diferenciação de meios e fins torna-se assim uma diferenciação entre investir e
consumir, entre o negócio e a casa, entre gastos comerciais e gastos domésticos. O
capital – conjunto de bens a ser investido, considerado em termos monetários – é o
ponto de partida do cálculo econômico. O objetivo imediato do investimento é
aumentar, ou pelo menos preservar, o capital. O montante que pode ser consumido
num determinado período de tempo sem diminuir o capital é chamado de renda. Se
o consumo é maior do que a renda, diz- se estar havendo um consumo de capital.
Se a renda disponível é maior do que o montante consumido, esta diferença é
chamada de poupança. Entre as tarefas principais do cálculo econômico estão
aquelas correspondentes ao estabelecimento da magnitude da renda, da poupança
e do consumo de capital.
A reflexão que conduziu o homem às noções implícitas nos conceitos de capital e
renda está latente em qualquer premeditação e planejamento da ação. Até mesmo
o mais primitivo dos agricultores tem vagamente consciência das consequências de
atos que, modernamente, um contador chamaria de consumo de capital. A
relutância do caçador em matar uma corça prenha e o mal-estar sentido pelo
guerreiro mais impiedoso ao cortar uma árvore frutífera são manifestações de uma
mentalidade que já era influenciada por tais considerações. Essas considerações
estavam presentes na antiga instituição do usufruto e em práticas e costumes
análogos. Mas somente as pessoas que têm possibilidade de recorrer ao cálculo
monetário podem perceber com nitidez a distinção entre recursos econômicos e as
vantagens que deles derivam, e podem aplicar tal distinção a todas as classes,
tipos e ordens de bens e serviços. Somente pelo cálculo monetário se pode
estabelecer esta distinção em relação aos processos industriais altamente
desenvolvidos que estão em permanente evolução, bem como em relação às
estruturas complicadas da cooperação social de centenas de milhares de profissões
especializadas e de tipos de trabalho.
Se, à luz dos modernos sistemas contábeis, contemplarmos a situação dos
ancestrais selvagens da raça humana, podemos dizer, metaforicamente, que eles
também usavam “capital”. Um contador contemporâneo poderia aplicar todos os
métodos de sua profissão aos instrumentos primitivos de caça e pesca, à criação de
gado, ao preparo do solo, se soubesse que preços atribuir aos vários itens em
questão. Alguns economistas concluíram daí que o “capital” é uma categoria de
toda produção humana, presente em qualquer sistema de produção que se imagine
– tanto no isolamento involuntário de Robinson Crusoé, como numa sociedade
socialista – e que, portanto, não depende do uso do cálculo econômico.175 Ao
raciocinar assim, estão simplesmente fazendo uma confusão. O conceito de capital
é inseparável do contexto do cálculo monetário e da estrutura social de uma
economia de mercado, única situação em que é possível efetuar o cálculo
monetário. É um conceito que não tem nenhum sentido fora das condições de uma
economia de mercado. Só tem um papel a desempenhar nos planos e nos registros
dos indivíduos que agem por conta própria no sistema de propriedade privada dos
meios de produção que se desenvolveu com a difusão do cálculo econômico em
termos monetários.176
A contabilidade moderna é o fruto de uma longa evolução histórica. Hoje, há uma
unanimidade entre empresários e contadores quanto ao significado de capital.
Capital é a soma do equivalente em moeda de todos os ativos menos a soma do
equivalente em moeda de todos os passivos, relativos, numa determinada data, às
operações de uma determinada empresa. Não importa no que consistam esses
ativos, sejam eles terra, edificações, equipamentos, ferramentas, bens de qualquer
tipo ou ordem, créditos, direitos, dinheiro em caixa ou qualquer outra coisa.
É histórico o fato de que, nos primórdios da contabilidade, os comerciantes, que
foram os iniciadores do uso do cálculo econômico, na sua maior parte não
incluíssem o equivalente em moeda de suas edificações e terras na noção de
capital. É também um fato histórico o de que os agricultores não tivessem a
preocupação em aplicar o conceito de capital às suas terras. Mesmo atualmente,
nos países avançados, somente uma parte dos agricultores está familiarizada com
práticas contábeis corretas. Muitos se contentam com um sistema contábil que se
abstém de considerar a contribuição da terra à produção. Seus lançamentos
contábeis não incluem o equivalente em moeda da terra e são, portanto,
indiferentes a mudanças neste valor. Contabilidades desse gênero são defeituosas
porque deixam de fornecer uma informação que é o único objetivo da
contabilização do capital. Não indicam se o funcionamento da fazenda provocou, ou
não, uma deterioração da capacidade de as terras contribuírem para a produção,
ou seja, de seu valor de uso objetivo. Acontece uma erosão, os registros contábeis
ignoram-na, e assim a renda calculada (rendimento líquido) é maior do que a que
mostraria um método mais completo de contabilidade. É necessário mencionar
esses fatos históricos, porque eles influenciaram os esforços dos economistas na
elaboração da noção de capital real.
Os economistas estavam, e ainda hoje estão confundidos pela crença
supersticiosa de que a escassez de fatores de produção podia ser eliminada
inteiramente ou, pelo menos, numa certa medida, pelo aumento da quantidade de
moeda em circulação e pela expansão do crédito. Para poder lidar adequadamente
com este problema fundamental de política econômica, consideravam necessário
formular a noção de capital real confrontando-a com a noção de capital usada pelo
comerciante cujo cálculo se refere a todo o conjunto de suas atividades aquisitivas.
Na época em que os economistas começaram a se interessar por estas questões,
ainda existiam dúvidas quanto à interpretação que considera o equivalente em
moeda da terra como capital. Assim, os economistas entenderam como razoável
não considerar a terra na noção de capital real. Definiram capital real como a
totalidade disponível de produtos utilizados como fatores de produção. Discussões
bizantinas foram travadas para decidir se os estoques de bens de consumo em
poder das empresas são ou não capital real. Mas havia quase unanimidade em
considerar que dinheiro em caixa não é capital real.
Ora, este conceito de uma totalidade de produtos utilizados como fatores de
produção é um conceito sem sentido. O equivalente em moeda dos vários fatores
de produção possuídos por uma empresa pode ser definido e somado. Mas, se nos
abstrairmos de fazer essa avaliação em termos monetários, a totalidade dos
produtos que podem ser utilizados como fatores de produção é simplesmente uma
enumeração de quantidades físicas de milhares de bens. Tal inventário não tem
nenhuma utilidade para a ação. É uma descrição de uma parte do universo em
termos de tecnologia e topografia, sem qualquer relação com o problema que os
esforços para aumentar o bem estar do homem suscitam. Podemos aquiescer
quanto ao uso semântico da expressão, bens reais de capital para designar os
fatores de produção existentes. Mas isso não torna mais significativo o conceito de
capital real.
A pior consequência do uso dessa noção mítica de capital real foi o fato de que os
economistas começaram a especular sobre um falso problema, qual seja o da
produtividade do capital (real). Um fator de produção é, por definição, tudo aquilo
que é capaz de contribuir para o sucesso de um processo de produção. Seu preço
de mercado reflete inteiramente o valor que as pessoas atribuem a essa
contribuição. Os serviços esperados do emprego de um fator de produção (isto é,
sua contribuição à produtividade) são pagos, nas transações de mercado, de
acordo com o valor integral que as pessoas lhes atribuem. Só se atribui valor a
esses fatores em função dos serviços que prestam. Esta é a única razão pela qual
um pagamento é feito. Uma vez que o preço seja pago, nada mais é devido, por
quem quer que seja, como compensação por serviços produtivos adicionais desses
fatores de produção. Foi um erro considerar o juro como uma renda derivada da
produtividade do capital.177
Não menos prejudicial foi uma segunda confusão derivada do conceito de capital
real. Começou-se a meditar sobre um conceito de capital social enquanto distinto
de capital privado. Partindo da construção imaginária de uma economia socialista,
pretendeu-se definir um conceito de capital que fosse adequado às atividades
econômicas do gerente geral de tal sistema. Tinham razão em supor que este
gerente iria querer saber se a sua gestão dos negócios estaria sendo bem-sucedida
(do ponto de vista de suas próprias valorações e dos objetivos escolhidos em
função dessas valorações) e quanto poderia gastar com a subsistência de seus
tutelados, sem diminuir o estoque disponível de fatores de produção, o que
comprometeria o rendimento da fase de produção seguinte. Um governo socialista
teria uma extrema necessidade dos conceitos de capital e renda para orientar suas
operações. Entretanto, num sistema econômico onde não exista propriedade
privada dos meios de produção, nem mercado e nem preços para esses bens, os
conceitos de capital e renda são meros postulados acadêmicos destituídos de
qualquer aplicação prática. Numa economia socialista existem bens de capital, mas
não capital.
A noção de capital só faz sentido numa economia de mercado. Serve para que os
indivíduos ou grupos de indivíduos possam deliberar ou calcular por sua própria
conta. É um instrumento usado pelos capitalistas, empresários e agricultores
desejosos de fazer lucros e evitar prejuízos. Não é uma categoria inerente a
qualquer ação. É uma categoria da ação numa economia de mercado.
3. Capitalismo
Todas as civilizações, até os dias de hoje, foram baseadas na propriedade privada
dos meios de produção. No passado, civilização e propriedade privada sempre
andaram juntas. Aqueles que sustentam que a economia é uma ciência
experimental, e apesar disso recomendam o controle estatal dos meios de
produção, se contradizem lamentavelmente. Se pudéssemos extrair algum
ensinamento da experiência histórica, este seria o de que a propriedade privada
está inextricavelmente ligada à civilização. Não há nenhuma experiência que
mostre que o socialismo poderia proporcionar um padrão de vida tão elevado
quanto o que é proporcionado pelo capitalismo.178
O sistema de economia de mercado nunca chegou a ser tentado de forma
completa e pura. Mas, na civilização ocidental, desde a Idade Média, de um modo
geral, tem prevalecido uma tendência no sentido de abolir as instituições que
entravam o funcionamento da economia de mercado. O constante progresso dessa
tendência permitiu o crescimento populacional e a elevação do padrão de vida das
massas a um nível sem precedente e até então inimaginável. O trabalhador
americano médio desfruta de comodidades que fariam inveja a Cresus, Crasso, aos
Médici e a Luís XIV.
Os problemas suscitados pela crítica socialista e intervencionista à economia de
mercado são puramente de ordem econômica e só podem ser tratados da maneira
pela qual este livro tenta fazê-lo: por uma análise profunda da ação humana e de
todos os sistemas imagináveis de cooperação social. O problema psicológico, em
decorrência do qual as pessoas desprezam e menoscabam o capitalismo e chamam
de “capitalista” tudo o que lhes desagrada, e de “socialista” tudo o que lhes
agrada, é um problema que diz respeito à história e deve ser deixado a cargo dos
historiadores. Mas há muitos outros temas que devemos colocar em evidência.
Os defensores do totalitarismo consideram o “capitalismo” um mal tenebroso,
uma doença terrível que se abateu sobre a humanidade. Aos olhos de Marx, o
capitalismo era um estágio inevitável da evolução do gênero humano, mas, ainda
assim, o pior dos males; felizmente a salvação estava iminente e livraria o homem
definitivamente deste desastre. Na opinião de outras pessoas, teria sido possível
evitar o capitalismo se ao menos os homens fossem mais virtuosos ou mais
habilidosos na escolha de políticas econômicas. Todas essas lucubrações têm um
traço comum. Consideram o capitalismo como um fenômeno ocidental que poderia
ser eliminado sem alterar condições que são essenciais ao pensamento e à ação do
homem civilizado. Como elas não se preocupam com o problema do cálculo
econômico, não chegam a perceber as consequências que seriam produzidas pela
abolição desse cálculo. Não chegam a se dar conta de que o homem socialista,
para cujo planejamento a aritmética não terá nenhuma utilidade, seria, na sua
mentalidade e no seu modo de pensar, inteiramente diferente dos nossos
contemporâneos. Ao lidar com o socialismo, não devemos subestimar essa
transformação mental, mesmo se estivéssemos dispostos a suportar
silenciosamente as desastrosas consequências que adviriam para o bem estar
material da humanidade.
A economia de mercado é um modo de agir, fruto da ação do homem sob a
divisão do trabalho. Todavia, isto não significa que seja algo acidental ou artificial,
algo que possa ser substituído por outro modo de agir qualquer. A economia de
mercado é o produto de um longo processo evolucionário. É o resultado dos
esforços do homem para ajustar sua ação, da melhor maneira possível, às
condições dadas de um meio ambiente que ele não pode modificar. É, por assim
dizer, a estratégia cuja aplicação permitiu ao homem progredir triunfalmente do
estado selvagem à civilização.
Muitos autores raciocinam da seguinte forma: o capitalismo foi o sistema
econômico que possibilitou as realizações maravilhosas dos últimos duzentos anos;
portanto, está liquidado porque o que foi benéfico no passado não pode continuar
sendo benéfico nos nosso tempo nem no futuro. Tal raciocínio está em contradição
flagrante com os princípios do conhecimento experimental. Não é necessário, a
essa altura, retornar novamente à questão de saber se a ciência da ação humana
pode ou não adotar os métodos experimentais das ciências naturais. Mesmo se
fosse possível responder afirmativamente a esta questão, seria absurdo questionar
como esses experimentalistas à rebours o fazem. A ciência experimental
argumenta que, se a foi válido no passado, será válido também no futuro. Não tem
cabimento afirmar o contrário: se a foi válido no passado, não o será no futuro.
É comum censurar os economistas por terem um pretenso desinteresse em
relação à história. Os economistas, segundo seus críticos, consideram a economia
de mercado como o padrão ideal e eterno de cooperação social. Concentram toda
sua atenção no estudo das condições da economia de mercado, negligenciando
todo o resto. Pouco lhes importa o fato de que o capitalismo só tenha surgido nos
últimos duzentos anos e que ainda hoje esteja restrito a uma área relativamente
pequena da superfície terrestre e a uma minoria da população mundial. Houve no
passado e há atualmente – continuam esses críticos – outras civilizações com uma
mentalidade diferente e com outras formas de conduzir os assuntos econômicos. O
capitalismo, quando visto sub specie aeternitatis, é um fenômeno passageiro, um
estágio efêmero da evolução histórica, uma mera transição da era pré-capitalista
para um futuro pós-capitalista.
Todas essas críticas são espúrias. A economia não é, evidentemente, um ramo da
história ou de qualquer outra ciência histórica. É a teoria de toda ação humana, a
ciência geral das imutáveis categorias da ação e do seu funcionamento em
quaisquer condições imagináveis sob as quais o homem age. Por assim ser,
constitui a ferramenta mental indispensável para lidar com os problemas históricos
e etnográficos. Um historiador ou um etnógrafo que, no seu trabalho, não aproveita
da melhor maneira possível todos os ensinamentos da economia, está trabalhando
mal. Na realidade, ele não aborda o objeto de sua pesquisa sem estar influenciado
por aquilo que despreza como teoria. Está, em cada instante de sua coleta de fatos
pretensamente puros, quando os ordena e deles extrai conclusões, guiado por
remanescentes confusos e deturpados de doutrinas econômicas perfunctórias,
construídas desleixadamente ao longo dos séculos que precederam a elaboração
de uma ciência econômica; ciência econômica esta que refutou de forma definitiva
aquelas doutrinas superficiais.
A análise dos problemas da sociedade de mercado, a única forma de ação
humana na qual o cálculo pode ser aplicado para planejar a ação, abre o caminho
para a análise de todos os modos de ação imagináveis e de todos os problemas
econômicos com que se defrontam os historiadores e etnógrafos. Todos os
métodos não capitalistas de gestão econômica só podem ser estudados a partir da
hipótese de que também nesses sistemas possam ser usados os números cardinais
para registro da ação passada e planejamento da ação futura. É por esse motivo
que os economistas colocam o estudo da autêntica economia de mercado no centro
de suas investigações.
Não são os economistas, e sim os seus críticos, que carecem de “senso histórico”
e ignoram o fator evolução. Os economistas sempre tiveram consciência do fato de
que a economia de mercado é o produto de um longo processo histórico que
começou quando a raça humana emergiu dos grupos de outros primatas. Os
defensores do que erroneamente é chamado de “historicismo” pretendem desfazer
os efeitos das mudanças evolucionárias. A seu ver, tudo aquilo cuja existência não
possa ser rastreada até um passado remoto, ou não possa ter sua origem
identificada nos costumes de alguma tribo primitiva da Polinésia, é artificial, ou
mesmo decadente. Consideram como prova de inutilidade e podridão de uma
instituição o fato de ela ser desconhecida para os selvagens. Marx e Engels, e os
professores alemães da Escola Historicista, exultaram quando tomaram
conhecimento de que a propriedade privada é “apenas” um fenômeno histórico.
Para eles, esta era a prova de que os seus planos socialistas eram realizáveis.179
O gênio criador está em contradição com os seus contemporâneos. Enquanto
pioneiro das coisas novas e das quais nunca se ouviu falar, ele está em conflito
com a aceitação cega de critérios e valores tradicionais. A seu ver, a rotina de um
cidadão normal, do homem médio e comum, não passa de uma estupidez. Para
ele, “burguês” é sinônimo de imbecilidade.180 Os artistas frustrados que se
satisfazem em imitar os maneirismos do gênio, a fim de esquecer e de dissimular
sua própria impotência, adotam essa terminologia. Esses boêmios chamam tudo o
que lhes desagrada de “burguês”. Desde que Marx tornou o termo “capitalista”
equivalente a “burguês”, estas palavras são empregadas como sinônimas. Nos
vocabulários de todas as línguas as palavras “capitalistas” e “burguesas” significam
hoje tudo o que há de vergonhoso, degradante e infame.181 Por outro lado,
chamam tudo aquilo de que gostam ou que prezam de “socialista”. O esquema de
raciocínio é o seguinte: um homem, arbitrariamente, chama de “capitalista” tudo o
que lhe desagrada e depois deduz dessa designação que aquilo que lhe desagrada
é mau.
Esta confusão semântica vai ainda mais longe. Sismondi, os apologistas
românticos da Idade Média, todos os autores socialistas, a Escola Historicista
prussiana e os Institucionalistas americanos ensinaram que o capitalismo é um
sistema injusto de exploração que sacrifica os interesses vitais da maioria da
população em benefício exclusivo de um pequeno grupo de aproveitadores.
Nenhum homem decente pode defender esse sistema “insensato”. Os economistas
que sustentam que o capitalismo é benéfico não apenas a um pequeno grupo, mas
a todas as pessoas, são “sicofantas da burguesia”. Ou são obtusos demais para
perceber a realidade, ou então são apologistas vendidos aos interesses egoístas da
classe dos exploradores.
O capitalismo, no entender desses inimigos da liberdade, da democracia e da
economia de mercado, significa a política econômica defendida pelas grandes
empresas e pelos milionários. Diante do fato de que alguns – certamente não todos
– capitalistas e empresários ricos, nos dias de hoje, são favoráveis a medidas que
restringem o livre comércio e a competição e resultam em monopólio, dizem: o
capitalismo contemporâneo defende o protecionismo, os cartéis e a abolição da
competição. É verdade, acrescentam, que num certo período do passado o
capitalismo inglês era favorável ao comércio livre, tanto no mercado interno como
nas relações internacionais. Isto ocorria porque, naquela época, os interesses de
classe da burguesia inglesa eram melhor atendidos por essa política. Entretanto, as
condições mudaram e, hoje, o capitalismo, isto é, a doutrina defendida pelos
exploradores, é favorável a outra política.
Já foi mostrado que essa tese deforma grosseiramente tanto a teoria econômica
como os fatos históricos.182 Houve e haverá sempre pessoas cujos interesses
egoístas exigem proteção para situações já estabelecidas e que esperam obter
vantagens de medidas que restringem a competição. Empresários envelhecidos e
cansados, bem como os herdeiros decadentes de pessoas que foram bem
sucedidas no passado, não gostam dos ágeis parvenus que ameaçam a sua riqueza
e posição social eminente. Seu desejo de tornar rígidas as condições econômicas e
de impedir o progresso pode ou não ser realizado, dependendo do clima da opinião
pública. A estrutura ideológica do século XIX, influenciada pelo prestígio dos
ensinamentos dos economistas liberais, tornava inúteis esses desejos. Quando os
melhoramentos tecnológicos da era do liberalismo revolucionaram os métodos
tradicionais de produção, transporte e comércio, aqueles cujos interesses
estabelecidos foram atingidos não pediram proteção porque teria sido inútil. Mas,
hoje, o fato de impedir um homem eficiente de competir com um menos eficiente,
é considerado como uma tarefa legítima do governo. A opinião pública simpatiza
com as solicitações de grupos poderosos para impedir o progresso. Os produtores
de manteiga estão tendo sucesso na sua luta contra a margarina e os músicos
contra a música gravada. Os sindicatos operários são inimigos mortais de qualquer
máquina nova. Não é de estranhar que, em tal ambiente, empresários menos
eficientes busquem proteção contra competidores mais eficientes.
Seria correto descrever este estado de coisas da seguinte forma: hoje, muitos ou
alguns setores empresariais não são mais liberais; não defendem uma autêntica
economia de mercado, mas, ao contrário, solicitam ao governo medidas
intervencionistas. Mas é inteiramente errado dizer que o significado do conceito de
capitalismo mudou e que o “capitalismo maduro” – como o designam os
institucionalistas americanos – ou o “capitalismo tardio” – como é chamado pelos
marxistas – seja caracterizado por políticas restritivas que visem a proteger
interesses constituídos de assalariados, agricultores, lojistas, artesãos e também,
às vezes, de capitalistas e empresários. O conceito de capitalismo, como conceito
econômico, é imutável; se tem algum significado, significa economia de mercado.
Se aquiescermos em usar uma terminologia diferente, ficaremos privados das
ferramentas semânticas próprias para lidar adequadamente com os problemas da
história contemporânea e das políticas econômicas. Essa nomenclatura defeituosa
só se torna compreensível quando percebemos que os pseudoeconomistas e os
políticos que a utilizam querem evitar que as pessoas saibam o que é realmente a
economia de mercado. Querem que as pessoas acreditem que todas as medidas
repulsivas de intervenção estatal são provocadas pelo “capitalismo”.
4. A soberania do consumidor
A direção de todos os assuntos econômicos, na sociedade de mercado, é uma
tarefa dos empresários. Deles é o controle da produção. Estão no leme e pilotam o
navio. Um observador superficial pensaria que eles são os soberanos. Mas não são.
São obrigados a obedecer incondicionalmente às ordens do capitão. O capitão é o
consumidor. Não são os empresários, nem os agricultores, nem os capitalistas que
determinam o que deve ser produzido. São os consumidores. Se um empresário
não obedece estritamente às ordens do público tal como lhe são transmitidas pela
estrutura de preços do mercado, sofre perdas, vai à falência, e é assim removido
de sua posição eminente no leme do navio. Outro que melhor satisfizer os desejos
dos consumidores o substituirá.
Os consumidores prestigiam as lojas nas quais podem comprar o que querem pelo
menor preço. Ao comprarem e ao se absterem de comprar, os consumidores
decidem sobre quem deve possuir e dirigir as fábricas e as fazendas. Enriquecem
um homem pobre e empobrecem um homem rico. Determinam precisamente a
quantidade e a qualidade do que deve ser produzido. São patrões impiedosos,
cheios de caprichos e fantasias, instáveis e imprevisíveis. Para eles, a única coisa
que conta é sua própria satisfação. Não se sensibilizam nem um pouco com méritos
passados ou com interesses estabelecidos. Se lhes for oferecido algo que
considerem melhor e que seja mais barato, abandonam os seus fornecedores
habituais. Na sua condição de compradores e consumidores, são frios e insensíveis,
sem consideração por outras pessoas.
Apenas os vendedores de bens e serviços de primeira ordem estão em contato
direto com os consumidores e dependem diretamente de suas ordens. Mas eles
transmitem as ordens recebidas do público a todos aqueles que produzem os bens
e serviços de uma ordem mais elevada. Isto porque os fabricantes de bens de
consumo, os varejistas, os prestadores de serviços, os profissionais, são obrigados
a adquirir o que necessitam para condução do seu próprio negócio, daqueles
fornecedores que lhes vendem pelo menor preço. Se não quiserem comprar pelo
menor preço de mercado e não organizarem seu processamento dos fatores de
produção de maneira a atender aos desejos do consumidor, oferecendo produtos
melhores e mais baratos, serão forçados a fechar o seu negócio. Outros, mais
eficientes, mais bem sucedidos na tarefa de comprar e processar fatores de
produção, os suplantarão. O consumidor pode dar livre curso aos seus caprichos e
fantasias. Os empresários, capitalistas, agricultores têm suas mãos amarradas; são
obrigados a conformar suas atividades segundo as ordens do público comprador.
Qualquer desvio das linhas prescritas pela demanda dos consumidores lhes é
debitado. O mais insignificante desvio, seja intencional ou causado por erro, mau
julgamento ou ineficiência, restringe ou suprime os seus lucros. Um desvio mais
acentuado resulta em perdas, reduzindo ou absorvendo inteiramente sua riqueza.
Os capitalistas, empresários e proprietários de terra só podem preservar e
aumentar sua riqueza ou satisfazer melhor os desejos dos consumidores. Não são
livres para gastar dinheiro que os consumidores não estejam dispostos a
reembolsar pagando mais pelos produtos. Na condução de seus negócios, devem
ser insensíveis e duros porque os consumidores – seus patrões – são, eles também,
insensíveis e duros.
Os consumidores determinam, em última instância, não apenas os preços dos
bens de consumo, mas também os preços de todos os fatores de produção.
Determinam a renda de cada membro da economia de mercado. São os
consumidores e não os empresários que basicamente pagam os salários ganhos por
qualquer trabalhador, pela glamorosa artista de cinema, ou pela faxineira. Cada
centavo gasto pelos consumidores determina a direção de todos os processos de
produção e os detalhes de organização de todas as atividades mercantis.
Este estado de coisas foi bem descrito ao se denominar o mercado uma
democracia na qual cada centavo dá direito a um voto.183 Seria mais correto dizer
que uma constituição democrática é um dispositivo que concede aos cidadãos, na
esfera política, aquela mesma supremacia que o mercado lhes confere na sua
condição de consumidores. Não obstante, a comparação é imperfeita. Na
democracia política, somente os votos dados em favor do candidato ou do
programa que obteve a maioria têm influência no curso dos eventos políticos. Os
votos colhidos pela minoria não influenciam diretamente as políticas adotadas.
Entretanto, no mercado, nenhum voto é dado em vão. Cada centavo gasto tem o
poder de influenciar os processos de produção. Os editores não trabalham apenas
para a maioria que lê estórias de detetive, mas também para a minoria que lê
poesia e tratados de filosofia. As padarias fazem pão não apenas para pessoas
saudáveis, mas também para pessoas doentes, submetidas a uma dieta especial. É
a disposição de gastar certa quantidade de dinheiro que confere todo o peso à
decisão de um consumidor.
É verdade que, no mercado, os vários consumidores não têm o mesmo direito de
voto. Os ricos dispõem de mais votos que os cidadãos mais pobres. Mas essa
desigualdade é em si mesma, o resultado de um processo eleitoral anterior. Ser
rico, numa autêntica economia de mercado, é o resultado do sucesso em conseguir
atender melhor os desejos do consumidor. Um homem rico só pode preservar sua
fortuna se continuar a servir o consumidor da maneira mais eficiente.
Desta forma, os proprietários dos fatores materiais de produção e os empresários
são virtualmente mandatários ou homens de confiança dos consumidores,
designados por uma eleição que se repete todos os dias.
No funcionamento de uma economia de mercado só há uma situação na qual a
classe proprietária não está completamente sujeita à supremacia do consumidor:
preços monopolísticos são uma violação da soberania do consumidor.
O emprego metafórico da terminologia política
As ordens dadas pelos empresários na condução dos seus negócios são audíveis e
visíveis. Ninguém pode desconhecê-las. Até o office-boy sabe quem manda e dirige
a empresa. Mas perceber a dependência do empresário, numa situação de
mercado, requer um pouco mais de perspicácia. As ordens dadas pelos
consumidores não são tangíveis, não podem ser percebidas pelos sentidos. A
muitas pessoas falta o discernimento necessário para percebê-las: incorrem, assim,
no erro de achar que empresários e capitalistas são autocratas irresponsáveis que
não precisam dar conta de seus atos a ninguém.184
Uma consequência dessa mentalidade é a prática de aplicar, ao mundo dos
negócios, a terminologia do poder político ou a da ação militar. Empresários bem
sucedidos são chamados de reis ou duques, suas empresas são consideradas
impérios, reinados ou ducados.
Não haveria necessidade de criticar essa linguagem se estivéssemos diante de
meras metáforas inofensivas. Mas estamos diante de erros graves que representam
um papel nefasto nas doutrinas contemporâneas.
O governo é um aparato de compulsão e coerção. Tem o poder de se fazer
obedecer pela força. O soberano político, seja ele um autocrata ou um
representante do povo, tem poder para esmagar rebeliões enquanto subsistir o seu
poder ideológico.
A posição que os empresários e os capitalistas ocupam na economia de mercado
é de outra natureza. Um “rei do chocolate” não tem poder sobre os consumidores,
seus clientes. Limita-se a fornecer-lhes chocolate da melhor qualidade e pelo
menor preço. Não comanda os consumidores, serve-os. Os consumidores não têm
nenhuma obrigação de comprar nas suas lojas. Ele perde o seu “reinado”, se os
consumidores preferirem gastar os seus centavos em algum outro lugar. Também
não “comanda” seus empregados. Contrata os seus serviços, pagando-lhes
exatamente aquele valor que os consumidores estão dispostos a lhe restituir ao
comprar seu produto. Menor ainda é o poder político exercido pelos capitalistas e
empresários. As nações civilizadas da Europa e da América foram durante muito
tempo controladas por governos que não prejudicavam significativamente o
funcionamento da economia de mercado. Hoje, esses países também estão
dominados por partidos que são hostis ao capitalismo e que acreditam que todo
dano causado aos capitalistas e empresários é extremamente benéfico para o
povo.
Numa economia de mercado que funcione sem entraves, os capitalistas e
empresários não podem esperar vantagens pela corrupção de funcionários e
políticos. Por outro lado, os funcionários e os políticos não têm condições de fazer
chantagem e de extorquir suborno dos homens de negócios. Num país
intervencionista, grupos de pressão poderosos se empenham em obter para os
seus membros privilégios à custa de indivíduos e grupos mais fracos. Em tal
ambiente, os homens de negócio podem considerar conveniente usar a corrupção
para se protegerem de atos discriminatórios por parte de membros do poder
executivo ou do poder legislativo; uma vez habituados a esses métodos, podem
tentar empregá-los para obter privilégios para si mesmos. De qualquer forma, o
fato de que os homens de negócio subornem políticos e funcionários, e de que
sejam por eles chantageados, não significa dizer que são soberanos e que dirigem
os países. São os governados – e não os governantes – que compram os favores e
pagam um tributo.
A maioria dos homens de negócio se abstém de recorrer à corrupção, seja por
convicção moral, seja por medo. Tentam preservar o sistema de livre iniciativa e
procuram defender-se da discriminação usando métodos democráticos legítimos.
Formam associações comerciais e tentam influenciar a opinião pública. Os
resultados dessas tentativas são bastante limitados, como se constata pelo avanço
triunfante das políticas anticapitalistas. O máximo que têm conseguido é adiar por
algum tempo algumas medidas especialmente nefastas.
Os demagogos deformam esse estado de coisas da maneira mais grosseira. Eles
nos dizem que são essas associações de banqueiros e industriais que governam o
país e que dominam o aparato que é chamado de governo “plutodemocrático”.
Uma simples enumeração das leis promulgadas nas últimas décadas pelo
legislativo de qualquer país é suficiente para mostrar a inconsistência desses mitos.
5. Competência
Na natureza prevalecem conflitos de interesse irreconciliáveis. Os meios de
subsistência são escassos. A proliferação tende a exceder a subsistência. Só os
animais e plantas mais aptos sobrevivem. O antagonismo entre um animal
esfomeado e outro que lhe arranca a comida é implacável.
A cooperação social sob o signo da divisão do trabalho elimina tais antagonismos.
Substitui a hostilidade pela associação e mutualidade. Os membros da sociedade
são solidários numa aventura comum.
O termo competição, quando aplicado às condições da vida animal, significa a
rivalidade que se manifesta na busca de alimento. Podemos chamar este fenômeno
de competição biológica. A competição biológica não deve ser confundida com a
competição social, isto é, o esforço dos indivíduos para obter uma posição mais
favorável no sistema de cooperação social. Como existirão sempre situações às
quais os homens atribuem mais valor, as pessoas se esforçarão por alcançá-las e
tentarão superar os seus rivais. A competição social, consequentemente, está
presente em qualquer forma concebível de organização social. Se quisermos pensar
um estado de coisas no qual não haja competição social, teremos de imaginar um
sistema socialista no qual o chefe, na sua função de atribuir a cada indivíduo um
lugar e uma tarefa na sociedade, não é ajudado por nenhuma ambição por parte
de seus subordinados. Os indivíduos seriam inteiramente indiferentes e não
postulariam nenhum cargo. Comportar-se-iam como os cavalos reprodutores de um
haras, que não procuram colocar-se num ângulo mais favorável quando o
proprietário escolhe o garanhão que vai cobrir sua melhor égua. Mas tais pessoas
já não seriam agentes humanos.
A competição cataláctica é uma emulação entre pessoas que querem superar
umas às outras. Não é uma luta, embora seja comum o emprego, num sentido
metafórico, de termos como ataque e defesa, estratégia e tática, extraídas da
terminologia da guerra e dos conflitos violentos. Na competição cataláctica,
aqueles que perdem não são aniquilados; são deslocados para um lugar mais
modesto no sistema social, um lugar mais compatível com as suas realizações do
que aquele que pretendiam alcançar.
Num sistema totalitário, a competição social se manifesta através dos esforços
das pessoas em obterem os favores daqueles que estão no poder. Na economia de
mercado, a competição se manifesta no fato de que os vendedores devem superar
uns aos outros pela oferta de bens e serviços melhores e mais baratos, enquanto
que os compradores devem superar uns aos outros pela oferta de preços mais
altos. Ao lidar com esta espécie de competição social, que pode ser chamada de
competição cataláctica, devemos precaver-nos de várias falácias muito difundidas.
Os economistas clássicos eram favoráveis à abolição de todas as barreiras
comerciais que impediam as pessoas de competirem no mercado. Medidas
restritivas, explicavam eles, resultam no deslocamento da produção de locais onde
as condições naturais de produção são mais favoráveis para locais onde são menos
favoráveis. Protege o homem menos eficiente contra seu rival mais eficiente.
Tendem a perpetuar métodos de produção já ultrapassados. Em suma, restringem
a produção e rebaixam o padrão de vida. A fim de que todos prosperem, afirmavam
os economistas, a competição devia ser livre para todos. Nesse sentido, falavam de
livre competição. Não havia nada metafísico no emprego do termo livre. Eles
defendiam a anulação dos privilégios que impediam as pessoas de terem acesso a
certas atividades e mercados. Todas as lucubrações sofisticadas que sofismam
quanto à conotação metafísica do adjetivo livre aplicado à competição são
espúrias; não têm qualquer relação com o problema cataláctico da competição.
No que diz respeito a condições naturais, a competição só pode ser considerada
como livre em relação aos fatores de produção que não são escassos e, portanto,
não é objeto da ação humana. No campo cataláctico, a competição é sempre
restringida pela inexorável escassez dos bens e serviços econômicos. Mesmo na
ausência de barreiras institucionais criadas para restringir o número de
competidores, jamais as circunstâncias permitem que todos possam competir em
todos os setores do mercado. Em cada setor, somente grupos relativamente pouco
numerosos podem engajar-se na competição.
A competição cataláctica, um dos traços característicos da economia de mercado,
é um fenômeno social. Não é um direito, garantido pelo estado e pelas leis, que
torne possível a cada indivíduo escolher, à sua vontade, o lugar na estrutura da
divisão do trabalho que mais lhe agrade. Atribuir a cada um o seu lugar próprio na
sociedade é tarefa dos consumidores que ao comprar ou abster-se de comprar
estão determinando a posição social de cada indivíduo. A soberania do consumidor
não diminui quando são concedidos privilégios a indivíduos na qualidade de
produtores. A entrada num determinado setor industrial é virtualmente livre aos
recém-chegados, somente na medida em que os consumidores aprovem a
expansão desse setor, ou na medida em que os recém-chegados superem, por um
atendimento melhor aos desejos do consumidor, os já estabelecidos. Investimento
adicional só se justifica na medida em que satisfaça às mais urgentes necessidades
dos consumidores, entre aquelas que ainda não foram atendidas. Se as instalações
existentes são suficientes, seria desperdício investir mais capital na mesma
indústria. A estrutura de preços do mercado induz os novos investidores a outros
setores.
É necessário enfatizar este ponto, porque a falta de percepção dessa realidade
está na raiz de muitas queixas sobre a impossibilidade de competição. Cerca de
sessenta anos atrás, as pessoas costumavam dizer: ninguém pode competir com as
companhias de estrada de ferro; é impossível concorrer com elas, abrindo novas
linhas; no campo do transporte terrestre não existe mais competição. A verdade é
que, àquela época, as linhas já existentes, em termos gerais, eram suficientes.
Para investimentos adicionais de capital, as perspectivas eram mais favoráveis no
melhoramento das linhas existentes ou em outros ramos de negócio do que na
construção de novas linhas. Entretanto, isto não interferiu no progresso tecnológico
dos meios de transporte. O tamanho e o “poder” econômico das companhias de
estrada de ferro não impediram o surgimento do automóvel e do avião.
Hoje as pessoas afirmam o mesmo em relação a vários setores dominados por
grandes empresas: ninguém pode concorrer com elas; são muito grandes e muito
poderosas. Competição, entretanto, não significa que qualquer um possa prosperar
simplesmente pela imitação do que outras pessoas fazem. Significa a possibilidade
de servir os consumidores através da oferta de algo melhor e mais barato, sem que
haja restrição acarretada pelos privilégios concedidos àqueles cujos interesses
estabelecidos são afetados pela inovação. Um recém-chegado que quiser desafiar
os interesses estabelecidos das firmas existentes precisa sobretudo de massa
cinzenta e de ideias. Se o seu projeto é capaz de satisfazer os mais urgentes entre
os desejos ainda não atendidos dos consumidores, ou de fornecer bens por um
preço mais barato do que os que os fornecedores existentes oferecem, será bem
sucedido, apesar do tão falado tamanho e poder das firmas mais antigas.
A competição cataláctica não deve ser confundida com disputas esportivas ou
com concursos de beleza. O propósito dessas disputas e concursos é descobrir
quem é o melhor boxeador ou a garota mais bonita. A função social da competição
cataláctica, certamente, não é a de estabelecer quem é o mais destro, e
recompensá-lo com títulos e medalhas. Sua função é garantir a maior satisfação
possível do consumidor, numa dada situação das condições econômicas.
A igualdade de oportunidade não é um fator presente nas lutas de boxe e ou
concursos de beleza, nem nos outros campos de competição, sejam eles biológicos
ou sociais. A imensa maioria das pessoas está, pela estrutura fisiológica de seu
corpo, impossibilitada de ganhar o título de campeão de boxe ou de rainha da
beleza. Muito poucas pessoas podem competir no mercado como cantores de ópera
e artistas de cinema. Os professores universitários são os que têm a situação mais
favorável para competir no campo das descobertas científicas. Entretanto, milhares
e milhares de professores passam sem deixar nenhum rastro na história das ideias
e do progresso científico, enquanto muitas pessoas, mesmo sem as vantagens da
universidade, alcançam a glória por suas contribuições extraordinárias.
É comum condenar o fato de a competição cataláctica não oferecer a todos a
mesma oportunidade. O começo é muito mais difícil para um menino pobre do que
para o filho de um homem rico. Mas os consumidores não estão interessados em
saber se aqueles que os servem começaram suas carreiras em condições de
igualdade. Seu único interesse é assegurar a melhor satisfação possível de suas
necessidades. Como, nesse sentido, o sistema de transmissão hereditária funciona
melhor, eles o preferem em vez de outros sistemas menos eficientes. Consideram
as coisas do ponto de vista da conveniência e do bem estar sociais e não do ponto
de vista de um legado, imaginário e irrealizável direito natural de cada indivíduo
competir com chances iguais. Para tornar real este direito, seria necessário colocar
em desvantagem os que nascem mais bem dotados intelectualmente e com maior
força de vontade que a maioria das pessoas. É óbvio que isso seria um absurdo.
O termo competição é empregado, principalmente, como antítese de monopólio.
No entanto, o termo monopólio é aplicado com significados diferentes que precisam
ser claramente diferenciados.
A primeira conotação de monopólio, frequentemente implícita no uso popular do
termo, significa um estado de coisas no qual o monopolista, seja ele um indivíduo
ou um conjunto de indivíduos, tem o controle exclusivo de algo que é vital para as
condições de sobrevivência do homem. Este monopolista tem o poder de matar de
fome todos aqueles que não obedeçam às suas ordens. Determina, e os outros não
têm alternativa: ou se submetem ou morrem. Em tal situação de monopólio, não
há nem mercado nem competição cataláctica. O monopolista é o senhor e os
outros são escravos inteiramente dependentes das suas boas graças. Não há
necessidade de se estender sobre este tipo de monopólio. Ele não tem nenhuma
relação com uma economia de mercado. Basta dar um exemplo: um estado
socialista universal exerceria esse monopólio absoluto e total; teria o poder de
arrasar seus oponentes, fazendo-os morrer de fome.185
A segunda conotação de monopólio difere da primeira, na medida em que
descreve uma situação compatível com as condições de uma economia de
mercado. Um monopolista, neste caso, é um indivíduo, ou um grupo de indivíduos
agindo coordenadamente, que tem o controle exclusivo da oferta de uma
determinada mercadoria. Se definirmos o termo monopólio dessa maneira, o
monopólio está por toda parte. Os produtos de cada indústria de transformação são
mais ou menos diferentes uns dos outros. Cada fábrica produz produtos diferentes
daqueles produzidos por outra fábrica. Cada hotel tem o monopólio da venda dos
seus serviços no local onde está situado. Os serviços profissionais prestados por um
médico ou por um advogado nunca são exatamente iguais aos prestados por outro
médico ou advogado. Exceto quanto a certas matérias-primas, gêneros alimentícios
e outros produtos de uso corrente, o monopólio está por toda parte no mercado.
Seja como for, o mero fenômeno do monopólio não tem significado ou
importância para o funcionamento do mercado e para a determinação de preços.
Por si só, não outorga ao monopolista qualquer vantagem na venda de seus
produtos. Em virtude da lei dos direitos autorais, qualquer versejador tem o
monopólio da venda de sua poesia. Mas isso não influencia o mercado. Pode ser
que nenhum preço possa ser obtido em pagamento de seus versos e que seus
livros só possam ser vendidos a peso.
O monopólio, nessa segunda acepção da palavra, torna-se um fator para a
determinação dos preços, somente se a curva da demanda do produto
monopolizado tiver uma forma específica. Se as condições são de tal ordem que o
monopolista possa assegurar para si mesmo maiores receitas líquidas, ao vender
uma quantidade menor de seu produto por um preço mais elevado em vez de
vender uma quantidade maior por um preço mais baixo, estamos diante de um
preço monopolístico maior do que o preço que o produto alcançaria no mercado, se
não houvesse o monopólio. Os preços monopolísticos são um importante fenômeno
do mercado, enquanto que o monopólio em si só tem importância se puder resultar
na formação de preços monopolísticos.
Costumam-se chamar de preços competitivos aqueles que não são
monopolísticos. Embora se questione a adequação dessas terminologias, elas são
geralmente aceitas e seria difícil substituí-las. Mas devemos precaver-nos contra
possíveis interpretações errôneas. Seria um grave erro deduzir da antítese preço
monopolístico/preço competitivo que o primeiro é o resultado da ausência de
competição. No mercado, há sempre competição cataláctica. A competição
catalática é um fator para determinação de preços monopolísticos, tanto quanto o
é para a determinação de preços competitivos. A forma da curva de demanda que
torna possível o surgimento de preços monopolísticos e que orienta o
comportamento do monopolista é determinada pela competição de todas as outras
mercadorias que disputam o dinheiro dos compradores. Quanto mais alto o
monopolista fixa o preço pelo qual está disposto a vender, maior será o número de
compradores potenciais que usarão seu dinheiro para comprar outros bens. No
mercado, toda mercadoria compete com todas as outras mercadorias.
Há quem sustente que a teoria cataláctica dos preços não serve para o estudo da
realidade porque nunca houve competição “livre” ou porque, pelo menos, hoje em
dia, ela não existe mais. Todas es sas doutrinas estão erradas.186 Interpretam
erradamente o fenômeno e simplesmente desconhecem o verdadeiro significado do
que seja competição. Inegavelmente, a história das últimas décadas registra um
elenco de políticas que visam a restringir a competição. A intenção manifesta
dessas disposições é a de assegurar privilégios a certos grupos de produtores,
protegendo-os da competição com rivais mais eficientes. Em muitos casos, foram
essas políticas que produziram as condições necessárias à emergência de preços
monopolísticos. Em muitos outros casos, apenas impediram muitos capitalistas,
empresários, agricultores e trabalhadores de entrarem naqueles setores de
atividade onde teriam prestado melhores serviços aos seus concidadãos. A
competição cataláctica tem sido seriamente restringida, mas, ainda assim, a
economia de mercado continua operando, embora prejudicada pela interferência do
governo e dos sindicatos. O sistema de competição cataláctica continua
funcionando, embora a produtividade do trabalho tenha sido seriamente diminuída.
O objetivo final dessas políticas anticompetitivas é substituir o capitalismo por um
sistema socialista de planejamento no qual não haja mais competição cataláctica.
Enquanto vertem lágrimas de crocodilo sobre o declínio da competição, os
planejadores querem abolir esse sistema competitivo “louco”. Em alguns países
conseguiram atingir seu objetivo. Mas, no resto do mundo, conseguiram apenas
restringir a competição em alguns setores de atividade e aumentar o número de
competidores em outros.
As forças que visam à restrição da competição representam um papel essencial
nos dias de hoje. É uma tarefa importante para a história de nosso tempo analisar
essa realidade. A teoria econômica não necessita dedicar ao tema uma atenção
particular. O fato de existirem barreiras comerciais, privilégios, cartéis, monopólios
estatais e sindicatos é meramente um dado da história econômica. Não requer
nenhum teorema específico para sua interpretação.
6. Liberdade
Os filósofos e os juristas têm-se esforçado para definir o conceito de liberdade.
Não se pode afirmar que estes esforços tenham sido bem-sucedidos.
O conceito de liberdade só faz sentido na medida em que se refere às relações
inter-humanas. Existiram autores que nos falaram de uma liberdade original –
natural – de que o homem teria desfrutado num mítico estado natural anterior ao
estabelecimento das relações sociais. Entretanto, esses indivíduos ou famílias
econômica e mentalmente autossuficientes, vagando pelo mundo, só eram livres
na medida em que não encontravam pela frente alguém mais forte. Na impiedosa
competição biológica, o mais forte tinha sempre razão e o mais fraco não tinha
outra escolha a não ser a submissão incondicional. O homem primitivo certamente
não nasceu livre.
Somente no contexto de um sistema social é que se pode atribuir um significado
à palavra liberdade. No sentido praxeológico, o termo liberdade refere-se à
situação na qual um indivíduo tem a possibilidade de escolher entre modos de ação
alternativos. Um homem é livre na medida em que lhe seja permitido escolher os
seus fins e os meios a empregar para atingi-los. A liberdade de um homem é
rigidamente restringida pelas leis da natureza, bem como pelas leis da praxeologia.
Ele não pode pretender atingir fins incompatíveis entre si. Há prazeres que
provocam efeitos determinados no funcionamento do corpo e da mente; se quiser
desfrutá-los, terá de sofrer as consequências. Seria absurdo dizer que o homem
não é livre porque não pode, digamos drogar-se, sem sofrer as inevitáveis
consequências consideradas como altamente indesejáveis. Embora isso seja
evidente para todas as pessoas de bom senso, esta evidência não é bem percebida
em situações análogas sujeitas às leis da praxeologia.
O homem não pode, ao mesmo tempo, pretender ter as vantagens decorrentes
da cooperação pacífica em sociedade, sob a égide da divisão do trabalho, e
permitir-se uma conduta que inevitavelmente terminará por desintegrar a
sociedade. Tem necessariamente de escolher entre o respeito a certas regras que
tornam a vida em sociedade possível ou a pobreza e a insegurança, se preferir
“viver perigosamente”, num estado de guerra constante entre indivíduos
independentes. Esta é uma lei tão exata na determinação do resultado da ação
humana como um todo quanto são as leis da física.
Entretanto, há uma diferença muito importante entre as sequelas que resultam
de um desrespeito às leis da natureza e as que resultam de um desrespeito às leis
da praxeologia. É claro que ambas as categorias de leis são autoimpositivas; não
há necessidade de que ninguém obrigue ao seu cumprimento. Mas os efeitos do
seu descumprimento são diferentes. Um homem que ingere veneno só prejudica a
si mesmo. Mas um homem que recorre ao roubo prejudica a ordem social como um
todo. Enquanto ele desfruta, em curto prazo, das vantagens de sua ação, os efeitos
maléficos em longo prazo prejudicam todo mundo. Seu ato é um crime porque tem
efeitos prejudiciais para toda a coletividade. Se a sociedade não obstar tal conduta,
esta não tardará a se generalizar, pondo um fim à cooperação social e aos
benefícios que daí derivam para todos.
A fim de estabelecer e preservar a cooperação social e a civilização são
necessárias medidas para impedir que indivíduos antissociais cometam atos que
poderiam desfazer tudo o que o homem realizou desde que saiu das cavernas. Para
preservar um estado de coisas onde haja proteção do indivíduo contra a ilimitada
tirania dos mais fortes e mais hábeis, é necessária uma instituição que reprima a
atividade antissocial. A paz – ausência de luta permanente de todos contra todos –
só pode ser alcançada pelo estabelecimento de um sistema no qual o poder de
recorrer à ação violenta é monopolizado por um aparato social de compulsão e
coerção, e a aplicação deste poder em qualquer caso individual é regulada por um
conjunto de regras – as leis feitas pelo homem, distintas tanto das leis da natureza
como das leis da praxeologia. O que caracteriza um sistema social é a existência
desse aparato, comumente chamado de governo.
Os conceitos de liberdade e servidão só fazem sentido quando se referem à forma
de funcionamento do governo. Seria impróprio e desorientador dizer que um
homem não é livre porque, querendo permanecer vivo, não pode escolher
livremente entre beber água e beber cianureto de potássio. Seria também
inadequado dizer que um homem não é livre porque a lei impõe sanções ao seu
desejo de matar outro homem e porque a polícia e os tribunais são encarregados
de aplicar estas sanções. Na medida em que o governo – o aparato social de
compulsão e opressão – limita o emprego da violência e da ameaça de violência à
supressão e prevenção de atividades antissociais, prevalece aquilo que, razoável e
significativamente, pode ser chamado de liberdade. O que é reprimido é
unicamente a conduta capaz de provocar a desintegração da cooperação social e
da civilização, remetendo o homem de volta às condições que existiam à época em
que o homo sapiens emergiu da existência, puramente animal de seus ancestrais
pré-humanos. Tal coerção não restringe substancialmente o poder de escolha do
homem. Mesmo que não houvesse um governo para aplicar as leis feitas pelo
homem, o indivíduo não poderia ter, ao mesmo tempo, as vantagens derivadas da
existência da cooperação social e o prazer de se entregar, sem restrições, aos seus
instintos animais, predatórios e agressivos.
Na economia de mercado, numa organização social do tipo laissez-faire, há um
campo onde o indivíduo é livre para escolher entre as diversas possibilidades de
ação sem ser reprimido pela ameaça de punição. Contudo, o governo, quando vai
além da proteção das pessoas contra a fraude e a violência dos indivíduos
antissociais, reduz a liberdade de ação do indivíduo mais do que lhe restringiriam
as leis praxeológicas. Assim, podemos definir liberdade como o estado de coisas no
qual a faculdade de o indivíduo escolher não é mais limitada pela violência do
governo do que o seria, de qualquer forma, pela lei praxeológica.
É isso que deve ser entendido quando se define liberdade como a condição de um
indivíduo no contexto de uma economia de mercado. Ele é livre no sentido em que
as leis e o governo não o obrigam a renunciar à sua autonomia e autodeterminação
em maior medida do que o obrigaria, inexoravelmente, a lei praxeológica. Priva-se
apenas da liberdade animal de viver sem qualquer preocupação com os outros
seres da sua própria espécie. O que se consegue através do aparato social de
compulsão e coerção é o impedimento da ação de indivíduos cuja malignidade,
imediatismo ou inferioridade mental impossibilita a compreensão de que, ao
praticarem atos lesivos à sociedade, estão prejudicando a si mesmos e a todos os
outros seres humanos.
Isto posto devemos examinar se o problema frequentemente levantado do
serviço militar e da cobrança de impostos constitui uma restrição da liberdade. Se
os princípios da economia de mercado fossem reconhecidos por todos os povos do
mundo, não haveria razão para guerras e cada estado poderia viver em paz.187
Mas, dadas as condições de nosso tempo, uma nação livre está permanentemente
ameaçada pelos programas agressivos das autocracias totalitárias. Se quiser
preservar sua liberdade, deve estar preparada para defender sua independência.
Se o governo de um país livre obriga seus cidadãos a cooperarem para repelir o
agressor, e obriga todos os homens capazes a fazerem o serviço militar, não está
impondo aos indivíduos uma obrigação maior do que a prescrita pela lei
praxeológica. Num mundo de constante agressão e dominação, o pacifismo integral
e incondicional equivale a uma submissão incondicional ao mais impiedoso dos
opressores. Quem quiser permanecer livre deve combater até a morte aqueles que
pretendem privá-lo de sua liberdade. Uma vez que tentativas individuais isoladas
estão fadadas ao fracasso, a única forma viável de defesa é encarregar o governo
de organizá-la. A tarefa essencial do governo é defender o sistema social, não
apenas contra os malfeitores internos, mas também contra os inimigos externos.
Aquele que, nos dias de hoje, se opõe ao armamento e ao serviço militar está
sendo cúmplice, talvez até mesmo sem percebê-lo, dos que visam à escravização
geral.
A manutenção de um aparato governamental de tribunais, polícias, prisões e
forças armadas requer despesas consideráveis. Cobrar impostos para pagar estas
despesas é inteiramente compatível com a liberdade que um indivíduo desfruta
numa economia de livre mercado. Tal afirmativa, evidentemente, não significa
justificar os métodos de taxação discriminatória e confiscatória utilizados hoje em
dia pelos governos que se dizem progressistas. É necessário enfatizar este fato
porque, nessa nova era de intervencionismo e de firme “progresso” na direção do
totalitarismo, o governo emprega o poder de tributar para destruir a economia de
mercado.
Cada passo do governo, além das suas funções essenciais de proteção do
tranquilo funcionamento da economia de mercado contra a agressão interna ou
externa, é um passo a mais no caminho que conduz diretamente a um sistema
totalitário, no qual não haja liberdade alguma.
Liberdade e autonomia são condições asseguradas ao homem, na sociedade, por
contrato. A cooperação social num sistema de propriedade privada dos meios de
produção significa que, no âmbito do mercado, o indivíduo não é obrigado a
obedecer e a servir nenhum soberano. Na medida em que serve outras pessoas, o
faz por sua própria vontade, a fim de ser recompensado e servido por elas. Troca
bens e serviços; não realiza trabalho compulsório nem presta homenagens.
Certamente, não é independente. Depende dos outros membros da sociedade. Mas
essa dependência é mútua. O comprador depende do vendedor e o vendedor do
comprador.
A grande preocupação de muitos escritores dos séculos XIX e XX foi deturpar e
desvirtuar essa evidente realidade. Os trabalhadores, diziam eles, estão à mercê
dos seus empregadores. Ora, é verdade que o empregador tem o direito de
despedir o empregado. Mas usar esse direito para satisfazer seus caprichos
prejudica os seus próprios interesses. É desvantajoso dispensar um bom
trabalhador e substituí-lo por outro menos eficiente. O mercado não impede
diretamente que alguém prejudique arbitrariamente seus concidadãos;
simplesmente impõe uma penalidade a tal comportamento. O lojista tem liberdade
para ser rude com seus clientes, mas terá de arcar com as consequências. Os
consumidores têm liberdade para boicotar um fornecedor, mas terão de suportar o
custo correspondente. No mercado, o que impele todo indivíduo a fazer o máximo
esforço para servir seu semelhante e o que reprime tendências inatas à
malignidade e ao arbítrio não é a compulsão e coerção por parte dos policiais,
verdugos ou tribunais: é o interesse pessoal. O membro de uma sociedade por
contrato é livre porque ele só serve os outros ao servir a si mesmo. O que o limita
é apenas o inevitável fenômeno natural da escassez. No mais, tem plena liberdade
de ação no âmbito do mercado.
Não há outro tipo de liberdade e autonomia diferente daquela proporcionada pela
economia de mercado. Numa sociedade hegemônica e totalitária, a única liberdade
de que o indivíduo dispõe, porque não lhe pode ser negada, é a liberdade de
cometer suicídio.
O estado, o aparato social de coerção e compulsão, é necessariamente um poder
hegemônico. Se o governo tivesse a possibilidade de expandir o seu poder ad
libitum, poderia abolir a economia de mercado e substituí-la por um socialismo
totalitário onipresente. Para evitar isso, é necessário controlar o poder do governo.
É esse o objetivo de todas as constituições, declarações de direitos e leis. Esse é o
significado de todas as lutas que os homens têm travado pela liberdade.
Os detratores da liberdade, nesse sentido, têm razão ao considerar que este é um
problema “burguês” e ao acusar os direitos que garantem a liberdade de serem
expressos sob a forma negativa. Tratando-se do estado e do governo, liberdade
significa impor uma limitação ao exercício do poder policial.
Não seria necessário dar tanta ênfase a este fato óbvio, se os partidários da
abolição da liberdade não tivessem intencionalmente provocado uma confusão
semântica. Eles perceberam que seria inútil lutar aberta e sinceramente em favor
da servidão e da repressão. O ideal de liberdade tinha tal prestígio, que nenhuma
propaganda poderia abalar sua popularidade. Desde tempos imemoriais, para a
civilização ocidental a liberdade tem sido considerada como o mais precioso dos
bens. O que deu ao Ocidente sua proeminência foi precisamente a preocupação
com a liberdade, um ideal social estranho aos povos orientais. A filosofia social do
Ocidente é essencialmente uma filosofia de liberdade. O conteúdo principal da
história da Europa e das comunidades fundados por emigrantes europeus e por
seus descendentes em outras partes do mundo é a luta pela liberdade. Um
individualismo “vigoroso” caracteriza a nossa civilização. Nenhum ataque frontal à
liberdade individual teria a menor chance de ser bem-sucedido.
Foi por isso que os defensores do totalitarismo escolheram outra tática. Eles
inverteram o sentido das palavras. Consideram como liberdade autêntica ou
verdadeira a situação dos indivíduos num sistema no qual o único direito é o de
obedecer a ordens. Nos Estados Unidos, eles se autointitulam os verdadeiros
liberais porque são favoráveis a um regime dessa natureza. Chamam de
democráticos os métodos do governo ditatorial russo. Chamam os métodos
violentos e coercitivos empregados pelos sindicatos de “democracia industrial”.
Chamam de liberdade de imprensa um sistema em que só o governo seja livre para
publicar livros e jornais. Definem liberdade como a faculdade de fazer o que é
“correto” e, obviamente, reservam-se o direito de determinar o que é correto e o
que não é. Para eles, a onipotência do governo é sinônimo de plena liberdade.
Remover todas as limitações do poder de polícia, eis o verdadeiro significado do
que chamam de luta pela liberdade.
A economia de mercado, dizem esses pseudoliberais, assegura a liberdade
somente a uma classe de exploradores parasitas, a burguesia. Esses salafrários
gozam da liberdade de escravizar as massas. O assalariado não é livre; trabalha
duro para o benefício exclusivo de seu patrão, o empregador. Os capitalistas se
apropriam daquilo que, segundo os direitos inalienáveis do homem, devia pertencer
ao trabalhador. No socialismo, o trabalhador desfrutará da liberdade e da dignidade
porque não será mais escravo de um capitalista. O socialismo significa a
emancipação do homem comum, significa liberdade para todos. Significa, além
disso, riqueza para todos.
Essas doutrinas puderam triunfar porque não tiveram pela frente uma crítica
racional efetiva. Alguns economistas, brilhantemente, desmascararam esses erros
grosseiros e essas contradições. Mas o público ignora os ensinamentos da
economia. Os argumentos usados contra o socialismo, pela média dos políticos e
escritores, são tolos ou irrelevantes. É inútil defender um alegado direito “natural”
de os indivíduos possuírem propriedades, se outras pessoas afirmam que o
principal direito “natural” é o da igualdade de renda. Tais disputas jamais serão
decididas. De nada adianta criticar aspectos não essenciais ou menores do
programa socialista. Não se refuta o socialismo atacando sua posição em relação à
religião, ao casamento, ao controle da natalidade e à arte. Além do mais, os
críticos do socialismo, frequentemente, trataram essas questões de forma
equivocada.
Apesar dessas sérias deficiências dos defensores da liberdade econômica, era
impossível que todos se iludissem, o tempo todo, quanto às características
essenciais do socialismo. Os mais fanáticos planejadores foram forçados a admitir
que seus projetos envolviam a abolição de muitas liberdades de que as pessoas
usufruíam num regime capitalista “plutodemocrático”. Sentindo-se pressionados,
recorreram a um novo subterfúgio. A liberdade a ser abolida, enfatizaram, é apenas
a espúria liberdade “econômica” dos capitalistas, que prejudica o homem comum.
Fora do “campo econômico” a liberdade será não só preservada, mas
consideravelmente aumentada. “Planejamento para a liberdade” está tornando-se
ultimamente o slogan mais popular dos partidários do governo totalitário e da
russificação de todas as nações.
A falácia desse argumento deriva de uma consideração espúria, qual seja a de
separar, como se fossem distintos na vida e na ação humana, o campo
“econômico” do campo “não econômico”. Em relação a esse assunto não é
necessário acrescentar nada ao que já foi dito anteriormente neste livro. Não
obstante, há outro ponto que precisa ser esclarecido.
A liberdade, tal como dela desfrutaram as pessoas nas democracias da civilização
ocidental na época em que prevalecia o velho liberalismo, não era o produto de
constituições, declarações de direitos, leis ou regulamentos. Estes documentos
visavam apenas a salvaguardar a liberdade, firmemente estabelecida pelo
funcionamento do mercado, contra os abusos cometidos pelos detentores do poder.
Nenhum governo e nenhuma lei civil podem garantir ou propiciar um clima de
liberdade, a não ser pela defesa e sustentação das instituições fundamentais em
que se baseia a economia de mercado. Governo significa sempre coerção e
compulsão e, por necessidade, é o oposto de liberdade. O governo é um garantidor
da liberdade e só é compatível com a liberdade se seu campo de ação é
adequadamente restringido à preservação do que chamamos de liberdade
econômica. Onde não há economia de mercado, as provisões constitucionais e
legais, por melhor intencionadas que sejam, permanecem como letra morta.
A liberdade do homem no regime capitalista é fruto da competição. O trabalhador
não depende das boas graças de um empregador. Se o empregador o dispensa, ele
encontra outro emprego.188 O consumidor não está à mercê do lojista. É livre para
comprar em outra loja, se preferir. Ninguém precisa beijar a mão de outras pessoas
ou temer seu desfavor. As relações interpessoais são de natureza prática. A troca
de bens e serviços é mútua; comprar e vender não é um favor, é uma transação
movida pelo interesse de ambas as partes.
É certo que, na qualidade de produtor, todo homem depende, seja diretamente –
como no caso do empresário —, seja indiretamente – como no caso do trabalhador
assalariado —, da demanda dos consumidores. Entretanto, esta dependência da
supremacia dos consumidores não é ilimitada. Se alguém tiver fortes razões para
desafiar a soberania do consumidor, pode fazê-lo. No âmbito do mercado, todos
têm o pleno direito de resistir à opressão. Ninguém é forçado a produzir bebidas ou
armas, se isso lhe pesa na consciência. É possível que tenha de pagar um preço por
suas convicções; não há, neste mundo, nenhum objetivo que possa ser alcançado
de graça. Cabe a cada um decidir entre uma vantagem material e aquilo que
considera seu dever. Na economia de mercado, cada indivíduo é o árbitro supremo
no que diz respeito à sua própria satisfação.189
A sociedade capitalista só tem um meio de obrigar um indivíduo a mudar sua
ocupação ou local de trabalho: pagar menos àqueles que não querem ajustar-se
aos desejos do consumidor. É exatamente esse tipo de pressão para mudar de
ocupação ou de local de trabalho que muitas pessoas consideram inadmissível e
esperam que venha a ser abolido pelo socialismo. São incapazes de compreender
que a única alternativa possível consiste em atribuir às autoridades amplos poderes
para determinar qual o setor e qual o local de trabalho de cada um.
Na qualidade de consumidor, o homem não é menos livre. É ele quem resolve o
que é mais e o que é menos importante para si mesmo. Escolhe a forma de gastar
o seu dinheiro de acordo com a sua própria vontade.
A substituição da economia de mercado pelo planejamento econômico elimina a
liberdade e deixa ao indivíduo um direito apenas: o de obedecer. A autoridade que
comandar todas as questões econômicas controlará todos os aspectos da vida e da
atividade de um homem. Será o único empregador. O trabalho será compulsório
porque o empregado terá de aceitar o que o chefe se dignar a lhe oferecer. O tzar
econômico determinará qualitativa e quantitativamente o que o consumidor poderá
consumir. Não haverá setor da vida humana onde uma decisão seja tomada com
base nos julgamentos de valor do indivíduo. As autoridades escolhem as tarefas de
cada um, providenciam o seu treinamento e designam o local e forma de trabalho
que julgarem mais convenientes.
Tão logo seja removida a liberdade econômica que o mercado proporciona aos
seus participantes, todas as liberdades políticas e declarações de direitos tornamse uma farsa. O habeas corpus e a instituição do júri são uma impostura se, a
pretexto de conveniência econômica, a autoridade tiver o poder necessário para
deportar para o polo ártico ou para o deserto qualquer cidadão que lhe desagrade,
condenando-o a “trabalhos forçados” por toda a vida. A liberdade de imprensa é
um mero subterfúgio, se a autoridade controla as gráficas e as usinas de papel. E
também o são todos os demais direitos do homem.
Um homem é livre na medida em que possa moldar a sua vida segundo seus
próprios planos. Um homem cuja sorte seja determinada pelos planos de uma
autoridade superior – que detém o poder de planejar – não é livre no sentido com
que o termo “livre” foi usado e entendido por todo o mundo, até que a revolução
semântica de nossos dias tivesse provocado uma confusão no sentido das palavras.
7. A desigualdade de riqueza e de renda
A desigualdade de riqueza e de renda é uma característica essencial da economia
de mercado.
O fato de a liberdade ser incompatível com a igualdade de riqueza e de renda
tem sido salientado por muitos autores. Não é necessário proceder a um exame
dos argumentos emocionais utilizados em seus escritos. Tampouco é necessário
perguntar se a renúncia à liberdade poderia por si mesma, garantir o
estabelecimento da igualdade de riqueza e de renda, e se uma sociedade poderia
subsistir com base em tal igualdade. Nossa tarefa consiste meramente em
descrever o papel da desigualdade no quadro da sociedade de mercado.
Na sociedade de mercado, a compulsão direta e a coerção só podem ser
empregadas para prevenir atos prejudiciais à cooperação social. No mais, a polícia
não interfere na vida dos cidadãos. Quem respeita as leis não precisa temer
carcereiros e verdugos. A pressão necessária para obrigar um indivíduo a contribuir
para o esforço conjunto de produção é exercida pela estrutura de preços do
mercado. Essa pressão é indireta. Confere à contribuição de cada indivíduo uma
recompensa proporcional ao valor que os consumidores atribuem a essa
contribuição. Ao premiar os esforços dos indivíduos segundo seu valor, deixa a cada
um a escolha entre uma maior ou menor utilização de suas próprias faculdades e
aptidões. Este método não pode, evidentemente, eliminar as desvantagens da
inferioridade pessoal inata. Mas provê um incentivo para que todos apliquem, ao
máximo, suas faculdades e aptidões.
A única alternativa a essa pressão financeira, tal como a exerce o mercado, é a
pressão direta e coercitiva exercida pelo aparato policial. As autoridades devem ser
incumbidas da tarefa de determinar a quantidade e qualidade de trabalho que cada
indivíduo é obrigado a realizar. O fato de os indivíduos serem diferentes no que
concerne a suas aptidões faz com que seja necessário o exame de suas
personalidades por parte das autoridades. O indivíduo se torna, por assim dizer, um
recluso de uma penitenciária, a quem é atribuída uma determinada tarefa. Se não
conseguir cumprir o que as autoridades lhe prescreveram, será passível de punição.
É importante perceber em que consiste a diferença entre a pressão direta
exercida para impedir uma ação criminosa e a exercida para extorquir uma
determinada performance. No primeiro caso, tudo o que se requer do indivíduo é
que ele se abstenha de certo comportamento definido com precisão pela lei. De
uma maneira geral, é fácil constatar se a interdição foi, ou não, observada. No
segundo caso, o indivíduo é compelido a realizar uma tarefa determinada; a lei o
obriga a realizar uma ação indefinida, cuja determinação fica a cargo da decisão do
poder executivo. O indivíduo é obrigado a obedecer às ordens da administração,
quaisquer que elas sejam. Se forem adequadas às suas forças e faculdades e se o
indivíduo empregou o melhor de seus esforços, é algo extremamente difícil de
saber. A conduta e a personalidade de todo cidadão ficam subordinadas às
decisões das autoridades. Na economia de mercado, diante de um tribunal, o
promotor é obrigado a apresentar evidência suficiente da culpa do acusado. Mas,
quando se trata de executar um trabalho obrigatório, cabe ao acusado provar que a
tarefa que lhe foi atribuída estava além de suas possibilidades ou que fez o melhor
que podia. Os administradores combinam na mesma pessoa as funções de
legislador, de poder executivo, de promotor público e de juiz. Os acusados ficam
inteiramente à sua mercê. É isso que as pessoas têm em mente, quando falam de
falta de liberdade.
Nenhum sistema de divisão social do trabalho pode prescindir de um método que
torne os indivíduos responsáveis por sua contribuição ao esforço conjunto de
produção. Se essa responsabilidade não for estabelecida pela estrutura de preços
do mercado, com a consequente desigualdade de renda e de riqueza, deverá ser
imposta pelos métodos de compulsão habitualmente empregados pela polícia.
8. Lucro e perda empresarial
Lucro, no sentido mais amplo, é o ganho decorrente da ação; o aumento de
satisfação (redução de desconforto) obtido; é a diferença entre o maior valor
atribuído ao resultado obtido e o menor valor atribuído aos sacrifícios feitos para
obtê-lo; em outras palavras, é rendimento menos custo. Realizar um lucro é
invariavelmente o objetivo de toda ação. Se uma ação não atinge aos objetivos
visados, o rendimento ou não excede os custos, ou lhes é inferior. Neste último
caso, o resultado é uma perda, uma diminuição de satisfação.
Lucro e perda, neste sentido original, são fenômenos psíquicos e, como tais, não
são suscetíveis de medição nem podem ser expressos de uma maneira tal que
informe a outras pessoas quanto à sua intensidade. Uma pessoa pode dizer que a
lhe convém mais do que b; mas não pode informar a outra pessoa, a não ser de
maneira vaga e imprecisa, em que medida a satisfação obtida de a excede a obtida
de b.
Na economia de mercado, tudo aquilo que é comprado e vendido em termos de
moeda tem seu preço estabelecido em dinheiro. No cálculo monetário, o lucro
aparece como um excedente do montante recebido sobre o despendido, enquanto
que a perda, como um excedente do montante despendido sobre o recebido. Lucro
e perda podem ser expressos em quantidades definidas de moeda. É possível
determinar, em termos de moeda, quanto um indivíduo ganhou ou perdeu.
Entretanto, esta não é uma constatação relativa ao lucro ou à perda psíquica do
indivíduo. É a constatação de um fenômeno social, da avaliação que os outros
membros da sociedade fazem da contribuição de um indivíduo ao esforço comum.
Não nos informa a respeito do aumento, ou diminuição de satisfação, ou felicidade
do indivíduo. Reflete apenas a avaliação que seus concidadãos fazem da sua
contribuição à cooperação social. Essa avaliação, em última análise, é determinada
pelos esforços que cada membro da sociedade faz, a fim de obter o maior lucro
psíquico possível. É o resultado do efeito composto de todos os julgamentos de
valor, pessoais e subjetivos, manifestados pela conduta das pessoas no mercado.
Mas essa avaliação não deve ser confundida com os julgamentos de valor em si.
Não podemos sequer imaginar uma situação em que as pessoas ajam sem a
intenção de obter um lucro psíquico e na qual suas ações não resultem nem em
lucro psíquico nem em perda psíquica.190 Na construção imaginária da economia
uniformemente circular191 não há nem lucros nem perdas em moeda. Mas todo
indivíduo obtém um lucro psíquico de suas ações, sem o que ele não agiria de
forma alguma. O fazendeiro alimenta e ordenha suas vacas e vende o leite porque
atribui um valor maior às coisas que pode comprar com o dinheiro assim ganho do
que aos custos incorridos. A ausência de lucros e perdas monetárias numa
economia uniformemente circular se deve ao fato de que, não se considerando as
diferenças provocadas pela maior valoração de bens presentes em relação a bens
futuros, a soma dos preços de todos os fatores complementares necessários à
produção é exatamente igual ao preço do produto.
No mundo real, diferenças entre a soma dos preços dos fatores complementares
de produção e os preços dos produtos aparecem a todo instante. São essas
diferenças que resultam em lucros e perdas monetárias. Mais adiante analisaremos
a maneira pela qual essas diferenças afetam os vendedores de trabalho, os
vendedores de fatores naturais de produção e os capitalistas, na qualidade de
emprestadores de dinheiro. Por ora, limitaremos nossa atenção ao lucro e perda do
empresário-promotor. É a essa situação que as pessoas se referem quando, em
linguagem corrente, empregam os termos lucro e perda.
O empresário, como todo agente homem, é sempre um especulador. Lida com
situações futuras e incertas. Seu sucesso ou fracasso dependem da acuidade com
que antecipa a ocorrência de eventos incertos. Se falhar no seu julgamento do que
deverá ocorrer, está condenado ao fracasso. A única fonte de onde brota lucro de
um empresário é a sua capacidade de antecipar melhor do que outras pessoas qual
será a demanda futura dos consumidores. Se todos fossem capazes de antecipar
corretamente qual seria, no futuro, a situação de mercado de uma determinada
mercadoria, o preço dessa mercadoria e os preços dos seus fatores
complementares de produção já estariam, desde hoje, ajustados a essa situação
futura. Nem lucro nem perda poderiam advir para aqueles que se lançassem nessa
atividade econômica.
A função específica do empresário é determinar a maneira pela qual devem ser
empregados os fatores de produção; é decidir com que objetivos específicos estes
devem ser utilizados. Ao fazê-lo, o empresário é guiado somente pelo seu interesse
egoísta de realizar lucros e acumular riqueza. Mas não pode iludir a lei do mercado.
Para ser bem sucedido, precisa servir melhor os consumidores. Seu lucro depende
da aprovação de sua conduta pelos consumidores.
Não devemos confundir lucro e perda empresarial com outras circunstâncias que
possam afetar os rendimentos do empresário.
A capacidade tecnológica do empresário, não afeta o lucro ou perda
especificamente empresarial. Quando a sua própria competência tecnológica
contribui para melhorar a rentabilidade do seu negócio e aumentar a sua renda
líquida, estamos diante de uma compensação por trabalho prestado. É um salário
pago ao empresário por esse trabalho. O fato de que nem todo processo de
produção seja tecnologicamente adequado para produzir o produto esperado
também não influencia o lucro ou perda especificamente empresarial. Tais falhas
são evitáveis ou não. No primeiro caso, devem-se à aplicação de uma tecnologia
ineficiente. Sendo assim, as perdas resultantes devem ser debitadas à deficiência
pessoal do empresário, isto é, à sua falta de capacidade tecnológica ou à sua
incapacidade para contratar auxiliares qualificados. No segundo caso, a falha se
deve ao fato de que o presente estágio do conhecimento tecnológico não nos dá
condições de controlar plenamente as circunstâncias das quais depende o êxito.
Esta deficiência pode ser causada tanto pelo conhecimento incompleto das
condições que conduziriam ao sucesso, como pela ignorância de métodos que
permitam controlar plenamente algumas das condições de sucesso já conhecidas.
Os preços dos fatores de produção levam em consideração esse estado
insatisfatório do nosso conhecimento e da nossa capacidade tecnológica. O preço
da terra arável, por exemplo, por ser determinada pelo rendimento médio
esperado, leva em conta o fato de existirem más colheitas. O fato de garrafas se
quebrarem, contribuindo, portanto, para a diminuição da produção de champanhe,
não afeta o lucro e perda empresarial. Trata-se apenas de um dos fatores que
determinam o custo de produção e o preço do champanhe.192
Os acidentes que afetam o processo de produção, os meios de produção ou os
produtos, enquanto ainda estão nas mãos do empresário, são um item do cálculo
de custo da produção. A experiência, que proporciona ao industrial todos os outros
conhecimentos tecnológicos, também lhe provê a informação acerca da redução
média da produção física que tais acidentes podem acarretar. Ao constituir reservas
de contingências, ele transforma estes efeitos em custos de produção. Quanto a
contingências cuja incidência é rara ou muito irregular para ser tratada dessa
maneira por firmas de tamanho normal, uma ação conjunta de um grupo de firmas
pode resolver o problema. As firmas cooperam entre si quando fazem um seguro
contra danos provocados por incêndio, inundação ou outras contingências
semelhantes. Neste caso, a provisão para contingências é substituída pelo prêmio
do seguro. De qualquer forma, os riscos decorrentes da possibilidade de acidentes
não introduzem incerteza no processo tecnológico.193 Se um empresário não cuida
deste problema como deveria, está dando uma prova de sua deficiência técnica. As
perdas daí decorrentes devem ser debitadas à aplicação de técnicas inadequadas e
não à sua função empresarial.
A eliminação dos empresários que deixam de dar às suas empresas um grau
adequado de eficiência tecnológica, ou cuja ignorância tecnológica vicia o cálculo
dos custos, é efetuada pelo mercado da mesma maneira como são eliminados os
empresários cujo desempenho nas funções tipicamente empresariais é deficiente.
Pode ocorrer que um empresário seja muito bem-sucedido na sua função
tipicamente empresarial, a ponto de compensar perdas provocadas por seus erros
tecnológicos. Também pode ocorrer que um empresário possa contrabalançar
perdas ocorridas por falhas na sua função empresarial com ganhos derivados de
sua superioridade tecnológica ou com rendimentos mais elevados ocasionados pela
maior produtividade dos fatores de produção que ele emprega. Mas não devemos
confundir as várias funções que estão misturadas na gestão de uma empresa. O
empresário mais eficiente do ponto de vista tecnológico ganha mais do que o
menos eficiente, sob a forma de salários ou quase salários, da mesma forma que o
trabalhador mais eficiente ganha mais do que o menos eficiente. A máquina mais
eficiente e o solo mais fértil produzem maiores quantidades físicas por unidade de
custo despendido; rendem um aluguel maior do que uma máquina menos eficiente
ou um solo menos fértil. Os salários mais altos e a renda maior são ceteris paribus,
o corolário de uma maior produção física. Mas os lucros e perdas especificamente
empresariais não são obtidos da quantidade material produzida. Dependem do
ajuste da produção aos desejos mais urgentes dos consumidores. São obtidos na
medida em que o empresário acerta, em maior ou menor extensão, ao antecipar o
estado futuro – necessariamente incerto – do mercado.
O empresário também está exposto a riscos políticos. As políticas
governamentais, as revoluções e as guerras podem prejudicar ou arruinar seus
negócios. Tais eventos, entretanto, não afetam apenas os empresários; afetam a
economia de mercado em si e todos os indivíduos, embora não todos na mesma
medida. Para cada empresário, esses eventos são dados que ele não pode alterar.
Se puder, ele os antecipará a tempo. Mas nem sempre lhe será possível ajustar
suas operações de maneira a evitar danos. Quando os perigos vislumbrados
atingem apenas uma parte do território onde exerce sua atividade, pode evitar
operar nessas áreas ameaçadas e preferir países onde o perigo seja menos
iminente. Mas se não puder emigrar, terá de ficar onde está. Mesmo se todos os
empresários estivessem plenamente convencidos de que a vitória total do
bolchevismo seria inevitável, nem por isso abandonariam suas atividades
empresariais. A expectativa de uma iminente expropriação impeliria os capitalistas
a consumir os seus haveres. Os empresários seriam forçados a ajustar seus planos
a essa nova situação do mercado, criada pelo aludido consumo de capital e pela
ameaça de estatização de suas indústrias e estabelecimentos comerciais. Mas, nem
por isso, os empresários deixariam de existir. Se alguns param, seu lugar é
ocupado por novos empresários ou por antigos empresários que expandem suas
atividades. Na economia de mercado haverá sempre empresários. As políticas
hostis ao capitalismo podem privar os consumidores da maior parte dos benefícios
que teriam se as atividades empresariais fossem livres. Mas não poderão eliminar
os empresários, a não ser que destruam inteiramente a economia de mercado.
O lucro e a perda empresarial derivam, em última análise, da incerteza quanto à
futura composição da oferta e da procura.
Se todos os empresários fossem capazes de antecipar corretamente o futuro
estado do mercado, não haveria lucros nem perdas. Os preços de todos os fatores
de produção já estariam hoje ajustados aos preços que os produtos teriam
amanhã. Ao comprar os fatores de produção, o empresário teria de desembolsar
(considerando a diferença de preço entre bens presentes e bens futuros) uma
quantia não menor do que a que os compradores lhe pagariam mais tarde pelo
produto. Um empresário só pode fazer um lucro se antecipar as condições futuras
mais corretamente do que outros empresários. Só assim pode comprar os fatores
de produção complementares por preços cuja soma, levando em conta a diferença
temporal, é menor do que o preço pelo qual vende o produto.
Se quisermos construir a imagem de uma economia cujas condições se alterem
permanentemente e na qual não haja lucros nem perdas, temos de recorrer a uma
hipótese irrealizável: a de que todos os indivíduos têm uma perfeita presciência de
todos os eventos futuros. Se os primitivos caçadores e pescadores, aos quais
habitualmente se atribui a primeira acumulação de capital, conhecessem de
antemão todas as vicissitudes futuras dos assuntos humanos, e se eles e seus
descendentes, até o dia do julgamento final, equipados com a mesma onisciência,
tivessem assim avaliado todos os fatores de produção, jamais teriam surgido os
lucros e as perdas empresariais. Lucros e perdas empresariais são criados pela
diferença entre os preços esperados e os preços reais fixados mais tarde pelo
mercado. É possível confiscar lucros e transferi-los dos indivíduos que os realizaram
para outras pessoas. Mas lucros e perdas jamais poderão desaparecer de um
mundo sujeito a mudanças, a não ser que esse mundo seja povoado por pessoas
oniscientes.
9. Lucros e perdas empresariais numa economia em
desenvolvimento
Na construção imaginária de uma economia estacionária, a soma dos lucros de
todos os empresários é igual à soma das perdas de todos os empresários. O que
um empresário lucra é, no total do sistema econômico, contrabalançado pela perda
de outro empresário. O que os consumidores gastam a mais para adquirir certa
mercadoria é contrabalançado pela redução de suas despesas na aquisição de
outras mercadorias.194
Numa economia em desenvolvimento as coisas se passam de forma diferente.
Chamamos de economia em desenvolvimento uma economia na qual a quota per
capita de capital investido está aumentando. Ao usar este termo, não estamos
expressando um julgamento de valor. Não adotamos nem o ponto de vista
“materialista”, segundo o qual tal progresso é bom, nem a visão “idealista”, que o
considera um mal ou, pelo menos, irrelevante um ponto de vista “mais elevado”. É
certamente inegável o fato de que a imensa maioria das pessoas considera as
consequências do progresso material como uma situação muito desejável e aspira
por condições que só podem ser realizadas numa economia em desenvolvimento.
Na economia estacionária, os empresários, no exercício de suas funções
específicas, não podem fazer mais do que retirar fatores de produção – admitindo
que eles sejam conversíveis para outros usos195 – de um setor de produção para
empregá-los num outro setor; ou, ainda, utilizar o equivalente à depreciação de
capital ocorrida no curso do processo de produção para expandir algum setor
industrial em detrimento de outro. Na economia em desenvolvimento, a gama de
atividades empresariais compreende, além disso, a determinação da utilização que
deve ser dada aos bens de capital adicionais, acumulados por novas poupanças. A
injeção desses bens adicionais de capital implica no aumento da renda total
produzida, isto é, no aumento da oferta de bens de consumo que podem ser
consumidos sem diminuir o capital disponível e, portanto, sem reduzir a quantidade
de produção futura. O aumento da renda é efetuado ou por uma expansão da
produção sem alteração dos métodos tecnológicos de produção, ou pelo
aperfeiçoamento dos métodos tecnológicos, o qual não teria sido possível se não
tivesse havido o aumento da quantidade de bens de capital.
É dessa riqueza adicional que emana o excedente dos lucros empresariais sobre
as perdas empresariais. E é fácil demonstrar que esse excedente não pode jamais
absorver o aumento total de riqueza produzido pelo progresso econômico. As leis
do mercado dividem essa riqueza adicional entre os empresários, os trabalhadores
e os proprietários de certos fatores materiais de produção de tal maneira que a
parte do leão vai para os grupos não empresariais.
Antes de qualquer coisa, devemos compreender que lucros empresariais não são
um fenômeno permanente e, sim, um fenômeno transitório. Há no que concerne
aos lucros e perdas, uma tendência inerente ao seu desaparecimento. O mercado
tende para a emergência de preços finais e para o estado de repouso final.196 Se
não ocorressem novas mudanças que interrompessem esse movimento e criassem
a necessidade de um ajuste da produção a essas novas condições, os preços de
todos os fatores complementares de produção – levando em conta devidamente a
preferência temporal – acabariam por ser iguais ao preço do produto, sem deixar
espaço para lucros ou perdas. Em longo prazo, qualquer aumento de produtividade
beneficia exclusivamente os trabalhadores e alguns grupos de proprietários de
terra e de bens de capital.
No grupo dos proprietários de bens de capital, são beneficiados:
1. Aqueles cuja poupança aumentou a quantidade de bens de capital disponíveis.
A eles pertence essa riqueza adicional, fruto da restrição de seu próprio consumo.
2. Os proprietários dos bens de capitais já existentes que, graças ao
aperfeiçoamento dos métodos tecnológicos de produção, podem utilizá-los melhor
do que antes. Evidentemente, tais ganhos são apenas temporários. Estão fadados
a desaparecer porque provocam uma intensificação da produção dos bens de
capital em questão.
Por outro lado, o aumento na quantidade de bens de capital disponíveis reduz a
produtividade marginal desses bens, provocando, desta forma, uma diminuição no
seu preço, e prejudicando assim todos aqueles capitalistas que não participaram,
ou pelo menos não suficientemente, do processo de poupança e da acumulação
dos bens de capital adicionais.
No grupo dos proprietários de terras são beneficiados todos aqueles para os quais
a nova disponibilidade de bens de capital resulta numa maior produtividade de
suas fazendas, florestas, pesqueiros, minas etc. Por outro lado, são prejudicados
todos aqueles cujas propriedades se tenham porventura tornado submarginais, em
virtude do maior rendimento obtido nas terras pertencentes aos que foram
beneficiados.
Quanto aos trabalhadores, todos obtêm ganhos duradouros decorrentes do
aumento na produtividade marginal do trabalho. Mas, por outro lado, em curto
prazo, alguns podem ser prejudicados; sobretudo aqueles que se especializaram na
realização de trabalhos tornados obsoletos em consequência da evolução
tecnológica e que, não sendo capazes de realizar outro tipo de tarefa, acabam
ganhando menos do que ganhavam antes, apesar do aumento geral no nível dos
salários.
Todas essas mudanças nos preços dos fatores de produção começam a ocorrer
tão logo tenham início as ações empresariais que ajustarão os processos de
produção às novas circunstâncias. Ao lidar com esse problema de mudança dos
dados do mercado, devemos precaver-nos contra a falácia popular de distinguir
como se fossem coisas diferentes, os efeitos a curto e em longo prazo. O que
ocorre em curto prazo são precisamente os primeiros estágios de uma cadeia de
transformações sucessivas que tende a produzir os efeitos de longo prazo. O efeito
de longo prazo é, no nosso caso, o desaparecimento dos lucros e perdas
empresariais. Os efeitos de curto prazo são os estágios preliminares desse processo
de eliminação que, finalmente – se não for interrompido por novas mudanças nos
dados —, resultaria numa economia uniformemente circular.
É necessário compreender que o próprio aparecimento de um excedente do total
de lucros empresariais sobre o total de perdas empresariais está intimamente
ligado ao fato de que o processo de eliminação do lucro e perda empresarial tem
seu início no mesmo momento em que os empresários começam a ajustar o
complexo de produção aos novos dados. Não há um instante sequer, ao longo de
toda essa sequência de eventos, em que as vantagens decorrentes do aumento de
capital disponível e dos aperfeiçoamentos técnicos beneficiem apenas os
empresários. Se a riqueza e a renda dos demais estratos sociais permanecessem
inalteradas, as pessoas só poderiam comprar os produtos adicionais pela restrição
proporcional de suas compras de outros produtos. Se fosse assim, os lucros de um
grupo de empresários seriam exatamente iguais às perdas incorridas por outros
grupos.
O que ocorre é o seguinte: os empresários, ao se engajarem na utilização dos
capitais recém acumulados e na aplicação de novos métodos tecnológicos de
produção, necessitam adquirir fatores de produção complementares. Sua demanda
por esses fatores é uma demanda adicional que provoca um aumento dos preços
dos fatores em questão. Somente na medida em que ocorra esse aumento nos
preços e salários, os consumidores estarão em condição de comprar os novos
produtos sem diminuir a compra de outros bens. Somente nessa medida pode
surgir um excedente do total de lucros empresariais sobre o total de perdas
empresariais.
O veículo do progresso econômico é a acumulação de capitais adicionais por meio
da poupança e do aperfeiçoamento dos métodos tecnológicos de produção, cuja
ocorrência está quase sempre condicionada pela existência dessa prévia
acumulação de capital. Os agentes do progresso são os empresário-promotores
interessados em obter lucros pelo ajuste de seus negócios de forma a satisfazer os
consumidores da melhor maneira possível. Ao realizar os seus projetos,
promovendo o progresso econômico, os empresários têm necessariamente de
dividir os benefícios decorrentes do progresso com os trabalhadores e também com
uma parte dos capitalistas e proprietários de terras, incrementando passo a passo
a participação desses grupos até que a sua própria parte desapareça inteiramente.
Pelo exposto, fica evidente quão absurdo é falar de uma “taxa de lucro”, ou de
“taxa normal de lucro”, ou de uma “taxa média de lucro”. O lucro não é função nem
depende da quantidade de capital empregado pelo empresário. O capital não
“gera” lucro. Lucros e perdas dependem exclusivamente do sucesso ou fracasso do
empresário ao ajustar a produção à demanda dos consumidores. Não há nada que
se possa chamar de “normal” ou “equilibrado” em relação a lucros. Pelo contrário,
lucros e perdas são sempre um fenômeno decorrente de um desvio da
“normalidade”, de mudanças não previstas pela maioria das pessoas, e de um
“desequilíbrio”. Não poderiam existir num mundo de normalidade e equilíbrio.
Numa economia em movimento prevalece sempre uma tendência ao
desaparecimento dos lucros e perdas. Somente a ocorrência de novas mudanças
pode fazer renascer os lucros e perdas. Numa situação estacionária a “taxa média”
de lucros e perdas é zero. Um excesso do total de lucros sobre o total de perdas é
uma prova do fato de estar havendo progresso econômico e melhora do nível de
vida de todos os estratos da população. Quanto maior esse excesso, maior o
incremento de prosperidade geral.
Muitas pessoas são absolutamente incapazes de lidar com o fenômeno do lucro
empresarial sem manifestar um sentimento de hostilidade invejosa. Para essas
pessoas, a fonte do lucro é a exploração dos assalariados e dos consumidores, isto
é, uma injusta redução dos salários e um não menos injusto aumento nos preços
dos produtos. De direito, não deveria haver lucro nenhum.
A economia é indiferente em relação a esses juízos de valores arbitrários. Não lhe
interesse saber se os lucros devem ser aprovados ou condenados do ponto de vista
de uma pretensa lei natural ou de um pretenso código de moralidade eterno e
imutável que só pode ser compreendido através da intuição pessoal ou da
revelação divina. A economia meramente estabelece o fato de que lucros e perdas
são fenômenos essenciais na economia de mercado. Não pode haver uma
economia de mercado sem eles. Certamente, é possível, para a polícia, confiscar
todos os lucros. Mas tal política, necessariamente, converteria a economia de
mercado num caos. Não há a menor dúvida de que o homem tem o poder de
destruir muitas coisas e, ao longo da história, tem usado amplamente este poder.
Ele também pode destruir a economia de mercado.
Se esses supostos moralistas não estivessem cegos pela sua própria inveja,
perceberiam que não se pode falar de lucro sem falar simultaneamente de seu
corolário, a perda. Não silenciariam sobre o fato de que as condições preliminares
para o desenvolvimento econômico são criadas por aquelas cuja poupança acumula
o capital adicional e pelos inventores; e de que a utilização dessas condições
favoráveis ao progresso econômico é efetuada pelos empresários. As demais
pessoas não contribuem para o progresso, mas são beneficiadas pela cornucópia de
abundância que a atividade de outros lhes enseja.
O que tem sido dito acerca da economia em desenvolvimento, mutatis mutandis,
pode ser aplicado às condições de uma economia em regressão, isto é, uma
economia na qual a quota de capital investido per capita está diminuindo. Numa tal
economia, há um excedente do total de perdas empresariais sobre o total de
lucros. Aqueles que não conseguem livrar-se do hábito enganoso de pensar em
termos de coletivos e de grupos inteiros poderiam levantar a questão: como
poderia haver atividade empresarial numa economia em recessão? Por que alguém
haveria de se lançar numa empresa se já sabe de antemão que suas chances de
ter lucros são matematicamente menores do que as chances de sofrer perdas?
Entretanto, este é um modo falacioso de colocar o problema. Os empresários, como
todo mundo, não agem como membros de uma classe, mas como indivíduos.
Nenhum empresário está preocupado com a sorte de todos os empresários. É
irrelevante para um determinado empresário o que acontece com outras pessoas
que as teorias, em função de certas características, catalogam como pertencentes
à mesma classe que ele. Na economia de mercado, viva e perpetuamente em
movimento, existem sempre lucros a serem auferidos por empresários eficientes. O
fato de que numa economia em regressão o total das perdas exceda o total dos
lucros não detém um homem que tenha confiança na sua própria capacidade. Um
empresário, ao conceber uma ação futura, não recorre ao cálculo de probabilidade,
que de nada lhe serve no campo da compreensão. Confia na sua própria
capacidade de compreender melhor as futuras condições do mercado do que na de
seus concidadãos menos dotados.
A função empresarial, o empenho dos empresários por obter lucros, é a força
motriz da economia de mercado. Lucro e perda são os instrumentos por meio dos
quais os consumidores exercem sua supremacia no mercado. O comportamento dos
consumidores engendra os lucros e as perdas e, desta forma, transfere a
propriedade dos meios de produção das mãos dos menos eficientes para as mãos
dos mais eficientes. Quanto melhor um homem servir os consumidores, mais
influente se tornará na direção das atividades econômicas. Se não houvesse lucro e
perda, os empresários não saberiam quais são as necessidades mais urgentes dos
consumidores. Mesmo que alguns empresários pudessem adivinhá-las, não teriam
os meios para ajustar corretamente a produção a elas.
A empresa que visa ao lucro está sujeita à soberania do consumidor, enquanto
que as instituições sem fim lucrativo não dependem da resposta do público. A
produção pelo lucro é necessariamente produção para o consumo, uma vez que os
lucros só podem ser ganhos quando se fornece aos consumidores aquilo que eles,
preferencialmente, desejam.
A crítica ao lucro feita pelos moralistas e pregadores erra o alvo. Não é culpa dos
empresários se o consumidor – o povo, o homem comum – prefere bebidas
alcoólicas à bíblia e romances policiais a livros sérios, e se o governo prefere
canhões à manteiga. O empresário não tem lucros maiores por vender coisas “más”
em vez de vender coisas “boas”. Seus lucros são tanto maiores quanto mais
consiga prover os consumidores com aquilo que eles mais desejam. As pessoas não
bebem bebidas fortes para satisfazer os “capitalistas do álcool”, nem vão à guerra
para aumentar os lucros dos “mercadores da morte”. A existência de uma indústria
de armamentos é consequência do espírito beligerante, não sua causa.
Não compete aos empresários fazer as pessoas substituírem ideologias malsãs
por ideologias saudáveis. Cabe aos filósofos mudar as ideias e os ideais das
pessoas. O empresário serve os consumidores tal como eles são hoje, por mais
perversos e ignorantes que sejam.
Podemos admirar aqueles que se abstêm de obter ganhos com a produção de
armas ou de bebidas alcoólicas. Entretanto, sua conduta louvável é um mero gesto
sem efeito prático. Mesmo que todos os capitalistas e empresários agissem assim,
a guerra e o alcoolismo não desapareceriam. Como ocorria na época précapitalista, os governos produziriam suas próprias armas e os bebedores
destilariam sua própria bebida.
A condenação moral do lucro
O lucro advém do ajuste da utilização dos fatores de produção materiais e
humanos às novas situações. É precisamente as pessoas a quem tal ajuste da
produção favorece que, competindo entre si e pagando preços que superam os
custos incorridos pelo vendedor, geram os lucros. O lucro empresarial não é uma
“recompensa” assegurada pelo cliente ao fornecedor que lhe serviu melhor do que
outro fornecedor indolente e rotineiro; é o resultado da avidez dos compradores em
sobrepujar outros que estão igualmente ansiosos em adquirir uma parte dos bens
cuja oferta é limitada.
Os dividendos das companhias são comumente chamados de lucros. Na realidade,
são juros sobre o capital investido mais uma parte dos lucros que não são
reinvestidos nas empresas. Se a empresa funciona mal, não pagando dividendos,
ou então os dividendos pagos correspondem apenas aos juros sobre todo o capital
ou somente sobre uma parte dele.
Os socialistas e os intervencionistas consideram lucro e juro como uma renda não
ganha, subtraída aos trabalhadores que, assim, são privados de uma considerável
parte do produto de seu esforço. No seu entender, a produção existe graças ao
trabalho como tal e a nada mais, e, portanto, de direito, deveria beneficiar
somente a quem moureja no trabalho.
Entretanto, o trabalho em si produz muito pouco se não for ajudado pela
poupança prévia e pela acumulação de capital. Os produtos são fruto de uma
cooperação entre trabalho e bens de capital, cooperação essa que existe graças a
uma acertada direção empresarial. Os poupadores, cujas economias constituem e
mantêm o capital, e os empresários, que conduzem este capital para a utilização
que melhor serve ao consumidor, não são menos indispensáveis ao processo de
produção do que os trabalhadores. Não tem sentido atribuir todo o valor gerado ao
aporte do trabalho e silenciar quanto à contribuição dos que aportam capitais e
ideias empresariais. O que produz objetos úteis não é o esforço físico em si, mas o
esforço físico adequadamente dirigido pela mente humana para consecução de
objetivos específicos. Quanto maior (com o avanço do bem estar geral) for o papel
dos bens de capital e quanto mais eficiente for sua utilização na cooperação dos
fatores de produção, mais absurda se torna a glorificação romântica da simples
realização de trabalhos manuais de rotina. Os maravilhosos melhoramentos
econômicos dos últimos duzentos anos foram conseguidos graças aos capitalistas
que proveram os necessários bens de capital e a uma elite de técnicos e
empresários. A grande maioria dos trabalhadores manuais foi beneficiada por
mudanças que não só eles não provocaram como também, frequentemente,
tentaram impedir.
Algumas observações sobre o mito do subconsumo e sobre o argumento do poder
de compra
Ao falar de subconsumo, as pessoas querem referir-se a um estado de coisas no
qual uma parte dos bens produzidos não pode ser consumida porque aqueles que
poderiam consumi-los, por serem pobres, são impedidos de comprá-los. Esses bens
permanecem sem serem vendidos, ou só são vendidos por preços que não chegam
a cobrir o custo de produção. Consequentemente, surgem vários desarranjos e
distúrbios cujo conjunto é chamado de depressão econômica.
Ora, acontece que muitas vezes os empresários erram ao tentar antecipar a
situação futura do mercado. Em vez de produzir aqueles bens cuja demanda pelos
consumidores é mais intensa, produzem bens cuja demanda é menos urgente, ou
artigos que são de todo invendáveis. Esses empresários ineficientes sofrem perdas,
enquanto seus competidores mais eficientes, que souberam antecipar os desejos
do consumidor, auferem lucros. As perdas do primeiro grupo de empresários não
são causadas por uma abstenção geral por parte do público; devem-se ao fato de
que o público prefere comprar outros bens.
Se fosse verdade, como está implícito no mito do subconsumo, que os
trabalhadores são pobres demais para comprar os produtos porque os empresários
e os capitalistas se apropriam daquilo que, por direito, pertence aos assalariados, a
situação não se alteraria. Os “exploradores” supõem-se, não exploram por mero
capricho. O que querem, insinua-se, é aumentar o seu próprio consumo ou o seu
próprio investimento à custa dos “explorados”. Eles não levam o seu butim para
fora do universo. Gastam-no, seja comprando objetos de luxo para suas casas, seja
comprando bens de produção para expansão de suas empresas. Evidentemente,
sua demanda é dirigida para bens diferentes daqueles que os assalariados
comprariam se os lucros tivessem sido confiscados e distribuídos entre eles. Os
erros empresariais, relativos à existência ou não de mercado para os diversos tipos
de mercadorias criados por essa “exploração”, não diferem em nada de quaisquer
outras deficiências empresariais. Erros empresariais resultam em perdas para os
empresários ineficientes e são contrabalançados pelos lucros dos empresários
eficientes. Fazem com que os negócios andem bem para alguns grupos de
indústrias e mal para outros. Não obstante, não provocam uma depressão geral da
economia.
O mito do subconsumo é um disparate autocontraditório e sem fundamento. Seu
raciocínio não resiste ao mais elementar exame. É indefensável mesmo que, só
para argumentar, se aceite como correta a doutrina da “exploração”.
O argumento do poder de compra flui de uma maneira ligeiramente diferente.
Consiste em afirmar que um aumento de salários é um pré-requisito da expansão
da produção. Se os salários não aumentarem, de nada adianta a indústria
aumentar a quantidade e melhorar a qualidade dos bens produzidos, porque os
produtos adicionais não encontrariam comprador ou só teriam como compradores
aqueles que reduzissem suas compras de outros bens. O que é necessário, em
primeiro lugar, para conseguir o progresso econômico, seria fazer com que os
salários subissem continuamente. A pressão e a compulsão do governo ou do
sindicato forçando o aumento dos salários seriam os principais veículos do
progresso.
Como foi demonstrada acima, a aparição de um excedente do total de lucros
empresariais sobre o total de perdas empresariais está indissoluvelmente ligado ao
fato de que uma parcela dos benefícios derivados do aumento de bens de capital
disponíveis e do aperfeiçoamento dos processos tecnológicos vai para os grupos
não empresariais. O aumento dos preços dos fatores complementares de produção,
e dos salários em primeiro lugar, não é uma concessão que os empresários têm de
fazer, a contragosto, às demais pessoas, nem tampouco um astucios o artifício para
aumentar seus lucros. É um fenômeno inevitável e necessário na cadeia de eventos
sucessivos, provocado pelo empenho empresarial de obter lucro ao ajustar a oferta
de bens de consumo à nova situação. O mesmo processo que resulta num
excedente de lucros sobre perdas empresariais provoca, em primeiro lugar – isto é,
antes que surja esse excedente —, o aparecimento de uma tendência de aumento
dos salários e de preços de muitos fatores de produção. E é ainda o mesmo
processo que, no curso dos eventos, faz desaparecer este excedente de lucros
sobre perdas, se não ocorrerem novas mudanças que aumentem a quantidade de
bens de capital disponíveis. O excedente de lucros sobre perdas não é uma
consequência do aumento dos preços dos fatores de produção. Os dois fenômenos
– o aumento dos preços dos fatores de produção e o excedente de lucros sobre
perdas – são, ambos, etapas de um processo de ajustamento da produção ao
aumento na quantidade de bens de capital e às mudanças tecnológicas, processo
esse que é impulsionado pela ação dos empresários. Somente na medida em que
os outros segmentos da população sejam previamente enriquecidos por esse
ajuste, é que o excedente de lucros sobre perdas pode existir por certo período de
tempo.
O erro básico do argumento do poder de compra consiste em interpretar
equivocadamente essa relação causal. Inverte completamente as coisas ao
considerar o aumento nos salários como a força motriz do desenvolvimento
econômico.
Discutiremos numa outra parte deste livro197 as consequências das tentativas
dos governos e da violência organizada dos sindicatos para impor salários maiores
do que os que vigorariam num mercado livre de interferências. Por ora,
acrescentaremos somente mais um comentário.
Ao falar de lucros e perdas, preços e salários, o que temos em mente são lucros e
perdas reais, preços reais e salários reais. Muitas pessoas se confundem por não
perceberem a diferença entre valores monetários e valores reais. Esse problema
também será abordado, exaustivamente, em capítulos posteriores. Mencionaremos
apenas, incidentalmente, o fato de que um aumento real de salários é compatível
com uma redução de salários nominais.
10. Promotores, gerentes, técnicos e burocratas
O empresário contrata os técnicos, isto é, pessoas que têm capacidade e talento
para executar certos tipos e quantidades de trabalho. A categoria de técnicos inclui
os grandes inventores, os ases da ciência aplicada, os construtores e projetistas,
bem como os executores das tarefas mais simples. O empresário também é um
técnico, na medida em que contribui pessoalmente para a execução técnica de
seus planos empresariais. O técnico contribui com seu esforço físico e mental; mas
é o empresário enquanto empresário que dirige este trabalho na direção de
objetivos determinados. E o empresário em si mesmo age como se fosse, por assim
dizer, um mandatário dos consumidores.
Os empresários não são onipresentes. Não podem atender, eles mesmos, às
múltiplas tarefas que lhes são incumbidas. Ajustar a produção de forma a suprir, da
melhor maneira possível, os consumidores com os bens que eles desejam
prioritariamente não consiste apenas em elaborar um plano geral para utilização de
recursos. Não há a menor dúvida de que essa é a principal função do promotor e do
especulador. Mas, além dos grandes ajustamentos, também são necessários
inúmeros pequenos ajustamentos. Cada um destes últimos pode parecer
insignificante e de pequeno porte para o resultado final. Mas o efeito cumulativo de
uma série de pequenos erros pode ser tal, que acabe frustrando inteiramente o
êxito de uma solução correta para os grandes problemas. De qualquer forma, é
indiscutível o fato de que cada falha na condução de pequenos problemas resulta
num desperdício de fatores de produção escassos, reduzindo, consequentemente, a
possibilidade de satisfazer os consumidores da melhor maneira possível.
É importante compreender em que medida a questão de que estamos tratando
difere das tarefas técnicas incumbidas aos técnicos. A execução de qualquer
projeto que o empresário tenha