L`Islam de marché: l`autre révolution conservatrice Patrick Haenni

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L`Islam de marché: l`autre révolution conservatrice Patrick Haenni
L'Islam de marché: l'autre révolution conservatrice
Patrick Haenni, 2005, Paris: Seuil
Francisco Freire
Núcleo de Antropologia em Contextos islâmicos do CRIA
L'Islam de marché: l'autre révolution conservatrice (Patrick Haenni, 2005, Paris: Seuil), um
texto marcado pelo gigantesco e multi-vocal universo islâmico egípcio (particularmente centrado na
cidade do Cairo, mas considerando também exemplos sudeste asiáticos, turcos, e europeus), propõenos – efectivamente, apenas sugere, na maior parte das vezes - a consideração epistemológica de
um universo islâmico contemporâneo “burguês”, avançado tecnologicamente e intrinsecamente
ligado a modelos de mercado globalizados:
L'islam de marché n'est pas l'expression religieuse des déshérités. Il se situe dans un univers
bourgeois où piété, richesse et cosmopolitism se substituent aux idéaux de justice sociale et à la
valorisation d'un mode de vie frugal imputé à un certain traditionalisme musulman (p. 60-1).
Partindo da ilustração ampla de contextos recentemente re-islamizados, o autor centra
depois o seu texto nos novos processos de pregação islâmica, assim corporizando uma inequívoca
ligação entre Islão e cultura. Neste ponto é exposto o argumento mais provocador do texto, ligando
duas das maiores figuras da “pregação global” (Amr Khaled e Aa Gym) a escolas Norte Americanas
de “auto-ajuda”.
Haenni diz-nos que os métodos a utilizar na análise dos terrenos islâmicos contemporâneos
se devem validar privilegiadamente através do recurso a modelos “de mercado” conhecidos
sobretudo a Ocidente. Sem negar a continuidade de fenómenos de missionação islâmica (e de re-
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islamização), este autor reflecte sobre esse fenómeno ilustrando as ferramentas agora utilizadas
nesses processos, que, surpreendentemente para alguns, se definem como profundamente ligados a
territórios culturais profundamente globalizados, isto é, partilhados e discutidos com contextos não
muçulmanos.
Este ensaio será bastante estimulante para qualquer investigador em contextos muçulmanos,
ao procurar viabilizar, através de exemplos abundantes, novos quadros epistemológicos de
aproximação às sociedades muçulmanas contemporâneas. Sem mencionar qualquer dos temas
clássicos associados a estes contextos (ver Abu-Lughod 1989, mas onde poderíamos também incluir
o “islamismo”, particularmente na sua percepção pós-11 de Setembro), Haenni ilustra diversos
mecanismos de expressão cultural islâmica (da própria missionação e pregação, às noções de moda,
expressão musical, mercado, ou individualismo) validados sobre a marca da “globalização” (tomada
como uma acentuada aceleração e amplificação dos fluxos sociais, culturais e financeiros). Ou se
preferirmos, como parecem sugerir os múltiplos exemplos que de facto compõem este texto,
definindo estruturas pessoais e culturais islâmicas desenhadas em franca proximidade com uma
cultura de mercado capitalista reconhecida a Ocidente, mas geralmente apagada, ou simplesmente
despida de vitalidade, em contextos muçulmanos (estes, marcados ainda, apetece dizer, por outros
eixos analíticos privilegiados).
Este será o argumento mais visível do ensaio: ilustrar (mais do que teorizar) de forma
abundante e multi-localizada a vitalidade de espaços culturais islâmicos que ao invés de se
aproximarem de leituras “fundamentalistas” do espaço religioso (tomado de forma ampla),
defendem uma clara aproximação a modelos denominados high tech, de origem assumidamente
ocidental (burgueses, ou em vias a aburguesamento, nas suas palavras). A ênfase colocada em duas
figuras cimeiras da missionação global (Amr Khaled e Aa Gym, um egípcio e um indonésio)
acentua a ligação entre Islão e mercado: esta dawa light feita privilegiadamente no interior de
estúdios de televisão, ou em emissões radiofónicas, tem nos seus protagonistas figuras jovens (uma
delas circula numa Kawasaki de grande cilindrada, outra num potente Golf GTI), claramente
incluídas no mercado comunicacional global, dando forma a uma fiqh também ela plenamente
inscrita num contexto de intensas trocas culturais.
Os contextos muçulmanos aqui visitados evidenciam a inclusão destes espaços numa
“economia de mercado capitalista globalizada” que claramente serve o Islão, a sua missionação e a
recomposição dos seus territórios. O ensaio de Haenni (politólogo) não desenvolve um grande
esforço etnográfico, simplesmente esboçando elementos de análise sobre distintos contextos
muçulmanos, ainda que todos eles guardando uma familiaridade com modelos económicos
capitalistas. O tipo de articulação sugerido para os recentes processos de re-islamização faz-se sobre
2
uma linguagem que embora remeta para estruturas “Ocidentais”, claramente as reinventa e reinscreve num universo cultural islâmico. Estes processos desenvolvem-se quer em geografias onde
o Islão é minoritário, quer em contextos de Islão maioritário, ou seja, nas suas palavras, afirmando a
operacionalidade de um “imaginário [muçulmano] deslocalizado” (p.17-22).
O capítulo final defendendo a existência de um inovador “Eixo da piedade” em diversos
territórios muçulmanos (assente, como vimos, em processos de re-islamização) responderá, também
com ironia, a uma recente tomada de posição política pelo governo norte americano (“Eixo do
Mal”). Em sua opinião a redescoberta da piedade muçulmana (Islamic revival) é operada num
território directamente relacionado com produtos e modelos económicos nascidos a Ocidente (assim
justificando também a abundante utilização de termos e expressões em língua inglesa ao longo do
texto). Nas palavras de Haenni:
L'Amérique n'est pourtant pas impénétrable pour tout le monde. Car au moment où elle ne
cesse de se singulariser vis-àvis du vieux continent, côté Sud, les nouveaux agents de
l'islamisation sont de moins en moins islamistes et toujours plus américains, communiant
dans l'appel à une modernité enfin affranchie de as matrice philosophique française, laïque
et étatiste (p. 103).
A forma como são incluídas, de forma abundante, expressões em língua inglesa ao longo do
texto marcam precisamente este diálogo entre distintas possibilidades culturais, acentuando-se a
prevalência de temas anglófonos. Refazendo a sua tese central em português, o texto ler-se-ia,
porventura, desta forma: um businessman egípcio, preocupado com o welfare state, garante para si
uma safety net junto dos seus companheiros born again muslims, através de formas de coaching, ou
positive thinking, aprendidos em talk-shows ou chats, que os transformam em winners, senhores de
uma success story baseada num Islão que é cool and competitive e numa prédica world friendly,
uma daawa light, Muslim-up...
Este ensaio partirá porventura da discussão marcada pelo volume 85 da Revue du Monde
Arab et Musulman (editado por Olivier Roy em 1999; ver também Roy, 2003, L'islam mondialisé,
Paris: Seuil), contudo, Haenni promove uma ultrapassagem do foco então discutido (no final do
século XX, início do século XXI). O texto de Haenni, podendo basear-se no debate “pós-islamista”
dos terrenos muçulmanos, introduz novos e importantes elementos analíticos, de tal forma reitera a
vitalidade e inovação das formas contemporâneas de missionação, de expressão religiosa e cultural
muçulmana.1 Desta forma, evidenciam-se claramente os limites operativos duma vulgata islamista
1 Ver também, Walter Armbrust, 1996, Mass culture and modernism in Egipt, Cambridge and New York: Cambridge
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(a procura, por todos os meios, da conquistas das lideranças estatais), sublinhando-se, isso sim, o
necessário alargamento dos estudos islâmicos a novos terrenos e interlocutores, partindo, sobretudo,
da noção ampla de globalização.
Estranha-se ao longo do texto a ausência de qualquer referência a contextos iranianos,
quando Olivier Roy (1999) definia precisamente a República Islâmica do Irão como exemplar do
fracasso do islamismo (“l'Iran encarne l'échec même du project islamiste”), ao mesmo tempo que
proviria as bases para uma ideologização do Islão (idem: 10). Será nesta medida que porventura se
explicará a “ausência de Irão” do texto de Haenni, quando este autor defende uma “religiosidade
politicamente neutralizada”, “socialmente aburguesada” (p. 33), participando numa activa
“désétatisation du monde” (note-se como o próprio Roy parece actualmente aproximar-se também
desta ideia: “...aujourd'hui le 'religieux' circule précisément en dehors de tout système de
domination politique”, Roy, 2008, La sainte ignorance: les temps de la religion sans culture, Paris:
Seuil, p. 21). Isto é, Haenni acentua mecanismos como a economia (privada), ou a valorização
pessoal, mais do que o Estado, como verdadeiros centros de re-islamização. Esta leitura parece
assim defender um fracasso das estruturas estatais islâmicas (paradigmaticamente representadas por
Teerão), face a processos informais e individuais que aparentemente conquistam os universos
culturais islâmicos (agora a-politizados). Nesta medida, L'islam de marché parece superar o próprio
contexto dos estudos “pós-islamistas”, ao concretizar inúmeros exemplos que em nada remetem
para esse paradigma, aparentemente ultrapassado nas cosmopolitas localizações islâmicas
privilegiadas pelo autor (Cairo, Istambul, sudoeste-asiático, Londres ou Paris).2
ff, Janeiro 2010
University Press; Dale Eickelman & James Piscatori, 1996, Muslim Politics, Princeton: Princeton University Press; D.
J. Sullivan & Sana Abed-Kotob, 1999, Islam in contemporary Egypt: Civil society vs. the state, Boulder: Lynne
Rienner; Asef Bayat, 2002, “Activism and social development in the Middle East”, International Journal of Middle
East Studies, 34 (1), 1-28; Robert W. Hefner (org.), 2006, Remaking Muslim Politics, Princeton: Princeton University
Press; Asef Bayat, 2007, Making Islam Democratic: Social Movements and the Post-Islamist Turn, Standford:
Standford University Press; Armando Salvatore, 2007, The public sphere: liberal modernity, Catholicism, Islam, New
York and Basingstoke: Palgrave Macmillan; Benjamin Soares & R. Otayek (orgs.), 2007, Islam and muslim politics in
Africa, Basingstoke: Palgrave Macmillan.
2 Ver também, Arjun Appadurai, 1991, “Global Ethnoscapes: Notes and Queries for a Transnational
Anthropology,” In Richard Fox (org.) Recapturing Anthropology, pp. 191–210, Santa Fe: School of American Research
Press; Walter Armbrust (org.), 2000, Mass mediations: new approaches to popular culture in the Middle East and
beyond, Berkeley and Los Angeles: University of California Press; Farha Ghannam, 2002, Remaking the modern:
space, relocation, and the politics of identity in a global Cairo, Berkeley and Los Angeles: University of California
Press; Carrie Rosefsky Wickham, 2002, Mobilizing Islam: Religion, activism, and political change in Egypt, New York:
Columbia University Press; Lila Abu-Lughod, 2005, Dramas of Nationhood: the politics of television in Egypt,
Chicago: University of Chicago Press; Charles Hirschkind, 2006, The ethical soundscape: cassette sermons and
Islamic counterpublics, New York & Chichester: Columbia University Press.
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