Transformação social e modo de produção

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Transformação social e modo de produção
Transformação social e modo de produção: do sistema préindustrial ao sistema capitalista de produção
Alexandre Shigunov Neto 1
Lizete Shizue Bomura Maciel2
Resumo: A opção pelo tema Transformação
social e a sociedade capitalista, num primeiro
momento, justifica-se pelo interesse em tentar
compreender algumas questões relacionadas com
as transformações sociais ocorridas durante o
processo de implantação do modo de produção
capitalista a partir do século XV; para num segundo
momento, estudar como as transformações
processadas na organização do trabalho produtivo
tiveram impacto sobre o homem.
Palavras-chave: Transformação social; Modo
de produção capitalista; Trabalhador.
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
A opção pelo tema Transformação social
e a sociedade capitalista, num primeiro
momento, justifica-se pelo interesse em
tentar compreender algumas questões
relacionadas com as transformações
sociais ocorridas durante o processo de
implantação do modo de produção
capitalista a partir do século XV; para num
segundo momento, estudar como as
transformações processadas na organização
do trabalho produtivo tiveram impacto
sobre o homem. Dessa maneira, se tomará
como referência a análise da Grã-Bretanha3,
precursora do movimento capitalista e de
acordo com Friedrich Engels, a
Inglaterra é o país clássico desta
revolução que foi tanto mais
poderosa quanto mais silenciosamente se fez. É por isso que
a Inglaterra é também o país
clássico para o desenvolvimento
do principal produto desta
revolução: o proletariado. É só na
Inglaterra que o proletariado
pode ser estudado em todos os seus
aspectos e relações (ENGELS,
1985, p.11).
Ao longo do presente trabalho estará
implícito o conceito de “transformação
social”, que designará o processo amplo,
complexo e lento de mudanças que ocorrem,
principalmente pelo surgimento de novas
necessidades dos homens. Isso significa
dizer que, esse período estudado foi repleto
de transformações, em todos os níveis da
sociedade.
Pressupondo-se que o modo de produção
adotado pela sociedade exerça influência
sobre o modo de viver dos homens, para
este trabalho segmentou-se a história,
segundo o modelo de produção adotado: a
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O termo Grã-Bretanha que utilizamos ao longo desse texto significa a complexa estrutura política, econômica e social, comumente chamada
de Reino Unido, e formada pela Inglaterra, pela Escócia e pelo País de Gales.
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Transformação social e modo de produção: do sistema pré-industrial ao sistema capitalista de produção
sociedade pré-industrial; a sociedade
industrial, representada pelo sistema de
produção capitalista.
Por sociedade pré-industrial, considera-se
o período de transição entre o modo de
produção feudal e o modo de produção
capitalista. Segundo Paul Sweezy (1983),
o “modo de produção pré-capitalista de
mercadorias”, prevaleceu na Europa
ocidental durante os séculos XV e XVI.
Contudo, cabe aqui uma distinção
fundamental, esse momento trás em si
aspectos do modo de produção feudal,
bem como do modelo de produção em
construção, o modo de produção
capitalista.
trabalhadores de qualquer possibilidade
de subsistência, a não ser o trabalho
assalariado; a preocupação com a
organização e o controle do trabalho; uma
profunda revolução cultural; uma
metódica e rígida política repressiva
contra os trabalhadores que se negavam
a aceitar as novas relações sociais
impostas; a institucionalização de
mecanismos oficiais – através de leis,
decretos e documentos oficiais - que
tinham como função inserir os indivíduos
nas novas relações de produção de forma
a amenizar os conflitos, então existentes,
conseguido inicialmente pelo serviço
militar e mais tarde pela escola.
A sociedade industrial ou sociedade
capitalista caracteriza-se fundamentalmente pela compra feita pelo capitalista –
que é o homem que detém os instrumentos e o local de trabalho - da força de
trabalho do trabalhador. O advento do
modo de produção capitalismo torna-se
evidente, por momentos decisivos, tais
como: as transformações políticas e
sociais ocorridas no século XVII; a
revolução industrial no final do século
XVIII e início do século XIX, que se
mostrou principalmente de importância
econômica.
O MODO DE PRODUÇÃO NO SÉCULO
XV
Portanto, a expansão do capitalismo foi
um processo lento, irregular e com imensos
conflitos, mas que foi conseguido em
função da somatória de diversos fatores.
Entre os quais se destacam: a privação dos
O processo de declínio do sistema feudal
ocorreu de forma lenta e gradativamente e
foi resultante da ineficiência do feudalismo enquanto sistema de produção
capaz de satisfazer as necessidades de uma
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O declínio do sistema feudal não pode
ser considerado com sendo resultante de
um único fator, mas sim, da somatória
de uma série de fatores, que juntos
determinaram o declínio do sistema
feudal, enquanto sistema de produção, e
o nascimento do sistema capitalista.
Dessa maneira, esvazia-se a afirmativa
que tenha sido a ampliação do mercado
uma condição suficiente para o declínio
do sistema feudal.
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sociedade crescente, com “novas”
necessidades, pela cobiça cada vez maior
dos setores dominante, pelos conflitos
internos no antigo modo de produção e
pelo crescimento das cidades mercantis.
Foi um período de transição entre o
declínio de uma sociedade e o nascimento
de uma “nova sociedade”, verifica-se,
assim, que a forma de viver, pensar e agir
dos homens começam a se transformar,
não sendo mais a mesma, ou seja, a prática
social que sustentava a sociedade feudal
está em declínio, não sendo mais aceita
pela sociedade.
O crescimento das cidades mercantis e do
comércio exigiram uma nova forma de
trabalho, e, por extensão um “novo
homem”, diferente do homem feudal, um
homem preocupado agora consigo mesmo
e com a sua subsistência, possuidor de
novas habilidades e conhecimentos.
produção” que pudesse suprir as
necessidades físicas dos homens é que tem
início o processo de implantação do
sistema de produção capitalista.
Partindo do pressuposto de que o
capitalismo, enquanto modo de produção, se caracteriza pela subordinação
direta do trabalhador assalariado ao
capitalista, poder-se-á
datar a sua fase inicial na
Inglaterra, não no século XII
como faz Pirene (que pensa
principalmente na Holanda), nem
mesmo no século XIV com seu
comércio urbano e ligas artesanais
como fizeram outros, mas na
segunda metade do século XVI e
início do século XVII, quando o
capital começou a penetrar na
produção em escala considerável,
seja na forma de uma relação bem
amadurecida entre capitalista e
assalariados, ou na forma menos
desenvolvida de subordinação dos
artesãos
domésticos
que
trabalham em seus próprios lares
para um capitalista chamado
“sistema de trabalhar caseiro
(DOBB, 1971, p.31) .
Esses mesmos valores do “novo homem”
contribuirão para o acirramento dos
conflitos internos no modo de produção
feudal. Conflitos estes que, também
desencadearão as condições propícias
para a formação e implantação do sistema
de produção capitalista.
Dessa forma, a maneira como o trabalho
excedente foi apropriado pelos detentores
do poder diferiu nos diversos momentos
da história, estando diretamente ligados
ao uso de diversos métodos de produção
e diferentes níveis de produtividade.
O surgimento de novas carências e a
incapacidade do sistema feudal em
satisfazer as exigências produtivas dessa
sociedade em crescimento contribuiu para
seu fracasso. Diante dessa inépcia e das
exigências de um “novo modelo de
O senhor feudal encontrava uma grande
dificuldade para auferir maiores rendimentos, pois a única maneira viável era através
do tempo de trabalho do servo, no entanto,
em função da baixa produtividade não
podia aumentar essa exploração da força de
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trabalho, que estava quase em seu limite.
Assim, a solução encontrada foi reduzir o
nível mínimo de subsistência do servo e a
degradação cada vez maior da força de
trabalho, que tendia a cada dia produzir
menos.
Segundo Mariano F. Enguita (1989), o
sistema feudal, enquanto modelo de
produção não era tão eficaz quanto possa
parecer, pelos altos custos e pela baixa
produtividade e complementa, supondo
que o sistema de produção assalariado é
mais vantajoso, em termos de produtividade
e custos, para o capital do que sua forma
antecessora.
Cabe aqui uma observação, mesmo após
esse processo de transformação e de
implantação do modo de produção
capitalista, logo após a Revolução Industrial
durante algum tempo ainda encontra-se
vestígios do antigo sistema de produção
feudal na nova sociedade. Fato representado, fundamentalmente, pela produção e por
uma população essencialmente agrícola e
num comércio relativamente pequeno. É
o contraste entre duas sociedades, uma em
decadência, a sociedade feudal e outra em
ascensão, a sociedade capitalista.
indústria moderna, caracterizado pela
introdução da maquinaria e o surgimento
das fábricas.
Segundo Marx (1987), a manufatura,
caracterizada pelo exercício dos ofícios dos
trabalhadores em único local pertencente
ao capitalista, representa o marco inicial da
sociedade e predomina como forma
característica do modo de produção
capitalista aproximadamente entre meados
do século XVI e XVIII. O período
manufatureiro tem duas origens: a forma
complexa - onde trabalhadores de
diferentes ofícios executam suas
atividades; a forma simples - formado pela
aglomeração de trabalhadores do mesmo
ofício. Portanto, a manufatura é o período
em que os trabalhadores apesar de
venderem sua força de trabalho ao
capitalista, ainda exercem seus ofícios de
forma manual, ou seja, atuam sobre uma
realidade objetiva que é o trabalho.
O MODO DE PRODUÇÃO CAPITALISTA
A maquinaria emerge no seio do período
manufatureiro, o período manufatureiro vai
preparar e proporcionar as condições
favoráveis ao advento da fábrica. O
processo de industrialização não é um
processo fortuito e sem propósito, não
ocorre de forma natural, mas surge
justamente com o propósito de reduzir
custos e aumentar o lucro do capitalista
como bem explica Marx,
De acordo com Marx (1987), o modo de
produção capitalista apresenta duas fases:
o período manufatureiro e o período da
[...] não é esse o objetivo do
capital, quando emprega maquinaria. Esse emprego, como
qualquer outro desenvolvimento
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da força produtiva do trabalho,
tem por fim baratear as
mercadorias, encurtar a parte do
dia de trabalho da qual precisa o
trabalhador para si mesmo, para
ampliar a outra parte que ele dá
gratuitamente ao capitalista. A
maquinaria é meio para produzir
mais valia (MARX, 1987, p.424).
Portanto, o processo de industrialização
e de introdução da maquinaria no processo
produtivo teve seu impulso com a Revolução
Industrial.
A Revolução Industrial constitui um
importante episódio da história da
humanidade, caracterizado basicamente
pela transformação da sociedade feudal
para a sociedade capitalista. Foi uma
transformação social, econômica, política
e cultural radical e díspar, que ocorreu
gradativamente, com início no século
XVIII, na Grã-Bretanha e se espalhou
posteriormente por toda a Europa.
Apesar da Revolução Industrial ter
produzido transformações importantes e
sofisticadas nos processos produtivos,
suas transformações iniciais foram
extremamente simples, como demonstra
Hobsbawm,
[...] a tecnologia da manufatura
de algodão era pois bastante
simples e, como veremos,
também era simples a maioria das
restantes
mudanças
que,
coletivamente, constituíram a
“Revolução Industrial”. Exigiam
pouco conhecimento científico
ou qualificação técnica além de
que dispunha um mecânico
prático do começo do século
XVIII. Na verdade, quase não se
exigia também energia a vapor,
pois embora a fabricação de
algodão tenha adotado logo a
nova fonte de energia, e em maior
grau de outras atividades (exceto
a de mineração e a metalúrgica),
ainda em 1838 um quarto de suas
necessidades energéticas era
suprida por fontes hidráulicas. A
razão pra isso não era nem
inexistência de inovação científica nem falta de interesse dos
novos industriais pela revolução
técnica. Pelo contrário, as
inovações científicas abundavam
e era rapidamente aplicadas a
problemas práticos por cientistas
que ainda se recusavam a fazer a
ulterior distinção era o pensamento “puro” e o “aplicado”. E
os industriais absorviam essas
inovações com grande rapidez,
onde fossem necessárias ou
vantajosas, e, acima de tudo,
aplicavam um rigoroso racionalismo a seus métodos de
produção, o que caracteriza sempre
uma era científica (HOBSBAWM,
1979, p.56).
Ao analisarmos esse processo de
industrialização desencadeado no século
XVIII, mas que teve suas bases
fundamentadas muito antes, é necessário
compreender que, tal processo só foi
desencadeado em função das necessidades
evidentes e latentes da sociedade e da
vinculação, a partir desse momento
histórico, da vida humana ao trabalho
assalariado.
Para Hobsbawm (1979), as três categorias
fundamentais do processo de consolidação
da industrialização na Grã-Bretanha foram
as exportações, o mercado interno e a
atuação do Governo. As exportações que
foram impulsionadas e subsidias de forma
sistemática e agressiva pelo Governo foram
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Transformação social e modo de produção: do sistema pré-industrial ao sistema capitalista de produção
consideradas, juntamente com a produção
têxtil de algodão, o setor básico do
processo de industrialização britânico. O
processo de urbanização e seu mercado
interno propiciaram condições favoráveis
para uma economia industrializada em
grande escala, na medida em que o processo
de industrialização aumentava a demanda
pelos produtos ingleses em seu mercado
interno. Desse modo, o incentivo às
exportações proporcionava melhorias no
transporte marítimo, já o mercado interno
impulsionava o transporte terrestre. O
papel do Estado nesse processo foi
fundamental, principalmente incentivando
e financiando a inovação técnica e o
desenvolvimento das indústrias de bens de
capital e de consumo.
Portanto, a transformação do modo de
produção feudal para o capitalista na
Grã-Bretanha somente foi possível em
virtude de seu mercado interno ser um
excelente e crescente mercado consumidor dos produtos britânicos, de seu
mercado externo ser muito mais dinâmico
e seguro e pelo papel desempenhado pelo
governo nesse processo.
A primeira fase da Revolução Industrial
Britânica (1750-1860), foi baseada na
indústria têxtil. Apesar do algodão perder
sua força aproximadamente duas décadas
após o início do processo industrialização,
sua importância é evidenciada por
Hobsbawm, ao afirmar que
o algodão deu o tom da mudança
industrial e foi o esteio das
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primeiras regiões que não teriam
existido se não fosse a
industrialização e que expressaram uma nova forma de sociedade,
o capitalismo industrial, baseada
numa nova forma de produção, a
“fábrica” (HOBSBAWM, 1979,
p.53).
A segunda fase da Revolução Industrial
Britânica (1873-96), marca uma nova fase
do industrialismo, que proporcionaria
alicerces muito mais consistentes para o
crescimento econômico, sendo baseada
nas indústrias de bens de capital, no
carvão, no ferro e no aço. Foi durante
esse período que ocorreu a conhecida
Grande Depressão, período marcado
pela intranqüilidade e estagnação da
economia britânica. Contudo, e apesar
de ser mais evidente na Grã-Bretanha, foi
um fenômeno mundial, atingindo em
graus diferenciados os demais países.
Sua importância revela-se fundamentalmente no fato de a Grã-Bretanha deixar
de ser a precursora do movimento de
industrialização, passando a ser
“apenas” uma das maiores potências
mundiais. É o fim da era denominada de
“fase britânica de industrialização” e o
início de uma nova, conhecida como
“fase do imperialismo”.
As transformações ocorridas nesse
processo de industrialização, iniciado na
Grã-Bretanha, implicou em mudanças na
vida do homem, enquanto trabalhador
e ser produtivo a serviço do capitalista.
Ou seja, a transformação de uma sociedade
feudal em uma sociedade capitalista
irá exigir um novo modelo de homem e
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conseqüentemente um novo modelo de
trabalhador, com novas exigências e
conhecimentos.
O SISTEMA DE PRODUÇÃO FABRIL
E O TRABALHADOR
Na análise sobre as implicações que o
modelo de produção capitalista impôs aos
trabalhadores levar-se-á em conta a perda
de autonomia do trabalhador na execução
de suas funções, ou seja, a separação entre
saber e fazer nas relações sociais de
trabalho.
Pode-se considerar que o século XIX foi o
período de consolidação do modelo de
produção capitalista. O seu desenvolvimento ocorreu, fundamentalmente
pela exploração e degradação do trabalho,
ou então, pelo estado de miséria por qual
passava a classe operária. Contudo, ao
longo de seu crescimento, o capitalismo
atravessa por algumas crises, durante as
quais se intensifica ainda mais o estado de
depauperamento e de fome da classe
trabalhadora.
O homem a partir da implantação do modo
de produção capitalista, passa a ser visto
apenas como agente produtivo, e não mais
enquanto ser com sentimentos, desejos e
necessidades próprias. É uma profunda e
radical transformação social, em todos os
níveis, e principalmente no modo de viver
do homem. Seus costumes e a prática social
têm que ser alterados para atender aos
“novos” interesses da sociedade, ou seja,
para atender aos interesses do capitalista e
das fábricas.
Esse processo de transformação, tido por
muitos como “evolução” da organização do
trabalho somente se concretizou após
muitos conflitos entre o trabalhador e
capital. Comumente tendemos sempre a ter
a organização atual do trabalho e
nossa atitude frente ao mesmo
são coisas recentes e que nada têm
a ver com “a natureza das coisas”.
A organização atual do trabalho e
a cadência e sequenciação atuais
do tempo de trabalho não existiam
em absoluto no século XVI, e
apenas começaram a ser
implantadas precisamente ao final
do século XVIII e início do século
XIX. São, pois, produtos e
construtos sociais que têm uma
história e cujas condições têm que
ser constantemente reproduzidas.
A humanidade trabalhadora
percorreu um longo caminho
antes de chegar aqui, e cada
indivíduo deve percorrê-lo para
incorporar-se ao estádio alcançado
(ENGUITA, 1989, p.04).
O processo de organização do processo
produtivo para atender às necessidades
das fábricas é um processo gradativo,
sendo destacáveis as seguintes fases: na
primeira, o capitalista com sua força
econômica e política consegue expropriar
o trabalhador de sua terra ou de seu
trabalho independente; numa segunda,
após retirar a única forma de subsistência
do trabalhador, o capitalista o transforma
em assalariado e subordinado a ele; na
última, ocorre a divisão manufatureira do
trabalho, com a subordinação real e
completa do trabalhador ao capital. Assim,
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consolida-se o processo de apropriação
pelo capitalista do processo e do produto
do trabalho executado pelo trabalhador.
As tradições, valores e a cultura das
civilizações nas economias de subsistência foram um grande obstáculo para sua
consolidação e para o recrutamento de
mão-de-obra para as fábricas. Como
considera Enguita (1989, p.42)
essa aversão para o trabalho fabril
fez com que uma massa ingente
de camponeses e artesãos
expulsos por meios econômicos
ou extra-econômicos de suas
terras ou de seus ofícios preferisse
viver de seus parentes e
conhecidos, da caridade pública
ou do nada a alistar-se como
assalariados. Os vagabundos e
os pobres, no sentido mais amplo
de ambos os termos, converteram-se no pesado dos séculos XV
a XIX. Para alguns eram a
expressão mais clara e a
conseqüência mais grave da
dissolução da velha ordem; para
outros, uma massa de indigentes
que se negava a trabalhar. De
qualquer forma, tornavam-se um
elemento dissonante em uma
sociedade que necessitava de
forma crescente de regularidade e
estabilidade nos hábitos de
trabalho. Para eles colocou-se em
ação uma coleção de sagas
legislativas em todos os países, que
começaram com fins assistenciais
e terminaram por converter-se
em uma agressiva política de
mobilização da mão de obra.
As transformações no modo de produção e
nas relações sociais de trabalho têm
implicações diretas sobre a vida, no comportamento dos trabalhadores e sobre a
própria educação deles.
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A introdução da maquinaria fez com que
houvesse uma reestruturação na organização do processo produtivo, que
conseqüentemente afetou a vida dos
trabalhos de forma drástica e radical.
Engels (1985) nos apresenta o modelo de
trabalhador e a maneira como:
os trabalhadores viviam uma
existência em geral suportável e
levavam uma vida honesta e
tranqüila, em tudo piedosa e
honrada; a sua situação material
era bem melhor que a dos seus
sucessores; não tinham necessidade de se manter, de trabalhar,
não faziam mais do que desejavam
e, no entanto, ganhavam para as
suas necessidades e tinham tempo
livre para um trabalho são no
jardim ou no campo, trabalho que
era para eles uma forma de
descanso, e podiam, por outro
lado, participar nas distrações e
jogos do seus vizinhos; e todos
esses jogos, malha, bola etc.,
contribuíam par a manutenção
da sua saúde e para o seu
desenvolvimento físico (ENGELS,
1985, p.12).
O trabalhador agrícola, que habita no campo,
apresenta características e um estilo de vida
diverso dos trabalhadores industriais,
pois a revolução industrial foi
reduzindo inteiramente os trabalhadores ao papel de simples
máquinas, arrebatando-lhes os
últimos vestígios de atividade
independente, mas incitando-os,
precisamente por essa razão, a
pensar em exigir uma posição
digna de seres humanos (ENGELS,
1985, p.13-14).
Engels (1985), apesar de reconhecer que
a vida dos camponeses ingleses era mais
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saudável e mais tranqüila, não a considera
uma vida digna, pois falta a esses homens
a preocupação com o mundo que os rodeia.
Portanto, para Engels o grupo social em
condições de lutar por seus direitos, por
uma vida digna e pela transformação
necessária – a transformação das relações
sociais de produção -, é o proletariado. Pois
a partir do momento em que, perderem
sua possibilidade de ascensão social,
tornando-se um grupo social estável,
adquirem as condições necessárias para
lutarem por melhores condições de vida e
de trabalho.
Nesse sentido, tornava-se para os
camponeses muito difícil adaptar-se às
novas condições de trabalho da fábrica.
Acostumados ao trabalho ao ar livre, aos
ritmos sazonais, aos abundantes dias de
festa, a poder abandonar as tarefas a
qualquer momento, em suma, a seguir seu
próprio ritmo em vez de um calendário, um
horário e um ritmo impostos, não podiam
deixar de sofrer um violento choque. Por
isso se negavam a acudir às fábricas e,
quando se viam forçados a fazê-lo, não era
raro que desertassem em massa, mesmo em
momentos já avançados da industrialização.
Com o desenvolvimento do modo de
produção capitalista, com as reivindicações dos trabalhadores, enfim, em
função das necessidades de uma
regulamentação do trabalho, principalmente, nas fábricas surgiram por volta da
década de 1860 as primeiras legislações
trabalhistas. Juntamente com a regulação
do trabalho e de suas condições, surgiu
também
a partir de 1871 obtiveram até o
primeiro reconhecimento legal
do lazer não-religioso, o descanso
semanal. No entanto, de modo
geral, seus salários e suas
condições de trabalho dependiam
dos contratos que conseguiam
estabelecer com os patrões,
sozinhos ou através de seus
sindicatos (HOBSBAWM, 1979,
p.143).
O fato de a Grã-Bretanha, nesse período
histórico, ser considerada um país,
essencialmente de trabalhadores possibilitou o surgimento do sindicalismo. Uma
conquista importante dos trabalhadores
que possibilitou minimizar as precárias
condições de trabalho oferecidas, entretanto, esta conquista apenas foi conseguida
à base de muitas lutas e reivindicações,
[...] no começo da década de
1870, o sindicalismo foi aceito e
reconhecido oficialmente, nos
lugares onde haviam logrado
firmar-se. Graças à estrutura
arcaica da economia britânica,
esse reconhecimento ocorreu não
apenas para os artífices qualificados de ocupações manuais
(como, por exemplo, pedreiros,
alfaiates, impressores etc), como
também no coração das atividades
básicas, como as tecelagens de
algodão e as minas de carvão,
bem como no grande complexo
de fabricação de máquinas e
navios, atividades nas quais a
parte maior do trabalho
qualificado continuou a comporse essencialmente de artífices.
Ainda assim, aquele reconhecimento não atingia mais que
uma pequena minoria dos
trabalhadores britânicos, excetuadas algumas localidades e
alguns ofícios (HOBSBAWM,
1979, p.143-144).
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Transformação social e modo de produção: do sistema pré-industrial ao sistema capitalista de produção
As condições de vida dos trabalhadores
começou a melhorar em função de alguns
fatos, tais como: as exigências da classe
trabalhadora por melhores condições
de vida, e para abafar as manifestações
e insatisfações dos trabalhadores; e a
classe trabalhadora tornou-se em uma
opção de mercado consumidor para os
capitalistas
a sobrevivência das condições de
indústria domiciliar e manufábrica
na segunda metade do século XIX
teve conseqüência importante para
a vida e população industriais que
raramente vemos exami-narem.
Ela significava que só na última
quadra do século a classe
trabalhadora começou a tomar o
caráter homogêneo de um
proletariado fabril. Antes disso, a
maioria dos trabalhadores mantinha as marcas do período
anterior de capitalismo, tanto em
seus hábitos quanto em seus
interesses: a natureza da relação
de emprego e as circunstâncias de
sua exploração (DOBB, 1971,
p.325).
Portanto, o “progresso” ao invés do que
seria o modo socialmente aceito e
pretendido, não proporciona de forma
igualitária a todos membros da sociedade
os mesmos benefícios. E sim, os benefícios
advindos desse “progresso” tornam-se
privilégios de uma pequena parcela da
sociedade.
Os benefícios que o “progresso” pode
proporcionar à sociedade devem ser
igualmente distribuídos a todos os seus
membros, há necessidade de proporcionar
democraticamente o usufruto de tais
benefícios para todas as classes sociais,
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sem distinção alguma. Só assim, poderemos afirmar que a ciência e seu “progresso”
não são privilégios e sim direitos de todos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao findar o presente artigo acreditamos que
tenhamos conseguido demonstrar que o
sistema de produção capitalista atendeu e
atende aos interesses de um setor social
minoritária, os detentores do capital e que
os objetivos dos setores nunca poderiam,
nesse modelo de produção, serem atingidos
conjuntamente.
As transformações nas relações de
produção aliadas às circunstâncias
político-sociais ocorridas no seio da
sociedade, decorrentes também da
implantação do modo de produção
capitalista foram profundas e contribuíram
para aumentar a pobreza e miséria dos
cidadãos.
Enquanto que durante o período feudal o
trabalho dos homens, era o trabalho
agrícola e de subsistência, já no período
de crescimento das cidades mercantis e
do comércio o trabalho passa a ser
considerado como uma forma de obtenção
de lucro e de riqueza.
O trabalho é a categoria social que exerce
influência sobre a vida dos homens, ou seja,
o trabalho enquanto categoria de análise
influenciará o modo de vida e a forma de
ser e pensar dos homens.
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As desigualdades sociais existentes hoje
em nossa sociedade tiveram início no
século XV com a introdução do sistema
de produção fabril e a divisão do trabalho.
Portanto, à medida que a ordem burguesa
vai se estabelecendo e fortalecendo fica
evidente as contradições desse período –
ao mesmo tempo em que há um aumento
da produção de riqueza pela introdução
da maquinaria e o trabalho assalariado nas
fábricas, também ocorre um aumento da
pobreza.
O desenvolvimento, ou como muitos
preferem chamar de “progresso”,
conseqüente do sistema capitalista não
estava e ainda não está disponível para
todas as pessoas, principalmente para a
classe trabalhadora, apenas algumas
podem usufruir plenamente de seus
benefícios, os detentores do capital.
O modo de produção capitalista corroborou
para tornar o homem um prisioneiro do
capital, do próprio trabalho. Em última
instância, a perda de liberdade do homem.
Procuramos ao longo do texto, demonstrar,
como o significado das palavras
“controle”, “regra”, “normas”, “leis” estão
arraigadas ao modo de vida capitalista,
visando tão somente contribuir para que
o capital tenha um controle absoluto sobre
a vida dos trabalhadores. Todavia, essa
imposição, não ocorre de forma tranqüila,
pois é seguida de uma resistência, de uma
luta da classe trabalhadora. Nesse
momento, fica expressa a contradição
social e a luta entre capital X trabalhador
assalariado.
Artigo recebido em: 10/08/2005.
Aprovado para publicação em: 03/11/2006.
Social transformation and way of production:
from of the system pre-industrialist to the
capitalist system of production
Abstract: The option by the subject Social
transformation and the capitalist society, at a
first moment, is justified by the interest in trying
to include/understand some questions related to
the happened social transformations during the
process of implantation of the way of capitalist
production as of century XV. Secondly, to study
how the transformations produced in the
organization of the productive work had impacted
the man.
Keywords: Social transformation; Capitalist
production; Worker.
Transformación
social
y
modo
de
producción: del sistema pre-industrial al
sistema capitalista de producción
R e s u m e n : L a o p c i ó n p o r e l t e m a Tr a n s formación social y la sociedad capitalista, en
un primer momento, se justifica por el interés
en intentar comprender algunas cuestiones
relacionadas con las transformaciones sociales
ocurridas durante el proceso de implantación
del modo de producción capitalista a partir del
siglo XV. En segundo lugar, estudiar cómo las
transformaciones
producidas
en
la
organización del trabajo productivo tuvieron
impacto sobre el hombre.
P a l a b r a s-c l a v e : T r a n s f o r m a c i ó n s o c i a l ;
Modo de producción capitalista; Trabajador.
REFERÊNCIAS
DOBB, Maurice. A evolução do capitalismo.
2.ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1971.
ENGELS, Friedrich. A situação da classe
trabalhadora na Inglaterra. São Paulo:
Global, 1985.
ENGUITA, Mariano F. A face oculta da
escola: educação e trabalho no capitalismo.
Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
Gest. Ação, Salvador, v.9, n.3, p. 339-350, set./dez. 2006
349
Alexandre Shigunov Neto - Lizete Shizue Bomura Maciel
HOBSBAWM, Eric J. Da Revolução Industrial
Inglesa ao Imperialismo. 2.ed. Rio de Janeiro:
Forense, 1979.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia
política. 11.ed. São Paulo: DIFEL, 1987. Livro
Primeiro. Volume I.
SWEEZY, Paul e outros. A transição do
feudalismo para o capitalismo. 3.ed. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1983.
Sobre os autores:
Administrador formado pela Universidade
Estadual de Maringá (UEM).
Orientador: Édis Mafra Lapolli
Email: [email protected]
2
Lizete Shizue Bomura Maciel
Doutora em Educação pela Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).
Mestra em Educação (PUC/SP). Líder do Grupo
de Estudos e Pesquisas em Trabalho Docente e
Aprendizagem Escolar (GEPAE) e Professora
do Programa de Pós-Graduação em Educação da
Universidade Estadual de Maringá (UEM).
Email: [email protected]
1
Alexandre Shigunov Neto
Doutorado em Engenharia e Gestão do
Conhecimento. Universidade Federal de Santa
Catarina (UFSC). Mestre em Educação pelo
Programa de Pós-Graduação em Educação da
UEM. Especialista em Economia Empresarial
pela Universidade Estadual de Londrina.
350
Endereço Postal: Universidade Estadual de
Maringá (UEM).Centro de Ciências Humanas
Letras e Artes, Departamento de Teoria e Prática
da Educação. Av. Colombo, 5790. Jardim
Universitário. CEP: 87.020-900 - Maringa/PR,
Brasil.
Gest. Ação, Salvador, v.9, n.3, p. 339-350, set./dez. 2006

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