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A PERVERSIDADE DAS OBSERVAÇÕES: O ANORMAL DOMINADO
PELO OLHAR DA SOCIEDADE
Ms Denize Helena Lazarin (UEL)
Resumo. Com o surgimento de Lolita (1955), de Vladimir Nabokov, por décadas temos
celebrado o fenômeno da ninfeta sedutora, contudo outra personagem, tão polêmica
quanto, não tem ficado tão à mostra. Trata-se de Humbert, o pedófilo, que enquanto
alteridade não se deixa compreender e não se submete ao poder de normalização. Neste
estudo, pretendemos demonstrar que do mesmo modo que a personagem título do
romance de Nabokov, Humbert também é construído pela sociedade que discrimina
qualquer desvio de comportamento, ou seja, é transformado em anormal pela sociedade
(“normal”). Na investigação destas questões utilizaremos como metodologia, entre
outros, os estudos de Foucault em Doença mental e psicologia (2003) e Os anormais
(2002).
Palavras-chave: Lolita; Nabokov; Alteridade; Anormalidade.
Abstract. With the emergence of the novel Lolita (1955), by Vladimir Nabokov, for
decades we have celebrated the phenomenon of the seductive nymphet although another
character, as polemic as, has not being so exposed. Humbert, the pedophile, while
alterity he isn’t understandable and it doesn’t submit itself to the power of
normalization. In this study, we intend to demonstrate that just like Lolita, Humbert is
also constructed by society, which discriminates against any deviant behavior, this is, he
is transformed into abnormal by (“normal”) society. In the investigation of these issues
we will use as a methodology, among others, the studies of Foucault in Mental Illness &
Psychology (2003) and Abnormal (2002).
Keywords: Lolita; Nabokov; Alterity; Abnormality.
Nunca a psicologia poderá dizer a verdade sobre a loucura, já que é
esta que detém a verdade da psicologia. (Michel Foucault)
O mito da ninfeta, ou seja, a adolescente que seduz o homem de meia idade, é
amplamente difundido em nossa sociedade, Acredita-se que esta imagem foi criada a
partir da personagem homônima do celebre romance de Vladimir Nabokov Lolita
(1955). Enquanto leituras feministas podem estabelecer a adolescente título da obra
enquanto alteridade, pretendemos desmistificar outra alteridade desenvolvida no
romance de Nabokov, ou seja, enfocando a construção do “criador” de Lolita: Humbert.
Neste mito, o cinema, por meio das adaptações cinematográficas de Stanley Kubrick
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(1962) e Adrian Line (1997), aceita e propaga as sugestões demonizantes de Humbert
ao definir a sensualidade de Lolita, assim a pedofilia é ignorada a favor da aura de
ingenuidade que recobre Humbert. Portanto, para reforçar nossa hipótese, ambas as
personagens são mitificadas pelo cinema: a ninfeta que somente existe na imaginação
do pedófilo torna-se, nas versões de Kubrick e de Lyne, uma ninfeta de fato, evitando
assim a abordagem problemática da pedofilia em si.
Em “A ingenuidade de um perverso: linguagem e erotismo em Nabokov” (2007),
Eliane Moraes parte de uma premissa original pretendemos abordar:
Embora o romance Lolita tenha se celebrizado por colocar em
evidência a figura da ninfeta, não deixa de ser notável a complexidade
com que elabora a imagem do perverso. Humbert é um personagem
construído sobre paradoxos: se, de um lado, ele insiste em se definir
como um pervertido, de outro, ele jamais corresponde à caricatura do
tarado – ou, se preferirmos seu equivalente contemporâneo, do
pedófilo –, sendo que tais estereótipos são colocados em xeque ao
longo de todo o livro (MORAES, 2007, p. 116; grifo da autora).
Devemos destacar algumas ressalvas para não contrariar nossa hipótese, pois quem
celebrizou a figura da ninfeta foram as adaptações cinematográficas de Lolita. O próprio
Nabokov afirmou em entrevista que o filme de Kubrick não era o roteiro que ele havia
escrito cena por cena durante seis meses (GOLD, 2003, p. 205). Mas é certo que a
imagem do perverso ganha na obra de Nabokov contornos inesperados: segundo
Moraes, “vale lembrar que o pervertido de Lolita, longe de ser a pessoa que se abandona
livremente à transgressão, é um sujeito preso por definição” (MORAES, 2007, p. 117).
Como afirma a autora, ao contrário dos libertinos de Sade que gozam de toda liberdade,
Humbert é um homem confinado em sua perversão (MORAES, 2007, p. 116-117).
Antes de submeter Lolita aos seus caprichos, a personagem-narradora buscou várias
maneiras de controlar seus “desejos degradantes e perigosos”, como, por exemplo, se
casar:
[...] but soon after, for my own safety, I decided to marry. It occurred
to me that regular hours, home-cooked meals, all the conventions of
marriage, the prophylactic routine of its bedroom activities and, who
knows, the eventual flowering of certain moral values, of certain
spiritual substitutes, might help me, if not to purge myself of my
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degrading and dangerous desires, at least to keep them under pacific
control (NABOKOV, 2000, p. 24)1.
É Interessante destacar que inicialmente Humbert se casa para sua “própria
segurança”, ou seja, ele teme pelas consequências da livre vazão de seus desejos. Ele
busca assim manter-se “sob dócil controle” sua perversão. Entretanto, como afirma
Sweeney (2004), Humbert admite a falsidade da sua confissão já na primeira página,
mostrando como se reconhece um assassino pelo estilo. Outro exemplo desta falsidade
em suas afirmações é seu desabafo no final do capítulo 25 da primeira parte: “Oh, let
me be mawkish for the nonce! I am so tired of being cynical” (NABOKOV, 2000, p.
109) 2 . Em vários momentos ainda o narrador nos lembra que está escrevendo sob
observação, como, por exemplo, na última página da sua confissão, onde afirma que
começou a redigir Lolita “first in the psychopathic ward for observation, and then in this
well-heated, albeit tombal, seclusion” (NABOKOV, 2000, p. 308)3. Se Humbert escreve
sob observação provavelmente mede suas palavras objetivamente considerando a reação
das “senhoras e senhores membros do júri”, que são evocadas constantemente em sua
confissão. Para Sweeney (2004), “the necessity of distinguishing between word and
deed permeates every aspect of Lolita” 4.
Retornando às considerações de Moraes, nos parece que a autora desconsidera o fato
de Humbert poder estar simulando suas confissões ao se embasar na leitura de Silviano
Santiago (1999), afirmando com ele que “[...] o pedófilo se caracteriza por ser aquele
que jamais esquece a própria infância – que dela não se liberta – e nesse sentido o
protagonista do livro é exemplar” (MORAES, 2007, p. 117). A partir daí, a autora
conclui que “a criança da história não é mais a ninfeta, mas sim o perverso” (MORAES,
2007, p. 117). Percebe-se nesta interpretação que Moraes dá à obra o seguinte
mecanismo: a absolvição de Humbert conduz inevitavelmente à demonização de Lolita:
“Desnecessário recordar que, para reforçar tal hipótese, é Lolita quem seduz o frágil
1
Tradução de Jorio Dauster: “[...] seja como for, para minha própria segurança, pouco depois resolvi
casar-me. Ocorreu-me que os horários regulares, as comidas caseiras, todas as convenções do casamento,
a rotina profilática das atividades de alcova e, quem sabe, o eventual desabrochar de certos valores
morais, de certo sucedâneos espirituais, poderiam contribuir, se não para que expurgasse meus desejos
degradantes e perigosos, ao menos para que os mantivesse sob dócil controle” (NABOKOV, 2003, p. 26).
2
Tradução de Jorio Dauster: “Ah, permitam-me que eu seja repugnantemente sincero ao menos esta vez!
Estou cansado de ser cínico” (NABOKOV, 2003, p. 111).
3
Tradução de Jorio Dauster: “inicialmente sob observação psiquiátrica, e depois nessa cela bem aquecida,
conquanto sepulcral” (NABOKOV, 2003, p. 312).
4
Tradução livre: “a necessidade de distinção entre palavra e fato permeia cada aspecto de Lolita”.
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Humbert que no grand moment aparece abatido pelo temor, pelas dores e pela azia”
(MORAES, 2007, p. 117). Moraes reforça o mito cinematográfico da diabólica ninfeta
que enfeitiça o pobre ingênuo.
Estamos então diante de um dilema: como considerar duas alteridades em confronto,
a menina e o louco, sem apelar para uma retórica maniqueísta? Nossa hipótese é que
tanto Lolita quanto Humbert são alvos dos discursos produzidos pela sociedade: para
Foucault (2006, p. 8-9), toda sociedade visa controlar a produção dos discursos no
intuito de manipular seus poderes e evitar seus perigos. A partir deste ponto de vista,
podemos afirmar que no processo de dominação de Lolita, Humbert é um executor das
leis sobre a sexualidade estabelecidas pelo discurso da sociedade. Segundo Foucault
(2006, p. 13), existem três grandes sistemas que controlam os discursos: a palavra
proibida, a segregação da loucura e a vontade de verdade. Para ele este último se
destaca, pois é ele que, através do conhecimento/poder, legitima (ou não) os demais: as
fronteiras da loucura, por exemplo, são delimitadas pelas verdades da psiquiatria, que,
na obra, definem Humbert como anormal.
Mas de onde surgem as verdades que controlam o discurso sobre Humbert? Uma
resposta possível, mas não efetiva como veremos, são as instâncias jurídicas e
psiquiátricas, conjugadas mais precisamente no gênero discursivo que Foucault
denomina em Os anormais (1974-75) como exame psiquiátrico em matéria penal ou
exame médico-legal. Para Foucault, a junção entre as esferas jurídica e psiquiátrica
produz um gênero híbrido, ou em suas palavras, “ubuesco” (FOUCAULT, 2001, p. 15),
que julga o que não é para julgar:
[...] o exame psiquiátrico dobra o delito, tal como é qualificado pela
lei, com toda uma série de outras coisas que não são o delito mesmo,
mas uma série de comportamentos, de maneiras de ser que, bem
entendido, no discurso do perito psiquiatra, são apresentadas como a
causa, a origem, a motivação, o ponto de partida do delito
(FOUCAULT, 2001, p. 19).
Sendo assim, como conclui Foucault (2001, p. 21), “o que se tem de punir é a própria
coisa”, ou seja, não mais o delito, mas sim o comportamento anormal. Humbert não é
julgado pelo que fez, mas por quem ele é. Segundo Foucault,
O que o juiz vai julgar e o que vai punir, o ponto sobre o qual
assentará o castigo, são precisamente essas condutas irregulares, que
terão sido propostas como a causa, o ponto de origem, o lugar de
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formação do crime, e que dele não foram mais que o duplo
psicológico e moral (FOUCAULT, 2001, p. 22).
A partir da imbricação entre o poder judiciário e o poder médico surge um terceiro
poder que Foucault (2001, p. 52) denomina como “poder de normalização”. Em Doença
mental e psicologia (1954), Foucault parte de preceitos já estabelecidos pela sociologia
e pela patologia mental: “a doença só tem realidade e valor de doença no interior de
uma cultura que a reconhece como tal” (FOUCAULT, 1988, p. 71). Sendo assim, “as
análises de nossos psicólogos e sociólogos, que fazem do doente um desviado e que
procuram a origem do mórbido no anormal, são, então, antes de tudo, uma projeção de
temas culturais” (FOUCAULT, 1988, p. 74). Em sua defesa, Humbert se mostra
conhecedor deste mecanismo ao lembrar que “na tribo dos Lepcha, velhos de oitenta
anos copulam com meninas de oito, e ninguém se importa”; ele ainda, em tom de ironia,
pede que “sejamos recatadamente civilizados” (NABOKOV, 2000, p. 19). A sobriedade
da civilização ocidental que Humbert zomba revela como “uma sociedade se exprime
positivamente nas doenças mentais que manifestam seus membros” (FOUCAULT,
1988, p. 74). Ao definir a atração por crianças como um comportamento anormal, a
sociedade, por exemplo, se afirma como pudica. Este é o objetivo do “poder de
normalização” que se manifesta no último parágrafo do prefácio fictício de Lolita:
As a case history, “Lolita” will become, no doubt, a classic in
psychiatric circles. As a work of art, it transcends its expiatory
aspects; and still more important to us than scientific significance and
literary worth, is the ethical impact the book should have on the
serious reader; for in this poignant personal study there lurks a general
lesson; the wayward child, the egotistic mother, the panting maniac –
these are not only vivid characters in a unique story: they warn us of
dangerous trends; they point out potent evils. “Lolita” should make all
of us – parents, social workers, educators – apply ourselves with still
greater vigilance and vision to the task of bringing up a better
generation in a safer world (NABOKOV, 2000, p. 5-6)5.
5
Tradução de Jorio Dauster: “Como caso clínico, Lolita por certo será visto como um clássico nos meios
psiquiátricos. Como obra de arte, transcende seu aspecto expiatório. Todavia, mais importante do que sua
relevância científica ou valor literário é o impacto ético que o livro deve exercer sobre o leitor sério, pois
nessa dolorosa trajetória pessoal transparece uma lição de cunho genérico: a criança desobediente, a mãe
egoísta, o maníaco ofegante não são apenas vívidos personagens de um drama excepcional. Eles nos
advertem sobre tendências perigosas, apontam para gravíssimos males. Lolita deveria fazer com que
todos nós – pais, educadores, assistentes sociais – nos empenhássemos com diligência e visão ainda
maiores na tarefa de criar uma geração melhor num mundo mais seguro” (NABOKOV, 2003, p. 7).
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Ao propor a criação de uma “geração melhor”, esta sociedade se afirma
positivamente negando as “tendências perigosas” da “criança desobediente”, da “mãe
egoísta” e, principalmente, do “maníaco ofegante”. Enfatizamos este último, pois é
Humbert quem recebe do fictício John Ray, autor do prefácio de Lolita, os adjetivos
mais severos: “he is horrible, he is abject, he is a shining example of moral leprosy”,
enfim, “he is abnormal” (NABOKOV, 2003, p. 7)6. Neste prefácio, John Ray não vê
Lolita como um “clássico nos meios psiquiátricos” ou como “uma obra de arte”, e sim
como uma “lição de cunho genérico”, ou seja, de cunho normativo.
Mas se no prefácio de John Ray percebemos claramente o poder de normalização
que Foucault reconhece no exame médico-legal, o mesmo não podemos concluir a
respeito das confissões de Humbert, pois, ainda que percebemos nelas o conhecimento
apurado dos meandros da psiquiatria e psicanálise, elas formam apenas um auto-exame,
e não um exame de um outro revestido pelo poder da ciência/lei. É no estado de autoexame, ou seja, de sujeito (examinador) e objeto (examinado) simultaneamente, que
Humbert mostra-se subversor ao poder de normalização do exame médico-legal.
Percebemos isto primeiramente em suas zombarias da psiquiatria:
I owe my complete restoration to a discovery I made while being
treated at that particular very expensive sanatorium. I discovery there
was an endless source of robust enjoyment in trifling with
psychiatrists: cunningly leading them on, never letting them see that
you know all the tricks of the trade; inventing for them elaborate
dreams, pure classics in style (which make them, the dreamextortionists, dream and wake up shrieking); teasing them with fake
“primal scenes”; and never allowing them the slightest glimpse of
one’s real sexual predicament (NABOKOV, 2000, p. 34)7.
O fato de Humbert conhecer tão bem os meios da psiquiatria e psicanálise nos faz
pensar se Annabel, a precursora de Lolita, não é também uma invenção, uma
brincadeira para tapear os psiquiatras que observam Humbert em sua prisão. De fato,
6
Tradução de Jorio Dauster: “uma pessoa horrível e abjeta, notável exemplo de lepra moral”; “um ser
anormal” (NABOKOV, 2003, p. 7).
7
Tradução de Jorio Dauster: “Devo minha completa recuperação a uma descoberta que fiz no caríssimo
sanatório onde estava sendo tratado. Descobri que existe uma fonte inesgotável de sadio divertimento na
tapeação dos psiquiatras. A brincadeira consiste em atraí-los astuciosamente sem nunca revelar que você
conhece os truques da profissão; em inventar para eles sonhos intrincados, verdadeiros clássicos no
gênero (o que faz com que eles, esses usurpadores de sonhos, tenhamos piores pesadelos e acordem aos
gritos); em atormentá-los com recordações simuladas de cenas de infância que envolvam seu pai e sua
mãe, em jamais permitir que eles ao menos entrevejam seus verdadeiro problemas sexuais” (NABOKOV,
2003, p. 36).
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dando continuidade a possível brincadeira, Humbert chama pelo “competente
psiquiatra” que estuda seu caso:
The able psychiatrist who studies my case – and whom by now Dr.
Humbert has plunged, I trust, into a state of leporine fascination – is
no doubt anxious to have me take my Lolita to the seaside and have
me find there, at least, the “gratification” of a lifetime urge, and
release from the “subconscious” obsession of an incomplete childhood
romance with the initial little Miss Lee (NABOKOV, 2000, p. 166167)8.
Logo após, na narrativa, Humbert confirma que procurou por uma praia, contudo
houve tantas inconveniências que ele interrompe suas confissões para dizer: “So much
for those special sensations, influenced, if not actually brought about, by the tenets of
modern psychiatry” (NABOKOV, 2000, p. 167) 9 . Humbert se esquiva de qualquer
conhecimento/poder que possa explicar sua pedofilia, e neste sentido ratifica a seguinte
conclusão de Foucault: “A característica da doença mental, em oposição ao
comportamento normal, não é exatamente de poder ser explicada, mas resistir a
qualquer compreensão” (FOUCAULT, 1988, p. 56). Temos aqui o louco, o pedófilo,
enquanto alteridade que não se deixa compreender, que não se submete ao poder de
normalização. Na verdade, se seguirmos a reflexão de Foucault, foi a loucura que
inicialmente tornou possível a análise psicológica dela mesma, “foi ela que
secretamente fundou a possibilidade de toda psicologia” (FOUCAULT, 1988, p. 84).
Sendo assim, “nunca a psicologia poderá dizer a verdade sobre a loucura, já que é esta
que detém a verdade da psicologia” (FOUCAULT, 1988, p. 85). Entendemos então
como Humbert manipula o conhecimento/poder ao qual é submetido, pois, enquanto
louco, é ele quem melhor conhece as “verdades” da ciência que tenta compreendê-lo.
Isto é demonstrado, como vimos logo acima, pelas manipulações de Humbert daquilo
que Foucault (1988, p. 32) acusa como mito da psicanálise: a doença mental como
regressão à infância, como “o processo ao longo do qual se desfaz a trama da evolução”
até atingir “os níveis mais arcaicos” (FOUCAULT, 1988, p. 26). É neste sentido que
8
Tradução de Jorio Dauster: “O competente psiquiatra que estuda meu caso – e que, segundo imagino, já
estará a essa altura tão fascinado pelo dr. Humbert quanto um pobre coelho diante de uma serpente – deve
sentir-se ansioso para que eu vá com minha Lolita a alguma praia e lá obtenha, finalmente, a
“gratificação” do desejo de toda uma vida, libertando-me assim da obsessão “subconsciente” de um
romance frustrado com a menina primordial, a pequena mademoiselle Lee” (NABOKOV, 2003, p. 169).
9
Tradução de Jorio Dauster: “Mas chega dessas sensações especiais, influenciadas, se não inteiramente
geradas, pelos dogmas da psiquiatria moderna” (NABOKOV, 2003, p. 170).
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Humbert zomba dos “mercadores da psicanálise” (NABOKOV, 2000, p. 285),
colocando mais uma vez em xeque a interpretação de Moraes (2007, p. 117) que
compreende Humbert como a criança da história, ao invés de Lolita. Para Foucault,
A doença mental situa-se na evolução, como uma perturbação do seu
curso; por seu aspecto regressivo, ela ocasiona condutas infantis ou
formas arcaicas da personalidade. Mas o evolucionismo engana-se ao
ver nestes retornos a própria essência do patológico, e sua origem real.
Se a regressão à infância se manifesta nas neuroses, é somente como
um efeito. Para que a conduta infantil seja para o doente um refúgio,
para que seu reaparecimento seja considerado como um fato
patológico irredutível, é preciso que a sociedade instaure entre o
presente e o passado do indivíduo uma margem que não se pode nem
se deve transpor; é preciso que a cultura somente integre o passado
forçando-o a desaparecer. E nossa cultura tem bem esta marca.
Quando o século XVIII, com Rousseau e Pestallozzi, preocupou-se
em constituir para a criança, com regras pedagógicas que seguem seu
desenvolvimento, um mundo que esteja a sua altura, ele permitiu que
se formasse em torno das crianças um meio irreal, abstrato e arcaico,
sem relação com o mundo adulto (FOUCAULT, 1988, p. 91).
Se a loucura é comparada à infância, é porque a infância, pelo menos como
compreendida desde o século XVIII, se isola do mundo adulto para um mundo próprio
que se assemelha ao mundo enclausurado do alienado. No trecho acima encontramos
simetrias reveladoras quando consideramos as ponderações igualmente longas de
Humbert sobre Lolita e a infância em geral:
Of course, in my old-fashioned, old-world way, I, Jean-Jacques
Humbert, had taken for granted, when I first met her, that she was as
unravished as the stereotypical notion of “normal child” had been
since the lamented end of the Ancient World B.C. and its fascinating
practices. We are not surrounded in our enlighted era by little slave
flowers that can be casually plucked between business and bath as
they used to be in the days of the Romans; and we do not, as dignified
Orientals did in still more luxurious times, use tiny entertainers fore
and aft between the mutton and the rose sherbet. The whole point is
that the old link between the adult world and the child world has been
completely severed nowdays by new customs and new laws. Despite
my having dabbled in psychiatry and social work, I really knew very
little about children. After all, Lolita was only twelve, and no matter
what concessions I made to time and place – even bearing in mind the
crude behavior of American schoolchildren – I still was under the
impression that whatever went on among those brash brats, went on at
a later age, and in a different environment. Therefore (to retrieve the
thread of this explanation) the moralist in me by-passed the issue by
clinging to conventional notions of what twelve-year-old girls should
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be. The child therapist in me (a fake, as most of them are – but no
matter) regurgitated neo-Freudian hash and conjured up a dreaming
and exaggerating Dolly in the “latency” period of girlhood. Finally,
the sensualist in me (a great and insane monster) had no objection to
some depravity in his prey (NABOKOV, 2000, p. 124)10.
Em primeiro lugar, logo no início da citação, Humbert se compara ironicamente a
Jean-Jaques Rousseau, autor de Émile (1762), onde se propõe a educação desde a
primeira infância como formadora de adultos responsáveis. Mas Humbert não professa
o credo do filósofo francês, na verdade, mesmo que cinicamente evocando o
“moralista” e o “terapeuta infantil” que havia nele, Humbert acredita no “antigo vínculo
entre o mundo dos adultos e o mundo das crianças”, ou seja, no momento históricocultural que justifica seu comportamento pedófilo, desligando-se do estigma de
anormalidade que lhe é imposto. A partir deste viés, o questionamento se volta contra
“nossos tempos esclarecidos” que rompem a união entre os mundos infantil e adulto,
desenvolvendo em seu lugar a “noção estereotipa de ‘criança normal’” que também
carrega suas consequências:
Toda a evolução da pedagogia contemporânea, com o irrepreensível
objetivo de preservar a criança dos conflitos adultos acentua a
distância que separa, para um homem, sua vida de criança de sua vida
de homem feito. Isto significa que, para poupar à criança conflitos, ela
a expõe a um conflito maior, à contradição entre sua infância e sua
vida real (FOUCAULT, 1988, p. 91-92).
10
Tradução de Jorio Dauster: “Naturalmente, com minhas concepções antiquadas de cidadão do Velho
Mundo, eu, Jean-Jacques Humbert, havia tido como certo e indiscutível, desde que a vi pela primeira vez,
que ela era tão imaculada quanto tem sido a noção estereotipada de “criança normal” desde o lamentável
fim da era pré-cristã e de suas fascinantes práticas. Em nossos tempos esclarecidos, não estamos cercados
de pequenas flores escravas que possam ser despreocupadamente colhidas entre a hora do trabalho e a do
banho, como o eram na época dos romanos; e, ao contrário do que faziam os honrados orientais em eras
ainda mais luxuriosas, não usamos pequenos bailarinos e bailarinas, na frente e atrás, entre o assado de
carneiro e o sorbet de rosas. O importante é que o antigo vínculo entre o mundo dos adultos e o mundo
das crianças foi completamente rompido, nos dias de hoje, por novos costumes e novas leis. Embora eu
conhecesse superficialmente alguma coisa de psiquiatria e assistência social, a verdade é que sabia muito
pouco acerca das crianças. Afinal de contas, Lolita só tinha doze anos e, por maiores que fossem as
concessões que eu fizesse ao lugar e ao tempo – e mesmo levando em conta a conduta grosseira dos
escolares americanos –, ainda tinha a impressão de que o que quer que se passasse entre aqueles fedelhos
impudentes acontecia numa idade mais avançada e em outro tipo de ambiente. Assim (para retornar o fio
da explicação), o moralista que havia em mim contornava o problema apegando-se às noções
convencionais daquilo que deviam ser as meninas de doze anos. O terapeuta infantil que havia em mim
(um charlatão, como a maioria deles – mas não importa) regurgitava um picadinho neofreudiano e criava
a imagem de uma Dolly sonhadora, dada a exageros, ainda no período de “latência” da juventude. Por
fim, o libertino em mim (um monstro insano, horripilante) não via com maus olhos um certo grau de
depravação em sua presa” (NABOKOV, 2003, p. 126).
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É nesta contradição que Humbert se percebe inserido, pois como adulto não pode
desfrutar da infância alheia, atravessando seu mundo (adulto) para chegar a outro
mundo (infantil). Resta então, depois do “moralista” e do “terapeuta infantil” que havia
nele, somente o “libertino”, “um monstro insano, horripilante”. Da imaginação deste
monstro híbrido é que nasce outro monstro igualmente híbrido: a ninfeta, capaz de
misturar os dois mundos, mas sem restaurar o antigo vínculo entre eles, pois cada qual
ainda carrega as marcas da separação, as noções estereotipadas de crianças imaculadas e
de adultos depravados. Um monstro (libertino) cria outro monstro (ninfeta) para
justificar sua monstruosidade.
O monstro é uma das três figuras que, para Foucault (2001), constituem o domínio da
anomalia. Quando o monstro jurídico-biológico (FOUCAULT, 2001, p. 69-70), que
viola tanto as leis da sociedade quanto as leis da natureza (os irmãos siameses, os
hermafroditas, etc.), se ameniza e se transforma no monstro jurídico-moral
(FOUCAULT, 2001, p. 91-92), que traz consigo a monstruosidade da conduta, surgem
algumas interrogações:
A partir desse momento o criminoso monstruoso trará consigo a
questão: devemos efetivamente aplicar-lhes as leis? Como ser de
natureza monstruosa e inimigo da sociedade inteira, não deve a
sociedade se livrar dele, sem nem sequer passar pelo arsenal das leis?
O criminoso monstruoso, o criminoso nato, na verdade nunca
subscreveu o pacto social: insere-se ele efetivamente no domínio das
leis? Devem as leis ser aplicadas a ele? (FOUCAULT, 2001, p. 120).
Sweeney (2004) também afirma que, “in Lolita, several factors make judging
Humbert’s case particularly difficult” 11 , sendo um deles o seguinte: “Since he
apparently cannot control his desire for prepubescent girls, to what extent should he be
held accountable for his behavior?”12 . Uma pergunta que também podemos fazer é:
quem está apto, ou melhor, quem detém o conhecimento/poder para julgar um
“criminoso monstruoso” como Humbert? Já vimos que os discursos jurídico e
psiquiátrico, ainda que responsáveis por esses casos, são ineficazes. A solução literária
que Nabokov apresenta se encontra no início do prefácio fictício: Humbert “[...] had
died in legal captivity, of coronary thrombosis, on November 16, 1952, a few days
11
Tradução livre: “em Lolita, vários fatores tornam particularmente difícil julgar o caso de Humbert”.
Tradução livre: “Desde que ele [Humbert] aparentemente não pode controlar seu desejo por garotas
pré-adolescentes, até que ponto deve ele ser repreendido como responsável por seu comportamento?”.
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before his trial was scheduled to start” (NABOKOV, 2000, p. 3)13. Mas esta solução
literária, como mostra Sweeney (2004), apenas conduz o problema para diante, mais
precisamente para quem está diante das confissões de Humbert:
He [Humbert] is never tried in a court of law, leaving the novel's
readers--the sole witnesses to his confession, apart from a fictitious
lawyer and editor--stuck with the tasks of both judge and jury.
Nabokov designed his novel, in other words, so that readers feel
compelled to resolve its convoluted narrative structure by finding a
verdict and pronouncing sentence on the narrator.14
Se o receptor, tanto o leitor quanto o espectador, é quem justifica a organização do
nosso estudo, considerando inicialmente seu horizonte de expectativas formado
massivamente pelos mitos do cinema para, logo após, desfazê-lo a partir de
interpretações que abolem tanto a impostura demoníaca de Lolita quanto a ingenuidade
de Humbert, isto não é por acaso: o receptor se encontra no centro da obra de Nabokov.
São eles, os receptores, quem Humbert chama ao clamar pelos “senhores membros do
gênero humano” (NABOKOV, 2000, p. 124), pois são eles quem julgam a conduta
humana, são eles quem exercem (ou não) o poder de normalização. Mas quando o
cinema se apressa em condenar a sensualidade de Lolita, absolvendo Humbert e
retirando do espectador qualquer possibilidade de julgamento, se estabelece o mito
definitivo: o receptor-júri de Nakabov torna-se o receptor-cúmplice do cinema,
conivente com a norma, ou seja, com a demonização da mulher e com o silêncio em
torno da pedofilia. Enquanto Nabokov oferece a responsabilidade ética do julgamento, o
cinema a remove, perpetuando assim a ordem do discurso sobre a mulher e o louco.
Referências
FOUCAULT, Michel. Doença mental e psicologia. Trad. Lilian Rose Shalders. Rio de
Janeiro: Tempo Brasileiro, 1988.
_____. Os anormais: curso no Collège de France (1974-1975). Trad. Eduardo Brandão.
São Paulo: Martins Fontes, 2002.
13
Tradução de Jorio Dauster: “[...] morrera na prisão de uma trombose coronária, em 16 de novembro de
1952, poucos dias antes da data marcada para o início de seu julgamento” (NABOKOV, 2003, p. 5).
14
Tradução livre: “Ele [Humbert] nunca é ouvido em uma corte da lei, deixando os leitores do romance –
as únicas testemunhas de sua confissão, fora um advogado e um editor fictícios – pregados com as tarefas
tanto do juiz quanto do júri. / Em outras palavras, Nabokov desenha seu romance para que os leitores se
sintam compelidos a resolver sua estrutura narrativa intrincada encontrando um veredicto e pronunciando
uma sentença para o narrador”.
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ISSN 2178-955X
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_____. A ordem do discurso. Trad. Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo:
Loyola, 2006.
GOLD, Herbert. Interview with Vladimir Nabokov. In: PIFER, Ellen (org.). Vladimir
Nabokov’s Lolita: a casebook. Oxford: Oxford University Press, 2003.
LOLITA. Direção: Stanley Kubrick. Produção: James B. Harris. Intérpretes: James
Manson; Shelley Winters; Peter Sellers; Sue Lyon e outros. Roteiro: Vladimir Nabokov,
baseado em livro de Vladimir Nabokov. Los Angeles: Warner Bros., c1962. 1 DVD
(153 min).
LOLITA. Direção: Adrian Lyne. Produção: Mario Kassar e Joel B. Michaels.
Intérpretes: Jeremy Irons; Melaine Grifftih; Frank Langella; Dominique Swain e outros.
Roteiro: Stephen Schiff, baseado em livro de Vladimir Nabokov. Música: Ennio
Morricone. Los Angeles/Paris: Guild/Pathé, c1997. 1 DVD (138 min).
MORAES, Eliane Robert. A ingenuidade de um perverso: linguagem e erotismo em
Nabokov. Ide, São Paulo, n. 45, p. 115-119, dez. 2007.
NABOKOV, Vladimir. The Annotated Lolita. London: Penguin Books, 2000.
_____. Lolita. Trad. Jorio Dauster. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003.
SANTIAGO, Silviano. O pequeno demônio de Nabokov. Folha de S. Paulo, São
Paulo, 18 de abril de 1999. Caderno Mais.
SWEENEY, Susan Elizabeth. Executing Sentences in Lolita and the Law (2004).
Disponível em: <http://www.libraries.psu.edu/nabokov/sweeney1.htm>. Acesso em: 10
out. 2009.
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