fisiologia - Faculdade Montenegro

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fisiologia - Faculdade Montenegro
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Re v i s t a
B r a s i l e i r a
d e
ISSN 16778510
Br asi l e i r a
Fisiologia
do
de
exercício
F i s i o l o g i a
Brazilian Journal of Exercise Physiology
Órgão Oficial da Sociedade Brasileira de Fisiologia do Exercício
d o
e x e rc í c i o
13 anos
CARDIOLOGIA
• Fatores de risco cardiovascular em idosos
ESPORTE
gRanDes nomes nacionais e inteRnacionais com conteúDos inovaDoRes
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v o lu me 1 1 - nú m er o 01 • Ja n eir o /Ma r ç o 2 01 2
94 cuRsos com os maioRes PalestRantes Do meRcaDo
•
•
•
•
•
Alongamento e força muscular
Intervalo entre séries e treinamento de força
Alterações agudas induzidas por uma prova de triathlon
Qualidade de vida de funcionários após ginástica laboral
Caso do atleta paraolímpico Oscar Pistorius
NUTRIÇÃO
• Suplementação em atletas de natação
FISIOLOGIA
• Cicloergometria e lesão medular
• Mobilização neural na hipotrofia muscular
SAÚDE DA MULHER
• Qualidade de vida em pacientes mastectomizadas
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do
exercício
CARDIOLOGIA
• Frequência cardíaca máxima em testes de cicloergometria
ESPORTE
•
•
•
•
Capacidade física de árbitros de futebol
Ansiedade em atletas de ginástica artística
Exercício físico e lipemia pós-prandial
Influência do voleibol na aptidão física e desempenho motor
13 anos
NUTRIÇÃO
• Excesso de peso em crianças e adolescentes
FISIOLOGIA
• Mecanismos antioxidantes e exercício físico
• Stress oxidativo e alterações eritrocitárias
em triathlon half-ironman
• Escoliose devido ao excesso de carga
nas mochilas
v o lu me 11 - n úm er o 02 • Ab r il/Ju n h o 20 12
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Fisiologia
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Fisiologia
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do
TREINAMENTO
FISIOLOGIA
• Diferenças entre corredores africanos e caucasianos
• Alongamento e glicemia
• Músculo esquelético de ratas submetidas à eletroterapia
13 anos
e xe r cício
• Treinar com segurança para corrida de 10 km
DOENÇAS CRÔNICAS
• Estresse oxidativo e exercício físico na doença de Parkinson
• Exercício físico e disfunção endotelial em diabetes
LESÕES
• Creatinafosfoquinase e lesões em atletas de voleibol
• Desempenho funcional e lesões no basquetebol
• propriocepção ativa e lesão de ligamento
cruzado anterior
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exercício
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do
e xe r cício
ESPORTE
•
•
•
•
•
Efeito da facilitação neuromuscular proprioceptiva sobre a força
Importância da avaliação física nas academias
Jogos adaptados e musculação para idosos
Subdesempenho no futebol
Esportes de combate e marcadores biológicos
13 anos
NUTRIÇÃO
• Uso de suplementos nutricionais por praticantes de musculação
• Creatina e desempenho
FISIOLOGIA
• Exercício resistido sobre a glicemia capilar aguda em
diabéticos tipo 2
• Fisioterapia em pacientes com insuficiência arterial
crônica
v o l u m e 1 1 - n ú me r o 0 4 • Ou tu b ro /D e ze mb r o 2 0 12
Cursos e Workshops
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v o l u m e 1 1 - n ú m e r o 0 4 • O u t u b ro/ Dezembro 2012
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exercício
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Órgão Oficial da Sociedade Brasileira de Fisiologia do Exercício
Índice
volume 11 número 1 - janeiro/março 2012
Editorial
Pesquisas e resultados, Paulo Farinatti ..................................................................................................................................3
OPINIÃO
Citius, Altius e Fortius: o caso do atleta paraolímpico Óscar Pistorius que disputou
o Campeonato Mundial de Atletismo de 2011, Flávia Porto, Jonas Gurgel...........................................................................4
ARTIGOS ORIGINAIS
Alterações agudas induzidas por uma prova de triathlon longo em diferentes
biomarcadores enzimáticos e da função imune, Faber Sérgio Bastos Martins,
José Augusto Rodrigues dos Santos..........................................................................................................................................7
Prevenção de hipotrofia muscular pelo uso da mobilização neural em modelo
experimental de ciatalgia, Juliana Schmatz Mallmann, Juliana Moesch, Flávia Tomé,
Rogério Fonseca Vituri, Alberito Rodrigo de Carvalho, Gladson Ricardo Flor Bertolini........................................................13
Percepção subjetiva da qualidade de vida de usuários de computadores após
15 sessões de ginástica laboral, Thiago Medeiros da Costa Daniele,
George Lacerda de Souza, Pedro Bezerra Souza Neto.............................................................................................................17
Avaliação dos fatores de risco cardiovascular de idosos participantes de grupo
de convivência da terceira idade do município de São Miguel do Oeste, SC,
Nelí Maziero, Everton Boff, Sandro Claro Pedrozo................................................................................................................21
Efeitos da suplementação de carboidrato em gel sobre o desempenho físico
e a resposta glicêmica em teste de natação de 12 minutos, Jadson Pereira Alves,
André Luís Macalossi, Ramiro Barcos Nunes, Francisco Navarro...........................................................................................26
Treinamento aeróbico em cicloergômetro adaptado para pacientes lesados medulares,
Simone Suzuki Woellner, Antonio Vinicius Soares, Anna Maria Engel,
Paulo Guilherme Lenz, Bruna Zimmermann.........................................................................................................................30
Efeito de diferentes intervalos entre séries, determinados pela relação
esforço-recuperação, no desempenho da força, Diego de Almeida, Lenifran Santos,
Renato Massaferri, Tainah Lima, Walace Monteiro................................................................................................................36
RELATO DE CASO
Avaliação da qualidade de vida em pacientes mastectomizadas pré e pós-reabilitação
fisioterapêutica, Alisson Guimbala dos Santos Araujo, Rosani Mostowski, Karla Jakeline Uller............................................42
REVISões
Atividade cerebral relacionada ao apetite e exercício físico: implicações para
a ingestão alimentar e controle do peso corporal, Rafael Ayres Montenegro,
Alexandre Hideki Okano.......................................................................................................................................................48
Influência de variáveis relacionadas ao protocolo experimental no déficit de força
muscular mediado pelo alongamento, Raquel Gonçalves, André Luiz Demantova Gurjão,
José Cláudio Jambassi-Filho, Luiza Hermínia Gallo, Alexandre Konig Garcia Prado, Sebastião Gobbi..................................55
NORMAS DE PUBLICAÇÃO................................................................................................................................ 60
EVENTOS.................................................................................................................................................................. 62
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
2
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exercício
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Órgão Oficial da Sociedade Brasileira de Fisiologia do Exercício
Editor Chefe
Paulo de Tarso Veras Farinatti
Editor Associado
Pedro Paulo da Silva Soares
Walace Monteiro
Conselho Editorial
Luiz Fernando Kruel (RS)
Amandio Rihan Geraldes (AL)
Martim Bottaro (DF)
Antonio Carlos Gomes (PR)
Patrícia Chakour Brum (SP)
Antonio Cláudio Lucas da Nóbrega (RJ)
Paulo Sérgio Gomes (RJ)
Benedito Sérgio Denadai (SP)
Robert Robergs (EUA)
Dartagnan Pinto Guedes (PR)
Rosane Rosendo (SC)
Douglas S. Brooks (EUA)
Sebastião Gobbi (SP)
Emerson Silami Garcia (MG)
Francisco Martins (PB)
Steven Fleck (EUA)
Yagesh N. Bhambhani (CAN)
Francisco Navarro (SP)
Vilmar Baldissera (SP)
Luiz Carnevali (SP)
Sociedade Brasileira de Fisiologia do Exercício
Corpo Diretivo: Paulo Sérgio C. Gomes (Presidente), Vilmar Baldissera, Patrícia Brum, Pedro Paulo da Silva Soares,
Paulo Farinatti, Marta Pereira, Fernando Augusto Pompeu
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício está indexada no SIBRADID
(Sistema Brasileiro de Documentação e Informação Desportiva)
Atlântica Editora
e Shalon Representações
Praça Ramos de Azevedo, 206/1910
Centro 01037-010 São Paulo SP
E-mail: [email protected]
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Editor assistente
Guillermina Arias
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Atendimento
(11) 3361 5595 / 3361 9932
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Assinatura
1 ano (4 edições ao ano): R$ 160,00
Editor executivo
Dr. Jean-Louis Peytavin
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Administração e vendas
Antonio Carlos Mello
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Direção de arte
Cristiana Ribas
[email protected]br
Todo o material a ser publicado deve ser enviado para o seguinte endereço de e-mail: [email protected]
Atlântica Editora edita as revistas Fisioterapia Brasil, Enfermagem Brasil, Neurociências e Nutrição Brasil
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distribuída por qualquer meio, eletrônico, mecânico, fotocópia ou outro, sem a permissão escrita do proprietário do copyright,
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estar em conformidade com os padrões de ética da saúde, sua inserção na revista não é uma garantia ou endosso da qualidade ou
do valor do produto ou das asserções de seu fabricante.
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
3
Editorial
Pesquisas e resultados
Paulo Farinatti, Editor-Chefe da RBFEx
Iniciando 2012, apresentamos o primeiro número do
volume 11 da RBFEx. A quantidade e qualidade de artigos
aumentam paulatina e consistentemente, bem como o número de instituições que se fazem representar através de seus
pesquisadores. Desse modo, nesta edição encontramos artigos
de quatro regiões do Brasil e um de Portugal, tratando de
assuntos variados, que vão desde biomarcardores em prova de
triátlon até treinamento para lesionados medulares.
A revista abre com trabalho produzido da Universidade
do Porto, descrevendo alterações em marcadores enzimáticos
e função imune em triatletas. Em seguida, contribuição da
Universidade Estadual do Oeste do Paraná discute modelos de
prevenção de perda de massa muscular através de mobilização
neural. Na área das relações entre saúde e exercício, temos
dois artigos interessantes – grupo da Universidade Federal
do Ceará avalia a percepção subjetiva da qualidade de vida
em pessoas que fazem uso prolongado de computadores após
intervenção com ginástica laboral, enquanto da Universidade
do Oeste de Santa Catarina chegam-nos dados sobre fatores
de risco cardiovascular em idosos que frequentam centro de
convivência da terceira idade. No tocante à prescrição do
exercício visando desempenho, três estudos foram selecionados. Um deles, da Universidade Federal de Ciências da Saúde
de Porto Alegre, investigou os efeitos da suplementação de
carboidrato sob a forma de gel no desempenho em teste de
natação, enquanto pesquisadores da Faculdade Guilherme
Guimbala apresentam dados sobre treinamento aeróbio
para lesionados medulares. Enfim, grupo da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro examinou o efeito de estratégias
diferentes de determinação do intervalo de recuperação no
desempenho em exercício de força.
A revista apresenta, nesta edição, além das tradicionais
revisões, um relato de caso e um artigo de opinião. As revisões
se voltam para problemas relacionados à avaliação da força
em idosos, especialmente o déficit de força após alongamento
(Universidade Estadual Paulista) e para as relações entre atividade cerebral, apetite e exercício físico (Universidade Federal
do Rio Grande do Norte). O interessante relato de caso selecionado para a presente edição discute aspectos da qualidade
de vida em pacientes mastectomizadas que participam de
programa de intervenção fisioterápica. Enfim, artigo de opinião discute com profundidade o caso do atleta paraolímpico
Óscar Pistorius, que, com ambas as pernas amputadas, vem
disputando campeonatos internacionais de atletismo e pleiteia
o direito de disputar vaga nos Jogos Olímpicos de Londres.
Em suma, uma grande variedade de assuntos e abordagens,
que bem reflete a riqueza de nossa área do conhecimento!
Bom proveito a todos!
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
4
Opinião
Citius, Altius e Fortius: o caso do atleta
paraolímpico Óscar Pistorius que disputou
o Campeonato Mundial de Atletismo de 2011
Flávia Porto*, Jonas Gurgel**
*Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências do Exercício e do Esporte Universidade Gama Filho (PPGEF/UGF),
Laboratório de Atividade Física e Promoção da Saúde, Instituto de Educação Física e Desportos, Universidade do Estado do Rio de
Janeiro (LABSAU/ IEFD/ UERJ), Grupo de Pesquisa em Biomecânica, Instituto de Educação Física, Universidade Federal Fluminense (GPBIO/IEF/UFF), **Laboratório de Atividade Física e Promoção da Saúde, Instituto de Educação Física e Desportos, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (LABSAU/ IEFD/ UERJ), Grupo de Pesquisa em Biomecânica, Instituto de Educação Física,
Universidade Federal Fluminense (GPBIO/IEF/UFF), Mestrado Acadêmico em Ciências do Cuidado em Saúde (MACCS/UFF)
Introdução
O sul-africano Óscar Pistorius nasceu em Joanesburgo,
em 22 de novembro de 1986. Devido a uma má formação,
nasceu sem as fíbulas, o que fez com que fosse amputado bilateralmente aos 11 meses de idade. Com uma vida dedicada
aos esportes, foi no Atletismo que Pistorius se destacou e vem
se destacando, quebrando recordes e... Regras!
Campeão paraolímpico dos 400 m, Pistorius lutava, desde 2007, para disputar provas olímpicas. Baseado nos seus
próprios recordes e conquistas, via-se em igual condição de
disputar corridas com indivíduos normais (Usou-se o termo
“normais” para se referir a indivíduos não portadores de
necessidades especiais, sem teor pejorativo aos indivíduos
amputados. Refere-se, apenas, a uma questão de normalidade,
de ser mais comum). Assim, após longo processo, em 2011, o
Comitê Técnico da International Amateur Athletic Federation
(IAAF) decidiu por permitir a participação de Pistorius no
13° Campeonato Mundial de Atletismo, ocorrido na Coréia
do Sul, com a condição de que ele fosse o primeiro atleta na
equipe de revezamento, sob a alegação de que suas próteses
poderiam ocasionar acidentes com os outros competidores.
A equipe de Pistorius alcançou o 8° lugar nessa disputa.
Entretanto, é evidente o marco na história do Atletismo, na
qual um atleta paraolímpico participou junto com atletas
olímpicos na competição. Seria essa disputa realizada com
igualdade entre todos os competidores?
Óscar Pistorius fez história no esporte ao se tornar o
primeiro atleta amputado a competir com corredores normais em um Campeonato Mundial de Atletismo. Mas, essa
participação gerou polêmica, principalmente por sua suposta
vantagem mecânica sobre os demais competidores gerada pelo
uso de suas próteses ultraleves.
Com base nesse episódio, este artigo propõe discutir alguns
aspectos biomecânicos sobre as vantagens e desvantagens
que Pistorius apresentaria ao participar de uma competição,
inicialmente, voltada para indivíduos não-amputados.
Sobre as próteses usadas por Pistorius
Regras da IAAF proíbem o “uso de qualquer dispositivo
técnico que incorpore molas, rodas ou qualquer outro ele-
Recebido em 10 de novembro de 2011; aceito em 16 de janeiro de 2012.
Endereço de correspondência: Flávia Porto, Laboratório de Atividade Física e Promoção da Saúde, Universidade do Estado do
Rio de Janeiro (LABSAU/UERJ), Rua São Francisco Xavier, 524, 8º andar, sala 8121, bloco F, 20550-900 Rio de Janeiro RJ, E-mail:
[email protected]
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
mento que forneça ao usuário uma vantagem sobre outro
atleta que não utiliza tal dispositivo” e o “uso de qualquer
aparelho que tenha o efeito de aumentar a dimensão de
uma peça de equipamento para além do máximo permitido
nas regras ou que forneça ao usuário uma vantagem que ele
não teria obtido usando os equipamentos especificados no
regulamento”. Com base nisso, o pedido de Pistorius para
participar de competições voltadas a indivíduos normais teve
de ser minuciosamente analisado, uma vez que a permissão
poderia ser uma anuência ao ‘favorecimento’ do atleta perante
os demais competidores.
Brüggemann et al. [1], então, conduziram um estudo encomendado pela IAAF para investigar se as próteses Cheetah
poderiam ser consideradas uma espécie de doping mecânico
usado por Pistorius, o que lhe traria vantagens sobre seus pares.
De acordo com a empresa fabricante das próteses usadas
por Pistorius e que tem nele seu garoto-propaganda, a Össur®
[2], o modelo Cheetah Flex-Foot Feet é feito sob medida para
o usuário e desenhado, especificamente, para a prática de
corrida. Indicadas para amputados transtibial e transfemoral,
as próteses têm a forma de J e são projetadas para simular a
ação da junção tornozelo/ pé, permitindo, inclusive, leves movimentos de rotação e torção, protegendo o coto de possíveis
lesões ocasionadas pela rigidez do equipamento. As próteses
são leves (possuem 512g) e feitas de fibras de carbono, o que
permite uma maior flexibilidade e otimização da transferência
de energia entre solo e corpo durante a marcha e corrida.
Aspectos biomecânicos e fisiológicos da corrida
com próteses
Primeiramente, é importante que seja considerado que
qualquer padrão de movimento adotado para a realização da
corrida influirá na fisiologia do indivíduo, seja amputado ou
não, em variáveis como gasto de energia metabólica, processo
de fadiga e risco de lesão [3].
Nessa ocasião, Brüggeman et al. [1] avaliaram e compararam a biomecânica da corrida de Pistorius com a de cinco
corredores normais, cujas características antropométricas e
de desempenho na corrida eram similares. As propriedades
mecânicas das próteses também foram investigadas.
Considerando-se a massa reduzida da prótese Cheetah, que
resulta em uma menor massa corporal do segmento quando
comparado ao membro natural de um indivíduo sadio (cerca
de 50% menor) [1], tal fato representa vantagens biomecânicas, principalmente, relacionadas ao momento de inércia,
ao trabalho mecânico e, consequentemente, à transferência
de energia, pois são variáveis influenciadas por características
inerciais. Assim, o fato de a distribuição de massa da prótese
ser diferente daquela de um membro natural, apresentando
o centro de gravidade mais próximo à articulação do joelho,
pode ser considerado uma vantagem mecânica, porque isso
faz com que haja uma redução no momento de inércia. Se
fossem mantidas as outras variáveis biomecânicas iguais, do
5
ponto de vista cinemático, esse menor momento de inércia
aumentaria a velocidade e a aceleração angulares das articulações do joelho e do quadril durante a fase de balanço da
corrida. No estudo de Brüggemann et al. [1], realmente, foi
verificado um menor momento de inércia de Pistorius na fase
de balanço (swing) da corrida. Essa constatação influenciou
em um menor trabalho muscular durante esta fase.
Ao analisarmos a transferência de energia que ocorre
durante a corrida de um indivíduo amputado e protetizado,
é importante, inicialmente, ser considerada a perda natural
de energia que ocorre pela articulação metatarsofalangeal,
durante a corrida realizada por indivíduos normais, conforme descrito no estudo de Stefanyshyn e Nigg [4]. Mesmo
considerando o uso de sapatilhas de corrida, que avançaram
em relação ao aumento da rigidez do solado médio no terço
anterior do pé, ainda assim, existe uma perda significativa de
energia por essa articulação [5]. Por outro lado, com o uso
de uma prótese do tipo Cheetah, o indivíduo não apresenta
essa perda, o que pode ser considerado vantajoso, tendo-se
em vista que existe uma perda de energia de 19% a 8% na
fase de apoio da corrida. Essa é uma perda significativamente
menor que qualquer indivíduo não-protetizado teria, que é de
aproximadamente 40% [1]. Ao analisar os dados de Pistorius
com corredores saudáveis, Brüggemann et al. [1] constataram
que o atleta paraolímpico realizou quase 100% de trabalho a
mais que seus pares não-amputados, sendo que a maioria desse
trabalho foi realizado pela lâmina da prótese, não havendo,
portanto, participação muscular.
Quanto a isso, dados do fabricante apontam que, durante a
corrida, a prótese Cheetah é comprimida no momento do impacto, armazenando energia e absorvendo altos impactos que
poderiam ser absorvidos pelas demais articulações do corredor,
como tornozelos, joelhos, quadril e região lombar [2]. Ao
investigarem a histerese da prótese de Pistorius, Brüggemann
et al. [1], verificaram que cerca de 5% de energia eram dissipados, o que significa que o atleta teria um retorno de quase
95% da energia. É obvio pensar que isso seria uma vantagem,
inclusive, no que se refere à fadiga muscular. Destaca-se que o
tempo de contato no solo de Pistorius e os outros corredores
foi similar [1]. Entretanto, Pistorius não apresenta torque
ativo na articulação do tornozelo, diferentemente de atletas
normais, que possuem as musculaturas dessa região, o que
pode ser considerado uma desvantagem mecânica significativa. A duração similar da fase de apoio pode ser explicada
por uma maior deformação da prótese, o que representa para
Pistorius um menor impulso durante essa fase.
Do ponto de vista fisiológico, a relação entre as variáveis
mecânicas de trabalho, potência e energia refletem no gasto
energético do indivíduo durante a corrida [3]. No caso de
Pistorius, ainda que tenha havido dúvida se o atleta estava,
de fato, na sua melhor forma física e, portanto, os resultados
obtidos quanto ao consumo de oxigênio durante os testes
não terem sido fidedignos [6] (Pistorius apresentou VO2máx
25% menor que dos demais atletas [1]), somente o fato de
6
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
ser protetizado já explicaria esse gasto energético menor pela
alteração na biomecânica da sua corrida.
Do ponto de vista cinético, o estudo de Brüggemann et
al. [1] verificou que as forças de reação do solo (FRSs) foram
significativamente menores que nos indivíduos saudáveis.
Essas medidas também são influenciadas pela massa corporal
total e segmentar de Pistorius, mas também podem estar
relacionadas ao menor risco de lesões musculoesqueléticas.
Porém, nos testes aos quais Pistorius foi submetido essa
questão não foi investigada com profundidade. Nesse caso,
o uso de acelerômetros triaxiais em determinadas regiões do
corpo (como quadril e coluna) poderia complementar as
avaliações realizadas pelo grupo de Brüggermann, fornecendo
medidas de impacto (pico de aceleração) e vibração (movimentos oscilatórios), além da relação entre eles (crest factor).
Esses transdutores são bastante úteis na investigação sobre
mecanismos de lesões osteomioarticulares.
Outros parâmetros não investigados na pesquisa conduzida por Brüggemann et al. [1] referem-se ao controle postural
de Pistorius. Nesse sentido, é sabido que o controle postural
e o padrão de deambulação são comprometidos em sujeitos
biamputados [7], exigindo-se uma reorganização do sistema
locomotor do indivíduo para cumprir normalmente tais
funções. Então, será que essa ‘desvantagem biomecânica’ permaneceria durante a corrida de velocidade? Se considerarmos
que as próteses usadas por Pistorius são desenhadas especificamente para a prática da corrida, o equilíbrio é restabelecido
com o aumento da velocidade na corrida. Ou seja, com um
momento de inércia menor, mas com uma velocidade angular
maior proporcionada pela corrida faz com que seu momentum angular também seja maior e ajude a estabilizar o corpo.
Conclusão
Neste artigo de opinião, comparamos o caso de um indivíduo protetizado com outros indivíduos atletas normais, porém
o que pode ser considerado como vantagem ou desvantagem
na biomecânica da corrida de Pistorius, não pode ser inferido
para demais atletas protetizados. Espera-se, contudo, que este
artigo possa servir para enriquecer a discussão do caso do atleta
Pistorius, servindo de estímulo para o continuo aprimoramen-
to de próteses atléticas e não atléticas, melhorando a qualidade
de vida de indivíduos portadores de necessidades especiais.
O lema olímpico Citius, Altius e Fortius (o mais rápido,
o mais alto e o mais forte), proposto pelo Barão Pierre de
Coubertin, usado no título do presente artigo de opinião,
será também usado para o seu encerramento. Durante décadas, o uso de próteses foi considerado desvantajoso e as
pessoas que necessitavam de tais aparatos eram vistas como
indivíduos deficientes. Os atletas sempre buscaram maneiras
de melhorar a performance, seja através de meios lícitos ou
ilícitos. O caso de um atleta protetizado ter competido no
Mundial de Atletismo com atletas não amputados, propiciou
uma reflexão e uma mudança de paradigma do que venha a
ser um atleta deficiente, tendo em vista que um considerável
número de pessoas aponta como uma potencial vantagem o
uso dessas próteses. Tal fato gera para a população um dilema:
as próteses poderão vir a ser melhores que nossas pernas? Até
onde iria um atleta em busca do melhor desempenho?
Referências
1. Brüggemann G-P, Arampatzis A, Emrich F, Potthast W. Biomechanics of double transtibial amputee sprinting using dedicated
sprinting prostheses. Sports Technol 2008;1(4-5):220-7.
2. Össur. Life without limitations. 2011. [citado 2011 Out 20].
Disponível em URL: http://www.ossur.com/
3. Williams KR. A dinâmica da corrida. In: Zatsiorsky VM, ed.
Biomecânica no esporte: performance do desempenho e prevenção de lesão. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2004:125-42.
4. Stefanyshyn DJ, Nigg BM. Mechanical energy contribution
of the metatarsophalangeal joint to running and sprinting. J
Biomech 1997;30(11-12):1081-5.
5. Nigg BM, Stefanyshyn D, Cole G, Stergiou P, Miller J. The
effect of material characteristics of shoe soles on muscle
activation and energy aspects during running. J Biomech
2003;36(4):569-75.
6. Zettler PJ. Is it cheating to use cheetahs? The implications of
technologically innovative prostheses for sports values and rules.
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7. Su PF, Gard SA, Lipschutz RD, Kuiken TA. Gait characteristics
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
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Artigo original
Alterações agudas induzidas por uma prova
de triathlon longo em diferentes biomarcadores
enzimáticos e da função imune
Acute changes induced by a long triathlon in different
enzymatic and immune function biomarkers
Faber Sérgio Bastos Martins, D.Sc.*, José Augusto Rodrigues dos Santos, D.Sc.*
*Faculdade de Desporto – Universidade do Porto
Resumo
Objectivo: Analisar as alterações hematológicas agudas induzidas
por uma prova de triathlon longo. Avaliou-se o comportamento de
diversos biomarcadores enzimáticos e da função imune em atletas
portugueses masculinos de triathlon. Material e métodos: 10 atletas
seniores masculinos (31,5 ± 1,2 anos; 69,3 ± 1,9 kg; 177,7 ± 1,4
cm; 22,0 ± 0,8 de IMC e 10,1 ± 2,2 % GC) divididos em grupos
elite e não-elite. Foram recolhidas amostras de sangue venoso periférico antes e imediatamente após as provas. Utilizou-se estatística
descritiva, testes não-paramétricos de Wilcoxon e Mann-Whitney
e coeficiente de correlação de Spearman. Resultados: Verificou-se
o aumento da actividade das enzimas CK e AST (p < 0,05) em
ambos os grupos. O aumento da actividade da enzima GGT (p <
0,05) ocorreu somente no grupo elite. Foi constatado, em ambos os
grupos, um aumento da contagem leucocitária, fundamentalmente
expressa pelo aumento da contagem de neutrófilos (p < 0,05). Após
a prova, registou-se a diminuição da relação CD4/CD8 e aumento
das concentrações dos linfócitos T CD3+CD8+, T CD4+reg e T
CD4+CD69+ nos atletas dos grupos não-elite. Conclusão: Os resultados encontrados sugerem que a intensidade e a duração da prova
de triathlon condicionam as respostas dos diversos biomarcadores
analisados em função do nível de treino dos atletas.
Abstract
Objective: To assess acute hematological changes induced by
a long triathlon. We evaluated the behavior of various enzymatic
and of immune function biomarkers in male Portuguese triathlon
athletes. Methods: 10 male senior athletes (31.5 ± 1.2 years, 69.3 ±
1.9 kg, 177.7 ± 1.4 cm, BMI 22.0 ± 0.8 and BF 10.1 ± 2.2%) were
divided into groups elite and non-elite. Samples were taken from
peripheral venous blood before and immediately after the events.
We used descriptive statistics, nonparametric tests of Wilcoxon and
Mann-Whitney and Spearman correlation coefficient. Results: There
was increased activity of CK and AST (p < 0.05) in both groups.
The increased activity of the enzyme GGT (p < 0.05) occurred
only in the elite group. It was found in both groups, an increase
in leukocyte count, mainly expressed as an increase in neutrophil
count (p < 0.05). After the race, there was a decrease in the CD4/
CD8 ratio and increased concentrations of T lymphocytes CD3+
CD8+, CD4+ T reg and CD4+ CD69+ for athletes from non-elite
groups. Conclusion: The results suggest that the intensity and duration of triathlon affect the responses of several biomarkers analyzed
according to the level of training of athletes.
Key-words: triathlon, training, enzymatic activity, immune system,
lymphocytes.
Palavras-chave: triathlon, treino, actividade enzimática, sistema
imune, linfócitos.
Recebido 10 de novembro de 2011; aceito 16 de novembro de 2011.
Endereço de correspondência: Faber Sérgio Bastos Martins, Instituto de Estudos Superiores de Fafe, Rua Universitária, Apartado 178,
4824-909 Medelo Portugal, E-mail: [email protected]
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
Introdução
Os sistemas biológicos respondem aos diferentes estímulos
provenientes do exercício físico levando a adaptações que
se traduzem num incremento da capacidade funcional do
atleta. Dentro desta perspectiva, a problemática traduz-se no
nível da agressão sofrida pelo organismo, que embora possa
apresentar-se transitória, é tanto mais expressiva quanto mais
severa for a intensidade do exercício, considerada esta como
intensidade propriamente dita ou como duração de uma
dada intensidade. A prática do triathlon implica a realização
de três diferentes desportos desenvolvidos em regime aeróbio
(natação, ciclismo e corrida), podendo por vezes, prolongar-se por mais de 10 horas e com intensidades superiores a
65% VO2max [1,2]. Estudos têm demonstrado que atletas
de esforços prolongados evidenciam um aumento da actividade de determinadas proteínas como a creatina-quinase
(CK), aspartato-aminotransferase (AST), mioglobina (Mb)
e a presença de fragmentos de cadeia de miosina pesada em
resposta a alteração na permeabilidade da membrana celular,
o que permite, ainda que indirectamente, determinar o grau
de agressão imposto pelo exercício [3-5]. Adicionalmente, o
aumento do volume mitocondrial, a activação lisossómica,
a disrupção e vacuolização sarcoplasmática constituem importantes alterações histológicas musculares induzidas pelos
esforços intensos e prolongados, principalmente aqueles
nos quais se verifica uma elevada incidência de contracções
excêntricas [6-8].
Actualmente, as provas de triathlon têm merecido atenção
relevante no que concerne ao estudo da performance em função das alterações de diversos biomarcadores, principalmente
nas provas do triathlon Ironman (3,8 km/180 km/42,2 km),
de forma a possibilitar uma melhor compreensão da relação
destes indicadores com importantes variações na função
neuromuscular, actividades enzimáticas e respostas hematológicas [9-11]. Diversos estudos têm sugerido uma relação
entre a susceptibilidade aumentada às infecções e a prática
regular de exercícios intensos ou competições exaustivas,
resultando em alterações significativas nos sistemas endócrino, nervoso e imunológico dos atletas [12-14]. Estudos
realizados com nadadores de elite verificaram um aumento
da incidência de infecções nas vias aéreas superiores (IVAS),
tendo sido evidenciados, após as provas, aumentos expressivos da concentração leucocitária, expressos principalmente
pelo aumento de neutrófilos, acompanhados da redução
da concentração de imunoglobulina A (Ig A), para além de
alterações na actividade citotóxica das células natural killer
(NK) [15,16]. Contudo, o comportamento dos indicadores
bioquímicos e imunológicos parece apresentar uma elevada
variabilidade inter-individual em função do nível de treino
dos atletas, estando directamente relacionado a especificidade
da intensidade e duração do esforço realizado.
Perante os pressupostos apresentados, o propósito central
deste estudo foi verificar, em atletas portugueses masculinos
de triathlon de elevado nível competitivo (elite) e praticantes
regulares (não-elite), o efeito de uma prova de triathlon longo
composta por 1,9 km de natação, 90 km de ciclismo e 21,1
km de corrida, na modulação da resposta aguda de diversos
biomarcadores enzimáticos e da função imune, de modo a
proporcionar uma melhor compreensão dos distúrbios homeostáticos induzidos pelo exercício físico prolongado e intenso
e suas respectivas repercussões sistémicas.
Material e métodos
Amostragem
A amostra foi constituída por 10 atletas masculinos da
Federação Portuguesa de Triathlon, com idade média de
31,5 ± 1,2 anos, massa corporal de 69,3 ± 1,9 kg, estatura
corporal de 177,7 ± 1,4 cm, índice de massa corporal de
22,0 ± 0,8 e percentagem de gordura corporal 10,1 ±
2,2, participantes das provas nacionais e internacionais
na referida distância. Os atletas foram divididos em 2
grupos (elite e não-elite) de acordo com as respectivas
posições no ranking nacional e categoria de inscrição em
competições internacionais pela International Triathlon
Union (ITU).
Procedimentos
Para a avaliação da estatura corporal dos atletas foi
utilizado o estadiômetro (marca Rudolf Martin) e para
a determinação da massa corporal (kg) e percentagem de
gordura corporal (%GC) dos atletas foi realizada a pesagem em balança digital de bioimpedância (marca Tanita
TBF 305). Todos os atletas integrantes da amostra foram
submetidos a duas colheitas sanguíneas, a primeira nos
instantes precedentes a cada uma das provas e a segunda,
imediatamente após o seu término, sendo estas realizadas
através da punção venosa na região cutânea antecubital
anterior, com álcool a 95%, totalizando 60 amostras. Todas
as amostras foram colhidas em tubos ETDA-K3 de 4,5ml
(BD Vacutainer) para a determinação dos parâmetros
bioquímicos e imunológicos.
Análise bioquímica: Para análise dos parâmetros bioquímicos efectuados no soro, foi utilizada a centrifugação a 3000
rpm (centrífuga JOUAN CR3). Foram analisados através do
método turbidimétrico a 340 nm, as actividades séricas das
enzimas creatina-quinase (CK), aspartato-aminotransferase
(AST), alanina-aminotransferase (ALT) e gama-glutamiltransferase (GGT).
Análise imunológica: Os tubos de ensaio de polipropileno
de 5 ml para citómetro de fluxo (IZASA) foram identificados e
os anticorpos com diferentes especificidades, conjugados com
diferentes fluorocromos foram pipetados (pipetas automáticas
de 10 µL) para os respectivos tubos, em conformidade com
o apresentado na Tabela I
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
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Tabela I - Identificação dos anticorpos monoclonais utilizados na determinação da imunomarcação.
Tubos/
Anticorpos
monoclonais
FL1-FITC
CD8
(IOT; B9.11)
HLA-DR
(IOT; Immu-357)
Caracterização dos Linfócitos T
FL2-PE
FL3-ECD
CD 69
CD45RO
(IOT; TP1.55.3 )
(IOT; UCHL1 )
CD 127
CD4
(IOT;R34.34 )
(IOT; SFCI12T4D11)
FL4-PC5
CD28
(IOT; CD28,2 )
CD25
(IOT;B1,49,9 )
FL5-PC7
CD3 (IOT;UCHT1)
FIT C - Isotiocianato de fluresceina; PE - Ficoeritrina; ECD - Energy Coupled Dye; PC5 – Ficoeritrina-Cy5- Tandem; PC7 – Ficoeritrina Cianina 7.
A cada tubo foram adicionados 100 µL (pipetas automáticas)
de sangue periférico e as amostras foram incubadas durante o
período de 15 minutos, no escuro e a temperatura ambiente. No
final do período de incubação, procedeu-se a líse dos eritrócitos
e a fixação dos leucócitos, utilizando o Lisador automático TQ-Prep (BC) e os reagentes Immunopre Reagent System (BC).
Em seguida, os tubos foram colocados no frigorífico durante 15
minutos, procedendo-se, logo após, à aquisição das amostras no
citómetro de fluxo ( Cytomicas FC500 da Beckman Coulter),
utilizando o programa “CXP Versão 2.0” (Beckman Coulter).
Uma combinação de anticorpos monoclonais conjugados com
isotiocianato de fluresceina (FITC) e ficoeritrina (PE) foram
utilizados para enumerar as subpopulações de linfócitos. A
calibragem do citómetro foi realizada utilizando o FACScomp
software (Immunocytometry system). Do sangue venoso periférico heparinizado, 3 ml foram misturados com o mesmo
volume da solução de fosfato tampão (PBS pH 7.4) nivelado por
4ml de gradiente Ficoll-Paque (Amersham Pharmacia Biotech,
Uppsala, Sweden) a 400g durante 30 minutos a temperatura
ambiente. As respectivas camadas de células mononucleares
foram recolhidas e lavadas duas vezes com solução PBS (10 ml),
sendo posteriormente suspensas em solução FCS-RPMI-1640.
As amostras contendo 1x106 células mononucleares em solução
FCS-RPMI-1640 foram tratadas com 10ml de anticorpos mo-
noclonais conjugados com isotiocianato de fluresceina (FITC)
e ficoeritrina (PE), sendo as seguintes combinações: anti-CD3
(FITC) \ anti-CD4 (PE), anti-CD3 (FITC)\anti-CD8 (PE),
lavadas duas vezes com solução PBS+, e novamente suspensas
em 1 ml de solução 0.5% de paraformaldeido-PBS+, sendo
posteriormente analisadas pelo programa Infinicyt Versão 1.1.1.
Foi utilizado o teste de Wilcoxon para medidas repetidas, e o
teste de Mann-Whitney para amostras independentes. Para
verificar os níveis de associação entre as variáveis investigadas no
estudo, recorreu-se ao coeficiente de correlação de Spearman.
Os níveis de significância foram mantidos em 5% (p < 0.05).
Os procedimentos estatísticos foram analisados nos programas
Excel™2000 e Statistical Package for the Social Sciences (SPSS™.
Versão 16.0).
Resultados
De acordo com os dados expostos na Tabela II, constata-se,
nos atletas de elite, o aumento das actividades das enzimas
CK (109,3%, p = 0,011), AST (21,1%, p = 0,016) e GGT
(17,3%,p = 0,014). Este comportamento, embora mais
pronunciado nos atletas do grupo não-elite, foi somente verificado na actividade das enzimas CK (307,6%, p = 0,043)
e AST (55,7%, p = 0,014).
Tabela II - Efeito da prova de triathlon longo nas diferentes actividades enzimáticas dos triatletas.
Triatletas elite
(n = 5)
Enzimas
CK (U.L-1)
AST (U.L-1)
ALT (U.L-1)
GGT (U.L-1)
Pré-Prova
268,6±135,4
39,8 ± 9,1
25,4 ± 7,3
18,4 ± 2,1
Pós-Prova
562,4 ± 194,7*
48,2 ± 11,0*
27,2 ± 7,8
21,6 ± 1,2*
Triatletas não-elite
(n = 5)
Pré-Prova
Pós-Prova
190,4 ± 30,0
776,2 ± 458,7*
26,2 ± 2,1
40,8 ± 8,8*
17,4 ± 5,5
20,6 ± 6,1
21,0 ± 6,0
23,6 ± 7,2
Nota: Valores expressos pela média ± desvio-padrão. * p < 0,05, vs Pré-Prova.
Tabela III - Efeito da prova de triathlon longo nas diferentes subpopulações leucocitárias dos tritletas.
Parâmetros Imunológicos
Monócitos (103/µL)
Linfócitos (103/µL)
Neutrófilos(103/µL)
Leucócitos (103/µL)
Triatletas Elite
(n = 5)
Pré-Prova
0,4 ± 0,3
2,2 ± 1,0
3,4 ± 1,7
6,3 ± 1,5
Pós-Prova
0,5 ± 0,2*
1,2 ± 0,6*
14,4 ± 4,7*
16,3 ± 5,0*
Valores expressos pela média ± desvio-padrão. * p < 0.05, vs Pré-Prova.
Triatletas não-Elite
(n = 5)
Pré-Prova
Pós-Prova
0,6 ± 0,4
0,8 ± 0,4*
2,3 ± 1,0
1,3 ± 0,5*
4,0 ± 1,0
15,0 ± 3,6*
6,7 ± 1,4
17,5 ± 4,1*
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
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O comportamento dos indicadores da função imune
após a prova pode ser observado na Tabela III. Uma análise
dos dados permite-nos verificar um aumento significativo
dos leucócitos totais, em ambos os grupos de atletas, sendo
observado acréscimos de 158,7% (p = 0,003) e 161% (p =
0,001) nos grupos elite e não-elite, respectivamente. Esta
leucocitose reflecte principalmente um aumento dos neutrófilos (neutrofilia) pós-esforço, sendo este mais acentuado nos
atletas do grupo elite (323,5%, p = 0,002) comparativamente
ao grupo não-elite (275%, p = 0,003).
De forma a analisar o efeito crónico das sucessivas cargas
de treino na resposta imune dos atletas presentes neste estudo,
foram comparadas as concentrações leucocitárias intergrupos
nos momentos pré e pós-prova, conforme apresentado na
Figura 1, não tendo sido constatadas diferenças significativas.
Contudo, importa reter que os atletas do grupo não elite,
apresentaram valores basais de leucócitos totais ligeiramente
mais elevados quando comparados com atletas de elite (6,7
± 1,4 vs 6,3 ± 1,5 x 103/µL, p = 0,834).
Figura 2 - Análise comparativa dos grupos de triatletas relativamente ao efeito da prova de triathlon longo na relação dos linfócitos
T CD4+/ T CD8+.
Figura 1 - Análise comparativa dos grupos experimentais de triatletas relativamente a concentração dos leucócitos totais nos momentos
pré e pós-prova de triathlon longo.
O exercício físico intenso e prolongado provoca múltiplas
alterações bioquímicas cuja interpretação pode, por vezes,
conduzir a resultados conflituais, principalmente em atletas com elevado nível de treino. O aumento da actividade
das enzimas séricas indicia alterações na permeabilidade da
membrana celular, e está normalmente correlacionado com
lesão celular consequente ao exercício [5,17]. Os indicadores
bioquímicos CK e AST utilizados no presente estudo constituem marcadores de lesão muscular, dado o facto de serem
proteínas que, quando libertadas para o espaço extracelular,
em resposta ao exercício físico, permitem determinar, ainda
que de forma indirecta, a existência de lesões [3,5]. As enzimas
ALT e GGT encontram-se em maior concentração no fígado
e epitélios dos ductos biliares e renais, respectivamente [18],
o que pode sugerir a possibilidade de lesão hepática, quando
observado um aumento significativo dos níveis séricos destas
enzimas em resposta ao exercício físico [19].
A elevada variabilidade inter-individual pós-prova observada no comportamento da enzima CK, expressa pelos acentuados desvios-padrão, corrobora estudos anteriores realizados
com diferentes atletas de provas de resistência [4,17,20,21].
Esta variabilidade pode ser, em parte, justificada pelo nível de
treino do atleta, uma vez que quanto mais elevado o estado
de treino, maior a possibilidade da realização de esforços
intensos, com melhor tolerância às elevações enzimáticas
relacionadas com focos de lesão muscular [4,22,23]. Neste
contexto, a atenuação da expressão da actividade da enzima
CK pós-prova, evidenciada pelos atletas de elite, reforça o
denominado efeito protector da carga repetida [24], promovendo nestes atletas importantes adaptações metabólicas ao
esforço prolongado exaustivo, reduzindo o nível de agressão
muscular induzida pelo exercício. Esta resposta da actividade
enzimática menos pronunciada por parte dos atletas de elite
lhes confere a classificação de low CK responders [17], na
Leucócitos Totais
(10^3/µl)
25
*
20
*
15
10
5
0
Pos-prova
Pré-prova
elite
não elite
* p < 0,05, vs Pré-prova; • p<0.05, vs Elite.
A relação dos linfócitos T CD4+/CD8+, utilizada como
indicador de imussupressão, foi alterada ao término da prova,
sendo a diminuição observada (1,9 ± 0,8 vs 1,6 ± 0,5; p =
0,042) somente no grupo dos atletas não-elite, de acordo com
o exposto na Figura 2.
Foi encontrada uma diferença intergrupos de 26,3% referente aos valores basais (2,4 ± 0,8 vs 1,9 ± 0,8; p = 0,036) da
relação, sendo também constatada uma diferença de 37,5%
nos valores pós-prova dos grupos de atletas analisados (2,2 ±
0,7 vs 1,6 ± 0,5; p = 0.018).
Ambos os grupos de atletas evidenciaram alterações nos
indicadores de activação do fenótipo linfocitário T CD4+
(Tabela IV), em particular nas células T CD4+ reguladoras,
as quais assumem relevante importância na homeostase da
tolerância periférica.
T CD4+ / CD8+
3.5
3
2.5
2
1.5
1
0.5
0
*
*
Pos-prova
Pré-prova
elite
não elite
* p < 0,05, vs Pré-prova; • p<0.05, vs elite.
Discussão
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
qual se observa uma curva individual dos valores absolutos
pouco acentuada e que pode, de acordo com alguns autores,
ser justificada por diferentes mecanismos, dentre os quais,
a incapacidade de drenagem da enzima CK do interstício
para a circulação sanguínea, através do sistema linfático, em
resposta ao possível aumento da pressão dos fluidos intersticiais [25]. Relativamente aos elevados valores da actividade
da enzima CK apresentados pelos atletas do grupo não-elite,
uma justificativa plausível parece convergir para o efeito modulador da duração do esforço, facto que corrobora estudos
anteriores com atletas de ultra-maratonas e triathlons longos,
onde a dilatação do tempo de esforço é sugerida como factor
determinante na libertação desta proteína para a circulação
[3,26,27]. A semelhança do observado na actividade da CK,
o aumento da actividade da enzima AST, apresentada por
ambos os grupos de atletas, consubstancia no diagnóstico da
ocorrência de lesão no tecido muscular esquelético [21,28].
Contudo, a sua menor expressão pós-prova pode ser justificada
pelas suas elevadas dimensões moleculares, o que resulta numa
dificuldade acrescida da sua remoção, via sistema linfático
[3,27,29]. O aumento significativo da actividade da enzima
GGT, constatada nos atletas de elite, constitui um indicador
sensível de distúrbios hepáticos [30], possuindo também um
importante papel modulador na velocidade das vias glicolítica
e oxidativa [31]. Este aumento da actividade parece estar
relacionado, segundo alguns autores, com a redistribuição
do fluxo sanguíneo e o aumento da temperatura corporal
induzidos pelo exercício físico intenso e prolongado, facto
que poderia resultar em danos hepatocelulares provocados
por uma isquemia [32,33].
O aumento do número de leucócitos circulantes após a
realização de exercícios físicos constitui uma resposta aguda
natural, e está dependente de factores como a intensidade,
a duração e tipo de esforço realizado [14,34,35]. Esta leucocitose pós-esforço é normalmente expressa pelo aumento
de neutrófilos [12-14,36,37], e se mostra mais pronunciada
em esforços prolongados [36,38]. O aumento do número de
leucócitos, evidenciada por ambos os grupos, após a realização
da prova corrobora os resultados de estudos anteriores, e terá
resultado da desmarginação dos neutrófilos, a partir das paredes do endotélio, induzida pelo aumento do débito cardíaco
e alterações dos níveis de cortisol e catecolaminas [31,39,40].
Efectivamente, níveis elevados de adrenalina, induzidos pelo
exercício físico, reduzem a afinidade dos neutrófilos pela parede do endotélio, potenciando um fluxo aumentado destas
células para a circulação sanguínea [41]. Adicionalmente, o
aumento transitório do número monócitos pós-prova, embora
menos acentuado, está relacionado ao processo inicial da
activação dos macrófagos no mecanismo de resposta inflamatória [42]. Relativamente a activação dos linfócitos T CD4+
e T CD8+, Pizza et al. [43] referem que o tipo de exercício
parece exercer uma influência significativa na magnitude do
comportamento dos parâmetros da imunidade celular e humoral. A diminuição significativa da relação dos linfócitos T
11
CD4+/CD8+ no grupo não-elite reflecte, principalmente, um
acréscimo dos linfócitos T CD8+, o qual pode estar associado
a uma situação de imunossupressão evidenciada pela realização
de esforços intensos e prolongados [44,45]. Esta modulação
do sistema imune, caracterizada pelo aumento dos linfócitos T
CD8+ para o compartimento vascular, em resposta ao exercício
físico agudo, parece estar relacionada com a expressão dos
β-receptores presentes nestas células [46]. Contrariamente ao
aumento observado no grupo não-elite, os atletas de elite evidenciaram uma diminuição do fenótipo T CD4+CD69+, que
pode se prender, em parte, aos níveis aumentados de cortisol
em resposta a realização de esforços prolongados e intensos
[47], os quais poderiam provocar a inibição da produção de
interleucina-1 (IL-1) pelos monócitos e, consequentemente,
reduzir a estimulação dos linfócitos T CD4+, com menor
produção de interleucina-2 (IL-2), o que resultaria na inibição
da proliferação dos linfócitos T e diminuição de mediadores
de inflamação e actividade citotóxica [48].
Conclusão
A análise e interpretação dos resultados obtidos neste estudo
permitem-nos extrair as seguintes conclusões: a duração do
esforço parece constituir o factor determinante na expressão
da resposta das proteínas musculares CK e AST, enquanto a
intensidade do esforço exerce um importante efeito modulador
da actividade da enzima hepática GGT. De forma similar aos
indicadores bioquímicos, a resposta dos biomarcadores da função imune parece estar condicionada pela duração e intensidade
do esforço. Assim, verificamos que a intensidade e a duração
das provas de triathlon condicionam as respostas dos diferentes
biomarcadores em função do nível de treino dos atletas.
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
13
Artigo original
Prevenção de hipotrofia muscular pelo uso
da mobilização neural em modelo experimental
de ciatalgia
Muscular hypotrophy prevention by using neural mobilization in
experimental sciatica model
Juliana Schmatz Mallmann*, Juliana Moesch*, Flávia Tomé*, Rogério Fonseca Vituri**, Alberito Rodrigo de Carvalho***,
Gladson Ricardo Flor Bertolini, D.Sc.****
*Graduados em Fisioterapia pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), Campus de Cascavel/PR, **Especialista,
docente do curso de medicina da Unioeste, ***Especialista, docente do curso de fisioterapia da Unioeste, ****Docente do curso de
fisioterapia da Unioeste
Resumo
Introdução: O objetivo deste estudo foi avaliar a eficácia da
mobilização neural na manutenção do trofismo muscular de sóleos
em ratos submetidos a modelo experimental de ciatalgia por neuropraxia. Métodos: Ratos Wistar (n = 10 / 13 ± 2 semanas / 356,80
± 27,76 g) foram divididos aleatoriamente em dois grupos, o GS,
(n = 5) submetido à ciatalgia e tratamento simulacro, e o GMN,
(n = 5) submetido à ciatalgia e tratado com mobilização neural.
O protocolo experimental de ciática por neuropraxia seguiu o
modelo de Bennett e Xie. Os tratamentos por mobilização neural
(GMN) e simulacro (GS) foram realizados nas patas traseiras direitas. O trofismo muscular foi avaliado histomorfometricamente
pelo menor diâmetro das fibras musculares (MDFM). Para análise
estatística usou-se o teste t pareado (α = 0,05). Resultados: No GS
houve diminuição significativa do MDFM à direita em relação à
esquerda (p = 0,0051) e no GMN não foram observadas diferenças.
Conclusão: A mobilização neural foi eficaz na redução da hipotrofia
proveniente de uma neuropraxia nos animais.
Abstract
Introduction: The aim of this study was to assess the effectiveness
of neural mobilization, in the soleus muscle tropism maintenance
in rats with sciatica experimental model by neuropraxia. Methods:
Wistar rats (n = 10 / 13 ± 2 weeks / 356.80 ± 27.76 g) were randomly
divided into two groups, the SG (n = 5) subjected to sham treatment
and sciatica, and NMG, (n = 5) submitted to sciatica and treated
with neural mobilization. The experimental protocol of sciatica by
neuropraxia followed the model of Bennett and Xie. The treatments
for neural mobilization (NMG) and sham (GS) were performed on
right hind limb. The muscle tropism was assessed by histomorphometric of muscle fibers diameter smaller (MFDS). Statistical analysis
used the paired t test (α = 0.05). Results: In SG significant decrease
of MFDS right than left (p = 0.0051) and the NMG no differences
were observed. Conclusion: The neural mobilization was effective in
reducing hypotrophy from a neuropraxia in animals.
Key-words: sciatica, physical therapy modalities, neuralgia.
Palavras-chave: ciática, modalidades de fisioterapia, neuralgia.
Recebido em 18 de novembro de 2011; aceito em 3 de janeiro de 2012.
Endereço de correspondência: Gladson Ricardo Flor Bertolini, Rua Universitária, 2069, Jd. Universitário, Universidade Estadual do
Oeste do Paraná/Centro de Ciências Biológicas e da Saúde/Laboratório de Estudo das Lesões e Recursos Fisioterapêuticos, Caixa Postal
711, 85819-110 Cascavel PR, Tel: (45) 3220-3157, E-mail: [email protected]
14
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
Introdução
A incidência de dor lombar é de aproximadamente 80%
da população mundial, e 35% destes desenvolvem um quadro
de lombociatalgia, que é uma irritação do nervo isquiático,
causando distúrbios sensitivos no trajeto do mesmo. A lombociatalgia constitui um problema de saúde, em todos os
países, com certo grau de desenvolvimento, sendo que a perda
da capacidade laboral e a aposentadoria são consequências
importantes para a sociedade e economia [1].
A causa mais comum da lombociatalgia é a hérnia de disco,
porém, existem outras, como: processos degenerativos, infecções, luxações traumáticas do quadril, anomalias congênitas
[2], síndrome do piriforme [3] e estenose do canal lombar.
Os sintomas incluem a dor lombar, dor ao longo do trajeto
do nervo, distúrbios sensoriais e fraqueza dos músculos do
membro inferior inervados pelo isquiático [4].
Os testes de provocação neural são realizados com objetivo
de auxiliar no diagnóstico de síndromes compressivas nervosas
[5,6], sendo que os mesmos são adaptados para tratamento
destas síndromes, com resultados diversos [7-9].
O princípio da técnica de mobilização neural, que é um
comprometimento da mecânica e ou fisiologia do sistema
nervoso, pode resultar em outras disfunções do sistema nervoso, ou em estruturas musculoesqueléticas que recebam sua
inervação. A mobilização neural é utilizada para restaurar o
movimento e a elasticidade do sistema nervoso, com objetivo
de melhorar a neurodinâmica e restabelecer o fluxo axoplasmático, restabelecendo a homeostasia dos tecidos nervosos [9].
Para Butler [10], a mobilização do sistema nervoso afeta a
dinâmica vascular, os sistemas de transporte axonal e a restauração
da mecânica das fibras nervosas e tecidos conjuntivos. Alteração
das pressões no sistema nervoso, durante o movimento, podem
auxiliar na dispersão de um edema intraneural, com melhora do
suprimento sanguíneo às fibras nervosas em hipóxia. Além disso,
um tratamento vigoroso poderia causar uma pequena lesão no
nervo e estimular a liberação de fatores de crescimento.
Pelo modelo de compressão isquiática, criado por Bennett
e Xie [11], há a reprodução da sintomatologia visualizada em
humanos, com isto, confere-se a possibilidade de avaliar técnicas de tratamento, como a mobilização neural, verificando-se a evolução do reparo nervoso pelo trofismo de músculos
inervados pelo isquiático.
O objetivo deste estudo foi verificar a eficácia da mobilização neural, na manutenção do trofismo muscular de sóleos
em ratos submetidos a modelo experimental de ciatalgia por
neuropraxia.
356,80 ± 27,76 g. Os ratos foram alojados em caixas de
polipropileno, submetidos a ciclo claro/escuro regulado em
12 horas, e receberam água e ração ad libitum durante o
período experimental.
Os animais foram divididos aleatoriamente em 2 grupos:
GS (n = 5) – submetido à ciatalgia e tratamento placebo
(simulacro); GMN (n = 5) – submetido à ciatalgia e tratado
com mobilização neural.
O projeto foi conduzido segundo as normas internacionais
de ética em experimentação animal [12], sendo aprovado pelo
Comitê de Ética na Experimentação Animal e Aulas Práticas
da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste).
Protocolo de lesão experimental
Os animais foram anestesiados com ketamina (95 mg/
kg) e xilazina (12 mg/kg) intramuscular. Depois de feita
a tricotomia, realizou-se uma incisão paralela às fibras do
músculo bíceps femoral, da coxa direita do animal, expondo
o nervo isquiático. Seguindo o modelo de Bennett e Xie
[11], foi efetuada a compressão ao redor do nervo isquiático
em quatro regiões distintas, com distância aproximada de 1
mm, sendo utilizado fio catgut 4.0 cromado, reproduzindo
dor crônica no trajeto do mesmo, em seguida a sutura foi
realizada por planos.
Protocolos de tratamento
Materiais e métodos
Para a realização do protocolo de tratamento, os animais
eram sedados com éter etílico, e o tratamento procedido no
membro posterior direito, nos dois grupos.
No protocolo utilizado para o GMN, o animal era posicionado em decúbito dorsal, quadril flexionado a aproximadamente 70º, extensão máxima possível de joelho e dorsiflexão
de tornozelo até a sensação de resistência ao movimento,
então o tornozelo era passivamente movimentado em planti e
dorsiflexão, com aproximadamente 30 movimentos, durante
um minuto [13].
No GS o animal também era sedado e posicionado em
decúbito dorsal, porém apenas o quadril era mantido em
flexão de cerca de 70º, sendo deixados livres o joelho e tornozelo dos animais.
O tratamento iniciou no terceiro dia pós-compressão,
sendo realizadas cinco sessões seguidas, sempre no mesmo
horário, em dias subsequentes. No sexto dia, após o início
do tratamento, os animais sofreram eutanásia por meio de
decapitação em guilhotina. Então foi realizada a dissecação
dos músculos sóleos, de forma bilateral, para posterior análise
histomorfométrica.
Grupos experimentais
Análise histomorfométrica
Foram utilizados 10 ratos (Rattus norvergicus), da linhagem Wistar, machos, com idade de 13 ± 2 semanas, com
Após a dissecação e fixação dos sóleos, em formalina
10%, os mesmos foram emblocados em parafina e realizado
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
procedimento para confecção de lâminas histológicas, com
cortes transversais no ventre muscular.
Para realizar a análise dos músculos sóleos, optou-se por
verificar o diâmetro das fibras em sua menor porção, visto
que segundo Brito et al. [14] esta juntamente com a análise
de secção transversa e diâmetro médio são formas adequadas
de avaliar o grau de trofismo muscular. Para tal fim, foram
analisadas 100 fibras por músculo, utilizando-se o programa
Image-Pro-Plus 3.0.
Análise dos resultados
Os resultados foram expressos por meio da estatística
descritiva (média e desvio-padrão) e analisados pela estatística
inferencial, por meio do teste t de Student pareado, sendo
aceito o nível de significância de α = 0,05.
Resultados
Os resultados mostraram que para o grupo simulacro
havia diminuição significativa do menor diâmetro das fibras
musculares dos sóleos direitos comparados aos esquerdos (p
= 0,0051), com hipotrofia à direita (figura 1). Para o GMN
não houve diferença significativa ao comparar os grupos (p
= 0,3433).
Figura 1 - Avaliação das fibras musculares dos sóleos em seu menor
diâmetro, de acordo com os grupos (GS – grupo simulacro; GMN
– grupo mobilização neural) e o lado de análise (D – direito; E –
esquerdo).
40
*
*
30
20
10
0
GC D
GCE
GMNL
GMNL E
* Diferença significativa entre os lados direito e esquerdo.
Discussão
A dor lombar é frequentemente acompanhada de lesões
mielínicas, axonais ou axomielínicas, produzindo bloqueio
parcial na condução em nível radicular como consequência
da reação inflamatória [15]. Segundo Lihong et al. [16], a
dor neuropática, relacionada à lesão nervosa periférica, é
uma questão formidável para tratamento clínico, a qual é
frequentemente acompanhada por regeneração das fibras
15
nervosas lesadas. Além disso, a lesão nervosa periférica produz degeneração das fibras nervosas, produzindo hipotrofia
muscular [17].
Desta forma, no presente estudo objetivou-se avaliar
uma característica de regeneração nervosa do isquiático, que
é a atrofia muscular de fibras de sóleo. Esta síndrome, que
além de ter alta incidência e prevalência, produz alterações
álgicas e funcionais importantes que podem ser combatidas
com o tratamento conservador, numa técnica de mobilização
neural, que tem se mostrado vantajosa para a dor, advinda da
compressão nervosa [18,19].
Oliverira Junior et al. [9] relatam que o número de artigos e publicações a respeito da mobilização neural, ainda
é consideravelmente escasso. Porém, a ideia de aplicar um
tratamento mecânico para o tecido neural não é nova, pois
princípios e métodos de “alongamento nervoso” existiam
desde 1800 e com o tempo se tornaram mais refinados tanto
na teoria quanto na aplicação clínica [20].
Avaliar a técnica de mobilização neural, em um modelo
experimental de ciatalgia, que pela lesão produzida (neuropraxia) gera hipotrofia muscular, apresentou-se como uma
questão de interesse, pois existem para a técnica, na literatura,
indícios de êxito e falhas sobre processos lesivos de nervos
periféricos [7-9].
Segundo Hall et al. [21], como forma terapêutica para
lesões nervosas, indicam-se movimentos oscilatórios gentis
nas estruturas anatômicas envolvidas ao redor dos tecidos
nervosos afetados. Kobayashi et al. [22] avaliando alterações
no fluxo sanguíneo com o teste de elevação da perna retificada,
em 12 pacientes, antes e após microdiscectomia, observaram
que durante o teste havia redução do fluxo. Citam que as
adesões causadas por reações inflamatórias entre a lesão e a
raiz nervosa, poderiam reduzir a mobilidade do nervo durante
o movimento dos membros, direcionando a alterações no
fluxo com subsequente hipóxia, edema e desmielinização.
O que acarretariam em alterações tanto sensitivas quanto
tróficas musculares e do Sistema Nervoso Autônomo. Alterações tróficas musculares foram observadas no modelo de
lesão aqui utilizado, visto que para o grupo controle, havia
diminuição significativa do diâmetro das fibras musculares,
quando comparado com o lado sadio.
Kikukawa et al. [23] investigaram as alterações agudas no
citoesqueleto axonal após alongamento moderado (2 N), por
1 hora, em nervos do plexo braquial de ratos. Relatam que
os microtúbulos eram despolimerizados pelo alongamento,
o que pode levar a implicações no transporte axonal do nervo. Sendo assim, com o fluxo axonal normalizado, a função
nervosa poderia também sê-lo, e sequelas musculares, como
a hipotrofia, poderiam ser debeladas.
No presente estudo, para o grupo mobilização neural,
havia melhora do trofismo muscular, indicado pela comparação entre o membro lesado e o não lesado, quanto ao
menor diâmetro analisado, que é, segundo Brito et al. [14],
uma medida adequada para avaliar trofismo muscular. Para o
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
grupo simulacro havia diferença significativa nos diâmetros,
indicando que o modelo de lesão produziu alteração no trofismo muscular ao comparar com o lado sem lesão.
Para Elvey [24], qualquer processo inflamatório, afetando
uma raiz nervosa, pode conduzir ao desenvolvimento de um
tecido fibroso, causando adesões, que resultam em disfunção
de sua mobilidade relativa, além de torná-la intensamente
sensível e dolorida ao movimento. Portanto, este seria o
motivo do nervo ser tratado com movimento passivo, contudo, o efeito terapêutico é explicado apenas em termos de
generalizações, como a prevenção na formação de adesões
ao redor do nervo, na redução de edema e direcionamento
a uma resposta de variações de pressão fisiológica benéfica.
Segundo Cleland et al. [25], especula-se que se a etiologia
dos sintomas forem originados de edema intraneural, as alterações na pressão intraneural, que acompanham a mobilização
neural, podem ser suficientes para dispersar o edema, então
aliviando a hipóxia e reduzindo os sintomas associados.
Salienta-se que os resultados obtidos limitam-se pela falta
de observação de efeitos diretos no ciático e pelo modelo utilizado no estudo (ratos). Porém, visto que o modelo de lesão
utilizado reproduz a sintomatologia de uma neuropraxia [11],
o modelo de avaliação é útil para predizer alterações provindas
de lesão nervosa periférica.
Conclusão
Visto que a terapêutica adaptada para os membros posteriores dos animais foi viável, conclui-se que a mobilização
neural, como forma de terapia, foi eficaz na redução da hipotrofia, provinda de uma neuropraxia nos animais.
Agradecimentos
Ao Hospital Universitário do Oeste (HUOP) do Paraná e
à Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE),
pelo financiamento parcial do projeto.
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
17
Artigo original
Percepção subjetiva da qualidade de vida de usuários
de computadores após 12 sessões de ginástica laboral
Subjective perception of quality of life of computer users after 15
sessions of labor gymnastics
Thiago Medeiros da Costa Daniele*, George Lacerda de Souza**, Pedro Bezerra Souza Neto***
*Graduado em Educação Física pela Universidade Federal do Ceará e mestrando em Ciências Médicas pela Universidade Federal
do Ceará (UFC), **Graduado em Educação física pela Universidade Estadual do Ceará e especialista em nutrição esportiva pela
Universidade Estadual do Ceará (UECE),***Graduado em Letras pela Universidade Estadual do Ceará (UECE)
Resumo
Objetivo: Avaliar a evolução da percepção da qualidade de vida
geral após a aplicação de 12 sessões de ginástica laboral. Material e
métodos: Foram aplicadas quatro sessões de ginástica laboral, duas
vezes por semana, com o intuito de mobilizar os funcionários de
uma empresa em Fortaleza/CE e adaptá-los aos horários. Na quinta
sessão foi aplicado o questionário de qualidade de vida SF-36 em
todos os participantes. Resultados: Foram analisados 16 voluntários,
12 do sexo feminino e 4 do sexo masculino. A idade média dos
funcionários era de 24,8 anos ± 3,4. O tempo médio de trabalho
foi de 14,13 ± 14,65 meses. A capacidade funcional se mostrou
melhor estatisticamente significante após a intervenção (p < 0,05).
Os outros subitens apresentaram tendências positivas, com exceção
da percepção à dor, que houve uma aparente piora comparada com
o início do treino. Conclusão: Podemos comprovar que duas sessões
por semana trouxeram bons resultados aos envolvidos com a prática
regular desses exercícios.
Abstract
Objective: To evaluate the perception of overall quality of life
after 12 sessions of labor gymnastics. Methods: The study was conducted in a computer company in Fortaleza, Ceara. Four sessions of
labor gymnastics, twice a week, were performed aiming to mobilize
the employees and to adequate the schedule. On the fifth session,
we applied the quality of life questionnaire SF-36 in all participants.
Results: We studied 16 volunteers, 12 females and 4 males. The
average age of employees was 24.8 years ± 3.4. The women were
25 ± 1.0 years old and men were 24.25 ± 1.3 years old. The average
working hours was 14.1 ± 14.6 months. Functional capacity showed
statistically significant increase after intervention (P < 0.05). The
other sub-items showed positive trends, except perception of pain,
which there was an apparent worsening compared with the beginning of training. Conclusion: We noticed that participants achieve
good results with two sessions of regular exercises.
Key-words: Ergonomics, labor gymnastics, quality of life.
Palavras-chave: Ergonomia, ginástica laboral, qualidade de vida.
Recebido em 17 de outubro de 2011; aceito em 03 de janeiro de 2012.
Endereço de correspondência: Thiago Medeiros da Costa Daniele, Departamento de Medicina, Universidade Federal do Ceará, Rua
Prof. Costa Mendes, 1608, 4º Andar, 60430-040 Fortaleza CE, E-mail: [email protected]
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
Introdução
As tecnologias de informação trouxeram com o processo
industrial complicações em nível físico e psicológico. Esse
efeito negativo, aliado ao sedentarismo, criou um termo capaz
de expressar o quadro atual das pessoas que sofrem com a modernização: o tecnoestresse, termo primeiramente utilizado,
em 1984, pelo psicoterapeuta e psiquiatra norte americano
Craig Brod. Ele o define como uma enfermidade resultante da
falta de habilidade para trabalhar com as novas tecnologias de
uma forma saudável [1], levando ao estresse ocupacional que
pode estar relacionado com a carga de trabalho [2].
Segundo Santos e Martendal apud Jex [2], este problema é entendido através de três aspectos. O primeiro é
relativo ao estresse ocupacional, sendo o contexto organizacional o responsável pelas exigências adaptativas do
trabalhador, chamado assim de estressor organizacional. O
segundo se relaciona com as respostas psicológicas, comportamentais e fisiológicas dos trabalhadores ao estresse
organizacional. Por fim, há a resposta ao estímulo estressor,
ou seja, o impacto nos trabalhadores causado pelo estresse
organizacional.
Diversas estratégias estão sendo criadas a fim de levar um
maior bem-estar aos trabalhadores, mudando consistentemente seus maus hábitos de vida como: inatividade física,
tabagismo e alimentação inadequada. Segundo a ANVISA
(Agência Nacional de Vigilância Sanitária), a ginástica laboral
é realizada por meio de exercícios físicos que, aliados a técnicas de respiração e relaxamento, são capazes de levar a uma
melhora do estado psicológico e fisiológico dos funcionários
que utilizam computadores [7].
Apesar disso, as prevalências de problemas de saúde como
dores músculo-articulares, característicos da profissão, podem
remeter a uma maior vulnerabilidade dessa população a problemas de saúde geral. Um estudo colombiano [8] mostrou
que a inatividade física aumenta a frequência e a duração de
absentismo que tem implicações negativas para o trabalhador,
para a empresa e para a sociedade, e afirma que programas de
promoção da atividade física no trabalho são propostos como
uma opção estratégica em saúde ocupacional.
A partir dessas considerações, realizou-se um estudo
exploratório e prospectivo com um grupo de funcionários
que utilizam prioritariamente o computador como meio de
trabalho, buscando identificar a frequência das variáveis da
percepção da qualidade de vida em geral.
Material e métodos
Trata-se de um estudo descritivo e prospectivo contendo, a
princípio, 20 voluntários. Deste total, quatro foram excluídos
por permanecerem afastados por três sessões consecutivas,
resultando em um conjunto final de 16 funcionários. O
estudo foi realizado em uma empresa localizada na cidade
de Fortaleza, Ceará.
Foram incluídos voluntários de ambos os sexos com idades
entre 20 e 40 anos que permanecem sentados por pelo menos seis horas por dia e que utilizavam o computador como
instrumento de trabalho. Foram excluídos aqueles que não
realizaram cinco sessões consecutivas e que estavam fora da
faixa etária de inclusão.
O procedimento foi realizado em 10 semanas. Na primeira
semana, os funcionários foram instruídos com explicações
sobre lesões por esforços repetitivos, sedentarismo e sobre
a ginástica laboral. Na segunda semana, foram ministradas
sessões de ginástica laboral com o intuito de mobilizar os funcionários e adaptá-los aos horários. Na terceira, foi aplicado
um questionário de qualidade de vida em 20 funcionários,
treze do sexo feminino e sete do sexo masculino. E na décima,
após 12 sessões de ginástica laboral, o mesmo questionário foi
reaplicado. As sessões duraram 20 minutos e foram realizadas
duas vezes por semana
Para análise da percepção de qualidade de vida dos funcionários, utilizou-se o Questionário de Qualidade de Vida
SF-36, por ser de fácil administração e compreensão do
tipo autoaplicável. O SF-36 é uma versão em português do
Medical Outcomes Study 36 – Item Short Form Health Survey,
traduzido e validado por Ciconelli et al. [3]. Estudos realizados
no Brasil mostraram a viabilidade e a confiabilidade desse
questionário [4,5].
Os participantes assinaram um termo de consentimento
para a autorização da utilização dos dados de forma sigilosa com finalidade de pesquisa científica. Este projeto foi
submetido à avaliação do Comitê de Ética em Pesquisa da
Universidade Federal do Ceará (CEP 031-04-09).
Análise estatística
A eficiência do treinamento foi avaliada pelo teste T de
Student para amostras emparelhadas. O valor de P < 0,05 foi
aceito como significante. Os dados foram apresentados como
média ± desvio padrão e número de participantes com sua
respectiva percentagem. Os dados foram submetidos a um
pacote do programa de estatística SPSS for Windows.
Resultados
Foram analisados 16 voluntários, 12 do sexo feminino
(75%) e 4 do sexo masculino (25%). A idade média dos funcionários era de 24,81 anos ± 3,43. A idade das mulheres foi
de 25 ± 1.0 e dos homens foi de 24,25 ± 1,3. O tempo médio
de trabalho foi de 14,13 ± 14,65 meses. Quatro participantes
foram excluídos do estudo, dois funcionários tiveram férias
e dois deixaram de realizar 3 sessões consecutivas. O tempo
de trabalho variou de três meses, valor mínimo, e 48 meses,
valor máximo. A média foi de 14 meses ± 14,65 executando
a atual função. Os resultados dos subitens do SF-36 estão
apresentados na Tabela I.
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
Tabela I - Percepção subjetiva dos subitens do SF-36.
Variáveis
Capacidade funcional
Limitações físicas
Dor
Estado geral de saúde
Vitalidade
Aspectos socias
Limitações por aspectos emocionais
Saúde mental
Início
76,56
84,38
67,44
58,71
63,75
72,65
73,24
Final
84,69
82,.81
64,25
63,71
69,37
79,17
72,91
70,00
74,25
P value
< 0,05*
0,73
0,07
0,6
0,3
0,1
0,2
0,4
*P < 0,05.
A Figura I expõe as médias de cada um dos subitens do
SF-36. Todos os itens analisados apresentaram melhoras,
com exceção da percepção à dor, que houve uma aparente
piora comparada com o início do treino. A capacidade funcional se mostrou melhor estatisticamente significante após
a intervenção (P < 0,05). Os outros subitens apresentaram
tendências positivas. As médias variaram entre 63 e 85 pontos,
mostrando que todos os participantes possuíam bons índices
para os subitens da qualidade de vida analisados.
Figura I - Relação entre as médias dos participantes antes e após
a intervenção.
90.00
80.00
70.00
60.00
50.00
40.00
30.00
20.00
10.00
0.00
presente estudo não se preocupou com a intensidade dos exercícios, visto que o objetivo foi o de realizar uma compensação
funcional como a melhora da circulação e do alongamento
nos grandes grupamentos musculares.
A qualidade de vida dos sujeitos melhorou principalmente
a capacidade funcional, que é a capacidade do indivíduo em
realizar as atividades da vida diária [11], mostrando que o dia
a dia pode ser melhorado com a prática regular da ginástica
laboral.
A sociabilização entre os funcionários, analisado pelo
subitem aspectos sociais, mostrou uma tendência positiva (p
= 0,1). Já no que diz respeito aos aspectos emocionais não
foi observada relevância com a ginástica laboral no presente
estudo. Podemos concluir assim que os funcionários puderam
melhor se relacionar após o início das intervenções.
Com relação à saúde mental houve ganho significativo.
Segundo Heloani et al. [12] o trabalho na atualidade e suas
exigências geram pressões que afetam o corpo físico e o
campo mental. Em nosso estudo a população apresentou
melhoras, porém o resultado não foi estatisticamente significante.
A percepção à dor foi o único item que houve redução
no final da intervenção, talvez devido ao número reduzido de
sessões, que foram de duas vezes por semana, em comparação
com a carga horária dos funcionários, que é de oito horas por
dia, seis vezes por semana.
ad
e
Lim fun
cio
ita
na
çõ
l
es
fís
Es
ica
ta
s
do
ge
Do
ra
r
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se
is
m
oc
i
o
Sa
na
úd
is
e
m
en
ta
l
Conclusão
id
ac
ap
C
19
Início
Final
Discussão
A literatura cientifica mostra os benefícios dos exercícios
físicos compensatórios no ambiente de trabalho [9], teoria
esta que foi comprovada pelo nosso trabalho. A incorporação
dos exercícios no dia a dia dos funcionários foi o principal
valor do estudo, pois a grande maioria era sedentária e, a pesar
de todos serem jovens (idade média de 24 anos), a falta de
disponibilidade de tempo para a prática de exercícios fora da
empresa foi de 65% da população.
A pesar de a intensidade ser proporcional aos efeitos tanto
metabólicos como cardiovasculares, como frequência cardíaca
e modulação de quimiorreceptores, a alteração da liberação de
catecolaminas afeta todo o sistema nervoso simpático [10]. O
Os dados deste estudo demonstraram que as sessões de
ginástica laboral aplicada em funcionários com uma carga
horária de 8 horas por dia, 6 vezes na semana, mostrou-se
eficiente na melhora da capacidade funcional.
Demonstrou-se que com a implantação de um programa
de exercícios em empresas os funcionários conseguem melhor se socializar (aspectos sociais positivos) e têm percepção
benéfica de sua saúde geral.
No que diz respeito à saúde mental e à vitalidade, as pontuações dos subitens analisados apresentaram-se benéficas na
população estudada.
Podemos comprovar que duas sessões por semana trouxeram bons resultados aos envolvidos com a prática regular
desses exercícios, porém sugere-se que mais estudos sejam
realizados envolvendo funcionários que realizam pouca ou
nenhuma atividade física no seu trabalho e os seus aspectos
associados.
Referências
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y daños físicos de satisfacción laboral. Acta Colom Psicol
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um trabalhador da saúde. Psicol Argum 2008;26(55):281-92.
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
3. Ciconelli RM, Ferraz MB, Santos W, Meinão I, Quaresma MR.
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care. Ann Fam Med 2009;7(6):504-12.
7. Brasil. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância
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8. Martínez-López E, Saldarriaga- Franco JF. Inactividad física y ausentismo en el ámbito laboral. Rev Salud Pública
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Respostas cardiovasculares agudas no treinamento de força
conduzido em exercicios para grandes e pequenos grupos musculares. Rev Bras Med Esporte 2007; 13(2):118-22.
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2005 p. 29-32.
12. Heloani JR, Capitão CG. Saúde mental e psicologia no trabalho.
São Paulo em Perspectiva 2003;17(2):102-8.
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
21
Artigo original
Avaliação dos fatores de risco cardiovascular de idosos
participantes de grupo de convivência da terceira idade
do município de São Miguel do Oeste/SC
Evaluation of cardiovascular risk factors in participants of an elderly
association in São Miguel do Oeste/SC
Nelí Maziero*, Everton Boff, M.Sc.**, Sandro Claro Pedrozo***
*Acadêmica de Biomedicina da Universidade do Oeste de Santa Catarina, São Miguel do Oeste/SC, **Professor da Universidade
do Oeste de Santa Catarina, São Miguel do Oeste/SC, ***Professor do curso de Educação Física da Universidade do Oeste de Santa
Catarina, São Miguel do Oeste/SC, Especialista em Educação Física com área de concentração em Treinamento desportivo pela Universidade do Oeste de Santa Catarina, São Miguel do Oeste/SC
Resumo
O objetivo deste estudo foi investigar os fatores de risco para
doenças cardiovasculares, relacionados ou não com dislipidemias
e características antropométricas de uma população de idosos do
município de São Miguel do Oeste/SC. A amostra foi composta por
57 indivíduos (≥ 60 anos) de ambos os gêneros. Foram realizadas
avaliações para identificar indicadores de gordura corporal (IMC,
RCQ, CC), verificar o perfil lipídico (colesterol total e triglicerídeos), pressão arterial (PA) e risco coronariano. Para a análise dos
dados, utilizou-se a estatística descritiva e o teste t de student para
amostras independentes. O programa utilizado foi SPSS 13.0 e o
nível de significância foi de P ≤ 0,05. Em relação aos fatores de risco
cardiovascular prevaleceram: sedentarismo (82,4%), seguido por
RCQ altos (64,9%), CC aumentada (56,1%) e hipertensão arterial
sistêmica (49,1%). As mulheres apresentaram maior prevalência de
obesidade (75,0%), RCQ alto (72,9%) e CC aumentada (71,8%).
Também foram identificados, para as mulheres ≥ 70 anos, valores
médios acima dos recomendados nas variáveis IMC (29,37 ± 7,65),
CC (98,50 ± 16,44) e RCQ (0,93 ± 0,08). Ao comparar os gêneros,
foram constatadas diferenças significativas nas variáveis RCQ (P =
0,049) e PA diastólica (70 anos ou mais: P = 0,016). Ao comparar as
idades de < 70 anos e ≥70 anos, os valores médios do perfil lipídico
não extrapolaram os valores de referência, apesar de serem observadas
diferenças significativas (P = 0,008) nos triglicerídeos dos homens.
Conclui-se então, que idosos do sexo feminino estão mais vulneráveis ao desenvolvimento das doenças cardiovasculares. O controle
de fatores de risco contribui para diminuir a morbimortalidade
em idosos e, consequentemente, melhorar a sua qualidade de vida.
Abstract
The objective of this study was to investigate the risk factors
for cardiovascular disease, related or not with dyslipidemia and
anthropometric characteristics of an elderly population in São
Miguel do Oeste/SC. The sample included 57 individuals (≥ 60
years) of both genders. Evaluations were carried out to identify
indicators of body fat (BMI, WHR, WC), the lipid profile (total
cholesterol and triglycerides), blood pressure (BP) and coronary
risk. For data analysis, we used descriptive statistics and Student’s
t test for independent samples. The software used was SPSS 13.0
and significance level was P ≤ 0.05. In relation to cardiovascular
risk factors prevailed: sedentary (82.4%), followed by high WHR
(64.9%), CC increased (56.1%) and hypertension (49.1%). Women
had a higher prevalence of obesity (75.0%), high WHR (72.9%)
and CC increased (71.8%). Were also identified, for women ≥ 70
years, average values f​​ or the variables above the recommended BMI
(29.37 ± 7.65), CC (98.50 ± 16.44) and WHR (0.93 ± 0.08). When
comparing genders, significant differences were found in variables
WHR (P = 0.049) and diastolic BP (70 years or more: P = 0.016).
By comparing the ages of < 70 and ≥ 70 years, the mean values ​​of
lipid profile is not extrapolated reference values​​, although significant
differences (P = 0.008) in triglycerides of men. Was concluded that
older women are more vulnerable to the development of cardiovascular disease. The control of risk factors contributes to reduce
morbidity and mortality in elderly patients and thereby improve
their quality of life.
Key-words: risk factors, cardiovascular disease, elderly,
anthropometric characteristics.
Palavras-chave: fatores de risco, doenças cardiovasculares,
idosos, características antropométricas.
Recebido em 24 de novembro de 2011; aceito em 12 de janeiro de 2012.
Endereço para correspondência: Nelí Maziero, Linha Santo Expedito, BR 282, SN - 89910-000 Descanso SC, E-mail: [email protected]
hotmail.com
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
Introdução
Com o fenômeno de envelhecimento populacional observado neste último século, aumenta, cada vez mais, a necessidade
de conhecimento dos fatores que incidem sobre a prevalência
das doenças crônico-degenerativas associadas à idade [1].
Segundo Pereira et al. [2], o envelhecimento reforça a importância de manter a saúde e autonomia. O avançar da idade, por
si só, aumenta o risco de doenças crônicas, com destaque para as
cardiovasculares. Entretanto, o desenvolvimento dessas doenças
acomete diferencialmente os indivíduos, com menor frequência e
gravidade naqueles com trajetória e cotidiano mais saudáveis [2].
Estudos delineados para avaliar a importância de fatores de
risco (FR) para doença coronariana demonstraram que nove
FR corresponderam a mais de 90% do risco atribuível para
infarto do miocárdio. De modo surpreendente, tabagismo e
dislipidemia compreenderam mais de dois terços deste risco
e, obesidade central, diabetes mellitus (DM) e hipertensão
arterial (HAS) estavam significativamente associados, mesmo
com diferenças relativas nas diferentes regiões estudadas [3].
É necessário conhecer a prevalência desses fatores de risco,
isolados ou combinados, pois é através de sua redução, com
programas de prevenção primária e secundária, que objetivaremos a efetividade de qualquer programa de saúde [4].
Em função do aumento da população idosa, da necessidade de estudos com essa população e da possibilidade de
intervenção nos fatores de risco, optou-se pela realização
deste trabalho, que tem por objetivo avaliar os fatores de
risco para doenças cardiovasculares relacionados ou não com
dislipidemias, em uma população de idosos do município de
São Miguel do Oeste, Santa Catarina.
Material e métodos
A população foi constituída por 57 idosos, com idade ≥
60 anos, de ambos os gêneros, participantes do Grupo de
Terceira idade do Bairro Agostini, residentes em São Miguel
do Oeste - Santa Catarina, selecionada de forma intencional
e voluntária.
Este estudo foi submetido à avaliação do Comitê de Ética
em Pesquisa de Joaçaba e aprovado pelo parecer 066/2011
e CAAE: 0067.0.151.000-11, sendo respeitadas as diretrizes
regulamentadoras da pesquisa envolvendo seres humanos.
Foram analisados os seguintes fatores de risco: HAS, hipercolesterolemia, hipertrigliceridemia, obesidade, tabagismo,
sedentarismo, história familiar, circunferência de cintura
(CC), razão cintura-quadril (RCQ), gênero e idade.
As medidas antropométricas foram realizadas no Laboratório de Fisiologia do Esforço e as coletas sanguíneas no
Laboratório de Hematologia Clínica, ambos na UNOESC,
campus de São Miguel do Oeste.
A obesidade foi verificada pelo IMC. De acordo com a
OMS [5], valores de IMC entre 18,5 e 24,9 são considerados
normais, entre 25,0 e 29,9 indicam sobrepeso e valores ≥30 kg/
m2 apontam presença de obesidade. O sedentarismo foi identificado por meio daqueles que não praticavam atividade física
ou praticavam menos que 3X por semana, durante, pelo menos,
30 minutos por dia de forma contínua ou acumulada [6].
A pressão arterial foi verificada três vezes em cada participante, por meio de um esfigmomanômetro aneróide e
um estetoscópio, com intervalos mínimos de três minutos,
sendo que as médias individuais das pressões aferidas foram
utilizadas [6].
Valores de PA ≥ 140/90 mmHg foram considerados positivos para HAS e pessoas com valores de pressão abaixo desses
níveis, mas que referiam uso de drogas anti-hipertensivas,
também foram consideradas hipertensas [6].
Para o procedimento de coleta de sangue os idosos foram
orientados a estar em jejum de 8 a 12 horas. A coleta de sangue foi realizada por punção venosa na veia mediana cubital
em seringas de 10 ml da marca BD® e a agulha utilizada foi
25X7 também da marca BD® e distribuído em um tubo sem
anticoagulante. Lembrando que cada tubo foi identificado
com o nome do paciente e número geral de identificação.
Utilizaram-se kits da marca Labtest Diagnóstica® em protocolos específicos para sua determinação em equipamento
semi-automatizado da marca Bioplus®.
As análises de colesterol total (CT) e triglicerídeos (TG)
foram realizadas pelo método colorimétrico enzimático. O
HDL-C foi separado pela precipitação de LDL-C, utilizando
o método de precipitação de dextrano e cloreto de magnésio.
O LDL foi estimado pela fórmula de Friedewald (LDL-C =
CT – VLDL – HDL).
A classificação dos valores de referência para CT, TG,
LDL-C e HDL-C correspondeu aos critérios das IV Diretrizes
Brasileiras sobre Dislipidemias (7): CT ≥ 240mg/dl ou HDL-c ≤ 40 mg/dl ou LDL-C ≥ 160 mg/dl ou TG ≥ 200 mg/dl.
A avaliação do risco cardiovascular foi realizada com base
no Escore de Framingham [7], baseado em valores numéricos
de acordo com o risco atribuível aos valores da idade, PA,
colesterol total, HDL-colesterol, tabagismo e diabetes mellitus [8]. Cada escore obtido corresponde a um percentual da
probabilidade de ocorrência de um evento cardiovascular nos
próximos dez anos. Assim, indivíduos de baixo risco teriam
uma probabilidade menor que 10%; médio risco, entre 10%
e 20% e alto risco, igual ou maior que 20% [9].
Para a análise dos dados utilizou-se o programa estatístico
computacional (SPSS) versão 13.0. O procedimento estatístico utilizado foi estatística descritiva (média, desvio padrão
e análise de frequência) e o teste t de student para amostra
independente, no intuito de caracterizar a amostra e comparar
gênero e idade.
Resultados
A população constituinte deste estudo apresentou idade
média de 69,83 ± 5,88 anos, faixa etária predominante de
70-79 anos (48,28%) e do sexo feminino (59,6%).
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
O fator de risco mais prevalente foi o sedentarismo
(82,4%), seguido pelas características antropométricas: RCQ
(64,9%) e CC (56,1%) aumentados e HAS (49,1%). A prevalência dos fatores de risco pode ser visualizada na Figura 1.
Figura 1 - Fatores de risco mais prevalentes na amostra estudada.
90,0%
80,0%
70,0%
60,0%
50,0%
40,0%
30,0%
20,0%
10,0%
0,0%
82,4%
64,9%
56,1%
Nosso estudo ainda apresenta resultados estatisticamente
significativos quando comparada PAD de idosos com ≥70
anos em relação ao gênero (p = 0,016). Sendo que para a
variável de PAS não ocorreu significância, embora se notasse
um aumento nos valores das mulheres quando se comparam
os gêneros – Tabela I.
Tabela II - Comparação da média e desvio padrão dos grupos com
idade abaixo de 70 anos e com 70 anos ou mais do gênero masculino.
49,1%
Gênero Masculino
< 70 anos (n
70 anos ou +
= 15)
(n = 09)
Média ± DP
Média ± DP
26,90 ± 4,14
26,54 ± 4,34
28,1%
10,5%
Sedentarismo RCQ
CC
23
HAS Obesidade Dislipidemia
Os resultados apontam que houve maior percentual de
risco em idosos do sexo feminino com 70-79 anos. Em relação
à classificação de CC observou-se índice de alto risco entre
idosos de 70-79 anos (57,1%). Quanto à classificação de
IMC, constatou-se prevalência de obesidade nos idosos com
60-69 anos (37,0%).
Tabela I - Comparação da média e desvio padrão dos grupos do
gênero masculino com 70 anos ou mais.
Grupo 70 anos ou +
Masculino
Feminino
(n = 9)
(n = 18)
Média ± DP
Média ± DP
26,54 ± 4,34
29,37 ± 7,65
P
0,316
IMC (kg/m2)
RCQ (cintura/
0,91 ± 0,06
0,93 ± 0,08
0,049*
quadril)
CC (cm)
94,00 ± 10,02 98,50 ± 16,44 0,169
PAS (mmHg)
138,89 ± 11,67 143,89 ± 19,74 0,492
PAD (mmHg)
74,44 ± 5,27
84,45 ± 10,97 0,016*
Colesterol
180,56 ± 29,67 191,62 ± 30,06 0,374
(mg/dl)
Triglicerídeos
141,22 ± 46,56 127,83 ± 67,65 0,600
(mg/dl)
*P ≤ 0,05
No que concerne à comparação entre os sexos, evidenciou-se que as mulheres apresentaram maior prevalência de obesidade (75,0%), RCQ (72,9%) e de CC (71,8%) com risco
alto, do que os homens.
Na Tabela I podemos observar uma prevalência de sobrepeso no gênero feminino com ≥ 70 anos (29,37 ± 7,65).
Para a CC e RCQ foram identificados valores médios acima
dos recomendados para o gênero feminino, principalmente
para as idosas com ≥70 anos (98,50 ± 16,44 e 0,93 ± 0,08),
enquanto que nos homens os valores médios não extrapolaram os recomendados (94,00 ± 10,02 e 0,91 ± 0,06), com
diferença estatisticamente significativa entre os gêneros para
a variável de RCQ (p = 0,049).
P
0,839
IMC (kg/m2)
RCQ (cintura/
0,92 ± 0,05
0,91 ± 0,06
0,116
quadril)
CC (cm)
95,33 ± 10,29 94,00 ± 10,02 0,228
PAS (mmHg)
127,33 ± 18,69 138,89 ± 11,67 0,111
PAD (mmHg)
76,67 ± 8,99
74,44 ± 5,27
0,509
Colesterol
179,80 ± 38,53 180,56 ± 29,67 0,960
(mg/dl)
Triglicerídeos
94,73 ± 31,72 141,22 ± 46,56 0,008*
(mg/dl)
*P ≤ 0,05
Na avaliação dos parâmetros laboratoriais, os valores
médios do perfil lipídico – CT e TG – não apresentaram
alterações em relação aos referenciais, observando-se, porém,
que para TG houve significância estatística para idosos do
gênero masculino quando comparados em relação à idade <
70 anos e ≥ 70 anos (p = 0,008) (Tabela II).
No que se refere ao questionário de risco coronariano,
houve maior proporção de risco moderado tanto entre as
mulheres (70,5%) quanto entre os homens (65,2%).
Em uma análise sobre o número de FR por idoso, observou-se que a maioria possuía quatro FR, seguida daqueles
que possuíam dois. Dos 57 idosos, 71,9% apresentavam de
dois a quatro. Esses dados estão demonstrados na figura 2.
Figura 2 - Número de fatores de risco (FR) por idoso participante.
30,0%
26,3%
24,5%
25,0%
21,0%
20,0%
14,0%
15,0% 12,2%
10,0%
5,0%
0,0% 1,7%
0,0%
1 FR 2 FR 3 FR 4 FR 5 FR 6 FR 7 FR
Em relação ao gênero, observou-se prevalência de homens,
com até um fator de risco, e de mulheres entre os idosos, com
três ou mais fatores de risco (Figura 3).
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
24
Figura 3 - Distribuição dos casos segundo o número de fator de
risco e gênero.
24
25
18
20
14
15
10
5
0
5
7
7 7
2
12
5
7
6
1 FR
2 FR
3 FR
4 FR ou mais
Feminino
Total
Masculino
Em relação à avaliação de risco cardiovascular em dez anos
através do Escore de Framingham, pôde-se observar uma baixa
prevalência DAC nos 57 indivíduos analisados, já que 60,34%
encontravam-se em grupos de baixo risco, 29,31% em médio
risco e apenas 8,62% em alto risco. Entretanto, esse quadro
inicialmente favorável não se confirmou quando relacionado
ao questionário de Avaliação do Risco Coronariano, pois neste
cálculo 29,31% e 67,24% dos pacientes apresentaram risco
médio e moderado para doença cardíaca, respectivamente.
Figura 4 - Percentual de risco para DAC segundo o Escore de
Framingham.
45,6%
38,6%
50,0%
40,0%
30,0%
20,0%
10,0%
0,0%
7,0%
35,1%
19,3%
15,8%
17,5% 19,3%
1,8%
Risco baixo
Masculino
Risco médio
Feminino
Risco alto
Total
Discussão
O aumento no número de idosos instiga o desenvolvimento de estratégias que possam minimizar os efeitos negativos
do avanço da idade cronológica no organismo.
Demonstrou-se com este estudo que o fator de risco
mais prevalente foi o sedentarismo, seguido de RCQ e CC
aumentados, HAS e obesidade.
Apesar de o critério para se considerar o idoso como
sedentário ter sido bastante complacente, este foi o mais
prevalente dos fatores de risco cardiovascular (82,4%) nessa
população de gerontes. Sendo esse um fator de risco para
doença coronária comparável a hipertensão, hipercolesterolemia, e tabagismo [10].
De forma similar, Gus et al. [4] encontraram resultados
aproximados apontando índice de sedentarismo de 71,3%
na população estudada. Corroborando, Feijó et al. [11]
averiguaram que o sedentarismo também foi o fator de risco
mais prevalente (75%) em estudo com pacientes admitidos
em unidade de hemodinâmica, objetivando rastrear os fatores
de risco para DAC nesses indivíduos.
Quanto aos níveis pressóricos, 49,1% dos idosos (47,8%
masculino e 29,8% feminino) apresentavam PA ≥ 140 x 90
mmHg. Resultado que se assemelha ao encontrado por Taddei et al. [12], apresentando PA elevada em 53% dos casos,
confirmando que a prevalência de hipertensão entre os idosos
é preocupante.
De forma similar, pesquisa realizada por Mendonça et al.
[13] avaliou idosos de um parque de São Paulo, descrevendo
o risco cardiovascular e a condição física, identificando a presença de hipertensão arterial em 52% da população idosa estudada, valor condizente com o encontrado em nosso estudo.
Estima-se que a explicação para o número expressivo de
hipertensos encontrado deve-se a uma média de idade mais
elevada. A isso se soma o elevado percentual de sedentários,
o que contribui substancialmente para o controle inadequado
da PA.
Quando analisamos os dados antropométricos, notamos
uma nítida prevalência de sobrepeso, 38,6% (17,5% masculino e 21,1% feminino) e de obesidade, 28,1% (7,0%
masculino e 21,1% feminino), de acordo com a classificação
da OMS [5] para IMC, conferindo ao grupo feminino uma
maior prevalência deste fator de risco. Essa mesma tendência
foi observada para CC, parâmetro relativo à gordura visceral,
sendo que 40,4% das mulheres e 15,8% dos homens apresentavam CC ≥ 88 e ≥102 cm e, sobretudo, para o RCQ,
em que notamos que 64,9% de todo o grupo apresentava
RCQ alterada e de alto risco, 17,5% dos homens e 47,4%
das mulheres.
Santos et al. [14] também observaram maior proporção de
sobrepeso e de inadequação da distribuição de gordura entre
as mulheres. RCQ e CC das idosas apresentaram aproximadamente o dobro dos escores encontrados entre os homens.
Analisando fatores de risco coronarianos em idosas, Guimarães et al. [15] observaram que 12,5% da amostra apresentou sobrepeso e 29,2% obesidade, resultados semelhantes
aos encontrados em nosso estudo. Nesse mesmo trabalho foi
verificado RCQ de alto risco em 54,2% das idosas indicando
risco muito alto para desenvolvimento de doenças cardiovasculares. O risco cardiovascular, conforme a CC, esteve
presente em 70,8% das idosas, as quais apresentaram risco
muito aumentado, resultados condizentes com o da amostra
atual deste estudo.
Estudo realizado por Pitanga et al. [16] afirma que os
homens com CC elevado e IMC baixo representam um grupo de maior risco propenso ao desenvolvimento patologias
cardiovasculares. Ficando aparente que quanto menor a massa
corporal maior a chance de acúmulo central de gordura na
população estudada.
A prevalência de obesidade encontrada justifica-se pela
relação direta entre obesidade e inatividade física, acarretando maiores riscos para o desenvolvimento e a progressão das
doenças cardiovasculares.
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
Quanto ao perfil lipídico, na determinação do CT, 3,5% e
7,0% apresentavam níveis elevados (≥ 240 mg/dl); na dosagem
do HDL-C, 12,3% e 5,3% apresentavam níveis abaixo do
recomendado (< 40 mg/dl); na determinação do LDL-C, apenas 5,3% das mulheres apresentavam dosagens aumentadas (≥
160 mg/dl); nos valores de TG, também 5,3% das mulheres
apresentavam níveis aumentados (> 200 mg/dl), todos os
dados acima para homens e mulheres, respectivamente [7].
Estudo realizado recentemente sobre a população do Rio
Grande do Sul obteve os achados de que a dislipidemia representava 5,6% entre os fatores analisados [4]. Na presente
investigação, a avaliação dessa variável foi equivalente, possivelmente em função da obtenção de informações quanto ao
perfil lipídico, através das dosagens de CT e TG por meio de
análise laboratorial, método bastante confiável.
Rosini et al. [3], investigando a prevalência e multiplicidade de fatores de risco em hipertensos e tabagistas de meia
idade, apresentaram em seu estudo os níveis médios de CT
acima do desejável, 230,3 ± 46,8, 223 ± 49,2 e 234,4 ± 45 mg/
dl, respectivamente, para amostra total, homens e mulheres,
com diferença significativa entre os gêneros (p = 0,0407). Os
níveis médios de TG, nesta mesma pesquisa, apresentaram-se
discretamente elevados, a despeito da grande variabilidade
observada, na média total, para homens e mulheres, 159,3 ±
83,9, 168,3 ± 87,3 e 154,5 ± 82,1 mg/dl, respectivamente.
Em uma análise sobre o número de fatores de risco por
idoso, Feijó et al. [11] observaram que a maioria dos participantes possuía três e quatro fatores de risco, respectivamente;
no total 75% apresentavam de três a cinco.
O baixo risco, resultante da avaliação dos pacientes baseada apenas nos critérios de Framingham, não significa que
os mesmos estão isentos de risco cardiovascular, pois podem
apresentar outros fatores não incluídos neste escore de predição clínica. A abordagem de maior respaldo na análise das
evidências disponíveis consiste em estimar o risco cardiovascular não pela elevação de fatores isolados, e sim pela soma
de risco decorrente de múltiplos fatores, estimada pelo risco
absoluto global em cada indivíduo.
Conclusão
Consideramos através desta pesquisa que os idosos do
sexo feminino estão mais vulneráveis ao desenvolvimento
das doenças cardiovasculares. O controle de fatores de risco
contribui para diminuir a morbimortalidade em idosos e,
consequentemente, melhorar a sua qualidade de vida.
Esses dados são importantes dentro do contexto de saúde
pública, pois caracteriza uma população em constante crescimento nos últimos anos, a população idosa, fornecendo, assim, subsídios para uma melhor intervenção nesses indivíduos.
Apoiada na literatura preexistente e baseada nos resultados
produzidos por este estudo pode-se concluir que a melhor
maneira de quantificar o risco cardiovascular é considerar
todos os fatores envolvidos.
25
Referências
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
26
Artigo original
Efeitos da suplementação de carboidrato em gel
sobre o desempenho físico e a resposta glicêmica
em teste de natação de 12 minutos
Physical performance and glycemic responses in 12-minutes swimming
test: effects of carbohydrate gel supplementation
Jadson Pereira Alves*, André Luís Macalossi**, Ramiro Barcos Nunes***, Francisco Navarro****
*Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre –
UFCSPA, **Especialista em Fisiologia do Exercício pela Universidade Gama Filho – UGF, ***Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da UFCSPA, ****Universidade Federal do Maranhao – UFMA, Departamento de Educação Física
Resumo
Abstract
Palavras-chave: carboidrato em gel, glicose, natação,
desempenho.
Key-words: carbohydrate gel, glucose, swimming, performance.
Introdução
competitivo e o desejo de obter bons resultados [1]. A dieta
tem influencia direta na demanda energética em situações
específicas como, por exemplo, durante a prática de exercício
físico. Dieta e desempenho físico é um tema que tem sido
objeto pesquisa na área do treinamento desportivo [2].
As intervenções dietéticas para aumentar o desempenho físico
são práticas comuns entre atletas. O objetivo deste estudo foi avaliar a
resposta do uso de carboidrato em gel como estratégia ergogênica no
desempenho físico de nadadores. Foram avaliados 9 atletas, saudáveis, do sexo masculino, com idade entre 25 e 35 anos praticantes de
natação competitiva, cada atleta recebeu um suplemento ou placebo
20 min antes do teste de natação de 12 min. Medidas de glicose
sanguínea foram registradas em 4 momentos, 1° glicemia em jejum,
2° normalização glicêmica, 3° pré-teste e 4° pós-teste. Não houve
diferença significativa na distância final do teste quando comparado
o uso de suplemento com o placebo, os níveis de glicemia elevaram-se
significativamente pós-consumo do suplemento e a glicemia final
não se alterou significativamente. O uso de carboidrato em gel não
foi capaz de melhorar o desempenho dos atletas quando comparado
com o placebo, entretanto, mostrou-se eficiente em elevar a glicose
sanguínea pré-teste. Dessa forma, a suplementação parece não ser
necessária em provas de curta duração, uma vez que o organismo
lança mão de recursos próprios para a manutenção da glicemia.
O uso de intervenções dietéticas e de consumo de nutrientes para aumentar o desempenho de atletas são práticas
antigas, o que não surpreende, considerando o meio altamente
The dietary interventions to performance increases are a common praxis among competitive athletes. The aim of this study was
to evaluate the response of the use of carbohydrate gel as an ergogenic way in swimming test. We evaluated 9 male healthy athletes,
aged 25 to 35 years, practitioners of competitive swimming. The
athlete received a carbohydrate gel supplementation or placebo 20
min before the test. The 12-minutes Cooper test was performed to
physical performance and glucose responses evaluates. Blood glucose
measurements were obtained in 4 moments: 1) fasting glucose, 2)
glucose normalization, 3) pre-test and 4) post-test. There was no
significant difference between carbohydrate supplemented or placebo groups distances. Blood glucose levels increase significantly after
carbohydrate intake, however, after test, the blood glucose levels was
not different between groups. The high level of athletes and short
term of test may be a possible response to our results. The use of
carbohydrate gel was unable to improve the performance of athletes.
In this way, this strategy is not necessary to short duration tests, because there is an endogen mechanism to blood glucose maintenance.
Recebido em 24 de novembro de 2011; aceito em 05 de janeiro de 2012.
Endereço para correspondência: Jadson Pereira Alves, Av. Carlos Gomes, 1999/01, 90480-005 Porto Alegre RS, E-mail: [email protected]
yahoo.com.br
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
O uso de suplementos nutricionais por atletas, objetivando
maior rendimento, é um fenômeno que cresce a cada dia [3].
Esta prática se faz necessária, uma vez que o treinamento de
alta intensidade, com um período de recuperação limitado,
pode resultar em uma redução dos níveis de glicogênio, prejudicando o desempenho e levando a fadiga [4].
O processo da fadiga envolve vários fatores que acabam
reduzindo o desempenho durante o exercício [5]. A fadiga
é definida como uma falha ou incapacidade de gerar força,
estando associada à depleção de substratos energéticos ou
acúmulo de metabólitos [6]. No entanto, o rendimento no
esporte não está apenas associado à adaptação da dieta, mas
também ao uso de suplemento [7].
O suplemento de carboidrato em forma de gel fornece
ajuda nutricional eficaz tornando-se mais uma opção para
minimizar problemas como portabilidade e digestibilidade,
comumente enfrentados durante o treinamento aeróbio de
longa distância e na própria competição [8]. O suplemento
de carboidrato pode ser benéfico visto que a ingestão desse
suplemento durante a prova evita a queda da glicemia, mantendo assim a intensidade do exercício [9].
Para um melhor desempenho físico é indispensável que se
mantenham concentrações ótimas de glicose sanguínea, garantindo os processos de produção de energia durante o esforço,
evitando a fadiga durante a competição [10]. O monitoramento
da resposta glicêmica durante o exercício pode contribuir para
uma melhor organização das variáveis intensidade e duração
do exercício, auxiliando o treinador ou técnico desportivo,
no entendimento das respostas fisiológicas de seus atletas em
relação ao volume e intensidade dos treinamentos [11,12].
O objetivo do presente estudo foi avaliar o uso de suplemento de carboidrato em gel sobre a resposta glicêmica de
nadadores da categoria máster, durante teste de esforço de
natação.
Material e métodos
Amostra
A amostra (n = 9) foi composta por atletas saudáveis, do
sexo masculino, com idade entre 25 e 35 anos, praticantes de
natação competitiva há pelo menos um ano e que treinavam
cinco dias por semana, uma vez por dia. Todos os indivíduos
tinham uma boa regularidade nos treinamentos e experiência
em competições em nível estadual. Os atletas foram informados detalhadamente sobre os procedimentos do estudo e
assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.
Medida de glicose sanguínea, suplementação e
teste de 12 minutos
Os atletas foram orientados a realizar jejum de 8h para o
dia do teste. O instrumento para coleta dos valores da glicose
sanguínea utilizado no presente estudo foi um aparelho glicosi-
27
mêtro (Glucotrend 2 Accu-Chek; Roche) com leitura dos valores
em um tempo de 15 segundos e expressos na unidade de mg/
dL. Foram utilizadas lancetas descartáveis para cada coleta. Após
assepsia do dedo indicador direito com álcool 96%, foi utilizada
lanceta para obter a amostra de sangue necessária para preencher
a tira de teste do glicosímetro. O procedimento para a medida da
glicose sanguínea ocorreu em um tempo máximo de 30 segundos.
A glicose sanguínea de jejum foi mensurada inicialmente
para verificar os valores de base e a homogeneidade da amostra
(glicose 1). Em seguida foi entregue o lanche padrão aos atletas
(2 bananas) e após 30 min, foi verificada a segunda glicose
sanguínea (glicose 2). Foi oferecido aos atletas o suplemento
de carboidrato em gel (GU Energy gel, 32g) ou placebo (gelatina diet) 20 minutos antes do teste. Tanto o suplemento de
carboidrato em gel quanto o placebo foram diluídos em 250 ml
de água e colocados em frascos iguais e sem rótulos. A terceira
medida de glicose sanguínea foi realizada imediatamente antes
do teste (glicose 3) e imediatamente após o teste (glicose 4).
Na semana anterior ao teste, o treinamento foi de caráter
regenerativo, de forma que o volume e a intensidade do treino
não sofreram modificações na sobrecarga.
O estudo foi realizado em piscina semi-olímpica (25 x
12 metros), com temperatura de 27,5 ± 0,5 °C e temperatura ambiente de 15°C. Foi realizado o teste de 12 minutos
de natação descrito por Cooper K [13], que consistiu em
deslocar-se à máxima distância em 12 minutos em ritmo
intenso no estilo crawl.
Os atletas foram cegados e randomizados para grupo
placebo ou suplemento de gel. Uma semana após o teste, os
mesmos atletas participaram novamente do teste, entretanto,
aqueles que haviam recebido o placebo, receberam o suplemento de carboidrato em gel, sem o conhecimento de qual
substância estava sendo ingerida.
Análise estatística
Os valores das variáveis estudadas em cada grupo foram
expressos em media ± DP. Para a medida de distância de nado
entre os grupos foi utilizado o teste t. Para as medidas de
glicemia foi utilizada ANOVA de uma via, seguido de teste
Post-hoc de Student-Newman-keuls. As diferenças foram consideradas significativas quando apresentavam valores de P <
0,05. O programa GraphPad Prism 4 (GraphPad Software, San
Diego, Califórnia, EUA) para Windows, foi utilizado como
ferramenta computacional para análise estatística dos dados
Resultados
Tabela I - Características da amostra.
Características
Sexo
Idade (anos)
Peso (kg)
Altura (m)
(n = 9 )
M
30 ± 5,8
75 ± 8,9
1,77
Valores expressos em media ± desvio padrão; M, masculino.
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
40
20
Discussão
Este foi o primeiro estudo a avaliar o desempenho físico e
a resposta glicêmica, em atletas de natação da categoria máster,
submetidos ao teste de 12 minutos adaptado para natação,
utilizando suplementação de carboidrato em gel.
Figura 2 - Distâncias obtidas no teste de 12 minutos.
Distância (metros)
1000
800
600
400
200
0
Suplemento
Placebo
Valores expressos em media ± DP; Teste t para comparação das médias
em relação a distância percorrida durante o teste de 12 minutos.
4P
lic
4S
G
lic
G
lic
3S
G
lic
lic
G
lic
G
do teste de 12 minutos, entre o grupo placebo e o grupo
suplemento (Figura 2).
Os valores de glicose sanguínea, medida após jejum de
8h (glicose 1; Figura 3), foi similar entre os grupos. No entanto, a glicemia medida 30 minutos pós-lanche (glicose 2),
aumentou significativamente quando comparada a glicemia
de jejum, em ambos os grupos (p < 0,05) (figura 3). Após 20
minutos da ingestão do suplemento de carboidrato em gel
ou placebo, foi observado aumento na glicemia (glicose 3)
do grupo suplemento, mas não no grupo placebo (figura 3).
Esse aumento foi significativo inclusive em relação à medida
de glicose 2 de ambos os grupos (p < 0,01). Ao final do teste
de 12 minutos não houve diferença nos valores de glicose
sanguínea (glicose 4) entre os grupos placebo e suplemento.
Entretanto, quando comparados os valores de glicose pré-teste (glicose 3) e pós-teste (glicose 4) do grupo placebo, foi
observado um aumento significativo e bastante expressivo na
glicemia ao final do teste (p < 0,001) (Figura 3).
3P
0
2P
T4
60
G
T3
80
lic
T2
Teste 12 minutos
*
100
1S
T1
20 minutos
*
120
2S
30 minutos
=
140
G
8h/Glicêmia 8:30/Glicêmia 8:50/Glicêmia 9:12/Glicêmia
/Lanche Gel ou Placebo
#
lic
Não houve diferença entre as distâncias obtidas ao final
160
1P
Figura 1 - Coletas e intervenções dietéticas.
Figura 3 - Valores de glicose sanguínea dos grupos placebo e suplemento.
G
Os testes foram aplicados com a diferença de uma semana,
não havendo intercorrências durante o período entre testes, nem
durante a execução do experimento. Os testes foram realizados
de maneira idêntica, respeitando os tempos de coleta de sangue
e intervenções dietéticas, como apresentado abaixo na Figura 1.
Glicemia (mg/dL)
28
Valores expressos em media ± DP. Grupo suplemento tempos 1, 2, 3 e 4;
Grupo placebo tempos 1, 2, 3 e 4. * p<0,05 vs glic 1 S e glic 1 P. # p
< 0,01 vs glic 2 S; glic 2 P e glic 3 P. = p < 0,001 vs glic 3 P. ANOVA
de uma via.
Na literatura podem ser encontrados dados que sugerem a
ingestão de suplemento à base de carboidrato, como bebidas
esportivas, géis ou outras formas de alimento. Esta prática
é utilizada no intuito de evitar a queda da glicemia durante
o esforço, mantendo a intensidade e duração do exercício,
preservando, assim o glicogênio hepático. Esta estratégia
parece ser interessante, uma vez que, o treinamento de alta
intensidade e longa duração pode resultar na redução dos
níveis das reservas de glicogênio, prejudicando o desempenho
e, consequentemente, levando a um quadro de fadiga [9,10].
Os achados do presente estudo revelam que o consumo prévio
de carboidrato em gel, 20 minutos antes do teste físico de alta
intensidade e curta duração (12 minutos), não melhora o desempenho dos atletas quando comparado com o uso da substância
placebo. Este resultado pode ter uma relação direta com o nível de
treinamento dos atletas e tempo de duração do teste, uma vez que
os mesmos estão adaptados a treinamentos de alta intensidade e
maior duração. Tais fatores podem ter levado a uma menor utilização do carboidrato ingerido, uma vez que a captação de glicose
pelos músculos e a glicogenólise aumentam proporcionalmente
com a intensidade e duração do esforço [14,15].
A glicose sanguínea, após os 20 minutos do consumo de carboidrato gel, elevou-se significativamente quando comparado
com o placebo (figura 3), evidenciando assim, a eficiência do
produto para este fim. O mesmo também foi verificado no estudo de Febbraio et al. [16], no qual foi encontrado um aumento
na glicose plasmática após consumo da bebida de carboidrato
nos 10, 20 e 30 minutos após ingestão, concordando também
com o estudo de Sapata, Fahy e Oliveira [17], que também
observou um aumento da glicemia pós consumo da bebida
com carboidrato quando comparado com a bebida placebo.
Os níveis de glicose sanguínea pós-teste não sofreram alterações significativas com o uso do carboidrato gel quando
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
comparado com o placebo. Uma possível explicação para este
resultado pode estar relacionada ao tempo de duração do teste (12
minutos), que pareceu não ter sido suficientemente longo a ponto
de se fazer necessária a utilização de suplemento de carboidrato.
O estudo realizado por Peake et al. [18] mostrou concentrações de glicose plasmática mais alta ao final do teste,
com o uso do carboidrato, quando comparado à substância
placebo. Estes resultados foram encontrados na modalidade
de ciclismo e com tempo superior a 12 min de duração, o
que nos leva a pensar que a duração da atividade proposta
em nosso estudo talvez não tenha sido suficiente para alterar
significativamente a resposta glicêmica. Assim, testes, com um
período de tempo maior, parecem ser mais adequados para
mostrar a eficiência do uso do suplemento de carboidrato
em nadadores. Esta observação parece ser relevante, uma vez
que estudos com o uso de suplemento em forma de gel, em
nadadores, são escassos na literatura até o presente momento.
O efeito do uso de carboidrato em gel, em relação à melhora do desempenho não está bem claro na literatura [8]. Menos
ainda se sabe em relação à natação, pois a grande maioria dos
estudos usa suplementação de carboidratos na forma de bebidas esportivas utilizando outros ergômetros. Entre os poucos
estudos que utilizaram o carboidrato em gel para avaliar sua
contribuição no desempenho físico, está o estudo de Kern,
Helsin e Rezende [19], que comparou o uso de gel vs uva
passa em indivíduos submetidos a teste em cicloergômetro.
Ainda, o estudo de Patterson e Gray [20] comparou o efeito
do consumo de carboidrato em gel ou substância placebo em
um protocolo usando corrida intermitente.
Um achado interessante neste estudo foi a comparação da
glicose 3 do grupo placebo com a glicose 4 do mesmo grupo,
em que os níveis elevaram-se significativamente no final do teste de 12 min. Esta reposta pode ser explicada por um possível
mecanismo do sistema endócrino, uma vez que, para evitar a
hipoglicemia durante o exercício físico, em um primeiro momento, ocorre um ajuste mediado pela diminuição da insulina
e paralelamente um aumento dos hormônios hiperglicemiantes,
glucagon, catecolaminas, hormônio do crescimento e cortisol.
Este mecanismo pode contribuir de forma positiva para a manutenção do exercício, entretanto por um período limitado [21-23].
Conclusão
O presente estudo demonstrou que o consumo de carboidrato na forma de gel 20 minutos, antes da prática do teste de
12 min de natação, não melhorou o desempenho dos atletas,
embora tenha sido efetivo no aumento da glicemia. Este tipo
de suplementação parece não se fazer necessário para a realização de testes de curta duração em atletas bem treinados.
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
30
Artigo original
Treinamento aeróbico em cicloergômetro adaptado
para pacientes lesados medulares
Aerobic training on adapted cycle ergometer for paraplegic
patients by spinal cord injury
Simone Suzuki Woellner*, Antonio Vinicius Soares, M.Sc.**, Anna Maria Engel***, Paulo Guilherme Lenz****,
Bruna Zimmermann*****
*Especialista em Fisioterapia Neurológica e Supervisora do Estágio de Neurologia Adulto da Faculdade Guilherme Guimbala,
**Especialista em Cinesioterapia Neuro-sensório-motora, Professor de Anatomia, Neuroanatomia, Cinesiologia e Neurologia da
Faculdade Guilherme Guimbala e IELUSC, ***Graduando em Fisioterapia, ****Graduando em Fisioterapia e Educação Física,
*****Graduando em Fisioterapia
Resumo
Introdução: A inatividade pós-traumatismo raquimedular
(TRM) reduz consideravelmente a massa muscular e a capacidade
aeróbica dos indivíduos, resultando em fadiga e aumento da prevalência de doenças associadas. Objetivo: Avaliar os efeitos da cicloergometria em lesados medulares por TRM. Métodos: Pesquisa quase-experimental, tipo séries de tempo, com 3 pré e 3 pós-testes em dias
alternados. Participaram do estudo dois indivíduos, um paraplégico,
nível neurológico T11, e outro paraparético, nível neurológico T6.
Foram utilizados o protocolo da ASIA, Dinamômetro de Preensão
Manual (DPM), Manovacuometro Digital (MVD) com medidas
de pressão inspiratória máxima e pressão expiratória máxima, e o
Perfil de Saúde de Nottingham (PSN). Para o treinamento aeróbio
foi utilizado um cicloergômetro para os quatro membros (Ciclomaster Embreex®). O programa de treinamento teve frequência de
2 vezes por semana durante 10 semanas (± 15 sessões). Resultados:
Dos resultados encontrados neste estudo, houve uma significativa
melhora nas medidas de PEmáx, no sujeito 1 foi de 43,7% (p <
0,01) e 12,6% (p < 0,05) no sujeito 2, e na análise do Teste do
Pêndulo do sujeito 2 também observou-se redução significativa da
espasticidade. Conclusão: Estes resultados iniciais devem estimular
novas pesquisas com amostras maiores e grupo controle para ampliar
o conhecimento dos potenciais benefícios deste recurso terapêutico.
Abstract
Introduction: The inactivity in spinal cord injury (SCI) significantly reduces the muscle mass and aerobic capacity, resulting in
fatigue and increased prevalence of associated diseases. Objective:
To evaluate the effects of cycle ergometer for SCI patients. Methods:
Quasi-experimental research, time series design, with 3 pre and post
test in alternate days. The study was composed of 2 individuals, a
paraplegic, neurological level T11, and another paraparetic, neurological level T6. The ASIA protocol, the Dynamometer handgrip,
the Digital Manometer with measures of maximal inspiratory
pressure (MIP) and maximal expiratory pressure (MEP), and the
Nottingham Health Profile were used. For aerobic training cycle was
used for the four members (Ciclomaster Embreex®). The training
program was 2 times per week during 10 weeks (± 15 sessions).
Results: The results showed significant improvement in measures of
MEP, in subject 1 was 43.7% (p < 0.01) and 12.6% (p < 0.05) in
subject 2, the analysis of the Pendulum Test Subject 2 also showed
reducing in spasticity. There were no significant changes in other
measures assessed. Conclusion: These initial results should stimulate
further research with larger samples and control group to broaden
the knowledge of the potential benefits of this therapeutic resource.
Key-words: spinal cord injury, paraplegia, aerobic training.
Palavras-chave: traumatismo raqui medular, paraplegia, treino
aeróbico.
Recebido 1 de novembro de 2011; aceito em 12 de janeiro de 2012.
Endereço para correspondência: Simone Suzuki Woellner, Núcleo de Pesquisas em Neuroreabilitação, Faculdade de Fisioterapia da
Associação Catarinense de Ensino – ACE, Rua São José, 490, Anita Garibaldi, 89202-010 Joinville SC, E-mail: [email protected]
gmail.com
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
Introdução
O traumatismo raquimedular (TRM) é caracterizado
como injúria à rede neural medular, danificando a condução
de impulsos nervosos sensório-motores e a regulação orgânica
autônoma. Está entre as síndromes que acarretam as mais
graves incapacidades ao ser humano, causando de forma
abrupta déficits de locomoção, sensibilidade e funções autonômicas. As lesões traumáticas da medula espinhal (ME) vêm
aumentando a cada ano, e prevalecem sobre população jovem,
hígida e ativa, trazendo transtornos em diversos aspectos para
o indivíduo e sua família [1,2].
As lesões traumáticas da ME causam uma lesão primária,
que ocorre por destruição mecânica do tecido neural e hemorragia intramedular, e uma lesão secundária, a qual leva a alterações
químicas intracelulares e apoptose. Entre 30 a 60 minutos após
o trauma o indivíduo entra em fase de choque medular, caracterizado por paralisia flácida, portanto toda atividade reflexa
abaixo do nível da lesão permanece ausente [1,3,4].
O TRM pode gerar uma lesão completa ou incompleta na
ME. Nas lesões completas as funções motoras e sensitivas estão
completamente extintas abaixo do nível neurológico da lesão,
nos níveis sacrais inferiores S4 e S5. Em lesões incompletas
é possível obter funções motoras e sensitivas nos segmentos
sacrais, abaixo do nível da lesão [1-3].
Após o trauma a inatividade leva a redução da massa muscular e da capacidade de realização de atividades aeróbicas,
resultando em fadiga, aumentando a prevalência de Diabetes
Mellitus, doenças cardiovasculares, disfunções renais, osteopenia e posteriormente osteoporose, acarretando em considerável redução da expectativa de vida dos indivíduos [1,5-8].
Durante o treinamento aeróbico quanto maior a massa
muscular trabalhada maiores os benefícios como melhora da
força muscular e resistência à fadiga, independência nas atividades de vida diária (AVD’s), diminuição da depressão e do
isolamento social. As adaptações fisiológicas ao treinamento
aeróbico podem ser tanto centrais incluindo aspectos respiratórios, cardíacos e hemodinâmicos, quanto periféricos como
melhora do aporte sanguíneo local e aumento da extração de
oxigênio [1,9-11].
O treinamento aeróbico com exercícios resistidos causa
aumento no consumo máximo de oxigênio, induzindo a
bradicardia e aumentando a capacidade física ao esforço. Influencia também na melhora da FC, débito cardíaco, volume
sistólico, e aumento da capacidade respiratória, resultando em
melhor distribuição de oxigênio a musculatura [12].
A prescrição de treinamentos aeróbicos eficazes e seguros
baseia-se em 3 princípios, tanto para portadores de deficiências quanto para não portadores, sendo eles: frequência,
duração e intensidade do treino. O ideal fica entre 2 e 3 sessões semanais já que o treino com membros superiores gera
maior acúmulo de toxinas necessitando de 24h para serem
absorvidas e indivíduos paraplégicos têm maior facilidade
para fadigarem [1,13-16].
31
Na lesão medular torácica baixa os indivíduos apresentam
comprometimento respiratório pela redução da reserva expiratória [1], devido ao déficit muscular abdominal, sendo as
complicações respiratórias uma das maiores causas de morte
e morbidade no TRM [17]. Músculos fortes e bem condicionados necessitam menor quantidade de oxigênio para realização de trabalho, sendo mais eficazes quando comparados à
musculatura mal condicionada [18].
Sabe-se que paraplégicos não obtêm, somente com a
propulsão da cadeira de rodas e AVD’s, atividade física suficiente para prevenir a perda de força muscular dos membros
superiores (MMSS), resultando em rápida fadiga localizada
[19], e não incrementa índices de taxa cardíaca em extensão
apropriada [7]. O treinamento de MMSS é capaz de reverter
o descondicionamento muscular, mas traz apenas benefícios
periféricos para a musculatura envolvida, ao contrário da
ergometria que envolve MMSS e MMII, capaz de produzir
efeitos cardiopulmonares centrais [9].
Atualmente é escassa a pesquisa na área da saúde com
relação a atividades aeróbicas na paraplegia, visto que a
maioria dos treinos aeróbicos utiliza enfaticamente membros
inferiores, o que impossibilita indivíduos que sofreram TRM
de se beneficiarem dos resultados obtidos com o treinamento
aeróbico. Portanto a presente pesquisa visa avaliar resultados
obtidos através do treino aeróbico em cicloergômetro adaptado para pacientes paraplégicos por TRM.
Material e métodos
A presente pesquisa caracteriza-se como quase experimental
tipo séries de tempo, composta por 15 sessões de treinamento,
com 2 sessões semanais. A amostra foi composta por 2 sujeitos
do sexo masculino, sendo o sujeito 1 com lesão completa,
paraplégico nível neurológico T11, e o sujeito 2, com lesão
incompleta, paraparético nível neurológico T6, sem restrição
de idade. Como parâmetro de análise os sujeitos foram submetidos a 3 pré e 3 pós-testes na semana anterior e posterior aos
treinos, em dias alternados. Para os testes foram utilizados os
seguintes instrumentos: ASIA (exame neurológico que consiste
em exames sensoriais e motores, utilizados para determinar os
níveis neurológicos, assim como a extensão da lesão medular),
Dinamômetro de preensão manual (teste que avalia a força de
preensão manual que consiste em um dinamômetro no qual
é exercida uma força isométrica de preensão através da mão),
Manovacuômetro digital (MVD 300, Global Med®, que permite
a mensuração da PEmáx, PImax, realizando 3 medidas com intervalo de 30 segundos), Perfil de Saúde de Nottingham (PSN,
fornece uma medida simples da saúde física, social e emocional
do indivíduo) e Teste do Pêndulo (utilizado para mensurar o
tônus do músculo quadríceps), mensuração da pressão arterial
(PA), frequência cardíaca (FC) e saturação de oxigênio, e cálculo
da frequência cardíaca máxima (FCmáx) [1,20-24].
A frequência cardíaca máxima é utilizada como determinante da intensidade do exercício, mensurada através do
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32
cálculo: 220 menos a idade do indivíduo em anos. Sabendo
que a FCmáx é consideravelmente mais baixa em exercícios
realizados com membros superiores recomenda-se subtrair
13 bpm da FCmáx prevista para a idade, tendo assim maior
precisão do limiar da FCmáx [12].
Para o treinamento foi utilizado um cicloergômetro adaptado para membros superiores e membros inferiores (Ciclomaster,
modelo 603, fabricante Embreex®), que possui um sistema de
transmissão entre as manivelas e os pedais e possibilita mobilização simultânea para os quatro membros. Baseado em Greve
et al. [1], e Balady [14], os treinamentos no cicloergômetro
adaptado iniciaram com 5 minutos de aquecimento, sem carga,
com velocidade de 55 rpm, seguindo para o início do treino
aeróbico no qual a cada 5 minutos foram feitos incrementos
de carga, com velocidade mantida constantemente a 55 rpm.
Monitorando durante todo o treinamento a FC e a Escala de
Esforço Percebido de Borg, conforme recomenda Borg [11].
Os critérios de interrupção do treino foram frequência cardíaca correspondente a 90% da frequência cardíaca máxima do
paciente, se esforço percebido pela escala de Borg fosse maior
ou igual a 6, náuseas, tonturas, alteração súbita da frequência
cardíaca, palidez, cianose, dor ou a pedido do paciente. Após
a interrupção do treino aeróbico, inicia-se a volta a calma com
duração de 5 minutos sem carga e com velocidade decrescente,
segundo sugerido por Greve et al. [1]. As mensurações de PA,
FC e saturação de oxigênio foram feitas em repouso ao início
e ao término dos treinos [1,11,14,15,24].
Após a coleta final, os dados foram analisados pela estatística descritiva e submetidos à média, desvio padrão, diferença
percentual e para estabelecer o nível de significância foi utilizado o teste “t” Student (p ≤ 0,05).
Resultados e discussão
Nos gráficos abaixo estão expressos os resultados obtidos
nos pré e pós-testes relativos à pressão expiratória de pico e
teste do pêndulo.
A partir da análise estatística dos dados submetidos à
média, desvio padrão, diferença percentual e teste “t” Student
foi possível verificar que não houve alteração significativa na
PImax; na PEmáx houve melhora significativa de 43,7% (p <
0,01) no sujeito 1 e 12,6% (p < 0,05) no sujeito 2, conforme
Gráficos 1 e 2.
Gráfico 1 - Manovacuometria PEmáx, Sujeito 1.
Manovacuometria (PEmax)
Teste 1
75
81
73
86
80
80
1º dia
2º dia
Teste 2
133
152
121
92
91
3º dia
Teste 3
153
1º dia
Pré-teste (PE max)
114
112
128
2º dia
111
95
121
3º dia
Pós-teste (PE max)
Sujeito 1
Gráfico 2 - Manovacuometria PEmáx, Sujeito 2.
Manovacuometria (PEmax)
Teste 1
Teste 2
70
69
60
78
77
62
91
1º dia
2º dia
3º dia
Teste 3
90
77
89
90
75
77
85
75
82
1º dia
2º dia
3º dia
77
73
Pré-teste (PE max)
Pós-teste (PE max)
Sujeito 2
A melhora das pressões inspiratória e expiratória está relacionada com um aumento da capacidade respiratória. Van
Der Ersch [25], em um estudo com pacientes com espondilite
anquilosante, ressalta que as pressões expiratória e inspiratória
estão significativamente relacionadas com aptidão física.
Diversos estudos têm demonstrado os efeitos positivos do
treinamento físico de MMSS na melhora da aptidão cardiorrespiratória. Através do treinamento aeróbio de MMSS, Silva
et al. [26] encontraram incrementos de resistência à fadiga da
musculatura respiratória em indivíduos com lesão medular
torácica. Já Liaw et al. [27] obtiveram melhora significativa
da PEmáx e PImax após 6 semanas de treinamento específico
da musculatura respiratórias em pacientes com TRM cervical
completo.
Soares et al. [24], em um estudo com 1 paciente paraplégico treinado no cicloergômetro adaptado durante 6
semanas, com 3 sessões semanais, verificaram que a pressão
inspiratória apresentou um aumento estatisticamente significativo, enquanto a PEmáx também apresentou aumento,
porém não foi significativo. A endurance da PImax e PEmáx
também apresentaram aumento, indicando um incremento
da resistência à fadiga da musculatura respiratória.
De acordo com Mateus et al. [28], indivíduos paraplégicos
podem apresentar comprometimentos das pressões inspiratória e expiratória, principalmente os indivíduos com lesões mais
altas, podendo ser normal em indivíduos com lesões baixas,
causando um comprometimento adicional da aptidão física.
No presente estudo, os sujeitos 1 e 2, com lesão medular
torácica, obtiveram expressiva melhora da capacidade respiratória, representada pelo incremento da PEmáx. Resultado
obtido pelo treinamento aeróbio de MMSS e MMII, comprovando os benefícios cardiorrespiratórios provenientes da
cicloergometria.
Os sujeitos participantes do presente estudo, porém, não
apresentaram alterações na pressão inspiratória máxima. Da
mesma forma, Godoy et al. [29] não encontraram alterações
estatisticamente significativas na pressão inspiratória máxima
de indivíduos após 3 meses de prática de ioga ou exercícios
aeróbicos, com 2 sessões semanais, porém os praticantes de
ioga obtiveram aumentos mais expressivos na Pimax quando
comparados aos praticantes de ginástica aeróbica, o que pode-
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
ria ser explicado pelo treinamento específico da musculatura
inspiratória durante as sessões de ioga. Kunikoshita et al. [30]
observaram alterações relevantes nas Pimax e PEmáx em um
grupo de pacientes com DPOC que foram submetidos a
sessões de treinamento de força da musculatura respiratória,
em comparação com pacientes com DPOC submetidos a
treinamento físico em esteira móvel, sugerindo que o treinamento específico da musculatura respiratória traz mais
benefícios relacionados a estas variáveis.
Em um estudo realizado por Moro et al. [31], 6 sujeitos
paraplégicos realizaram um programa de treino com ergômetro de cadeira de rodas durante 6 semanas, 3 vezes por semana
durante 30 minutos com carga do aumentando em 5W a cada
dois minutos até à exaustão. Após o treino, verificou-se um
aumento do volume pulmonar com diminuição do consumo
de oxigênio o que traduz um aumento de eficácia ventilatória.
Dicarlo apud Nascimento [7] realizou estudos com cicloergômetro de MMSS para treinos resistidos e observou aumento
do consumo de volume de oxigênio máximo, induzindo a
bradicardia, e a resistência à fadiga durante a propulsão da
cadeira de rodas e AVD’s.
Cardoso et al. [32] compararam parâmetros cardiovasculares e da capacidade entre um indivíduo paraplégico e
outro tetraplégico praticantes de atividade aeróbica. Após
duas semanas de treinamento foi observado melhora do
lactato em repouso, o que demonstra melhora da endurance,
no paraplégico houve diminuição da FC e da estimativa de
trabalho do miocárdio em repouso, indicando incremento
da capacidade cardiovascular central. Em concordância com
este estudo Devillard et al. [33] reportaram melhorias na
ventilação por minuto e na capacidade respiratória em sujeitos com lesões cervicais incompletas após implementação
de programa de exercícios, demonstrando assim redução da
fadiga durante AVD’s.
Lonsdorfer et al. apud Bougenot et al. [34] afirmam que
é possível observar hipertrofia das fibras lentas com um aumento do número de capilares ao redor das fibras, bem como
o aumento do número e tamanho das mitocôndrias, com a
realização de exercício.
Segundo Miles [35], estudos feitos com indivíduos com
limitação motora de MMII demonstraram que treinamento
físico aeróbico de MMSS realizado por várias semanas aumenta a potência muscular.
Haddad [36] ressalta ainda que a melhora qualitativa e
quantitativa da capacidade cardiorrespiratória que ocorre
através do treino com MMSS é a mesma obtida através do
treino com MMII, encorajando o uso esta terapêutica em
indivíduos que apresentam limitações de MMII.
Ao analisar o Teste do Pêndulo o sujeito 1 apresentou diminuição no número de oscilações, no sujeito 2 foi verificada
melhora em 30,3% em membro inferior direito e 40,3% em
membro inferior esquerdo, demonstrado pelo aumento do
número de oscilações da perna resultante da diminuição da
espasticidade [22], conforme os Gráficos 3 e 4.
33
Gráfico 3 - Teste do Pêndulo, Sujeito 1.
Teste do Pêndulo
Teste 1
10
11
Teste 2
10
9 9
8 8
8
Teste 3
9
6
Pré-teste
(MIE)
Pós-teste
(MIE)
Pré-teste
(MID)
6
6
Pós-teste
(MID)
Gráfico 4 - Teste do Pêndulo, Sujeito 2.
Teste do Pêndulo
Teste 1
Teste 2
Teste 3
6
5
4
3
3
2
0 0
0
Pré-teste
(MIE)
0 0
Pós-teste
(MIE)
0
Pré-teste
(MID)
Pós-teste
(MID)
Conforme Pandyan et al. [37], a espasticidade é uma desordem no controle sensório-motor, resultante de uma lesão
do neurônio motor superior, apresentando ativação muscular
involuntária intermitente ou sustentada. Segundo Haas [38],
a quantificação do grau de espasticidade continua sendo um
problema de difícil solução, pelo fato de ser influenciada por
fatores como ansiedade, depressão, fadiga e/ou temperatura
ambiental. Em estudo comparativo Teixeira-Salmela [22],
constatou que resultados obtidos entre 6 e 7 oscilações observadas durante o Teste do Pêndulo caracterizam normotonia.
Apesar de a diminuição do número de oscilações verificado
no Teste do Pêndulo do sujeito 1, provavelmente não se deve
pelo treinamento no cicloergômetro, levando em conta as alterações psicológicas e climáticas ocorridas durante a pesquisa.
Além disso, os valores obtidos no pós-teste correspondem à
normalidade segundo Teixeira-Salmela [22].
Segundo Vodovnik et al. apud Minutoli [39], um teste
de movimento passivo acima de 7 repetições em sujeitos
com lesão medular apresentando hipertonia espástica, pode
induzir o aparecimento de uma condição hipotônica, denominada acomodação, o que sugere que os indivíduos espásticos
menos severos apresentem diferenças no comportamento da
espasticidade. Franzoi et al. [40] relataram que o reflexo de
estiramento é afetado no movimento passivo e na repetição.
Para este autor, a provável redução do reflexo de estiramento
é devido à fadiga por inúmeras repetições. As repetições e
velocidade provocam acomodação nos músculos espásticos,
ou seja, resulta na alteração da resistência ao estiramento, e
34
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
uma esperada menor capacidade de produzir tensão muscular
com a estimulação repetida.
Em estudo dos efeitos da mobilização passiva cíclica sobre a espasticidade, por Soares et al. [41] com um paciente
paraplégico por TRM, foi notável o aumento do número de
oscilações no teste do pêndulo, o que representa uma redução
na espasticidade dos membros inferiores. O aumento no número de oscilações foi de 81,9% no direito e de 80,0% no esquerdo. Porém os efeitos da mobilização passiva cíclica foram
somente agudos, enquanto no presente estudo observou-se
aumento do número de oscilações após vários dias a partir
do fim do treinamento.
O sujeito 2, que apresentava lesão incompleta, apresentou
melhor resultado em comparação com o sujeito 1, sugerindo
um melhor benefício em pacientes paraparéticos, em relação
a espasticidade.
Schmidt et al. [42] ressaltam que a redução da espasticidade durante o movimento repetitivo pode ser devido a 3
fatores: mudanças mecânicas nos tecidos (modificação das
propriedades de diversos tecidos, tanto musculares quanto
articulares), adaptação do reflexo de estiramento e mecanismos centrais neurais (habituação do reflexo de estiramento).
Ao concluir esta pesquisa não houve alteração significativa
na percepção da qualidade de vida, avaliada através do PSN.
Em contrapartida Antonietti et al. [43] observaram maiores
resultados dos desportistas comparados aos sedentários com
lesão medular, nos aspectos físicos, psicológicos e de relações
pessoais, traduzindo em melhor qualidade de vida no grupo
desportista. Salvador e Tarnhovi [44] fizeram estudo comparativo entre pacientes TRM praticantes e não praticantes de
atividade física, demonstrando que os praticantes apresentam
capacidade funcional média de 85% comparado aos sedentários, em atividades físicas diárias apresentam média de 100%
melhor, e 88% a mais de atividades sociais comparados a 45%
dos não praticantes.
Em relação à força de preensão manual, não foram observadas alterações significativas. Uma das limitações do estudo
foi a ausência de um dinamômetro para verificação de outros
grupos musculares.
Conclusão
Os resultados obtidos na pesquisa salientam que houve
benefícios na amostra estudada, devido ao aumento da PEmáx, diminuição da espasticidade, além dos benefícios cardiorrespiratórios, e incremento na musculatura respiratória,
verificados pela PEmáx. A espasticidade em MMII também
apresentou melhora de acordo com o teste do Pêndulo,
evidenciando benefícios principalmente ao sujeito 2, o qual
relatou diminuição da rigidez dos MMII e suspensão do uso
de medicamentos para espasticidade.
A partir destes resultados, evidencia-se a importância da
manutenção da técnica terapêutica através do treinamento
aeróbico no TRM, visto que a interrupção das atividades
poderá acarretar, em longo prazo, a perda dos benefícios
obtidos com os treinamentos em cicloergometria. Sem dúvidas é interessante a participação contínua e aperfeiçoada das
atividades aeróbicas para MMSS e MMII.
Sugerimos a aplicação em amostra maior, e também maior
número de pacientes com TRM incompleto, uma vez que
ocorreu grande diminuição da espasticidade de MMII do
sujeito 2. O uso da dinamometria em MMII seria outro fator
importante para observar resultados mais concretos, e também
em outros grandes grupos musculares também de MMSS,
para verificar a extensão da melhora da força. Sugere-se ainda
verificar nos pacientes com TRM incompleto outras variáveis,
já que estes pacientes apresentam diferentes aspectos físicos
e sensório-motores quando comparados ao TRM completo,
podendo utilizar parâmetros de análise como a velocidade da
marcha, mobilidade funcional e força de MMII.
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
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Artigo original
Efeito de diferentes intervalos entre séries,
determinados pela relação esforço-recuperação,
no desempenho da força
Effect of different intervals between sets, determined by the effortrecovery relationship, on the strength performance
Diego de Almeida*, Lenifran Santos**, Renato Massaferri**, Tainah Lima*, Walace Monteiro**
*Laboratório de Atividade Física e Promoção da Saúde, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (LABSAU/UERJ), **Laboratório
de Atividade Física e Promoção da Saúde, Universidade do Estado do Rio de Janeiro (LABSAU/UERJ), Programa de Pós-graduação
em Ciências da Atividade Física. Universidade Salgado de Oliveira (PPGCAF/UNIVERSO)
Resumo
O objetivo do presente estudo foi investigar o efeito de diferentes intervalos determinados pelas relações esforço-recuperação no
desempenho da força de homens treinados. A amostra foi composta
por 15 homens (23,2 ± 2,9 anos) experientes no treinamento de
força. Os indivíduos realizaram 4 séries no exercício supino reto, até
a fadiga e a 80% de 1 RM, nas relações esforço-recuperação: 1:4,
1:4 (S1); 1:4:6:8; 1:8, conduzidos em dias separados. Isoladamente,
todos os intervalos denotaram diferenças significativas nos volumes
de treinamento da primeira para as demais séries. Intervalos baseados
na relação esforço-recuperação 1:4 mostraram-se menos eficientes na
recuperação entre séries múltiplas no treinamento de força, quando
comparados aos intervalos progressivo e de relação 1:8. Por fim,
os intervalos progressivo e 1:8 exibiram volumes semelhantes de
trabalho, contudo, maior que os demais. Concluindo, o intervalo
progressivo deve ser preferido aos demais por proporcionar maior
volume de treinamento, considerando o somatório em todas as séries.
Abstract
The aim of this study was to investigate the effect of different
relations effort-recovery performance of the force of trained men.
The sample consisted of 15 men (23.2 ± 2.9 years) experienced in
strength training. The subjects performed four sets in the bench
press exercise, until fatigue and 80% of 1RM, in relations effort-recovery: 1:4, 1:4 (S1), 1:4:6:8, 1:8, conducted in separate days. In
isolation, all intervals denote significant differences in the volumes
of the first training for the other series. Intervals based on the ratio
1:4 effort-recovery were less efficient in recovery between multiple
sets in strength training, intervals when compared to the progressive
ratio 1:8. Finally, the progressive and 1:8 intervals exhibited similar
volumes of work, however, greater than the others. In conclusion,
the progressive interval should be preferred to others by providing
greater training volume, considering the sum of all sets.
Key-words: effort-recovery ratio, intervals between sets, strength
training, multiple sets.
Palavras-chave: relação esforço-recuperação, intervalo entre
séries, treinamento de força, séries múltiplas.
Recebido 13 de dezembro de 2011; aceito em 13 de janeiro de 2012.
Endereço para correspondência: Walace Monteiro, Laboratório de Atividade Física e Promoção da Saúde. Universidade do Estado
do Rio de Janeiro (LABSAU/UERJ), Rua São Francisco Xavier, 524, 8º andar, sala 8121, bloco F, 0550-900 Rio de Janeiro, RJ, E-mail:
[email protected]
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
Introdução
O treinamento de força tem sido recomendado como
parte integrante de um programa de exercícios direcionado
à promoção da saúde [1-3]. Para que seja eficaz, as diferentes
variáveis de prescrição do treinamento devem ser trabalhadas
de forma adequada. Partindo dessa ideia, é possível que a
adoção da relação esforço-recuperação seja uma estratégia
interessante para determinar os intervalos entre as séries. Com
relação a esse aspecto, geralmente são adotados intervalos fixos
entre séries e exercícios [4,5]. Todavia, dois indivíduos podem
realizar o mesmo número de repetições máximas com uma
mesma carga relativa (% 1RM) em esforços com distintas
durações. Nesse caso, o sistema energético e o acúmulo de
metabólitos pode se diferenciar, afetando de forma distinta a
sustentabilidade das repetições no exercício ao se considerar
o número total de séries [4,6-8].
Para evitar à fadiga, os intervalos devem propiciar uma
recuperação ótima, na qual haja restauração de ATP, CP, bem
como a remoção de metabólitos suficientes à realização de um
novo estímulo, semelhante ou até de maior magnitude ao
anterior [4]. Nesse sentido, estratégias que individualizam o
treinamento podem ser eficazes quando o objetivo da prescrição recai na sustentabilidade das repetições com o decorrer das
séries. Logo, a adoção de intervalos proporcionais ao tempo de
execução entre séries poderiam favorecer um menor decréscimo das repetições, sustentando um maior volume de treinamento [9]. Muito embora intervalos de recuperação curtos
imponham maior estresse metabólico à atividade, intervalos
de longa duração também podem provocar adaptações, ainda
que não significativas [10]. O problema na determinação dos
intervalos entre séries reside na aplicação do tempo ótimo
de intervalo para que a maior sobrecarga seja aplicada com o
maior rendimento em todas as séries.
Stone e Conley [11] sugerem a relação de 1:3 a 1:5 para
esforços com duração entre 20 e 30 segundos. Isso implica
dizer que o período de descanso seria 3 a 5 vezes maior que
o período de esforço. Em termos absolutos, essa relação determina um tempo de recuperação, compreendido de 1 a 2
minutos. Tais valores condizem com a literatura, pois diversos
autores recomendam essa faixa de intervalo de recuperação
a ser adotado entre as séries, quando a prescrição recai, por
exemplo, nos ganhos de força e hipertrofia [3,5,7].
Apesar disso, deve-se atentar para o efeito cumulativo
das séries sobre a fadiga, principalmente ao considerarmos o
número de exercícios por grupamento muscular e, especialmente, o número total de séries por exercício [12]. Geralmente
observamos maior dificuldade ao realizar a última série de
um exercício, quando comparada às anteriores, já que, gradativamente, os substratos energéticos são depletados, assim
como há maior acúmulo de subprodutos com o decorrer das
séries [6,10].
De fato, a literatura tem apontado diversas faixas de intervalo de recuperação entre séries e exercícios [2,3,5,13], sem,
37
no entanto, considerar aspectos como o efeito cumulativo da
fadiga ao longo das séries e os diferentes tempos de tensão
muscular adotados para realização de diferentes exercícios.
É possível que em exercícios com tempos de execução diferenciados, o intervalo de recuperação entre as séries possa
diferenciar-se. Com base nesse princípio, hipotetizamos que
a aplicação de intervalos entre séries, determinados em função da relação esforço recuperação, possa minimizar a fadiga
durante a realização de séries múltiplas no treinamento de
força. Sendo assim, o presente estudo tem como objetivo
investigar o efeito de diferentes relações esforço-recuperação
no desempenho da força de homens treinados, no exercício
supino reto realizado com séries múltiplas.
Material e métodos
Amostra
Participaram do estudo 15 homens com idades entre 20
e 29 anos (23,2 ± 2,9 anos), massa corporal entre 70 e 91 kg
(80,8 ± 5,6 kg) e estatura entre 171 e 184 cm (178,06 ± 3,57
cm), com experiência mínima de um ano em treinamento de
força. Todos praticavam treinamento de força no mínimo três
vezes por semana. Antes da coleta de dados, os voluntários
responderam ao questionário PAR-Q e assinaram um termo
de consentimento pós-informado, conforme resolução 196/96
do Conselho Nacional de Saúde. Com isso, foram determinados os seguintes critérios de exclusão: a) ocorrência de
problemas osteomioarticulares, os quais pudessem influenciar
a realização dos exercícios propostos; b) realização de atividade física extenuante nas últimas 24 horas antecedentes às
intervenções; c) utilização de substâncias ergogênicas atuantes
sobre o sistema muscular e cardiovascular; d) apresentação de
PAR-Q negativo.
Coleta de dados
A coleta de dados foi efetuada em seis dias com intervalo
de no mínimo 48 horas. No primeiro dia foi aplicada uma
anamnese, destinada à identificação das atividades físicas realizadas pelos indivíduos, além de um teste de carga máxima
(1 RM). No segundo dia, repetiu-se o teste de 1 RM a fim de
verificar a reprodutibilidade da carga no exercício proposto.
Nos quatro dias restantes, foram aplicadas sessões de treinamento, com intervalos entre séries adotando-se diferentes
relações esforço-recuperação.
Teste de 1 RM
Anteriormente à realização dos testes de repetição máxima, foi aplicado um aquecimento que obedeceu a seguinte
metodologia: inicialmente, foram realizados movimentos
articulares sem adição de carga. Para tanto, executaram-se
15 movimentos de flexão e extensão vertical do ombro, 15
38
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
movimentos de flexão e extensão horizontal do ombro, 15
movimentos de circundução do ombro. Na sequência, foi
conduzida uma parte específica no exercício selecionado. Para
tanto, realizaram-se 15 repetições submáximas com cargas
estabelecidas pelos praticantes. Após o aquecimento, foi dado
intervalo de 3 minutos antes do início do teste.
O teste de 1 RM foi realizado no exercício supino reto no
Smith Machine. Visando reduzir a margem de erro, tanto nos
testes de 1 RM, quanto nos testes de repetições máximas, foram adotadas as estratégias propostas por Monteiro et al. [14]:
a) instruções padronizadas foram fornecidas antes do teste,
de modo que o avaliado estivesse ciente de toda a rotina que
envolvia a coleta de dados; b) o avaliado foi instruído sobre a
técnica de execução do exercício; c) estímulos verbais foram
realizados a fim de manter alto o nível de estimulação; d) os
pesos adicionais utilizados no estudo foram previamente aferidos em balança de precisão. Os intervalos entre as tentativas
do teste de 1 RM foram fixados em 3 minutos.
No exercício proposto, foram definidas as seguintes
etapas de execução: posição inicial e desenvolvimento. Com
o avaliado em decúbito dorsal, a posição inicial consistiu
em manter os braços elevados, sustentando a barra, com os
joelhos e os quadris semiflexionados, e os pés apoiados sobre
o próprio aparelho (Figura 1). A etapa de desenvolvimento
foi caracterizada a partir da fase excêntrica (90° entre braço
e antebraço), seguida da extensão completa dos cotovelos e
flexão horizontal dos ombros (Figura 2).
Figura 1 - Posição inicial no exercício Supino Reto, no Smith.
Após a obtenção da carga máxima (1 RM), os indivíduos
descansaram 48 horas e foram reavaliados para obtenção da
reprodutibilidade do teste. Considerou-se 1 RM a maior carga
estabelecida entre os dois dias, com diferença menor que 5
%. No caso de diferença maior, os sujeitos deveriam realizar
um novo teste e o cálculo da diferença seria refeito. Em cada
série, além do registro do número de repetições máximas,
foram cronometrados os tempos de execução e de recuperação. Ademais, o volume de treinamento em cada série, nos
diferentes intervalos, foi determinado pelo produto resultante
da carga pelo número de repetições alcançadas.
Sessão de treinamento e relação esforço-recuperação adotadas
Antes da realização das sessões experimentais, cada voluntário realizou um aquecimento composto por uma série de 15
repetições com carga correspondente a 40% de 1 RM. Após o
aquecimento, foi obedecido um intervalo de 3 minutos antes
do início do teste. As sessões de treinamento consistiram em
quatro séries no exercício supino reto até a fadiga, com a utilização de cargas referentes a 80% de 1RM. Conforme o escopo
do presente estudo, formulamos uma relação entre intervalos
visando promover diferentes relações de esforço-recuperação.
Foram adotadas quatro formas de intervalo. A primeira e
segunda formas foram fixadas nas relações de 1:4 e 1:8, respectivamente. Já a terceira forma de intervalo foi progressiva,
utilizando as relações 1:4 – 1:6 – 1:8 entre as séries consecutivas.
Somente na quarta forma adotou-se um tempo fixo de recuperação, baseado na relação 1:4 do primeiro intervalo (entre a
primeira e a segunda série), independentemente dos tempos de
execução nas séries subsequentes. O intervalo de recuperação
entre séries foi determinado individualmente e em cada uma
das relações propostas. Com exceção da quarta forma de intervalo, cujo tempo de recuperação entre séries foi fixo, as demais
formas se basearam na duração do esforço obtido em cada série
precedente. Por fim, a aplicação das diferentes estratégias de
intervalo respeitou a técnica do quadrado latino.
Tratamento estatístico
Figura 2 - Desenvolvimento do exercício Supino Reto, no Smith.
O tratamento dos dados foi realizado através da ANOVA
de dupla entrada (número de séries x estratégia de intervalo)
para medidas repetidas no primeiro fator, acompanhada de
teste post-hoc de Tuckey. O nível de significância adotado foi
de 5% e os dados foram tratados no software Statistica versão
7.0 (Statsoft, Tulsa, USA).
Resultados
O Gráfico 1 ilustra os dados referentes aos volumes de treinamento obtidos mediante aplicação das diferentes estratégias
de intervalo. Quando consideradas isoladamente, em todas as
formas de intervalo foram constatadas diferenças significativas
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
nos volumes de treinamento da primeira para as demais séries.
Também foram verificadas diferenças entre a 2ª, 3ª e 4ª séries
em todas as formas de execução, com exceção do intervalo
progressivo, no qual foram constatadas diferenças apenas entre
a 2ª e a 4ª séries. Quando comparados os volumes obtidos
nas diferentes estratégias de intervalo, em cada série, foram
detectadas diferenças significativas entre a 3ª e 4ª séries nos
intervalos 1:4 e 1:4 (S1). Na 3ª série, foi constatada diferença
nos volumes entre as estratégias de intervalo 1:4 e 1:8. Por
fim, diferenças significativas foram encontradas nos volumes
da 4ª série entre as estratégias de intervalo 1:4 e 1:8 (Gráfico).
Gráfico 1 - Volume de treinamento em cada série realizada para
as diferentes estratégias de intervalos.
Volume (repetições x carga)
1400
*
#
1200
@
1000
&
@
800
600
$
&
$
400
200
0
S1
S2
S3
Séries
1:4 (S1)
1:8
1:4
S4
1:4:6:8
*Diferença de p < 0,001 entre a 1ª série e todas as outras em cada
forma de intervalo; # diferença de p < 0,001 entre a 2ª, 3ª e 4ª series,
em todas as formas de intervalo, exceto na execução com intervalos
progressivos (1:4:6:8), que exibiu diferença de p < 0,001 somente
entre a 2ª e a 4ª séries; & diferença de p < 0,05 entre a 3ª e 4ª series
nas estratégias de intervalo 1:4 e 1:4 (S1); @ diferença de p < 0,05 na
3ª série entre as estratégias de intervalos 1:4 e 1:8; $ diferença de p <
0,05 na 4ª série entre as estratégias de intervalos 1:4 e 1:8.
Volume (repetições x carga)
Gráfico 2 - Somatório do volume de treinamento em todas as séries
realizadas para as diferentes estratégias de intervalos.
4400
3900
3400
#
*
2900
2400
1:4
1:8
1:4:6:8 1:4 (S1)
Estratégia de intervalo
*Diferença de p < 0,05 entre os volumes nas estratégias de intervalo
1:4 e 1:4:6:8 ; # diferença de p < 0,01 entre os volumes nas estratégias de intervalos 1:4 e 1:4(S1) para 1:8.
39
Discussão
O treinamento de força realizado com séries múltiplas
tem demonstrado ser mais efetivo para o desenvolvimento
da força muscular, quando comparado ao trabalho de série
simples, em indivíduos treinados, principalmente em longo
prazo [12,13]. Nesse contexto, uma adequada recuperação
entre os estímulos apresenta-se como aspecto fundamental
no exercício realizado com séries múltiplas. O objetivo do
presente estudo foi investigar o efeito de diferentes estratégias de intervalo de recuperação, determinados a partir da
relação esforço-recuperação, no desempenho da força em
séries múltiplas.
Os principais achados do estudo revelaram influência da
estratégia de intervalo no volume de treinamento. No que
concerne aos dados apresentados isoladamente nas séries, até
a segunda série a estratégia de intervalo não exerceu influência
significativa no volume de trabalho. A partir da terceira série,
as estratégias de intervalo 1:8 e progressiva diferenciaram-se
das demais. No que diz respeito ao somatório das quatro
séries nas diferentes estratégias de intervalo, as relações 1:8
e progressiva não apresentaram diferenças estatísticas. Nesse
caso, a relação progressiva pode oferecer maior sobrecarga do
trabalho por favorecer a sustentação de um mesmo volume
de trabalho com menores intervalos entre séries. Os intervalos de esforço-recuperação 1:4 e 1:4(S1), apresentaram os
menores volumes de trabalho, em comparação aos intervalos
1:8 e progressivo.
Willardson e Burkett [15] apresentaram resultados
similares aos do presente estudo, ao investigar os exercícios
agachamento e supino, com intervalos de 1, 2 e 5 minutos,
resultando em maior volume total de trabalho no protocolo de 5 minutos. Em outra pesquisa, os mesmos autores
compararam os efeitos de três diferentes intervalos (1, 2 e
3 minutos) ao longo de 5 séries no supino, com protocolos
envolvendo 80% de 1RM e 50% de 1RM, o que demonstrou, para ambas as cargas, maior sustentabilidade das
repetições quando aplicado o intervalo de 3 minutos [16].
No presente estudo, foram comparados diferentes intervalos,
determinados a partir da relação esforço-recuperação individual, para verificar se as estratégias de menores intervalos
poderiam se equivaler as demais, oferecendo maiores ou os
mesmos volumes de trabalho, o que resultaria em uma maior
sobrecarga na sessão.
Poucos estudos relatam vantagens para treinamentos
com menor intervalo entre séries. Takarada et al. [20] compararam os efeitos de treinos a 80% e 50% de 1 RM, nos
músculos bíceps braquial e braquial. Todos os protocolos
envolviam três séries, com 1 minuto de intervalo entre elas.
Assim, observou-se maior incremento da secção transversa
no grupo cujo treinamento (incluindo oclusão vascular)
adotou carga mais baixa (50% de 1 RM), com resultado mais
expressivo para o bíceps braquial. Contudo, é importante
destacar que este estudo centrou suas atenções nos efeitos
40
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
crônicos do treinamento. Além disso, uma possível limitação
dos resultados obtidos recai no tempo de intervalo, estabelecido em 1 minuto para ambas as cargas. No protocolo que
envolvia 50% de 1 RM combinada com oclusão vascular,
este período de descanso pode ter sido suficiente, considerando o baixo percentual de carga utilizado. Essa seria uma
forma de intensificar o treino, buscando compensar a baixa
carga com um curto intervalo. Todavia, quando aplicado no
protocolo envolvendo 80% de 1 RM, pode ter significado
um tempo demasiadamente curto para restaurar, de forma
suficiente, as condições metabólicas locais para executar uma
nova série. Logo, para se estabelecer qualquer inferência de
vantagem para o primeiro protocolo citado, seria necessário
compará-lo também a um terceiro protocolo, que envolvesse,
por exemplo, a realização das séries a 80% de 1 RM, mas
entremeadas com maiores intervalos.
Os dados do presente estudo mostraram que no somatório
do volume em todas as séries, valores significativamente maiores foram observados na estratégia de recuperação progressiva
(1:4:6:8), quando comparada a relação esforço-recuperação
1:4. Essa informação ratifica possíveis suposições a favor do
intervalo progressivo, já que apenas no primeiro intervalo
entre séries a relação esforço-recuperação foi igual. Com base
nisso, a estratégia de intervalo progressivo fornece vantagem
na recuperação devido aos maiores tempos de descanso. Na
análise isolada das séries, foram constatadas diferenças significativas nos volumes de treinamento da primeira em relação
às demais séries, em todas as formas de intervalo.
Assim como no presente estudo, Willardson e Burkett
[16] também verificaram reduções significativas no volume
de treinamento da primeira para as demais séries. Isso implica
dizer que, independentemente do intervalo, o volume de
trabalho tende a ser reduzido com a evolução do número de
séries. Muito embora os resultados para cada série tenham
proporcionado uma queda significativa no volume de treinamento, cabe ressaltar que da primeira para a segunda série,
todas as estratégias de intervalos apresentaram resultados
similares. Contudo, a partir da segunda série a escolha do
intervalo desempenha papel decisivo na sustentabilidade das
repetições nas séries subsequentes.
Também é importante destacar que, a partir da segunda
série, o volume observado no intervalo progressivo manteve-se mais próximo de uma estabilização. É possível que essa
estratégia de intervalo tenha sofrido menores consequências
da fadiga por aumentar progressivamente o tempo de recuperação. Apesar de a relação esforço-recuperação ter sido
considerada para delinear a estratégia de intervalo, desde que
o mesmo seja progressivo, tal escolha pode ser interessante
no trabalho direcionado a manutenção da sustentabilidade
ao longo das séries. Contudo, a comparação dos dados aqui
obtidos com os de outros estudos torna-se difícil, pois até o
momento não foram encontradas investigações cujo objetivo
recaiu na análise de estratégias progressivas de intervalo nos
volumes de treinamento.
O presente estudo apresenta algumas limitações. Apesar
da experiência da amostra, não se pode garantir uma total
segurança nas cargas obtidas no teste de 1 RM. Por outro lado,
os voluntários estavam habituados a realizar os exercícios com
as mesmas repetições no equipamento usado na pesquisa, o
que pode ter reduzido a margem de erro nas cargas obtidas.
Em adição, apesar de solicitado aos voluntários para que não
realizassem exercícios entre as sessões de treinamento, não
foi controlado nível habitual de atividade física dos mesmos.
Conclusão
Em função dos dados obtidos e frente às limitações do
estudo, pode-se concluir que, quando o objetivo recair na
manutenção da sustentabilidade ao longo das séries, os intervalos progressivo e de relação 1:8 devem ser utilizados por
manterem maior volume de trabalho, considerando o somatório das séries. Intervalos entre séries determinados a partir
da relação esforço-recuperação podem ser uma opção útil no
controle do descanso entre séries múltiplas no treinamento de
força, quando comparado a intervalos fixos. Contudo, estudos
futuros são necessários para melhor aplicação de intervalos
baseados em relações de esforço-recuperação.
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
42
Relato de caso
Avaliação da qualidade de vida em pacientes
mastectomizadas pré e pós-reabilitação
fisioterapêutica
Assessment of quality of life in mastectomized patients before
and after physical therapy in rehabilitation
Alisson Guimbala dos Santos Araujo, M.Sc.*, Rosani Mostowski**, Karla Jakeline Uller**
*Supervisor do Ambulatório de Disfunções Músculo-Esqueléticas da Faculdade Guilherme Guimbala–FGG, Especialista em Ortopedia e Traumatologia-FGG, **Acadêmicas do Curso de Fisioterapia da Associação Catarinense de Ensino, Faculdade Guilherme
Guimbala-FGG
Resumo
A reabilitação fisioterapêutica de pacientes pós-mastectomia tem
como meta prevenir complicações que possam limitar a amplitude
de movimento, melhorando sua qualidade de vida. O objetivo foi
avaliar a qualidade de vida em pacientes que realizaram cirurgia de
câncer de mama pré e pós-reabilitação fisioterapêutica. A pesquisa
foi descritiva – estudo de caso em 4 pacientes sendo que as avaliações
foram realizadas no período de maio a junho de 2011 no Ambulatório de Disfunções Músculo-Esqueléticas da FGG. Como instrumentos foram elaborados uma ficha de avaliação e o questionário
FACT-B (TOI), os quais se realizaram pré e pós-avaliação através de
autoadministração do questionário em um tempo de 10 minutos.
Os resultados demonstraram melhora da qualidade de vida das
pacientes atendidas, tanto para a relação de porcentagem como para
o índice de desempenho. As melhores variações foram apresentadas
na resposta 0 (35,29%) para o domínio físico, 4 (23,81%) para o
domínio funcional e 0 (114,29%) e 1 (200%) para a subescala da
mama. Conclui-se assim que as pacientes apresentaram melhora da
qualidade de vida após a realização do tratamento proposto para os
domínios estudados.
Abstract
The aim of the physical therapy in rehabilitation of patients
post mastectomy is to prevent further complications which may
limit range of movement; therefore, it improves their quality of
life. The goal was to assess the quality of life in patients who have
undergone breast cancer surgery pre and post physical therapy in
rehabilitation. The research was descriptive – case study in four
patients from May to June 2011 at Outpatient Musculo-Skeletal
Disorders of Faculdade Guilherme Guimbala–FGG. An evaluation
form and the FACT-B (TOI) questionnaire were used pre and post
assessment through self administration questionnaire in a time of
10 minutes. The results showed an improvement in the quality of
life of the patients, both the percentage and performance index. The
best changes were made in the responses 0 (35.29%) for the physical
domain, 4 (23.81%) for the operational and 0 (114.29%) and 1
(200%) for the subscale of the breast. Therefore, it is concluded that
the patients improved quality of life after the treatment proposed
for the areas that were studied.
Key-words: domain, breast neoplasms, quality of life, FACT-B
questionnaire.
Palavras-chave: domínios, neoplasias da mama, qualidade de
vida, questionário FACT-B.
Recebido em 15 de agosto de 2011; aceito em 9 de janeiro de 2012.
Endereço para correspondência: Alisson Guimbala dos Santos Araujo, Rua Paulo Henk, 96, 89216-55 Joinville SC, E-mail: alisson.
[email protected]
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Introdução
O câncer de mama é a neoplasia mais temida pelas mulheres [1]. Segundo dados do ano de 2010 no Brasil foram
diagnosticados 49.240 novos casos de câncer de mama
[2,3], sendo esta a segunda neoplasia de maior incidência
nas mulheres, pois a cada ano 22% de novos casos são
descobertos [4]. Na região Sul do Brasil sua incidência e
mortalidade são altas, chegando ao primeiro lugar no país
em mortalidade, principalmente em mulheres com idade
entre 40 e 69 anos [1]. Com o avanço da prevenção das
taxas de detecção precoce e a melhora no tratamento, 50%
das mulheres acometidas sobreviverão pelo menos 15 anos
ou mais após diagnosticado [5].
Se a cirurgia for muito extensa as chances de morbidade
serão consideradas mais altas [6]. Os fatores de risco podem
ser considerados tais como histórico familiar, obesidade e
gravidez após os 35 anos. Em contrapartida os fatores de
proteção seriam menarca tardia, gravidez entre 20 e 28 anos,
amamentação entre 3 e 12 meses e menopausa precoce [7].
Já os vários tipos de cirurgia da mama podem acarretar
diversos fatores prejudiciais à qualidade de vida da paciente
incidindo sobre sua autoestima. Esses fatores podem ser alterações funcionais, sociais e psicológicas [8-10]. Essa patologia
acaba provocando muitas alterações na vida da paciente causando grande impacto psicológico, pois, além das alterações
fisiológicas, surge também uma série de transformações, tanto
da paciente quanto dos familiares. Além do medo da morte,
existe o preconceito, a ameaça da mutilação da mama, já
que sua função principal é nutrir, alimentar ou, em outras
palavras, proporcionar vida sendo um símbolo importante da
maternidade, feminilidade, sexualidade, estética e afeto [1].
Em decorrência do tratamento, a paciente passa a ter uma
nova realidade do esquema corporal, pois ocorrem inúmeras
complicações como linfedema, fibrose, aderência cicatricial
entre outras que acabam alterando sua maneira de sentir e
vivenciar o corpo. A cirurgia está ligada a essas alterações,
sequelas e complicações em até 70% das pacientes, afetando
assim a qualidade de vida e apresentando dificuldades na
realização de suas atividades de vida diária [1]. O tratamento
fisioterapêutico desempenha um importante papel na qualidade de vida dessas pacientes consequentemente melhorando
as atividades de vida diária [7], pois as complicações físicas
associadas ao tratamento reduzem a qualidade de vida das
mesmas [11].
Estudos em relação à qualidade de vida têm sido extensamente valorizados nos estudos oncológicos [11,12]. A
Organização Mundial de Saúde (OMS) define qualidade de
vida como “a percepção do indivíduo de sua posição na vida,
no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive
em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações” [8,13]. Outra definição também aceita de qualidade
de vida seria a relação com a “satisfação geral do indivíduo
com a vida e sua percepção pessoal de bem estar” [12,14].
43
Vários questionários podem ser utilizados para avaliar a
qualidade de vida das mulheres após cirurgia de câncer de
mama, e podem ser divididos em genéricos (avaliam de forma
global aspectos relacionados à qualidade de vida que tem como
domínios aspectos físicos, sociais, psicológicos, emocional e
sexual tendo como exemplos o Medical Outcomes Study 36
item Short-Form Health Survey (SF 36) e o World Health Organization Quality of Life (WHOQOL)). Os específicos (avaliam
de forma específica aspectos da qualidade de vida entre eles
o European Organization for Research and Treatment of Breast
Cancer Specific Quality of Life Questionnaire (EORTC QLQ
BR 23) e o Functional Assessment of Cancer Therapy-Breast
(FACT-B)) [8,14].
Portanto o uso de questionários que avaliam a qualidade
de vida seria a maneira mais fácil de mensurar o problema da
paciente ajudando assim os profissionais da saúde a conhecerem as necessidades funcionais, psicológicas e sociais do
paciente. Além disso, os escores dos questionários avaliam
de maneira paralela a progressão da doença e sua resposta ao
tratamento proposto, sendo ferramenta essencial na escolha
de diferentes condutas permitindo assim melhor sobrevida
para as pacientes [15]. Com o exposto acima através das
informações obtidas em estudos relacionados com o tema
câncer de mama e qualidade de vida, o objetivo da presente
pesquisa foi avaliar a qualidade de vida em pacientes que
realizaram cirurgia de câncer de mama pré e pós-reabilitação
fisioterapêutica.
Material e métodos
A presente pesquisa foi classificada como do tipo descritiva
– estudo de caso. O levantamento de dados foi realizado no
Hospital Municipal São José em Joinville/SC nas pacientes
submetidas à cirurgia de câncer de mama pelo Sistema Único de Saúde (SUS), no período junho de 2007 a junho de
2010, onde foram coletados os dados através de prontuários
e logo após entrando-se em contato com as pacientes para
a realização da avaliação da qualidade de vida e tratamento
fisioterapêutico.
Os critérios utilizados para a inclusão das pacientes localizadas foram que as mesmas apresentassem limitação na
amplitude de movimento do ombro homolateral a cirurgia
ou alguma outra alteração como encurtamento muscular,
aderência cicatricial entre outros. Para tal, das 10 pacientes
que apresentaram as limitações descritas acima somente 4
aceitaram participar da pesquisa, pois as outras 6 pacientes não
apresentaram condições financeiras para se deslocarem até o
local de atendimento. As pacientes participantes apresentaram
uma faixa etária entre 50 e 66 anos, com média de idade de
59,00 (± 6,12) anos, sendo que a profissão das participantes
eram 3 do lar e 1 aposentada.
Antes do início das avaliações, que foram realizadas no período de maio a junho de 2011 no Ambulatório de Disfunções
Músculo-Esqueléticas da Faculdade Guilherme Guimbala –
44
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
FGG, cada participante assinou o Termo de Consentimento
Livre e Esclarecido, aceitando assim participar voluntariamente da presente pesquisa. A pesquisa foi submetida e teve
aprovação do Comitê de Ética do Hospital Municipal São José
(11020) conforme as resoluções nacionais 196/96 e 251/97
relacionadas à pesquisa envolvendo seres humanos.
Como instrumento, foi elaborada uma ficha de avaliação
para a coleta da identificação da paciente a qual continha o
nome da paciente, data da avaliação, idade, data de nascimento, telefone e profissão. Anexou-se à ficha o “Questionário
Functional Assessment of Cancer Therapy-Breast (FACT-B)” um
questionário específico para pacientes com câncer de mama,
apropriado para o uso em ensaios clínicos em oncologia,
assim como na prática clínica, sendo de fácil administração,
confiabilidade, validez e sensibilidade.
O questionário é composto por 36 perguntas divididas em
cinco domínios: bem estar físico (sete questões), bem estar
social da família (sete questões), bem estar emocional (seis
questões), bem estar funcional (sete questões) e subescala de
mama (nove questões). Para responder, as pacientes deveriam
optar por um dos cinco níveis para cada questão: 0 (não), 1
(muito pouco), 2 (pouco), 3 (muito) e 4 (bastante). Porém
para se observar a diferença na qualidade de vida relacionada
especificamente aos aspectos de saúde utilizou-se o FACT-B
Trial Outcome Index (TOI), que se dá pela soma dos domínios:
bem estar físico, funcional e subescala da mama, gerando
assim 23 perguntas.
Realizou-se uma pré e pós-avaliação cujo questionário era
autoadministrado pela paciente, porém se a paciente necessitasse de alguma ajuda durante as respostas era auxiliada pelos
pesquisadores. Após realizada a pré-avaliação pelo questionário, a paciente foi avaliada funcionalmente e tratada durante
10 sessões com cinesioterapia para a melhora da amplitude
de movimento, sendo novamente avaliada pós tratamento
com o mesmo questionário. Cada avaliação do questionário
teve um tempo médio de 10 minutos entre coleta dos dados
e preenchimento do questionário entre outras orientações.
Após a aplicação dos questionários, a tabulação e levantamento estatístico da pesquisa foram realizados, e os resultados
foram digitados em uma planilha eletrônica do programa
Microsoft Office Excel® 2003. Foi utilizada análise descritiva, na qual se calculou a média, desvio padrão, percentual e
índice de desempenho.
Resultados
O Gráfico I demonstra a porcentagem de resposta pré e
pós-aplicação do questionário das 4 pacientes que participaram da pesquisa. Evidencia-se com isso que em relação ao
seu bem estar físico, as pacientes tanto no pré como no pós
apresentaram-se bem devido as porcentagens serem maiores
nas respostas 0 e 1. Observa-se também uma melhora deste
domínio após o tratamento realizado pela elevação da porcentagem na resposta 0.
Gráfico I - Porcentagem do domínio Físico pré e pós-aplicação do
questionário.
100%
80%
60%
82%
Pré
Pós
61%
40%
18%14%
20%
0%
0
1
11%
4%
2
4% 0%
3
7%
0%
4
Fonte: Dados da pesquisa
O Gráfico II esclarece as respostas selecionadas pelas 4
pacientes no pré e pós-aplicação do questionário para o domínio bem estar funcional. Pode-se demonstrar que há melhora
da qualidade de vida tanto no pré como no pós pela maior
concentração de respostas em 3 e 4. Verificou-se também
melhora da qualidade de vida pelo tratamento proposto pela
elevação da porcentagem na resposta 4.
Gráfico II - Porcentagem do domínio Funcional pré e pós-aplicação
do questionário.
100%
93%
Pré
80%
Pós
75%
60%
40%
20%
0%
14%
0% 0%
0
4% 0%
1
0%
2
7% 7%
3
0%
4
Fonte: Dados da pesquisa
O Gráfico III evidencia as respostas no pré e pós-aplicação
do questionário para a subescala da mama das 4 pacientes. O
que se observa no gráfico é um equilíbrio nas respostas tanto
no pré como no pós. Porém o que se pode afirmar após a
análise é que em relação ao pré quanto mais respostas fossem
dadas nas respostas 3 e 4 pior seria o aspecto mama para a
paciente, o que prova que elas não estavam contentes. Após
o tratamento observou-se melhora, pois houve uma inversão
de porcentagem da resposta 3 e 4 para a 0 e 1 melhorando a
aceitação da paciente.
A Tabela I demonstra o índice de desempenho do pré
e pós-questionário nos domínios físico, funcional e subescala de mama. Os desempenhos demonstrados na tabela
corroboram os resultados apresentados nos gráficos, pois as
variações positivas foram expressas na resposta 0 (35,29%)
para o domínio físico, 4 (23,81%) para o domínio funcional e 0 (114,29%) e 1 (200%) para a subescala da mama,
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
evidenciando assim a melhora da qualidade de vida após a
realização do tratamento.
Gráfico III - Porcentagem da subescala da mama pré e pós-aplicação
do questionário.
100%
Pré
80%
Pós
60%
40%
20%
0%
51%
42%
33%
20%
8%
3%
0
1
6%
11%
2
20%
6%
3
0%
4
Fonte: Dados da pesquisa.
Tabela I - Índice de desempenho do pré e pós-aplicação do questionário para os domínios físico, funcional e subescala da mama.
Fís
Func
Mam
0
1
2
3
4
35,29% -20,00% -66,67% -100,00% -100,00%
0,00% -100,00% -100,00% 0,00%
23,81%
114,29% 200,00% 100,00% -71,43% -33,33%
Legenda: Fís – físico; Func - funcional; Mam - adicional
Fonte: Dados da pesquisa
Discussão
Após a apresentação dos resultados, pode-se observar
melhora da qualidade de vida das pacientes que realizaram
a reabilitação. Estudos comentam que o efeito do câncer de
mama e de seu tratamento, seja radioterápico, quimioterápico,
cirúrgico ou mesmo de reabilitação sobre a qualidade de vida
das pacientes tem sido bem descrito pela literatura [16,17].
Em relação à técnica cirúrgica utilizada, que pode ser radical ou conservadora, a disseção axilar tem sido um tratamento
padrão. Esse procedimento, quando isolado ou em conjunto
com a radioterapia, pode causar morbidade no membro superior homolateral [18] e problemas como linfedema, dor,
diminuição de força e amplitude de movimento entre outros
[14,18] que se tornam frequentes nas pacientes, merecendo
assim atenção especial na reabilitação, pois podem interferir
na qualidade de vida [18].
Outro fator importante a ser verificado é o estado psicológico da paciente, pois quadros de depressão, ansiedade,
medo (abandono familiar e amigos), recidiva e morte estão
relacionados com a doença e contribuem para uma percepção
negativa da qualidade de vida [14]. O medo pode ser considerado o mais ameaçador em relação à piora da qualidade
de vida, pois pode provocar reações emocionais, que provocarão mudanças no âmbito biológico, mental e social [19].
Exemplos podem ser considerados, tais como dificuldade
econômica, presença de ondas de calor levando a dificuldade
45
na duração do sono, piorando a fadiga e levando a sintomas
depressivos [14].
Velloso et al. [6] esclarecem que não existe homogeneidade em relação aos instrumentos e métodos utilizados para
se avaliar a qualidade de vida nas pesquisas. Em um estudo
que determinou o efeito do exercício na qualidade de vida em
pacientes com câncer de mama foram avaliadas mulheres com
diagnóstico recente e tardio que realizaram um programa de
exercício durante 6 meses. Os resultados demonstraram que
o exercício proposto melhorou a funcionalidade das pacientes
e consequentemente sua qualidade de vida nos dois grupos
estudados [16].
Outro estudo procurou identificar o exercício físico como
a melhor intervenção para a qualidade de vida em mulheres
com câncer de mama. Os resultados comprovaram a melhora através do questionário utilizado FACT-B concluindo
que o exercício é efetivo melhorando a função e o físico das
pacientes [20].
Um terceiro estudo avaliou a aceitabilidade de exercícios
moderados no tratamento do câncer de mama e seu impacto
na presença de linfedema, qualidade de vida entre outros em
dez mulheres. A qualidade de vida foi avaliada pelo FACT-B antes a após um programa de 6 semanas, e os resultados
demonstraram potencial melhora da qualidade de vida [21].
Na pesquisa que determinou os benefícios funcionais e
psicológicos de um programa de 12 semanas de exercício
supervisionados no estágio inicial e após seis meses de acompanhamento em 203 pacientes de câncer de mama, somente
177 completaram os seis meses de acompanhamento. Na
avaliação de qualidade de vida o instrumento utilizado foi o
FACT-B, e também foram avaliados outros aspectos como
a avaliação da mobilidade do ombro, não sendo observado
efeito significativo da melhora da qualidade de vida [22].
No estudo de revisão que examinou o efeito do exercício na
qualidade de vida em mulheres com câncer de mama, foram
selecionados nove trabalhos. Os resultados evidenciaram que
os exercícios podem ser uma estratégia eficaz para a melhora
da qualidade de vida [23].
Diversos questionários podem ser utilizados para a
avaliação da qualidade de vida em pacientes com câncer de
mama. O FACT-B é um deles como foram demonstrados
nos estudos relacionados acima e corroborando o que foi
utilizado na presente pesquisa. Porém, outros questionários
serão relatados, como na pesquisa que relacionou a qualidade de vida à morbidade do membro superior homolateral a
cirurgia, e que demonstrou em seus resultados a relação de
semelhança entre a qualidade de vida com a menor morbidade
através da aplicação de questionários específicos para câncer
de mama (QLQ-C30 e BR23). Considerou-se no estudo que
com o tratamento da doença as pacientes não apresentaram
ansiedade nem declínio em sua qualidade de vida mantendo
a atividade normal do membro homolateral à cirurgia [24].
Leites et al. avaliaram a influência da intervenção fisioterapêutica na qualidade de vida e na evolução clínico funcional
46
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
das pacientes. O estudo foi do tipo quase-experimental (pré
e pós) composto por cinesioterapia (treino de força e flexibilidade) em 10 pacientes com uma duração de oito semanas.
Na avaliação da qualidade de vida o instrumento utilizado foi
o questionário WHOQOL-bref. Observou-se que a aplicação
dos exercícios auxiliou para a melhora dos parâmetros funcionais e também que não houve um declínio na qualidade
de vida das pacientes [11].
A fisioterapia tem sido observada clinicamente para a
melhora do tratamento das pacientes com câncer de mama.
Na pesquisa que investigou a eficácia do tratamento de
fisioterapia na função do ombro, dor e qualidade de vida
em trinta pacientes após cirurgia com esvaziamento axilar,
foram realizadas avaliações no início e após três e seis meses. As pacientes foram divididas em dois grupos: grupo de
tratamento, que recebeu tratamento de fisioterapia durante
três meses; e grupo controle que recebeu um folheto com
conselhos e exercícios. Conclui-se que a fisioterapia reduziu
a dor e melhorou a função do ombro homolateral à cirurgia
melhorando, assim a qualidade de vida [25].
A Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza que
a avaliação da qualidade de vida deve ser orientada com a
finalidade de observar o impacto de fatores que acontecem
no universo psicológico, social, espiritual e físico da paciente
com câncer de mama. Com isso constituindo parâmetros nas
pesquisas realizadas para a melhora de custo/benefício, otimizando os recursos disponíveis para o sistema de saúde [26].
Conclusão
Após a realização do presente estudo, pode-se observar que
as pacientes avaliadas através do FACT-B (TOI) apresentaram
melhora da qualidade de vida pela reabilitação proposta para
os domínios relacionados à melhora do bem estar funcional,
físico e aspectos da mama. Porém o estudo apresentou limitações, como o baixo número de mulheres avaliadas que pode ser
explicada pela dificuldade de encontrar voluntárias dispostas a
participar da pesquisa ou por não dispuserem de condições financeiras para o transporte não se podendo generalizar os dados
encontrados. Salienta-se, no entanto, que se pode observar a
correlação a qual foi procurada no objetivo do estudo de avaliar
a melhora da qualidade de vida pré e pós-reabilitação fisioterapêutica. O estudo contribuiu para dar suporte à evidência de
que se deve ter uma preocupação maior em relação às pacientes
pós-operadas de mama tanto no pós-cirúrgico imediato quanto
no tardio, pois, se a paciente não realizar uma boa reabilitação,
poderá apresentar limitações em suas atividades de vida diária
acarretando assim piora na qualidade de vida.
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48
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
REVISÃO
Atividade cerebral relacionada ao apetite e exercício
físico: implicações para a ingestão alimentar e controle
do peso corporal
Brain activity related to appetite and physical exercise: implications for
food intake and weight control
Rafael Ayres Montenegro*, Alexandre Hideki Okano**
*Grupo de Estudo e Pesquisa em Biologia Integrativa do Exercício – GEPEBIEX, Departamento de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Laboratório de Atividade Física e Promoção da Saúde – LABSAU, Universidade do
Estado do Rio de Janeiro – UERJ, ** Grupo de Estudo e Pesquisa em Biologia Integrativa do Exercício – GEPEBIEX, Departamento
de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)
Resumo
Conhecimentos sobre exercício físico e apetite são importantes
tanto para atletas que almejam aumento do desempenho físico
quanto para aqueles interessados na manutenção do peso corporal
saudável. Componentes tanto homeostáticos quanto hedônicos,
responsáveis pela sensação de prazer e atração pelo alimento controlam sinais de fome e saciedade em vias periféricas e centrais. Os
sinais advindos da periferia fornecem informação sobre o estado
nutricional corporal ao sistema nervoso central. Este último media
e integra os sinais de fome e saciedade e após isto, formula uma
resposta fisiológica que regula o comportamento alimentar do indivíduo. Pessoas obesas têm demonstrado diminuição expressiva da
variabilidade da frequência cardíaca, aumento da atividade do nervo
simpático, alteração do metabolismo hormonal e estimulação gástrica. Além disso, uma anormal atividade hipocampal foi identificada
em resposta aos sinais de saciedade, comprometendo assim, todo
controle da ingestão alimentar de obesos. Esta anormal atividade
neuronal persiste em indivíduos que já foram obesos, fazendo com
que altos riscos ao reganho de peso possa ocorrer. A prática de exercício físico gera manutenção e perda do peso corporal, repercutindo
tanto para melhorias no balanço energético quanto para o sistema
de regulação do apetite. Estes benefícios parecem ser influenciados
pela intensidade e duração do exercício.
Abstract
Knowledge about physical activity and appetite are important
for athletes who aspire to increase exercise performance and for
those interested in maintaining healthy body weight. Both homeostatic and hedonic components, responsible for the sensation of
pleasure and attraction to the food, control signals of hunger and
satiety in peripheral and central pathways. The periphery signals
provide information to central nervous system on the nutritional
body status. The nervous system latter integrates signals of hunger
and satiety, and sends a physiological response that regulates the
feeding behavior. Obese people have shown significant reduction
of heart rate variability due to increased sympathetic nerve activity,
changes in hormone metabolism and gastric stimulation. In addition, an abnormal hippocampal activity was identified in response
to satiety signals, thereby undermining the whole control of food
intake of obese. This abnormal neuronal activity persists in subject
with obesity, causing high risks of weight regain. The exercise generates maintenance and loss of the body weight, reflecting both
improvements in energy balance and for the appetite regulation
system. These benefits appear to be influenced by the intensity and
duration of exercise.
Key-words: exercise-induced anorexia, ghrelin, hunger, satiety,
leptin.
Palavras-chave: anorexia induzida pelo exercício, grelina, fome,
saciedade, leptina.
Recebido em 19 de outubro de 2011; aceito em 18 de novembro de 2011.
Endereço para correspondência: Alexandre Hideki Okano, Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, Centro de Ciências
da Saúde – CCS, Departamento de Educação Física - DEF, Campus Universitário BR 101, Lagoa Nova, 59072-970 Natal RN, E-mail:
[email protected]
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
Introdução
O processo de regulação da ingestão alimentar tanto de
sujeitos normoponderais quanto de obesos, tem suscitado
curiosidade da comunidade científica, em busca da compreensão dos componentes tanto homeostáticos quanto hedônicos,
responsáveis pela sensação de prazer e atração pelo alimento
[1]. Estes componentes controlam sinais de fome e saciedade
em vias periféricas e centrais. Basicamente, os sinais aferentes,
advindos da periferia, fornecem informação sobre o estado
nutricional corporal ao sistema nervoso central. Este último
media e integra os sinais de fome e saciedade e, após isto,
formula uma resposta fisiológica que regula o comportamento
alimentar do indivíduo [2].
Atualmente, outro fator bastante abordado na literatura
é o efeito da prática de exercício físico sobre o processo de
regulação do apetite. Vários são os estudos que se preocuparam
em verificar o efeito do exercício físico sobre a manutenção
e perda do peso corporal total, obtendo resultados positivos
tanto para melhorias no balanço energético [3,4] quanto
para o sistema de regulação do apetite [5,6]. Porém, existem
fortes correntes científicas que acreditam que o exercício físico
promove um gasto energético negativo acompanhado por um
aumento, contrabalanceado da ingestão alimentar, além de
aumentar a sensação de fome no estado de jejum [7].
Em adição aos efeitos atrelados à prática de exercício
físico, sabe-se que o mesmo é responsável pela melhoria e
manutenção da plasticidade cerebral, além de melhorar a oxigenação e vascularização cerebral, processo este denominado
de neurogênese. Todos estes efeitos benéficos ocorrem, mais
especificamente, no hipocampo (região central responsável
pelo controle do apetite, aprendizado e memória), que está
intimamente interligado ao córtex pré-frontal [8]. Estudos
também demonstram que o exercício físico é capaz de promover melhorias no processo de neuroplasticidade, aumentando
a velocidade das transmissões sinápticas, fazendo com que o
cérebro esteja mais bem preparado para codificar informações
importantes, a respeito do estado nutricional do corpo, fornecidas pela periferia corporal e ambiente externo [9].
Sendo assim, esta pesquisa tem como objetivo revisar o
atual conhecimento científico produzido sobre os processos e
mecanismos fisiológicos e centrais, bem como a influência da
prática do exercício físico na regulação da ingestão alimentar
na obesidade.
Aspectos fisiológicos e centrais da obesidade
A obesidade é considerada uma síndrome mundial envolvendo fatores sociais, psicológicos e socioeconômicos em
indivíduos de todas as idades e grupos. O contínuo aumento
nas taxas de incidência de pessoas com excesso de peso nas
últimas décadas fez com que a obesidade atingisse proporções
epidêmicas, a ponto de a Organização Mundial de Saúde [10]
considerar a obesidade uma epidemia global.
49
Neste aspecto, o Brasil tem seguido a mesma tendência
mundial alarmante de índices crescentes de obesidade. Em
2008, de acordo com a mais recente pesquisa realizada pelo
IBGE [11], 33,5% das crianças de 5 a 9 anos estavam acima
do peso, sendo que 16,6% do total de meninos eram obesos
e 11,8% das meninas estavam com sobrepeso. Em adultos
jovens de 20 aos 24 anos do sexo masculino, o sobrepeso
saltou de 18,5% em 1974-1975 para 50,1% em 2008-2009.
No sexo feminino, o aumento foi menor: de 28,7% para 48%.
Por causa desta alta prevalência de excesso de peso corporal
na população mundial, muitas investigações foram conduzidas
levando em consideração aspectos como o balanço energético
e peso corporal deste público. O balanço energético é determinado pela ingestão de macronutrientes, gasto energético
e termogênese dos alimentos. Assim, o balanço energético
positivo, em longo prazo, resulta em ganho de massa corporal na forma de gordura, enquanto que o balanço energético
negativo resulta em perda de peso corporal [12].
Porém, cientistas comprovaram que além do cuidado com
o balanço energético positivo, outros fatores comprometem
o quadro patológico de pessoas com obesidade, fazendo
com que o mesmo não se reverta. Entre estes fatores podem
ser listados: a sociedade e/ou cultura, ambiente, limitada
disponibilidade de alimentos naturais, palatabilidade dos
alimentos industrializados, composição dos nutrientes, entre
outros fatores [13,14].
Pesquisas utilizando como amostra sujeitos obesos têm
demonstrado a relação entre diminuição expressiva da variabilidade da frequência cardíaca (VFC), aumento da atividade
do nervo simpático, alteração do metabolismo hormonal e
estimulação gástrica, tendo efeito sobre a ingestão alimentar e
distensão estomacal. Além disso, indivíduos obesos possuem,
em suas particularidades, uma anormal atividade do hipocampo em resposta aos sinais de saciedade, comprometendo,
assim, toda contribuição na regulação e controle da ingestão
alimentar. Este padrão de atividade neuronal persiste em
indivíduos que já foram obesos, fazendo com pessoas que se
enquadram neste aspecto possam correr altos riscos em relação
ao reganho de peso excessivo [15,16].
Anormalidades metabólicas e hemodinâmicas também são
encontradas em indivíduos com excesso de peso corporal [17].
Atribuí-se a isto, a existência de um descontrole no sistema
nervoso central, mais especificamente, do ramo simpático
que parece ser mais ativado em indivíduos obesos do que em
magros [18]. Porém, há controvérsias na literatura na qual
é sustentada a existência de uma diminuição da atividade
simpática [19]. Com isso, Young e Macdonald [20] realizaram extensa revisão de 40 estudos com humanos conduzidos
antes de 1991 na tentativa de clarificar se a obesidade estava
associada à elevada ou reduzida atividade do sistema nervoso
simpático (SNS). As publicações científicas suportaram ambas
as hipóteses, bem como a possibilidade de não haver diferença
na atividade do SNS entre indivíduos normoponderais e obesos [21]. Entretanto, os autores evidenciam várias limitações
50
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
entre os estudos revisados, principalmente na fragilidade do
método utilizado para avaliação da atividade simpática.
Por outro lado, tem-se observado, em obesos, uma relação
inversamente proporcional entre a VFC e mortalidade por
doenças cardiovasculares, ou seja, uma diminuição da VFC,
que pode ser gerada tanto pela diminuição da atividade parassimpática quanto pelo aumento da atividade simpática, tem
resultado numa alta taxa de mortalidade [22].
Em nível cerebral, estudos utilizando a técnica de imagem
por ressonância magnética funcional (fMRI) demonstram
que, após o consumo de alimentos líquidos até a saciedade,
indivíduos obesos exibiram diminuição do fluxo sanguíneo
na região do hipocampo comparado a indivíduos magros
[16]. Em decorrência do exposto, tem-se especulado que o
córtex pré-frontal e a região hipocampal, para além de desempenharem importante papel nos processos de memória
e aprendizagem, estão intimamente relacionados à regulação
da ingestão alimentar, controle da alimentação e regulação
do apetite [23,24].
Regulação central do apetite: sensações de fome
e saciedade, tamanho da refeição e frequência
alimentar
Importantes fatores envolvidos no controle do apetite
geram distúrbios que acometem a homeostase energética.
Esta última é controlada por dois conjuntos de sinais, os
sinais tônicos e episódicos.
O conjunto de sinais que surge a partir dos estoques dos
tecidos, especialmente do tecido adiposo, e reflete o que é
frequentemente referido como sinalização em longo prazo ou,
um termo alternativo, sinalização tônica [25], é responsável
pela regulação de todo o balanço energético e massa corporal
de gordura sobre dias ou até semanas [26]. Os sinais químicos
provenientes deste processo incluem a leptina, insulina e certas
adipocinas (amilina, visfatina e adiponectina). Em animais,
altas concentrações destes hormônios, principalmente a leptina (adipocitocina responsável pela produção da sensação
de saciedade), diminuem a ingestão alimentar e estimulam o
dispêndio energético [27]. Em contraste, indivíduos obesos,
geralmente, possuem altas concentrações de leptina e insulina,
o que sugere uma possível resistência dos organismos de obesos
aos efeitos destes hormônios, fazendo com que o efeito de
supressão na ingestão alimentar não ocorra [28].
A partir de recentes especulações demonstrando que
baixas concentrações de leptina e insulina podem tanto
aumentar a ingestão alimentar quanto suprimir o dispêndio
energético [29], Hagobian e Braun [26] sugerem que exista
uma relação entre as concentrações de leptina/insulina e
ingestão alimentar, assemelhando-se ao “U invertido”,
em que tanto baixas quanto muito altas concentrações de
leptina/insulina estimulam a ingestão alimentar, porém
níveis moderados circulantes destes hormônios tenham
efeito supressor.
No entanto, os sinais denominados “episódicos” surgem largamente do trato gastrointestinal e são gerados periodicamente
em ritmos sincronizados a partir do ato de se alimentar [30].
Os componentes químicos envolvidos neste processo incluem
a colecistocinina, peptídeo ligado ao glucagon (GLP-1), oxintomodulina, grelina, peptídeo YY (PYY), mais especificamente
o PYY3-36, e possivelmente por outros peptídeos liberados por
células localizadas ao redor do trato gastrointestinal [31], sendo
a grelina acilada considerada o mais importante componente de
estimulação da ingestão energética, tanto em homens quanto
em animais [32,33]. Porém o PYY3-36 vem ganhando atenção,
pois ao infundi-lo, perifericamente, notaram-se supressões na
ingestão alimentar tanto de animais [34] quanto em humanos
[35]. Em suma, toda esta gama de sinais regula o início e o
término da alimentação, consequentemente, também regula a
frequência e tamanho da refeição [26].
A integração dos sinais tônicos e episódicos gera informações ao cérebro quanto ao estado dinâmico atual dos estoques
de energia e os fluxos oscilatórios de nutrientes derivados da
alimentação, quando estes últimos são detectados pela sinalização episódica. Esta integração é instanciada em um conjunto
de vias e receptores neurais que se estendem pelo núcleo do
trato solitário e área postrema do mesencéfalo através de um
discreto núcleo hipotalâmico no prosencéfalo basal [2].
Os sinais episódicos surgem e desaparecem em harmonia
com o padrão alimentar. Um grande grupo destes peptídeos
citados acima fornece sinais responsáveis pela sensação de
saciação, que se constitui no ato do término da refeição, e
saciedade, que se caracteriza pela ação de inibição do ato de
se alimentar após a refeição [30]. Em adição, muitos comportamentos alimentares distinguíveis são controlados por várias
regiões cerebrais e sistemas neuroquímicos que impactam
sobre aspectos da alimentação, incluindo o início, quantidade
e frequência da ingestão alimentar.
Os fatores que contribuem para o início da ingestão
alimentar são considerados não homeostáticos, pois não se
constituem em um processo dependente do déficit energético, porém, ainda não são claramente definidos na literatura
mecanismos fisiológicos atrelados à sinalização em cascata,
circuitos neuronais e neuroquímicos que mediam suas influências biológicas sobre o processo de alimentação [36].
Em contraste, os fundamentos fisiológicos dos fatores
que controlam o término da refeição, assim como os fatores
que controlam a quantidade de alimento ingerido durante a
refeição, têm sido mais extensamente estudados. De acordo
com Smith [37] existem duas categorias de sinais (diretos e
indiretos) que contribuem para o controle da quantidade de
alimentos ingeridos.
Os sinais diretos são aqueles fornecidos pelo canal alimentar em resposta ao contato do alimento ingerido ou
digestão do mesmo. Esta mesma categoria de sinais diretos
é denominada por Grill [36] como sinais de saciação, que
são definidos por sinais sensórios gerados pela interação do
alimento ingerido com o trato gastrointestinal e incluem
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
distensão estomacal e hormônios liberados pelo intestino em
resposta ao transporte de nutrientes [38].
Além dos sinais diretos, a quantidade de alimento ingerido em uma refeição é influenciada por outros tipos de
sinais, incluindo sinais metabólicos ou disponibilidade de
energia, tais como os níveis de circulatórios de nutrientes,
como, por exemplo, os níveis de glicose, ácidos graxos livres
e aminoácidos. Já, sinais originados pela adiposidade como a
leptina ou fornecidos pela temperatura ambiente entre outros,
interferem no controle da quantidade de alimentos ingeridos
em uma refeição [37,39].
Os sinais indiretos são definidos por inter-relações entre
os mecanismos gerados pelos sinais diretos e os mecanismos
neurais, construindo, assim, os sinais de saciação, portanto,
o impacto inibitório na ingestão alimentar é considerado
como sinais indiretos.
A fome e a saciedade são sentimentos que são governados
por muitos processos e moléculas em que o cérebro, mais
especificamente o hipotálamo, exerce um importante papel
[40]. De fato, o sentimento de fome leva a um aumento de
ingestão alimentar e, como consequência disto, o sentimento de saciedade deve ser gerado. Porém, a influência destas
sensações, fome e saciedade, sobre a quantidade e frequência
de refeições está intimamente relacionada ao fator hereditariedade [41].
Sabendo que todos estes processos de formação das
sensações de fome e saciedade são controlados através de
hormônios, peptídeos e neurônios, de Krom et al. [42] acreditam que existe uma suscetibilidade genética para o controle
da ingestão alimentar nos genes que codificam os mesmos
hormônios, peptídeos e neurônios envolvidos na formação
destas sensações. Porém o conhecimento da genética sobre os
aspectos do comportamento alimentar ainda é muito limitado. Muitos dos estudos que analisaram os genes envolvidos
nas sensações de fome e saciedade não se preocuparam em
aprofundar as investigações em relação as suas influências
genéticas na formação destas sensações e, sim, objetivaram
analisar os resultados finais de distúrbios relacionados à fome
e saciedade, tais como a obesidade, diabetes do tipo II e composição corporal [42].
Sabe-se que este processo é regulado por ações integradas
de vários feedbacks e outros sinais internos e externos que
finalmente controlam a quantidade de alimento ingerido e a
frequência de cada refeição [39].
Além disso, é sugerido que, em nível central, o hipocampo
é uma importante região envolvida no processo de regulação
energética, que possuem receptores, especialmente no núcleo
arqueado, responsáveis pela detecção de vários neurohormônios com funções de sinalização da fome, saciedade e sinais
de adiposidade [43]. Somando, ainda, a responsabilidade
pelas funções de aprendizagem e memória, que, de acordo
com vários autores, as funções de aprendizagem e memória
possuem importantes papéis no controle da alimentação e do
comportamento alimentar [23,24].
51
Todavia, alocado no tronco encefálico, o núcleo do trato
solitário (NTS) vem sendo destacado por ser um nodo crucial
que recebe inputs diretos dos receptores gustativos e de muitos
sinais de saciedade, geralmente advindos do contato direto dos
nutrientes com o tracto gastrointestinal. Com isso, soluções
foram designadas com o intuito de responder onde e como
informações, fornecidas pelo tronco encefálico e hipotálamo,
estão integradas no controle da ingestão alimentar, particularmente no término da refeição e sensação de saciedade [39].
Como exemplo destas soluções, recentes evidências sugerem
que uma parte desta integração toma lugar nos neurônios do
NTS, que recebem não somente informações do intestino,
mas informações através do sistema melanocortinérgico e
outras projeções do hipotálamo [36].
Influência do exercício físico sobre o controle do
apetite
Os benefícios da prática de atividade física ou engajamento
em programas de exercício físico que acarretam mudanças no
estilo de vida sedentário estão bem documentados, como, por
exemplo, a diminuição dos riscos associados ao desenvolvimento de doenças crônico-degenerativas ou mortes súbitas, se
constituindo em uma importante intervenção no tratamento
da obesidade [44].
Todavia, a modificação dos padrões ou hábitos alimentares
parece ser consenso na literatura, como medida essencial para
diminuição dos percentuais de gordura corporal. Portanto,
dietas hipocalóricas parece ser a melhor medida adotada para
quem deseja perder peso, no entanto, associação de ingestão
alimentar balanceada a um aumento relevante do dispêndio
energético diário total parece ser ainda mais benéfica [6].
Como consequência disto, verificou-se que a atividade física
tem estreita relação com a ingestão alimentar, pois o trabalho
corporal requer energia fornecida pelos nutrientes para que
haja restauração dos estoques de combustível, com o propósito
da continuidade do funcionamento das funções corporais.
Neste sentido, Mayer et al. [5] executaram estudos com
animais e homens, examinando o efeito do exercício sobre a
massa corporal e ingestão alimentar. Para fornecer um melhor
entendimento entre a relação destas variáveis, os mesmos autores confeccionaram gráficos que são apresentados na Figura 1.
Estes autores dividiram o nível de atividade física em cinco
zonas, onde a zona 1 ilustra o comportamento da ingestão
alimentar e massa corporal de um indivíduo com baixo nível
de atividade física. Em repercussão deste estilo de vida, é
encontrado um aumentado tempo ocioso, tornando-o mais
sedentário. Este tipo de ação não induz a uma redução compensatória na ingestão alimentar do mesmo, levando-o ao
aumento da massa corporal total. Já na zona 2, é ilustrado a
introdução da atividade física no cotidiano do sujeito, tendo
como consequência, uma redução, mesmo que pequena, na
ingestão alimentar, devido à mobilização dos estoques de
energia, levando a diminuição da massa corporal total. Na
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
52
zona 3, denominada de zona sensível, ilustra-se um indivíduo
que agora é praticante regular de atividade física de moderada
à vigorosa intensidade. Este tipo de atitude tem consequências que se diferem se o sujeito for magro, ou seja, a ingestão
alimentar dele é aumentada, porém sua massa corporal total
é mantida. Já, se o indivíduo for obeso não é demonstrado
significantes mudanças na ingestão alimentar, devido ao
excesso de energia estocado.
Figura 1 - Modelo demonstrativo da relação entre nível de atividade
física (NAT), massa corporal e ingestão alimentar.
Massa corporal
Zona de responsividade
1
Ingestão energética
0
2
1.7-1.8
3
4
2.2-2.5
5
4.0-5.0
NAT
Zona de responsividade
1
0
2
1.7-1.8
3
2.2-2.5
4
5
4.0-5.0
NAT
Fonte: Adaptada de Mayer et al. [5].
O nível de atividade física da população em geral possui
um limite em torno de 2.2-2.5 (zona 4), e em indivíduos altamente treinados em torno de 4.0-5.0 (zona 5). Acima destes
valores, o corpo humano não é capaz de compensar o dispêndio energético e, como consequência disto, perde-se massa
corporal total, inclusive massa magra. Com base neste modelo,
Mayer et al. [5] defendem a hipótese de que, imediatamente
após a um significativo aumento no dispêndio energético,
um balanço energético negativo é gerado. De acordo com
este modelo, vários autores corroboram a idéia de que há um
efeito supressor da ingestão alimentar como resposta reativa
às séries agudas de atividades físicas [45,46]. Por outro lado,
em uma vasta revisão da literatura, foi demonstrado que, em
consequência da prática de exercício, em protocolos de curto a
moderado tempo de intervenção (2-5 dias), 19% dos estudos
reportaram aumento, 65% não demonstraram mudanças e
16% demonstraram diminuição da ingestão alimentar após
a sessão de exercício [47,48].
Neste sentido, Whybrow et al. [49] analisaram o efeito de
exercícios em diferentes intensidades: nenhum exercício (grupo controle), exercício moderado e intenso, sobre o apetite,
ingestão alimentar, dispêndio e balanço energético em homens
e mulheres magros. Constataram que o dispêndio energético
gerado pela prática de exercício começa a ser compensado
ou contrabalanceado pela ingestão alimentar, num curso
de uma a duas semanas em homens e mulheres magras. Já,
mais recentemente, King et al. [50] relataram que o efeito do
exercício sobre a regulação do apetite, envolve, pelo menos,
dois processos: I) aumento em todos os sinais orexígenos
e II) um concomitante aumento na eficiência de sinais de
saciedade em refeições fixas. No entanto, os mesmos autores
alegam que estes processos não operam com a mesma força
e eficácia em todos os indivíduos praticantes de exercícios.
Juntas, as forças destes dois processos podem determinar se
indivíduos perderão peso com a prática de exercício, ou se o
peso corporal será mantido através do efeito compensatório
do aumento da ingestão alimentar após a sessão de exercício.
Em relação às respostas compensatórias ao déficit energético gerado pelo exercício, King et al. [7] relataram a importante
influência das respostas compensatórias metabólicas (respostas automáticas ou obrigatórias, como, por exemplo, a taxa
metabólica de repouso e o dispêndio energético gerado por
outras atividades fisiológicas) e comportamentais (respostas
voluntárias ou facultativas, como, por exemplo, ingestão
alimentar), como pontos-chave, no tocante à barreira para
perda de peso induzida pela prática de atividade física. As
respostas compensatórias comportamentais possuem maior
poder influenciador sobre as perturbações feitas ao balanço
energético do que as respostas metabólicas. Portanto, as contribuições para estas perturbações ao balanço energético da
atividade física são menos expressivas do que as contribuições
dadas por meio da ingestão alimentar [14].
Em suma, parece que o efeito de sessões agudas de atividades físicas depende extremamente da intensidade empregada
na atividade. Exercícios com intensidades de moderada a
extenuantes (>60%VO2MAX) parecem ser mais eficazes no
tocante ao efeito supressor do exercício físico em relação à
ingestão alimentar. Isto se deve a uma redistribuição do fluxo
sanguíneo, em específico da circulação esplênica em direção
a musculatura [48].
Nesta mesma ótica, vários estudos especularam que
exercício de baixa intensidade e curta duração parece não
induzir efeito supressor sobre a fome. Somente exercícios
de alta intensidade e longa duração possuem um forte efeito
sobre a ingestão alimentar comparado a exercícios de curta
duração, assim, exercícios extenuantes parecem suprimir o
apetite e induzir a um efeito denominado anorexia induzida
pelo exercício [50].
Conclusão
Em suma, vários estudos sustentam a importância da região hipocampal sobre o gerenciamento da ingestão alimentar
através da decodificação de citocinas que traduzem as sensações de fome e saciedade. Entretanto, o córtex pré-frontal,
cingulado anterior e o núcleo do trato solitário parecem estar
estreitamente interligados para o desempenho destas funções.
Todavia, estudos com o intuito do melhor entendimento dos
mecanismos, reações fisiológicas e hedônicas, que envolvem o
controle central do apetite, ainda não conseguiram, por com-
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
pleto, definir a totalidade de variáveis intervenientes que estão
inter-relacionadas no processo da alimentação e do apetite.
Além disso, a regulação do apetite é modulada pela prática
de exercício físico. Porém, as repercussões atenuadoras do
apetite geradas por meio do exercício físico parecem sofrer
dependência da intensidade e duração do estímulo. Entretanto, estudos com um maior cuidado metodológico em relação
à padronização da ingestão alimentar entre grupos e cuidado
na escolha e utilização de variáveis bioquímicas que sejam
mais sensíveis à regulação do apetite devem ser estimulados.
Por exemplo, o peptídeo PYY3-36 parece possuir uma maior
sensibilidade às alterações na regulação do apetite do que o
PYY1-36. A grelina, na forma acilada, é outro ótimo exemplo,
pois somente nesta forma, a mesma consegue ultrapassar a
barreira hematoencefálica.
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
55
Revisão
Influência de variáveis relacionadas ao protocolo
experimental no déficit de força muscular mediado
pelo alongamento
Influence of variables related to the experimental protocol
in muscle strength deficit mediated by stretching
Raquel Gonçalves*, André Luiz Demantova Gurjão*, José Cláudio Jambassi-Filho*, Luiza Hermínia Gallo*,
Alexandre Konig Garcia Prado*, Sebastião Gobbi, D.Sc.*
*Universidade Estadual Paulista, IB, DEF, Laboratório de Atividade Física e Envelhecimento (LAFE), Rio Claro, São Paulo
Resumo
Um grande número de estudos tem demonstrado que exercícios
de alongamento podem diminuir o desempenho de força muscular, fenômeno descrito como déficit de força muscular mediado
pelo alongamento. De qualquer forma, nenhuma conclusão pode
ser realizada com relação a esse fenômeno, uma vez que variáveis
relacionadas ao protocolo experimental utilizado nos estudos podem influenciar sua magnitude. O presente estudo apresenta uma
revisão sistemática de artigos cujo objetivo foi analisar a influência
de variáveis relacionadas às rotinas de alongamento e ao método
de avaliação da força muscular na magnitude do déficit de força
muscular mediado pelo alongamento. Foi realizada uma busca nos
bancos de dados: Medline; Pubmed; Lilacs e Sport Discus. Após
a busca, foram analisados 15 estudos relacionados ao tema. Com
base nos estudos encontrados, a presente revisão demonstra que
variáveis relacionadas ao protocolo experimental podem ter uma
forte influência na magnitude do déficit de força muscular mediado
pelo alongamento.
Abstract
A large number of studies have shown that stretching exercises
may decrease the performance of muscle strength, a phenomenon
described as muscle strength deficits mediated by stretching. However, no conclusions can be made with respect to this phenomenon,
since variables related to the experimental protocol used in the studies may influence its magnitude. This study presents a systematic
review of articles whose aim was to analyze the influence of variables
related to the stretching routines and to muscle strength evaluation
method in the muscle strength deficits mediated by stretching. A
search was conducted in the databases: Medline; Pubmed; Lilacs e
Sport Discus. After the search, 15 studies related to the topic were
analyzed. Based on the studies found, this review demonstrates that
variables related to the experimental protocol may have influence on
the magnitude of the muscle strength deficits mediated by stretching.
Key-words: stretching, muscular strength, experimental protocol.
Palavras-chave: alongamento, força muscular, protocolo
experimental.
Recebido em 31 de outubro de 2012; aceito em 10 de janeiro de 2011.
Endereço para correspondência: Sebastião Gobbi, Avenida 24A, 1515, 13506-900 Rio Claro SP, E-mail: [email protected]
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
Introdução
O déficit de força muscular induzido por rotinas de alongamento é o termo empregado para descrever a redução transitória no desempenho do sistema neuromuscular observada
após a realização de exercícios de alongamento. Este fenômeno
tem sido sistematicamente demonstrado após o emprego de
diferentes métodos de alongamento e pode apresentar magnitude e duração de respostas bastante variadas [1-3].
A existência de evidências que apontam para o efeito
deletério dos exercícios de alongamento sobre desempenho
neuromuscular levou alguns pesquisadores a sugerir sua retirada das rotinas de aquecimento que precedem a prática de
exercícios físicos [4,5]. Entretanto, alguns trabalhos não têm
demonstrado o efeito negativo dos exercícios de alongamento
sobre as respostas da força muscular [6,7].
Parte dessas contradições observadas pode estar associada
não apenas às variáveis relacionadas às rotinas de alongamento,
como exemplo o volume ou método de alongamento empregado, mas também às variáveis envolvidas no protocolo de
avaliação da força muscular.
Considerando as informações acima, é importante determinar qual a influência das variáveis associadas ao protocolo
experimental utilizados em estudos que buscaram investigar
o déficit de força muscular mediado pelo alongamento na
magnitude desse fenômeno. Dessa forma, conclusões mais
concretas poderão ser realizadas com relação ao emprego de
rotinas de alongamento que precedem a prática de atividade
física.
O objetivo do presente estudo foi: a) revisar a influência
das principais variáveis associadas às rotinas de alongamento
na magnitude do déficit de força muscular mediado pelo
alongamento; b) revisar a influência das principais variáveis associadas ao método de avaliação da força muscular
na magnitude do déficit de força muscular mediado pelo
alongamento.
Métodos
A busca eletrônica para a realização deste trabalho foi
efetuada nas seguintes bases de dados: Medline; Pubmed;
Lilacs e Sport Discus. Quando possível, limites de datas
foram acrescentados. Para pesquisa dos estudos, foram utilizadas as seguintes palavras-chaves de forma combinada e/
ou individualmente: flexibility, stretching, dynamic stretching,
static stretching, warm-up, strength, force, vertical jump, power,
performance, joint angle. Para a base de dados Lilacs os termos
citados acima foram utilizados em português. Em adição, a
lista de referências de todas as publicações inclusas na revisão
foi utilizada para busca manual de possíveis estudos relevantes
que não foram encontrados durante a busca eletrônica.
Os seguintes critérios de inclusão foram adotados: a) estudos experimentais cujo objetivo envolvia analisar o déficit
de força muscular mediado pelo alongamento; b) estudos
experimentais cujo objetivo envolvia comparar variáveis
relacionadas às rotinas de alongamento na magnitude do
déficit de força muscular mediado pelo alongamento; c)
estudos experimentais cujo objetivo envolvia comparar variáveis relacionadas ao método de avaliação da força muscular
na magnitude do déficit de força muscular mediado pelo
alongamento; d) estudos que incluíam diferentes condições
experimentais realizadas de forma aleatória.
Primeiramente os artigos foram selecionados pelo título,
quando continham palavras relacionadas ao tema. Posteriormente fez-se a leitura do resumo e texto completo dos artigos.
A partir desse ponto os estudos foram selecionados quando
englobavam os critérios de inclusão adotados.
Resultados e discussão
As Tabelas I, II, III e IV apresentam as características dos
15 estudos selecionados para análise. As próximas sessões
analisam, separadamente, o efeito de cada uma das variáveis
associadas às rotinas de alongamento (duração e método de
alongamento) e ao protocolo de avaliação da força muscular
(ângulo articular e tipo de exercício) no déficit de força muscular mediado pelo alongamento.
Duração do alongamento
Estudos que relataram efeitos negativos do alongamento
no desempenho de força muscular utilizaram protocolos com
durações de até 30 minutos para o mesmo grupo muscular
[8,9]. Embora seja possível observar que o déficit de força
muscular apresente um comportamento dependente do tempo de alongamento e do grupo muscular alongado, grande
parte dos estudos adotou em seus protocolos experimentais
rotinas com tempos de alongamento não condizentes com
aqueles das rotinas empregadas na prática. Uma possível relação dose – resposta poderia explicar por que alguns estudos
têm reportado que o desempenho de força muscular não é
afetado pelo alongamento. Tem sido sugerido que a ausência
desse efeito pode ser causada pela utilização de um protocolo
de alongamento com menor volume.
Neste sentido, a partir do ano de 2005, é possível verificar
um crescente número de publicações que buscou comparar o
efeito de menores volumes de alongamento sobre o desempenho agudo do sistema neuromuscular.
Ogura et al. [10] compararam o efeito de dois volumes de
alongamento estático (1 x 30 e 1 x 60 segundos) na contração
voluntária máxima (CVM) dos posteriores de coxa. Os autores
reportaram que a CVM foi significativamente menor após a
rotina com duração de 60 segundos quando comparada com o
protocolo de 30 segundos e a condição controle (sem alongamento). De forma similar, Siatras et al. [11] observaram maior
diminuição do pico de torque (PT) após uma rotina de 60
segundos de alongamento estático, quando comparada a 30, 20
e 10 segundos de alongamento. Em contrapartida, Winchester
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
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Tabela I - Estudos que investigaram a influência da duração do alongamento no déficit de força muscular mediado pelo alongamento.
Referência
Ogura et al. [10]
Siatras et al. [11]
Ryan et al. [13]
Winchester et al. [12]
Rotina de Alongamento
30 ou 60 segundos de alongamento estático
10, 20, 30 ou 60 segundos de alongamento
estático
120, 240 e 480 segundos de alongamento
estático
30, 60, 90, 120, 150 e 180 segundos de
alongamento estático
Tipo de
Ação Muscular
Isométrica
Isométrica
Isométrica
Isométrica
Resultado
>↓ CVM após 60 segundos
>↓ PT após 60 segundos
↓ CVM após 120, 240 e 480 segundos
↓ TDF após 240 e 480 segundos
↓ CVM após 30, 60, 90, 120, 150 e 180
segundos
> = Aumento; ↓ = Diminuição; CVM = Contração Voluntária Máxima; PT = Pico de Torque; TDF = Taxa de Desenvolvimento de Força.
Tabela II - Estudos que investigaram a influência do método de alongamento no déficit de força muscular mediado pelo alongamento.
Referência
Rotina de Alongamento
Herda et al. [27]
540 segundos estático ou dinâmico
Bacurau et al. [26]
1200 segundos de alongamento estático ou
dinâmico
480 segundos de alongamento estático ou
dinâmico
600 segundos de alongamento estático ou
dinâmico
45 segundos de alongamento estático ou
dinâmico
90 segundos de alongamento estático ou
dinâmico
600 segundos de alongamento estático ou
dinâmico
45 segundos de alongamento estático ou
dinâmico
Dalrymple et al. [21]
Curry et al. [22]
Beedle et al. [23]
Samuel et al. [24]
McMilian et al. [28]
Unick et al. [25]
Tipo de
Ação Muscular
Isométrica
Resultado
↓ CVM após estático quando comparada ao
método dinâmico
1RM
↓ 1RM após estático quando comparada ao
método dinâmico
SV
Nenhuma alteração no SV após estático e
dinâmico
SV
Nenhuma alteração no SV após estático e
dinâmico
1RM
Nenhuma alteração em 1RM após estático e
dinâmico
SV
Nenhuma alteração no SV após estático e
dinâmico
5 - step jump ↑ Potência muscular após alongamento
dinâmico quando comparada ao estático
SV
Nenhuma alteração no SV após estático e
dinâmico
↑ = Aumento; ↓ = Diminuição; SV = Salto Vertical; CVM = Contração Voluntária Máxima; 1RM = 1 Repetição Máxima.
Tabela III - Estudos que investigaram a influência do ângulo articular de avaliação da força muscular no déficit de força muscular mediado
pelo alongamento.
Referência
Herda et al. [27]
McHug et al. [30]
Graus Avaliados
41, 61, 81 e 101 graus
80, 65, 50 e 35 graus
Tipo de
Ação Muscular
Isométrica
Isométrica
Resultado
>↓ PT em 81 e 101 graus
>↓ Ângulo-torque em 65 e 80 graus
> = Maior; ↓ = Diminuição; PT = Pico de Torque.
Tabela IV - Estudos que investigaram a influência do tipo de exercício utilizado na avaliação da força muscular no déficit de força muscular
mediado pelo alongamento.
Referência
McBride et al. [31]
Exercícios
Tipo de
Ação Muscular
Monoarticular (Extensão de Joelho) e Multiarti- Isométrica
cular (Agachamento)
↓ = Diminuição; CVM = Contração Voluntária Máxima; TDF = Taxa de Desenvolvimento de Força.
Resultado
↓ CVM durante exercício monoarticular
↓ TDF durante exercício multiarticuar
58
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
et al. [12] observaram que 30 segundos de alongamento estático
foram suficientes para reduzir a força muscular máxima dos
posteriores de coxa. Em grupos musculares menores (flexores
plantares), Ryan et al. [13] analisaram o comportamento da
curva força-tempo (Cf-t) isométrica após 120, 240 e 480 segundos de alongamento estático. Os autores encontraram que
a CVM diminuiu significativamente após todos os protocolos
de alongamento empregados. Para a taxa de desenvolvimento
de força (TDF) foram observadas reduções significativas após
240 e 480 segundos de alongamento.
O tempo total que um músculo é submetido ao alongamento é uma importante variável a ser considerada, uma
vez que estímulos com maiores volumes podem aumentar a
magnitude de decréscimo da força muscular. Nesse sentido,
os estudos citados acima sugerem que pode haver um limiar
mínimo de alongamento, entre 20 e 60 segundos, para que
possa ocorrer o déficit de força muscular.
Métodos de alongamento (dinâmico vs. estático)
Diferentes métodos de alongamento têm sido utilizados na
prática durante sessões de aquecimento e durante programas
de atividade física que visam o desenvolvimento da flexibilidade. Dentre eles, o método estático e o dinâmico são os
mais conhecidos e investigados na literatura.
Especificamente para a potência muscular, estudos têm
demonstrado que o método dinâmico pode não afetar o
desempenho de força, podendo, inclusive, melhorar a capacidade muscular em desenvolver força rapidamente [14-16]. Por
outro lado, um número grande de evidências tem mostrado
que rotinas de alongamento estático podem causar efeitos
negativos na capacidade de força explosiva [17-20].
Estudos que procuraram comparar o efeito do método
dinâmico e estático de alongamento no desempenho de
força muscular têm encontrado resultados controversos.
Alguns autores não observaram diferença significativa entre
os métodos, sendo que tanto o método dinâmico quanto o
método estático não causaram alterações no desempenho do
salto vertical (SV), tempo do pico de força e uma repetição
máxima (1 RM) de membros superiores e inferiores [21-25].
Em contrapartida, dois estudos demonstraram que o alongamento estático diminui significativamente o desempenho
da PT e 1 RM quando comparado ao método dinâmico
[26-27]. Apesar dos estudos demonstrarem redução na força
muscular apenas após o emprego do método estático, ainda
não há um consenso com relação à influência do método de
alongamento empregado na magnitude do déficit de força
muscular mediado pelo alongamento.
Ângulo articular de avaliação da força muscular
O déficit de força mediado pelo alongamento parece ser
mais aparente em amplitudes de movimento nas quais o comprimento da fibra muscular ou do sarcômero corresponda ao
plateau máximo da curva força-comprimento [29]. Com base
nessa observação, alguns autores buscaram analisar o comportamento do déficit de força mediado pelo alongamento
em diversos ângulos de avaliação.
Herda et al. [27] analisaram o efeito agudo do alongamento estático no PT isométrico durante flexão do joelho em
quatro ângulos articulares diferentes (41, 61, 81 e 101 graus
abaixo da extensão total do joelho). Os autores observaram
que o alongamento estático diminuiu significativamente o
PT isométrico dos posteriores de coxa, durante flexão de
joelho, nos ângulos de 101 e 81 graus. Em ângulos menores
de avaliação (41 e 61 graus), o alongamento não alterou o
desempenho de força muscular.
Em adição, McHug et al. [30] avaliaram a relação ângulo-torque durante flexão isométrica de joelho em seis valores
diferentes de ângulo (80, 65, 50, 35, 20 e 5 graus). Assim
como Herda et al. [27], os autores encontraram que o déficit
de força mediado pelo alongamento é mais proeminente em
comprimentos mais curtos da musculatura avaliada (80 e
65 graus), ou seja, durante avaliação da força muscular em
ângulos maiores.
Avaliação da força muscular – tipo de exercício
O déficit de força mediado pelo alongamento tem sido
demonstrado em exercícios monoarticulares, tanto em
ações isométricas quanto dinâmicas. Em contrapartida,
a influência do alongamento durante o desempenho de
força muscular em exercícios multiarticulares tem sido
demonstrada, em sua grande maioria, para o desempenho
dinâmico de força.
McBride et al. [31] procuraram comparar o efeito agudo
do alongamento estático durante esforço muscular isométrico
em exercício monoarticular (extensão de joelho) e multiarticular (agachamento). O protocolo de alongamento consistiu
em três séries de 30 segundos para o quadríceps. Os resultados mostraram que o comportamento da força muscular
isométrica pode sofrer influência do tipo de exercício utilizado
durante avaliação da força. Durante esforço monoarticular
apenas a CVM reduziu significativamente. Já para o esforço
multiarticular houve redução da TDF.
Conclusão
A retirada de rotinas de alongamento que precedem a
prática de atividade física tem sido sugerida por diversos
autores. Porém, nenhuma conclusão concreta com relação
ao déficit de força muscular mediado pelo alongamento pode
ser realizada, uma vez que são observadas diferenças entre os
protocolos experimentais utilizados nos estudos que buscaram
analisar esse fenômeno. Foi observado que protocolos com
maior volume de alongamento podem causar maiores efeitos
deletérios agudos na produção de força, sendo que menores
volumes de alongamento não causam nenhuma alteração no
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
desempenho de força muscular. Ainda com relação à rotina de
alongamento, não há uma conclusão concreta sobre a influência do método utilizado (dinâmico ou estático) no déficit de
força muscular mediado pelo alongamento. O ângulo articular
de avaliação da força muscular é outra importante variável a
ser considerada na análise do efeito do alongamento no desempenho físico. Aparentemente, o déficit de força muscular
mediado pelo alongamento é mais observado quando a força
muscular é avaliada em ângulos articulares acima de 60 graus.
Poucos estudos procuraram comparar o comportamento do
déficit de força muscular mediado pelo alongamento em
diferentes exercícios, sendo que parece ocorrer uma relação
exercício-dependência nesse fenômeno. A presente revisão
mostra uma forte evidência sugerindo que variáveis associadas
às rotinas de alongamento e ao método de avaliação da força
muscular podem influenciar a magnitude do déficit de força
muscular mediado pelo alongamento.
Referências
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cle strength? A dose-response study. Med Sci Sports Exerc
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effects of static versus dynamic stretching on isometric peak
torque, electromyography, and mechanomyography of the
biceps femoris muscle. J Strength Cond Res 2008; 22:809-17.
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vs. static-stretching warm up: the effect on power and agility
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maximal voluntary isometric torque production by acute stretching is joint angle specific. Res Q Exerc Sport 2001;72:68-70.
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of muscle length. Med Sci Sports Exerc 2006;38:373-4.
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agonist-antagonist muscle activity and muscle force output
during single and multiple joint isometric contractions. Scand
J Med Sci Sports 2007;17:54-60.
60
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
Normas de publicação Fisiologia do Exercício
A Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício é uma publicação
com periodicidade bimestral e está aberta para a publicação e
divulgação de artigos científicos das áreas relacionadas à atividade
física.
Os artigos publicados na Revista Brasileira de Fisiologia do
Exercício poderão também ser publicados na versão eletrônica
da revista (Internet) assim como em outros meios eletrônicos
(CD-ROM) ou outros que surjam no futuro, sendo que pela
publicação na revista os autores já aceitem estas condições.
A Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício assume o “estilo
Vancouver” (Uniform requirements for manuscripts submitted
to biomedical journals) preconizado pelo Comitê Internacional
de Diretores de Revistas Médicas, com as especificações que
são detalhadas a seguir. Ver o texto completo em inglês desses
Requisitos Uniformes no site do International Committee of
Medical Journal Editors (ICMJE), www.icmje.org, na versão
atualizada de outubro de 2007 (o texto completo dos requisitos
está disponivel, em inglês, no site de Atlântica Editora em pdf ).
Os autores que desejarem colaborar em alguma das seções da
revista podem enviar sua contribuição (em arquivo eletrônico/email) para nossa redação, sendo que fica entendido que isto não
implica na aceitação do mesmo, que será notificado ao autor.
O Comitê Editorial poderá devolver, sugerir trocas ou retorno
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recebidos; neste último caso não se alterará o conteúdo científico,
limitando-se unicamente ao estilo literário.
1. Editorial
Trabalhos escritos por sugestão do Comitê Científico, ou por
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Extensão: Não devem ultrapassar três páginas formato A4 em
corpo (tamanho) 12 com a fonte English Times (Times Roman)
com todas as formatações de texto, tais como negrito, itálico,
sobrescrito, etc; a bibliografia não deve conter mais que dez
referências.
2. Artigos originais
São trabalhos resultantes de pesquisa científica apresentando
dados originais de descobertas com relação a aspectos
experimentais ou observacionais, e inclui análise descritiva e/ou
inferências de dados próprios. Sua estrutura é a convencional
que traz os seguintes itens: Introdução, Material e métodos,
Resultados, Discussão e Conclusão.
Texto: Recomendamos que não seja superior a 12 páginas,
formato A4, fonte English Times (Times Roman) tamanho 12,
com todas as formatações de texto, tais como negrito, itálico,
sobre-escrito, etc.
Tabelas: Considerar no máximo seis tabelas, no formato Excel/
Word.
Figuras: Considerar no máximo 8 figuras, digitalizadas (formato
.tif ou .gif ) ou que possam ser editados em Power-Point, Excel,
etc.
Bibliografia: É aconselhável no máximo 50 referências
bibliográficas.
Os critérios que valorizarão a aceitação dos trabalhos serão o de
rigor metodológico científico, novidade, originalidade, concisão
da exposição, assim como a qualidade literária do texto.
3. Revisão
Serão os trabalhos que versem sobre alguma das áreas relacionadas
à atividade física, que têm por objeto resumir, analisar, avaliar
ou sintetizar trabalhos de investigação já publicados em revistas
científicas. Quanto aos limites do trabalho, aconselha-se o mesmo
dos artigos originais.
4. Atualização ou divulgação
São trabalhos que relatam informações geralmente atuais sobre
tema de interesse dos profissionais de Educação Física (novas
técnicas, legislação, etc) e que têm características distintas de
um artigo de revisão.
5. Relato ou estudo de caso
São artigo de dados descritivos de um ou mais casos explorando
um método ou problema através de exemplo. Apresenta as
características do indivíduo estudado, com indicação de sexo,
idade e pode ser realizado em humano ou animal.
6. Comunicação breve
Esta seção permitirá a publicação de artigos curtos, com maior
rapidez. Isto facilita que os autores apresentem observações,
resultados iniciais de estudos em curso, e inclusive realizar
comentários a trabalhos já editados na revista, com condições
de argumentação mais extensa que na seção de cartas do leitor.
Texto: Recomendamos que não seja superior a três páginas,
formato A4, fonte English Times (Times Roman) tamanho 12,
com todas as formatações de texto, tais como negrito, itálico,
sobre-escrito, etc.
Tabelas e figuras: No máximo quatro tabelas em Excel e figuras
digitalizadas (formato .tif ou .gif ) ou que possam ser editados
em Power Point, Excel, etc
Bibliografia: São aconselháveis no máximo 15 referências
bibliográficas.
7. Resumos
Nesta seção serão publicados resumos de trabalhos e artigos
inéditos ou já publicados em outras revistas, ao cargo do Comitê
Científico, inclusive traduções de trabalhos de outros idiomas.
8. Correspondência
Esta seção publicará correspondência recebida, sem que
necessariamente haja relação com artigos publicados, porém
relacionados à linha editorial da revista.
Caso estejam relacionados a artigos anteriormente publicados,
será enviada ao autor do artigo ou trabalho antes de se publicar
a carta.
Texto: Com no máximo duas páginas A4, com as especificações
anteriores, bibliografia incluída, sem tabelas ou figuras.
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
PREPARAÇÃO DO ORIGINAL
1. Normas gerais
1.1 Os artigos enviados deverão estar digitados em processador de
texto (Word), em página de formato A4, formatado da seguinte
maneira: fonte Times Roman (English Times) tamanho 12,
com todas as formatações de texto, tais como negrito, itálico,
sobrescrito, etc.
1.2 Numere as tabelas em romano, com as legendas para cada
tabela junto à mesma.
1.3 Numere as figuras em arábico, e envie de acordo com as
especificações anteriores.
As imagens devem estar em tons de cinza, jamais coloridas, e
com resolução de qualidade gráfica (300 dpi). Fotos e desenhos
devem estar digitalizados e nos formatos .tif ou .gif.
1.4 As seções dos artigos originais são estas: resumo, introdução,
material e métodos, resultados, discussão, conclusão e
bibliografia. O autor deve ser o responsável pela tradução do
resumo para o inglês e também das palavras-chave (key-words).
O envio deve ser efetuado em arquivo, por meio de disquete,
CD-ROM ou e-mail. Para os artigos enviados por correio em
mídia magnética (disquetes, etc) anexar uma cópia impressa e
identificar com etiqueta no disquete ou CD-ROM o nome do
artigo, data e autor.
2. Página de apresentação
A primeira página do artigo apresentará as seguintes informações:
- Título em português, inglês e espanhol.
- Nome completo dos autores, com a qualificação curricular e
títulos acadêmicos.
- Local de trabalho dos autores.
- Autor que se responsabiliza pela correspondência, com o
respectivo endereço, telefone e E-mail.
- Título abreviado do artigo, com não mais de 40 toques, para
paginação.
- As fontes de contribuição ao artigo, tais como equipe,
aparelhos, etc.
3. Autoria
Todas as pessoas consignadas como autores devem ter participado
do trabalho o suficiente para assumir a responsabilidade pública
do seu conteúdo.
O crédito como autor se baseará unicamente nas contribuições
essenciais que são: a) a concepção e desenvolvimento, a análise
e interpretação dos dados; b) a redação do artigo ou a revisão
crítica de uma parte importante de seu conteúdo intelectual; c)
a aprovação definitiva da versão que será publicada. Deverão
ser cumpridas simultaneamente as condições a), b) e c). A
participação exclusivamente na obtenção de recursos ou na coleta
de dados não justifica a participação como autor. A supervisão
geral do grupo de pesquisa também não é suficiente.
Os Editores podem solicitar justificativa para a inclusão de autores
durante o processo de revisão do manuscrito, especialmente se o
total de autores exceder seis.
4. Resumo e palavras-chave (Abstract, Key-words)
Na segunda página deverá conter um resumo (com no máximo
150 palavras para resumos não estruturados e 200 palavras para
os estruturados), seguido da versão em inglês e espanhol.
61
O conteúdo do resumo deve conter as seguintes informações:
- Objetivos do estudo.
- Procedimentos básicos empregados (amostragem, metodologia,
análise).
- Descobertas principais do estudo (dados concretos e
estatísticos).
- Conclusão do estudo, destacando os aspectos de maior
novidade.
Em seguida os autores deverão indicar quatro palavras-chave
para facilitar a indexação do artigo. Para tanto deverão utilizar
os termos utilizados na lista dos DeCS (Descritores em Ciências
da Saúde) da Biblioteca Virtual da Saúde, que se encontra no
endereço Internet seguinte: http://decs.bvs.br. Na medida do
possível, é melhor usar os descritores existentes.
5. Agradecimentos
Os agradecimentos de pessoas, colaboradores, auxílio financeiro
e material, incluindo auxílio governamental e/ou de laboratórios
farmacêuticos devem ser inseridos no final do artigo, antes as
referências, em uma secção especial.
6. Referências
As referências bibliográficas devem seguir o estilo Vancouver
definido nos Requisitos Uniformes. As referências bibliográficas
devem ser numeradas por numerais arábicos entre parênteses e
relacionadas em ordem na qual aparecem no texto, seguindo as
seguintes normas:
Livros - Número de ordem, sobrenome do autor, letras iniciais de
seu nome, ponto, título do capítulo, ponto, In: autor do livro (se
diferente do capítulo), ponto, título do livro (em grifo - itálico),
ponto, local da edição, dois pontos, editora, ponto e vírgula, ano
da impressão, ponto, páginas inicial e final, ponto.
Exemplo:
1. Phillips SJ, Hypertension and Stroke. In: Laragh JH, editor.
Hypertension: pathophysiology, diagnosis and management. 2nd ed.
New-York: Raven press; 1995. p.465-78.
Artigos – Número de ordem, sobrenome do(s) autor(es),
letras iniciais de seus nomes (sem pontos nem espaço), ponto.
Título do trabalha, ponto. Título da revista ano de publicação
seguido de ponto e vírgula, número do volume seguido de dois
pontos, páginas inicial e final, ponto. Não utilizar maiúsculas
ou itálicos. Os títulos das revistas são abreviados de acordo com
o Index Medicus, na publicação List of Journals Indexed in Index
Medicus ou com a lista das revistas nacionais, disponível no site
da Biblioteca Virtual de Saúde (www.bireme.br). Devem ser
citados todos os autores até 6 autores. Quando mais de 6, colocar
a abreviação latina et al.
Exemplo:
Yamamoto M, Sawaya R, Mohanam S. Expression and
localization of urokinase-type plasminogen activator receptor
in human gliomas. Cancer Res 1994;54:5016-20.
Os artigos, cartas e resumos devem ser enviados para:
Guillermina Arias - E-mail: [email protected]
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 1 - janeiro/março 2012
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Calendário de eventos
2012
Junho
Março
29 de março a 1 de abril
Goiânia Capital Fitness
Centro de Convenções Goiânia, GO
Informações: www.bsbfitness.com.br
2 a 5 de abril
XIV Congresso de Ciências do Desporto e Educação Física
dos Países de Língua Portuguesa
Belo Horizonte, MG
Informações: www.casaef.org.br/palops
VII Musculação e Treinamento
Informações: (11) 2714-5678/2714-5695
e-mail: [email protected]
site: www.institutophorte.com.br
14 de abril
I Certificação em Avaliação Funcional, Treinamento
Funcional & Core e Pilates MET
Informações: (11) 2714-5678/2714-5695
e-mail: [email protected]
site: www.institutophorte.com.br
28 de abril a 1 de maio
22º Fitness Brasil Internacional
Santos, SP
Informações: www.fitnessbrasil.com.br
26º JOPEF Brasil
Centro de Convenções, Curitiba, PR
Informações: www.korppus.com.br
26 a 29 de junho
Abril
13 a 15 de abril
7 a 9 de junho
4th International Congress on Cell Membranes and
Oxidative Stress: Focus on Calcium Signaling and TRP Channels
Isparta, Turkey
Informações: www.cmos.org.tr/2012/
Julho
26 a 28 de julho
14º Rio Sports Show
Pier Mauá, Rio de Janeiro, RJ
Informações: www.riosportshow.com.br
Agosto
30 de agosto a 1 de setembro
13th IHRSA Fitness
Latin American Conference Trade Show
São Paulo, SP
Informações: www.fitnessbrasil.com.br
Novembro
9 a 11 de novembro
12º Fitness Brasil Bahia
Salvador, BA
Informações: www.fitnessbrasil.com.br
Re v i s t a
B r a s i l e i r a
d e
Fisiologia
do
exercício
Brazilian Journal of Exercise Physiology
Órgão Oficial da Sociedade Brasileira de Fisiologia do Exercício
Índice
volume 11 número 2 - abril/junho 2012
Editor Chefe
Paulo de Tarso Veras Farinatti
Editor Associado
Pedro Paulo da Silva Soares
Walace Monteiro
Conselho Editorial
Amandio Rihan Geraldes (AL)
Antonio Carlos Gomes (PR)
Antonio Cláudio Lucas da Nóbrega (RJ)
Benedito Sérgio Denadai (SP)
Dartagnan Pinto Guedes (PR)
Douglas S. Brooks (EUA)
Emerson Silami Garcia (MG)
Francisco Martins (PB)
Francisco Navarro (SP)
Luiz Carnevali (SP)
Luiz Fernando Kruel (RS)
Martim Bottaro (DF)
Patrícia Chakour Brum (SP)
Paulo Sérgio Gomes (RJ)
Robert Robergs (EUA)
Rosane Rosendo (SC)
Sebastião Gobbi (SP)
Steven Fleck (EUA)
Yagesh N. Bhambhani (CAN)
Vilmar Baldissera (SP)
Sociedade Brasileira de Fisiologia do Exercício
Corpo Diretivo: Paulo Sérgio C. Gomes (Presidente),
Vilmar Baldissera, Patrícia Brum, Pedro Paulo da Silva
Soares, Paulo Farinatti, Marta Pereira,
Fernando Augusto Pompeu
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício está
indexada no SIBRADID (Sistema Brasileiro de
Documentação e Informação Desportiva)
E-mail: [email protected]
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Atlântica Editora
e Shalon Representações
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Todo o material a ser publicado deve ser enviado
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Editorial
Ginástica, futebol, voleibol e triathlon, Walace Monteiro.....................................66
ARTIGOS ORIGINAIS
Frequência cardíaca máxima obtida e calculada
em testes máximos em cicloergometria,
Juscélia Cristina Pereira, João Carlos Bouzas Marins................................................67
A ansiedade em atletas de ginástica artística em períodos
de pré-competição e competição, Flávio Conceição do Nascimento,
Flavio Fernandes Bahiana, Paulo Cesar Nunes-Junior..............................................73
Análise da capacidade aeróbica e anaeróbica de árbitros
de futebol do Paraná e do Ceará, Alberto Inácio da Silva,
Alex Soares Marreiros Ferraz, Ricardo Lima dos Santos...........................................81
Influência da iniciação ao voleibol na aptidão física
e desempenho motor de crianças do quarto ano
do ensino fundamental, Juliana Victer da Silva Fraga,
Roberto Pereira de Oliveira, Tomires Campos Lopes...............................................87
Evidências de stress oxidativo e alterações eritrocitárias
induzidas por uma prova de triathlon half-ironman,
Faber Sérgio Bastos Martins, José Augusto Rodrigues dos Santos.............................93
Prevalência de excesso de peso em crianças e adolescentes da cidade
de Santos/SP através de dois métodos de avaliação antropométrica,
Cauê V. La Scala Teixeira, Cláudio Zanin Eduardo,
Kety Magalhães Konda, Rodrigo Luiz da Silva Gianoni.........................................100
Incidência de escoliose com excesso de carga nas mochilas
em crianças de 6 a 10 anos, Alisson Guimbala dos Santos Araujo,
Araceli Legal Guimbala, Sônia Izidoro Antunes Cidral,
Simone Suzuki Woellner.......................................................................................105
REVISÕES
Efeito agudo do exercício físico na lipemia pós-prandial,
Jefferson Petto, Anne Karine Menezes Santos Batista,
Carolina Santana de Oliveira, Ana Marice Teixeira Ladeia.....................................111
Mecanismos moleculares antioxidantes modulados
pelo exercício físico, Camila Baumer Tromm,
Luciano Acordi da Silva, Ricardo Aurino de Pinho ...............................................115
NORMAS DE PUBLICAÇÃO....................................................................122
EVENTOS.........................................................................................................123
Atlântica Editora edita as revistas Fisiologia do Exercício, Fisioterapia Brasil, Enfermagem Brasil, Neurociências e Síndromes
I.P. (Informação publicitária): As informações são de responsabilidade dos anunciantes.
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o material publicitário estar em conformidade com os padrões de ética da saúde, sua inserção na revista não é uma garantia ou endosso da qualidade ou do valor do
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66
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
Editorial
Ginástica, futebol, voleibol e triathlon
Walace Monteiro
Tenho o prazer de apresentar o segundo número do volume 11 da RBFEx. O número de artigos submetidos vem
aumentando bastante e com isso a qualidade e diversidade
dos temas abordados também.
A seção de artigos originais conta com seis trabalhos
e inicia com um estudo sobre as respostas de frequência
cardíaca máxima obtida e calculada em testes máximos de
cicloergometria. Mudando o foco, temos uma investigação
que aborda a ansiedade em atletas de ginástica artística no
período pré-competitivo. A iniciação ao voleibol e as questões
do desempenho motor também são enfocadas em crianças
do ensino fundamental. O estresse oxidativo também entra
em pauta em um estudo que trata das alterações eritrocitárias
induzidas por uma prova de triathlon half-ironman. Alberto
Inácio da Silva e sua equipe enviou uma nova pesquisa os
árbitros de futebol, esta vez sobre a capacidade aeróbica e
anaeróbica de árbitros do Paraná e do Ceará. Para encerrar
a sessão de artigos originais temos um trabalho que trata da
incidência de escoliose com o excesso de carga nas mochilas
em crianças de 6 a 10 anos.
A seção de artigos de revisão conta com dois trabalhos.
O primeiro é direcionado aos efeitos do exercício físico na
lipemia pós-prandial. Encerrando este número, publicamos
ume revisão geral que aborda os mecanismos moleculares
antioxidantes modulados pelo exercício físico.
Como visto, os temas da revista estão bem diversificados
para atender aos profissionais das diferentes áreas. Esperamos
que tenham um bom proveito e boa leitura para todos.
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
67
ARTIGO ORIGINAL
Frequência cardíaca máxima obtida e calculada
em testes máximos em cicloergometria
Maximum heart rate obtained and calculated in maximum
cycloergometer tests
Juscélia Cristina Pereira*, João Carlos Bouzas Marins, D.Sc.**
*Mestranda em Educação Física, Laboratório de Performance Humana, Departamento de Educação Física, Universidade Federal de
Viçosa, Viçosa/MG, **Laboratório de Performance Humana, Departamento de Educação Física, Universidade Federal
de Viçosa, Viçosa/MG
Resumo
Abstract
Objetivo: Avaliar a validade de seis equações preditivas de Frequência Cardíaca Máxima (FCM) em ambos os gêneros submetidos a
dois testes máximos com metodologias diferentes, além de comparar
a reprodutividade da FCM obtida (FCMobt). Material e métodos:
Foram avaliados 40 jovens aparentemente saudáveis, sendo 20
homens e 20 mulheres. Foram aplicados dois testes máximos em
ciclo, um com progressão a cada 1 minuto (TCM-1) e o outro a
cada 2 minutos (TCM-2). Para determinar as diferenças entre a
FCMobt nos protocolos e a estimada pelas equações utilizou-se
o teste Anova One Way, associado ao teste de Tukey ( P < 0,05).
Utilizou-se o teste de correlação de Pearson para comparar a FCMobt
nos protocolos. Resultados: Nas mulheres, a FCMobt foi 180,5 +
8,7 bpm (TMC-1) e 181,8 + 10,2 bpm (TMC-2), sem diferença
significativa; nos homens 181,5 + 10,2 bpm (TMC-1) e 177 + 6,9
bpm (TMC-2) com diferenças significativas, sem reprodutividade
na FCMobt. Nas mulheres, a FCM pela equação de Fernahll et al.
foi adequada para o TMC-1, enquanto no TMC- 2 a equação de
Jones et al. foi apontada como adequada; nos homens houve uma
situação de inversão das equações consideradas válidas. Conclusão:
A seleção das equações para predizer a FCM deve ser específica,
segundo o protocolo de cicloergometria selecionado.
Objective: To evaluate the validity of six Maximum Heart Rate
(MHR) prediction equations on both genders that were submitted
to two maximums different tests, and also to compare the MHR
reproducibility obtained (MHRobt). Methods: 40 young apparently
healthy were evaluated, 20 men and 20 women. Two maximum
cycling tests were applied, one with a progression every one minute (MTC-1) and other every two minutes (MTC-2). The Anova
One Way test, associated with Tukey’s test (P < 0.05), was used
to determine the differences between the MHRobt in the protocols
and the estimated by the equations. The Pearson’s correlation test
to compare the MHR between protocols was also used. Results:
In women, MHRobt was 180.5 ± 8.7 bpm (MTC-1) and 181.8
± 10.2 bpm (MTC-2), without significant differences; in men
181,5 ± 10,2 bpm (MTC-1) and 177 ± 6,9 bpm (MTC -2) with
relevant differences, without MHRobt reproducibility. In women,
MHRobt Fernahll et al. equation was adequate for MTC-1, while
in MTC-2 the Jones et al. equation was identified as suitable, in
men there was an inversion situation on the equations considered
valid. Conclusion: The selection of equations to predict the MHR
should be specific according to the cycle ergometry which is the
selected testing protocol.
Palavras-chave: frequência cardíaca, testes de esforço, exercício,
cicloergômetro.
Key-words: heart rate, exercise, physical exercise, cycle ergometric.
Recebido em 6 de março de 2012; aceito em 21 de maio de 2012.
Endereço para correspondência: Juscélia Cristina Pereira, Rua Senador Vaz de Melo, 64/41, 35570-000 Viçosa MG, E-mail:
[email protected]
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
Introdução
A frequência cardíaca (FC) é um parâmetro fisiológico
facilmente mensurado e não invasivo o que torna ampla sua
utilização para avaliar respostas cardiovasculares durante o
esforço físico [1] e na fase de recuperação [2]. É um indicador
fisiológico que contribui na detecção de problemas cardíacos,
além de proporcionar a prescrição e supervisão de um programa de treinamento e possuir estreita relação com o consumo
máximo de oxigênio (VO2 max) [3].
A frequência cardíaca máxima (FCM) é o valor mais elevado da FC que um indivíduo pode atingir em um esforço
de alta intensidade até o ponto de exaustão, sendo um dos
critérios para caracterizar o VO2max durante um teste ergométrico (TE) [4]. Cabe destacar que nem sempre é possível
submeter um avaliado a uma condição de intensidade máxima
por questões de segurança tanto no aspecto neuromuscular
como principalmente cardiovascular. Outra forma de obter
a FCM de um indivíduo sem submetê-lo a um TE é através
de equações de predição em função da idade, que são de fácil
aplicabilidade e nos levam à FCM [5].
No campo da Educação Física, a equação de predição
mais utilizada é [FCM =220-idade] [3,6]. Entretanto, seu
emprego tem sido relacionado com a superestimação da
FCM de indivíduos jovens (< 40 anos) e a subestimação em
idosos [7]. Outros estudos também não encontraram boa
relação entre a FCM obtida (FCMobt) em testes máximos e a
calculada pela equação [FCM = 220 – idade] na população
brasileira [8-10].
As equações de predição para o cálculo da FCM são mais
voltadas para estimar a FCM em testes de corrida, podendo
subestimar os valores de FCM nos testes em cicloergômetro. Isso ocorre porque os testes máximos realizados em
cicloergômetro tendem a apresentar valores de FCM de 5 a
10% inferiores em relação ao obtido em esteira ergométrica,
devido à ocorrência da fadiga periférica, assim como pela
menor massa corporal envolvida [11]. Contudo, o estudo
de Araújo e Pinto [12] encontrou boa associação entre a
FCMobt nos testes realizados nos dois ergômetros para 57%
dos indivíduos, abrindo assim uma interessante questão a
ser investigada.
O ciclismo impõe uma carga física diferente do exercício de corrida, sendo este um fator que pode influenciar
a resposta da FCM. No estudo de Marins e Fernandez
[13] foram apresentadas 53 equações de predição, porém
apenas quatro eram específicas para o cálculo da FCM em
cicloergômetro.
Tendo em vista que o exercício físico realizado em bicicleta ergométrica representa uma forma extremamente usual
de condicionamento físico, é importante estabelecer qual
equação pode predizer melhor a FCM a fim de aprimorar a
qualidade da prescrição de exercício, de forma mais segura
e eficaz, além de ser utilizada como referência durante um
teste máximo. O objetivo deste estudo foi avaliar a validade
de seis equações preditivas de FCM para homens e mulheres
em idade universitária submetidos a dois testes máximos de
cicloergometria - Storrer et al. [14] e Balke [15] -, além de
comparar a reprodutividade da FCMobt entre os dois testes
máximos.
Material e métodos
Participaram do estudo 40 jovens aparentemente saudáveis, estudantes universitários de Educação Física, sendo 20
indivíduos do sexo masculino (22,64 ± 2,57 anos) e 20 do
sexo feminino (22,2 ± 1,67 anos). Como critério de inclusão
os voluntários deveriam ser fisicamente ativos, não possuir
lesões osteomioarticulares, não utilizar nenhum recurso ergogênico e qualquer agravo à saúde que pudesse influenciar
na realização do teste.
O estudo obedeceu aos critérios de ética em pesquisas
com seres humanos, de acordo com a resolução nº 196 de 10
de outubro de 1996 do Conselho Nacional de Saúde. Todos
os avaliados participaram de forma voluntária, preenchendo
termo de consentimento para participar do estudo, contendo
informações sobre os riscos e benefícios envolvidos na realização dos testes, e eram livres para abandonar a pesquisa a
qualquer momento.
Para composição da amostra foi realizada uma triagem
composta pelo Questionário de Prontidão de Atividade
Fisica (PAR-Q) [16], pelo Questionário de Risco Coronário
da Michigan Heart Association [17], além de um terceiro
questionário padrão adotado pelo Laboratório de Performance
Humana da Universidade Federal de Viçosa (MG). A presença
de resposta positiva no PAR-Q, escore igual ou superior a risco
médio ou a presença de algum fator de risco cardíaco ou ortopédico implicavam a exclusão de participação do candidato
ao estudo. Após essa etapa foram medidas a massa corporal e
a estatura dos avaliados, utilizando, respectivamente, balança
Filizola® com precisão em 100 gramas e estadiômetro (Sanny®)
com precisão em milímetros.
Foram aplicados dois testes máximos de cicloergômetro
(ErgoFit®), cujos protocolos foram Storrer et al. [14] e Balke
[15], subdivididos em aquecimento, parte principal e recuperação. O aquecimento para ambos os testes consistiu de um
Watt por kg corporal por quatro minutos. Na parte principal
do teste de Balke [15], a cada dois minutos era adicionada uma
carga de 25 Watts para as mulheres e 35 para os homens, já o
protocolo de Storrer et al. [14], a cada minuto era empregada
uma carga de 15 Watts, estes valores corresponderam para
ambos os sexos. A volta à calma foi feita em três minutos, com
uma redução progressiva de carga a cada minuto, conforme
orientações de Marins [18].
A ordem de realização dos testes ocorreu de forma
aleatória e com intervalo de uma semana entre eles. O
horário de realização era de livre escolha dos avaliados,
podendo ser realizado na parte da manhã ou da tarde,
tendo o segundo teste que ser realizado no mesmo horário
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
que o primeiro. O registro da FC foi feito pelos monitores
cardíacos Team System da Polar® e os dados transferidos
para o software Polar Pro Trainer 5. Foi considerado
como FCM o valor mais elevado de FC obtido nas etapas
finais dos testes.
Dentre as diversas equações de estimativa da FCM citadas na literatura, foram escolhidas seis equações: a) Ricard
et al. [19] [FCM = 205 – (0,687*idade)]; b) Rodeheffer et
al. [20] [FCM = 208,19 – (0,95* idade]; c) Jones et al. [21]
[FCM= 202 – (0,72*idade)]; d) Astrand et al. [22] [FCM
= 211-(0,992*idade]; d) Fernahll et al. [23] [FCM = 189 - (
0,56 * idade)]; e) Karvonen et al. [24] [FCM = 220 – idade].
A seleção das equações indicadas toma por base o fato das
quatro primeiras serem originalmente propostas para protocolos de cicloergometria, enquanto a quinta equação [23]
originalmente foi desenvolvida para indivíduos com retardo
mental e validada no estudo de Marins et al. [25] para testes
máximos em cicloergometria para mulheres, porém com
um protocolo de estímulo anaeróbico. Já a última [FCM =
220 – idade] é usualmente utilizada no campo da Educação
Física e Medicina do Esporte, sendo adotada pelo ACSM
[3] para a prescrição de exercício, sem considerar o tipo de
exercício físico.
69
a FCM para cada equação de predição, compreendida na
faixa de ± 8 bpm, acima ou abaixo, proposta por Robergs
e Landwehr [26]. As análises estatísticas foram realizadas
no software SPSS® 17.
Resultados
Nas Tabelas I e II são expostos os resultados da FCM dos
homens e das mulheres dos testes físicos de Storrer et al. [19]
e de Balke [20], além das equações de estimativa de Ricard et
al., Rodeheffer et al., Jones et al., Astrand et al. , Fernahll et
al. e Karvonen et al. [24-29].
A Tabela I indica que os valores de FCM para as mulheres,
quando comparados os dois testes máximos – Storrer et al.
[14] e Balke [15] apontam não haver diferenças significativas.
Quando comparada a validade das fórmulas de predição, não
houve diferença significativa entre a FCMobt no teste de Storrer
et al. [14] e a equação de Fernahll et al. [23] [FCM = 189 –
0,56 * idade]; já para a FCMobt no protocolo de Balke [15]
não houve diferença quando se considerou a FCM prevista
pela equação de Jones et al. [21] [FCM= 202 – (0,72*idade)].
Nos homens, a Tabela II indica uma diferença significativa
na FCMobt quando comparados os testes máximos. Contudo,
observou-se que não houve diferença entre a FCMobt no teste
de Storrer et al.[14] frente à equação [FCM= 202 – (0,72 *
idade)] proposta por Jones et al. [21]. Já em relação ao protocolo de Balke [15], a equação [FCM = 189 – 0,56 * idade]
proposta por Fernahll et al. [23] não apresentou diferenças
significativas.
O outro critério utilizado foi a zona de variação de ± 8 bpm
proposta por Robergs e Landwehr [29]. Nas Figuras 1 e 2 está
expressa a análise da FCMobt com a predita por seis equações
de estimativa, baseando-se nesse critério nas mulheres e nos
homens, respectivamente.
Tratamento estatístico
Todos os resultados foram expressos em valores médios
e desvio padrão (± DP) para cada um dos parâmetros
obtidos durante os testes. Foi utilizado uma Análise de
Variância (Anova One Way) na comparação entre FCMobt
e os valores de predição das equações, complementado pelo
teste Post-Hoc de Tukey (P < 0,05). O teste de correlação
de Pearson para comparar os resultados de FCM entre os
dois protocolos. Por último, foi realizado, por distribuição percentual, o número de avaliados que apresentaram
Tabela I - Valores de frequência cardíaca verificados nos testes e estimados pelas equações nas mulheres.
Estatística
descritiva
Média
Desvio Padrão
Mínimo
Máximo
Ricard
et al.
189,83
1,04
187
191
Rodeheffer
et al.
187,21
1,44
183
189
Jones
et al.
186*
1,09
183
187
Astrand
et al.
190,16
1,40
187
192
Fernahll
et al.
176,63‡
0,85
174
177
Karvonen
et al.
197,92
1,52
194
200
Storrer
et al.
179,17*
9,05
165
200
Balke
177,64
12,66
152
204
* Não existe diferença significativa com o teste de Balke (p > 0,05)
‡ Não existe diferença significativa com o teste de Storrer et al. (p > 0,05)
Tabela II - Valores de frequência cardíaca verificados nos testes e estimados pelas equações em homens.
Estatística
descritiva
Média
Desvio Padrão
Mínimo
Máximo
Ricard
et al.
189,5
1,67
185
191
Rodeheffer
et al.
186,75
2,31
180
190
Jones
et al.
185,7‡
1,75
181
188
Astrand
et al.
190,19
2,24
184
193
* Não existe diferença significativa com o teste de Balke (p > 0,05)
‡ Não existe diferença significativa com o teste de Storrer et al. (p > 0,05)
Fernahll
et al.
176,36*
1,36
172
178
Karvonen
et al.
197,44
2,43
191
201
Storrer
et al.
181,48
11,59
156
198
Balke
171,5
13,61
149
192
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
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Figura 1- Porcentagem de mulheres que obtiveram a FCMobt na
faixa de flutuação de + 8 bpm, acima ou abaixo, para cada uma
das equações avaliadas.
Storrer
Karvonen et al.
Fernahll et al.
Astrand et al.
Jones et al.
Rodeheffer et al.
Ricard et al.
Balke
Karvonen et al.
Fernahll et al.
Astrand et al.
Jones et al.
Rodeheffer et al.
Ricard et al.
0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100%
Abaixo ± 8bpm
Acima ± 8bpm
Na zona ± 8bpm
Figura 2 - Porcentagem de homens que obtiveram a FCMobt na
faixa de flutuação de ± 8 bpm, acima ou abaixo, para cada uma
das equações avaliadas.
Storrer
Karvonen et al.
Fernahll et al.
Astrand et al.
Jones et al.
Rodeheffer et al.
Ricard et al.
Balke
Karvonen et al.
Fernahll et al.
Astrand et al.
Jones et al.
Rodeheffer et al.
Ricard et al.
0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80%90% 100%
Abaixo ± 8bpm
Acima ± 8bpm
Na zona ± 8bpm
A análise estatística para correlação da FCMobt entre os
testes máximos apresentou valor de 0,2587 (r² = 0,0665)
para os homens e 0,6044 (r² = 0,3653) para as mulheres.
A correlação da FCMobt nos dois protocolos, foi classificada
como baixa entre os homens e média entre as mulheres.
Discussão
Os resultados mostram que existem equações que podem
estimar com boa precisão a FCMobt em testes máximos empregando os protocolos de Storrer et al. [14] e Balke [15] em
população de jovens com idade universitária. Observou-se
que as equações de Fernahll et al. [23] [FCM = 189 – 0,56
* idade] e de Jones et al. [21] [FCM= 202 – (0,72 * idade)]
estimaram a FCM sem diferenças significativas tanto para
homens quanto para as mulheres (Tabela I e II). A primeira
equação foi adequada para o protocolo de Storrer et al. [14]
para as mulheres e de Balke [15] para os homens. Já a segunda
equação foi a que mais se aproximou da FCMobt nos testes de
Balke [15] para o grupo feminino e de Storrer et al. [14] para
o masculino. Assim, essas equações podem ser adotadas como
referência durante uma avaliação ou prescrição de exercícios
para um público com perfil semelhante, composto por jovens
aparentemente saudáveis em idade universitária.
Os resultados do estudo reforçam os achados de Marins et
al. [25], os quais apontaram a fórmula de Fernahll et al. [23]
[FCM = 189 - 0,56 * idade] mais adequada para as mulheres;
já para os homens a equação indicada foi a de Jones et al. [21]
[FCM = 202 – 0,72 * idade]. Cabe destacar que a metodologia empregada [23] correspondeu a um teste anaeróbico,
adaptando-se a metodologia do teste de Wingate, enquanto
no presente estudo foi um teste escalonado progressivo para
determinar o VO2max. Assim, mesmo que o teste seja feito de
forma anaeróbica ou para determinação do VO2max, existem
fortes indícios de que essas equações devem ser consideradas
na hora de estimar a FCM em jovens com idade universitária,
em detrimento de outras equações usualmente empregadas,
como o caso da FCM = 220 – idade, que aplicada irá gerar
interpretações inadequadas sobre os resultados obtidos.
Analisando as Figuras 1 e 2, observa-se que os valores
estimados pela equação de Fernahll et al. [23] e de Jones et al.
[21] se encontram com maior porcentagem dentro da faixa
de flutuação de ± 8 bpm, proposta por Robergs e Landwehr
[26] como critério para validação. No protocolo de Balke [15],
52% do grupo masculino ficou dentro da margem estipulada
para a equação de Fernahll et al. [23] e 60% das mulheres para
a equação de Jones et al. [21]. Já no protocolo de Storrer et
al. [14], 68% dos homens para a equação de Jones et al. [21]
e 75% das mulheres para a de Fernahll et al. [23] obtiveram
valores que se enquadraram dentro da faixa estipulada. Esses
dados são importantes, tendo em vista que para a população
estudada essas duas equações abrangem maior faixa de estimativa da FCM, aumentando assim a precisão da prescrição
e interpretação do exercício.
Em relação às quatro fórmulas que, segundo Marins e
Fernandez [13] são específicas para o cicloergômetro, somente
a de Jones et al. [21] apresentou-se efetiva, reavaliando assim
de certa forma o trabalho original. A regressão da FCM não é
linear, indicando que as equações de estimativa podem variar
segundo a faixa etária [22]. Dessa forma, é possível explicar
que a equação de Jones et al. [21] também foi considerada a
mais adequada para mulheres com idade entre 30 e 66 anos
durante protocolos máximos em esteira [27].
Os resultados obtidos nas Figuras 1 e 2 apontam que, das
equações propostas inicialmente para cicloergômetro, duas
foram as que menos obtiveram avaliados dentro da faixa de
± 8 bpm: Astrand et al. [22] e Ricard et al. [19]. Na primeira
equação, isso foi observado no protocolo de Balke [15] para
os homens e para as mulheres no teste de Storrer et al. [14] e
de Balke [15]; já a segunda equação, nos homens em ambos
os testes e para as mulheres apenas no protocolo de Balke [15],
demonstrando menos adequada para o cálculo da FCM para
seus respectivos testes máximos. Isso amplia a discussão, pois
essas equações foram validadas para o ergômetro bicicleta,
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porém com uma população de etnia diferente da brasileira
reforçando os achados de Schiller et al. [28], em que a etnia
pode influenciar na resposta da FCM obt e consequentemente
na equação selecionada.
Das seis equações analisadas, a que mais apresentou diferença significativa com a FCMobt nos dois testes máximos
foi a [FCM = 220 – idade]. Esta é a equação mais utilizada,
podendo ser justificado pela frequente citação e utilização
dessa fórmula em livros [29-31] e artigos [32,33] relacionados
à fisiologia do exercício e em programas de condicionamento
físico. Como já visto, essa equação tem sido questionada,
especialmente quando se trata de um exercício em bicicleta
fato observado no presente estudo.
Alguns resultados sugerem que a equação [FCM = 220
– idade] superestima a FCM em relação à FCMobt nos testes
máximos em ambos os gêneros [8,9,13,34]. No presente
estudo ocorreu essa superestimação em ambos os protocolos,
tanto para homens quanto para mulheres. Assim como evidenciado anteriormente, diversas pesquisas apresentam resultados
semelhantes aos do presente estudo. Em corredores de fundo
do sexo masculino com idade média de 25 anos, essa equação
foi a que mais se distanciou da FCMobt em TE, sobretudo em
faixas etárias menores [35]. Em estudo envolvendo idosas
brasileiras [10] e 132 indivíduos de ambos os sexos com média
de idade de 45 anos [36], a fórmula de [FCM = 220 – idade]
superestimou a FCMobt.
Nos estudos de Barbosa et al.e Mesquita et al. [37-38], não
se observou significância (p < 0,05) entre as fórmulas estudadas e os dados obtidos. A fórmula [FCM = 220 – idade] foi a
que apresentou maior tendência em superestimar os valores de
referência. Entretanto, esta fórmula apresentou boa correlação
com a FCMobt em indivíduos de ambos os sexos com idade
entre 12 e 69 anos [39]. Contudo, em vários estudos não se
recomenda o uso da equação [FCM = 220 – idade] como
meio para o cálculo da FCM, já que esta fórmula apresenta
um erro-padrão de 10 a 12 bpm podendo ocorrer erros graves
na prescrição do exercício ou na interpretação de um TE [40].
Quando se analisa a FCM nos dois testes máximos (Tabelas I e II), percebe-se que nos homens a forma do protocolo
utilizado influenciou na FCMobt; no protocolo de Storrer
Davis e Caiozo [14] os valores da FCM foram significativamente mais elevados, já que o aumento da carga neste teste
ocorre a cada minuto. Esse comportamento influenciou na
reprodutividade da FCM nos testes máximos, o que pode ser
observado pelo valor baixo da correlação (r = 0,25). Já nas
mulheres foi encontrada correlação de r = 0,60, sem diferenças
significativas entre as FCM nos dois protocolos.
É importante destacar que as recomendações de emprego
das equações indicadas nesse estudo para exercício em cicloergometria são específicas para o perfil amostral avaliado de
jovens em idade universitária aparentemente saudável. Tendo
em vista que a FCM apresenta uma resposta exponencial e
não linear com o fator idade [10], é muito provável que para
grupos com maior faixa etária sejam recomendadas outras
71
equações, o que abre novos horizontes de investigação. Como
a capacidade física no exercício de bicicleta é influenciada
pela fadiga muscular localizada, é esperado que ciclistas e
triatletas tenham FCM diferentes aos obtidos no presente
grupo, sugerindo o emprego de outras equações.
Conclusão
Nas mulheres, a FCMobt independentemente da forma de
progressão de carga do protocolo de cicloergômetro máximo.
Contudo, houve influência na validade das fórmulas estudada: no protocolo de Storrer et al. recomenda-se o emprego
da equação proposta por Fernahll et al. [FCM = 189 - 0,56
* idade]; e no protocolo de Balke, a equação mais adequada
foi a proposta por Jones et al. FCM = [202- 0,72 * idade].
Nos homens, a forma de progressão de carga interfere na
FCMobt, de forma que a progressão a cada minuto impõe um
maior registro de FC. Houve diferença significativa entre os
protocolos máximos. Quando do emprego do protocolo de
Storrer et al. recomenda-se o emprego da equação proposta
por Jones et al. [FCM = 202 - 0,72 * idade]. Por outro lado,
quando empregado o teste de Balke [15], a equação mais
apropriada será a de Fernahll et al. [FCM = 189 - 0,56 *
idade].
Agradecimentos
Apoio: CAPES
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
73
ARTIGO ORIGINAL
A ansiedade em atletas de ginástica artística
em períodos de pré-competição e competição
Anxiety in artistic gymnastics athletes in pre-competition
and competition periods
Flávio Conceição do Nascimento*, Flavio Fernandes Bahiana*, Paulo Cesar Nunes-Junior, Ft. Esp.**
*Professor de Educação Física, **Pós-Graduado em Anatomia Humana e Biomecânica, Especialista em Osteopatia e Terapia Manual
Resumo
A psicologia esportiva vem tentado determinar os níveis adequados e críticos quando o assunto é ansiedade, e tem como objetivo
maior ajudar os atletas a controlarem os seus níveis de ansiedade,
para que os mesmos possam obter resultados esperados em suas
competições. Este estudo teve como objetivo compreender o quanto
a ansiedade vem afetando o desempenho de atletas que praticam a
modalidade Ginástica Artística. Visa também analisar os mesmos,
no que diz respeito aos níveis de ansiedade que podem inibir seu
desempenho atlético, uma vez que atletas têm declarado baixos
resultados causados pelo fato de estarem muito ansiosos sobre um
evento ou competição. Esta pesquisa foi realizada com atletas de
quatro equipes diferentes de Ginástica Artística, das categorias juvenil e adulto (masculina e feminina), composta por 21 atletas, todos
federados de um Clube da Cidade do Rio de Janeiro, na faixa etária
entre 12 e 27 anos. Foram utilizados dois instrumentos de aferição, o
Inventário de Ansiedade Estado Competitiva-2 - CSAI-2 e o Teste de
Ansiedade-Traço em Competições Esportivas - SCAT. Concluiu-se
que, em geral, os atletas analisados apresentaram níveis médios de
Ansiedade-Traço. Os valores para Ansiedade-Estado variaram entre
baixos e médios, de acordo com os resultados apresentados. Quanto
à autoconfiança, esta assumiu níveis médios em três equipes, exceto
na masculina adulto, na qual os níveis apontaram alta confiança.
No entanto os níveis de autoconfiança foram maiores que os níveis
de ansiedade.
Abstract
The sports psychology has been trying to determine appropriate
and critical levels of anxiety, and aims to help athletes to control their
anxiety levels, so that they can achieve expected results in competitions. This study aimed at understanding how much anxiety has
been affecting artistic gymnasts performance and also at analyzing
the anxiety levels that may inhibit their athletic performance, since
athletes have reported poor results caused by anxiety before an
event or competition. This research was conducted with athletes
from four different teams of Artistic Gymnastics, youth and adult
categories (male and female), comprising 21 athletes, all of them
sports licence holders of a Rio de Janeiro club, 12 to 27 years old.
The Competitive State Anxiety Inventory-2 - CSAI-2 and Test-Trait
Anxiety in Sports Competitions – SCAT were used. We concluded
that, in general, analyzed athletes had medium level of anxiety-trait.
The levels of anxiety-state ranged from low to medium, according to
the results. Concerning self-confidence, the three teams had medium
level, except for the adult male, which expressed high self-confidence
levels. However self-confidence levels were higher than anxiety levels.
Key-words: anxiety, athlete, sports psychology.
Palavras-chave: ansiedade, atleta, psicologia esportiva.
Recebido em 23 de fevereiro de 2012; aceito em 31 de maio de 2012.
Endereço para correspondência: Paulo Cesar Nunes Junior, Rua Mearim, 307/301, 20561-070 Rio de Janeiro RJ, Tel: (21)25784036, E-mail: [email protected]
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
Introdução
Por ser um fenômeno sociocultural, o esporte é um dos
conteúdos mais trabalhados na Educação Física, por isso, se
torna alvo permanente de estudiosos e pesquisadores que
buscam incessantemente decifrar suas múltiplas dimensões.
O esporte se apresenta em três dimensões: esporte-educação,
fundamenta-se na construção da personalidade e da cidadania,
esporte participação ou esporte popular referente ao princípio do prazer lúdico, tem por finalidade o bem-estar de seus
praticantes e esporte-performance, proporciona espetáculos
esportivos, já foi ideário olímpico mas hoje também é uma
forma de negócio [1].
Para tornar-se um atleta de elite no mundo moderno, é
necessário ter disciplina, treinar por muitos anos, ter dedicação
quase exclusiva ao esporte e, geralmente, iniciar a carreira
esportiva em idade muito precoce [2]. O desenvolvimento
do atleta não pode estar exclusivamente focado nos aspectos
físicos, técnicos, táticos, mas também deve haver a preocupação com o desenvolvimento intelectual, motivacional,
emocional e social [3].
Os elementos que compõem o cenário esportivo tanto auxiliam quanto prejudicam o desempenho do atleta, chegando
a provocar emoções tanto positivas quanto negativas. Desta
maneira, sentimentos como agressão, ansiedade, estresse,
frustração, medo, auto-superação, realização, prazer, alegria
e divertimento aparecem entrelaçados como principais sentimentos associados à prática esportiva [4].
O atleta de alto nível é visto como uma condição multidimensional, assim há dificuldade para identificar uma
característica definidora, pois todas as variáveis podem ser a
causa da singularidade dos experts. Estudos nessa área buscam
examinar, em cada modalidade esportiva, o peso relativo dos
diversos fatores constituintes (físicos, motores, cognitivos,
perceptivos). No confronto direto entre atletas de alto nível,
ou atletas habilidosos, que apresentam níveis de desempenho
equivalente, há fatores de natureza psicológica que podem
estar influenciando o desempenho dos atletas, como por
exemplo, a percepção do esforço, níveis de motivação entre
outros. Estes fatores, e não apenas as suas capacidades e
conhecimentos específicos podem, muitas vezes, serem os
responsáveis pela pequena diferença de desempenho e, portanto, pela classificação final dos atletas na competição [5].
O equilíbrio emocional é um aspecto integrante do esporte
competitivo. No esporte de rendimento, muitos estímulos
causam efeitos emocionais positivos e/ou negativos, e estes
efeitos influenciam diretamente o desempenho do atleta,
sua forma de atuar e sua disposição diante da competição,
do adversário e das vitórias ou derrotas [6]. A exposição a
alguns tipos de experiências ansiosas pode muitas vezes causar
mudanças fisiológicas como o estreitamento da atenção, o
aumento no consumo de energia, o aumento de adrenalina,
o que interfere negativamente no desempenho global do
atleta. Assim as competições esportivas podem ser vistas como
situações ameaçadoras, capazes de gerar variados níveis de
ansiedade nos atletas [7]. Em alguns casos a competição é
vista pelo praticante como ameaça, dependendo da disposição
da personalidade (competitividade), atitudes, importância
do evento (competição) e resultado, avaliação subjetiva de
competência/habilidade em relação à situação [8].
A competitividade poderia ser multidimensional entre
atletas com tendências comportamentais que podem ser
classificadas em competidor (reflete o prazer de competir em
qualquer situação); determinado (caracterizado por estabelecer objetivos com desejos pessoais que podem ser de vitória
ou de preparação para o desenvolvimento pela experiência); e
vitorioso (busca a vitória como único objetivo em comparação
interpessoal). Assim, alguns competidores ávidos por vencer
podem superar desafios e ter suas melhores apresentações
em competições difíceis, enquanto atletas mais apreensivos
podem evitar desafios, se sentir mais pressionados e ter um
desempenho abaixo das expectativas. Dessa maneira, ficaria
claro perceber que, dependendo da forma como o atleta
interpretasse as situações competitivas como ameaçadoras
ou não, poderiam ocorrer alguns efeitos negativos no seu
desempenho. Um deles é a ansiedade [9].
A maioria dos esportistas sofre pressão, medo e ansiedade
causados pela obrigação de vencer, algo característico em uma
sociedade na qual exalta a emoção da vitória e o sofrimento
da derrota [10]. A ansiedade se caracteriza por um estado
subjetivo de apreensão ou tensão em consequência da interpretação de uma situação de perigo real ou imaginário, um
tipo de afeto negativo, acompanhado de sensações corporais
desagradáveis como, medo, temor, preocupação, sensação de
vazio no estômago; aumento da pressão arterial, frequência
cardíaca e respiratória; aperto no peito e sudorese aumentada
[11].
A ansiedade, um dos estados emocionais mais presentes
no contexto esportivo, merece grande atenção por parte
dos psicólogos do esporte. Diversas definições já lhe foram
atribuídas, no entanto a mais comum é a de um sentimento
de apreensão desagradável, vago, acompanhado de sensações
físicas como o vazio (ou frio) no estômago, opressão no peito,
palpitações, transpiração, dor de cabeça ou falta de ar [12]. Os
processos da ansiedade podem ser descritos através de quatro
premissas: a causa da ansiedade é a expectativa; a ansiedade
se instala por falta de atenção às coisas que se encontram à
nossa volta; a ansiedade enfraquece e anula a vontade (efeito
imediato); a ansiedade leva ao fracasso (efeito mediato) [13].
A ansiedade é uma reação emocional frente ao estresse,
que se caracteriza por nervosismo, preocupação e apreensão
que pode ser gerada por pensamentos (ansiedade cognitiva)
ou por reações físicas (ansiedade somática). Uma complexa
condição psicológica do organismo humano, constituído
por propriedades fenomenológicas e fisiológicas são possíveis
causadores do estado de ansiedade [14]. A ansiedade consistiu
numa emoção típica do fenômeno estresse [15]. Ela poderia
ser considerada um estado emocional negativo caracteri-
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
zado pelo nervosismo, preocupação e apreensão associada
com ativação ou agitação do corpo [16]. A ansiedade é um
sentimento de apreensão desagradável, vago, acompanhado
de sensações físicas como vazio (ou frio) no estômago ou na
espinha, opressão no peito, estremecimentos, transpiração,
dor de cabeça, entre outros sintomas [17].
As pessoas avaliam seu grau de confiança através de seu
estado fisiológico enquanto pensam em uma ação, assim os
estados somáticos e emocionais como ansiedade, estresse,
excitação e os estados de humor proporcionam informações
sobre as crenças de autoeficácia. Reações emocionais fortes
frente a uma tarefa fornecem pistas sobre a previsão de sucesso
ou fracasso. Quando as pessoas têm pensamentos negativos
e temores sobre sua capacidade (ansiedade cognitiva), as
reações afetivas podem reduzir as percepções de autoeficácia
e desencadear mais estresse e agitação [18].
A ansiedade poderia caracterizar um traço psicológico,
chamado Ansiedade-Traço, referindo-se a diferenças individuais relativamente estáveis que levariam a percepção de
situações ameaçadoras de acordo com as experiências pessoais
adquiridas [16]. A ansiedade caracterizou-se por uma grande
variedade de sintomas somáticos (tremura, hipertonia muscular, inquietação, hiperventilação, sudorese, palpitações, etc).
Surgiram também sintomas cognitivos como a apreensão e
inquietação psíquica, hipervigilância, e outros sinais relacionados com a alteração da vigilância (distraibilidade, perda de
concentração, insônias) [19].
As respostas emocionais apresentadas pelos atletas
tornaram-se um foco de estudo de grande interesse dentro
da psicologia do esporte, impulsionando os profissionais
ligados a esta área a avaliar as influências da ansiedade nos
eventos competitivos [20]. As principais pesquisas focaram
na verificação dos níveis de ansiedade entre modalidades com
características próprias, a relação da ansiedade competitiva
e o desempenho, sendo também levada em consideração a
experiência em competições, sua relação com outras características psicológicas e inclusive biológicas como o gênero
e idade [21].
Estas sensações em geral relacionam-se ao nível de
exigência envolvida na situação, como a própria cobrança,
a cobrança do clube, cobrança da comissão técnica, dos
companheiros, da família, da torcida e o medo do fracasso
frente às exigências do momento vivido pelo atleta. Este
medo provocaria padrões de respostas emocionais e físicas impróprias à equipe, prejudicando o desempenho do
atleta, o qual muitas vezes não consegue atuar de maneira
satisfatória dando espaços para erros de jogadas ensaiadas,
passes imprecisos, falta de visão no jogo, inclusive inibição
das capacidades motoras finas e diminuição da capacidade
de tomada de decisão [22].
O temor do fracasso, o temor da vitória, o temor da rejeição do técnico, o temor das agressões, o temor dos danos
físicos, as pressões da sociedade, bem como o sarcasmo dos
familiares são diferentes causas que possibilitariam o aumento
75
do nível de ansiedade em situações pré-competitivas. Assim a
maioria dos atletas altera fisiologicamente seu comportamento
ao se deparar com uma situação competitiva [23].
Na área esportiva, porém, o enfoque dado à problemática
das emoções estaria relacionado à situação do psicólogo para
com o atleta, dá-se no sentido de ajudá-lo a colocar a vitória
ou a derrota numa perspectiva adequada e auxiliá-lo a ter
autoconfiança, apesar da existência do fracasso, levando a
ansiedade a um nível apropriado. A questão da ansiedade
no esporte poderia variar de acordo com a personalidade do
praticante, a idade, o sexo e experiência como atleta. Fizeram-se necessárias observar as características psicológicas do atleta
em cada fase do treinamento, o momento de determinar
objetivos e conteúdos físicos, adaptando-os às exigências que
este demanda [24].
Níveis elevados de ansiedade somática são considerados
negativos para habilidades complexas que exigem motricidade
fina, como a dança, e à medida que a ansiedade somática
aumenta os níveis de tensão e nervosismo aumentam [8].
O grau de ansiedade que um indivíduo apresenta como de
sua personalidade é definido como o traço de ansiedade. Já a
alteração nos níveis de ansiedade, que se tem nos momentos
anteriores a um evento como uma partida ou um torneio, é
chamada de ansiedade-estado que pode ou não ser influenciada pela ansiedade-traço [3].
A Ginástica Artística é uma das modalidades esportivas
mais antigas e populares do programa olímpico. Ela se distingue por sua grande variedade de movimentos artificiais,
dinâmicos ou estáticos, de difícil coordenação, executados em
condições especiais: nos aparelhos, onde o nível dos ginastas
é avaliado por um grupo de juízes, conforme os critérios de
dificuldade do programa, a composição e a qualidade de
execução [25].
A prática da Ginástica Artística vem crescendo em nosso
país e diante da importância de considerar diversos aspectos
desta modalidade, este estudo pretendeu ampliar o conhecimento no âmbito da psicologia aplicada ao esporte, tendo
em vista a dificuldade de trabalhar com Ginástica Artística
visando à obtenção de resultados a curto e médio prazo,
inclusive quando se necessita que o rendimento obtido nos
treinamentos perdure durante as competições. Assim, o objetivo deste estudo foi analisar a ansiedade-traço e a ansiedade-estado nos períodos pré-competitivo e competitivo em duas
categorias da modalidade.
Material e Métodos
O estudo envolveu quatro equipes de Ginástica Artística
das categorias juvenil e adulto (masculina e feminina), compostas por 21 atletas, sendo seis na equipe masculina adulta,
três na equipe masculina juvenil, seis na equipe feminina
adulta e seis na equipe feminina juvenil. Os atletas apresentaram faixa etária entre 12 e 27 anos, todos federados num
Clube localizado no Estado do Rio de Janeiro.
76
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
Como instrumentos de aferição foram utilizados dois
protocolos: o inventário de ansiedade Estado Competitiva-2
- CSAI-2 e o Teste de Ansiedade-Traço em Competições
Esportivas - SCAT. O primeiro protocolo, CSAI-2 objetivou
aferir a ansiedade-estado pré-competitiva, ou seja, quanta ansiedade o atleta sente em dado momento no tempo, no caso,
antes da competição. Ansiedade-Estado é um estado emocional temporário, em constante variação, com sentimentos de
apreensão e tensão conscientemente percebidos, associados
com a ativação do sistema nervoso autônomo. Poderia ser
uma ansiedade-estado cognitiva, a qual se diz respeito ao grau
em que a pessoa se preocupa ou teria pensamentos negativos.
Ou poderia ser ansiedade-estado somática, que aconteceria
entre um momento e outro, sendo percebida por reações
fisiológicas [17].
O CSAI-2 é um instrumento de medida multidimensional, composto por 27 afirmações/questões, que teria como
objetivo diagnosticar e quantificar três variáveis psicológicas:
ansiedade cognitiva (itens – 1, 4, 8, 11, 14, 15, 20, 23 e 26),
ansiedade somática (itens – 2, 6, 9, 12, 16, 18, 21, 24 e 27)
e autoconfiança (itens – 3, 5, 7, 10, 13, 17, 19, 22 e 25).
Os atletas responderam a uma escala tipo Likert de quatro
pontos (1 = nada, 2 = um pouco, 3 = bastante, 4 = completamente) [26].
O segundo protocolo denominado SCAT foi destinado à identificação do perfil de ansiedade em competição
esportiva tendo como objetivo fornecer uma medida de
ansiedade-traço competitiva reproduzível e válida de como
os atletas ansiosos sentem-se antes de uma competição. O
questionário possuía 15 questões fechadas relacionando
sintomas e possíveis reações apresentadas antes de uma
competição. Suas respostas variavam: dificilmente (1); às
vezes (2) e frequentemente (3).
A análise das respostas foi realizada mediante a avaliação
de somente 10 afirmativas: 2, 3, 5, 6, 8, 9, 11, 12, 14, e 15.
A elas foram atribuídos 1, 2, e 3 pontos (1, 2 e 3 respectivamente), com exceção das afirmativas 6 e 11, em que essa
atribuição foi feita de forma invertida. Ao final, somaram-se
os pontos marcados por cada atleta, e obteve-se uma escala
que variava de 10 a 30 pontos. Para classificar os níveis de
ansiedade-traço (o fato de o atleta ser ou não ansioso), foi
utilizada uma escala obtida por um procedimento estatístico
através da razão e semelhança de proporcionalidade, sendo
10-12 pontos (baixa ansiedade), 13-16 pontos (média baixa),
17-23 pontos (média), 24-27 pontos (média alta), e, acima
de 28 pontos (alta ansiedade).
Durante um dia de treino, o pesquisador visitou o
Clube localizado no Estado do Rio de Janeiro e conversou com seus respectivos técnicos a respeito do trabalho.
Após autorização dos técnicos, os atletas das categorias
juvenil e adulto foram convidados a participar do trabalho.
Solicitado foi que estes respondessem por escrito a um
questionário logo após o término de sua participação em
um treino (CSAI- 2).
No dia da competição, antes da primeira apresentação de
cada atleta, o pesquisador acompanhou o atleta até a arquibancada do ginásio, de forma que este não fosse incomodado,
e lhe entregou uma folha com o questionário (SCAT) e uma
caneta para que este o respondesse, o pesquisador realizou a
entrevista aos atletas em até duas horas antes do início de uma
competição válida para o Ranking Brasileiro.
Garantido foi o sigilo das informações relatadas, solicitando que o atleta tentasse ser o mais honesto e preciso possível
em suas respostas e informando que não haveria respostas
certas ou erradas. Adicionalmente, o pesquisador se disponibilizou a esclarecer possíveis dúvidas.
Este estudo atende as Normas para a Realização de Pesquisa em Seres Humanos, Resolução 196/96, do Conselho
Nacional de Saúde de 10/10/1996. Os técnicos das equipes
participantes do estudo assinaram o Termo de Participação
Consentida que continha o objetivo do estudo, os procedimentos de avaliação, as possíveis consequências, os procedimentos de emergência, o caráter de voluntariedade da
participação do sujeito e a isenção de responsabilidade por
parte do avaliador.
Os dados coletados foram tratados mediante a utilização
de estatística descritiva utilizando valores percentuais, para
identificar a maior incidência das respostas obtidas. Estimativas de medidas de localização (média e mediana) e dispersão
(desvio-padrão e coeficiente de variação) foram feitas, visando
caracterizar os grupos anteriormente apresentados [27].
Resultados e Discussão
Em situações de jogo, é fator determinante para o
rendimento em esportes coletivos unir habilidades motoras (agilidade, velocidade e resistência aeróbia) com as
capacidades de movimento baseadas nas atitudes técnicas,
táticas e de aplicação. Nos esportes coletivos, os jogadores
envolvidos necessitam dominar muitos fatores simultaneamente como os relacionado à técnica do jogo, aos gestos
específicos do esporte e, em relação à tática do jogo, saber
avaliar e selecionar movimentos mais adequados de acordo
com as exigências em cada situação. Assim, jogadores devem
saber o que fazer, como fazer e quando fazer, mostrando que
eficiência (como fazer), eficácia (resultado) e a adaptação
(como utilizar) estão constantemente relacionadas. Embora
sejam bem treinados técnica/tática e fisicamente, os atletas
não respondem da mesma maneira aos estímulos externos
durante uma competição, pois a pressão passa para a área
emocional. Desse jeito, atletas bem preparados podem
apresentar problemas de rendimento durante a competição,
enquanto outros podem crescer de rendimento quando esta
se apresenta [28].
A ansiedade cognitiva pode ser vista como as preocupações
e expectativas negativas acerca do rendimento e autoavaliação
negativa. A ansiedade cognitiva consiste em pensamentos
negativos e preocupações sobre o desempenho, incapacidade
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
para se concentrar e atenção desconcentrada [29]. A ansiedade
cognitiva caracteriza-se pelos pensamentos negativos e medo
de atingir os objetivos, assim poderia causar reações como
medo, desinteresse, apatia e apreensão, e quando este tipo
de ansiedade é elevado produz efeitos negativos no contexto
esportivo, como uma diminuição da concentração e da agilidade psicomotora fina. A ansiedade cognitiva é caracterizada
pela consciência de pressentimentos desagradáveis acerca
de si próprio ou estímulos exteriores, como preocupações e
distúrbios de imagens visuais [30].
No início e durante os momentos cruciais das competições, quando o nível de movimentação corporal dos atletas
aumenta, sua capacidade de atenção fica afetada e geralmente
há uma redução no rendimento esportivo. Na maioria dos
esportes esta queda de rendimento se diagnostica pelo estado
de alto nível de ansiedade [31].
Neste estudo, realizado com atletas de Ginástica Artística,
observa-se que não houve diferença significativa neste aspecto
entre os atletas. Observa-se que as equipes masculina adulta
e feminina juvenil, 83,34% dos atletas componentes da
amostra, apresentaram baixa ansiedade cognitiva, e 16,66%
apresentaram a mesma em nível médio. Na equipe masculina
juvenil 100% dos atletas componentes da amostra apresentaram baixa ansiedade cognitiva. Na equipe feminina adulto,
66,68% dos atletas apresentou ansiedade cognitiva baixa, e
33,32% apresentaram a mesma em nível médio (Tabela I).
Indivíduos do gênero feminino são mais afetados, apresentando menor nível de autoconfiança, maiores níveis de
ansiedade e percepção de ameaça, principalmente quando
competem em modalidades individuais [32].
Tabela I - Análise descritiva das medidas de localização e dispersão
da ansiedade-estado.
Média
Masculino Desvio-padrão
Mediana
Adulto
Coeficiente de Variação
Média
Masculino Desvio-padrão
Mediana
Juvenil
Coeficiente de Variação
Média
Feminino Desvio-padrão
Mediana
Adulto
Coeficiente de Variação
Média
Feminino
Desvio-padrão
Juvenil
Mediana
Coeficiente de Variação
13,50
4,04
12,50
29,91
8,17
9,04
7,00
110,72
17,00
5,73
18,00
33,69
16,67
1,97
16,50
11,80
15,67
2,66
15,50
16,97
7,50
8,29
6,50
110,51
16,50
4,32
14,50
26,21
20,83
2,64
20,00
12,67
28,83
4,79
30,50
16,62
12,50
14,14
9,50
113,11
21,33
7,20
20,00
33,76
25,17
4,17
26,50
16,56
A autoconfiança é um componente que interfere nos níveis
de estresse pré-competitivo vivenciados pelo atleta, assim tem
relação inversa aos níveis de ansiedade competitiva vivenciados
pelo sujeito [26].
77
Como ocorreu baixa ansiedade cognitiva, pôde-se concluir
que existe um aumento da autoconfiança (Tabela II). Pois a
ansiedade cognitiva seria vista como a ausência de autoconfiança ou vice-versa, ou seja, a autoconfiança se caracteriza
por baixa ansiedade cognitiva [30].
Tabela II - Frequência da classificação da ansiedade cognitiva.
Grupo
Juvenil
Adulto
Total
Sexo
Masculino
Feminino
Masculino
Feminino
Baixa
(9-18)
3
5
5
4
17
Média
Alta
(19-27) (28-36)
1
1
2
4
Total
3
6
6
6
21
Houve pequena diferença entre os grupos no tocante a
ansiedade cognitiva, a maior parte dos atletas das equipes apresentou apenas índices relativos à baixa ansiedade, mostrando
que o grupo está dando conta de minimizar os efeitos da ansiedade. Os resultados encontrados nos outros atletas poderiam
ser compreendidos pela característica do esporte de não ter com
quem dividir seus receios, medos, e por fim suas ansiedades.
O grau de ansiedade cognitiva vivenciada por um atleta
resultaria da sua percepção de competência, desenvolvida
a partir de suas experiências competitivas anteriores e pela
capacidade dos adversários. Portanto, quando as expectativas
se tornassem incertas haveria um aumento da ansiedade
cognitiva e uma diminuição da autoconfiança, resultando
num mau desempenho na competição [33]. É o contrário
do que se observa nesta pesquisa, em que houve uma baixa
ansiedade cognitiva, assim percebe-se que se não houve um
bom desempenho nas competições não se deve a falta de
autoconfiança.
Conceitua-se ansiedade somática, como as percepções
dos sintomas corporais causados pela ativação do sistema
nervoso autônomo, caracterizada por uma grande variedade
de sintomas somáticos como tremura, hipertonia muscular,
inquietação, hiperventilação, sudorese, boca seca, aumento
da frequência cardíaca, entre outros. Envolvendo a participação do organismo como um todo, colocando-o em estado
de alerta, resultando no aumento dos níveis de adrenalina e
cortisol. Ou seja, seria uma resposta fisiológica aos fatores
psicológicos que estão ocorrendo, neste caso, um estado de
ansiedade no momento que antecede a competição. Um
elevado nível de ativação através da ansiedade somática seria
essencial para atividades desportivas que requerem velocidade,
resistência e força, como o futebol, hóquei em patins, basquetebol, natação, salto em altura, etc. Entretanto, um nível
elevado de ansiedade somática seria negativo para habilidades
complexas que exigem motricidade fina, muita coordenação,
concentração e equilíbrio. O autor afirmou que a ansiedade
somática deveria influenciar o desempenho inicial, quando os
atletas estão sentindo-se nervosos ou tensos, e ter um impacto
mínimo no desempenho posterior [29].
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
78
Observando os resultados obtidos nas equipes (Tabela
III), nota-se que na masculina adulto 83,33% dos componentes da amostra apresentaram baixo nível de ansiedade
somática e outros 16,67% apresentaram nível médio da
mesma. Na equipe feminina adulto, 66,68% apresentaram
baixo nível de ansiedade somática, 33,32% apresentou nível médio da mesma. Na equipe masculina juvenil, 100%
apresentou baixo nível de ansiedade somática e na equipe
feminina juvenil, 16,67% apresentou baixo nível, enquanto
83,33% dos componentes da equipe apresentaram nível
médio da mesma.
Tabela III - Frequência da classificação da ansiedade somática.
Grupo
Juvenil
Adulto
Total
Sexo
Masculino
Feminino
Masculino
Feminino
Baixa
(9-18)
3
1
5
4
13
Média
Alta
(19-27) (28-36)
5
1
2
8
Total
3
6
6
6
21
Não houve diferenças significativas nessa dimensão de
ansiedade entre as equipes. Já que os grupos apresentaram
de média a baixa ansiedade somática.
A autoconfiança deveria ser encarada como a inexistência
de ansiedade cognitiva, sendo que a ansiedade cognitiva seria
vista como a falta de autoconfiança [29].
Quando o atleta consegue atingir ou manter um nível
ótimo de ansiedade ele está sociologicamente controlado, o
que é benéfico para seu bom desempenho. Atletas hábeis são
relativamente estáveis, consistentes e previsíveis, aprendendo
como se desempenhar bem sob todo tipo de condição (favorável ou desfavorável), respondendo então a competição sob
um estado emocional ideal [34].
Observa-se que na amostra pesquisada houve diferença significativa entre as equipes. Nas equipes masculinas
nenhum atleta apresentou baixa autoconfiança. Na equipe
adulta, 33,32% apresentou nível médio e 66,68% apresentou nível alto de autoconfiança. Na juvenil, 66,68%
apresentou nível médio e 33,32% apresentou nível alto
de autoconfiança, ou seja, nesta modalidade os atletas
possuem uma boa média de autoconfiança, o que por
consequência se relaciona com a baixa ansiedade cognitiva.
Nas equipes femininas, 16,67% da equipe juvenil e 33,32%
da equipe adulto apresentou baixo nível de autoconfiança, sendo uma atleta da equipe juvenil e duas da equipe
adulto. No entanto, 66,68% das atletas da equipe juvenil
e 50,01% da equipe adulto apresentaram nível médio de
autoconfiança. Somente 16,67% das equipes apresentaram
nível alto da mesma. Percebe-se que as atletas não se mostraram tão autoconfiantes como as equipes masculinas, mas
mesmo assim, existiu também baixa ansiedade cognitiva
(Tabela IV).
Tabela IV - Frequência da classificação da autoconfiança.
Grupo
Juvenil
Adulto
Sexo
Baixa
(9-18)
Masculino
Feminino
Masculino
Feminino
1
2
3
Total
Média
Alta
(19-27) (28-36)
2
1
4
1
2
4
3
1
11
7
Total
3
6
6
6
21
A ansiedade-traço é uma característica psicológica relativamente estável quando o atleta percebe certos estímulos do
meio competitivo como ameaçadores ou não e a eles respondem com níveis variados de ansiedade-estado. A forma como
o atleta interpreta esses estímulos pode variar de acordo com
o tipo de esporte, idade e sexo. A ansiedade é um dos impedimentos mais comuns para um bom desempenho. Quando se
tem um nível alto de ansiedade o “campo” de concentração de
um indivíduo e totalmente atingido então o mesmo começa
a prestar atenção apenas a um número de sinais limitados,
diminuindo assim seu desempenho [35].
Não houve diferença significativa entre os grupos, relacionada à ansiedade-traço (Tabela V), pois nenhum dos atletas
das equipes apresentou índices relativos à baixa ansiedade,
mostrando que os grupos apresentaram um nível médio de
ansiedade-traço.
Tabela V - Análise descritiva das medidas de localização e dispersão
da ansiedade-traço.
Estatística
Média
Desvio-Padrão
Mediana
Coeficiente de
Variação
Masculino
Adulto
21,33
2,16
21,50
Masculino
Juvenil
17,67
1,53
18,00
10,13
8,65
Feminino Feminino
Adulto
Juvenil
18,33
2,66
17,50
16,33
1,86
16,00
14,50
11,40
A ansiedade-traço tem influência na percepção de
ameaça, na medida em que os atletas com níveis mais altos
da mesma podem perceber um maior grau de ameaça em
situações competitivas do que os atletas com níveis mais
baixos [29].
Na amostra pesquisada observa-se que houve diferença
entre as equipes (Tabela VI). Na equipe masculina adulto,
33,32% apresentou nível médio baixo e 66,68% dos atletas
apresentou nível médio de ansiedade-traço. Na equipe feminina adulto, 16,67% apresentou nível médio baixo e médio
respectivamente e 66,68% apresentou nível médio alto de
ansiedade-traço. Na masculina juvenil, 83,34% apresentou
nível médio e 16,66% apresentou nível médio alto. A equipe
feminina juvenil foi a que apresentou os maiores valores,
onde 33,33% das atletas apresentaram média, média alta e
alta ansiedade-traço respectivamente.
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
Referências
Tabela VI - Frequência da classificação da ansiedade-traço.
Baixa Média Média Média Alta
(10- Baixa
(17Alta
(2812) (13-16) 23) (24-27) 30)
Juvenil Masculino
2
1
Feminino
2
2
2
Adulto Masculino
2
4
Feminino
1
1
4
Total
3
9
7
2
Grupo
Sexo
Em geral, espera-se que os esportistas que apresentam alta
ansiedade-traço demonstrem elevações de ansiedade-estado,
pois se a competição for percebida como ameaçadora, sem
objeto de perigo, ou seja, simbólica, inespecífica e antecipada, o indivíduo responde com alta ansiedade-estado. Porém,
se a competição for percebida como não ameaçadora, o
indivíduo reage com ansiedade-estado baixa. Entretanto, se
pessoas que diferem em ansiedade-traço mostrarão, ou não,
as diferenças correspondentes em ansiedade-estado, dependerá do grau em que a competição específica é percebida por
um indivíduo em particular como perigosa ou ameaçadora,
e isso, é grandemente influenciado por experiências passadas
do indivíduo [14].
Conclusão
Objetivando analisar a ansiedade-traço e a ansiedade-estado, nos períodos pré-competitivo e competitivo, em duas
categorias da modalidade Ginástica Artística, avaliou-se 21
pessoas. Concluiu-se que, em geral, estes apresentaram níveis
médios de ansiedade-traço. Os valores para ansiedade-estado
variaram entre baixos e médios, de acordo com os resultados
apresentados.
Quanto à autoconfiança, esta assumiu níveis médios em
três equipes, exceto na masculina adulto, onde os níveis apontaram alta confiança. No entanto os níveis de autoconfiança
foram maiores que os níveis de ansiedade. O fato dos atletas
acreditarem no seu potencial pode ser bom para os mesmos
e seus resultados futuros.
Recomenda-se para estudos futuros a consideração
do tempo de prática com o nível de ansiedade, dado que
haveria a expectativa de que a experiência pudesse atenuar
o quadro ansioso por conhecimento e vivência da prática
competitiva. O impacto da preparação psicológica deveria
ser investigado, uma vez que o treinamento de desporto
de alto nível na atualidade tende a ser amplo e complexo,
desta forma seria possível pormenorizar a eficiência daquela
preparação sobre a condição geral do atleta. O detalhamento dos resultados também poderia ser alcançado com
a estratificação dos resultados em razão da categoria etária
dos praticantes.
79
Total
3
6
6
6
21
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
81
ARTIGO ORIGINAL
Análise da capacidade aeróbica e anaeróbica
de árbitros de futebol do Paraná e do Ceará
Analysis of the aerobic and anaerobic capacity of Paraná
and Ceará soccer referees
Alberto Inácio da Silva, D.Sc.*, Alex Soares Marreiros Ferraz**, Ricardo Lima dos Santos***
*Departamento de Educação Física da Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG, Coordenador do Grupo de Pesquisa em
Arbitro de Futebol – GPAF,**Universidade Federal do Piauí – UFPI, ***Universidade de Fortaleza – UNIFOR
Resumo
O objetivo deste estudo foi realizar uma análise comparativa
entre a capacidade aeróbica e anaeróbica entre os árbitros de futebol
do estado do Paraná e do Ceará. Para a avaliação física dos árbitros
utilizou-se o teste da FIFA, composto por uma corrida de 12 minutos (teste de Cooper), duas corridas de 50 m e duas corridas de
200 m. No teste de Cooper a distância percorrida foi de 2830 ±
134 metros. O tempo médio de todos os árbitros envolvidos neste
estudo (n = 78) na corrida de 50 metros foi de 6,98 ± 0,36 s no
primeiro sprint e de 7,05 ± 0,41 s, no segundo. Na corrida de 200
m, o tempo médio foi 29,57 ± 1,51 s, no primeiro sprint e de 30,62
± 1,56 s no segundo. A performance física dos árbitros envolvidos
neste estudo é semelhante a de árbitros de nível internacional.
Abstract
The aim of this study was to conduct a comparative analysis
between the aerobic and anaerobic ability among soccer referees
of Paraná and Ceará state. For the referees physical evaluation was
used the FIFA test, composed by 12-minute run (Cooper test), two
races of 50 m and 200 m, and the Cooper test distance covered was
2830 ± 134 meters. The mean time of all referees involved in the
study (n = 78) in the 50 meters race was 6.98 ± 0.36 s and 7.05 ±
0.41 s in first and second sprint, respectively. In the race for 200
meters, mean time was 29.57 ± 1.51 s in the first and 30.62 ± 1.56
s in the second sprint. The referee’s physical performance of referees
involved in the present study was similar to the international referees.
Key-words: referee, soccer, fitness test.
Palavras-chave: árbitro, futebol, teste físico.
Introdução
O futebol é sem dúvida o esporte com o maior número
de participantes e espectadores no mundo. Em nosso país
tal evento transcende o âmbito do esporte a ponto de ser
dito “paixão nacional”, dessa forma, torna-se recorrente nas
rodas de conversa os fatos relacionados aos times e jogos de
futebol. Nesse contexto, acaloram-se os debates sobre lances
polêmicos e as decisões da arbitragem sobre tais fatos. Para
alguns é exatamente esse aspecto humano do futebol que
mantém acesa a enorme paixão do brasileiro por esse esporte.
Com os avanços do treinamento esportivo ao longo das
últimas décadas, a intensidade do jogo de futebol aumentou,
os jogadores de elite, atualmente ganharam uma elevada capacidade de executar as ações motoras de alta intensidade, exigidas
pelos altos níveis de performance atuais [1], fato que por sua
vez exige também dos árbitros um alto nível de aptidão física.
Só com essa elevada forma física os árbitros conseguirão estar
próximos de todas as jogadas durante todo o decurso dos 90
minutos de jogo. Sua aptidão física deve ser bem desenvolvida
para se evitar fadiga e não ter sua capacidade de observação,
percepção e tomada de decisões prejudicadas [2,3].
Recebido em 7 de março de 2012; aceito em 4 de junho de 2012.
Endereço para correspondência: Alberto Inácio da Silva, Rua Sete de Setembro, 40, 84010-350 Ponta Grossa PR, Tel: (41) 91121393, E-mail: [email protected]
82
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
Diante desse novo contexto e no sentido de verificar se a
preparação física dos árbitros estava compatível com as atuais
exigências de desempenho do futebol moderno, em 1989 a
Fédération Internationale of Football Association (FIFA),
desenvolveu uma bateria de testes físicos para a avaliação periódica de seu quadro de árbitros [4]. A rotina de avaliação era
composta por quatro testes: teste de Cooper, duas corridas de
50 metros, duas corridas de 200 metros e um que mensurava
a agilidade (4 x 10 m), sendo essa última abolida em 1995.
Após a elaboração dessa bateria de testes, começaram a
surgir na literatura científica trabalhos descrevendo o nível de
condicionamento físico dos árbitros, bem como trabalhos que
buscavam correlacionar as mais diversas variáveis biológicas
à sua performance física nesses testes. O trabalho pioneiro
nessa área foi elaborado por Rontoyannis et al. [4], na Grécia,
em 1992, nele os autores compararam os resultados obtidos
por árbitros de quatro divisões do futebol grego nos testes
propostos pela FIFA, no intuito de verificar qual grupo estava
melhor fisicamente.
Além da preocupação de se verificar o desempenho dos
árbitros nos testes físicos, surgiram alguns estudos acadêmicos
verificando se os resultados obtidos nestas avaliações estavam
relacionados com o desempenho físico dos árbitros de futebol
de elite no transcorrer da partida [5,6]. Outras pesquisas
objetivaram comparar o teste de Cooper versus o Yo-Yo teste,
como modelos de avaliação da capacidade aeróbica. Esses
estudos concluíram que o Yo-Yo teste seria mais adequado
para compor a bateria de teste da FIFA, pois apresentava
melhores e mais altas correlações com o deslocamento de
alta velocidade executado no transcorrer do jogo [6,7]. Já Da
Silva et al. [8] sugerem a utilização do teste de multi-estágio
de 20 metros de Léger, pois o VO2 máx. obtido durante este
teste versus o teste de Cooper não apresentava diferença estatisticamente significante, sendo que as ações motoras desse
teste se assemelham mais as que os árbitros realizam durante
uma partida. Em outros estudos o foco tem sido a verificação
das diferenças entre a condição física de árbitros de diferentes
faixas etárias [9,10].
Apesar do esforço de alguns pesquisadores que buscam
mostrar aspectos relacionados à condição física dos árbitros
de futebol, muito pouco se conhece sobre a capacidade física
dos árbitros brasileiros, levando-se em conta seu contexto
geral. Por possuir um território de dimensões continentais, o
Brasil é o maior país da América Latina e o quinto do mundo em área total (8.514.215,3 km²), somado ao fato de sua
população ser composta por uma vasta diversidade étnica e
cultural. Sugerimos que as características físicas, alimentares
e comportamentais possam interferir na condição física da
população de cada região do Brasil, com implicações em grupos específicos como no caso dos árbitros de cada federação
estadual de futebol.
Apesar de encontrarmos trabalhos descrevendo a performance de árbitros brasileiros [2], poucos são os que comparam o desempenho entre os quadros das diversas federações
nacionais. O primeiro trabalho comparando a performance
física de árbitros de dois estados, Paraná e Piauí, foi publicado
recentemente [11], nesse caso as realidades geográficas, bem
como o contexto desses estados no futebol brasileiro são
bastante distintas. Como forma de ampliar essa perspectiva,
este estudo teve como objetivo avaliar e comparar o nível de
aptidão física aeróbica e anaeróbica dos árbitros profissionais
de elite dos estados do Paraná e do Ceará que, embora possuam uma proximidade geográfica com o Piauí, apresentam
uma maior similaridade com o Paraná no tocante ao nível de
inserção no futebol brasileiro.
Material e métodos
Os procedimentos aqui adotados estão de acordo com a
Resolução Nº 196, de 10 de outubro de 1996, do Conselho
Nacional de Saúde, que trata dos procedimentos de pesquisa
em seres humanos. O projeto foi aprovado pelo Comitê de
Ética da UNIFOR-COETICA. Cada voluntário, antes de
participar deste estudo, assinou o termo de concordância que
esclareceu o procedimento experimental realizado e autorizou
a utilização dos dados coletados no trabalho científico aqui
proposto. O voluntário não recebeu nenhum estímulo econômico para participar desta pesquisa.
A população deste estudo foi constituída por árbitros
da Federação Paranaense de Futebol (FPF) e da Federação
Cearense de Futebol (FCF), sendo alguns também credenciados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Eles se
apresentaram às Comissões de Avaliação da Aptidão Física de
ambas as federações para se submeterem às provas de aptidão
física. A amostra foi constituída por 21 árbitros do Estado do
Ceará e 57 do Estado do Paraná, todos do sexo masculino.
As provas para avaliação da aptidão física dos árbitros de
futebol foram realizadas de acordo com as recomendações
da FIFA vigentes para aquele ano. A bateria de testes foi
constituída de uma corrida de 12 minutos (teste de Cooper), dois piques de 50 metros, dois piques de 200 metros,
realizados de forma alternada. As provas foram aplicadas na
seguinte ordem: primeiramente, uma corrida de 12 minutos,
seguida por um pique de 50 metros; depois um pique de 200
metros, seguidos novamente por outro pique de 50 metros,
finalizando o teste com mais um pique de 200 metros. O
tempo de recuperação durante as provas não foi inferior a
5 minutos. Os testes foram aplicados em pista de atletismo
e, após a realização dos mesmos, os sujeitos permaneceram
caminhando até o local da próxima prova, caracterizando, com
isso, recuperação do tipo ativa. Após a execução do teste de
Cooper foi dado intervalo de pelo menos 15 minutos para a
realização das provas anaeróbicas.
Para a realização dos testes anaeróbicos, adotaram-se as
propostas de Marins; Giannich [12], que preconizam que é
aconselhável dois indivíduos executarem o teste simultaneamente. Para mensuração dos tempos foi utilizado cronômetros
Technos, modelo Cronus.
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
Para o cálculo do consumo do VO­2 máx. de cada indivíduo
avaliado foi utilizada a fórmula de Cooper [2].
83
tatisticamente significativa (p = 0,4602). A distância média
percorrida por todos os árbitros envolvidos neste estudo (n
= 78) foi de 2830 ± 134 metros (máximo 3300 – mínimo
2665). Após a determinação do VO2 máx, considerando o
grupo como um todo, obteve-se um valor médio de 51,7 ±
3,0 ml.kg-1min-1 (62,1 – 48), em que também não se percebe
diferenças significativas (p = 0,4614) entre os resultados dos
árbitros dos dois estados.
VO2 máx. = D – 504 / 45
Onde: D = à distância percorrida durante os 12 minutos.
Para o tratamento estatístico das informações, utilizou-se
inicialmente a estatística descritiva para agrupar os resultados
em valores de média, desvio padrão e valores máximo e mínimo. Em função do reduzido número de indivíduos no grupo
de árbitros do Ceará adotou-se a conversão logarítmica para as
variáveis não normalizadas de acordo com a curva de Gauss,
a fim de utilização dos parâmetros estatísticos paramétricos.
Foi utilizado o teste “t” para amostras independentes a fim
de comparar os grupos de árbitros do Paraná e os árbitros
do Ceará.
Tabela I - Resultados do teste aeróbico dos árbitros por estado.
Estado
N
Paraná
57
Árbitros
Ceará
Média
DP
VO2 máx.
2837,6
141,1 51,9 ± 3,1
(3300 – 2700)
2812,1
21
114,1 51,3 ± 2,5
(3200 – 2665)
VO2 máx em ml.kg-1.min-1
Os resultados apresentados na Tabela II são referentes
ao teste de 50 metros, que foi a segunda prova a ser executada pelos árbitros, e que tinha como objetivo mensurar
a velocidade. Nela se pode observar que não houve diferenças entre os árbitros dos dois estados. Considerando
o conjunto total (n = 78) o tempo médio obtido pelos
árbitros no primeiro sprint de 50 metros foi de 6,98 ±
0,36 s (7,9 – 6,1) e no segundo sprint (n = 78) de 7,05
± 0,41 s (8,7 – 6,3). A análise estatística não encontrou
diferença significativa entre os tempos do primeiro e
segundo pique (p= 0,2523).
Já os resultados descritos na Tabela III são referentes
ao teste de 200 metros que tem como objetivo mensurar
a resistência de velocidade, os quais também se mostraram
similares entre os árbitros dos dois estados. Entretanto, ao
Resultados
A idade média dos árbitros envolvidos neste estudo foi
de 33,3 ± 5,3 anos (n = 78). Sendo que a idade média dos
árbitros do Paraná foi de 33,6 ± 5,4 anos, enquanto que dos
árbitros cearenses foi em média de 32,5 ± 5,7 anos. Quando
se confronta estes valores mediante a aplicação do teste t,
constata-se que não há diferença estatisticamente significativa
entres estes dados (p = 0,4503).
Na Tabela I, encontram-se os resultados obtidos a partir
da aplicação do teste aeróbico, teste de Cooper (corrida de
12 minutos), o primeiro teste físico a ser aplicado segundo
normatização da FIFA. Quando comparamos os valores
obtidos durante esse teste, não foi encontrada diferença esTabela II - Resultados do teste anaeróbico (velocidade) por Estado.
Estado
Árbitros
Paraná
Árbitros
Ceará
Piques
Média
D.Padrão
N
Média
D. Padrão
N
Primeiro
6,94 (7,88 – 6,1)
0,34
57
7,09 (7,73 – 6,48)
0,4
21
Segundo
7,06 (8,7 – 6,29)
0,40
57
7,03 (7,90 – 6,45)
0,44
21
Média Geral
7,00
0,38
114
7,06
0,42
42
Segundo
30,44 (34,73 – 27,64)
1,40
57
31,10 (35,60 – 27,60)
1,89
21
Média Geral
29,98
1,51
114
30,41
1,85
42
N – número de dados.
Tabela III - Resultados do teste anaeróbico (resistência à velocidade) por Estado.
Estado
Árbitro
Paraná
Árbitro
Ceará
N – número de dados.
Piques
Média
D. Padrão
N
Média
D. Padrão
N
Primeiro
29,51 (32,48 – 26,55)
1,49
57
29,73 (32,49 – 26,61)
1,57
21
84
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
compararmos o resultado dos árbitros como um todo (n = 78)
no primeiro pique de 200 metros 29,57 ± 1,51 s (32,5 – 26,5)
em relação ao segundo pique 30,62 ± 1,56 s (35,6 – 27,6),
a análise estatística demonstrou haver diferença significativa
entre eles (p = 0,0001).
Discussão
A idade média dos árbitros envolvidos neste estudo é
compatível com os de árbitros de futebol estudados em vários
países, entre estes se destacam: árbitros espanhóis [10], árbitros
gregos [4], árbitros alemães [13], árbitros portugueses [14]
que é similar à idade de outro estudo envolvendo árbitros
brasileiros [15].
Como descrito na tabela I, os árbitros paranaenses e cearenses obtiveram performance similar para o teste aeróbico
e quando comparados seus resultados com os descritos por
Eissmann [16], o qual observou que 80% dos árbitros que
participaram do concurso da Union of European Football
Associations (UEFA), em 1995, ou seja, árbitros do quadro
europeu internacional, percorreram durante o teste de Cooper, uma distância entre 2900 a 3200 metros, resultados
muito superiores aos apenas 27% (n = 21) dos árbitros aqui
estudados que conseguiram estabelecer algum índice dentro
desta faixa.
Para árbitros de nível nacional, pertencentes ao quadro da
Confederação Brasileira de Futebol – CBF, Silva e Rodriguez-Añez [17] descrevem uma distância de 2956 ± 90,69 metros.
Na Grécia um estudo com árbitros da divisão A apresentaram
uma média de 2778 ± 128 metros [4], em estudo envolvendo
árbitros italianos cuja distância média percorrida foi de 2866
± 164 metros [5]. Entretanto, em dados mais recentes envolvendo a avaliação da performance de 42 árbitros italianos de
três classes de arbitragem, observaram-se distâncias médias
de 2931 + 126 m, sendo que os árbitros do grupos de elite
percorriam em média 3000 + 112 m, nos 12 minutos [7].
Já nos dados referentes a árbitros espanhóis de nível
nacional, os índices obtidos (2984 ± 125 metros) [10]
mostraram-se superiores aos dos grupos aqui estudados, fato
similar pode ser observado em estudo envolvendo árbitros
internacionais do quadro da FIFA, no qual se observaram
resultados de 2996 metros [18]. Dessa forma os resultados
aqui apresentados demonstram que os árbitros brasileiros,
aqui estudados, apresentam uma capacidade cardiorrespiratória correspondente ao encontrado em árbitros de outros
países. Contudo, estudos mais recentes, principalmente os
envolvendo árbitros dos quadros internacionais, demonstram
que esse nível de condicionamento físico está aumentando,
possivelmente pressionado pela crescente exigência imposta
pela FIFA a cada ano.
Entretanto em relação ao trabalho de Silva, Santos, Brito
[11], estudando árbitros paranaenses e piauienses a performance aeróbica dos árbitros aqui estudados foi superior aos
2728 + 59 m do grupo de árbitros piauienses.
O VO2 máx. médio predito nesse estudo foi de 51,7 ± 3,63
ml.kg-1.min-1, valor similar foi descrito em outro estudo desenvolvido no Brasil, 51,42 ± 3,63 ml.kg-1.min-1 onde o VO2
também foi obtido após aplicação do teste de Cooper [11].
máx.
Estudo com 27 árbitros dinamarqueses foi descrito VO2 máx
médio de 46,3 ml.kg-1.min-1 [6]. Já em um estudo envolvendo
10 árbitros italianos foi descrito um VO2 máx 51.8 ± 3.2 ml.kg-1.
min-1, sendo o VO2 determinado em laboratório utilizando
um sistema de circuito aberto de telemétrico K4 Cosmed [19].
Contudo, em um estudo anterior [20] usando um analisador
de gases portátil leve K2 os autores relataram ter encontrado
valor médio de VO2 máx. de 49,30 ± 8,0 ml.kg-1min-1, para
oito árbitros que apitavam jogos da Primeira Divisão Italiana,
Série A, mesma divisão do estudo anterior, sendo que, mais
tarde este mesmo grupo publicaria outro estudo envolvendo
dois grupos de árbitros, um jovem e um mais velho. Desta
vez o VO2 máx encontrado foi de 42,5 ± 4,4 ml.kg-1.min-1,
para árbitros com 42 anos e de 52,1 ± 7,4 ml.kg-1.min-1, para
árbitros com idade média de 33 anos [9].
Valores similares de VO2 máx foram observados em estudo
envolvendo árbitros espanhóis que percorreram maior distância durante o teste de Cooper como descrito anteriormente,
quando submetidos ao teste de VO2 em laboratório. Nesse
caso, apresentaram um VO2 máx. médio de 54,9 ± 3,9 ml.kg-1
min-1 [10]. Em amostras brasileiras avaliações laboratoriais
em teste de espectrometria, envolvendo 10 árbitros de futebol
do Paraná, pode-se observar VO2 máx. médio de 57,9 ± 3,11
ml.kg-1min-1 [21]. Em outro estudo que envolveu cinco árbitros de futebol, também do Paraná, o valor médio do VO2
. foi de 52,8 ± 6,82 ml.kg-1min-1 [22].
máx
Como pode ser observado na literatura científica encontra-se a determinação do VO2 máx. do árbitro de futebol de várias
maneiras, sendo que os resultados aqui apresentados são similares aos relatados, tanto em estudos de campo como desenvolvidos em laboratório. Portanto os árbitros aqui estudados
possuem condições cardiorrespiratórias para entregarem um
quadro de árbitro de nível internacional.
Tal fato é fundamental, pois o árbitro deve apresentar um
bom nível de resistência aeróbica, isto porque durante uma
partida o sistema metabólico aeróbico atua predominantemente na produção de energia para o árbitro de futebol, portanto, um bom nível de resistência aeróbia pode aumentar a
sua capacidade de lidar com as diferentes demandas da partida
[23]. Em adição, durante uma partida de futebol o árbitro e
os jogadores, com exceção do goleiro, deslocam-se em uma
área que mede em média 8.250 m2. Estudos recentes comprovaram que a demanda energética do árbitro durante a partida
é similar a dos jogadores [24]. Para conduzir as partidas de
futebol de nível profissional, num espaço desta magnitude,
o árbitro deve apresentar um bom nível de preparação física,
pois num período que varia de 4 a 6 segundos, os árbitros
modificam suas ações motoras [25,6]. Desta forma, durante
os 90 minutos de uma partida oficial ele realiza, em média,
1268 diferentes atividades; entre essas, 588 são atividades de
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baixa intensidade (parado, caminhando, trotando) e 161 de
alta intensidade (corrida e sprint) [6]. Fatos que ressaltam
a importância de uma elevada condição física aeróbica em
favorecer uma boa atuação frente às exigências perceptuais-cognitivas, que no caso de um árbitro de elite deve tomar
aproximadamente 137 decisões observáveis por jogo [26].
Além de boa preparação física para estar bem posicionado
e melhor avaliar as jogadas, evitando com isso que as regras
sejam violadas, o árbitro deve buscar o melhor ângulo de
visão para analisar agressões entre os atletas, pois o risco de
um jogador sofrer ferimento é cerca de 1000 vezes maior do
que o encontrado na maioria de outras profissões [27].
No teste que mensurava a velocidade, o tempo médio dos
árbitros de ambos os estados no primeiro e segundo sprints são
apresentados na tabela II. O tempo dos árbitros em todas as
corridas de 50 metros foi de 7,02 ± 0,39 s (=156). Observa-se que o tempo dos árbitros neste estudo foi melhor que no
último estudo publicado com dados de árbitros brasileiros
7,12 ± 0,28 s [11]. Contudo quando se compara a velocidade
dos árbitros desta pesquisa com os índices obtidos por 209
árbitros do Paraná, que percorreram os 50 metros em 6,93 ±
0,37 s [28], verifica-se que os deste estudo estão mais lentos.
Com relação aos árbitros de outros países observa-se que os
resultados do presente estudo são melhores que os valores
dos árbitros da UEFA, que foi de 7,09 s [16] e dos árbitros
italianos 7,07 ± 0,26 s [5]. Exceções feitas a árbitros espanhóis
que apresentaram uma maior velocidade quando da execução
deste teste; em média eles percorrem os 50 metros em 6,76 ±
0,25 s [10]. E árbitros do quadro da FIFA que apresentaram o
tempo de 6.98 s [18]. Somente 16 árbitros da CBF, avaliados
em 2000, apresentaram um tempo próximo desse desempenho com seus resultados médios sendo 6,81 ± 0,31 [17].
Segundo Weston et al. [29], para os árbitros melhorarem
sua velocidade durante as corridas de curta duração (sprint)
eles devem incorporar no seu programa de treinamento
exercícios de alta intensidade, pois são as corridas de alta
velocidade que durante a partida permitem que os árbitros
estejam perto das jogadas decisivas como as que ocorrem
durante um contra-ataque .
Na prova que avalia a resistência à velocidade, o tempo
médio dos árbitros foi de 30,09 ± 1,62 s (n = 156). Este
valor é semelhante ao valor encontrado no último estudo
com árbitros brasileiros que foi de 29,99 ± 1,56 s [11]. Os
índices dos árbitros do Paraná e do Ceará nesta prova foram
similares (tabela III). Os árbitros internacionais do quadro
da UEFA, nesta prova, apresentaram tempo de 29,17 s [16],
sendo que os árbitros internacionais da FIFA apresentaram
o tempo de 28,47 s [18], ao passo que os árbitros italianos
apresentaram 29,57 ± 1,44 s [5]. Sendo que os tempos mais
baixo apresentados por árbitros brasileiros foram os árbitros
da CBF avaliados no ano 2000, com o tempo de 28,85 ± 1,57
[17], similar aos espanhóis com 28,95 ± 1,28 [10].
Apesar de a cada ano ser apresentado pela comunidade
cientifica novos testes físicos visando à avaliação das capa-
85
cidades físicas, os testes físicos que compõem a bateria de
testes da FIFA ainda são motivo de muita discussão no meio
científico. Recentemente a FIFA apresentou uma nova bateria
de testes, contudo, os mesmos já foram questionados pelo
meio acadêmico, pois estes não apresentam qualquer validade
cientifica ou similaridade com as ações motoras dos árbitros
desenvolvidas durante a partida de futebol [30].
Conclusão
Em termos absoluto os árbitros do Paraná apresentaram
uma melhor performance física na bateria de testes da FIFA.
Entretanto, ambos os grupos apresentaram um rendimento
físico que os habilitam a atuar em partidas oficiais segundo
os índices estabelecidos pela FIFA. Sendo esses resultados
superiores ao estudo envolvendo árbitros do Paraná e Piauí,
o que sugere que a inserção do estado em competições de
nível mais elevado também eleva a performance física de seu
quadro de arbitragem.
Cresce a cada ano as exigências da FIFA com relação à
preparação física dos árbitros, em decorrência disto a revisão da
literatura demonstrou que principalmente os árbitros europeus
a cada ano vêm apresentando melhores resultados nos testes
físicos, fato este que não esta ocorrendo com os árbitros brasileiros. Acreditamos que esta resposta mais rápida dos árbitros
europeus as exigências da FIFA se deva a profissionalização dos
árbitros da FIFA e de alguns países, além de algumas federações
terem criado programas de treinamento para os árbitros em que
a sua participação nestes programas é obrigatória.
Visando melhorar o rendimento físico dos árbitros brasileiros sugere-se que as Federações e a Confederação Brasileira
de Futebol desenvolvam programas de treinamento físico
para os árbitros, sendo que sua participação continua nestes
programas seja mais um critério para os árbitros serem considerados aptos para atuarem em partidas oficiais.
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
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ARTIGO ORIGINAL
Influência da iniciação ao voleibol na aptidão física
e desempenho motor de crianças do quarto ano
do ensino fundamental
Influence of volleyball initiation in fitness and motor performance
of elementary school children
Juliana Victer da Silva Fraga*, Roberto Pereira de Oliveira**, Tomires Campos Lopes***
* Acadêmica do Curso de Educação Física da Universidade Federal do Mato Grosso, **Pós-graduado em avaliação morfo-funcional e
fisiologia do exercício UGF, ***Professor Mestre FEF-UFMT-GEEFE
Resumo
O voleibol é um esporte coletivo muito praticado na educação
física escolar. O objetivo deste estudo foi investigar a influência
da iniciação ao voleibol na aptidão física e desempenho motor em
crianças do quarto ano do ensino fundamental. A amostra contou
com a participação de 26 crianças de ambos os sexos, das quais
12 meninos e 14 meninas, oriundas da escola EMEB Senador de
Matos Muller. Como instrumento de avaliação, utilizou-se os testes
do Proesp: flexibilidade, agilidade, velocidade e força explosiva.
Após a realização do pré-teste, foram ministradas 15 aulas, duas
vezes por semana, comparando com resultados, no pós-teste. Os
resultados encontrados foram testes de agilidade (7,98 ± 0,14 pré-teste e 7,31 ± 0,09 pós-teste, sendo p = 0,00011), velocidade (5,38
± 0,16 pré-teste e 4,91 ± 0,09 pós-teste, sendo p = 0,0075), força
explosiva membros superiores (180,50 ± 7,37 pré-teste e 201,38 ±
6,56 pós-teste, sendo p = 0,0196) e força explosiva membros inferiores (135,12 ± 4,98 pré-teste e 146,27 ± 4,94 pós-teste, sendo p =
0,0500) obtiveram melhoras significativas, com exceção do teste de
flexibilidade (24,15 ± 1,12 pré-teste e 26,15 ± 1,18 pós-teste, sendo
p = 0,1125). Observou-se, portanto, aumento da aptidão física e
habilidades motoras, o que sugere que a prática do voleibol pode
influenciar de maneira positiva nas aulas de educação física escolar.
Abstract
Volleyball is a team sport practiced in physical education. The
objective of this study was to investigate the influence of volleyball
initiation in physical fitness and motor performance of elementary
school children. The sample was composed of 26 children of both
gender, 12 boys and 14 girls, from EMEB Senador Matos Muller
school. We used the tests Proesp as evaluation test: flexibility, agility,
speed and explosive power. After carrying out the pre-test, 15 classes
were offered twice a week, comparing with results in the post-test.
The results were: agility test (7.98 ± 0.14 pre-test and 7.31 ± 0.09
post-test, p = 0.00011), speed (5.38 ± 0.16 pre-test and 4.91 ± 0.09
post-test, p = 0.0075), explosive strength of upper limbs (180.50 ±
7.37 pre-test and 201.38 ± 6.56 post-test, p = 0.0196) and lower
limb explosive power (135.12 ± 4.98 pre-test and 146.27 ± 4.94
post-test, p = 0.0500) had significant improvement, except for the
flexibility test (24.15 ± 1.12 pre-test and 26.15 ± 1.18 post-test,
p = 0.1125). We observed physical fitness and motor performance
improvement, which suggests that volleyball can positively influence
physical education classes in school.
Key-words: volleyball, child development, physical fitness, play and
playthings.
Palavras-chaves: voleibol, desenvolvimento infantil, aptidão
física, jogos e brinquedos.
Recebido em 23 de janeiro de 2012; aceito em 4 de junho de 2012.
Endereço para correspondência: Roberto Pereira de Oliveira, Endereço Av. Senador Metelo, 1121, 78030-300 Cuiabá MT, Tel: (65)
3025-6473, E-mail: [email protected]
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
Introdução
O voleibol é uma modalidade esportiva coletiva praticada
em quadra entre duas equipes com seis integrantes para cada
lado, utilizando-se as mãos para jogar a bola para o lado do
adversário, por cima da rede. Originou-se nos Estados Unidos,
em 1895, com o nome de minonette elaborado pelo Prof.
Willian Morgan, sofrendo evoluções e alterações nas regras, até
atingir a forma atual de se jogar [1]. Atualmente, o voleibol é
bastante popular no Brasil, inclusive nossas seleções feminina
e masculina estão entre as melhores do mundo. Em termos
de popularidade este esporte é o segundo em nosso país e
também em número de praticantes nas escolas.
A iniciação desportiva é o primeiro contato da criança
com o desporto em questão [2]. Por isso a criança antes de
se envolver plenamente com qualquer modalidade esportiva,
primeiro precisa brincar. Brincar de praticar esporte [3]. Portanto, o desenvolvimento do trabalho não deve ser voltado
às técnicas e às regras oficiais e, sim ao desenvolvimento das
habilidades motoras e da aptidão física, com o ensino de estratégias pedagógicas que irão contribuir no desempenho de
habilidades esportivas e aumentar o repertório motor.
Devemos usar essas estratégias para conquistar o interesse
e afeição das crianças pela modalidade, utilizando a formação
lúdica e os pequenos jogos para auxiliar na iniciação desportiva. Priorizando nesta fase inicial o ponto de vista motor, proporcionando atividades com diferentes graus de dificuldade,
que estimulem aos gestos do voleibol [4].
Torna-se importante um trabalho que leve em consideração o desenvolvimento das potencialidades da criança,
para que esta alcance um nível de desenvolvimento motor
que capacite a rápida e fácil aprendizagem dos movimentos
esportivos mais complexos. Pois aprenderá mais rapidamente
aquele que tiver um número maior de experiências motoras,
uma melhor formação multilateral e um alto nível de qualidades físicas básicas [2].
O desenvolvimento motor pode ser conceituado como
uma contínua alteração no comportamento humano ao longo
do ciclo da vida. Contudo, cada indivíduo tem um tempo
peculiar para adquirir e para desenvolver habilidades motoras.
Isto quer dizer que a sequência é a mesma para todas as crianças, apenas a velocidade de progressão varia [5]. Sendo assim,
as crianças do quarto ano do ensino fundamental estão na
faixa etária dos nove anos de idade e encontram-se na última
fase do modelo da ampulheta de Gallahue que é denominada
fase das habilidades motoras especializadas, na qual a criança
passa por três estágios: transitório, de aplicação e de utilização
permanente. Estas se deparam entre o primeiro estágio, que é
caracterizado pelas primeiras tentativas da criança de refinar e
combinar padrões motores maduros. Nesse estágio, o indivíduo trabalha para compreender a ideia de como desempenhar
a habilidade esportiva [5].
Já a aptidão física é definida como uma condição positiva
de bem estar influenciada por uma atividade física regular [5]
e desempenho motor é o termo frequentemente usado para
agrupar os vários componentes da aptidão física relacionada
à saúde [5].
Com isso o desempenho motor e a aptidão física de
crianças têm sido estudados ao longo do último século, pois
se compreende que existe uma relação importante entre a
melhora da aptidão física e das capacidades funcionais motoras
(força, flexibilidade, velocidade e agilidade) dos indivíduos,
contribuindo, assim, na eficiência da realização de determinadas tarefas [6].
Ao longo dos anos tem-se observado diversas sugestões
de baterias de testes para avaliar o desempenho motor e a
aptidão física [6]. No Brasil, encontramos o Projeto Esporte
Brasil (Proesp-BR, 2009) [7], que segue com informações para
aplicação de medidas e testes, normas e critérios de avaliação,
desenvolvido no âmbito da educação física escolar com o esporte educacional condizentes com a nossa realidade cultural.
Auxiliando professores de educação física na avaliação dos
indicadores de crescimento corporal, do estado nutricional, da
aptidão física relacionada à saúde e ao desempenho esportivo
em crianças e jovens entre 7 a 17 anos. Sendo assim, o objetivo
do presente estudo tem como propósito investigar a influência
da iniciação ao voleibol na aptidão física e desempenho motor
em crianças do quarto ano do ensino fundamental de uma
escola municipal de Cuiabá/MT.
Material e Métodos
Amostra
Inicialmente, foi feito um contato com a direção da escola
para esclarecimentos sobre o objetivo da pesquisa e os procedimentos a serem realizados para a coleta de dados. Para a seleção
dos participantes da pesquisa, determinou-se como critério de
inclusão as crianças que estivessem cursando o quarto ano do
ensino fundamental, que se encontravam na faixa etária dos
nove anos de idade, as quais se deparavam na fase motora especializada. Esta fase trata de um período no qual, os movimentos
tornam-se uma ferramenta que será útil para4 muitas atividades
motoras complexas presentes na vida diária, recreação ou jogos
esportivos [5]. Nesta pesquisa de características de campo,
participaram deste estudo 26 crianças de ambos os sexos, das
quais 12 do sexo masculino e 14 do sexo feminino, oriundas
da escola EMEB Senador de Matos Muller, da rede pública de
ensino do município de Cuiabá/MT.
Como Aptidão Física e Desempenho motor estão inter-relacionados, seus componentes tornam-se inseparáveis.
Portanto, para a avaliação foram utilizados os materiais e
testes recomendados pelo Proesp-BR (2009) [7].
As variáveis selecionadas para o estudo da aptidão física
foram: flexibilidade e força explosiva de membros superiores
e inferiores. Já para o desempenho motor avaliaram-se as
variáveis: velocidade e agilidade. Os testes foram divididos
em duas categorias: as provas em sala e as provas de campo.
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
Testes de sala
O motivo para que os seguintes procedimentos fossem
realizados em sala foi pelo fato da exigência de que as crianças
permanecessem descalças durante os testes de: massa corporal
total, estatura e flexibilidade.
Para a medida da massa corporal total foi utilizada uma
balança digital da marca Omron, modelo HN-283LA e para
a leitura da estatura foi utilizado um estadiômetro da Soehnle.
Para o teste de flexibilidade (sentar-e-alcançar) foi utilizado
o Banco de Wells [7].
Testes de campo
Já os procedimentos de campo foram realizados em espaços
livres e com vestimentas adequadas (calção ou agasalho, camiseta e tênis) e seguiram a seguinte ordem para minimizar os
efeitos de fadiga fisiológica e interferência nos resultados. Os
testes escolhidos foram: teste de força explosiva de membros
inferiores - salto horizontal, teste de força explosiva de membros
superiores – arremesso de medicineball, teste de agilidade – teste
do quadrado e velocidade – corrida de 20 metros [7].
Protocolo de atividades
Após a realização da primeira coleta de dados, foram realizados exercícios voltados para a iniciação ao voleibol baseados
na estrutura funcional reduzida (EFR) que tem como propósito a modificação do espaço de jogo, bem como o número
de jogadores e a altura da rede [8] nas aulas de educação física
por um período de oito semanas. As aulas foram aplicadas
duas vezes por semana com duração de 60 minutos cada.
Disponibilizaram-se duas aulas para realização das coletas de
dados, uma antes da intervenção das atividades e outra após
este período, totalizando-se, assim, 17 (dezessete) aulas. As
aulas eram divididas em três partes: aquecimento, atividades
principais e volta-a-calma.
Buscou-se oportunizar a vivência de jogos recreativos,
utilizando-se o método global. Priorizando familiarização
com a bola, a quadra, a rede, o deslocamento e o domínio
de bola alta e baixa.
As atividades exploradas no aquecimento foram jogos de
pegador como: pega-pega, pega-pega americano, pega-pega
corrente, pega-pega perneta, pega o rabo do macaco e pega
a cobra. Já para a prática das habilidades motoras globais
utilizamos os jogos pré-desportivos que enfatizassem os gestos do voleibol como: peteca, mosca tonta, alerta adaptada,
vôlei-bexiga, vôlei-maluco, vôlei sem rede, vôlei lençol, mini-lancebol e lancebol [4-9-10].
Na primeira semana de aula foi aplicado o jogo da Peteca.
O campo era demarcado com uma corda ou barbante a uma
altura de 1 m, cada equipe ocupava um lado do campo e
tinha que tocar a peteca para o outro lado sem deixá-la cair
no chão (era permitido segurá-la); e o jogo da Mosca tonta
89
era empregado em pequenos grupos, usando uma bola leve,
onde sempre uma criança se posicionava ao meio do círculo
para tentar pegar a bola que era arremessada pelos colegas.
Na segunda semana foi aplicado o jogo do Alerta adaptado
e o vôlei bexiga. No primeiro todos formavam um círculo e
passavam a bola um para o outro aleatoriamente até que a
bola caísse. A criança que derrubasse a bola tinha que gritar
“Alerta” e dar três passos em direção a algum colega e arremessar a bola para queimá-lo. Esse colega tinha que segurar a
bola para arremessá-la em outra pessoa, evitando que ninguém
saísse do jogo; e o vôlei bexiga era jogado com uma bexiga
cheia de confetes, usando a rede de vôlei, onde cada equipe
mista ocupava um lado da quadra e tinha que dar três toques
e lançar para a equipe adversária. Esta tentava receber a bexiga
sem deixar que estourasse.
Na terceira semana aplicou-se o vôlei lençol e o vôlei sem
rede. O primeiro consistia em usar a rede de vôlei, onde cada
equipe mista ocupava um lado da quadra formando duplas
que seguravam um lenço feito de TNT, cujo objetivo era
repassar a bola para o outro lado e a equipe adversária tinha
que receber esta bola dentro do lençol. O segundo não utilizava a rede, as crianças eram divididas em quatro pequenos
grupos e ficavam dentro de quadrados desenhados no chão,
onde cada grupo tinha que recepcionar e repassar a bola com
no máximo três batidas para outro grupo sem deixá-la cair
ou sem repassá-la de forma incorreta.
Na quarta semana foi aplicado o vôlei maluco. As equipes
eram posicionadas em quadra com número igual de crianças
de cada lado. Estas tinham que tocar na bola, sem segurá-la
e tentar repassá-la para o outro lado. Primeiro foi utilizada
uma bola de vôlei normal e depois uma bola menor para
dificultar a atividade.
Na quinta semana foi empregado o jogo de câmbio, em
que duas equipes mistas com número iguais de jogadores ocupavam cada uma um lado da quadra e tinham como objetivo
segurar a bola e depois repassá-la para a equipe adversária,
sem deixar a bola cair no chão. Posteriormente foi aplicado o
Câmbio com seis jogadores, onde o jogo é o mesmo, só que
agora formando seis alunos por equipe e os demais aguardavam analisando a dinâmica do jogo, possibilitando um
feedback e em seguida invertiam-se os papéis.
Na sexta semana foi aplicada a rede humana com bola
gigante, onde foram divididos três grupos iguais. Dois grupos
se posicionaram cada um em um lado da quadra e o terceiro
grupo pocisionou-se no meio, para ser a rede. Os dois grupos
que disputavam a partida tinham que atravessar a bola para
o outro lado sem tocar na rede. O grupo que se passava pela
rede tinha que tentar interceptar a bola, se conseguisse trocavam de lugar com o grupo que arremessou a bola; e o jogo
Mini-lancebol foi aplicado de diversas maneiras: 1 contra 1, 2
contra 2, 3 contra 3 e 4 contra 4. Com o objetivo de fazer com
que os jogadores se movessem atrás da bola para jogá-la em
espaços vazios e recepcioná-la dentro do campo demarcado,
com pequenos deslocamentos.
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
90
E por fim na sétima e oitava semana foi introduzido o Lancebol. Faziam parte de cada equipe seis jogadores, utilizando
a quadra e a rede de voleibol para familiarizar-se com o jogo
cujo objetivo era recepcionar a bola, dar três toques e lançá-la para a equipe adversária, sem deixar a bola tocar no chão.
Análise estatística
Foi realizada a estatística descritiva com software Excel
2003® e para o teste de hipótese foi utilizado o método teste
t com amostras pareadas para a comparação do grupo no pré
e pós-teste, adotou-se como significância estatística p ≤ 0,05,
utilizando para este o software Biostat 5.0.
Resultados
A descrição dos resultados obtidos na massa corporal,
estatura, IMC e percentual de gordura no pré e no pós-testes
foram apresentados em forma de tabela.
Tabela I - Denota a média, o desvio padrão e erro padrão referente
à massa corporal (peso), estatura, IMC e % de gordura da turma e
dos sexos masculino e feminino.
Variáveis
PESO
Nº da amostra
Máximo
Mínimo
Média
Desvio padrão
Erro padrão
ALTURA
Máximo
Mímino
Média
Desvio padrão
Erro padrão
IMC
Máximo
Mínimo
Média
Turma
Masculino
Feminino
Pré- Pós- Pré- Pós- Pré- Pós-teste -teste -teste -teste -teste -teste
26,00
55,90
23,00
33,96
9,54
1,87
26,00
57,50
22,90
35,02
9,48
1,86
12,00
55,90
25,00
32,08
9,21
2,66
12,00
57,50
25,60
33,14
9,58
2,76
14,00
53,40
23,00
35,57
9,85
2,63
14,00
51,3
22,90
36,62
9,45
2,53
1,54
1,23
1,38
0,08
0,02
1,56
1,24
1,39
0,08
0,02
1,52
1,30
1,38
0,08
0,02
1,52
1,30
1,38
0,08
0,02
1,54
1,23
1,38
0,09
0,02
1,56
1,24
1,39
0,09
0,02
24,80 24,89 24,19 24,89 24,80 24,65
13,70 13,98 13,70 14,05 14,26 13,98
17,51 17,90 16,56 17,02 18,32 18,66
Desvio padrão 3,25
3,26
3,18
3,24
3,20
3,20
Erro padrão
% Gordura
Máximo
Mínimo
Média
Desvio padrão
Erro padrão
0,64
0,64
0,92
0,93
0,85
0,85
37,79
11,87
23,48
7,11
1,39
36,58
11,87
22,84
7,40
1,45
37,79
37,79
20,51
8,09
2,33
36,58
36,58
20,39
8,06
2,33
31,47
31,47
26,04
5,17
1,38
31,51
31,51
24,93
6,34
1,69
Ao analisar os resultados do peso e estatura da turma e
separadamente por sexo, observou-se que na média total não
existem diferenças significativas.
Os resultados do IMC da turma demonstraram que não
houve mudança significativa, porém quando analisados por
sexo observou-se que tanto os meninos como as meninas
encontravam-se abaixo da média.
Com relação ao percentual de gordura da turma e por
sexo não houve mudança significativa.
Os resultados dos testes de flexibilidade, força explosiva
de membros inferiores e superiores, de agilidade e velocidade
foram representados em forma de gráfico.
Figura 1 - Resultados das médias, erro padrão e linha de classificação
ideal (Proesp-BR, 2009) do teste de flexibilidade.
30,00
27,00
24,00
21,00
18,00
15,00
12,00
9,00
6,00
3,00
0,00
cm
26,15
25,17
24,15
Turma
p = 0,1125063
26,42
23,29
Meninos
≤ 0,05
25,93
Ideal=
♂ 22 cm
♀ 18 cm
PROESP
Meninas
Referência p
AVAL 2
AVAL 1
Os valores encontrados como média pela turma foram
24,15 ± 1,12 no pré-teste e 26,15 ± 1,18 no pós-teste, sendo o
valor de (p = 0,1125), mostrando que não teve estatisticamente mudança significativa. E quando verificado separadamente
por sexo, observamos que no masculino a média encontrada
foi de 25,17 ± 1,55 no pré-teste e 26,42 ± 1,66 no pós-teste.
Enquanto no feminino a média encontrada no pré-teste foi
23,29 ± 1,63 e no pós-teste de 25,93 ± 1,72. Observamos que
as meninas obtiveram ganhos maiores no final das atividades
propostas.
Figura 2 - Resultados das médias, erro padrão e linha de classificação
ideal (Proesp-BR, 2009) do teste de agilidade.
12,00
11,00
10,00
9,00
8,00
7,00
6,00
5,00
4,00
3,00
2,00
1,00
0,00
seg
7,98 *
7,31
7,60
7,04
8,30
7,54
Ideal=
♂ 7,25 seg
♀ 6,89 seg
PROESP
Turma
p=0,00011
Meninos
Meninas
≤0,05
AVAL 1
AVAL 2
Referência p
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
91
Os valores encontrados como média pela turma foram
7,98 ± 0,14 no pré-teste e 7,31 ± 0,09 no pós-teste, sendo o
valor de (p = 0,00011), mostrando que houve uma mudança
significativa. E quando verificado separadamente por sexo,
observamos que no masculino a média encontrada foi de 7,60
± 0,14 no pré-teste e 7,04 ± 0,09 no pós-teste. Enquanto no
feminino a média encontrada no pré-teste foi de 8,30 ± 0,19
e no pós-teste de 7,54 ± 0,13. Quando as amostras foram
comparadas entre masculino e feminino, observou-se que as
meninas obtiveram ganhos maiores que os meninos.
Os valores encontrados como média pela turma foram
135,12 ± 4,98 no pré-teste e 146,27 ± 4,94 no pós-teste, sendo o valor de (p = 0,0500), mostrando que houve mudanças
significativas. Entretanto, quando verificado separadamente
por sexo, observamos que no masculino a média encontrada
foi de 151,33 ± 7,03 no pré-teste e 162,17 ± 7,00 no pós-teste. Enquanto que no feminino a média no pré-teste foi
de 121,21 ± 4,62 e no pós-teste de 132,64 ± 4,56. Quando
as amostras foram comparadas entre masculino e feminino,
observou-se que não houve mudanças importantes.
Figura 3 - Resultados das médias, erro padrão e linha de classificação ideal
(Proesp-BR, 2009) do teste de força explosiva dos membros superiores.
Figura 5 - Resultados das médias, erro padrão e linha de classificação
ideal (Proesp-BR, 2009) do teste de velocidade.
*
240,00
201,38
220,00 180,50
200,00
180,00
160,00
140,00
120,00
100,00
80,00
60,00
40,00
20,00
0,00
Turma
cm
201,92
182,58
200,93
178,71
Ideal=
♂ 220 cm
♀ 201 cm
PROESP
Meninos
p=0,01964913
AVAL 1
Meninas
Referência p≤0,05
AVAL 2
Os valores encontrados como médias pela turma foram
180,50 ± 7,37 no pré-teste e 201,38 ± 6,56 no pós-teste,
sendo o valor de (p = 0,0196), mostrando respostas significativas. Contudo, quando investigado separadamente por
sexo, observamos que no masculino a média encontrada foi
de 182,58 ± 10,46 no pré-teste e 201,92 ± 10,30 no pós-teste.
Ao passo que no feminino a média encontrada no pré-teste foi
de 178,71 ± 10,68 e no pós-teste de 200,93 ± 8,76. Quando
as amostras foram comparadas entre masculino e feminino,
observou-se que não houve mudanças importantes.
Figura 4 - Resultados das médias, erro padrão e linha de classificação
ideal (Proesp-BR, 2009) do teste de força explosiva de membros inferiores.
180,00
*
146,27
165,00
150,00 135,12
135,00
120,00
105,00
90,00
75,00
60,00
45,00
30,00
15,00
0,00
Turma
cm
162,17
151,33
Ideal=
♂ 140 cm
♀ 127cm
PROESP
Meninas
p=0,05000
Referência p
≤0,05
AVAL 2
AVAL 1
5,38 *
4,91
5,73
4,96
5,16
4,62
Ideal=
♂ 4,28 seg
♀ 4,09 seg
PROESP
Turma
Meninos
Meninas
≤0,05
p=0,0075833
Referência p
AVAL 2
AVAL 1
Os valores encontrados como médias pela turma foram
5,38 ± 0,16 no pré-teste e 4,91 ± 0,09 no pós-teste, sendo
o valor de (p = 0,0075), mostrando respostas significativas.
Todavia, quando investigado separadamente por sexo, observamos que no masculino a média encontrada foi de 4,96 ±
0,19 no pré-teste e 4,62 ± 0,11 no pós-teste. Enquanto que
no feminino a média encontrada no pré-teste foi de 5,73 ±
0,21 e no pós-teste de 5,16 ± 0,11. Quando as amostras foram
comparadas entre masculino e feminino, observou-se que as
meninas obtiveram ganhos maiores no final das atividades
propostas.
Discussão
132,64
121,21
Meninos
6,50
6,00
5,50
5,00
4,50
4,00
3,50
3,00
2,50
2,00
1,50
1,00
0,50
0,00
seg
Observando as variáveis peso, estatura, IMC e percentual
de gordura não houve mudanças significativas, pois a pesquisa
foi realizada em um curto período de tempo.
Na flexibilidade o teste realizado não demonstrou mudanças significativas quanto à turma. Uma possível explicação é
que as crianças já possuíam um nível de flexibilidade acima
da classificação ideal e não foi realizada nenhuma atividade
específica para esta capacidade física. Analisando o pré e
pós-teste as meninas obtiveram desenvolvimentos melhores
que os meninos. Isto se confirma na afirmação de Gallahue,
92
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
que relata que as meninas tendem a ser mais flexíveis que os
meninos em todas as idades.
Nos resultados analisados dos testes de agilidade, força
explosiva e velocidade observamos que os resultados encontrados estão abaixo dos ideais preconizados pelo Proesp-BR,
isso pode ter ocorrido pelo período curto da pesquisa, mas
comparando a avaliação 01 com os resultados da avaliação
02, observamos melhoras significativas, havendo modificações
positivas em ambos os sexos.
Conclusão
O presente estudo verificou a eficiência da iniciação ao
voleibol utilizando uma formação lúdica para influenciar e
melhorar os componentes da aptidão física e desempenho
motor. Visto que suas atividades contribuíram de maneira
positiva para o aumento das habilidades motoras e aptidão
física. Portanto, este trabalho foi essencial para demonstrar
a importância de se introduzir o voleibol utilizando jogos
pré-esportivos e lúdicos, nas aulas de educação física escolar.
Referências
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
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ARTIGO ORIGINAL
Evidências de stress oxidativo e alterações eritrocitárias
induzidas por uma prova de triathlon half-ironman
Evidence of oxidative stress and erythrocyte changes induced
by half-ironman triathlon
Faber Sérgio Bastos Martins, D.Sc.*, José Augusto Rodrigues dos Santos, D.Sc.**
*Instituto Superior de Ensino de Fafe – ESEF, **Faculdade de Desporto – Universidade do Porto
Resumo
Objectivo: Analisar as alterações hematológicas agudas induzidas
por uma prova de triathlon longo. Avaliou-se o comportamento de
diversos indicadores eritrocitários e biomarcadores de stress oxidativo
em atletas portugueses masculinos de triathlon. Material e métodos:
10 atletas seniores masculinos (31,5 ± 1,2 anos; 69,3 ± 1,9 kg; 177,7
± 1,4 cm; 22,0 ± 0,8 de IMC e 10,1 ± 2,2 % GC) foram divididos
em grupos elite e não-elite. Foram recolhidas amostras de sangue
venoso periférico antes e imediatamente após as provas. Utilizou-se estatística descritiva, testes não-paramétricos de Wilcoxon e
Mann-Whitney e coeficiente de correlação de Spearman. Resultados:
Verificou-se, somente nos atletas de elite, um aumento nos valores
pós-prova referentes aos indicadores CGR, Hb, HGM e CHGM
(p < 0,05) e a diminuição do valor médio relativo ao VGM (p =
0,020). O aumento da actividade da enzima SOD (p = 0,019)
ocorreu somente nos atletas de elite. Foi constatado, em ambos os
grupos, um aumento da atividade da enzima GR (p < 0,05). Atletas
de elite apresentaram valores basais mais elevados da atividade da
enzima GR comparativamente aos atletas não elite (9,1%; p < 0,05).
Conclusão: Os resultados encontrados sugerem que a intensidade e a
duração da prova de triathlon condicionam as respostas dos diversos
biomarcadores analisados em função do nível de treino dos atletas.
Abstract
Objective: To assess the acute hematological changes induced by a
long triathlon race. We evaluated the behavior of several erythrocyte
indicators and oxidative stress biomarkers in Portuguese male triathlon athletes. Methods: 10 male senior athletes (31.5 ± 1.2 years;
69.3 ± 1.9 kg; 177.7 ± 1.4 cm; BMI 22.0 ± 0.8 and 10.1 ± 2.2% BF)
were divided into groups elite and non-elite. Samples were collected
from peripheral venous blood before and immediately after the race.
We used descriptive statistics, nonparametric tests of Wilcoxon and
Mann-Whitney and Spearman correlation coefficient. Results: It has
been found only in elite athletes, an increase in post-race values for
​​
the indicators CGR, Hb, HGM and CHGM (p < 0.05) and reduced
the average value for the MCV (p = 0.020). The increased activity
of the enzyme SOD (p = 0.019) occurred only in elite athletes. It
was found in both groups, an increased activity of the enzyme GR
(p < 0.05). Elite athletes had higher baseline activity of the enzyme
GR as compared to non-elite athletes (9.1%, p < 0.05). Conclusion:
The results suggest that the intensity and length of triathlon race can
influence the responses of several biomarkers analyzed according to
the level of training of athletes.
Key-words: hemoglobin, hemolysis, enzyme activity, hematocrit,
uric acid.
Palavras-chave: hemoglobina, hemólise, actividade enzimática,
hematócrito, ácido úrico.
Recebido em 10 de dezembro de 2011; aceito em 5 de junho de 2012.
Endereço de correspondência: Faber Sérgio Bastos Martins, Instituto de Estudos Superiores de Fafe, Rua Universitária, Apartado 178,
4824-909 Medelo Portugal, E-mail: [email protected], [email protected]
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
Introdução
Atualmente, tem havido um grande interesse no estudo da
performance nos esforços prolongados e de elevada intensidade, e nas provas do triathlon longo (ironman) em particular.
Em linha de convergência, estudos tem demonstrado que
atletas de esforços prolongados evidenciam reduções na taxa de
concentração de hemoglobina, contagem eritrocitária e valores
de hematócrito [1-3]. Embora o aumento da concentração
de hemoglobina possa contribuir de forma positiva para a
cinética do oxigénio durante a realização do exercício físico,
é geralmente aceito que estas reduções decorram de um desproporcional aumento do volume plasmático relativamente
à massa eritrocitária (hemodiluição) em resposta aos treinos
em regime aeróbio de elevada intensidade [2].Todavia, baixos
valores de hematócrito mostram-se significativamente correlacionados com as melhores prestações em provas de resistência
e ultrarresistência [2,4-6] o que valoriza funcionalmente a
hemodiluição induzida pelo treino de resistência aeróbia. No
entanto, a superior capacidade de utilização metabólica do
oxigénio está relacionada com o incremento da produção de
espécies reactivas de oxigénio que acentuam o stress oxidativo
[7]. Neste sentido, tem sido referido por diversos autores que
a realização de esforços físicos, particularmente de elevada
intensidade, induz a formação acrescida de radicais livres e
espécies reativas de oxigénio, provocando a instalação de um
desequilíbrio oxidante/antioxidante que conduz à perda do
controle da respiração mitocondrial, desencadeando alterações
funcionais e estruturais das cadeias lipídicas das membranas
celulares, resultando no aumento da sua permeabilidade e
perda da homeostasia celular [8-12].
Material e métodos
Amostragem
A amostra foi constituída por 10 atletas masculinos da
Federação Portuguesa de Triathlon, com idade média de 31,5
± 1,2 anos, massa corporal de 69,3 ± 1,9 kg, estatura corporal
de 177,7 ± 1,4 cm, índice de massa corporal de 22,0 ± 0,8 e
percentagem de gordura corporal 10,1 ± 2,2%, participantes
das provas nacionais e internacionais na referida distância.
Os atletas foram divididos em 2 grupos (elite e não-elite)
de acordo com as respectivas posições no ranking nacional
e categoria de inscrição em competições internacionais pela
International Triathlon Union (ITU).
Delineamento experimental
Os respectivos grupos experimentais de atletas de triathlon realizaram uma prova de triathlon longo na distância
half- ironman, composta por 1,9 km de natação, 90 km de
ciclismo e 21,1 km de corrida, inserida no calendário nacional
da Federação Portuguesa de Triathlon.
Para a avaliação da estatura corporal dos atletas foi utilizado o estadiômetro (marca Rudolf Martin) e para a determinação da massa corporal (kg) e percentagem de gordura
corporal (%GC) dos atletas foi realizada a pesagem em balança
digital de bioimpedância (marca TANITA TBF 305). Todos os
atletas integrantes da amostra foram submetidos a duas coletas
sanguíneas, a primeira nos instantes precedentes a cada uma
das provas e a segunda, imediatamente após o seu término,
sendo estas realizadas através da punção venosa na região
cutânea antecubital anterior, com álcool a 95%, totalizando
20 amostras. Todas as amostras foram coletadas em tubos
ETDA-K3 de 4,5ml (BD Vacutainer) para a determinação dos
indicadores eritrocitários e biomarcadores de stress oxidativo.
• Determinações hematológicas: Para análise dos indicadores
eritrocitários efectuados nas amostras de sangue periférico,
procedeu-se ao hemograma no contador hematológico
GEN`S (Beckman Coulter-BC). Foram analisados os respectivos índices hematimétricos: Volume Globular Médio
(VGM), Hemoglobina Globular Média (HGM), Concentração de Hemoglobina Globular Média (CHGM), Índice
de Anisocitose Eritrocitária (Red blood cell Distribuition
Width – RDW) e indicadores: Concentração de Glóbulos
Rubros (CGR), Hemoglobina (Hb) e Hematócrito (Hct).
• Determinações bioquímicas: As amostras de sangue periférico venoso, coletadas em tubos sem anticoagulante, com
gel Z - activador da coagulação (Serum Sep Clot Activator
- BD Vacutainer) de 5,0 ml para os estudos bioquímicos
efectuados no soro foram centrifugadas (centrífuga “Jouan CR3”- Jouan) a 3000 rpm durante o período de 10
minutos. Não foi efectuado qualquer tipo de constrição
através do uso de torniquete com o objectivo de minimizar
o possível stress e lesão oxidativos induzidos pela manobra
isquemia-reperfusão.
A atividade da enzima superóxido-dismutase (SOD) nos
eritrócitos foi determinada utilizando o kit comercial Randox
RanSod Cat.No.SD 125 a 340nm. A preparação da amostra
consistiu inicialmente na centrifugação de 0,5ml do sangue
total durante 10 min a 3000rpm e posterior separação do plasma. Em seguida, foram realizadas 4 lavagens dos eritrócitos
com solução NACL 0,9% (3ml), sendo após cada lavagem
efectuada uma centrifugação de 10 min a 3000 rpm. Ao
final das lavagens e respectivas centrifugações dos eritrócitos,
adicionou-se 2 ml de água bidistilada fria, agitando e permanecendo em repouso a 4ºC durante 15 min. Concluindo o
procedimento, foi realizada uma lavagem com 0.01mol/l de
tampão fosfato pH 7,0.
A atividade sérica da enzima glutationa-reductase (GR)
foi determinada utilizando um kit comercial (Randox Glutathione Reductase Control Sera GR 2608) a 340nm, seguindo
as especificações do fabricante. A preparação da amostra
consistiu inicialmente na centrifugação de 0.5ml do sangue
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total a 2000 rpm durante 5 minutos e posterior separação
do plasma. Foram efectuadas 4 lavagens dos eritrócitos com
solução NACL 0,9%, sendo após cada lavagem, os mesmos
centrifugados a 2000 rpm durante 5 minutos.
O MDA plasmático foi analisado em concordância com
o método descrito por Ronh et al. com algumas adaptações e
mensurado através da formação de substâncias reactivas ao ácido tiobarbitúrico (TBARS) a 535nm. Sumariamente, o plasma foi incubado a 25ºC em 500µL de uma solução contendo
175mM KCl, 10 mM Tris, pH 7.4. Amostras de 50 µL foram
retiradas e diluídas com 450 µL de reagentes TBARS (1%
ácido tiobarbitúrico, 0.6N HCl, 0.0056% hidroxitolueno
butilado). Posteriormente, a mistura foi aquecida a 80-90ºC
durante o período de 15 minutos e recolocada em gelo por
um período de 10 minutos que antecederam a centrifugação
numa centrífuga de Eppendorf (1500g) durante 5 minutos.
O conteúdo de TBARS formado foi calculado utilizando o
coeficiente de extinção molar de 1.56 x 105m-1 cm-1 e expresso
em nanomoles de MDA por miligrama de proteína.
A atividade da enzima glutationa peroxidase (GPx) nos
eritrócitos foi determinada utilizando um kit comercial Randox RanSel Cat.No.SC 692 a 340 nm.
A atividade sérica da enzima gama-glutamiltransferase
(GGT) foi determinada pelo método turbidimétrico a 340
nm, utilizando um kit comercial HORIBA ABX Pentra GGT
CP (Montpellier, FR, Refa A11A01625).
O status antioxidante total (TAS) foi medido espectrofotometricamente utilizando um kit comercial (Randox NX2332
Crumlin, UK). Esta determinação foi baseada na redução de
radicais livres (ABTS.+–2.2–azinobis(3 ehylbenzothiazoline-6-sulfonate) medida como um decréscimo na absorvência a
600nm aos 3 minutos. O radical ABTS.+ é formado pela
interacção do ABTS com as espécies de radicais de ferilmioglobina, gerados pela activação da met-mioglobina com o
peróxido de hidrogénio. A diminuição da absorvência do
radical por acção de antioxidantes plasmáticos foi comparada e
induzida pelo Tropos (6-hidroxi-2,5,7 – tetrametichromano-2
ácido carboxílico). Os resultados foram expressos em mmol/l
de equivalentes de Trolox (600 nm).
O conteúdo de ácido úrico foi determinado através de
um método enzimático a 550nm utilizando um kit comercial
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HORIBA ABX Pentra (Montpellier, FR, Refa A11A01670)
de acordo com as determinações específicas do fabricante.
Tratamento estatístico
Foram utilizados como medidas descritivas a média e o
desvio-padrão. Dado o reduzido valor das amostras e devido
ao facto dos referidos parâmetros analisados no presente
estudo não reunirem os pressupostos necessários para a
adopção dos procedimentos paramétricos (homogeneidade
da variância e normalidade da distribuição) foram utilizados
os testes não-paramétricos. Para a comparação das médias
pré e pós-esforço obtidas nas respectivas provas de triatlo
analisadas, foi utilizado o teste de Wilcoxon para medidas
repetidas e para a análise intergrupos recorreu-se ao teste de
Mann-Whitney para amostras independentes. Para verificar
os níveis de associação entre as variáveis investigadas no estudo, recorreu-se ao coeficiente de correlação de Spearman.
Os níveis de significância foram mantidos em 5% (p < 0,05).
Os procedimentos estatísticos foram tratados e analisados nos
programas Excel™2000 e Statistical Package for the Social
Sciences (SPSS™. Versão 16.0).
Resultados
Relativamente aos indicadores eritrocitários pós-esforço
(Tabela I), importam salientar os aumentos observados nos
atletas de elite relativos à concentração de glóbulos rubros
(CGR), a concentração de hemoglobina (Hb) e índices hematimétricos: concentração de hemoglobina globular média
(CHGM) e hemoglobina globular média (HGM) e a diminuição no volume globular médio (VGM). No que respeita aos
valores basais, ambos os grupos não evidenciaram diferenças
nos respectivos eritrogramas.
Após a prova de triathlon half ironman foi observado no
grupo elite, o aumento de 36,2% na actividade da enzima
SOD eritrocitária (p = 0,019) e a diminuição de 8,4% na
actividade da enzima glutationa-reductase (p = 0,043), enquanto no grupo não-elite, verificou-se somente a diminuição
de 21,7% da actividade da enzima GR (p=0,049), conforme
demonstrado na Tabela II.
Tabela I - Efeito da prova de triathlon longo nos diferentes indicadores eritrocitários dos atletas.
Indicadores
Hematológicos
CGR (106/µL )
Hb (g/dL)
Hct (%)
VGM (fL)
HGM (pg)
CHGM (g/dL)
Triatletas Elite (n=5)
x; x̄ ± Dp
Pré-Prova
Pós-Prova
4,8
5,0 ± 0,1*
14,4 ± 1,5
14,7 ± 1,2*
41,5 ± 0,9
42,2 ± 0,7
84,9 ± 3,6
83,8 ± 3,7*
29,3 ± 1,5
29,7 ± 1,4*
34,5 ± 1,0
35,4 ± 1,2*
RDW (%)
13,0 ± 0,8
13,1 ± 0,7
p
0,038
0,045
0,322
0,020
0,017
0,010
Triatletas não-Elite (n=5)
x; x̄ ± Dp
Pré-Prova
Pós-Prova
4,9 ± 0,4
5,0 ± 0,3
14,5 ± 0,5
14,6 ± 0,1
42,0 ± 4,5
42,0 ± 3,4
85,9 ± 1,8
85,6 ± 1,6
30 ± 0,5
30,1 ± 0,5
34,9 ± 0,6
35,1 ± 0,3
p
0,540
0,371
0,922
0,078
0,893
0,412
0,749
13,0 ± 0,5
0,290
Nota: Valores expressos pela média ± desvio-padrão (x; x̄ ± Dp). * p < 0.05, vs. Pré-Prova.
12,9 ± 0,3
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Tabela II – Efeito da prova de triathlon longo nos indicadores de stress oxidativo dos atletas.
Stress
Oxidativo
SOD (U/gHb)
GPX (U/gHb)
GR (U/l)
TAS (mmol/l)
TBARS(µmol/l)
AU (mg/dl)
Triatletas Elite (n=5)
x; x̄ ± Dp
Pré-Prova
Pós-Prova
538,4±108,8
733,8 ± 119,8*
55,5 ± 7,4
53,6 ± 3,9
79,7 ± 4,4
73,5 ± 1,6*
1,7
1,8 ± 0,1
4 ± 1,1
4,4 ± 0,8
5,6 ± 1,1
6,3 ± 2,1
p
0,019
0,500
0,043
0,068
0,225
0,334
Triatletas não-Elite (n=5)
x; x̄ ± Dp
Pré-Prova
Pós-Prova
510,1 ± 135,6
694,3±138,3
50,1 ± 9,2
45,6 ± 8,3
81,3 ± 13,4
66,8 ± 3,8*
1,8 ± 0,1
1,8
3,7 ± 0,7
3,9 ± 0,9
6,0 ± 1,4
6,6 ± 2,0
p
0,138
0,225
0,049
0,893
0,786
0,588
* p < 0.05, vs. Pré-Prova
Uma comparação intergrupos dos referidos indicadores
de stress oxidativo analisados na prova de triathlon longo half
ironman, permite verificar que relativamente aos valores basais, assim como os valores pós-esforço, não foram encontradas
diferenças entre os respectivos grupos de atletas analisados.
Discussão
A realização de esforços físicos prolongados e de elevada
intensidade induz um stress físico e metabólico capaz de
promover importantes alterações no perfil hematológico dos
atletas de provas de resistência [2,13,14]. Neste sentido e assumindo uma perspectiva longitudinal, centrada nas adaptações
crónicas moduladas pelo treino aeróbio regular e sistemático,
a constatação de reduzidos valores do hematócrito, como verificado nos triatletas de elite, mostra-se consensual na literatura
e parece resultar de uma sobrecompensação induzida pelos
diversos episódios de hemoconcentração aguda determinados
pelas intensas cargas de treino, o que por vezes, se traduz numa
incorrecta interpretação dos valores presentes do eritrograma,
indicando um falso estado de anemia, denominada pseudoanemia dilucional ou anemia do desportista [15]. De facto,
num estudo realizado com 92 ciclistas masculinos treinados,
verificou-se uma diminuição significativa dos valores referentes à eritrometria, hematócrito e hemoglobina concomitante
ao aumento das respectivas cargas de treino [16].
A hipervolemia evidenciada em atletas de provas de endurance, por vezes superior a 20%, pode ser atribuída ao aumento dos níveis plasmáticos de renina, aldosterona e vasopressina,
como forma de compensação da redução aguda no volume
plasmático sanguíneo durante o esforço, e ao aumento da concentração plasmática de albumina, a qual eleva a osmolalidade
do sangue, aumentando de forma significativa o volume líquido extracelular, promovendo o aumento do débito cardíaco e
a diminuição da viscosidade, optimizando a microcirculação
[2,15-17,21]. Estas alterações têm sido atribuídas a factores
como a hemodiluição acentuada, a desproporção entre a
hematopoiese e a ocorrência da hemólise intravascular ou a
deficiência/redução de ferro no organismo [17,16]. Contudo,
o comportamento dos diferentes indicadores eritrocitários em
atletas pode mostrar-se conflitual, podendo ser condicionado
por diversos factores, entre os quais se salientam a duração e
a intensidade das cargas de treino, o estatuto nutricional e o
nível de treino do atleta [18]. No que respeita a intensidade
das cargas de treino, alguns autores [19] constataram uma
redução significativa de 73% dos níveis séricos de ferritina
após submeterem um grupo de 11 ciclistas treinados a um
programa de 6 semanas de treino intenso intervalado. Este
resultado suporta um estudo posterior [20] que estabeleceu
evidências de que a realização de esforços físicos de elevada
intensidade induz uma diminuição dos níveis séricos de ferritina, aumento da absorção intestinal de ferro e redução das
reservas de ferro no fígado e na medula óssea.
Um aumento da massa eritrocitária traduz-se na melhoria da prestação em esforços de carácter aeróbio, visto que
os eritrócitos novos apresentam uma maior capacidade de
deformação, o que favorece um transporte mais eficiente
do oxigénio para o tecido muscular [16]. A deformação do
eritrócito é influenciada pela fluidez interna, pela relação volume/área da superfície celular e pelas propriedades físicas da
membrana, como por exemplo, a composição dos fosfolípidos
da membrana [21]. Em linha de convergência, um estudo
realizado com ciclistas treinados constatou que os eritrócitos
presentes nestes atletas apresentavam uma maior capacidade
de deformação comparativamente aos indivíduos destreinados, sendo também verificada uma menor percentagem de
células densas e um volume globular médio (VGM) superior,
o que constitui um indicativo de elevada proporção de células jovens (turnover eritrocitário) [22]. Importa salientar,
que uma análise do perfil hematológico referente aos índices
hematimétricos VGM, HGM e o RDW, apresentados pelos
triatletas no momento pré-prova, permite-nos constatar a
ausência de sintomas de anemias microcítica (VGM < 80fl) ou
macrocítica (VGM > 100fl), assim como quadros sugestivos
de hipocromia (HGM < 27pg) e talassemia (VGM < 80fl;
HGM < 27pg e RDW > 15%).
Após a realização da prova, foram constatados nos triatletas
de elite, aumentos dos valores relativos à concentração de
glóbulos rubros e a concentração de hemoglobina. O aumento
da viscosidade sanguínea (hemoconcentração) verificado no
período imediatamente após o exercício físico é normalmente
atribuído ao incremento dos valores do hematócrito, resultante da transferência de fluidos do sangue para o espaço
intersticial, por meio de uma aumentada permeabilidade
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capilar e elevada pressão osmótica na musculatura activa
[16,23]. A presente asserção suporta a diminuição constatada,
nos atletas de elite, dos valores médios referentes ao VGM e
o aumento dos valores relativos à CHGM, comportamentos
que indiciam a ocorrência de uma desidratação, caracterizada
por uma alteração do fluido do compartimento intracelular
do eritrócito para o espaço intravascular [2,24]. Relativamente
ao comportamento dos indicadores de stress oxidativo, uma
análise da tabela II permite-nos verificar um aumento da
actividade da enzima SOD eritrocitária no grupo elite (p
< 0,05), o que evidencia uma condição acrescida de stress
oxidativo induzido pela respectiva prova.
Efectivamente, a enzima SOD tem como função principal
catalisar a conversão do radical superóxido (O2●-) em oxigénio
(O2) e peróxido de hidrogénio (H2O2), estando o aumento
da sua actividade relacionado com a resistência aumentada ao
stress oxidativo [25,26]. O aumento da actividade da enzima
SOD eritrocitária, evidenciado nos atletas de elite, corrobora
os estudos anteriores realizados com atletas de natação [27],
ciclismo [28] e corrida [29-31], embora conflitue com os resultados encontrados em atletas competitivos de triathlon [7] e
em ciclistas profissionais [32], a referida actividade enzimática
pós-esforço se mostrou inalterada. Estudos similares, porém
contemplando amostras de atletas de triathlon de distância
olímpica (1,5km de natação, 40 km de ciclismo e 10 km de
corrida) verificaram, contrariamente ao observado no presente
estudo, uma diminuição significativa da atividade da enzima
SOD eritrocitária [33-35].
Esta discrepância no comportamento da atividade da
enzima SOD pode resultar dos diferentes procedimentos
de avaliação adotados nos referidos estudos, assim como do
modelo de exercício físico agudo realizado. Adicionalmente,
importa aduzir a influência de factores como a intensidade
do esforço e o balanço inicial das enzimas antioxidantes na
geração de diferentes espécies reactivas de oxigénio [36]. Em
convergência, alguns autores reiteram a importância do estado
de treino na prevenção dos danos oxidativos induzidos pelos
esforços físicos prolongados, uma vez que indivíduos treinados
apresentam uma maior população de eritrócitos jovens, os
quais se mostram mais resistentes ao stress oxidativo, reduzindo a incidência de hemólise [37]. Neste contexto, o treino
aeróbio parece constituir um importante fator de ativação do
sistema enzimático antioxidante, tendo em vista as espécies
reactivas produzidas durante o estímulo da contracção muscular desempenharem um papel preponderante no processo
da adaptação muscular ao stress oxidativo, através da ativação
da transdução de sinais para a síntese de enzimas antioxidantes
sensíveis ao estado redox [38,39].
A substantivar, as enzimas antioxidantes contêm uma
sequência de genes reguladores sensíveis à alteração do estado
redox que interagem com fatores de transcrição, possibilitando
a regulação da sua expressão genética [40]. Assim, o aumento da actividade da SOD eritrocitária, observado no grupo
elite, poderá ser justificado pela ação da atividade contráctil
97
no processo de sinalização intracelular, condicionada pelas
espécies reativas de oxigénio e nitrogênio (ERON), conduzindo à expressão de genes responsáveis pela codificação de
proteínas antioxidantes [38]. No que respeita ao comportamento da atividade plasmática da enzima GR, caracterizada
pelas diminuições (p < 0,05) de 8,2% e 21,7% nos grupos
elite e não-lite, respectivamente, corrobora o comportamento
observado em estudos realizados com atletas de provas similares [7,33,35]. A enzima GR actua na detoxificação das ERO,
mais especificamente no controlo dos níveis de H2O2 celular,
sendo fundamental para o normal funcionamento da enzima
antioxidante GPx [41]. De facto, a interacção das enzimas
GPx e GR sobre o equilíbrio redox celular GSH/GSSG condiciona os níveis intracelulares de GSH [42]. A diminuição
na actividade da enzima GR nos respectivos grupos de atletas
analisados parece estar associada à diminuição da concentração de NADPH, um importante substrato que actua como
co-factor e agente redutor fundamental na reação de redução
da glutationa oxidada (GSSG) à glutationa reduzida (GSH),
catalisada pela enzima GR. No tecido muscular esquelético,
a elevada oxidação da glutationa resulta no aumento da razão
GSSG/GSH, favorecendo a ocorrência de stress oxidativo
[26,46,47]. Nessa condição, o fígado promove o aumento
da libertação de glutationa para a circulação sanguínea,
elevando a captação e a capacidade antioxidante do tecido
muscular esquelético durante o processo de contracção [48].
A glutationa é predominantemente regenerada no músculo
esquelético e no fígado, a partir do NADPH, um importante
produto da via das pentoses, utilizado como substrato pela
enzima GR [49]. Contudo, este processo de regeneração da
glutationa é regulado pelas concentrações de glucose-6-fosfato
(G6-P), um intermediário da via glicolítica, cuja concentração
é mantida a partir da degradação do glicogénio [50]. Assim,
em resposta a realização de esforços físicos prolongados como
as provas de triathlon, a depleção das concentrações endógenas
de glicogénio muscular e hepático reduziria a actividade da
via glicolítica, diminuindo a disponibilidade de G6-P como
substrato, favorecendo a alteração do estado redox intracelular
para um estado mais oxidado, podendo desta forma, conduzir ao aumento na oxidação dos grupos tióis de proteínas
com funções sinalizadores importantes durante a actividade
muscular [26,46].
Conclusão
Os resultados do presente estudo revelam a constatação de
evidências de stress oxidativo, após a realização da prova de
triathlon longo, somente nos atletas do grupo elite. Esta resposta, traduzida em valores acrescidos da atividade da enzima
SOD eritrocitária, reforça a alteração sistémica pró-oxidante
induzida pelos esforços que requerem elevado consumo de
oxigénio. Todavia, não foram verificadas evidências de danos
oxidativos aos lipídeos, mensuradas no comportamento dos
valores de TBARS.
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
100
ARTIGO ORIGINAL
Prevalência de excesso de peso em crianças
e adolescentes da cidade de Santos/SP através
de dois métodos de avaliação antropométrica
Prevalence of overweight in children and adolescents of Santos/SP,
using two methods of anthropometric assessment
Cauê V. La Scala Teixeira*, Cláudio Zanin Eduardo*, Kety Magalhães Konda*, Rodrigo Luiz da Silva Gianoni*
*Especialista em Fisiologia do Exercício, Prefeitura Municipal de Santos, Santos/SP
Resumo
O objetivo foi avaliar a prevalência de excesso de peso (EP) em
crianças e adolescentes da cidade de Santos/SP, através de dois métodos de avaliação antropométrica: índice de massa corporal (IMC)
e percentual de gordura corporal (%G) através de dobras cutâneas,
comparando os resultados. 526 indivíduos (5-17 anos) praticantes
de exercício físico (2 vezes/semana) foram submetidos às avaliações
de massa corporal, estatura, dobra cutânea triciptal e subescapular
e IMC. O IMC foi classificado de acordo com os referenciais da
WHO (2007), consideradas EP as classificações “sobrepeso” e “obesidade”. O %G utilizou protocolo de Slaughter et al. e classificação de
Lohman, sendo consideradas EP as classificações “moderadamente
alto”, “alto” e “muito alto”. No IMC, 42,8% do total apresentou
EP. Já, no %G, 46,1%. Quando associados os resultados, 37,6% do
total apresentou EP em ambos os métodos. Com relação à parte da
amostra considerada adequada no IMC, 15,1% apresentaram %G
em EP, caracterizando “obesidade do peso normal”. Dentre aqueles
que apresentaram classificações em EP no IMC, 12,0% tinham
o %G adequado, o que indica um sobrepeso provindo de massa
magra, quadro inverso à obesidade do peso normal. Em conclusão,
observou-se alta prevalência de EP na amostra. Os dois métodos
utilizados revelaram prevalência semelhante de EP no geral, porém,
a distribuição do EP diferiu entre a amostra.
Abstract
The aim of this study was to assess the prevalence of overweight
(OW) in children and adolescents in Santos/SP, using two methods
of anthropometric measurements: body mass index (BMI) and
percentage body fat (%BF) through skinfold, comparing the results.
526 individuals (5-17 years old) practitioners of physical exercise
(2 times/week) were assessed with body weight, height, triceps
and subscapular skinfold and BMI. BMI was classified according
to the references of WHO (2007), OW classifications considered
“overweight” and “obesity.” The %BF protocol used was Slaughter
et al. and classification of Lohman, OW classifications being considered “moderately high”, “high” and “very high”. In BMI, 42.8%
out of 526 had OW, but in %BF had 46.1%. When associated
the results, 37.6% out of total individuals showed OW in both
methods. In relation to part of the sample which was considered
adequate in BMI, 15.1% had %BF in OW, characterizing “normal
weight obesity.” Among those with BMI classifications in the OW,
12.0% had adequate %BF, which indicates an overweight coming
from lean mass, the inverse of the normal weight obesity. In conclusion, we observed a high prevalence of OW in the sample. Both
methods revealed a similar prevalence of OW in general, however,
the distribution of the OW differed in the sample.
Key-words: obesity, overweight, children, normal weight obesity.
Palavras-chave: obesidade, excesso de peso, crianças, obesidade
do peso normal.
Recebido em 7 de fevereiro de 2012; aceito em 8 de junho de 2012.
Endereço para correspondência: Cauê Vazquez La Scala Teixeira, Pça Eng. José Rebouças, S/N , Ponta da Praia, 11030-000 Santos
SP, E-mail: [email protected]
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
Introdução
O excesso de peso, incluindo sobrepeso e obesidade, é
um grave problema de ordem mundial que atinge crianças e
adolescentes em proporções crescentes [1]. No Brasil parece
estar havendo aumento nos valores de IMC de crianças e
adolescentes com o passar dos anos, aumentando a prevalência
de excesso de peso nesta faixa etária [2].
O excesso de peso é caracterizado por um acúmulo excessivo de gordura corporal, o qual pode trazer algumas complicações à saúde. A obesidade, por exemplo, é considerada
um fator de risco cardiovascular, além de estar intimamente
associada com o desenvolvimento de doenças como hipertensão arterial, diabetes tipo 2 e as dislipidemias [3].
Oliveira et al. [4] afirmam que a obesidade na infância e
adolescência é um importante fator de risco para o desenvolvimento das doenças cardiovasculares na vida adulta. No entanto,
evidências recentes mostram forte associação do excesso de
peso com o desenvolvimento dessas doenças já na infância [5].
Para detecção do excesso de peso, o índice de massa corporal
(IMC) costuma ser um dos indicadores antropométricos mais
utilizados, principalmente em estudos epidemiológicos, tendo em
vista sua praticidade e boa correlação com a composição corporal.
No entanto, este método de avaliação antropométrica
apresenta algumas limitações. Por se tratar de um método
que leva em consideração somente mensurações de massa
corporal e estatura, o mesmo não permite quantificar os
componentes corporais, como a massa de gordura e a massa
corporal magra [6].
Sendo assim, caso um indivíduo apresente seu IMC em
índices de excesso de peso, torna-se impossível afirmar qual a
origem desse peso adicional (tecido adiposo ou tecido magro).
Para minimizar esse fator limitante, outros métodos de
avaliação antropométrica são sugeridos. O método de dobras
cutâneas, por exemplo, é um método duplamente indireto que
permite a quantificação da gordura corporal. No entanto, a
aplicação desse método exige alguns cuidados especiais, como a
preparação dos avaliados e a experiência dos avaliadores, fatores
que limitam sua aplicação em estudos epidemiológicos [6].
Com base nas vantagens e desvantagens de ambos os
métodos e com o intuito de verificar sua aplicabilidade e
confiabilidade, o objetivo do presente estudo foi avaliar a
prevalência de excesso de peso em crianças e adolescentes
da cidade de Santos, SP, através de dois métodos distintos
de avaliação antropométrica: IMC e percentual de gordura
corporal (%G) através do método de dobras cutâneas, bem
como comparar os resultados dos dois métodos.
Material e métodos
Sujeitos
526 crianças e adolescentes (292 meninos e 234 meninas)
com idade entre 5 e 17 anos, frequentadores de um centro
101
esportivo municipal da cidade de Santos, SP, praticantes de
uma das seguintes modalidades, com frequência semanal de
2 vezes e duração de 1 hora por sessão: basquetebol, biathlon,
ciclismo, futsal, ginástica rítmica, handebol, judô, karatê,
natação, patinação, voleibol.
Instrumentos e procedimentos
Os indivíduos foram avaliados após convite formal aos
pais e/ou responsáveis, enviado por intermédio dos professores
de cada modalidade. Todos os pais ou responsáveis assinaram
termo de consentimento esclarecido e foi facultado o acompanhamento durante a realização das avaliações.
Os indivíduos foram orientados previamente a não praticar atividade física no dia da avaliação, bem como não fazer
refeição pesada no período de duas horas antes do horário
agendado para avaliação.
Todos os procedimentos foram realizados com os indivíduos estando descalços e trajando roupas leves ou trajes
de banho.
A equipe de avaliadores foi composta por profissionais
de educação física com experiência mínima de 3 anos nas
avaliações antropométricas efetuadas.
Os instrumentos e procedimentos adotados durante as
avaliações foram os seguintes:
• Massa corporal: foi utilizada balança antropométrica de
marca Toledo, modelo 2096PP/2, com capacidade máxima
de 200 quilogramas e precisão de 50 gramas. O procedimento adotado foi baseado nas recomendações do Colégio
Americano de Medicina do Esporte [7].
• Estatura: foi utilizado estadiômetro profissional de marca
Sanny, com altura máxima de 211,5 centímetros e precisão
de 1 milímetro. Foi aferida de acordo com os procedimentos recomendados pelo ACSM [7].
• IMC: foi calculado através da divisão dos valores de massa
corporal (quilograma) pelo quadrado da estatura (metro).
Para identificação do percentil correspondente ao valor de
IMC para a idade, foi utilizado o software WHO AnthroPlus v1.0.2 e para classificação, foi utilizado referencial
proposto pela Organização Mundial de Saúde [8,9], sendo
consideradas como excesso de peso, no presente estudo, as
classificações “sobrepeso” e “obesidade” (percentil > 85):
• Composição corporal: foi utilizado adipômetro científico
de marca Sanny, confeccionado em policarbonato, com
capacidade de 0 a 78 milímetros e precisão de 0,1 milímetro. Para estimativa do percentual de gordura, foi adotado
o protocolo proposto por Slaughter et al. [10], composto
por duas dobras cutâneas (tríceps e subescapular). Para cálculo do valor percentual da gordura corporal foi utilizado
software Sapaf Jovem v1.0, Infodata, e o valor obtido foi
classificado de acordo com o proposto por Lohman [11],
sendo consideradas como excesso de peso, no presente
estudo, as classificações “moderadamente alto”, “alto” e
“muito alto”.
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
102
Resultados
Analisando os resultados da avaliação do IMC, 42,8% da
amostra apresentou excesso de peso, sendo observada uma
prevalência ligeiramente maior no sexo masculino (43,5%)
em comparação ao feminino (41,9%). Esses resultados podem
ser observados abaixo (Tabela I).
Tabela I - Frequência relativa e absoluta da classificação do IMC.
Classificação
Baixo peso
Adequado
Sobrepeso
Obesidade
Total
%(N) - T
%(N) - M
%(N) - F
1,9(10)
2,1(6)
1,7(4)
55,3(291) 54,4(159) 56,4(132)
21,1(111)
19,2(56)
23,5(55)
21,7(114)
24,3(71)
18,4(43)
100,0(526) 100,0(292) 100,0(234)
% = frequência relativa; N = frequência absoluta; T = total; M =
masculino; F = feminino;
Adequado
Sobrepeso
Obesidade
= zona de excesso de peso
Com relação à composição corporal utilizando o valor de percentual de gordura para classificação, 46,1% da amostra apresentou
excesso de peso. Neste método, ao contrário do primeiro (IMC), foi
observada uma prevalência ligeiramente maior de excesso de peso no
sexo feminino (48,3%), quando comparado ao masculino (44,1%).
Os resultados referentes à avaliação do percentual de gordura (%G) estão apresentados abaixo (Tabela II).
Total
Muito baixo
1,7(5)
Baixo
18,2(53)
Normal
65,0(189)
55,3(291)
Moderadamente alto 13,1(38)
Alto
1,7(5)
Muito alto
0,3(1)
Muito baixo
0,0(0)
Baixo
0,0(0)
Normal
22,5(25)
21,1(111)
Moderadamente alto 27,0(30)
Alto
32,5(36)
Muito alto
18,0(20)
Muito baixo
0,0(0)
Baixo
0,0(0)
Normal
1,7(2)
21,7(114)
Moderadamente alto
3,5(4)
Alto
28,1(32)
Muito alto
66,7(76)
100,0(526) Total
100,0(526)
% = frequência relativa; N = frequência absoluta;
Tabela IV - Associação entre os resultados das avaliações de IMC
e %G – masculino.
Classificação
IMC
%(N)
Tabela II - Frequência relativa (%) e absoluta (N) da classificação
do %G – geral.
Classificação
Muito baixo
Baixo
Ótimo ou normal
Moderadamente alto
Alto
Muito alto
Total
%(N) - T
%(N) - M
%(N) - F
1,1(6)
0,4(1)
2,1(5)
11,0(58)
12,7(37)
9,0(21)
41,8(220) 42,8(125)
40,6(95)
13,7(72)
8,9(26)
19,6(46)
13,9(73)
14,0(41)
13,7(32)
18,5(97)
21,2(62)
15,0(35)
100,0(526) 100,0(292) 100,0(234)
Baixo peso
2,1(6)
Adequado
54,4(159)
Sobrepeso
19,2(56)
Obesidade
24,3(71)
Total
100,0(292)
% = frequência relativa; N = frequência absoluta; T = total; M =
masculino; F = feminino;
= zona de excesso de peso
Como pôde ser observado, no método de dobras cutâneas
foi observada uma prevalência de excesso de peso ligeiramente
maior que no método de IMC.
A associação dos resultados de ambos os métodos pode
ser observada a seguir (Tabelas III, IV e V):
Tabela III - Associação entre os resultados das avaliações de IMC
e %G – total.
Classificação IMC
Baixo peso
%(N)
1,9(10)
Classificação
%G
Muito baixo
Baixo
Normal
Moderadamente alto
Alto
Muito alto
%(N)
10,0(1)
50,0(5)
40,0(4)
0,0(0)
0,0(0)
0,0(0)
= zona de excesso
de peso
Classificação
%(N)
%G
Muito baixo
0,0(0)
Baixo
66,7(4)
Normal
33,3(2)
Moderadamente alto
0,0(0)
Alto
0,0(0)
Muito alto
0,0(0)
Muito baixo
0,6(1)
Baixo
20,8(33)
Normal
68,6(109)
Moderadamente alto 7,5(12)
Alto
2,5(4)
Muito alto
0,0(0)
Muito baixo
0,0(0)
Baixo
0,0(0)
Normal
23,2(13)
Moderadamente alto 21,4(12)
Alto
34,0(19)
Muito alto
21,4(12)
Muito baixo
0,0(0)
Baixo
0,0(0)
Normal
1,4(1)
Moderadamente alto
2,8(2)
Alto
25,4(18)
Muito alto
70,4(50)
% = frequência relativa; N = frequência absoluta;
so de peso
= zona de exces-
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
Tabela V - Associação entre os resultados das avaliações de IMC e
%G – feminino.
Classificação
IMC
%(N)
Baixo peso
1,7(4)
Adequado
56,4(132)
Sobrepeso
23,5(55)
Obesidade
18,4(43)
Total
100,0(234)
Classificação
%G
Muito baixo
Baixo
Normal
Moderadamente alto
Alto
Muito alto
Muito baixo
Baixo
Normal
Moderadamente alto
Alto
Muito alto
Muito baixo
Baixo
Normal
Moderadamente alto
Alto
Muito alto
Muito baixo
Baixo
Normal
Moderadamente alto
Alto
Muito alto
% = frequência relativa; N = frequência absoluta;
%(N)
25,0(1)
25,0(1)
50,0(2)
0,0(0)
0,0(0)
0,0(0)
3,0(4)
15,1(20)
60,6(80)
19,7(26)
0,8(1)
0,8(1)
0,0(0)
0,0(0)
21,8(12)
32,7(18)
30,9(17)
14,6(8)
0,0(0)
0,0(0)
2,3(1)
4,6(2)
32,6(14)
60,5(26)
= zona de excesso
de peso
Analisando a associação dos resultados dos dois métodos,
37,6% da amostra apresentou excesso de peso em ambos os
métodos. Nesta associação, o sexo masculino apresentou maior
prevalência de excesso de peso (38,7%) que o feminino (36,3%).
Com relação à parte da amostra considerada adequada
quanto ao IMC, 15,1% apresentaram %G em níveis de excesso de peso, caracterizando um quadro de “obesidade do peso
normal” ou “neo-obesidade”, termo recentemente proposto
por pesquisadores americanos [12]. Esse quadro foi maior
no sexo feminino (21,2%) do que no masculino (10,1%).
Em contrapartida, dentre aqueles que apresentaram classificações em excesso de peso no IMC, 12,0% tinham o %G
em nível ótimo, o que possivelmente indica um sobrepeso
provindo de massa corporal magra (ex. massa óssea, massa
muscular). Nesse contexto, 13,7% das meninas e 11,0%
dos meninos apresentaram %G normal apesar do IMC estar
classificado como excesso de peso.
Discussão
Com base nos resultados de nosso estudo, a prevalência
de excesso de peso na amostra avaliada foi alta em ambos os
103
métodos, fato preocupante tendo em vista a possibilidade
aumentada de desenvolvimento de co-morbidades associadas.
Em pesquisa recente divulgada em 2010 pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística [13], a prevalência de
excesso de peso no IMC (sobrepeso + obesidade) em meninos
de 5-9 anos de idade foi de 34,8%, enquanto nas meninas de
mesma idade, foi de 32%. Já, na faixa etária de 10-19 anos,
o excesso de peso em meninos e meninas correspondeu a
21,7% e 19,4%, respectivamente. Esses valores foram menores
do que os observados no presente, indicando que a amostra
avaliada apresentou prevalência de excesso de peso acima da
média nacional.
No presente estudo, as prevalências de excesso de peso nos
dois métodos analisados foram semelhantes, porém, diferindo
em sua distribuição entre a amostra.
Pesquisa que comparou a predição da quantidade de
gordura corporal entre cinco métodos distintos de avaliação,
sendo quatro protocolos de dobras cutâneas e o IMC, concluiu
que seus resultados apresentaram evidências de que, embora
os valores de gordura corporal preditos por todos os métodos
analisados, quando considerados em grupos, se apresentassem
de forma similar, foram identificados vieses individuais excepcionalmente elevados [14]. Apesar de a amostra utilizada
ser composta por adultos jovens, esses achados corroboram
os de nosso estudo.
A comparação entre os resultados de IMC e %G feita em
nosso estudo permitiu a observação de pontos falhos no IMC,
pois 15,1% da amostra considerada normal no IMC apresentou gordura corporal além dos níveis considerados normais.
Em estudo semelhante [15], porém, realizado em adultos
chineses, mais de 30% dos indivíduos que apresentaram
excesso de gordura corporal foram classificados como eutróficos pelo IMC, demonstrando sua baixa sensibilidade na
identificação do excesso de gordura corporal.
Esse quadro de excesso de gordura corporal sem elevação
do IMC é denominado, atualmente, como obesidade do peso
normal ou neo-obesidade [16]. Romero-Curral et al. [12] afirmam que a neo-obesidade é associada com alta prevalência de
alterações cardiometabólicas, síndrome metabólica e outros
fatores de risco cardiovasculares em adultos.
Já, em crianças e adolescentes neo-obesas, supõe-se que as
alterações supramencionadas também possam estar evidenciadas, no entanto, nenhum estudo foi encontrado.
Por outro lado, 12% dos indivíduos que apresentaram
IMC em excesso de peso tinham o %G em níveis adequados
para a saúde. O sobrepeso presente nesses indivíduos deve-se
ao peso do tecido magro (ossos, músculos). Esse quadro se
caracteriza pela inversão à obesidade normal, sendo assim,
esses indivíduos poderiam ser considerados “falsos gordos”.
Nenhum estudo que fizesse análise semelhante foi encontrado.
Sugere-se a realização de mais pesquisas semelhantes, a
fim de fornecer dados quantitativos relacionados ao excesso
de peso, obesidade do peso normal e o seu quadro inverso.
104
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
Conclusão
Foi observada alta prevalência de excesso de peso na
amostra avaliada quando em comparação com outros estudos
analisados.
Esses achados são preocupantes haja vista o aumento do
risco do desenvolvimento de doenças associadas à obesidade,
como diabetes e hipertensão arterial.
Os dois métodos de avaliação utilizados revelaram prevalência semelhante de excesso de peso no geral, sendo observada, porém, uma ligeira diferença entre os sexos.
Tendo em vista as limitações do IMC, a associação dos
resultados de ambos revelou, dentre a amostra considerada
adequada, prevalência de 15,1% de obesidade do peso normal.
Já na parte da amostra classificada com excesso de peso, 12,0%
apresentou %G em níveis ótimos, caracterizando sobrepeso
provindo de massa corporal magra, ou seja, um quadro inverso
à obesidade do peso normal.
Apesar da semelhança na prevalência geral de excesso de
peso entre os métodos, a distribuição desse excesso de peso
diferiu entre as crianças, o que comprova as limitações do
IMC e salienta a importância da utilização de métodos mais
específicos de avaliação para detecção de excesso de peso.
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
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ARTIGO ORIGINAL
Incidência de escoliose com excesso de carga
nas mochilas em crianças de 6 a 10 anos
Incidence of scoliosis in 6 to 10 years old children
using overloaded backpacks
Alisson Guimbala dos Santos Araujo, M.Sc.*, Araceli Legal Guimbala**, Sônia Izidoro Antunes Cidral**,
Simone Suzuki Woellner***
*Supervisor do Ambulatório de Disfunções Músculo-Esqueléticas da Faculdade Guilherme Guimbala (FGG), Especialista em Ortopedia e Traumatologia da FGG, **Acadêmicas do Curso de Fisioterapia da FGG, ***Supervisora do Ambulatório de Neurologia
Adulto da FGG, Especialista em Fisioterapia Neurológica da FURB
Resumo
Abstract
Palavras-chave: escoliose, mochilas, escolares.
Key-words: scoliosis, backpacks, students.
A coluna vertebral é considerada um suporte central forte,
porém flexível que suporta a cabeça e o tronco, quando ocorre um
desvio nesse suporte chamamos de escoliose. Um dos agravantes da
escoliose na fase escolar é a sobrecarga de peso na mochila gerando
compensações na criança. Portanto o objetivo foi relacionar o peso
da mochila com a prevalência de escoliose em crianças de 6 a 10
anos do ensino fundamental. Os sujeitos foram 109 alunos de ambos os gêneros de duas instituições de ensino da região de Joinville/
SC. Estes foram avaliados através de um protocolo postural, teste
de Adams e Allis, medidas antropométricas e questionários autoadministrados pelos alunos. Os resultados demonstraram que 45%
dos alunos estavam com excesso de material escolar e desses 38,5%
apresentaram escoliose, porém correlacionando com os alunos com
carga inferior aos 10% exigidos pela lei nº 10.759 observou-se que
a carga excessiva não foi fator determinante para a ocorrência do
desvio. Conclui-se então que a prevalência de escoliose no grupo
estudado não teve correlação com o excesso de carga, considerando assim que outros fatores não estudados na pesquisa podem ter
interferido nas alterações.
The vertebral column is a strong central support, yet flexible to
support the head and trunk, and the deviation which occurs in the
spine is called scoliosis. One of the aggravating factors of scoliosis
during school period is the overload in the backpack weight, which
generates compensation in the posture. Therefore, the purpose of
this study was to link the weight of the backpack with the prevalence of scoliosis in 6 to 10 years old children at primary school.
Were assessed 109 students, both male and female, in 2 educational
institutions of Joinville/SC. They were assessed using a protocol
postural, Adams and Allis test, anthropometric measurements and
two questionnaires answered by the students themselves. The results
showed that 45% of the students that were carrying overloaded
backpacks and 38.5% presented scoliosis; but, by comparison to
the students who were carrying less than 10% that is required by
law No. 10.759, it was possible to conclude that the overweight
was not in fact a determining factor for the occurrence of scoliosis.
It is concluded that the prevalence of scoliosis in the study group
did not correlate with the excess load, considering that other factors
not studied in this research may have interfered with the changes.
Recebido em 16 de agosto de 2011; aceito em 4 de novembro de 2011.
Endereço para correspondência: Alisson Guimbala dos Santos Araujo, Rua Paulo Henk, 96, 89216550 Joinville SC, Tel: (47) 99710675, E-mail: [email protected]
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
Introdução
A coluna vertebral é formada por uma série de vértebras
dispostas uma sobre a outra que quando saudáveis trabalham
em harmonia [1]. É constituída por quatro curvas fisiológicas
que se classificam em coluna cervical, coluna torácica, coluna
lombar, coluna sacral. Envolvendo a coluna encontram-se os
músculos maiores e mais superficiais que vão produzir movimentos globais da coluna. Estes músculos quando encurtados
causam uma força compressiva sobre os discos [2].
A postura corporal é definida como uma posição mantida
com características involuntárias de um organismo em perfeita
harmonia e que exige força antigravitacional com a capacidade de passar de um estado de repouso para um estado de
movimento [3]. A postura ideal ocorre quando o indivíduo
consegue um bom equilíbrio ortostático com menos estresse
e tensão nas articulações. Músculos fortes e flexíveis estão
menos suscetíveis ao estresse articular [4]. Nestas condições, os
músculos funcionam mais eficientemente, e as posições ideais
são proporcionadas para os órgãos torácicos e abdominais [5].
Os desvios posturais são comuns nos dias atuais devido à
ação de agentes estressores e externos no cotidiano dos indivíduos [1]. Em uma postura normal a coluna vertebral em vista
posterior se apresenta em linha reta, quando há um desvio
lateral definimos como escoliose, levando assim a deformidades
vertebrais [6]. A escoliose caracteriza-se em “C” ou “S”, sendo
classificada de acordo com a localização de sua curvatura nas regiões cervicotorácica, torácica, toracolombar ou lombar. Vários
fatores podem implicar na alteração da postura, como idiopáticos, congênitos, neuromusculares, antálgicos e posturais [7].
A escoliose é uma das principais ocorrências ortopédicas
entre crianças e adolescentes [7]. Existe a escoliose estrutural
quando é irreversível e a rotação da coluna que é fixa, podendo ser progressiva. Escoliose funcional ocorre quando não é
fixa para os lados da curvatura e geralmente é flexível e não
progressiva [8]. Nos primeiros anos escolares o comportamento postural da criança é o grande responsável pelos vícios
posturais adquiridos, tendo como considerações a evolução
da sua postura ereta, suas condições anatômicas, sua coluna
vertebral e as relações estabelecidas com o seu meio [9]. Nos
adultos 80% dos problemas posturais têm início na infância,
e confirmando-se na adolescência, devido aos maus hábitos
do cotidiano durante o crescimento e desenvolvimento,
principalmente durante o período escolar [10].
Em idade escolar, as crianças cumprem uma rotina diária
de transporte do material didático, e a mochila é uma forma
prática e a mais utilizada. A carga da mochila quando superior
à capacidade de sustentação dos grupos musculares da criança
causa sobrecarga na coluna vertebral, podendo assim ocasionar
alterações posturais, dor ou disfunção [11]. A carga pesada da
mochila com os efeitos combinados como a posição, forma e
tamanho da carga, a sua distribuição, o tempo gasto de transporte, a condição física e as características físicas da criança
foram propostos como fatores que foram associados com os
desvios posturais [12]. A lei n° 10.759/98 determina que o
peso de mochilas, pastas e similares não deve ultrapassar 5%
do peso de crianças da pré-escola e 10% do peso do aluno do
ensino fundamental, percentual indicado pela Organização
Mundial da Saúde (OMS) [13].
Observa-se um aumento significativo na incidência de
problemas posturais em crianças de todo o mundo, podendo
ser a causa mais comum o uso incorreto de mochila escolar.
Como o transporte do material escolar é uma rotina diária
que se repete durante anos consecutivos, cuidados especiais
são necessários para evitar a presença de alterações posturais
em médio e longo prazo, trazendo riscos à saúde desta população [9]. Baseado no exposto acima o objetivo da pesquisa
foi relacionar o peso da mochila com prevalência de escoliose
em crianças de 6 a 10 anos.
Material e métodos
A pesquisa realizada foi descritiva de campo. Foram avaliados 109 alunos de ambos os gêneros, com idades variando
entre 6 e 10 anos em duas escolas diferentes. As avaliações
foram realizadas no período de abril a maio de 2011 nas dependências de duas instituições de ensino da rede particular
e estadual, mediante a apresentação do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido assinado pelos pais, firmando
a disposição do aluno em participar do estudo. A presente
pesquisa foi submetida e aprovada pelo comitê de Ética do
Hospital Municipal São José (11013) conforme as resoluções
nacionais 196/96 e 251/97 relacionadas a pesquisas envolvendo seres humanos.
Como instrumento de pesquisa foi utilizado um protocolo
criado por Lima et al. [14] e adaptado pelos autores da presente pesquisa para avaliação da postura. Neste protocolo constava a identificação da criança, idade, sexo, lado dominante
e presença de dor. Foi verificado o tipo de mochila e seu peso
aferido por uma balança EB 9003 Day Home®.
A avaliação postural foi realizada numa sala reservada de
forma individual, onde as meninas estavam vestidas de shorts
e top e os meninos de calção. Foi analisada a altura através da
fita métrica WCS® e o peso da criança pela mesma balança
citada anteriormente, a convexidade da Cervicotorácica e
Torocolombar.
Para verificação da existência da escoliose estrutural foi
aplicado o teste de Adams, no qual o resultado se torna positivo quando for detectada uma giba posterior nas costelas
durante a inclinação para frente. O teste de Allis foi também
utilizado para a investigação da existência de um desvio
postural [15].
Inicialmente foi feito o questionário administrado pelos
autores da pesquisa e logo após efetuou-se a avaliação postural.
Não foi realizado registro fotográfico das mesmas e não houve
nenhuma intercorrência quanto à avaliação.
Após a aplicação dos questionários e avaliações, foi realizado levantamento estatístico, ao qual os dados foram tabulados
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
em planilha do programa Microsoft® Office Excel 2007 com
análise estatística descritiva (média e desvio padrão, percentual, mediana, máximo, mínimo, erro padrão).
Resultados
A partir da análise dos dados coletados pela avaliação
postural e questionário, os resultados obtidos serão descritos
abaixo. A amostra da pesquisa foi composta por 109 alunos,
sendo 64 (58,7%) do gênero feminino e 45 (41,3%) do
gênero masculino. Idade, altura e peso dos alunos podem ser
observados na Tabela I.
Tabela I - Dados relacionados à idade, à antropometria e ao peso
da mochila.
Idade
Altura
Peso
Peso da
Mochila
Mínimo
6
1,00
19,6
Máxi- Mémo
dia
10
8,3
1,57
1,36
49,1
32,2
Mediana
8
1,36
32
Erro
padrão
0,107
0,009
0,681
Desvio
padrão
1,113
0,091
7,113
0,2
5,8
3,1
0,098
1,021
3,0
107
O gráfico 2 demonstra a relação do excesso de carga
com os desvios apresentados nos alunos avaliados. Pode-se
observar que a maior incidência foi a escoliose em C tanto
para o grupo com peso menor, quanto para o grupo com
peso maior que 10%.
Gráfico 2 - Percentual de alunos relacionado ao peso da mochila
e tipo de desvio.
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
%
35,8%
30,3%
11,9%
Menor ou igual 10%
Desvio em C
Legenda: idade – anos; altura – metros; peso e peso da mochila – kg.
8,3% 6,4%
7,3%
Maior que 10%
Desvio em S
Sem desvio
Fonte: dados da pesquisa.
Fonte: dados da pesquisa.
Entre os alunos avaliados, 92 (84,4%) utilizam mochila
com alça e 17 (15,6%) com rodas, 72 (66%) do total avaliado
apresentam desvio em C, 22 (20%) em S e 15 (14%) não
apresentaram alterações escolióticas.
O Gráfico 1 evidencia a relação geral de alunos com desvios. Observa-se que 45% dos alunos avaliados apresentaram
carga excessiva maior do que 10% estabelecidos pela lei.
O Gráfico 3 esclarece que os alunos avaliados 49 (45%)
deles carregam a mochila com peso acima de 10% e que 60
(55%) dos estudantes transportam o material escolar dentro
da lei nº 10.759.
Gráfico 1 - Percentual de alunos relacionado ao peso da mochila e
presença ou ausência de escoliose.
Gráfico 3 - Histograma percentual da carga da mochila X números
de alunos.
Nr alunos
10%
29
24
%
100
90
80
70
60
50
40
30
20
10
0
20
14
5
9
6
1
47,7%
1
0 - 2,5 2,5 - 5 5 - 7,5 7,5 -1010 -12,5 12,5-1515-17,5 17,5-20 20-22,5
38,5%
Percentual
Fonte: dados da pesquisa.
7,3%
Com desvio
Menor ou igual 10%
Fonte: dados da pesquisa.
6,4%
Sem desvio
Maior que 10%
No que diz respeito à dor em relação ao excesso de peso da
mochila com o fator escoliose verificou-se que 57 (52,3%) relataram algias em alguma parte do corpo. Desses 57 (52,3%),
52 (47,7%) apresentaram algum desvio postural, sendo que 24
(22,0%) estavam com excesso de peso. Dos que não relataram
algias foram 52 (47,7%), 42 (38,5%) apresentaram algum
desvio e 25 (22,9%) estavam com excesso de peso na mochila.
108
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
No teste de Adams, 53 crianças (48,6 %) tiveram o resultado positivo, sendo que 26 (23,9%) tinham excesso de carga.
Já para o teste de Allis 84 (77,1%) apresentaram positividade
sendo que 36 (33,0%) estavam com a carga acima do peso.
Para os dados relativos aos gêneros, das 64 (58,7%) meninas 57 (52,3%) apresentaram escoliose, sendo que 28 (25,7%)
estavam com excesso de carga e dos meninos 45 (41,3%),
37 (33,9) apresentavam desvios e 21 (19,3%) estavam com
carga elevada.
Discussão
Mackenzie et al. [16] comentam que dores nas costas e
deformidades são comuns em adolescentes, devido ao uso
de mochila. Porém a literatura científica sobre esse assunto é
escassa. Estudos epidemiológicos têm identificados o uso de
mochila com excesso de peso como fator importante para essa
associação. Neste estudo, uma mochila com peso superior a
15% do peso da criança e o uso inadequado podem levar a
alterações posturais e da marcha.
Dos alunos avaliados 49 (45%) carregam a mochila com
peso acima de 10%, segundo a lei nº 10.759, sendo um
índice relativamente preocupante, pois 42 (38,5%) deles já
apresentam algum tipo de desvio postural, mas comparado
com os alunos que utilizam mochilas com peso adequado os
dados mostram que o excesso de carga da mochila não seria
um fator relevante.
Os resultados do presente estudo corroboram a pesquisa
realizada por Nery et al. [17] cujo objetivo foi verificar a
prevalência de escoliose devido ao sobrepeso corporal e o
excesso de peso da mochila escolar em 1340 escolares de 5º a
8º série. Neste conclui-se que o sobrepeso corporal e a mochila
escolar com peso excessivo não são fatores significativos na
amostra estudada.
Bezerra et al. [18] analisaram o andar em crianças de 9 a 10
anos com mochila de duas alças, para verificar se o excesso de
peso da mochila trazia alguma alteração postural, e concluíram
que a mochila pesada causou alterações.
Jing et al. [19] estudaram a cinemática do tronco durante
a caminhada com diferentes pesos de mochila em meninos.
Foram formados dois grupos um com a idade de 6 anos e
outro com 12 anos. Os resultados demonstraram que quando
a carga for maior que 15% do peso corporal desvios podem
aparecer, sendo que as crianças mais velhas (12 anos) apresentaram maior desvio.
Outro estudo realizado por Lopes et al. [20] avaliou 106
crianças 7 a 14 anos com a finalidade de identificar alterações
posturais para esta faixa etária quando associado ao uso de
mochila, e mostrou que o excesso de peso da mochila bem
como o transporte inadequado do material podem trazer
algumas desordens posturais.
Penha et al. [21] realizaram uma avaliação postural
em 132 meninas de 7 a 10 anos e verificaram que alterações
posturais nesta faixa etária, como a escoliose, podem ser causa-
das por demandas diárias sobre o corpo, incluindo sentar em
mobiliário inadequadamente projetado e o uso inadequado
de mochilas.
O estudo realizado por Ramprasad et al. [22] determinou
se o peso da mochila ocasionou desvios na coluna em 200
pré-adolescentes do gênero masculino com idade media de
12,5 anos de escolas secundárias em Mangalore (Índia).
Concluiu-se que quando o peso da mochila era superior a
15% das alterações posturais foram encontradas.
Negrini et al. [23] esclarecem que a mochila escolar
constitui uma carga diária para os escolares. O objetivo dessa
pesquisa foi analisar os efeitos da carga nos desvios posturais.
Foram estudadas 43 crianças com idade média de 12,5 anos
e concluiu-se que o efeito da mochila escolar sobre a postura
deve ser mais cuidadosamente avaliado, e que crianças que
apresentam dores nas costas poderão apresentar dores quando
adultas.
Verificou-se que, no presente estudo, a frequência de
desvios da coluna vertebral em C foi maior do que em S. O
percentual de crianças com teste de Allis positivo foi maior
que o teste de Adams, sendo que alterações como a gibosidade
teve menor prevalência. Em um estudo realizado por Ferreira
et al. [24], com objetivo de descrever a prevalência de escoliose
em 104 estudantes do gênero feminino na faixa etária de 11
a 17 anos e correlacionar a medida de gibosidade com medidas radiológicas e utilizando o teste de Adams, os resultados
demonstraram que dos 104 estudantes, 46 apresentaram
gibosidade significativa, e dentre estes, 18 apresentaram a
radiografia confirmando o diagnóstico. Verificou-se, então,
a alta prevalência de escoliose pela medida da gibosidade, e
que o teste de Adams é útil na detecção precoce, porém a
radiografia ajuda na confirmação do diagnóstico.
Santos et al. [9] avaliaram a postura de 247 escolares de
1ª a 4ª série do ensino público fundamental para diferenciar
as alterações que fazem parte do crescimento fisiológico
das compensatórias. Esse estudo epidemiológico conseguiu
verificar que desnível e protusão de ombro, escápula alada,
hiperlordose lombar e a hiperextensão de joelho fazem parte
das alterações posturais fisiológicas e as que fazem parte das
alterações compensatórias são inclinação e protusão cervical
e rotação medial de fêmur e a hipercifose torácica.
Silva et al. [25], com o objetivo de analisar alterações
posturais em 21 crianças de 7 a 8 anos em escolas privadas
no Município de São Desidério, verificaram que para esta
amostra o excesso de peso da mochila trouxe consequências
maléficas, como hipercifose, escoliose e contração dos ombros.
Outro estudo comenta que embora a comunidade científica reconheça que o transporte de mochila nas crianças da
escola primária representa um sério problema, porém suas
consequências em termos de alterações posturais e eventuais
ocorrências de patologias musculoesqueléticas ainda não são
bem compreendidas. Em seu estudo com 359 crianças de
6-10 anos foram avaliadas os mapas de pressão plantar sob
condições estáticas na postura ereta com o uso de mochilas. Os
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
resultados demonstraram que excesso de peso pode aumentar
o risco de desconforto no pé agindo assim como um cofator
no aparecimento de alterações estruturais [26].
Verificando que a prevalência da escoliose em meninas
teve resultados homogêneos em relação aos meninos, este
estudo não corrobora os resultados de Pereira et al. [27]
que realizaram uma triagem em escolares de 10 a 15 anos e
concluiram que para este grupo de escolares, a prevalência de
casos suspeitos de escoliose é maior no sexo feminino.
Com relação à dor, o fator escoliose e o excesso de carga
não tiveram resultados significantes nesta faixa etária, ou seja,
algias nos alunos com excesso de carga quase não foi relatada.
Bernaldz et al. [28] realizaram um estudo com o objetivo de
verificar alterações posturais em 21 crianças de 7 a 8 anos. A
maioria delas apresentou dor na coluna e as que transportavam
o material escolar no ombro relataram nesta região, sendo que
12 delas não apresentaram desvios.
Skaggs et al. [29] procuraram verificar quais fatores influenciavam na prevalência de dor nas costas em crianças do
ensino médio, tendo particular atenção ao peso da mochila.
A amostra populacional foi de 1540 crianças com idade de
11-14 anos e verificou-se qual tipo de mochila era utilizada se
de uma alça ou duas. Os resultados demonstraram que 97%
das crianças utilizavam mochila, sendo que o uso de mochila
com uma ou duas tiras não tinha associação com a dor nas
costas, porém recomenda-se mochilas mais leves dentro dos
10% permitidos para crianças na faixa etária estudada.
Chow et al. [30] evidenciam que o transporte da mochila
pode levar a dores nas costas, e que estudos anteriores examinaram os efeitos do transporte da mochila e as mudanças no
desempenho físico, em vez dos efeitos diretos sobre a coluna.
Quinze estudantes foram avaliados durante postura normal,
sem mochila e carregando mochila com pesos especialmente
adaptados aos 10, 15 e 20% do seu peso corporal. Os desvios
encontrados foram lordose lombar e cifose torácica e que
mochilas com excesso de peso provocam mudanças imediatas
na curvatura da coluna, porém dados sobre essa associação
ainda são limitados.
Conclusão
Após a realização do estudo pode-se observar que os alunos
avaliados apresentavam um excesso de peso em relação ao
material escolar, e a maioria deste grupo apresentou algum
tipo de desvio postural. Verificou-se que o transporte diário
de excesso de peso nas mochilas utilizadas pelos alunos não
foi fator primordial para alterações encontradas. Porém, este
estudo apresenta limitações como o baixo número de alunos
avaliados não podendo generalizar os dados encontrados.
Salienta-se, no entanto, que foi possível observar a correlação
procurada no objetivo da pesquisa que foi verificar se o excesso
de peso é o que leva a desvios posturais. Conclui-se então que
a prevalência de escoliose no grupo estudado não teve correlação com o excesso de carga, mas se torna preocupante com
109
os alunos que já apresentam algum tipo de desvio, pois dos
49 (45%) que estão com a mochila acima da carga, desses 42
(38,5%) apresentavam alguma alteração da coluna vertebral.
O presente estudo pode contribuir para dar suporte à
evidência de que se deve ter uma preocupação em relação ao
peso da mochila, que deve limitar-se aos 10% estabelecidos
pela lei nº 10.759 como forma de profilaxia. Deve-se considerar também que outros fatores não estudados na pesquisa
podem ter influenciado nas alterações.
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110
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
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REVISÃO
Efeito agudo do exercício físico na lipemia pós-prandial
Acute effect of physical exercise on postprandial lipemia
Jefferson Petto, M.Sc.*, Anne Karine Menezes Santos Batista**, Carolina Santana de Oliveira**,
Ana Marice Teixeira Ladeia, D.Sc.***
*Professor de Fisiologia do Exercício da Faculdade Social da Bahia e Universidade Estadual de Feira de Santana, *Graduanda em
Fisioterapia pela Universidade do Estado da Bahia, ***Professora Adjunta da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública
Resumo
O exercício físico quando praticado de forma crônica age como
fator preventivo controlando os níveis de triglicerídeos e lipoproteínas plasmáticas, sendo considerado como prática adjuvante na profilaxia e terapia não medicamentosa das dislipidemias. No entanto, na
última década, investigações têm sido conduzidas com o intuito de
identificar qual o efeito agudo do exercício sobre o comportamento
lipídico pós-prandial. Além disso, os estudos procuram identificar
a influência da intensidade, da duração, da modalidade, do gasto
calórico e outras variáveis que possam apresentar melhores resultados. Portanto, a presente revisão, composta por artigos entre 1990
e 2009, tem como objetivo discutir o que esses trabalhos trazem de
mais importante sobre o tema.
Abstract
Regular exercise is a preventive factor for the control of the levels
of triglycerides and lipoproteins, being promoted as a non-drug prophylaxis and therapy of dyslipidemia. However, in the last decade,
investigations have been conducted in order to identify the acute
effect of exercise on postprandial lipid behavior. Furthermore, the
studies seek to identify the influence of intensity, duration, mode
of energy expenditure and other variables that may provide better
results. Therefore, this literature review of articles published between
1990 and 2009 aims to discuss important results about.
Key-words: postprandial lipemia, exercise, postprandial period,
dyslipidemias.
Palavras-chave: lipemia pós-prandial, exercício, período pósprandial, dislipidemias.
Introdução
Níveis plasmáticos de triglicerídeos (TG) têm sido correlacionados com a predisposição para doenças cardiovasculares
(DCV) [1]. Usualmente, a mensuração desses níveis no estado de jejum prediz o risco para desenvolvimento de DCV,
porém, estudos mostram que existe uma forte correlação
entre os níveis de TG no estado pós-prandial e a formação da
placa aterosclerótica [2-4]. Desde 1979, com os estudos de
Zilversmit, tem-se o conhecimento de que a aterogênese é um
fenômeno pós-prandial relacionado ao metabolismo lipídico,
ao demonstrar em animais e em humanos que remanescentes
de quilomícrons e lipoproteínas de baixa densidade (LDL)
são captados por células endoteliais [5].
A lipemia pós-prandial (LPP) reflete uma medida integrada da capacidade individual de remoção dos TG. O termo se
reporta a uma série de eventos metabólicos relacionados ao
aumento na concentração das lipoproteínas (LP) ricas em TG
no plasma sanguíneo – quilomícrons, lipoproteína de muito
baixa densidade (VLDL) e seus remanescentes – ocorridos
após a ingestão de gorduras. Essa resposta pode estar condicionada a maior mobilização de ácidos graxos, ao aumento
da síntese e ao retardo da remoção das VLDL, propiciando
maior interação entre LP que contribuem para a formação
Recebido 17 de outubro de 2011; aceito 16 de novembro de 2011.
Endereço para correspondência: Jefferson Petto, Rua Senta Pua 542/306, 40170-180 Salvador BA, Tel: (71) 9619 1061, E-mail:
[email protected]
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
de partículas pequenas e densas de LDL, extremamente aterogênicas. Foi demonstrado que os quilomícrons e as VLDL
competem pela lipase proteica, enzima que hidrolisa os TG,
sendo que os quilomícrons são os substratos preferenciais da
lipase proteica, determinando acúmulo das VLDL plasmáticas
no período pós-prandial [2,4].
Algumas são as medidas intervencionais que promovem a
diminuição da LPP. O exercício físico, a reeducação alimentar, a redução do índice de massa corpórea e determinados
fármacos são fatores importantes para redução da LPP e dos
níveis de LP remanescentes nesse processo [2].
Especificamente, o exercício físico caracteriza-se por uma
situação de quebra da homeostasia corporal, ao implicar no
aumento instantâneo do consumo energético da musculatura ativa e, por conseguinte, do organismo como um todo.
Para suprir a nova demanda energética, inúmeras respostas
fisiológicas ocorrem, dentre elas, as referentes à metabolização lipídica. Assim, é importante entender e avaliar a ação e
efetividade do exercício físico na LPP.
Com base no que foi exposto, a presente revisão, tem como
objetivo apresentar um resumo do que nos últimos vinte anos
foram publicados sobre o efeito agudo do exercício físico na
LPP e quais as formas de aplicação do exercício que obtiveram
os melhores resultados.
Métodos
O presente estudo caracteriza-se como uma revisão de
literatura sistematizada cumprida entre julho e setembro de
2010. Foram consultadas, nessa revisão, as bases de dados
Lilacs, Medline, Scielo e Pubmed, utilizando em cruzamento
os seguintes descritores: lipemia pós-prandial e exercício e
postprandial lipemia and exercise. Para a composição da discussão desta pesquisa foram utilizados apenas artigos originais
publicados entre 1990 e 2010 que versassem sobre o efeito
agudo do exercício na LPP. Foram excluídos os artigos que
não tivessem utilizado humanos na pesquisa.
Resultados e Discussão
Após a busca nos referidos bancos de dados, foram encontrados 102 artigos. Dentre a totalidade dos trabalhos
encontrados, 39 abordavam o tema especificado, três artigos
foram excluídos por terem sido publicados antes de 1990 e
outros seis artigos por serem trabalhos de revisão. Nas bases
de dados pesquisadas não foram encontrados artigos publicados em 2010 sobre o tema de estudo. Portanto, 30 artigos
originais compõem esta revisão.
Exercício físico e lipemia pós-prandial
É possível observar que nas duas últimas décadas cresceram as evidências de que o exercício físico pode influenciar
beneficamente o perfil lipídico de forma aguda [6-11], sendo
que seu efeito pode perdurar por até 48h após a sessão do
exercício [12].
No entanto, a magnitude na redução da LPP provocada
pelo exercício depende, pelo menos para a maioria dos autores,
da intensidade do esforço, da duração da sessão, da periodicidade do condicionamento, do gasto calórico relacionado
à sessão de exercício e do momento no qual ele é realizado,
previamente ou posterior à ingestão de gorduras.
Em relação à intensidade e duração do exercício, num
estudo realizado por Nappo et al. [13], não foram observadas
alterações significativas da curva lipídica 48 horas após uma
sessão de curta duração e baixa intensidade, resultado visualizado também em outros estudos [8,14,15]. Katsanos et al.
[14] compararam o efeito do exercício de baixa e moderada
intensidade na LPP e, segundo os autores, a intensidade do
exercício desempenha papel significativo na atenuação da resposta pós-prandial dos TG, sendo que o exercício de moderada
intensidade apresentou melhor resposta quando comparado
ao exercício de baixa intensidade, ambos realizados com a
mesma duração de 90 minutos, resultado ratificado em outro
trabalho realizado por Kraus et al. [16].
Por outro lado, Foger et al. [6] e Kujala et al. [17], ainda
na década de 90, mostraram em seus trabalhos que quando
o exercício é realizado por tempo prolongado, uma hora ou
mais, mesmo em baixa intensidade, se observam reduções
agudas significativas dos TG principalmente 18 a 24 horas
pós-exercício.
Para Gill et al. [18-20], em três artigos publicados na década de 2000, a relação intensidade e duração é que determina
a magnitude da diminuição dos TG e das LP plasmáticas
induzidas pelo exercício na LPP, independente da população
avaliada, jovens, obesos ou dislipidêmicos. Para esse autor os
exercícios de intensidade moderada com duração entre 60 e 90
minutos são os que apresentam melhores resultados [18-20].
Ainda em relação à intensidade de esforço Tsekouras et al.
[21] mostraram que o exercício de alta intensidade intervalado
reduziu significativamente as VLDL na LPP, sendo tão efetivo
como exercícios praticados em intensidades moderadas ou
baixas. Segundo os autores, isso ocorre por conta da diminuição da concentração dos TG plasmáticos provocada pelo
exercício. Outros estudos corroboram essa ideia, como os de
Gill et al. [22] e Malkova et al. [23] publicados em 2000.
Logo em 1997, Crouse et al. [24] analisando o efeito
agudo do exercício em uma única sessão com diferentes
intensidades, sobre os TG e as LP plasmáticas, perceberam
que os níveis dos TG e colesterol total caíram no período
pós-exercício independente da intensidade do mesmo.
Diante desses achados, é possível inferir que a intensidade
e a duração do exercício não são as variáveis que isoladamente
mais influenciam na diminuição da LPP, mas sim o gasto
calórico durante o exercício.
Corroborando esse pensamento, Miyashita et al. [25]
numa pesquisa randomizada de corte longitudinal com dez
homens saudáveis, comprovaram essa ideia, ao visualizar que
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10 sessões de 3 minutos de exercício moderado, ao longo do
dia, reduzem a curva de TG pós-prandial de forma semelhante
a uma única sessão de 30 minutos do mesmo exercício. Segundo os autores é o gasto calórico com o exercício durante
o dia que determina a magnitude de queda dos TG na LPP.
Ainda em relação ao gasto energético, outros estudos,
publicados na década dos anos 90, relataram que uma sessão
de exercício físico, realizada 24 horas antes de uma refeição
rica em gordura (50 a 70 gramas), reduziu a LPP, estando
diretamente relacionada ao tempo e a energia consumida no
exercício [26-28].
No estudo realizado por Ferguson et al. [28], foi investigada a correspondência entre o limiar energético e as possíveis mudanças nos níveis dos TG e concentrações das LP
em homens treinados após quatro protocolos de exercício,
condizentes com os gastos calóricos de 800, 1100, 1300 e
1500 kcal. Vinte e quatro horas após a realização das sessões,
o nível de HDL elevou-se significativamente, nos exercícios
de 1100, 1300 e 1500 kcal. Já a concentração de LDL diminuiu de forma significativa com um gasto de 1300 kcal e a de
TG com 800 kcal após uma única sessão de exercício. Ainda
neste estudo, foi possível observar aumento da atividade da
lipase lipoproteica 24 horas após as sessões com gasto calórico
acima de 1100 kcal, permanecendo elevada até 48 horas após
a sessão de 1500 kcal, sendo que estas mudanças coincidiram
com as alterações de HDL.
A periodicidade do exercício e a as características da
população avaliada exercem também forte influência sobre a
LPP. Segundo Katsanos et al. [14] e Belli et al. [29], indivíduos fisicamente ativos apresentam a LPP diminuída quando
comparados a indivíduos não ativos, resultado observado
também por Kokkinos et al. [30], quando avaliou corredores.
Em uma pesquisa realizada por Crouse et al. [31] foi observada diminuição precoce dos TG e com permanência de
redução até 72 horas pós-exercício em homens dislipidêmicos. Alguns estudos apontam que em indivíduos com níveis
maiores ou elevados de TG, como obesos e dislipidêmicos
[32,33], o exercício físico estimula uma redução maior do
que a observada em sujeitos com níveis mais baixos de TG
ou normolipêmicos [7].
Outro aspecto abordado por alguns autores referente à
aplicação do exercício e seu efeito na LPP é o momento em
que o exercício deve ser aplicado. Os estudos mostram grande
variabilidade, desde 24 horas antes até uma hora e meia após a
ingestão de gorduras ou da refeição [9,10,25-28,34]. Embora
existam diferentes protocolos de aplicação do momento do
exercício, a grande maioria dos estudos aponta que quando
o gasto calórico é alto a queda da LPP é significativa, tanto
na resposta dos TG como das LP.
Harrison et al. [10] evidenciaram que tão importante
quanto o momento no qual o exercício é aplicado, ou seja,
antes ou após a refeição, é a suplementação de carboidrato
pré, peri ou pós-exercício. Os autores evidenciaram que
quando é feita a suplementação de carboidrato, os níveis de
113
insulina aumentam e a lipólise diminui o que atenua o efeito
do exercício sobre a LPP.
Embora esteja bem fundamentado que o exercício exerce
um efeito agudo importante na redução da LPP, as totalidades
dos trabalhos não mostram nenhum benefício no pico da
LPP, que ocorre entre a terceira e quarta hora, mantendo um
platô até a sexta ou oitava hora. Em um estudo realizado por
Teixeira et al. [35], o objetivo foi observar se o exercício físico
provocaria efeito depressor no pico da LPP, e foi observado
que não houve diferença na curva de TG entre o teste de LPP
com e sem exercício entre a 3 e a 5 hora pós-refeição.
Devido à escassez de trabalhos que avaliem o efeito do
exercício no pico da LPP, momento no qual o processo
aterogênico seria maior, faz-se necessário novos estudos com
protocolos diferentes dos já pesquisados na busca da atenuação
desse processo em sua fase mais importante, entre a terceira
e a sexta hora pós refeição.
Conclusão
Finalmente, pode-se concluir que a duração, a intensidade
e gasto calórico do exercício; a condição física prévia e os
níveis dos TG de jejum; o uso de fármacos que interferem no
metabolismo glicêmico, bem como a ingestão de carboidratos
pré, peri e pós-exercício; e o tempo de acompanhamento do
efeito do exercício após a aplicação do mesmo é que avaliados
em conjunto determinam a magnitude de seu efeito agudo
sobre a LPP.
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REVISÃO
Mecanismos moleculares antioxidantes modulados
pelo exercício físico
Molecular mechanisms of antioxidants modulated by exercise
Camila Baumer Tromm, Luciano Acordi da Silva, D.Sc., Ricardo Aurino de Pinho, D.Sc.
Laboratório de Fisiologia e Bioquímica do Exercício, Programa de Pós Graduação em Ciências da Saúde, Universidade do Extremo
Sul Catarinense, Criciúma/SC
Resumo
A geração de espécies reativas de oxigênio (EROs) é um fenômeno biológico que ocorre durante a vida celular. Estes compostos
podem ativar vias de sinalização envolvidas na regulação do crescimento, proliferação, diferenciação e apoptose. A presença contínua
de pequenos estímulos induzidos pelo exercício provoca elevações
mínimas nas concentrações de espécies reativas de oxigênio, as quais
são hábeis para induzir a expressão de enzimas antioxidantes e outros
mecanismos de defesa. O NFκB e MAPK são duas grandes vias de
sinalização que podem ser ativadas em resposta às EROs induzidas
pelo exercício, tanto agudo quanto crônico (treinamento). Embora
o papel destes compostos sobre a ativação de enzimas antioxidantes
venha sendo investigado, os mecanismos intrínsecos da adaptação
antioxidante permanecem obscuros.
Palavras-chave: treinamento físico, transdução de sinal, defesa
antioxidante.
Abstract
The generation of reactive oxygen species is a biological phenomenon which occurs during cell life. These compounds can activate
signaling pathways involved in regulating growth, proliferation,
differentiation and apoptosis. The continued presence of a small
stimuli induced by exercise, causes minimal elevations in concentrations of reactive oxygen species, which are able to induce expression
of antioxidant enzymes and other defense mechanisms. The NFκB
and MAPK are two major signaling pathways that can be activated
in response to reactive oxygen species induced by exercise, both
acute and chronic (training). Although the role of these compounds
on the activation of antioxidant enzymes has been investigated, the
intrinsic mechanisms of antioxidant adaptation remain unclear.
Key-words: physical training, signal transduction, antioxidant
defense.
Recebido em 29 de março de 2012; aceito em 11 de junho de 2012.
Endereço para correspondência: Camila Baumer Tromm, Av. Universitária, 1105, 88806-000 Criciúma SC, Tel: (48) 3431-2773,
E-mail: [email protected]
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Introdução
A geração de espécies reativas de oxigênio (EROs) é um
fenômeno biológico que ocorre durante a vida celular. Durante as últimas duas décadas, muita atenção tem sido dada
aos efeitos prejudiciais de EROs, como estresse oxidativo que
consequentemente pode provocar envelhecimento e diversas
patogêneses. No entanto, mais recentemente surgiram evidências de que EROs não são apenas agentes prejudiciais para a
estrutura e função celular mas são moléculas de sinalização que
regulam o crescimento, proliferação, diferenciação e apoptose
celular [1,2]. Algumas proteínas antioxidantes podem ser
rapidamente ativadas durante o estresse oxidativo induzido
por uma única sessão de exercício físico [3], enquanto que
outras proteínas são ativadas mais lentamente após o treinamento físico [4].
Existem evidências de que a presença contínua de pequenos estímulos, que provocam elevações mínimas nas
concentrações de EROs são hábeis para induzir a expressão de
enzimas antioxidantes e outros mecanismos de defesa. A base
deste fenômeno pode ser explicada pelo conceito de hormese,
a adaptação ao exercício ocorre por meio de estímulos que
expõem a célula a baixas doses de oxidantes, mas sendo inibida
por altas doses do mesmo [2,5]. Neste contexto, EROs podem
ser benéficos, atuando como sinalizadores para aumentar as
defesas antioxidante do organismo [2].
A resposta adaptativa obtida com o treinamento físico resulta dos efeitos cumulativos de sessões repetidas de exercício,
onde a célula é exposta a baixos níveis de EROs durante cada
sessão de exercício [5]. Isto torna a célula mais resistente ao estresse oxidativo, por pelo menos três mecanismos: 1) aumento
da expressão [6] e atividade [7] de enzimas antioxidantes; 2)
redução na produção de oxidantes [8]; 3) Controle do fluxo
de elétrons mitocondrial [9]. Embora o papel de EROs sobre
a ativação de enzimas antioxidantes vem sendo investigado,
os mecanismos intrínsecos da adaptação antioxidante permanecem obscuros.
Geração de EROs
Os mecanismos de geração de EROs durante o exercício
físico ocorrem em diversos compartimentos celulares, tais
como, mitocôndrias, membranas e citoplasma.
Na mitocôndria, uma das formas de produção de EROs
durante o exercício é devido a um escape de elétrons na cadeia
de transporte de elétrons (CTE). O escape de elétrons entre
o complexo I e ubisemiquinona e entre ubisemiquinona e o
complexo III parecem ser os responsáveis ​​pela maior parte
dos superóxidos gerados [10]. Estudos in vitro mostram que
a CTE gera superóxido a partir da redução univalente do
O2. Este único elétron vem da redução da ubiquinona que
em vez de aceitar outro elétron e um próton para formar
ubiquinol, pode doar o seu elétron desemparelhado para o
O2, formando superóxido. Salo et al. [11] demonstraram que
a estabilidade da família ubiquinona diminui com o aumento
da temperatura, e a transferência de elétrons ao longo da CTE
diminui enquanto a transferência eletrônica direta ao oxigênio
(a reação “vazamento”) aumenta, gerando mais superóxido
(O2•-). Estima-se que de 2-4% do oxigênio consumido por
seres humanos seja reduzido a O2•- por mitocôndrias.
No citoplasma, a produção de EROs durante o exercício
exaustivo pode ser causada pela ativação da enzima xantina
oxidase. O exercício intenso pode causar isquemia fazendo
com que o ATP seja convertido em ADP, AMP, inosina e
hipoxantina. Sob tais condições a enzima xantina desidrogenase intracelular (XDH) é convertida em xantina oxidase
(XO), que utiliza o O2 como aceptor de elétrons, gerando
diretamente O2•- e peróxido de hidrogênio (H2O2). Quando
o oxigênio é reperfundido uma explosão de O2•- e H2O2
ocorre. Tem sido argumentado que a XO pode desempenhar
um papel mais importante na produção de radicais livres do
que a CTE durante exercícios exaustivos [12]. No entanto é
mais provável que ambos contribuam, dependendo do tipo,
intensidade e duração do exercício.
Nas membranas plasmáticas a produção de EROs, especialmente em casos de exercícios excêntricos, é resultado da
migração de neutrófilos e outras células fagocíticas do organismo como parte de uma resposta imune à lesão tecidual [13].
Macrófagos e neutrófilos ativam a enzima NADPH oxidase
que em sua reação oxida NADPH a NADP, utilizando neste
processo o oxigênio como aceptor de elétrons, formando consequentemente O2•-. Este superóxido em contato com óxido
nítrico pode formar peroxinitrito. Ou então pode sofrer ação da
SOD e ser dismutado a H2O2. O H2O2 pode ser convertido em
HOCl, que em contato com Ferro ou outro H2O2 pode gerar o
radical hidroxila. No entanto, o papel da resposta inflamatória
e o dos neutrófilos ainda permanecem mal caracterizados.
O desequilíbrio entre os mecanismos de produção e de
neutralização das EROs, a favor da produção, denomina-se estresse oxidativo. Este fenômeno natural é resultado de
uma incapacidade dos sistemas antioxidantes em combater a
produção adicional de EROs [10].
Sistema de defesa antioxidante
O sistema de defesa antioxidante é constítuido por proteínas enzimáticas como a Superóxido Dismutase (SOD),
Catalase (CAT), Glutationa Peroxidase (GPX) e Tioredoxina
Redutase (TRX) (responsável pela manutenção dos grupos tiol
das proteínas); e por antioxidantes não enzimáticos, como o
ascorbato (doador de elétrons), urato (sequestrador do radical
hidroxila e peroxila) glutationa reduzida (doador de elétrons
e precursora da GPX), tocoferol (doador de elétrons), flavonoides e carotenoides (supressores do oxigênio singlet) [14].
Mecanicamente a SOD dismuta o O2•- a H2O2, sendo que
a CAT e GPX catalisam a degração subsequente do H2O2 a
H2O. No músculo esquelético, 15 – 35% da atividade da
SOD encontra-se nas mitocôndrias e o restante no citosol
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
[15]. Já as concentrações da CAT são mais elevadas nos
peroxissomas do que nas mitocôndrias [16]. A GPX tem
aproximadamente 45% de atividade no citosol e o restante
na mitocôndria [15], e parece demonstrar maior afinidade
com o H2O2 em altas concentrações [17].
Estudos reportaram que uma única sessão de corrida (70
min) é capaz de aumentar a atividade das enzimas antioxidantes no músculo esquelético de ratos [18], e também após
uma sessão de natação [19]. Contudo o treinamento físico
tem também demonstrado aumento na atividade destas
enzimas em ratos após corrida aeróbia [20] e treinamento
resistido [21].
Sinalização da biogênese mitocondrial
EROs podem ativar vias de sinalização envolvidas na
biogênese mitocondrial. EROs têm demonstrado induzir a
ramificação e alongamento do mtDNA (DNA mitocondrial).
O aumento no mtDNA foi acompanhado por uma indução
na massa mitocondrial. Esta resposta parece ser mediada por
PGC-1α (coativador 1 alfa do receptor ativado por proliferador de peroxissoma) e NRF-1 (fator nuclear respiratório
1), pois a expressão de ambos aumenta após tratamento
com LPS (lipopolissacarídeos) [22]. Recentemente um estudo demonstrou que EROs podem induzir o aumento da
atividade e expressão de PGC-1α através de vias tanto de
MAPK-dependente como MAPK-independente (Proteína
Quinase Mitogênica Ativada) [23]. Estes dados demonstram
que EROs são agentes envolvidos no aumento da biogênese
mitocondrial. A ativação da MAPK aumenta o mRNA (RNA
mensageiro) de PGC-1α. Este fato é provavelmente mediado
por uma ativação transcricional, haja vista que a ativação da
MAPK leva a melhor atividade de PGC-1α [24]. A regulação
de PGC-1α, sua transcrição e tradução, é acompanhada pelo
aumento na atividade do DNA de NRF-1. Adicionalmente,
a ativação farmacológica crônica do MAPK resultou em aumentos das enzimas mitocondriais como citocromo c, citrato
sintase, e malato desidrogenase no músculo esquelético [25].
Assim, a ativação da MAPK parece ser outro importante
regulador da biogênese mitocondrial em condições de alta
demanda energética nas células musculares.
117
[26]. As moléculas de RNA são sintetizadas a partir de moldes
do DNA (isso é transcrição) e as proteínas são sintetizadas a
partir de moldes de RNA (isso é tradução) [27].
MAPK
A família de proteínas MAPK é composta por quatro
módulos de sinalização no músculo esquelético: 1) quinase
extracelular (ERK) 1 e 2 (ERK1/2); 2) p38 MAPK; 3) c-Jun
N-terminal quinase (JNK) e 4) ERK5 ou grande MAPK.
Estes ramos de MAPK são estimulados por citocinas, fatores
de crescimento e estresse celular e têm como função regular
várias atividades celulares como a expressão genética [28].
Um papel importante de ativação da MAPK pelo exercício é a
regulação da transcrição do status redox no músculo esquelético. O estresse mecânico e metabólico associado ao exercício
aumenta a produção de EROs que são neutralizadas devido
ao aumento na adaptação antioxidante através da regulação
de enzimas antioxidantes [29]. A atividade da MAPK pode
parcialmente mediar essa resposta. O H2O2 induz a ativação de
ERKs, JNKs [30] e desencadeia a fosforilação da p38 MAPK
aumentando o transporte de glicose no músculo esquelético.
ERK1/2 é ativada rapidamente após treinamento físico
com diferente volume e intensidade [31]. Da mesma forma
que em humanos sedentários e treinados após sessão de
ciclismo submáximo [32] e maratona [33]. A magnitude da
fosforilação de ERK1/2 durante o exercício correlaciona-se
com a intensidade do protocolo [32], e tanto exercício de
endurance como resistido [34] podem aumentar ERK1/2.
Protocolos de exercício intenso estimulam a transdução de
sinal através da via JNK [35]. A fosforilação de JNK aumenta
linearmente com os níveis de força muscular [36]. Portanto, a
tensão muscular total, em vez da duração do estímulo parece
ser o modulador influente sobre a atividade de JNK.
Figura 1 - Via de sinalização envolvida na ativação de MAPK e
PGC-1α induzida pelo exercício físico.
Exercício Físico
H 2 O2
Fatores de transcrição antioxidantes
Fatores de transcrição são proteínas adicionais exigidas pela
RNA polimerase para iniciar a transcrição e são responsáveis
pela regulação da expressão gênica. Um fator de transcrição
(chamado de fator de sequência específica de ligação ao
DNA) é uma proteína que se liga a sequências específicas de
DNA, assim, controla o fluxo (ou transcrição) da informação
genética do DNA para o mRNA. O mRNA carrega informações do DNA aos ribossomos, onde serve como molde
para a síntese de proteínas (são intermediários no fluxo da
informação genética) e são transcritos pela RNA polimerase
O2
JNK
ERK 1/2
p38 AMPK
PGC-1a
Biogênese mitocondrial
[37]
AMPK
Angiogênese
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118
NFkB
NFkB (Fator Nuclear Kappa B) é composto por cinco
membros, incluindo p50, p52, p65, RelB, e c-Rel. Evidências
sugerem que o heterodímero p50 e p65 são os principais
responsáveis pela atividade de NFkB no músculo esquelético.
Contrações musculares estimulam o retículo sarcoplasmático
liberando cálcio aumentando os níveis de EROs, que ativam
diversas vias de sinalização, incluindo MAPK. O aumento do
cálcio intracelular, a acumulação de EROs [38], e a ativação
da MAPK [39] ativam o NFkB, levando à hipótese de que o
exercício também ativa o NFkB.
Alguns estudos demonstraram que uma única sessão de
corrida em esteira aumenta a fosforilação de IKK, aumentando a atividade do NFkB no músculo esquelético de ratos
[40,41]. O treinamento físico também pode alterar a composição e atividade do NFkB. Doze semanas de corrida resultou
em fosforilação aumentada de IKK, sugerindo que a ativação
do NFkB foi elevada após o treinamento [29]. Diferenças na
atividade de NFkB após o treinamento podem refletir a natureza (intensidade, duração e frequência) do exercício realizado
ou a recuperação entre as séries do exercício.
NFkB responde a EROs aumentando a transcrição de
pelo menos três genes antioxidantes importantes, incluindo
MnSOD (SOD dependente de manganês), iNOS (óxido
nítrico sintase) e glutamilcisteína sintetase [42]. Assim, é
possível que o aumento do NFkB verificado após o exercício
promova maior resistência celular ao estresse oxidativo.
Figura 2 - Via de sinalização envolvida na ativação de NFkB
induzida pelo exercício físico.
Exercício Físico
Estresse Celular
IKK
p50-p65
AMPK
NF-kB
sítio kB
Transcrição genética Ribossomo
SOD
CAT
GPX
AP-1
Outro fator de transcrição regulado pelo estado redox
intracelular, induzido pelo exercício, é o ativador protéico 1
(AP-1). O AP-1 é um dímero expresso por dois genes, jun
e fos [27]. Uma das proteínas que possuem sua expressão
controlada pelo AP-1 é uma das subunidades da enzima
Glutationa S-transferase [5]. O AP-1 regula a expressão gênica
em resposta a uma variedade de estímulos incluindo EROs.
Além disso, sua ligação ao DNA também é controlada pelo
estado redox. Hollander et al. [43] relataram que o AP-1 foi
aumentado no músculo esquelético de ratos após um realização de uma sessão de exercício de longa duração (corrida).
O aumento de AP-1 ocorreu simultaneamente ao aumento
na expressão do mRNA de MnSOD.
Exercício e adaptação antioxidante
Alguns tecidos corporais, tais como, fígado, coração e
cérebro haja vista uma maior taxa de consumo de oxigênio,
expressam um número maior de enzimas antioxidantes em
relação aos orgãos com menor consumo de oxigênio. A atividade de enzimas antioxidantes no músculo esquelético varia
amplamente em função dos tipos de fibra. Por exemplo, fibras
musculares tipo I possuem maior atividade antioxidante do
que as fibras tipo IIa e fibras tipo IIb [44]. É fato que a atividade contrátil pode causar um aumento na geração de EROs
in vitro e in vivo [45,46]. Contudo a exposição repetida das
células musculares ao estresse oxidativo é capaz de promover
uma adaptação ao sistema de defesa antioxidante protegendo
contra potenciais danos oxidativos [6-8].
Entre as enzimas antioxidantes no músculo esquelético, a
atividade SOD tem sido consistentemente aumentada com o
treinamento de forma dependente da intensidade (caminhada/corrida) [47]. A MnSOD é a principal responsável pelo
aumento observado na atividade da SOD total, enquanto a
atividade CuZnSOD (SOD dependente de cobre e zinco) parece pouco afetada [47,48]. Na atividade da GPX também tem
sido demonstrado um aumento após o treinamento aeróbio
(corrida) [49]. Da mesma forma, uma sessão extenuante de
natação demonstrou induzir aumento da SOD no miocárdio
e no diafragma de ratos [50].
Há algumas evidências ​​de que a adaptação antioxidante
ocorra devido à expressão proteica, com os níveis da proteína
e seu mRNA sendo aumentados com o treinamento. No
entanto, os dados são limitados e controversos. Por exemplo,
em alguns estudos a atividade e a expressão da MnSOD aumentaram com treinamento aeróbio (corrida) nos músculos
de ratos, mas a expressão do mRNA da MnSOD não foi afetada [51]. Já a expressão do mRNA de CuZnSOD foi elevada
com o treinamento, com nenhuma mudança na expressão da
proteína [52]. Geralmente mRNAs têm uma meia-vida curta
e nos estudos citados acima o tecido muscular foi recolhido
entre 24h e 48h após o exercício. Pode-se concluir que o
mRNA pode aumentar apenas transitoriamente após sessões
únicas de exercício. Em contraste com a atividade da SOD, a
literatura é bastante limitada em relação à regulação gênica da
GPX e CAT. Os dados disponíveis indicam que os níveis do
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mRNA da GPX de ratos treinados não são diferentes daqueles
em ratos controle [52].
A adaptação ao treinamento de enzimas antioxidantes é
fortemente influenciada por uma série de fatores fisiológicos
e ambientais. Resumidamente, ratas demonstraram menor
extensão no dano oxidativo muscular induzido pelo exercício
e melhor adaptação ao treinamento (corrida) do que ratos,
possivelmente devido ao efeito antioxidante do estrogênio
[53]. Animais e humanos idosos geralmente mostram uma
escala menor de adaptação antioxidante do que jovens indivíduos exercitando em uma carga de trabalho semelhante
[54]. A razão para esta discrepância pode estar relacionada
com mudanças em ambos os sistemas de defesa antioxidante
e a capacidade de transdução de sinal.
Expressão de genes antioxidantes regulados pelo
exercício
O primeiro a reportar a ativação de JNK, ERK1 / 2, p38
MAPK no músculo esquelético de ratos após uma sessão de
corrida em esteira foi Goodyear et al. [31]. Este grupo mostrou posteriormente que p42 e p44MAPK (ERK1 / 2) foram
fosforiladas após exercício em cicloergometro no músculo
humano, juntamente com a ativação de MEK1 e Raf-1 [55].
Desde então, alguns estudos têm mostrado que a MAPK pode
ser ativada pela atividade contrátil em musculoesquelético
[55,56]. Os sinais que desencadeiam a ativação da MAPK
têm sido atribuídos a uma variedade de estímulos fisiológicos
associados ao exercício, incluindo liberação hormonal, liberação de cálcio, atividade neural, e força mecânica [57]. No
entanto, a influência do exercício sobre as enzimas da família
MAPK de forma individual e suas integrações em outras vias
de sinalização são ainda discretas.
Comparado à MAPK, o conhecimento sobre o efeito do
exercício na sinalização do NFκB é relativamente limitado.
Hollander et al. [43] demonstraram pela primeira vez que
NFκB foi significativamente elevado em musculo-esquelético
após uma sessão de exercício prolongado (aproximadamente
60 min de corrida). O aumento de NFκB foi acompanhado
pelo aumento na expressão do mRNA de MnSOD no músculo exercitado. Ji et al. [41] realizaram uma série de experimentos para analisar a cascata de sinalização de NFκB em
resposta ao exercício. Estes autores encontraram níveis mais
elevados de NFkB após o exercício (corrida até a exaustão),
juntamente com aumento da atividade de IKK e acumulação
de p50 no núcleo celular. Em um estudo recente, Ho et al.
[40] relataram que a ativação NFκB foi elevada no sóleo (fibras
tipo I) e no gastrocnêmio (fibras tipo II) durante 60 min de
corrida em esteira, acompanhado por fosforilação de IKK.
Em ratos adultos, a atividade basal do NFκB foi duas vezes
maior no sóleo e no diafragma em relação ao gastrocnêmio e
três vezes maior no sóleo em comparação ao extensor longo
dos dedos. Esses dados indicam que a ativação do NFκB é
dependente do tipo de fibra muscular. Estas diferenças po-
119
dem refletir as concentrações das enzimas antioxidantes nas
diferentes fibras musculares A ativação de NFκB também
parece ser influenciada pelo estado metabólico da célula
muscular [58]. Durham et al. [59] mostraram que os níveis
de NFκB foram reduzidos abaixo do nível pré exercício após
uma sessão de exercício resistido extenuante, mas retornando
ao nível basal após uma recuperação de 60 min. Sugerindo
que a contração muscular é provavelmente necessária para
ativação desta via de sinalização.
Conclusão
A geração de EROs durante a contração muscular tem
um papel importante na adaptação do músculo ao estresse
oxidativo induzido pelo exercício, ativando vias de sinalização de enzimas antioxidantes e outras proteínas vitais para a
célula. O NFκB e MAPK são duas grandes vias de sinalização
que podem ser ativadas em resposta às EROs induzidas pelo
exercício. Tanto o exercício agudo quanto o treinamento
ativam essas vias de sinalização. Contudo, o treinamento
físico parece ser capaz de promover resistência celular ao
estresse oxidativo prolongando a adaptação antioxidante.
Além disso, a existência de múltiplos sítios redox-sensíveis
nos genes antioxidantes sugere que a ativação sinérgica e
interação de diversos fatores de transcrição são requeridos
para garantir a exatidão da expressão genética de enzimas
antioxidantes.
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 2 - abril/junho 2012
Normas de publicação Fisiologia do Exercício
A Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício é uma publicação com
periodicidade bimestral e está aberta para a publicação e divulgação de
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Os artigos publicados na Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício
poderão também ser publicados na versão eletrônica da revista (Internet)
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surjam no futuro, sendo que pela publicação na revista os autores já
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(Uniform requirements for manuscripts submitted to biomedical journals)
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completo em inglês desses Requisitos Uniformes no site do International
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versão atualizada de outubro de 2007 (o texto completo dos requisitos
está disponivel, em inglês, no site de Atlântica Editora em pdf ).
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aceitação do mesmo, que será notificado ao autor.
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acordo com a circunstância, realizar modificações nos textos recebidos;
neste último caso não se alterará o conteúdo científico, limitando-se
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1.2 Numere as tabelas em romano, com as legendas para cada tabela
junto à mesma.
1.3 Numere as figuras em arábico, e envie de acordo com as
especificações anteriores.
As imagens devem estar em tons de cinza, jamais coloridas, e com
resolução de qualidade gráfica (300 dpi). Fotos e desenhos devem estar
digitalizados e nos formatos .tif ou .gif.
1.4 As seções dos artigos originais são estas: resumo, introdução,
material e métodos, resultados, discussão, conclusão e bibliografia. O
autor deve ser o responsável pela tradução do resumo para o inglês e
também das palavras-chave (key-words). O envio deve ser efetuado em
arquivo, por meio de disquete, CD-ROM ou e-mail. Para os artigos
enviados por correio em mídia magnética (disquetes, etc) anexar uma
cópia impressa e identificar com etiqueta no disquete ou CD-ROM o
nome do artigo, data e autor.
2. Página de apresentação
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- Título em português, inglês e espanhol.
- Nome completo dos autores, com a qualificação curricular e títulos
acadêmicos.
- Local de trabalho dos autores.
- Autor que se responsabiliza pela correspondência, com o respectivo
endereço, telefone e E-mail.
- Título abreviado do artigo, com não mais de 40 toques, para
paginação.
- As fontes de contribuição ao artigo, tais como equipe, aparelhos, etc.
3. Autoria
Todas as pessoas consignadas como autores devem ter participado do
trabalho o suficiente para assumir a responsabilidade pública do seu
conteúdo.
O crédito como autor se baseará unicamente nas contribuições essenciais
que são: a) a concepção e desenvolvimento, a análise e interpretação dos
dados; b) a redação do artigo ou a revisão crítica de uma parte importante
de seu conteúdo intelectual; c) a aprovação definitiva da versão que será
publicada. Deverão ser cumpridas simultaneamente as condições a), b)
e c). A participação exclusivamente na obtenção de recursos ou na coleta
de dados não justifica a participação como autor. A supervisão geral do
grupo de pesquisa também não é suficiente.
Os Editores podem solicitar justificativa para a inclusão de autores
durante o processo de revisão do manuscrito, especialmente se o total
de autores exceder seis.
4. Resumo e palavras-chave (Abstract, Key-words)
Na segunda página deverá conter um resumo (com no máximo
150 palavras para resumos não estruturados e 200 palavras para os
estruturados), seguido da versão em inglês e espanhol.
O conteúdo do resumo deve conter as seguintes informações:
- Objetivos do estudo.
- Procedimentos básicos empregados (amostragem, metodologia,
análise).
- Descobertas principais do estudo (dados concretos e estatísticos).
- Conclusão do estudo, destacando os aspectos de maior novidade.
Em seguida os autores deverão indicar quatro palavras-chave para
facilitar a indexação do artigo. Para tanto deverão utilizar os termos
utilizados na lista dos DeCS (Descritores em Ciências da Saúde) da
Biblioteca Virtual da Saúde, que se encontra no endereço Internet
seguinte: http://decs.bvs.br. Na medida do possível, é melhor usar os
descritores existentes.
5. Agradecimentos
Os agradecimentos de pessoas, colaboradores, auxílio financeiro
e material, incluindo auxílio governamental e/ou de laboratórios
farmacêuticos devem ser inseridos no final do artigo, antes as referências,
em uma secção especial.
6. Referências
As referências bibliográficas devem seguir o estilo Vancouver definido
nos Requisitos Uniformes. As referências bibliográficas devem ser
numeradas por numerais arábicos entre parênteses e relacionadas em
ordem na qual aparecem no texto, seguindo as seguintes normas:
Livros - Número de ordem, sobrenome do autor, letras iniciais de seu
nome, ponto, título do capítulo, ponto, In: autor do livro (se diferente
do capítulo), ponto, título do livro (em grifo - itálico), ponto, local da
edição, dois pontos, editora, ponto e vírgula, ano da impressão, ponto,
páginas inicial e final, ponto.
Exemplo:
1. Phillips SJ, Hypertension and Stroke. In: Laragh JH, editor.
Hypertension: pathophysiology, diagnosis and management. 2nd ed. NewYork: Raven press; 1995. p.465-78.
Artigos – Número de ordem, sobrenome do(s) autor(es), letras iniciais
de seus nomes (sem pontos nem espaço), ponto. Título do trabalha,
ponto. Título da revista ano de publicação seguido de ponto e vírgula,
número do volume seguido de dois pontos, páginas inicial e final, ponto.
Não utilizar maiúsculas ou itálicos. Os títulos das revistas são abreviados
de acordo com o Index Medicus, na publicação List of Journals Indexed
in Index Medicus ou com a lista das revistas nacionais, disponível no
site da Biblioteca Virtual de Saúde (www.bireme.br). Devem ser citados
todos os autores até 6 autores. Quando mais de 6, colocar a abreviação
latina et al.
Exemplo:
Yamamoto M, Sawaya R, Mohanam S. Expression and localization
of urokinase-type plasminogen activator receptor in human gliomas.
Cancer Res 1994;54:5016-20.
Os artigos, cartas e resumos devem ser enviados para:
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As normas completas são disponiveis em nosso site: www.atlanticaeditora.
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Re v i s t a
B r a s i l e i r a
d e
Fisiologia
do
exercício
Brazilian Journal of Exercise Physiology
Órgão Oficial da Sociedade Brasileira de Fisiologia do Exercício
Índice
volume 11 número 3 - julho/setembro 2012
Editor Chefe
Paulo de Tarso Veras Farinatti
Editor Associado
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Conselho Editorial
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Editor executivo
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Editorial
Raça e desempenho atlético, Paulo Farinatti, Jean-Louis Peytavin....................... 130
ARTIGOS ORIGINAIS
Efeito agudo de uma sessão de alongamento sobre
a curva glicêmica de idosas inativas, Roseli Santos de Araújo,
Pollyane Lopes de Araújo, Rogério Tosta de Almeida, Jefferson Petto.................... 131
Creatinafosfoquinase pré e pós-treinamento físico e incidência
de lesões em atletas de voleibol, Dayane Alcântara,
Sonia Elizabete Will, Sérgio Henrique Borin......................................................... 136
Morfologia e histomorfometria do músculo esquelético
de ratas submetidas à estimulação elétrica neuromuscular,
Vinícius Cestari do Amaral, Rodrigo Rodrigues Marcondes,
Luiz Carlos Rodrigues Guanabara, Manuel de Jesus Simões,
Cristiano Schiavinato Baldan, Jairo José Matozinho Cubas.................................... 142
Avaliação da propriocepção ativa em adultos com lesão
de ligamento cruzado anterior, Gladson Ricardo Flor Bertolini,
Fernando Amâncio Aragão, Carlos Eduardo de Albuquerque,
Marcella Ferraz Pazzinatto, Carolina Silva Flóride, Rogério Fonseca Vituri ........... 146
Relação entre desempenho funcional e lesões no basquetebol,
Mauricio Pires de Moraes, Marcos Maurício Serra,
Angelica Castilho Alonso....................................................................................... 150
REVISÕES
Análise das diferenças entre corredores africanos
e caucasianos de meio-fundo e fundo,
José Augusto Rodrigues dos Santos, Tânia Amorim............................................... 154
Editor assistente
Guillermina Arias
O exercício físico como terapia não farmacológica
na disfunção endotelial do diabetes mellitus tipo 2,
Cristiane Gonçalves da Mota, Wagner Silva Dantas............................................... 168
Direção de arte
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O papel do estresse oxidativo e do exercício físico
na doença de Parkinson, Talita Tuon, Ricardo Pinho........................................... 174
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Como correr 10 km com segurança: exercício versus saúde,
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130
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
Editorial
Raça e desempenho atlético
Paulo Farinatti, Jean-Louis Peytavin
Quando o francês Christophe Lemaître correu os 100
metros rasos em menos de 10 segundos pela primeira vez
em 2010 (9’98”), o mito da superioridade negra em corridas
de velocidade foi questionado. Rapidamente, apareceram
pesquisas mostrando que Lemaître possuiria genes idênticos
aos de Usain Bolt e que, fisicamente, poderia ser assimilado
a um corredor senegalês pelo comprimento dos membros
inferiores. Mas todas essas comparações revelaram-se irrelevantes: os famosos genes que se exprimiam em Usain Bolt e
outros velocistas existiriam também em corredores quenianos
de fundo. Além disso, comparar Lemaître a um senegalês soa
pelo menos estranho, já que nunca um corredor daquele país
alcançou marcas inferiores a 10 segundos. Temos que voltar ao
fato fundamental: a superioridade negra não é uma questão
de raça, mas de grupos bem específicos, compostos basicamente de Afro-Americanos e Jamaicanos. A superioridade
inata seria menos importante que fatores extrínsecos, como
investimento, seleção e treinamento.
Voltando à África, a mesma lógica usualmente aplicada
aos velocistas poderia ser aventada a corredores de fundo e
meio-fundo do Quênia ou Etiópia, os quais monopolizam
recordes e lideram campeonatos há 30 anos? Existiria uma
superioridade de negros oriundos do Leste da África? Nesse
sentido, dentre os artigos incluídos nesta edição da RBFEx,
comentamos o interessante estudo elaborado por José Augusto
Rodrigues dos Santos e Tânia Amorim, da Universidade do
Porto (Portugal). Os autores produziram uma revisão exaustiva sobre o assunto, na qual analisam variáveis biológicas
(genéticas, antropométricas, fisiológicas, morfológicas) e
sócio-ambientais, como a nutrição e o estilo de vida, quanto
à sua influência sobre os resultados desses corredores.
É interessante notar que, no estado atual do conhecimento, os fatores que melhor explicariam o sucesso dos corredores
africanos de fundo, novamente recairiam sobre particularidades relacionadas ao treinamento (recuperação e sono, esforços
de intensidade maior que concorrentes caucasianos etc.) e
aspectos psicológicos, como a vontade de ganhar e certa aura
de invencibilidade, que serviria como reforço positivo.
Desvaloriza-se a questão genética como determinante de
resultados atléticos, o que, certamente, será objeto de estudos
cada vez mais aprofundados, no que tange ao mapeamento
de características que favorecem certos tipos de desempenho,
mas também ao valor relativo dessa informação no campo
da aplicação prática. Afinal, em que pesem aspectos éticos a
serem discutidos, até que ponto o aspecto genético poderia
ser manipulado e, principalmente, em que medida isso valeria a pena, dada a influência de outros fatores para produzir
rendimento de alto nível. Pode-se fazer uma analogia com o
aforismo atribuído a Winston Churchill, “a sorte não existe, é
um conjunto de pequenos detalhes”. Isso parece se aplicar ao
desporto de elite – ter a sorte de nascer com os “genes certos”
seria suficiente para produzir um atleta?
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
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ARTIGO ORIGINAL
Efeito agudo de uma sessão de alongamento
sobre a curva glicêmica de idosas inativas
Acute effect of a session of stretching on the glycemic curve
of inactive elderly woman
Roseli Santos de Araújo, Ft.*, Pollyane Lopes de Araújo, Ft.*, Rogério Tosta de Almeida, M.Sc.**, Jefferson Petto, M.Sc.**
*Graduada em Fisioterapia, **Professor da Faculdade Social da Bahia, Professor da Universidade Estadual de Feira de Santana
Resumo
O objetivo deste estudo foi verificar o efeito agudo de uma
sessão de alongamento estático sobre a curva glicêmica em idosas
fisicamente inativas não diabéticas. Avaliou-se as curvas glicêmicas
nos tempos 0 (jejum de 12 h), 30 min, 60 min, 90 min e 120 min,
após a ingestão de 75 g de dextrose, de 16 idosas em dois momentos
distintos: Teste Basal (TB) sem a realização de alongamento e Teste
Experimento (TE) sete dias após, com a realização do alongamento.
A glicemia média aos 60 min, 90 min e 120 min no TE foi menor
que no TB, porém as diferenças não foram significantes (p ≤ 0,05).
Considerando o ponto 30 min como referência, a variação média
da glicemia entre os testes nestes tempos foi de aproximadamente de
15 mg/dL, sendo significante no tempo 60 min (p = 0,011). Uma
sessão de alongamento não estimulou o aumento do consumo de
glicose na população estudada.
Palavras-chave: exercícios de alongamento muscular, pessoa
idosa, teste de tolerância à glucose.
Abstract
The objective of this study was to investigate the acute effects
of a session of static stretching on the glycemic curve in physically
inactive and nondiabetic elderly. We evaluated the Glucose Tolerance
Test at 0 (fasted 12 h), 30 min, 60 min, 90 min and 120 min after
intake of 75 g of dextrose, in 16 elderly women in two distinct stages:
Baseline Test (BT) without performing stretching and Experiment
Test (ET) 7 days after the completion of the stretch. The average
blood glucose for 60 min, 90 min and 120 min in ET was lower
than in BT, but the differences were not significant (p ≤ 0.05).
Whereas as a reference point 30 min, the variation between average
blood glucose testing at this time was approximately 15 mg/dL, but
significant time 60 min (p = 0.011). A stretching session did not
stimulate increase glucose consumption in the population studied.
Key-words: muscle stretching exercises, elderly, glucose tolerance
test.
Recebido em 21 de junho de 2012; aceito em 26 de setembro de 2012.
Endereço para correspondência: Jefferson Petto, Avenida Universitária, s/n, Campus Universitário, Modulo I (DCBIO), 44031-460
Feira de Santana BA, Tel: (71) 9619-1061, E-mail: [email protected]
132
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
Introdução
A população idosa apresentou um significativo crescimento nos últimos anos, especialmente nos países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil [1]. Este cenário tem favorecido a progressão das doenças crônicas não transmissíveis,
dentre as quais as Doenças Cardiovasculares (DCV) são as
mais frequentes e, ainda hoje, a maior causa de mortalidade
no mundo.
A partir da sexta década de vida, em especial no gênero
feminino, ocorre uma diminuição acentuada da massa muscular que associada ao sedentarismo promove sarcopenia e
o declínio da capacidade funcional cardíaca [2]. Segundo
dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia e da Associação
Brasileira do Climatério, uma em cada nove mulheres com
idade entre 45-64 anos tem alguma forma de DCV, enquanto
essa relação passa para uma em cada três após os 65 anos de
idade [3]. Vários fatores estão relacionados a este elevado
risco cardiovascular e quanto maior o numero dos fatores
desencadeantes presentes, maior a chance de apresentar um
evento cardiovascular.
Um dos principais fatores desencadeantes das DCV em
mulheres é a Diabetes Mellitus (DM) [3,4] sendo que, a
presença isolada de DM é considerada como alto risco para o
desenvolvimento de DCV [3]. No Brasil, em 2005, existiam
8 milhões de indivíduos com DM [4] e a idade influencia
diretamente no seu desenvolvimento de na tolerância a
glicose diminuída [4,5] e embora não seja fácil estimar o
prejuízo social, inúmeros indivíduos diabéticos são incapazes
de continuar a trabalhar em decorrência das complicações
crônicas ou ficam com alguma limitação no seu desempenho
profissional [6]. Portanto, medidas efetivas de prevenção
sejam, através da prevenção primaria ou secundaria, são de
suma importância para a minimização desse elevado custo
social e econômico.
A prática da atividade física regular reduz o risco de aparecimento da DM, isso porque promove alterações corporais
como a redução da Circunferência da Cintura (CC), do Índice de Massa Corporal (IMC) e da glicemia de jejum [7,8].
Porem, grande número de idosos não goza de habilidades
osteomioarticulares para realizar qualquer modalidade de
exercício físico [2] sendo importante desenvolver modalidades
alternativas para essa população, que promovam resultados
eficazes de condicionamento cardiovascular, metabólico e
muscular.
O alongamento é uma alternativa promissora, pois, permite a aplicação em grupo e com pequenos recursos materiais, otimizando a relação custo-benefício, além de ser uma
atividade de fácil execução e entendimento aos participantes
[9]. No entanto, os estudos que versam sobre a importância
do exercício físico tanto para prevenção [10,11], como para
o tratamento da diabetes [12-14], não se referem especificamente ao efeito do alongamento sobre os níveis glicêmicos
ou apenas o citam como um dos componentes pré-exercicio,
ou seja, como forma preparatória da musculatura para a realização da modalidade de exercício proposta. Já estudos que
avaliaram o efeito do alongamento sobre os níveis glicêmicos
não apresentaram evidencias conclusivas [15,16]. Portanto,
diante do exposto, o objetivo deste estudo foi verificar o
efeito agudo imediato de uma única sessão de alongamento
ativo orientado sobre a curva glicêmica em idosas fisicamente
inativas não diabéticas.
Material e métodos
Inicialmente foram avaliadas integrantes de um grupo da
terceira idade da cidade de Salvador-BA. Foi adotada como
critério diagnóstico para a DM, a glicemia de jejum de 8 a 12
horas, sendo considerados como normais, valores glicêmicos
de jejum entre 70 a 100 mg/dl. Para confirmação de que
nenhuma idosa era pré-diabética ou diabética, no primeiro
exame sanguíneo, foi também dosada a hemoglobina glicada
(HG), adotando-se como normais, valores iguais ou inferiores
a 7% [6].
Para a classificação do nível de atividade física foi utilizado
o questionário internacional de atividade física – versão curta,
sendo consideradas fisicamente inativas aquelas classificadas
como sedentárias e irregularmente ativas.
Foram adotados como critérios de exclusão, idosas que
faziam uso de bebidas alcoólicas frequentemente, fumantes,
hipo ou hipertiroidismo comprovado por exame laboratorial,
ou idosas que apresentaram alguma alteração proprioceptiva
e/ou alterações osteomioarticulares que impossibilitaram a
realização do alongamento.
Não foram excluídas da pesquisa voluntárias que apresentaram hipertensão arterial não controlada de grau leve ou
hipertensão controlada, bem como as dislipidêmicas ou em
uso corrente de hipolipemiantes, visto que os fármacos que
controlam as dislipidemias não interferem diretamente na
resposta glicêmica aguda.
O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética
e Pesquisa do Hospital Espanhol da Bahia (registro CEP
no062/08). Todas as participantes foram informadas sobre
os riscos e benefícios da pesquisa, em linguagem compatível
com seu grau de instrução, explicitados no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido que foi assinado de forma
cônscia e voluntária.
As medidas da tensão arterial foram feitas com o tensiômetro da marca BD Modelo Redondo de tamanho adulto
médio e adulto grande, sendo observadas as recomendações das V Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial
(DBHA) [17].
A CC foi medida no ponto médio entre a última costela
e a crista ilíaca. O IMC foi calculado pela divisão da massa
(kg) pelo quadrado da estatura (m2).
Após a coleta inicial de dados, as voluntárias foram submetidas a dois testes de tolerância a glicose, um denominado
Teste Basal (TB) e outro Teste Experimento (TE). A veia
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
antecubital foi canulada com um gelcro tamanho 14 ou 16
e hidrolisado com soro fisiológico em cada coleta de sangue,
evitando, assim, serem puncionadas várias vezes as veias das
voluntárias.
No TB foram coletadas amostras de sangue nos tempos 0
(jejum de 12 h), e nos tempos 30 min, 60 min, 90 min e 120
min após a ingestão de 75 g de dextrose. Na coleta de jejum
de 12 h foram dosados a glicose, os triglicerídeos e a HG, já
nos demais pontos após a ingestão do composto glicêmico
foi dosada apenas a glicose, construindo com essas coletas a
curva de tolerância a glicose de 2 h.
O TE foi realizado sete dias após o TB, sendo aplicada
uma sessão de alongamento ativo orientado com duração de
25 min, no qual cada posição era mantida ativamente por
30 segundos com um intervalo entre uma posição e outra
de 20 segundos.
Foram realizados 10 movimentos bilaterais para membros superiores e 10 para membros inferiores, trabalhando
principalmente os seguintes músculos e grupos musculares:
flexores e extensores de antebraço, bíceps e tríceps braquial,
deltóide, peitorais, quadríceps, posteriores da coxa, adutores,
tibial anterior e tríceps sural. A sessão de alongamento foi
aplicada após a dosagem da glicose de jejum de 12 h (tempo
0). No TE o composto glicêmico foi administrado logo após
a realização do alongamento ativo orientado e assim dosado
a glicose também nos tempos 30 min, 60 min, 90 min e
120 min após a ingestão das 75 g de dextrose. Na sessão de
alongamento foram preconizadas posturas que trabalhassem
os músculos em cadeia.
A glicose e os triglicerídeos foram dosados com o uso do
equipamento Dimension XPAND, utilizando-se o método
da Glicose Oxidase para dosagem de glicose, e o método enzimático para a dosagem dos triglicerídeos. A HG foi dosada
pelo método da cromatografia líquida de alta performance,
utilizando-se o equipamento D-10 da BIO-RAD.
A variável glicemia, tanto no TB como no TE, atendeu
ao pressuposto de normalidade pelo teste KS. A análise descritiva envolveu o cálculo de médias e desvios-padrão. Foi
também calculada a média das variações entre os pontos de
coleta, os deltas (∆s), utilizando o ponto 30min como ponto
de referência inicial para formação dos ∆s, já que no repouso
verificou-se diferença entre o TB e o TE (p = 0,010). Os ∆s
avaliados foram: 60min-30min (∆1); 90min-30min (∆2) e
120min-30min (∆3). A comparação das médias no TB e TE
foi feita pelo teste t pareado bi-lateral, adotando como critério
de significância p ≤ 0,05.
As ferramentas de análise estatística foram o software Excel
para tabulação dos dados e construção do gráfico e o software
SPSS 13.0 para as análises descritivas e testes estatísticos.
Resultados
Foram selecionadas 23 idosas não ativas fisicamente, das
quais três após a primeira avaliação desistiram de continuar
133
a pesquisa e outras quatro apresentaram tolerância à glicose
diminuída, restando finalmente 16 voluntárias.
Na Tabela I estão expostas as características antropométricas, laboratoriais e clínicas da amostra. Analisando
os dados antropométricos, observa-se que o IMC médio
se encontra dentro do padrão eutrófico segundo a recomendação da Organização Mundial de Saúde [18], porém
a média da CC está acima do ponto de corte sugerido por
Barbosa et al. [19] (84 cm) para predizer risco de DM em
mulheres.
Tabela I - Características antropométricas, laboratoriais e clínicas
das voluntárias.
Variável
Idade (anos)
Peso (kg)
Altura (m)
Índice de Massa Corpórea (kg/m2)
Circunferência da Cintura (cm)
Hemoglobina Glicada (%)
Triglicerídeos (mg/dL)
Pressão Arterial Sistólica (mmHg)
Pressão Arterial Diastólica (mmHg)
Média ± DP
68,2 ± 7,1
57,8 ± 9,3
1,55 ± 0,1
24,1 ± 3,3
85,6 ± 13,8
6,2 ± 0,4
79,2 ± 30,3
123,7 ± 14,0
77,5 ± 8,1
A HG fornece a informação do controle glicêmico de
90 a 120 dias, não apenas pontualmente como a glicemia
de jejum, e como demonstrado na tabela I os valores da
HG variaram em torno de 6,0% o que demonstra um bom
controle da glicemia, como recomendado pela Sociedade
Brasileira de Diabetes [6], sendo compatível com os resultados colhidos na glicemia de jejum do TB com média de
88,7 mg/dL (Tabela II).
Os valores médios da tensão arterial sistólica e diastólica
seguem o padrão de normalidade preconizado pela V DBHA
[17].
Na Tabela II são descritas as médias dos pontos de coleta
da glicemia nos dois dias de teste. Observa-se que no repouso
as médias foram diferentes entre o TB e o TE, apresentando
significância estatística (p ≤ 0,05) e que o pico médio da
glicemia no TB foi aos 60 min enquanto no TE aos 30 min
(Gráfico 1). Nota-se ainda que a média aos 60 min, 90 min
e 120 min no TE foi menor que no TB. No entanto, quando
comparadas as médias dos pontos nos TB e TE, não foram
encontradas diferenças estatísticas significantes em nenhum
deles.
Na Tabela III são descritas as médias das variações entre
os intervalos de coleta da glicemia. Nota-se, que entre os
pontos 30 min a 60 min (∆1) houve um descenso de 8,3 mg/
dL no TE enquanto no TB ocorreu um aumento de 6,5 mg/
dL levando a uma diferença de aproximadamente 15 mg/dL
entre esses pontos (p = 0,011).
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
134
Tabela II - Comparação das médias dos valores glicêmicos (mg/
dL) do TB e TE
Tempo de
Coleta
Repouso
30min
60min
90min
120min
Teste
Basal
Experimento
Média ± DP
Média ± DP
88,7 ± 7,75
85,1 ± 8,46
132,2 ± 32,48
137,2 ± 17,78
138,7 ± 40,95
128,7 ± 28,11
127,5 ±34,15
116,7 ± 28,13
120,9 ± 18,54
110,1 ± 24,27
p*
0,010
0,519
0,168
0,177
0,119
* Teste t pareado bilateral de comparação entre médias.
Tabela III - Comparação das médias das variações (∆) dos valores
glicêmicos (mg/dL) do TB e TE.
Delta (∆)
60 min a 30 min
90 min a 30 min
120 min a 30 min
Média das
Variações
TB
TE
6,5
-8,3
-4,6
-20,3
-11,2
-26,9
p*
0,011#
0,067
0,098
* Teste t pareado bilateral de comparação entre médias. # p ≤ 0,05.
Observa-se ainda, que apesar da curva glicêmica do TE
continuar apresentando um descenso maior que a do TB,
nos demais ∆s (∆2 e ∆3), não foram verificadas diferenças
significantes estatisticamente (p ≤ 0,05).
Discussão
De acordo com os resultados, uma sessão de alongamento ativo orientado não provoca diminuição significativa da curva glicêmica de idosas inativas não diabéticas.
Apesar de os valores médios da glicemia, nos pontos 60
min, 90 min e 120 min, terem sido menores no TE,
não apresentaram diferença estatística. Já no ∆ 1, entre o
ponto 30 min e 60 min, a diferença entre os testes foi
estatisticamente significante (p = 0,011), mas nos demais
∆s, entre o ponto 30 min e 90 min e 30 min e 120 min,
as diferenças novamente não apresentarem significância
estatística para (p ≤ 0,05).
E sabido que o exercício físico, mais especificamente a
contração muscular, promove o influxo de glicose para a célula
sem a necessidade da insulina. Dessa forma, pode-se dizer
que o exercício físico age como um estimulador do consumo
de glicose plasmática pela célula muscular, já que aumenta a
necessidade de energia aumentando o consumo dos carboidratos e também possibilita a entrada rápida da glicose sem
a necessidade da insulina [20]. Portanto, e plausível pensar
que o estiramento do ventre muscular provocado por uma
sessão de alongamento não estimula o influxo de glicose na
célula muscular e consequentemente não diminui os níveis
plasmáticos de forma aguda, talvez por não estimular os dois
mecanismos acima citados: o aumento do gasto energético e
a translocação do glut4 na membrana muscular o que pro-
voca a entrada rápida de glicose na célula sem a necessidade
da insulina.
Outro motivo que pode explicar o resultado dessa pesquisa
e que o metabolismo da glicose de forma aguda esta diminuído
em idosos [21], sendo necessário exercício em intensidades
maiores para obter os mesmos resultados de indivíduos mais
jovens [22]. Uma sessão de alongamento apresenta um baixo
gasto calórico o que pode não induzir a um consumo maior
da glicose pelas células musculares especialmente em idosos.
A American Diabetes Association [23] recomenda exercícios
aeróbicos de intensidade moderada como, caminhada, natação, bicicleta e dança, e também exercícios resistidos para
forca com pesos livres ou aparelhos, entretanto, em nenhum
momento e recomendado o alongamento como única forma
de atividade física, ja que este não atinge a intensidade recomendada de 60% a 70% do VO2max para se conseguir os
resultados desejados [4,23].
Conclusão
A análise dos resultados permite concluir que uma sessão
de alongamento ativo orientado não altera de forma significante a curva glicêmica de idosas fisicamente inativas e não
diabéticas. No entanto, são necessários mais estudos, com um
número maior de voluntárias, para que se possa compreender e
evidenciar melhor o efeito agudo que o estiramento muscular,
provocado por uma sessão de alongamento, pode provocar
sobre o metabolismo da glicose em idosas não dibéticas, assim
como, em outros subgrupos.
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
136
ARTIGO ORIGINAL
Creatinafosfoquinase pré e pós-treinamento físico
e incidência de lesões em atletas de voleibol
Creatine phosphokinase pre and post physical training and incidence
of injuries in volleyball athletes
Dayane Alcântara*, Sonia Elizabete Will*, Sérgio Henrique Borin, M.Sc.**
*Doutoranda, Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, Departamento de Cirurgia,
São Paulo/SP, **Discente da Universidade Metodista de Piracicaba, Piracicaba/SP
Resumo
A prática desportiva recreativa e de competição vem crescendo
exponencialmente, aumentando também o índice de lesões inerentes
ao esporte. O objetivo deste estudo foi avaliar a variável creatinafosfoquinase (CPK) antes e após treinamento físico em atletas e
investigar a incidência de lesões músculo esqueléticas no mesmo
grupo. Este estudo foi realizado com 12 atletas da equipe de voleibol da UNIFEOB. Foi realizada a dosagem de CPK, e utilizado o
Questionário Nórdico, para avaliar a condição musculoesquelética.
A CPK apresentou aumento significativo após o exercício físico, e
quanto às queixas musculoesqueléticas a região mais acometida foi a
de punho/mãos. Podemos concluir que os métodos utilizados neste
trabalho são simples e de baixo custo para avaliação dos desportistas
e que podem auxiliar na prevenção de lesões.
Abstract
The recreational sporting practice and competition has grown
exponentially. The objective of this study was to evaluate the variable
creatine phosphokinase (CPK) before an after physical training in
athletes and to investigate the incidence of skeletal muscle injuries
in the same group. This study was carried out with 12 athletes of
the UNIFEOB volleyball team. The dosage of CPK was performed,
and the Nordic Questionnaire has been applied to evaluate the
musculoskeletal conditions of the athletes. The CPK level showed
significant increase after physical exercises, and the musculoskeletal
pain most frequently reported was of fist/hands. We concluded that
methods used in this study are simple and inexpensive to evaluate
the sportsmen and they can help in the injuries prevention.
Key-words: volleyball, injuries, biochemistry, physical therapy.
Palavras-chave: voleibol, lesões, bioquímica, fisioterapia.
Recebido em 6 de dezembro de 2011; aceito em 6 de junho de 2012.
Endereço para correspondência: Dayane Alcântara, Av. Prof. Dr. Orlando Marques de Paiva, 87, 05508-270 São Paulo SP, Tel: (11)
3091-7690, E-mail: [email protected], [email protected], [email protected]
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
Introdução
A prática desportiva recreativa e de competição vem crescendo exponencialmente, o que requer grandes cuidados com
relação às lesões. O voleibol é um esporte muito praticado no
Brasil atualmente. Trata-se de um esporte coletivo de grande
dinamismo e aplicação constante de fundamentos técnicos e
se destaca pelo desenvolvimento da velocidade, força, flexibilidade e resistência [1].
Isso faz com que a prática deste esporte predisponha a
lesões que levam muitas vezes ao afastamento da atividade
demandando tratamento especializado, por ser uma modalidade caracterizada pelas grandes repetições de saltos durante
movimentos de bloqueios e levantamentos [2]. A sobrecarga
repetitiva sobre uma estrutura músculo esquelética pode gerar
lesões crônicas [3].
As lesões musculares são divididas em dois grupos importantes: as distonias; e as distensões que são descritas em três
estágios: estágio I correspondente a uma distensão muscular,
estágio II onde ocorre ruptura parcial do músculo, e estágio
III onde há uma ruptura muscular total. Essas lesões podem
ser causadas por fatores extrínsecos e intrínsecos gerando uma
série de alterações bioquímicas celulares [4].
Os fatores intrínsecos englobam variáveis como: idade,
sexo, estatura, composição corporal, nível de aptidão física,
período de tratamento da lesão, questões nutricionais e características psicológicas e sociais. E os fatores extrínsecos: a
periodicidade e intensidade da atividade física realizada, as
condições atmosféricas e equipamentos, e também o tipo de
modalidade desportiva praticada bem como local de treino e
instalações desportivas [5].
O processo de lesão pode ser dividido em quatro estágios,
sendo, o primeiro compreendido pela desorganização e rompimento das miofibrilas; o segundo estágio ocorre após 3 a
4 horas, quando se inicia o processo degradativo; o terceiro
estágio é caracterizado pela resposta inflamatória no tecido. E
no quarto estágio e último, que começa entre quatro a seis dias
após o exercício, ocorre regeneração das miofibrilas lesadas [6].
É descrito que exercícios de alta intensidade, especialmente
aqueles que envolvem contrações excêntricas, são frequentemente associados à lesão muscular, e consequentemente, ao
aumento na concentração de CPK [3,7-10]. O treinamento
diário pode resultar em elevação de CPK, e os níveis de concentração da enzima durante períodos de descanso podem
então se tornar maiores em indivíduos treinados [11]. Porém,
em atletas altamente treinados, este aumento pode não ocorrer, indicando adaptações do organismo ao tipo de exercício
realizado, ao qual essa elevação no plasma vai ser menor se
relacionada a indivíduos sedentários. Durante a competição,
um aumento da CPK poderia caracterizar também uma
preparação física inadequada para a mesma, devido à falta
ou excesso de treinamento [12].
O voleibol hoje é um dos esportes mais procurados, atualmente, ao qual, pela demanda de sobrecarga, saltos, corridas
137
e deslocamentos, fazem com que o indivíduo necessite de
uma condição atlética muito boa, caso contrário, o voleibol
poderá predispor a muitas lesões, principalmente as chamadas
lesões por overtraining. Portanto, nosso objetivo foi avaliar a
variável creatinafosfoquinase (CPK), antes e após treinamento
físico em atletas de voleibol feminino. Além de investigar a
incidência de lesões músculo esqueléticas.
Material e métodos
O projeto foi aprovado sob parecer número 338/2008, e
desenvolvido em conformidade com a resolução 196/96, do
Conselho Nacional da Saúde, após aprovação prévia junto ao
CEP (Comitê de Ética em Pesquisa) da FCM (Faculdade de
Ciências Médicas) – UNICAMP.
Descrição dos sujeitos
Foram avaliados 12 atletas da equipe de voleibol da UNIFEOB de São João da Boa Vista/SP, todos do sexo feminino,
com idade média de 19 anos (± 0,95) que mantinham em média 12 horas e 30 min de treinamento semanal. A participação
no estudo foi voluntária e todos os sujeitos que concordaram
em participar assinaram um Termo de Consentimento Livre
e Esclarecido, sem receber qualquer ônus. Para ser incluído
na pesquisa, o sujeito deveria ser atleta da equipe feminina
de voleibol da UNIFEOB, São João da Boa Vista-SP e ter
mais de 18 anos. Foram excluídas do experimento duas atletas
que não compareceram ao treinamento no qual foi realizada
coleta de sangue.
Instrumentos para coleta de dados
Na coleta de dados foram utilizados instrumentos que
abordaram as seguintes temáticas: sintomas musculoesqueléticos e coleta sanguínea para dosagem de CPK.
Sintomas musculoesqueléticos
Para avaliar os sintomas músculo esqueléticos foi utilizado um instrumento derivado do questionário Nórdico, que
tem como objetivo avaliar problemas musculoesqueléticos
abordando a presença de dores musculoesqueléticas, nos
últimos doze meses e nos últimos sete dias, a ocorrência de
incapacidade funcional e se houve procura por profissionais
nos últimos doze meses [13].
Dosagem de creatinafosfoquinase (CPK)
Foram coletados 1,5 ml de sangue, imediatamente após
o treino, através de seringas comuns, o qual foi armazenado
em tubos de EDTA, para posterior análise. Realizou-se a centrifugação deste sangue em uma centrífuga da marca Excelsa
Baby I®, a 1500 rotações por min (rpm) durante 5 min. Foi
138
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
retirado o soro sobrenadante que foi armazenado em tubos de
Eppendorf. Após este processo, este soro foi levado para análise, que foi realizada através da máquina Labtest® da empresa
Labquest®. Utilizou-se o kit “CK NAC 77” da Centerlab®.
Análise estatística
Com relação ao questionário nórdico foram calculadas
as percentagens de queixas de acordo com cada região anatômica. Para a variável creatinafosfoquinase (CPK), foram
realizadas análises descritivas das medidas realizadas visando
estabelecer o padrão característico da variável e verificar das
pressuposições comumente utilizadas em análises de dados
experimentais. As análises descritivas foram realizadas por
meio de procedimento Proc Means do programa Statistical
Analysis System, versão 9.1 (SAS, 1995). Para avaliação da
variável concentração enzimática, segundo os diferentes momentos pré-exercício (A) e pós-exercício (B), adotou-se como
procedimento PROC TTEST do programa supracitado, o
qual utiliza nas respectivas comparações, o Teste t de Student
considerando os dados pareados.
Resultados
Questionário nórdico
A seguir, na Tabela I, serão apresentados os resultados
encontrados com a aplicação do Questionário Nórdico, com
relação às queixas musculoesqueléticas nos últimos 12 meses,
nos últimos 7 dias também as queixas sobre a impossibilidade
de realizar atividades esportivas e de vida diária devido a alguma lesão e a incidência de procura por algum profissional
da área da saúde (médico e/ou fisioterapeuta) para solucionar
o problema musculoesquelético.
A região mais acometida nos últimos 12 meses e nos últimos 7 dias foi punhos/mãos. Se agruparmos as queixas por
segmentos como; tronco (pescoço, parte superior e inferior das
costas), membro superior (ombro, cotovelo, punhos/mãos)
e membro inferior (quadril/coxas, joelhos, tornozelos/pés),
a maior incidência de lesões relatadas neste período foi em
membro inferior que representa 36,95% das lesões.
Quanto às lesões que levaram as atletas a procurarem por
um profissional da saúde, as regiões com maior número de
queixas foram tornozelos/pés. Se observarmos a divisão por
segmentos novamente, os mais acometidos foram os membros
inferiores, predominantes em todos os questionamentos feitos.
A região de tornozelo/pé foi a que apresentou maior
incidência de impedimento de treino e atividades diárias.
Em relação aos segmentos, o que causou maior número de
afastamentos foi novamente o membro inferior.
Creatinafosfoquinase e treinamento físico
Os números de observações e as estimativas de médias,
desvios padrão, coeficientes de variação, valores de mínimo
e máximo para a variável concentração enzimática (CONC_
ENZ) da creatinafosfoquinase (CPK), segundo os diferentes
momentos encontram-se na Tabela II.
Tabela II - Concentração enzimática no pré (A) e pós (B) treinamento das atletas de voleibol. Número de observações (N), média
(MED), desvio padrão (DP), coeficiente de variação (CV), valor
mínimo (MIN) e máximo (MAX) para a variável analisada nos
diferentes momentos.
Variável
A
B
N
12
12
MED
DP
CV
72,33 40,08 55,40
163,33 106,56 65,24
MIN
MAX
24,00 145,00
48,00 412,00
Pôde-se perceber que os valores mínimos encontrados
pré-exercício foram de 24U/l e no pós-exercício de 48U/l, os
valores máximos encontrados foram 145U/l durante o período
pré-exercício e de 412U/l no pós-exercício. As estimativas de
médias da variável concentração enzimática (Conc_enz), da
CPK (creatinafosfoquinase) segundo os diferentes momentos
podem ser observadas na Figura 1.
Tabela I - Porcentagem de queixas relatadas no Questionário Nórdico durante a realização da avaliação inicial das atletas.
Pescoço
Ombros
Parte Superior das Costas
Cotovelos
Punhos/Mãos
Parte Inferior das Costas
Quadril/Coxas
Joelhos
Tornozelos/Pés
Nos últimos 12
Nos últimos 12 meses, você
meses, você teve
foi impedido (a) de realizar
problemas como dor, atividades normais (trabaformigamento e/ou lhos, atividades domésticas
dormência em (%):
e de lazer) (%):
33,3
16,6
33,3
8,3
33,3
0
16
0
75
25
50
0
33,3
8,3
50
16,6
58,3
16,6
Nos últimos 12 meses você
consultou algum profissional
da área de saúde (ex.: médico, fisioterapeuta) por causa
dessa condição em (%):
8,3
8,3
8,3
0
8,3
8,3
8,3
16,6
33,3
Nos últimos 7 dias
você teve
problema
em?(%):
8,3
8,3
8,3
0
25
8,3
16,6
25
50
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
Figura 1 - Estimativa média da variável concentração enzimática
(Conc_Enz) no pré-exercício (A) e pós-exercício (B).
200
*
180
160
140
U/l
120
100
80
60
40
20
0
A
B
A variável Conc_Enz, segundo os diferentes momentos,
apresentou valor altamente significativo pelo teste t**= P <
0,01(significativo a 1% de probabilidade) com maior valor
médio associado ao momento B (pós-exercício).
Discussão
Nos estudos de Carazzato apud Pacheco et al. [14] houve
maior ocorrência de lesão do tornozelo, principalmente em
esportes como voleibol, em nossos estudos foi a segunda
maior queixa nos últimos 12 meses e nos últimos sete dias.
O estudo acima corrobora outros estudos [1,9] com
relação à predominância de lesões em tornozelos seguidos
de joelhos, em atletas de voleibol feminino, relacionado ao
grande número de impactos sofridos em pouco tempo por
estes atletas amadores, quando comparado a desportistas de
alto nível.
Os autores atentaram ainda para a necessidade de um
trabalho de fortalecimento muscular, que vai ao encontro
dos estudos Beunen e Thomis apud Benetti et al. [6], que
ressaltaram ser um componente importante na aptidão física.
E, segundo Malta e Nascimento apud Benetti et al. [6] leva
ao aumento na capacidade de resposta muscular, diminui a
sobrecarga e a possibilidade de lesões.
Isso demonstra que o voleibol é uma atividade esportiva
que exige preparação das articulações e músculos. E se o atleta
não estiver preparado fisicamente para demandas altamente
energéticas poderá ser acometido de lesões por sobrecarga.
Solgard et al. apud Santos et al. [9] atribuíram uma maior
incidência de lesões em membros inferiores à grande quantidade de movimentos de aterrissagem de saltos, que seria para
ele o maior causador de lesões em atletas de voleibol.
Quanto às queixas crônicas, a região mais acometida foi
parte inferior das costas (lombalgia), que em nosso trabalho
foi a terceira maior queixa. Nas lesões agudas o autor descreve
como as mais frequentes as de joelhos (entorse de joelho),
pescoço (torcicolo agudo), tornozelo (entorse tíbio-társica),
139
cotovelo (entorse), quadril/coxas (contratura de quadríceps)
e joelhos (ruptura de gastrocnêmio medial). A região corporal
mais lesada, portanto, foi o membro inferior, o que vai ao
encontro dos nossos resultados, o que nos leva a reafirmar o
fato, de que são os saltos verticais os grande causadores de
lesões no voleibol [15].
Estudos confirmaram ainda a existência de relação entre
alterações posturais e incidência de lesões em jogadores de
futsal, devido à sobrecarga mecânica gerada pelas alterações
posturais [16], que segundo Marcondes apud Ribeiro et al.
[16], são causadas pelo treinamento intenso e repetitivo.
Estes dados mostram que a atividade física pode levar a uma
sobrecarga na coluna vertebral. Observamos que muitos dos
nossos atletas referiram dor localizada na coluna, especificamente na lombar, por ser a região de maior sobrecarga no voleibol.
Deve-se atribuir esta sobrecarga a grande quantidade de saltos
que um atleta de voleibol tem que realizar durante treinos e
jogos, sobrecarregando em demasia os membros inferiores.
Pode haver divergência quanto à incidência de lesões esportivas. Variações podem ocorrer em decorrência de fatores
específicos do tipo de esporte praticado, tempo de atividade
esportiva e o nível de competição do atleta, bem como gesto
esportivo específico de cada esporte [2].
Atualmente, conhecer o atleta e suas características psicológicas é importante para os profissionais da ciência desportiva, devido ao grande crescimento do esporte perante a
sociedade que acaba exigindo muito desse atleta aumentando
os problemas que podem afetá-lo. E em nosso estudo devemos
atentar para o fato de que as atletas mantêm também uma
vida extraprofissional como cuidados de casa para àquelas
que moram sozinhas, estar longe da família e dos amigos,
preocupação com situações escolares, dentre outros, que podem levar ao estresse e ser este também um dos causadores do
grande número de queixas encontradas neste trabalho [17].
O exercício físico realizado de forma inade­quada ou excessiva pode provocar alterações importantes como modificações
estrutu­rais e bioquímicas, que podem ser responsáveis pela
ocorrência de dores e disfunções musculoesqueléticas [18].
Atletas de resistência apresentam modificações bioquímicas típicas, após a prática esportiva, caracterizadas por
aumento da atividade da lactato da creatina quinase total
e suas frações. Entretanto, os estudos que compreendem
valores de referência para parâmetros bioquímicos em atletas
profissionais durante uma sessão de treinamento ainda são
inconclusivos [19].
Torres et al. [20] realizaram um programa de exercícios
excêntricos, por meio de um dinamômetro, que não verificou
aumento significativo nos valores da enzima após 24 horas do
treinamento. Lavender e Nosaka [11] levantaram a hipótese
de que o exercício físico ao longo do tempo possa exercer
um efeito protetor sobre o músculo. Portanto, nem sempre a
concentração dessas enzimas reflete o grau de lesão. Portanto,
a ausência de alteração nas mesmas não garante que o músculo
não tenha sido lesado com o treino [21].
140
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
Um estudo com 10 homens treinados, mediante a realização de sete séries de 10 repetições de contração excêntrica
de quadríceps, verificou que houve um aumento enzimático
estatisticamente significativo, após 24 horas de realização do
exercício. Esse aumento é atribuído ao aumento da permeabilidade e interrupções das membranas musculares. O aumento
estatisticamente significativo será determinado por fatores
como intensidade, duração e velocidade dos movimentos que
pode ser uma das variáveis que fez com que os dois autores
tivessem respostas diferentes quanto ao aumento de CPK [22].
Além disso, também podemos verificar que o aumento na
enzima nos dois estudos aconteceu, após 24 horas de treinamento, levantando a hipótese de que essa enzima comece a ser
liberada tardiamente [23,24]. Esse aumento tardio é devido ao
fato de que esta enzima (CPK) é transportada via circulação
linfática, que por sua vez é mais lenta que a sanguínea [4].
Zoppi et al. [25] realizaram a dosagem durante uma temporada competitiva, em jogadores de futebol, e não observaram diferença significativa, ao contrário dos nossos estudos,
porém os valores encontrados por ele sempre estiveram acima
da média dos valores de referência de sujeitos sedentários, o
que indica um maior nível de alteração muscular ou uma
maior permeabilidade do sarcolema destes indivíduos, ou
ainda pelo próprio estresse induzido pelo treinamento a que
são submetidos diariamente. Isto pode explicar talvez os
altos valores encontrados no nosso estudo durante a fase pré-exercício. Ou seja, são encontrados maiores níveis plasmáticos
da enzima em indivíduos treinados [12].
Em um estudo que analisou os esforços das lutas de judô,
de 90, 180 e 300 segundos encontrou um maior aumento
enzimático nas lutas com maior duração e atribui esse aumento a possíveis microlesões da membrana muscular, pois à
medida que o esforço aumenta a porosidade e/ou rompimento
da membrana, permitindo a passagem dessas proteínas para
o plasma. Supõe-se então que o aumento da intensidade ou
duração do exercício faz com que haja uma elevação dos níveis
destes marcadores bioquímicos de estresse [26].
Porém, as alterações bioquímicas podem sofrer influência
de fatores intrínsecos e extrínsecos como gênero, variação
cronobiológica, circadiana, repouso prévio, intensidade do
treinamento, sazonalidade, condições climáticas, hidratação,
entre outros [19].
O estresse está inserido em todos os treinamentos, competições e fatores não relacionados a treinamento ou competições
como sociais, ocupacionais, nutricionais, viagens dentre outros que podem gerar vários sintomas como depressão, apatia,
instabilidade emocional, diminuição do desempenho, cansaço
e aumento da vulnerabilidade a lesões [8].
Substâncias que não têm a capacidade de atravessar a barreira da membrana sarcoplasmática, como a CPK, extravasam
para o meio extracelular, após dano nas estruturas musculares,
tornan­do o aumento da concentração sérica dessas substâncias
potentes marcadores indiretos de lesão muscular, permitindo
a avaliação da condição músculo esquelética [18].
A resposta tardia da CPK ao exercício, encontrada
neste trabalho, deve-se à captação da enzima pelos linfáticos, forma mais lenta de circulação, o que não corrobora
nossos estudos no qual encontramos um valor altamente
significativo logo após o exercício físico. Porém devemos
considerar o fato de que essas atletas já estavam em um
período de treinamento intenso, pré-campeonato, o que
pode acarretar danos cumulativos justificando assim o
aumento da enzima logo após o exercício, confirmando
assim a alta incidência de lesões encontradas com aplicação
do Questionário Nórdico.
Conclusão
Através dos dados obtidos, podemos perceber que o
Questionário Nórdico é um método valioso para a avaliação
das queixas musculoesqueléticas em atletas, assim como em
qualquer outra atividade profissional. Com relação à análise
da concentração sérica da enzima CPK, também é um método
muito importante como meio diagnóstico e preventivo na
avaliação da função muscular dos desportistas.
Enfim, podemos concluir que existem vários meios de
avaliação, cabendo aos fisioterapeutas, e demais profissionais
do esporte, conhecê-los e utilizá-los a fim de prevenir lesões
e ou diagnosticá-las, proporcionando maior segurança para
os atletas e uma vida profissional mais saudável.
Agradecimentos
Agradeço ao meu orientador Sérgio Henrique Borin,
pela orientação e amizade durante os anos de execução deste
trabalho. Ao prof. Dr. Carlos Eduardo Ambrósio e sua aluna
Marina Pandolphi Brólio, às professoras Erica Zimberknopf,
Ana Fávia de Carvalho e Patrícia Cantú Moreira Giordano,
pelo apoio e por terem tornado possível a execução deste
trabalho. À prof. Dra. Maria Angélica Miglino pelo apoio e
utilização do laboratório.
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
142
ARTIGO ORIGINAL
Morfologia e histomorfometria do músculo esquelético
de ratas submetidas à estimulação elétrica
neuromuscular
Musculoskeletal morphology and histomorphometry of female rats
submitted to neuromuscular electrical stimulation
Vinícius Cestari do Amaral, Ft., M.Sc.*, Rodrigo Rodrigues Marcondes, Ft.**, Luiz Carlos Rodrigues Guanabara, Ft., Esp,
M.Sc.***, Manuel de Jesus Simões, D.Sc.****, Cristiano Schiavinato Baldan, Ft.*****,
Jairo José Matozinho Cubas, Esp, M.Sc.******
*Doutorando da Disciplina de Ginecologia, Laboratório de Ginecologia Estrutural e Molecular - LIM 58, Faculdade de Medicina
da Universidade de São Paulo (FMUSP), São Paulo/SP, **Mestrando da Disciplina de Ginecologia, Laboratório de Ginecologia
Estrutural e Molecular - LIM 58, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), São Paulo/SP, ***Professor e
Coordenador do Curso de Fisioterapia da Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP - Campus Guarujá), Guarujá-SP, ****Chefe
da Disciplina de Histologia e Biologia Estrutural da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), São Paulo/SP, *****Coordenador Geral do Curso de Fisioterapia da Universidade Paulista (UNIP), Professor do Curso de Graduação em Fisioterapia da Universidade Paulista (UNIP) e Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), ******Biólogo, Professor Adjunto da Faculdade Unida
de Suzano (UNISUZ), Suzano/SP
Resumo
Abstract
do músculo esquelético.
Key-words: morphology, gastrocnemius muscle, electrotherapy.
Objetivo: Analisar a morfologia e a histomorfometria do tecido
muscular esquelético de ratas submetidas à estimulação elétrica
neuromuscular (EENM). Material e métodos: Foram utilizadas oito
ratas divididas em dois grupos, contendo quatro animais cada, sendo:
grupo I (GI) - controle; e grupo II (GII) - submetido à EENM.
A EENM foi realizada no músculo gastrocnêmio das ratas do GII
durante 8 semanas. Após esse período, os animais foram sacrificados
e o músculo gastrocnêmio foi removido para montagem nas lâminas
com a coloração de hematoxilina e eosina. As lâminas foram analisadas em microscopia de luz e as imagens capturadas em um sistema
de análise de imagens, no qual foi mensurada a circunferência das
fibras musculares e os dados foram analisados estatisticamente.
Resultados: Nossos dados revelaram maior circunferência das fibras
musculares no GII (1876,1 ± 33,98 µm²) em relação ao GI (1516,6
± 318,1 µm²), diferença esta sendo estatisticamente significativa (P <
0,001). Conclusão: Foi mostrado que a EENM promove a hipertrofia
Objective: To analyze the morphology and histomorphometry
of musculoskeletal tissue of female rats submitted to neuromuscular
electrical stimulation (NMES). Material and methods: Eight female
rats divided into two groups, each containing four animals, were
used as follows: group I (GI) - control; and group II (GII) - submitted to NMES. NMES was performed in rats gastrocnemius muscle
of GII for 8 weeks. After this period, the animals were sacrificed and
the gastrocnemius muscle was removed and mounted on glass slides
with haematoxylin and eosin staining. Glass slides were analyzed
by optical microscopy and their images were captured in a picture
analysis system, the musculoskeletal cells circumference was measured and data were statistically analyzed. Results: Our data showed
that musculoskeletal cells circumference of GII (1876.1 ± 33.98
µm²) was larger than GI (1516.6 ± 318.1 µm²), and this difference
is statistically significant (P < 0,001). Conclusion: We concluded that
NMES promotes musculoskeletal hypertrophy.
Palavras-chave: morfologia, músculo gastrocnêmio, eletroterapia.
Recebido em 7 de fevereiro de 2012; aceito em 25 de setembro de 2012.
Endereço para correspondência: Vinícius Cestari do Amaral, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Laboratório
de Ginecologia Estrutural e Molecular - LIM 58, Av. Dr. Arnaldo, 455/2113, 01246-903 São Paulo SP, Tel: (11) 3061-7033, E-mail:
[email protected]
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
Introdução
Material e métodos
A estimulação elétrica neuromuscular (EENM) consiste
na aplicação intermitente de corrente elétrica para promover a
contração em músculos superficiais [1]. Esse tipo de corrente
produz contrações musculares através de estimulações elétricas
que despolarizam o nervo motor, produzindo uma resposta
sincrônica em todas as unidades motoras do músculo [2].
A resposta da unidade motora muscular proporciona a base
para a aplicação terapêutica da estimulação elétrica, a qual a
atividade fica restrita ao músculo estimulado, e o músculo é
menos influenciado pelas outras alterações que podem ocorrer
no corpo durante o exercício [3]. As alterações induzidas pela
estimulação elétrica na propriedade contrátil do músculo estão
associadas às alterações na composição das proteínas miofibrilares, determinadas por alterações na expressão gênica dessas
proteínas e enzimas musculares, como forma de adaptação do
músculo às mudanças do seu padrão de atividade [4].
De acordo com Dellito e Snyder-Mackler [5], há duas
teorias distintas para a explicação do fortalecimento usando a
EENM. A primeira teoria propõe que o ganho de força com
EENM ocorre de maneira similar ao ganho de força com
exercício voluntário. Uma segunda teoria propõe diferenças
fisiológicas entre a excitação elétrica e a contração voluntária,
por exemplo, a forma inversa de ordem do recrutamento das
unidades motoras.
Durante a contração voluntária recrutam-se primeiro as
células de formato pequeno, de condução lenta (tônicas) que
são mais resistentes à fadiga e, posteriormente, recrutam-se as
do tipo II (fásicas). Já na contração eletricamente induzida, o
recrutamento ocorre primeiro nas células do tipo II (menos
resistentes à fadiga) e posteriormente nas células do tipo I [6].
Segundo Evangelista et al. [7], a EENM pode ter o mesmo
efeito que a contração muscular voluntária no que se diz respeito
ao aumento temporário do metabolismo muscular. Porém,
ainda são necessários estudos para se pesquisar mais especificamente quais os efeitos da EENM na variação metabólica.
Nas clínicas de Fisioterapia, a EENM é um recurso físico
empregado para o fortalecimento e hipertrofia muscular [8],
sendo aplicado para as situações de coadjuvante do exercício,
cura de enfermidades ou melhora do condicionamento físico
[9]. Mas existe certo ceticismo na aplicação de EENM devido
à escassez de conhecimento sobre os efeitos que este recurso
exerce na fisiologia muscular [1].
Atualmente, espera-se um maior desenvolvimento nas
pesquisas em relação à aplicação da EENM, tendo em vista
que a terapia por EENM ainda é incipiente e abre novas perspectivas em relação às estratégias para o recondicionamento
do músculo esquelético [10].
Devido à carência de estudos de embasamento histofisiológico para a aplicação da EENM em músculos sadios, o
presente trabalho teve como objetivo analisar a morfologia e
a histomorfometria do tecido muscular esquelético de ratas
submetidas à EENM.
Animais
143
Após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da
Universidade Federal de São Paulo (CEP - UNIFESP) sob o
parecer 0986/07, o experimento foi iniciado. Para o estudo,
foram utilizadas oito ratas adultas (Rattus norvegicus albinus),
de aproximadamente três meses de idade, e peso médio de
195 gramas, sendo estas fornecidas pelo Centro de Desenvolvimento de Modelos de Experimentação (CEDEME) da
Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e mantidas
no Biotério da Disciplina de Histologia e Biologia Estrutural
em condição de confinamento em gaiolas plásticas medindo
45 x 35 x 15 cm, respectivamente, de comprimento, largura
e altura, com tampa gradeada de metal, com alimentação e
água ad libitum, em temperatura ambientes de 22 ºC, iluminação artificial com lâmpadas fluorescentes (modelo luz do
dia de 40W, Phillips) mantendo-se fotoperíodo claro de 12
horas intercalado com escuro de 12 horas, considerando-se
o período de luz das 7:00 às 19:00 horas. Os animais foram
divididos em dois grupos, alocados em duas gaiolas plásticas
diferentes, com quatro animais cada, de modo que o grupo
I (GI) foi utilizado como controle e o grupo II (GII) foi
submetido à EENM.
Protocolo de aplicação da EENM
Após anestesia na região peritoneal e tricotomia da região
posterior da pata esquerda, os animais foram imobilizados em
decúbito ventral, de modo a permitir movimentação livre da
articulação talocrural esquerda no momento da EENM. Dois
eletrodos, de 1 cm² cada, com gel condutor (CARCI) foram
acoplados à pele dos animais, sendo um eletrodo próximo à
inserção distal do músculo gastrocnêmio e o outro no ponto
motor do referido músculo, próximo a sua inserção proximal. A EENM foi realizada através do aparelho FESMED
II (CARCI), com pulso bifásico assimétrico, parametrizado
em frequência de 50 Hz, ciclo ON-OFF na proporção de
1/1 e rampa de subida de trens de pulso de 2,2 segundos. A
intensidade aplicada foi de, aproximadamente, 0,5 mA. O
experimento teve duração de oito semanas, de modo que as
intervenções com EENM ocorreram três vezes por semana em
dias não consecutivos. Em cada intervenção foram induzidas
eletricamente 20 contrações musculares. Este protocolo foi
adaptado de Camargo et al. [8].
Processamento do músculo gastrocnêmio para
histologia
Após oito semanas de experimento, os animais, sob efeito anestésico, foram sacrificados e o músculo gastrocnêmio
esquerdo foi retirado de cada animal. Estes músculos foram
fixados em formol a 10% por 12 horas, e em seguida desidra-
144
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
tados em concentrações crescentes de álcool etílico absoluto,
diafanizados pelo xilol e impregnados pela parafina líquida em
estufa com a temperatura em 60°C. A inclusão foi realizada
para que fosse possível observar, nas lâminas histológicas,
cortes transversais do músculo esquelético. Em seguida, os
blocos foram cortados em micrótomo do tipo Minot, ajustado
para 4 µm. Os cortes obtidos foram colocados em lâminas
previamente untadas com albumina de Mayer e, depois,
mantidas em estufa regulada à temperatura de 46°C, durante
24 horas, para secagem. As lâminas foram então submetidas
ao método de coloração pela hematoxilina e eosina (HE)
para posteriores análises morfológica e histomorfométrica
ao miscroscópio de luz (modelo Axiolab Standart 20, Carl
Zeiss), com aumento de 400x.
reticulares ao redor de cada célula muscular, camada esta
denominada como endomísio. As fibras musculares em
corte transversal apresentaram-se normais com sua forma
poligonal, multinucleada e núcleos periféricos (Figuras 1 e 2).
Porém, foi observada uma diferença entre a área das células
musculares dos grupos experimentais, de modo que as células
do GII apresentaram maior área, sugerindo uma hipertrofia
muscular (Figura 2).
Figura 1 - Fotomicrografia do tecido muscular esquelético de rata
do grupo controle (400x).
Protocolo para análise histomorfométrica
A análise histomorfométrica foi realizada por meio de um
microscópio de luz (Axiolab Standart 20, Carl Zeiss) acoplado
a uma câmera de vídeo colorida (modelo Hyper Had SSC-DC 54, Sony) que transmite a imagem para um computador,
dotado de um software de análise gráfica (Imagelab, Softium)
instalado em sistema operacional Windows XP.
Foi utilizado um campo representativo de toda região do
tecido muscular esquelético para o estudo das lâminas e, em
seguida, foi mensurada a circunferência em µm² de cada fibra
muscular para posterior análise estatística.
Análise estatística
Figura 2 - Fotomicrografia do tecido muscular esquelético de rata
submetida à EENM (400x).
Após o cálculo da média do total de mensurações da
circunferência das fibras musculares das ratas do grupo I
e grupo II, verificou-se a significância estatística entre os
valores das mensurações dos grupos experimentais pelo teste
T-student não pareado, com valor de significância estipulado
em p < 0,05.
Resultados
Análise macroscópica do músculo gastrocnêmio
Após a observação macroscópica do músculo gastrocnêmio
notou-se que não houve alteração significante na morfologia
macroscópica básica em todos os grupos, ou seja, o músculo
encontrou-se ligado a estruturas ósseas através dos tendões,
contínuos com o tecido conjuntivo que o reveste, o epimísio.
Análise morfológica
Microscopicamente, o tecido muscular dos dois grupos
experimentais apresentou epimísio visível, com essa camada
de tecido conjuntivo penetrando o músculo e circundando
os feixes de fibras musculares, formando o perimísio, que,
finalmente dividiu-se em uma camada delicada de fibras
Análise histomorfométrica
A média das circunferências das fibras musculares apresentou-se maior no GII em relação ao GI, sendo que a média do
GII foi de 1876,1 ± 33,98 µm² e a média do GI foi de 1516,6
± 318,1 µm². Conforme análise pelo teste T-student, nota-se
que o GII obteve aumento estatisticamente significativo no
diâmetro das fibras musculares quando comparado ao GI (P
< 0,001) (Tabela I).
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
Tabela I - Médias e desvio padrão da histomorfometria do tecido
muscular esquelético.
Histomorfometria do
tecido muscular
Grupos experimentais
µm²
P
Controle (GI)
1516,6 ± 318,1
<0,001
EENM (GII)
1876,1 ± 33,98
Discussão
A utilização de EENM vem sendo amplamente difundida
na clínica fisioterápica quando se tem por objetivo o fortalecimento e hipertrofia muscular. Porém, muitos clínicos
são céticos em relação ao uso da EENM devido à falta de
evidências de que a eficiência deste recurso seja superior ao
treinamento voluntário e pela escassez de conhecimento sobre
a fisiologia e metodologia de uso deste recurso. Geralmente,
os parâmetros da EENM são definidos de forma empírica, sobrepondo a experiência pessoal sobre as evidências científicas
[1]. Por virtude disso, os estudos das ciências básicas de saúde
são extremamente essenciais para a aplicação da eletroterapia.
Em nosso estudo, as células musculares esqueléticas eletroestimuladas apresentaram padrão morfológico normal, sem
nenhuma alteração compatível com indícios patológicos. Tal
resultado é de extrema importância para a base da aplicação
da estimulação elétrica neuromuscular, no intuito de provar
que o recurso não é prejudicial ao tecido muscular. Porém,
a literatura apresenta escassez de estudos que visam analisar
a morfologia do tecido muscular esquelético submetido à
EENM em seus diversos protocolos de aplicação, de modo
que pesquisas nesse sentido seriam úteis para melhorar o
embasamento histofisiológico para a utilização deste recurso
eletroterápico.
Segundo Bax et al. [11], em sua revisão sistemática, a
maioria dos estudos com EENM são realizados em músculos sadios. Mas em relação a histomorfometria muscular, a
literatura apresenta maior parte de seus estudos de EENM
concentrados em músculos acometidos pelo enfraquecimento
ocasionado pela imobilidade [12-14].
No presente trabalho, a aplicação de EENM no músculo
gastrocnêmio, com o protocolo adaptado de Camargo et al.
[8], promoveu aumento significativo da circunferência das
células musculares esqueléticas. Este resultado corroborou
os achados do estudo de Durigan et al. [15], no qual houve
aumento significativo da circunferência das células musculares
eletroestimuladas, de forma que a EENM foi aplicada por
quinze dias no músculo sóleo sadio de ratos.
Para este estudo, foram utilizados animais do gênero
feminino, sendo que isso pode interferir no resultado da
hipertrofia, já que Celichowki e Drzymala [16] relatam que
a contração e o tempo de relaxamento são significantemente
maiores nas unidades motoras dos ratos do que nas ratas, o
que leva à diferença no tamanho do músculo.
145
Conclusão
Conclui-se que o tratamento com a EENM por 8 semanas,
com o protocolo utilizado neste trabalho, é eficiente na indução da hipertrofia das fibras musculares esqueléticas em ratas.
Referências
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146
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
ARTIGO ORIGINAL
Avaliação da propriocepção ativa em adultos
com lesão de ligamento cruzado anterior
Active proprioception evaluation in adults
with anterior cruciate ligament injury
Gladson Ricardo Flor Bertolini, D.Sc.*, Fernando Amâncio Aragão, D.Sc.*, Carlos Eduardo de Albuquerque, M.Sc.*,
Marcella Ferraz Pazzinatto, Ft.**, Carolina Silva Flóride**, Rogério Fonseca Vituri***
*Docente da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), **UNIOESTE,
***Médico ortopedista, docente da UNIOESTE
Resumo
Abstract
Palavras-chave: ligamento cruzado anterior, propriocepção,
movimento, joelho.
Key-words: anterior cruciate ligament, proprioception, motion,
knee.
O objetivo deste estudo foi avaliar o senso de posição articular
ativo em joelhos com lesão parcial do ligamento cruzado anterior
(LCA) nas posições 30º e 45º. Foram avaliados 13 voluntários (homens 34 ± 5 anos), com lesão de LCA unilateral, superior a 6 meses.
A acuidade proprioceptiva foi avaliada pelo teste de senso de posição
articular. Para realizar a avaliação, duas variações angulares foram
previamente definidas: 30° e 45° de flexão. Em sequência, uma dessas
posições angulares foi demonstrada ao atleta em movimento passivo.
O teste ativo foi realizado para os 30º e 45º e, para cada ângulo,
três execuções foram realizadas (AV1, AV2 e AV3). Na análise dos
erros encontrados, associados à ordem dos testes, em cada ângulo
avaliado (30º e 45º), observou-se apenas diferença em AV3 (p =
0,0434). A média do erro encontrada em todos os testes foi 6,90º
± 4,36º e 9,85º ± 6,54º, 30º e 45º respectivamente, com diferença
significativa (p = 0,0133). As avaliações do senso de posição articular
em 30º de flexão do joelho comportaram-se homogêneas, enquanto
as ocorridas em 45º apontaram aumentos significativos da 2ª e 3ª
comparadas com a primeira avaliação. Além disso, as avaliações em
45º apresentaram maior erro do que aquelas em 30º.
The aim of this study was to evaluate the active joint position
sense in knees with partial anterior cruciate ligament (ACL) injury
in the joint positions 30º and 45º. Thirteen volunteers (men 34 ±
5 years old) with unilateral ACL injury for more than 6 months
were evaluated. Proprioceptive acuity was assessed by testing joint
position sense. In order to perform the evaluation, 2 angular variations were previously defined: flexion 30° and 45°. Subsequently,
one of those angular positions was shown to the athlete in passive
motion. The active test was performed for 30 and 45 and for each
angle, three implementations were performed (AV1, AV2 and AV3).
In the analysis of errors found, associated to the sequence of tests,
in each angle evaluated (30° and 45°), there was only difference in
AV3 (p = 0.0434). The average test error rate in all tests was 6.90 to
4.36° ± 9.85° and ± 6.54°, 30 and 45 respectively, with significant
difference (p = 0.0133). Assessments of joint position sense in 30
degrees of knee flexion behaved homogeneous, whereas those that
arose in the 45° showed significant increases in the second and third
assessment compared to the first one. In addition, error rates at 45°
were higher than those at 30°.
Recebido em 6 de junho de 2012; aceito em 25 de setembro de 2012.
Endereço para correspondência: Gladson Ricardo Flor Bertolini, Rua Universitária, 2069, 85819-110 Cascavel PR, E-mail: gladson_
[email protected]
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
Introdução
A arquitetura óssea do joelho propicia pouca estabilidade à articulação devido à incongruência condilar.
Embora os meniscos melhorem a congruência, a estabilidade é mínima considerando as grandes cargas através da
articulação. Os ligamentos do joelho guiam os segmentos
durante o movimento e são os constritores primários do
joelho. O recrutamento varia dependendo do ângulo e
plano de movimento no qual o joelho é sobrecarregado.
Na maioria das vezes há vários ligamentos contribuindo
sinergicamente para a estabilidade, embora um deles sofra
maior carga. Como atividades agressivas, como parar ou
mudar de direção rapidamente, frequentemente excedem
a força material dos ligamentos, estabilização adicional é
necessária para manter a integridade do joelho, ou seja,
para que os ligamentos mantenham-se seguros. Forças
compressivas, resultantes de descarga de peso aplicadas pela
atividade muscular, proveem tal estabilização, sendo estas
partes da estabilidade dinâmica que podem ser utilizadas
em intervenções terapêuticas [1].
O joelho é a articulação mais acometida por lesões, e
sérios danos aos ligamentos são frequentes [2], sendo o
ligamento cruzado anterior (LCA) responsável por 50%
das lesões ligamentares no joelho [3]. Indivíduos com LCA
insuficientes apresentam grandes variações de instabilidade
e o problema não tem correlação com a variação da lassidão ligamentar. Estudos têm demonstrado diminuição
da propriocepção em variáveis graus após lesão de LCA,
sendo, por isso, alvo da reabilitação a melhora e otimização
do controle sensoriomotor, para obter a maior amplitude
de movimento possível para cargas dentro de uma faixa
homeostática [4]. Segundo Cooper et al. [5] há evidências
que a lesão do LCA pode levar a déficits proprioceptivos.
Assim, o aumento do controle neuromuscular do joelho
após lesão de LCA ou reconstrução pode direcionar a
melhores resultados em termos de retorno às atividades
funcionais e reduzir a taxa de nova lesão [6]. Contudo,
apesar dos relatos de alterações proprioceptivas após lesão
do LCA, Good et al. [7] avaliando o senso de posição do
joelho após lesão, unilateral, do LCA, não observaram
diferenças significativas.
Vários testes de propriocepção consciente de joelhos,
em humanos, têm sido descritos, nos diferentes planos
de movimento [4,8-10], mas não há consenso ou padrão
de referência estabelecido. Dificuldades continuam na
separação da informação originada no músculo, tendão e
articulações, e os testes não podem discriminar entre perda
de sinais aferentes ou atividade alterada nos receptores
restantes. A importância clínica de informação aferente
alterada não tem sido avaliada adequadamente, e o papel da
propriocepção que contribui para a função ainda tem que
ser investigado, sendo o teste de reposicionamento ativo
uma das opções para avaliação do movimento no plano
147
sagital [4], alude-se que tal tipo de avaliação é importante
até mesmo para retorno a atividades esportivas [8]. Ainda,
em ambiente laboratorial, análise cinemática e cinética são
importantes ferramentas de avaliação [1]. Tais ferramentas
se tornam importantes na avaliação comparativa de ângulos
no senso de posicionamento, assim, o presente estudo teve
como objetivo avaliar o senso de posição articular ativo
em joelhos com lesão parcial do LCA nas duas posições
articulares 30º e 45º.
Material e métodos
O estudo foi realizado com 13 voluntários, com lesão
de LCA unilateral, há mais de 6 meses. Eram todos do gênero masculino, com idade de 34 ± 5 anos, sem outra lesão
recente no membro inferior há pelo menos 2 meses, sem
realização de tratamento fisioterapêutico conservador. O
protocolo de pesquisa foi aprovado pelo comitê de ética em
pesquisas com seres humanos da Fundação Assis Gurgaz,
Cascavel/PR, os voluntários assinaram termo de consentimento livre e esclarecido antes de realizar as avaliações.
A acuidade proprioceptiva foi avaliada pelo teste de
senso de posição articular. Os procedimentos dos testes,
utilizados em estudos anteriores [11,12], foram adaptados para o uso da cinemetria na determinação do ângulo
articular.
Os testes aconteceram em ambiente preparado para coletas
de filmagem, em plano bidimensional, e foi utilizada uma
câmera de vídeo (Panasonic NV GS180 3CCD) de 60 Hz
desentrelaçado, conectada ao software VirtualDub 1.8.8 (build
30091/release). A câmera foi posicionada a uma distância
que permitiu o enquadramento completo do movimento de
flexo-extensão. Cada participante trajou apenas calção preto,
cedido pelos pesquisadores.
Inicialmente o voluntário permaneceu sentado em uma
mesa, de forma que seus pés se moviam livremente, e 3
marcadores de fita reflexiva de 1,0 cm de diâmetro foram
fixados no trocânter maior do fêmur, côndilo lateral do fêmur e maléolo lateral. Uma pequena almofada foi colocada
sob a fossa poplítea para o posicionamento adequado para o
teste. As variações angulares foram verificadas por flexímetro
(Sammy®) ajustado na região do tornozelo. Após o preparo
do voluntário e equipamentos, o mesmo foi orientado sobre
a execução do teste e manutenção da postura adequada. Durante o teste o sujeito permaneceu vendado para remover as
informações visuais.
Para realizar a avaliação, duas variações angulares foram
previamente definidas: 30° e 45° de flexão. Em sequência,
uma dessas posições angulares foi demonstrada ao atleta
em movimento passivo, para familiarização com o ângulo
a ser reproduzido. Foi solicitada então a reprodução do
ângulo, sendo que o voluntário interrompeu o teste quando
percebeu que atingiu o ângulo alvo e, neste momento, o
sinalizador luminoso foi acionado e somente desligado
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
quando o membro testado estivesse na posição inicial e
relaxado. O teste foi realizado para os dois ângulos pré-estabelecidos e, para cada ângulo, três execuções foram
realizadas (AV1, AV2 e AV3).
Durante os testes, os examinados receberam estímulos
verbais para se concentrarem na posição da articulação do
joelho e, assim, evitar que o tempo gasto no movimento
servisse de estratégia para o reposicionamento.
Terminada a coleta, os vídeos foram salvos e armazenados em um computador. Cada vídeo, então, foi dissociado em quadros (frames) e os quadros correspondentes
ao início do teste e ao momento em que o sinalizador
luminoso foi acionado, tanto no procedimento de familiarização quanto na reprodução do ângulo, foram
editados no software Image J v.1.44 (NIH, USA) e para
identificar o ângulo de início e o ângulo alcançado pelo
movimento, respectivamente.
O valor utilizado para o tratamento estatístico foi a
diferença, em valores absolutos, entre o ângulo obtido no
momento da familiarização e o ângulo reproduzido pelo
examinado. Tal diferença foi definida como “valor de erro”.
E a análise estatística consistiu, após a verificação da normalidade dos dados pelo teste de D’Agostino e Pearson, pela
comparação entre os momentos de avaliação com ANOVA
medidas repetidas, e na comparação entre os ângulos do teste t
de Student pareado, em todos os casos o nível de significância
foi 5% (GraphPad 5.0).
Resultados
Foi possível observar que para 30º não houve diferenças significativas entre as avaliações (p > 0,05) (Figura 1).
Contudo, a avaliação em 45º mostrou diferenças significativas ao comparar AV1 com AV2 e com AV3 (p < 0,05)
(Figura 2).
Figura 1 - Representação gráfica dos valores obtidos na análise do
erro de posicionamento em 30 graus de flexão de joelho.
Erros absolutos (graus)
20
15
10
5
0
AV1 30
AV2 30
AV3 30
Figura 2 - Representação gráfica dos valores obtidos na análise do
erro de posicionamento em 45 graus de flexão de joelho. * Diferença
estatisticamente significativa ao comparar com AV1.
25
Erros absolutos (graus)
148
*
*
20
15
10
5
0
AV1 45
AV2 45
AV3 45
Na análise dos erros encontrados, associado à ordem dos
testes (AV1, AV2 e AV3), para cada ângulo avaliado (30º e
45º), observou-se apenas diferença em AV3 (p = 0,0434). A
média do erro encontrada em todos os testes para foi 6,90º
± 4,36º e 9,85º ± 6,54º, 30º e 45º respectivamente, com
diferença significativa (p = 0,0133).
Discussão
A propriocepção é geralmente dividida em 2 elementos:
senso de posição articular e senso do movimento do membro
ou cinestesia [2]. Assim, no presente estudo buscou-se avaliar
o erro de posicionamento ativo articular, em 2 ângulos pré-definidos e ensinados aos voluntários baseado no senso de
posição articular.
Visto que a propriocepção tem uma relação direta com a
função subjetiva do joelho, por isso indivíduos com deficiência
de LCA parecem ter maiores déficits funcionais e proprioceptivos do que indivíduos assintomáticos [4]. O presente estudo
não teve como objetivo comparar os indivíduos com lesão,
com aqueles com ruptura parcial de LCA, mas, embasados na
literatura, observar se havia diferença ao longo das repetições
de testes de reposicionamento, bem como as diferenças em
2 ângulos de avaliação, visto que ainda segundo Fridén et al.
[4] há uma maior sensibilidade fisiológica para detectar um
movimento articular passivo próximo da extensão completa,
o que pode proteger a articulação devido a proximidade do
limite de movimento articular. Tal fato foi realmente encontrado no presente estudo, pois os erros absolutos em 30º foram
menores do que aqueles encontrados em 45º, o que também
ocorreu ao comparar os 2 ângulos para AV3.
Embora a lesão do LCA produza ruptura de mecanorreceptores locais, a ativação compensatória de outros sensores
no joelho pode produzir ativação compensatória muscular,
ajudando na estabilização [5], pois receptores, como os corpúsculos de Ruffini e Paccini, órgãos tendinosos de Golgi e
terminações nervosas livres têm sido também identificadas no
menisco medial, em suas camadas externa e média [4]. Estes
modelos compensatórios neuromusculares podem ser desen-
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
volvidos e aumentados utilizando tratamentos que incorporem atividades desestabilizantes [5]. Tanto que o tratamento
conservador em indivíduos com lesão de LCA, com ênfase no
trabalho proprioceptivo, apresenta bons resultados em curto
e médio prazo na função do joelho [13]. Além disso, o papel
primário dos mecanorreceptores é sinalizar o final da ADM,
facilitando reflexos protetores que previnem a articulação de
ser movida além de seus limites [1]. Ressalta-se que os voluntários da pesquisa não realizaram tratamento conservador,
porém, apresentavam lesão há pelo menos 6 meses, o que
pode ter contribuído para as pequenas diferenças observadas
em 45º e a não ocorrência em 30º.
Hiemstra et al. [2] sugerem que a fadiga muscular pode
induzir a um controle neuromuscular alterado no membro
inferior, com alteração subsequente na capacidade de estabilização dinâmica do joelho. Deve-se levar em consideração
que, neste estudo, as 3 repetições da avaliação não tinham
como finalidade produzir fadiga muscular, mas, sim, analisar
se poderia ou não haver alguma característica de aprendizado
da técnica, ou se a primeira repetição, ocorrida logo após o
ensino da posição articular, poderia influenciar no erro absoluto da medida angular.
Como há indícios que o joelho contralateral, de indivíduos
com lesão de LCA unilateral, pode não servir como controle
confiável [4], neste estudo buscou-se avaliar apenas o membro
lesado, descartando a avaliação cinestésica do lado não lesado.
Contudo, salienta-se como limitação deste estudo a ausência
de um grupo controle, formado por indivíduos sem lesão de
LCA, que se sugere para futuros estudos.
Conclusão
As avaliações do senso de posição articular em 30º de
flexão do joelho comportaram-se homogêneas, enquanto as
ocorridas em 45º apontaram aumentos significativos da 2ª e
3ª comparadas com a primeira avaliação. Além disso, as avaliações em 45º apresentaram maior erro do que aquelas em 30º.
149
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150
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
ARTIGO ORIGINAL
Relação entre desempenho funcional
e lesões no basquetebol
Relationship between functional performance
and injury in basketball
Mauricio Pires de Moraes, Ft.*, Marcos Maurício Serra, Ft.**, Angelica Castilho Alonso, Ft., D.Sc.***
*Profissional da Educação Física, preparador físico de equipes de Basquetebol, **Profissional da Educação Física, mestrando em
ciências da saúde pela FMUSP, ***Profissional de Educação Física, Pesquisadora do Laboratório do Estudo do Movimento (LEM.
IOT.HC.FMUSP)
Resumo
O basquetebol é uma modalidade esportiva que envolve diversas variáveis como força, flexibilidade, agilidade e mudança de
direção, por este motivo tem uma grande incidência de lesões. O
objetivo deste trabalho foi correlacionar os testes funcionais com
lesões no basquetebol. Foram analisados 27 atletas com idades de
15 a 17 anos da categoria cadete de duas equipes por um período
de 2 meses durante o campeonato paulista de basquete em 2011.
Foram submetidos a avaliações de massa corporal, estatura, agilidade,
flexibilidade, força e equilíbrio. Ocorreu um total de 10 (37,03%)
lesões entre os atletas que participaram do trabalho. Estas lesões
ocorreram em sua maioria no período em que estavam em jogo,
7 atletas (70%), e 3 (30%) em treinamento, com prevalência de
90% na região do tornozelo e 10% na região do joelho, sendo que,
58,33% foram lesões recidivas. Em relação aos testes realizados não
houve correlação entre os valores obtidos e as lesões encontradas,
porém observamos que alguns dados deram relação negativa, ou
seja, quanto menor o valor do teste maior a probabilidade de lesões.
Abstract
The basketball is a sport modality which involves different variables such as force, flexibility, agility and change of direction, for
this reason basketball has high incidence of injuries. The purpose of
this paper was to relate these functional tests with basketball injuries.
Twenty seven athletes, 15 to 17 years old, on cadet category, from 2
teams, were analyzed for 2 months during the Paulista championship
in 2011. They underwent evaluations of body mass, height, agility,
flexibility, strength and balance. We found 10 (37.03%) injuries
among analyzed athletes. The highest rates of injuries happened
during the game in 7 athletes (70%), and during training in 3
(30%), 90% were on ankle area, and 10% on knee area, 58.33% had
recurrence of injury. In relation to the tests, there was no correlation
between the values obtained and the injuries found, however, we
noticed that some data showed negative result; in other words, the
lowest value of test the higher probability of injuries.
Key-words: ankle, functional, basketball.
Palavras-chave: tornozelo, funcional, basquete.
Recebido em 26 de julho de 2012; aceito em 27 de setembro de 2012.
Endereço para correspondência: Angelica Castilho Alonso, Rua Aquiráz, 156, 03654-040 São Paulo SP, E-mail: [email protected]
msn.com, [email protected]
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
Introdução
O basquetebol possui como características solicitações físicas
técnicas e táticas com esforços breves e intensos, realizados em
diferentes ritmos, um conjunto de saídas rápidas, paradas bruscas,
saltos, giros, fintas, passes, dribles e arremessos, todos os movimentos coordenados em situação de ataque-defesa. A demanda
típica desse esporte exige esforços máximos à custa de treinamento regular e intensivo. Dessa forma, o alto nível das equipes,
que participam das competições em conjunto com as exigências
dos treinamentos e a disputa acirrada entre os clubes, predispõe
os atletas jovens a determinados tipos de lesões esportivas [1,2].
Pfeifer et al. [3] realizaram um estudo sobre lesões esportivas no basquetebol por um período de cinco anos. Durante
esse período foram realizados 658 tratamentos médicos de
lesões no basquetebol. As principais lesões foram às entorses
(40,7%), rupturas ligamentar (24,6%) e fraturas (9,3%).
Em outro estudo realizado por Silva et al. [4], que analisou 66 atletas de basquetebol feminino em uma temporada,
foram registradas 78 lesões, em 47 (71, 2%) atletas 2,6 lesões
por atleta, as entorses de tornozelo e lesões no joelho foram
o diagnóstico de maior incidência.
Alonso et al. [5] afirmam que os esportes promovem a
especialização dos atletas para desempenhar as funções táticas
específicas e a solicitação muscular é seletiva, isto é, alguns
grupos musculares são mais exercitados que outros, podendo
gerar desequilíbrios entre o membro dominante e não dominante e/ou entre grupos musculares agonistas/antagonistas do
mesmo membro. O desequilíbrio das forças que agem sobre
as articulações pode causar alterações posturais ou da biomecânica articular e predispor a lesões ou baixo desempenho.
O esporte de alto rendimento atual torna-se cada dia mais competitivo, exigindo das equipes ótimos resultados nas competições.
Neste contexto é de extrema importância a avaliação das valências
físicas dos atletas para adequar o treinamento o mais próximo da
realidade, estrutura da equipe, das competições que irá disputar,
respeitando o princípio da individualidade com base nos fatores
físicos para alcançar o nível mais satisfatório de performance [6].
Como em todas as capacidades físicas, encontramos testes
que auxiliam diretamente na prescrição de exercícios específicos e necessitamos deles para saber até que ponto nosso
treinamento está causando adaptação em nossos atletas, porém
não encontramos na literatura a correlação entre o desempenho destes testes com a incidência de lesões.
O objetivo deste estudo é relacionar os testes de desempenho funcional com as lesões numa temporada. Verificar o local
de maior incidência de lesões em um período na temporada e
verificar o momento em que ocorreu maior número de lesões:
treinamento ou jogo.
151
avaliados 27 atletas de basquetebol masculino da categoria
Cadete das equipes de Esporte Clube Cidade de Poá, Clube
Atlético Indiano com idade entre 15 e 17 anos, os atletas
foram convidados a participar do estudo voluntariamente, os
quais concordaram em participar da pesquisa e preencheram
os critérios de inclusão.
Os critérios de inclusão foram: ler e assinar o termo de
consentimento livre e esclarecido, ser do gênero masculino,
ter entre 15 e 17 anos de idade, ter ausência de cirurgias de
membros inferiores, serem jogadores de Basquetebol federados pela Federação Paulista de Basquetebol ou Liga Paulista
de Basquetebol, treinarem basquete há no mínimo 03 anos.
O critério de exclusão foi não conseguirem realizar o teste.
Avaliação
Inicialmente realizamos uma avaliação clínica da qual
constavam dados pessoais, dados antropométricos, dados de
composição corporal e questionário sobre histórico de lesões.
Em seguida foram realizadas as avaliações funcionais com os
testes de salto vertical: potência muscular e força explosiva dos
membros inferiores; teste de alcance funcional (SEBT) - o qual
avalia a habilidade do indivíduo de manter o equilíbrio corporal enquanto realiza tentativas de alcançar a maior distância
possível com o membro contralateral em direções específicas
(figura 1) [7]; teste de salto horizontal - força explosiva dos
membros inferiores; teste de agilidade (teste Illinois) e teste
de flexibilidade - sentar e alcançar.
Figura 1 - Teste do Star Excursion Balance Test – SEBT.
Apoio no membro inferior esquerdo
Anterior
Anterolateral
Anteromedial
Lateral
Medial
Posterolateral
Posteromedial
Posterior
Apoio no membro inferior direito
Anterior
Anteromedial
Anterolateral
Medial
Lateral
Material e métodos
Trata-se de um estudo transversal, desenvolvido no Esporte Clube Cidade de Poá, Clube Atlético Indiano. Foram
Posteromedial
Posterolateral
Posterior
152
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
Análise estatística
Tabela II - Correlação entre equilíbrio e testes funcionais.
Testes
Os dados foram armazenados e analisados no programa
SPSS 17.0. Foi realizada análise descritiva da amostra estudada
por meio de tabelas.
Sendo utilizado o teste de Komogorov-Smirnov para
classificar as variáveis contínuas em paramétricas e não
paramétricas e em seguida utilizado o teste de correlação
de Sperman.
Resultados
Os 27 atletas de basquetebol avaliados tinham em média
16,3 (0,62) anos, estatura média de 1,79 (0,069) m e massa
corporal média de 72,4 (9,96) kg. O tempo médio de prática de 3,44 (0,51) anos, uma frequência de dois treinos por
semana e jogavam duas vezes por semana.
Em relação à lesão precedente ao trabalho, 12
(44,44%) apresentaram lesões anteriores, sendo que
50% ocorreram no treino e 50% em jogo, entre estes, 10 (83,33%) procuraram atendimento médico e
sete (58,33%) realizaram fisioterapia. Sendo que sete
(58,33%) foram lesões recidivas.
Durante o período da pesquisa de dois meses, 10
(37,03%) tiveram lesão durante o período do acompanhamento da pesquisa, sendo que a maior incidência das
lesões ocorreu em jogo com sete (70%) e três (30%) em
treinamento. Dentre as lesões ocorridas a entorse de tornozelo teve maior prevalência com nove (90%) e o entorse de
joelho um (10%).
Em relação ao teste de equilíbrio não houve correlação
entre os valores do SEBT e os indivíduos lesionados, porém
observamos que alguns dados deram relação negativa, ou seja,
quanto menor o valor do teste maior o número de indivíduos
lesionados (Tabela I).
Tabela I - Correlação entre equilíbrio (avaliado pelo SEBT) e
indivíduos lesionados.
Posicionamento SEBT
Anterior
Anterior medial
Medial
Póstero medial
Posterior
Póstero lateral
Lateral
Antero lateral
r
-0,208
-0,254
-0,200
0,134
0,144
0,038
0,221
0,254
P
0,296
0,199
0,313
0,502
0,472
0,847
0,265
0,200
Sperman p ≤ 0,05
Também não houve correlação entre os valores dos testes
funcionais e indivíduos lesionados, porém observamos que
os dados deram relação negativa, ou seja, quanto menor o
valor do teste maior o número de indivíduos lesionados
(Tabela II).
Agilidade
Salto vertical
Salto horizontal
Flexibilidade
r
-0,195
-0,090
-0,210
-0,072
P
0,325
0,651
0,291
0,718
Sperman p ≤ 0,05
Discussão
Em todas as equipes amadoras ou profissionais, os testes
funcionais são práticas comuns e são realizadas no início da
temporada a fim de observar as condições físicas dos atletas
e trazer subsídios para que o preparador físico possa priorizar
certas necessidades dos atletas.
Embora possamos supor que se um atleta apresenta resultados ruins nos testes existe uma possibilidade maior de
lesões, não encontramos tais relações na literatura. Talvez
porque estes testes em geral sejam realizados pelo profissional
da educação física que visa o rendimento, e o fisioterapeuta
tem uma atuação dentro dos clubes mais “curativa” e não
preventiva. A inter-relação entre estes profissionais poderia
gerar um trabalho preventivo mais efetivo.
Mckeon e Hertel [8] já afirmavam que os instrumentos
de medidas de avaliação do controle postural devem ser
utilizados de maneira que possam identificar o risco de lesão
como entorse de tornozelo, e por meio destes tentar evitar
que as lesões ocorram.
O basquetebol foi o esporte escolhido por ser uma modalidade esportiva que apresenta todos os movimentos básicos
de um esporte de alto risco com saltos, aterrissagens, corridas,
mudanças de direção, desaceleração e que possui muitas variações de velocidade, equilíbrio, força, agilidade e flexibilidade o
que nos motivou a realizar testes que utilizem estas variáveis.
A categoria cadete entre 15 e 17 anos foi estudada devido
ser uma idade precoce e que em estudos anteriores [9] já
demonstraram uma alta incidência de lesões.
Dos 27 atletas avaliados nesta pesquisa, 10 (37,03%)
sofreram algum tipo de lesão durante o período do estudo,
caracterizando um alto índice para um curto prazo, e este
resultado é semelhante ao trabalho de Silva et al. [4].
Em relação à lesão houve prevalência de entorse de tornozelo, com 90% dos atletas seguido de joelho 10%, dados que
corroboram os estudos de Rose et al. [10] no qual ocorreram
274 lesões, 150 (54,7%) foram no tornozelo e 95 (34,6%) no
joelho, no de Mello e Parada [11] em que o segmento mais
lesionado foi o tornozelo com 31% e o joelho com 27% dos
casos de lesões registradas e o de Gantus e Assunção [12] que
analisou 59 atletas de basquetebol e relatou 455 lesões e a mais
frequente foi entorse de tornozelo com 10.8%.
Em estudo realizado por Cesar et al. [13] os domínios da
capacidade funcional todos os atletas apresentaram uma alta
porcentagem de lesões atraumáticas durante a competição,
corroborando os resultados encontrados no presente estudo.
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
O período em que ocorreu maior lesão foi no jogo (70%)
diferente do estudo de Gantus e Assunção [12], no qual a
maior incidência foi nos treinos. Estes dados podem estar
relacionados por ser início de temporada, quando os atletas
não estão totalmente preparados para a competição e os treinamentos visam mais a preparação física e não o desempenho
no jogo.
Com a participação de jovens em esportes competitivos
há um aumento considerável das ocorrências de lesões traumáticas e não traumáticas no basquetebol.
Quando há serviço médico e fisioterapêutico no clube,
os atletas procuram atendimento para tratamento de lesões
ocorridas durante os treinamentos ou jogos. Estudo realizado
por Arena e Carazzato [14] verificou a relação entre as lesões e
a presença de médicos e fisioterapeutas no clube e observou-se
que os atletas adolescentes não procuram atendimento quando
sofrem lesões de baixa gravidade.
Neste estudo em relação às lesões precedentes foi observado que 58,33% foram recidivas, sendo que 83,33%
procuraram atendimento médico e 58,33% atendimento
fisioterapêutico, isto se deve ao fato de as equipes estudadas
terem médicos e fisioterapeutas.
De acordo com estudo de Soares e Sandoval [15], a fisioterapia quando acionada teve 80% de aprovação mostrando o
custo benefício da abordagem fisioterapêutica em uma equipe
não visando tão somente o tratamento, mas sim também o
trabalho preventivo para diminuir o índice de lesão.
No presente estudo não houve correlação entre os resultados do teste de agilidade e o índice de lesão. Não encontramos
na literatura tais comparações.
O equilíbrio é uma valência física essencial para o basquetebol, desta maneira um déficit encontrado nesta variável
poderia sugerir que o indivíduo pudesse estar mais suscetível
a lesão, porém não foi encontrada nenhuma relação com
lesões neste estudo, sendo que Karloh et al. [16] observaram
que cada esporte requer diferentes níveis de processamento
sensório-motor para executar os gestos esportivos específicos
e proteger o sistema musculoesquelético, um déficit neste
sistema pode levar a lesões.
A flexibilidade não apresentou correlação com as lesões,
diferente dos dados encontrados por Santos et al. [17] que a
diminuição da flexibilidade foi um fator que contribui para
o aumento de lesões.
Conclusão
Não houve correlação entre os testes funcionais e a incidência de lesões em atletas de basquetebol. O local de maior
incidência de lesões foi o tornozelo e o momento em que
ocorreu maior número de lesões foi no jogo.
153
Referências
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XII Congresso Brasileiro de Biomecânica, Rio Claro; 2007.
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estudo com atletas do basquetebol brasileiro. Revista Digital
EFDeportes 2006;10(94).
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sistema locomotor em atletas de basquetebol. Acta Fisiátrica
2002;9(2):77-84.
13. Cesar GM. Cross- sectional study of the quality of life and
function disability report in young basketball athletes- a pilot
study. Rev Conscientia e Saúde 2010;9(2):206-211.
14. Arena SS, Carazzato JG. A relação entre o acompanhamento
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São Paulo. Rev Bras Med Esporte 2007;13(4):217-21.
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Revista Digital EFdeporte 2010;15(146).
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equilíbrio dinâmico em atletas de ginástica rítmica. Revista
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Rev Bras Cineantropom Desenpenho Hum 2001;3(1):42-54.
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
154
REVISÃO
Análise das diferenças entre corredores africanos
e caucasianos de meio-fundo e fundo
Analysis of the differences between African and Caucasian middleand long-distance runners
José Augusto Rodrigues dos Santos, D.Sc.*, Tânia Amorim, M.Sc.*
*Universidade do Porto, Faculdade de Desporto, Departamento de Atletismo, Centro de Investigação, Formação, Inovação e
Intervenção em Desporto (CIFI2D), Portugal
Resumo
O êxito competitivo dos corredores de meio-fundo e fundo
provenientes do Leste de África tem sido motivo de muita especulação. Várias razões têm sido aduzidas para justificar a excelência
competitiva desses atletas, entre as quais se salientam um especial
traço genético favorável ao rendimento desportivo nas corridas de
duração e as condições ambientais específicas que potenciam esses
atletas desde o seu nascimento. Seleção genética versus determinismo
do envolvimento tem sido o tema recorrente para diversos estudos
que procuram a razão fundamental para o êxito desportivo dos corredores africanos de elite. Este estudo pretendeu fazer uma revisão
atualizada dos vários contributos que nos permitam fazer alguma luz
sobre os fatores eventualmente discriminadores entre os corredores
de meio-fundo e fundo africanos e caucasianos. Tentamos abordar
o êxito desportivo dos corredores Leste Africanos através de dois
tipos de enfoque: biológico (genético, antropométrico, fisiológico,
morfológico) e sócio ambiental (características do envolvimento,
perfil do treino e recuperação, nutrição, estilo de vida, perfil psicológico e emocional). Da análise dos vários estudos verificamos que
a genética não discrimina os corredores de meio-fundo e fundo
africanos dos seus pares caucasianos. Também os indicadores fisiológicos apresentam reduzida capacidade discriminativa. Parece
existirem traços antropométricos característicos dos corredores
negros – menor perímetro e maior comprimento da perna – que
podem corresponder a vantagens biomecânicas para a corrida, mas
que não suficientes, por si só, para justificar a excelência competitiva
dos corredores africanos de elite. Das condicionantes ambientais e
sociais, verifica-se que as características do envolvimento (altitude,
temperatura), a alimentação e o estilo de vida não são a razão das
diferenças verificadas no perfil competitivo dos corredores negros e
brancos. Diferenças no perfil de treino e recuperação bem como as
características psicológicas e emocionais dos corredores Africanos,
parecem poder justificar o domínio dos corredores negros Africanos de meio-fundo e fundo nas principais competições desportivas
internacionais.
Palavras-chave: corrida, genética, altitude, fisiologia,
antropometria, rendimento.
Recebido em 7 de fevereiro de 2012; aceito em 10 de julho de 2012.
Endereço para correspondência: José Augusto Rodrigues dos Santos, Rua Dr. Plácido Costa, 91, Departamento de Atletismo 4200450 Porto Portugal, E-mail: [email protected]
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
Abstract
The competitive success of the East African middle- and long-distance runners has been a source for much speculation. Several
reasons have been put forward to justify the competitive excellence
of these athletes, among which was emphasized a particular genetic
trait favourable to the success in endurance running events and the
specific environmental conditions that rises the physical potential
of these athletes from the beginning of their lives. Genetic selection
versus involvement determinism has been a recurring theme for
several studies that seek the fundamental reason for the competitive success of elite African runners. This study intended to make
an up-to-date review of the various contributions that allow us to
make some light on the possibly discriminating factors between
African and Caucasians middle- and long-distance runners. We try
to approach the sportive success of East African endurance runners
through 2 focuses: biological (genetics, anthropometrical, morphological, physiological) and socio-environmental (characteristics of
involvement, training and recovery profile, nutrition and lifestyle,
psychological and emotional profiles of the athletes). From the
Introdução
A performance competitiva no meio-fundo e fundo a
nível internacional tem sido dominada pelos atletas de origem
africana que arrecadam a maioria das medalhas nos principais
eventos desportivos a nível mundial.
Na realidade, a análise dos resultados nos Campeonatos do
Mundo e Jogos Olímpicos, nas últimas décadas, permite-nos
verificar a supremacia dos atletas Africanos no meio-fundo e
fundo, principalmente os provenientes do Leste Africano. Quenianos e etíopes apresentam uma supremacia notável em todas
as distâncias que medeiam entre os 800 metros e a maratona,
embora atletas provenientes de países vizinhos (e.g. Eritreia,
Tanzânia, etc.) também atinjam resultados de bom nível.
Tomando como referência a evolução performativa dos
corredores Quenianos nas várias provas de meio-fundo e fundo (800 m, 1.500 m, 5.000 m, 10.000 m e 3.000 m), entre
os anos de 1964 e 1994, verificamos um crescendo seguro na
afirmação competitiva deste país. Em 1964 tinham somente
dois atletas no Top-20 mundial, que passaram para onze em
1974, 10 em 1984 e 33 em 1994 [1].
Embora, hoje em dia, a elite Queniana esteja bem acompanhada por outros países africanos, em especial a Etiópia,
importa salientar que, até 1997, 75% dos êxitos dos corredores
Quenianos tinham como berço a tribo Kalenjin que corresponde somente a 10% da população do Quénia, ou seja, cerca
de 3 milhões de indivíduos. Os corredores dessa tribo, entre
1987 e 1997, ganharam 40% dos títulos nas principais provas
internacionais [2]. A Tabela I dá-nos uma imagem clara da
155
several studies analysed we state that genetics does not discriminate African endurance runners from their Caucasian peers. The
physiological indicators have also reduced discriminative capacity.
It seems that some anthropometrical traits are characteristic of the
black runners - lower leg perimeter and higher leg length – that can
assure some biomechanical advantages for running; however, these
anthropometrical characteristics are not, per se, sufficient to justify
the competitive excellence showed by the elite African runners.
Analysing the environmental and social constraints through the
characteristics of involvement (altitude, temperature), food and
lifestyle, it can be concluded that these factors cannot justify the
differences verified in the competitive profile of black and white
endurance runners. Differences in training profile and recovery as
well as the psychological and emotional characteristics of the African
runners, seem to justify the black African runners supremacy in
the major middle- and long-distance international running events.
Key-words: running, genetics, altitude, physiology, anthropometry,
performance.
excelência competitiva dos corredores de meio-fundo e fundo
provenientes da tribo dos Kalenjin.
Tabela I - Países mais medalhados nas provas de 800 aos 10.000
m nos Jogos Olímpicos de 1964 a 1996, com exclusão dos JO de
1976 e 1980.
População
Kalenjin
USA
Grã-Bretanha
Quénia Não-Kalenjin
Marrocos
Alemanha (Leste e Oeste)
Medalhas Totais
26
10
8
7
7
6
Ouro
8
3
1
4
3
1
Adaptado de Manners [2].
Se às medalhas ganhas pelos atletas da tribo Kalenjin
juntarmos as ganhas pelos outros atletas Quenianos, então a
excelência desportiva do Quénia, nas corridas internacionais
de meio-fundo e fundo, é ainda mais marcante.
Em virtude do locus específico de tantos êxitos desportivos,
vários autores tentaram descortinar os fundamentos em que
assentavam. Levantaram-se várias hipóteses para justificar a
supremacia performativa dos corredores do Leste Africano,
apontando-se os fatores genéticos, envolvimento geográfico,
treino, estilo de vida e determinantes sociais.
Com este estudo de revisão pretendemos aprofundar a
razão ou razões que eventualmente justifiquem as diferenças
competitivas que hoje em dia diferenciam os atletas Africanos
dos Caucasianos.
156
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
Condicionantes biológicas
Genéticas
Entre os fatores que vulgarmente se apontam para justificar
a supremacia competitiva dos meio-fundistas e fundistas do
Leste Africano, ganha especial realce o fator genético. Uma
especial predisposição genética dos corredores africanos para
a corrida de duração não é comprovada pela investigação
científica, embora o reduzido número de estudos não permita
posições conclusivas.
Os únicos estudos genéticos disponíveis comprovam a
diversidade e variabilidade genética entre os vários campeões Africanos [3], o que deve levar a ter mais cuidado em
estabelecer uma abusiva correlação entre um traço genético
único e a excelência performativa no meio-fundo e fundo.
O gene humano ACTN3 codifica a proteína α-actinina-3,
um componente da maquinaria contráctil das fibras rápidas do musculoesquelético [4]. Em 1999, foi identificado
um polimorfismo comum no gene ACTN3 (R577X) que
resultava na ausência de α-actinina-3 em mais de 1 bilião
de pessoas em todo o mundo, malgrado esse gene ter sido
bem conservado durante a evolução humana [5]. Estudos
genéticos replicando em ratos a deficiência no gene ACTN3
permitiram verificar que as fibras de contração rápida ganhavam propriedades contrácteis e metabólicas idênticas às fibras
de contração lenta [5]. Daí especulou-se sobre as eventuais
vantagens competitivas em esforços de endurance dos sujeitos
que apresentavam esse polimorfismo. Temos dúvidas acerca
da linearidade dessa relação, pois Kohn et al. [6] verificaram
uma superior percentagem de fibras Tipo IIa em corredores
Africanos enquanto os corredores Caucasianos tinham maior
percentagem de fibras Tipo I.
No entanto, Yang et al., ao estudarem a frequência do
polimorfismo R577X (alelo funcional R e alelo não-funcional
X) do gene ACTN3 numa variedade de populações Africanas,
tentando determinar a sua influência na excelência performativa dos corredores de meio-fundo e fundo do Leste Africano,
verificaram que a deficiência da proteína α-actinina-3 não
tinha grande influência na performance dos atletas Africanos.
Não foram encontradas diferenças significativas na frequência
do genótipo R577X entre os atletas e o grupo controlo.
Também Lucia et al. [8], ao compararem o polimorfismo
genético de corredores de elite da Eritreia (7 atletas) e Espanha
(9 atletas), verificaram amplas similitudes: dois sujeitos de cada
grupo não apresentavam polimorfismo R557X; 3 de cada grupo
apresentavam deficiência parcial em α-actinina-3, enquanto
2 Eritreus e 4 Espanhóis apresentavam completa deficiência
em α-actinina-3. Embora, no estudo de Lucia et al. [8] a percentagem dos atletas da Eritreia (28,6%) com manifestação
de polimorfismo R557X seja significativamente menor que a
dos Espanhóis (44,4%), será abusivo tirar ilações diretas entre
uma especial capacidade para a corrida de endurance e o perfil
genético já que o número amostral é muito reduzido.
Reforçando estes dados, Scott et al. [9] verificaram que os
atletas Etíopes de elite não se distinguiam da restante população em relação às características mitocondriais. Estes autores
sugerem que a excelência desportiva dos corredores Etíopes
estará, talvez, mais relacionada com polimorfismos do genoma
nuclear que nos polimorfismos do ADN mitocondrial. Esta
hipótese não é corroborada por outros estudos. Na procura
de um traço genético indutor de vantagens performativas
no meio-fundo e fundo, Moran et al. [10] estudaram o
cromossoma Y que é um cromossoma que embora pobre em
genes poderá ter alguma influência na performance física
no sexo masculino; levantaram a hipótese que o sucesso dos
corredores de endurance Etíopes se podia relacionar com os
haplogrupos do cromossoma Y que, segundo o seu estudo,
estão distribuídos de forma diferente do resto da população.
No entanto, reconhecem que os corredores etíopes não podem
ser considerado um grupo distinto em relação aos haplogrupos que possuem, reconhecendo a necessidade estudos com
outras populações.
A dificuldade de encontrar na genética a razão do êxito
dos corredores de meio-fundo e fundo africanos leva-nos a
procurar outros fatores que justifiquem a sua superioridade
competitiva.
Antropométricas
As dimensões corporais podem condicionar a performance no meio-fundo e fundo, já que estão implicadas na
economia de corrida, um dos fatores relacionados com a
performance na corrida de duração [11]. Qualquer aumento
de peso supérfluo onera energeticamente a corrida, reduzindo
a performance para uma dada distância. O aumento de peso
afeta mais os indicadores fisiológicos submáximos que os
máximos. Ao nível do VO2max não se verificam diferenças
significativas entre a situação de peso excessivo e peso normal
[12]. É lógico que a consideração de peso excessivo se refere
a valores ligeiramente superiores aos valores de normalidade
ponderal já que em atletas de elite são normais pequenas
variações de massa corporal após os períodos de descanso
entre épocas competitivas. Num estudo de Goran et al. [13],
comparando crianças obesas com crianças normoponderais,
verificou-se que as primeiras, devido ao peso acrescido que
têm de transportar apresentavam valores superiores de VOmax (1,56 ± 0,40 L.min-1) em relação às segundas (1,24 ±
2
0,27 L.min-1), mas quando se relativizavam os dados ao peso
corporal, as crianças normoponderais apresentavam valores
superiores de VO2max (44,2 ± 3,2 contra 32,0 ± 4,1 ml.kg-1.
min-1). Reforçando o estudo de Cureton et al. [12], quando
se relativizavam os consumos de oxigénio à massa magra, as
diferenças deixavam de ser significativas entre o grupo obeso e
normoponderal, 59,2 ± 4.9 e 57,9 ± 5,8 ml.kg-1.min-1, respetivamente. Quer isto significar que o excesso de peso corporal
condiciona menos o consumo máximo absoluto de oxigénio
e mais o relativo. Embora esta asserção seja verdadeira para
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
sujeitos sedentários já não o será tanto para sujeitos treinados,
principalmente em corrida, em que 2 ou 3 kg a mais em
relação ao peso de competição alteram todos os parâmetros
cinemáticos e dinâmicos do movimento.
Noakes [14] verificou que o ratio altura/peso dos Africanos
era superior. Enquanto, um corredor Europeu de 10.000 m
com uma altura de 182 cm pesa 72 kg, um Africano, com
a mesma altura pesará por volta dos 64 kg. Pensamos que a
relação do peso com a altura é um fator muito importante
na corrida de duração.
A Tabela II permite-nos ter uma panorâmica sobre o perfil
biométrico de corredores de meio-fundo e fundo, comparando Africanos com Caucasianos.
A partir da Tabela II, podemos inferir que, de uma maneira
geral, os corredores africanos são mais leves e mais baixos
que os seus pares Caucasianos. Esta asserção é válida para a
não-elite [6] e para a elite estudada por Marino et al. [15],
embora o não seja para a elite estudada por Lucia et al. [8].
Num estudo epidemiológico de Larsen et al. [16] ficou
comprovado que as populações Quenianas, quando comparadas com as Caucasianas, apresentam menor massa corporal
e membros inferiores mais longos, sejam as que vivem nas
cidades sejam as que vivem nas aldeias. As condições antropométricas de base dos Africanos estudados, definem condições
biomecânicas diferenciadas que podem contribuir positivamente para a performance motora no meio-fundo e fundo.
Importa referir que enquanto no estudo de Marino et al. [15]
os corredores de elite Quenianos se diferenciam claramente
dos seus pares Alemães, em relação ao peso e altura, o estudo
157
de Lucia et al. [8], comparando os corredores de elite da Eritreia com os seus pares Espanhóis, não verificou diferenças
com significado estatístico em relação a estes dois indicadores.
Portanto, podemos constatar que a altura e peso, por si só,
não são indicadores suficientemente robustos para distinguir
a elite da não elite, e os corredores africanos dos caucasianos,
embora a tendência seja para os Africanos serem mais baixos
e mais leves.
Em relação à percentagem de massa gorda e Índice de
Massa Corporal (IMC) a Tabela III compulsa vários estudos.
No estudo de Weston et al. [17], embora os corredores
africanos sejam mais leves e mais baixos que os seus pares
Caucasianos, apresentam um IMC idêntico (Tabela III). A
similitude do IMC deve ser desvalorizada já que ser mais leve,
independentemente da altura, é um fator muito importante na
corrida de duração, porque as forças de reação ao solo são mais
reduzidas nos corredores mais leves. Este fator pode ser um requisito importante para manter a resiliência a treinos intensos
e prolongados que é uma das características dos fundistas de
elite. Segundo Coetzer et al. [18], os corredores africanos de
elite treinam mais quilómetros a intensidades elevadas que os
seus concorrentes caucasianos. A menor massa corporal que
os caracteriza pode estar diretamente correlacionada com uma
menor incidência de traumas e lesões musculoesqueléticas
[19] que lhes permite a manutenção, época após época, desse
tipo de treino em qualidade.
Na análise dos vários estudos que comparam corredores de
meio-fundo e fundo africanose caucasianos, devemos atentar
no nível competitivo das amostras. Assim, o IMC parece
Tabela II - Valores médios (± DP) de peso e altura de corredores africanos e caucasianos.
Estudo
Weston et al. [17]
Weston et al. [23]
Kohn et al. [6]
Harley et al. [21]
Marino et al. [15]
Lucia et al. [8]
Prommer et al. [20]
Peso (kg)
Caucasianos
Africanos
69,1 ± 5,7 **
59,4 ± 6,0
64,9 ± 3,0
61,4 ± 7,0
67,8 ± 6,6 *
59,6 ± 7,4
70 ± 6 *
60 ± 6
76,6 ± 9,3 *
59,3 ± 4,4
60,5 ± 7,8
57,2 ± 3,3
66,5 ± 6,3
57,2 ± 7,0
Altura (cm)
Caucasianos
Africanos
181 ± 9 **
172 ± 5
178,3 ± 5,3 **
172,4 ± 5,3
182 ± 8 *
172 ± 6
180 ± 7 *
167 ± 4
183,4 ± 6,5 *
167,4 ± 4,4
172 ± 6
174 ± 8
* p < 0,01 ** p < 0,05
Tabela III - Valores médios (± DP) da percentagem de gordura e IMC de corredores africanose caucasianos.
Estudo
Weston et al. [17]
Weston et al. [23]
Bosch et al. [34]
Kohn et al. [6]
Harley et al. [21]
Marino et al. [15]
Lucia et al. [8]
Prommer et al. [20]
* p < 0,05
Massa Gorda (%)
Caucasianos
Africanos
12,4 ± 2,8
11,6 ± 2,7
12,1 ± 3,3
12,1 ± 3,7
11,1 ±1,4
11,8 ± 1,4
12,8 ± 4,6
5,3 ± 0,3
11,2 ± 1,8
5,1 ± 0,2
IMC (kg/m2)
Caucasianos
Africanos
20,5 ± 1,1
21,6 ± 1,5
20,1 ± 1,5
21,4 ± 1,6
20,5 ± 1,7 *
20,4 ± 0,9 *
18,9 ± 1,5
18,5 ± 0,9
158
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
ser um fator suficientemente diferenciador, entre corredores
africanos e caucasianos, ao nível da elite [8,20], mas já não
ao nível da não-elite [6,21].
Na análise da composição corporal, podemos verificar
que não existem diferenças significativas entre africanos e
caucasianos em relação à percentagem de massa gorda, embora Lucia et al. [8] tenham constatado que o somatório de
6 pregas de adiposidade subcutânea era significativamente
(p < 0,05) maior nos corredores espanhóis que nos eritreus.
A partir da Tabela III, podemos claramente diferenciar
a elite da não elite. Não se pode ser elite no meio-fundo
e fundo internacional com percentagens de massa gorda
superiores a 10%. A elite africana estudada por Billat et al.
[22] apresenta percentagens de massa gorda, variando entre
6 e 7%, valores idênticos aos verificados na elite portuguesa
de meio-fundo e fundo [11]. Estranhamos, no entanto, os
valores apresentados por Marino et al. [15] que são, no nosso
entender, exageradamente baixos.
Entre os parâmetros antropométricos mais marcantes a
diferenciar africanos dos caucasianos salientam-se as dimensões da perna. Assim, foi verificado que os corredores Eritreus
tinham pernas mais compridas (44,1 ± 3,0 vs. 40,6 ± 2,7 cm;
p < 0,05) e com menor circunferência máxima (30,9 ± 1,5
vs. 33,9 ± 2,0; p < 0,01) que os corredores espanhóis [8]. Em
relação ao volume da massa magra da coxa, encontraram-se
valores médios de 2152 ± 770 e 2568 ± 295 cm3 para africanos
e caucasianos, respetivamente, o que aponta para a tendência
de formas corporais mais reduzidas nos corredores africanos,
características essas que parecem estender-se a outras populações [23]. Tal foi comprovado num estudo comparativo entre
crianças Tanzanianas e Norueguesas (9 – 10 anos de idade),
em que se verificou que as primeiras são significativamente
(p < 0,001) mais leves e mais baixas que as segundas, o que
parece indiciar um biótipo específico africano que pode ter
implicações biomecânicas para a corrida de duração.
Parecem existir condições ecológicas e fenotípicas de base
que determinam diferenças antropométricas entre africanos e
caucasianos; se essas diferenças são determinantes para estabelecer diferentes níveis de prestação competitiva em provas
de corrida de meio-fundo e fundo, é facto difícil de esclarecer.
Sem podermos ser conclusivos, tudo indica que valores
mais baixos de massa gorda, aliados a algumas características
antropométricas (maior comprimento e menor circunferência
da perna), apresentam boa correlação com a performance na
corrida de duração e podem discriminar positivamente a elite
Africana de meio-fundo e fundo da elite Caucasiana.
As condicionantes ecológicas de desenvolvimento das
populações podem determinar algumas das diferenças antropométricas verificadas entre africanos e caucasianos. Assim, o
perfil de ingestão nutricional, aliado à taxa de atividade física
usual, de alguns grupos étnicos africanos pode ser crucial no
desenvolvimento da composição corporal. Por exemplo, a alimentação da tribo Kalenjin, da qual saíram alguns dos melhores meio-fundistas e fundistas da história desportiva recente, é
fundamentalmente vegetariana. Cerca de 90% dos alimentos
têm origem vegetal com um aporte reduzido (15% do aporte
calórico total) de gorduras [25]. Naturalmente, os regimes
vegetarianos induzem uma menor acumulação de gordura corporal, no entanto, o esforço recorrente de muitos corredores
de meio-fundo e fundo em manterem pesos corporais mais
competitivos podem induzir práticas nutricionais deficitárias
em energia com a consequente redução da massa gorda [26].
Uma coisa é certa, quando falamos de elite internacional do
meio-fundo e fundo, não podemos encontrar percentagens
de massa gorda elevadas, já que todo o peso supérfluo (e.g.
reservas de massa gorda) onera energeticamente o esforço de
corrida afetando diretamente a performance.
Dos vários estudos compulsados parece que somente o
IMC diferencia antropometricamente a elite Africana da
Caucasiana. Que essa diferenciação tenha força suficiente
para justificar a excelência competitiva dos Africanos, é algo
que nos suscita dúvidas.
Fisiológicas
Os fatores fisiológicos críticos para a performance na
corrida de duração são o consumo máximo de oxigénio
(VO2max), a utilização fracional do VO2max (a capacidade de
suster no tempo uma elevada percentagem do consumo máximo de oxigénio) e a economia de corrida (entendida como
a capacidade de correr de forma energeticamente eficiente).
As exigências fisiológicas das mais elevadas performances
no meio-fundo e fundo são salientadas pelas intensidades
médias para cada especialidade: a meia-maratona é corrida
a 80% do VO2max, os 10.000 m a 90%, os 5.000 m a 95%
e os 3.000 m a 100%. Portanto, no meio-fundo e fundo a
competição ao mais elevado nível assenta em elevadíssimas
exigências aeróbias; correr a 80% do VO2max requer uma
frequência cardíaca cerca de 88% da FCmax [27], situação
que é mantida por mais de 2 horas em maratonistas de elite.
Somente, seres excecionalmente dotados e com elevado
nível de treino são capazes de desenvolver, de forma “natural”,
as intensidades requeridas pelas performances acima descritas.
Tentemos verificar se estas capacidades intrínsecas dos corredores de elevado nível conseguem diferenciar os caucasianos
dos africanos.
Consumo máximo de oxigénio
De uma forma geral, os corredores de meio-fundo e fundo
apresentam consumos máximos de oxigénio elevados; no entanto, este indicador fisiológico não parece ser suficientemente
discriminador da qualidade competitiva dos sujeitos. Em
relação a este indicador temos de considerar duas vertentes: a
fisiológica e a ergonómica. Assim, não só devemos considerar
o VO2max (indicador fisiológico) como também a vVO2max
(indicador ergonómico) e que corresponde à velocidade de
corrida a que é atingido o máximo consumo de oxigénio,
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
este sim um indicador verdadeiramente discriminador no
meio-fundo e fundo [1].
A Tabela IV permite-nos verificar o VO2max e a potência
máxima aeróbia (PMA) de várias amostras de corredores
africanos e caucasianos.
Somente no estudo de Lucia et al. [8] se verificaram
diferenças significativas (p < 0,05) ao nível do VO2max,
entre corredores africanos e caucasianos, evidenciando os
corredores Espanhóis um VO2max médio mais elevado,
embora expressem um menor nível competitivo que os
atletas Eritreus. Estes dados reforçam as considerações atrás
expressas e reduzem a utilidade do VO2max como fator discriminador entre corredores de nível idêntico. A vVO2max
que diferencia o nível competitivo dos corredores de outros
estudos [22,11] não diferenciou as elites Espanhola e Eritreia
no estudo de Lucia et al. [8], embora o nível competitivo
de ambos seja diferente.
Os dados recolhidos indicam que o VO2max não diferencia corredores africanos e caucasianos não-elite [17,6] e elite
[28]. Um VO2max mais elevado não significa uma superior
prestação competitiva [6]. Estes estudos são corroborados
por Saltin et al. [29] que não verificaram, ao nível do VOmax, diferenças significativas entre os melhores corredores
2
escandinavos e quenianos, quer em altitude quer ao nível
do mar. No entanto, alguns corredores quenianos atingiram
consumos máximos de oxigénio da ordem dos 85 ml.kg-1.
min-1, valor não conseguido por nenhum dos corredores
escandinavos [9]. É lógico que os corredores escandinavos
não se aproximam, competitivamente falando, dos corredores quenianos.
Importa salientar que os corredores de meio-fundo e
fundo de elite apresentam usualmente valores médios de
VO2max superiores a 70 ml.kg-1.min-1 [6,11,20,30]. Quer
isto dizer que a elite do meio-fundo e fundo apresenta uma
elevada capacidade de captação, transporte e utilização
muscular de oxigénio, só que este indicador não diferencia,
na elite, o nível competitivo dos corredores sejam africanos
ou caucasianos. Para reforçar esta ideia, confirmou-se que a
similitude fisiológica das amostras não tem correspondência
com o valor performativo das mesmas que favorece claramente
os quenianos que com valores médios aos 10.000 m de 28
159
min 29 s ± 27 s se distinguem claramente dos alemães com
30 min 39 s ± 24 s [20].
Alguns estudos demonstraram que o nível performativo
das amostras selecionadas era baixo, com os atletas a conseguirem tempos médios aos 10.000 m acima dos 32 min
[17,23,6]. Como factor de comparação apresentamos os
recordes do mundo e olímpico dos 10.000 m femininos:
29’31”78 (Wang Junxia, China) e 29’54”66 (Tirunesh Dibaba, Etiópia). Pensamos que a análise das diferenças entre
corredores africanos e caucasianos é ecologicamente mais
válida quando estudamos as elites. Tendo em conta a variabilidade dos dados recolhidos, pensamos que não é ao nível
dos indicadores máximos fisiológicos que radica a diferença
entre a elite africana e caucasiana.
Cinética do lactato e limiar anaeróbio
A superior capacidade performativa dos corredores africanos quando comparados com corredores caucasianos tem
sido associada às menores concentrações de lactato plasmático
a intensidades de corrida submáximas [17] e máximas [21].
Estudos prévios determinaram a relação entre a fadiga
muscular e a performance e a acumulação de lactato. Atletas
que apresentam uma menor concentração de lactato plasmático para uma dada intensidade submáxima de esforço parecem
estar mais capacitados para resistir à fadiga por um período
de tempo mais longo [31]. Tal facto foi verificado no presente
estudo de revisão a partir dos dados de Weston et al. [17] que,
num patamar de intensidade de corrida correspondente a 92%
da vVO2max, verificaram que os corredores africanos atingiam
lactatemias mais baixas (7,2 ± 4,8 versus 11,1 ± 3,5 mmol/L;
p = 0,06) e um superior tempo até à fadiga (7’56” ± 3’45”
versus 3’57” ± 2’05”; p < 0,01). No entanto, a intensidades
máximas os resultados são conflituais (Tabela V). Enquanto
Saltin et al. [29] constaram que o pico de lactato era similar
para corredores quenianos e escandinavos quer em altitude
quer ao nível do mar, o que foi corroborado por Weston et
al. [17], o estudo de Harley et al. [21] evidenciou um pico
de lactato significativamente mais elevado nos caucasianos.
As razões destas discrepâncias podem-se prender a condicionantes metodológicas.
Tabela IV - Valores médios (± DP) do VO2max e vVO2max em corredores de meio-fundo e fundo africanos e caucasianos.
Estudos
Weston et al. [17]
Kohn et al. [6]
Harley et al. [21]
Marino et al. [15]
Prommer et al. [20]
Lucia et al. [8]
* Diferença estatisticamente significativa (p < 0,05)
VO2max
(ml.kg-1.min-1)
Caucasianos
Africanos
65,2 ± 7,2
61,9 ± 5,9
68,2 ± 4,5
68,8 ± 5,9
68,9 ± 4,3
66,7 ± 5,4
64,3 ± 3,0
62,6 ± 3,5
70,7 ± 3,7
71,5 ± 5,0
77,8 ± 6,1 *
73,8 ± 5,6
vVO2max
(km.h-1)
Caucasianos
Africanos
22,4 ± 1,2
21,3 ± 1,9
22,0 ± 0,9
21,6 ± 1,1
21,5 ± 1,4
21,4 ± 1,2
20,8 ± 1,2
21,2 ± 0,8
23,1 ± 0,7
23,3 ± 0.5
160
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
Tabela V - Valores médios (± DP) de lactatemia em corredores
africanos e caucasianos após prova máxima de esforço.
Weston et al. [17]
Harley et al. [21]
Saltin et al. [29] #
Saltin et al. [29] ##
Lactato plasmático após
prova de esforço máxima
(mmol.L-1)
Caucasianos
Africanos
11,6 ± 2,9
10,5 ± 2,5
12,3 ± 2,7
8,8 ± 2,0 *
10,0 ± 0,8
8,0 ± 0,7
9,8 ± 0,5
9,3 ± 0,9
*Diferença significativa (p < 0,05); #Altitude de ~ 2.000 m; ## Nível
do mar
Embora em teste máximo de corrida os resultados sejam
conflituais e não possam determinar um padrão que diferencie
claramente corredores africanos e caucasianos, ao nível do
exercício submáximo parece que os resultados são mais conclusivos. Coetzer et al. [18] associaram o domínio dos atletas
negros nas provas longas de corrida às menores concentrações
de lactato durante o exercício submáximo. Vários estudos
comprovam que para uma mesma intensidade de corrida
os atletas africanos evidenciam uma menor concentração
de lactato plasmático. Weston et al. [17] verificaram, em
corredores africanos e caucasianos, concentrações idênticas
de lactato plasmático a intensidades de corrida de 72 e 80%
da vVO2max; no entanto, a intensidades superiores (88 e
92% da vVO2max), os corredores africanos apresentavam
uma lactatemia significativamente menor. Também Saltin et
al. [29], observando várias amostras de corredores quenianos
e escandinavos constataram uma menor (p < 0,05) concentração de lactato plasmático a intensidades submáximas de
corrida nos corredores do Quénia. Também, Harley et al. [21]
verificaram que corredores africanos comparados com os seus
pares caucasianos tinham tendencialmente (p = 0,07) uma
lactatemia mais baixa para uma velocidade de corrida de 16
km.h-1 (2,4 ± 0,7 versus 3,8 ± 2,4 mmol.L-1).
Quererá isto significar que os corredores negros apresentam uma superior clearence ou uma menor produção de lactato
durante o exercício? Os dados disponíveis não nos permitem
esclarecer esta questão.
Ainda que uma menor concentração de lactato plasmático
em intensidades submáximas de corrida parece discriminar
positivamente os corredores africanos, outros indicadores
conotados com a cinética do lactato parecem apontar para
a similitude entre africanos e caucasianos. Assim, Harley et
al. [21] não verificaram diferenças no conteúdo muscular de
transportadores monocarboxilato (MCT) entre corredores
negros e brancos. Os MCT facilitam o transporte de lactato
através da membrana plasmática (influxo ou efluxo consoante
o tipo de fibra) e parecem desempenhar um papel importante
na homeostasia do lactato.
O limiar anaeróbio (Lan) é um indicador submáximo
que expressa a capacidade aeróbia de um indivíduo. É um
indicador que consegue discriminar com maior robustez o
nível competitivo de maratonistas [11]. O estudo de Lucia
et al. [8] conflitua com outros estudos [32,11], ao verificar
que os atletas com superior nível performativo apresentam
um limiar anaeróbio ventilatório inferior. Corredores eritreus
e espanhóis atingem o Lan ventilatório a 62,4 ± 8,0 e 67,5 ±
10,2% do VO2max e a velocidades de 15,0 ± 0,9 e 16,6 ± 0,7
km/h, respectivamente. Em termos de velocidade as diferenças
são significativas (p < 0,01). O Lan é uma variável com forte
poder preditivo no meio-fundo e fundo [32,33], mas o estudo
de Lucia et al. [8] inverte os dados de outras investigações,
pois os corredores com melhor prestação competitiva são os
que apresentam um Lan inferior. Neste caso os dados fisiológicos não têm correspondência com o nível de performance
competitiva como se pode comprovar pelos resultados obtidos
nos Campeonatos do Mundo de Corta-Mato (2004 e 2005),
por alguns atletas que integraram o estudo supracitado [8].
Em 2004 os eritreus obtiveram as seguintes classificações: 6º,
9º, 22º, 29º e 74º e o único espanhol participante do estudo
classificou-se em 33º. Em 2005, os eritreus conseguiram 2º,
15º, 17º e 20º enquanto os espanhóis se colocaram em 24º
e 68º. Como podemos verificar as diferenças de nível competitivo são muito grandes entre os grupos. Quer isto dizer que
superiores indicadores fisiológicos nem sempre correspondem
a superior performance competitiva que está condicionada por
outros fatores tais como os volitivos e motivacionais.
Numa linha de análise que reforça a não correspondência entre os vários indicadores e a performance na corrida,
verificou-se que a 80% da vVO2max, os corredores africanos apresentavam concentrações médias de lactato de 2,9
± 2,5 mmol.L-1, enquanto os corredores caucasianos 4,4 ±
2,0 mmol.L-1 [17]. Os valores médios superiores de lactato
plasmático a 80% da Potência Máxima Aeróbia (vVO2max),
embora sem significado estatístico, têm, no nosso entender
claro significado fisiológico, pois nesta intensidade de esforço
a amostra de corredores africanos não atinge o patamar das 4
mmol/L de lactato, enquanto os corredores caucasianos, em
média, o ultrapassa. Quanto mais elevada a intensidade de
exercício para se atingir o patamar das 4 mmol/L de lactato,
maior é a capacidade aeróbia de um atleta. Quer isto significar
que o limiar anaeróbio dos corredores africanos é atingido a
um patamar superior de esforço. Isso se reflete no tempo até
à fadiga a 92% da PMA que é significativamente (p < 0,01)
superior nos corredores africanos. O que é de estranhar é que
estes indicadores fisiológicos que claramente evidenciam uma
superior capacidade aeróbia dos corredores africanos não se
reflitam claramente na performance já que os tempos aos
10.000 m são similares. Mais uma vez aqui se verifica que o
nível competitivo da amostra pode comprometer a robustez
das conclusões.
Conflituando com Lucia et al. [8] e corroborando Weston
et al. [17], Bosch et al. [34] verificaram que corredores negros
apresentavam um limiar anaeróbio ventilatório superior ao
de corredores brancos (82,7 ± 7,7 vs. 75,6 ± 6,2% VO2max),
embora não se verificassem diferenças significativas em relação
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ao VO2max. Estes dados têm, no entanto, de ser lidos com
cuidado já que o nível performativo da amostra é muito baixo
(maratonistas com tempos de prova superiores a 2h30).
A conflitualidade dos vários estudos aponta para a dificuldade de tentar discriminar corredores africanos e caucasianos
a partir da análise de indicadores fisiológicos.
Economia de corrida e utilização fracional do VO2max
A economia de corrida é expressa como o consumo submáximo de oxigénio estabilizado a uma dada velocidade de
corrida submáxima. Costill et al. [35] afirmaram que o sucesso
na corrida de maratona era determinado, em grande parte,
pelo VO2max, economia de corrida e capacidade de utilizar
uma elevada fração do VO2max durante a maratona. A economia de corrida é uma variável fortemente relacionada com
a performance nas corridas de meio-fundo e fundo. Esta deve
ser entendida como o custo energético obtido a velocidades
de corrida submáximas e apresenta uma grande importância
funcional, podendo ser um fator discriminativo entre elite e
não elite [11].
Parece existir uma tendência para os corredores de meio-fundo e fundo leste africanos serem mais económicos a
correr; tal facto parece estar relacionado com características
anatómicas e antropométricas específicas [36]. Esta asserção é
contrariada pelo estudo de Weston et al. [17] em que se pode
verificar que nas intensidades de corrida de 72, 80 e 88% da
vVO2max não existem diferenças significativas em relação aos
custos energéticos da corrida entre africanos e caucasianos, o
que pode estar relacionado com o baixo nível performativo da
amostra. Na elite, Lucia et al. [8] verificaram que a economia
de corrida é o indicador que melhor diferencia positivamente
os corredores eritreus dos espanhóis. Podemos verificar que
para qualquer das velocidades estudadas (17, 19 e 21 km/h),
os corredores eritreus consomem menos oxigénio quer em
termos absolutos quer quando os valores são expressos em
percentagem do VO2max. Interessantemente, quando os
valores são considerados como percentagem da vVO2max,
as diferenças deixam de ser significativas. Quer isto significar
que embora a funcionalidade motora seja idêntica para cada
um dos patamares de esforço, o stresse fisiológico induzido
é significativamente menor nos corredores eritreus. Weston
et al. [23], ao comparar corredores africanos e caucasianos
com idêntico perfil competitivo, verificaram que os primeiros
gastavam 47,3 ± 3,2 e os segundos 49,9 ± 2,4 ml.kg-1.min-1,
correndo à velocidade de 16 km.h-1, avançando que os africanos eram significativamente (p < 0,05) mais económicos,
o que justificava as diferenças ao nível da elite. Entendemos
que esta especulação é abusiva já que o nível performativo da
amostra selecionada por Weston et al. [23] é baixo e relativizando o consumo de oxigénio a 16 km.h-1 ao pico de VO2,
que era significativamente maior (p < 0,01) nos corredores
caucasianos, essas diferenças são esbatidas. Não podemos
extrapolar para a elite, dados referentes à não-elite.
161
O estudo de Lucia et al. [8] permite-nos especular que
a superior economia de corrida da elite africana é devida
menos a fatores fisiológicos ou bioquímicos e mais a fatores
antropométricos e biomecânicos. Estes autores verificaram
que o hemograma (eritrócitos, hematócrito e hemoglobina)
é idêntico para os corredores eritreus e espanhóis, o que evidencia uma capacidade de transporte de oxigénio idêntica.
Também, Saltin et al. [29] verificaram que o custo energético
da corrida era menor nos corredores quenianos quando comparados com escandinavos e que essa diferença se acentuava
quando os valores de consumo eram relativizados ao peso
corporal de forma diferente valorizando a massa magra (ml.
kg-0.75.min-1). Como o consumo de oxigénio (VO2) durante
o exercício submáximo não aumenta, geralmente, de forma
linear com a massa corporal, foi recomendado relacionar a
economia de corrida a 0.75 da massa corporal [37]. Como
a elite africana treina mais quilometragem a intensidades
correspondentes ao VO2max é de aceitar a tese de que estão
mais desenvolvidos em relação à potência muscular e assim
mais aptos a reduzir a quantidade de energia perdida pelas
forças de travagem [37], o que se poderá refletir positivamente
na economia de corrida.
Embora tudo aponte para que os corredores africanos
sejam mais económicos que os seus pares caucasianos, torna-se difícil isolar um fator que por si só justifique a superior
performance dos corredores africanos de meio-fundo e fundo.
As diferenças serão multifatoriais entre as quais se salienta a
capacidade de a elite africana em manter elevadas percentagens
do VO2max enquanto correm [34], o que não tem nada a ver
com o genoma mas sim com a qualidade do treino.
Mecanismos de termoregulação
Os elevados desempenhos físicos característicos dos corredores de meio-fundo e fundo estão fortemente condicionados
pela eficiência dos mecanismos de controlo da temperatura
corporal. Mais de 2/3 da energia química armazenada nos
músculos é transformada em calor irrecuperável que necessita
ser eliminado já que o corpo humano tem uma reduzida capacidade de armazenamento de calor. Num estudo conduzido
por Marino et al. [15], verificou-se que enquanto a taxa de
sudação era idêntica entre caucasianos e africanos em temperaturas moderadas (15º C), era significativamente superior
nos caucasianos (p < 0,01) quando a corrida era desenvolvida
em ambiente quente (35º C). Podemos assim especular que o
mecanismo de termoregulação é mais eficiente nos corredores
africanos, pelo menos em ambientes quentes, o que pode
parcialmente contribuir para a melhoria da performance no
calor verificada no estudo de Marino et al. [15]. No entanto,
não devemos valorizar estes dados em demasia já que Yousef
et al. [38], estudando uma amostra alargada de brancos e
negros não verificaram diferenças significativas entre raças,
em relação à temperatura rectal, temperatura da pele, frequência cardíaca e taxa de sudação quando se exercitaram, no
162
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
deserto, a 40% da máxima potência aeróbia. Embora, alguns
dados apontem para uma melhor adaptação ortostática ao
exercício em situações agressivas de calor de sujeitos negróides
que caucasóides [39], não podemos inferir que essa superior
capacidade termorreguladora é razão suficiente para justificar
as superiores performances dos corredores africanos.
Caracterização fibrilar e enzimática
Verificamos que ao nível fisiológico os fatores que diferenciam os corredores africanos dos seus pares caucasianos nem
sempre são fáceis de encontrar e valorizar; vejamos o que se
passa ao nível da composição muscular.
Em relação à distribuição fibrilar os resultados não são
concordantes. Weston et al. [17] encontraram 49,0 ± 17,3%
de fibras Tipo I nos corredores africanos e 67,1 ± 17,5% nos
caucasianos, o que indicia uma tendência para os corredores
caucasianos terem uma superior percentagem de fibras de
contração lenta. Esta asserção é corroborada pelo estudo
de Kohn et al. [6] que verificaram que atletas caucasianos,
comparados com os seus pares de etnia Xhosa, têm uma
percentagem significativamente superior (p < 0,05) de fibras
Tipo I, enquanto os atletas Xhosa evidenciavam uma maior
percentagem (p < 0,05) de fibras de Tipo IIa; em relação à percentagem de fibras Tipo IIx não havia diferenças significativas.
Conflituando com estes dados, Harley et al. [21] verificaram
percentagens inferiores de fibras Tipo I em corredores brancos
(49 ± 16%) quando comparados com os seus pares negros
(56 ± 17%). Os corredores brancos apresentavam também
maior percentagem de fibras Tipo IIa (49 ± 18% versus 39
± 15%). No entanto, os corredores negros tendiam a estar
mais potenciados com fibras Tipo IIx (5 ± 12% versus 1 ±
2%). Para dificultar a questão, Saltin et al. [40] não verificaram diferenças significativas entre corredores quenianos e
escandinavos em relação às percentagens dos vários tipos de
fibras, enquanto Coetzer et al. [18] constaram que atletas
negros sul-africanos apresentavam uma percentagem de fibras
Tipo I, cerca de 50% superior aos atletas brancos do mesmo
país. A diversidade fibrilar entre atletas brancos e negros não
permite detetar um padrão específico de cada grupo étnico.
O que a investigação permite verificar é que o treino é um
forte detonador de adaptações que muitas vezes alteram a
influência da matriz genética. Nesse sentido, Saltin et al.
[40] verificaram que o treino de endurance aumentava em
10-20% o número de capilares do músculo gastrocnémios dos
corredores o que permitia uma melhor eficiência metabólica
muscular. O treino continuado aumenta o ratio fibra/capilar
potenciando as adaptações periféricas relacionadas com o
rendimento em esforços prolongados. Também a superior
atividade enzimática oxidativa (Citrato Sintetase; p = 0,02 e
3-Hidroxiacil-CoA Desidrogenase; p < 0,01) verificada em
corredores africanos [17] pode ser circunstancial e estar mais
relacionada com o treino e menos com o genótipo. A partir
deste estudo podemos constatar que o treino de endurance
potencia a atividade enzimática oxidativa (CS), e reduz ou
mantém a atividade enzimática glicolítica (PFK). Os corredores africanos exibem um superior perfil enzimático oxidativo,
o que não está relacionado com a percentagem de fibras Tipo
I, que é tendencialmente superior na amostra caucasiana [17].
Ainda que o treino consiga induzir adaptações estruturais e funcionais importantes, as condições de base são
determinantes para a consecução de elevadas performances.
Assim, Ama et al. [41] verificaram que sujeitos caucasianos
sedentários, quando comparados com os seus pares africanos,
apresentavam uma percentagem superior de fibras Tipo I
(8%; p < 0,01) e uma percentagem mais baixa de fibras Tipo
IIa (6,7%; p < 0,05). Podemos especular que uma amostra
de corredores emergente duma população geneticamente
potenciada em fibras Tipo IIa estará mais capacitada a
tornar-se elite no meio fundo e fundo internacional já que
acreditamos que o pool de fibras Tipo IIa está diretamente
relacionado com o rendimento nos esforços de meio-fundo
e fundo [42]. Embora o nível competitivo dos grupos não
fosse muito diferente, estudo [6] verificou que os corredores
do grupo étnico Xhosa apresentavam, quando comparados
com os seus pares caucasianos, valores significativamente superiores (p<0.05) na percentagem de fibras Tipo IIa que tinha
correspondência com as isoformas de cadeia pesada de miosina
no mesmo tipo de fibras. Em relação ao perfil enzimático, e
conflituando com o estudo de Weston et al. [17], Kohn et
al. [6] verificaram valores médios semelhantes em relação às
enzimas CS e 3-HAD para ambos os grupos (Caucasianos e
Xhosa), mas com diferenças significativas em relação à enzima
LDH (p<0.01) e diferença tendencial (p=0.07) para a enzima
PFK. Alguns dados apontam para uma superior atividade
do metabolismo glicolítico nos corredores africanos, mas a
extrema variabilidade inter-individual não nos permite definir
um padrão fenotípico claro de atletas africanos e caucasianos.
Amostras diferentes dão resultados diferentes. Também é
importante a escala de análise. Por exemplo, verifica-se que,
em termos absolutos, os atletas Xhosa apresentam uma superior atividade da LDH, mas a análise das isoformas desta
enzima permitem-nos determinar o perfil mais oxidativo ou
mais glicolítico das amostras [6]. Os atletas Xhosa têm maior
percentagem de fibras Tipo IIa, normalmente caracterizadas
por superior atividade das enzimas LDH e PFK que as fibras
Tipo I [43]. Analisando as isoformas da LDH, verificou-se
que os atletas Xhosa apresentavam valores significativamente
superiores de LDH4-5 e inferiores de LDH1-2 [6]. As isoformas
LDH4-5, também denominadas musculares, parece que favorecem a conversão de piruvato em lactato, enquanto as LDH1-2,
denominadas cardíacas, promovem a reacção inversa [44]. A
superior atividade das frações 4-5 da LDH nos corredores
Xhosa pode prender-se com a superior intensidade de treino
que determina adaptações fenotípicas específicas. No entanto,
os dados de Kohn et al.[6] são contrariados pelos de Saltin et
al. [29] que verificaram em atletas quenianos valores mais elevados das isoenzimas 1-2 da LDH quando comparados com
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
atletas escandinavos. Os mesmos autores verificaram que o
treino em altitude promovia a conversão da LDH4-5 em LDH1. Embora a conflitualidade entre os estudos compulsados se
2
possa dever às diferenças do nível performativo das amostras
selecionadas, julgamos que também a caracterização fibrilar
e enzimática não pode estabelecer um padrão diferenciador
entre corredores africanos e caucasianos.
Condicionantes ambientais
O determinismo do envolvimento tenta justificar a performance desportiva em função das condições ecológicas vividas
por um dado grupo humano. Em relação à performance física
não aceitamos a relação absoluta de causa-efeito entre o meio
onde se nasceu e viveu e o êxito desportivo já que muitos
atletas de elite migram cedo dos seus países de origem para
outros onde vão afirmar o seu potencial desportivo.
No caso dos corredores do Leste Africano, acreditou-se que
o facto de nascerem e viverem em altitude lhes determinava
condições favoráveis únicas para o rendimento físico aeróbio.
Se a altitude fosse o único fator determinante na performance
aeróbia, outros países com populações a viverem em altitude
deveriam criar campeões no meio-fundo e fundo com a
proficiência demonstrada pelos países do Leste Africano. O
simples facto de viver em altitude pode induzir adaptações
crónicas mais potenciadoras do metabolismo glicolítico que
do oxidativo. Rosser & Hochachka [45], verificaram que sujeitos peruanos que viviam nos Andes a 3.300 m de altitude
apresentavam a mesma área de secção transversa dos vários
tipos de fibras, idênticos aos de indivíduos a viverem a 700 m
de altitude. Somente a atividade enzimática nas fibras Tipo I
diferenciava significativamente (p < 0,0001) os grupos; os sujeitos que viviam em alta altitude tinham uma menor (-19%)
atividade da enzima aeróbia malato-desidrogenase e maior (+
28,1%) da lactato-desidrogenase [45]. Parece que a hipoxia
crónica induzida pela vivência em altitude muito elevada
reduz a funcionalidade mitocondrial potenciando a glicolítica mesmo em fibras de características fundamentalmente
aeróbias. O determinismo biológico da altitude é anulado
pela verificação científica. Também as condições específicas
de desenvolvimento humano podem determinar características adaptativas diversas. Assim, comprovou-se que sujeitos
peruanos vivendo em altitude apresentavam dificuldades nas
respostas cerebrovasculares à hipoxia e hipocapnia enquanto
a circulação cerebral de sujeitos etíopes, vivendo em altitudes
idênticas, não era sensível à hipoxia, o que evidenciava uma
superior adaptação dos habitantes eíopes à altitude [46].
Prommer et al. [20] verificaram que corredores quenianos
de elite que viviam em altitude (2.090 m) possuíam uma
massa total de hemoglobina similar à de corredores alemães,
massa que se reduzia quando vinham viver para o nível do
mar. Estes dados são reforçados pelo estudo de Beall et al.
[47] que verificaram que nativos etíopes vivendo a 3.530
metros de altitude apresentavam uma concentração média de
163
hemoglobina de 15,9 e 15,0 g/dl, para homens e mulheres,
respetivamente, e com uma saturação média de hemoglobina
de 95,3%; estes dados permitem concluir que, apesar da dramática descida da pressão parcial de oxigénio do ar inspirado
pelos nativos etíopes vivendo em altitude, estes apresentavam
concentrações de hemoglobina e saturações de oxigénio similares às populações vivendo ao nível do mar.
Mesmo que existam adaptações corporais específicas a uma
dada geografia, elas são sensíveis às alterações do envolvimento
denotando uma certa plasticidade que reajusta o organismo
às condições específicas de cada local.
Reforçando o estudo de Rosser & Hochachka [45], Saltin
et al. [40] verificaram que sujeitos a viver e treinar em altitude
(2000 m) apresentavam o mesmo perfil de distribuição fibrilar que sujeitos a viver e treinar ao nível do mar: fibras Tipo
I 60-70%, Tipo IIa 30-40% e Tipo IIb < 6%. Em termos
enzimáticos, parece que a adaptação ao treino em altitude
provoca um aumento das isoformas 1-2 da enzima lactato
desidrogenase em detrimento das isoformas 3-4, potenciando
assim a conversão de lactato em piruvato e consequentemente
a funcionalidade aeróbia [40]. Quer isto dizer que as diferenças que caracterizam os corredores africanos que vivem em
altitude são esbatidas quando os corredores caucasianos vão
viver para a altitude.
Verificou-se, em estudos com crianças quenianas, que
aquelas que tinham de percorrer longas distâncias para a
escola apresentavam um VO2max 30% superior ao daquelas
que viviam perto [29]. Portanto, os esforços recorrentes
de corrida dessas crianças eram a razão da sua potenciação
aeróbia. O treino é um aspeto essencial no desenvolvimento
de potencialidades intrínsecas a cada sujeito, já que Bale &
Sang [1] comprovaram que 14 dos 20 corredores quenianos
de elite que entrevistaram nunca correram para a escola, só
que treinaram com qualidade quando chegaram ao atletismo.
Esse é mais um estereótipo conceptual que a experiência não
comprova, já que o treino “natural” dessas crianças pode ser
perfeitamente substituído pelo treino “orientado” a que têm
acesso nos clubes escolares ou federados. Importa também reter que hoje em dia a maioria dos corredores de elite africanos
raramente vive nos seus países de origem e são deslocados,
desde muito cedo, e num processo de nomadização seletiva,
para os locais que permitam um melhor desenvolvimento
das suas capacidades atléticas, fundamentalmente através da
melhoria das condições sociais.
Mesmo que o treino em altitude que caracteriza alguns dos
meio-fundistas e fundistas africanos possa ter efeitos positivos
ao nível da eritrogénese, esta razão não parece ser determinante
para fazer a discriminação entre a elite africana e caucasiana.
Importa salientar que corredores quenianos, em altitude
(2000 m), atingem um VO2max de 68±1.4 ml.kg-1.min-1,
enquanto ao nível do mar conseguem 79,9 ± 1,4 ml.kg-1.min-1
[29], facto que evidencia a adaptação às condições específicas
do novo envolvimento. De igual forma, corredores africanos
e caucasianos, quando ascendem do nível do mar para a
164
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
altitude experimentam uma redução inicial de suprimento
de oxigénio, induzindo uma situação temporária de hipoxia
tecidular que afeta quer a treinabilidade quer a performance
em esforços de endurance [48].
A diáspora que caracteriza os “trabalhadores da corrida”
do leste africano faz-lhes perder algumas condições de base
e ganhar outras adaptadas aos seus novos envolvimentos,
pelo que a tese do determinismo “envolvimental” não tem
robustez suficiente para justificar a excelência competitiva
desses corredores.
Muitas das diferenças verificadas entre corredores africanos e caucasianos são circunstanciais. De uma forma geral,
quando são feitas correções em relação à mais reduzida massa
corporal, a capacidade de correr a um superior nível de esforço,
não pode ser justificada por diferenças verificadas ao nível do
VO2max, ventilação máxima, economia de corrida e limiar
anaeróbio[18,8].
O superior rendimento competitivo dos corredores
eritreus, que tem como base o menor stresse sistémico para
uma dada carga de esforço submáxima (a nível máximo, em
laboratório, as diferenças entre grupos esbate-se, beneficiando,
inclusive, os espanhóis), pode ter algo a ver com o perfil de
treino (carga + recuperação), que diferencia os grupos [8].
Na caracterização do treino dos corredores eritreus salienta-se o facto de realizarem menor volume de treino semanal,
menos sessões de treino por semana e de dormirem mais
horas que os seus pares espanhóis, o que permite uma melhor
recuperação entre treinos de elevada intensidade que são em
maior número nos corredores de elite. Na alta competição
todos os pormenores contam mesmo aqueles que por vezes
parecem menos importantes. O tempo de sono é de crucial
importância para uma melhor adaptação às cargas. O treino
não é só estímulo-carga; a recuperação é fundamental para a
regeneração eficaz de todos os sistemas orgânicos, desregulados temporariamente pelas cargas intensas características dos
atletas de elite. Treinar em intensidade é condição sine qua non
para elevar o nível competitivo de um atleta, mas isso só se
consegue se o organismo for capaz de recuperar convenientemente. Os corredores eritreus, tendencialmente, treinam menos, não fazem trabalho de força com pesos, que entendemos
não se justificar em corredores de meio-fundo e fundo e que
pode ser substituído por outro tipo de trabalho funcionalmente mais importante (e.g. correr na areia, rampas, etc.), e
descansam mais. Como sabemos que normalmente treinam
maior percentagem do tempo total de treino em intensidades
muito elevadas que os corredores caucasianos, tudo aponta
para uma eficaz conjugação de treino de maior intensidade
e superior tempo de recuperação. Talvez aí residam algumas
das razões que diferenciam os grupos estudados por Lucia et
al. [8]. Os dados de Coetzer et al. [18] permitem verificar que
apesar de os corredores africanos e caucasianos terem volumes
de treino similares, diferenciavam-se pelo facto de os atletas
africanos apresentarem uma maior percentagem de treino a
intensidades superiores a 80% do VO2max (36±18% contra
14±7%). Estas considerações são reforçadas pelas verificações
de Noakes [14] que verificou que as principais diferenças
entre os corredores africanos e europeus radicavam no perfil
do treino. Assim, enquanto os africanos dedicavam cerca de
1/3 do volume total de treino para trabalhar a intensidades
variando entre 80 e 100% do VO2max, os europeus somente
dedicavam cerca de 10%. Corroborando estes dados, Billat et
al. [22] verificaram que em corredores quenianos de 10.000m, aqueles que treinavam com intensidades de corrida superiores apresentavam um VO2max mais elevado e superior
performance que os corredores que treinavam a intensidades
de corrida mais baixas.
A análise da componente nutricional pode-nos trazer alguma luz discriminativa entre corredores africanos e caucasianos.
Os corredores quenianos estudados por Fudge et al. [49]
têm uma ingestão elevada de carbohidratos (67,3 ± 7,8%),
reduzida de gorduras (17,4 ± 3,9%) e equilibrada de proteínas
(15,3 ± 4,0%) o que contratasta parcialmente com o perfil de
ingestão nutricional da elite portuguesa de meio fundo e fundo: carbohidratos (51,1 ± 16,2%), gorduras (30,8 ± 12,6%)
e proteínas (17,6 ± 5,0%) [50]. Uma grande disponibilidade
de carbohidratos permitirá uma mais eficaz recuperação das
reservas musculares e hepáticas de glicogénio que é o substrato energético por excelência para os corredores de elite de
meio-fundo e fundo. No entanto, algumas particularidades
devem-nos fazer refletir sobre o comportamento nutricional
de alguns corredores. Fudge et al. [49] verificaram que, em
períodos de treino intenso, alguns corredores Quenianos
apresentavam um balanço energético negativo, i.e., ingeriam
menos calorias de que as que gastavam. Ora tal prática pode
conduzir à redução da massa corporal que combinado com a
elevada ingestão de carbohidratos pode ter efeitos positivos
sobre o custo energético da corrida. No entanto, tal prática
pode, no longo termo, produzir efeitos adversos na saúde e
rendimento dos atletas. Tais práticas restritivas são comuns
em meio-fundistas e fundistas [50] e devem merecer correção
por parte dos responsáveis do processo de treino. Defendemos
que a nutrição não faz um atleta de elite mas pode constituir-se como obstáculo a que um atleta de elite manifeste a sua
excelência. Malgrado as diferenças verificadas, não podemos
colocar no perfil de ingestão nutricional a razão do superior
potencial performativo dos corredores africanos.
Em relação às adaptações induzidas pelo perfil de treino
ou atividade nas fases de desenvolvimento auxológico que
antecedem a competição, importa salientar que enquanto
os jovens urbanos quenianos apresentam o mesmo VO2max
relativo que os jovens dinamarqueses não treinados, os jovens da mesma idade do Quénia rural atingem um VO2max
relativo, 30% superior que os seus pares urbanos ou dinamarqueses [29]. Estes autores concluem que um período de
juventude fisicamente ativa, combinada mais tarde com um
treino de elevada intensidade, conduz à superior capacidade
aeróbia aliada a uma boa economia de corrida que fazem o
sucesso dos corredores quenianos. Pensamos que estes fatores
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
não justificam, por si só, a superior valia competitiva dos
corredores quenianos, no entanto, o declínio competitivo
no meio-fundo e fundo nas sociedades ocidentais pode estar
relacionado com a tendência para a hipocinésia e obesidade
que caracteriza os seus adolescentes. O perfil de atividade
dos jovens das zonas rurais do Quénia e Etiópia, que têm
nos longos estímulos de marcha e corrida que fazem parte
da sua vida diária, uma forma de treino natural, pode ser um
fator básico para uma melhor aptidão aeróbia e uma melhor
resiliência à fadiga. No entanto, estas características podem
ser obtidas por meio de um processo de treino sistemático
e bem orientado.
O êxito dos atletas negros em várias modalidades desportivas criou a perceção generalizada da sua superioridade atlética
que é potenciada pelos meios de comunicação de massas [26].
Cria-se, assim, um ambiente psicológico e social favorável aos
atletas africanos em detrimento dos atletas caucasianos. A
ameaça dos estereótipos que afirmam a superioridade negra
nas corridas de meio-fundo e fundo funciona como efeito
bloqueador para os atletas brancos e age positivamente sobre
os atletas negros [51]. As atitudes para com os estereótipos
reinantes, assentes em aspetos cognitivos, afetivos e comportamentais, podem dar vantagens competitivas aos atletas
africanos.
Correr rápido consegue-o as elites de todos os países; correr
rápido quando importa e controlar bem o stresse competitivo
é uma característica de alguns atletas africanos com especial
relevo para os corredores provenientes da tribo Kalenjin [52].
Algumas características do processo de desenvolvimento ontológico da tribo Kalenjin podem, em parte, explicar o êxito dos
seus corredores. Desde o berço que os jovens vivem debaixo de
pressão de afirmação social que atinge provavelmente o zénite
na circuncisão, momento chave na passagem à adultícia que
pode levar ao banimento da tribo no caso de demonstração
de medo e acentuada cedência à dor [2]. A superação desta
prova iniciática promove uma resiliência emocional única
que pode reverter positivamente para o controlo da ansiedade
pré-competitiva.
Também o fator exemplo pode ser decisivo na criação de
um ambiente de forte emulação e autossuperação. Segundo
La Torre et al. [53], a oportunidade de os jovens talentos
de treinarem com atletas experientes repletos de sucesso,
pode ser um fator determinante para a diferença. No nosso
entender, este processo de treino em grupo pode ter vantagens e desvantagens. Um processo precoce de treino de
elevada intensidade pode bloquear o nível de progressão de
atletas jovens. Contudo, tal processo pode funcionar como
um meio de seleção natural permitindo a “sobrevivência”
competitiva dos mais aptos geneticamente. Temos de assumir
com clareza e coragem que a alta competição é assunto para
muito poucos.
Um fator pode ser especialmente importante na competição de alto nível – a vontade de ganhar. Segundo o fisiologista
Tim Noakes, todos os corredores de meio-fundo e fundo
165
de nível internacional apresentam, virtualmente, a mesma
condição física, pelo que a luta pelas medalhas pode estar
apoiada no empenhamento neurológico correspondente a
uma superior vontade de ganhar [48]. No entanto, desde
sempre o desporto foi um campo fértil para a criação de
estereótipos que, quando não convenientemente resolvidos
pelos treinadores se fixam como verdadeiras ameaças psicológicas inibindo os atletas de expressar a totalidade das suas
competências atléticas [52]. Também Hamilton [54] postula
que a vantagem dos atletas africanos, hoje em dia, radica mais
em aspetos psicológicos que fisiológicos já que os atletas do
Leste Africano desenvolveram uma aura de invencibilidade
que os potencia mentalmente enquanto reduz a capacidade
mental competitiva dos seus pares caucasianos.
Conclusão
A abordagem reducionista e segmentar em desporto é
sempre um meio fértil de geração de mal-entendidos e juízos
enviesados. A performance do meio-fundo e fundo não pode
ser esclarecida através de um simples indicador. As abordagens,
antropométrica, bioquímica e fisiológica da performance no
meio-fundo e fundo não nos dão dados suficientemente robustos que nos permitam justificar as diferenças competitivas
entre corredores de meio-fundo e fundo africanos e caucasianos. Se tivéssemos de selecionar os fatores que mais podem
contribuir para as diferenças performativas que separam os
corredores africanos dos caucasianos, teríamos de eleger o
perfil do treino e as expressões psicológicas e emocionais dos
atletas.
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
168
REVISÃO
O exercício físico como terapia não farmacológica
na disfunção endotelial do diabetes mellitus tipo 2
Physical exercise as non-pharmacological therapy
of the endothelial dysfunction in diabetes mellitus 2
Cristiane Gonçalves da Mota*, Wagner Silva Dantas**
*Prof. Educação Física do IMREA HCFMUSP, Instituto de Medicina Física e Reabilitação do Hospital das Clinicas da Universidade de São Paulo, **Docente Programa de Pós Graduação Educação Física da Universidade Gama Filho
Resumo
O objetivo desta pesquisa de literatura foi discutir a prática do
exercício físico como terapia não farmacológica no tratamento da
disfunção endotelial no diabetes mellitus tipo 2 (DM2). Foi realizada
uma revisão bibliográfica nas bases de dados científicas LILACS,
Scielo e Pubmed utilizando como palavras-chaves: disfunção endotelial, diabetes mellitus, óxido nítrico, endotélio vascular, shear-stress e exercício físico nos idiomas: português e inglês. Os artigos
revistos foram publicados no período de 1994 à 2008. Com isso,
observou-se que o endotélio vascular preservado auxilia na prevenção
da formação de trombos por meio de mecanismos antitrombóticos
e pró-trombóticos, mantendo assim a homeostase. O radical livre
conhecido como óxido nítrico (NO), liberado por meio do estresse
de cisalhamento (shear-stress), causa vasodilatação dependente do
endotélio, o que auxilia no fluxo sanguíneo. A disfunção endotelial
ocorre anteriormente à formação da arteriosclerose que pode estar
ligada a diversos outros fatores de risco para a doença cardiovascular
(DAC) como hipertensão arterial, hiperlipidemia e DM2, assim
como também a resistência à insulina. Indivíduos com disfunção
endotelial submetidos ao treinamento físico apresentam melhora
em sua capacidade funcional e na vasodilatação dependente do
endotélio devido ao aumento do fluxo sanguíneo e a alteração dos
níveis das proteínas denominadas marcadores inflamatórios como
a PCR. A prática de exercícios físicos auxilia no tratamento clínico
e melhora do prognóstico da doença.
Abstract
This literature review aimed to discuss physical exercises as non-pharmacological therapy of endothelial dysfunction in diabetes
mellitus 2 (DM2). A preserved vascular endothelium contributes
to prevent thrombus formation due to anti-thrombotic and pro-thrombotic mechanisms, maintaining homeostasis. Free radical
as nitric oxide (NO) released by shear-stress causes endothelium-dependent vasodilation, which helps blood flow. Endothelial dysfunction occurs first at the formation of atherosclerosis and can be
connected to multiple risk factors for cardiovascular disease (CAD)
such as hypertension, hyperlipidemia and diabetes mellitus, as well
as insulin resistance. Individuals with endothelial dysfunction undergoing physical training show improvement in functional capacity,
endothelium-dependent vasodilation due to increased blood flow
and changes in the levels of inflammatory markers proteins like
CRP. In conclusion, physical exercises helps clinical treatment and
improves the prognosis of the disease.
Key-words: endothelial dysfunction, exercise, nitric oxide.
Palavras-chave: disfunção endotelial, exercício, óxido nítrico.
Recebido em 16 de abril de 2012; aceito em 25 de setembro de 2012.
Endereço para correspondência: Cristiane Gonçalves da Mota, Rua Príncipe da Beira, 260, 03211-150 São Paulo SP, E-mail:
[email protected]
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
Introdução
O endotélio vascular é um tecido endócrino dinâmico que
tem como função regular a contratilidade, atividades mitogênicas e secretórias na parede dos vasos e manter o equilíbrio
funcional no lúmen vascular.
Estudos verificaram que o relaxamento vascular induzido
por acetilcolina foi dependente da presença do endotélio e
afirmou-se que este efeito ocorreu mediado por um fator
conhecido, posteriormente, como fator relaxante derivado
do endotélio (EDRF). Mais tarde, notou-se que esse fator era
um radical livre, o óxido nítrico (NO), mediador de diversos
fenômenos fisiológicos [2,3].
A disfunção endotelial ocorre primariamente à formação
da ateriosclerose e pode estar ligada a diversos outros fatores de
risco para a doença cardiovascular (DAC) como hipertensão
arterial, hiperlipidemia e diabetes mellitus 2 (DM2). Esse
quadro, quando crônico, faz com que o endotélio perda sua
função protetora, desenvolvendo assim a disfunção endotelial.
A prática de exercícios físicos melhora a capacidade funcional, promove vasodilatação dos vasos sanguíneos, aumento
do fluxo sanguíneo, dentre outros benefícios. A prescrição de
treinamento físico para pessoas com disfunção endotelial no
DM2 pode ser um meio de intervenção não farmacológico
no tratamento clínico desses indivíduos, o que demonstraria
que um método terapêutico não invasivo, como é o caso do
exercício, pode propiciar melhora na capacidade funcional
desses indivíduos [4,5].
As artérias são constituídas por paredes formadas por três
camadas de tecidos que envolvem um espaço oco denominado
luz arterial. A túnica interna compõe-se por epitélio escamoso
simples chamado endotélio vascular.
Como camada monocelular que reveste toda a superfície
luminal de todos os vasos sanguíneos, o endotélio vascular
forma uma interface localizada entre a circulação e a parede
vascular. O organismo de um ser humano possui aproximadamente uma área maior que 1500 m2 de endotélio, um
tecido ativo e dinâmico que controla funções essenciais ao
organismo. Nesse sentido, a integridade do endotélio é importante para a regulação do fluxo sanguíneo, proteção contra
vasoespasmos e formação de trombos.
Entre as diversas funções do endotélio temos:
• Barreira seletivamente permeável contra a entrada para
o interior da parede dos vasos de determinadas espécies
moleculares e componentes celulares, o que forma um
ambiente bem controlado;
• Formação de substâncias vasodilatadoras e antiplaquetárias,
fator de relaxamento dependente do endotélio (EDRF), fator de hiperpolarização dependente do endotélio (EDHF),
prostaglandina (PG), E2, prostaciclina e adenosina;
• Formação de substâncias vasoconstritoras e ativadoras da
agregação plaquetária: fatores de contração derivados do
endotélio – endotelinas, endoperóxidos, leucotrienos;
169
• Receptor-moderador de elementos vasoativos e envolvidos
na agregação plaquetária e coagulação como: acetilcolina,
serotonina, trombina, nucleotídeos da adenosina, bradicinina, vasopressina e ácido araquidônico;
• Síntese de fatores trombogênicos: colágeno, fibronectina,
tromboplastina tissular, trombospondina, fator de Von
Willebrand (vW), fator ativador de plaquetas (PAF), fixação dos fatores Ixa e Xa, atividade protrombinase, formação
de inibidores da fibrinólise: inibidor do t-PA;
• Secretar fatores mitogênicos e inibidores do crescimento;
• Metabolismo e clearance das lipoproteínas.
O endotélio preservado provê uma interface não trombogênica entre os vasos e os componentes sanguíneos, ou seja,
as células endoteliais possuem em sua superfície mecanismos
anti-trombóticos e pró-trombóticos que, em situação normal,
mantém-se em equilíbrio, o que preserva a não formação de
trombos, conservando o bom fluído do sangue e modulando a vasomotricidade, a regulação do calibre dos vasos às
modificações hemodinâmicas e humorais locais e também à
estrutura vascular [1].
As células endoteliais basicamente têm as mesmas características das demais células do corpo humano. Diversas
proteínas contráteis cruzam o citoplasma como: actina,
miosina, tropomiosina e outros, que permitem a atividade
motora. O endotélio pode produzir uma grande variedade
de moléculas diferentes, agonistas e antagonistas e, assim,
mantém a homeostase. Também produz moléculas vasodilatadoras e vasoconstritoras, coagulantes e anticoagulantes,
inflamatórias e anti-inflamatórias, oxidantes e anti-oxidantes
e, quando perde essa capacidade de manter o equilíbrio,
haverá como consequência a invasão de lipídeos e leucócitos
no endotélio.
Dessa forma, a resposta inflamatória é estimulada e há a
formação de placas de gorduras. Se esse processo persistir, as
placas de gorduras aumentam o que acarretará formação de
trombos (trombogênese) e a oclusão vascular por formação
aterosclerótica [5,6].
Óxido nítrico
Na década de 80, Furchogott e Zawadzki verificaram
que o relaxamento vascular induzido por acetilcolina foi dependente da presença do endotélio e comprovaram que este
efeito ocorreu mediado por um fator humoral lábil conhecido
posteriormente como relaxamento dependente do endotélio
(EDRF). Em 1987, comprovou-se que esse relaxamento dependente do endotélio era um radical livre conhecido como
óxido nítrico (NO) [2,6].
O NO é uma molécula gasosa simples encontrada no ar
atmosférico em pequenas quantidades, muito tóxico devido à
presença de radical livre. Ao ser diluído, essa molécula apresenta uma meia vida de menos de 10 segundos devido à oxidação
rápida de nitrito e nitrato. O NO liga-se à hemoglobina e a
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
170
outras proteínas que possuem o núcleo heme, levando ao fim
sua atividade biológica [5,7].
A transformação da L-arginina, um aminoácido essencial produzido no organismo, forma o NO. A L-arginina
é transformada em NG-hidroxi-L-arginina com a presença
de nicotinamida-adeninadinucleotídeo-fostato-hidrogênio
(NADPH) e Ca2+ sendo necessário mais NADPH e O2 para
a síntese de L-citrulina e NO.
Figura 1 - Síntese do óxido nítrico a partir da L-arginina.
NADPH
NADPH
L-arginina a+2 H-hidroxi-L-arginina
L-citulina+
O2
C
óxido nítrico (NO)
“Nas células do endotélio vascular, na presença de oxigênio
molecular, o terminal guanidino nitrogenado na L-arginina
produz o radical livre gasoso NO e L-citrulina em um
processo catalisado pela enzima óxido-nítrico-sintase“ [2].
As funções do NO são complexas e antagônicas. Uma
característica marcante dessa molécula é sua capacidade de
ser benéfica ou altamente tóxica de acordo com sua concentração ou depuração tecidual. No endotélio vascular há continuamente liberação de NO, responsável pela manutenção
do fluxo sanguíneo tecidual e controle do extravasamento
tecidual. O NO, mensageiro sintetizado no endotélio, tem
função vasodilatadora fisiológica. Com os estudos de EDRF
por Furchgott, a ação vasoprotetora do NO é bem conhecida
por essa molécula antagonizar as contrações da musculatura
lisa vascular e inibir a ativação plaquetária.
O NO é mediador de diversos fenômenos como relaxamento dependente do endotélio, citoxidade mediada por macrófagos, inibição da ativação plaquetária e depressão sináptica
em longo prazo. A ação do NO foi verificada em endotélio,
cerebelo, nervos não adrenérgicos e não colinérgicos (NANC),
macrófagos, neutrófilos, rins, células epiteliais pulmonares, mucosa gastrintestinal e miocárdio. A vasodilatação dependente do
endotélio está diminuída na HAS, DM tipo II e doença arterial
coronariana. No sistema circulatório, o NO participa com a
cascata fibrinolítica e trombótica associados a danos endoteliais.
A deficiência de NO associa-se a trombose plaquetária e pode
promover restenose, aterogênese e injúria tecidual [2].
Shear-stress
A aceleração da velocidade do sangue na corrente sanguínea conduz a vasodilatação proporcional à quantidade
de NO liberado pelo endotélio. Nas membranas das células
endoteliais há íons especializados que funcionam como canaletas que conduzem o estímulo em resposta ao shear-stress.
Há uma hiperpolarização da célula endotelial e consequentemente, entrada de Ca2+, ativando a enzima NOS-III e e
então temos, a formação de NO [7,8].
A regulação da eNOS (oxido nítrico sintase endotelial)
pode ocorrer em curto espaço de tempo ou de forma imediata.
Aparentemente, a liberação de cálcio parece ser o principal
estímulo exigido para que o eNOS seja ativado imediatamente. Dessa maneira, as reações que elevam os níveis de
cálcio intracelular elevarão igualmente a produção de NO
assim como de acetilcolina, bradiquinina, adenosina difosfato
(ADP) e serotonina. O NO pode também atuar como um
regulador negativo da sua própria síntese. Os fatores envolvidos na regulação em longo prazo da eNOS são: shear-stress,
citocinas e estrógenos.
Endotélio vascular e doenças cardiovasculares
Moléculas oxidantes como o aníon superóxido (O2-),
peróxido de hidrogênio (H2O2), hidroxila radical (HO), ácido clorídrico (HCl) são sintetizados como consequência do
metabolismo aeróbio natural. Estas moléculas são altamente
reativas com outras moléculas biológicas conhecidas como
espécies reativas de oxigênio (ERO). Em circunstâncias fisiológicas normais, a produção de ERO é equilibrada por meio de
um eficiente sistema de moléculas antioxidantes. Esse sistema
promove a neutralização, impedindo danos oxidativos [5,9].
Nos tecidos, enzimas antioxidantes, como a superóxido
dismutase e glutamina peroxidase, têm importante função
na conversão de ERO em água. Vários fatores antioxidantes
a vitamina E, beta-caroteno e vitamina C solúvel em água
protegem o plasma da peroxidação dos lipídeos, eliminando
o aníon superóxido. Esse sistema de regulação que favorece
a oxidação conhecido como estresse oxidativo pode causar
efeitos prejudiciais na função celular e no tecido alvo, tendo
em vista que os fatores de risco cardiovascular potencializam
estresse oxidativo.
As moléculas de LDL-colesterol oxidada (LDL-ox) são
encontradas em todas as lesões ateroscleróticas e geram
anticorpos capazes de neutralizá-los. O ataque do LDL-ox
na camada íntima arterial promove a liberação dos fosfolipídeos que ativam as células endoteliais, gerando a adesão
dessas moléculas no endotélio e, assim, atraindo moléculas
primárias do sistema imunológico: os monócitos. O LDL-ox
encontra-se nas camadas subendoteliais e auxiliam a ativar os
monócitos, que se transformam em macrófagos e, então, são
fagocitados em seus receptores. Assim, o aumento da atividade
pró-inflamatório e aumento dos fatores de crescimento celular
provocam uma deficiência endotelial orgânica e agregação
de plaquetas.
Há uma relação entre inflamação e trombose. A inflamação é induzida por moléculas pré-coagulantes nas células
endoteliais tais como o fator de Willebrand e os fatores de
ativação do inibidor plasmanogênico, PAI-1 e PAI-2. As células inflamatórias produzem moléculas que contribuem para a
formação de trombos como a trombina, que contribuem para
a ativação mitogênica intensa potencializando para a agregação
plaquetária. A hipótese inicial da aterosclerose é a disfunção
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
endotelial, pelo reconhecimento de que o endotélio tem função essencial na manutenção das características de fluidez do
sangue, tônus vascular e sua permeabilidade, sendo o óxido
nítrico o principal protetor contra a moléstia arterosclerótica
por inibir as diversas vias envolvidas na aterogênese.
O HDL-colesterol e as apolipoproteínas A-1 têm efeitos
protetores e antiaterogênicos, atribuídos a agregação de moléculas da transição de metais e à presença da enzima paraoxinase, carregada predominantemente pelas apolipoproteínas
A-1 e J, contendo partículas de HDL que tem um excelente
poder antioxidante.
Disfunção endotelial e diabetes mellitus tipo 2
A disfunção endotelial (DE) ocorre precocemente à patogênese da aterosclerose, desempenhando papel chave na
formação de doenças vasculares e suas complicações. Devido
à localização do endotélio vascular, as células endoteliais respondem prontamente à presença de fatores que provoquem
danos à superfície endotelial. Dessa maneira, a contínua
agressão dos fatores de risco cardiovascular ao endotélio
propicia a perda de maneira progressiva da função protetora
fisiológica, passando a ser fonte de elementos que participarão da progressão de doença aterosclerótica. Há então uma
modificação em suas funções regulatórias que resultam na
disfunção endotelial [8,10].
A disfunção endotelial identificada como um marcador precoce da moléstia cardiovascular apresenta-se como
prognóstico de coronariopatias, mesmo antes de alterações
ateroscleróticas diagnosticadas por métodos invasivos [8,9].
A doença arterosclerótica avançada é a principal causa de
morte em pacientes com DM2. O evento crítico inicial na formação da arterosclerose pode ser causado por lesão endotelial
com consequente agregação plaquetária no local lesionado. A
elevação dos valores plasmáticos do fator de von Willebrand
evidenciam a ocorrência da disfunção endotelial no DM2.
Outros fatores de risco cardiovascular como hipertensão
arterial e anormalidades do metabolismo lipídico existentes
em pacientes diabéticos tipo 2 não explicam totalmente o
aumento no índice de mortalidade cardiovascular [8,10,11].
Algumas pesquisas observaram redução da resposta
endotélio-dependente, bem como da resposta vascular independente do endotélio sendo demonstrado comprometimento
da atividade do eNOS com resposta normal ao NO exógeno.
Um fator que pode ter influenciado nas conclusões dessas
pesquisas é a presença ou não da microalbuminúria, tendo
em vista que o seu desenvolvimento no paciente diabético
pode ocorrer devido a um progressivo grau de comprometimento endotelial. Os mecanismos evolutivos do DM2 para
a disfunção endotelial não estão totalmente esclarecidos,
embora a hiperglicemia seja um fator importante na evolução
da patologia.
Pesquisas experimentais em células endoteliais aórticas
humanas demonstraram que a formação e liberação do eNOS
171
não diminui após a exposição a altas concentrações de glicose.
Porém, a produção de ânions superóxido (O2-) com o NO é
muito rápida e em consequência, produziria o peroxinitrito
que pode ser um desencadeador da disfunção endotelial. Sendo assim, a produção de NO basal estava significativamente
aumentada nas células com alto nível de glicose [8,12].
A relação entre DM1 e doença cardiovascular é bem conhecida e tem sido atribuída à associação entre hiperglicemia
crônica, disfunção endotelial (DE) e inflamação crônica. A
hiperglicemia crônica é um importante preditor de complicações micro e macrovasculares [8]. A síndrome de resistência
à insulina tem papel central para o desenvolvimento da disfunção endotelial, causando estresse oxidativo e doença macrovascular, acometimento que está presente com frequên­cia
no diagnóstico do DM2 e associado a coronariopatia, doença
vascular periférica e cerebrovascular, culminando em maior
morbidade e mortalidade [9,13].
Estudos experimentais em animais diabéticos demonstraram alteração na vasodilatação endotélio-dependente
em diferentes leitos vasculares de animais diabéticos. Em
relação à hiperglicemia, pesquisas expondo artérias a elevadas
concentrações de glicose causaram alterações semelhantes
às encontradas experimentalmente em animais diabéticos.
Dessa forma, a hiperglicemia pode representar fator de risco
independente para a disfunção endotelial [13,14].
Pesquisas realizadas em indivíduos magros, obesos e
diabéticos do tipo 2 demonstraram que o aumento do fluxo
nos membros correlaciona-se diretamente com a captação da
glicose e que esse efeito era bloqueado com a inibição do óxido
nítrico e que obesos sem DM2 tinham disfunção endotelial
semelhante aos obesos com DM2, o que demonstra que não
só a hiperglicemia, mas também a obesidade contribui para
a disfunção endotelial [10,15].
O exercício como terapia não-farmacológica na
disfunção endotelial
Dentre as várias terapêuticas empregadas no processo de
disfunção endotelial, o enfoque principal é dado à prevenção primária, que inclui mudanças no estilo de vida (dieta e
exercício físico). Tal mudança, em conjunto ou separado, a
aplicação de medidas farmacológicas como uso de inibidores
da enzima conversora da angiotensina e estatinas, além de medidas clínicas como a revascularização percutânea, demonstra
melhora na redução do processo inflamatório [14,16].
A relação entre exercício físico e risco de eventos coronarianos demonstram uma relação íntima entre exercício físico
regular e risco reduzido de mortalidade e morbidez para doença arterial coronariana (DAC). Esses estudos apresentaram
evidências de que atividade física regular de moderada intensidade diminui os sintomas de DAC, melhora a capacidade
funcional [12].
Algumas pesquisas verificaram o efeito do exercício físico
em marcadores inflamatórios como a proteína C reativa
172
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
(PCR), IL-6 o, TNF-alpha e o fibrinogênio. Estas proteínas
apresentam grande relação para o desenvolvimento de DAC,
sendo a IL-6 e o TNF-alpha liberados pelo sistema imunológico. Recentemente demonstrou-se que os níveis destas
proteínas também são afetados significativamente por células
do tecido adiposo e músculo esquelético em indivíduos saudáveis e patológicos, estimulando os hepatócitos a produzir
a PCR e o fibrinogênio [17].
Estudo envolvendo 652 homens e mulheres brancos
e negros, saudáveis, foram submetidos a 20 semanas de
exercícios aeróbios em intensidade moderada. Verificou-se
que houve alterações positivas nas concentrações de PCR,
além de uma redução de 24% da concentração de PCR (p
< 0,001), independentemente de sexo e cor, acompanhado
de um declínio em alguns fatores de risco para DAC, como
resistência à insulina e peso corporal [12,18].
Outra pesquisa avaliou 3075 homens e mulheres saudáveis, com idade média de 70 a 79 anos, negros e brancos
praticantes de atividade física, na qual se verificou que as
concentrações de IL-6, TNF-alpha e PCR diminuíam em
resposta ao aumento dos níveis de exercício físico [12].
Durante o exercício físico dinâmico, observa-se aumento
do débito cardíaco, acompanhado pelo aumento do atrito
entre o sangue circulante e a parede dos vasos (shear-stress),
podendo desencadear uma ativação simultânea da produção
de óxido nítrico e de espécies reativas de oxigênio. Sugere-se que esse efeito agudo do exercício físico na formação
de óxido nítrico pode, cronicamente, resultar em benéficas
adaptações vasculares, podendo levar à melhora da função
endotelial [4,19].
Em um estudo com 35 indivíduos, 18 DM1, 17 DM2 e
11 controles, usando a tomografia por emissão de pósitrons
como avaliação, verificou-se que, nos pacientes com DM, a
função endotelial estava prejudicada, o que não aconteceu
no grupo controle. A principal nova descoberta dos últimos
anos é de que o exercício físico melhora a função endotelial,
prejudicada na SM e DM. Outro estudo com 15 pacientes
diabéticos, divididos em dois grupos, o grupo que participou
de 8 semanas de treinamento de exercício aeróbio, apresentou
melhora da função endotelial [13].
Foi realizada uma análise de 27 pacientes DM1 e DM2
com exame de sangue laboratorial, que praticaram exercício
físico aeróbio 3 vezes por semana durante 3 meses, com
intensidade de 65% a 75% da FC máxima obtida por teste
de esforço. Esses pacientes apresentaram que, em adição a
melhora de outras anormalidades metabólicas, o exercício
físico normalizou as altas concentrações de trombomodulina
(TM) no plasma [13].
É conhecido que a melhora da função endotelial é um
dos inúmeros fatores benéficos que o treinamento físico
aeróbio promove no sistema cardiovascular sendo esse efeito
positivo observado em indivíduos saudáveis, embora seja mais
evidente em indivíduos portadores de doenças ou fatores de
risco cardiovascular. Tal melhora da função endotelial com
o treinamento físico parece ser decorrente da maior expressão e atividade da eNOS, bem como da enzima superóxido
dismutase, o que garante sua síntese aumentada e inativação
diminuída [4,20].
O exercício físico é um meio eficaz em indivíduos com
DM2 e disfunção endotelial. As pesquisas demonstram
cada vez mais evidências de que o exercício físico pode
alterar o controle da resistência vascular. A vasodilatação
dependente do endotélio, não está prejudicada somente
com a doença cardiovascular, mas também com fatores de
risco vasculares convencionais, como na síndrome metabólica. O exercício físico ou aumentos crônicos no fluxo de
sangue induzem a melhora na função vascular dependente
do endotélio [14].
Conclusão
A disfunção endotelial ocorre, de forma precoce, na
formação da arterosclerose e, dessa forma, desempenha papel fundamental na formação de doenças vasculares e suas
complicações. Dentre as diversas terapêuticas desempenhadas
no processo de disfunção endotelial, a mudança no estilo de
vida tem sido o principal enfoque, e isso inclui a prática de
exercícios físicos.
Diversos estudos têm demonstrado que atividade física
regular de moderada intensidade diminui os sintomas de
doença arterial coronariana, melhora a capacidade funcional
e a qualidade de vida dos indivíduos com disfunção endotelial
e isso ocorre por uma melhora na função vascular dependente
do endotélio.
As pesquisas aqui apresentadas relataram que as melhoras
apresentadas ocorreram em pacientes submetidos a exercícios
físicos aeróbios, devido à correlação positiva entre esse tipo
de treinamento e a vasodilatação dependente do endotélio. O
treinamento resistido na disfunção endotelial tem sido pouco
explorado com resultados contraditórios.
Em relação aos pacientes portadores de DM2 com disfunção endotelial, verificou-se que o treinamento aeróbio
traz grande melhora nas anormalidades metabólicas ligadas
à disfunção endotelial. Sendo assim, é possível afirmar que o
treinamento físico é uma estratégia terapêutica importante no
tratamento da disfunção endotelial nos pacientes com DM2.
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
174
REVISÃO
O papel do estresse oxidativo e do exercício físico
na doença de Parkinson
The role of oxidative stress and exercise in Parkinson disease
Talita Tuon M.Sc.*, Ricardo A. Pinho, D.Sc.*
*Laboratório de Bioquímica e Fisiologia do Exercício (PPGCS/UNESC, Criciúma, SC
Resumo
A Doença de Parkinson (DP) é uma desordem neurodegenerativa
que compro­mete os neurônios dopaminérgicos da substância nigra da
pars compacta, a qual leva a uma debilitante disfunção motora. O
estresse oxidativo tem sido constantemente associado com o desenvolvimento da DP devido às elevadas condições oxidativas que
predomina nos neurônios dopaminérgicos. Acredita-se que o exercício físico regular exerça um efeito neuroprotetor sobre a resposta
neuroquímica e comportamental. Pretende-se com este estu­do verificar
na literatura os benefícios do exercício físico (EF) no envolvimento da
disfunção mitocondrial e do estresse oxidativo, os quais exercem
um papel importante na patogênese desta enfermidade. Com este
estudo, pôde-se observar que existem poucos trabalhos na literatura
enfocando esta temática, mas parece haver uma tendência em acreditar
que o exercício físico regular é benéfico, pois pode proporcionar valor
terapêutico para o tratamento da doença de Parkinson, uma ferramenta
que auxilia a terapia medicamentosa.
Abstract
Parkinson disease (PD) is a neurodegenerative disorder that
compromises the dopaminergic neurons of the substantia nigra pars
compacta, which leads to motor dysfunction. Oxidative stress has
been consistently associated with the development of PD due to high
oxidative conditions that predominate in dopaminergic neurons.
It is believed that regular physical activity exerts a neuroprotective
effects on the neurochemical and behavioral response. The aim of
this literature review was to verify the benefits of physical exercise
in the involvement of mitochondrial dysfunction and oxidative
stress, which plays an important role in the pathogenesis of this
disease. It was noted that few studies in the literature focused on this
theme, but there seems a tendency to believe that regular exercise
is beneficial because it can provide therapeutic value for treatment
of Parkinson’s disease and help the drug therapy.
Key-words: exercise, oxidative stress, reactive oxygen species,
mitochondrial dysfunction.
Palavras-chave: exercício físico, estresse oxidativo, espécies
reativas de oxigênio, disfunção mitocondrial.
Recebido em 6 de dezembro de 2011; aceito em 12 de junho de 2012.
Endereço para correspondência: Talita Tuon, Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC), Laboratório de Fisiologia e
Bioquímica do Exercício, Av. Universitária, 1105, 88806-000 Criciúma SC, Tel: (48) 431-2622, E-mail: [email protected]
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
Introdução
A doença de Parkinson (DP) é uma doença neurodegenerativa, a segunda mais comum após a doença de Alzheimer,
acomete em torno de 1% da população com idade acima de
60 anos [1,2]. É caracterizada por degeneração seletiva em
múltiplas áreas do sistema nervoso central (SNC), com aparecimento de alterações morfológicas, com perda progressiva
de neurônios dopaminérgicos, particularmente corpos de
Lewy, acometendo núcleos motores dorsais e núcleos e bulbos
olfatórios, seguindo do locus ceruleus e da pars compacta da
substância nigra levando a uma debilitante disfunção motora
[3,4]. Através da avaliação clínica são identificados sinais e
sintomas como bradicinesia associada a um destes outros
sintomas: tremor de repouso, rigidez ou instabilidade postural
[1,2]. Os sintomas clínicos da DP só aparecem quando os
níveis de dopamina estão reduzidos com valores superiores a
60% do que o normal.
Embora a patogênese da doença permaneça incerta, fatores ambientais, fator genético, envelhecimento, disfunção
mitocondrial, estresse oxidativo e apoptose são importantes
fatores contribuintes [5,6]. Diversos estudos têm sugerido
o exercício físico como agente importante na manutenção
do metabolismo oxidativo e no estado redox cerebral [2-4].
Modelos experimentais de parkinsonismo com neurotoxinas como 6 OHDA (6-hidroxidopamina) ou MPTP
(1-metil-4-fenil-1, 2,3,6 – tetraidropiridina), foram a primeira
observação de que existiria uma disfunção mitocondrial e
formação de estresse oxidativo na DP [5,6]. Diversos estudos
têm sugerido o exercício físico como agente importante na
manutenção do metabolismo oxidativo e no estado redox
cerebral [2-4].
Os efeitos benéficos do exercício físico para pacientes
com DP têm sido relatados em muitos estudos. O exercício físico melhora o desempenho motor [7], aumento da
capacidade cognitiva [8] e das atividades diárias [9], e reduz
a incidência e mortalidade da DP [10,11]. Em modelo animal, o exercício tem sido relatado como ativador do sistema
dopaminérgico, aumentando a disponibilidade de dopamina
(DA) no estriado [12]. Em particular, o exercício aumenta a
recuperação funcional após lesões no estriado [13], além de
estimular a síntese de DA no estriado de ratos com epilepsia
[14]. Foi recentemente demonstrado que o treinamento
motor de reabilitação e o treinamento em esteira ergométrica
atenuam déficits comportamentais neuroquímicos induzidos
por 6-OHDA em ratos [15,16]. Além disso, estudos têm demostrado que o ambiente enriquecido incluindo o exercício
exerce um efeito protetor contra morte celular neuronal na
substância nigra de camundongos tratados com MPTP. Estes
resultados levantaram a possibilidade de que o exercício possa
reduzir a vulnerabilidade de neurônios dopaminérgicos por
6-OHDA [17].
Vários mecanismos estão envolvidos no mecanismo da
degeneração neuronal na DP. Estes incluem formação de
175
radicais livres e estresse oxidativo, disfunção mitocondrial,
excitotoxicidade, citotoxicidade de cálcio, deficiência do fator
trófico, processos inflamatórios, fatores genéticos, fatores de
impacto ambiental, ação tóxica do ácido nítrico óxido e apoptose os quais podem interagir e ampliar um ciclo vicioso de
toxicidade neuronal levando a disfunção, atrofia e, finalmente,
a morte celular. No presente estudo, nós revisamos os efeitos
do exercício físico, sobre a DP, disfunção mitocondrial, morte
celular neuronal dopaminérgica e estresse oxidativo [17,18].
Estresse oxidativo e doença de Parkinson
O estresse oxidativo tem sido constantemente associado
com o desenvolvimento da DP devido às elevadas condições
oxidativas que predomina nos neurônios dopaminérgicos
[19]. Como em qualquer outro tecido o estresse oxidativo
no Sistema Nervoso (SN) depende do equilíbrio entre a
produção das espécies reativas de oxigênio (ERO) e o sistema
de defesa antioxidante. Os danos oxidativos gerados por esse
desequilíbrio prejudicam a função celular, especificamente por
atacar lipídios, proteínas e ácidos nucléicos [20].
Todos os organismos aeróbicos são suscetíveis à ação das
ERO produzidos pela mitocôndria durante a respiração ou
em outros eventos celulares. A quantidade de ERO produzida
é aproximadamente 2-5% do total do oxigênio consumido
durante a respiração celular [20].
Embora o corpo, em geral, tenha desenvolvido vários
mecanismos de defesa para combater o estresse oxidativo,
o cérebro parece ser particularmente suscetível a este dano
do que qualquer outro órgão, devido à alta demanda de
oxigênio. Ainda que o cérebro seja composto por apenas 2%
do peso total do corpo, é especialmente propenso ao estresse
oxidativo, uma vez que consome cerca de 20% do oxigênio
do corpo em repouso total [21,22]. A capacidade do cérebro
em suportar o estresse oxidativo é limitado devido à presença
de quantidades elevadas de ácidos graxos poli-insaturados,
baixo teor de antioxidantes como a glutationa e a vitamina E
e alto teor de ferro em áreas específicas, como o globo pálido
e a substância nigra.
A substância nigra é altamente suscetível ao estresse
oxidativo por conter uma elevada população de neurônios
dopaminérgicos que produz quantidades significativas de
ERO [4]. Além disso, sendo pós-mitóticos, os neurônios no
cérebro, uma vez danificados podem estar permanentemente
disfuncionais [23]. Estudos post-mortem em cérebros de
pacientes com DP têm consistentemente implicado o papel
do dano oxidativo na patogênese da DP. Não está claro se o
acúmulo de ERO na DP é um evento primário ou consequência de outras disfunções celulares [18].
As mitocôndrias são o destino e uma importante fonte de
produção de ERO. A disfunção mitocondrial também tem
sido uma hipótese em desempenhar um papel importante na
morte celular associada à DP [24]. Estudos sobre amostras
post-mortem de pacientes parkinsonianos revelaram ainda
176
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
uma seletiva deficiência mitocondrial no complexo I, tanto
na substância nigra quanto nos tecidos periféricos [25,26].
Um defeito do complexo I pode contribuir para a degeneração
neuronal na DP, através da diminuição da síntese de ATP, ou
pelo excesso de produção de ERO [27].
De acordo com Parker et al. e Mizuno et al. [25,26], os
neurônios dopaminérgicos da substância nigra de cérebros
de animais com DP exibem marcadores de estresse oxidativo
como peroxidação lipídica, oxidação de proteína e de ácidos
nucléicos e alterações no sistema de defesa antioxidante [28].
Embora a natureza do processo neurodegenerativo verificado na DP não seja conhecida, atualmente tem sido sugerido
o envolvimento do alto potencial oxidativo da dopamina (DA)
na geração de H2O2 e outras ERO [29], assim como à alta
concentração de ferro e sua homeostase alterada [30], e baixos
níveis de glutationa [31]. O metabolismo alterado do ferro nas
suas formas transicional ferrosa (Fe+2) e férrica (Fe+3) tem forte
potencial oxidante pela geração de radicais hidroxil (OH•)
com H2O2 através da reação de Fenton/Haber-Weiss [32].
A glutationa é um agente tiol antioxidante e potente scavenger de radicais livres [31]. Muitas enzimas requerem tióis
essenciais à manutenção de seu estado redox. A oxidação de
muitos tióis pode inativar de modo reversível ou irreversível
estas enzimas. O acúmulo de glutationa oxidada é tóxico para
a célula, pois pode desencadear ligações cross-link dissulfidas
a proteínas, enzimas e DNA [33].
É pressuposto o aumento da geração de radicais livres e
seus prejuízos devido aos mecanismos para a eliminação deles:
a redução de 30% -60% em GSSG no SN de parkinsonianos,
em conjugação com o aumento dos níveis de ferro. Além
disso, vários marcadores de peroxidação lipídica e danos ao
DNA por oxidação protéica é aumentada no SN. O estresse
oxidativo pode também contribuir para o defeito nigroestriatal
pela atividade do complexo I, em que o complexo I é altamente vulnerável a​​ danos oxidativos e a inibição do mesmo
leva ao aumento da formação de ERO. Produtos tóxicos de
alterações oxidativas podem ser importantes contribuintes
para progressão da doença [31,33].
Embora as investigações post mortem e estudos experimentais mostrassem que o estresse oxidativo tem relevância
para DP, não se sabe como esse processo se relaciona com a
degeneração neuronal no SN ou como o estresse oxidativo
se relaciona com outros processos conhecidos para ser envolvido na cascata de eventos que levam à morte das células
dopaminérgicas [4,5].
O tratamento atual da DP baseia-se no que se conhece
atualmente acerca dos desequilíbrios neuroquímicos que
existem nas concentrações dos neurotransmissores dentro dos
gânglios basais, desconsiderando os desequilíbrios causados
pelo dano oxidativo [11,12].
Marcadores de estresse oxidativo foram identificados
em células dopaminérgicas em modelo experimental de
Parkinsonismo induzido por neurotoxinas, como a MPTP
e 6 OHDA, os quais atuam como inibidores do complexo I
da CTE (cadeia transportadora de elétrons), constituíram a
primeira conexão objetiva entre a disfunção mitocondrial e o
desenvolvimento da DP [34]. O desenvolvimento de sintomas
da DP em pacientes que fizeram uso de MPTP, a qual é um
derivado sintético análogo à heroína, destacou a possibilidade
do estresse oxidativo secundário à disfunção mitocondrial por
ser um possível fator etiológico para DP [35]. O MPTP e a 6
OHDA são metabolizados pela enzima monoamina-oxidase
(MAOB) em MPTP+ e MPP+ (1-metil-4-fenilpiridinium). O
MPP+ tem alta afinidade pelo transportador de DA na fenda
sináptica e é recaptada pelos neurônios dopaminérgicos da
substância nigra. Experimentos in vitro demonstraram que o
MPP+ é um inibidor do complexo I da CTE, cursando com
redução da produção de ATP mitocondrial e aumento na
produção do radical ânion superóxido [35].
Exercício físico e a doença de Parkinson
O exercício físico é atualmente defendido como uma
intervenção comportamental com melhora das disfunções
neurológicas, impedindo a perda neuronal que se segue por
várias doenças neurodegenerativas, sendo proposto como um
dos possíveis benefícios terapêuticos [18].
As intervenções terapêuticas de rotina, especialmente as
ações farmacológicas, têm contribuído significativamente para
o tratamento das doenças neurodegenetarivas, mas apresentam
limitações. Acredita-se que o exercício físico regular exerça
um efeito positivo sobre a resposta neuroquímica [36,37] e
comportamental [38]. Entretanto, dependendo da frequência,
duração e intensidade, o exercício tanto pode aumentar a produção de ERO e levar a danos oxidativos, como também, em
intensidades leves e moderadas, pode melhorar a capacidade
de defesa antioxidante do organismo [39]. Adicionalmente,
diversos outros parâmetros respondem diferenciadamente
conforme a especificidade do exercício.
Deste modo, o exercício físico de intensidade leve a
moderada surge como estratégia neuroprotetora. Evidências
científicas sustentam os benefícios ao metabolismo oxidativo em áreas cerebrais de roedores submetidos a exercício
de intensidade leve a moderada [40-42], e oposto quando
submetidos a exercício intenso [42]. O treinamento físico
moderado aprimora o aprendizado e a memória [40], como
também a coordenação motora [38]. No que se refere aos
marcadores neuroquímicos, o treinamento reduz os níveis
de lipoperoxidação e carbonilação de proteínas em estriado,
cerebelo, hipocampo e córtex cerebral [37,40,43] e altera os
níveis de DA no estriado [38,44,45] assim como diminuição
da atividade da DAT e aumento na expressão de receptores
dopaminérgicos-D2 [46].
Durante a atividade ocorrem diversas alterações bioquímicas, moleculares, fisiológicas, sendo necessários ajustes
para compensar e manter o esforço realizado. Por exemplo,
o exercício físico pode ser um agente capaz de aumentar a
produção de ERO, em contra partida, pode atuar também
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
como mecanismo de defesa estimulando a atividade de enzimas antioxidantes [47,48].
Evidências mostram os benefícios da atividade física na
prevenção e tratamento após dano cerebral [36,37,49,50] e
em doenças neurodegenerativas como doença de Alzheimer
e a DP. Têm se sugerido que muitas dessas mudanças ocorrem em áreas cerebrais específicas de funções importantes
como a memória a longo prazo [21,28,51,52] e prevenção
do declínio cognitivo durante o envelhecimento. Estudos
demonstraram neurogênese e plasticidade cerebral na região
hipocampal [53,54].
O exercício físico tem a capacidade de aumentar a atividade metabólica no organismo e consequentemente o consumo
de oxigênio e o interesse por investigar seus efeitos no SNC
aumenta uma série de características próprias deste tecido. O
SNC é um órgão bastante sensível e suscetível à formação de
ERO e assim ao estresse oxidativo, devido a fatores neuroquímicos e neurofisiológicos, consequentemente fatores que
contribuem na patogênese e na alta incidência de doenças
como a DP [55].
O papel do exercício físico sobre os parâmetros
de estresse oxidativo na DP
Os agentes farmacológicos ainda predominam os meios
terapêuticos para a DP, contudo, outros recursos podem
auxiliar a eficiência da ação farmacológica como também,
diminuir sua dependência.
Deste modo, o exercício físico de intensidade leve a moderada surge como estratégia neuroprotetora. Evidências científicas
sustentam os benefícios ao metabolismo oxidativo em áreas
cerebrais de roedores submetidos a exercício de intensidade
leve a moderada [56], e oposto quando submetidos a exercício intenso [57]. Ratos jovens e velhos, após treinamento de
natação aprimoraram o aprendizado e a memória [58] e tiveram menores índices de carbonilação de proteínas [57,58] e
lipoperoxidação no cerebelo [57], hipocampo e córtex cerebral
[58]. Com relação aos efeitos do exercício físico no modelo
do MPTP, existem dois trabalhos na literatura que abordaram
principalmente aspectos motores e neuroquímicos dos animais.
Foi demonstrado aumento na coordenação motora [56,57], nos
níveis de DA no estriado, assim como diminuição da atividade
da DAT e aumento na expressão de receptores D2 [29,58].
Estudos recentes demonstraram que o exercício melhora
incapacidades físicas e cognitivas de pacientes que sofrem de
distúrbios do SNC, incluindo AVE e lesão na medula espinhal
[55,56]. Também tem sido reportado que o exercício possa
exercer efeitos neuroprotetor, melhorando a neurogênese
[49,55], e aumentando a angiogênese [57]. Vários fatores
tróficos podem estar envolvidos na justificativa para os efeitos
benéficos do exercício [57].
Uma meta-análise demonstrou que o exercício pode melhorar funções físicas, a qualidade de vida, força, equilíbrio,
velocidade e marcha de pacientes com DP [58].
177
A comprovação de possíveis agentes terapêuticos alternativos ou auxiliares à via farmacológica, como o exercício físico,
é necessária para a inibição ou retardo da progressão DP.
Conclusão
Embora todos esses dados demonstrem que a disfunção
mitocondrial e o estresse oxidativo façam parte da patogênese da DP, maior detalhamento destas vias metabólicas é
necessário. Com o conhecimento cada vez mais detalhado
das vias patogênicas, instrumentos terapêuticos mais eficazes
são descobertos para combater os sintomas do parkinsonismo,
assim como mecanismos de neuroproteção, tornam-se mais
próximos de nossa realidade.
Em conclusão, é um indiscutível recurso neuropatológico
da DP. Embora a última missão seja desenvolver tratamentos preventivos para a DP, a nossa melhor esperança hoje é,
provavelmente, alvo secundário aos mecanismos deletérios.
Em resumo, a afirmação de que a DP tem uma clínica e um
ponto patológico comum em uma variedade de doenças
neurodegenerativas. Uma compreensão mais clara sobre a
patogênese da DP irá nos fornecer alvos para tratamentos
que fornecem modificação e neuroproteção para a doença.
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Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
180
Treinamento
Como correr 10 km com segurança:
exercício versus saúde
How to run safely 10 km: exercise versus health
Marcus Vinicius Grecco, M.Sc.*, Allan David Menache**
*Faculdade de Medicina da USP, **Especialista em Treinamento Desportivo pela FMU
Resumo
Abstract
Palavras-chave: exercício, saúde, corrida.
Key-words: exercise, health, running.
A ciência e seus inventos facilitaram nossos afazeres, o progresso
trouxe uma situação um tanto dúbia: de um lado temos a redução
da mortalidade por doenças infecto-contagiosas e o aumento da
longevidade e do outro o aumento de doenças crônico-degenerativas
e a perda da qualidade de vida. O fato de viver mais não indica viver
melhor, por isso a importância e a necessidade de hábitos como o cuidado com a dieta, exercício físico regular e evitar atitudes sedentárias.
The science and its inventions facilitated our tasks; progress
has brought a situation somewhat dubious: on one hand we have
reduction in infectious disease mortality and increased longevity
and, on the other hand, the increase of chronic degenerative diseases
and loss of quality of life. Living longer does not mean better life,
so that the importance and need of healthy habits such as diet and
regular exercise avoid sedentary habits.
Recebido em 8 de agosto de 2011; aceito em 22 de setembro de 2012.
Endereço para correspondência: Marcus Vinicius Grecco, Rua Coriolano, 846, 05047-000 São Paulo SP, E-mail: [email protected]
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
Introdução
Exame clínico
Estudos publicados nas últimas décadas mostram que o
exercício físico realizado regularmente é capaz de ajudar a prevenir e tratar várias doenças. Estima-se que em todo o mundo
milhares de pessoas morram por inatividade física. Entre as
condições clínicas que são menos frequentes em pessoas que
fazem exercícios regulares ou podendo ser tratadas através
deles, citamos: hipertensão arterial, doença coronariana, insuficiência cardíaca, diabetes, colesterol e triglicérides altos,
acidente vascular cerebral, osteoporose, câncer de cólon e de
mama, obesidade, ansiedade e depressão.
O exercício físico também é capaz de prolongar a vida,
além de proporcionar uma melhor qualidade de vida. Não é
necessário ser atleta de competição para desfrutar destes benefícios, uma “dose” moderada de atividades físicas já basta.
Para gozar destes benefícios é necessário realizar exercícios
com regularidade. O sedentarismo definitivamente não é uma
boa opção de vida, podendo ser tão prejudicial quanto fumar.
Não abra a mão de melhorar a sua saúde. E é com este intuito
que elaboramos este trabalho de condicionamento físico, pois
o exercício físico precisa ser prescrito com responsabilidade,
respeitando a individualidade de cada um, visando organizar,
estimular e valorizar a prática de atividades físicas [1,2].
1) Avaliar acuidade visual e auditiva.
2) Avaliação odontológica.
3) Avaliação psicológica e nutricional.
Recomendações iniciais
O primeiro passo para a prescrição de um programa de
condicionamento físico é a avaliação física. O propósito de
uma avaliação médica pré-participação no esporte não é a
exclusão nas atividades físicas, mas, sim, o esclarecimento e
detecção das condições da sua saúde e possíveis limitações
na atividade física. A avaliação tem como objetivo manter o
indivíduo saudável, para que possa participar de forma segura
das suas atividades físicas, melhorando sua qualidade de vida
[3,4]. Uma boa e segura avaliação médica pré-desportiva deve
conter os seguintes itens:
Anamnese
1) Dados pessoais: nome, idade, altura, peso, sexo, raça.
2) Antecedentes pessoais: doenças, cirurgias, tratamentos, etc.
3) Antecedentes familiares: doenças, tratamentos, cirurgias,
etc.
4) História atual: queixas, doenças, tratamentos, vícios, etc.
Exame físico
1) Aspecto geral: estado físico, coloração, respiração, sudorese, etc.
2) Sinais e sintomas físicos: pulso, temperatura, pressão
arterial, etc.
3) Exame geral: verificação dos aparelhos circulatório, respiratório, locomotor, neurológico, etc.
181
Exames complementares
• Bioquímicos: hemograma completo, glicemia de jejum,
colesterol total e frações, triglicérides, ferro sérico, ferritina, sódio, potássio, cálcio, creatinifosfoquinase (CPK),
dehidrogenase láctica (DHL), testosterona livre e total,
cortisol, uréia, creatina, TGP, TGO.
• Testes: ecocardiograma, eletrocardiograma de repouso,
ergoespirométrico e ergoespirométrico com dosagem do
ácido láctico.
A Organização Mundial de Saúde sugere que indivíduos
acima de 40 anos devam ser submetidos a um teste ergométrico prévio [3].
Recomendações complementares
1) Tenha sempre um educador físico por perto para acompanhar seu treino e sua evolução.
2) Junto com um educador físico estabeleça a melhor maneira
de alcançar seus objetivos.
3) Para ter maior adesão ao programa, escolha o local, os dias
e os horários mais apropriados a sua agenda.
4) Use sempre roupas adequadas para atividades físicas e tênis
adequado com seu tipo de pisada que vai ser determinada
com a avaliação médica.
5) Adote bons hábitos alimentares.
6) Use um monitor de frequência cardíaca para controlar a intensidade do exercício determinado pela avaliação médica.
7) Perceba sempre suas sensações pós-treino e registre-as.
8) Procure treinar sempre com outras pessoas, ou ter um
parceiro de treino, pois servirá de estímulo.
9) Reavalie o programa periodicamente [2].
O que é condicionamento físico?
Condicionamento físico (CF) é tornar a pessoa apta para
realizar uma tarefa ou cumprir um objetivo, por meio de uma
série de repetições sistemáticas de movimentos, planejadas e
orientadas. Esta repetição sistemática provoca uma série de
mudanças e gera a chamada “aptidão física”.
A aptidão física exige boa força e resistência muscular,
uma razoável flexibilidade articular, um eficiente sistema
cardiovascular, com bom nível de aptidão aeróbica e uma boa
composição corporal. Sendo assim, os programas de exercícios
devem ser planejados com base nos princípios e técnicas de
treinamento propostos e consolidados por pesquisa científica,
182
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
com ajustes periódicos, para ir ao encontro da evolução da
aptidão de cada indivíduo. O modo como se realiza um CF
do homem e da mulher é basicamente o mesmo, independentemente da idade; ambos possuem respostas e adaptações
ao treinamento físico semelhantes.
Para que as mudanças aconteçam de maneira satisfatória,
a rotina de treinamento deve ser norteada pelo equilíbrio de
uma série de componentes, tais como quantidade, intensidade, frequência das sessões, tipos de exercícios realizados,
descanso, alimentação [1].
5) Admitir que somos seres únicos e que sempre existirá diferenças entre desempenhos. Cada pessoa tem um ritmo
(princípio da individualidade);
6) Informações inadequadas podem prejudicar o bom desempenho. Crenças populares são comuns no meio do
treinamento físico;
7) Faça do seu treino algo prazeroso e presente em sua rotina
[4].
Princípios importantes do treinamento físico
Um composto rico em energia, a trifosfato de
adenosina(ATP), é o combustível de todos os processos
celulares que requerem energia. A moeda corrente da
energia é o ATP. Este composto é retirado de 3 fontes de
alimentos: carboidratos, gorduras e proteínas. Durante o
exercício nossa necessidade de ATP aumenta muito e nosso
organismo lança mão de duas principais vias energéticas:
aeróbia e anaeróbia.
Definimos os exercícios em aeróbios e anaeróbios dependendo da via energética que se está usando. Os exercícios
aeróbios são aqueles que precisam da presença do oxigênio
nos músculos para se retirar energia (ATP) dos carboidratos,
proteínas e principalmente das gorduras, a intensidade é
moderada e são feitos de forma contínua (caminhar, correr,
nadar) recrutando poucas fibras musculares, sendo assim,
precisa de menos energia para ser executado. Exercícios que
durem mais que 3 minutos já são considerados aeróbios e eles
são efetivos para provocar adaptações cardiovasculares como
o aumento no volume de ejeção de sangue e diminuição da
frequência cardíaca. Já os exercícios anaeróbios são exercícios
mais intensos (musculação), o ATP é retirado somente dos
carboidratos, não há presença suficiente de oxigênio nas fibras
musculares devido à oclusão que as fibras musculares fazem na
rede vascular, pois neste exercício há um recrutamento bem
maior de fibras musculares exigindo maior energia em curto
espaço de tempo, acumulando acido lático e proporcionando
uma maior fadiga. Os exercícios anaeróbios são utilizados para
ganho de força ou velocidade.
Para determinarmos a intensidade do treino e para vermos
se o estímulo está sendo aeróbio ou anaeróbio é importante
determinar a frequência cardíaca (FC) de treino. Uma boa avaliação médica irá determinar qual FC é mais segura para você.
Uma atividade física leve a moderada irá ter uma FC girando
em torno de 120 a 150 batimentos por minuto (bpm), pois
a energia está sendo fornecida principalmente pela gordura,
sendo assim um esforço aeróbio. Uma atividade física mais
intensa terá uma FC em torno de 160 a 190, já que a energia
toda será proveniente do carboidrato e será uma FC exaustiva
podendo gerar riscos de lesão pelo organismo, caso fique por
muito tempo nesta faixa de FC. Para se ficar nesta faixa de
FC é preciso estar bem condicionado e ficar no máximo por
2 minutos e depois ter um descanso. Este estímulo é muito
comum em treinos intervalados.
• Princípio da sobrecarga: Para que ocorram adaptações físicas, o estímulo deve ter uma sobrecarga, determinada pela
quantidade, intensidade e frequência dos exercícios (ex: se
uma mulher começar a correr 2 x por semana de maneira
muito lenta, ela deverá com o passar do tempo aumentar
sua velocidade, distância percorrida e frequência semanal
para obter bons resultados). Cada indivíduo tem limites
para esta sobrecarga e se os estímulos forem insuficientes ou
muito intensos, não acontecerá adaptações significativas,
podendo a capacidade funcional ser reduzida. Estudiosos
recomendam aumento de 10% da sobrecarga a cada uma
ou 2 semanas de treino para evitar lesões.
• Princípio da especificidade: A especificidade do treino
significa que exercícios específicos provocam adaptações
específicas, criando efeitos específicos de treinamento
(ex: se quiser ser bom corredor tem de correr e não
pedalar).
• Princípio da individualidade: Os benefícios adquiridos com
o treinamento são otimizados quando os programas são
planejados de acordo com as necessidades e capacidades
individuais de cada um. Os fatores genéticos claramente
influenciam as adaptações ao treinamento. Colocando de
uma forma bem simples, algumas pessoas são mais “treináveis” em certas modalidades do que outras.
• Princípio da reversibilidade: Tudo que se ganha no treinamento físico você pode perder se ficar sem treinar mais de
uma semana. Por isto, quando iniciar um programa de
condicionamento físico nunca fique fora de seu programa
de CF semanal por mais de uma semana, pois irá ter perdas
em sua aptidão. A cada semana parada, estudos mostram
perda de 25% de suas capacidades fisiológicas.
Tendo em mente estes conceitos básicos do CF, alguns
pontos devem ser observados para o sucesso do seu treino:
1) Definir objetivos claros e realistas;
2) Não esperar resultados rápidos, mas, sim, a médio e longo
prazo;
3) Entender que o treino é um processo organizado e estruturado, sendo assim é muito importante seguir os conceitos
que citaremos neste trabalho;
4) Cumprir o programa estabelecido, sem acelerá-lo;
Fisiologia do exercício
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
Para avaliarmos a FC máxima de treino, como regra
geral, corresponde aproximadamente a 220 bpm menos a
idade da pessoa. Muitos estudos sugerem que 70 a 75% da
FC máxima é a melhor faixa de treino para se ter benefícios
à saúde. Se um homem de 30 anos deseja treinar de maneira
moderada é só calcularmos 70% da FC máxima, ficando assim: 220-30 = 190 bpm, encontramos a FC máxima. Agora
encontraremos a FC alvo, que é 70% da FC máxima: 0,70 x
190 = 133. Podemos ver que é simples o cálculo da FC alvo
de treino, se quiser ir aumentando a intensidade dos treinos
e só aumentar a porcentagem da FC alvo e tenha sempre um
educador físico por perto caso tenha alguma dúvida sobre
intensidade de treino [5,6].
Orientações gerais de um programa de exercícios
para aumentar o condicionamento aeróbio
1) O exercício deve ser feito de 3 a 5 vezes por semana.
2) Manter a FC entre 65-80%, caso a pessoa esteja muito
mal-condicionada ficar entre 55-65% da FC máxima.
3) Duração do estímulo contínuo de 20 a 60 minutos.
4) O modo de atividade deve ser qualquer tipo que use grandes
grupos musculares, que pode ser mantido continuamente
e ser rítmico e aeróbio por natureza, tal como caminhar,
correr e andar de bicicleta.
5) Devem ser feitos períodos de resfriamento e aquecimento
(alongamentos) apropriados [6,7].
Orientações gerais de um programa de exercícios
para aumentar a força muscular
1) O treino com resistência deve ser progressivo, individualizado e deve prover um estímulo para todos os principais
grupos musculares.
2) É recomendado de 2 a 3 vezes por semana um conjunto de 8 a
10 exercícios que condicione os principais grupos musculares.
3) Devem ser feitas 8 a 12 repetições de cada exercício, se for uma
pessoa mais velha de 10 a 15 repetições com menor carga.
4) A força muscular é desenvolvida usando uma sobrecarga
muito pesada e fazendo poucas repetições. A resistência
muscular localizada é conseguida com uma sobrecarga
leve e fazendo altas repetições. De 8 a 12 repetições parece
beneficiar ambas condições.
5) Para reforço da parte superior do corpo, recomenda-se
usar 65 a 70% da quantidade máxima de peso que pode
ser movida em toda amplitude do movimento em uma
repetição do exercício estipulado. Para a parte inferior fica
entre 75 a 80% [7,8].
Programa geral de exercícios para diminuição de
peso corporal
O programa que mais oferece resultados na diminuição
de peso corporal é combinar uma nutrição balanceada com
183
exercícios. Este programa diminui o peso, aumenta a massa
muscular com diminuição do tecido adiposo. Caso faça só
restrição calórica em sua alimentação, perde-se peso, mas é
perdida, também a massa muscular, deixando a pessoa com
flacidez.
1) Um programa que combine exercícios aeróbios com
musculação é muito eficaz.
2) Os exercícios devem ser feitos 3 x por semana, com intensidade e duração que gaste pelo menos 300 kcal por sessão
de exercícios, para uma pessoa com aproximadamente 80 kg.
Isso requer uma duração de pelo menos 30 a 45 minutos, para
uma pessoa de condicionamento mediano [6,9-11].
A importância do alongamento num programa
de condicionamento físico
Os ligamentos, tendões e músculos são elásticos e flexíveis
nos jovens, com o passar do tempo estas estruturas vão ficando
rígidas e menos flexíveis devido a perda de água nestas estruturas. Com isso, os tecidos ficam sujeitos à lesão.
Os alongamentos devem fazer parte de qualquer programa
de exercícios e devem ser feitos por estes motivos:
1) Como complemento de aquecimento e também como
forma de melhorar a recuperação no final do treinamento. O
alongamento tanto no começo como no final dos exercícios
devem ser feitos de maneira suave. Após atingir uma posição
em que o músculo já se encontra alongado e sem dor, recomenda-se manter nesta posição de 30 segundos a 1 minuto.
2) O alongamento melhora a elasticidade muscular e a
mobilidade articular, melhorando a amplitude do movimento,
tornando-os mais fáceis. Autores comentam que o alongamento possibilita o depósito de proteínas em série nos tecidos.
3) O aumento da amplitude do movimento juntamente
com o aquecimento ajudam a diminuir os riscos de lesão
(questionável para alguns autores).Quando se observa uma
amplitude de movimento muito diminuída, o alongamento
deve ser feito em horários diferentes dos exercícios programados, para que sejam enfatizados tanto o número de exercícios
de alongamento por músculo quanto a intensidade dos mesmos. Sempre tomar cuidado com a progressão dos exercícios
de alongamento para não se lesionar, respeite seus limites.
Aquecer antes de alongar é vital para aumentar a elasticidade
do músculo e mobilidade articular [12-14].
Nutrição na atividade física
Os hábitos alimentares tem um grande impacto sobre o
peso corporal e a saúde. Infelizmente, a maioria da população consome quantidades excessivas de calorias em relação à
atividade física realizada. Como consequência, a maioria dos
adultos está acima do peso ideal, o que os predispõe a varias
doenças. Ter uma alimentação saudável não é o mesmo que
fazer uma dieta, que implica uma redução calórica significativa
com o objetivo de se perder peso rapidamente. A dieta leva
184
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
a consumir poucos nutrientes essenciais ao organismo, não
saciando a fome e fazendo com que você ganhe rapidamente
o peso perdido logo após a interrupção da dieta. A regra para
se ter uma boa alimentação é ter uma reeducação alimentar.
Uma alimentação regrada oferecerá energia e disposição
para suas atividades físicas, não sentirá fome, emagrecerá e
permanecerá com baixo índice de gordura por muitos anos.
Os carboidratos, proteínas e gorduras são nutrientes,
fornecidos pela alimentação, cuja principal função é fornecer
energia ao organismo e garantir sua integridade estrutural e
funcional. Já as vitaminas e sais minerais respondem pela
regulação dos processos metabólicos. O carboidrato é a principal fonte de energia, especialmente para atividades de alta
intensidade e curta duração (trabalho de força muscular). É
o combustível para a contração muscular do sistema nervoso
e das células vermelhas, portanto tem grande importância no
bom funcionamento do organismo. Além disso, o carboidrato diminui o estresse e melhora a resistência do organismo.
Quanto ao consumo, deve compreender na alimentação de
60 a 70% da caloria total. Exemplos de boa qualidade de
carboidratos: pães integrais, grãos, frutas, verduras, legumes,
macarrão e arroz integral, cereais.
A gordura é o nutriente que reveste os órgãos, servindo
de proteção, além de ser um excelente isolante térmico. É um
importante fornecedor de energia para o músculo, sendo mais
utilizado em atividades de longa duração e de intensidade
leve a moderada. Quanto à necessidade diária, deve compor
20 a 25% do valor calórico total consumido. Devemos dar
preferência a gorduras mono ou poliinsaturados, como: azeite
de oliva, azeitonas, óleo de canola, abacate, castanha, nozes,
amêndoas, óleo de peixes e óleo de soja, tudo com moderação.
Evitar ao máximo gorduras saturadas, como: gordura da carne,
manteiga, gordura do coco, óleo de dendê, óleo de palma e
laticínios integrais.
A proteína tem a função de promover crescimento e
desenvolvimento do nosso corpo. Além disso, aumenta a
massa muscular juntamente com a prática de exercícios com
pesos, boa hidratação e descanso adequado. Na alimentação,
o consumo deve ser de 15% do valor calórico total da refeição diária. As vitaminas e sais minerais são responsáveis por
regular as reações que ocorrem no organismo. Para se atingir
um consumo adequado destes nutrientes, é necessário que se
ingira em suas refeições muitas variedades, tipos e cores de
legumes, frutas e verduras [15].
Três etapas para uma boa alimentação
Um programa alimentar que fornece todos os nutrientes
essenciais, mas limita o consumo de gordura requer seleção,
substituição e preparação cuidadosa dos alimentos. Algumas
sugestões para ter uma nutrição adequada:
• Seleção dos alimentos: Se a sua alimentação priorizar grãos,
frutas e vegetais, junto com quantidades moderadas de
carnes e produtos lácteos a sua nutrição será rica em
nutrientes e pobre em gorduras. As gorduras devem ser
selecionadas cuidadosamente, pois as gorduras saturadas
encontradas na manteiga, no creme de leite, nas gemas de
ovo, óleo de coco, elevam o colesterol do sangue e devem
ser consumidas com muita moderação. Devem-se escolher
as gorduras monoinsaturadas, como o azeite de oliva ou
óleo de amendoim, ou as gorduras poli-insaturadas, como
o óleo de girassol e milho. Estes óleos tendem a reduzir o
colesterol evitando doenças cardíacas. Peixes, aves sem pele,
leite, iogurte e queijo desnatado, azeite de oliva, óleos de
amendoim, girassol, milho e canola contêm menos gorduras saturadas que outras opções dentro de sua categoria de
alimentos. Evite sempre os produtos hidrogenados.
• Substituição de alimentos: Sem dúvida, cada um tem seu
paladar e alimentos favoritos, que não quer deixar de
consumir, mesmo sendo ricos em gordura. Substituições
simples podem reduzir o teor de gordura dos alimentos sem
prejudicar o paladar. Por exemplo, o uso de iogurte desnatado no lugar de creme de leite em molhos brancos. Isto
reduz o teor de colesterol em quase 90% e supre o corpo
com 2 vezes mais cálcio. Outras substituições úteis são duas
claras em lugar de todo o ovo, ervas em vez de sal, sorvete
de iogurte desnatado no lugar do sorvete convencional,
cacau em pó em vez de chocolate em doces, suco de limão
ou vinagre em vez de temperos gordurosos. No lugar de
doces, consuma frutas secas. Substitua petiscos gordurosos
por batatas assadas e palitos de cenoura ou pepino.
• Preparação dos alimentos: O modo como se prepara o
alimento pode diminuir ou aumentar o teor de gordura.
O ato de fritar um alimento é capaz de triplicar a caloria
do alimento. Uso de frigideira antiaderente evita o uso de
óleos para fritura, reduzindo a caloria do alimento. Cozinhe as verduras e legumes separados da carne para que
não absorvam a gordura que se solta da carne. As carnes
devem ser assadas ou grelhadas e as verduras e legumes
devem ser cozidos no vapor ou microondas para retenção
dos nutrientes. Evite manteiga e muito sal no cozimento
de verduras e legumes [15,16].
Dicas de nutrição desportiva
1) A alimentação pode fazer a diferença no bom ou mau desempenho do atleta. Boa alimentação ajuda na recuperação
e rendimento do atleta.
2) Procure fazer alimentação leve antes do treino. Jejum é
prejudicial ao rendimento e prejudica um emagrecimento
saudável do atleta. O ideal é fazer uma refeição rica em
carboidrato e pobre em gorduras e proteínas.
3) Tomar cuidado com a ingestão de proteínas antes dos
treinos, pois podem ter uma digestão demorada causando
fermentação e incômodo estomacal, como carnes vermelhas e leite. Proteína tem que ser enfatizada pós-treino para
a recuperação muscular.
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
4) Recomenda-se o consumo de uma bebida esportiva cerca
de 30 a 40 minutos antes do exercícios para melhoria do
rendimento e de 20 em 20 minutos durante os exercícios.
5) Quando for correr, preocupe-se com a hidratação e a
reposição de carboidratos e sais minerais. Após a corrida,
devem-se repor os nutrientes perdidos a fim de acelerar a
recuperação muscular e facilitar a queima de gordura. Procure consumir carboidratos com proteínas nas 2 primeiras
horas após treino, sempre acompanhado de hidratação
abundante [9,15,16].
Hidratação
A água é o nutriente mais importante para o organismo.
Os músculos de nosso corpo são constituídos de quase 80% de
água e se vive poucos dias sem seu consumo. A recomendação
padrão de seu consumo é beber 8 copos de 220 ml por dia e
uma quantidade maior é desejável quando a pessoa se exercita.
Com o passar dos anos nosso mecanismo de sede declina, de
modo que adultos ativos devem controlar seu consumo de
água, assegurando os oito copos por dia.
A função da hidratação durante o treino é evitar o aumento
da temperatura corporal e manter o organismo em condições
adequadas para processos metabólicos. A hidratação com
carboidrato aumenta a duração do treino, melhora o seu
rendimento no treino e preserva o glicogênio (carboidrato) do
músculo. Por outro lado, a desidratação provoca uma diminuição do rendimento atlético em 30%, provoca cãibras e diminui
a concentração e habilidade motora. Para planejarmos uma
correta hidratação para a realização dos exercícios (ex: corrida),
precisamos medir a quantidade de suor por hora de exercício e
identificar o quanto se perde de peso durante a atividade e relacionar com a quantidade de líquido consumido. Por exemplo,
se você perde 720 g (720 ml) durante o exercício e consome
360 ml, deveria beber 720 ml + 360 ml, ou seja, 1080 ml por
hora durante o exercício, ou 270 ml a cada 15 minutos.
Sabendo-se que através do suor eliminamos água e sais
minerais, o ideal seria consumir bebidas desportivas, pois
contêm quantidades adequadas destes nutrientes, bem como
carboidratos, que confere ao atleta mais energia aos músculos,
ajudando na performance e sabor que facilita a ingestão e a
correta hidratação. Para melhorar a hidratação, deve-se:
1) Ingerir 30 a 40 minutos antes dos exercícios de 300 a 400
ml de bebida desportiva.
2) Durante o exercício hidratar-se de 20 em 20 minutos.
3) Após a atividade física, beber um pouco mais de 1 litro
para cada kg de peso perdido, distribuindo este consumo
por um período de várias horas após os exercícios [17,18].
Cuidados que devemos ter quando praticamos
atividade física
Durante os exercícios, podemos sentir alguns desconfortos passageiros sem grande importância, que não irão influir
185
no treino. Só devemos ficar alerta, caso estes desconfortos
persistirem e começarem a prejudicar o treino. A principal
sensação de que algo não está bem é a dor constante e limitante de alguns movimentos. Quando perceber que a dor é
persistente, procure um médico especialista e fique atento se
você perceber: dor localizada, com aumento de temperatura e
que piora com movimento e compressão local; inchaço local;
sensação de bloqueio articular; vermelhidão local; estalidos
dolorosos nas articulações; muita dor nos alongamentos
locais; sensibilidade diminuída; restrição nos movimentos e
diminuição de força muscular; ferimentos de pele.
Para prevenirmos lesões, devemos seguir atentamente às
recomendações citadas anteriormente e ter sempre ao lado,
se possível, um educador físico para a correção dos exercícios
executados; ter um bom descanso entre os treinos; fazer exercícios de alongamento e aquecimento antes e após a atividade
física; tomar cuidado com a alternância das superfícies na
hora de correr (asfalto, grama, areia, etc.); acompanhamento
médico e nutricional periódico; usar sempre roupas adequadas
às condições ambientais; usar tênis adequados à sua pisada
e ao seu treino. Comprar sempre seu tênis no final de tarde,
pois seu pé se apresenta mais alargado.
As principais lesões de quem pratica atividade física são
tendinites (inflamação nos tendões), podendo levar a rupturas
parciais ou totais; lesões musculares podendo levar à impotência funcional; fraturas de estresse, sendo a tíbia o osso mais
acometido; canelites (inflamação na região da tíbia); síndrome
da banda ílio-tibial (dor localizada na parte lateral do joelho);
fasciite plantar (dor na região do calcâneo) [19].
Cuidados ao se exercitar no calor e no frio
No calor
1) Beber líquidos antes, durante e após o treino mesmo se
não tiver sede. Lembre-se da importância da hidratação e
sempre corra em lugares de fácil acesso a líquidos.
2) Evitar fazer percursos longos e em locais desertos sozinho.
3) Nunca usar roupas escuras, pois absorvem muito calor.
4) Usar sempre boné e protetor solar.
5) Procurar treinar em lugares e horários mais frescos.
6) Caso a temperatura esteja alta, diminuir a intensidade do
treino.
No frio
1)Vestir-se em camadas que possam ser retiradas com a progressão do exercício.
2) Proteger a cabeça e as mãos.
3) Aumentar o tempo de aquecimento.
4) Usar protetor para os lábios, pois ficam ressecados com
o frio.
5) Começar o treino lentamente e progredir o ritmo à medida
que a musculatura fica aquecida.
186
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
6) Quando acabar o treino trocar a roupa molhada por
uma seca.
7) Hidratar-se mesmo se não tiver sede.
8) Manter-se seco, pois se perde mais calor quando se
está molhado [20].
Sugestão de treino de corrida
Mostraremos agora uma planilha de treino para quem quer
começar a correr com segurança, garantindo um bom condicionamento físico, evitando lesões e tendo uma manutenção
segura da saúde (bem estar bio-psico-social).
Esta tabela contém um treino de duração de 3 meses,
para quem deseja participar de provas de corrida de rua de 10
km. Este plano é um direcionamento baseado em evidências
cientificas, podendo sofrer algumas alterações dependendo
do desempenho da pessoa que seguirá esta planilha e do bom
senso do técnico.
Referências
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Salem CJ. Exercise and physical activity for older adults. Med
Sci Sports Exerc 2009;41:1510-30.
2. Nahas MV. Atividade Física, saúde e qualidade de vida.
Londrina:Midiograf; 2003.
3. Fernandes Filho JA. A prática da avaliação física. Rio de Janeiro:
Shape; 2003.
4. Bohme MTS. Relação entre aptidão física, esporte e treinamento
desportivo. Rev Bras Ciênc Mov 2003;11:87-94.
5. Tanaka M, Silva RE. Noções básicas sobre fisiologia do exercício.
Rev Bras Med Esporte 2010;17:184-8.
6. American College of Sports Medicine. Guideline for exercise
testing and prescription. Philadelphia: Williams and Wilkins
1995;189-233.
7. American College of Sports Medicine. The recommended
quantity and quality of exercise for developing and maintaining
cardiorespiratory and muscular fitness in healthy adults. Med
Sci Sports Exerc 1990;22;265-74.
8. Dias RMR, Cyrino ES, Salvador EP, Nakamura FY, Pina FL,
Oliveira AR. Impacto de oito semanas de treinamento com
pesos sobre a força muscular de homens e mulheres. Rev Bras
Med Esporte 2005;11:224-8.
9. World Health Organization. Diet, nutrition and prevention of
chronic diseases. Geneva: WHO; 2003.
10. Negrão CE. Exercício e hipertensão. Rev Bras Hipertens
2001;8:89-95.
11. Ciolac EG. Exercício físico e metabolismo. Rev Bras Med
Esporte 2004;10:319-24.
12. Gary LH. Amplitude de movimento e flexibilidade. In: Andrews
JR, Wilk KE, Harrelson GL. Reabilitação física das lesões desportivas. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2000. p.106-27.
13. Boyce DA. Alongamento. In: Placzek JD, Boyce DA. Segredos em fisioterapia ortopédica. 1ª ed. Porto Alegre: Artmed;
2004.p.119-21.
14. Bernardes RC. Flexibilidade. In: Cohen M, Abdalla RJ. Lesões
no esporte. 2ª ed. Rio de Janeiro: Revinter; 2005. p.394-7.
15. Gomes MR, Rogero MM.Considerações sobre nutrição e exercício físico. Rev Bras Med Esporte 2005;11:262-6.
16. Koury JC, Donangelo CM. Nutrição e atividade física. Rev
Nutr 2003;16;433-41.
17. Castro MG, Barros LFL, Waitzberg DL. Regulação térmica
e hidratação nos esportes. Âmbito Medicina Desportiva
2007;110:24-8.
18. Zalcman I. Hidratação e termorregulação nos atletas da 3º
idade. Âmbito Medicina Desportiva 2007;111:5-9.
19. Hoebrings JH. Factors related to the incidence of running
injuries: A review. Sports Med 1992;13:408.
20. Cheuvront SN, Haymes EM. Thermoregulation and marathon
running: Biological and environmental influences. Sports Med
2001;31(10):743-62.
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
Semana 3
Semana 4
Sábado
Domingo
descanso
30’ corrida
leve
descanso
5’cam + 8x
(2’ RC/2’Tr) + descanso
5’cam
40’ corrida
leve
descanso
40’ corrida
RC
descanso
descanso
10’cam +
Teste 5 km
RC+ 10’cam
descanso
40’ corrida
RC
descanso
50’ corrida
RC
descanso
10’cam +
Teste 6 km
RC+ 10’cam
descanso
50’ corrida
RC
2º MÊS
Semana 5
40’ corrida
leve
6a
1º MÊS
Semana 2
5a
BASE / ADAPTAÇÃO
Semana 1
2a
3a
4a
5’cam + 6x
(2’ RC/2’Tr)+ 30’ corrida leve descanso
5’cam
5’cam + 8x
(2’ RC/2’Tr)+ 30’ corrida leve descanso
5’cam
5’cam + 6x
(3’ RC/2’Tr)+ 30’ corrida leve descanso
5’cam
5’cam + 6x
30’ corrida
descanso
(3’ RC/2’Tr)+
RC
5’cam
5’cam +
30’ Fartlek
40’ corrida
descanso
(2’ RI/1’trote
RC
leve)+ 5’cam
187
5’cam +
30’ Fartlek
60’ corrida
Semana 6 descanso
descanso
descanso
(2’ RI/1’trote
RC
leve)+ 5’cam
5’ cam + 5’
10’cam +
corrida RC +
Semana 7 descanso
40’ corrida RC descanso
Teste 7 km RC descanso
descanso
2x (10’ RI/2’
+ 10’cam
trote) + 5’ cam
5’ cam + 5’
10’cam +
5’cam + 32’
4x (1000m
40’ corrida
Fartlek (3’
corrida RC +
Semana 8 descanso
descanso
descanso
RI/1’30”cam)+ leve
RI/1’RC)+
2x (12’ RI/2’
5’cam
5’cam
trote) + 5’ cam
10’cam +
5’cam + 36’
10’cam +
5x(1000m
40’ corrida
Fartlek (3’
Semana 9 descanso
descanso
descanso
Teste 8 Km RC
RI/1’30”cam)+ leve
RI/1’RC)+
+ 10’cam
5’cam
5’cam
10’cam +
5’ cam + 5’
5x(1000m
40’ corrida
corrida RC +
Semana 10 descanso
descanso
descanso
descanso
RI/1’30”cam)+ leve
2x(14’ RI/2’
5’cam
trote) + 5’ cam
5’ cam + 5’
10’cam +
corrida RC +
8Km corrida
Semana 11 descanso
Teste 10 Km RC descanso
descanso
descanso
2x(15’ RI/2’
RC
+ 10’cam
trote) + 5’ cam
5’ cam + 5’
8Km corrida
corrida RC + 30’ corrida
Semana 12 descanso
descanso
descanso
Prova 10 Km
RC
2x(15’ RI/2’
leve
trote) + 5’ cam
cam = caminhada (65% FC Máx); Tr = trote moderado (65-75% FC Máx); Treino intervalado longo RC/RI (75-90% FC Máx)
RC = ritmo confortável (75-80% FC Máx); RI= ritmo intenso (80-90% FC Máx)
Treino de fartlek (forte/fraco) (60-90% FC Máx)
Treino teste em ritmo confortável (70-80% FC máx)
Treino de rodagem ritmo moderado (75-80% FC máx)
Treino de tiros bem intenso (85-95% FC Máx)
Dia da prova 10 km
Treino de ritmo intenso e sustentável (80-90% FC Máx)
É indicado a todos os corredores que realizem a prova ao menos 2 sessões semanais de exercícios educativos e formativos que têm
como objetivos principais a melhoria da técnica e economia de energia.
Para o sucesso do treinamento é fundamental estar em dia com os exames médicos de rotina e testes de esforço, bem como ter uma
nutrição adequada as demandas impostas, ter um treinamento de força específico para prevenir lesões e respeitar os períodos de
descanso.
5’cam + 8x(3’
RI/2’Tr)+
5’cam
40’ corrida
RC
3º MÊS
PRÉ-COMPETITIVO / COMPETITIVO
188
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
Normas de publicação Fisiologia do Exercício
A Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício é uma publicação
com periodicidade bimestral e está aberta para a publicação e
divulgação de artigos científicos das áreas relacionadas à atividade
física.
Os artigos publicados na Revista Brasileira de Fisiologia do
Exercício poderão também ser publicados na versão eletrônica
da revista (Internet) assim como em outros meios eletrônicos
(CD-ROM) ou outros que surjam no futuro, sendo que pela
publicação na revista os autores já aceitem estas condições.
A Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício assume o “estilo
Vancouver” (Uniform requirements for manuscripts submitted
to biomedical journals) preconizado pelo Comitê Internacional
de Diretores de Revistas Médicas, com as especificações que
são detalhadas a seguir. Ver o texto completo em inglês desses
Requisitos Uniformes no site do International Committee of
Medical Journal Editors (ICMJE), www.icmje.org, na versão
atualizada de outubro de 2007 (o texto completo dos requisitos
está disponivel, em inglês, no site de Atlântica Editora em pdf ).
Os autores que desejarem colaborar em alguma das seções da
revista podem enviar sua contribuição (em arquivo eletrônico/email) para nossa redação, sendo que fica entendido que isto não
implica na aceitação do mesmo, que será notificado ao autor.
O Comitê Editorial poderá devolver, sugerir trocas ou retorno
de acordo com a circunstância, realizar modificações nos textos
recebidos; neste último caso não se alterará o conteúdo científico,
limitando-se unicamente ao estilo literário.
1. Editorial
Trabalhos escritos por sugestão do Comitê Científico, ou por
um de seus membros.
Extensão: Não devem ultrapassar três páginas formato A4 em
corpo (tamanho) 12 com a fonte English Times (Times Roman)
com todas as formatações de texto, tais como negrito, itálico,
sobrescrito, etc; a bibliografia não deve conter mais que dez
referências.
2. Artigos originais
São trabalhos resultantes de pesquisa científica apresentando
dados originais de descobertas com relação a aspectos
experimentais ou observacionais, e inclui análise descritiva e/ou
inferências de dados próprios. Sua estrutura é a convencional
que traz os seguintes itens: Introdução, Material e métodos,
Resultados, Discussão e Conclusão.
Texto: Recomendamos que não seja superior a 12 páginas,
formato A4, fonte English Times (Times Roman) tamanho 12,
com todas as formatações de texto, tais como negrito, itálico,
sobre-escrito, etc.
Tabelas: Considerar no máximo seis tabelas, no formato Excel/
Word.
Figuras: Considerar no máximo 8 figuras, digitalizadas (formato
.tif ou .gif ) ou que possam ser editados em Power-Point, Excel,
etc.
Bibliografia: É aconselhável no máximo 50 referências
bibliográficas.
Os critérios que valorizarão a aceitação dos trabalhos serão o de
rigor metodológico científico, novidade, originalidade, concisão
da exposição, assim como a qualidade literária do texto.
3. Revisão
Serão os trabalhos que versem sobre alguma das áreas relacionadas
à atividade física, que têm por objeto resumir, analisar, avaliar
ou sintetizar trabalhos de investigação já publicados em revistas
científicas. Quanto aos limites do trabalho, aconselha-se o mesmo
dos artigos originais.
4. Atualização ou divulgação
São trabalhos que relatam informações geralmente atuais sobre
tema de interesse dos profissionais de Educação Física (novas
técnicas, legislação, etc) e que têm características distintas de
um artigo de revisão.
5. Relato ou estudo de caso
São artigo de dados descritivos de um ou mais casos explorando
um método ou problema através de exemplo. Apresenta as
características do indivíduo estudado, com indicação de sexo,
idade e pode ser realizado em humano ou animal.
6. Comunicação breve
Esta seção permitirá a publicação de artigos curtos, com maior
rapidez. Isto facilita que os autores apresentem observações,
resultados iniciais de estudos em curso, e inclusive realizar
comentários a trabalhos já editados na revista, com condições
de argumentação mais extensa que na seção de cartas do leitor.
Texto: Recomendamos que não seja superior a três páginas,
formato A4, fonte English Times (Times Roman) tamanho 12,
com todas as formatações de texto, tais como negrito, itálico,
sobre-escrito, etc.
Tabelas e figuras: No máximo quatro tabelas em Excel e figuras
digitalizadas (formato .tif ou .gif ) ou que possam ser editados
em Power Point, Excel, etc
Bibliografia: São aconselháveis no máximo 15 referências
bibliográficas.
7. Resumos
Nesta seção serão publicados resumos de trabalhos e artigos
inéditos ou já publicados em outras revistas, ao cargo do Comitê
Científico, inclusive traduções de trabalhos de outros idiomas.
8. Correspondência
Esta seção publicará correspondência recebida, sem que
necessariamente haja relação com artigos publicados, porém
relacionados à linha editorial da revista.
Caso estejam relacionados a artigos anteriormente publicados,
será enviada ao autor do artigo ou trabalho antes de se publicar
a carta.
Texto: Com no máximo duas páginas A4, com as especificações
anteriores, bibliografia incluída, sem tabelas ou figuras.
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
PREPARAÇÃO DO ORIGINAL
1. Normas gerais
1.1 Os artigos enviados deverão estar digitados em processador de
texto (Word), em página de formato A4, formatado da seguinte
maneira: fonte Times Roman (English Times) tamanho 12,
com todas as formatações de texto, tais como negrito, itálico,
sobrescrito, etc.
1.2 Numere as tabelas em romano, com as legendas para cada
tabela junto à mesma.
1.3 Numere as figuras em arábico, e envie de acordo com as
especificações anteriores.
As imagens devem estar em tons de cinza, jamais coloridas, e
com resolução de qualidade gráfica (300 dpi). Fotos e desenhos
devem estar digitalizados e nos formatos .tif ou .gif.
1.4 As seções dos artigos originais são estas: resumo, introdução,
material e métodos, resultados, discussão, conclusão e
bibliografia. O autor deve ser o responsável pela tradução do
resumo para o inglês e também das palavras-chave (key-words).
O envio deve ser efetuado em arquivo, por meio de disquete,
CD-ROM ou e-mail. Para os artigos enviados por correio em
mídia magnética (disquetes, etc) anexar uma cópia impressa e
identificar com etiqueta no disquete ou CD-ROM o nome do
artigo, data e autor.
2. Página de apresentação
A primeira página do artigo apresentará as seguintes informações:
- Título em português, inglês e espanhol.
- Nome completo dos autores, com a qualificação curricular e
títulos acadêmicos.
- Local de trabalho dos autores.
- Autor que se responsabiliza pela correspondência, com o
respectivo endereço, telefone e E-mail.
- Título abreviado do artigo, com não mais de 40 toques, para
paginação.
- As fontes de contribuição ao artigo, tais como equipe,
aparelhos, etc.
3. Autoria
Todas as pessoas consignadas como autores devem ter participado
do trabalho o suficiente para assumir a responsabilidade pública
do seu conteúdo.
O crédito como autor se baseará unicamente nas contribuições
essenciais que são: a) a concepção e desenvolvimento, a análise
e interpretação dos dados; b) a redação do artigo ou a revisão
crítica de uma parte importante de seu conteúdo intelectual; c)
a aprovação definitiva da versão que será publicada. Deverão
ser cumpridas simultaneamente as condições a), b) e c). A
participação exclusivamente na obtenção de recursos ou na coleta
de dados não justifica a participação como autor. A supervisão
geral do grupo de pesquisa também não é suficiente.
Os Editores podem solicitar justificativa para a inclusão de autores
durante o processo de revisão do manuscrito, especialmente se o
total de autores exceder seis.
4. Resumo e palavras-chave (Abstract, Key-words)
Na segunda página deverá conter um resumo (com no máximo
150 palavras para resumos não estruturados e 200 palavras para
os estruturados), seguido da versão em inglês e espanhol.
189
O conteúdo do resumo deve conter as seguintes informações:
- Objetivos do estudo.
- Procedimentos básicos empregados (amostragem, metodologia,
análise).
- Descobertas principais do estudo (dados concretos e
estatísticos).
- Conclusão do estudo, destacando os aspectos de maior
novidade.
Em seguida os autores deverão indicar quatro palavras-chave
para facilitar a indexação do artigo. Para tanto deverão utilizar
os termos utilizados na lista dos DeCS (Descritores em Ciências
da Saúde) da Biblioteca Virtual da Saúde, que se encontra no
endereço Internet seguinte: http://decs.bvs.br. Na medida do
possível, é melhor usar os descritores existentes.
5. Agradecimentos
Os agradecimentos de pessoas, colaboradores, auxílio financeiro
e material, incluindo auxílio governamental e/ou de laboratórios
farmacêuticos devem ser inseridos no final do artigo, antes as
referências, em uma secção especial.
6. Referências
As referências bibliográficas devem seguir o estilo Vancouver
definido nos Requisitos Uniformes. As referências bibliográficas
devem ser numeradas por numerais arábicos entre parênteses e
relacionadas em ordem na qual aparecem no texto, seguindo as
seguintes normas:
Livros - Número de ordem, sobrenome do autor, letras iniciais de
seu nome, ponto, título do capítulo, ponto, In: autor do livro (se
diferente do capítulo), ponto, título do livro (em grifo - itálico),
ponto, local da edição, dois pontos, editora, ponto e vírgula, ano
da impressão, ponto, páginas inicial e final, ponto.
Exemplo:
1. Phillips SJ, Hypertension and Stroke. In: Laragh JH, editor.
Hypertension: pathophysiology, diagnosis and management. 2nd ed.
New-York: Raven press; 1995. p.465-78.
Artigos – Número de ordem, sobrenome do(s) autor(es),
letras iniciais de seus nomes (sem pontos nem espaço), ponto.
Título do trabalha, ponto. Título da revista ano de publicação
seguido de ponto e vírgula, número do volume seguido de dois
pontos, páginas inicial e final, ponto. Não utilizar maiúsculas
ou itálicos. Os títulos das revistas são abreviados de acordo com
o Index Medicus, na publicação List of Journals Indexed in Index
Medicus ou com a lista das revistas nacionais, disponível no site
da Biblioteca Virtual de Saúde (www.bireme.br). Devem ser
citados todos os autores até 6 autores. Quando mais de 6, colocar
a abreviação latina et al.
Exemplo:
Yamamoto M, Sawaya R, Mohanam S. Expression and
localization of urokinase-type plasminogen activator receptor
in human gliomas. Cancer Res 1994;54:5016-20.
Os artigos, cartas e resumos devem ser enviados para:
Guillermina Arias - E-mail: [email protected]
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício - Volume 11 Número 3 - julho/setembro 2012
190
Calendário de eventos
2012
27 a 29 de novembro
Outubro
24 a 27 outubro
1º Congresso de Educação Física da FIEP/AM
II Encontro de Estudantes de Educação Física do CEFIEP/AM
Manaus, AM
Informações: www.fiepam.com.br
E-mail: [email protected]
Novembro
9 a 11 de novembro
12º Fitness Brasil Bahia
Salvador, BA
Informações: www.fitnessbrasil.com.br
9 e 10 de novembro
II Simpósio Internacional de Força e Condicionamento
Físico
Teatro da Unifor, Fortaleza, CE
Informações: www.top7brasil.com.br
III Congresso Nacional de Educação Física
Centro de Convenções Raymundo Asfora, Campina Grande,
PB
Informações: www.conaef.com.br
2013
Janeiro
12 a 16 de janeiro
28º Congresso Internacional de Educação Física
Foz do Iguaçu, PR
Informações: www.congressofiep.com
Maio
29 de maio a 1 de junho
VIII Congresso Internacional de Educação Física e
Motricidade Humana
Campos de Rio Claro, SP
Informações: www.rc.unesp.br
09 à 11/11/2012
III Meeting de Corrida de Rua
(11) 2714-5678/2714-5695
Informações: [email protected]
www.institutophorte.com.br
21 a 23 de novembro
Expo Estádio 2012
Expo Center Norte, São Paulo SP
Informações: www.expoestadio.com.br
Curso (pós-graduação)
6 abril / 2013
Preparação Física em Esportes Coletivos
Centro de Pesquisa e Pós-Graduação (CPPG),
Faculdade de Educação Física, Departamento
de Pós-Graduação e Extensão Universitária
Rua Galvão Bueno, 707 Liberdade, São Paulo, SP
Informações: (11) 3399-3877/ 3209-0059
E-mail: inscriçã[email protected]
Erratum
O Resumo e o Abstract do artigo “A ansiedade em atletas de ginástica artística em períodos de pré-competição e competição”, publicado
p. 73 da edição v11n2 (abril/junho de 2012) é o seguinte, ao lugar dos textos que foram colocados por engano, repetindo o resumo
do artigo anterior. Desculpe-nos pelo erro.
Resumo
A psicologia esportiva vem tentado determinar os níveis adequados e
críticos quando o assunto é ansiedade, e tem como objetivo maior ajudar os
atletas a controlarem os seus níveis de ansiedade, para que os mesmos possam
obter resultados esperados em suas competições. Este estudo teve como objetivo
compreender o quanto a ansiedade vem afetando o desempenho de atletas que
praticam a modalidade Ginástica Artística. Visa também analisar os mesmos,
no que diz respeito aos níveis de ansiedade que podem inibir seu desempenho
atlético, uma vez que atletas têm declarado baixos resultados causados pelo fato
de estarem muito ansiosos sobre um evento ou competição. Esta pesquisa foi
realizada com atletas de quatro equipes diferentes de Ginástica Artística, das
categorias juvenil e adulto (masculina e feminina), composta por 21 atletas, todos
federados de um Clube da Cidade do Rio de Janeiro, na faixa etária entre 12 e 27
anos. Foram utilizados dois instrumentos de aferição, o Inventário de Ansiedade
Estado Competitiva-2 - CSAI-2 e o Teste de Ansiedade-Traço em Competições
Esportivas - SCAT. Concluiu-se que, em geral, os atletas analisados apresentaram
níveis médios de Ansiedade-Traço. Os valores para Ansiedade-Estado variaram
entre baixos e médios, de acordo com os resultados apresentados. Quanto à
autoconfiança, esta assumiu níveis médios em três equipes, exceto na masculina
adulto, na qual os níveis apontaram alta confiança. No entanto os níveis de
autoconfiança foram maiores que os níveis de ansiedade.
Palavras-chave: ansiedade, atleta, psicologia esportiva.
Abstract
The sports psychology has been trying to determine appropriate and critical levels of anxiety, and aims to help athletes to control their anxiety levels,
so that they can achieve expected results in competitions. This study aimed at
understanding how much anxiety has been affecting artistic gymnasts performance and also at analyzing the anxiety levels that may inhibit their athletic
performance, since athletes have reported poor results caused by anxiety before
an event or competition. This research was conducted with athletes from four
different teams of Artistic Gymnastics, youth and adult categories (male and
female), comprising 21 athletes, all of them sports licence holders of a Rio de
Janeiro club, 12 to 27 years old. The Competitive State Anxiety Inventory-2 CSAI-2 and Test-Trait Anxiety in Sports Competitions – SCAT were used. We
concluded that, in general, analyzed athletes had medium level of anxiety-trait.
The levels of anxiety-state ranged from low to medium, according to the results.
Concerning self-confidence, the three teams had medium level, except for the
adult male, which expressed high self-confidence levels. However self-confidence
levels were higher than anxiety levels.
Key-words: anxiety, athlete, sports psychology.
Re v i s t a
B r a s i l e i r a
d e
Fisiologia
do
exercício
Brazilian Journal of Exercise Physiology
Órgão Oficial da Sociedade Brasileira de Fisiologia do Exercício
Índice
volume 11 número 4 - outubro/dezembro 2012
Editor Chefe
Paulo de Tarso Veras Farinatti
Editor Associado
Pedro Paulo da Silva Soares
Walace Monteiro
Conselho Editorial
Amandio Rihan Geraldes (AL)
Antonio Carlos Gomes (PR)
Antonio Cláudio Lucas da Nóbrega (RJ)
Benedito Sérgio Denadai (SP)
Dartagnan Pinto Guedes (PR)
Douglas S. Brooks (EUA)
Emerson Silami Garcia (MG)
Francisco Martins (PB)
Francisco Navarro (SP)
Luiz Carnevali (SP)
Luiz Fernando Kruel (RS)
Martim Bottaro (DF)
Patrícia Chakour Brum (SP)
Paulo Sérgio Gomes (RJ)
Robert Robergs (EUA)
Rosane Rosendo (SC)
Sebastião Gobbi (SP)
Steven Fleck (EUA)
Yagesh N. Bhambhani (CAN)
Vilmar Baldissera (SP)
Sociedade Brasileira de Fisiologia do Exercício
Corpo Diretivo: Paulo Sérgio C. Gomes (Presidente),
Vilmar Baldissera, Patrícia Brum, Pedro Paulo da Silva
Soares, Paulo Farinatti, Marta Pereira,
Fernando Augusto Pompeu
Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício está
indexada no SIBRADID (Sistema Brasileiro de
Documentação e Informação Desportiva)
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Direção de arte
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1 ano (4 edições ao ano): R$ 160,00
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Editorial
Treinamento, avaliação e desempenho, Jean-Louis Peytavin............................... 194
ARTIGOS ORIGINAIS
Efeito agudo do exercício resistido sobre os parâmetros da glicemia
capilar aguda em indivíduos diabéticos tipo 2, Cristiane dos Santos,
Sabrina Rodrigues, Danielle Fernandes, Gilberto Monteiro................................... 195
Importância do serviço de avaliação física: a percepção do usuário
de musculação em academias de ginástica do Rio de Janeiro,
Luiz Felipe Taranto Sinforoso, Paulo Cesar Nunes-Junior...................................... 200
Razões para o uso de suplementos nutricionais por praticantes
de musculação em academias na cidade de Fortaleza-Ceará,
Thiago Medeiros da Costa Daniele, George Lacerda de Souza,
João Paulo Lima Vasconcelos................................................................................. 211
Efeitos agudos e temporários da facilitaç&atild