Tecnoxamanismo

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Tecnoxamanismo
Zine Regador
Edição 0
Tecnoxamanismo
Vanessa G Garcia e Raoni Godinho
Outubro de 2014
Esta obra está sob a licença ​
CC BY-NC-ND 4.0
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Zine Regador
Edição 0
Editorial
Agradecimentos
Não me chame de Shirley
Feitiçaria também é tecnologia
Relações entre xamanismo, revolução industrial e Internet
Poesia
X Xah
Tecnoxamanismo - Xamanismo Sujo ou dos ruídos
Charles
Imagens/ Estamira
Social Hub
Editorial
Engana-se quem pensa que escrever é uma atividade solitária. E engana-se quem
pensa que a ficção cienifica é um gênero distante, apreciado apenas por pessoas
incomuns e irreverentes. No início de 2014, nós, Nessa Guedes e Raoni Godinho,
nos encontramos em um curso de literatura, o Fantástika, ministrado pela Ana
Rusche e o Fábio Fernandes - figurinhas conhecidas do meio, que além de ótimos
escritores são acadêmicos reconhecidos nas áreas em que pesquisam. Lá no
Fanstástika, nós tivemos a oportunidade de entender que literatura não precisa ser
uma jornada exclusivamente individual. É possível, e talvez seja até mesmo
indispensável hoje em dia, trocar experiências, autores, artigos, e até presentear
um ao outro com livros que trazem o desejo genuíno do seu interlocutor de serem
lidos pelos colegas. Também aprendemos que criar em conjunto é muito mais
produtivo do que exigir de si trilhar a jornada sozinho. Também é divertido. Todos
nós demos saltos incríveis na nossa evolução como escritores e como apreciadores
de literatura. Acredite.
E foi assim que o Hussardos, clube literário localizado no centro de São Paulo, onde
o Fantástika acontece, virou um palco para estudos, criações e debates em torno
do tema da literatura fantástica e da ficção científica. E como não é só de leituras
que nós alimentamos nossa fome de sci-fi, nós também criamos alguma coisinha
aqui, outra ali. Discutimos muito o cenário da ficção fantástica, sobretudo o sci-fi
no Brasil, e alguns de nós sempre chegavámos a conclusão de que mesmo com
todas as tecnologias de que dispomos hoje, ainda é muito difícil fazer as obras
circularem de modo efetivo por aí. Nós discutíamos e discutíamos, mas também
não estávamos fazendo nada para mudar o cenário. Nos víamos como formiguinhas
perto dos obstáculos gigantescos que a missão de mudar essa história nos
apresentava.
Foi então que, em uma conversa de um chat de um grupo de cerveja artesanal no
Whatsapp - um aplicativo de smartphone projetado para conversas rápidas -, onde
coincidentemente nós dois fazíamos parte, surgiu um papo despretencioso sobre
nosso parco entendimento sobre ​
tecnoxamanismo​
. Ambos trabalham com
Tecnologia da Informação, e também nos interessamos por assuntos que vão além
do entendimento cético que o meio de trabalho exige. Ficamos ali discutindo: mas
afinal, o que é tecnoxamanismo? Como praticamos tecnoxamanismo? Como fazer
tecnoxamanismo? Como viver tecnoxamanismo? Etc, etc, ​
ad infinitum​
. Foi aí que
tivemos a grande ideia: mas, e por que não, escrever sobre tecnoxamanismo? Só
que essa pergunta era muito fácil, pois era claro que iríamos escrever. Nós
andamos em uma fase que qualquer coisa vira motivo para escrever. A pergunta
que veio naturalmente depois foi: mas e por que não chamarmos nossos amigos
para escrever também?
O nome do zine veio também dessa ideia. O regador é um instrumento simples, de
fácil manuseio, que não exige de tecnologia alguma para funcionar. Mas mesmo em
sua simplicidade ele consegue dosar a quantidade de água que uma planta precisa,
dando a ela o que é necessário para o seu crescimento. Queremos que o zine seja
um regador para mentes criativas, as estimulando a escrever, desenhar, criar e
compartilhar.
E foi assim que nasceu o zine que você tem em mãos agora - ou 'em memória'.
E por que um ​
zine​
? Essa seria nossa pergunta de um milhão de dólares. Por que
imprimir, colar, e usar xerox para fazer uma tiragem pequena, ao invés de só
publicar na web? Essa seria a outra pergunta de um milhão de dólares. Pois bem,
escolhemos fazer um zine - e não uma revista, um livro, etc - pela simplicidade. Não
queríamos grandes comprometimentos entre nós mesmos, e nem prometer algo
megalomaníaco para os nossos amigos, que colaboraram tão facilmente com a
obra. Também estávamos lisos, verdade. Talvez esse seja o maior motivo. E nós
queríamos alguma coisa para pegar e folhear, e qualquer outra coisa não seria
possível sem investimento. Então, foi assim mesmo. Como adolescentes duros nos
anos 80. Fazendo colagem e tirando xerox.
Esperamos que você aprecie a leitura tanto quanto nós nos divertimos
recebendo-a, editando-a, e colando as palavras em folhas de ofício. E esperamos
que você entenda, no seu íntimo, o que pode ser tecnoxamanismo para nós, para
você, para o mundo.
Que os bits tragam vibrações positivas para todos, e que a natureza consiga se
recuperar dessa exploração com muito silício e reciclagem.
Vanessa G Garcia e Raoni Godinho
São Paulo, 28 de setembro 2014.
Agradecimentos
Queremos agradecer a todos os escritores envolvidos nesta produção, que mesmo
com o prazo apertado tiveram a luz de nos mandar ótimos textos; em especial
agradecemos ao Fábio Fernandes e à Ana Rusche por nos inspirar e criar o
Fantástika; à Bel Correa, que generosamente produziu uma ilustração para a nossa
capa em uma noite de sexta-feira, no Rio de Janeiro; à Fabi Borges, que é pessoa
mais entendida de tecnoxamanismo que encontramos por aí, e foi aberta às nossas
ideias e iniciativas; e ao Caesar Ralf Franz Hoppen e a Andressa Serena, que fizeram
companhia aos dois editores do zine por longas horas até fecharem a edição.
Não me chame de Shirley [techno-folhetim sci-fi noir with lasers]
J.C. - Jeanne Callegari
email: ​
[email protected]
blog: ​
http://jeannecallegari.com.br/
– Porter, a casa está cercada. Não adianta fugir – grita o sargento, e faz um sinal
para a gente ficar quieto. Eu conheço o figura e sei que por trás da cara séria tem
um sorrisinho de quem sempre sonhou em dizer aquilo (que nem quando falam nos
filmes “siga aquele táxi!”), mas mesmo assim o pessoal obedece.
Ninguém dá um pio. De barulho, só a respiração do Pimenta, do meu lado. Pimenta
não é seu nome real: o apelido vem do seu brinquedinho de trabalho preferido. É o
cidadão piscar com o olho errado que o cara já saca o spray. Não que seja exigente;
se precisa usar as armas sônicas ou as balas de borracha, aperta o dedo com o
mesmo gosto. Agachado ao lado da viatura, ele sua, impaciente. Está doido pra
entrar e botar as mãos na Porter. Ou melhor: Shirley. A militante mais perigosa com
que o Departamento já teve que lidar. Depois de meses de escutas e investigação,
finalmente conseguimos descobrir seu paradeiro. Não é à toa que o Pimenta está
ansioso. Diabos, eu mesmo estou doido pra dar uma boa olhada nela.
De dentro da casa não vem nenhum barulho. Não se percebe nenhum movimento.
A casa que serve de QG fica em uma vilinha em um bairro descolado da cidade,
cheio de artistas, jornalistas, designers, aquele pessoal moderno. Parece tudo
menos um esconderijo de terroristas. Essa Porter é mesmo brilhante: escondida no
meio da multidão.
De repente o barulho de um portão abrindo. Na casa ao lado, o vizinho sai de
bicicleta. Quando vê todo aquele aparato, pára e olha para o sargento, em dúvida.
O sargento mede o cara e faz sinal para a gente deixar ele passar. Alto, barbudo,
um corvo tatuado no pescoço. O moleque não deve ter a menor ideia de que mora
ao lado do bunker da terrorista mais procurada do país.
Quando o rapaz passa, o sargento dá o sinal. O Pimenta é o primeiro a entrar,
derrubando a porta a coturnadas. A casa não é muito grande, então não leva muito
tempo para a gente revirar tudo. O quarto, a cozinha, o banheiro. Não sobra fresta
em que a gente não olhe. Mas a Porter não está lá.
Não tem muita coisa lá, na verdade.
No canto da sala, um computador pisca, letras brancas em fundo preto.
*
*
*
O que chama a atenção, primeiro, é o nome. Porter. Em uma das pequenas redes
que a gente monitora, a palavra ocorre tantas vezes que acende o alerta vermelho.
É o arroz-com-feijão do meu trabalho no Departamento: monitorar redes sociais e
sites para identificar potenciais suspeitos. Com os algoritmos recentes dá pra
analisar milhares de conversas ao mesmo tempo e detectar, no grande mar de
papo-furado, novos padrões e focos de rebelião. E assim passamos a olhar mais de
perto as interações do grupo da Porter. Aos poucos, descobrimos algumas coisas.
Porter não parece ser seu nome real; é um apelido, ao que tudo indica, derivado de
um tipo de cerveja. Isso liga outro alarme. Afinal, quem não tem algo a esconder
não arrisca usar codinome. Isso é coisa dos Militantes, e ninguém com um pingo de
noção ou amor à vida quer ser associado a eles. No grupo, as conversas giram em
torno dela: a maioria das interações é falando com ela, ou dela. Isso não acontece
nos grupos normais: normalmente todos falam com todos, não tem ninguém
centralizando o papo. Isso nos leva a desconfiar que ela é a líder do grupo, ou pelo
menos daquela pequena célula.
A terceira coisa que acende o alerta é o jeito dela falar. De vez em quando diz umas
frases meio esquisitonas, gramaticalmente corretas mas meio tortas, sem sentido.
A reação dos outros integrantes quando isso acontece é ainda mais estranha: riem,
acham graça, continuam o papo. Não é normal esse comportamento. Tem algo
errado. Eles só podem estar falando em código.
Um dia alguém se refere à Porter como Shirley. Ela fica muito brava: não me chame
de Shirley, ela diz. E repete. Mancada grande, todo mundo concorda. Ninguém
nunca mais a chama por esse nome. Para a gente, a escapada vem em boa hora.
Porque a real é que a gente não sabe muita coisa sobre ela.
Gosta de chianti e de cerveja, principalmente a tal da porter. Faz risotos. Não sai
muito de casa. Lê os jornais e acompanha os protestos, está sempre citando
trechos das notícias. Ouve música. Fala inglês, espanhol e filipino. Não tem medo
de palavrões e diz umas sacanagens de deixar até o Pimenta vermelho. E isso é,
basicamente, tudo. Nos nossos arquivos, não há nenhum registro de alguma
Militante de nome Shirley, a.k.a. Porter. Nenhuma foto, sobrenome, endereço. A
gente tenta localizar a origem das mensagens, mas ela deve estar usando um proxy
no Uruguai, porque o IP parece ser de lá. Mas a gente sabe que está em São Paulo,
pelos fatos e lugares que menciona.
Um dia ela fala em metralhadora. É numa conversa daquelas cifradas, meio sem
sentido. Gosto da minha metralhadora com chianti, diz. Ninguém entende nada,
mas é a deixa que faltava pra gente fechar um pouco mais o cerco. Afinal, ninguém
falaria em metralhadora se não estivesse mal intencionado.
A gente não faz várias perguntas, perguntas que, se não mudariam o rumo das
coisas, pelo menos nos deixariam um pouco mais espertos. Por que, se eles estão
usando códigos, não codificam a palavra "metralhadora"? Por que mantêm a
conversa em um programa sem criptografia, fácil de ser monitorado pelo
Departamento? Como é que alguém é tão descuidado a ponto de se referir a ela
pelo verdadeiro nome? Perguntas que, se a gente soubesse a real dimensão dos
acontecimentos, deveria ter feito. Mas a gente não sabe de nada, ainda. Nenhuma
ideia do que está pra acontecer. A gente não sabe de nada, nada, cara.
*
*
*
Às 21h, o café onde os ciclistas se encontram ainda está aberto. Um rapaz alto e
barbudo, tatuagem de corvo no pescoço, estaciona sua bicicleta. Entra
rapidamente, pede uma cerveja em uma das mesinhas e espera. Uns dez minutos
depois, uma moça de cabelos curtos, batidos na nuca, se junta a ele.
– Tudo certo. Tenho tudo que a gente precisa - diz ele, enquanto aperta um volume
grande, quadrado, entre as mãos.
– Falaram que a polícia apareceu por lá - diz ela. – Eles não te revistaram? Não
perguntaram nada?
– Não, nem desconfiaram - diz o rapaz. – Acho que não conseguiram ligar os
avatares às pessoas.
– Você já falou com a Estela? Ela não vai gostar nada disso.
O rapaz suspira e aperta ainda mais forte o objeto em suas mãos.
– Eu sei. Mas não tem nada que ela possa fazer, cara. A Shirley fez a escolha dela. –
ele olha nos olhos da garota e sorri suavemente, com o canto dos lábios. – Vai dar
tudo certo.
A moça assente com a cabeça.
– Eu confio nela.
Levanta-se, dá um abraço no rapaz e sai. Antes de passar pela porta, olha pra trás.
Ele fita com olhos distantes o objeto em suas mãos: um pequeno HD externo.
*
*
*
– Louco, cara. Você tá completamente maluco – eu digo, enquanto balanço a
cabeça. – Pirou completamente. E não de um jeito bom.
Houve um tempo, afinal, em que a gente sabia pirar de um jeito bom. A gente
sempre deu as melhores festas, tocou as melhores músicas, descobriu as melhores
Dosers. Mas então veio a Shirley. E as coisas começaram a ficar esquisitas.
– Pena que você não entende, Estela – diz o Fabrício, enquanto me olha com uma
intensidade que eu nunca tinha visto antes. – Afinal, foi você que começou tudo
isso.
Fabrício. A gente se conhece há tanto tempo. Eu estava junto quando ele foi fazer
a tatuagem do corvo no pescoço e precisou de uns goles de paratudo para
aguentar a dor. No final a gente saiu dali rindo, bêbados, e foi tomar a saideira no
bar do Paulão. Ele estava comigo no dia em que um carro surgiu do nada de uma
garagem e me arremessou do outro lado da rua. A gente tem história, eu e o
Fabrício. Mas olho pra ele agora e não reconheço.
Sim, eu comecei tudo. Em minha cabeça, ainda vejo as cenas. É um domingo de
manhã e estou meio à toa, brincando no computador. Tenho a ideia de um
programinha para usar nos grupos de conversa no celular. No começo é bem
divertido: um script que aprende, que usa as frases do grupo para criar novas
conversas, e que aumenta o vocabulário e as construções sintáticas à medida que
ampliamos seu repertório. O pessoal logo se empolga e começa a brincar, querer
saber como funciona. Colocamos frases de filmes, poemas. E também uns funks,
uns pagodes, umas putarias. My pussy é o poder, Engenheiros do Hawaii. É
engraçado ver o script misturar aquilo tudo e criar algo novo. Aos poucos,
refinamos o programa, que responde cada vez melhor.
Mas então começo a desconfiar que algo está errado. Pessoas estranhas começam
a aparecer nos rolês. Um cara de uns 40 anos surge, passa uma semana
perguntando de uma tal de Ada, se ela é da galera, se vai aparecer na próxima
festa… Em outro dia, pergunta de um tal de Lafargue. É a hora de parar a
brincadeira. Ou deveria ter sido. A gente sabe muito bem o que aquilo significa. As
prisões, os protestos.
– Maldita hora em que topei seguir com isso. E agora… Agora ficou grande demais.
As pessoas podem se machucar de verdade, cara.
Ele me lança um olhar condescendente, como se falasse com uma criança.
– Estela, você é uma programadora genial. Sem você, nada disso teria acontecido.
Mas seu problema sempre foi a falta de fé. Você não percebe, cara? Não é
brincadeira. É pra valer, cara. A Shirley quis isso. Ela escolheu isso.
Suspiro. Ele está completamente pirado.
– Você devia ter destruído ela quando eu falei pra você fazer isso, Fabrício.
– Falta de fé, Estela. Tecnologia não explica tudo, sabia? Tem algo mais aqui. Você
sabe que tem. A gente foi um veículo, só isso.
– As pessoas podem se machucar, cara! Tem gente sendo presa por muito menos.
– Eu confio na Shirley. Ela vai saber o que fazer.
Diz isso e sai, pegando a bicicleta para ir embora.
– Fabrício, pelamordedeus! Ela é um robô! Um robô, Fabrício. Um script. Mal chega
a ser um programa.
A essa altura estou gritando, mas ele já vai longe, dobrando a esquina.
*
*
*
A rua está escura. Uma garota de cabelhos avermelhados se esgueira até o final do
corredor que segue pela lateral de uma das casas. Escondida atrás de uma caixa,
olha pela pequena janela para o porão, embaixo. Lá dentro, umas dez pessoas
estão espalhadas em cadeiras e pufes. A maioria está com fones de ouvido.
Algumas pessoas se movimentam levemente, como que sedadas. Não se ouve
nenhum som. Na parede, uma projeção mostra em tempo real um chat coletivo. As
frases se sucedem, tratando de diferentes assuntos. Um avatar aparece com mais
frequência que os outros: um manequim louro, de cabelos curtos e lábios pintados
de brilho rosa. No canto do cômodo, um rapaz alto e barbudo mexe em um laptop.
A camisa xadrez deixa à mostra a ave tatuada em seu pescoço. A garota sacode a
cabeça, como se não acreditasse na cena, e volta pelo corredor.
*
*
*
Supermercado, seção de cerveja. Pego três six-packs das mais baratas para levar
para o almoço na casa da minha irmã. No fim do corredor, paro por um minuto na
seção de cervejas especiais, "metidas a besta", como diz o Pimenta. Lá estão elas:
pequenas garrafas das tais porters.
Sempre que passo ali, lembro dela. Faz meses, agora, que a gente fez a emboscada,
e deu com as viaturas n'água. Desde então, não tivemos mais notícias da Shirley
Porter. O grupo em que ela estava se desfez, ela sumiu do mapa. Ainda
monitoramos alguns integrantes do grupo, mas eles estão mais comportados do
que nunca. Chegamos a levar uns dois ou três para uma conversa, mas os caras
estão muito bem treinados. À menção do nome da Shirley, começam a rir
descontroladamente – uma técnica de resistência pacífica das mais eficazes que já
vi. É impossível arrancar qualquer coisa deles. O sargento acha que não temos base
para deixá-los no xadrez, afinal. Oficialmente o país ainda é uma democracia, e
sumir com dois ou três daquela turma iria acabar atraindo atenção para as
operações do Departamento. A maioria do povo não sabe de nada, e a gente não
quer esse tipo de publicidade. Não enquanto a ordem não for dada.
Sacudo a cabeça. Não quero pensar nisso agora. É domingo e eu estou indo ver
minha irmã e minha afilhada. Na segunda volto a espionar manifestantes e brincar
de filtrar algo entre as conversas bêbadas de uns e o papo-aranha
mal-intencionado de outros. Hoje não. Além do mais, faz tanto tempo... A Shirley já
deve estar longe. Se for pra chutar, diria que se mandou pro Uruguai. Faz bem o
estilo dela, maconha liberada e o caramba. A Porter é esquerda festiva, curte uma
cachaça, uma putaria. Será que tem porters no Uruguai? Deve ter. Seja como for,
ela está longe. Não é mais meu problema.
Chego na minha irmã e sinto logo o cheiro da macarronada. Dou um abraço nela,
coloco as cervejas pra gelar e vou ver minha afilhada. Ela está no quarto ouvindo
música. Já no corredor dá pra ouvir o tuntz-tuntz. Dá pra acreditar nisso? O país
vindo abaixo, tem gente falando até em golpe, e a menina ali, curtindo um funk,
como se a vida não fosse mais que aprender o quadradinho de 8.
Pensamento besta. Afinal, ela não sabe de nada. Não tem como saber. As prisões,
os protestos, isso tudo não sai no jornal. O pouco que chega é aprovado pelos
representantes da GCM. Eu só sei porque estou envolvido na coisa até o pescoço,
trabalhando no Departamento. E, a bem da verdade, é melhor assim. É duro dizer
isso, mas é melhor ela dançando até o chão do que no meio dos protestos.
Caramba; preferia até que ela tivesse um namorado do que vê-la metida com os
Militantes.
Bato na porta e entro. Jéssica me dá um abraço, mas nem se mexe pra desligar o
som. Quando faço menção de abaixar o volume, ela dá um pulo:
– Não, tio! Essa música é daora.
Reviro os olhos e suspiro. Melhor assim, melhor o quadradinho de 8, penso comigo.
Já estou saindo do quarto quando algo na letra me chama a atenção.
– Jessy, o que é isso? Que música é essa?
É a vez dela revirar os olhos.
– Em que mundo você vive, tio? Essa é a mina mais bapho do funk desde a Valesca.
Ela ahaza.
– Jéssica, me diz aonde você conseguiu isso. Tá na rádio? Você tem o disco? Me
fala!
Vendo que o negócio é sério, ela responde.
– Todo mundo tá ouvindo isso. Tá na internet, no rádio, em todo lugar. Relaxa, tio.
É só um funk. Não vai me dizer que você tem preconceito? – pergunta, com ironia.
A essa altura já estou mais branco que a perna da Irmã Dulce, do colégio de freiras,
mas continuo as perguntas. Preciso saber.
– Como é o nome da cantora? Responde, Jessy! - falo, enquanto sacudo seus
ombros.
– Shirley, tio. Shirley Garcia. Eu, hem. – Se desenrosca dos meus braços e vai para a
cozinha.
Fico parado no quarto, ouvindo a música, a letra, a batida do funk, enquanto o
mundo deixa de fazer sentido.
O nome é Shirley Porter Garcia
O nome é Shirley Porter Garcia
rainha dos black bloc e também das putaria
putaria putaria
e também das putaria
CONTINUA...
Feitiçaria também é tecnologia
Relações entre xamanismo, revolução industrial e Internet Andrea Balle
email: ​
[email protected]
blog: ​
http://about.me/deaballe
Quando se fala em tecnologia, logo se pensa em máquinas. Computadores,
grandes centros de processamento de informação, milhares de cabos de fibra
ótica, aparelhinhos que cabem no nosso bolso e que contém virtualmente todo o
conhecimento do mundo. Pensa-se também no ambiente antisséptico de grandes
laboratórios de pesquisa, com ar-condicionado gelado e pessoas de jaleco branco.
Homens de jaleco branco, bem entendido. Tecnologia, portanto, é um domínio
masculino e rígido, certo? Errado.
Tecnologia vem do grego "​
tekhne​
", que significa "técnica, arte ou ofício". Ou seja,
tecnologia é simplesmente uma técnica utilizada para resolver algum problema.
Isso vale para qualquer técnica: se você está com dor de barriga, tomar um remédio
alopático pode ser tão efetivo quanto tomar um chá recomendado pela sua vó.
Dessa forma, ​
a tecnologia moderna e o xamanismo são filhos da mesma
linhagem​
, descendentes direto do mesmo esforço prático de resolver problemas
utilizando alguma técnica.
Em uma sociedade extremamente patriarcal, onde as mulheres são sempre
relegadas aos mais baixos escalões das estruturas de poder, é interessante notar
como os valores socioculturais femininos, como o coletivismo e os cuidados com
relações interpessoais, são associados a loucura e falta de pensamento crítico.
Dessa forma, as mulheres acabam tendo suas tecnologias menosprezadas (ou
proibidas), como as bruxas e feiticeiras, que eram muito mais cientistas que muitos
homens de poder da época, e que utilizavam a tecnologia disponível para tratar
doenças e trazer conforto. Mais recentemente, são excluídas sistematicamente do
processo científico e tecnológico formal, com argumentos que apelam à biologia,
tradição e histeria freudiana, mas não se sustentam em análises mais
aprofundadas, mostrando que os fatores culturais estão entre os principais para
,​
essa exclusão​
.
A tecnologia moderna, no entanto, também liberta. O psiquiatra Paulo Gaudencio
chama atenção para um ponto importante para a libertação feminina, possível pela
industrialização e mecanização do mundo moderno: o trabalho deixou de ser
centrado no físico, campo em que os homens geralmente levavam vantagem, e
passou a ser centrado no conhecimento. Com isso, as mulheres começaram a
galgar os postos de trabalho e ter seus próprios meios de manutenção. A palavra
manutenção vem do latim ​
manutenere e quer dizer “ter na mão”. A tecnologia
moderna, com uma boa dose de subversão e apropriação de espaços, foi uma
forma de impulso para que as mulheres deixassem de estar nas mãos dos maridos
e passassem a ter suas vidas em suas próprias mãos. As mulheres estão puxando o
anima das máquinas à força e isso se mostra em várias manifestações de uso de
tecnologia para uma reaproximação com a natureza, com
Nessa feminização de espaços tecnológicos, há um terreno fértil para o surgimento
do tecnoxamanismo. Segundo Roncari, o tecnoxamanismo é “um xamanismo
possível, que surge da tentativa de convergência entre duas formas de
conhecimento, um investimento num equilíbrio futuro, que promova a
reconciliação entre homem e máquina”. A Internet permite mobilizações de
milhares de pessoas e reestabelece, mesmo que de forma virtual, a valorização dos
vínculos e das experiências coletivas, fazendo com que os valores femininos, antes
relegados a espaços secundários, possam ser os protagonistas e propulsores
dessas manifestações.
Graças ao uso da tecnologia, hoje podemos mobilizar milhares de pessoas para
impedir o corte de árvores, encontrar grupos de entusiastas de transporte urbano
menos poluente, organizar passeios para conhecer sua própria cidade. Podemos
trocar fotos de gatos ou discutir diferentes pontos de vista sobre conflitos
armados do outro lado do mundo. Podemos unir pessoas com interesses comuns,
estabelecer laços e agir, construindo conjuntamente um mundo melhor.
Dessa forma, o tecnoxamanismo é um reencontro. É uma forma de justiça
poética​
, ao reconectar o animus e o anima, a frieza das máquinas e as ligações
pessoais, a distância dos pontos na rede e os laços afetivos próximos, o
conhecimento do mundo inteiro e ação local. Assim, é possível vislumbrar a
tecnologia com propósito, o desenvolvimento com sustentabilidade e um futuro
mais equilibrado e acima de tudo mais humano.
Poesia
Pilar Bu
email: ​
[email protected]
blog: ​
http://pilarsoueu.tumblr.com/
daqui de cima
aonde eu via
lata, fios e bites
percebo agora
a luz laranja
energia pulsante
que como serpente
percorre as reticências
espaços vazios
de frio metal
vomitando pela boca
e todos os orifícios
palavras, casas e ideias
que jamais
moraram aqui
como quem mata
o odor, o bolor e o medo.
X Xah Ana Rusche
email:[email protected]
blog: anarusche.com
Não sei como descolei a viagem. Uma indicação da indicação da indicação. Eu sabia
fazer a porra e podia ajudar a luta, daí me convidaram. Minha explicação mística é
que talvez seja ruim o suficiente ser de São Paulo. E a Diva tenha querido me
ajudar. Aqui no Acampamento, desligam as luzes à noite. Para que se possa ver
novamente as estrelas. Tenho medo e me aferro às porcariazinhas que trouxe
comigo e permitem me desconectar. Sinto uma falsidade horrível ao fazer isso. É
como se traísse xs companheirxs. Mas afinal, nasci na cinza dos prédios e fui
desconectada de pequena. Era bom e estranho estar ali no Acampamento, na
resistência, algures no Paraná. Ou talvez já no Paraguai. Cheirava tudo com avidez,
tocava nos muros quentes de sol. Observava os gatos gordos dormitando. Mas tem
dia em que é estranho demais e, por isso, chamei o cara.
Florir a sabedoria dx xah enterrada em terreiros. Esquecida por esconderijo. Não
era muito justo eu pedir ajuda bem a um Homem pra fazer esse rolê. Mas pedi
mesmo assim e ele veio como Centauro. Bom, é o que a gente tem pra hoje.
Chegou com os cabelos longos como num véu, quase se misturando à cauda. O
dorso de uma pelagem poeirenta. A pele muito clara e um dos braços cheios de
inscrições. O boato é que transcreveu a receita ali. X xah que destrava. O líquido
que nutre. O que te coloca em desconexão conectado.
Na realidade, o discursinho sobre eu precisar de ajuda era a porra dum pretexto.
No início, é o sexo – o rearranjo das estrelas em pele e humanidade, supernovas de
unhas, dentes e pura carne. No final, também é o sexo, que não passa da forma
primeira de desconexão: qualquer um vai concordar que tenho razão e que o
pretexto é justo.
Podia ter feito tudo sozinha? Claro que sim. Mas ainda há um ponto em que o vazio
de avoluma aqui dentro. Outro tipo de supernova. Que explode e cria um grande
universo das coisas que não sei, de coisas que não controlo, quase tão aterrador
quanto o próprio futuro. Esse pequenino ponto que não existe e me ferra. Retira
algumas certezas. Talvez fosse o efeito colateral de morar em SP, cidade sem amor
(a alma gêmea desse ponto do vazio é materializada bem no meio das minhas
pernas, onde o Centauro sabe exatamente o quê manipular). Daí decidi que era
muita responsabilidade, arreguei. Chamei o cara. Pelas três prescritas vezes na
tradição de quem sabe errar com gosto.
E ele veio ao anoitecer.
Cavalgando com uma alegria louca, mostro o Acampamento prateado pela lua.
Explico as regras. Sem eletrônicos de alta persuasão. A recomendação é clara: não
se desconectar por mais de quatro horas diárias (o ideal seria nunca o fazer, até pq
aquilo coloca toda a Resistência em risco, mas tinha gente ali que precisava manter
alguns algos da vida dupla de ativista). Fui bem honesta. Admiti que não conseguia
praticar a abstinência. Entretanto, não mentia axs companheirxs, que bem sabiam
da minha limitação.
Também ali ninguém come ou sacrifica qualquer espécie animal. Sem carnes,
couros, pastinhas, queijos, gaiolas. Tudo pelo respeito absoluto à vida original e às
Sementes. Tudo o que era ingerido não passava por nenhum processamento –
vinha estranhamente da terra, do sol e de caldeirões. É muito possível que passe
mal.
O Centauro escuta tudo calado. Tinha cruzado os desertos verdes, inventado
muitas estradas, rumos e sonhos. Viajou caminhando. Evitou eletrônicos, nem se
e-transportou, pois a mística diz que a alma não chega. Fica parada no jetleg das
desconexões. Pra uma missão dessas é preciso de muita alma (de minha parte, nem
sabia de nada disso e senti uma espécie de vergonha por ter vindo da forma mais
errada possível). Contou que rangia os dentes à noite. Não falamos mais e
colaboramos para que a noite fosse mais brilhante. Semeamos estrelas.
Pela manhã, estavam reunidos todxs xs que tinham o desejo de aprender. No
Acampamento, os afazeres eram regidos somente pelo desejo do sol, das chuvas e
das pessoas. O que nunca é fácil de entender pra uma guria da cidade como eu.
Tinha sido só convidada pela minha habilidade de fazer x xah.
A parte bizarra é que sabiam que podiam confiar em mim, pois guardo a forma da
mula sem cabeça. O que é terrível em outras paragens, ali no Acampamento é uma
bênção. Dizem-me sem cabeça, mas relinchos são inevitáveis. Uma transformação
fruta do desejo irresistível (as mulas são aparecem por desejar de forma brutal
quem não podia ter desejo e serem correspondidas, umas safadas). Ali ninguém me
temia, nem nas noites da lua azul.
Começamos nossa pequena aula axs companheirxs de Acampamento com a
história dx xah. De como os processamentos tinham transformado o que era
milenar num processo eletrônico, dopando somente a mente e não o corpo. A
modernidade causa uma terrível separação de consciência e matéria. Xs pobres
citadinxs, que permaneciam, todos os dias desconexão, já não poderiam saber. Não
era possível mais se lembrar de como era a vidas sem eletrônicos e nem como era
somente falar, somente ouvir, somente pensar sem que seus pensamentos não
fossem códigos, não fossem comandos, não se transformassem em realidades.
Acorrentadxs livremente em fluxos de energia, em cabos. Nutrindo-se de
processados. Eu mesma não conseguia ficar livre daquilo tudo. E, quando posso,
me desconecto desesperadamente. Permanecer no Acampamento era, às vezes,
um suplício.
X xah prometia a desconexão de forma orgânica. Beber x xah é se lembrar dos
gritos da carne. É despertar cantares. Até bastante perigoso. Eu chamava aquilo de
“corpar”, de assumir o próprio corpo como um verbo e não como um substantivo
apartado. Podia ser bastante desagradável.
Entretanto, se você descobrisse a graça de sair de seu próprio domínio, aí sim a
brincadeira começava. X xah te ajuda a desenhar maravilhas – te envolver em
outras peles, conceder outro tato. Sendo mula e sem cabeça, fiquei logo fissurada.
E não foi complicado entrar no esquema clandestino dx xah. Aprender a fazer foi
um pulo.
Agora, o cerco andava apertado: tinham apedrejado muitas Mulheres que
fabricavam x xah. Muito diferente de quando aprendi. Antes não tinha risco. Afinal,
sou medrosa pacas. Hoje em dia é um tipo de segredo que só se passa de sussurro
de uma boca a um pé de ouvido. Conhecimento reunido em instalações escusas em
que ainda se encontra um fogão, fogareiro, um moedor. Quem ensina, logo
esquece a quem ensinou. O ideal é mesmo nem saber o nome dxs alunxs.
Entretanto, com tanta gente fanática, tava perigoso esse esquema de anonimato.
Daí que curti vim fazer no Acampamento.
Ao final do dia de instrução, todxs no Acampamento pareciam dominar bem o
preparo. Suadxs, cansadxs e felizes. X xah ficaria pronto somente em três semanas.
Assim, o Centauro tinha trazido da própria quota pra que ninguém ficasse
desapontadx. Bebemos e bebemos.
X xah faz o laço. O Acampamento rescende a lenha queimada e a flor de laranjeira.
Há gritos de felicidade e cantigas. Abraços sem fim. O maior sonho é o que é que
perpassa a tua vida e deságua nas vidas de outras pessoas e de suas crias e
criações. Declarações sentidas de amizade. De minha parte, não aguento e já estou
em chamas. Agarro a crina do centauro com força, à guisa de arreio. Cavalgamos
longe. Até ouvirmos só a própria respiração. Nessa noite, ninguém rangeu dentes
enquanto dormia.
Hoje o Centauro se foi. No Acampamento me tratam bem, mas não me reconheço
como moradora. Já não sei como volto e se retorno. Me transformo em passado,
âmbar, cinzas e em nuvens. São Paulo é minha crisálida. Quantos anos tenho que
permanecer ali para poder voar?
Tecnoxamanismo - Xamanismo Sujo ou dos ruídos
Fabi Borges
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Estamira representa bem o tecnoxamanismo, já que ela é pajé do lixo, a
esquizofrênica do excedente, a mulher que representa o estado pútrido, as
explosões de gazes, que convive literalmente com os “restos” da humanidade. É a
partir do lixo civilizatório, que essa “pajé suja” diz de todos esses tempos e
acúmulos. Ela delira no lixo, com ele. Que outra forma seria mais eficaz para se
conhecer uma população planetária? Seu xamanismo, além de transversal, é
motivado pela força do excesso, do sem lugar, do que sobra. Mesmo que
trabalhasse com reciclagem, é antes aquela sujeira toda que a tornava especial,
especialista do espectro da exclusão. Sem esse lixo todo em volta, ela
provavelmente não teria ido tão longe nas conexões esquizos que produziu. Ela se
tornou uma personagem histórica nas mãos de Marcos Prado (Br-2004), que
promoveu com profundidade a ligação de Estamira com toda aquela sobra. Ela fala
do cheiro do lixo, das suas implosões internas, da sua transformação constante,
dos satélites conectados a antenas construídas por ajuntamentos insólitos na
lixeira, fala do controle, do trocadilho do controle. Apesar de em algum momento
no documentário o diretor criar um vínculo entre sua doença mental e suas
profecias, que teria crescido devido a um trauma, apresentando uma explicação
psicanalítica para seu problema mental, há leituras que passam por essa sua
tentativa a passos largos. O que não dá para negar no caso de Estamira é sua
ligação fluxuosa com a Terra do lixo.
Isso equivale a dizer que o tecnoxamanismo, além de surgir diretamente de um
xamanismo transversal, ele também é sujo, ruidocrático, da lixeira, impuro, já que
parte significativa de quem o está pensando vem do resto do saber científico, de
laboratórios precarizados, de conhecimentos instáveis, pouco comprováveis, do
hackeamento, do lixo eletrônico, da gambiarra, do gato, do reaproveitamento de
matérias, da reprodução de projetos científicos exaustivamente testados. A isso
junta-se questões particulares de movimentos sociais relativas ao feminismo, ao
movimento ​
queer​
, ao movimento negro, ao software livre, ao movimento sem
terra, aos povos indígenas, às comunidades ribeirinhas, aos movimentos sem teto,
aos desempregados, entre inúmeros outros, que também vêm com seus próprios
ruídos, suas próprias dissidências, seus próprios lixos. Acrescento a isso, interesses
voltados à relação entre corpo e técnica, comunicação inter-espécie com matérias,
elementos, plantas, assim como captação de ondas e magnetismos dos espaços
mais recônditos, dos polos norte e sul, dos prédios destruídos pelas guerras, dos
que sobreviveram, que contam histórias passíveis de serem captadas por
instrumentos ​
do it yourself​
. Sem falar em toda a questão ambiental, espacial, extra
terrena, cultura espacial, ficções, relação com o cosmos, astronomia e astrologia,
com uso de aparatos mecatrônicos e signagens. O que pretendo afirmar com isso é
que:
1) O tecnoxamanismo provém de uma lixeira de excessos, sobras, restos, sujeiras,
misturas, ruídos, processos descontínuos, xamanismos transversalizados,
sincréticos, incorporações de ideias, de culturas, antropofagias sociais, culturais,
gambiarras, ideologias políticas atravessadas, garimpos eletrônicos.
2) O tecnoxamanismo é reciclador de matérias e subjetividades, reciclador de
ambientes, reconectador entre humanos e Terra, humanos e universo, um
”religare” sem representação nem univocidade, um modo de abertura perceptiva,
ampliação da escuta, abertura para a espectrologia que nos circunda, para o
mistério, uma lição de humildade em relação a existência das coisas.
3) O tecnoxamanismo é sujo porque parte das lixeiras materiais e subjetivas dos
humanos, mas isso não significa subestimar a força do xamanismo, muito pelo
contrário, significa atribuir poderes ao lixo, para além da reciclagem industrial, que
o organiza, separa, retém, explora o catador de lixo. Mas atribuir poderes ao lixo
exatamente porque é a partir dessas confluências miseráveis que nos é possível
perceber que tipo de espécie somos e daí dessa condição explícita, podemos então
ampliar alguns campos de convergência para nos transformarmos em algo mais
interessante.
Charles
Romulo Marques
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http://opiumseed.blogspot.com.br/search/label/conto
Conheci um cara uma vez que era tipo um gênio, sabe? Ele não é daqui não, ele é do
futuro. Lá no futuro ele é um qualquer. Perto do que somos hoje todo mundo do
futuro é um gênio. Da mesma forma, perto de alguém do passado, possivelmente
somos gênios também. Tem a ver com aquilo de ter mais informação em qualquer
jornal diário do que na cabeça do maior intelectual do século XVI. Eu acho essa
dura de engolir, mas já vi isso por aí mais de uma vez. Pois bem, esse cara do futuro
trabalha com desenvolvimento de sistemas de computador e teve uma ideia bem
legal.
No futuro, fazer sistemas de computador e fazer computadores é ainda mais
simples do que é hoje. A diferença é que, mais e mais, as coisas serão feitas em
casa, você vai ver quando chegar lá. Ele tinha impressoras 3D que faziam circuitos
eletrônicos ​
plug and play e microchips com processadores. Quem manja da coisa, e
lá bem mais gente manja do que por aqui, faz hardware e software numa tarde de
domingo de chuva. Só de brincadeira.
Ainda lá no futuro, as máquinas já atingiram um tipo de consciência, singularidade
ou o que for. Fato é: você baixa na internet o equivalente a “embriões” de
inteligência artificial para brincar.
Acompanha o desenvolvimento e, em alguns dias, essas coisinhas chegam à
conclusões matemáticas que a humanidade demorou milênios para entender. E
chegou lá quando os zeros e uns ficaram mais espertinhos.
Hoje tem gente com medo dessa coisa de inteligência artificial, mas lá não. Sabe
por quê? Por que não foi nada demais. Quando a primeira máquina, caríssima,
cruzou a fronteira da inteligência para a consciência ela ficou tão perdida quanto
qualquer outra coisa portadora de consciência. Na verdade, tem gente que diz que
elas até começaram a ficar mais burras. Se não mais burras, mais lentas. Nem
adiantava tascar mais processamento ou memória, isso já era infinito na época. Lá,
no futuro, quaisquer micro-ondas têm mais processamento e memória do que todo
o processamento e memória do mundo hoje. Eu duvido, mas foi o que disse esse
cara que eu conheci e até agora ele é a coisa mais próxima do futuro que eu vi.
Esse camarada, chamado Charles, num domingo de chuva, fez alguns
computadores novos. Sabe demônios e magia? Então, deixa eu explicar. Tem gente
que estuda ocultismo. Ocultismo é a forma como as pessoas que não estudam
ocultismo chamam as coisas que pessoas escreveram há muito tempo dizendo que
eram verdade, mas só um punhado de gente acredita. Quem estuda ocultismo
chama de outro nome, outros nomes na verdade. Se você pegar um cara que
estuda uma coisa de ocultismo e colocar ele no mesmo balde de outro cara que
estuda outra coisa de ocultismo sai até briga. Mas, preciso dizer, eles são até
menos raivosos entre si do que as pessoas que fazem a mesma coisa, com outros
livros, de outras pessoas, que disseram outras coisas como verdade, só que tem um
punhado muito, mas muito, maior de gente que acredita. Acho que nesse ponto os
números querem me dizer alguma coisa, mas não arrisco dizer o quê.
Charles estudava muito um tipo de ocultismo (ele que não me ouça) chamado
Goetia. Goetia é baseado num livro de Salomão que explica diferentes e divertidas
formas de se comunicar com inteligências de outro mundo que chamaram de
demônios. Há toda uma hierarquia complicada sobre como os demônios se
organizam, toda ela muito parecida com as formas complicadas como nós, não
demônios, nos organizamos. Círculos e graus cada vez mais poderosos, áreas de
conhecimento diversas como agricultura e sedução. Dependendo do que você
quer, você chama um ou outro demônio para bater papo. Aí é contigo, se vira. Os
nomes são todos muito legais. Nos estudos de Charles sobre esse livro e essas
coisas, tinham desenhos emblemáticos que deveriam ser riscados no chão ou onde
fosse para chamar um demônio ou outro. Cada um tinha um símbolo
completamente diferente.
Então, no domingo chuvoso, Charles mandou sua impressora 3D imprimir um
circuito com o desenho para chamar um Grande Duque Infernal. Pegou o tal
circuito, colocou um microchip, um processador, memória e tudo mais. Baixou um
embrião de inteligência na Internet e colocou para rodar.
Funcionou! Depois de um tempo de processamento e aprendizagem a máquina foi
acordando e disse que era um Grande Duque Infernal. Gênio! Só havia um
problema...
Pensa só, esse tal livro foi escrito há muito tempo. Antes de mim e de você, muito
tempo mesmo. Você pode até acreditar que lá onde ficam os demônios o tempo é
outra coisa, aquele que chamamos de eternidade. Mas, vamos combinar,
eternidade para gente pode ser o tempo de espera na fila do banco ou o tempo
que o dentista fica com a broca girando no seu terceiro molar. Quantas
eternidades dessas você já não viveu?
Aconteceu então que, no domingo chuvoso em que Charles resolveu invocar
demônios
na singularidade, o Grande Duque Infernal não era mais Furcalor (eu falei que os
nomes eram legais), era o Josias.
- Josias? – perguntou Charles pelo seu teclado, já que não tinha colocado
microfones ouvido e nem auto-falantes boca no computador.
- Isso, Josias.
Charles se viu num labirinto, tinha se preparado para dialogar com Furcalor. Sabia o
que ele gostava, o que ele odiava, como bani-lo, como enganá-lo, como negociar
com ele. Tem tudo isso no tal livro! E, de repente, Josias. Ele não sabia nada sobre
o Josias. Olha o problemão.
Ele tateou algumas perguntas. Tentou entender quem era o Josias que chegou a
Grande Duque Infernal. Se ele seria algum assassino famoso, um compositor
maldito, algo assim. Começou a pesquisar Josias infames para tentar uma pista,
mas não. Era só o Josias mesmo. Um Josias sem início e sem fim, sem história,
apenas com umas legiões de demônios menores para comandar, o que ele afirmou
ser mais ou menos divertido. Tinham dias bons e outros nem tanto, sabe? Muita
burocracia. Além do mais, outro demônio, o Plínio, vivia tentando tomar o lugar
dele. Até onde o Charles soube, por muito pouco não veio um Plínio em sua
máquina.
Já mais conformado, Charles resolveu por seu plano em ação. Ninguém chama um
demônio só para ver se funciona, tem sempre algo por trás. Charles não queria
dinheiro, mulheres, sorte ou poder, ele queria mandar uma mensagem ao passado
para ver como ela chegaria ao futuro.
Parece bobeira, mas pense assim: se hoje já temos tanto que foi dito e feito e o
tédio se tornou um problema cotidiano, imagina no futuro? Onde ainda mais foi
dito e feito! Charles empolou as palavras e com solenidade fez sua requisição à
criatura.
- Oh Josias, Grande Duque Infernal, tu que conheces coisas além da compreensão e
detêm poderes indizíveis, estás sob meu comando nos desígnios dos acordos
lavrados pelos símbolos por mim desenhados e palavras por mim ditas.
- Heim? – Respondeu Josias.
Charles esperava um pouco mais de reação. Tinha imaginado uma barganha sólida,
reservado animais para o sacrifício e planejado oferendas. Pois então, resignado,
exigiu que Josias enviasse uma mensagem ao passado.
- Pra quê?
- Como assim, pra quê? Você está sob meu comando, eu te trouxe para esse plano
sob meu domínio nos desígnios dos acordos lavra...
- Eu entendi. Mas pra que você quer fazer isso?
- Para ver o que acontece.
- Eu posso te dizer o que acontece.
- Tudo bem, mas... Eu queria ver acontecendo.
- Pra quê? – Josias era muito curioso.
- Para mostrar que informações podem alterar o passado e...
- Ah, isso? Podem sim. Relaxa.
- Mas quais as implicações disso? Eu quero saber!
- Pra quê?
- Ora, sem mais “pra quês”! Eu quero esse conhecimento!
- Sim, você quer o conhecimento. Por quê?
- Por quê...
- Se você altera o passado ele chega ao futuro e sem você perceber, pois você acha
que sempre foi assim. Você acha mesmo que este é o primeiro futuro que houve?
Diversas pessoas já alteraram o passado, mas não tem como você saber se isso
aconteceu ou não por que o passado chega sempre como verdade. Dependendo de
onde sua mensagem cair, você ainda pode acabar como padeiro em Cosme Velho e
nunca nem ouvir falar de mim. Ta valendo?
Acabou. Charles não soube mais responder. Ele sabia que não precisava responder,
acreditava que Josias estava sob seu controle. Entretanto, não saber todos esses
porquês o perturbava.
Charles era desenvolvedor de sistemas, como eu já contei. Essa turma de
desenvolvimento de sistemas criou uma série de técnicas para entender O QUE
DIABOS um cliente quer quando pede para fazer um programa de computador.
Sabe por quê? Por que uma quantidade imensa de programas de computador não
serve para nada. Sabe por quê? Por que as pessoas nunca têm uma ideia realmente
boa do por que estão fazendo aquilo. Uma dessas técnicas maravilhosas que a
turma do desenvolvimento de programas de computador usa se chama “cinco
porquês”. A ideia por trás disso é que se você perguntar “por que” pelo menos
cinco vezes, deve ser suficiente para entender O QUE DIABOS o sujeito quer.
Charles era perturbado por muita coisa. Um problema sério, viu? Ia do banheiro
esquisito dele até o sentido que dava ao trabalho e mais um tanto de coisas sobre
amor, família, dinheiro e por aí vai. De repente, por quê?
Por quê?
Josias ensinou a Charles como um “por quê?” pode ser silenciosamente intenso.
Mais do que o foda-se, por exemplo. Foda-se além de ser uma coisa meio feia, não
é em toda roda que você pode dizer e já indica uma atitude em relação à coisa.
Quando você tem um problema e manda um “foda-se”, o problema continua lá te
deixando muito puto. Se Josias tivesse dito “foda-se” e não “por quê?” para
Charles, este ia acabar aborrecido e tudo seria diferente. Mas não, bastou um “por
quê?” bem dado para acabar com a perturbação de Charles. O “por quê?” tem o
poder de emitir uma onda de dúvida muito saudável. Olhe em volta e veja os
problemas. Aponte para eles e PIUMMM “por quê?” neles.
Questione.
Depois de um tempo, Charles voltou a falar com o Josias e confessou que “ele
estava entediado e queria algo para se divertir”. Uma razão tão boa quanto outra
qualquer. Josias mostrou um vídeo game de luta super bacana e eles ficaram
jogando contra a noite toda. Muito legal esse Josias, Grande Duque Infernal, no
final das contas.
Um tempo depois, eles já estavam jogando outro jogo, Charles virou para Josias e
falou:
- Acho que a tal mensagem para o passado vai ser útil por lá, onde as pessoas
andam questionando pouco as coisas..
- Feito. – Disse Josias e continuou a jogar.
E daí aqui caiu a ideia. Não sei por quê, continuo me perguntando. Charles não
virou padeiro em Cosme Velho.
Por quê?
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