A era Edo (1603 – 1867) e o Japão - PPGHC

Сomentários

Transcrição

A era Edo (1603 – 1867) e o Japão - PPGHC
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS SOCIAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA COMPARADA
DOUTORADO EM HISTÓRIA COMPARADA
ELI AISAKA YAMADA
A ERA EDO (1603 – 1867) E O JAPÃO CONTEMPORÂNEO (2003 –
2010): o multiculturalismo e a cultura de massa sob a perspectiva
da História Comparada nas representações de Justiça / justiçajusticeiro nos manga Vagabond (1999) e Death Note (2003)
Rio de Janeiro
2014
ELI AISAKA YAMADA
YAMADA
A ERA EDO (1603 – 1867) E O JAPÃO CONTEMPORÂNEO (2003 –
2010): O MULTICULTURALISMO E A CULTURA DE MASSA SOB A
PERSPECTIVA DA HISTÓRIA COMPARADA NAS
REPRESENTAÇÕES DE JUSTIÇA / JUSTIÇA-JUSTICEIRO NOS
MANGA VAGABOND (1999) E DEATH NOTE (2003)
UFRJ V.I
Eli Aisaka Yamada
A ERA EDO (1603 – 1867) E O JAPÃO CONTEMPORÂNEO (2003 – 2010): o
multiculturalismo e a cultura de massa sob a perspectiva da História
Comparada nas representações de Justiça / justiça-justiceiro nos manga
Vagabond (1999) e Death Note (2003)
Tese de Doutorado apresentada ao Programa de PósGraduação em História Comparada (PPGHC) da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte
dos requisitos necessários à obtenção do título de
Doutor em História Comparada.
Orientação: Prof. Dr. Álvaro Alfredo Bragança Júnior
Rio de Janeiro
março, 2014
YAMADA, Eli Aisaka.
A Era Edo (1603 – 1867) e o Japão Contemporâneo (2003 – 2010): O
multiculturalismo e a cultura de massa sob a perspectiva da História
Comparada nas representações de Justiça / justiça-justiceiro nos
manga Vagabond (1999) e Death Note (2003). Eli Aisaka Yamada 2014
Tese (Doutorado em História Comparada) – Universidade Federal do Rio
de Janeiro, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Rio de Janeiro, 2014.
Orientador: Álvaro Alfredo Bragança Júnior
1. História em quadrinhos, 2. cultura de massa, 3. História do Japão, 4.
Representações de Justiça/justiça-justiceiro
Bragança Júnior, Álvaro Alfredo (Orient.). II. Universidade Federal do Rio
de Janeiro. Instituto de Filosofia e Ciências Sociais. III. Título. – UFRJ
Eli Aisaka Yamada
A ERA EDO (1603 – 1867) E O JAPÃO CONTEMPORÂNEO (2003 – 2013): o
multiculturalismo e a cultura de massa sob a perspectiva da História
Comparada nas representações de Justiça / justiça-justiceiro nos manga
Vagabond (1999) e Death Note (2003)
Tese de Doutorado apresentada ao Programa de PósGraduação em História Comparada (PPGHC) da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte
dos requisitos necessários à obtenção do título de
Doutor em História Comparada.
Aprovada em:
__________________________________________________
Prof. Dr. Álvaro Alfredo Bragança Júnior (Orientador) – (PPGHC-UFRJ)
__________________________________________________
Profa. Dra. Neide Hissae Nagae (PPLCJ-USP)
__________________________________________________
Profa.Dra. Lucia Helena Martins Gouvêa (PLV-UFRJ)
___________________________________________________
Prof. Dr. José d’Assunção Barros (PPGHC-UFRJ)
__________________________________________________
Profa.Dra. Leila Rodrigues da Silva (PPGHC-UFRJ)
Suplentes
__________________________________________________
Prof. Dr. Luiz Barros Montez (PIPGLA-UFRJ)
__________________________________________________
Prof. Dr. Victor Andrade de Melo (PPGHC-UFRJ)
YAMADA, Eli Aisaka. A Era Edo (1603 – 1867) e o Japão Contemporâneo (2003 –
2010): o multiculturalismo e a cultura de massa sob a perspectiva da História
Comparada nas representações de Justiça / justiça-justiceiro nos manga
Vagabond (1999) e Death Note (2003). Tese (Doutorado em História Comparada) –
Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro,
2014.
RESUMO
Os manga tem exercido uma atração muito grande para o público leitor
contemporâneo e hoje faz parte da chamada cultura de massa. Este trabalho
consiste num estudo das representações de Justiça / justiça- justiceiro nos manga
Vagabond e Death Note os quais, embora sejam contemporâneos, possuem suas
abordagens narrativas desenvolvidas em períodos distintos, a Era Edo e o Japão
Contemporâneo. Indagando sobre as materialidades de sentidos produzidas pelas
duas obras, estas mostram que as questões ligadas às contingências humanas
expressam-se, apesar de sociedades diferentes, de forma semelhante. Tal fato é
mostrado, levando-se em conta os recursos multiculturais inseridos nos manga que
representam o imaginário social, para o quê a globalização contribui sobremaneira,
expondo a questão da diversidade. Nesse sentido, encontra-se o papel do
multiculturalismo que foca as mudanças do tempo e as suas conseqüências,
principalmente no interior de grupos minoritários. O multiculturalismo expresso sob a
forma de manga, uma forma de cultura de massa, revela, portanto, através dos seus
discursos, uma cosmogonia ideal, que se adequa aos novos tempos de grupos
sociais em desvantagem e que devem ser incluídos e aceitos sem abrir mão de suas
diferenças.
YAMADA, Eli Aisaka. A Era Edo (1603 – 1867) e o Japão Contemporâneo (2003 –
2010): o multiculturalismo e a cultura de massa sob a perspectiva da História
Comparada nas representações de Justiça/justiça-justiceiro nos manga
Vagabond (1999) e Death Note (2003). Tese (Doutorado em História Comparada) –
Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro,
2014.
ABSTRACT
The manga presents nowadays a great attraction for the modern readership and is
considered part of the so-called mass culture. This thesis presents a study on the
Justice/justice-avenger representations in two manga - Vagabond and Death Note which, despite being contemporary publications, possess their narrative approaches
in distinct periods, the Edo Era and Modern-day Japan. Analysing the materiality of
the meaning produced by both texts, it is demonstrated that the issues linked to
human contigencies are similarly expressed, even though in different applied
multicultural resources societies. Such fact is shown, taking into account the applied
multicultural resources imaginary in the manga, which represent the social to which
globalization greatly contributes, exposing the theme of diversity. Hereupon, the
multiculturalism role is presented, focusing on time changes of and their
consequences, mostly on minorities. The multiculturalism, expressed in the manga a type of mass culture – reveals, however, through its discourse an ideal cosmogony,
which adequates itself to the new times of social groups in disadvantage, that must
be included and accepted without giving up their differences.
AGRADECIMENTOS
Gostaria de expressar os meus sinceros agradecimentos às pessoas abaixo
relacionadas, as quais, graças aos seus apoios, permitiram que esta tese pudesse
ser concluída:
Ao Professor Dr. Álvaro Alfredo Bragança Júnior, pela sua compreensão e
atenção, paciência nos momentos mais cruciais, a quem tive a grande honra de ter
como orientador.
Aos professores do PPGHC – UFRJ, cujas disciplinas presenciais
contribuíram para o desenvolvimento dos meus conhecimentos.
À coordenação do PPGHC – pela atenção e esclarecimentos.
Às professoras Neide Hissae Nagae e Cláudia Andréa Prata Ferreira,
membros da Banca de Qualificação, pelas suas valiosas considerações.
Aos colegas da Pós-Graduação do PPGHC.
Às “meninas” da Secretaria do PPGHC - UFRJ, excepcionalmente Márcia,
que sempre se mostraram solícitas nas informações e providências necessárias.
À Fernandinha “minha sobrinha”, pela grande ajuda na digitação.
Ao Senhor Yoshida pela leitura do trabalho e relevantes conselhos
Aos amigos Tatai-san, Goretti, Mitie, Tamie, LG (Luiz Gabriel) pelos incentivos.
Aos colegas do Departamento e Setor de Letras Japonesas que permitiram
que eu assumisse os encargos do trabalho em horário reduzido.
Aos meus sobrinhos Lyssa, Caio e Dudu, pela torcida.
Ao meu marido, pela paciência nas horas mais difíceis.
Aos meus pais: in memoriam, em especial, à minha mãe falecida após longa
enfermidade durante o meu curso de doutoramento.
Enfim, mesmo não sendo possível citar todos os nomes gostaria de
manifestar a minha gratidão a todos os amigos que, de uma forma ou outra,
contribuíram para a realização deste trabalho.
NOTAS PRELIMINARES:
1) Foi adotado o sistema de transcrição Hepburn para os termos romanizados
da língua japonesa, com exceção dos prolongamentos de vogais que foram
representados por um acento circunflexo.
2) Todos os termos japoneses foram mantidos em japonês, sem
aportuguesamento dos mesmos como, por exemplo, no uso da terminação de plural.
3) Os antropônimos foram mantidos conforme o sistema japonês, sobrenome
seguido do prenome.
4) O termo justiceiro foi empregado sob a concepção particular de Justiça que
cada indivíduo possue levando-o a tomar medidas de desagravo, não sendo,
portanto, aquele representante legal da Justiça.
5) De acordo com o volume 13 do manga Death Note que faz uma
recapitulação de todo desenvolvimento da história, a cronologia nela expressa é de
cerca de 7 anos (2003-2010). Por se tratar de uma obra contemporânea, embora a
narrativa não especifique um período determinado, optou-se por efetuar as
considerações
sob
uma
abordagem
mais
ampla
da
contemporaneidade,
perpassando os períodos da história japonesa, desde a Era Meiji até a atualidade.
6) Embora haja a tradução em português, a obra Death Note foi analisada
somente na original em japonês.
LISTA DE TABELAS
TABELA 1: Principais tipos de penalidades vigentes na Era Edo
48
TABELA 2: Penalidade vigentes no Japão atual
58
LISTA DE FIGURAS
Figura 1: tríade da retórica na produção de sentidos dos manga
19
Figura 2: relação Cultura de Massa, História Comparada e Multiculturalismo
38
Figura 3: tatuagens das penalidades
43
Figura 4: exemplos de tatuagens
44
Figura 5: cena de uma decapitação
45
Figura 6: utilização de diversas tatuagens na identificação dos infratores
45
Figura 7: punições diversas
46
Figura 8: organização do Sistema Judicial Contemporâneo
55
Figura 9: gravura da comitiva dos daimyô (sankin kôtai)
71
Figura 10: teatro Nô
81
Figura 11: shinigami Ryuk
94
Figura 12: shinigami Rem
95
Figura 13: shinigami Shidoh
95
Figura 14: os sentidos dos manga numa brincadeira
100
Figura 15: a apreensão numa extensão de sentidos
102
Figura 16: Death Note, capa do volume 1
105
Figura 17: disposição da escrita vertical
106
Figura 18: disposição da letra E ao contrário e A e T na horizontal
106
Figura 19: How to use e sua tradução ao lado na escrita vertical
107
Figura 20: recurso da escrita cuja leitura adota a adaptaçãp do inglês
107
Figura 21: falas do “mundo humano” e a do “mundo dos shinigami”
108
Figura 22: mudança nas fisionomias de Light.
110
Figura 23: evolução dos enunciados. A) “Bokunishika dekinainda” (Somente eu
posso fazer); B) Bokuninara dekiru (Se é eu, consigo) e C) “Death Note de
yononakawo kaeteyaru” (Mudarei o mundo com o Death Note)
111
Figura 24: “shin sekai no kami to naru” (Serei o Deus do novo mundo)
111
Figura 25: “Bokuwa shin sekai no kami to naru” (Eu me tornarei o Deus do novo
mundo)
112
Figura 26: “Bokuwa shin sekai no kamida” (Eu sou o Deus do novo mundo)
113
Figura 27: homepage de Light
114
Figura 28: a maçã
115
Figura 29: fala do shinigami Rem “ningen to iu ikimonowa jitsuni minikui” Os seres
humanos realmente são repugnantes.
116
Figura 30: páginas iniciais de Vagabond
119
Figura 31: recurso da onomatopéia amplamente grafado, que demonstra o momento
que o golpe é desferido.
121
Figura 32: momento em que a espada é empunhada
121
Figura 33: os corvos e em destaque a cor negra
122
Figura 34: corvo atacando o morto e arrancando os olhos.
123
Figura 35: Vagabond
127
Figura 36: distinção das fisionomias de Vagabond
128
Figura 37: sequencialidade da linguagem dos manga
131
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
14
CAPITULO I OLHARES-PLURAIS DE COMPARAÇÃO
1.1. Multiculturalismo e Justiça – Comparáveis possíveis
22
1.2. O conceito japonês de Justiça
39
CAPITULO II O CONTEXTO HISTÓRICO
2.1 A Era Edo e o Japão Contemporâneo
61
2.1.1 Da Ascensão dos Samurai a Era Edo – Panorama Cultural
61
2.1.2 O Japão Contemporâneo
84
CAPITULO III COMPARANDO VAGABOND E DEATH NOTE - O IMAGINÁRIO E
AS VEROSSIMILHANÇAS: O MULTICULTURALISMO DOS MANGA E AS
REPRESENTAÇÕES DE JUSTIÇA/JUSTIÇA-JUSTICEIRO.
3.1 Sintese das obras
93
3.1.1 Death Note
93
3.1.2 Vagabond
95
3.2 A linguagem imagética: discussões
96
3.3 Comparando as duas obras: os seus sentidos
104
3.3.1 Death Note
104
3.3.2 Vagabond
118
3.4 Comparando as duas obras: Quadro Sinótico
131
CAPITULO IV CONSIDERAÇÕES FINAIS
135
REFERÊNCIAS
138
GLOSSÁRIO
146
14
INTRODUÇÃO
O advento do manga e do anime (cinema de animação)1, este último surgido
posteriormente ao manga, embora aparentemente não se conceba um isolado do
outro, toma impulso a partir da Era Meiji (1868-1912), quando se tentava evidenciar
o potencial japonês rumo a uma rápida modernização após cerca de 250 anos de
isolamento imposto no período Edo (século XVII-XIX do Shogunato Tokugawa). Sob
os lemas “oitsuke” (alcançar) e ”oikose” (ultrapassar) 2 , o Japão “niponizou” as
importações do ocidente, adaptando-as ao formato sócio-econômico da nação, em
voga hoje em dia.
Os manga, normalmente conhecidos em português como histórias em
quadrinhos, tem o seu início por volta do século VIII (Período Nara) escritos em rolos
de pergaminhos, emakimono (pinturas em rolos)3. Estes contam histórias através de
desenhos e textos e, como termo, consolidou-se por volta do ano de 1800 quando
Katsushika Hokusai (1760~1845) começa a desenvolver em sua arte de ukiyo-e4
(imagens do mundo flutuante) xilogravuras que retratavam a vida social, expressas
geralmente em temáticas cômicas e sensuais.
Os manga, conforme seus caracteres 「漫画」que possuem literalmente os
significados de “desenhos livres” e “sem restrições” dada a sua característica de
manifestar livremente, por exemplo, uma crítica social, são conhecidos aqui no Brasil
como histórias em quadrinhos.
A popularidade dos manga atinge um patamar tamanho, que encontramos
hoje a utilização como recurso pedagógico, servindo como um verdadeiro
merchandising de produtos de consumo. A venda de brinquedos e jogos,
comumente divulgados pelos meios de comunicação, tende a aumentar o interesse
por essa tipologia de leitura e, incontestavelmente, conduz-nos a crer no surgimento
de uma nova cultura de massa.
1
Proveniente do francês dessin anime; “desenho animado”. Fora do Japão é empregado como
sinônimo de animação japonesa em todos os formatos, seja como filme ou série de televisão. Cf.
MOLINÉ, Alfons. O grande livro dos MANGÁS. São Paulo: Editora JBC, 2004, p. 216
2
Gravett emprega o termo “superar. Cf. GRAVETT, Paul. Manga. Como Japão reiventou os
quadrinhos. São Paulo: Conrad Editora. 2006, p.14. Optamos pela tradução literal do termo oikose,
“ultrapassar”.
3
Pinturas que ilustram textos literários ou religiosos em longas faixas de papel enroladas em torno de
um bastão.
4
De ‘uki” 浮 flutuar, “yo” 世 mundo, “e” 絵 gravura, desenho
15
Para o presente trabalho, optamos por escolher como corpora dois manga,
Vagabond (1999) e Death Note (2003), escritos em épocas contemporâneas, mas
que retratam diferentes períodos, ou seja, a história de Vagabond transcorre na Era
Edo, enquanto que Death Note transcorre na contemporaneidade.
O critério da escolha das obras deveu-se, no caso do Vagabond, pelo
enfoque dado a “procura da ascensão espiritual” ou como “exímio espadachim” do
seu personagem central Miyamoto Musashi e a sua obstinação expressa em
inúmeras cenas de lutas sangrentas. No caso de Death Note chamou-nos a atenção
o título em japonês satsujin note, o caderno da morte, cujo personagem central,
Light, toma para si, através do caderno, a perseguição e a execução dos malfeitores.
São duas obras que, num primeiro momento, nos permitem uma apreensão de uma
justiça sendo realizada.
Estabelecemos, com isso, um diálogo mesclando a História e a Literatura,
pois “É só na história que o homem existe e a literatura nada mais é que o discurso
da existência humana, das suas várias possibilidades”. (Baccega, 2003, p. 89)5
Através de uma abordagem integrando História e Literatura dentro do campo
do discurso, demonstramos pela História Comparada a nossa hipótese de que,
vinculados às questões, por exemplo, de injustiças sociais e geralmente atreladoss
às figuras de um “herói”, os manga fazem surgir uma nova cultura de massa com
rica inserção de elementos multiculturais, impostos pelo mundo cada vez mais
globalizante.
As informações que nos chegam cada vez mais céleres acabam por provocar
a busca por uma identidade, busca essa fomentada inclusive pelo consumismo
gerado pelo capitalismo, não só tangendo o plano material, mas promovendo
rupturas nos aspectos emocionais, espirituais e até morais provocados pela
insegurança do ser humano face de suas novas ansiedades e expectativas.
Não é possível ignorar que, no processo dessas informações que nos
chegam de forma rápida e que ao mesmo tempo se esvaem, se tornam evidentes as
fragmentações causadoras de algum tipo de dano, pois ocasionam um sentimento
de obsolescência6.
5
BACCEGA, Maria Aparecida. Palavra e discurso – história e literatura. São Paulo: Ática, 2003.
A designação encontra-se dicionarizada como “estado de que se vai tornando obsoleto ou como
desclassificação tecnológica do material industrial, provocada pelo aparecimento mais moderno,
melhor adaptado”, aplicados às coisas. A acepção estende-se ao ser humano, quando fatores
emocionais são afetados.
6
16
Assim, não se pode ignorar uma formação ideológica em função de uma
visão de mundo. É inegável que essa formação ideológica não se desvincula dos
recursos existentes nos meios de comunicação com a sua linguagem imagética ou
da escrita, como encontrados nos manga. Se essa formação ideológica impõe o que
“pensar”, impõe também um “agir”.
Essa visão de mundo não é arbitrária, ao contrário, é motivada e resulta dos
fatores sociais a que os indivíduos são expostos e a estes ligam-se os conceitos de
justiça, concebidos não só sob as leis legalizados pelos homens - a Justiça - mas
perpassando este aspecto, sob a própria concepção de justiça que existe em cada
indivíduo ou, por extensão, um grupo social, de acordo com as suas formações
ideológicas de “pensar” e de “agir”. Nessa perspectiva de duo salientamos que na
concepção de Justiça e justiça se inserem também as figuras duo de um justiceiro
que “age” e de um outro, que contribui para uma formação ideológica determinada
pelos discursos.
A literatura, com os seus discursos expressos em diferentes formas de
linguagem, torna-se um veículo de interação espelhando, de uma certa maneira, as
perspectivas do homem. O manga, mesmo não sendo concebido dentro do cânone
da Literatura7, tem sido inegavelmente um gênero com um alcance muito grande em
meio ao público, independentemente da faixa etária, envolvendo tanto os adultos
quanto as crianças com as suas mais variadas temáticas, que vão desde o
shojomanga (para o público jovem feminino) às consideradas pornográficas, hentai8.
Não é possível ignorar, pois, o poder e a atração que os manga exercem. As
influências de determinadas obras provocam uma espécie de sinestesia, cuja
associação de recursos linguísticos, extremamente curtos, com as falas objetivas e
sintetizadas aliadas aos recursos imagéticos, acaba por provocar sensações
empáticas com os personagens. Os leitores aficionados são conduzidos e seduzidos
pelo
desenrolar
das
histórias
sobre
os
mais
variados
temas.
São
as
verossimilhanças entre a história e a literatura que atuam sobre o ethos do indivíduo
leitor.
7
A alusão aos termos literatura em maiúscula, Literatura, e em minúscula literatura objetiva a
diferenciação das obras escritas, já consagradas pela tradição e pelo cânone, das obras de
entretenimento no caso, o manga.
8
Termo resumido de hentaiseiyoku literalmente “desejo sexual estranho” conforme os significados
dos ideogramas 変体性欲, hen 変 estranho, diferente, tai 態 comportamento, sei 性 sexualidade e
yoku 欲 desejo. Embora a etimologia do termo ultrapasse a restrição semântica do mesmo,
manteremos o termo “pornográfico” conforme encontrado em dicionários.
17
Desse modo, lançando um olhar sobre os papéis dos manga como fenômeno
da cultura de massa e associando-os ao mundo globalizado de hoje, chega-se à
concepção da questão multicultural neles amplamente presente, o que corrobora o
desenvolvimento do nosso raciocínio.
Observando o termo multicultural - um dos recursos dos manga - que
contribui sobremaneira para o seu sucesso, a princípio entendido como
simplesmente “mistura de culturas”, ao concebermos as linguagens como práticas
sociais, constatamos que a sua apreensão foge às definições encontradas nesse
sentido: surge a necessidade de estender um olhar para as inserções desses
elementos
multiculturais.
Nessa
observação,
o
olhar
é
direcionado
ao
multiculturalismo, ou seja, aos elementos multiculturais inseridos nos manga, que
não se apresentam estanques, possuem um papel criador de um pathos e,
acrescente-se, são motivados9.
De acordo com o que salienta Semprini (1999, p. 8) 10, o “multiculturalismo
focado como ilustração e encarnação da profunda mutação em curso” reúne
questões como as de conflitos pessoais e nacionais ou como as lutas por uma
identidade de grupo, as quais sustentam a nossa ideia em acreditarmos numa busca
incessante por uma identidade.
Encontramos também o multiculturalismo dentro de uma estrutura liberal
(Kymlicka, 2005)11, privilegiando essencialmente o respeito às diferenças e, nesse
caso, pleiteando a construção de uma sociedade própria, mas cujo excesso pode
contribuir para uma prática mais segregadora, na qual as identidades étnicas,
expressas muitas vezes por idiomas e hábitos, são postas em questão. De qualquer
forma, no mundo atual globalizado, não se pode ignorar a controvérsia que o termo
suscita.
Destarte, ao considerarmos o termo “multicultural” sob um olhar mais amplo,
constatamos que não se trata somente de “mistura de culturas” ou de “diversidade
étnica” ou “informações” a que temos acesso, por exemplo, em virtude da rapidez
das mídias. Conforme acima mencionado, porém, é essencialmente o enfoque no
questionamento e na reflexão sobre os elementos que favorecem uma sociedade
mais igualitária.
9
Relação entre o significante e o significado semântico.
SEMPRINI, Andréa. Multiculturalismo. Trad. Laureano Pelegrin. Bauru, SP: EDUSC, 1999.
11
KYMLICKA, W. Gendai seiji riron (Filosofia política contemporânea). Trad. Chiba Shin et.al. 3ª.ed.
Tokyo: Nihon Keizai Hyôronsha, 2008.
10
18
O discurso de uma sociedade inclusiva gerado por grupos dominantes não
contribui para que as diferenças sejam minimizadas, pois, na maioria daqueles, tais
diferenças são perpassadas pela ótica econômica.
Reiteramos, desse modo, que uma “mistura de culturas” não se resume
somente ao pertencimento a uma nacionalidade ou a uma etnia. Este termo suscita
um outro: o “inter”. Caso se trate de uma “mistura de culturas”, como trabalhar, então,
a questão da interculturalidade? Conforme salienta Canclini (2007 p. 267) 12 “os
antagonismos interculturais, que sempre incluem conflitos de poder, convertem-se
em conflitos de terror devido à decomposição da ordem liberal que, em outras
épocas, continha mais ou menos a multiculturalidade dentro de estruturas nacionais”.
Isso mostra que há uma necessidade de refletirmos prioritariamente sobre o que são
diferenças e quais seriam as consequências da não aceitação delas.
Numa investigação sobre a questão multicultural torna-se imprescindível
levarmos em conta as mudanças trazidas pela globalização e isto é atestado pelo
sucesso e pela diversidade encontrada nos manga, tornando-se premente
buscarmos os seus elementos através de “olhares-plurais”, como proposto pela
História Comparada. É através de “olhares-plurais”, conforme o termo indicia, que foi
possível debruçarmo-nos sobre os questionamentos do nosso tema.
Embora não haja uma linha demarcatória entre a História e a Literatura, a
verossimilhança do “real” do leitor ou do ethos do leitor com relação as das obras é
recorrente. Ela é provocadora de um “pathos” que culmina em tomadas de posições.
Os termos como o nome do personagem central de Death Note, Yagami Light
revelariam, através de seus ideogramas 夜神(Deus da noite) e Light (em inglês,
claridade), foneticamente transcritos sobre o ideograma 月 (tsuki, lua), um
personagem “protetor” e “pacificador” num primeiro momento. Os nomes
estrategicamente misturados em japonês e inglês passam ilocucionalmente a
possuir os seus sentidos motivados. São recursos de aspectos performativos e
constatativos13. Observamos que são estratégias discursivas oriundas dos aspectos
multiculturais que o gênero manga traz. Salienta-se, desse modo, o emprego da
12
CANCLINI, Néstor García. Diferentes, desiguais e desconectados. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Editora
da UFRJ, 2007, p. 267.
13
Termos empregados por J.L. Austin. Como constatativo tende apenas a descrever um
acontecimento, enquanto como performativo, além de descrever uma certa ação do seu locutor, a sua
enunciação realiza essa ação. Cf. DUCROT, Oswald e TODOROV Tzvetan, Dicionário enciclopédico
das ciências da linguagem. 3ª.edição. São Paulo: Perspectiva, 1998, p. 304.
19
linguagem como prática social, ou seja, “...o discurso da existência humana das
suas várias possibilidades” (Baccega, 2003, p. 89).
O mesmo aplica-se ao personagem central de Vagabond, Musashi: sua
fisionomia nada se assemelha a de um oriental, porte másculo, olhos grandes e
penetrantes que, de certa forma, acabam por atrair os leitores. Em alguns momentos,
os olhos, apesar dos desenhos não serem coloridos, deixam transparecer que são
claros como os dos ocidentais, por exemplo, europeus.
Assim, tanto os recursos imagéticos quanto os lingüísticos delineiam o olhar
da linguagem, conforme explicado, sob a concepção de práticas sociais em que a
tríade da retórica se faz presente nos discursos produzidos: logos, ethos, pathos
(Figura 1).
Figura 1: tríade da retórica na produção de sentidos dos manga
Objetivou-se no presente trabalho demonstrar que os manga, como
elementos de uma cultura de massa, com os seus recursos multiculturais, indiciam
aspectos do multiculturalismo e trazem à tona as questões do conceito de
Justiça/justiça-justiceiro, comparando-os com os dados historiográficos acerca de
sua prática nos períodos de análise escolhidos.
A reflexão exigiu uma apreensão interdisciplinar ou multidisciplinar, de acordo
com a diversidade existente em informações, etnias, grupos sociais que (con)vivem
na nossa sociedade atual e através da representação das narrativas dos manga.
Estes, a princípio uma literatura de entretenimento, exercendo uma forte atração
com os seus recursos lingüísticos e imagéticos e os discursos neles inseridos,
expõem as necessidades do homem frente aos seus anseios que o mundo moderno
estabelece.
20
Desse modo, procuramos responder aos questionamentos que os manga
suscitam, efetuando no primeiro capítulo uma exposição das ideias dos estudiosos
da área de História Comparada, Neide Theml e Regina Bustamante 14 numa
investigação de sociedade e cultura, com as suas designações de “olhares-plurais”,
base de toda a nossa reflexão, sendo depois seguidas de Marcel Detienne 15 e
Jurgen Kocka16.
Para as reflexões oriundas da nossa hipótese, optamos fazer uma abordagem
sobre o Multiculturalismo, sem adentrar na controvérsia que o termo suscita, tendo
como referência Will Kymlicka, dada a nossa consideração dos elementos
multiculturais inseridos nos manga, e a Análise do Discurso da linha francesa no que
tange à produção discursiva entendida de acordo com o dialogismo de Bakhtin17 que
atua no campo ideológico devido à apreensão da linguagem como prática social que
assegura a não-neutralidade de qualquer discurso. Além disso, de acordo com a
nossa proposta de trabalho, foi indispensável uma articulação lançando um olhar
sobre outros saberes e formulação de conceitos de Justiça/justiça-justiceiro no
imaginário traçado pelas duas obras Death Note e Vagabond como reflexos
advindos das manifestações do sentido de multiculturalismo.
No segundo capítulo fizemos uma exposição histórica dos períodos
abordados nas narrativas dos dois manga analisados que, embora contemporâneos,
retratam os períodos Edo (1603 -1867) e o Contemporâneo (2003 - 2010).
No terceiro capítulo, optamos pelas obras Vagabond e Death Note para as
nossas análises em razão de termos considerado que a questão da Justiça estaria
melhor exposta e que a análise dos recursos imagéticos presentes nos manga
selecionados contribuiria de forma decisiva para uma melhor discussão dos mesmos
a partir de uma perspectiva multidisciplinar. Foram analisados os elementos
procedentes da nossa hipótese e, sobretudo, sobre as concepções de ustiça/justiçajusticeiro encontrados nos dois manga, caracterizando, assim os “olhares-plurais”18.
14
THEML & BUSTAMANTE, R. M. da C. História Comparada: olhares-plurais. Estudos IberoAmericanos, XXIX(2), 2003, p. 7-22.
15
DETIENNE, Marcel. Comparar o Incomparável. Trad. Ivo Storniolo. Aparecida, SP: Ideias & Letras,
2004.
16
KOCKA, Jürgen. Comparison and beyond. History and theory, v.42, no.1, p. 39-44, feb, 2003.
17
BRAIT, Beth (org.) Bakhtin, dialogismo e construção do sentido. Campinas: Editora da Unicamp,
1997, p. 98.
18
A especificação dos volumes e a escolha dos corpora de cada manga selecionados estão
apresentados no capítulo III.
21
Foi a proposta de trabalho com enfoque em “olhares-plurais” que possiblitou
chegarmos de forma conclusiva à constatação de que os manga com os seus
discursos polifônicos e articulados aos imagéticos, se inserem como uma “voz” na
busca de uma sociedade mais igualitária. Objetivou-se, com isso, enfatizar a
necessidade de estudos interdisciplinares ou multidisciplinares, lançando um olhar
de investigação aos tempos atuais de globalização, focando na questão da
diversidade que se faz presente hoje em todos os segmentos sociais.
22
CAPÍTULO I - “OLHARES PLURAIS” DE COMPARAÇÃO
1.1 Multiculturalismo e Justiça/justiça-justiceiro – Comparáveis possíveis
A necessidade de delinearmos um objeto de estudo de forma mais ampla
indica que as abordagens devam se dar de forma interdisciplinar ou multidisciplinar.
A confluência de informações e olhares sobre o objeto de estudo a partir de vários
ângulos proporciona um campo maior de observação a seu respeito. Dessa maneira,
ao nos propormos ao desafio de um estudo de âmbito histórico e cultural, tendo
como material o manga, operacionalizamos uma abordagem plural que viabilize
nosso intento.
Os manga empregados como objeto do nosso trabalho, cujo conteúdo
envolve aspectos verossímeis da História, possui o seu sucesso correspondente
devido, ao nosso ver, a inserção dos elementos multiculturais e as suas diferentes
formas de expressão que acabam por conquistar os seus leitores. Tais fatores
levaram a efetuar uma abordagem da questão de Justiça/justiça-justiceiro de acordo
com o discurso encontrado ao longo das tramas e, também, pelo fato de se tratar de
uma primeira manifestação do homem diante das implicações dos “bens
simbólicos” 19 . Ou seja, ditada pelo mundo capitalista, a linguagem torna-se uma
relação de forças simbólicas20 e que passa a ser legitimada pelo meio social.
Para o desenvolvimento do presente trabalho buscamos subsídios teóricometodológicos centralizando-nos nas ideias dos teóricos Marcel Detienne ( 2004) em
“Comparar o Incomparável”, Neide Theml e Regina Bustamante (op.cit., 2003), com
os “olhares-plurais”, e Jürgen Kocka (2003) através de seu texto “Comparação e
além”, no âmbito historiográfico de perspectiva comparativa e, no âmbito discursivo,
com os conceitos teóricos da linha francesa da Análise de Discurso como Mikhail
Mikhailovitch (Bakhtin) (1997) e Oswald Ducrot21 que focam, respectivamente, sobre
19
Termo de Pierre Boudieu. Informações, conhecimenos, música, linguagem, livros, obras de arte,
teatro. Apud SOARES, Magda. Linguagem e escola – uma perspectiva social. São Paulo: Ática, 1996,
p. 55.
20
Termo de Pierre Bourdieu Uma relação de comunicação lingüística não é uma operação de
codificação-decodificação e sim uma relação de força simbólica determinada pela estrutura do grupo
social dominante. Apud Soares (op.cit., p.55)
21
DUCROT, Oswald. Pressupostos e subentendidos: A hipótese de uma semântica lingüística. In: O
dizer e o dito. Campinas, SP: Pontes, 1987.
Cf. CHARAUDEAU, Patrick & MAINGUENEAU, Dominique. Dicionário de análise do discurso. São
Paulo: Contexto, 2004, p. 384.
23
o dialogismo dos sentidos produzidos, demonstrando, por sua vez, sua polifonia.
Deste modo, o discurso de um enunciado mantém relações com outro e que é
expresso sob múltiplas formas de acordo com as marcas dos seus enunciadores. No
tocante ao multiculturalismo baseamo-nos nas idéias de Kymlicka (2008), que se
concentra nas mudanças e da mesma forma na necessidade também de uma
reflexão sobre as diferenças.
A fim de viabilizarmos a comparação de nossas fontes seguimos, em primeiro
lugar, as idéias de Detienne (2003), que propõe haver uma categorização de
estudos para a construção de comparáveis e, desta forma, chegar ao que
inicialmente parece ser incomparável. De alguma maneira, num primeiro momento,
talvez fosse esse o caso dos nossos objetos de comparação, pois é indispensável
um enfoque histórico das duas obras analisadas, enfoque esse de períodos distintos.
Detienne indaga sobre o que é um lugar no que a ideia de “fundar”, por exemplo, se
insere, pois o termo conduz ao de “territorizar”. E uma das respostas que Detienne
mantem sobre o significado de lugar é a de que há “lugares que falam”, outros que
“fazem um sinal”, “alguns são ventres a engravidar” ou “olhos que choram” (op.cit.,
2003, p. 53). Tais colocações fizeram optar por trabalharmos discursivamente os
termos das categorizações de “fundar, fundação, fundador” 22 de Detienne (op.cit.,
p.49-50) vinculadas às questões de Justiça/justiça, pois o ato de “fundação”
simboliza uma primeira manifestação que culminaria no aspecto de “justiceiro” do
homem diante das situações adversas que o doxa23 faz surgir. Tem-se, nesse caso,
o “justiceiro” com os seus papéis perfomativos de um “agir” de forma ativa ou
passiva.
Desse modo, destacando o “fundar” como a primeira manifestação de um
ethos frente a um sistema e, entendendo que se trata do ponto inicial dos
questionamentos que requerem um olhar mais amplo, que abarcam enfoques afins,
somos conduzidos a considerar os aspectos multiculturais que são encontrados nos
manga.
Em
seguida,
os
elementos
(co)relacionados,
diante
das
primeiras
manifestações do ethos, evoluem para os correlatos de “fundação”, que trata da
22
A proposta do historiador Detienne no presente trabalho terá uma abordagem discursiva sendo,
assim, embora motivado, distinto daquele do classicista francês.
23
“Opinião, o que se diz das coisas ou das pessoas, corresponde a um conjunto de representações
socialmente predominantes cuja verdade é incerta...” Cf. Dicionário de Análise do Discurso. São
Paulo: Contexto, 2004, p. 176.
24
“anatomização” dos questionamentos encontrados no sistema pelo indivíduo no
momento do ato de “fundar”, dando início aos primeiros questionamentos em direção
a um doxa.
Esse aspecto é decorrente do fato de considerarmos a linguagem como parte
dos “bens simbólicos” acima mencionados ou, numa apreensão como práticas
sociais, já que, através de um “olhar-plural”, os questionamentos surgidos no ato de
“fundar”,começam a tomar um formato.
Deste modo, o pensamento interpelativo de valores contribuirá para o
posicionamento do ethos, em que o pathos se torna inerente, culminando em geral
nos aspectos de Justiça/justiça -justiceiro.
Reiteramos que nosso estudo se prende à ótica de “olhares-plurais”, que
permitem, através de articulações interdisciplinares ou multidisciplinares, uma
apreensão mais precisa dos objetos em análise, levando ao entendimento das
relações de práticas sociais. Conforme afirma Baccega,,
A ideologia só existe na prática social. Ela se constitui num sistema de
valores, pleno de representações (grifo nosso), de imagens – modo de ver
o mundo, modo de ver a sociedade, modo que o homem se vê a si e aos
outros. (op.cit., 2003:34)
As apreensões dos termos adquirem um sentido dual dada a necessidade de
um olhar da linguagem não somente pelo aspecto decodificador, mas também pelo
que esses instrumentos, que são dinâmicos, produzem.
Como dito, o desafio de um estudo de âmbito histórico e cultural, em nosso
caso nos manga, conduz-nos ao multiculturalismo como um importante elemento de
análise, sem o qual não teríamos o respaldo necessário para visualizarmos, por
exemplo, as razões do êxito desse tipo de literatura.
Estabelecer a(s) categoria(s) de um objeto de estudo envolvendo as
temáticas culturais significa, conforme a nossa proposta do trabalho, efetuar olhares
múltiplos ao objeto proposto, tornando inevitável, nesse sentido, que trabalhemos de
forma mais abrangente com os elementos (co)relacionados.
Como “fundador”, assim, teríamos o ethos “descobridor” ou um ethos moldado
sob a ótica de “olhares plurais” de investigação, em que o próprio termo
representaria discursivamente, como vimos asseverando, toda a idéia do presente
25
trabalho, associado às questões das diferenças que o multiculturalismo enfoca e aos
elementos alfa24.
Optou-se, inclusive, por efetuar as discussões que fogem a “uma categoria”, e
para tanto lançamos mão de categorias-elos, dadas as relações que essas
categorias estabelecem entre si. A denominação “categoria” possui um sentido
restrito, estanque, não questionando, segundo as nossas apreensões, as inserções
subjacentes dos elementos que a ela são ligados. O próprio Detienne expõe que o
objeto de uma investigação é, ao mesmo tempo, “singular e plural”25 (op.cit., 2000,
p. 47-48), corroborando nossa proposta de trabalho.
A investigação desta tese, cujo objeto é a representação dos conceitos de
justiça/justiceiro dentro do espaço-tempo dos manga selecionados, Vagabond e
Death Note, abordou, paralelamente, a categoria do diferente, dada a inserção dos
elementos multiculturais, para que as suas representações pudessem ser discutidas.
Apesar do fato de que os dois manga, fontes primárias da pesquisa, serem
contemporâneos, a abordagem do tempo da narrativa é distinta. Daí decorre a
importância do enfoque dos aspectos multiculturais neles inseridos e que tornam o
leitor mais próximo da trama textual.
As questões multiculturais remetem-nos, hoje, ao diferente, ao diferente nas
relações interculturais, ao diferente provocador de injustiças, ao diferente nas
apreensões distintas do que é a Justiça, ao diferente nas concepções individuais de
justiça, ao diferente provocador de rupturas, o que nos conduz impreterivelmente a
uma reflexão sobre as diferenças que Kymlicka (2008) enfatiza, ou seja, ao diferente
que, ocasionalmente, conduz à exclusão.
Kymlicka (op. cit., ,2008, p. 476) pondera que a sociedade atual se destaca
pela farta presença dos chamados elementos multiculturais, que nos conduzem a
refletir acerca do chamado multiculturalismo. Todavia, o que também se ressalta é
que esses elementos se baseiam no modelo de “pessoas saudáveis” ou “pessoas
normais” (kenjôsha) 「 健 常 者 」 sob todos os aspectos, ou seja, brancos,
heterossexuais, que seguem modelos estabelecidos até então. Os que fogem a esse
enquadramento sofrem muitas vezes algum tipo de afastamento ou exclusão
24
Por corresponder à primeira letra do alfabeto grego, é empregada como representação simbólica de
elementos contíguos, por vezes não formais, que se encontram inseridos. Indica o começo de algo.
In: Dicionário Eletrônico Sharp, Dicionário de verbetes japoneses, verbete alfa, designação item 4.
25
Grifo nosso.
26
daquele meio. Entretanto, de acordo com Kymlicka, como citizenships26 que incluem
as tendências do mundo em geral no questionamento dos programas sociais, a coexistência de povos de etnias diferentes, além do acesso às informações oriundas
da globalização destaca uma necessidade de um olhar reflexivo sobre as novas
identidades em formação e que os considerados “diferentes” sejam respeitados e
aceitos de forma inclusiva (op.cit., p. 476).
A ideia é compartilhada por Burity27, ao afirmar que existem questionamentos
quanto ao sentido de multiculturalismo e que o termo suscita falar do manejo da
diferença em nossas sociedades. O autor ainda aponta para as complexidades do
termo que culminam em apreensões divergentes quanto à aplicação, pois remetem
a um conjunto de aspectos ligados entre si, mas que carregam marca de uma
imprecisão 28 que vai além do trato com a diversidade constatada empiricamente,
como o reconhecimento da não-homogeneidade étnica e cultura das sociedades ou
a não-integração dos grupos.
Ao objetivar lançar “olhares-plurais” buscaremos inclusive um olhar na
Pragmática29, no que concerne às características da utilização da linguagem, como
as motivações psicológicas dos falantes, reações dos interlocutores, tipos
socializados da fala, etc, em oposição aos processos formais da construção
lingüística sintática ou semântica.
Alguns aspectos empíricos do uso da linguagem já nos indicariam um
resultado na minimização dos embates, oriundos esses inclusive da diversidade
implícita da chamada globalização e das diferenças destacadas do multiculturalismo.
Uma análise, nesse sentido, desencadeia uma tomada de posição conforme o que
afirmamos no início no tocante à relação entre História e Literatura30, mas que não
são somente aquelas de um dado momento histórico, pois a História é
continuamente dinâmica.
Destarte, a menção à Pragmática justifica-se com o intuito de desvelar
sentidos veiculados pela linguagem a partir da constatação de que não há uma
verdade absoluta. Os elementos do cotidiano ou as relações das práticas sociais
expõem as complexidades inerentes e o conhecimento passa a ter a necessidade de
26
Termo empregado por Kymlicka na acepção de cidadão/cidadania e mantido como tal em inglês.
BURITY, Joanildo. Globalização e identidade: desafios do multiculturalismo. Fundação Joaquim
Nabuco. Março/2001. In: http://www.fundaj.gov.br/tpd/107.html, p.2. Acesso em 11/10/2008.
28
Termo empregado por Burity. Que é contestado, incerto.
29
DUBOIS, Jean et alii. Dicionário de Lingüística. São Paulo: Cultrix, 1997, p. 480.
30
Vide Introdução.
27
27
ser articulado e aplicado. Para que isso ocorra é fundamental, num dado momento,
lançar-nos no interior do processo histórico, a fim de responder a algumas
indagações suscitadas por termos, em nosso caso de investigação, como
Justiça/justiça. A inserção do pesquisador na área historiográfica possibilita a
aplicação
daquelas
descobertas
somente
acessíveis
através
dos
estudos
interdisciplinares.
Tais olhares possuem respaldo em Kocka ( 2003), quando este menciona que
a busca por determinados objetivos intelectuais adquire formas heurísticas que
conduzem não só ao levantamento de fatos, como também a descoberta de
elementos correlacionados, os quais, por vezes, podem passar despercebidos.
Como forma descritiva, Kocka (2003) menciona a necessidade da exposição dos
elementos e de torná-los objeto de uma reflexão como forma analítica para se
apurar os questionamentos e responder pragmaticamente ao estranhamento, i.e.,
lançar sempre um olhar além.
Um exemplo do que vimos desenvolvendo é obtido em Kawai (2010, p. 124)31.
Sabe-se que no início do Período Edo os samurai que haviam lutado por muito
tempo no período que antecedeu à Era Edo, não conseguindo se habituar a falta de
lutas, provocaram uma série de crimes que tornou aquela região de Edo insegura.
Igualmente, um grupo de andarilhos malfeitores com vestimentas extravagantes
começava a chegar à cidade e a provocar incidentes. Estes eram chamados de
kabukimono numa alusão aos personagens do teatro kabuki32 (teatro tradicional)
Nesse processo, não foram raros aqueles que, por puro prazer, cometiam
assassinatos. Alguns, para testar o corte de suas espadas, passaram a matar de
forma indiscriminada e, ainda, segundo Kawai, havia até apostas de quem
conseguiria “cortar” 切る, ou seja, matar, com o objetivo de se atingir o recorde de
100 vítimas (2010, p. 125).
Não precisava haver motivos para se cometer os crimes, sendo esses
perpetrados em qualquer lugar ou hora, contra homens ou mulheres e até em nome
da “arte marcial” bujutsu
31
「武術」33.
KAWAI, Atsushi. Edono osabaki – odorokino hôritsu to saiban (O julgamento do período Edo – as
leis e julgamentos espantosos). Tokyo,: Kadokawa Shuppan, 2010.
32
Arte teatral que envolve canto (ka
歌), dança (bu 舞) e técnica (ki 伎), representada por
homens.
33
Bu - 武 – militar e jutsu 術 – técnica.
28
O confucionismo, que então começara a prosperar, aparentemente não
mediava os conflitos e até mesmo impunha o “respeito ao superior”, demonstrando
apenas a fragilidade de uma vida humana, pois como afirma Kawai (op.cit, p.125) “a
vida humana de tão leve voaria num simples sopro” [hito no inochinadowa fukeba
tobuyôna karusadatta”]34
Se o confucionismo não permitia que se coibissem as arbitrariedades, por
outro lado percebe-se que o emprego da ideologia presente de “respeito ao superior”
trazia um discurso encoberto do poder, em que, conforme Baccega (2003, p. .6): “...
as palavras têm vida. Vestem-se de significados. Mascaram-se... Dançam conforme
a música”, já que para os samurai as mortes seriam, também, em nome da “arte
marcial” (grifo nosso).
Eventos de violência arbitrária, como acima mencionados, presentes na Era
Edo, comparados aos existentes nos tempos modernos tais como o bulling, embora
com maiores ou menores diferenças ou maiores e menores intensidades, tendem
em nosso entendimento a se assemelhar. São aspectos em que questões como a
da identidade não receberiam tanta consideração devido à formação de hibridismos,
sociais,
culturais,
informativos,
trazidos
pelas
mudanças
galopantes
e
convencionados pela globalização.
Em Literatura, quando os discursos apresentam verossimilhanças profundas
com um dado evento histórico, percebe-se que naqueles são construídas formas
indiretas deste último, muitas vezes ocultando questões como a do poder que
encobririam a contribuição de outras culturas ou desconsideração às mudanças,
culminando muitas vezes em dominação e manipulação.
Por manipulação entende-se a proposta de Dijk (2008, p. 234) 35 de uma
“prática comunicativa e interacional na qual um manipulador exerce controle sobre
outras pessoas, normalmente contra a vontade e interesses delas”. A manipulação,
nesse sentido, abarca relações não só de poder, mas de “dominação”, salienta Dijk.
34
「人の命などは吹けばとぶような軽さだった」
DIJK, Teun A. van et alii. (Org.) Discurso e poder. Judith Hoffnagel, Karina Falcone (org.). São
Paulo: Contexto, 2008.
35
29
Nesse sentido, endossando o nosso raciocínio, Baccega (2004, p. 6) afirma
que:
As palavras têm vida. Vestem-se de significados. Mascaram-se. Contagiamse com as outras palavras próximas. “Dançam conforme a música”, tocada
no salão de baile onde estão. O salão é o discurso e é aí que elas
cristalizam momentaneamente uma de suas máscaras.
Desse modo, História e Literatura encontram-se atreladas por um processo
específico, também, discursivo, pois
(...) os discursos literários estão presos às séries literárias da sociedade em
que se instauram e os discursos históricos às séries do estudo da história
daquela sociedade. ...Ou seja, à série a que pertence um ou outro discurso
vai exercer um importante papel na maneira que se dará sua leitura.
(BACCEGA, op.cit., p.81)
Verifica-se, pois, a necessidade de uma articulação de diferentes enfoques e
a acuidade de uma reflexão sobre o que o elemento do multiculturalismo expõe,
como nos casos em que os direitos das minorias sejam tratados de forma inclusiva.
Kymlicka (2008) defende a necessidade de participação da população nas
atividades em geral de forma plena e imparcial, sem distinção de raça ou credo.
Trata-se de uma busca por uma identidade cultural inserida nos tempos atuais,
como já discutido por Stuart Hall (2006, p.7)36 acerca dos efeitos das mudanças e os
reflexos da dita “crise de identidade”.
A “crise de identidade” que Hall pondera seria, num aspecto, uma busca
incessante do ethos-homem por um equilíbrio interno e sem uma formatação. Tratase, assim, de algo amorfo trazido pelos conceitos de “globalização”, “bens
multiculturais” ou “bens simbólicos”, a que o homem está sujeito mais intensamente
hoje em dia. Stuart questiona sobre a transformação que a modernidade tem trazido
e indaga se não seria a própria modernidade que estaria sendo transformada.
A idéia reforça o que dissemos na Introdução sobre o ato de “fundar” que
começa a operar no ethos-homem contemporâneo e que refletiria numa tomada de
posição. De fato, não podemos deixar de ignorar o resultado ou o efeito da influência
desses elementos, pois o equilíbrio é afetado.
Um exemplo de ocorrência contemporânea de que se tem notícias, seriam os
casos de “bulling”, que deixam entrever uma forma de expressão de um
36
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução de Tomas Tadeu da Silva e
Guaracira Lopes Louro. 11ª.edição. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
30
“inconformismo” ou uma “insatisfação” que se expressa num contexto social. Não
questionamos se tal fator é correto ou não, mesmo porque, através do olhar da
Pragmática, surgiria a pergunta, o que seria o “correto”? O exemplo serve para
mostrar uma formação de um doxa, conforme dissemos, e um “justiceiro” assumindo
papel performativo.
Esse olhar é ilustrado em Death Note.
O personagem Light, a princípio, não teria nenhuma razão por se encontrar
entediado, como demonstrado no início da sua história e filho de pais socialmente
perfeitos - o pai, policial e a mãe, dona de casa, que cuida dos afazeres do lar e de
todos, de modo que nada lhes falte. Seria um modelo de família estruturada.
Todavia, falta-lhe algo: conforme veremos nas análises, Light entra em convergência
com o imaginário “Deus da morte”, pois este também encontra-se entendiado.
Essa situação pacata e equilibrada, que aparentemente não apresenta
tensões em seu interior, conduz o protagonista a um tipo de “inconformismo” com a
vida. O cotidiano torna-se monótono, como será visto na análise dos corpora no
capitulo III. Exposto à uma sociedade de “benrisa” e “yutakasa” (de praticidades e de
abundância das coisas), estes valores acabam por influir no íntimo do personagem,
sem que este conscientemente disso se aperceba.
Se, numa escala menor, podemos citar as manifestações das contingências
humanas que seriam suficientes para provocar rupturas de relacionamentos, por um
lado, como um caso de bulling ou manifestação psicopática ou mesmo de casos de
depressão, cujo trauma representaria um perigo ao equilíbrio necessário, pois os
aspectos psicológicos estariam afetados, por outro, no caso específico do Japão,
não podemos minorar as ocorrências de crimes brutais decorrentes desses
acontecimentos violentos tanto no espaço físico quanto mental.
Segundo Serizawa 37 , no Japão, os requintes de crueldades nos delitos
cometidos por portadores de doenças mentais, por exemplo, são inúmeros. Não são
raras as pessoas que mantém as suas vidas “normais” e, repentinamente, adotam
comportamentos que chocam a opinião pública. O autor questiona as instituições
que tratam desses doentes e o sistema judicial pelo fato de não terem sido tomadas
a priori medidas preventivas.
37
SERIZAWA, Kazuya. Kyôki to hanzai – naze Nihonwa sekaichino seishinbyô kokka ni nattanoka. (A
loucura e crime – por que o Japão se tornou uma nação mundial de psicopatas). Tokyo: Kôdansha,
2005.
31
Não são poucos também os casos de hikikomori 38 (doenças psicológicas),
provocados por vários motivos, mas basicamente atribuídos à vida moderna dos
dias de hoje.
Por conseguinte, reiteramos o enfoque também do “diferente” para o nosso
presente estudo, pois o mesmo culmina nas questões de Justiça/justiça e de
justiceiro, inclusive porque as transformações oriundas da chamada globalização,
com misturas de elementos multiculturais conforme vimos expondo, externam os
aspectos variados do multiculturalismo e que, com suas diferentes manifestações
influenciam na concepção de Justiça/justiça.
Entendemos que a exposição dos diferentes e das diferenças deveria ocorrer
dentro de um equilíbrio, o qual envolveria, entre outros, os aspectos psicológico e
emocional e o acesso devido, em qualidade e quantidade, as informações que
permitam um reconhecimento e reflexão que a chamada “vida moderna” não nos
concede. Sente-se, no dizer da Van Dijk, uma manipulação discursiva da cognição
social em que os receptores são conduzidos a apreenderem um evento conforme
um modelo representativo (2008, p. 245).
Desta forma, cremos que os manga efetuam um elo ou uma chamada para o
que começa a ser perdido e para o novo. O imaginário de suas tramas atua no leitor
como uma forma de empatia ou ânsia por uma nova identidade, sem que esta,
contudo, ainda esteja devidamente delineada. Podemos citar como exemplo em
Vagabond o personagem central Musashi, o qual aspira a uma perfeição como
espadachim e ao mesmo tempo a elevação espiritural. Death Note também não é
diferente, mas em outros moldes: Light sentia falta de alguma coisa, conforme a
trama demonstra desde o início, ao apresentar o personagem central entediado.
Este almajeva algo “amorfo”, como Musashi, na sua busca pela “ascensão espiritual”.
Pode-se dizer então que os manga, como uma nova forma de cultura de
massa, possibilitam aos leitores aficcionados as suas catarses, pois o pathos é
obtido e o ethos começa a crescer, sendo daí decorrentes, por exemplo, os aspectos
descritos em “fundar” e “fundação”, expressos anteriormente.
O multiculturalismo deve ser apreendido como fruto da intensa globalização
principalmente através da internet, obrigando os seres humanos a estarem sempre
38
Do verbo hikikomoru, “fechar-se em si”. Um fenômeno que começa a crescer no meio de crianças
que são alvos de bulling, entre outras causas, e de idosos que ficam em suas casas sem contato com
outras pessoas.
32
atentos para não se tornarem “diferentes, desiguais e desconectados” (CANCLINI,
op.cit., p. 16). No entanto, se a internet proporciona conhecimentos diversos,
podemos observar também que outros conhecimentos são do mesmo modo muito
veiculados e não podemos deixar de reconhecer que ambos acabam vinculando as
pessoas aos seus computadores. Ocasiona-se, daí, uma interação efetivada e
possível apenas no espaço virtual do homem com a máquina.
As mudanças derivadas do processo de globalização (HONDA et.alii, 2011,
SAKAI, 2011, AMAKAWA, 2011, GROFF & PAGEL, 2009) também levam os
homens a se tornarem mais apreensivos, conduzindo-os, via de regra, ao consumo,
mola-mestra do sistema capitalista. Esse sistema começa igualmente a operar
mudanças no ser humano com a crescente necessidade deste último de se lançar
aos desafios da vida do consumo.
São os aspectos multiculturais, sob os paradigmas econômicos, que se
inserem na sociedade dita moderna em que as minorias ainda são levadas a seguir
o modelo das maiorias e sem que se permita ter um espaço para um possível
questionamento.
Em meio a uma intensa vida de transformações, o homem começa a sentir a
necessidade de busca, uma busca amorfa, conforme mencionado, que lhe traga
algum ponto de equilíbrio. Podemos observar essa questão também no caso da
proliferação de seitas, o que demonstra, de alguma forma, uma eterna procura do
homem por si mesmo.
Neste processo, não se pode ignorar as rupturas de diversas ordens - morais,
de relacionamentos, psicológicos, emocionais - que podem ocorrer em meio a
crescente vinculação aos valores materiais, uma das vertentes da globalização, e
que enfatiza o consumismo dentro das sociedades. Inegável é o contraponto de
valores como ética ou filosofia que passam a ser encobertas, pois entra em cena a
fragmentação conduzida pelo obsoletismo conforme desenvolvido na página 15.
Registra-se, no caso japonês, a existência do termo kakusa shakai, 「格差社
会」 (desigualdade social) que começa a surgir desde a Era Taishô (1912-1926)
como conseqüência da modernização pós Era Meiji (1868-1912) e a sua intensa
introdução de elementos ocidentais.
33
A rígida divisão de classes do Período Edo é abolida na Era Meiji, mantendose, entretanto, uma distinção social entre a classe de aristocratas kazoku, 「華族」39,
formada pela nobreza, o shizoku, 「士族」40, descendentes de samurai, e heimin
「平民」, o “povo comum”, conforme os seus ideogramas41.
Segundo Uchihashi 42 , a situação assemelha-se aos dias de hoje, quando
inúmeros empresários ou políticos atribuem a situação de pobreza à culpa individual.
Entretanto, conforme Uchihashi, dos fins da Era Meiji ao início da Era Taishô nascia
uma nova camada social, designada saimin, 「細民」43, que era a designação dada
às pessoas que viviam numa situação de extrema pobreza. As razões dessa
nomeação foram, sem dúvida, atribuídas ao capitalismo. Assim que a Era Meiji
começa, as medidas econômicas, por exemplo, influenciadas pela industrialização
que opôs os capitalistas, de um lado, aos trabalhadores, do outro, acabam por
contribuir largamente para o estabelecimento de diferenças. O que Uchihashi
questiona nesse processo é se a culpa pela pobreza caberia à pessoa, em particular,
que não consegue administrar o seu lado econômico, ou ao Estado, ou seja, o
sistema político de um governo. Verifica-se, assim, que sob o título de
“modernização” se observam também medidas segregadoras que passam a
enfatizar o consumismo de uma sociedade capitalista e que nem sempre o homem
consegue acompanhar.
Não é possível ignorar que, embora o discurso de que a estratificação da Era
Edo tenha sido abolida na Era Meiji, as classes criadas, conforme exposto acima, de
shizoku ou shômin, os descendentes de samurai ou o povo comum, contribuem para
a permanência das distinções sociais do período Edo. Além disso, não obstante o
surgimento dessas classes incluindo-se nele um grupo minoritário designado de
saimin, foram conferidos também aos originários dos nobres kazoku, títulos
semelhantes aos dos modelos europeus kô, 公
39
kô, 候
haku, 伯
e dan, 男44 .
“Classe de flores”, criada pelo imperador Meiji.
“Classe originária de guerreiros”. Classe social criada pelo imperador Meiji.
41
“Classe da população comum” criada em 1869, pelo imperador Meiji, que engloba a população de
agricultores, artesãos e comerciantes da estratificação social da era Edo.
42
UCHIHASHI, Katsuto. Hinkon, kokka, Nihon no shinsô (Pobreza, Nação, Consciência Japonesa).
In: NHK, Rekishiwa nemuranai, edição fevereiro-março. 2010, p.108-116.
43
Do ideograma 細 sai, pequeno, modesto, e 民 povo, população, aqueles que vivem sob um sistema
político de um governo. Considerando o aspecto diacrônico, o termo pode ser designado de “estar
sob o domínio de uma autoridade”
44
Títulos de nobreza originários da China traduzidos sob o modelo europeu: kô, 公 público, (duque),
kô, 候 estação de ano (marquês), haku,伯(conde) , shi 子 (visconde) e dan, 男(barão).
40
34
Observa-se com isso que, começando com as classes que detinham o poder
econômico ou político, tanto a dos descendentes da nobreza quanto a dos
comerciantes, que enfatizavam, por um lado, já o aspecto capitalista representativo
de uma era contemporânea, de outro, o aspecto feudal45 mostrando que, embora em
moldes diferentes, as estratificações sociais da Era Edo permaneceram.
“Olhares-plurais”, então, significam efetuar uma crítica a partir dos
conhecimentos e refletir também sobre si mesmo, articulando-os para que possa
haver um contraponto de equilíbrio. Tal idéia pode ser respaldada, remetendo-nos
ao dialogismo do Bakhtin, conforme desenvolvido na Introdução cujo conceito
abarca toda a relação discursiva aqui empregada, apreendendo-se seu sentido na
sua composição:
dia – prefixo grego indicador de movimento, “através de”
logoi – os vocábulos, as palavras
ismo – sufixo que denota, entre outros significados, um modo de proceder ou de
pensar.
Dessa interpretação, podemos apreender que se trata de algo que é expresso
por meio de um jogo de palavras que traz subjacente toda uma produção de
sentidos.
Uma outra designação pode ser empregada paralelamente ao termo
dialogismo: a teoria polifônica de Ducrot (1987). A diferença desta para aquela é que
esta é empregada numa alusão aos efeitos de sentido que se forma a partir de
determinados procedimentos discursivos. A linguagem, nesse aspecto, é dialógica e
por sua vez pode se apresentar polifonicamente, ou seja, as “vozes” passam a emitir
uma determinada significação e que, por vezes, não é o que se expressa
formalmente.
Foram pelos vieses metodológicos acima descritos que nosso raciocínio dos
objetivos de pesquisa foram balizados. Os mesmos, além de uma exposição das
idéias centrais dos teóricos, permitiram-nos refletir melhor as mudanças do mundo
45
O termo feudal é controverso, pois remete aos signficados da História da Europa. Entretanto,
segundo Yamashiro (op. cit.,1982), as instituições políticas desenvolvidas pela aristocracia militar nos
séculos XII e XIII são semelhantes àquelas da Europa Feudal e John Whitney Hall em Japan: from
pre history to modern times (1978) afirma que o “problema é mais semântico e de definição” (apud
Yamashiro, p. 96). Assim, prosseguiremos com o emprego “feudal”, destacando que em nosso
trabalho o termo se refere exclusivamente ao Japão e segue as traduções encontradas em
dicionários.
35
atual com alguns registros de elementos pragmáticos e, consequentemente,
destacar as diferenças e atrelando-as ao significado de justiça e justiceiro.
No tocante à Justiça, entendemo-la como o conjunto de leis normativas e
prescritivas reguladoras do comportamento humano e de autoria do próprio
homem 46 . Nosso estudo, embora tenha abordado algumas características que
serviram de base para as análises, basicamente recorre ao termo justiça como a
virtude
47
moral 48 que consiste no reconhecimento que devemos dar ao direito do
outro49 e que deveria fazer parte inerente do convívio humano.
Não se pode ignorar a vinculação existente entre a Justiça e a justiça 50que se
instaura no homem ou com o justiceiro, aquele que age, conforme mencionado
anteriormente. É certo que as leis do homem exercem um papel regulador dentro
das sociedades, assim sendo, numa primeira instância, talvez, não houvesse
qualquer elemento que provocasse, por exemplo, algum questionamento ou
inquietação já que a Justiça, como a lei reguladora, estaria amparando a sociedade.
Entretanto, é a justiça, um elemento amorfo, que começa a se instaurar no ethoshomem, e se trata, normalmente, de uma das primeiras manifestações que acomete
o homem. Essa manifestação, ora oriunda dos elementos que o multiculturalismo
foca, ou seja, as diferenças que excluem, ora no ato de “fundar” de alguma
ocorrência até mesmo das questões das contingências humanas, passa a afetar o
equilíbrio necessário.
Como se observará nas análises a serem efetuadas, os protagonistas, tanto
Musashi quanto Light foram acometidos por sentimentos de “injustiças” ou de
questionamentos que os fazem adentrar a fase do “fundar”, à procura de algo que
lhes pudessem dar o equilíbrio necessário e os fizessem sentir seguros, dando
sentido às suas vidas. São manifestações dos dois personagens, cada um ao seu
modo, do doxa que começa a operar. Isso os conduziu a sair em busca de algo, ora
46
“Hume questiona a natureza da necessidade expressa pela lei natural, considerando que seu
caráter necessário resulta apenas de nossa forma de perceber as regularidades do real, que
projetando sobre a própria realidade acaba por atribuir a esta um caráter de necessidade que, no
entanto, não pode ser encontrado na realidade como tal” (apud JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES,
Danilo. Dicionário básico de filosofia. 3ª. edição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996, p.160).
47
No sentido ético, uma qualidade positiva do indivíduo que faz com este aja de forma a fazer o bem
para si e para os outros. Cf. JAPIASSÚ & MARCONDES, Dicionário básico de filosofia. 1996, p. 271.
48
No sentido de “respeito aos costumes, valores e normas de conduta específicos de uma sociedade
ou cultura”. Cf. JAPIASSÚ e MARCONDES (op.cit., p.187)
49
JAPIASSÚ e MARCONDES, op.cit., p. 152.
50
Como justiça, em minúscula, estamos focando no elemento que se cria no ato de “fundar”, ou seja,
o que vai começar a influir na formação do ethos-homem.
36
entendido como “realização espiritual” de Musashi, ora demonstrado como o “fazer
justiça” de Light numa busca de uma estabilidade e um sentido de vida.
Se fatores históricos, ainda que verossímeis ou não, ou culturais, exercem
uma força para que nos debrucemos em sua discussão, os recursos lingüísticos
empregados, ou conforme ditos, os discursos produzidos dentro das tramas também
merecem um destaque, por se encontrarem todos em estreita vinculação.
O emprego das onomatopeias em manga é algo recorrente aos leitores que
acabam por internalizar os seus usos, dada a articulação com a imagem veiculada.
Contudo, é preciso que se foque também a intencionalidade desses recursos,
conforme se verá nas análises dos dois manga dentro do presente trabalho.
Desde a Antiguidade, a língua tem servido inclusive para estabelecer uma
relação de hegemonia, haja vista, por exemplo, o discurso judiciário de onde se
origina a Retórica.
Segundo Aristóteles, a quem se deve o tratado de argumentação, as
questões do domínio da razão, das paixões ou da retórica são os instrumentos que
fundamentam um uso lingüístico entre os indivíduos e que culminam numa tentativa
de conduzir os topoi51 de um ao outro.
“A língua, através dos seus discursos produzidos, passa a ser um lugar da
construção de identidades, em cujo interior se passa a questão de uma
“negociação”. A idéia que norteia a discursividade pode ser sintetizada na
tríade da Retórica:
- as de ordem afetiva: ethos e o pathos
- as de ordem racional: logos
correspondendo o ethos a um Eu, uma instituição-enunciador que vai
suscitar no seu interlocutor alguma emoção que é o pathos, este por sua
vez, pode culminar numa tomada de posição de acordo com o logos, meio
pelo qual o enunciador se serve para utilizar o seu intento. Assim, logos é o
lugar do discurso, das palavras, dos argumentos, enfim, o instrumento
52
gerador de sentidos
Essas discussões encontram um destaque no dizer de Magda Soares (op.cit.,
p. 60), que afirma:
... que a unificação do mercado cultural e lingüístico resulta da adoção
socialmente generalizada de critérios de avaliação que conferem
legitimidade aos bens simbólicos – valores, usos, costumes, linguagem,
obras artísticas e literárias etc. - próprios dos grupos econômica e
socialmente dominantes; e que essa unificação transforma em capital
cultural e linguístico a cultura e a linguagem desses grupos.”
51
Princípio argumentativo que assegura a passagem de um argumento a uma conclusão. Cf.
Dicionário de lingüística da enunciação. São Paulo: Contexto, 2009, p. 232
52
YAMADA, Eli A. Os advérbios da língua japonesa: um olhar pragmático-enunciativo. São Paulo:
USP, 2003, p. 42. [Dissertação de mestrado.]
37
As discussões sobre diferenças de uma sociedade de consumo e por que não
dizer também das diferenças oriundas expressas do multiculturalismo evidenciam a
necessidade de se olhar também o processo histórico.
A abertura do Japão, após cerca de 250 anos de isolamento da Era Edo,
durante a segunda metade do século XIX, devido ao boom das importações
proporcionou um modelo econômico que teve como lema oitsuke, ”alcançar”, oitsuke,
“ultrapassar” conforme exposto na Introdução.
Retornando às ideias de Kocka (op. cit., 2003) sobre um estudo heurístico
podemos questionar como se deu a transição das duas Eras. De um lado tinha-se a
população no seu habitus53 de uma sociedade oprimida pelos Tokugawa e, de outro,
a chegada de novos tempos, novos costumes, sem que houvesse uma possibilidade
de se refletir a respeito. Não foi possível encontrar testemunhos escritos, por
exemplo, de como a população teria recebido a chegada dos novos tempos e seus
efeitos psicológicos. Afinal, foram cerca de 250 anos de isolamento.
No processo, observa-se mais uma vez a hegemonização das medidas, ainda
que sob a égide de uma “abertura” ou de “modernização”. Não se sabe exatamente
quais questões de choques culturais teriam sido por elas provocadas. A própria
chegada da chamada Restauração Meiji foi resultado das pressões econômicas da
já desgastada ou desestabilizada Era Tokugawa.
Embora o Japão da Era Meiji passasse por reformas calcadas em modelos
estrangeiros, os problemas trazidos por descontentamentos do povo evidenciaram
que a fase de transição não ocorrera de forma tão natural e tranquila. O modo como
a população absorveu todas essas mudanças faz-nos retornar a Soares (1996, p.
55-56) e sua discussão sobre a ideologia de bens simbólicos de Bourdieu. De
acordo com esta, no universo social, além de bens materiais como mercadorias e
serviços, circulam as informações, conhecimentos que se organizam através da
troca de bens, materiais ou simbólicos, que opõem possuidores a possuídos,
dominantes a dominados, caracterizando uma relação de força simbólica.
Acreditamos ter demonstrado e justificado até aqui as nossas concepções
sobre as propostas do trabalho e sobre as metodologias adotadas, as quais podem
ser sintetizadas, novamente, pela tríade da retórica (Figura 2), conforme já
explicitada na Introdução:
53
http://www.portaleducacao.com.br/psicologia/artigos/42113/o-conceito-de-habitus
14/06/2013.
Acesso
em:
38
Figura 2: A relação Cultura de Massa, História Comparada e Multiculturalismo
Os manga como elemento de cultura de massa, ou seja, de amplo
conhecimento entre o conjunto de uma população e que são apreciados/consumidos
por esta última, são dotados da presença de um ethos e revelados pelo logos da
Histórica Comparada que atingem o pathos do multiculturalismo, pois culminam na
relação minoria- maioria dos grupos sociais e fomentam uma tomada de posição.
Desse modo, a relação do tempo histórico com a obra literária contou como
linha investigativa central a História Comparada, com as idéias de Bustamante
(2003), Kocka (2003) e Detienne (2004), os trabalhos de linha investigativa do
discurso contou com os teóricos e Bakthin (1997) e o multiculturalismo, com
Kymlicka (2008), além dos aportes de teóricos como Kawai (2010), Soares (1996),
Hall (2006), Van Djik ( 2008), entre outros.
No tocante às análises imagéticas dos manga, efetuaremos as discussões
baseadas nas as informações de Scott McCloud (1995) 54 , Tezuka (2010) 55 e
Pietroforte (2007) 56 , Peruzzolo (2004) 57 , e Santaella & Nöth (2010) 58 no terceiro
capítulo desta tese.
54
McCLOUD, Scott. Desvendando os quadrinhos. São Paulo: Makron Books, 1995.
TEZUKA, Osamu. Manga no kakikata (Como desenhar manga).12ª.ed. Tokyo: Kôbunsha, 2010.
56
PIETROFORTE, Antonio Vicente. Análise do texto visual – a construção da imagem. São Paulo:
Contexto, 2007.
57
PERUZZOLO, Adair Caetano. Elementos de semiótica da comunicação: quando aprender é fazer.
Bauru: SP, EDUSC, 2004.
58
SANTAELLA, Lucia & NȌTH. Imagem: cognição, semiótica, mídia. São Paulo: Iluminuras Ltda.,
2010.
55
39
1.2. O conceito japonês de Justiça
A tentativa das primeiras sistematizações sociais surgiu com a Reforma Taika
no ano de 646, quando foi criada uma organização calcada no modelo chinês,
centralizada por Shôtoku Taishi, filho do imperador Yômei e regente (sesshô) da
imperatriz Suiko59.
No tocante ao aspecto jurídico, tal reforma propicia o surgimento do ritsuryô 60,
律令, baseado nas importações chinesas. Embora dissesse respeito a um conjunto
de códigos civis e criminais, tratava basicamente mais de regras morais,
incentivando os homens a desenvolver o “bem” e a obedecer fielmente às normas
vigentes 61 , o kankai「勘戒」. Como punição das transgressões de regras, eram
aplicadas penas que variavam desde um castigo corporal até a morte, havendo
inclusive exposição ao público dos condenados como transgressores ou criminosos.
Foi, dessa forma, mantida a supremacia do imperador e dos nobres, que procuraram
assegurar a concentração dos seus poderes.
Nesse regime ritsuryô, o poder absoluto do imperador era explicado pelo mito
de que ele seria descendente da deusa do Sol, Amaterasu Omikami, equiparando-o
a um ser divino (Yamashiro, 1982)62.
O termo Ritsu, 「律」, de ritsuryô, tratava de forma inclusiva os aspectos da
sociedade no tocante à justiça, mas centrava-se com mais precisão no que “era
permitido” e no que “não era”. (Fréderic, op.cit. p. 972)). Todavia, acredita-se que
após a Era Heian, esse tipo de regulamento tenha abrandado, pois afirma-se que de
818 até 1156 não teria ocorrido a pena de morte63.
Com o decorrer do tempo, na medida em que a sociedade começa a viver
sob o domínio dos samurai que passam a atuar ora como seguranças ora como
autoridades, e de forma ampla e irrestrita devido à criação dos sistemas de terras
59
FRÉDERIC, Louis. O Japão – dicionário e civilização. Tradução Álvaro David Hwing. São Paulo:
Editora Globo, 2008.
60
O termo Ritsu em japonês possui a acepção de norma, lei, princípio, norma sob a ótica do budismo.
Ryô, por sua vez, significa normas de conduta. Pode-se, dessa forma afirmar, que Ritsu Ryô seria o
“conjunto de leis reguladoras de conduta”, daí o aspecto de código jurídico e civil do termo.
61
NIHONSHI JITEN (Dicionário da História do Japão). Tokyo: Kadokawa 1981, p. 996.
62
YAMASHIRO, José. Japão: passado e presente. 2ª.ed. São Paulo: IBRASA, 1986, p. 32
63
KAWASAKI Hiroshi. Revista Direito Penal. Volume 69 de setembro de 1996. In: https://mrepo.lib.meiji-ac.jp/dspace//bitstream/10291/1411/1/horitsuronso_69_11_117_pdf.
Acesso
em
07/01/2012
40
privadas (shoen), surgem os chamados bugyô 64 , 「 奉 行 」 , pessoas ou locais
responsáveis por fazerem executar uma ordem imperial.
É no governo Tokugawa, na Era Edo, que os bugyô ganham força. Na
tentativa de assegurar a sua política de austeridade, o governo designa os
“encarregados”, bugyô, de executar fielmente todas as ordens dos seus superiores.
Entretanto, ao estabelecer um bugyô local, cujo significado corresponderia hoje em
dia a “governadores”, como o machi bugyô, literalmente os “responsáveis por uma
cidade”, dependentes da autoridade do shogunato e instalados em cidades maiores
como Edo, Osaka, Nara, o termo passa a ser empregado ora designando uma
localidade, ora designando o próprio funcionário responsável pelo local ou por algum
setor.
Desse modo, os inúmeros bugyô passam a coexistir e o termo passa a
significar ao mesmo tempo o local, a organização e o funcionário encarregado do
ofício. Essa apreensão confusa ainda é encontrada nos dias atuais, como, por
exemplo, no termo saibansho, Tribunal de Justiça ou Foro, que pode indicar tanto o
local ou prédio quanto a instituição do Tribunal de Justiça65
O quadro a seguir sintetiza a principal organização administrativa adotada na
Era Edo:
SHÔGUN 「将軍」
(autoridade máxima)

RÔJU「老中」
(Conselheiros dos shôgun)

HYÔJÔSHO
「評定所」
(“Ministérios”)





JISHA BUGYÔ KANJÔ BUGYÔ ÔMETSUKE WAKADOSHIYORI MACHI BUGYÔ
64
(Vigilância) (Assistente dos Rôjû) (“Governadores”) 66
(Templos)
(Finanças)
「寺社奉行」
「勘定奉行」 「 大目付」
「若年寄」
「 町奉行」
Destaca-se que, pela etimologia inicial dos seus ideogramas, o termo significa “aquele que serve
ao seu senhor”, desempenhando as tarefas que lhes eram incumbidas.
65
Uma possível explicação seria devido ao fato do ideograma sho, 所, do saibansho, designar
localidade. A ocorrência pode ter como causa a confusão gerada na apreensão de sentidos quando
da introdução da escrita chinesa.
66
Os responsáveis por cada cidade. Hoje, seriam os Prefeitos e Governadores.
41
De acordo com a estruturação administrativa acima apresentada, os
ocupantes do posto abaixo dos shôgun, o dos rôjû 67 , como Conselheiros dos
Shôgun, desempenhavam papéis de destaque por serem considerados homens
sábios e capazes. Inclusive os wakadoshiyori – waka, “jovem” e toshiyori “pessoa
idosa”, conhecidos como “jovens anciãos” eram, na verdade, jovens que se
destacavam de alguma maneira, sendo nomeados assistentes dos rôjû com o
objetivo de efetuar a vigilância sobre os hatamoto68, vassalos69 dos shôgun.
Detendo-nos sobre os adjetivos, empregados sob a modalização eufórica 70,
percebe-se que, discursivamente, os mesmos sugerem o que Bakhtin chama de
dialogismo 71 ou aquilo que Ducrot chama de Lei de Litotes 72 , favorecendo a
estratégia organizacional da supremacia dos shôgun.
Ao Jisha bugyô era incumbido o controle de templos budistas ou xintoístas,
atribuição que mais tarde levou os responsáveis por esta jurisdição a organizar a
repressão aos cristãos, atuando em conjunto com o Machi Bugyô.
Os Kanjô Bugyô, responsáveis pelo recolhimento de impostos, que em dias
atuais equivaleriam aos funcionários do Ministério de Finanças japonês, os Machi
Bugyô, órgão responsável pela cidade, que corresponderia à Prefeitura dos dias
atuais e os Jisha Bugyô, que possuíam o controle legal sobre os templos, foram
organizados de forma a coibir toda possibilidade de alguma liberdade dos monges
que pudessem dar margem à alguma rebelião. Exercendo o controle sobre as
cidades, vistas como possível foco de pensamentos divergentes e as finanças, o
governo Tokugawa tratou de assegurar a sua hegemonia, mantendo o domínio
sobre todos os segmentos, inclusive sobre religião.
67
Posto, em dias atuais, equivalente ao de Primeiro Ministro. Embora o ideograma rô designe nos
dias de hoje “ancião”, etimologicamente possuía a acepção de “virtude elevada” – tokuga takai – ou
de “conhecedor/hábil – “monogotoga jôzu – sem uma relação direta com a idade.
68
“Homens dos Estandartes”, originariamente designava o campo militar de um shôgun e, depois, os
homens que guardavam esse campo. Recebiam as ordens diretamente dos shôgun (FRÉDERIC,
Louis. op.cit, p. 391)
69
Conforme FREDERIC, Louis. op.cit., p. 391.
70
Adjetivos de indicação para o positivo, para o bom. Cf. NEVES, Maria Helena de Moura. Gramática
de usos do português. São Paulo: Editora UNESP, 2000, p.190.
71
A estruturação interna semântica dialógica (CHARAUDEAU, Patrick & MAINGUENEAU, Dominique.
Dicionário de análise do discurso. São Paulo: Contexto, 2004, p. 16), ou seja, os critérios da escolha
dos funcionários não se dariam apenas pelas suas aptidões, mas uma forma de assegurar o controle.
72
Figura de linguagem que consiste em substituir um significado por outro menos forte. Cf. REBOUL,
Olivier. Introdução à retórica. São Paulo: Martins Fontes, 2000, p. 249.
42
Quanto ao Ômetsuke73 cabia a vigilância de organizações religiosas, controle
de entrada de armas, registro de genealogias dos habitantes e do registro de seus
bens. Os responsáveis por esse órgão atuavam em conjunto com os Jisha Bugyô e
os Machi Bugyô, inclusive, em trâmites judiciais, desempenhando papel de membros
que regulavam os aspectos jurídicos, dando a entender que assumiam papéis
centrais nos trâmites judiciais, pois os Wakadoshiyori, como assistentes dos rôju
conforme explicitação supra, exerciam funções secundárias.
A escolha para o posto de Machi Bugyô, embora houvesse controvérsias,
ocorria entre os hatamoto, os homens de confiança e fiéis aos seus shôgun, que
possuíssem bens, normalmente um mínimo de 3000 seki74 e que, por terem sido
vassalos desde a época da Batalha de Sekigahara (1603), teriam se conservado
leais aos seus shôgun.
Sob o controle dos Machi Bugyô, já em bom número, como aponta Sato (op.
cit., p.75), aquele corpo de funcionários possuía um amplo poder, o qual, nos dias
atuais, corresponderia ao exercício de funções como de Governador, Polícia
Metropolitana, Tribunais Distritais, Tribunais Superiores, de Família, Corpo de
Bombeiros, entre outras. Todavia, três eram os aspectos mais importantes sob o seu
controle: a questão da segurança, da investigação e da justiça, estendendo-se ao
julgamento e a pena.
Todavia, a execução da pena das sentenças e medidas deliberadas cabia aos
subalternos. Em caso da aplicação de uma pena de morte, muito comum no período
Tokugawa, as execuções eram da alçada, de um modo geral, dos eta75 ou hinin76.
Em linhas gerais, o quadro remete-nos, conforme lembra Sato (1998, p.75)77,
a uma sistematização organizacional encontrada hoje no governo japonês em
algumas funções públicas, principalmente relacionadas ao poder: imperador,
73
Quando foi criado, em 1632, era chamado de sômetsuke, com sô significando “total”, “geral”,
designação que estabelecia uma hierarquia superior, que os distinguia dos inspetores de classe
inferior, os metsuke. O ideograma mestuke, 目付け com o seu significado de, literalmente, “por os
olhos”, designava a função exercida.
74
Unidade de medida de arroz; 1 seki ou 1 koku= 180 litros.
75
“Impuros”, classe social surgida no século XIII, originária, possivelmente da China. Seus membros
eram considerados “impuros” tanto pelo Xintoismo quanto pelo Budismo, aparentemente, devido à
pobreza em que viviam. Cf. Frédéric (op.cit., p. 261)
76
“Não humanos”. Classe inferior, conforme os eta, praticavam a mendicância por não ter o direito a
um trabalho ou profissão específico. O seu papel era de escoltar os condenados ou exerciam outras
tarefas, como coveiros, sendo normalmente repugnados por outras classes. Era uma classe situada
abaixo dos eta. Cf. Frédéric, (op.cit., p. 411.)
77
SATO, Tomoyuki. Edo machibugyô – shihai no shisutemu (Organização administrativa da cidade de
Edo – sistema de domínio). Tokyo: Sanjûichi Shinsho, 1998.
43
Primeiro Ministro, os ministros e as suas pastas. Além disso, no modelo
contemporâneo incluem-se os estados com seus respectivos governadores e seus
órgãos competentes como o Corpo de Bombeiros, o Departamento de Polícia
Metropolitana e a Promotoria Pública.
Com relação às sanções penais da Era Edo, tem-se prevista no「公事方御定
書」(Kujigataosamegaki)」de 1742, a “Carta-Magna” da época, cujos ideogramas
possuem o sentido de “Resoluções para assuntos oficiais”, tem-se, por exemplo, a
aplicação da punição de tatuagem 78 para a população em geral por crimes
considerados “leves” como o de roubo.
A tatuagem, até há pouco tempo, não era bem aceita no Japão, pois os tatoo tão em
moda nos dias atuais indicavam inicialmente uma penalidade destinada aos
criminosos. (Figuras 3 e 4)
Para os samurai, o seppuku, comumente conhecido como harakiri, dava a
oportunidade destes se suicidarem “honradamente” ou repararem os seus desvios
de conduta de forma digna.
As penas eram aplicadas de acordo com o status do criminoso.
Figura 3: Tatuagem da Penalidade
Cometendo três crimes, os traços podiam
designar “cão”, além de outros.
78
Tatuavam-se linhas verticais ou horizontais nos braços ou nos rostos, de modo que pudessem ser
vistas por todos em qualquer lugar. Os estilos variavam de acordo com a região, para que, aqueles
que o vissem, soubessem onde o crime fora cometido (cf. Kawai, op.cit., p.138).
44
Figura 4: exemplos de tatuagens.
In: <http://ameblo.jp/orochon-x/entry-10273931825.html>, acesso em 16/02/2011
Não obstante às semelhanças com as organizações atuais, percebe-se,
assim, que o sistema privilegiava a designação dos bugyô, e, com isso, a
interdependência e a falta de autonomia entre os seus membros, assegurando o
poderio dos shôgun. Inclusive, o ideograma do termo bugyô possui o sentido de
“aquele que executa as ordens dos seus superiores”, significando ainda em um
sentido budista “dedica-ser aos ensinamentos do Buda e praticar de acordo”. Ou
seja, tanto em um sentido quanto no outro, a criação dos bugyô remete a existência
de um superior, favorecendo a obediência.
Nota-se também que, embora não houvesse a existência de uma
“organização” propriamente dita, com a sistematização dos chamados bugyô, com
dezenas de funcionários e cargos para possibilitar que as instâncias judiciais
pudessem se estender a todos, principalmente às camadas mais humildes da
população, tal sistema, na verdade, era bastante repressor e violento. A Era Edo
manteve e aplicava os castigos mais cruéis, conforme alguns exemplos abaixo
(Figuras 5, 6 e 7):
45
Figura 5: Cena de uma decapitação
Figura 6: Diversas tatuagens eram utilizadas para identificar a pessoa infratora
46
Figura 7: Os quadros acima mostram as punições que variavam desde ficar amarrado por braços às
pernas, até o açoite. In: http://isweb.www.infoseek.co.jp, acesso em 14/04/2010.
Além das punições ilustradas pelas imagens acima, ressalte-se que as penas
variavam de acordo com o nível social do infrator. A seguir, à guisa de
exemplificação, citamos algumas penalidades para membros de diferentes camadas
sociais e sexos 79:
1. Penas comuns à todos segmentos sociais em geral, sem distinção de sexo: além
da pena de morte e o seppuku (ou harakiri), havia a tatuagem conforme mostrada
acima, decapitação, banimento, tornar-se serviçal em templos e exílio.
79
In: http://homepage2.nifty.com/kenkakusyoubai/zidai/keibtsu.htm, acesso em 14/02/2010.
47
2. Para a população em geral, inclusive mulheres: repreensão, rebaixamento para o
grupo dos hinin, ficar imobilizada por amarras num período de 30 ou mais dias,
multas, perda de bens, decapitação, açoitamento, repreensão.
3. Samurai , o seppuku, comumente conhecido por harakiri, confinamentos, perda do
emprego, decapitação.
4. Monges – confinamentos, banimento do templo, reclusão, exílio, restrição de
locais de locomoção, aprisionamento, expulsão da religião.
5. Exclusivamente mulheres – escravidão, cabelos raspados.
6. Outros tipos de penalidades como a de confisco ou açoites, dependendo da
interpretação da gravidade, eram aplicados aos familiares do infrator e penalidades
coletivas aplicadas aos membros de uma determinada comunidade inteira como no
caso de ocultar alguém infrator ou como no caso dos produtos agrícolas entregues
não fossem considerados satisfatórios.
As penas oscilavam também de acordo com o status da vítima. Nos casos,
por exemplo, de assassinatos de integrantes de uma família como pai, tio, irmão
mais velho, cometidos por um membro oriundo da mesma família, apesar de serem
considerados delitos graves, as punições dependeriam do grau de parentesco entre
a vítima e o seu assassino.
Roubos acima do valor de 10 ryô80 levavam à pena de morte, se fosse uma
importância aquém tatuava-se o infrator. Provocar incêndio ou incendiar vestuários,
se descobertos, significava arrastar em vias públicas o condenado amarrado à
cauda de um cavalo. O adultério era punido com decapitação e o pescoço exposto
em locais públicos. Num duplo casamento, o homem era expulso do vilarejo onde
residisse e a mulher tinha os cabelos raspados.
Para que tenhamos uma visão um pouco mais ampla sobre as sanções da
Era Edo, acrescentamos no quadro abaixo e em linhas gerais as principais
penalidades vigentes na época.
80
10 ryô. Ryô: unidade monetária da época.
48
TABELA 1: Principais tipos de penalidades vigentes na Era Edo
Penas
Forca
Exposição do
corpo
Queimar na
fogueira
Seppuku
(harakiri)
Decapitação
Especificação
A penalidade incluía, além da morte, o confisco
de bens, a exposição pública do corpo, a
exposição do infrator antes da execução
passando pelos vilarejos com cartazes em que
se dizia o porquê da condenação. Após a
sentença executada o corpo não era entregue
aos familiares servindo, por vezes, como
testagem de corte dos katana.
A execução da pena era realizada ou no lugar
de origem do condenado ou num local mais
próximo.
Classificação
Pena de morte
Variavam desde o açoite, podendo oscilar
entre um número de 50 para os casos de delito
considerados não muito graves e, para aqueles
Castigos físicos
considerados graves até 100. A tatuagem, que
sendo repetida 3 vezes, transformaria a
penalidade em pena de morte.
Prisão cuja
duração
oscilava de
acordo com o
delito.
Exílio sem um
período
determinado,
cujo local de
destino variava
de acordo com
a sentença.
81
Penas mais brandas. Aprisionamentos que
permitiam saídas somente à noite, ou saídas
caso houvesse colaboração no combate de
incêndios.
Permanecer
algemados,
desistência de cargo público, se possuíssem.
Reclusão com períodos que oscilavam entre
20, 30, 50 e 100 dias, dependendo do delito e
sem considerar a posição social. Normalmente
essas penas eram destinadas aos monges,
aos funcionários do governo e aos samurai,
cujo delito fosse considerado leve.
As distâncias do exílio dependiam das
sentenças estabelecidas e variavam entre as
localidades próximas das moradias dos
condenados até as ilhas longíguas sem muitos
recursos de habitação, levando o condenado a
uma vida de precariedades.
Os nômades sequer podiam passar pelo local
onde funcionasse o machi bugyô, originandose daí a expressão monzen barai81
Penalidades
que restringiam
a liberdade do
indivíduo
Em uso ainda nos dias de hoje, expressa “o dar com a cara na porta” numa alusão a uma visita
indesejada, sem que a entrada do visitante seja permitida.
49
Penas
Multas e
Confiscos.
Eram medidas
que
rebaixavam de
posição e
ordenado, além
da perda de
todos os seus
privilégios e
terras.
Repreensão
Outras
Especificação
Classificação
Confiscos totais ou parciais com períodos
determinados. Penas que complementavam a
pena de morte e a de exílio. As multas eram
aplicadas também como complementação de
acordo com o entendimento das autoridades
da época.
Patrimonial
Normalmente aplicadas em substituição às
outras
sanções.
Eram
medidas
que
rebaixavam de posição e ordenado, além da
perda de todos os seus privilégios e terras.
Banimento de seus vilarejos e, no caso dos
monges, dos seus templos. Perda do
sobrenome da família. Cabelos raspados para
mulheres que tentassem suicídios. Prestação
de serviços, sem direito a qualquer recurso,
trabalhos como serviçal. No caso de mulheres,
havia a prática de servir em Yoshiwara, nome
do local onde funcionava uma casa de
prazeres.
Penas com
Influência na
posição social e
na
honra
Sanção pública em voga durante a Era Edo,
que consistia na repreensão do condenado
pelos machi bugyou, considerada como
desonra.
Exposição em público, permanecendo cerca de
3 dias em locais de grande movimento. Perda
de cargos públicos.
Implicação na
Honra
Aplicação de multas. Repreensão. Reclusão.
Prestação de serviços em 6 locais diferentes.
Ser
responsabilizado
pelo delito dos
outros.
Como exposto, embora não houvesse um sistema jurídico unificado, as
inúmeras medidas repressoras mantidas pelos bugyô centrais expondo o infrator à
comunidade causavam forte impacto e o fato de se designar um bugyô para cada
cidade atendia aos propósitos da estratégia dos Tokugawa em privilegiar a
manutenção dos seus domínios e garantir a sua hegemonia. Percebe-se que as
sanções, de um modo geral apresentando-se arbitrárias, pois dependiam da
interpretação dos bugyô, cerceavam a qualquer tentativa de infração principalmente
pelo fato de já haver um certo costume de “aceitação” por parte da população das
medidas que eram impostas.
50
Entre as principais leis adotadas no período está a Kujikata Osadame-gaki82,
literalmente “Escritos sobre Determinações de Assuntos Públicos”, de 1742,
divididos em procedimentos criminais das leis civis e administrativas, com dois
volumes. Contudo, a referência para o presente trabalho é o 2º volume, pois foi
neste que foram tratados os casos jurídicos, mais especificamente, o Osadamegaki
hyakkajô ou “O Decreto em 100 artigos”83, compilado seguindo-se os modelos de
períodos anteriores, cujo conteúdo, em 100 itens, previa os tipos de punições de
acordo com os respectivos delitos. Tais leis objetivavam reduzir o número de penas
que pudessem ser aplicadas motivadas pelas ideias particulares do julgador, no
caso, o “tribunal” da época, procurando com isso evitar-se arbitrariedades nas
questões judiciais.
O castigo considerado mais severo na época era a pena de morte, seguido
pelo exílio, este último aplicado, por exemplo, em casos de estupros de mulheres
praticados por monges, no caso de pessoas que auxiliavam assassinatos, aos
menores de 15 anos assassinos e incendiários e no caso de porte de armas de fogo
no interior de 10 ri84 da cidade de Edo.
O fato é que a Era Edo havia assegurado a aplicação de um grande número
de sansões, garantindo assim, a princípio, a ordem interna. Entretanto, os detalhes e
as complexidades das aplicações dessas penas e de difícil entendimento e
destinadas a cada segmento da sociedade revelam um pouco dos propósitos da
administração do clã Tokugawa: a manutenção do poder.
Um outro aspecto que deveras influenciou o poder político da época e que
não podemos deixar de observar foram as influências das crenças ou religiões que
acompanhavam a população e também serviam como instrumentos de dominação:
xintoísmo85, budismo86, confucionismo87 e até mesmo o cristianismo88.
82
Código de leis promulgado em 1742 por Tokugawa Yoshimune e preparado sob a direção de
Matsudaira Norimura. (Cf. Fréderic, op. cit., p. 710)
83
HALL, John Carey. Japan Studies in Japanese Law and Japanese Feudal Law. Washington DC:
University Publication of América, 1979, p. 145 - 162
84
Unidade de distância equivalente a aproximadamente 3,9 km
85
Xintoísmo: antiga crença japonesa, autóctone e politeísta, manifestada através de um conjunto de
cultos. Não há nenhum deus supremo. Cf. AZEVEDO, Antonio Carlos do Amaral & GEIGER, Paulo.
Dicionário histórico das religiões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p. 368.
86
Budismo: doutrina baseada nos ensinamentos formulados por Sidarta Gautama, o “Iluminado”. O
propulsor básico da doutrina é a dor do universo (tudo na vida é dor, a origem da dor está na sede do
desejo, a destruição do desejo possibilita o afastamento da dor alcançando o nirvana e a necessidade
de caminhar na senda dos deveres mencionados pelo Buda nos seus ensinamentos.) Cf. AZEVEDO,
Antonio Carlos do Amaral & GEIGER, Paulo. Dicionário histórico das religiões. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 2002. p.69
51
No território japonês, a partir do início da cultura do arroz, intensifica-se a
crença xintoísta que defende o sol, a lua, as estrelas, árvores, aves, ou seja, todos
os elementos da natureza como possuidores de alma. Seus adeptos passaram, daí,
a promover rituais e cantos para que, por exemplo, a colheita fosse bem sucedida.
Não havia um ser supremo, mas já no budismo, introduzido a partir das importações
chinesas no século III, a doutrina é baseada nas mensagens transmitidas por Sidarta
Gautama (Buda) como “o iluminado” com a concepção do estado de nirvana89
O budismo possui várias ramificações e, embora não se saiba exatamente
qual delas tenha se iniciado na época da sua introdução no Japão (acredita-se hoje
que teria sido a mahayana90), o fato de se conceber a possibilidade de libertação do
“sofrimento humano” e de haver, diferentemente do xintoísmo, um “ser superior”,
favoreceria a uma mais rápida sujeição, um fator preponderante na política dos
Tokugawa.
Não se pode ignorar, do mesmo modo, a influência do confucionismo, filosofia
que começou a ser introduzida em solo japonês desde o século VI, sobretudo
quando tomou impulso sob os religiosos zen.
Entretanto, as doutrinas neoconfucionistas que haviam chegado ao Japão por
volta dos anos 1200 e adotadas em maior ou menor escala pelos imperadores
permaneceram no solo japonês e configuraram a base do pensamento político
favorecendo a hegemonia dos Tokugawa, pois pregava obediência aos superiores.
A partir de 1549, com a chegada do cristianismo introduzido por Francisco
Xavier, inicia-se a expansão dessa religião entre a população, que vivia sob
constantes ameaças devido às guerras feudais, tornando-se um outro elemento de
apoio espiritual.
87
Confucionismo: “Doutrina ético-filosófica dominante na China por mais de dois mil anos. A moral
constitui o fundamento da ideologia confuciana, moral de índole burguesa... pretende formar um
homem superior pela bondade e pelo seu humanismo... o homem deve exceder-se em todos os
momentos, na prática de atitudes corretas e da integridade. A piedade filial constitui uma regra que,
se transgredida, beira os limites do sacrilégio”. Cf. AZEVEDO, Antonio Carlos do Amaral & GEIGER,
Paulo. Dicionário histórico das religiões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002. p. 107.
88
Religião fundada por Jesus Cristo, cujos dogmas e princípios gravitam em torno de seus postulados
e de seus milagres. Cf. Dicionário Histórico de religiões, op. cit, p.116.
Não se sabe exatamente qual das suas ramificações tenha chegado ao Japão. Entretanto, como a
chegada em solo japonês deu-se com os portugueses, acredita-se que a vertente introduzida tenha
sido o catolicismo.
89 Estado de beatitude e felicidade, alcançado quando tudo (pensamento, vontade, sensação) é
abolido, suprimido, extinto. ... O Buda não deixou nenhuma descrição do nirvana, mas mostrou o
caminho para alcançá-lo, oferecendo ao homem a possibilidade de sua liberação de toda ilusão sobre
sua própria natureza (cf. AZEVEDO, Antonio Carlos do Amaral & GEIGER, Paulo. Dicionário histórico
de religiões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p. 271).
90
“O Grande Veículo”. Escritos do budismo. Cf. Dicionário Histórico de religiões, op. cit., p. 70.
52
Num primeiro momento, o cristianismo também propagou-se entre os
daimyô91 principalmente aqueles da região de Kyûshû, ao sul do continente japonês,
que objetivavam vantagens comerciais, já que as importações de mosquetes e
pólvora trazidos pelos portugueses atendiam aos interesses da manutenção de
poder. A população é catequizada e ocorre uma ampla aceitação das obras
missionárias 92.
Com a proibição do cristianismo por Toyotomi Hideyoshi em 1587, a
perseguição aos cristãos japoneses torna-se implacável, pois Toyotomi passa a
recear os novos costumes.
Tokugawa, assumindo em 1603 o poder da Era Edo, em um primeiro
momento aceita a nova religião, procurando manter um relacionamento comercial
com o Ocidente. Todavia, mais tarde, assim como o que acontecera a seu
antecessor, Toyotomi, a idéia de um Deus onipotente é apreendida por Tokugawa
Ieyasu como uma ameaça a sua soberania, pois poderia suscitar junto aos
habitantes novos costumes ou novas idéias. Há perseguições de modo a erradicar
qualquer fio condutor de um possível enfraquecimento do poder. O budismo é
reintegrado ao lado do agora cultuado confucionismo que veio a atender a
hegemonia do governo Tokugawa. Contudo, os ensinamentos neo-confucionistas
que se seguiram foram proibidos com o intuito de manter uma linha de atuação de
acordo com os objetivos político-sociais da época.
Outro código a se destacar na época Edo é o bukeshohatto, literalmente
“Conjunto de Normas dos Samurai” com 13 artigos, organizado em 1615. As leis
foram criadas para os buke (samurai e daimyô), que também sofriam sanções em
casos de alguma infração. Foram seis as revisões efetuadas, em 1615, 1635, 1663,
1683, 1710 e 1717.
Percebe-se, desse modo, que a população fora sempre condicionada à
existência de um “superior” e, temente, aquiescia com as medidas tomadas pelos
shôgun, preferindo não mudar a sua rotina. Observa-se, inclusive, que a evolução da
manutenção das regras sociais ou políticas, sobretudo no pensamento da população,
91
Titulo dado a todos os senhores que governavam grandes territórios e que tinham em seu serviço
um grande número de vassalos. Designação, a princípio, somente a militares, na Era Edo passou a
ser aplicado a todos os senhores de domínios da plantação de arroz. Cf. Frédéric (op.cit., p. 1996)
92
Cf. OWADA, Nihon no rekishiga wakaru hon (O livro para compreender a História do Japão), op. cit.,
p.106 .
53
não foi advinda de uma Justiça, mas da forma como a civilização fora condicionada
ao longo dos anos.
Se havia, por um lado, um superior que demandava uma postura respeitosa e
passível diante dele e ao mesmo tempo existia a ideia de que qualquer delito
refletiria em seus familiares conforme acima demonstrado, por outro, a mescla das
crenças budistas e shintô junto à população fez com que uma ou outra fosse
adotada diante das adversidades. Shintô e budismo, assim, passaram a coexistir,
levando a uma não distinção entre as divindades. Além disso, essa evolução
provoca um sentimento de haji, vergonha, sendo mais um aspecto importante para
uma melhor compreensão do comportamento japonês93.
Pelo exposto, podemos detectar a existência de um primeiro sentido de
coletividade, que pressupunha a necessidade de uma homogeneidade de
pensamentos focados no chamado giri94, deveres imperiosos ou obrigações sociais
que um homem deve cumprir a fim de ocupar um lugar de destaque dentro da
sociedade japonesa95.
De acordo com Koroku (op.cit., 2012) essa forma de evolução de várias
idéias de diferentes épocas e culturas introduzidas coexistindo sem nenhuma
dificuldade no espírito japonês contribui, inclusive, para que os japoneses
desenvolvessem uma aversão ao rigor lógico e aos conceitos rígidos, não se
adaptando, por exemplo, ao rigor da ciência jurídica européia desenvolvida a partir
da Restauração Meiji (1912). Predomina, desse modo, a regra do giri supra citado e
que prevalece sobre as obrigações jurídicas. Desse modo, prossegue Koroku, (op.cit.
2012) embora as apreensões das novas gerações tendam a serem outras nos dias
de hoje, a prática cultural predominante direciona-se em função dos interesses do
outro e esperam a sua reciprocidade.
93
KOROKU Tonia Yuka. In: REID-Revista Eletrônica Internacional Direito e Cidadania
http://www.reid.org.br/print.php?CONT=00000035, acesso em 15/01/ 2012.
94
Traduzido normalmente como “dever” ou “obrigação”, o termo é de difícil definição. Acredita-se que
tenha início na Idade Média, quando os senhores feudais, para garantir a aceitação dos seus
vassalos ou subalternos em partir para as guerras, doavam pequenas quantidades de terra para
produção e em troca deveriam sentir-se agradecidos. Era mais uma forma de demonstração da
supremacia dos senhores feudais que evoluiu desde a época feudal japonesa.
De acordo com Fréderic, (op. cit. p. 335), na sociedade antiga, os guerreiros eram obrigados a um giri
extremamente rigoroso e deviam sacrificar a sua vida pelo senhor que os alimentava e os protegia,
de maneira a lhe prestar o seu on (favor feito). Desde o nascimento, o japonês é submetido a muitos
giri: para com a nação ou o imperador, para com os pais, a babá, os professores e todos aqueles a
quem ele é devedor.
95
FRÉDERIC, Louis. O Japão. Dicionário e civilização. Op. cit. , p.334
54
Atualmente a prática jurídica prevê que a confissão caracterizaria a primeira
instância da reabilitação do acusado. Entretanto, Sato (1998, p. 162-163) questiona
o parágrafo primeiro do artigo 42 do Código Penal atual em que se lê “aquele que
cometer algum delito e se entregar à polícia poderá 96 ter uma pena abrandada,
suavizando o delito”, indagando como se fará isso ou afinal quem decretará a pena
como genkei, (pena rigorosa) ou seja, considerar o delito suave ou não. Não há,
segundo Sato, nenhuma menção sobre isso no código civil, pois não há nenhuma
referência ao que poderia ser definido como uma “pena rigorosa”, pois se é um delito,
deveria estar previsto. Lembra Sato, que tal decisão dependeria da consciência dos
membros do tribunal em que ocorresse o julgamento. Para o autor, tal concepção
não possuiria base legal.
O questionamento de Sato traz à luz novamente o problema da inserção das
concepções
religiosas
que
também
marcam
a
Justiça,
demonstrando
a
complexidade de interpretações do termo. O autor inclusive destaca o termo hô, de
hôritsu, que significa “a lei”, “o direito”, que acaba se constituindo em uma forma de
poder, pois opera somente sob o aspecto de algo “permitido ou não”, voltando à
significação inicial surgida nas concepções do ritsuryô das primeiras sistematizações
nos anos das introduções chinesas.
Dentre as leis, podemos citar a que regra o empenho nos estudos e no
aprendizado da arte de guerrar, a proibição de livre construção e reformas dos
castelos em que os samurai residissem, a proibição do cristianismo - este citado nas
leis de 1663 e 1710 - o vestuário compatível ao status, a proibição de se casar sem
autorização, as normas de etiqueta dos daimyô em viagens e a seleção pelos
shôgun de seus subordinados, entre outras97.
As
punições
brutais
dos
períodos
passados
deram
lugar
a
uma
sistematização mais branda e a pena de morte hoje, embora ainda existente, não é
muito aplicada.
Há centenas de leis no Japão, sendo muito difícil conhecer todas. Porém,
usando o bom senso na sua vida cotidiana e não fazendo nada que cause
inconveniência a terceiros, é muito difícil ser responsabilizado por alguma
98
infração da Lei.
96
Grifo nosso.
A listagem completa encontra-se em http://www.hh.em-net.ne.jp/”hayy/komo_hatto_main.html,
acesso em 30/09/2011.
98
In http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/defaut/files/.../16198-16199-1-PB.pdf , acesso em 12/03/2012.
97
55
Após 1868, quando da Revolução Meiji, possivelmente a ocidentalização
trazida não foi de imediato absorvida para desvincular da vida da sociedade
japonesa os antigos costumes, mas o imperador simboliza atualmente o Estado e a
união do povo. A sua atribuição é puramente cerimonial, sem poder político. A
Constituição, também conhecida como a Constituição Pacifista, é famosa pela
renúncia ao direito de declaração de guerra (artigo 9)99.
Quanto ao sistema judicial, o tribunal é o único órgão que poderá realizar
julgamentos no caso de disputas legais, penalização de criminosos e objeções
contra as medidas do governo. A figura 8100 mostra-nos a sua organização:
Figura 8: Organização do Sistema Judicial Japonês
Em um quadro comparativo verifica-se que, enquanto na época dos bugyô da
Era Edo havia um número muito grande de funcionários responsáveis por vários
setores, atualmente em cada província existe um Tribunal Distrital ou Regional e há
438 Tribunais Sumários por todo o Japão. No entanto,
o conservadorismo das tradições e a manutenção da segurança jurídica faz
com que as alterações legislativas sejam o mínimo possível, o que fez com
que o código penal se mantivesse ao longo de cem anos em vigor. O
centenário Código Penal Japonês, a Lei nº.45 de 1907, apresenta as
normas relativas aos crimes e ao sistema penal, em um total de 264
101
artigos .
99
In: http://pt.scribd.com/doc/5523356/A- Constituição- do-Japão, acesso em 21/07/2012
Guia de Assessoria aos Estrangeiros sobre a vida cotidiana em Iwate. http://pref.iwate.jp/hp0312/seikatsu.sodan/pt/...nihon...horitsu.html, acesso em 03/06/2012. Modificado
101
FERREIRA, Eduardo. In: http://letras jurídicas.blogspot.com.br/2008/10/o-´poder-judiciário-dojapo.html, acesso em 21/07/2012.
100
56
De acordo com Sato (1998, p. 94), uma das grandes diferenças existentes
atualmente em relação ao período Edo evidencia-se no que tange à aplicação das
penas, pois embora se mantenha a de morte, observou-se a redução da mesma,
além da abolição de punições, como o açoite.
Conforme Sato, uma grande mudança verificada na Era Edo ocorria quando
um acusado por algum delito fosse preso, pois este era automaticamente
considerado autor do mesmo e condenado. Não havia a condição de ser suspeito e
ser levado a julgamento após as diligências. Tão logo estivesse sob o poder das
autoridades, ele era submetido a um julgamento somente para receber a pena.
Os funcionários incumbidos por executar as penas eram, geralmente, os eta e
hinin, como os líderes do grupo de Danzaemon ou Asaemon102, sendo este último
muito famoso por ser um exímio espadachim que praticava o tameshigiri 103 , que
consistia num tipo de treinamento em testar a técnica e o corte do katana, utilizandoo em cadáveres e em animais.
Observa-se que, não obstante o número de leis e de suas reformas desde o
início das sistematizações jurídicas, a complexidade da escrita tenha contribuído
para a dificuldade de um entendimento mais preciso dos seus sentidos.
Segundo o exposto, a introdução de costumes e religiões advindos da China
e as importações como as da escrita fazem-nos refletir se não teria havido conflitos
com a realidade japonesa de então, decorrente da diferença vocabular e, sobretudo,
as duas formas de leitura, a chinesa e a japonesa dos escritos e nas apreensões
das significações das leis. Além disso, as bibliografias de um modo geral apontam
para a complexidade das interpretações das leis da época Edo 104, pois na sociedade
estratificada da época “O direito costumeiro era dominante e o sistema jurídico
não era unificado 105 . Cada território dominado por um daimyô tinha autonomia
político-jurídica e tinha um direito próprio” 106 ou, como exposto anteriormente,
variava de acordo com a diversidade de regras estabelecidas dos inúmeros machi
bugyô existentes.
Retornando e remontando à base da época da introdução da escrita, não
podemos deixar de refletir sobre como o Japão, de origens ágrafas, mesmo embora
102
Líderes dos eta e dos hinin que detinham o poder sobre os mesmos.
Literalmente “testagem de corte”.
104
In: http://homepage2.nifty.com/kenkakusyoubai/zidai/keibatsu.htm, acesso em 20/03/2009.
105
Grifo nosso.
106
REID
–
Revista
Eletrônica
Internacional
Direito
e
Cidadania.
In :http://.reid.org.br/print.php?CONT=00000035, Acesso em 15/10/1012.
103
57
tivessem decorrido cerca de 1000 anos desde então, tornou-se apto a interpretar e
aplicar as leis introduzidas através de um modelo de um mundo e contexto social
diferentes.
A despeito desses questionamentos, o fato é que hoje a Constituição
japonesa proíbe qualquer forma de guerra e o imperador como símbolo do Estado
não mais se assemelha àquele de eras passadas. Se o sistema judicial na época da
Era Edo era arbitrário, após a Era Meiji, muito embora as penas tenham se tornado
brandas e as mais violentas abolidas, no caso da pena de morte, que foi mantida,
esta é alvo de crítica. Muitos dos condenados aguardam por muitos anos na prisão
até serem executados e frequentemente encontram-se em total isolamento, sem que
as informações, por exemplo, como a data de execução sejam reveladas,
caracterizando assim uma outra forma de “violência”, a pressão psicológica.
Segundo Koroku, a atitude enraizada de longos anos de um sistema jurídico
sem unificação - pois cada território tinha um daimyô que detinha o poder políticojurídico mesmo após a chegada da era Meiji - fez com que o direito japonês não
tenha se desenvolvido sob uma doutrina jurídica, o que se refletiria no pensamento e
comportamento japonês.
O fato da ausência de uma doutrina jurídica é explicada como decorrente da
rápida modernização que a Era Meiji estabeleceu ao buscar ocidentalizar o país. Os
costumes e as práticas foram sendo introduzidos sem que houvesse uma
preocupação quanto, por exemplo, às diferenças culturais da população. Com
relação ao direito, conforme aponta Koroku, num primeiro momento, houve a
influência do direito francês e, a partir de 1898, tem predominância o alemão que
teve seu destaque na promulgação do Código Civil sendo que, somente após a
2ª.Guerra Mundial, o direito norte-americano é introduzido.
Com relação às questões penais tem-se a concepção de que, antes das leis
da Justiça, cometendo algum crime haveria punição e isso fortalece o pensamento
de caráter preventivo e educativo. Esse pensamento tem, por extensão, o haji acima
desenvolvido, ou seja, a cultura da vergonha.
Reiteramos a questão do processo jurídico: as camadas camponesas,
inicialmente, um grupo nômade, passam ao cultivo de arroz que exige um trabalho
grupal e passam a viver em comunidades; as primeiras sistematizações políticojurídicas sob um “superior” detentor do poder ao lado das religiões que pregavam
dentre outros lemas a obediência; a necessidade diante de inúmeras adversidades
58
na colheita, pois esta precisava também atender a demanda dos líderes no poder; a
longa vida sem contato com o exterior nos cerca de 250 anos de isolamento do
período Edo; a rápida ocidentalização sem que houvesse um tempo para adaptação
à nova vida, pois os costumes e hábitos eram mantidos, tudo isso fez que, conforme
Kuroku destaca, a introdução do direito codificado fosse apreendida como mais uma
regra imposta por uma autoridade.
Percebe-se que, de acordo com a história de evolução da sociedade
japonesa, a concepção de Estado não foi internalizada no pensamento japonês e
sim,tendo na figura de Imperador o ápice da hierarquia, principalmente por ter sido
considerado uma divindade, tal fato evidencia um “modelo a seguir” do que “um ato
ou uma conduta” sujeito a punição.
Assim, a concepção do haji (a cultura da vergonha), anteriormente
mencionado, vem a respaldar a noção de como a concepção de direito ou Justiça
fora desenvolvida.
Já a Justiça atual japonesa prevê as seguintes punições107.
TABELA 2: Tipos de penalidade vigentes no Japão atual
Penas
principais
Penas
Especificação
Classificação
Forca
Art.11-Forca no interior das
dependências do estabelecimento
penal
Pena de
morte
Prisão com ou
sem
Art.12-aprisionamento e sujeito a
estabelecimento prestação de serviços
de período
Art.13-confinamento em estabelePrisão
cimento penal
Multas
Detenção
107
Penalidade
livre
Art.15-valores acima de 10 mil en
Patrimonial
Art.16 - detenção provisória: que
varia de um dia a 30 dias
incompletos
Penalidade
livre
Keibatsu 刑罰(As Punições). In: https://já.wikipedia.org/wiki/%E5%88%91%E7%BD%B0. Acesso
em 16/06/2013.
59
Penas
Especificação
Pequenas
multas
Pena aditiva
Art.17 - valores entre mil a dez mil
ienes
Art.18 - para aqueles que não
Prestação de
conseguem arcar com as multas
serviços
aplicadas
Art.19 - confisco de bens móveis e
Confisco
imóveis
Art.19-item 2
Complementar exclusivo ao confisco que não
cobrir o valor estabelecido.
Classificação
Patrimonial
Substituição
de pena
Patrimonial
-
Destarte, se na Era Edo havia o grupo dos hinin, despojados da estratificação
social da época, nos Códigos Penais de 1880 no seu artigo 31 previa-se a proibição
dos direitos civis, numa medida segregadora, pois apesar de uma nova era,
teoricamente mais aberta pela influência ocidental, mantinha-se uma restrição a
população japonesa em geral. Esse artigo está atualmente incluído nas leis de
função pública por regular a elegibilidade em cargos do governo. Ela é conhecida
também como meiyôkei, “Pena contra a Honra”「名誉刑」, estabelecida em 1950,
devido à implicação para a reputação da pessoa.
Desse modo, nas rápidas exposições desenvolvidas, é possível observar que
a evolução da concepção japonesa de Justiça, apesar das leis atuais terem sido
baseadas em modelos europeus, principia-se nas distinções sociais da Era Edo.
Temos as primeiras sistematizações sob a concepção dos ritsuryô108 , a influência
das religiões, as medidas despóticas do poder da Era Edo e a concepção de haji
incutida na mente da população, a fidelidade dos samurai ao seu suserano, a vida
coletiva a que a população sempre fora condicionada e, atualmente, o fato de haver
uma pena denominada meiyô (honra)「名誉」 acima mencionada. Todas essas
etapas prévias conduzem-nos a constatação de que o conceito de Justiça passou
por inúmeras modificações, nunca tendo sido uniforme. Além disso, observamos que
a concepção de Justiça para os japoneses não perpassa aquilo que o homem
regulamentou ao longo dos anos, e sim é particular a cada indivíduo com o seu
entendimento influenciado ora pelas religiões, ora pelas medidas despóticas a que
foram expostas. Os 250 anos de isolamento, podemos acrescentar, embora tenham
108
Vide 1º.capítulo em Conceito Japonês de Justiça.
60
propiciado um desenvolvimento cultural, apresentaram do mesmo modo uma
restrição ideológica.
Além desses fatores, é imprescindível destacar também a existência das
regras do giri (obrigação) que ainda hoje, mesmo que de forma mais tímida, são
encontradas nas relações da sociedade japonesa.
Desta forma, o que regula o comportamento dos homens não seria a Lei ou a
Justiça. Elas existem para desempenhar um dos papéis do Estado que necessita
possuir um órgão para que a criminalidade seja coibida, mesmo porque a população
japonesa não fora acostumada a uma doutrina como princípio jurídico, conforme
nossa exposição demonstra.
Um criminoso hoje, ao cometer o seu delito, entende, conforme Aoyagi 109,
como “isso acabou acontecendo” (sô natte shimatta) e não “eu fiz/executei” (sô
yatta), pois teria agido sob forte emoção, sem a concepção de que tal delito é
previsto em Lei, que é passível de punição, etc.
Portanto, adiantamos que a Justiça nos manga Vagabond e Death Note é
expressa através da compreensão pessoal dos personagens centrais, que a
transformam em suas próprias justiças110. Diante das contingências humanas, os
protagonistas pretendem buscar e realizar uma justiça, uma concepção que se
coaduna perfeitamente com as ideias de Detienne de “fundar” e “fundação”
apresentadas no capítulo anterior.
Os dois personagens dos manga que ora trabalhamos representam, conforme
analisaremos nos corpora, a procura por uma identidade diante do multiculturalismo
de uma sociedade globalizada de praticidade e de fartura (benrisa e yutakasa).
Conforme já dissemos, não foi o nosso propósito a discussão das leis
japonesas, mas subsidiar um entendimento sobre o aspecto de Justiça/justiçajusticeiro que perpassa o homem contemporâneo.
A seguir, iremos desenvolver o processo histórico dos períodos abordados
nos dois manga.
109
AOYAGI, Fumio. Nihonjin no hanzai ishiki (A concepção de crime dos japoneses). Tokyo:
Chûôkôronsha, 1993. p.127.
110
Princípio moral que estabelece o direito como um ideal e exige sua aplicabilidade e seu
acatamento. Por extensão, virtude moral que consiste no reconhecimento que devemos dar ao direito
do outro. Cf. JAPIASSÚ, Hilton& MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 2001, p.152.
61
CAPITULO II – O CONTEXTO HISTÓRICO
2.1 A ERA EDO E O JAPÃO CONTEMPORÂNEO
2.1.1 Da ascensão dos Samurai a Era Edo – Panorama Cultural
O crescente poderio dos samurai iniciado por volta do século X ratifica-se
quando da criação do sistema de terras privadas (shoen), em que famílias
aristocratas poderosas e os templos tomaram para si a administração das mesmas.
Necessitando de quem os protegesse, os kenin ou kerai 111 dos proprietários de
terras tornam-se seus seguranças, fazendo surgir uma classe guerreira, os samurai.
E aqueles que detinham o poder tornavam-se shôgun – ditadores militares112. Os
samurai eram liderados inicialmente pelos clãs aristocráticos e pelos daimyô113, os
detentores do poder de cada região designados pelo shôgun.
Por volta do final do século XI, o imperador Shirakawa estabelece o sistema
de insei 「院政」ou “imperadores enclausurados”, em que estes se encontravam
confinados114, e de onde centralizavam o poder político. Era uma forma encontrada
para desarticular a influência da família Fujiwara, cujos imperadores desde o século
IX eram seus descendentes. Desse modo, os imperadores ou os sessho115 「摂政」
e kanpaku 116 「 関白」, que atuavam como conselheiros ou representantes com
direito de acesso ao poder, mantinham assegurados os seus domínios. Tal sistema,
seguido pelos próximos imperadores Toba e Kôkaku, vigora por cerca de um século
e como uma de suas medidas é estabelecida a restrição do poder dos sesshô 摂政.
No entanto, o sistema político torna-se caótico dando origem às guerras conhecidas
111
“Homem da família”. Serviçal de um guerreiro ou de um nobre nos tempos antigos e na época
Kamakura. Na época Edo deu-se o nome de gokenin a todos os vassalos do shogunato. Também
chamado kerai no caso de um vassalo de um daimyô. Embora o termo remeta à Europa,
empregamos a mesma palavra conforme encontrada em FRÉDÉRIC, Louis. O Japão – dicionário e
civilização. Tradução Álvaro David Hwing. São Paulo: Globo, 2008, p.640.
112
Ditadores militares que mantinham a liderança das suas comunidades no lugar do imperador
(Louis Frédéric, op. cit., p.1070).
113
Eram, na maioria, samurai e proprietários/administradores de grandes áreas de terra. As traduções
do termo apontam para “senhores feudais”, mas como há controvérsias em relações à etimologia,
pois aquele remete à Europa, manteremos o termo daimyô.
114
Em mosteiros, cf. Bito Masahide. Um perfil cronológico da História Japonesa. Tokyo: International
Society for Educational Information, Inc. s/d, p.7 e Louis Frédéric. op.cit, p. 501.
115
Regente de um imperador menor de idade.
116
Título dado aos regentes de imperadores considerados adultos (na época aos treze anos).
62
como Hôgen no Ran (1156)117 「保元の乱」e Heiji no Ran (1159)118 「平治の乱」,
as quais possibilitaram aos guerreiros adentrarem o governo central.
Vitorioso nessas lutas, Taira-no-Kiyomori foi o primeiro que estabeleceu um
governo militar, mas é derrubado pela família Minamoto que estabelece o seu
shogunato em Kamakura em 1185. Esta data é o marco de início da assim
denominada Era Medieval japonesa - Chûsei – 中世
Na época, não somente o poder militar, mas também a prática do budismo,
cuja influência era muito grande, configuravam-se como formas de dominação,
práticas essas que se iniciaram no final do Período Heian. Os imperadores
passaram, em nome da sua fé no budismo, a efetuar grandes gastos em cerimônias
de reverência realizados em templos e ergueram, por exemplo entre outros, o
Rokushoji ou Rikushouji 「六勝寺」.
Nos seis templos (法勝寺 Hosshôji、尊勝寺 Sonshôji、最勝寺 Saishôji、円勝寺
Enshôji 、 成 勝 寺 Seishoji 、 延 勝 寺 Enshôji) empregam-se nos nomes três
ideogramas, sendo que, em segunda posição, aparece o ideograma 勝 katsu
“vencer/conquistar”, e em posição posterior termina-se a palavra com o termo
“templo” 寺.
Estes eram, na época, os seis templos principais, nos quais os imperadores
se concentravam para orar e fazer os seus pedidos. De uma certa maneira, tal
postura era uma forma de dominação através da fé, pois as grandes construções de
Buda trazidas a partir do modelo chinês intimidavam - pelo números de templos
erguidos ou pela suas aparências suntuosas - aqueles que, porventura, fossem
contra o sistema de governo vigente.
Chama-nos a atenção
os sentidos implementados nas construções
sintagmáticas dos ideogramas dos templos Rokushoji, pelo fato de se inserir em
todos o termo “vencer”, expresso pelo segundo ideograma 勝, em que o elemento
anterior sintaticamente atua como modificador do seguinte, um verbo, conforme
veremos a seguir.
No caso do primeiro templo, 「法 勝」Hôshô, este possui o sentido de vencese com as leis. Não fica claro se seriam as “leis” da justiça ou as leis do templo ou
117
Hôgen no Ran: guerra civil ocorrida em 1156 pela disputa do poder envolvendo os clãs Taira e dos
Minamoto, assim como a família Fujiwara com a vitória dos Taira.
118
Heiji no Ran: guerra ocorrida em dezembro de 1159 entre o shogun Minamoto no Yoshitomu e
Taira no Kiyomori pela disputa do poder central. Taira sai vitorioso.
63
até mesmo uma referência às práticas que os imperadores impunham. A
complexidade de sentidos pode possuir uma explicação: o ideograma hô 「法」
tanto pode ter o significado de “lei”, “normas” quanto o ensinamento do Budismo119.
A hipótese mais provável é a de que, de acordo com a época histórica, as leis
realmente se vinculem à crença budista.
Todavia, percebe-se que tanto como “normas” quanto “palavras de Buda”,
ambos trazem além do sentido de “normas reguladoras” de uma sociedade uma
forma de domínio.
O segundo, 「尊 勝」Sonshô, com o sentido de vencer honorificando, faz
uma possível alusão à necessidade de respeitar os vencedores ou, “respeito ao ato
de vencer”, dado o primeiro ideograma possuir o sentido de “venerar”, “respeitar” 尊
son, e o segundo grafado com o ideograma de “vencer.”
O terceiro「最 勝」Saishô, conforme o seu primeiro ideograma, um prefixo “o
mais”120, passa uma idéia de uma conquista sob todas as circunstâncias.
O quarto, 「円 勝」Enshô, que tem no seu primeiro ideograma o significado
de arredondado ou circulo, simboliza o ato de vencer com harmonia ou “às voltas”
com conquistas ou as conquistas contínuas por estarem em circulos121.
No quinto, 「成 勝」Seishô, encontramos seu significado, tornar-se vencedor,
dado o primeiro ideograma possuir o sentido de transformação. Por último, 延 勝」
Enshô, “vitórias contínuas ou vitórias perpétuas”, pois o primeiro ideograma 延 en
possui o significado de estender.
A disposição sintagmática dos primeiros ideogramas dos nomes dos templos
法 尊 最 円 成 延 é algo também recorrente. Lembram, inicialmente, pela sonoridade
e imprementação de ritmo, alguma passagem da leitura de um Sutra 122 : hô, son, sai,
en, sei, en. Embora não tenha sido possível obtermos a informação da etimologia
119
Transliteração arcaica de hofu 仏 que possuía o sentido de ensinamentos do Budismo.
O ideograma “mottomo” 最も, como advérbio ou ”sai”最, como prefixo antepondo-se ao outro
ideograma, expressa o sentido de superioridade. Como prefixo, traduzindo-se como “o mais”,
formando uma palavra composta pela junção dos ideogramas como o de “saishô” 最勝. Com isso, o
segundo termo passa a ser modificado e pode ser traduzido como “vence-se/vitórias sempre”,
“”vencer com superioridade” ou “mais vitórias”, daí termos preferido a tradução “uma conquista sob
todas as circunstâncias”
121
A tradução do termo foi efetuada seguindo-se os sentidos possíveis do ideograma “e” 円, círculo,
arredondado ou, conotativamente, um espaço ou território.
122
Escritos sagrados do Budismo.
120
64
dos seus nomes, considerando-se a crença, é de se supor que teriam alguma base
semântica advinda de termos budistas.
São os seguintes os significados dos ideogramas:
Hô 「法」elemento que sugere lei ou algo supremo ligado ao budismo,
son 「尊」 venerar, respeitar,
sai 「最」prefixo com o significado de “o mais”,
en 「円」circulo/arredondado,
sei 「成」 tornar-se, vir a ser, com idéia de mudança ou transformação
en 「延」estender/continuar
e, com o segundo ideograma katsu 勝, “vencer/conquistar”, o conjunto sugere a
seguinte possibilidade de interpretação: “as conquistas são asseguradas e tornamse perpetuadas pelo ato contínuo da fé daqueles que mais honorificam/honram as
leis”, ou seja, os seguidores das “leis” terão vitórias/conquistas asseguradas e
contínuas. Tal apreensão é possível pelo fato de a sintaxe da língua japonesa ser
em SOV123, em que o segundo ideograma, “vencer” katsu 勝, um verbo, faz com que
os primeiros ideogramas desempenhem uma função adverbial e sejam responsáveis
por abarcar o sentido de “como vencer” ou o que a ”conquista” representaria. Além
disso, o emprego do substantivo templo, tera ,寺、que aparece por último em todos
os nomes, revela, discursivamente, um elemento nocional com características
deônticas124.
Esse dado curioso pode ser explicado pelo fato de haver cada vez mais a
necessidade de recursos para os gastos, a princípio, com as cerimônias nos templos
e esta teria sido uma forma de pressionar aqueles que possuíssem qualquer bem
para efetuar doações em troca de títulos de nobreza, concessão de cargos ou
benefícios que elevariam os seus stati. É possível também observar que o recurso
lingüístico empregado na escolha dos ideogramas antepostos ao de “vencer” é
estrategicamente elaborado. Caso contrário, entende-se que qualquer outro
ideograma poderia ser admitido, já que aparentemente seriam “nomes” dos templos.
A conotação, pois, que a disposição dos ideogramas deixa transparecer é algo
123
Diferentemente do português, a sequência SOV da língua japonesa obedece a ordem de sujeito,
objeto e verbo.
124
Do grego to deon, “aquilo que convém fazer” que opõe a obrigação à permissão cuja apreciação
se dá sob a ordem moral ou institucional. Cf. DUCROT, Oswald & TODOROV, Tzvetan. Dicionário
enciclopédico das ciências da linguagem. Trad. Alice Kyoko Miyashiro et. al. São Paulo:
Perspectiva,1998, p. 281.
65
recorrente, demonstrando a importância do funcionamento da retórica, que parte do
verossímil mediante a articulação com a vivência.
Assim, os critérios religiosos, um misto de xintoísmo, budismo, cristianismo e
confucionismo, com destaques maiores ou menores, vieram ratificar e demonstrar o
poder vigente da época.
Nesse ínterim, os samurai cada vez mais ascendem politica e socialmente,
pois apesar da existência dos daimyô, os samurai que atuavam diretamente nos
combates ou cumpriam tarefas a eles impostas foram recompensados com o
aumento de seus poderes no período Kamakura. Contudo, tal prática também
extingue-se, quando o shôgun Minamoto no Yoritomo (1147-1199) passa a
administrar Kamakura, a atual Província de Kanagawa. A partir dessa época é que
podemos ver de forma acentuada a liderança dos samurai, cujo poderio dura por
cerca de 700 anos.
Como uma das formas para assegurar o poder, praticava-se, por um lado, a
doação de terras produtíveis aos pequenos proprietários, pois assim se garantia, por
questão de gratidão, que eles partissem para as guerras todas as vezes que fossem
convocados e, por outro lado, a doação do arroz que colhessem, observando que tal
prática é advinda do chamado giri, 「義理」, “obrigação”, “dever”.
Em fins do período Kamakura e início do período Muromachi, os piratas
coreanos que tentavam estender os seus limites até a China são controlados pelo
então terceiro shôgun, Yoshimitsu Ashikaga, que aproveita para estabelecer
oficialmente o comércio com a China, conhecido como Kangôbôeki 「勘合貿易」,
literalmente “comércio exterior de comum acordo”
125
, para ele economicamente
proveitoso.
Em 1467, o oitavo shôgun da sucessão, Ashikaga Yoshimasa, a partir da
disputa pelo poder central, faz com que os daimyô se dividam em 2 grupos e os
sucessivos embates duram cerca de 11 anos na região de Kyoto, como por exemplo
a guerra Ônin no Ran em 1467, que é considerada como marco do início das
guerras civis sengoku jidai126.
125
Em Yamashiro (op.cit., p.269) encontramos a tradução ”comércio exterior autorizado”
Em Yamashiro (op.cit., p. 271) encontramos a designação “época de país em guerra, período de
guerra entre feudos” e em Louis Frédéric (op.cit., p.1013) “como época de países em guerra“, como a
da Ônin no Ran. (Revolta no período ônin, do imperador Gotsuchi Mikado correspondente aos anos
1467-1469).
126
66
Nessas batalhas, o poder dos shôgun começa a decrescer, permitindo que os
subalternos mais ambiciosos começassem também a ascender graças as guerras
civis. As posições de destaque alcançadas pelos antes subalternos tornaram-nos
senhores, sendo esta época conhecida como gekokujô, 下克上127. Desse modo, os
superiores foram derrubados pelos seus subalternos, que então tomaram a liderança
no governo.
Viveram-se décadas de conflitos e disputa de poderes. É a época conhecida
como sengoku jidai 「戦国時代」 (literalmente “período de guerras no país”), acima
mencionada, que dura cerca de 100 anos, depois dos quais os novos daimyô
passaram a ser conhecidos como sengoku daimyô 「戦国大名 」(o “daimyô do
período de guerras”).
Tal sistema de turbulência política e social traz como alguns de seus mais
importantes dados o surgimento dos samurai, por nós analisado, e os períodos
Kamakura (1192-1333) e Muromachi(1338-1573).
Entre 1573-1603, período denominado de Azuchi Momoyama 128, surge um
daimyô que conquista vários territórios e os incorpora aos seus domínios, Oda
Nobunaga (1534-1582). Até então um pequeno daimyô da região de Owarinokuni,
hoje Provincia de Aichi, Oda era partidário de Ashikaga, porém acaba por derrubá-lo,
aliando-se a Toyotomi Hideyoshi. Nobunaga emprega as armas de fogo introduzidas
pelos portugueses na ilha de Tanegashima, atual Província de Kagoshima ao sul do
Japão, e consegue se manter na liderança do governo até que, traído pelo samurai
Akechi Mitsuhide acaba sendo assassinado por este em 1582, em um episódio
conhecido como Honnôji no hen, (Levante no Templo Honnôji) numa alusão ao
nome do Templo Honnôji onde fora morto.
As tentativas de Nobunaga em unificar os territórios e, por que não mencionar,
estender o seu domínio, permitiram que o comércio e artesanato fossem livres.
Nobunaga efetuou um amplo comércio com portugueses e espanhóis, inclusive
estando o Cristianismo em franca ascensão, introduzido na região pela chegada ao
território do padre Francisco Xavier, da Companhia de Jesus, em 1542.
127
Literalmente “conspiração dos subalternos”. Esse termo foi retomado nos anos 1920, com uma
conotação um pouco diferente, para descrever o estado de insubordinação militar que se havia
instalado no Japão e por meio do qual jovens oficiais contestavam as decisões tomadas pelos mais
velhos. (Frédéric, 1008, op.cit., p.319).
128
Denominação do período, formado pelos nome dos castelos que ficavam em Azuchi e em
Momoyama, perto de Quioto.
67
Aparentemente este fora um dos motivos da sua morte, pois o Budismo começava a
se enfraquecer em favor do Cristianismo. Desta forma, o período apresentava ainda
muitos conflitos pelo poder e o cenário político continuava caótico.
Um outro shôgun sucede Nobunaga, Toyotomi Hideyoshi (1537 -1598). Este,
após derrotar Akechi, que havia conspirado contra Nobunaga e que o levara à morte,
constrói um reduto em Osaka, o atual Ôsakajô, “castelo de Ôsaka”, que se tornou
uma espécie de quartel general de onde passou a governar.
Hideyoshi, desse modo, assegura o seu poder; faz o levantamento das terras
produtíveis e passa a cobrar taxas para garantir a sobrevivência dele e a do seu
grupo. Destacou-se também ao instituir a proibição do uso de espadas, katana, ou
de qualquer armamento pelos camponeses, numa medida que foi chamada de
katana gari, literalmente “caça aos katana”. Tal ato contribui para que se
acentuassem mais negativamente as relações já afetadas entre os samurai e as
demais camadas da parte restante da população.
Em 1590, Hideyoshi consegue, de uma certa maneira, o seu intento: a
unificação do arquipélago, mas sucumbe às tentativas de estender o seu poder até a
Coréia, invadindo-a em 1592 e em 1597, sem lograr êxito.
A Era Edo chega, assim, após sucessivas guerras pela disputa de poderes e,
se por um lado a vida da população era caótica, por outro viu-se o florescimento
cultural em franca expansão, pois a situação política conturbada de lutas
intermitentes não afetara muito os camponeses já que eram estes que garantiam a
fonte de alimentação dos daimyô com a produção de arroz, havendo inclusive uma
revitalização no campo.
No plano cultural encontram-se a cerimônia de chá, o teatro nô e kyôgen 狂言
e o haikai, 俳諧 frutos da associação da cultura aristocrática predominantes de então
com as classes dos samurai, tendo sido, tais manifestações inclusive, expandidas à
população em geral.
As introduções do Período Kamakura como as das seitas budistas Jôdo, Zen
e Nichiren129 contribuíram também para assegurar a hegemonia política da época
sob o pretexto do apoio cultural.
129
Jôdo: abreviaçao de “saihô no gokuraku no jôdo – paraíso ocidental da Terra pura./Zen:
Ensinamentos sem uma doutrina específica, a qual rejeita a veneração de imagens. A realização de
si é obtida através da auto-meditação, o zazen, literalmente, “meditação sentado no chão”./
Nichiren: seita inicialmente chamada de hokke-shû com base nos ensinamentos do Sútra de Lótus,
68
A cerimônia de chá, o chá maccha trazido da China como remédio, passa a
ser amplamente apreciada, após Senno Rikyû
130
(1522-1591) tê-lo tomado numa
cerimônia, nomeando o ato de sadô 「茶道」, literalmente os “caminhos de chá”,
que simbolizavam o estado de alma e paz 「和敬静寂」wakeiseijaku131, e seijaku
「静寂」132, que enfatizam a paz e a harmonia.
Paralelamente, o comércio com os portugueses e espanhóis fez com que
pudessem ser desenvolvidas novas técnicas e conhecimento de novas mercadorias.
Inclusive, termos como “pão”, “calça” e “bolo” foram introduções portuguesas no
léxico japonês. O padre João Rodrigues (1561–1633) compila a primeira gramática
japonesa Nihondaibunten, 「日本大文典」, tornando-se este o primeiro manual de
gramática nipônica feita por estrangeiros.
Esse era o quadro cultural e político quando a Era Edo se inicia. Hideyoshi é
derrotado na batalha de Sekigahara por Tokugawa Ieyasu (1542-1616), que se
instala em Edo (atual Tokyo), passando a comandar dali. Seu clã fixa-se no poder
por cerca de 250 anos e toma importantes medidas para o futuro da história
japonesa, dentre elas, a do fechamento dos portos aos reinos estrangeiros de então.
As literaturas133 de um modo geral apontam a batalha de Sekigahara, em 15
de setembro de 1600, como marco para o início da Era Edo (1603-1867) ou Período
Tokugawa, com Ieyasu, no poder. A princípio, a batalha teria sido mais uma das
muitas ocorridas pela disputa de poderes ou sob a pretensa “unificação da nação
japonesa”.
Após a morte de Toyotomi Hideyoshi, shôgun antecessor, o território japonês
passou a ser administrado com a divisão em regiões do leste, liderados pelo shôgun
Ieyasu, e as do oeste, pelo shôgun Ishida Mitsunari (1560–1600). Mitsunari,
partidário do clã Toyotomi e incomodado com o prestígio de Ieyasu, pretendia coibir
a fama deste. Isso desencadeou um conflito em que Mitsunari trama contra Ieyasu,
Preconiza a recitação do daimoku – namu myôhôrenge-kyô como salvação. Dividido em nove ramos,
hoje divide-se em inúmeras subseitas. Cf. FREDERIC, op. cit., p. 546, 1299 e 868.
130
Teria introduzido a arte da cerimônia de chá no Japão.
131
wakei 和敬 representa o espírito de honrar a cerimônia dos participantes, concentrando a sua
atenção.
132
Os objetos ao redor que complementam o recinto, o jardim e os utensílios da cerimônia.
133
YAMASHIRO,José. A história dos samurais. São Paulo: Massao Ohno – Roswitha Kempf/Editores,
1982. Nihon no Rekishi. Tokyo: Shôgakukan, 1974. TOYOTA, Takeshi. Nihonshi gaisetsu
(Compêndio da História do Japão). Tokyo: Hôsei daigaku s/d. NISHIYAMA, Matsunosuke. Edo
Culture. University of Hawai I Press.1997. INOUE, Mitsusada et.al. Nihonshi (História do Japão).
Tokyo: Yamakawa shuppan, 1973. OWADA, Tetsuo. Nihonno rekishiga wakaru hon (Livro para
entender a História do Japão).Tokyo: Mitsugawashôbô, 1991.
69
ao adotar a medida de manter como reféns os familiares dos daimyô reunindo-os em
Osaka.
Owada (1991, p.138) cita o momento como a “Guerra” de Sekigahara,
tamanha foi a batalha que reuniu cerca de 15.800 homens, com 7.400 homens nas
tropas do lado leste e 8.400 homens do lado oeste, tendo como uma das principais
motivações a disputa pelo poderio econômico, porque, na época, o arroz
predominava economicamente na região leste134, enquanto que no lado oeste135 a
prata começava a ser usada como moeda corrente, configurando-se paulatinamente
como a base da economia, pois a sua permuta traria benefícios comerciais. Ainda
segundo Towada (op.cit., p. 144), esse registro constaria no livro Suiinkan´yôroku
「睡陰看羊録」do coreano Kyôkô (1567 – 1618)136, um habitante do arquipélago
japonês na época e seguidor de Confucionismo, em que se lê que Ieyasu abriria os
caminhos até a capital Kyoto com arroz, enquanto o seu opositor, Môri Terumoto
(1553-1625), um dos lideres dos guerreiros do oeste sob o comando de Mitsunari,
dizia que construiria uma ponte de prata, numa possível alusão aos intercâmbios
comerciais com os estrangeiros.
A batalha que culminou na derrota das forças do oeste, embora superiores
em número, é atribuída à traição de Kobayakawa Hideaki (1582-1602), cuja tropa,
no auge dos combates, ataca o seu próprio grupo, aliando-se a Ieyasu. Em
decorrência desse acontecimento, a batalha de Sekigahara ficou conhecida também
como tenkawake no tatakai
「天下わけの戦い」, literalmente “batalha da divisão
do estado”.
Destarte, a história da batalha demonstra a relevância do arroz criando
inclusive a expressão “nôwa nônari” 「農は納なり」, a “agricultura como fonte de
renda”, destacando a cultura do arroz como a base da economia.
Após vencer a batalha de Sekigahara, Ieyasu instalou-se em Edo, atual Tokyo
e, como uma das medidas para assegurar a sua hegemonia política e controlar a
fonte de alimentação, distribuiu terras produtíveis entre os daimyô do território para
assim manter a sua soberania. Tal medida visava não conceder oportunidades de
134
Região de Kanto que hoje engloba as Províncias de Tokyo, Chiba, Saitama, Kanagawa, Gumma,
Ibaraki e Tochigi
135
Região de montanhas compreendida entre a atual Hiroshima e Okayama, conhecidas aquelas
antigamente pelo nome de San´yôshô e abrangendo as províncias atuais de Tottori, Shimane e leste
de Yamaguchi.
136
“Registros acerca do Japão”. Conf. Super daijirin (Grande dicionário de verbetes japoneses).
Enciclopédia eletrônica. Tokyo: Sharp, modelo Papyrus, verbete Kyôkô item 6.
70
iniciativas independentes, uma vez que a principal fonte de renda dos samurai era o
tributo pago pelos lavradores em arroz ou em dinheiro.
Ieyasu estabelece, desse modo, uma sucessão de atos para ver garantidos
os seus poderes e, dentre eles, a estratificação social em samurai, agricultores,
artesãos e comerciantes shi, 士 nô, 農, kô, 工, shô 商. O fato da classe dos
agricultores ser inserida após os samurai demonstrava a importância de sua
atividade econômica, pois conforme salienta Yamashiro (op.cit., p.185) “não são os
lavradores que foram valorizados, e sim o que eles produziam: o arroz”. Percebe-se,
assim, que as camadas estariam dispostas vertical e hierarquicamente de acordo
com as fontes de rendas com o objetivo de resguardar o domínio do dirigente Ieyasu.
Um dado curioso chama-nos a atenção com relação ao personagem Ieyasu.
Seria Ieyasu um shôgun que passava a imagem de poder e de austeridade, uma
pessoa cautelosa ou insegura?
Tal questionamento é baseado, por exemplo, na devoção exacerbada ao
Budismo, pois ele teria escrito diariamente o Sutra namu amida butsu137 ou ao fato
de, após o conserto do Templo Hôkôji, danificado por um terremoto, ver as
inscrições contidas no sino como kokkaankou 国家安康138, e ter se sentido ofendido,
pois os ideogramas do seu nome teriam sido rompidos. Embora o termo possuísse o
significado de “paz e harmonia na nação”, os ideogramas 家 康, os mesmos do
nome do shôgun, aparecem separadamente, kokka 国家, no primeiro termo, que
significa nação/país e o segundo, ankô
安康, paz/harmonia. Isso foi entendido por
Ieyasu como uma maldição que recaía sobre ele, ou seja, a sua hegemonia poderia
estar ameaçada, pois na época vivia o shôgun Toyotomi Hideyori, filho de Toyotomi
Hideyoshi, a quem Ieyasu temia pelo poder que demonstrava. Ao manifestar a
desconfiança, provoca a ira ao Toyotomi.
Ieyasu resolve em 1614 atacar o castelo dos Toyotomi em Osaka, mas não
logra êxito. Essa batalha é denominada de Osaka fuyu no jin, a Batalha de Inverno
de Osaka e, finalmente, no final de abril de 1614, consegue o intento na Batalha de
Osaka natsu no jin, a batalha de verão de Osaka.
137
“Em nome do Buda Amida”. Formula encantatória e de devoção recitada pelos fiéis da seita Jôdoshû, com o objetivo de conseguir renascer no paraíso de Amida após a morte. (Cf. Louis Frédéric,
op.cit., p.856).
138
Comumente traduzido como “Paz e harmonia da Nação”, embora ainda não se possa falar na
época em “nação” ou “país”, pois são conceitos que remetem ao século XIX.
71
Questiona-se, contudo, se o fato não teria sido provocado por uma certa
precaução ou prudência ou quiçá uma demonstração do poder por parte de Ieyasu,
pois a pessoa envolvida era Toyotomi Hideyori, filho de Yodogimi, diante de quem
Ieyasu se mostrava inseguro desde quando assumira o governo 139.
À medida que Ieyasu se certifica dos seus poderes, dá início a prática de se
ter os familiares dos daimyô como “reféns”, pois estes são obrigados a “residir” na
capital. A prática, assim, evolui para o chamado sankin kôtai (Figura 9) 140 「参勤交
代」, em que os daimyô eram enviados para atuar em turnos em locais distantes e
obrigados a gastos dispendiosos para as suas viagens inclusive para rever os
familiares. Aos daimyô, desse modo, era vetada qualquer liberdade econômica, pois
precisavam se preparar para as longas viagens que envolviam um enorme
contingente de acompanhantes. A medida foi uma das formas de Ieyasu manter
todos os daimyô sob o seu controle. Entretanto, tal medida contribui para que
fossem construídas residências de permanências dos familiares e para os próprios
daimyô quando estivessem em Edo, o que proporcionou prosperidade para a região.
As viagens dos daimyô possibilitam levar a cultura da capital ao interior e as
localidades por onde passava a comitiva prosperam com o aumento de hospedarias
e comércios em geral.
Figura 9: Gravura da comitiva dos daimyô. Pousada oficial das autoridades em Hakone (localizada na
141
Província de Kanagawa)
139
OKADA, Akio. Tokugawa Iyeyasu. Tokyo: Kaneko Shôbô, 1962, p.194.
Sistema de servir por turno na corte do shogun Tokugawa, no qual os daimyô residiam
alternadamente em suas fortalezas, geralmente distantes da capital, e na residência de Edo, o
que,conforme a gravura acima, envolvia um número grande de seguranças (cf. Yamashiro, op.cit., p.
271).
141
In: http://blogs.yahoo.co.jp.seika/daigaku_nihongo5807068.html, acesso em 17/02/2011.
140
72
O sankin kôtai, exemplificado na imagem acima, foi uma das medidas
previstas na Lei de Bukeshohatto, 「武家諸法度」, “código de normas de conduta
dos samurai “, que constava de 13 artigos e foi promulgado por Ieyasu em 1615. O
cumprimento desse código fez com que, até o terceiro shôgun, Iemitsu, dezenas de
daimyô tivessem os seus poderes extintos por terem sido considerados infratores,
tornando-se, assim rônin, 「浪人・牢人」, literalmente ”andarilhos”, pois não tinham
mais onde permanecer ou trabalhar.
Uma medida polêmica tomada na época foi a da proibição radical, iniciada já
no governo de Toyotomi Hideyoshi, da prática do Cristianismo que começara a
crescer. Entre 1614-1635, o governo Tokugawa impõe por meio de métodos
violentos e de castigo a reconversão dos fiéis ao Budismo. Para se certificar quem
seriam os seguidores do Cristianismo, a prática de fumiê, 「踏絵」 que consistia em
fazer com que as pessoas pisassem nas imagens de Cristo e da Virgem Maria, foi
amplamente empregada. Os fiéis que não pisassem as imagens eram presos ou, os
mais rebeldes, condenados à morte. O auge dessas atrocidades e os altos tributos
que os camponeses eram obrigados a pagar levaram à eclosão de uma rebelião em
1637 na ilha de Shimabara em Kyûshû, liderada pelo jovem Amakusa Shirô (16211638), de então 16 anos, filho de Masuda Yoshitsugu, antigo serviçal de Konishi
Yukinaga, adepto do Cristianismo, ocasionando a morte de centenas de cristãos.
A crescente propagação da fé cristã com os novos valores, percepções e
influências distintas levaram Ieyasu a se sentir ameaçado no seu poder, dada a
aquisição de novos costumes por uma parcela significativa da população. A idéia da
existência de um Deus onipotente, pregado pelos cristãos, fazia, por exemplo, com
que sua mensagem evangélica fosse considerada uma ameaça, pois Ieyasu via-se
como o “onipotente”.
Paralelamente, o confucionismo que começara a ser destacado no Período
Kamakura veio atender plenamente aos ideais adotados por Ieyasu desde o início
do seu governo, pois favorecia a manutenção da sua política interna em termos de
obediência e respeito aos superiores, pregados pelo confucionismo. Desse modo,
este desempenhou um papel representativo não só no tocante à política
administrativa do período, como também influenciou a área educacional e filosofia
73
política. Estabeleceu-se um modelo de sociedade harmoniosa, dada a aparente paz
depois de longos anos de conflitos que antecederam a Era Edo.
Entrementes, o fato da ideologia da doutrina confucionista estar acima dos
governantes fez com que as medidas, por vezes despóticas, fossem passadas como
sendo “em benefício do povo” 仁政 jinsei, mantendo a concepção de uma ordem
moral142. Tal ideologia contribui para que se consolide ainda mais a hierarquização
das camadas sociais da época shi, nô, kô, shô, garantindo a todos a imunidade das
adversidades com o respeito demonstrado ao “superior”, sendo mais uma forma da
centralização do poder.
Sabe-se, entretanto, que a sociedade nipônica da época não era composta
somente por essas quatro camadas. A restrita menção na maioria das bibliografias,
sobretudo as didáticas, ao grupo de trabalhadores designados por eta、e aos hinin
非 人, que correspondiam àqueles que executavam trabalhos pouco valorizados,
como, por exemplo, enterrar animais mortos, ou artesãos que lidavam com couros,
revela a desconsideração para com estes. Isso pode ser demonstrado, inclusive,
pelo ideograma do termo hinin 「 非 人 」 143 , que expressa aquele que “não é
humano/gente”, com o que se negava até mesmo a sua existência como seres
humanos. Trata-se de uma ideologia segregacionista trazida pela estratificação
social que, inclusive, proibia o contato de alguém do restante da população com
membros desse grupo.
O período denominado Hôken shakai, “sociedade feudal”
「封建社会」,
deste modo, vem atender, juntamente com o Confucionismo, aos propósitos dos
dirigentes da época. As normas vieram consolidar o domínio da hierarquização dos
homens a partir do topo da pirâmide social, estendendo-se até ao seio das famílias
japonesas, em que o primogênito teria um prestígio maior depois do pai. A
expressão dansonjohi 「男尊女卑」 a “supremacia dos homens sobre as mulheres”
- mostra o papel da mulher relegado ao segundo plano, a quem se negava, por
exemplo, o direito às heranças.
142
Segundo Tonia Yuka Koroku, a adoção do Confucionismo pelo governo como doutrina oficial
serviu para manter o apoio moral à ordem social hierárquica, incutindo nas pessoas a idéia de que
aquela
hierarquia
constituía
uma
ordem
natural
imutável.
In:
http://www.buscalegis.ufsc.br/revistas/files/journal/2/artciles/33319/public/33319-42542-1PB.pdf,
acesso em 06/10/2010.
143
非 hi Prefixo de negação que modifica o segundo termo e 人 hito/nin, pessoa, literalmente, ”não
gente/pessoa”.
74
Pelo lado dos samurai, havia um código de respeito máximo aos seus
superiores, pois um subalterno deveria se dirigir àqueles sempre de forma modesta.
Vivia-se uma sociedade centralizada pelo poder absoluto daqueles. Aqueles podiam
portar livremente as espadas katana e possuíam plenos poderes, até de matar.
Caso viessem a considerar um desrespeito qualquer manifestação por parte de
alguém do povo, o indivíduo era “julgado”, e “condenado”. Isto gerou até a
expressão kirisute gomen 「斬り捨てごめん」, literalmente “te corto e deixarei
jogado, desculpe” ou, “licença para matar” numa forma lacônica diante de um
assassinato144.
Destarte, apesar da aparente calma e de “paz ininterrupta” 145, era evidente a
autoridade e superioridade absoluta dos samurai, mesmo com a vigência da Lei de
bukeshohatto.
Com a proibição do Cristianismo, o livre comércio com os portugueses é
também vetado pelo segundo shôgun Hidetaka (1579-1632), ficando restrito apenas
a pequena ilha de Dejima em Nagasaki. Chega-se, assim, a medida extrema de
fechamento dos portos aos estrangeiros que duraria cerca de 250 anos. Trata-se do
sakoku 鎖国(1633-1639) 146 , que visava o fortalecimento da sociedade feudal e a
garantia da hegemonia política instalada. Apenas aos holandeses foi permitida a
permanência na pequena ilha e com estes os nipônicos mantiveram contatos diretos.
A manutenção do intercâmbio com os holandeses ocorreu, segundo Saruya
Kaname147, devido ao fato destes serem protestantes, ou seja, os países europeus
como Portugal ou a Espanha professavam a fé católica, e os japoneses não queriam
adotar o catolicismo. O possível motivo para a proibição teria sido um trecho de um
documento que teria sido enviado a Companhia de Jesus, achado décadas depois,
144
“Permissão de cortar”. Os samurai da Era Edo tinham o direito de matar todo aquele que,
pertencente às classes inferiores, lhes faltasse com o respeito ou os ofendesse. Cf. FRÉDERIC,
op.cit., p. 661
145
Bito Masahide e Watanabe Akio. Um perfil cronológico da História Japonesa. Tokyo: International
Society for Education Information, s/d, p.13.
146
Segundo Owada (op.cit., p.166) a causa do fechamento dos portos aos estrangeiros teria sido o
fator econômico. Na época, século XVI, o período de grandes navegações no Ocidente, a chegada
dos europeus ao continente japonês e um próspero comércio, principalmente no sul, levou ao
fortalecimento da região. Isso fez com que o governo Tokugawa se sentisse ameaçado, pois não
admitia nenhuma possibilidade de que um daimyô pudesse prosperar e consequentemente ter algum
poder em mãos. Assim, a intenção primordial seria o monopólio do comércio. Em razão disso,
acrescenta ainda Owada, que o governo Tokugawa nunca teria mencionado sakoku e que o termo
mais adequado seria bôekihogoseisaku 貿易保護政策 uma “política de comércio protecionista” (p.168).
147
Contato entre a Cultura Japonesa e a Estrangeira. In: Palestras sobre a Cultura Japonesa.
Associação dos Cidadãos de Origem Japonesa no Exterior, março de 1999, p. 27.
75
da autoria de um membro da própria Companhia de Jesus, Pedro de La Cruz, que
dizia que
O Japão tem forças navais muito fracas e os armamentos insuficientes.
Dependendo da decisão da Vossa Majestade, os nossos exércitos poderiam
dominar este país. Além disso, a região, sendo um país insular, tomar as
Ilhas de Shikoku e Kyûshû e a Ilha de Shikoku não será nada difícil
148
”.
Embora tal fato não tenha sido referenciado em outras fontes consultadas,
também os motivos reais que levaram Ieyasu a adotar a política de isolamento não
fica(m) claro(s).
Dentre os 15 shôgun do Período Tokugawa, se alguns agiram de forma
enérgica como Ieyasu, Hidetaka e Iemitsu, outros como Ietsuna, Tsunayoshi149 ou
Ienobu tiveram atuações sem muita expressão. Talvez por terem recebido um
sistema de governo já estruturado, os três últimos somente deram continuidade à
forma herdada, até que em 1830 o arquipélago é agitado pelas revoltas dos
camponeses hyakushô ikki 「百姓一揆」, o levante dos agricultores.
Os agricultores, insatisfeitos com os altos encargos dos tributos que eram
cobrados pelos samurai, resolvem manifestar o seu descontentamento e
dificuldades por que passavam, ocasionando cerca de 3000 rebeliões de porte
durante todo o período Tokugawa. Pela política da época, considerada uma ofensa à
autoridade, já que esta era regida pela fidelidade hierárquica, a manifestação dos
camponeses foi duramente penalizada e os seus lideres em sua maioria executados
com o intuito de coibir qualquer manifestação por outros grupos contrários ao
sistema do governo.
Aos poucos, o governo Tokugawa começa a enfrentar uma série de
problemas de estruturação. Como não bastassem os levantes constantes dos
camponeses, a conspiração dos samurai contra o sistema político vigente e a
148
「日本は海軍力が非常に弱く、兵器に不足している。そこでもしも国王陸下が決意されるなら、
わが軍は大挙してこの国を奪うことができよう。そしてこの地は島国なので、主としてその内の一島、
すなわち、下又は四国を包囲することは安易であろう。」Nihonwa kaigunryoku ga hijôni yowaku,
heiki ni fusokushiteiru. Sokode moshimo kokuôheikaga ketsui sarerunara, wagagunwa taikyoshite
kono kuniwo ubaukotoga dekiyou. Soshite konochiwa shimaguninanode, omotoshite sono uchi no ittô,
sunawachi, shita matawa Shikokuwo hôi surukotowa an’i dearô. Cf..Owada, op. cit., 1991, p. 110.
149
Apelidado de inushogun, literalmente shogun cachorro. Desde a morte do seu filho e não podendo
ter mais filhos homens, Tsunayoshi institui em 1685 a “lei de misericórdia a todos os seres viventes”,
passando a proteger os cães, seguindo os conselhos de um monge, pois na vida anterior teria
matado muitos desses animais.
76
própria fragilidade administrativa, o governo precisava lidar com as invasões dos
navios estrangeiros. Na época, a Revolução Industrial ocorrida na Europa levou
países como Inglaterra, Rússia e França a adentrarem os territórios asiáticos em
busca de comércio, dentre eles o Japão. O primeiro, um militar russo, teria sido
Adam Kirillovich Laksman, não conseguindo, contudo, êxito nas negociações.
Posteriormente, navios ingleses, russos e americanos passaram a chegar cada vez
mais no mar do Japão, fazendo com que o governo mantivesse um controle rigoroso.
Foi em 1853,que a esquadra americana comandada por Matthew Calbraith
Perry aporta em Uraga (região da atual província de Kanagawa) com os seus dois
navios a vapor assustando os japoneses. Após muitas negociações, o governo sela,
em 1854, o Nichibei washin jôyaku 「 日 米 和 親 条 約 」 , ou seja, o Tratado de
Amizade 150 entre Japão e Estados Unidos, pondo fim aos cerca de 250 anos de
isolamento.
Para que possamos entender um pouco melhor a evolução política da Era
Edo, traçamos uma síntese dos nomes do 15 shôgun Tokugawa e alguns dos seus
feitos:
1.
Tokugawa Ieyasu (1542-1616) governou entre 1603-1605: fundador da
dinastia herereditária dos shogun Tokugawa conquistada a partir da guerra de
Sekigahara (1600). Uma série de batalhas sucederam-se até um certo
momento de estabilidade, entre elas as de fuyu no jin 「冬の陣」e natsu no jin
「 夏 の陣 」 mencionadas anteriormente. É estabelecida a estratificação das
classes sociais de shi, nô, kô, shô 士農工商 e o fechamento dos portos aos
estrangeiros.
2.
Tokugawa Hidetaka (1579-1632) governou entre 1605-1622: terceiro
filho e o segundo shôgun. General a serviço do seu pai, combateu em
Sekigahara, mas teve um poder discreto, pois o pai, Ieyasu reteve o comando
em suas mãos e continuou a governar.
150
Yamashiro (op.cit., p.211) cita como “Tratado de Amizade e Comércio” com os Estados Unidos. O
tratado contribui para a abertura dos portos aos estrangeiros, mas no mesmo não consta o
intercâmbio comercial (cf. Enciclopedia eletrônica Sharp, modelo Papyrus. Verbete Nichibeiwasjôyaku,
pesquisado em Super daijirin (Grande dicionário de verbetes japoneses). Em Nihonshi (História do
Japão, Yamakawa Shuppan, 1973) de Inoue Mitsusada et.al., é citado que um dos artigos do Tratado
fala em “abastecimento de combustível e alimentação aos navios americanos”(p. 222). O Tratado de
Amizade e de livre intercâmbio comercial Nichibei shûkô tsûshô jôyaku 日米修好通商条約 foi firmado
em 1858 (Nihonshi, op.cit., p.223).
77
3.
Tokugawa Iemitsu (1604-1651) governou entre 1623-1651: filho mais
velho de Tokugawa Hidetaka e terceiro shôgun de Edo. Mantem o rompimento
das relações com o exterior. O estabelecimento de sankin kôtai, que obrigava
os daimyô a residirem em Edo a cada dois anos fez com que, cada vez mais, o
poderio fosse consolidado. Protegeu o Budismo e o Confucionismo, sempre
perseguindo os cristãos, como na revolta de Shimabara em 1638.
4.
Tokugawa Ietsuna (1641-1680) governou entre 1651-1680: sucessor de
Iemitsu, torna-se o quarto shôgun. Consta que por ter uma saúde frágil deixou
os seus conselheiros governarem em seu nome. Proibiu os suicídios por
fidelidade, junshi 殉死 em 1663.
5.
Tokugawa Tsunayoshi (1646-1709), governou entre 1680-1709: quinto
shôgun. No início de seu mandato, governou sabiamente, protegeu as artes e
as ciências com a ajuda de seu conselheiro Hotta Masayoshi. Todavia, após a
morte deste, em 1684, deixa de se preocupar com o seu governo. A moeda
desvaloriza-se e aumenta o imposto. Com problemas mentais, estabelece a
proteção a todos os seres vivos, em particular, dos cachorros, que lhe rendeu o
apelido de shôgun dos cachorros「犬将軍」inu shôgun.
6.
Tokugawa Ienobu (1662-1712) governou entre 1709-1712: adotado por
Tokugawa Tsunayoshi em 1704, sucedeu-o como sexto shôgun. Anulou
algumas das leis do seu tio Tsunayoshi e fez reformas monetárias.
7.
Tokugawa Ietsugu (1709—1716), governou entre 1713-1716: sucessor
de Ienobu e o sétimo shôgun. Seguiu basicamente a política anterior com o
auxílio do estudioso confucionista Arai Hakuseki.
8.
Tokugawa
Yoshimune
(1648-1745)
governou
entre
1716-1745:
inaugurou, em 1721, o costume de colocar na entrada do seu castelo um tipo
de caixa de ideias, meyasu bako 「目安箱」, para receber reclamações e
sugestões dos habitantes. Protetor das artes e das letras, preocupou-se com os
mais pobres aos quais distribuía arroz, além de estabilizar o preço, o que lhe
valeu o apelido de o shôgun do arroz, kome shôgun 「米将軍」. Promulgou leis
de contenção de despesas e, interessado nas ciências ocidentais, atenuou as
leis que proibiam o uso de livros estrangeiros.
78
9.
Tokugawa Ieshige (1711-1760) governou entre 1745-1760: com saúde
abalada, não demonstrou interesse pelos assuntos públicos. Deixou o seu pai e
depois seu chanceler, Ôka Tadamitsu governarem em seu nome.
10. Tokugawa Ieharu (1737-1786) governou entre 1760-1786: ordenou que
fossem feitas traduções de livros estrangeiros e foi um promotor das “ciências
ocidentais” rangaku 「蘭学」, ran, significando Holanda e gaku, estudos.
11. Tokugawa Ienari (1773-1837) governou entre 1786-1837: com uma
administração sem grandes feitos e relativamente monótona, enfrenta a revolta
dos ainu, habitantes nativos de Hokkaido. Teve 40 concubinas e 55 filhos.
Enfatizou a aliança com outros daimyô fazendo-os casarem com suas filhas.
12. Tokugawa Ieyoshi (1793-1853) governou entre 1837-1853: enfrenta um
momento de embate crítico com a chegada ao Japão do comodoro Perry com
uma carta do presidente dos Estados Unidos, Fillmore, e o pedido de abertura
de portos.
13. Tokugawa Iesada (1824-1853) governou entre 1853-1858: Perry retorna
pedindo novamente a abertura de portos, concretizando o intento em 1854, nos
portos de Shimoda, Hakodate e Nagasaki. Consultou, pela primeira vez na
história do xogunato, o imperador para a política a ser adotada.
14. Tokugawa Iemochi (1846-1866) governou entre 1858-1866: ocorreram,
durante o seu governo, o incidente do movimento contra os governos militares
de Chôshû, em Shimonoseki, e o bombardeio de Kagoshima pelos aliados em
1863151.
15. Tokugawa Yoshinobu (Hitotsubashi Keiki, 1837-1867, governou entre
1866-1913): último shôgun da Era Edo. Opôs-se ao imperador, mas pediu
demissão de seu posto. Retorna a Kyôto em 1897 e foi enobrecido em 1902
sem, no entanto, exercer algum poder político.
Contudo, as sucessões não ocorreram de forma pacífica. As crises
domésticas, como a fraca atuação de alguns shôgun e dificultadas pela política
nacional e internacional, começam a abalar as bases da tão longa hegemonia dos
Tokugawa a partir do século XIX. Começam a surgir grupos de samurai
descontentes com o sistema político e outros a favor da restauração da monarquia
151
Cf. Fréderic, op. cit. 2008, p. 1186. Não foram encontrados nas fontes consultadas os detalhes do
incidente.
79
plena e, nesse entremeio, a evolução do poder econômico dos comerciantes faz
com que estes pudessem ingressar na classe dos samurai. O status passa a ser
negociável e não foram poucos os comerciantes mais proeminentes portarem katana.
Percebe-se, desse modo que, a mudança dos tempos influencia e muito o
pensamento das camadas sociais japonesas de um modo geral, que começam a
clamar por reformas e, juntamente com à chegada dos navios estrangeiros, fazem
chegar ao fim uma era tida como de “paz ininterrupta”.
Não obstante a longa hegemonia e complexa política dos Tokugawa, no
Período Edo afloram grandes transformações na área cultural iniciadas desde o
século XIV. Com a economia em expansão, paradoxalmente atribuída também a
estratificação social, a população, principalmente a classe dos comerciantes, passa
a produzir e usufruir das atividades culturais.
Além do desenvolvimento da cerimônia de chá, o teatro Nô 「能」 e Kyôgen
「狂言」e a sua popularização, o poema haikai152「俳諧」, o teatro kabuki 「歌舞
伎」e as xilogravuras ukiyo-e,「浮世絵」despontam como expressões artísticas
populares que podem ser vistas até os dias de hoje
O haikai teve, no período, como um dos seus grandes expoentes, o poeta
Matsuo Bashô (1644-1694). A coletânea de poemas considerada sua obra-prima é a
de Okuno no Hosomichi, Trilha de Oku153, produzidos durante as suas viagens por
Kitakantô154, Tôhoku155, Hokuriku156, com uma distância percorrida de cerca de 2400
quilômetros e concluída por volta de 1689.
Uma demonstração de sentimento de “Paz Ininterrupta” expressa acima
encontra-se refletida no seguinte poema de Bashô:
古池や
152
蛙飛びこむ
水の音
Esta forma de poema tem sua origem no renga, literalmente “poemas longos”. Eram cantados de
forma encadeada e eram compostos por 5,7,5,7,7 sílabas métricas separadas em versos superiores e
inferiores. Na era Edo passam a ser lidos somente os primeiros versos de 5,7,5 e Matsuo Bashô
(1644-1698) consolida este tipo de poema como arte, usando a designação haiku , “poema síntese”,
de três versos. O termo somente afirma-se a partir da Era Meiji com o poeta Masaoka Shiki. Tem
como temáticas as estações de ano e a maioria das composições de Bashô foi feita durante as suas
viagens em busca do seu ideal de vida.
153
Termo empregado por Eico Suzuki em Literatura Japonesa de 712-1868. São Paulo: Editora do
Escritor, 1979, p. 48
154
Engloba as regiões norte das Provincias de Tôkyô, Chiba, Saitama, Kanagawa, Gumma, Ibaraki e
Tochigi
155
Região nordeste do Japão que engloba as províncias de Aomori, Iwate, Akita, Miyagi, Yamagata e
Fukushima.
156
Região que compreende as Províncias de Fukui, Ishikawa, Toyama e Niigata.
80
furuikeya
(5 sílabas)
kawazu tobikomu
(7 sílabas)
mizu no oto
(5 sílabas)
velha lagoa / mergulho duma rã / o ruído de água
(“A quietude reinante ao redor da velha lagoa é interrompida pelo leve ruído
provocado pelo mergulho da rã. Depois, a volta ao silêncio inicial”.)
Além de Bashô outros poetas proeminentes contribuíram para o período,
Yosa Buson (1716-1783) que, além de ser poeta atuou como pintor e Kobayashi
Issa (1763-1827).
A cerimônia do chá, originária dos hábitos dos monges Zen, foi transformada
num evento cultural e apreciada por muitos. A arte do arranjo floral também começa
a despontar neste período com o nome de kadô 「華道」, o caminho da flor, que
objetivava assim como a cerimônia de chá o desenvolvimento espiritual com o
cultivo da paz e da harmonia. A sua introdução é atribuída a Ikenobô Senkei157, que
teria atuado entre 1457 e 1466, seguindo a prática do arranjo floral em vasos e que
deixou o legado do destaque à beleza na simplicidade do ato de levar flores a
recintos fechados.
No teatro, ao lado do nô, kyôgen e bunraku,「文楽」 o kabuki é considerado
um dos expoentes do período. O kabuki 「歌舞伎」158 era apresentado inicialmente
por um grupo de mulheres como segmento da dança denominada kabuki odori,
dança kabuki, criada por Izumono Okuni159 . No entanto, pelo fato de ter sido imitada
por mulheres que teriam desvirtuado o sentido da dança, atentando contra a moral e
os bons costumes da época, a prática foi proibida em 1629 dando lugar ao wakashû
kabuki, jovens rapazes com franjas, prática também proibida em 1652 por estimular
o homossexualismo. O teatro kabuki atual é originário do yarô kabuki160 que sucedeu
157
Sem informação quanto à data do seu nascimento ou da sua morte.
O teatro reúne 3 elementos: canto, ka, 歌、bailado, bu 舞 e arte, ki 伎.
159
Data de nascimento e o ano da sua morte desconhecidos. Teria atuado entre os anos de 1580 até
o início do Período Edo.
160
Designação dada aos homens do Período Edo que tinham o cabelo raspado da testa até o centro
de cabeça. O termo literalmente possui a acepção de insulto como “velhaco”, “desgraçado”, “patife”,
dentre outros.
158
81
aos wakashû 161 , “jovem rapaz” sendo encenado somente por atores do sexo
masculino.
O teatro nô162 remonta ao século XIII, quando os rituais e danças precedentes
foram unificados (Figura 10). Era exibido inicialmente para as classes privilegiadas.
Trata-se de uma dança-drama que combina canto, pantomima, música e poesia.
Suas raízes podem ser encontradas no Nuo 「傩戏」, uma forma de teatro da China.
Figura 10: Teatro Nô
http://pt.wikipedia.org/wiki/Noh Acesso em 28/11/2010
O foco da narrativa encontra-se no protagonista, shite, o único que porta uma
máscara. O coadjuvante, waki, presente no palco à direita e de costas sentado na
parte anterior, não interfere no curso da ação, apenas é revelador da essência do
shite. Um coro que se senta à direita na lateral, e quatro instrumentos que se
encontram no centro, ao fundo, auxiliam na condução da trama através do bailado
do protagonista. Esse coro possui uma função decisiva na dramatização,
conduzindo a narrativa.
O kyôgen163 é um teatro clássico cômico japonês e, como o nô, foi criado no
Período Muromachi (1392-1573). Não se pode classificá-lo sempre como um tipo de
161
Às vezes “homossexual”. O termo wakashû origina-se das peças de kabuki encenadas por
adolescentes, de 1629 a 1652. Devido ao homosexualimo existente entre os atores, elas foram
proibidas. Conf. FRÉDERIC, op. cit., p. 1244.
162
KOKUMIN-HYAKKAJITEN (Enciclopédia do povo japonês). Tokyo: Heibonsha, 1966, volume 5,
p.30.
163
http://www.acbj.com.br/japao-a-z-interna.aspx?japao=56, acesso em 28/11/2010.
82
comédia, pois seu humor nem sempre é feliz, e algumas peças fazem uso de
elementos satíricos. Algumas chegam a alcançar os limites da tragédia e das
lágrimas ou focalizam o isolamento e a solidão humana.
No começo, as peças do kyôgen eram apresentadas nos intervalos das
peças do nô, mas depois passaram a ser encenadas independentemente. Eram
representadas apenas por homens (como no teatro nô), que geralmente se
apresentavam com o rosto limpo, mas há momentos em que utilizavam máscaras,
preferindo sempre as cômicas. Algumas máscaras são adaptações das utilizadas no
nô que, e apesar de penderem para o humorismo, normalmente são relativas à
sociedade ou de alguns personagens.
Outra modalidade de manifestação cultural também se destaca no período, a
de bunraku, o teatro de marionetes, que remonta ao século XVI. Os bonecos são
em tamanhos iguais à metade de uma pessoa de estatura mediana e os seus
movimentos são efetuados por três titereiros. As peças são acompanhadas por
instrumentos de três cordas, shamisen, junto à narração do enredo.
Na arte destacam-se as xilogravuras ukiyo-e, o mundo flutuante 164 . São
ilustrações que retratam o quotidiano da população em geral do período e os temas
oscilavam desde uma luta de sumô 165 às mulheres em trajes sensuais. O termo
ukiyo remete ao sentido de “um mundo transitório”, daí, apesar da tradução adotada
na maioria dos dicionários como “mundo flutuante”, ter a acepção também de “o
mundo num instante de tempo”166. Entre os seus artistas destacam-se Hishikawa
Moronobu (1619-1694), Kitagawa Utamaro (1753-1806) e Katsushika Hokusai
(1760-1849), entre outros, que tiveram as suas obras lançadas no cenário artístico
europeu, influenciando artistas como Monet e Van Gogh167.
164
Conforme os ideogramas que compõem a palavra: uki 浮 flutuante, yo 世 mundo e e 絵
gravuras/imagens.
165
Sumô, luta de corpo a corpo sobre um tipo de ringue. Os lutadores são corpulentos e são
preparados exclusivamente visando adquirir maior resistência física.
166
http://www.rio.br.emb-japan.go.jp/noticias/NIPPON/nippon002.htm, acesso em 05/10/2010.
167
Conforme Frédéric (op.cit, p.1236) “As estampas ukiyoe foram “descobertas” desde 1827 pelos
europeus (como Titsingh, por exemplo), mas foi graças a Félic Bracquemont, um desenhista francês,
e a Théodore Duret que foram difundidas nos círculos europeus. A Exposição Internacional de
Londres de 1862 e a Exposição Universal de Paris de 1867 permitiram que os amantes de arte as
descobrissem novamente. Elas provocaram então um entusiasmo e deram origem a um movimento
artístico chamado “japonismo” que influenciou vários pintores como Claude Monet..., Vincent van
Gogh...”. Fascículo n°.1 da Coleção Gênios da Pintura, van Gogh. São Paulo: Abril Cultural Ltda.
Editor Victor Civita, 1967, p.7. http://www.toyotistas.com/forum/arquvio-toyotistas-modelos-e-historiada-toyota/2620, historia-do Japão-eras-9e10-a-html, acesso em 6/10/2010.
83
Na educação, com a difusão dos terakoya 「寺子屋」, escolas que foram
criadas em templos budistas ao longo do Período Edo para que a população, de um
modo geral, tivesse acesso ao aprendizado da escrita e aritmética, expandiu-se a
instrução de forma ampla e irrestrita. Assim, a chamada população citadina, referida
como chônin168, 「町人」 alcançou em geral o direito à educação, mas embora não
houvesse menção a respeito nas bibliografias consultadas, dada a estratificação
social da época, acreditamos que aos hinin169 tal oportunidade, se foi concedida, foi
dada de uma forma restrita ou, negada.
Destacam-se também as iniciativas no campo de estudos clássicos japoneses
e nos estudos das ciências ocidentais, que possibilitaram o surgimento de
movimentos como o de kokugaku, estudos nacionais, voltados aos pensamentos do
povo japonês, buscando os seus elementos nos primórdios da cultura japonesa que
antecederam a introdução do budismo e do confucionismo. Entre os seus estudiosos
estão
Kamo
no
Mabuchi
(1697-1769)
e
Motoori
Norinaga
(1720-1801).
Posteriormente, Hirata Atsutane (1773-1843) faz uma abordagem de estudos até o
xintoísmo.
Conforme exposto, o Período Edo, sobretudo já nos seus períodos finais,
contribuiu para que uma parte da população economicamente mais ativa, artesãos e
comerciantes, pudesse ter acesso à instrução, assim como a oportunidade de se
destacar nas artes conhecidas de então. Nesse sentido, pode-se inferir que a época
traçou os alicerces da educação japonesa, embora este período de intercâmbios
restritos, motivados pelo fechamento de portos aos navios estrangeiros e,
principalmente pela estratificação social, não permitisse que todos tivessem acesso
de forma imparcial à educação, como no caso dos agricultores.
Não é possível negar, porém, a existência no arcabouço da cultura do Japão
de então de vários aspectos religiosos do budismo e do confucionismo que vieram a
se somar aos do xintoísmo. Além disso, os conhecimentos introduzidos da China
contribuíram para a base ora da arquitetura, ora dos costumes, ora da filosofia de
vida japonesa, somando-se àqueles oriundos das influências ocidentais, gerando,
como visto, novos paradigmas socio-culturais.
168
Designação genérica adotada no período aos que não eram nem nobres, nem guerreiros e nem
camponeses. Inicialmente o termo englobava somente os comerciantes e os artesãos. (cf. Frédéric,
op.cit., p.184)
169
Os “não humanos”. Camada social distinta das 4 existentes no governo Tokugawa devido às suas
atribuições consideradas “não dignas”.
84
2.1.2 O Japão Contemporâneo
O chamado Japão Contemporâneo engloba os períodos Meiji (1868–1912),
Taishô (1912 - 1926), Shôwa (1926 – 1989) e Heisei (1989 - ).
A abertura dos portos aos estrangeiros após o isolamento de cerca de 250
anos imposto pelo Shogunato Tokugawa traz significantes transformações nas áreas
sociais e econômicas no país. O imperador, diferente do período Edo, passa a
usufruir de plenos poderes.
Com a Reforma Meiji, embora se extinga a classe dos samurai, a estrutura
social praticamente continua a mesma. As bases rurais, por exemplo, permaneciam
inalteradas, com os familiares dos lavradores se empenhando nas suas colheitas e a
margens das grandes transformações. Se, de um lado, havia o sistema das
propriedades privadas que pertenceram aos templos e aos samurai, por outro, com
a chegada da Reforma Meiji, as propriedades passam para o âmbito familiar com a
sucessão das terras passados para o primogênito.
Com os lemas, “oitsuke” (alcançar) e “oikose” (ultrapassar), conforme citados
na Introdução, com o objetivo de se igualar às potências estrangeiras, o Japão
começa a introduzir rapidamente os costumes ocidentais, como que tentando
reverter um possível “atraso” político-econômico decorrente de seu período de
isolamento. Surgiram bancos, fábricas, ferrovias ao lado dos milenares costumes da
população, que começou a experimentar os novos tempos.
Destacam-se a importação de conhecimentos por meio de traduções,
contratação de estrangeiros e o início de formação de japoneses no exterior.
Ao longo de nossa pesquisa, percebemos que o Japão sempre tivera os
conhecimentos, pelo menos nos seus primórdios da civilização, introduzidos pelo
continente e que hoje são tidos como genuinamente nacionais. Entretanto, ao nos
determos alguns momentos sobre como o cultivo de arroz fora introduzido, o idioma,
a cultura, as primeiras formas arquitetônicas, a ocidentalização pós Era Meiji, etc.
não é possível ignorarmos que as questões culturais receberam uma influência
muito grande as das ditas exógenas.
Em termos de idioma, o primeiro contato nipônico deu-se com o chinês,
depois com o português, no contato com os europeus, com o holandês no período
de fechamento dos portos e, posteriormente, após a abertura, com o inglês, com
cujos países – Estados Unidos e Inglaterra - o Japão mantinha uma certa relação
85
restrita. Mesmo após a 2ª.Guerra Mundial, em que o Japão sai perdedor, foi o inglês
o idioma que maior destaque alcançou. Conforme destaca Saruya (1999, op.cit.,
p.29), evidenciam-se nesse processo importantes traços da história cultural
japonesa como o acolhimento e simultanemente a recusa do novo, mas sempre em
uma forma cíclica e interativa, pois é notório que os encontros com os idiomas
estrangeiros acabam por também deixar os seus traços culturais no idioma nipônico.
Uma das primeiras medidas do governo Meiji é a abolição das quatro classes
sociais da Era Edo. Os samurai recebem uma nova designação como shizoku 「士
族 」“da família/grupo de samurai”.
Paralelamente ao objetivo de expansão o governo Meiji estabelece o sistema
de recrutamento obrigatório fazendo com que os samurai perdessem o poder por
completo, daí originando um sentimento de insatisfação do grupo. Ocorrem rebeliões
lideradas por Saigô Takamori, entre outros, mas as mesmas encerram-se diante do
poderio dos novos armamentos que haviam sido introduzidos.
Numa tentativa de política expansionista, eclodiram guerras com o objetivo de
tornar colônias os territórios pertencentes a China (1894-1895), Rússia (1904–1905)
e há a anexação da Coréia em 1910. Com isso, o Japão começa a adquirir prestígio
no cenário asiático, mas exigindo sacrifícios da população, principalmente diante das
dificuldades de um país em guerra. Ideologicamente estabelece-se o chûkun aikoku
「忠君愛国」, fidelidade ao “Senhor soberano da Pátria amada”, enaltecendo o
amor e a dedicação ao soberano. Para isso foi erguido um santuário xintoísta,
Yasukuni Jinja, em Tokyo para a realização de cultos de manifestação de “sacrifício
patriótico” e demonstrar a lealdade ao imperador que seria, segundo Yamashiro
(op.cit., p.231), a continuidade do espírito samurai.
O imperador Meiji falece em 1912 sucedendo-lhe no trono o príncipe
Yoshihito, que denomina a nova era de Taishô.
Uma dos acontecimentos mais graves que viria abalar a sociedade japonesa
foi a participação do Japão, um país em desenvolvimento, na 1ª. Guerra Mundial em
1914, motivado por interesses econômicos dos países como a Inglaterra, França e
Rússia contra os aliados formados pela Alemanha, Áustria-Hungria, Império
Otomano e Bulgária. O Japão participa assumindo um tratado com a Inglaterra. As
conseqüências refletiram-se diretamente na população que reivindicava comida,
86
cada vez mais escassa. Ocorreram distúrbios que ficaram conhecidos como kome
sôdô 米騒動 “movimento, tumulto de arroz”.
Nove anos depois, um grande terremoto na região de Kantô assola o país,
deixando centenas de pessoas entre mortos e feridos.
O imperador Taishô falece em 1926 e ascende ao trono o imperador Hirohito
que denomina seu período de governo como Era Shôwa.
Em 1940 é concluída a aliança tríplice entre Japão, Alemanha e Itália, já em
meio à 2ª. Guerra Mundial. Em 1941, o Japão declara guerra aos Estados Unidos e
a Inglaterra e as suas conseqüências foram catastróficas, sendo talvez uma das
principais o lançamento da bomba atômica sobre as cidades de Nagasaki e
Hiroshima com milhares de mortes, deixando um rastro de destruição e de doenças
sem precedentes. O Japão sucumbe e rende-se incondicionalmente em 1945 diante
da superioridade bélica dos Estados Unidos e seus aliados.
Após a 2ª. Guerra Mundial, o Japão revê a sua Constituição, tornando o
imperador um “símbolo do estado e unidade do povo”. Nas décadas seguintes são
introduzidas reformas de ordem política, social, econômica e cultural. A partir da
década de 50, a reconstrução econômica ganha velocidade e vigor, explicada de
acordo com Yamashiro 170 , como decorrência, por exemplo, da manutenção do
regime monárquico, fator que contribuiu para a conservação por parte do povo do
senso de disciplina social e política, pois o imperador tido como descendente da
Deusa Amaterasu continua a ser considerado hoje, embora para uma parcela
restrita de japoneses, um ser divino devido a crença de que o imperador descende
da deusa.
Nessas rápidas descrições do início da Era Contemporânea os embates,
embora em moldes diferentes, permaneceram sob a continuidade de uma
supremacia de um poder central.
A reabilitação econômica e as importações começaram a produzir um
consumismo intenso. Aparentemente, os quase 250 anos de isolamento de nada
significaram no tocante aos valores de vida diante deste novo cenário de produtos e
modos de vida importados. Ao mesmo tempo em que se desenvolvia uma ideologia
que justificava a inserção do Império Japonês até 1945 no palco geopolítico mundial,
como de fato aconteceu, aparentemente não se questionavam os efeitos dessa
170
Op.cit., p. 246.
87
“ocidentalização” em massa. A construção de prédios e trens-bala, a proliferação
das indústrias e de locais de diversão à moda européia e americana são exemplos
para esta época de transformações que tinham um modelo internacional.
Reiteramos que nos primórdios da chamada cultura japonesa, com o início do
contato com o “continente” chinês, as importações e as “niponizações” seguiam
praticamente o modelo advindo da China. Templos, datas comemorativas, muitos
deles
não
são
originários do
Japão. Curiosamente,
chegando-se
a Era
Contemporânea, após a abertura dos portos, encontramos um modelo totalmente
ocidental, ou seja, a dita globalização e o multiculturalismo já haviam se iniciado
desde que o Japão tivera os seus primeiros contatos com a China.
Entrementes, não podemos deixar de nos indagar como o boom das
importações teria sido aceito no “íntimo da alma dos japoneses”, de explicitação
complexa, e os seus reflexos produzidos. Se havia o progresso num aspecto, a
sociedade japonesa, acredita-se, não estaria preparada para tantas novidades de
uma só vez. Segundo Koroku,171 a ausência do espírito liberal e do individualismo do
povo japonês, conforme demonstrado ao longo de sua história, fez com que a
sociedade mantivesse os costumes e hábitos nos antigos. No caso do Direito,
contudo, conforme destaca Koroku, a história desde a Revolução Meiji resume-se
praticamente na recepção do direito e da ciência jurídica ocidental sendo tudo
“importado” pelo governo. O sentido de Estado diligente, prossegue a autora, é que
teria criado a burguesia japonesa, todavia a figura do imperador como uma
divindade encarnada e invencível não permitiria uma reflexão acerca do tipo de
sociedade que começara a se formar.
Paralelamente à reestruturação econômica, o Japão consolida-se no campo
diplomático. Em 1956, o país torna-se mais ativo no cenário político com a sua
admissão às Nações Unidas. O Tratado de Segurança com os Estados Unidos,
assinado inicialmente em 1951, torna-se mais recíproco em suas características
após a revisão em 1960. Negociaram-se as reparações e o pagamento das dívidas
de guerra. Após uma prolongada série de negociações, o Japão restabeleceu
relações formais com a República da Coréia em 1965.
Desta forma, em cerca de duas décadas após a sua derrota na 2ª. Guerra
Mundial, o Estado japonês apresentava uma franca recuperação das conseqüências
171
KOROKU, Tonia Yuka. In: REID – Revista Eletrônica Internacional Direito e Cidadania
http://www.reid.org.br/print.php?CONT=00000035, acesso em 15/1/2010.
88
da guerra. As Olimpíadas de 1964 simbolizaram a nova esperança do povo japonês
e desde 1975 o Japão integra o G-8, grupo de países mais economicamente
desenvolvidos do mundo.
É a partir dos anos 70172 também que se observam grandes transformações
em todos os aspectos da sociedade japonesa, tais como: o aumento gradativo das
exportações que, de um déficit de 16 trilhões, 545 bilhões e 3 milhões de em (yen)
em 1975, passa para um superávit de 61 trilhões, 170 bilhões de en (yen) em 2004
(aumento de 3,7 vezes em cerca de 30 anos); as importações de 17 trilhões, 170
milhões de en (yen), em 1975 passam em 2004 para 49 trilhões, 216 bilhões e 6
milhões; o êxodo populacional das áreas rurais para os grandes centros; o número
de estrangeiros no arquipélago que ultrapassa o número de 200 mil pessoas em
2004; aumento no número de viagens ao exterior e no da população idosa; a
admissão de mulheres nas empresas e em papéis de destaque; elevação da taxa de
criminalidade; aumento do número de veículos, de famílias que passaram a comer
em restaurantes; aumento da aquisição de produtos elétrico-eletrônicos.
Entretanto, à medida que os japoneses passam a usufruir de “melhores
condições materiais de vida”, outras reivindicações, como a das melhorias da
qualidade da vida ou como a da prevenção contra poluição começam a surgir,
aparentemente mais centradas nos rumos do chamado “progresso”. De fato,
concebemos que se trata de uma conseqüência natural da dita evolução e
transformação do sistema de vida. Hoje, são necessidades e uma vez sanadas,
amanhã haverá outras, tudo em nome de uma sociedade estável e harmoniosa, em
cujo interior o capitalismo possui um papel preponderante. Os vieses, nesse
processo, sem dúvida, perpassam aquilo que Michael J.Sandel chama de “lógica
financeira”173, pois a valorização das diferenças é (re)pensar a relação de um com
outro.
Trata-se, pois, da complexidade de distinção dos termos yutakasa, “rico”,
“farto”, “abundante”, e benrisa “útil”, “conveniente”, “cômodo” dentro de uma
sociedade capitalista e globalizada que, indubitavelmente, reflete cada vez mais
acentuadamente as diferenças que começam a se destacar. Essas diferenças, não
172
1970 nendaino nihonto ima no nihon (O Japão dos anos 70 e o Japão atual). Tokyo: PHP Sôgô
Kenkyûjô, 2006.
173
Jornal O Globo. Caderno Prosa de 11/8/2012, p.3-4.
89
perceptíveis, culminam na necessidade do homem “sentir-se devidamente inserido”
no meio social, geográfico, político e histórico e, até, consigo mesmo.
Embora o Japão tenha se tornado um dos expoentes no cenário mundial, há
ainda discriminações como, por exemplo, contra os hâfu174, cuja designação é dada
para os descendentes mestiços, com o pai ou a mãe estrangeiro. Numa sociedade
em que muitos ainda acreditam na homogeneidade étnica, a mistura de raças
atrelada a pouco hábito de debates sobre diversidade e multiculturalismo acaba por
legitimar as discriminações175
Sakai Motoshi176 traz reflexões sobre o significado de “abundância”, yutakasa,
pois o termo, de um modo geral, abarca o sentido ligado à economia, relacionado ao
poder aquisitivo e a questões materiais. O autor pondera que o termo suscita um
paradoxo, pois é algo que não se consegue “medir”, embora se relacione também
com a satisfação das pessoas. Sakai exemplifica o paradoxo com uma situação de
desemprego, na qual um cidadão embora vivesse em meio a uma sociedade de
“yutakasa”, de abundância, acaba por sentir-se excluído. Assim, o seu grau de
satisfação estaria comprometido, surgindo daí fatores que iriam influir na sua saúde
mental entre outras. Para o estudioso, o termo yutakasa deveria abarcar a questão
de felicidade, de satisfação pessoal, que gerasse realmente um sentimento de
inclusão, pois a situação de abundância material estaria ligada somente aos
elementos excludentes que fazem surgir fatores que influiriam na saúde mental,
dentre outras complicações.
Percebe-se desse modo que uma sociedade de yutakasa e de benrisa não
contempla o ser humano de forma harmônica. Cria também um sentimento de
insatisfação, de monotonia e até de solidão, conforme se depreende pelo início dos
dois personagens dos manga com que trabalhamos neste tese. Lembramos mais
uma vez a teoria de “violência simbólica” de Bourdieu (1996), conforme explicitada
em nota de rodapé número 19, que acreditamos expressar o nosso raciocínio, e que
demonstra
a
legitimação
das
diferenças
existentes,
transformando-as
em
“deficiências”.
174
Do inglês half, metade.
Cf. Cláudia Sarmento, correspondente em Tóquio. Caderno Prosa. Jornal O Globo, 14/09/2013.
176
SAKAI, Motoshi. Seichô to kankyô – yutakasa to shimin (O crescimento e o meio – abundância e o
cidadão). In: NISHIMURA, Shigeo et.al. Shimin to shakaiwo wo kangaerutameni. (Pensando no
cidadão e a sociedade). Tokyo: Hôsô daigaku shuppan, 2011, p. 65-80.
175
90
Por outro lado, não podemos ignorar alguns dos acontecimentos que minaram
os alicerces sociais do país como, por exemplo, o fator que ficou conhecido como a
“economia bubble”, que, na década dos anos 90, devido a uma enorme demanda de
aquisição de terras e ações e a repentina queda das mesmas, ocasionou uma onda
de desempregos e falências das empresas. Outros exemplos como o do terremoto
que assolou a região de Kansai, matando cerca de 6.500 pessoas em 1995, o
ataque terrorista com gaz sarin atribuído ao grupo da seita religiosa Aum na estação
de Tokyo, a inserção nas tecnologias digitais, o aumento da expectativa de vida com
o aumento populacional com idade acima de 65 anos, os problemas sociais oriundos
do recrutamento de um grande número de trabalhadores estrangeiros, dekasegi,
entre outros, ainda marcam esta fase do Japão Contemporâneo. Sem dúvida, as
transformações não ocorreram somente na esfera social ou econômica. Nesse
processo, convém ressaltar, não apenas os valores de vida, como também os
valores culturais se modificaram.
Podemos destacar, além disso, o aumento das seitas religiosas ou novas
religiões, algumas originárias do xintoísmo como a Tenri, outras do Budismo, como a
Seichô no Ie e o Sôka Gakkai, fundada em 1930 como organização educativa, e que
possui milhares de adeptos espalhados pelo mundo177.
Procuramos, assim, demonstrar neste capítulo alguns dos traços históricos,
ao nosso ver mais importantes para a história japonesa nos períodos estudados e
que nos levam a elaborar questionamentos quanto à sociedade dita “multicultural” e
“globalizada” dos tempos atuais.
Com isso pretendemos expor que se, por um lado, o desenvolvimento
econômico se evidencia como dominante, de outro haveria a necessidade de se
levar em consideração o lado humano do processo. O materialismo e o consumismo
exacerbados, através dos quais o aspecto econômico expõe todos os habitantes da
aldeia global, ocasionam rupturas no íntimo dos homens. Tais estados emocionais e
até patológicos merecem estudos sérios, pois a desigualdade sócio-econômica do
Japão de hoje, embora não muito divulgada, reflete-se certamente na sociedade
japonesa.
No terreno político-ideológico, segundo Yamashiro (1982, p.25), o espírito
samurai não se extingue de todo na alma dos japoneses. Um acontecimento de
177
In: Revista Soka Gakkai Internacional. Abril de 2005. Tokyo: Siekyo Shinbun, p. 2 - 11
91
repercussão como um desejo de regresso as origens marca o ano de 1970: o
escritor Yukio Mishima morre, executando o ritual de seppuku (harakiri), quando
malogra sua tentativa de sublevar as forças armadas.
O exemplo vem a confirmar a situação vivida nos dias de hoje: desde os
primórdios dos períodos, nos quais o Japão manteve contato com o exterior, já se
configurava um embate entre o velho e o novo e com resquícios, por que não dizer,
de momentos passados. Afinal, o povo japonês não havia conseguido desenvolver o
individualismo, encontrando-se sempre numa espécie de grid178.
O espírito samurai que se revelou com Mishima de alguma forma ainda
perdura, mas com valorações diferentes. A sociedade japonesa transformou-se
muito rapidamente e as mudanças ainda continuam de forma galopante. Ao lado dos
legados culturais, como a da noção de giri, “obrigação”, “dever”, é também inegável
que a modernidade faz com que o aspecto de ninjô, “calor humano”, perca espaço.
Esse questionamento apontado pode ser respaldado por Kimura 179: ele indaga a
questão do “ser humano” e o “material”, o “não humano” com que o consumismo
acaba tendo que lidar, pois a globalização, um dos expoentes do capitalismo,
provoca uma mudança nas estruturas sociais e culturais, fazendo com que cada vez
mais a questão do “diferente” provocador de antagonismos venha a tona. É o que
Stuart pondera, afirmando que se outrora havia uma marca sólida, hoje os indivíduos
são cada vez mais conduzidos às fronteiras menos definidas (op. cit., p.93), neles
ocasionando muitas vezes uma crise de identidade.
Entendemos, por isso, que para a coexistência harmoniosa entre o “material”
e o “humano”, este último considerando em seu sentido adjetival, seria necessária
uma solução que pudesse atender a ambos, sem provocar rupturas e, por
conseguinte, impossibilitar a formação de grupos minoritários, refletindo-se, isto sim,
em direitos de cidadania.
Tal idéia é subsidiada por Bakhtin (op.cit., p. 32) quando afirma que as
questões discursivas devem ser consideradas sob o ângulo da heterologia e da
178
Alusão ao grid japonês, a disposição da arquitetura do desenvolvimento das cidades e das
construções japonesas. Cf. KITAMURA, Masaki & KOKAZE Hidemasa. Nihon no rekishito shakai (A
história japonesa e sociedade). Tokyo: Editora da Universidade de Hôsô, Departamento de Pósgraduação, 2009.
179
KIMURA, Keiichi. Gurobarizêshon no kôzai (O negativo e o positivo da globalização). In:
Gurobarizêshon no jinruigaku(Antropologia da globalização. Tokyo: Editora da Universidade de Hôsô,
Departamento de Pós-graduação, 2011, p.223.
92
pluridiscursividade. Para Bakhtin, um discurso mantém relações com outros
discursos.
Vagabond e Death Note e a análise dos manga em suas particularidades
concernentes aos sentidos de Justiça/justiça e justiceiro possibilitaram emblematizar
o aspecto dialógico das sociedades retratadas e por que não dizer, as
incongruências entre o discurso e a prática sobre os conceitos e seus agentes.
93
CAPITULO III – DEATH NOTE E VAGABOND – o imaginário e as
verossimilhanças: o multiculturalismo dos manga e as representações de
Justiça/justiça-justiceiro
3.1 AS OBRAS
Antes de passarmos à análise da temática deste capítulo, cremos ser
imprescindível, num primeiro momento, uma síntese técnica sobre as duas obras,
cujo foco será a inserção dos aspectos multiculturais e de Justiça/justiçajusticeiro/justiceiro nos respectivos manga, fato gerador da motivação para as
escolhas destas fontes180.
3.1.1 Death Note181
Obra lançada em 2003 pela editora Shueisha composta por 108 episódios,
distribuídos em 13 revistas cujo autor é Oba Tsugumi, cabendo as ilustrações a
Obata Takeshi.
A história conta a ação de um jovem Kira, adaptação fonética do inglês killer,
pseudônimo do protagonista Ligth Yagami, que encontra o caderno deixado cair pelo
“Deus da morte” shinigami182. Após constatar, induzido pelo shinigami, que aqueles
que tiverem os seus nomes escritos nesse caderno morreriam de causas naturais,
Light passa a escrever os nomes dos malfeitores e assim acontece uma sucessão
de mortes que deixam entrever uma justiça sendo realizada.
Os personagens, extremamente diversificados, num imaginário do real e do
irreal, possuem os seus perfis específicos e curiosamente o único dentre eles que
ama a justiça e odeia o mal é justamente Kira ou Light. Um dos poucos personagens
descritos como o mais confiável é o pai de Light, Yagami Sôichiro, para quem a
família é o bem mais importante. Ele perde a vida tentando solucionar as mortes.
180
Salientamos que a leitura das obras impressas em ideogramas ou em caracteres
hiragana/katakana procedem da direita para esquerda, de forma contrária ao ocidental.
181
Traduzido como “O caderno da morte” no Brasil. O título original em japonês é “satsujin note” que
significa “O caderno assassino”.
182
Palavra composta de shini, forma substantiva do verbo morrer e kami, termo originário do Shintô,
religião japonesa. A palavra kami designa todos os seres divinos ‘superiores” à condição humana.
Segundo a tradição, eles seriam em número de 88 milhões (número que indica infinidade). Cf.
Fréderic, op. cit., p. 585.
94
Os variados nomes como Yagami Sôichirô, pai de Light, Raye Penber, agente
do FBI, Aiber, profissional do submundo do grupo que compõe os “humanos” - e do
lado “não humano”, mais especificamente os shinigami Ryuk, que deixa cair o
caderno, Rem, shinigami fêmea, Shidoh, o verdadeiro dono do death note, com as
suas feições fantasmagóricas - mostram a destreza e criatividade do ilustrador em
conduzir os leitores a um mundo do fantástico, numa mescla do virtual imaginário e
do concreto humano.
Com relação aos shinigami, apesar de a sua origem não ser clara na trama e
na tradição cultural, o que se sabe é que teriam sido criados nos anos 60, no auge
da competição de desenhos japoneses (Speed Racer, Astro Boy) e americanos
(Pica-pau, Pernalonga). Os desenhistas japoneses, tendo esgotado histórias com o
tema ficção científica, decidiram criar um novo gênero baseando-se no
sobrenatural. 183 Os shinigami também são descritos com os seus perfis: Ryuk
(Figura 11), por exemplo, ama as maçãs e jogos, Rem (Figura 12), ama a afeição,
Shidoh (Figura 13), chocolate e odeia fantasmas, ou seja, com todas as
características emotivas e comportamentais de um ser humano.
Figura 11: Ryuk
In: http: //9500138907 chloeislin.files.wordpress.com2009/11/ryuk.jpg, acesso em 31 de janeiro de
2011.
183
In: www.soc.nii.ac.jp/fsj, acesso em 31 de janeiro de 2011.
95
Figura 12: Rem
In: http://upload.wikimedia.org/sikipedia/en/5/50Rem.gif, acesso em 31 de janeiro de 2011.
Figura 13: Shidoh
In: http:3_bp_blogspot_com, acesso em 31 de janeiro de 2011.
3.1.2 Vagabond
De autoria de Takehiko Inoue, a obra é baseada no livro de Eiji Yoshikawa,
lançado em 1998. Apóia-se em fatos reais descritos em inúmeras bibliografias do
personagem Miyamoto Musashi (1584 – 1645), que teria sido samurai da Era
Tokugawa ou Era Edo (1603 – 1867). É considerado um dos heróis do Japão devido
às suas histórias de luta que se pressupõem, em defesa dos mais oprimidos e à
tentativa de obter a plenitude espiritual e guerreira.
96
Miyamoto Musashi é autor do livro Gorin no sho184, literalmente a “Escrita de 5
anéis”, numa alusão aos 5 elementos na natureza que são fundamentais na cultura
budista: Terra (o centro do universo), Água (adaptação ao recipiente que a contém),
Fogo (as energias), Vento (momento de introspecção) e o Céu (conhecimento das
coisas existentes para conhecer as não existentes). Gorin no Sho tem como foco o
pensamento do guerreiro na busca de sabedoria para enfrentar as situações mais
adversas, demonstrando não somente força física, mas a concentração no controle
da mente.
Musashi teria escrito o livro numa caverna, desprovido de qualquer conforto
material, e concluído a obra por volta de 1643. O livro é conhecido e a sua idéia é
adotada em várias áreas, pois tornou-se uma filosofia de como vencer na vida com
seu teor centrado em estratégias para obtenção do sucesso.
Embora o livro seja utilizado como guia para se ter êxito, o local e a forma
como a obra teria sido escrita lembram a história do mito da caverna de Platão185,
em que a caverna representaria a sociedade com as suas normas que são
transmitidas e que o homem, ao se dar conta do real (os embates do dia-a-dia) com
os seus questionamentos advindos dos aspectos do multiculturalismo implícito, irá
requerer “estratégias” para transpor esse mundo pleno de desafios cotidianos.
Desse modo, a coincidência metafórica das obras conduz-nos a constatar a
inserção de elementos que remetem às questões multiculturais, como, por exemplo,
uma conotação que atrela a filosofia ocidental à filosofia budista. A própria
linguagem das ilustrações também contribui para demonstrar os aspectos do
multiculturalismo, como visto a seguir.
3.2 A linguagem imagética: discussões
Tomando como primeiros teóricos a Santaella e Nöth, estes afirmam que
“O mundo das imagens se divide em dois domínios. O primeiro é o domínio
das imagens como representações visuais: desenhos, pinturas, gravuras....
184
MIYAMOTO, Musashi. O livro dos cinco anéis – O verdadeiro sentido da estratégia. Trad.
Henrique Amat Rego Monteiro. São Paulo: Clio Editora 2010.
MIYAMOTO, Musashi. O livro de cinco anéis (The book of five rings). Trad. Fernando Barcellos
Ximenes. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002
MIYAMOTO, Musashi. Gorin no sho (O livro dos cinco elementos). Trad. Jose Yamashiro, São Paulo:
Cultura Editores Associados, 1996.
185
In: http://www.brasilescola.com/filosofia/mito-caverna/platão.htm. Acesso: 27/08/2013.
97
Imagens, nesse sentido, são objetos materiais, signos que representam o
nosso meio ambiente visual. O segundo é o domínio imaterial das imagens
na nossa mente... Ambos os domínios da imagem não existem separados,
186
pois estão inextricavelmente ligados já na sua gênese.”
Embora um estudo de sentido imagético possa perpassar a teoria semiótica,
não adentraremos a discussão controversa dos conceitos, pois a nossa proposta no
presente trabalho é proceder aos “olhares-plurais” na análise comparativa dos
corpora selecionados.
Efetuando uma apreensão dos manga como elementos de uma cultura de
massa, destacamos um fator que contribui para o desenvolvimento dessa proposta
inicial de discussão sobre a lingaguem imagética: a questão da representação dos
processos cognitivos, que não pode ser desvinculada do pressuposto de que
aquelas são signos e as operações mentais ocorrem na forma de processos
sígnicos (SANTAELLA, op.cit, p.26). Temos, assim, a relação indissociável entre
imagem o aspecto visual e a mente.
Além disso, Santaella afirma que o código verbal não pode se desenvolver
sem imagens. Isso ressalta o fato de que uma imagem sempre implica o uso de
outras imagens (op.cit., p.14). Santaella e Nöth acrescentam que a palavra “teoria” já
contém na sua raiz uma imagem, pois “teoria” na sua etimologia, significa “vista”,
cuja origem está no verbo grego tehorein “ver, olhar, contemplar ou mirar”.
Segundo Platão, a imagem não é o resultado da percepção (aithesis), mas
tem sua origem na própria alma (apud SANTAELLA, p. 78). Neste sentido podemos
inferir que a tríade da linguagem (tanto os elementos lingüísticos quanto imagéticos
(logos, ethos, pathos), pode ser aplicada de forma articulada para um estudo ligado
às imagens. O visual dos manga aliado aos seus recursos lingüísticos ativados pelo
elemento cognitivo tem os seus “domínios materiais e imateriais interligados desde a
sua gênese”, conforme afirma Santaella e Nöth (op.cit., p. 15) e, no seu interior, a
alma adquire também um papel relevante que culmina na articulação do ethos com o
pathos.
Essa noção de articulação pode ser reforçada também pelo sentido da ideia
imprementada pelo dialogismo de Bakhtin, não sob a premissa de “dois”, mas sim o
dialogismo em que subjazem as “vozes”, através dos elementos ilocutórios e
186
SANTAELLA, op.cit., p. 15.
98
perlocutórios187, como também segundo Baccega (op.cit. p.6) pelo entendimento de
que “... as palavras vestem-se de significados”.
Trabalhamos, nesse sentido, com a etimologia do termo dialogismo como
composto pelo prefixo grego dia, indicador de movimento - “através de” - que ao se
juntar a logos, “palavra” e ao sufixo ismo denota, entre outros significados, um modo
de proceder ou de pensar. Embora o termo seja aplicado com referência às palavras,
caso o analisemos sob a ótica do discurso, percebemos que a imagem produzida
pelos manga também possui seus sentidos. Cremos que isso possa ser comprovado
pelo trecho que destacamos acima de que a “imagem não é o resultado da
percepção... “(SANTAELLA e NÖTH, op.cit., p.78)
Complementando os nossos raciocínios, o ponto de vista pode ser respaldado
também ao nos remetermos, mesmo em se tratando de imagens, à teoria polifônica
de Ducrot que explicita que as palavras provocam um efeito de sentido a partir de
determinados procedimentos discursivos, ou marcas lingüísticas, como o emprego
de onomatopeias, por exemplo. Embora se trate de imagens, nos manga
encontramos, por exemplo, a presença dos shinigami, “Deuses da Morte”, na obra
de Death Note, as quais atuam como “marcas” que determinam a produção de
sentidos.
Destarte, assim como a língua é dialogicamente apresentada sob as formas
polifônicas, os manga também são passíveis de um entendimento das “vozes”, que
produzem efeitos de sentidos e daí advindo, conforme expomos a página 20, toda a
empatia ou catarse que provocam no leitor aficcionado e que caracterizam esse
gênero de literatura como uma cultura de massa.
Já pela ótica de estudiosos dos manga como McCloud (op.cit., p.06), numa
forma objetiva este define os quadrinhos como “uma forma artística que é um
recipiente que pode conter diversas ideias e imagens” e que “são imagens
pictóricas e outras justapostas em seqüência deliberada destinadas a transmitir
informações e/ou a produzir uma resposta no espectador”. (p.20, grifo nosso).
A acepção “pictórica e outras justapostas” empregada por Mccloud, assinala
um elemento pictográfico em que ideias são expressas por cenas figuradas ou por
símbolos e nesse ato dotam-nas, por conseguinte, de sentidos, isto é, acabam se
187
Elementos ilocutórios: atos da fala que realizam ou tendem a realizar a ação nomeada.
Elementos perlocutórios: funções da linguagem que não estão eliciadas diretamente no enunciado,
mas dependem inteiramente da situação de fala. Cf. Dicionário de Lingüística (op.cit., p.330 e 465)
99
tornando-se suscetíveis de um pathos, principalmente porque, assevera McCloud,
(op.cit., p. 20) que as imagens produzem uma resposta no espectador e, sobretudo,
porque a imagem não é o resultado somente da percepção visual.
McCloud acrescenta ainda que “o segredo dos quadrinhos não está no que a
definição diz, mas no que ela não diz” (op.cit., p. 21), pois esses não abarcariam
todos os gêneros ou assuntos e que, embora houvesse a tentativa de definição, os
quadrinhos serão sempre um processo contínuo.
Desse modo, embora o conceito de imagem também exija cuidado, dado o
seu conceito controverso, no presente trabalho foram dados destaques igualmente
aos sentidos produzidos pelo aspecto visual dos manga, ou seja, o que o visual do
manga apresenta” e “representa” ao mesmo tempo, atuando, por vezes, como um
ícone188 em conjunto com os recursos linguísticos.
Já Tezuka (op.cit., p. 19), considerado o “Deus dos manga” pelos nipônicos,
expõe que o manga reflete o “espírito crítico da massa” popular”. Isso porque os
manga, nascidos de traços, a princípio, sem um propósito definido, são
manifestações originárias de alguma insatisfação que o homem tem frente ao mundo
em que ele vive ou oriunda das próprias inquietações humanas.
Desse modo, percebemos que as produções quadrinhísticas têm o seu
linguajar peculiar com os seus traçados e técnicas que transmitem uma emotividade
ao leitor.
Estendendo um pouco mais a linguagem imagética dos manga, encontram-se
também as abordagens de Antonio Vicente Pietroforte 189 e Adir Peruzzolo 190 que
reforçam o enfoque do nosso trabalho. Peruzzolo considera a comunicação entre
uma linguagem falada e escrita a maior invenção do homem e que quando essa
comunicação se dá no âmbito de imagens, igualmente o discurso nela inserido
(op.cit., p.15) passa a representar um “jogo”, como o apresentado na Figura 14:
188
Segundo Santaella (op.cit, p.37), uma imagem pode ser um ícone, mas nem todos os signos
icônicos são imagens visuais.
189
PIETROFORTE, Antonio Vicente. Análise do texto visual – a construção da imagem. São Paulo:
Contexto 2007; Idem, Semiótica visual – os percursos do olhar. São Paulo: Contexto, 2007.
190
PERUZZOLO, Adiar Caetano. Elementos de semiótica da comunicação - quando aprender é fazer.
Bauru, São Paulo: EDUSC, 2004.
100
Figura 14: os sentidos dos manga numa brincadeira
In: PERUZZOLO, Adair Caetano. Elementos de Semiótica da Comunicação – quando aprender é
fazer. Bauru, SP: EDUSC, 2004, p. 15
O que Peruzzolo propõe é que o leitor visualize as mensagens do código
verbal, no caso o da língua portuguesa, escrita e do código numeral (2003, p.16),
ponderando que:
101
(...) indo de um sinal ao outro, de uma matéria gráfica a outra e ligando as
associações mentais que se criavam em você, você foi constituindo um
sentido do que se propunha e articulou um novo conjunto de idéias que o
levou a uma resposta (conduta) solicitada.
191
Chamamos a atenção para a “resposta (conduta) solicitada” que equivale à
ideologia de bens simbólicos (apud SOARES, 1996, p.60) ou, a “manipulação a
cognição social” de Van Dijk, anteriormente mencionada (cf. p. 27).
Tal ideia é desenvolvida dentro da relação da tríade da retórica, em que o
ethos e o logos determinam um pathos, mostrando o papel do “ethos” tanto na
relação entre “dominantes” e “possuidores”, quanto entre “dominados” e “possuídos”.
As imagens seguem a mesma relação. A noção do discurso perpassa as
questões do código verbal e passam a produzir sentidos igualmente em imagens,
daí nosso entendimento do manga como um elemento da cultura de massa.
O fenômeno em que o manga se tornou mundialmente, diga-se de passagem,
é uma cadeia de signos composta de unidades semiológicas192, em que os aspectos
denotativos passam a produzir os conotativos, configurando-se numa forma especial
de sentidos. Isso equivale a dizer que, num percurso visual de uma história em
manga, as imagens atuam como uma sintaxe de uma frase e, motivadas, provocam
um pathos nos leitores.
Assim, tanto Tezuka quanto MacCloud apontam para os critérios dos traços
desenvolvidos em narrativas manga. Os personagens, suas fisionomias, suas
características, os recursos lingüísticos, enfim, os traços devem ser únicos, de modo
a atingir o ethos do leitor e, ao mesmo tempo, carregar um potencial expressivo, em
que alguns indicadores abstratos sejam apreendidos pelos leitores num “mundo
invisível do símbolo” (op.cit., p.130).
MacCloud (op.cit., p.131) explicita também que, para a constatação de um
símbolo, mesmo pertencente a uma cultura específica, existe sempre a tendência à
ampliação do seu vocabulário visual e, por que não dizer também, à ampliação de
seus sentidos.
192
Conforme Peruzzolo,op. cit., p.109.
102
Figura 15: A apreensão numa extensão de sentidos
Death Note volume 3, p. 59
Temos assim, retomando Peruzzolo, que toda comunicação pressupõe uma
RELAÇÃO, mas nem toda relação é comunicação. Para o autor, a relação possui
uma amplitude maior que a comunicação. Ou seja, para que uma relação possua o
seu efeito é preciso que tenha os seus componentes específicos marcados, para
que a mensagem transmitida possa ser captada pelos leitores.
Percebemos que as colocações de estudiosos de áreas distintas culminam,
quando se trata de manga ou desenhos quadrinhísticos, num mesmo ponto
convergente: é uma linguagem específica capaz de, nas entrelinhas das suas
histórias, provocar uma inter-ação, remetendo assim a uma mais ampla e complexa
apreensão da linguagem como prática social.
Numa rápida exemplificação do que vimos expondo, temos no desenho acima,
figura 15, os recursos onomatopaicos de âmbito sonoro, pois na língua japonesa sua
representação serve também para demonstrar um estado ou de que forma
determinadas ações ocorrem, que ratificam a situação do trem partindo da estação e
do personagem no seu interior.
103
O quadro inferior a direita, com o ponto de interrogação dentro do balão,
expõe a estranheza da menina diante do personagem subindo às escadas não
respondendo à saudação tôdaisei okaeri “já chegou, universitário de tôdai 193 ?”.
Entretanto, o estranhamento pode expressar tanto o porquê de ter chegado naquele
momento ou quanto à forma anormal de como sobe as escadas. A menção à
Universidade de Tokyo, uma Instituição tradicional, dá margem a especulativa
interpretativa de que o personagem pertence a uma classe elitizada.
O hiato, a sequenciação das cenas, é responsável pela transformação das
imagens distintas, a princípio, em uma única ideia dos leitores ativando o imaginário
dos mesmos.
Pietroforte (2007, p.8)194 já pondera a mesma questão a partir de um outro
ângulo: a questão da discursividade da imagem, focando no processo de
significação como capaz de gerar as relações entre o plano de expressão e o
conteúdo que o autor denomina de semi-simbólicas. Segundo o autor, a
manifestação do conteúdo é obtida de acordo com o plano de expressão. Uma
relação, por exemplo, numa categoria semântica vida vs. morte tem a sua categoria
plástica luz vs.sombra, de modo que a sombra se refira à morte e a luz à vida.
É possível assim depreendermos que a apreensão dos estudiosos, embora
pertença às áreas distintas e oscilem nas suas formas conceituais, tende a ser
congruente.
Desse modo, podemos inferir que toda linguagem, como prática social,
perpassa pelo que Bakhtin denomina de dialogismo e que se refere às relações dos
enunciados produzidos. Trata-se do dialogismo, no caso, compreendido não
somente sob a perspectiva de diálogo, como já mencionado, mas dotado de uma
estruturação interna “mascarada” ou “escondida” sob um conjunto de “marcas”
lingüísticas ou imagéticas, expressando “ideias através de logos”
Os discursos tornam-se dessa maneira polifônicos, ou seja, “vozes”, conforme
destacado acima, passando a se expressar e provocando um pathos do leitor que,
repetidamente reiteramos, permite que compreendamos o porquê dos manga terem
se tornado uma parte integrante da cultura de massa.
193
Universidade de Tôkyô. Nome de uma das tradicionais instituições de ensino federal. Tem inicio
como Universidade de Tôkyô, Tôdai, em 1877.
194
PIETROFORTE, Antonio Vicente. Semiótica visual – os percursos do olhar. São Paulo: Contexto,
2007.
104
Os manga, com os recursos imagéticos e linguísticos interagem, “agem”,
respondem e correspondem às expectativas dos seus leitores, pois discursivamente
atendem ao que Kymlicka entende como multiculturalismo e que se caracteriza pela
igualdade e liberdade sem que as camadas distintas estejam numa posição
estanque ou existam lacunas. Segundo o autor, a questão da existência de partidos
políticos de esquerda ou de direita não contempla integralmente os interesses dos
indivíduos de uma sociedade contemporânea, pois aqueles são, a princípio,
estabelecidos tradicionalmente sob a hegemonia no âmbito da política ou econômica.
Na verdade, o que Kymlicka questiona é a questão das minorias, dada a sua
diversidade e que deveriam ser tratadas de forma inclusiva, acrescentando que “...
tecer uma reflexão política é algo que deve, estando no seu interior, compreender
organismos dos costumes e tradições” (op.cit., p.3)195.
Destarte, os manga, como manifestação de cultura de massa, com os seus
elementos multiculturais expressos, conforme veremos nas análises, representam
uma defesa das minorias, não somente no seu sentido econômico, mas ao mesmo
tempo inserindo a própria questão da identidade. Retomando as ideias de Detienne,
percebe-se que tais fatores, mormente expressos em “fundar”, “fundação”, culminam
no binômio Justiça/justiça, destacadamente justiça, como veremos a seguir.
3.3 – Comparando as duas obras: os seus sentidos.
3.3.1 Death Note
Os corpora da nossa reflexão foram selecionados dos volumes números 1,
em sua grande maioria, 2, 5, 7, 12 e 13 já que a situação dos questionamentos se
define no primeiro e é desenvolvida nos volumes seguintes. Os demais números
relatam as justiças todas sendo feitas por “mortes naturais” como ataques cardíacos
daqueles que tem os seus nomes escritos no caderno e confrontos psicológicos
entre as autoridades que passam a caçar o “criminoso” Light, não sendo, portanto,
mencionados.
195
「政治的判断とは、われわれ自身がすでにその内部にあって一心同体の関係を保持している諸種
の伝統や習慣を解釈するという問題にはほかならない。 」Seijiteki hihantowa, wareware jishinga
sudeni sono naibuni atte isshindôtaino kankeiwo hojishiteiru shorui no dentôya shuukanwo
kaishakusuruto iu mondaniwa hoka naranai.
105
Logo a partir da capa do primeiro volume “Tédio”, chamam a atenção
algumas características de elementos multiculturais. A questão da justiça começa a
ser estabelecida logo no início da trama: vê-se o protagonista, Kira ou Light,
trajando roupas formais com uma foice e atrás dele dois elementos que seriam
possíveis shinigami. Do mesmo modo encontramos a disposição das letras
romanizadas em maiúsculas junto a escrita katakana196 do título Death Note (Figura
16).
Figura 16: Death Note capa do volume 1
Observa-se também no Vol 1, p. 12, a escrita vertical com emprego da
palavra em inglês e ao lado em japonês. Trata-se de um recurso de leitura
empregado na escrita japonesa, quando vertical, cujos ideogramas tem as suas
leituras facilitadas com o emprego dos chamados furigana197 (Figura 17).
196
197
Uma das escritas da língua japonesa, normalmente usada para grafar termos estrangeiros.
Uma das escritas da língua japonesa, normalmente usada para grafar termos do próprio idioma.
Exemplo: 夢ゆ
め
106
DEATH NOTE
デ
ス
ノ
ー
ト
Figura 17: a disposição da escrita vertical
Death Note, volume 1, p.12.
Os exemplos abaixo deixam entrever, assim como o nome do personagem
Light/Kira, o aspecto duplo da existência humana. O E, na direção contrária, o T, na
vertical e, como aspecto multicultural, o Death Note transcrito em uma das grafias
japonesas (Figura 18).
Figura 18: a letra E ao contrário e A e T na horizontal
Death Note, capa do volume 2.
No exemplo abaixo verificamos que a disposição da tradução how to use é
efetuada semelhante à figura 17, cujo termo em japonês, na escrita hiragana, é
disposto como se fosse a leitura do termo em inglês, como how to use fosse um
ideograma. Além disso, a expressão à esquerda zenbu eigoka mendoudana, “que
chato, está tudo em inglês”, pode denotar uma crítica ao mesmo. (Figura 19).
107
HOW TO USE
つ
か
い
か
た
Figura 19: How to use e a sua tradução ao lado na escrita vertical.
Death Note, volume 1, p. 12.
Esse recurso é empregado também na página 21, com a palavra 空想 (Figura
20) na escrita horizontal:
grafia katakana (de image)
イメージ
空想
ideograma, cuja leitura é kûsô
Figura 20: Recurso da escrita, cuja leitura adota a escrita inglesa, embora adaptada
Death Note, volume 1, p. 21.
Na questão discursiva observa-se que o início é marcado, por um lado, por
Light, representando o mundo dos humanos, na condição de tédio e, de outro, no
mundo dos shinigami também encontramos o mesmo sentimento, configurando
deste modo uma igualdade em sentir-se no mundo. Destacam-se as falas do
Shinigami, Itsumo onajikotono kurikaeshi, tsumarane. “Todos os dias são a mesma
coisa, sempre repetindo, que chato!” e Kono yowa kusatteiru , “Que mundo podre!”
aludindo ao mundo dos humanos. “Todos os dias são a mesma coisa” já induz o
leitor a perceber um estado de tédio, principalmente pelos semas do termo como
enfado, desprazer, aborrecimento, incômodo, lassidão, os quais remetem a um
108
entendimento não somente da “falta do que fazer”, mas também a todo um estado
de negatividade. Inclusive a expressão facial já demonstra o estado de sentimento
do personagem. Observamos que no enunciado da segunda fala, ”o mundo está
podre”, o balão se situa numa posição em que deixar transparecer que o próprio
Light estaria se manifestando dessa forma. Não fica claro qual dos dois “mundos”, o
humano ou dos shinigami, estaria sendo mostrado e causando já uma certa tensão.
(Figura 21).
Figura 21: as falas do “mundo humano” e a do “mundo dos shinigami”
Death Note, volume 1 p. 5
109
Os personagens encontram-se em convergência e passam a agir em
cumplicidade, Light, a princípio, na luta contra os malfeitores e, Shinigami, para
satisfazer o seu tédio, usando Light como diversão.
Yagami
Além disso, o nome completo Yagami Light(
;夜神)cujo significado de
Light
Yagami como Deus da noite e Light(
ideogramas poderia
;月)- lua - conforme a disposição dos
ser entendido como “Deus da noite” que
“ilumina”,
principalmente pelo ideograma de lua que indicaria “claridade”. No entanto, ele é o
personagem central que provoca as mortes.
Pode-se aventar o nome Light a partir de uma outra perspectiva: a claridade
também é possuidora do lado escuro. Isso faz com que possamos interpretar o
personagem como representante de os dois lados do ser humano, o claro/positivo e
o sombrio/negativo. Neste sentido, a disposição de alguns dos caracteres
romanizados, traçados de forma contrária (demonstrado na Figura 18), é um aspecto
recorrente para mostrar o aspecto reverso inerente aos seres humanos.
Light ama contraditoriamente a justiça, pois ocasionando as mortes de
supostos malfeitores, ele estaria justamente transgredindo as leis ou as normas
legais passando a “agir” após ter o caderno em suas mãos como justiceiro para
expurgar o mundo dos criminosos. No entanto, embora malfeitores, o que acontece
são assassinatos perpretados por Light. Esta maneira do personagem conceber a
justiça/justiça talvez possa advir do fato de seu pai ser policial, o que conferiria a
Light, contudo, a sua própria conduta e seu próprio e peculiar código de justiça.
Entretanto, a personagem deixa-se atrair pelo poder e passa a cometer vários
assassinatos dada a facilidade para isto, pois bastava para isso escrever os nomes
dos “marginais” no seu “caderno da morte”. Abaixo observa-se a mudança na
fisionomia do personagem Light quando do contato inicial com o caderno, com um ar
despreocupado, e quando começam as “condenações” dos malfeitores que
culminam nas mortes (Figura 22).
110
B
A
B
A
Figura 22: Mudança nas fisicionomias de Light. Figura A: Death Note Volume 1, p. 14. Figura B:
Death Note Volume 7, p. 24.
Suas ações levam a polícia japonesa e até as forças policiais estrangeiras a
estarem em encalço do “assassino” com a finalidade de desvendar as mortes
súbitas dos malfeitores.
A concepção de poder em Light fica clara desde o princípio, quando ele
constata o potencial do caderno e o poder de quem o possuir.
A evolução dos enunciados demonstra a tensão da questão do poder ou a
Justiça ou justiça própria do personagem (Figura 23).
111
A
B
C
Figura 23: Evolução dos enunciados. A) “Bokunishika dekinainda” (Somente eu posso fazer); B)
Bokuninara dekiru (Se sou eu, consigo) e C) “Death Note de yononakawo kaeteyaru” (Mudarei o
mundo com o Death Note)
Death Note volume 1, p. 45.
Outros discursos são encontrados nos volume 1 à p. 49 (Figura 24), volume 7
à p. 128 (Figura 25) e volume12 à p. 130 (Figura 26).
Figura 24: “shin sekai no kami to naru” (Serei o Deus do novo mundo)
Death Note volume 1, p. 49.
112
Figura 25: “Bokuwa shin sekai no kami to naru” (Eu me tornarei o Deus do novo mundo)
Death Note, volume 7, p. 128.
113
Figura 26: “Bokuwa shin sekai no kamida” (Eu sou o Deus do novo mundo)
Death Note volume 12 p. 130
Inclusive a homepage de Light à figura 27 já o considera um killer justiceiro,
pois o mundo passa a concebê-lo como tal após as primeiras mortes dos malfeitores.
A imagem criada no homepage é reforçada pela palavra 「救世主」, kyûseishu,
literalmente “Salvador do mundo”, podendo ser aludida ao Messias de acordo com a
concepção ocidental. Acrescente-se que a frase Kira samano fukkatsuwo
shinjiteirumono nomi kono iriguchi kara ohairikudasai - “Entrem por este portal
somente aqueles que acreditam na ressurreição do Senhor Kira” - expressa no início
da página do homepage, reforçando o discurso pelo poder.
114
Figura 27: Homepage de Light
Death Note volume 1, p. 64
A foice, inclusive, vista na capa do volume 1 (Figura 16) , sendo empunhada
por Light, já sugere a morte e, neste sentido, uma possível justiça.
Quanto aos shinigami, nenhum ser humano pode enxergá-los a não ser que
toquem no caderno, mas os mesmos atuam como se fizessem parte do mundo dos
humanos com as suas preferências como, por exemplo, o gosto por maçãs do
shinigami Ryuk.
O gosto por essa fruta é algo recorrente. Apesar de mostrar que seu interesse
recairia, num primeiro momento, na justiça/justiça, Ryuk, por possuir a característica
de odiar o tédio, tem em Light e no caderno, mais precisamente no “mundo dos
humanos”, uma nova forma de diversão (Figura 28). Com esse fato subtende-se
metaforicamente a questão do consumismo do mundo atual, já que a ociosidade
provocaria uma tensão na procura de “atividades diferentes”.
115
c
Figura 28: a maçã
Death Note, vol. 13, capa
No caso das maçãs, podemos aventar duas hipóteses de interpretação: a
simbologia do pecado pela fé cristã e a cor vermelha como uma representação do
sangue que não é derramado, pois os “condenados” morrem de causas naturais. Os
sentimentos de Ryuk pelos humanos eram baseados apenas em sua utilidade contra
o seu tédio, não nutrindo este nenhuma afeição por aqueles.
O envolvimento de organizações reais como FBI ou fictícias como SPK,
Secret Provision for Kira, sediada nos Estados Unidos, ou da polícia japonesa, não é
capaz de trazer uma “solução” às mortes, culminando no final na morte de Light.
Embora o personagem central Light sentisse inicialmente receios após as
primeiras “condenações”, o mesmo começa posteriormente a se sentir fortalecido,
pois sabe que não será descoberto. É o aspecto duo da existência humana, aqui
emblematizado no personagem Light.
Não há um questionamento se é justo ou não alguém ter o direito de fazer a
justiça pelas próprias mãos. Na sociedade à qual pertence Light, aparentemente em
uma cidade do Japão, não há menção quanto às leis da Justiça que regulam o
116
comportamento dos homens, embora haja a presença de organizações de combate
ao crime. Aqui, o verossímil provoca no ethos do leitor uma impressão do real, já
que a identificação com a situação passa, por um instante, por uma alteridade,
levando-o a mergulhar na questão. O imaginário do real e o irreal misturam-se de tal
forma com personagens em cenas impossíveis de acontecerem, entretanto o
desenvolvimento da trama chama a atenção sobre a sociedade em que se vive na
contemporaneidade, mostrada, por exemplo na figura 29, na fala do shinigami Rem:
Figura 29: “ningen to iu ikimonowa jitsuni minikui” (Os seres humanos realmente são repugnantes).
Death Note, vol. 5, pág. 69
Além disso, a organização da história em 108 capítulos teve como origem as
108 badaladas de joya no kane 「 除 夜 の 鐘 」 , ideogramas que significam
literalmente “sinos do último dia do ano”, que representam os 108 prazeres do
homem198 de acordo com a crença budista. Podemos aventar, nesse sentido, que o
Death Note traz discursivamente no seu âmago o clamor das inquietudes e
inseguranças do homem moderno, que tem os seus relacionamentos dificultados
pela necessidade de uma busca de soluções para as contingências que lhe são
pertinentes.
198
Death Note n°.13, 2008, São Paulo: JBC, p. 196.
117
Não há uma menção na obra sobre a passagem do tempo, apenas um horário
fictício ou dos momentos que antecedem as mortes e um jogo de “esconde esconde”,
pois a polícia estava no encalço de Light, que por fim acaba sucumbindo.
Segundo McCloud (1995, p. 94-104), o tempo nos manga é marcado pela
ação psicológica e não cronológica. Aparentemente, tal concepção do tempo é
influenciada pelo Budismo, pois segundo seus princípios a efemeridade não é uma
sucessão cíclica do tempo histórico, mas ligada ao sentido da vida em que tudo tem
o seu início e fim, denotando a transitoriedade espiritual. Nesse sentido, o mundo
encontra-se em constante evolução, e do mesmo modo a questão de Justiça. As
mudanças são inerentes a tal processo.
Portanto, essas mudanças, sob um questionamento da evolução histórica do
Japão, principalmente no que diz respeito à abertura após cerca de 250 anos de
isolamento, culminam na necessidade de uma reflexão a partir de uma ótica do
multiculturalismo. De acordo com o desenvolvimento dos conceitos de fundar,
fundação de Detienne, efetuados no cap. 1 e do dialogismo, igualmente expostos,
fica evidente o embate que o personagem Light trava numa sociedade de “benrisa” e
“yutakasa”, por nós já abordado.
O aspecto duo, do embate bom x mau, do ser humano e expresso na conduta
do personagem reflete a tensão de valores que o mundo globalizado impõe. Trata-se
da globalização que coloca em cheque uma mudança, fragmentada em seus
aspectos variados como o das questões de identidades culturais, etnia ou
nacionalidade.
A presença do shinigami representaria, figurativamente, o lado da tensão
bom/mau, do lugar das indefinições do homem até porque, embora sendo um
personagem fictício, kami, esta é uma divindade considerada superior à condição
humana. Sintaticamente, o sentido vem modificado pelo ideograma shini, forma
substantiva do verbo shinu, morrer, enquanto o caderno representa a sociedade de
consumo, pois é o “material” concreto, diga-se de passagem, que pode ser
empregado para satisfazer os desejos do personagem.
Nesse sentido então, tem-se o aspecto do multiculturalismo evidenciado como
defesa das minorias. Por meio de um percurso figurativo 199 , a obra remete ao
199
Encadeamento de figuras que manifesta um dado tema. Cf. FIORIM, José Luiz. Linguagem e
ideologia. São Paulo: Ática, 2000, p.82.
118
tema 200 dessas minorias que são decorrentes dos embates que o mundo atual,
inevitavelmente, gera e nos quais a identidade é posta em questionamento.
Um tratado de inclusão, dessa forma, deverá ocorrer aeternum, adequandose às mudanças das estruturações social e cultural de um mundo globalizado e que
expõem as diversidades e seus conflitos.
Destarte, o binômio Justiça/justiça - justiceiro em Death Note enfatiza as
contingências e culmina na manifestação do multiculturalismo em justiça/justiceiro
do seres humanos, corroborando o sucesso dos manga como elementos de um tipo
de cultura de massa, os manga, podendo ser relacionado na triade ethos, logos e
pathos
3.3.2 Vagabond
Nesta obra, embora a mesma continue a ser publicada, examinamos os vinte
primeiros volumes por considerarmos suficientes para a nossa proposta de trabalho
e entendermos que tornar-se “exímio espadachim” ou “ascensão espiritual”, os
objetivos do personagem central Musashi, são metas sem um fim. E isso é
demonstrado em lutas contínuas nos demais volumes. Os corpora foram
selecionados dos volumes 1, que já define o foco das análises, 2, 3, 4, 11 e 13, pois
apresentam em imagem e texto os aspectos relevantes para a nossa reflexão sobre
Justiça/justiça – justiceiro. Assim como em Death Note, nos demais volumes é
apresentada a ocorrência das mortes, sendo que em Vagabond, conforme as figuras
inseridas neste trabalho, as lutas e mortes são descritas com extrema violência.
Neste manga, percebemos que as primeiras páginas do volume 1
apresentam-se coloridas. A trama é iniciada com Matahachi, amigo de infância de
Musashi, recobrando os sentidos após a Batalha de Sekigahara201.
O colorido das páginas iniciais (Figura 30) tem o objetivo, segundo Scott202,
de atender às demandas comerciais e tecnológicas. De fato, trata-se de uma forma
de cultura de massa, em que os recursos são empregados também com vistas a
“convencer” o leitor do teor da obra que permeia entre o real e a ficção,
200
Elemento discursivo que não corresponde a nenhum elemento do mundo natural, mas antes a
categoria que o ordena. Por exemplo: honra, solidariedade, vulgaridade etc. Cf. FIORIM, Jose Luiz.
Linguagem e ideologia. São Paulo: Ática, 2000, p.83.
201
Batalha de Sekigahara é a batalha que dá início ao Período Edo. Vide página 98.
202
MACLOUD, Scott. Desvendando os quadrinhos. Tradução Hélcio de Carvalho e Marisa do
Nascimento Paro. São Paulo: Makron Books, 1995.
119
caracterizando um “agir na comunicação” 203, que instaura uma relação intrínseca
entre ethos e pathos ou aquilo que as diferentes “vozes” captadas nas imagens
tendem a mostrar nas apreensões dos seus sentidos
Caso sigamos as ponderações de Tezuka, pelo fato de ser o primeiro volume,
possivelmente tratou-se de um recurso empregado para prender a atenção do leitor,
fato esse que caracterizaria também um “agir na comunicação”.
Figura 30: Páginas iniciais de Vagabond.
Volume 1, p. 5 - 8.
À guisa de exemplificação, a onomatopeia ドドドド ”do do do do” grafada de
caracteres maiores para menores, no quadro à direita, denota a aproximação da
cavalaria, provocando no leitor a impressão do barulho do tropel dos cavalos.
Os coloridos das páginas iniciais são encontrados em todos os volumes
observados (1 - 20), entretanto, verificamos que em alguns deles há, no interior, a
inserção de páginas também coloridas e que correspondem aos volumes 3, 5, 6, 8,
11, 12, 13, 16, 17, 19, e 20, que asseguram um efeito moderno - um dos aspectos
multiculturais presentes no manga -, embora a história da obra gire em torno da Era
Edo (1603 – 1867).
Reiterando Tezuka (2010, p.173), o manga deve atrair logo nas primeiras
páginas o interesse do leitor, com estratégias como a apresentação de cenas
violentas ou, no caso, páginas coloridas nos volumes acima mencionados ou, como
o de atender objetivos comerciais conforme aponta MacCloud.
Em Vagabond, chama-nos a atenção o fato da ausência da numeração das
páginas em todos os volumes destacando a ocorrência do hiato, a sequenciação das
203
Termo empregado do “comunicar é agir”, emprestado da obra Linguagem e ideologia, de Jose Luiz
Fiorim. São Paulo: Ática, 2000.
120
cenas, de modo que o imaginário do leitor seja ativado de forma conjuntiva. Esse
fator propicia uma sequencialidade cinematográfica, evitando assim provocar
qualquer interpretação disjuntiva das cenas e possibilitando ao leitor uma interação
maior, conduzindo-o a mergulhar no imaginário da narrativa da obra, principalmente
em relação às cenas de lutas muito violentas, pois estas atuariam como uma catarse.
As dezenas de combates de Musashi lembram um herói em defesa dos
oprimidos e comparáveis aos heróis de desenhos ocidentais, pois o personagem
nunca sucumbe aos inimigos. Todas as lutas são retratadas detalhadamente, passo
a passo, desde os momentos em que os “inimigos” se encontram frente a frente,
concentrando-se para iniciar o combate. Todas possuem cenas de extrema violência
resultantes dos cortes profundos provocados pelas espadas, fazendo jorrar sangue
e tornando o imaginário um aspecto real, para tanto lançando mão inclusive do
recurso das onomatopeias.
Nas cenas abaixo quando o golpe é desferido, sua representação é feita pela
onomatopeia ドカ DOKA! (na escrita katakana) cujos caracteres são grafados em
destaque. Os mesmos mostram a violência como o corte é efetuado e este pode ser
traduzido como DAA!! ou algo semelhante de forma que a grafia expresse
o
momento do golpe. E quando Musashi percebe que a madeira que servia de espada
se quebra, finca a mesma no pescoço do adversário expresso com a onomatopeia
ズグ ZUGU!, que acentua a cena do golpe. É um recurso que Tezuka chama de
“ryûsen”, uma “linha tangente” que vai conduzir ao contexto da cena provocando
uma apreensão do “real” da luta (Figura 31).
121
Figura 31: Recurso da onomatopeia grafado amplamente que demonstra o momento que o golpe é
desferido.
Vagabond volume 1, p. 28.
A onomatopeia também pode ser visto no volume 3 no momento de
desembainhar a espada. O ponto de exclamação sugere a surpresa do adversário
seguido do ataque mostrando no visual a representação de elementos sonoros.
(Figura 32).
Figura 32: O momento em que a espada é empunhada e desferida.
Vagabond volume 3, p. 62-63.
122
A maioria das cenas em todos os volumes, principalmente as iniciais do 1,
são descritas de forma a provocar um entendimento da negação da condição
humana, exemplificada desde a diarréia provocada por não ter tido uma alimentação
devida e até as cenas de vômitos, entre outras, provocando inclusive uma
interpretação da pobreza em todos os sentidos. Tudo é sombrio, negro e, como
anteriormente salientado, observa-se que o personagem central Vagabond está à
procura de realização tanto como espadachim quanto como ser humano de alma
elevada.
Um elemento que sugere negatividade é o desenvolvimento em cor negra e,
por vezes, há do mesmo modo a presença de corvos 204 (Figuras 33 e 34) os quais
pela simbologia japonesa estariam relacionados à gratidão filial. Em Vagabond as
aves são descritas sempre em situações de mortos, de batalhas, destacando
situação de negatividade, refletindo deste modo a versão mais moderna que enfatiza
a questão multicultural.
O contexto é ressaltado pelas falas kittekitte kirimakutte kirijini surundarô
“cortar, cortar ... e provavelmente será a morte ...” além da onomatopeia GYA GYA
do corvo que sintetiza todo um estado de negação à condição humana.
204
O simbolismo do corvo como figura de mau agouro e de temor da desgraça aparentemente está
preso a uma ótica mais recente. É a ave negra dos românticos, planando por sobre os campos de
batalha a fim de se cevar na carne dos cadáveres. No entanto, no Japão seria o símbolo da gratidão
filial. Na China, o fato de o corvo alimentar o seu pai e a sua mãe é considerado como signo de um
prodigioso restabelecimento da ordem social. Cf. Dicionário de símbolos. CHEVALIER, Jean et. al.
Trad.Vera da Costa e Silva et al. 18a.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003.
123
Figura 33: os corvos e em destaque a cor negra.
Vagabond, volume 2 p. 69.
Figura 34: o corvo atacando o homem agonizando e arrancando os seus olhos.
Vagabond Volume 13 p. 200.
Inclusive, a onomatopeia normalmente adotada em corvos pela versão
japonesa seria ka, ka, no entanto, a cena é demonstrada sonorizada em gya, gya
que ressalta a situação de lutas violentas com a troca dos fonemas /k/, surdo, por /g/,
sonoro. Trata-se de “representar o som pelo visual” (MacCloud, op.cit., p. 134) e que
“possa evocar uma resposta emocional ou sensual” (p. 121). Para marcar o
momento da agonia do homem, tem-se a onomatopeia ZUN! quando o corvo dá uma
sua primeira bicada e o ZURU! arracando os olhos, pormenorizados pelas figuras.
O nome Vagabond, um errante, demonstra claramente o estado em que se
encontra o personagem. Tudo reflete a sua insatisfação, revolta, penúria. As páginas
em preto e branco, destacadamente em preto, expressam claramente o estado da
124
alma dos personagens. Curiosamente após a estabilização desejada 205, embora as
cenas de lutas continuem sendo motivadas ora por conflitos pessoais, ora devido
aos desafios diante de supostos inimigos, a necessidade de vencer, suas estratégias
de defesa, libertação dos oprimidos e a própria fisionomia do personagem passam a
mudar. Caracteriza-se a mudança de tempo, mas não há a explicitação da
passagem do tempo cronológico, apenas poucas menções como “1 ano se passou”
ou “...17 anos”, mas sem uma sequenciação. Todavia, como desenvolvido
anteriormente, o tempo expresso em Vagabond origina-se da concepção budista
que enfatiza o sentido da vida e denota transitoriedade espiritual.
O personagem Vagabond, Takezo, passa a adotar o nome de Miyamoto
Musashi, incorporando do mesmo modo o sobrenome da mãe, Miyamoto. Já o
segundo nome, Musashi, possui duplo sentido: um, como verbo, tem a acepção de
“aquele que serve ao superior” ou “estar ao lado de um superior”, mas é ao mesmo
tempo, o ideograma correspondente à designação de samurai.
Na época Edo, os samurai recebiam um tipo de pensão de seus chefes
diretos ou daimyô ou shôgun aos quais haviam jurado fidelidade incondicional até a
morte. No entanto, com relação ao personagem, na obra nada é especificado nesse
sentido. Ao contrário, o personagem é independente, daí o nome Vagabond, um
andarilho à procura de um ideal de vida.
A busca por uma elevação espiritual dá-se, aparentemente, pela influência da
crença budista que vê a vida como um lugar de sofrimento e, consequentemente, a
necessidade de salvação.
Durante toda a obra não há menção, por exemplo, sobre a distinção das 4
camadas sociais, shi, no, kô, shô, da estratificação social da época sob o domínio
dos Tokugawa. Não há, por exemplo, a referência aos shôgun da época.
De modo conclusivo, percebe-se pelas cenas descritas em todos os volumes,
que a história transcorre em vilarejos e se centra apenas nas lutas de Vagabond.
Não he uma referência concreta ao sistema organizacional da Era Edo. Observa-se
uma possível alusão da crença budista com a presença dos monges, ora
aconselhando no desejo de ascensão espiritual ora até ensinando as “técnicas” de
combate.
205
A obra continua ainda em circulação. Optamos por terminar a análise no volume 20, quando a
busca que o personagem tanto almeja começa a se concretizar, no entanto, embora haja uma certa
estabilidade, não se concretiza em nenhum momento. A busca reflete a transitoriedade espiritual.
125
Os objetivos do desejo de ascensão de Vagabond, a princípio, como
espadachim ou buscando a ascese de sua alma não ficam claros, pois só é possível
visualizá-los a partir do seu encontro com um monge que, além da prática ascética,
ensina o aperfeiçoamento das técnicas de combate. Conforme explicitadas acima,
tais técnicas seriam uma influência da crença budista.
O tão desejado desenvolvimento harmonioso das forças físicas e do espírito
representa um arquétipo do padrão ideal que o samurai deveria reunir, segundo
Nitobe206.
Musashi é autor da obra “Gorin no sho”207, Tratados dos cinco círculos, escrito
por volta de 1643, descrevendo, conforme citado a página 96, os 5 elementos que
compõem o espaço, a saber, a Terra, Água, Fogo, Vento e Céu.
Com relação a Terra, objetivou traçar os mandamentos da arte militar,
mostrando que é difícil alcançar a plenitude somente pelo armamento. No item Água,
discorre sobre a limpidez da imagem do espírito humano. Em Fogo, expõe a questão
dos combates, explicitando que a vitória ou a derrota devem acontecer de modo
rápido e violento. No tópico Vento, faz referência ao estilo antigo e ao atual para
adaptá-los às diferenças nas questões de combate. Por último, em Céu desenvolve
a experiência pessoal do autor. De fato, as ideias reunidas nesse livro refletem no
modo de agir do personagem Vagabond.
É digno de menção o fato de que o original do livro nunca foi encontrado 208.
Atribui-se a Miyamoto a autoria a partir das cópias existentes. As interpretações
acerca da obra focam questões estratégicas para as conquistas, com o
aperfeiçoamento das técnicas de combate, ao mesmo tempo visando também a
elevação espiritual, objetivando a integração perfeita entre corpo e alma.
Vagabond, o seu protagonista, apesar de exímio espadachim, insatisfeito,
percorre vilarejos e trava lutas sangrentas, tencionando encontrar-se consigo próprio.
Ao mesmo tempo em que enfrentava os seus inimigos, precisava de uma paz
interna e almejava a elevação espiritual.
206
NITOBE, Inazo. Bushido – Alma de Samurai. Trad. Emilio Carlos de Albuquerque. São Paulo:
Tahyu, 2005.
207
MIYAMOTO, Musashi. Gorin no sho – a estratégia de vencer sempre. Tradução: José Yamashiro.
São Paulo: Cultura Editores Associados, 1996.
208
Cf. http://www.geocities.jp/themusasi2g/gorin/g00.html, acesso: 07/09/2013.
126
Somente nos 3 primeiros capítulos há cerca de 12 cenas de lutas violentas,
cujo foco aparente eram as manifestações pelo poder209.
Em Vagabond, a procura que é protagonizada tem um enfoque filosófico no
aspecto duo, a tensão do positivo e do negativo, do bem e do mal, do homem que
ao “redescobrir” o mundo em que vive expõe as contradições do “real”. O sentido
sugere, inclusive, uma crítica ao sistema político da Era Tokugawa, já que Musashi
teria vivido nessa época. Naquele tempo, o poderio atuante pertencia aos shôgun e
Musashi, no entanto, não se enquadrava ao que era comum aos espadachins.
Curiosamente, apesar de o nome Musashi possuir um sentido de “servir a um
senhor’’, não há ninguém na história a quem ele se vincule.
O personagem, ao almejar a realização espiritual, representa a necessidade
de ser compreendido nas suas visões de mundo, coincidentemente conforme o mito
platônico das cavernas anteriormente explicitado.
A obra Vagabond continua a ser editada até os dias de hoje. Embora não
saibamos o motivo exato, ao entendermos o que Musashi almeja, ou seja, uma
“realização espiritual”, seria difícil sua procura apresentar um término e, sobretudo,
encerrar-se com um final feliz.
Conforme exposto nas análises de Death Note, pelo fato de o mundo
encontrar-se em constante evolução, mudança/movimento a plenitude objetivada
também requer uma adaptação e deve acompanhar as mudanças prementes.
A cultura de massa dos manga apresenta recursos que se coadunam com os
elementos multiculturais e, de uma certa forma, os aspectos imagéticos tendem a
“reforçar” o discurso.
No manga Vagabond encontramos as seguintes características multiculturais:
(Figura 34).

O título em japonês bagabondo, adaptação fonética de Vagabond, é
transcrito em katakana, escrita criada para grafar, entre outras finalidades, palavras
estrangeiras. Musashi foi um andarilho e a designação do termo em japonês como
tal, mais apropriada, é rônin.

Seu olhar não corresponde aos traços fisionômicos normalmente
encontrados dentro da população japonesa, embora saibamos que não devemos
209
Apesar de ter vivido no Período Tokugawa ou Era Edo, não existem referências se Miyamoto
Musashi teria atuado nessa época. O primeiro capítulo inicia-se com um encontro com o colega de
infância Matahachi acordando, após aparentemente ter combatido na batalha de Sekigahara, que
culminou no início da Era.
127
criar estereótipos classificatórios para um povo ou raça. Além disso, nos capítulos
seguintes, quando ele começa a atingir a desejada plenitude, sofre uma
transformação física maior com feições que mais lembram um ator americano ou
europeu.

Vagabond by Inoue Takehiko 井上雄彦 a disposição do nome do autor
em caracteres latinos e em língua inglesa, junto aos ideogramas (Figura 35).
Figura 35: Vagabond, capa do Volume 1.
A transformação fisionômica de Vagabond é perceptível, na medida em que o
personagem começa a atingir a plenitude como espadachim e elevar-se
espiritualmente. (Figura 36).
Figura 36: Fisionomia distinguida do Vagabond. No próprio volume 1, já se tem fisionomia
distinguida, por exemplo, da capa, que traz uma fisionomia mais oriental
128
Do mesmo modo não há uma menção na obra sobre a passagem do tempo.
Embora haja a grande transformação visual em Musashi, não se observa o
envelhecimento do personagem, ao contrário, este está sempre revigorado.
Conforme desenvolvido à página 115 e 122, segundo McCloud (op.cit., p.96104), o tempo nos manga é marcado pela ação psicológica e não cronológica, como
se vê inclusive em Death Note. Aparentemente tal concepção do tempo é reforçada
pelo Budismo, dada a época Edo. Apesar de o período ter sido marcado pelas
influências cristãs e estas acabarem sendo proibidas, a população foi submetida ao
retorno da fé budista. Nesse sentido, no caso de Musashi, o sentimento de ascensão
é contínuo.
Percebe-se o embate metafórico morte x vida do personagem Musashi, pois a
morte estaria ligada à não concretização dos seus ideais, enquanto que a vida seria
associada a sua ascensão espiritual.
A obra, embora tendo como localização temporal sugerida no Período Edo,
pelo fato de começar no final da Batalha de Sekigahara é contemporânea.
Baseando-nos no discurso da arte seqüencial, imagético e pela metáfora
apresentada, podemos aventar o sentido de uma busca por uma identidade num
mundo globalizado de hoje.
A vida para Musashi centra-se em sua ascensão espiritual e a plenitude é
entendida como algo infinito, cuja tensão se configura também, conforme visto em
Death Note, na procura de um equilíbrio dentro de uma sociedade fragmentada.
Lembramos que a presença do arquiinimigo Kojirou Sasaki na obra Vagabond
veicula uma forma de representação da procura que Musashi empreende. Se as
disputas para Kojirou são simplesmente questões de poder, para Musashi é notório
o objetivo de se testar a sua habilidade como espadachim e este trata de desafiá-lo
a uma luta sangrenta que culmina na derrota de Kojirou.
A necessidade que Musashi sente em atingir o auge da espiritualidade é
representada pelos combates que trava, a princípio, contra os inimigos ou
malfeitores. A espada representa o seu ethos que expressa tanto o aspecto
construtor (o lado da justiça) quanto destruidor associado à morte. Embora Musashi
seja retratado como aquele elemento implacável, destemido e que sai em combates
para alcançar o seu objetivo de engrandecimento espiritual e como espadachim,
polifonicamente sua atitude simboliza o poder almejado. Para isso não se intimida
diante de nada, travando inúmeros combates sangrentos, sempre saindo-se
129
vencedor, quase podendo ser comparado a um super-homem das histórias
ocidentais.
Em uma leitura mais trivial, uma obra de ficção, como tal, pressuporia
certamente um “final feliz”, pois o herói venceria o mal. No entanto, Vagabond
continua sendo editado, já se encontrando em sua 35ª edição210.
Nem a plenitude como espadachim é alcançada, embora o personagem
adquira uma certa mestria, pois a habilidade é aperfeiçoada, nem tampouco o lado
espiritual, mostrando que o ser humano se encontra em uma eterna busca pela sua
própria existência.
As falas
“Orega tenka musôda” (“Sou o poder único!) 「俺が天下無双だ」, presente no
volume 4, p. 113,
“Ken towa, tenka musô towa, inochiwo toruka torareruka darô (A espada, o
poder único, significa matar ou morrer) 「剣とは天下無双とは、命を取るか取られる
か」no volume 11, p. 55,
“Tenka musôtowa, tadano kotobaja...” (O poder único não é um termo
comum...)
「 天 下 無 双 は 、 た だ の こ と ば じ ゃ 。 。 。 」 também encontrada no
Volume 11, p. 104 e
“Mugen“ (o infinito)
「無限」 do mesmo modo presente no volume 11 na
página 105, indicariam a princípio os anseios pelo poder. Entretanto, o que se
ressalta é um “poder filosófico”. Contudo, as dezenas de combates descritos de
forma pormenorizada, aos quais o próprio protagonista Musashi se dedica como se
fosse um tipo de auto-mutilação, representariam uma metáfora dos embates do ser
humano.
A espada representa uma dádiva divina por meio da qual o personagem tenta
combater as “lutas” da vivência humana. Indicariam, a princípio, os anseios pelo
poder.
As onomatopeias que por sua vez acompanham geralmente as cenas das
lutas são congruentes, numa demonstração da intensidade e tamanho das
210
http://en.wikipedia.org/wiki/Vagabond_%28manga%29), acesso em: 15/10/2013.
130
contingências e a necessidade de transpô-las. Trata-se, desse modo, de um manga
que poderia ser chamado de Bildungsroman211
Assim, os binômios Justiça/justiça – justiceiro na obra de Vagabond podem
ser entendidos como os desafios que o mundo moderno nos impõe e, destarte,
ratificamos que as questões multiculturais presentes nos manga e que traduzem o
fato da necessidade de uma reflexão sob o enfoque de uma visão multiculturalista
discutiriam, no nosso modo de entender, a “identidade cultural na pós-modernidade”
212
.
Em síntese, trata-se de um discurso que enfatiza as mudanças e os valores
que começam a ser perder em função do novo mundo marcado pelas fragmentações.
O desejo de ascensão e os discursos destacados representam, além disso,
nada mais que um questionamento das conseqüências das mudanças do mundo
globalizado e o desejo de um mundo melhor, o que podemos aventar devido
principalmente ao enfoque na concepção budista inserida na narrativa.
Os recursos imagéticos adotados nos manga são congruentes. São
produções da relação com o mundo, cujas verossimilhanças das enunciações
culminam no pathos do leitor. Visualizamos em ambas as obras analisadas,
destacadamente em Vagabond, o aspecto da necessidade de uma reflexão sobre o
sentido de multiculturalismo.
Em Death Note, as cenas apresentam-se mais simples sem derramamento de
sangue, as mortes ocorrem de forma natural e não em combates como em
Vagabond. Inclusive os fukidashi, as falas dos personagens envoltos num balão, se
em Vagabond são curtos, grafados em caracteres maiores, sobretudo as
onomatopéias dos combate e com um número reduzido de falas, em Death Note
tem-se justamente o contrário: com as falas mais longas, as onomatopéias menos
impactantes traduzem todo o teor das narrativas.
Deste modo, percebemos que a sequencialidade da linguagem dos manga
adota uma sintaxe motivada e sua evolução encontra-se articulada aos recursos
lingüísticos e imagéticos que, voltamos a reiterar, podem ser expressos a partir do
esquema da tríade da retórica (Figura 37):
211
“Romance de formação”. Tipo de ficção que manifesta a necessidade de expressar os embates do
mundo concreto e a necessidade de os superar. Cf. http://www.scielo.br/scielo.php?pid=50100512X20050002, acesso em 27/12/2013.
212
Termo empregado por Stuart Hall, op. cit., 2006, para o título da sua obra.
131
Figura 37: sequencialidade da linguagem dos manga
Para uma síntese mais precisa elaboramos o seguinte quadro comparativo
dos resultados até então alcançados em nossa análise:
3.4 Comparando as duas obras: quadro sinótico.
QUADRO COMPARATIVO E ANÁLISE GERAL DAS DUAS OBRAS
Características
DEATH NOTE
Contemporâneo
2003 - 2010
Período abordado
Personagens
centrais
Volumes
Examinados
Características dos
volumes
Sugerem o Período Edo
1608 - 1867
A obra começa no final da
A história é desenvolvida no
Batalha de Sekigahara quando
período de 2003 - 2010
o Período Edo começa.
Yagami Light,
Vagabond,
apelido Kira (de Killer)
Miyamoto Musashi
13
Paginação toda em preto e
branco e numerada em
algumas.
Passagem do tempo Imaginário contemporâneo
Descrição dos
personagens
VAGABOND
Pacato e considerado um
“bom filho”
20
Paginação inicial e no interior
coloridas e sem
numeração.
Inespecífica, mas o imaginário
relacionado ao Período Edo
Valente e Revoltado
132
QUADRO COMPARATIVO E ANÁLISE GERAL DAS DUAS OBRAS
Características
Justiça/justiceiro
Elementos
representativos da
justiça nas obras
Transformação
DEATH NOTE
VAGABOND
Ausente
Filosófico
A Justiça/Justiceiro é o
próprio personagem.
Tentativa de expurgar os
malfeitores com a sua
própria “justiça”.
Poder e procura da
própria existência.
justiça/justiceiro.
Ascensão espiritual e
como espadachim.
Poder e a procura da
própria existência no
mundo controverso.
justiça/justiceiro
Foice – como símbolo da
morte, igualando todas as
coisas vivas.
O imaginário sobre os
shinigami que “usa” os
humanos, sugere
personagens do mundo
real, como as tentações
do consumismo.
Espada – como símbolo do
estado militar e da sua
virtude, a bravura, bem
como de sua função, o
poderio (tanto nos seus
sentidos de “destruidor” e
“construtor”)
Como construtor, no caso é
a ascensão pessoal diante
das intempéries da vida.
Sucumbe, complicando-se
com os inúmeros
assassinatos que comete.
Revigora-se, as feições
adquirem traços mais
ocidentais.
Variados
Variados
Emprego da língua inglesa,
fisionomias dos personagens
Presença de
lembram um estrangeiro
elementos
ocidental ou elementos que
multiculturais
remetem à uma fé cristã,
como a maçã.
Por retratar um período mais
moderno, há a inclusão de
elementos multiculturais, que
são apreendidos naturalmente
Respeito à diversidade
O multiculturalismo provocada pelas mudanças e
a inclusão das minorias
Destaque no olhar do
personagem central da trama,
que foge às feições
normalmente encontradas nos
orientais, inserção de
expressões em inglês (vol.
26) “It finds the way”.
Democracia com respeito às
diferenças, a reflexão para
construção sócio-politico.
133
QUADRO COMPARATIVO E ANÁLISE GERAL DAS DUAS OBRAS
Características
DEATH NOTE
Contingências humanas
Contingências humanas
e cosmogonia
Defesa do oprimido numa
primeira instância. Posterior
apego ao poder.
Necessidade de autoafirmação.
Funcionalidade dos
elementos
multiculturais
Conseqüências de uma
presentes nos
sociedade de “yutakasa” e
manga:
“benrisa”
caracterização de
sociedades distintas,
mas de “mundos”
semelhantes
Cultura de massa
Aspecto religioso
“Fukidashi”: balões
das falas dos
personagens
Recurso às
onomatopeias
VAGABOND
Embora a trama transcorra na
Era Edo, é uma obra que
expressa o embate de uma
sociedade contemporânea e a
necessidade de valorização
espiritual: a diversidade do
mundo atual, a
competitividade e a
necessidade de estar
“incluído”.
Virtude moral
Catarse
Catarse
De algum modo “responde”
e “corresponde” às
instabilidades do ser.
Pathos
De algum modo “responde” e
“corresponde às
instabilidades do ser.
Pathos
Caráter laico, não há
menção a alguma religião e
nem sugere uma crença em
específico.
No caso são os shinigami
representativos de alguma
crença.
Sugerido o caráter budista
Menores e discretos
Amplos: expressam as cenas
de violência e o perfil dos
personagens, conforme o teor
da obra.
Discretas
Chamativas/apelativas
134
QUADRO COMPARATIVO E ANÁLISE GERAL DAS DUAS OBRAS
Características
Aspectos em
comum das duas
obras
213
DEATH NOTE
VAGABOND
 Embora em Death Note haja uma certa menção sobre o
tempo decorrido, este é o do imaginário na obra. Em
Vagabond, embora não haja nenhuma referência específica,
os tempos cronológicos sugerem o imaginário da Era Edo.
 Presença de um elemento “regulador”: em Death Note é o
Shinigami , em Vagabond é o monge que detem as forças de
um “ensinamento” seguido do domínio das técnicas de
combates.
 Os personagens centrais convergem a procura da própria
existência/identidade.
 Discursos lingüísticos e imagéticos: dialógicos.
 Elementos discursivos: polifônicos.
 A Justiça e leis: não pertencem à Justiça de um
Órgão regulador do Estado.
 Emprego de onomatopeias, recurso que se destaca em
Vagabond.
 Presença de mulheres bonitas e sensuais.
 O imaginário retratado adquire características “reais”,
demonstrando uma formação ideológica.
 Ryûsen 213 : a dinâmica nos traços que expressam os
sentidos que se desejam imprementar.
 Haikei e os kôzu214: fundos das cenas e a composição em
convergência com o contexto narrado.
TEZUKA, Osamu. Manga no kakikata. (Como desenhar manga).Tôkyô: Kôbunsha, 2010, p. 88.
TEZUKA, Osamu. Manga no kakikata (Como desenhar manga). Tôkyô: Kôbunsha, 2010, p. 111113.
214
135
IV – CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao iniciarmos as considerações finais deste trabalho realizado sob “olharesplurais”, destacamos, primeiramente, o papel dos manga, uma expressão de cultura
de massa, e os tomamos como objetos de uma reflexão relativa às questões que o
mundo moderno nos impõe. Os discursos dos manga refletem muito além de uma
leitura de entretenimento.
Como desenvolvido ao longo do trabalho, ao nos determos por um instante e
lançarmos o olhar ao nosso redor, percebemos que mudanças oriundas da chamada
globalização ou da própria evolução dos tempos tem atuado sobre os homens que
sentem a necessidade de estarem sempre “inseridos”. Os vieses para tal inserção
são de um modo geral determinados pelos aspectos econômico e tecnológico, os
quais, de alguma forma, criam exclusões. A proliferação das redes sociais, por
exemplo, cujo objetivo seria inicialmente o de aproximar as pessoas, tornou-se ao
mesmo tempo um meio também de distanciamentos.
Foi através dos “olhares-plurais” que pudemos observar que os manga
analisados retratam o conflito da sociedade atual, que se reflete principalmente em
grupos minoritários, conforme a nossa apreensão de Detiene de “fundar” e
“fundação”.
De acordo com o exposto no capítulo I, as questões de Justiça/justiçajusticeiro tornam-se a tônica nos embates cotidianos do homem moderno, já que a
exposição às diferenças/diversidades acaba por influir no pensamento e no
comportamento, fazendo surgir uma justiça/justiceiro do ethos-homem.
Embora tenhamos demonstrado a evolução da Justiça legal ao longo da
história do Japão, as recorrências encontradas nas obras analisadas baseiam-se
nas perspectivas de uma justiça/justiceiro entendida a partir de um enfoque filosófico.
Embora contemporâneas, mas oriundas de tempo das narrativas distantes, as
narrativas demonstraram as verossimilhanças no tocante às contingências humanas,
cujas manifestações nas obras se expressam de formas distintas. O comportamento
de Musashi perseguindo, dada a sua voracidade, e não simplesmente almejando
tamanha é a sua necessidade de combates pela ascensão espiritual, reflete uma
busca de uma sociedade mais igualitária que pode ser exemplificada através da
136
exposição que Yamashita215 efetua: estar focalizando o período do golpe que ficou
conhecido como ni-niroku-jiken 216 até a 2ª.Guerra Mundial, quando os japoneses
viveram sob a tensão de vida-morte. Além disso, o sucesso de Vagabond, na forma
em que a narrativa é desenvolvida, com predominância da cor negra e expressando
uma modalidade alocutiva que implica na transmissão de uma mensagem ao
interlocutor, no caso os leitores, pode apresentar também uma alusão a uma outra
“guerra”: a escassez de alimentos e a inflação enfrentada pelos japoneses do pós2ªGuerra.
O fato é que a procura de Vagabond reflete uma faceta do multiculturalismo e
Death Note expressa uma justiça que é própria, numa simbologia ao poder que se
concentra num mundo capitalista.
Foi possível debruçarmo-nos no presente estudo sob “olhares-plurais” da
História Comparada, lançando mão de uma metodologia que abarcasse os sentidos
produzidos em Vagabond e Death Note através dos seus imaginários, estendendose a questão ao multiculturalismo diante das interrogações surgidas da inserção de
elementos multiculturais nos manga e à análise do discurso na investigação dos
recursos lingüísticos, cujos comportamentos enunciativos expressam uma variável
dos “possíveis interpretativos” entre o encontro de processos de produção e de
interpretação217.
Embora
tais
modalidades
não
estejam
totalmente
lexicalizadas
e
exemplificadas na fonte original da teoria, pois é ocidental, foi possível demonstrar
através das formas dos discursos citados nas análises que a apreensão de “efeitos
de sentidos” produzidos sob a base do dialogismo e das polifonias foi convergente.
Destarte, no caso de Death Note e seu personagem central Light, o embate
efetua-se com relação às mudanças trazidas por uma sociedade capitalista, a partir
da qual ele tenta conquistar o mundo ou, porque não dizer, transformar o mundo
com a sua própria concepção de justiça.
215
YAMASHITA, Hôrô suru Musashi – Miyamoto Takezô kara Bagabondo, Musashi Takezô e (O
vaguar de Musashi – de Miyamoto Takezô ao Vagabond, Musashi Takezô). In:
https://www.researchgate.net.../publication/33426893, acesso em 01/11/2013.
216
Golpe de Estado abortado em 26 de fevereiro de 1936, feito pelo ultranacionalistas ... visando a
derrubar o governo e a assassinar vários parlamentares. .. 17 foram condenados à morte e
executados e 65 foram condenados à prisão. Cf. Fréderic, op. cit., p.878.
217
Cf.CHARAUDEAU, Patrick, Linguagem e discurso: modos de organização. Trad. Ângela
M.S.Corrêa & Ida Lúcia Machado. São Paulo: Contexto, 2008. p. 63.
137
Os discursos produzidos tanto em uma obra quanto na outra tendem a
focalizar um mundo em que grupos em desvantagem sejam incluídos e aceitos sem
abrir mão de suas diferenças e em defesa de grupos minoritários.
Esses são os manga: narrativas quadrinhísticas que através de um emprego
peculiar de linguagem e de recursos imagéticos contem mensagens ideo-politicas
que implicam, em nossos corpora, na existência de uma justiça/justiceiro. Dessa
forma, as verossimilhanças são trabalhadas criativa e paralelamente aos códigos
existentes, caracterizando um gênero literário com articulação de saberes
interdisciplinares ou multidisciplinares e que somente por meio de “olhares-plurais”
ligados a outros “olhares-plurais” poderão ser refletidos.
Encerramos aqui o nosso presente trabalho, mas acreditamos que este não
esteja totalmente findo, pois outras indagações certamente surgirão para uma
reflexão construtiva e nos lançarão a outros desafios, sobretudo na tentativa de
responder a alguns elementos considerados “diferentes”.
“ ... quão importante se faz tomar o óbvio como objeto de nossa reflexão
criítica e, adentrando-se nele, descobrir que ele não é, as vezes, tão óbvio
quanto parece”
(Paulo Freire)
138
REFERÊNCIAS:
Fontes primárias
OBA, Tsugumi. Death Note. Tokyo: Jump
Examinados do 1 ao 13.
Extração dos corpora: volumes 1, 2, 3, 5, 7, 12, 13.
Comics.
(original),
2003.
INOUE TAKEHIKO. Vagabond . Tokyo: Kôdansha, 1999.
Examinados volumes de 1 ao 20. O volume 30 foi empregado exclusivamente para
demonstração da mudança fisionômica de Musashi.
Extração dos corpora: volumes 1, 2, 3, 11, 13.
Bibliografia
AMAKAWA, Akira et alii. Shimin to shakaiwo kangaerutameni (Para considerações
entre o citadino e a sociedade). Tokyo: Hôsô Daigaku Shuppan, 2011.
AOYAGI, Fumio. Nihonjin no hanzai ishiki (A concepção de crime dos japoneses).
Tokyo: Chûôkôronsha, 1993.
BACCEGA, Maria Aparecida. Palavra e discurso – história e literatura. São Paulo:
Ática, 2003.
BITO Masahide e Watanabe Akio. Um perfil cronológico da história japonesa. Tokyo:
International Society for Education Information,.s/d, p.13.
BOURDIEU, Pierre e EAGLETON, Terry. A doxa e a vida cotidiana: uma entrevista.
In: ŽIŽEK, Slavoj (org.) Uma mada da ideologia. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de
Janeiro: Contraponto, 1996.
BRAIT, Beth (org.) Bakhtin, dialogismo e construção do sentido. Campinas: Editora
da Unicamp, 1997.
BURITY, Joanildo. Globalização e identidade: desafios do multiculturalismo.
Fundação Joaquim Nabuco. Março/2001. In: http://www.fundaj.gov.br/tpd/107.html,
acesso em 11/10/2008.
BURKE, Peter & PORTER Roy (orgs.). Linguagem e sociedade: história social da
linguagem. Trad. de Álvaro Luiz Hattnher. São Paulo: Editora de Universidade
Estadual Paulista, 1993.
BURKE, Peter. Uma história social do conhecimento: de Gutenberg a Diderot. Trad.
Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
CANCLINI, Néstor García. Diferentes, desiguais e desconectados. Rio de Janeiro:
Editora da UFRJ, 2007.
139
CHARAUDEAU, Patrick. Linguagem e discurso – modos de organização. Org.
Aparecida Lino Pauliukonis e Ida Lúcia Machado. São Paulo: Contexto, 2008
CHAUÍ, Marilena. O que é ideologia. 2ª. ed. São Paulo: Brasiliense, 2001.
CHARAUDEAU, Patrick. Discurso político. Trad. Fabiana Komesu e Dílson Ferreira
da Cruz. São Paulo: Contexto, 2006.
CITTELI, Adilson. Linguagem e persuasão. 15ª. ed. São Paulo: Ática, 2000.
CAVALCANTI, Carlos Manoel de Holanda. Entre Luzes e Trevas: O Príncipe Valente
e as representações políticas e civilizacionais nos quadrinhos (1936-1946).
Dissertação de Mestrado. UFRJ- IFCS, 2007.
DETIENNE, Marcel. Comparar o incomparável. Tradução de Ivo Storniolo. Aparecida
do Norte: Idéias & Letras, 2004.
DIJK, Teun A. van. Discurso e poder. Teun A. van Dijik; Judith Hoffnagel., Karina
Falcone, (org.). São Paulo: Contexto, 2008.
DUCROT, Oswald. Pressupostos e subentendidos: A hipótese de uma semântica
lingüística. In: O dizer e o dito. Campinas: Pontes, 1987.
________ Princípios de semântica lingüística. Dire et ne pás dire. Tradução de
Carlos Vogt, Rodolfo Ilari e Rosa Attié Figueira. São Paulo: Cultrix, 1977.
FIORIM, Jose Luiz. Linguagem e ideologia. São Paulo: Ática, 2000.
FRÉDÉRIC, Louis. O Japão – dicionário e civilização. Tradução de Álvaro David
Hwing. São Paulo: Globo, 2008.
GNERRE, Maurizio. Linguagem, escrita e poder. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
GRAVET, Paul. Manga – como o Japão reinventou os quadrinhos. Tradução Ederli
Fortunato. São Paulo: Conrad, 2006.
GROFF, Paulo Vargas & PAGEL, Rogério. Multiculturalismo: Direitos das minorias
na era da globalização. Revista USCS – n. 16, p. 7-17, jan./jun. 2009.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução de Tomas Tadeu
da Silva e Guaracira Lopes Louro. 11ª.edição. Rio de Janeiro: DP&A, 2006 .
HIROSE, Masayoshi & SHOJI, Kakuko (org.) Effective Japanese usage guide.
Tóquio: Kôdansha, 1994.
HONDA, Shunwa et.alii. Gurôbarizêshon no jinruigaku (Estudos da humanidade no
interior da globalização). Tokyo: Hôsô Daigaku Shuppan, 2011.
IÑIGUEZ, Lupicinio (coord.) Manual de análise do discurso em ciências sociais.
Tradução de Vera Lúcia Joscelyne. Petrópolis: Vozes, 2004.
140
INOUE, Mitsusada et.al. Nihonshi (História do Japão). Tokyo: Yamakawa Shuppan,
1973.
ITO, Gô. TEZUKA is dead – postmodernist and modernist approaches to Japanese
manga. 2a.ed. Tokyo: NTT Shuppan, 2011.
ITO, Gô. Mangawa kawaru: manga katarikara mangaron-e (Os manga mudam: da
narrative dos manga à teoria dos manga). Tokyo: Seido, 2011.
JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 3ª. edição.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.
Jornal O Globo. Caderno Prosa de 11/8/2012, p.3-4.
KAWAI, Atsushi. Edono osabaki – odorokino hôritsu to saiban (O julgamento do
período Edo – as leis e julgamentos espantosos). Tokyo: Kadokawa Shuppan, 2010.
KIMURA, Keiichi. Gurobarizêshon no kôzai (O negativo e o positivo da globalização).
In: Antropologia da globalização. Tokyo: Hôsô Daigaku Shuppan, 2011.
KITAMURA, Masaki & KOKAZE Hidemasa. Nihon no rekishito shakai (História e
sociedade japonesa). Tokyo: Hôsô Daigaku Shuppan, 2009.
KOCKA, Jürgen. Comparison and beyond. History and theory, v.42, n.1, p.39-44, feb.
2003.
KOKUMIN-HYAKKAJITEN (Enciclopédia do povo japonês). Tokyo: Heibonsha, 1966,
volume 5.
KUME, Ikuo & KÔNO, Masaru. Gendai Nihon no Seiji (A política japonesa
contemporânea). Tokyo: Hôsô Daigaku Shuppan, 2011.
KYMLICKA, Will. Gendaiseijiriron (Filosofia da política contemporânea). Trad. Chiba
Shin et.al.. Toquio: Nihon Keizai Hyôronsha, 2008.
LANDOWSKI, E. Simulacros em construção. In: A sociedade refletida – ensaios de
sociossemiótica. São Paulo: Pontes, EDUC, 1992.
LESSER, Jeffrey. A negociação da identidade nacional – imigrantes, minorias e a
luta pela etnicidade no Brasil. Tradução Patrícia de Queiroz Carvalho Zimbres. São
Paulo: Editora da UNESP, 2001.
McCLOUD, Scott. Desvendando os quadrinhos. São Paulo: Makron Books, 1995.
MAYNARD, Senko K. Discourse modality: subjectivity, emotion and voice in the
japanese language. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins Publishing Company,
1993.
Megazine, suplemento do jornal O Globo, 21 de outubro de 2008.
141
MIYAMOTO, Musashi. Gorin no sho – a estratégia de vencer sempre. Tradução de
José Yamashiro. 5ª.edição. São Paulo: Cultura Editores Associados, 1996
MIYAMOTO, Musashi. O livro de cinco anéis – o guia clássico de estratégia
japonesa para os negócios. Tradução de Fernando Barcellos Ximenes. Rio de
Janeiro: Ediouro, 2002.
MIYAMOTO, Musashi. O livro dos cinco anéis – o verdadeiro sentido da estratégia.
Tradução de Henrique Amat Rêgo Monteiro. São Paulo: Clio Editora, 2010.
MOLINÉ, Alfons. O grande livro dos mangas. São Paulo: JBC, 2004.
MORITA, Yoshiyuki. Nihongo no shiten (Perspectiva enunciativa do japonês). 2ª.ed.
Tóquio: Sôsekisha, 1996.
MOSCA, Lineide do Lago Salvador (org). Retóricas de ontem e de hoje. São Paulo:
USP, FFLCH, Humanitas Editora, 1997.
MOTTA, Ana Raquel & SALGADO, Luciana (org.) Ethos discursivo. São Paulo:
Contexto, 2008.
Museu Histórico da Imigração Japonesa, Associação para Comemoração do
Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, Comissão da Compilação da
Histografia dos 100 anos da Imigração Japonesa no Brasil. Me de miru burajiru
nihon iminno hyakunen – História dos 100 anos da Imigração Japonesa através de
fotografias. Tóquio: Fukyosha, 2008
NEVES, Maria Helena de Moura. Gramática de usos do português. São Paulo:
Editora UNESP, 2000 p.190.
Nihon no Rekishi (História do Japão). Tokyo: Shôgakukan, 1974
NISHIYAMA, Matsunosuke. Edo Culture. University of Hawaii Press, 1997.
NITOBE, Inazo. Bushido – Alma de Samurai. Trad. Emilio Carlos de Albuquerque.
São Paulo: Tahyu, 2005.
OKADA, Akio. Tokugawa Ieyasu. Tokyo: Kaneko Shôbô, 1962.
OWADA, Tetsuo.Nihonno rekishiga wakaru hon (Livro para entender a História do
Japão). Tokyo: Mitsugawashôbô, 1991.
PÊCHEUX, Michel. Semântica e Discurso: uma crítica à afirmação do óbvio.
Tradução: Eni P. Orlandi et al. Campinas: Editora da UNICAMP, 1988.
PERUZZOLO, Adiar Caetano. Elementos de semiótica da comunicação - quando
aprender é fazer. Bauru, São Paulo: EDUSC, 2004
PIETROFORTE, Antonio Vicente. Semiótica visual – os percursos do olhar. São
Paulo: Contexto, 2007.
142
SAKAI, Motoshi et.alii. Kakusashakaito shin-jiyûshugi (Diferenças sociais e o novosistema liberal). Tokyo: Hôsô Daigaku Shuppan, 2011.
SAKAI, Motoshi. Seichô to kankyô – yutakasa to shimin (O crescimento e o meio
social – abundância e o cidadão). In: NISHIMURA, Shigeo et.al. Shimin to shakaiwo
wo kangaerutameni. (Para pensar no cidadão e a sociedade). Tokyo: Hôsô daigaku
Shuppan, 2011
SANTAELLA, Lucia & NȌTH. Imagem: cognição, semiótica, mídia. São Paulo:
Iluminuras, 2010.
SATO, Tomoyuki. Edo machibugyô–shihai no shisutemu (Organização administrativa
da cidade de Edo- sistema de domínio). Tokyo: Sanjûichi Shinsho, 1998.
SCHMIDT, Jérôme & DELPIERRE, Hervé Martins. Les mondes manga. (O mundo
do manga) Paris: EPA, 2005.
SEMPRINI, Andréa. Multiculturalismo. Tradução de Laureano Pelegrin. Bauru:
EDUSC, 1999.
SERIZAWA, Kazuya. Kyôki to hanzai – naze Nihonwa sekaichino seishinbyô kokka
ni nattanoka). (A loucura e crime – por que o Japão se tornou uma nação mundial
de psicopatas). Tokyo: Kôdansha, 2005.
SGI Revista Soka Gakkai Internacional. Abril de 2005. Tokyo: Seikyo Shimbun, p. 2
– 11.
SOARES, Magda. Linguagem e escola – uma perspectiva social. São Paulo: Ática,
1996.
TEZUKA, Osamu. Manga no kakikata (Como desenhar manga).12ª.ed. Tokyo:
Kôbunsha, 2010.
THEML, N. & BUSTAMANTE, R. M. da C. História comparada: olhares plurais.
Estudos Ibero-Americanos, XXIX (2) p.7-22, 2003.
TOKUI, Atsuko. Tabunkakyôseino komyunikêshon – nihongokyôikuno genbakara
(Coexistência de uma comunicação multicultural – sob o enfoque do ensino de
língua japonesa). Tóquio: ALC, 2002.
TOYOTA, Takeshi. Nihonshi gaisetsu (Compêndio da História do Japão). Tokyo:
Hôsei Daigaku, s/d.
VELHO, Gilberto. Individualismo e cultura: notas para uma antropologia da
sociedade contemporânea. 7ª. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
YAMASHIRO, José. A história dos samurais. São Paulo: Massao Ohno – Roswitha
Kempf/Editores, 1982.
143
YAMASHITA, Hôrô suru Musashi – Miyamoto Takezô kara Bagabondo, Musashi
Takezô e (O vaguear de Musashi – de Miyamoto Takezô ao Vagabond, Musashi
Takezô). In: https://www.researchgate.net.../publication/33426893, acesso em
01/11/2013.
Dicionários
Dicionário Eletrônico Sharp, Modelo Papyrus Dicionário de verbetes japoneses,
verbete alfa, designação item 4.
Nihonshi jiten. Dicionário da História do Japão. Tokyo: Kadokawa 1981
AZEVEDO, Antonio Carlos do Amaral & GEIGER, Paulo. Dicionário histórico das
religiões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p. 368.
CHARAUDEAU, Patrick & MAINGUENEAU Dominique. Dicionário de Análise do
Discurso. São Paulo: Contexto, 2004.
COELHO, Teixeira Dicionário crítico de política cultural: cultura e imaginário. 2ª.ed.
São Paulo: Iluminuras, 2012.
DUCROT, Oswald e TODOROV Tzvetan, Dicionário enciclopédico das ciências da
linguagem. 3ª.edição. São Paulo: Perspectiva, 1998.
DUBOIS, Jean et alii. Dicionário de Lingüística. São Paulo: Cultrix, 1997.
JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 3ª. edição.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.
Hipertextos:
http://sociologia.incubadora.fapesp.br/portal/roteiros-de-aula, acesso em 11/10/2008.
http://homepage2.nifty.com/kenkakusyoubai/zidai/keibtsu.htm,
14/02/2010.
acesso
em
http://isweb.www.infoseek.co.jp, acesso em 14/04/2010.
http://www.acbj.com.br/japao-a-z-interna.aspx?japao=56, acesso em 28/11/2010.
http://www.buscalegis.ufsc.br/revistas/files/journal/2/artciles/33319/public/3331942542-1-PB.pdf, acesso em 06/10/2010.
http://ameblo.jp/orochon-x/entry-10273931825.html, acesso em 16/02/2011
http://www.hh.em-net.ne.jp/”hayy/komo_hatto_main.html, acesso em 30/09/2011.
www.soc.nii.ac.jp/fsj acesso em 31 de janeiro de 2011.
http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/defaut/files/.../16198-16199-1-PB.pdf, acesso em
12/03/2012.
144
KOROKU Tonia Yuka. In: REID-Revista Eletrônica Internacional Direito e Cidadania
http://www.reid.org.br/print.php?CONT=00000035, acesso em 15/01/ 2012.
KAWASAKI Hiroshi. Revista Direito Penal. Volume 69 de setembro de 1996. In:
https://m-repo.lib.meijiac.jp/dspace//bitstream/10291/1411/1/horitsuronso_69_11_117_pdf., acesso em
07/01/2012.
http://www.portaleducacao.com.br/psicologia/artigos/42113/o-conceito-de-habitus,
acesso em: 14/06/2013.
http://www.brasilescola.com/filosofia/mito-caverna/platão.htm, acesso: 27/08/2013.
https://www.researchgate.net.../publication/33426893, acesso emm 01/11/2013.
145
GLOSSÁRIO
–A–
Ainu
「アイヌ」
78
Povo primitivo da Ilha de Hokkaido, norte do Japão
Akechi Mitsuhide 「明智光秀 」(1526 – 1582)
66
Guerreiro que leva Oda Nobunaga (1534 – 1582) ao suicídio, apesar de estar a
serviço deste.
Amakusa Shirô 「天草四郎」(1621-1638)
72
Jovem cristão que lidera a revolta de Shimabara.
Amaterasu Omikami「天照大神」
39, 86
Divindade da crença shintô.
Ashikaga Yoshimasa (1436–1490) 「足利善政」
65, 66
Shogun do período Muromachi, governou entre 1449-1474
Azuchi Momoyama 「あずち桃山 」
66
Designação do período 1582-1600 sob o domínio de Oda Nobunaga, em Azuchi
e Toyotomi Hideyoshi, em Momoyama.
–B–
Benrisa 「便利さ 」
30, 60, 88-89, 117, 133
“Útil”, “conveniente”, “cômodo”
Bugyô 「奉行 」
40, 41, 42, 44, 48-49, 55-56
Funcionários que, na época de Heian, eram encarregados unicamente de fazer
executar um decreto ou uma ordem imperial. Durante o período Edo, inúmeros
bugyô foram criados, cada um com uma tarefa determinada passando a agir
como governadores e eram escolhidos entre os fudai-daimyô, conforme alguns
exemplos abaixo:
146
Bugu-daimyô – 「 武 具 奉 行 」 funcionários encarregados dos armamentos
militares.
Jisha-bugyô – 「 寺 社 奉 行 」 funcionários encarregados do controle dos
templos.
Kanjô-bugyô – 「勘定奉行」encarregados do controle judicial e financeiro dos
domínios dos shogun.
Machi-bugyô –
「町奉行」uma espécie de governador civil das grandes
cidades, dependentes da autoridade dos shogun de cidades como Edo, Osaka,
Nara, Nagasaki e Nikkô entre outras.
Bujutsu 「武術 」
27
Arte marcial
Buke「 武家」
52
Designação dada aos samurai e outros guerreiros e que também recebiam o
nome de bushi.
Bukeshohatto 「 武家諸法度」
52, 72, 74
Código de normas da classe dos samurai
Bunraku
「文楽」
80, 82
Teatro de marionetes, remonta ao século XVI. As peças são acompanhadas por
um instrumento de 3 cordas, shamisen, junto à narração do enredo.
Bushi
「武士」
125
Termo aplicado desde o ano 721 aos que possuíam a profissão de guerreiro. A
partir do período Kamakura, os bushi compunham a “casa dos guerreiros” e a
partir da era Edo, foram classificados de acordo com a hierarquia, sob o
controle absoluto dos shôgun, conforme as designações daimyô, hatamoto,
gokenin, hanshi, etc. Esse sistema de hierarquia foi abolido em 1869, mas os
bushi e os seus descendentes recebem uma outra designação, a de shizoku.
Somente em 1947 todas as distinções sociais são abolidas.
147
Bushidô
「武士道 」
125
Conjunto de leis que regiam o comportamento dos bushi, fundamentado na
fidelidade devida por um vassalo ao seu senhor em troca de algum benefício.
– C–
Chônin 「町人」
83
Designação da população citadina. De um modo geral designava os
comerciantes e artesãos.
Chûkun aikoku 「忠君愛国 」
85
“Senhor soberano da Pátria amada”, enaltecendo o amor e a dedicação ao
soberano.
Chûsei 中世」
62
Designação do período entre 1185-1573, considerada a Idade Média japonesa.
–D–
Daimyô 「大名 」
52, 54, 56, 57, 61, 65, 66, 67, 69, 71, 72 77, 78 124
“Senhores feudais”. Termo controverso em razão da etimologia remeter à
Europa.
Dansonjohi 「男尊女卑」
73
“Supremacia dos homens sobre as mulheres” – expressão que mostra o papel
da mulher relegado ao segundo plano
Dekasegi
「出稼ぎ」
90
Aqueles que trabalham em locais distante de suas casas (cidades, estados ou
países). Literalmente, “sair para ganhar o sustento de suas vidas”.
–E–
148
Edo, Era 「江戸時代」
14-15, 20, 27-28; 33-34, 37, 40, 43, 44, 47-50, 52,
55-59, 61, 67-69, 71, 73, 76-79, 83-85, 95, 119, 124, 128, 131, 133-134
Período que vai de 1603 a 1868 correspondente ao shogunato dos Tokugawa.
Emakimono
「絵巻物」
14
Literalmente, “rolos de desenhos” de narrativas.
En
「円 」
58, 88
Unidade monetária do Japão, yen.
Eta
「えた」
42, 56, 73
Classe social que abarcava os indivíduos de grupo de “impuros”, aos quais
eram reservados trabalhos considerados indignos ou baixos como o de coveiros.
–F–
Fumiê
「踏み絵」
72
Prática adotada para descobrir quem seriam os seguidores de Cristianismo.
Consistia em fazer com que as pessoas pisassem nas imagens de Cristo e da
Virgem Maria.
–G–
Gekokujô 「下克上」
66
Literalmente, “conspiração dos subalternos”. Conquistas dos guerreiros de
classes menos privilegiadas sobre superiores. Subversão hierárquica.
Genkei 「減刑」
Pena rigorosa
54
Giri 「義理 」
53, 60, 65, 91
“Obrigação” “Dever”.
Compromisso imperioso de um homem para com outro na preservação da sua
imagem e demonstração de gratidão por algum favor recebido. Um
comportamento ancestral existente na sociedade japonesa, pois os giri são
manifestados a nação, ao imperador, para com chefes, aos pais, e
principalmente com relação aos superiores.
149
『五輪の書』
Gorin no sho
96, 125
“Escrita dos cinco anéis” destacando os conceitos de Terra, Água, Fogo, Vento
e Céu da concepção budista. Obra escrita por Miyamoto Musashi por volta de
1643 com reflexões sobre táticas militares.
–H–
Hâfu 「ハーフ」
89
Do inglês half, metade. Designação daqueles que nasceram de uma
miscigenação étnica. Mestiço.
Haikai 「俳諧」
67, 79
Poema de 17 sílabas divididas em versos de 5, 7 e 5 sílabas.
Haji 「恥」
53, 57-59
Vergonha
Haku
「伯 」
33
Título de nobreza criado na Era Meiji, equivalente ao conde no Ocidente.
Abolido em 1945.
Harakiri 「腹切り」
43, 46-48, 91
Ou seppuku. Suicídio por abertura do ventre.
Hatamoto「旗本」
41-42
Nome dado aos homens que guardavam o campo militar e vassalos diretos dos
Tokugawa.
Heiji no Ran
「平治の乱 」
62
Guerra ocorrida em dezembro de 1159 entre o shogun Minamoto no Yoshitomu
e Taira no Kiyomori pela disputa do poder central, da qual Taira sai vitorioso.
150
Heimin 「 平民」
33
Classe adotada na Era Meiji e correspondente ao povo comum.
Hentai 「変体 」
16
(Manga) pornográfico.
Hikikomori 「引きこもり」
31
Pessoas acometidas por problemas psicológicos ou emocionais devido a algum
problema social, tal como vitimas de bulling. Afeta tanto os mais idosos, pela
condição, na sua maioria, de viverem isolados, quanto os jovens.
Hinin
「非人」
42, 47, 56, 59, 73, 83
Literalmente, ”não gente/pessoa” “não humanos”. Grupo social do Período Edo,
fora das 4 classes shi, nô, kô, shô, que tinha atribuições de executar trabalhos
como o de coveiros, executando as mesmas tarefas que os indivíduos
pertencentes ao eta.
Hôgen no Ran 「保元の乱」 (1156)
62
Guerra civil ocorrida em 1156 pela disputa do poder envolvendo os clãs Taira e
dos Minamoto com envolvimento dos Fujiwara.
Hôken shakai「封建社会」
“Sociedade feudal”.
73
Hokuriku 「北陸 」
79
Região que compreende as Províncias de Fukui, Ishikawa, Toyama e Niigata
Honnôji no hen
「本能寺の変 」
66
Ataque ao Templo Honnôji, onde Oda Nobunaga se suicida após a traição de
Akechi Mitsuhide.
Hôritsu「法律」
Lei, Direito.
54
151
Hyakushô ikki 「百姓一揆 」
75
Levantes camponeses. Revoltas ocorridas devido ao alto preço dos impostos
do Período Edo.
Hyôjôsho 「評定所」
40
Órgão político-administrativo criado na Era Edo que reunia os jisha-bugyô, o
machi-bugyô e o kanjô bugyô.
–I–
Ikenobô Senkei
「池坊せんけい」
80
Autor da introdução de arranjo floral. Teria teria atuado entre 1457 e 1466,
seguindo a prática do arranjo floral em vasos e que deixou o legado do
destaque à beleza na simplicidade do ato de levar flores a recintos fechados.
Insei「 院政」
61, 73
“Governo do imperador enclausurado”. Sistema de governo adotado pelo
imperador Shirakawa em que esses “imperadores-retirados” governavam no
lugar do imperador titular como forma de desarticular a influência da família
Fujiwara, cujos imperadores desde o século IX eram seus descendentes.
Inu shôgun「犬将軍」
77
Apelido do shôgun Tokugawa Tsunayoshi que, com problemas mentais,
estabelece a proteção a todos os seres vivos, em particular aos cachorros.
Ishida Mitsunari 「石田光成 」
68
Guerreiro (1560-100) a serviço de Toyotomi Hideyoshi
–J–
Jinsei 「仁政」
73
“Governo benevolente” - medidas que viriam atender ao benefício do povo.
Jôdoshû
「浄土宗」
“Seita da Terra Pura”, da devoção ao Buda Aminda, trazida de China.
67
152
Joya no kane
「除夜の鐘」
116
“Sino da passagem do ano”. As 108 badaladas que representam as tentações
do homem conforme a crença budista.
Junshi 「殉死」
77
Suicídio por fidelidade.
–K–
Kabuki 「歌舞伎」
27, 79-80
Teatro que reúne 3 elementos: canto, ka, 歌、bailado, bu 舞 e arte, ki 伎,
encenado somente por atores do sexo masculino.
Kadô「華道 」
80
“Caminho das flores”, conhecido como ikebana, arte do arranjo floral.
Kakusa shakai
「格差社会 」
32
Diferenças sociais.
Kamakura jidai 「鎌倉時代」
62, 65-67, 72
Perído Kamakura, da história japonesa (1185-1333)
Kangôbôeki 「勘合貿易」
65
”Comércio exterior de comum acordo” entre a China e o Japão em 1404.
Kankai
「勘戒 」
39
Desenvolvimento do “bem” obedecendo às normas vigentes, segundo a crença
budista.
Kanpaku 「関白」
Conselheiro do imperador.
61
153
Kansai
「関西」
90
Região de Kyôto.
Katakana 「カタカナ」
105, 120, 126
Uma das formas da escrita japonesa. Normalmente é usada para grafar
palavras de origem estrangeira ou quando destaca algum termo num texto, por
exemplo, a onomatopéia.
Katana 「刀 」
48, 56, 67, 74, 79
Espada.
Katana gari「刀狩」
67
“Caça às espadas”. Medida de recolhimento das armas de todos aqueles que
não pertenciam à classe dos samurai.
.
Katsushika Hokusai 「北斎葛飾」
(1760 – 1849)
14, 82
Artista de ukiyo-e do final da Era Edo.
Kazoku
「華族」
33
“Classe das flores”. Segundo grau nas classes sociais criadas pelo Imperador
Meiji em 1869: Kôzoku (família imperial), kazoku (nobreza), shizoku (guerreiros)
e heimin (plebeus). Classe que substituiu as antigas divisões de nobreza em
kugyô e daimyô.
Kenin ou Kerai 「家人 ・家来」
61
Serviçal de um guerreiro ou de um nobre nos tempos antigos e na época
Kamakura. Na época Edo, deu-se o nome de gokenin a todos os vassalos do
shogunato. Também chamado kerai no caso de um vassalo de um daimyô.
Kenjôsha「健常者」
Designação de pessoas saudáveis de corpo e alma.
25
154
Kirisute gomen 「斬り捨てごめん」
74
Literalmente, “te corto e deixarei jogado, desculpe”, expressão empregada no
Período Edo pelos samurai diante dos assassinatos que eram cometidos por
estes.
Kitakantô 「北関東」
79
Engloba as regiões norte das Provincias de Tôkyô, Chiba, Saitama, Kanagawa,
Gumma, Ibaraki e Tochigi.
Kobayakawa Hideaki 「小早川秀秋」
69
Daimyô de 1582-1602. Na batalha de Sekigahara (1600) traiu seus aliados e
permitiu a vitória dos Tokugawa.
Kobayashi Issa 「小林一茶」(1763-1827)
80
Poeta de haikai.
Kokkaankou 「国家安康 」
70
Paz e harmonia da “Nação”.
Kôkaku 「光格天皇」
61
Imperador Kôkaku (1771 – 1840).
Kokugaku
「国学 」
83
Estudos voltados aos pensamentos do povo japonês, buscando os seus
elementos nos primórdios da cultura japonesa que antecederam a introdução
do Budismo e do Confucionismo.
Kome sôdô 「米騒動」
86
“Movimento, tumulto de arroz”. Manifestação da população japonesa ocorrida
em 1918 devido ao alto preço do arroz.
Kujigataosamegaki「公事方御定書」
43, 50
“Resoluções para assuntos oficiais”, de 1747, a “Carta-Magna” da época.
155
Kyôgen 「狂言」
67, 80-82
Teatro kyôgen. Teatro clássico cômico japonês e, como o nô, criado no Período
Muromachi (1392-1573). Não se pode classificá-lo sempre como um gênero de
comédia, pois seu humor nem sempre é feliz, e algumas peças fazem uso de
sátira. Algumas chegam a alcançar os limites da tragédia e das lágrimas ou
focalizam o isolamento e a solidão humana.
Kyô kô 「姜
こう」(1567 – 1618)
69
Coreano que habitava no Japão no Período Edo e que seria autor do registro.
Sui in kan´yô roku 「 睡
陰
看
羊
録 」 , sendo os significados dos
ideogramas:
Sui 「睡」 adormecido
In 「 陰 」sombra/oculto
Kan「看」percepção
Yô「羊」carneiro
Ku「録」registro
Embora os ideogramas possuam isoladamente os significados acima elencados,
não foi possível empreendermos uma tradução dos termos em geral. Como
proposta de tradução geral aventaríamos um “Registro/informe/relatório de algo
em segredo”
Kyûshû 「九州 」
52, 72, 75
Ilha localizada no extremo sul do arquipélago japonês。
–M–
Maccha
「抹茶」
68
Uma variedade de chá normalmente usado em sadô ou cha no yu (cerimônia de
chá).
Matsuo Bashô 「松尾芭蕉」(1644-1694)
Poeta de haikai.
79
156
Meiji, Era 「明治時代 」
14, 32-33, 37, 53, 55, 57, 84,-85, 87
Período compreendido entre 1868 a 1912 correspondendo ao reinado do
imperador Mutsushito.
Meiyôkei 「名誉刑」
59
Pena contra a honra.
Miyamoto Musashi
「宮本武蔵」
15, 95-96, 124-125, 131
Autor do livro Gorin no sho e protagonista de Vagabond.
Monzen barai
「門前払い」
48
Expressão de o “dar com a cara na porta” numa alusão a uma visita indesejada,
sem que a entrada do visitante seja permitida.
Muromachi jidai 「室町時代」
65-66, 81
Período Muromachi (1336-1573).
–N–
Nichibei washin jôyaku 「日米和親条約 」
76
Tratado de Amizade firmado em 1854 entre Japão e Estados Unidos, pondo fim
aos cerca de 250 anos de isolamento do Japão.
Nichibeishûkô tsûshô jôyaku 「日米修好通商条約 」
76
Tratado de Amizade e de livre intercâmbio Comercial firmado em 1858 entre o
Japão e os Estados Unidos.
Nichiren(shû) 「日蓮宗」
Seita budista,fundada por Nichiren (1222 – 1282).
67
Nihondaibunten 「日本大文典」
68
Primeiro manual de gramática nipônica feita por estrangeiros.
Nijûroku seijin 「二十六聖人」
22
157
26 mártires cristãos que perderam as suas vidas na defesa da sua fé ao
Cristianismo: 6 Padres da Ordem dos Franciscanos, 17 cristãos japoneses e 13
japoneses da Companhia de Jesus foram mortos em 1596, sob o governo
Toyotomi Hideyoshi, antecessor de Tokugawa. (Todos foram elevados à
santidade entre 1861-1862).
Ni-niroku-jiken「二・二六事件」
136
Golpe de Estado abortado em 26 de fevereiro de 1936. Em 1936, os rebeldes
rendem-se e são julgados por um tribunal militar. 17 são condenados à morte e
65 condenados à prisão.
Ninjô 「人情」
91
Calor humano. O espírito humanitário.
Nô
「能 」
67, 79-82
Teatro nô, criado no período Muromachi (1392-1573).
Nôwa nônari” 「農は納なり」
69
A “agricultura como fonte de renda”, destacando a cultura do arroz como a base
da economia.
–O–
Oda Nobunaga
「織田信長」
66
Guerreiro (1534-1582), primeiro unificador do Japão. Cria o Castelo de Azuchi
Momoyama de onde passa a comandar as suas tropas. Suicida-se após a
traição de Akechi Mitsuhide, seu homem de confiança. O episódio foi
denominado de Honnôji-no-hen, literalmente pelo fato do ataque ter sido no
templo Honnô-ji.
Oitsuke 「追いつけ」Oikose 「追いこせ」
14, 37, 84
“Alcançar”, “ultrapassar”. Lema adotado após a abertura de portos com o intuito
de igualar economicamente o Japão aos países estrangeiros após cerca de 250
anos de isolamento.
158
Okuno Hosomichi『奥の細道 』
79
Coletânea de haikai de autoria de Matsuo Basho publicado em 1702.
Ômetsuke 「大目付」
40, 42
Posto estabelecido na Era Edo para manter a vigilância dos daimyô.
Ônin do Ran 「応仁の乱」
Revolta do período Ônin (1467 – 1469). Guerra civil ocorrida em 1467.
65
「御定め百か条」
50
Osadamegaki hyakkajô
Denominação das Leis de 100 artigos establecidos na Era Edo.
Osaka fuyu no jin
「大阪冬の陣」
70
2ª.guerra dos Tokugawa contra Toyoromi ocorrida no inverno de 1612.
Osaka natsu no jin 「大阪夏の陣 」
70, 76
Guerra dos Tokugawa contra Toyotomi no verão de 1612 com êxito dos
Tokugawa.
–R–
Rangaku「蘭学」
78
Ran, designção de Holanda e gaku, estudos. Estudos efetuadas na Era Edo
durante o fechamento de portos aos estrangeiros.
Ri 「里」
50
Unidade de distância equivalente a aproximadamente 3,9 km.
Ritsuryô
「律令」
39, 54, 59
Conjunto de códigos civis e criminais criado no final do século VII. Visava a
supremacia política e moral do imperador e dos grandes nobres da época.
Rôjû
「老中」
40-41
159
Vassalos diretos do shôgun durante o período de Muromachi. Mais tarde,
passam a atuar como conselheiros.
Rokushoji ou Rikushou「六勝寺 」
62
Nome dos seis templos (法勝寺 Hosshôji、尊勝寺 Sonshôji、最勝寺 Saishôji、
円 勝 寺 Enshôji 、 成 勝 寺 Seishoji 、 延 勝 寺 Enshôji) em cujos nomes são
empregados 3 ideogramas, vindo, em segunda posição, o ideograma 勝 katsu
“vencer/conquistar” e finalizados com “templo”.
Hô – 「法 」leis
Son –「尊」respeito
Sai – 「最」prefixo o “mais”
Em-「円」circulo
Sei – 「成」tornar
En - 「延」extensão
Rônin「浪人」
72, 126
O samurai sem o seu senhor. Andarilho. Errante.
Atualmente designa o estudante que não passou no vestibular e aguarda a
seleção seguinte, freqüentando cursos pré-vestibulares.
Ryô
「りょう」
47
Unidade monetária de ouro e cunhada em folhas finas e largas de forma oval e
gravada com tinta, os koban da Era Edo A desginação do termo tem origem no
chinês como unidade de massa.
Ryûsen 「流線」
120, 134
Recurso empregado nos manga. Uma linha tangente que provoca a apreensão
do “real” no leitor.
–S–
Sadô 「茶道」
Ou cha-no-yu, cerimônia de chá.
68
160
Saibansho 「 裁判所」
40
Tribunal de Justiça.
Saimin
「細民」
33
Designação adotada na Era Meiji para a população em comum. Destacam-se
os ideogramas que compoem o termo que aludem às “pessoas extremamente
pobres” ou “pessoas de classe inferior”.
Sakoku 「鎖国」 (1639-1853)
74
Política de Isolamento do Período Edo quando foi proibido o intercâmbio com
países estrangeiros.
Sankin kôtai 「参勤交代」
71-72, 77
Sistema por turno na corte de Tokugawa. Os daimyô residiam alternadamente
em suas fortalezas, geralmente distantes da capital, e na residência de Edo.
Seki 「せき」
42
Unidade de medida de arroz; 1 seki ou 1 koku= 180 litros.
Sekigahara, batalha de 「関が原の戦い」
42, 68-69, 76, 118, 128, 131
Batalha que dá início aos 250 anos do Período Edo do clã Tokugawa.
Sengoku daimyô 「戦国大名」
66
Daimyô do período de guerras de “feudos”.
Sengoku jidai 戦国時代
65-66
Período de guerras entre “feudos” de 1467 a 1568 pela disputa de poderes.
Senno Rikyû
「千利休 」
68
Mestre de cerimônia do chá.
Sesshô 「摂政 」
39, 61
161
Regente imperial.
Shamisen 「三味線」
82
Instrumento musical de 3 cordas semelhante ao alaúde.
Shimabara no ran 「島原の乱」
72, 77
Levante dos cristãos e camponeses ocorrido na Ilha de Shimabara, na região
de Kyûshû e nas ilhas próximas em dezembro de 1637, liderado pelo jovem
Amakusa Shirô.
Shinigami 「死神」
93-94, 98, 105, 107-109, 114, 116-117, 132-134
“Deus da morte”. Personagem do manga Death Note. Uma divindade que
conduz os homens à morte.
Shi, nô, kô, shô
「士 農
工
商」
70, 73, 76, 124
A estratificação social da Era Edo entre samurai, agricultores, artesãos e
comerciantes.
Shite 「シテ」
81
Protagonista do teatro Nô.
Shizoku
「士族」
33, 85
Literalmente “povo de origem guerreira”. Nome dado a todos os antigos samurai
em 1869, segundo a nova designação das classes sociais.
Shoen 「荘園 」
40, 61
Sistema de terras privadas pertencentes às famílias aristocratas ou aos templos.
Shôgun
「将軍」
40-42, 44, 52, 54, 61, 65-68, 70, 72, 74-78, 124, 126
Ditadores militares que mantinham a liderança das suas comunidades no lugar
do imperador.
Shômin 「小民」
33
162
Povo comum.
Shôtoku Taishi
「聖徳大使」
39
Príncipe imperial do período entre 574-622. Filho do Imperado Yômei e regente
da imperatriz Suiko. Autor da “Constituição em 17 artigos”.
Shôwa 「 昭和」
84, 86
Período japonês do imperador Hirohito entre 1926 a 1989.
Sui in kan´yôroku「睡 陰
睡
看
羊
録」
69
Obra atribuída ao coreano Kyôkô (1567 – 1618) que vivia no arquipélago
japonês na Era Edo. Não se tem registro do seu significado, pois o termo não é
japonês. Entretanto de acordo com os ideogramas isoladamente tem-se:
Sui 「睡」 adormecido
In 「 陰 」sombra/oculto
Kan「看」percepção
Yô「羊」carneiro
Ku「録」registro
tendo um sentido aproximado de “Registro/informe/relatório de algo em
segredo”
Sumô「相撲」
82
Modalidade esportiva tradicional japonesa, corresponde a lutas de corpo a
corpo sobre um tipo de ringue. Os lutadores são corpulentos e são preparados
exclusivamente visando adquirir maior resistência física.
–T–
Taishô
「大正」
32-33, 84-86
Era do imperador Yoshihito durante o período de 1912-1926.
Tenkawake no tatakai 「天下わけの戦い 」
69
Literalmente, “batalha de divisão do estado”. Outro nome da Batalha de
Sekigahara. Disputa do poder entre grupos do oeste, que acreditavam que a
fonte de renda do Japão seria o arroz, e o grupo do leste, que acreditava numa
“ponte de prata”, referindo-se ao intercâmbio com os estrangeiros.
Terakoya 「寺子屋」
83
Escolas criadas em templos budistas ao longo do Período Edo com o objetivo
de ensinar a população chônin a ler e escrever.
Toba
「鳥羽」
61
Imperador Toba (1102 – 1156) .
Tôhoku 「東北」
79
Região nordeste do Japão que engloba as províncias de Aomori, Iwate, Akita,
Miyagi, Yamagata e Fukushima.
Tokugawa 「徳川」
76-78
Clã que governaram o período Edo por cerca de 250 anos.
Toyotomi Hideyoshi 「豊臣秀吉」 (1536 -1598)
52, 66-68, 70-72
Em 1587 proibiu o Cristianismo que começara a crescer.
Samurai guerreiro a serviço de Oda Nobunaga. Em 1587 proibiu o Cristianismo
e após assassinar Akechi Mitsuhide, tenta estender os domínios até a Coréia,
entre outros territórios, e não obtendo êxito acaba doente e falece em 1598. É
no governo de Toyotomi que ocorre a execução dos 26 mártires cristãos
(nijûroku seijin).
–U–
ukiyo-e
「浮世絵」
14, 79, 82
“Imagens do mundo flutuante” - ukiyoe, o mundo flutuante, conforme os
ideogramas que compõem a palavra: uki 浮 flutuante, yo 世 mundo e e 絵
gravuras/imagens. São ilustrações que retratam o cotidiano.
163
164
–W–
Wakadoshiyori
「若年寄」
40-42
Assistente dos rôju.
Wakashû「若衆」
80-81
Às vezes “homossexual”. O termo wakashû origina-se das peças de kabuki
encenadas por adolescentes, de 1629 a 1652. Devido ao homosexualimo
existente entre os atores elas foram proibidas.
Wakeiseijaku 「和敬静寂」
68
Wakei 和敬 representa o espírito de honrar a cerimônia dos participantes numa
cerimônia de chá concentrando a sua atenção, e seijaku 静寂 os objetos ao
redor que complementam o cenário como o recinto, o jardim e os utensílios da
cerimônia, enfatizando a paz e a harmonia.
Waki「ワキ」
81
Coadjuvante do teatro Nô
–Y–
Yarô kabuki
「野郎歌舞伎」
80
Designação aos homens do Período Edo que tinham o cabelo raspado da testa
até o centro de cabeça. O termo yarô literalmente possui a acepção de insulto
como “velhaco”, “desgraçado”, “patife”.
Yosa Buson 「与謝蕪村」(1716-1783)
80
Poeta de haikai
Yutakasa 「豊かさ」
30, 60, 88-89, 117, 133
“Rico”, “farto”, “abundante”.
–Z–
165
Zenshû (zen) 「禅宗 」
Seita budista. Introduzida da China por Eisai, em 1192.
51, 67, 80