Universidade Federal de São Carlos Centro de Ciências Biológicas

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Universidade Federal de São Carlos Centro de Ciências Biológicas
Universidade Federal de São Carlos
Centro de Ciências Biológicas e da Saúde
Departamento de Fisioterapia
Núcleo de Estudos em Neuropediatria e Motricidade
X Curso de Especialização em Intervenção em Neuropediatria
INTERVENÇÕES MUSICAIS: ASPECTOS DA EXPERIÊNCIA MUSICAL E
SUAS IMPLICAÇÕES NO DESENVOLVIMENTO DO BEBÊ - UMA REVISÃO
DA LITERATURA
David Martins de Almeida Maldonado
Universidade Federal de São Carlos
Centro de Ciências Biológicas e da Saúde
Departamento de Fisioterapia
Núcleo de Estudos em Neuropediatria e Motricidade
X Curso de Especialização em Intervenção em Neuropediatria
INTERVENÇÕES MUSICAIS: ASPECTOS DA EXPERIÊNCIA MUSICAL E
SUAS IMPLICAÇÕES NO DESENVOLVIMENTO DO BEBÊ - UMA REVISÃO
DA LITERATURA
Monografia apresentada ao X Curso de
Especialização em Intervenção em Neuropediatria
da Universidade Federal de São Carlos, requisito obrigatório
para obtenção do título de Especialista.
Aluno: David Martins de Almeida Maldonado
Orientador: Profa. Ms. Elaine Leonezi Guimarães
Co-orientador: Profa. Dra. Eloisa Tudella
São Carlos – SP
2012
MEMBROS DA BANCA EXAMINADORA PARA DEFESA DA MONOGRAFIA
DE DAVID MARTINS DE ALMEIDA MALDONADO, APRESENTADA AO X
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO DE INTERVENÇÃO EM NEUROPEDIATRIA, DA
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS, EM JUNHO DE 2012
BANCA EXAMINADORA:
_____________________________________________
Profa. Ms. Elaine Leonezi Guimarães
_______________________________________________
Profa. Dra. Eloisa Tudella
_________________________________________________
Prof. Esp. Armando Fernandes Bugalho Filho
SUMÁRIO
RESUMO .......................................................................................................................... ii
ABSTRACT..................................................................................................................... iii
LISTA DE FIGURAS ...................................................................................................... iv
LISTA DE TABELAS ...................................................................................................... v
INTRODUÇÃO ................................................................................................................ 1
OBJETIVO ................................................................................................................... 3
METODOLOGIA ......................................................................................................... 4
Estratégias de busca .................................................................................................. 4
Critérios de Inclusão ................................................................................................. 4
Tipo de Estudo ...................................................................................................... 4
Extração dos dados ............................................................................................... 5
Critérios de Exclusão ............................................................................................ 5
RESULTADOS ............................................................................................................ 6
Estratégia e Busca ..................................................................................................... 6
Avaliação e Inclusão dos Estudos ............................................................................. 6
Características dos Estudos Incluídos ....................................................................... 6
DISCUSSÃO .................................................................................................................... 8
Capítulo 1. A MÚSICA ............................................................................................... 8
Percepção Musical .................................................................................................. 10
Consonância versus Dissonância ........................................................................ 13
Bebês e Música ....................................................................................................... 14
Especialização precoce à música ............................................................................ 17
Prática e formação musical ..................................................................................... 18
Elementos musicais................................................................................................. 20
Ritmo .................................................................................................................. 20
Melodia ............................................................................................................... 21
Harmonia ............................................................................................................ 22
Timbre ................................................................................................................. 23
Capítulo 2. EVIDÊNCIAS ACERCA DA UTILIZAÇÃO DA MÚSICA COM
BEBÊS ........................................................................................................................ 25
Arquitetura Cerebral do Processamento da Música e Aprendizagem Musical....... 31
Fatores relacionados à Experiência Musical ........................................................... 34
Treinamento Musical .............................................................................................. 35
Motricidade e Ritmo ............................................................................................... 36
Emoção ................................................................................................................... 37
Capítulo 3. MUSICOTERAPIA ................................................................................. 38
Intervenções musicais ......................................................................................... 44
Música Ativa e Música Passiva .............................................................................. 48
CONCLUSÃO ................................................................................................................ 51
BIBLIOGRAFIA ............................................................................................................ 52
ii
RESUMO
INTRODUÇÃO: A música é uma das atividades humanas mais complexas, pois
engloba diversos sistemas funcionalmente conectados para o seu processamento. Ela é
considerada como uma atividade inata do ser humano, pois compreende uma arquitetura
neurológica especializada que evolui de acordo com o desenvolvimento. Ela também é
culturalmente adquirida, pois alguns elementos musicais, como a dissonância ou a
harmonia, somente são possíveis de serem processados, a partir da maturação do SNC e
da experiência. Bebês, desde muito precocemente, podem desenvolver habilidades
musicais, ou serem capacitados à percepção musical. Desta forma eles desenvolverão
habilidades cognitivas, comunicativas, emotivas, sociais, motoras e bem estar.
OBJETIVO: Investigar quais são os elementos da música que se apresentam inatos ao
desenvolvimento e quais são os elementos que se desenvolvem a partir da experiência
sonoro-musical, traçando um paralelo entre as pesquisas atuais em música com bebês,
com a intervenção musicoterapêutica que visa desenvolver diversas habilidades globais
do bebê. METODOLOGIA: Este estudo compreendeu uma revisão da literatura, através
das bases de dados Web Of Knowledge e Medline, com os descritores: música ou
musicoterapia, cérebro, desenvolvimento do cérebro e bebês, no qual buscaram-se
artigos que compreendiam a música, o desenvolvimento do cérebro e bebês, a fim de
agrupar dados necessários para evidenciar os efeitos da música no desenvolvimento do
bebê. RESULTADOS: O estudo compreendeu 19 artigos relacionados à pesquisa
experimental, 20 artigos de revisão e, ainda, 18 obras didático-pedagógicas sobre
música, neurociências e musicoterapia. Os dados obtidos permitiram traçar um paralelo
entre os estudos selecionados e a atual abordagem da musicoterapia. CONCLUSÃO:
Pudemos comprovar que a experiência musical, no ser humano, é inata, assim como os
diversos componentes que integram a música. Neste caso, o quão precocemente for
realizada a intervenção, maior será a chance de obtenção de sucesso no
desenvolvimento, e, a musicoterapia pode ser uma ferramenta muito ampla e valiosa
para o trabalho com bebês.
Palavras chave: música, musicoterapia, neuroplasticidade, intervenção precoce.
iii
ABSTRACT
INTRODUCTION: Music is one of the most complex human activities, that involves
many different systems functionally connected to the processing. It is considered an
innate human activity, that includes a specialized neurological architecture which
evolves according to the development. It is also culturally acquired, as some musical
elements such as harmony or dissonance, is only possible to be processed from the
mature CNS and experience. Babies, from very early, can develop musical skills, or be
able to musical perception. Thus they develop cognitive skills, communicative,
emotional, social, motor and wellness. OBJECTIVE: To investigate what are the
elements of music that have innate development and what are the elements that develop
from the experience and musical sound, drawing a parallel between the current research
in music with babies, with the intervention that aims to develop musicoterapêutica
several global skills baby. METHODS: This study included a literature review, through
the databases Medline and Web Of Knowledge, with the following keywords: music or
music therapy, brain, brain development and babies, which was searched for articles
that included the music, the development brain and babies in order to gather data
necessary to elucidate the effects of music on infant development. RESULTS: The
study included 19 items related to experimental research, review articles and 20, still
works 18-didactic teaching about music, neuroscience and music therapy. The data
obtained allowed us to draw a parallel between the selected studies and the current
approach to music therapy. CONCLUSION: We confirmed that the musical experience
in humans, is innate, and the various components that make up the music. In this case,
how early intervention is carried out, the greater the chance of achieving success in the
development and therapy can be very wide and a valuable tool for working with babies.
Keywords: music, music therapy, neuroplasticity, early intervention
iv
LISTA DE FIGURAS
Figura 1. Fases procedimentais da musicoterapia...........................................................45
v
LISTA DE TABELAS
Tabela 1. Evidências da utilização da música com bebês...............................................26
1
INTRODUÇÃO
Musicoterapia define-se pelo uso profissional da música e seus elementos como
uma intervenção em ambientes médicos, educacionais e quotidianos com indivíduos,
grupos, famílias ou comunidades, buscando otimizar a qualidade de vida e melhorar a
saúde física, social, comunicativa, emocional, intelectual e bem estar em geral (WFMT,
2012). Em suma, a musicoterapia é o uso sistematizado da música, a fim de que, através
de intervenções musicais, a pessoa possa ampliar as suas capacidades sociais,
cognitivas, físicas, comportamentais, emocionais e musicais (AMTA, 2012).
Por se tratar de um processo sistematizado, é necessário que o musicoterapeuta
tenha conhecimento integral sobre o seu paciente, sobre os modelos, métodos ou
técnicas de intervenção e principalmente sobre música (BRUSCIA, 2000), pois é
através da intervenção musical e do envolvimento que o paciente tem com a música que
a terapia ocorre. O conhecimento sobre o paciente envolve todo o âmbito pessoal físico, social, comunicativo, emocional intelectual e de bem estar, e pode se
compreender como musicoterapia por toda a área abrangente que a música é capaz de
transformar, ou seja, o desenvolvimento global da pessoa.
A música é uma das atividades humanas mais complexas, pois engloba diversos
sistemas, funcionalmente conectados, para o seu processamento. Ela pode ser
considerada como uma atividade inata do ser humano, pois compreende uma rede
neurológica especializada que evolui para que ela possa ser percebida, sentida ou
executada (SAFFRAN, 2003; TRAINOR, 2008; TREHUB, 2003; ZATORRE, 2005).
Entre as mais diversas habilidades que são desenvolvidas pela música, podemos dizer
que ela exercita o cérebro (WEINBERGER, 1998). Isto somente é possível devido ao
fato que o cérebro passa por um processo de desenvolvimento, ao qual podemos chamar
de plasticidade cerebral, que pode ser compreendido pela capacidade que ele tem de
organizar as suas estruturas, de modo que o indivíduo se torne mais especializado e
mais funcional (LENT, 2010). Com o avanço da tecnologia e da pesquisa em música,
pudemos ter evidências mais concretas sobre os efeitos da música no cérebro (através de
exames
de
ressonância
magnética
funcional,
magnetoencefalografia,
eletroencefalografia) e as áreas corticais e estruturais que o cérebro recruta ao processar
2
a música. Zatorre (2005) acredita que a música provê informações necessárias para
auxiliar a neurociência a compreender melhor o homem.
De fato, se a música é uma atividade exclusivamente humana que envolve
diversas habilidades perceptivas, cognitivas, sociais e da linguagem, ela é uma
ferramenta de estudo que leva a uma melhor compreensão do homem. Neste caso,
partimos de uma questão fundamental: a música é uma habilidade inata ou adquirida?;
se é uma habilidade inata, como ela se desenvolve?; e, se é uma habilidade adquirida,
em qual idade ela tem início?
Estudos atuais mostram que os bebês têm uma alta sensibilidade para os sons, e
são capazes de processar estímulos auditivos. Tal resposta indica que o bebê, na sua
mais tenra idade (cerca de 1 ou 3 dias do puerpério) apresenta uma arquitetura
neurológica funcional responsiva à percepção da música. Ainda, o bebê tende a
apresentar uma resposta emocional, devido à distinção muito precoce que faz de um
som consonante de outro dissonante (PERANI et al., 2010). Bebês com 4 meses de
idade são capazes de distinguir o som de uma guitarra em contraste com o de uma
marimba. Portanto, se a música é uma habilidade que pode englobar tanto as funções
inatas, quanto os elementos adquiridos através da experiência sonora e musical,
presentes desde o período pré-natal, onde o bebê está exposto a vários estímulos
sonoros, ela pode ser desenvolvida e o bebê pode ser estimulado através de um processo
de intervenção precoce. O presente estudo aborda a música através de uma perspectiva
baseada em evidências, pelo qual se reuniram informações acerca do processamento da
música e da experiência musical, que são particularmente inatas ao ser humano.
3
OBJETIVO
O objetivo deste estudo foi investigar quais são os elementos da música que se
apresentam inatos ao desenvolvimento e quais são os elementos que se desenvolvem a
partir da experiência sonoro-musical, traçando um paralelo entre as pesquisas atuais em
música com bebês, com a intervenção musicoterapêutica que visa desenvolver diversas
habilidades globais do indivíduo, neste caso o bebê.
4
METODOLOGIA
Estratégias de busca
Foram utilizadas as bases científicas Medline e Web Of Science, na língua
inglesa, com os descritores ("music" or "music therapy"); ("brain" or "brain
development") e ("infant"), no período de janeiro a maio de 2012, sem restrições
quanto ao ano de publicação.
Critérios de Inclusão
Foram selecionados os artigos que satisfizeram os seguintes critérios de
inclusão: artigos que evidenciavam os efeitos da experiência musical em neonatos até
12 meses de idade; evidências acerca do sistema auditivo, preceptor da experiência
musical; e artigos de revisão bibliográfica que mencionavam a experiência musical
aplicada à bebês. Além desses foram, consultados obras didático-pedagógicas sobre o
tema Musicoterapia para complementar a discussão acerca da prática terapêutica.
Tipo de Estudo
Através de um levantamento da literatura, buscaram-se artigos que
compreendiam a música, o desenvolvimento do cérebro e dos bebês, a fim de agrupar
dados necessários para evidenciar os efeitos da música no desenvolvimento do bebê.
Participantes
Foram incluídos apenas estudos com participantes na faixa etária de neonatos até
12 meses de idade.
5
Extração dos dados
A partir dos estudos e obras selecionadas, reunimos as informações pertinentes
ao tema, para então, traçarmos um paralelo com a intervenção precoce em
musicoterapia.
Critérios de Exclusão
Os critérios de exclusão adotados foram: estudos com crianças acima de 12
meses de idade; pré-termos; pesquisas com animais; estudos relacionados a patologias
como: Autismo, Síndrome de Williams, Encefalite, Síndrome de Rett, Epilepsia,
Depressão, Atraso de Linguagem; estudos não relacionados à música como mecanismo
de plasticidade cerebral ou investigação acerca da experiência musical; estudos
psicanalíticos da música e patentes de produtos comercializáveis relacionados à música.
6
RESULTADOS
Estratégia e Busca
A pesquisa bibliográfica incluiu artigos de 1982 a 2012. A busca eletrônica
resultou em 96 artigos publicados na língua inglesa.
Avaliação e Inclusão dos Estudos
O estudo compreendeu 19 artigos relacionados à pesquisa experimental, 20
artigos de revisão e, ainda, 18 obras didático-pedagógicas sobre música, neurociências e
musicoterapia. Os dados obtidos permitiram traçar um paralelo entre os estudos
selecionados e a atual abordagem da musicoterapia.
Características dos Estudos Incluídos
Avaliamos 19 artigos que evidenciam artefatos preciosos acerca da experiência
musical com bebês, e, propusemos a discussão de 5 categorias que se referem à música:
Arquitetura Cerebral do Processamento da Música e Aprendizagem Musical,
incluindo artigos relacionados à estrutura de processamento auditivo em relação à
música e mecanismos de aprendizagem, subjacentes à experiência musical, ou seja,
processamentos cerebrais específicos que resultam na percepção e processamento da
experiência musical, que sem eles não é possível perceber os elementos distintos da
música; Fatores relacionados à Experiência Musical, que relacionam estudos
referentes à reorganização cerebral (plasticidade cerebral) e respostas hemodinâmicas à
música, envolvendo estruturas além do lobo temporal e que pode ser moldado pelo
ambiente e pela experiência musical; Treinamento Musical, contendo artigos que
evidenciam habilidades cognitivas, sociais, emocionais e musicais através do
treinamento precoce e da experiência musical; Motricidade e Ritmo, que reúne
informações da experiência musical no âmbito psicomotor comparado ao ritmo musical,
e, por fim Emoção, que enfatiza as estruturas que envolvem a percepção afetiva da
música e seu resultado no comportamento afetivo.
7
Dentre os artigos incluídos no presente estudo, 9 foram desenvolvidos no
Canadá, 3 na Hungria, 1 na China, 1 na Finlândia, 1 na França, 1 na Holanda, 1 na
Inglaterra, 1 na Itália e 1 no Japão. A tabela 1 mostra dados relativos aos artigos
selecionados quanto aos aspectos metodológicos, resultados e local de desenvolvimento
dos estudos incluídos.
20 artigos de revisão escritos na língua inglesa, resultantes da pesquisa
eletrônica, foram incluídos para embasar o estudo acerca da utilização da música com
bebês, como mecanismo de neuroplasticidade e desenvolvimento global infantil.
18 obras didático-pedagógicas foram consultadas, 9 na língua portuguesa e 9 na
língua inglesa buscando subsidiar a contextualização da intervenção precoce através da
música com bebês e a musicoterapia.
8
DISCUSSÃO
Baseado nos resultados da pesquisa realizada, o estudo realizado foi dividido em
3 capítulos, que seguem, onde serão discutidas as evidências encontradas a partir da
relação passiva ou ativa de bebês com a música, ou seja, através da percepção musical
ou da execução musical.
O primeiro capítulo contextualiza a música, a percepção musical, a relação da
consonância e dissonância com a percepção musical, bebês e música e a especialização
precoce à música, prática e formação musical e elementos musicais: ritmo, melodia,
harmonia, qualidade do som, timbre. O segundo capítulo discute as evidências da
experiência musical com bebês, segundo as habilidades inatas ou adquiriras. No terceiro
capítulo será discutida a musicoterapia como prática terapêutica de intervenção precoce,
abordando o processo terapêutico, as intervenções musicais e duas formas de
experiências musicais - a música ativa e passiva.
Capítulo 1. A MÚSICA
Com o atual avanço das pesquisas neurológicas temos uma melhor compreensão
sobre os aspectos da música no homem. De fato, a música provê diversas informações
que têm ajudado a neurociência a compreendê-lo melhor. Winkler et al. (2009) afirma
que a música está presente em todas as culturas humanas, e é considerada como uma
atividade inata do ser humano, pois todo bebê já nasce com uma estrutura sensível à
percepção e ao processamento de elementos musicais.
De acordo com o crescimento e
desenvolvimento do bebê, e com as
experiências vividas, os mecanismos de percepção e processamento gradualmente
evoluem com a criança (TRAINOR, 2008; TREHUB, 2003; ZATORRE, 2005). A
música pode ser considerada, assim como a fala, um dos sistemas universais, mais
complexos adquirido pelos seres humanos no início da vida (SAFFRAN, 2003), pois, da
aprendizagem motora à emoção a música pode suscitar mecanismos de processamento
tão amplos que recrutam diversos mecanismos neurológicos e sistemas físicos
específicos.
9
A música provoca alterações psicológicas, do humor e também fisiológicas, o
ritmo cardíaco acelera ou desacelera; a respiração também reage. Podemos sentir
aflição, dor e outras sensações através da música. Para aquele que ouve atentamente
uma peça musical, ela pode ser o melhor ansiolítico (ZATORRE, 2005). A música
mobiliza, gera prazer, envolve sistemas sensoriais, perceptivos, cognitivos, motor,
aprendizagem e memória. Entre muitos outros benefícios, podemos dizer que a música
facilita a aquisição de linguagem, velocidade na leitura, desenvolvimento intelectual
global,
promove
atitudes
positivas,
aumenta
a
criatividade
e
promove
o
desenvolvimento social, ajustamento, personalidade e autoestima (WEINBERGER,
1998). Isto se deve ao fato que, durante a experiência musical (seja ela ativa ou passiva),
uma extensa parte, senão todo o córtex é ativado, recrutando as diversas conexões
neurológicas, em ambos os hemisférios, induzindo a neuroplasticidade e a apoptose (a
formação de novas redes mais específicas em detrimento de outras menos
especializadas (LENT, 2010; TRAINOR, 2008).
A música lida com diversos sistemas. É concebida por nossos cérebros,
interpretada através de nossos corpos, percebida através dos nossos órgãos sensoriais e
novamente interpretada pelos nossos cérebros (TRAINOR, 2008). Evidências a partir de
imagens cerebrais (através de fMRI1) mostram que, durante a execução musical,
praticamente todo o córtex é ativado (WEINBERGER, 1998).
Por lidar com tantos fatores: perceptivo, cognitivo, emocional, social, físico,
entre outros, podemos classificar a música como sendo uma atividade multimodal. Ela
participa ativamente no nosso desenvolvimento. Weinberger (1998) afirma que a
música exercita o cérebro, pois desenvolve habilidades amplas que modificam a
estrutura cerebral: os sistemas sensoriais e perceptivos, cognitivo, motor e motivacional.
De fato, a música fornece uma ferramenta para estudar numerosos aspectos da
neurociência - a aprendizagem motora, a cognição, a percepção, a emoção - e não é
difícil de afirmar que ela pode render informações valiosas sobre o funcionamento do
cérebro. A chave para eventuais questões vêm a partir de uma compreensão mais
sistemática dos diferentes componentes cognitivos envolvidos e os circuitos específicos
neurais associados com eles (ZATORRE, 2005).
1
fMRI - Functional magnetic resonance imaging. Em português ressonância magnética funcional.
10
Durante a infância, diversos bilhões de neurônios se comunicam, formando um
sistema complexo resultando na criação de milhares de redes neurais. Isto se deve à
própria característica genética, no desenvolvimento de redes neuronais específicas e
conexões sinápticas, que proliferam e sofrem uma poda para formar conexões mais
eficientes para o processamento do som (LENT, 2010). A experiência também afeta as
conexões formadas. Bebês podem perceber estruturas musicais complexas, e caso não
ocorra um treinamento frequente, induzido pela experiência, podem perder tal
habilidade (TRAINOR, 2008).
Compreender a música é compreender o próprio homem, e um pouco do seu
funcionamento neurológico. Algumas funções cognitivas relacionadas à música, quanto
a relação de intervalo e tonalidade, por exemplo, dependem da segmentação dos
elementos musicais e da ordem em que cada evento ocorre no desenvolvimento humano
(ZATORRE, 2005). Isto caracteriza os eventos próprios da natureza humana e os
estimulados através da experiência musical.
Percepção Musical
Evidências a partir da ativação de determinadas áreas do cérebro sugerem que
uma região particular do hemisfério direito é especializada para representar informações
musicais. Entretanto, isto não significa que apenas um hemisfério processa a informação
musical. O fato do cérebro ter se especializado muito precocemente à percepção da
música atrai a atenção (ZATORRE, 2005). A percepção da música lida com diversas
áreas corticais trabalhando conjuntamente e independentemente que resultam no
processamento sonoro-musical. Estudos da fisiologia cortical, realizados por fMRI, nos
permitem vincular aspectos funcionais emocionais do cérebro para a música. A partir
desses estudos foram descobertas uma vasta rede de conectividade, cortical e
subcortical, envolvendo ambos os hemisférios, compreendendo estruturas complexas
(LAWS, 2010).
Estruturas superiores nas regiões ventromediais e dorsolaterais do córtex préfrontal também estão envolvidas na percepção musical; bem como o sistema límbico,
córtex temporoparietal direito, lobo temporal - córtex auditivo primário e secundário,
lobo frontal, parietal e occipital (HE; TRAINOR, 2009;
HOMAE et al., 2012;
11
NIEMINEN et al., 2011;
SAKATANI et al., 1999;
SCHMIDT; TRAINOR;
SANTESSO, 2003; TRAINOR; LEE; BOSNYAK, 2011). Além disso, indivíduos com
processamento musical pobre mostram deficiência no volume de matéria branca nas
regiões frontais inferiores (HYDE et al., 2006 apud TRAINOR et al., 2011) e redução
nos tratos de substância branca entre áreas superiores temporais e inferiores frontais
(LOUI et al., 2009 apud TRAINOR et al., 2011).
O processamento do tom (altura) e padrões temporais são essenciais para a
apreciação da música. Especificamente, bebês reconhecem mudanças de padrões
melódicos na tonalidade e no tempo (TREHUB, 2003). A percepção da emoção também
é um passo para a percepção musical (NIEMINEN et al., 2011).
Bebês são sensíveis a mudanças melódicas no contexto sequencial e no grupo
temporal, que engloba métrica, tempo, duração e timbre (TREHUB, 2003).
Entretanto, bebês de 12 meses de idade não reconhecem contrastes musicais que
não são significativos na sua cultura nativa (WERKER; LALONDE, 1988; HANNON;
TREHUB, 2005 apud FUJIOKA; MOURAD; TRAINOR, 2011). Desta forma, sabe-se
que para que o bebê possa compreender tais padrões musicais, é necessário que
desenvolvam redes neurais de ordem superior no processamento da informação
sensorial, a partir do segundo semestre de vida. Há envolvimento de áreas frontais, que
ampliam gradativamente a sua especialização no decurso do desenvolvimento, bem
como do córtex auditivo no lobo temporal primário, nas redes neurais que processam o
evento auditivo (FUJIOKA; MOURAD; TRAINOR, 2011).
O lobo frontal está envolvido no planejamento de ações e movimento, assim
como no pensamento abstrato. A região pré-frontal do lobo está relacionada a
estratégias e planejamento de ações motoras. As suas funções incluem o pensamento
abstrato e criativo, a fluência do pensamento e da linguagem, respostas afetivas e
capacidade para ligações emocionais, julgamento social, vontade e determinação para
ação e atenção seletiva. O córtex auditivo primário está situado no giro temporal
transverso superior (área de Broadman 41), que é responsável pelo reconhecimento
individual dos sons em relação à intensidade, à frequência e à localização da fonte
emissora. Os sons são analisados isoladamente e armazenados no córtex temporal com a
memorização de tons e sequência temporal (LENT, 2010).
12
Uma característica preditiva para a percepção musical é a própria experiência
musical. Sabe-se que o envolvimento com a música está relacionado com a memória de
trabalho e faz com que o ouvinte reconheça e armazene os dados dos sons que
prevalecem no ambiente (STIX, 2011). A respeito da discriminação dos sons, as
crianças, por exemplo, apresentam esta habilidade frente ao contexto melódico - elas
são capazes de distinguir entre grave e agudo. Nos adultos, por exemplo, tais fatores se
devem às predisposições pessoais experimentadas anteriormente, mas são muito mais
especializadas. Se uma criança é apresentada a um estímulo determinadas vezes, uma
mudança será causada nela, e posteriormente haverá reconhecimento ao estímulo, pois a
informação musical é retida na memória (STEWART; WALSH, 2005).
Entretanto, não é necessário que a criança, ou o bebê, se depare com diversos
estímulos sonoros para desenvolver tais habilidades. Esta predisposição para o
processamento dos intervalos, da melodia e do ritmo (que compreendem a música)
parece ter raízes biológicas muito bem estruturadas no nosso sistema auditivo
naturalmente desenvolvido. É possível que, na ausência de prolongada exposição à
música, os processamentos neurais ocorram; e, neste caso, mesmo em uma idade muito
precoce, quando o intervalo, a melodia, ou regularidades rítmicas são apresentados
(TREHUB, 2006 apud NIEMINEN et al., 2011).
Quanto a discriminação do tom (altura), tal fator pode ser melhor compreendido
por casos de pessoas que possuem ouvido absoluto2. Para Deutsch e Henthorn (2004), o
potencial para adquirir "ouvido absoluto" está universalmente presente ao nascimento e
permite a criança associar campos tonais com rótulos verbais durante o período crítico
da aquisição da linguagem.
Saffran e Griepentrog (2001), observaram que bebês aos 8 meses de idade
foram capazes de realizar um aprendizado perceptual na tarefa, isto fornece forte
evidência de que a capacidade de adquirir ouvido absoluto está realmente presente na
infância (DEUTSCH; HENTHORN, 2004). Entretanto, parece ser mais eficiente a
aquisição de um "ouvido relativo", e de acordo com o próprio desenvolvimento neural,
o sistema auditivo que processa os intervalos sonoros do tom são a base para a
2
Ouvido absoluto é uma rara dotação musical no qual a pessoa possui a capacidade de nomear ou
produzir uma nota de um tom em particular, na ausência de uma nota de referência. Acredita-se que a
prevalência seja estimada de menos de 1 em 10.000 na população em geral (DEUTSCH; HENTHORN,
2004).
13
percepção de melodias (STEFANICS et al., 2009). O ouvido relativo é essencial para o
processamento das melodias.
Vimos que algumas características estão presentes logo no nascimento da
criança, outras se desenvolvem a partir da experiência com o mundo. Sabemos que os
primeiros meses de vida de um bebê são dotados de um desenvolvimento muito amplo e
progressivo; entretanto, pouco se sabe como ocorre o desenvolvimento musical nos
primeiros meses de vida. Sabemos que a extensão da percepção e das capacidades
cognitivas são inatas, e em certas medidas, elas são moldadas pelo ambiente
(STEWART; WALSH, 2005).
Consonância versus Dissonância
Existem
diversas
especulações
que,
adultos,
predominantemente,
têm
preferências musicais consonantes ao invés de dissonantes (PERANI et al., 2010).
Consonante define-se a partir de uma coincidência dos harmônicos ou dos seus parciais
de uma nota ou tom. Neste caso, a consonância não é apenas vista como o intervalo
entre duas notas, mas sim a qualidade do som das próprias notas3 que resulta na
qualidade do som (timbre) (CHEDYAK, 1986).
Bebês também são sensíveis à consonância e dissonância de padrões musicais.
Eles categorizam intervalos com base na consonância e dissonância e retém
informações precisas de padrões com intervalos consonantes (TREHUB, 2003).
Empiricamente podemos pensar que uma forte hipótese para a preferência de
consonâncias contra dissonâncias, se deve ao fato da exposição as músicas específicas
da cultura. Entretanto, sabe-se que a preferência de consonâncias está muito mais ligada
à habilidade auditiva (TREHUB, 2003). A habilidade auditiva conforme o passar dos
anos vai se refinando e diferenciando-se devido à percepção dos sons musicais
(STEFANICS et al., 2009).
O padrão de ativação observado na literatura atual reflete uma sensibilidade do
cérebro do recém-nascido para sons dissonantes, e assim como evidenciado em outros
estudos, bebês têm preferências por sons mais consonantes. A percepção de estímulos
3
Intervalos consonantes dividem-se em dois grupos: perfeitos e imperfeitos. São consonâncias
perfeitas: uníssonos e oitavas; e quartas e quintas justas. São consonâncias imperfeitas: terças maiores e
sextas menores; e terças menores e sextas maiores (CHEDYAK, 1986).
14
consonantes e dissonantes é uma função da propriedade física do estímulo auditivo e
indica que o bebê, logo após o nascimento, apresenta sensibilidade e respostas neurais
emocionais (sistema límbico) quanto às alterações nos níveis de consonância e
dissonância (PERANI et al., 2010).
Bebês também apresentam uma estética rudimentar para a música consonante.
Por exemplo, bebês prestam mais atenção enquanto escutam Minuetos de Mozart em
versões alteradas ao invés da versão original, no qual os intervalos dissonantes
substituem diversos intervalos consonantes (TREHUB, 2003).
Entretanto, o fato de bebês terem preferências por sons consonantes, não quer
dizer que eles processam a música como os adultos. Bebês demonstram preferência para
tons de ao redor de um tom central até à idade de 6 meses (T4, 4º, 5º e 8ª). Aos 11
meses, grande parte da escala musical já é compreendida (T, 3º, 4º, 5º, 6º e 8ª) 5.
Conclui-se que a produção de tons durante o segundo semestre de vida foi influenciada
pela preferência de tons pertencentes à série harmônica presente na música tonal
(COHEN, 2000).
"Vários estudos utilizando o procedimento de procura da fonte têm
descoberto que bebês com até 3 meses, como adultos, preferem intervalos
consoante ao invés de dissonantes. Recentemente, processos cerebrais de
música consonante em neonatais, investigados com imageamento por
ressonância magnética funcional (fMRI), têm mostrado que diferenças da
música dissonante, podem ser devido à estrutura e as características do
ouvido interno e do nervo auditivo. Esta preferência pela consonância tem
sido colocada como um importante subjacente à emoção em música. Em
suma, o processamento sensorial de propriedades musicais básicas, no nível
do tronco cerebral e córtex auditivo, juntamente com a preferência central ou
preferência sensorial para algumas dessas propriedades, ocorre em bebês
muito jovens, permitindo assim o desenvolvimento posterior de uma resposta
estética mais sofisticada às propriedades musicais mais complexas"
(NIEMINEN et al., 2011, p. 1140).
Bebês e Música
Bebês são inerentemente musicais. Tal afirmação está baseada na sensibilidade
4
T é a tônica ou fundamental do acorde ou escala musical, é a primeira nota, ao qual se originará o
sistema musical (CHEDYAK, 1986).
5
O 3º e 6º grau de uma escala musical é considerado como consonante imperfeito. As consonâncias
podem ser usadas livremente sem necessidade de alguma preparação e podem ocorrer nos tempos fracos
ou fortes (CHEDYAK, 1986).
15
das características essenciais do som e da música6 (TREHUB, 2003). Antes do
nascimento, o feto percebe a informação auditiva nas semanas finais da gestação e as
características desta entrada podem ser reconhecidas após o nascimento (PERANI et al.,
2010).
A experiência de uma determinada frequência sonora, ou estímulo musical,
modifica a resposta cortical auditiva em humanos, e desta forma, o cérebro está sujeito a
alterações susceptíveis de plasticidade através do curso do seu desenvolvimento.
Exposições à música, ou a um timbre específico durante a infância, aumentam a sua
representação cortical, que resulta em um processamento mais preciso posteriormente
(TRAINOR et al., 2011).
A circuitaria musical dos bebês é surpreendentemente sofisticada. Bebês podem
ser considerados minimúsicos: eles são capazes de distinguir diferentes escalas e
acordes, são capazes de ter preferências por sons consonantes ao invés de dissonantes
(ZATORRE, 2005). Com apenas 2 meses de idade, o bebê prefere tais sequencias. Aos
4 meses de idade, eles ouvem e se comportam contentemente diante de melodias
folclóricas. Também se contorcem e agitam-se ao ouvir as mesmas melodias em versões
dissonantes (TREHUB, 2003).
Bebês podem reconhecer tons ou melodias tocadas para eles ao longo de
períodos de dias ou semanas e são sensíveis às regularidades dos sons. O sistema
nervoso dos bebês parece estar equipado com a capacidade de categorizar os diferentes
sons musicais que atingem os seus ouvidos com o objetivo de construir uma gramática
ou um sistema de regras (ZATORRE, 2005). Eles também podem demonstrar
sensibilidade às características temporais de sequências musicais (COHEN, 2000).
Aos 6 meses de idade, bebês são capazes de combinar a representação de seu
tom (emitido) com uma representação de um tom produzido externamente. Neste caso,
o comportamento de vocalização, ao longo do desenvolvimento musical de alguns
bebês tem sido estudado por diversos cientistas (COHEN, 2000).
As surpreendentes habilidades musicais dos bebês levantam uma série de
questões relativas à arquitetura dos sistemas neurofuncionais subjacentes. Uma questão
fundamental nesse sentido diz respeito à arquitetura funcional do córtex auditivo.
6
As propriedades do som são: duração, intensidade, altura e timbre. São características essenciais da
música: ritmo, melodia e harmonia (BRUSCIA, 2000).
16
Recentes estudos neurofisiológicos demonstram fluxos de processamento independentes
para localização e identificação de som, que é realizado por sistemas neurais
funcionalmente independentes. Bebês estão equipados com esse sistema refinado desde
o nascimento (FAIENZA; COSSU, 2003).
Algumas habilidades são desenvolvidas durante o período gestacional. Os
mecanismos básicos neurais, localizados no tronco cerebral são um exemplo disso. O
córtex auditivo, aliado a este mecanismo é responsável por representar fontes múltiplas
de sons ativos, e apresentam-se funcionais ao nascimento. (WINKLER et al., 2003 apud
NIEMINEN et al., 2011).
Assim, os bebês são capazes de perceber aspectos relevantes da música e dos
sons. Além disso, a sua discriminação de diferenças temporais e tonais, bem como a sua
percepção de classes equivalentes parece ser semelhante aos ouvintes mais experientes
(TREHUB, 2003 apud NIEMINEN et al., 2011). Eles são sensíveis às propriedades
musicais, como melodia, intervalos, padrões rítmicos e alguns aspectos da harmonia
(TREHUB, 2006; TREHUB et al., 1997 apud NIEMINEN et al., 2011).
Entre as idades de 7 e 9 meses, os bebês podem categorizar os sons de alguns
instrumentos musicais. Estudos de discriminação melódica com bebês de 9 a 11 meses
de idade também revelaram a capacidade de distinguir uma diferença na frequência de
um semitom (COHEN, 2000).
A sensibilidade rítmica e tonal surge dentro do primeiro ano de vida. Alterações
no processamento destas propriedades musicais ocorrem durante toda a infância e vão
se especializando de acordo com o desenvolvimento e a experiência, sem que haja uma
formação musical específica (NIEMINEN et al., 2011).
Um número de conclusões muito claras nos ajudam a entender como o cérebro é
esculpido pela experiência musical. Estas mudanças estão diretamente relacionadas com
a idade em que o estímulo é induzido. A modificação mais ampla para o cérebro ocorre
muito precocemente, ao passo que, se desenvolvido mais tardiamente, os efeitos
ocorrem, mas se mostram muito menores (ZATORRE, 2005).
Estudos relataram a capacidade de lactentes para reter um conjunto de tons
compreendendo uma sequência. Neste caso, a repetição é um fator consistente na
indução da tonalidade que estabelece uma representação estável. O armazenamento de
eventos auditivos repetidos é necessário para a indução da tonalidade; e, no caso da
17
tonalidade, o que é armazenado é o conjunto de tons apresentados na música (COHEN,
2000).
Quanto ao desenvolvimento da linguagem, bebês detectam mudanças no tom em
uma sequência de quatro notas quando as sílabas são redundantes, mas não identificam
a sequência idêntica (tonal) quando as sílabas são variadas. Bebês são mais aptos a
detectar uma mudança na sílaba em uma sequência cantada ao invés da sílaba idêntica
em uma sequência falada (LEBEDEVA; KUHL, 2010), portanto, eles se demonstram
aptos a compreender e reter a região tonal (graves ou agudos) e a direção tonal
(ascendente ou descendente).
Especialização precoce à música
Experiências sonoro-musicais são fenômenos robustos que se desenvolvem
precocemente (desde o período de gestação) e amadurecem rapidamente durante as
fases iniciais do desenvolvimento (FUJIOKA et al., 2011).
Uma região cerebral essencial para o processamento musical, amplamente
envolvida à percepção, é o lobo temporal. A ativação de regiões primárias, secundárias
e superiores no lobo temporal, na porção direita do hemisfério do recém-nascido,
indicam que o cérebro responde à informação musical; em especial o córtex auditivo
primário direito que está envolvido na análise tonal e integração, ou seja, na
decodificação da região tonal (grave ou agudo), direção tonal (ascendente ou
descendente) e seu timbre; pré-requisito para o processamento da música (PERANI et
al., 2010).
Quanto ao desenvolvimento do sistema auditivo, sabemos que:
"O sistema auditivo humano começa a desenvolver no útero
(KISILEVSKY e LOW, 1998) e desempenha um papel fundamental na
aquisição de conhecimentos linguísticos e musicais na infância. Bebês de seis
meses podem discriminar contrastes fonéticos (WERKER e LALONDE,
1988), detectar diferenças de padrões rítmicos (HANNON e TREHUB, 2005)
e reconhecer uma melodia executada em diferentes tons musicais
(PLANTINGA e TRAINOR, 2005) (FUJIOKA et al., 2011, p. 521)".
As demais áreas do hemisfério direito do córtex auditivo, fora da zona primária,
são especializadas no processamento de frequências, na codificação e reconhecimento
de melodias e na junção auditivo-motora. Portanto, a maturação das redes oscilatórias
18
que
integram
os
componentes
relacionados
ao
processamento
do
som
e
consequentemente a música, ocorrem logo aos 4 meses de idade, e que, tais redes
reorganizam-se de tal forma que as funções específicas são transferidas para redes de
ordem superiores por cerca dos 12 meses de idade - quando está ocorrendo a
aprendizagem perceptual auditiva de sons específicos da cultura. Isto sugere uma ponte
de funções auditivas e cognitivas, como acesso à memória de longo prazo que
provavelmente está acompanhada pelo desenvolvimento de mecanismos oscilatórios
neurais hierárquicos (FUJIOKA et al., 2011).
Sugerimos que a maturação dos distintos componentes que processam a música
ocorrem em paralelo, e que funções sensoriais específicas ligadas às redes tálamo
corticais são transferidas para redes desenvolvidas de ordem superior, gradativamente
até que mecanismos nervosos oscilatórios hierárquicos são alcançados por todo o
cérebro (FUJIOKA et al., 2011; PERANI et al., 2010).
Quanto às atividades no interior das estruturas límbicas, sugere-se que recémnascidos envolvem recursos neurais no processamento emocional em resposta aos
estímulos musicais, porém não há evidências observadas no cérebro do recém-nascido
exposto à informação musical que evoluem para isto ou está exclusivamente envolvida
no processamento da música (PERANI et al., 2010).
Desta forma, o processamento musical desenvolve-se a partir de uma rede
espacial e funcional distinta de componentes, tornando-se cada vez mais complexa e
específica, transferindo-se para redes de ordem superiores durante o primeiro ano de
vida do bebê (FUJIOKA et al., 2011).
Prática e formação musical
Sabe-se que a formação musical está presente precocemente na infância. A
formação musical atua como tônico cerebral, porém uma série de perguntas
permanecem sem respostas sobre quais tipos de prática melhoram as funções globais da
pessoa (STIX, 2011).
Evidências têm mostrado que a prática de um instrumento musical melhora a
atenção a memória de trabalho e o autocontrole (STIX, 2011). Bebês diminuíram suas
angústias quando confrontados com novos estímulos após a participação tanto em aulas
19
de música ativa, quanto passivas. Seus comportamentos foram moldados pela vivência e
experiência musical. Em outras palavras, a música preparou-os para enfrentamento de
novas atividades, fazendo com que eles não sofressem pela ansiedade de novas
situações (GERRY, D.; UNRAU; TRAINOR, 2012).
Stix (2011) defende uma formação musical intensiva a partir da infância
precoce. O autor acredita que a música promove competências, além de apenas uma
habilidade para tocar um instrumento. A concentração do músico sobre a acústica do
som ajuda com a compreensão da linguagem e promove as habilidades cognitivas:
atenção, memória de trabalho e autorregulação.
O fundamento para tal pedagogia de formação pessoal está na diferença entre
músicos e não músicos. Músicos percebem os sons mais claramente do que os não
músicos, têm habilidades motoras mais precisas, bem como a sua acuidade visual,
porque praticar um instrumento treina o cérebro inteiro (STIX, 2011). Esta característica
se deve ao fato da atividade elétrica auditiva na cóclea enviar informações para o tronco
cerebral, antes de enviar para o córtex ou retornar para a cóclea. Os potenciais evocados
auditivos correspondem à atividade elétrica que ocorre no sistema auditivo, desde a
cóclea, nervo coclear, tronco encefálico e córtex, em resposta a uma estimulação
auditiva (NASCIMENTO, 2009). Este processo atua sobre diversos planos e capacita ao
músico desenvolver habilidades globais, além daquelas especialmente auditivas.
É inegável que a música que nos afeta, pode ter um efeito no nosso
comportamento (LECANUET, 1996 apud MCPHERSON et al, 2006). Lactentes, desde
a mais precoce idade respondem à música e aos mais variados níveis musicais, como:
mudanças na melodia, tons, ritmos, tempo. Tais capacidades, conforme o
desenvolvimento natural da criança e o treino, se especializam de tal forma, que
processam estímulos cada vez mais complexos7 (COHEN, 2000).
Sabe-se que o objetivo de um treino musical é capacitar as pessoas para perceber
e produzir formas mais elaboradas e complexas. Um programa ideal para a formação
musical deve conter uma ampla variedade de formas musicais, incluindo formas
métricas (ritmo) (GERRY, D. W.; FAUX; TRAINOR, 2010). Outra justificativa sobre a
formação musical é a sensibilidade à estrutura harmônica. Para tal percepção, o sistema
7
Como por exemplo a percepção da dissonância que dá base para a compreensão da harmonia, que
se inicia por volta de 5 anos de idade.
20
auditivo requer familiarizar-se com diversas estruturas musicais consonantes e
dissonantes (TRAINOR, 2008).
Desta forma, é possível treinar bebês numa fase muito precoce no seu
desenvolvimento para a formação musical (GERRY, D. et al., 2012; GERRY, D. W. et
al., 2010).
Elementos musicais
A música envolve dois amplos aspectos; estrutura temporal (ritmo) e estrutura
espectral (altura8). Ambos são multidimensionais e envolvem diversos padrões de
complexidade (TRAINOR, 2005). Ainda, a música é formada por três elementos
distintos:
ritmo, melodia e harmonia (CHEDYAK, 1986). Tal predisposição para
processamento do ritmo, melodia e harmonia parece ter raízes biológicas no nosso
sistema auditivo, ao qual está em constante e natural desenvolvimento (NIEMINEN et
al., 2011).
Uma sensibilidade para alguns ritmos específicos, bem como melodias começam
a emergir ao final do primeiro ano de vida, onde a criança é capaz de reconhecer
avidamente tais componentes e reagir diante deles através do seu comportamento
(TRAINOR, 2012). Entretanto, evidências têm mostrado que mesmo em idades
precoces (no 2º ou 3º dia puerperal, em bebês com idade gestacional entre 37 e 40
semanas) o bebê é capaz de processar intervalos tonais (STEFANICS et al., 2009). Em
contrapartida, a harmonia só começa a ser claramente interpretada depois do 5º ano de
vida da criança (TRAINOR, 2008).
Ritmo
O ritmo talvez seja um dos preceptores acerca da percepção da experiência
musical, devido à sua importância no sistema musical. O ritmo prediz o andamento da
música, bem como agrupa os eventos sonoros e os segmenta dentro de uma
categorização hierárquica (TRAINOR, 2005). Baseado nisso, Zatorre (2005) afirma que
toda mãe é capaz de provar que seu bebê reage ao tom e ao ritmo da sua voz.
8
Aqui também pode ser compreendido como tom ou melodia.
21
Os bebês exibem um intenso interesse pela música, como evidenciado por vários
experimentos (TREHUB, 2003). Especialmente, os bebês demonstram preferências por
gostos musicais ou por intervalos agradáveis (consonantes) a partir do seu
comportamento motor. Por exemplo, quando a criança começa a balançar, a
movimentar-se positivamente, a interagir com a música, ela participa de um processo
fundamental que seguirá ao longo da vida. A interação entre o som e o movimento
desenvolve-se cedo9 e apresenta-se fundamental para o desenvolvimento da música ao
longo da vida. Tem sido desde há muito tempo conhecido, que os bebês são atraídos
para a música e sensíveis ao seu conteúdo emocional (PHILLIPS-SILVER; TRAINOR,
2005). Uma hipótese para esta preferência é a estética e o envolvimento emocional às
qualidades consonantes da música (NIEMINEN et al., 2011;
TRAINOR, 2005;
TREHUB, 2003).
A música sempre está associada com a atividade motora. "A experiência da
música envolve a percepção, sequências intencionais e organização motora como causa
da informação auditiva temporal síncrona" (MOLNAR-SZAKACS;OVERY, 2006
apud NIEMINEN et al., 2011, p. 1140). Bebês, crianças e adultos se comportam
ativamente à música e são capazes de sincronizar os seus movimentos com a música
(NIEMINEN et al., 2011). Uma hipótese para isto deve-se ao fato do ritmo musical
poder ter sua origem na atividade motora que controla a locomoção, respiração e a
frequência cardíaca. Esta experiência motora e auditiva precoce cria representações que
fazem parte de uma extensa cadeia de conexões no cérebro. Embora a música induza à
batida, o movimento envolve conexões cerebrais multissensoriais entre as áreas motoras
e auditivas. Portanto, a qualidade do nosso movimento esta condicionada à forma com
que nós interpretamos o ritmo, e neste caso, a música (TRAINOR, 2008).
Melodia
A trajetória desenvolvimental à aquisição da estrutura musical da melodia está
intimamente ligada às preferências musicais acerca da consonância. A sensibilidade à
escala musical se desenvolve nos primeiros anos de vida. Entretanto, a melodia caminha
9
No estudo de Phillips-Silver e Trainor (2005) bebês de 7 meses de idade foram treinados a seguir
um padrão rítmico.
22
quase que simultaneamente com a harmonia, devido ao fato de uma melodia tonal estar
acompanhada à um número delimitado de acordes (TRAINOR, 2005).
Para a percepção da melodia, também é necessário integrar áreas de
processamento que decodificam a altura, intensidade e o timbre, localizadas no córtex
temporal, associadas às áreas que processam prazer e memória (COHEN, 2000;
PHILLIPS-SILVER; TRAINOR, 2005)
A percepção da melodia também está ligada à fatores culturais específicos que
resultam em intervalos consonantes e dissonantes (TREHUB, 2003).
Harmonia
Estrutura harmônicas10 dominam a música ocidental. A percepção da harmonia
parece desenvolver-se mais tardiamente com relação à percepção de outros elementos
musicais (COSTA-GIOMI, 2003). Sem uma específica formação musical a
sensibilidade à harmonia surge em crianças só depois de cerca de 5 anos de idade
(TRAINOR, 2008). Em contrapartida, acredita-se que as crianças não distinguem
claramente a harmonia até por volta dos 6 anos de idade. Esta afirmativa baseia-se na
preferência infantil, entre 2e 7 meses de idade, de as crianças terem sensibilidade clara
por consonâncias ao invés de dissonâncias acompanhadas a uma melodia (COSTAGIOMI, 2003).
Estruturas harmônicas dependem de aprendizagem. Em contraste com
consonância sensorial e dissonância, há mais flexibilidade na forma como eles são
percebidos (TRAINOR, 2008). A harmonia não depende da percepção e sim da
compreensão, portanto ela requer um amplo processamento cognitivo. Evidências para a
percepção dos centros tonais estáveis (função dominante do acorde, no grau I) 11 não
emergem até à idade de 5 ou 6 anos. Por volta dos 7 ou 8 anos de idade a criança
apresenta sensibilidade para os intervalos da escala musical (COHEN, 2000). Aos 8
anos, uma criança consegue distinguir cadências conclusivas ou inconclusivas, e têm
No estudo de Phillips-Silver e Trainor (2005) bebês de 7 meses de idade foram treinados a seguir um
padrão rítmico.
úsica (TRAINOR, 2008).
11
A função dominante no grau I (estável) compreende ao acorde principal da escala musical, cuja
nota é fundamental. Denomina-se estável por ter um sentido conclusivo e não suspensivo. (CHEDYAK,
1986).
23
uma ideia vaga da função dominante do acorde. Aos 10 anos de idade, a criança é capaz
de abordar mais analiticamente a percepção de cadências tonais e a função tônica dos
acordes dominantes (COSTA-GIOMI, 2003).
A flexibilidade do nosso sistema auditivo e sua dependência da aprendizagem
nos permite perceber diferentes estruturas musicais. Uma característica positiva à isto é
a criação de gostos musicais que mudam de acordo com a familiaridade e experiência
musical (TRAINOR, 2008).
Crianças mais velhas têm os pré-requisitos necessários para a inferência de sons
mais complexos, pois o acúmulo de informações acústicas, nos sistemas de memória,
tem base para suportar tais tarefas. O desempenho infantil é muitas vezes inferior,
quando comparado a indivíduos mais velhos em diversas funções. Esta diferença pode
ser devido à imaturidade dos sistemas de memória dos bebês (COHEN, 2000).
Dado o curso de desenvolvimento da plasticidade neural, com relação a música,
o modelo de plasticidade postulado pela aquisição da gramática musical no
desenvolvimento da memória de longo prazo, oferece um atalho para a indução da
tonalidade (diferenciação da altura - grave e agudo,
sentido - ascendente ou
descendente), que é um passo fundamental para a interpretação da harmonia e depende
da quantidade, do tipo de música e qual foi a relação do bebê com a música ao qual ela
foi exposta no primeiro ano de vida (COHEN, 2000).
Timbre
O timbre evoca uma atividade elétrica encefálica na região do córtex auditivo
secundário. Trainor et al. (2011) comprova esta afirmativa devido ao fato que, durante
uma audição musical, o instrumento de conhecimento e domínio do músico, é
reconhecido e compreendido com maior facilidade com relação à outros instrumentos e
sons. Estudos através de um MEG12 mediram respostas musicais em crianças durante o
período de um ano e acharam respostas positivas (potencial evocado através do MEG)
associadas a memória e a processos atencionais. Estas respostas estão associadas à
iniciação musical e ao processo neurológico que evidencia o reconhecimento do timbre
e da música, em comparação às crianças que não treinaram música (TRAINOR et al.,
12
Magnetoencefalógrafo.
24
2011). Isto sugere um efeito causal para o reconhecimento do timbre a partir de um
treinamento musical ou das experiências musicais.
Estudos demonstraram que uma resposta negativa surge normalmente entre 2 e 4
meses de idade (HE et al., 2007 apud TRAINOR et al., 2011), mas uma resposta
positiva apresenta-se a partir do 6º mês (TEW et al., 2009 apud TRAINOR et al., 2011).
O estudo de Trainor et al. (2011) verificou, se a exposição de timbre musical em
lactentes de 4 meses conduz alterações plásticas na resposta do cérebro a esses timbres.
O autor comenta que:
"Quando gravações de EEG são analisadas na frequência dominante,
músicos também mostram maiores respostas gama para tons musicais em
comparação aos não músicos (SHAHIN et al. 2008; TRAINOR et al. 2009).
Embora estes estudos não podem definitivamente indicar se as diferenças são
causadas pela experiência musical, estudos mostrando avançado
processamento para tons no timbre do instrumento do músico sugerem que a
experiência desempenha um papel importante" (PANTEV et al. 2001;
SHAHIN et al. 2003; SHAHIN et al. 2008)" (TRAINOR et al., 2011,p. 194).
Ainda afirma que:
"Embora simples repetida exposição a um estímulo podem ser
suficiente para induzir mudanças plásticas nas respostas de P2 (SHEEHAN et
al., 2005). Experiência acústica também modifica as propriedades de 40Hz
auditivo estado estacionário resposta (GANDER et al. 2010) que localiza ao
córtex auditivo primário" (TRAINOR et al., 2011,p. 194).
Trainor et al. (2011) sugere que a exposição, na infância, para tons de um timbre
particular ajusta a nitidez e amplia a percepção para tons daquele timbre. Foi
demonstrado que uma exposição curta (inferior a 3 horas) para um timbre particular em
meio à grande variedade de sons que os bebês são expostos, resulta em uma mudança
plástica na resposta ao timbre não ouvido previamente. O autor também apresenta uma
hipótese para esta representação tímbrica; a influência ambiental e cultural para
determinados timbres, como a da guitarra, por exemplo. O fato de estar presente na
cultura ocidental, influencia a percepção para a exposição deste timbre. Neste caso,
mudanças plásticas ocorreram após a exposição passiva (audição musical) quanto às
melodias de um timbre particular. No caso, não houve uma formação ativa ou processo
atencional.
Quanto à forma passiva de experimentar música, conclui-se que quando uma
rede neural está em um estado relativamente desorganizado, como no cérebro do bebê, a
exposição passiva é mais eficaz, ao invés da experiência ativa. De acordo com Trainor
25
et al. (2011), o fato da rede se especializar para entradas sonoro-musicais, podem ser
conferidos à uma exposição relativamente pequena aos tons de timbres particulares, que
resultam em alterações plásticas para as representações gerais do timbre em bebês com
4 meses de idade e evoluem rapidamente para respostas comportamentais.
Capítulo 2. EVIDÊNCIAS ACERCA DA UTILIZAÇÃO DA MÚSICA COM
BEBÊS
Considerando a influência da música na fisiologia cerebral, bem como, nos
mecanismos de neuroplasticidade cerebral, conforme abordado no capítulo anterior,
podemos considerar a música uma poderosa ferramenta de avaliação e intervenção.
Segundo Haden et al. (2009), é possível predizer algumas deficiências em idades muito
precoces.
Para abordar as evidências científicas acerca da experiência musical com bebês
foram selecionados e analisados 19 artigos que evidenciam artefatos preciosos. Na a
Tabela 1 apresentamos uma síntese dos artigos, agrupados conforme proposto pelos
autores, os quais foram discutidos considerando as 5 categorias que se referem à
música: Arquitetura Cerebral do Processamento da Música e Aprendizagem Musical;
Fatores relacionados à Experiência Musical; Treinamento Musical; Motricidade e
Ritmo; Emoção.
Tabela 1. Evidências da utilização da música com bebês.
Materiais e Métodos
Participantes
Resultados
Local de
Desenv. do
Estudo
G1 com 3
meses e
G2 com 6
meses
Ativações nas regiões bilaterais temporais em
ambas as idades foram notadas em todos os
estímulos sonoros. A ativação dependente do
estímulo foi observada na região
temporoparietal de ambas as idades. Os
resultados indicam que o cérebro do bebê é
capaz de responder às diversas variações de tom
(altura). Sugere-se que a região temporoparietal
direita aumenta a sensibilidade às sequências
auditivas.
Japão
6 meses
Os resultados indicaram uma aceleração na
aquisição musical dos bebês, devido a utilização
de uma técnica pedagógica apropriada. Além
disso, a experiência musical interativa parece
facilitar o desenvolvimento cognitivo sob a
forma de utilização de gestos comunicativos pré
linguísticos e linguístico, devido à interação
com os pais e a socialização. A música
favoreceu a expressão, o canto, aumentou a
motivação dos pais e estimulou os bebês. Fica
claro que um forte agente para o resultado é a
interação social positiva entre os pais e bebês
Canadá
6 meses
Bebês percebem alterações em 8%, 6% e 4% na
desafinação do tom, sem diferença significativa
entre eles. Alterações de 2% e 1% demonstram
desempenho pior no reconhecimento, quando
comparadas às variações mais amplas. Os
resultados indicam que os bebês são sensíveis às
violações da estrutura harmônica, e sugere que
eles separem dois objetos sonoros
simultaneamente.
Canadá
Autor
Tipo de
Estudo
Técnica
Utilizada
Espectroscopia
de
Infravermelho
(NIRS)
Homae et al., 2012
Experimental
Gerry et al., 2012
Mensuração da
sensibilidade à
escala
ocidental;
Mensuração do
desenvolvimen
Experimental
to
socioemocional
; Mensuração
do
desenvolvimen
to do início da
comunicação
Folland e Butler, 2012
Experimental
Observacional
Desenho
Tipo de Estímulo /
Método
Transversal
Escala cromática, contendo 25 tons de
C3 a C5, com duração de 50ms (cada
tom), dividido em 3 conjuntos de
estímulos. 1. Ascendendo e
descendendo as escalas por 24
semitons. 2. Ascendendo e
descendendo as escalas por 12
semitons. Ascendendo e descendendo
as escalas por 4 semitons. As
diferenças entre os conjuntos estão na
ordem dos tons apresentados
Longitudinal 6 meses de
aulas
Fazer musical ativo/interação musical
projetado para desenvolver as
habilidades musicais por meio da
participação e observação (bebês e
pais). Foi construído um repertório de
canções de ninar, canções de ação e
cantigas de roda.
Utilização do CD em casa para repetir
as músicas e rimas diariamente.
Transversal
1. Tom com altura de 240Hz, contendo
seis harmônicos iniciais (240, 480, 720,
960, 1200 e 1440Hz) e duração de
500ms.
2. Tom desafinado foi alterado o 3º
harmônico (720Hz), em percentil
superior de 1%, 2%, 4%, 6% ou 8%.
N
46 (G1 =
22 e G2 =
24)
34 (20
música
ativa e 14
música
passiva)
24
Idade
26
Trainor et al., 2011
Fujioka et al., 2011
Blasi et al., 2011
Perani et al., 2010
Experimental
EEG (124
eletrodos)
EEG (Lobos:
Frontal,
Temporal,
Central e
Experimental
Occipital clusters com 22
- 30 eletrodos
cada)
Experimental
Experimental
fMRI
fMRI
Longitudinal
Transversal
Exposição à timbres de guitarra (G1) e
marimba (G2).
2 notas no piano repetidas
aleatoriamente (uma 80% e outra 20%
repetida)
Transversal
4 categorias de estímulos auditivos:
vocalizações não verbais
(emocionalmente neutra,
emocionalmente positiva e
emocionalmente negativa), e sons
ambientais familiares a idade da
criança.
Transversal
3 conjuntos de estímulos. 1. Música
tonal (maior e menor) "ocidental",
duração de 21seg em 124bpm. 2.
Manipulação de 1 semitom (acima ou
abaixo) da música 1 , no final das
cadências. 3. Voz principal foi
aumentada em 1 semitom
25 (13 no
G1 e 12 no
G2)
25 (G1 =
12 e G2 =
13)
21
18
4 meses
Exposição relativamente pequena à sons
particulares de um timbre modificam o sistema
perceptivo e a representação geral para este
timbre. Isto indica plasticidade em bebês com
até 4 meses de idade, e que eles são capazes de
reconhecer o som da guitarra em contraste com
o da marimba.
Canadá
G1 com 4
meses e
G2 com
12 meses
Os achados sugerem que uma atividade neural
auditiva específica, envolve maior velocidade e
alcance nas redes neurais, na idade de 12 meses,
quando a memória a longo prazo para a
representação musical está formada. A
maturação dos distintos componentes rítmicos
ocorre em paralelo, e que redes oscilatórias
reorganizam-se de tal forma, que as funções
específicas são transferidas para as recém
desenvolvidas redes de ordem superiores (aos
12 meses), quando ocorre a aprendizagem
perceptual auditiva.
Canadá
3a7
meses
Observou-se ativações no giro medial temporal,
giro lingual direito, giro medial frontal, putâmen
direito e giro fusiforme direito. Vocalizações
neutras provocaram maior ativação do que o
estímulo não vocal no medial anterior direito,
giro superior temporal e no giro medial frontal.
Em contraste, o estímulo não vocal provocou
maior ativação no giro esquerdo superior
temporal. Não foram detectadas diferenças entre
vocalizações positivas e neutras, entretanto,
vocalizações negativas (tristes) mostraram
grande ativação na ínsula e giro reto.
Inglaterra
3 dias
Música evocou ativações predominantes do
hemisfério direito, no córtex auditivo primário e
superior. As músicas alteradas provocaram
diminuição no córtex auditivo direito e
ativações no córtex frontal inferior esquerdo e
sistema límbico foram vistas.
Itália
27
Kotilahti et al., 2010
Dehaene-Lambertz et
al., 2010
Winkler et al., 2009
Stefanics et al., 2009
Espectroscopia
de
Experimental
Infravermelho
(NIRS)
Transversal
Transversal
5 peças faladas (gravadas previamente)
extraídas de "Chapeuzinho Vermelho"
e estímulos musicais extraídos de um
concerto para piano de Mozart.
3 estímulos - música, voz materna e
voz estranha
13
7
1 a 4 dias
O estudo apresentou assimetrias no
processamento da audição da fala e da música,
no hemisfério esquerdo (HE) e hemisfério
direito (HD). Não houve evidência a respeito de
uma lateralização específica para a audição da
fala e da música. Entretanto, foi evidenciado
que os bebês foram mais reativos à fala ao invés
da música, e a área do HE predominou ao HD,
com relação à ativação. Sugere-se que uma
típica lateralização ao HE inicia-se na infância,
porém não apresenta-se inteiramente
desenvolvida.
Finlândia
2,5 meses
Verificou-se uma assimetria já presente nas
áreas temporais posteriores dos lactentes: há
vantagem do hemisfério esquerdo para a fala em
relação à música ao nível do lobo temporal. As
regiões posteriores temporais são sensíveis ao
ambiente auditivo. Além disso, ao ouvir a voz
da mãe, a ativação foi observada em várias
áreas, incluindo áreas envolvidas no
processamento emocional (amígdala, córtex
órbito-frontal), mas também, fundamentalmente,
em grande medida do lobo temporal na porção
esquerda posterior, o que sugere que a voz da
mãe desempenha um papel especial na formação
precoce das áreas de linguagem.
França
Experimental
fMRI
Experimental
EEG (C3,Cz,
C4 -sistema
10-20)
Transversal
5 blocos de padrões rítmicos (bumbo,
chimbau e caixa de bateria)
14
2 a 3 dias
Experimental
EEG (F3, Fz,
F4, C3, Cz e
C4, de acordo
com o sistema
10-20)
Transversal
Par de tons sinusoidais com 50ms de
duração em frequência descendente.
21
2 a 3 dias
Bebês detectam omissões ocasionais de padrões
rítmicos. É possível que neonatos construam
uma representação detalhada do ritmo. Isto
permite não somente identificar a batida, mas
criar uma ordem hierárquica na representação
do ritmo.
O sistema auditivo do neonato assemelha-se às
capacidades do adulto, representando os
intervalos musicais à partir de um intervalo
constante, independentemente da variação da
frequência. Isto significa que a maior parte do
processamento auditivo básico e de nível
superior é funcional ao nascimento. Esta
habilidade permite ao neonato compreender o
ambiente acústico normalmente variável.
Hungria
Hungria
28
Honing et al., 2009
He et al., 2009
He; Trainor, 2009
Haden et al., 2009
Experimental
EEG (C3, C4 e
Cz)
Experimental
EEG (124
eletrodos em
bebês)
Experimental
Experimental
EEG (124
eletrodos em
bebês e 128
eletrodos em
adultos)
EEG (F3, F4,
C3, Cz e C4,
de acordo com
o sistema 1020)
A capacidade de detectar o ritmo em sequências
sonoras rítmicas é funcional ao nascimento. A
detecção de toda a estrutura somente é possível
após completar todo o ciclo rítmico, até a
completa representação do padrão rítmico no
cérebro. Esta representação não é importante
apenas para compreender o ritmo, mas para
construir uma representação hierarquicamente
ordenada do ritmo (indução ao ritmo)
Holanda
Transversal
6 blocos de padrões rítmicos (bumbo,
chimbau e caixa de bateria)
14
Recémnascidos
(não
especifica
do)
Transversal
Notas no piano de C5 a F#5 tocadas no
sentido ascendente. Desvio padrão
consistiu nas mesmas notas tocadas
descendentemente. As notas tiveram
400ms de duração e 50ms de intervalo
entre elas.
29 (G1 =
16; G2 =
13)
G1 com 2
meses e
G2 com 4
meses
Sugere-se que mudanças não frequentes na
ordem da sequência dos tons eliciam uma
resposta MMN em bebês com 4 meses de idade.
Com bebês de 2 meses de idade esta resposta
não foi observada.
Canadá
Transversal
Em cada tom foi adicionado 10 ondas
sinusoidais que seguiram as
frequências múltiplas da frequência
fundamental (a partir dos 15 primeiros
harmônicos), onde a intensidade foi
reduzida por 4dB/oitava. O primeiro
tom foi utilizado como padrão e
continha a frequência fundamental. Os
componentes do segundo tom no
estímulo desviante foram criados de
modo a formar uma fundamental
ausente.
G1 com 3
meses, G2
com 4
meses, G3
com 7
meses e
G4 com
20 anos de
idade
Evidenciou uma representação cortical para o
tom na ausência da sua fundamental, que
aparenta emergir após os 3 meses e anterior aos
4 meses de idade, indicando integração dos
componentes da frequência harmônica na
percepção do tom aos 4 meses de idade. Entre 3
e 4 meses de idade há uma mudança importante
na forma como o tom é representado no córtex,
de modo que, através do 4º mês, componentes
que estão em relações harmônicas unem-se à
uma percepção única, cujo tom corresponde à
fundamental, estando ela presente ou não no
estímulo.
Canadá
2 a 3 dias
Observou-se a existência de um processamento
avançado relacionado à altura (tom) em recém
nascidos e sugere que a representação do tom é
um recurso que existe desde o nascimento. O
processamento do tom é um pré-requisito
necessário para o desenvolvimento da fala
normal, incluindo a percepção da prosódia e
conteúdos emocionais, identificação da fonte
sonora e percepção musical.
Hungria
Transversal
Sequências compostas com 2 sons
instrumentais de alturas (tons)
diferentes. C#3 e F3. Os sons foram
tocados no timbre French Horn.
69 (G1 =
29, G2 =
15, G3 =
15 e G4 =
10)
12
29
Gerry et al., 2009
Phillips-Silver e
Trainor, 2005
Experimental
Experimental
Observacional
e Comparativo
com o estudo
de PhillipsSilver e
Trainor, 2005
EEG
EEG (F3, F4,
P3, P4, Cz sistema 10-20)
Schmidt et al., 2003
Experimental
Sakatani et al., 1999
Espectroscopia
de
Experimental
Infravermelho
(NIRS)
Longitudinal
Transversal
Transversal
Transversal
Idêntico ao estímulo utilizado por
Phillips-Silver e Trainor, 2005
Ritmo ambíguo (sem acentuação do
tempo forte)
3 estímulos musicais: Barber - Adágio
(reflete tristeza); Prokofiev - Peter and
the Wolf (reflete medo) e Vivaldi Spring (segundo movimento) (reflete
alegria).
Estimulação auditiva - peça popular de
piano, através de um par de fones de
ouvido.
8
Não
mencionad
o
167 (G1
=33, G2 =
42, G3 =
52 e G4 =
40)
28
7,4
meses
Sugere-se que, se o objetivo do treinamento
musical é capacitar as pessoas para serem
capazes de produzir e apreciar formas mais
complexas, um programa musical ideal de
formação para lactentes devem incluir uma
variedade de formas métricas
Canadá
7 meses
Foi evidenciado que há uma forte conexão entre
o movimento do corpo e o processamento
auditivo do ritmo (quando ambas as fontes são
experimentadas simultaneamente). O efeito
observado envolve o sistema vestibular e
provavelmente os sistemas proprioceptivos. A
experiência do movimento do corpo
desempenha um papel importante na percepção
musical do ritmo.
Canadá
G1 com 3
meses, G2
com 6
meses, G3
com 9
meses e
G4 com
12 meses
Lactentes com 3 e 6 meses de idade não
demonstraram diferenças no lobos frontais e
parietais, enquanto outras crianças (9 e 12
meses) apresentaram maior ativação elétrica no
lobo frontal e parietal. Este desenvolvimento
também refere-se à maturação do lobo frontal.
Os resultados sugerem que existe uma alteração
clara no desenvolvimento, no efeito da música
sobre a atividade cerebral que regula a emoção,
no primeiro ano de vida. Importantes mudanças
no desenvolvimento que ocorrem em níveis
centrais e autônomos que podem estar
subjacentes a processos de regulação da
emoção, no primeiro ano de vida pós-natal
deve-se à música que, neste caso, tem uma forte
influencia na regulação da emoção e acalma o
neonato.
Canadá
3 dias
Sugere-se que o desenvolvimento do cérebro
(incluindo as disfunções cerebrais) pode ter
mecanismos semelhantes de oxigenação e
metabolismo energético durante a ativação
neuronal.
China
N, número de participantes; G, grupo; EEG, eletroencefalografia; fMRI, ressonância magnética funcional; MMN, mismatch negativity - é
uma resposta relacionada ao evento (ERP) que o cérebro emite frente ao estímulo que ele ainda não reconheceu.
30
31
Arquitetura Cerebral do Processamento da Música e Aprendizagem Musical
Para perceber alguns elementos da música (tom, melodia e harmonia) são
necessários o recrutamento de sistemas neurais através de uma rede espacial e
funcionalmente distinta. Entretanto, grande porção da identificação dos elementos
sonoros estão localizados na porção direita do lobo temporal. Esta assimetria para a
percepção da música está presente desde o nascimento, e deve-se ao fato do córtex
primário auditivo (no hemisfério direito) estar envolvido com a análise do tom e
integração (altura, direção e timbre). Tais ativações se estendem ao giro de Heschl em
direção ao plano polar, bem como para o plano temporal e ao lobo inferior parietal. As
áreas do giro temporal superior e plano polar estão envolvidas com o aumento da
complexidade melódica, e áreas hemisféricas do córtex auditivo direito, ao
processamento de padrões de altura (tom) no reconhecimento de melodias, e na
transformação auditivo-motora (PERANI et al., 2010).
Homae et al. (2012) observaram que o cérebro do bebê de 3 e 6 meses
apresentaram diferenciação e lateralização funcional nas áreas auditivas, sendo capaz de
responder a mais que um simples tom da informação sonora. Desta forma, o mecanismo
de percepção e processamento do estímulo auditivo aumenta a sensibilidade para
sequências sonoras fazendo com que todo o sistema processe a informação
auditivo/sonora.
As áreas ativadas no hemisfério esquerdo compreendem uma tendência à
resolução temporal (como na análise do discurso), e ao hemisfério direito compete uma
melhor resolução às frequências tonais. Estas diferenças funcionais correspondem à
achados anatômicos no volume do processamento cortical direito e esquerdo do córtex
auditivo (PERANI et al., 2010). A lateralização de funções deve-se ao fato do cérebro
codificar os estímulos perceptivos em padrões de processamento. Automaticamente, o
cérebro recruta tais padrões frente ao estímulo auditivo com base na informação obtida
anteriormente. Extrair tais padrões é essencial para a compreensão do objeto sonoro. Se
sucessivos estímulos auditivo não são conhecidos, ao deparar com uma informação
nova, uma resposta negativa é vista, ao qual chamamos de Mismatch Negativity
(MMN) (HE; HOTSON; TRAINOR, 2009), onde o cérebro recruta rapidamente
informações essenciais do experimento auditivo, separando os elementos e codificando-
32
os através de um mecanismo inato de aprendizagem. As respostas MMN mudam
rapidamente com a experiência e envolvem diversas áreas corticais, sendo consideradas
como eventos robustos, pois envolve o cerebelo, o núcleo coclear, que é caracterizado
como uma automatização que ocorre em intervalos curtos de tempo (milissegundos).
Esta automatização envolve ciclos dos gânglios basais, tálamo corticais (incluindo o
córtex motor suplementar) e envolve a atenção (TRAINOR, 2012).
Outro mecanismo cerebral na arquitetura do processamento da música são as
predições. O processamento preditivo ocorre em muitas áreas do cérebro em escalas e
tempo diferentes. Tal processamento é muito importante para o desenvolvimento, pois
envolve expectativa para altura, duração, timbre, sequências melódicas e rítmicas.
Alguns tipos de informação preditiva estão muito presentes na infância, desde uma
idade muito precoce. Trainor (2012) afirma que ao final do primeiro ano de vida, a
criança já está especializada para a estrutura rítmica e tonal da musica no seu ambiente
cultural, devido ao processamento preditivo.
Sabemos que os eventos auditivos são divididos em informações segmentadas e
codificados em regiões distintas do cérebro. Conforme descrito anteriormente, o
cérebro, diante um estímulo novo, emite uma resposta negativa (MMN) e recruta
regiões especializadas para o processamento e codificação da informação adquirida.
Neste caso, a capacidade para segmentar eventos auditivos simultâneos é essencial para
o desenvolvimento auditivo infantil e para a percepção da música. Diante um evento
auditivo complexo como a música, precisamos separar as notas, compreender as alturas
(tons), acordes, direção melódica (ascendente ou descendente), timbre, entre outros
elementos. Bebês com 6 meses de idade são capazes de perceber violações muito sutis
na estrutura harmônica de um timbre, por exemplo (FOLLAND et al., 2012). Este
artefato se deve à arquitetura cerebral do recém-nascido, que evolui conforme a
experiência e ao mecanismo de aprendizagem eliciado por respostas MMN.
Perceber a estrutura harmônica do timbre é tão importante e essencial quanto à
percepção do tom (altura); ambos presentes na fala e na música. Para a identificação de
um objeto e da paisagem sonora, através do qual são derivadas as representações para
cada objeto no ambiente, uma representação cortical para o tom é essencial para a
compreensão deste. A forma complexa da onda sonora possui diversos harmônicos que
derivam a partir de um tom fundamental e multiplicam-se por números inteiros. Na
33
ausência da fundamental do tom, o som ainda é percebido, devido à segmentação da
onda complexa e pela codificação que o processamento cortical realiza a partir dos
harmônicos que se derivam. He e Trainor (2009) comentam que entre 3 e 4 meses de
idade, há uma mudança importante na forma como o tom é representado no córtex, de
modo que, através do 4º mês, componentes que estão em relações harmônicas unem-se
à uma percepção única, cujo tom corresponde à fundamental, estando ela presente ou
não no estímulo. Desta forma, há uma representação cortical para o tom na ausência da
sua fundamental, que aparenta emergir após os 3 meses e anterior aos 4 meses de idade,
indicando integração dos componentes da frequência harmônica na percepção do tom.
Haden et al. (2009) comprova a afirmação de He e Trainor (2009) em seu estudo
e comenta que a capacidade de separar tons de outras características sonoras, tais como
o timbre, é um importante pré-requisito da percepção auditiva subjacente a aquisição da
fala e cognição musical. O sistema auditivo extrai o tom da informação sonora
independente da sua fonte. Haden sugere que a percepção do tom é um mecanismo
inato, e o processamento do tom é um pré-requisito necessário para o desenvolvimento
da fala normal, incluindo a percepção da prosódia e conteúdos emocionais, identificação
da fonte sonora e percepção musical. O autor ainda comenta que em futuras pesquisas,
métodos de avaliação para déficits auditivos podem ter como base o teste de
discriminação do tom, em idades muito precoces. Desta forma, podemos abranger a
discussão de Haden também para deficiências ou atrasos na linguagem falada,
alterações na prosódia e conteúdos emocionais na linguagem falada, que podem também
estar presentes na discriminação auditiva da música, em especial, no processamento da
informação auditiva do som.
A arquitetura cerebral do neonato, ainda, assemelha-se à do adulto quanto a
compreensão de diferentes alturas. A partir de um intervalo musical constante, o bebê é
capaz de representar intervalos musicais, independentemente da variação da frequência.
Isto significa que a capacidade auditiva do bebê é capaz de processar diferentes
intervalos de altura (tom). Stefanics et al. (2009) afirma que esta habilidade permite ao
neonato compreender o ambiente acústico normalmente variável.
Por último, um grande mecanismo que permite ao cérebro aprender, que é
subjacente à experiência musical, é a formação de memória a longo prazo. Vimos que,
ao depararmos com eventos sonoros, um processamento preditivo ocorre diante a
34
experiência sonoro-musical e que através de uma codificação específica, o som é
segmentado em partes identificáveis, e quando incompatíveis, uma resposta MMN é
gerada. Diante tal situação, o processamento musical desenvolve-se através de uma rede
espacial e funcional distinta, que, conforme a experiência, torna-se cada vez mais
complexa. Fujioka et al. (2011) sugere que as funções auditivas e cognitivas, bem como
o acesso à memória de longo prazo, estão acompanhadas pelo desenvolvimento de
mecanismos oscilatórios neurais hierárquicos, e que isto ocorre na infância, tão logo aos
4 meses de idade.
Fatores relacionados à Experiência Musical
A experiência musical modifica o sistema perceptivo e a representação para um
determinado som (TRAINOR et al., 2011). Isto quer dizer que novas conexões cerebrais
são formadas, e que um mecanismo de plasticidade cerebral é induzido pela experiência
com a música e com eventos auditivos. Para Trainor, uma pequena exposição a um som
de uma guitarra ou de marimba pode alterar a representação para este timbre, e que este
efeito generaliza para a música expressa por este instrumento. Tons jamais
experimentados anteriormente não eliciarão respostas MMN para este timbre, e isto se
deve à representação cortical dicotomizada entre o timbre (instrumento) e o tom
(altura).
Por recrutar uma vasta circuitaria neurológica, o estímulo auditivo aumenta os
níveis de hemoglobina na região do lobo frontal, pois a experiência musical, assim
como o treinamento, capacitam uma gama de funções atencionais e executivas que
resultam na especialização à música. A plasticidade é afetada por vários processos
anatômicos, tais como a proliferação e poda sináptica, mielinização e neurofilamento e
níveis de neurotransmissores, cada um dos quais tem a sua própria trajetória de
desenvolvimento. Para Sakatani (1999) o desenvolvimento do cérebro (funcional ou
não) pode ter mecanismos semelhantes de oxigenação e de metabolismo energético
durante a ativação neuronal, e o estímulo auditivo aumenta os níveis de hemoglobina
nos recém-nascidos.
Vimos que durante a exposição à música novas conexões são formadas, e a
representação para timbres (instrumentos) musicais independem à forma musical.
35
Porém a maturação do sistema auditivo depende de outros fatores além de uma simples
exposição musical. Kotilahti et al. (2010) afirma que a lateralização das funções
auditivas iniciam-se na infância, porém não encontram ainda desenvolvidas.
Treinamento Musical
A estrutura musical é complexa e consiste em elementos organizados como
altura e estrutura temporal, seguindo regras gramaticais próprias. Adultos treinados e
não treinados musicalmente utilizam, igualmente, redes perceptivas e cognitivas para
processar a música. Durante o desenvolvimento torna-se cada vez mais especializada a
codificação da estrutura musical. Os aspectos da estrutura, tal como a consonância e a
dissonância são encontrados no início do desenvolvimento, em conjunto com a
exposição temporal a sons estruturados. Esta sensibilidade define-se como a base
fundamental para a aprendizagem de escalas e harmonia, que compõe a base para o
sistema musical cultural específico. Da mesma forma, a percepção precoce para as
estruturas rítmicas surgem através de redes entre o movimento e áreas auditivas do
sistema nervoso, relacionando experiência multissensoriais com som e movimento. A
formação musical treina uma gama de funções atencionais e executivas no qual resulta
na generalização ou especialização à música. Hannon e Trainor (2007) afirmam que a
compreender a totalidade da música depende de três instâncias - desenvolvimento
universal precoce, aculturação e treinamento formal. O desenvolvimento universal
precoce consiste em padrões universais que estão associados à experiência musical, que
podem ser inatos ou desenvolvidos muito precocemente no lactente. São eles:
consonância, regularidade temporal e interações multissensoriais. Experiência musical
passiva - crianças podem aculturar um sistema musical que é dotado de escalas,
harmonia, tonalidade e métrica (ritmo); isto quer dizer que através da experiência com
os elementos musicais, a criança desenvolve a percepção e o processamento para tais
elementos. Através de uma experiência musical ativa, ou treino, outros mecanismos são
desenvolvidos, como performance, leitura musical, conhecimento explícito, atenção e
função executiva - estes elementos necessitam de funções cognitivas superiores e treino.
A aculturação musical depende de uma prática pedagógica apropriada (GERRY,
D. et al., 2012). Ao treinarmos bebês para responder positivamente à musica, ou seja,
36
participar ativamente e interagir socialmente, aceleramos diversos aspectos cognitivos
da aprendizagem. Gerry afirma que a experiência musical interativa parece facilitar o
desenvolvimento cognitivo sob a forma de utilização de gestos comunicativos pré
linguísticos e linguístico, devido à interação com os pais e a socialização. Este estudo
contribui a um questionamento sobre qual a melhor idade para induzir a criança ao
treino da música - o mais precocemente possível - e quais outros fatores devem estar
envolvidos - a interação, motivação, o canto (dos pais), a qualidade da música e a
repetição. Claramente a motivação e interação entre os pais e os bebês são fatores
fundamentais para o desenvolvimento e a aprendizagem da criança.
Desta forma, o treinamento musical é tão importante quanto a própria
experiência musical passiva, pois amplia as capacidades perceptivas da criança,
socializa, amplia a interação com o grupo e beneficia diversos aspectos cognitivos e da
aprendizagem. Outro ponto a ser destacado é a quantidade de repetições ao qual Gerry
et al. (2012) afirma ser o ponto chave para uma prática pedagógica de treinamento
musical.
Motricidade e Ritmo
O ritmo é considerado uma estrutura importante na percepção e experiência da
música. Ao ouvirmos a música, induzimo-nos à batida rítmica que mobiliza
preferencialmente nossa habilidade motora. Honning et al. (2009) verificaram se esta
capacidade é inata ou induzida. O resultado de sua pesquisa mostrou que a capacidade
de detectar o ritmo é funcional ao nascimento, ou seja, apresenta-se inata ao
desenvolvimento. Entretanto, construir um ritmo ordenado exige uma representação
hierárquica de todo o ciclo.
A codificação do ciclo rítmico é influenciada pelos movimentos corporais ao
qual envolve uma estimulação vestibular. O sistema vestibular é composto por um
conjunto de órgãos do ouvido interno que correspondem à manutenção do equilíbrio.
Neste sistema estão presentes algumas estruturas essenciais13 ao ortostatismo, ao qual
13
Formado por três canais semicirculares que se juntam numa região central chamado o vestíbulo,
que apresenta ainda duas excrescências chamadas sáculo e utrículo. Ao vestíbulo encontra-se igualmente
ligada a cóclea que é a sede do sentido da audição. O conjunto destas duas estruturas chama-se labirinto
(PHILLIPS-SILVER; TRAINOR, 2005).
37
encontra um sistema de tubos membranosos, cheios de líquido, cujo movimento
estimula as células ciliadas que enviam impulsos nervosos ao cérebro, ou diretamente
aos centros que controlam o movimento dos olhos ou dos músculos (PHILLIPSSILVER; TRAINOR, 2005).
Gerry et al. (2010) acredita que um treinamento musical capacita o lactente a
executar formas mais complexas, acelerando, desta forma, a capacidade motora e a
aprendizagem sobre o ritmo.
Emoção
A regulação da emoção é um processo complexo que envolve maturação,
aprendizagem e interação. A capacidade das crianças para negociar com sucesso um
complexo mundo social é altamente dependente da regulação da emoção. Áreas do
córtex pré-frontal estão envolvidas na inibição de respostas motoras particulares, bem
como na solução de problema e como no comportamento afetivo (SCHMIDT et al.,
2003).
A música apresenta ser um estímulo ideal para compreender as respostas
emocionais. Devido ao recrutamento de diversas áreas cerebrais, bem como áreas
límbicas e do lobo frontal, a música sensibiliza respostas afetivas em bebês de 9 meses
de idade (SCHMIDT et al., 2003). Entretanto, bebês com 3 dias de idade correspondem
à música ativando áreas límbicas que processam respostas emocionais à música. Os
sinais foram observados em resposta a uma música tonal e consonante, na porção direita
do complexo amígdala-hipocampo, e durante a percepção de uma música atonal e
dissonante na porção esquerda hipocampal e no córtex entorrinal esquerdo (e
possivelmente incluindo a amígdala). A ativação das estruturas límbicas em bebês, em
resposta ao estímulo musical, sugerem que eles realizam respostas emocionais à música
(PERANI et al., 2010).
Quando o bebê começa a balançar, a movimentar-se positivamente e a interagir
com a música, ele participa de um processo fundamental que seguirá ao longo da vida.
A interação entre o som e o movimento desenvolve-se precocemente (PHILLIPSSILVER; TRAINOR, 2005), e isto ocorre devido ao processamento cognitivo e às
associações de diversas áreas do córtex e do sistema límbico. A experiência musical
38
pode suscitar diversas respostas, principalmente com relação à afetividade e a emoção
(SCHMIDT et al., 2003), entretanto, o que podemos concluir é a maneira com que a
música pode sensibilizar jovens bebês a participarem ativamente da experiência
musical, através da resposta afetiva que eles têm a partir dela e o prazer que é extraído
desta relação através de um mecanismo interno de motivação.
Capítulo 3. MUSICOTERAPIA
A música desde a antiguidade é utilizada, dentre suas tantas aplicações14, como
uma ferramenta terapêutica. Desde então, ela passa por um processo criativo e artístico,
que tem o objetivo de afetar e mobilizar o ser humano a alguma determinada finalidade,
passando por processos cognitivos específicos do homem que a interpreta através de
uma cadeia de processamento cerebral (FOLLAND et al., 2012;
WIGRAN;
PEDERSEN; BONDE, 2002).
Música envolve não apenas escutar, mas também tocar e criar (pensar), onde as
diferenças individuais são muito mais evidentes. Embora quase todas as pessoas possam
ter um sistema neural que permita perceber, pensar, sentir a música ou até mesmo
reproduzir padrões musicais através do canto, nem todas as pessoas reagem à música,
ou a fazem da mesma maneira. Isto é possível devido ao fato que a música envolve
estruturas particulares que estão ligadas à processos de atenção, memória,
aprendizagem, motivação e emoção. Embora todas as pessoas possuam estruturas de
processamento da música essencialmente idênticas, na sua grande parte, a maneira com
que cada um vivencia a música é especialmente diferente (ZATORRE, 2005).
Todas estas questões são abordadas por um musicoterapeuta em um contexto
clínico que leva em conta diversos fatores que estão relacionados ao som e a
organização humana que levaram à criação ou à percepção. O musicoterapeuta deve
estar apto a conhecer a pessoa integralmente, a partir da sua vivência com a música, ou,
mesmo que ela ainda não tenha uma experiência significativa, como no caso de bebês, é
importante que o musicoterapeuta conheça o ambiente sonoro musical ao qual a criança
foi concebida (BENENZON, 1988;
14
BRUSCIA, 2000). Isto nos leva à um maior
Em geral, as aplicações da música envolvem rituais, vinculados à religião, expressões artísticas,
cerimônias e a própria terapia.
39
conhecimento sobre a pessoa e, talvez induza perguntas: por que determinadas crianças
têm preferências por certos instrumentos e outros não?; como se relacionam as crianças
que não possuem em seu contexto familiar, ou que não foram estimuladas
musicalmente, com a música?; como estas crianças experimentam música?; o quão a
experiência musical pode ajudar o desenvolvimento?
Tais questionamentos são imprescindíveis ao cotidiano de um musicoterapeuta,
que aplica a música com efeitos de ampliar a qualidade de vida, em todas as suas
instâncias, a fim de que a pessoa, ou paciente, transforme a sua condição atual e se
beneficie através do uso da música. De acordo com a Associação Americana de
Musicoterapia (AMTA, 2012), musicoterapia é o uso clínico, baseado em evidências,
das intervenções musicais para atingir objetivos individuais dentro de uma relação
terapêutica aplicada por um profissional credenciado que concluiu uma formação
musicoterapêutica. Portanto, a musicoterapia enquadra-se como profissão da área da
saúde, no qual a música é utilizada para tratar necessidades físicas, emocionais,
cognitivas e sociais dos indivíduos.
Após avaliar necessidades de cada pessoa, o musicoterapeuta fornece o
tratamento indicado, incluindo criar, cantar, dançar, e/ou ouvir música, dividindo assim
a atividade musical em dois âmbitos: ativa ou passiva (AMTA, 2012; MRÁZOVÁ;
CELEC, 2010).
"Musicoterapia define-se pelo uso profissional da música e seus
elementos como uma intervenção em ambientes médicos, educacionais e
quotidianos com indivíduos, grupos, famílias ou comunidades, buscando
otimizar a qualidade de vida e melhorar a saúde física, social, comunicativa,
emocional, intelectual e bem estar em geral" (WFMT, 201215).
O termo “musicoterapia” abarca tanto as intervenções musicais baseadas em
evidências clínicas aplicadas por um musicoterapeuta devidamente habilitado, quanto a
pesquisa sobre os efeitos da música no homem. Relatos sobre a utilização da música
com efeitos profiláticos são conhecidos e documentados através da evolução histórica
da utilização da música (BUNT, 1994; COSTA, 1989).
Através do envolvimento musical no contexto terapêutico, habilidades dos clientes
são desenvolvidas e reforçadas, no âmbito pessoal - social, físico, emocional e
cognitivo. A música estimula diversas áreas pessoais e a engaja através diferentes
15
Disponível em: < http://www.musictherapyworld.net/WFMT/President_presents..._files/President
%20presents...5-2011.pdf >. Acesso em: 01 de março de 2012
40
maneiras - através do canto, da expressão musical através do instrumento, da elaboração
de uma composição, de uma recriação musical, de uma paródia, através de uma peça
teatral, ou mesmo através do silêncio (uma qualidade imprescindível da música)
(BRUSCIA, 2000). Como resultado ela facilita o desenvolvimento global; relaxa e
acalma; motiva e estimula; ajuda a pessoa a gerenciar a dor e as diversas situações
emocionais; encoraja a socialização, autoexpressão a comunicação; facilita o
desenvolvimento motor; estimula a cognição e a linguagem; motiva (AMTA, 2012;
SCHELLENBERG, 2004).
Apesar da musicoterapia ser uma prática terapêutica que nasceu há muitos anos
(e talvez sempre esteve presente às culturas como esta forma), ela engloba-se em um
campo relativamente novo das terapias e da própria medicina. Data-se de cerca de 70
anos o seu nascimento formal16 (BUNT, 1994). Entretanto, ainda muito se discute
acerca da prática terapêutica e sobre os mecanismos de ação da musicoterapia. Mrázová
(2010) em seu artigo “Revisão sistemática de ensaios clínicos randomizados usando
musicoterapia para crianças”, menciona a musicoterapia com a necessidade de
engajar-se em uma prática baseada em evidências que necessita de uma maior
investigação sobre os mecanismos de ação da sua prática terapêutica.
Entretanto, com o avanço de técnicas de imageamento cerebral, evidências têm
se consolidado no campo da música e da musicoterapia e trazem diversas respostas para
os questionamentos, que antes eram percebidos empiricamente e que faziam parte do
cotidiano da musicoterapia. Tais respostas têm se demonstrado bastante confiáveis e
concretas. Hoje sabemos que bebês sadios são inatos musicalmente, ou seja, eles
possuem a capacidade de processar música, mesmo sem tê-la vivenciado. Também
sabemos que a música nutre o cérebro, e cria novas conexões, especializando o nosso
cérebro à experiência musical (STIX, 2011; TRAINOR, 2008; ZATORRE, 2005).
Por fim, sabemos que a quantidade de ensaios randomizados em musicoterapia
são escassos, e que, ainda há necessidade de sistematização dos métodos de intervenção
para evidenciar os caminhos do trabalho (MRÁZOVÁ; CELEC, 2010), porém,
acreditamos que um passo inicial para tais feitos seja fundamentar a prática profissional
16
Até então a música utilizada como forma terapêutica era baseada em afirmações empíricas. Em
1944 nasceu o primeiro curso de formação de musicoterapia, pela Universidade Estadual de Michigan,
Estados Unidos.
41
em uma base sólida, esgotando a possibilidade de compreensão da relação homemmúsica; e neste campo, ainda há muito o que esclarecer.
O Processo Musicoterapêutico
A musicoterapia é um processo sistemático de intervenção no qual o terapeuta
ajuda a pessoa a promover a sua saúde, utilizando experiências musicais e as relações
que se desenvolvem durante o uso destas experiências, como forças dinâmicas de
mudança (BRUSCIA, 2000).
Através do processo musicoterapêutico, terapeuta e cliente encontram um ponto
em comum na música, onde o terapeuta torna-se um agente facilitador do processo
musical-terapêutico, ou seja, quais aspectos da experiência musical, ou da música,
beneficiarão a pessoa a fim de que objetivos sejam atingidos. A musicoterapia torna-se
então um processo sistemático de intervenção em que o terapeuta ajuda o cliente a
promover a saúde utilizando experiências musicais e as relações que se desenvolvem a
partir delas. Por se definir como um processo sistemático de intervenção, o
musicoterapeuta requer um conhecimento mínimo necessário do seu paciente, e deve
estar engajado em uma estrutura organizada e regulada, onde serão avaliados diversos
aspectos da pessoa (físicos, emocionais, sociais, comunicativos, entre outros),
pertinentes ao trabalho terapêutico (BRUSCIA, 2000; RUUD, 1990).
"Vimos a musicoterapia ser utilizada na reabilitação de acidente
vascular cerebral, tratamento da depressão e estresse e hipertensão. É
possível alterar o estado hormonal, o processamento da memória,
aprendizagem, e uma coisa chamada raciocínio espaço-tempo; também se
mostra eficaz no autismo" (LAWS, 2010, p. 458).
Com relação à intervenção, um exemplo de musicoterapia que podemos
comentar é a aplicação do trabalho com neonatos: gravações foram produzidas à partir
dos sons uterinos, incluindo o som da placenta e o fluxo sanguíneo na pulsação do
cordão umbilical. Isto foi utilizado com bebês recém nascidos propensos a longos
períodos de choro, com a finalidade de acalmá-los (WIGRAN et al., 2002). Isto
somente é possível pelo fato da música atuar juntamente nos centros de prazer, atenção
e motivação da pessoa (PHILLIPS-SILVER; TRAINOR, 2005;
SCHMIDT et al.,
2003; WEINBERGER, 1998). A musicoterapia tem se demonstrado uma ferramenta
42
ampla e eficaz no tratamento de diversas doenças devido à aceitação e engajamento do
paciente com a experiência musical. Trehub (2003) afirma que a música é altamente
eficiente na regulação ou otimização do humor em diversas idades.
Compreende-se então que a musicoterapia é um processo através do qual o
terapeuta ajuda o paciente a melhorar, manter ou restaurar um estado de bem estar,
onde, através da relação com a música e das experiências musicais, as mudanças
ocorrem (BRUSCIA, 1987). Por ser uma prática baseada em objetivos focados no
cliente ou grupo, é necessário que o musicoterapeuta siga planos criteriosos de
avaliação e intervenção (RUUD, 1990). O musicoterapeuta deve utilizar uma sequência
de procedimentos clínicos específicos para evocar respostas satisfatórias do cliente,
conduzindo assim o tratamento por uma abordagem mais homogênea e sistemática
(MRÁZOVÁ; CELEC, 2010). Tais respostas compreendem objetivos pré-definidos ao
tratamento e podem corresponder tanto em musicais, quanto não musicais. Entende-se
por materiais não musicais, todos aqueles que originam da prática terapêutica e que não
estão relacionados diretamente à experiência sonoro-musical e podem vir à ser ideias
inspiradoras ao contexto clínico (por exemplo - uma palma, um sorriso, um balbucio,
um gesto, entre outros) (BRUSCIA, 2000).
A música utilizada na sessão de musicoterapia pode partir tanto do
musicoterapeuta quanto do seu paciente. Musicoterapeuta e paciente interagem
diretamente, e neste caso, o terapeuta deverá facilitar a expressão musical do seu
paciente visando recrutar e desenvolver todas as áreas necessárias. O terapeuta, diante o
cenário musical, coloca todas as suas impressões objetivas e subjetivas a respeito do
paciente, modelando a atividade musical. Valores estéticos musicais também são
colocados em evidência, como consonâncias e dissonâncias devidamente aplicados,
fazendo com que o paciente participe ativamente da sessão (QUEIROZ, 2003).
Para isto, o musicoterapeuta deve seguir um plano criterioso de sessões
regulares, advinda de um planejamento previamente estabelecido, que deve ser
constantemente avaliados de acordo com o trabalho realizado diante da ação e reação
das crianças. Neste caso é essencial que o musicoterapeuta tenha uma boa formação,
pois, os procedimentos específicos aplicados por ele, serão influenciados pela sua
especialização
ou
fundamentação
teórica
(RUUD,
1990).
A
formação
do
musicoterapeuta segue normas ditadas pela Federação Mundial de Musicoterapia, por
43
associações ou conselhos nacionais de musicoterapia, abordando também os padrões
musicais e culturais (WFMT, 2012).
O plano de atendimento da musicoterapia, por valer-se de um processo
sistemático de intervenção, segue propósitos. Em geral os propósitos são obtidos em
dados de anamnese, ou após algumas sessões de avaliação (BENENZON, 1988). É
necessário que o terapeuta conheça o paciente a fim de formular objetivos específicos
para o trabalho em conjunto onde, embora uma das partes se demonstre comprometida
(através de uma debilidade física, emocional, social, cognitiva, etc.), o musicoterapeuta
conduzirá sua intervenção clínica de acordo com os graus de funcionalidades e
potencialidades do cliente. Este processo sistemático, também se vale de alguns
recursos terapêuticos aplicados pelo musicoterapeuta, como avaliação diagnóstica,
tratamento e avaliação. É sempre necessário estar ciente dos limites, das potencialidades
e funcionalidades neurológicas, onde, caso haja comprometimento neurológico, é
preciso trilhar caminhos para ajudar a compensar os danos e aperfeiçoar as respostas,
sempre dentro dos limites impostos da enfermidade (BRUSCIA, 2000; BUNT, 1994;
COSTA, 1989).
O processo musicoterapêutico, segundo Bruscia (2000), deve seguir três etapas:
a) Avaliação Diagnóstica: onde o terapeuta reúne informações basais sobre o
funcionamento do paciente no início da terapia. Esta avaliação engloba desde dados
musicais até dados clínicos do paciente, como aspectos físicos, emocionais,
psicológicos e sociais. b) Tratamento: é a parte do processo terapêutico onde o
musicoterapeuta engaja o paciente em diversas experiências musicais, empregando
métodos e técnicas específicas que induzem mudanças. Por exemplo: se o objetivo é
estimular a fala, o musicoterapeuta deverá fornecer estímulos musicais que estimulem a
fala através do canto, de balbucios, sons onomatopaicos, entre outros. Se o objetivo é
desenvolver a coordenação motora, o tratamento deverá utilizar recursos materiais
(como instrumentos de diversos tamanhos e formas que estimulem a preensão e a
coordenação, como chocalhos, sinos, baquetas, etc.) que propiciem isto. O
musicoterapeuta, neste caso, deverá fornecer estímulos que favoreçam a movimentação
espontânea, utilizando técnicas de improvisação musical, por exemplo. Desta forma, o
tratamento tem suporte em objetivos gerais e específicos, de acordo com a necessidade
de cada cliente. Está também embasado em evidências reveladas pelo cliente durante a
44
atividade musical. c) Avaliação: define-se pela etapa onde o terapeuta avalia o efeito da
intervenção sobre o seu paciente.
A intervenção musicoterapêutica deve seguir estes propósitos sistemáticos e
metodológicos a fim de que haja reprodutibilidade das ações terapêuticas,
principalmente com fins de estudo. Por ser uma área muito abrangente, na
musicoterapia há grande variabilidade de métodos, modelos e técnicas de intervenção,
especialmente com a clientela pediátrica (MRÁZOVÁ; CELEC, 2010). Os resultados
com bebês de risco, em UTI's neonatais que adotaram um acompanhamento da
musicoterapia para o tratamento, tiveram boas respostas quanto ao curso do bebê na
UTI. Dentre os cuidados englobaram redução de ruídos e sessões de musicoterapia, com
músicas durante o tratamento (ANCORA, 2010).
Mrázová e Celec (2010) analisaram 28 ensaios controlados randômicos em
musicoterapia entre os anos de 1998 e 2009. As sessões variaram de uma única sessão
até 30 sessões. As condições de tratamento foram diversas, como: depressão,
imunização, bebê pré-termo, autismo, fibrose cística, queimaduras, deficiência visual,
TDAH, agressividade, dificuldade socioeconômica, cirurgias ambulatoriais, transtornos
de leitura, alergia, punções, pacientes de traumatologia, transtornos do desenvolvimento
e acupuntura. 82% dos estudos analisados apresentaram provas dos benefícios da
musicoterapia. Nos processos musicoterapêuticos descritos, vale ressaltar a importância
de uma boa documentação e dos procedimentos utilizados para esclarecer os resultados
obtidos. Um completo e extenso relatório das sessões e das intervenções nas
publicações, permite-nos compreender melhor a eficiência da musicoterapia, e, desta
forma, direcionar melhor o trabalho, replicar os estudos e aplicá-los na prática clínica.
Intervenções musicais
Intervir consiste em conduzir alguém à um estado ou situação no qual há
necessidade de melhora. No caso da musicoterapia, a intervenção está baseada na
relação que a pessoa tem com a música e qual o potencial evocado a partir desta relação
(BRUSCIA, 1987; NORDOFF; ROBBINS; ROBBINS, 1998). Neste caso, a música irá
atuar como um guia facilitador do processo que fornecerá elementos que irão
desenvolver alguma área necessária. Pode-se compreender como intervenção musical a
45
metodologia utilizada pelo terapeuta para extrair respostas objetivas quanto ao
desenvolvimento do paciente (BRUSCIA, 2000).
As intervenções musicais estão intimamente relacionadas à pessoa, levando em
consideração as suas necessidades e seus potenciais. Aplicada à educação especial, o
musicoterapeuta toma as necessidades como o foco primário e a função da música é
atuar como um meio que satisfaça as necessidades. Portanto, a aquisição da habilidade
de expressar-se musicalmente está vinculada ao processo musicoterapêutico e é um
requisito para a criança desenvolver-se e corresponder à terapia. A música será o meio
pelo qual a terapia ocorrerá (WIGRAN et al., 2002). A habilidade de expressar-se
musicalmente refere-se à qualquer comportamento suscitado através da relação
terapêutica com a música, ou seja, a qualidade expressiva - por meio de ações - que
resultaram da música e a influenciou17 (BRUSCIA, 1987).
Para que a intervenção musical ocorra, é necessário que musicoterapeuta
conheça o seu paciente musicalmente, pois ele utilizará diversos caminhos e recursos
musicais para intervir e facilitar a relação do bebê com a música. A musicoterapia,
então, será considerada como uma abordagem centrada nas necessidades da pessoa
(BRUSCIA, 2000). O procedimento que o musicoterapeuta utilizará para conhecer a
pessoa musicalmente envolverá três etapas conforme o esquema abaixo.
Figura 1. Fases procedimentais da musicoterapia (BRUSCIA, 1987, p. 45).
17
Esta afirmação está vinculada à improvisação e ao processo criativo de musicoterapia que será
discutido logo a seguir.
46
Conforme a figura 1, o objetivo principal é "conhecer o indivíduo
musicalmente" e neste caso, o musicoterapeuta deverá suscitar caminhos musicais que
venham de encontro com o paciente a fim de que se estabeleça um canal de
comunicação entre ambos. Os estágios que sucedem o objetivo principal: evocar
respostas musicais e desenvolver níveis musicais, fazem parte do processo bem como da
intervenção musical (BRUSCIA, 1987).
Outro aspecto da intervenção está relacionado ao tempo em que ela será iniciada
e se instalará como ferramenta de favorecer o desenvolvimento. Ela deve ser iniciada o
quão precoce possível a fim de ampliar as capacidades físicas e mentais dos bebês. Os
critérios para incluir as crianças em tais programas são baseados nos diagnósticos de
atraso no desenvolvimento e nas condições das crianças, bem como na presença de
fatores de risco (FORMIGA; PEDRAZZANI; TUDELLA, 2010). No primeiro ano de
vida, o bebê depara com o surgimento e o desenvolvimento de diversas capacidades e
habilidades (FORMIGA et al., 2010; ZATORRE, 2005), e no caso de atrasos do
desenvolvimento, ou quaisquer outras especificidades que necessitam de um
acompanhamento profissional, podemos mencionar que:
“A intervenção precoce visa capacitar a criança, por meio do apoio
fornecido aos pais e/ou cuidadores, a estabelecer uma trajetória de
desenvolvimento mais saudável e com mais qualidade. Ela se refere ao
conjunto de atividades que têm como objetivo estimular as capacidades das
crianças o mais cedo possível, apoiar as famílias e fornecer um
monitoramento ativo destas aquisições. É considerada essencial para prevenir
danos ou agravos ao desenvolvimento de crianças cujas famílias não podem
garantir por si só, estimulação adequada durante a primeira infância”
(FORMIGA et al., 2010, p. 131).
As intervenções musicais encorajam a flexibilidade do paciente, no que diz
respeito à experiência, ao fazer musical. Este mecanismo de autodescoberta possibilita a
pessoa projetar-se além das suas limitações, participando de uma experiência musical
constante, seja ela ativa ou passiva (ALDRIDGE; ALDRIDGE, 2008).
Outro fator essencial à intervenção musical está vinculado à metodologia
procedimental ao qual o processo será conduzido. A metodologia guiará as intervenções
musicais, conduzidas pelo musicoterapeuta, e poderão guiar-se através de diferentes
níveis musicais de expressão, ou seja, quaisquer comportamentos, do paciente, que são
originados através da relação com a música. Na Fig. 1, pudemos verificar que o objetivo
"conhecer o indivíduo musicalmente" tende a "desenvolver níveis musicais". Isto quer
47
dizer que o objetivo final desta intervenção é fazer com que o paciente se expresse
musicalmente tendendo a desenvolver-se através da música (BRUSCIA, 1987).
Através de um processo musicoterapêutico criativo, ou seja, utilizando diversos
recursos musicais (ativos ou passivos) que tendem à improvisação musical (baseada no
contexto sonoro-musical e nas necessidades da pessoa), buscam-se desenvolver estágios
de exploração, experimentação e novos padrões de comportamento, que incluem
afetividade, motricidade, linguagem, cognição, entre outros. Esta metodologia resulta no
desenvolvimento global da pessoa (BRUSCIA, 1987).
O processo criativo diz respeito à estágios de identificação, exploração,
experimentação e seleção de novas alternativas para lidar com o self18. Desta maneira, o
cliente é engajado em um processo onde pode se expressar livremente. É o primeiro
meio de motivação que resulta em efeitos no crescimento pessoal do cliente
(BRUSCIA, 1987). Quanto ao uso criativo e improvisativo da música, o autor comenta:
"O musicoterapeuta buscará a essência da música como terapia para
encontrar, na sua criação improvisacional, uma linguagem de comunicação
entre ele e a criança. As palavras desta linguagem são componentes da
música e seu conteúdo expressivo é realizado através da sua experimentação.
Na situação clínica ele tende a ser o centro da sucessão musical; seus dedos
desenham no instrumento as suas impressões da criança: expressões faciais,
olhares, postura, comportamento, condição - tudo é expressado na música. A
flexibilidade da sua execução busca, fora de um contato direto com a criança,
respostas emocionais que compreendem a base musical para a interatividade.
Esta execução - sua duração, seus ritmos e pausas - cuidadosamente segue,
conduz e acompanha as atividades da criança." (BRUSCIA, 1987, p. 24)
Portanto, através da intervenção musical, o musicoterapeuta buscará, por meio
das improvisações, ou até mesmo da música passiva, desenvolver níveis pessoais, sejam
eles musicais ou relacionados ao desenvolvimento da pessoa. Objetivos musicais dizem
respeito à qualidade da execução, e são tão importantes quando quaisquer outros
objetivos traçados (BRUSCIA, 2000; BUNT, 1994). Os ritmos musicais, a pulsação, o
timbre, bem como a intenção, a qualidade19 e o comportamento podem ser considerados
como níveis de expressão musical (BRUSCIA, 2000), e, neste caso estão ligados
intimamente à experiência musical que resulta no desenvolvimento da criança. Desta
forma, a música se torna caminho de experiências, de intercomunicações que são base
para as crianças, que sumariamente sentem-se livres para expressar-se. Do mesmo
18
19
Qualidade de pessoa relacionada à sua personalidade.
No sentido da execução.
48
modo, a música tem a capacidade de fortalecer vínculos que são a base fundamental
para o desenvolvimento humano. A extensão do que a música alcança se torna
musicoterapia (BRUSCIA, 1987).
Música Ativa e Música Passiva
Grande parte da intervenção musicoterapêutica ocorre diretamente através da
estimulação musical ou da forma com que o terapeuta e o cliente experimentam a
música. A música é universal e qualquer pessoa pode experimentá-la. Seus elementos
fundamentais, como melodia ritmo e harmonia atraem e mobilizam cada um de nós. A
atividade musical motiva as crianças com determinadas incapacidades físicas a utilizar
os membros, ou a voz com expressividade. As estruturas rítmico-melódicas dão suporte
às atividades e induzem ordem e controle, promovendo o movimento (NORDOFF et al.,
1998). Acerca da experiência musical, ou seja, a forma com que o terapeuta e cliente
relacionam-se com a música, Bruscia (2000) cita quatro formas distintas de
experimentar a música. São elas a audição, improvisação, a recriação e composição.
Estas experiências compreendem o meio pelo qual o terapeuta conduz a sessão e o
processo com o seu cliente, ou seja, de forma ativa ou passiva.
A respeito do processo terapêutico, existem dois meios pelo qual a sessão é
dividida – Música na terapia e música como terapia. Essa divisão inicial indica o
caminho que o terapeuta conduzirá seu processo e a forma com que o paciente atingirá
os objetivos. Na música como terapia, a música exerce uma influência direta sobre a
pessoa e sua saúde. Ela serve como um agente primário na mudança terapêutica.
Através desta perspectiva o principal objetivo do terapeuta é ajudar o cliente a engajarse ou relacionar-se com a música, servindo como um guia facilitador da experiência
musical. A música na terapia é utilizada para intensificar os efeitos de uma relação
terapêutica, sejam através de verbalização, sensações, dança ou quaisquer outros meios
que a música ouvida possa implementar. Basicamente essa divisão pode ser classificada
como ativa e passiva, ou seja, a maneira com que o paciente faz ou recebe a música
(BRUSCIA, 2000).
“Uma batida no tambor não é somente bater no tambor [ ... ] é música!” alega
NORDOFF et al. (1998, p. 40). A criança ao tocar o instrumento junto com a música
49
improvisada do terapeuta, está fazendo música. Diversos sistemas estão envolvidos no
processo do fazer musical; como informações visuais, auditivas, motoras e
proprioceptivas. A música requer uma rede neurológica ampla e especializada para ser
processada e executada (PHILLIPS-SILVER; TRAINOR, 2005;
WEINBERGER,
1998). Outro componente trabalhado a partir da relação com a música é a motivação,
que vem sendo amplamente estudado no homem devido aos seus efeitos (GERRY, D. et
al., 2012; PHILLIPS-SILVER; TRAINOR, 2005; SCHMIDT et al., 2003). A música
lida com diversas áreas do córtex; tem acesso às áreas límbicas, que controlam nossos
impulsos, motivações e emoções, ao sistema de percepções que unificam várias
sensações exteroceptivas e proprioceptivas, às regiões frontais, temporais, occipitais e
parietais.
Por fim, a intervenção musicoterapêutica aplicada à bebês, por exemplo, deve
facilitar um ambiente rico para o seu desenvolvimento, fornecendo mecanismos que
favoreçam a exploração de objetos ou instrumentos musicais, o alcance, a expressão e a
comunicação, a experimentação sonora através do fazer musical e das mais variadas
formas, sonoridades e intensidades. Devemos levar em conta que o bebê desde pequeno
demonstra preferências sonoro-musicais (HOMAE et al., 2012; MCPHERSON, 2006;
TRAINOR et al., 2011; WINKLER et al., 2009). Tais preferências consistem em:
timbres de baixa e alta frequência (graves e agudos); consonâncias ao invés de
dissonâncias; intervalos com poucos saltos harmônicos; ritmos marcantes (SCHNECK;
BERGER, 2006).
Em suma, a intervenção precoce em musicoterapia deve seguir alguns critérios
estabelecidos anteriormente, como: basear a intervenção nas necessidades e
potencialidades do paciente; fornecer mecanismos musicais visando facilitar a
comunicação, a expressão musical; fornecer estruturas rítmico-melódicas que darão
suporte às atividades que induzem ordem e controle, promovendo o movimento; manter
um estado de bem estar, motivação, prazer e atenção na atividade musical; reforçar
habilidades no âmbito pessoal, social, físico e emocional. A experiência musical, seja
ela ativa e passiva molda o comportamento e prepara o indivíduo para realizar novas
atividades e experimentar novas situações, pois os bebês se comportam ativamente à
música. Formiga et al. (2010) comenta que as intervenções que utilizam vários
caminhos para alcançar o desenvolvimento da criança produzem efeitos maiores no seu
50
desenvolvimento. Acreditamos que a música é uma ferramenta que fornece diversos
elementos
que,
através
da
intervenção
musicoterapêutica,
favorecerão
o
desenvolvimento motor, cognitivo, social, da linguagem e de autocuidados da criança.
Neste caso a intervenção musicoterapêutica deve fornecer um ambiente rico para
o desenvolvimento do bebê, fornecendo mecanismos que favoreçam a exploração de
objetos ou instrumentos musicais, o alcance, a expressão e a comunicação, a
experimentação sonora através do fazer musical e das mais variadas formas,
sonoridades e intensidades. Sempre levando em conta as preferências sonoro-musicais
que favorecerão o desenvolvimento do bebê.
51
CONCLUSÃO
Diante das evidências acerca do processamento musical em bebês e da utilização
da música com fins desenvolvimentistas, acreditamos que um crescente interesse pela
utilização da música no favorecimento de diversas especialidades , crescerá
substancialmente nos próximos anos, em especial na pediatria. Isto já é evidente com o
substancial aumento da pesquisa neurológica e com os artefatos tecnológicos que dão
suporte. Pudemos comprovar que no ser humano é inata a experiência musical, e os
diversos componentes que integram a música. Também vimos que diversos mecanismos
estão presentes ao nascimento, outros são modelados a partir da experiência, outros
ainda amadurecerão mais tardiamente, estabelecendo conexões cerebrais e ampliando as
já existentes. O quão precoce possível for realizada a intervenção, maior será a chance
de obtenção de sucesso no desenvolvimento e a musicoterapia pode ser uma ferramenta
muito ampla e valiosa para o trabalho com bebês. Esperamos que o presente estudo
possa contribuir para a
prática clínica e também para futuras pesquisas em
musicoterapia.
(BLASI et al., 2011; DEHAENE-LAMBERTZ et al., 2010; HADEN et al., 2009;
HOMAE et al., 2012) (STEFANICS et al., 2009) (FUJIOKA et al., 2011) (TRAINOR
et al., 2011) (KOTILAHTI et al., 2010) (SAKATANI et al., 1999) (TRAINOR et al.,
2011) (HANNON; TRAINOR, 2007) (HONING et al., 2009) (GERRY, D. W. et al.,
2010) (SCHMIDT et al., 2003) (HOMAE et al., 2012;
SCHNECK; BERGER, 2006;
(FORMIGA et al., 2010)
TRAINOR et al., 2011;
MCPHERSON, 2006;
WINKLER et al., 2009)
52
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