Kassanji!

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Kassanji!
Kassanji!
J. Roberto Whitaker Penteado
Neste ano, a propaganda comemora o 75º aniversário da J. Walter Thompson - agência que,
para muitos, foi uma verdadeira escola de propaganda, antes da ESPM - e também os 90 anos
do nascimento de Renato Castelo Branco, profissional que tem seu nome ligado à JWT, como
seu primeiro presidente brasileiro.
Lendo a respeito dessas efemérides importantes, encontrei referência ao patrocínio, pela Esso,
Gillette e Souza Cruz, da Copa de 70 na TV - primeiro ano das transmissões diretas, ao vivo que teve a intervenção das três maiores agências da época: McCann, Almap e JWT. Eu era
contato da Gillette, na Almap.
Através desse caminho indireto, acabei lembrando-me de Stanley Chevalier, que conheci como
supervisor da conta Souza Cruz, na Thompson, e que se tornou um amigo querido.
Stanley não deixou sua marca na propaganda brasileira, como Castelo, Julio Cosi ou Altino de
Barros - também, protagonistas daquele episódio. Passou pela propaganda como passaram
muitos - especialmente na minha geração e nas anteriores -, cuja vocação tinha mais a ver
com as artes, a literatura ou a poesia, mas para quem o determinismo do mercado não
reservava espaço nessas áreas.
Gostaria, talvez, de o ter conhecido um pouco antes, e sua família. Um irmão - Roniquito - já
havia morrido e deixara reputação, no Rio de Janeiro, como um dos maiores e melhores
"causeurs" da Zona Sul, capaz de tratar de qualquer assunto e fascinar sua audiência.
Outra irmã, Scarlet Moon Chevalier, é jornalista conhecida e leva consigo a marca de um nome
inusitado - que não é apelido nem pseudônimo. E a avó iniciou-o na poesia de Garcia Lorca, de
cujos versos era capaz de recitar longos trechos.
Generoso, Stanley deu-me o exemplar das obras completas do poeta, presente daquela avó,
alegando que já conhecia quase tudo de cor e que eu faria melhor proveito. Foi, também, um
dos primeiros professores da ESPM do Rio, não aceitando receber pelo trabalho, alegando que
tinha um bom emprego na agência.
Minha história preferida de Stanley é uma em que conversava com um americano enviado pelo
head office da agência e esse lhe perguntou:
- Não há regiões, no Brasil, onde se fala espanhol? Ele: - Não, senhor. - Mas só falam o
português?, insistiu o gringo. Stanley: - Não, mister. Entre nós, muitas vezes, falamos
Kassanji - pronunciando cada sílaba como se fosse uma batida de bongô. - Kassanji? admirouse o americano. - Isso mesmo - e repetia, solene: Kassanji!
Pensava que tinha sido uma
Anos mais tarde, li um texto
como "...esse caçanje, esses
nossa língua e o nosso modo
invenção marota do meu amigo. Mas subestimei a sua erudição.
de Rachel de Queiroz, em que a escritora falava do nosso idioma
pronomes malpostos, essa língua que lhes revolta os ouvidos é a
normal de expressão".
Está no Aurélio; a grafia pode ser caçanje ou cassange - e trata-se de uma região da Angola.
Por contigüidade, virou um sinônimo pejorativo de português mal falado e mal escrito. Só o
Stanley, para saber disso.
PENTEADO, J. Roberto Whitaker. Kassanji! JRWP - J. Roberto Whitaker Penteado,
Rio de Janeiro, out. 2004. Disponível em: <http://www.jrwp.com.br/artigos/leartigo.asp?offset=300&ID=231>.
Acesso em: 15 set. 2009.

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