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BENTO XVI, ANGELUS, DOMINGO, 7 DE AGOSTO
“Coragem, sou eu.
Não tenhais medo”
GEORGES COTTIER. Os Padres do primeiro milênio, o Concílio Vaticano II e a luz refletida da Igreja
ANO XXIX - N.7/8 - 2011 R$ 15,00 - € 5
na Igreja e no mundo
www.30giorni.it
MENSILE SPED. IN ABB. POST.
Tar. Economy Taxe Percue Tassa Riscossa Roma.
ED. TRENTA GIORNI SOC. COOP. A R. L.
ISSN 1827-627X
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En cas de non distribution, renvoyer pour restitution à lʼexpéditeur, en port dû, à: Ufficio Poste Roma
Romanina, Italie
nella Chiesa e nel mondo
Diretor: Giulio Andreotti
ano XXIX
N.
Sumário
7 / 8 ano 2011
Na capa: Jesus salva Pedro das águas,
mosaico da Catedral de Monreale, Palermo
EDITORIAL
A Democracia Cristã e o fascínio do nome cristão
4
— por Giulio Andreotti
CAPA
ANGELUS
“Unicamente com as tuas forças, não consegues
p. 52
São Carlos Borromeu
O olhar dirigido a São Carlos.
O discurso do arcebispo emérito
de Milão no Meeting de Rímini
3OGIORNI
nella Chiesa e nel mondo
Diretor Giulio Andreotti
levantar-te. Segura na mão d'Aquele que desce até ti”
Bento XVI, Palácio Apostólico de Castel Gandolfo,
Domingo, 7 de agosto de 2011
42
NESTE NÚMERO
ECCLESIAM SUAM
A percepção da Igreja como “luz refletida”
que une os Padres do primeiro milênio
e o Concílio Vaticano II
REDAÇÃO
Via Vincenzo Manzini, 45 00173 Roma
Tel.+39 06 72.64.041 Fax +39 06 72.63.33.95
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Roberto Rotondo - [email protected]
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3OGIORNI
nella Chiesa e nel mondo
é uma publicação mensal registrada
junto ao Tribunal de Roma na data 11/11/1993
n. 501. A publicação beneficia-se de subsídios
públicos diretos de acordo com a lei
de 7 de agosto de 1990, n. 250
Redação
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Massimo Quattrucci [email protected]
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Pierluca Azzaro, Françoise-Marie Babinet,
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Diretor responsável
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Tipografia
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De segunda a sexta-feira das 9h às 18h
e-mail: [email protected]
Colaboraram neste número
Cardeal Georges Cottier,
Cardeal Dionigi Tettamanzi
Este número foi concluído na redação
dia 4 de setembro de 2011
Escritório Legal
Davide Ramazzotti - [email protected]
Impressão concluída no mês de outubro
de 2011
CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS:
Enzo LoVerso: Capa, pp.43,44-45; Giorgio Deganello Editore: pp.6-7,8,10-11,18,19,20-21,
22, 23,24,25,26,27,28,29,32,33; Foto Scala, Florença: p.9;
Archivi Alinari, Florença: pp.14,17; Getty Images/De Agostini/G.Dagli Orti: p.36;
Romano Siciliani: pp.46,49; Associated Press/LaPresse: pp.49,50,51; LaPresse: p.51;
Assessoria de imprensa do Meeting Rimini: p.52.
— pelo cardeal Georges Cottier, O.P.
36
IGREJA
São Carlos Borromeu.
A casa construída sobre a rocha
— pelo cardeal Dionigi Tettamanzi
52
AUGUSTO DEL NOCE
A modernidade não é o “inimigo”
Entrevista com Massimo Borghesi — por G. Valente
60
ARTE
Rembrandt comovido pelo rosto de Jesus
64
— por G. Frangi
SEÇÕES
CARTAS DOS MOSTEIROS
6
LEITURA ESPIRITUAL
10
CARTAS DAS MISSÕES
30
CORREIO DO DIRETOR
35
30DIAS NA IGREJA E NO MUNDO
42
30DIAS Nº 7/8 - 2011
3
Editorial
A Democracia Cristã
e o fascínio do nome cristão
por Giulio Andreotti
A Democracia Cristã representou para mim – mas acredito que também
para muitos outros que ali militaram – o convite constante a considerar não ocasional o que acontece dia
após dia, como se fossem muitos fatos desconectados
entre si; mas, ao contrário, a considerar tudo como
correlacionado, como através de uma teia de aranha
que permite colher o sentido profundo das coisas que
acontecem e que passam.
Neste livro, uma sintética releitura de alguns momentos importantes da história democrata-cristã escrita por Giovanni Di Capua e Paolo Messa, encontrei citado também o meu primeiro encontro com De Gasperi. Várias vezes tive a oportunidade de contá-lo: eu nunca tinha visto De Gasperi e não sabia quem era ele. Eu
não provinha de uma família que se dedicava à política.
Ao invés, fui notado por De Gasperi, por ser presidente
da Federação dos Católicos Universitários. Um dia eu
estava na Biblioteca Vaticana revirando os documentos
da Marinha Pontifícia para escrever um ensaio, quando
um desconhecido dirigiu-se a mim perguntando se eu
não tinha nada melhor para fazer, para depois retirar-se
com uma certa frieza. Eu não sabia que aquele senhor
era De Gasperi, mas o teria
conhecido melhor alguns
dias depois, quando Giuseppe Spataro disse-me: “Venha, que De Gasperi quer
O editorial deste número
é o prefácio do nosso diretor
ao livro de Giovanni Di Capua
e Paolo Messa, DC. Il partito
che fece l'Italia, [Democracia
Cristã. O partido que fez
a Itália] ed. Marsilio, Veneza,
2011, 292 pp.
4
30DIAS Nº 7/8 - 2011
Mesmo havendo essa
preocupação de defesa
contra o comunismo,
o estímulo era de caráter
positivo: era o fascínio
que o nome cristão conseguia
causar em tudo o que podia
ser o desenrolar-se do dia
a dia da vida
de cada um de nós
encontrar você”. Eu seria exagerado se dissesse que então já imaginava o que aconteceria depois daquele encontro, mas para nós jovens, ao nosso redor, tudo era
novo e havia um fascínio difícil de explicar na motivação, mas que estava bem presente no nosso espírito.
Os primeiros anos do pós-guerra foram intensos, e
é limitante dizer que o único objetivo e o elemento
agregador da Democracia Cristã era colocar um freio
ao perigo comunista. Mesmo havendo essa preocupação de defesa contra o comunismo, o estímulo era de
caráter positivo: era o fascínio que o nome cristão
conseguia causar em tudo o que podia ser o desenrolar-se do dia a dia da vida de cada um de nós.
Uma lição que emerge da história da Democracia
Cristã, e que pode valer ainda hoje, é que sem um ponto de referência que esteja além do ocasional, o contingente, é quase impossível criar um novo sujeito político. O itinerário para a criação de um novo movimento
político não pode ser inicialmente organizativo, tanto
que os pais fundadores democratas-cristãos partiram
À esquerda, Andreotti
com monsenhor Giovanni
de ideias, do Código de Camaldoli. Se falta a base moral, diria também espiritual,
é difícil depois ser capaz de
atrair as pessoas e em particular os jovens.
Nos tempos da Democracia Cristã, tivemos
muitas crises, mas hoje há
menos impulso de caráter teórico e cultural, e maior motivação material. Saber olhar para o alto era um costume que talvez ao longo do caminho tenhamos perdido.
No livro de Di Capua e Messa aparece também o
problema das correntes internas da Democracia Cristã. Estas também podiam ser um estímulo espiritual e
cultural (algumas reformas importantes como a agrária e a lei para favorecer o Sul da Itália devem-se a estas correntes), mas dolorosamente podiam ser motivo
de dramáticas divisões, colocando uns contra os outros. De Gasperi não as queria porque, ao invés de ativar uma competição positiva, podiam ativar uma concorrência deletéria, em um espírito “comercial” que é
a última coisa que serve neste âmbito.
Apesar da longa militância nunca me senti um estranho na Democracia Cristã; era atraído sentimentalmente, além de racionalmente, e jamais pensei que o
meu caminho pudesse ser um outro. Havia sempre
um estímulo para ir adiante sem se tornar frágil por
olhar demais para trás. Ainda hoje acredito que a
orientação que deve prevalecer seja a de olhar sempre
adiante, ou melhor, sempre alto. Este “olhar alto” permite-me fazer uma nota sobre um aspecto que é tratado no livro: a chave para entender a relação que houve entre a Democracia Cristã e a Igreja está nas pessoas. É preciso considerar a grandeza de alguns eclesiásticos com os quais crescemos e caminhamos por
algum tempo. Dos hábitos que tinham, Montini era
um exemplo disso, de saber olhar os problemas não
apenas no seu âmbito material, contingente. Sabiam
olhar acima de nós e justamente por isso estavam um
passo adiante, sabiam olhar alto.
Concluo: repercorrer a história da Democracia
Cristã é muito oportuno, para meditar e não correr o
risco de dar hoje como essencial aquilo que é absolutamente marginal e vice-versa. Os tempos que passam
trazem sempre novidades, porém jamais se deve considerar que se está no início da criação. Há momentos
em que meditar serve para não esquecer aquilo que
nos trouxe até aqui.
q
Battista Montini na igreja
de Santa Maria dos Anjos,
Roma, a 5 de outubro
de 1947
Abaixo, Alcide De Gasperi
com Giulio Andreotti
É preciso considerar
a grandeza de alguns
eclesiásticos com os quais
crescemos e caminhamos
por algum tempo.
Dos hábitos que tinham,
Montini era um exemplo
disso, de saber olhar
os problemas não apenas
no seu âmbito material,
contingente. Sabiam olhar
acima de nós e justamente
por isso estavam um passo
adiante, sabiam olhar alto
30DIAS Nº 7/8 - 2011
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Cartas dos mosteiros Cartas dos mosteiros
BENEDITINAS DA ADORAÇÃO PERPÉTUA
BENEDITINAS DO MOSTEIRO SÃO
DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO
JOÃO BATISTA
Piedimonte Matese, Caserta
Roma
Consideramos 30Giorni
altamente formadora
Piedimonte Matese,
5 de julho de 2011
Prezado senador,
escrevemos mais uma vez ao senhor
para comunicar-lhe nossos mais fervorosos agradecimentos pelo envio
da revista 30Giorni, que consideramos altamente formadora do ponto
de vista cultural e espiritual.
Temos particular apreço pelos artigos relativos à
patrística, ao magistério e à palavra do Santo Padre.
Nós lhe agradecemos pela generosidade com que
trata tantos mosteiros do mundo todo, aos quais permite uma atualização contínua não limitada às questões do momento, garantindo, como dizíamos, a “formação permanente” que deveria caracterizar a vida de
cada um de nós, consagrados.
Que o Senhor torne fecunda a obra de apostolado realizada por intermédio da revista e seu serviço à verdade, tão
difícil nestes tempos de confusão e de triunfo da mentira.
Unimos à nossa manifestação de gratidão a promessa de oração comunitária por suas intenções e pelas de seus colaboradores.
Com estima,
a prioresa madre Saveria Marra e comunidade
Convite à oração
A redação de 30Giorni convida a todos, em particular as pessoas consagradas dos mosteiros
de clausura, a rezarem por padre Giacomo Tantardini. Há alguns meses ele vem-se tratando de
um câncer de pulmão. Que o Senhor conceda
pedir com confiança o milagre da cura. Aos sacerdotes que apreciam e querem bem a 30Giorni pedimos para que celebrem a santa missa segundo esta intenção. Aos pais pedimos a caridade de fazerem os seus filhos rezarem.
6
30DIAS Nº 7/8 - 2011
Obrigadas pelo CD
com os cantos gregorianos
Roma, 5 de julho de 2011
Estimado senador Giulio Andreotti,
parece que receber a correspondência na Itália está-se tornando um
luxo!
Acolhemos com gratidão em nossa
comunidade a sua revista, formativa
e informativa.
As outras irmãs do mosteiro, sobretudo as mais jovens, a esperam e, quando demora, por
causa dos extravios postais, perguntam: “E a 30Giorni? Não vai chegar?”. Depois lá aparece ela numa pilha de jornais e revistas de uma semana inteira!
O número 4/5 trazia um CD com cantos gregorianos. Obrigada!
O gregoriano realmente desafia o tempo. É considerado a oração da Igreja por excelência, como o livro
dos Salmos. Quando cantamos, essas melodias sacras
fazem pensar no perfume do incenso que sobe até
Anunciação: esta imagem e todas as que ilustram as páginas
das Cartas e da Leitura espiritual foram extraídas do ciclo
de afrescos do século XIV do Batistério de Pádua
Cartas dos mosteiros Cartas dos mosteiros
Deus: “Dirigatur, Domine, oratio mea, sicut incensum
in conspectu tuo”.
Na oração litúrgica, procuramos mantê-lo “in auge”, apesar de nos termos tornado um pequeno rebanho, mas orante e fiel por graça de Deus.
Expressamos novamente a nossa gratidão. Deus
lhes tome como mérito o que conseguem realizar para
glória e honra de toda a Igreja.
Em comunhão de oração e de fé,
madre Ildefonsa Paluzzi, O.S.B.,
e irmãs da comunidade
BENEDITINAS DA ABADIA NOTRE DAME DE FIDÉLITÉ
Jouques, França
Natividade
Les chants de la Tradition
para os nossos amigos no Benin
Recebemos também de presente o livrinho e o
CD Les chants de la Tradition e lhe agradecemos
de coração.
Para nós, que ainda temos em nossa abadia o canto gregoriano, isso foi um grande prazer.
Logo pensamos no mosteiro que fundamos na
África, no Benin, onde temos muitos sacerdotes amigos da nossa comunidade que procuram cantar os
cantos gregorianos. O senhor poderia, na sua bondade, presentear-nos com vinte desses CDs e livrinhos,
para que os possamos dar a eles?
Estou certa de sua resposta generosa, e a nossa
madre abadessa deu-me o encargo de lhe assegurar
de nossa intensa oração por todas as suas intenções e
em particular pelo sucesso da elevada missão em favor da Igreja realizada por intermédio de sua revista.
Jouques, 18 de julho de 2011
Prezado senhor,
somos cinquenta e sete monjas beneditinas francesas
e recebemos com grande interesse a sua revista tão
apaixonante. 30Giorni nos põe no coração da Igreja
e nos dá as notícias que normalmente não temos possibilidade de receber. Graças ao senhor descobrimos,
no último número, a rica personalidade do novo prefeito da Congregação para os Religiosos.
irmã Monique, O.S.B.
AGOSTINIANOS DO PRIORADO SAINT THOMAS DE VILLANOVA
Pietà, Malta
Obrigado por Who prays is saved
e pelo CD de cantos gregorianos
Pietà, 21 de julho de 2011
Prezado senador Andreotti,
desejo agradecer-lhe pela revista 30Giorni que foi enviada a nós, padres agostinianos do Saint Thomas of
Villanova Priory. Obrigado também pelo livro Who ¬
30DIAS Nº 7/8 - 2011
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Cartas dos mosteiros Cartas dos mosteiros
prays is saved e por seu último presente, sobre o canto gregoriano. Foi uma ótima ideia propor outra vez o
canto gregoriano, visto que em muitos lugares desapareceu completamente. Em Malta usamos ainda a Missa de Angelis e outros cantos marianos – em particular durante o nosso retiro anual e nas quartas-feiras,
quando, depois das completas, cantamos os cantos
marianos para cada tempo do ano –, além do Veni
creator e de muitos outros que vocês foram tão gentis
em registrar em seu CD.
Gostaria de perguntar-lhe se vocês pretendem publicar o livro Chi prega si salva em maltês. Nós nos viramos mesmo em outras línguas, mas, se quiserem,
estou disposto a traduzi-lo sem custos. Traduzi o livro
Augustine day by day [Agostinho dia após dia], do
padre John Rotelle, O.S.A. (já falecido), e é possível
lê-lo na rede no site dos agostinianos malteses.
À espera de sua resposta, agradeço-lhe por seu
precioso trabalho. Deus o abençoe.
Gostaria além disso de lhe pedir, se possível, que
envie um exemplar de 30Giorni à Sociedade da Doutrina Cristã, fundada por São Jorge Preca. É uma associação católica que prepara as crianças para a primeira comunhão e para a crisma. Creio que seria uma
grande ajuda para eles.
Obrigado. Seu, em Cristo,
padre Paul Aquilina, O.S.A., prior
Adoração dos Reis Magos
O mundo de hoje precisa de boas leituras para conhecer o amor de Deus e todo o trabalho da santa
Igreja. Rezamos muito por sua intenção e agradecemos muito a sua bondade e gentileza. Que Deus o recompense com muitas graças e bênçãos para o seu
trabalho e família.
Com amizade e gratidão, pela comunidade
madre Maria Celina, O.I.C.
IRMÃS CONCEPCIONISTAS DO MOSTEIRO DA IMACULADA
CONCEIÇÃO DE MARIA
Piracicaba, São Paulo, Brasil
DOMINICANAS DO MOSTEIRO QUEEN OF ANGELS
Agradecemos também o CD
com os cantos litúrgicos
Piracicaba, 22 de julho de 2011
Prezado senhor Andreotti
Somos Irmãs Concepcionistas da Ordem da Imaculada Conceição. Agradecemos profundamente pela gentileza de enviar-nos esta preciosa revista e
o belo CD com os cantos litúrgicos!
Que Deus abençoe o seu trabalho
para a santa Igreja escrevendo artigos
maravilhosos da santa Igreja e do
mundo!
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30DIAS Nº 7/8 - 2011
Bocaue, Filipinas
Who prays is saved
para compartilhar
com os nossos amigos
Bocaue, 22 de julho de 2011
Prezado diretor,
somos as irmãs dominicanas do
Queen of Angels Monastery [mosteiro Rainha dos Anjos], nas Filipinas, e somos muito gratas por
sua sábia generosidade ao nos
enviar a revista 30Days. Toda
Cartas dos mosteiros Cartas dos mosteiros
vez que a recebemos, seus artigos são lidos no refeitório. Agradecemos muitíssimo.
Estamos também interessadas em receber alguns
exemplares do seu livrinho Who prays is saved, para
dar a cada uma de nossas irmãs e compartilhar também com outras pessoas. Seria certamente uma forma
muito instrutiva de dar a conhecer às pessoas o verdadeiro significado da oração e a sua importância nas
nossas vidas.
Seria uma bênção se fosse possível doar ao menos cinquenta exemplares do livrinho ao nosso mosteiro Queen of Angels, para nos permitir depois
compartilhá-los com os nossos amigos, benfeitores e
fiéis que todos os dias vêm visitar a capela da adoração e, dessa forma, oferecer a eles um guia para que
compreendam o quanto as orações são importantes
não apenas para a vida deles, mas também para a
dos outros, e que dessa forma salvarão sua alma do
inferno.
Que o amor pela oração se difunda cada vez mais.
Amém!
Mais uma vez agradecemos pela assinatura da revista 30Days e antecipadamente pelos exemplares de
Who prays is saved.
Lembrando de vocês e de sua missão em nossas
orações,
as dominicanas de Bocaue
Apresentação no templo
CLARISSAS DO MOSTEIRO IMMACULATE CONCEPTION
Palos Park, Illinois, EUA
Obrigada por 30Days
e por todos os
presentes que nos dão
Palos Park,
24 de julho de 2011
Prezado diretor Andreotti,
parece ter chegado o momento de lhe agradecer
mais uma vez pelo presente
que é o envio mensal de sua
revista 30Days, rica em
notáveis artigos e imagens. Gostamos muito do
tributo feito na última edição ao beato papa João
Paulo II e também ao papa Paulo VI, que pronunciou o Credo do povo de Deus. Rezamos para que sua causa, como também a do papa Pio XII, chegue a bom termo
num futuro próximo. E não nos esquecemos do amado
papa João Paulo I e dos artigos ricos em reflexões que
vocês publicaram sobre ele.
Nós lhes agradecemos também pelos presentes
que chegaram com a revista, como a meditação
sobre a Santa Páscoa que recentemente recebemos e lemos juntas em comunidade durante a
nossa semana de retiro, e que achamos rica em
pontos de reflexão. E agora, com este número,
a belíssima reedição do livrinho Iubilate Deo
com os cantos do CD. Eles nos são muito caros
e continuamos a cantar muitos cantos gregorianos, os hinos, o ordinário da missa e os cantos
próprios de algumas missas.
Gostamos, além disso, das muitas e belíssimas
imagens de obras de arte, particularmente dos
mosteiros, como por exemplo os encantadores
oratórios marianos apresentados na edição deste
mês. Recordaremos suas intenções à nossa madre
Santa Clara na novena solene neste ano do oitavo
centenário da fundação da ordem.
Com gratidão, em nossa mãe Santa Clara,
a abadessa madre Maria Teresita,
P.C.C., e comunidade
segue na p. 26
30DIAS Nº 7/8 - 2011
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Leitura espiritual
Leitura espiritual/43
«Confiteor unum baptisma
in remissionem peccatorum»
Decretum de peccato originali, can. 4
Si quis parvulos recentes ab uteris matrum
baptizandos negat, etiam si fuerint a baptizatis
parentibus orti, aut dicit, in remissionem quidem peccatorum eos baptizari, sed nihil ex
Adam trahere originalis peccati, quod regenerationis lavacro necesse sit expiari ad vitam
aeternam consequendam, unde fit consequens, ut in eis forma baptismatis “in remissionem peccatorum” non vera, sed falsa intellegatur: anathema sit. Quoniam non aliter intellegendum est id, quod dicit Apostolus: «Per
unum hominem peccatum intravit in
mundum, et per peccatum mors, et ita in
omnes homines mors pertransiit, in quo
omnes peccaverunt» (Rm 5, 12), nisi quemadmodum Ecclesia catholica ubique diffusa semper intellexit. Propter hanc enim regulam fidei,
ex traditione Apostolorum, etiam parvuli, qui
nihil peccatorum in semetipsis adhuc committere potuerunt, ideo in remissionem peccatorum veraciter baptizantur, ut in eis regeneratione mundetur, quod generatione contraxerunt. «Nisi enim quis renatus fuerit ex
aqua et Spiritu Sancto, non potest introire in
regnum Dei» (Gv 3, 5) (Denzinger 1514).
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30DIAS Nº 7/8 - 2011
Leitura espiritual
Leitura espiritual
Leitura espiritual
Vista do interior do Batistério de Pádua, com a fonte batismal
“Confesso um só batismo
para a remissão dos pecados”
Decreto sobre o pecado original, cân. 4
Se alguém afirma que as crianças recém-saídas
do ventre da mãe não devem ser batizadas, embora nascidas de pais batizados, ou defende
que sejam batizadas para a remissão dos pecados, mas que não contraem de Adão qualquer
elemento do pecado original que seja necessário purificar com o lavacro da regeneração para
conseguir a vida eterna, do que deriva que a forma do batismo “para a remissão dos pecados”
não deve ser tomada por verdadeira, mas por
falsa, seja excomungado. De fato, o que diz o
Apóstolo: “O pecado entrou no mundo por um
só homem e, por intermédio do pecado, a morte; e a morte passou para todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5,12), não deve ser
entendido de modo diferente do modo como a
Igreja Católica espalhada pelo mundo todo
sempre entendeu. É por essa norma de fé que,
por tradição apostólica, também as crianças,
que por si mesmas ainda não puderam cometer
nenhum pecado, são batizadas realmente para
a remissão dos pecados, para que nelas seja purificado com a regeneração aquilo que contraíram com a geração. De fato, “se alguém não
nascer da água e do Espírito, não poderá entrar
no Reino de Deus” (Jo 3,5).
Leitura espiritual
Leitura espiritual
omo comentário ao cânon 4 do Decretum de peccato originali do Concílio de Trento (Denzinger 1514), em que, seguindo fielmente o Credo
Niceno-Constantinopolitano (“confesso um só batismo para a remissão
dos pecados”), afirma-se que o batismo das crianças, as quais não puderam
cometer nenhum pecado pessoal, também é para a remissão dos pecados,
voltamos a publicar, para conforto da fé e como oração, os trechos do Credo
do povo de Deus de Paulo VI em que ele reapresenta essa doutrina de fé.
Sempre nos surpreendeu observar como Santo Agostinho, quando lembra o momento em que o diabo é solto (cf. Ap 20,3.7) – é desencadeado, desencadeia-se –, indica como sinal da fidelidade do Senhor à Sua Igreja, e portanto como sinal de esperança, o fato de os pais cristãos batizarem suas
crianças (cf. De civitate Dei XX, 8, 3).
Por isso, ainda como comentário do cânon 4 do Decretum de peccato originali do Concílio de Trento, propomos a leitura de algumas notas extraídas
da palestra de padre Giacomo Tantardini sobre esse trecho do De civitate
Dei de Agostinho. As notas da palestra, proferida na Universidade Livre São
Pio V, de Roma, em 5 de maio
de 1999, circularam entre os
estudantes numa apostila intitulada Convite à leitura de Santo
Agostinho. Notas das palestras de
padre Giacomo Tantardini na
Universidade Livre São Pio V, de
Roma sobre “A cidade de Deus e
os ordenamentos dos Estados”,
Ano acadêmico 1998-1999 (promanuscripto), Associazione San
Gabriele, Roma.
C
O pecado original e a expulsão
do Paraíso terrestre
12
30DIAS Nº 7/8 - 2011
Leitura espiritual
Leitura espiritual
Pecado original
e batismo das crianças
Paulo VI, Credo do povo de Deus
Cremos que todos pecaram em Adão; isto significa que a culpa original, cometida por ele, fez com que a natureza, comum a todos os homens, caísse
num estado no qual padece as consequências dessa culpa. Tal estado já não
é aquele em que no princípio se encontrava a natureza humana em nossos
primeiros pais, uma vez que se achavam constituídos em santidade e justiça, e o homem estava isento do mal e da morte. Portanto, é esta natureza assim decaída, despojada de dom da graça que antes a adornava, ferida em
suas próprias forças naturais e submetida ao domínio da morte, é esta que é
transmitida a todos os homens. Exatamente neste sentido, todo homem
nasce em pecado. Professamos pois, segundo o Concílio de Trento, que o
pecado original é transmitido juntamente com a natureza humana, “pela
propagação e não por imitação”, e se acha “em cada um como próprio” (cf.
Denzinger 1513).
Cremos que Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo Sacrifício da Cruz, nos remiu do pecado original e de todos os pecados pessoais, cometidos por cada
um de nós; de sorte que se impõe como verdadeira a sentença do Apóstolo:
“Onde abundou o delito, superabundou a graça” (cf. Rm 5,20).
Cremos professando num só Batismo, instituído por Nosso Senhor Jesus
Cristo para a remissão dos pecados. O Batismo deve ser administrado também às crianças que não tenham podido cometer por si mesmas pecado algum; de modo que, tendo nascido com a privação da graça sobrenatural, renasçam “da água e do Espírito Santo” para a vida divina em Jesus Cristo (cf.
Denzinger 1514).
Leitura espiritual
Leitura espiritual
Notas da palestra proferida por padre Giacomo Tantardini
na Universidade Livre São Pio V, de Roma, em 5 de maio de 1999
“Mesmo quando o diabo for solto,
haverá pais tão fortes
que farão batizar suas crianças”
(De civitate Dei XX, 8, 3)
s quatro últimos livros do De civitate Dei
descrevem o fim, o termo das duas cidades. O terceiro trecho que leremos hoje é extraído do vigésimo livro do De civitate Dei: é uma das
passagens mais belas. No capítulo 8 do vigésimo
livro1, Agostinho comenta alguns versículos do
Apocalipse. De modo particular, começa a comentar aquele versículo (Ap 20,3) em que lemos
que “‘Post haec oportet eum solvi brevi tempore’ /
‘Depois dessas coisas, é necessário que ele [o
diabo] seja solto, por breve tempo’”. João fala
dos mil anos em que o diabo estivera amarrado;
do breve tempo em que o diabo estará solto; dos
mil anos em que os santos reinarão sobre a terra.
Agostinho faz dessas imagens do discípulo predileto a leitura que a Igreja assumiu como pró-
O
pria e sempre propôs. É interessante notar que
há toda uma tradição cultural, que parte de Joaquim de Fiore, contrária à leitura de Agostinho.
Há um livro muito interessante de Ratzinger sobre esse tema2. Agostinho diz que entre a ascensão do Senhor e Seu retorno glorioso, com a ressurreição dos mortos e o juízo final, existe só o
tempo da memória. Nesse “breve tempo”3, entre
a ascensão do Senhor e o Seu retorno glorioso,
nada acontece de diferente4. A memória, de fato,
é o acontecimento sempre novo, como novo início, daquele único e mesmo acontecimento definitivo. Portanto, tanto os mil anos em que o diabo está amarrado quanto o breve tempo em que
está solto e os mil anos em que os santos reinam
pertencem todos a esse tempo da Igreja antes do
1
Cf. De civitate Dei XX, 8, 1-3.
2
Cf. Ratzinger, J. San Bonaventura e la teologia della storia. Firenze: Nardini Editore, 1991.
3
Agostinho. In Evangelium Ioannis CI, 1.6.
4
Concílio Ecumênico Vaticano II, constituição dogmática sobre a divina revelação Dei Verbum, n. 4: “Oeconomia ergo chris-
tiana, utpote foedus novum et definitivum, numquam praeteribit, et nulla iam nova revelatio publica expectanda est ante gloriosam
manifestationem Domini nostri Iesu Christi / A economia cristã, pois, como aliança nova e definitiva, jamais passará e já não há que
esperar nenhuma nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1Tm 6,14 e Tt 2,13)”.
14
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Leitura espiritual
Leitura espiritual
A fera que quer devorar o menino que a mulher vestida de sol deu à luz
juízo final, são expressões que descrevem condições desse tempo da Igreja. Santo Agostinho supera de maneira definitiva o milenarismo. Os mil
anos em que os santos reinarão sobre a terra não
serão um tempo diferente do tempo da Igreja.
De fato, diz Agostinho numa de suas observações mais belas, reinam já agora, existe esse reino
já agora5. Esse é o contexto em que devem ser inseridas as palavras de Agostinho. E a interpretação de Agostinho fica ainda mais realista se acei-
tarmos as sugestões que o professor Eugenio
Corsini nos dá para ler o Apocalipse6, o qual, segundo ele, se refere em primeiro lugar à morte e à
ressurreição do Senhor, àqueles três dias em que
se cumpriu de uma vez para sempre “a revelação
de Jesus Cristo” (Ap 1,1). O tempo da Igreja vive
da memória desse acontecimento e da espera de
sua manifestação definitiva. Portanto, o Apocalipse é mais um livro de memória que de perspectivas futuras.
¬
5
Cf. De civitate Dei XX, 9, 1; vide adiante, pp. 21ss.
6
Cf. de la Potterie, I. O apocalipse já aconteceu. 30Dias, n. 8, set. 1995, pp. 60-61.
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Leitura espiritual
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A mulher vestida de sol e o menino, detalhe
Que significa, pergunta-se portanto Agostinho, que o diabo será solto por breve tempo?
Quando for solto, poderá seduzir a Igreja?
“Absit; / Que isso nunca aconteça; / numquam enim ab illo Ecclesia seducetur / de fato, jamais será por ele [o diabo] seduzida a Igreja,
/ praedestinata et electa ante mundi constitutionem, / que foi predestinada e eleita antes da
criação do mundo, / de qua dictum est: “Novit
Dominus qui sunt eius”. / da qual foi dito: ‘O Senhor conhece quem são os seus’”.
Na Quaresma de 1995, sugeri imprimir um
pequeno cartão com a Oração a São José, o Me16
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morare, o Anjo do Senhor e uma das frases mais
belas que Giussani havia dito em janeiro-fevereiro daquele mesmo ano: “Nós vivemos numa tal
degradação universal, que não existe mais nada
que seja receptivo ao cristianismo, a não ser a simples realidade criatural. Por isso, é o momento do
início do cristianismo, é o momento em que o
cristianismo surge, é o momento da ressurreição
do cristianismo. E a ressurreição do cristianismo
tem um grande e único instrumento. Qual é ele?
O milagre. É o tempo do milagre. É preciso dizer
ao povo que invoque os santos, porque os santos
foram feitos para isso”. Pois, embora outros tam-
Leitura espiritual
Leitura espiritual
bém realizem milagres7, os santos foram feitos para isso. Contaram-me que segunda-feira passada,
durante o programa de tevê Porta a Porta, que tinha como tema a beatificação de Padre Pio, diante de alguns depoimentos que afirmavam que os
santos são canonizados por sua cultura, Andreotti, que estava presente no programa, disse com
ironia que, se isso fosse verdade, só Santo Tomás
de Aquino seria santo. Os santos são o que são
graças aos milagres.
No mesmo cartão para a Quaresma de 1995,
mandei escrever três frases. A primeira é extraída
do Salmo 5: “Destruís o mentiroso. Ó Senhor, abominais o sanguinário, o perverso e enganador”. A
segunda vem do Apocalipse (Ap 13,11.16-17):
“Eu vi ainda outra fera sair da terra. [...] Ela faz
com que todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, recebam uma marca na mão
direita ou na fronte. E ninguém pode comprar ou
vender [pode fazer carreira], se não tiver a marca
que é o nome da Fera, aliás, o número do seu nome”. A terceira frase é extraída da Segunda Carta
de Paulo a Timóteo (2Tm 2,19): “No entanto, o sólido fundamento posto por Deus continua firme,
marcado por estas sentenças: ‘O Senhor conhece
os que são d’Ele’ e ‘Afaste-se da iniquidade todo
aquele que invoca o Nome do Senhor’”. Essa terceira frase é a que Agostinho diz valer sobretudo
no tempo em que o diabo está solto.
7
Continuemos a leitura de Agostinho: “Et tamen hic erit etiam illo tempore, quo solvendus est
diabolus, / No entanto a Igreja existirá neste
mundo também no tempo em que o diabo tiver sido solto, / sicut, ex quo est instituta, hic fuit et
erit omni tempore, in suis utique qui succedunt nascendo morientibus / tal como, desde a sua fundação, existiu e existirá neste mundo em todos os tempos em seus membros, que sempre
se alternam, nascendo, com aqueles que
morrem”: a Igreja vive nos que são d’Ele. Não
existe Igreja abstratamente. Existe a Igreja que
vive nos que são d’Ele, que vive de maneira perfeita n’Aquela que foi Sua mãe. Quando dizemos
em todas as missas “não olheis para os nossos pecados, mas para a fé da vossa Igreja”, a primeira
pessoa em que penso é Nossa Senhora. Pois de
fato quem viveu a fé da Sua Igreja, de maneira excelente, humilde e excelente, numa plenitude de
graça que é insuperável, foi essa menina. Se não
tivesse existido ninguém que tivesse vivido assim, essa oração não seria tão real.
Depois Agostinho comenta outro trecho do
Apocalipse (20,9ss), em que João diz que todas as
nações “cinxerunt castra sanctorum et dilectam civitatem, / cercaram em assédio o acampamento
dos santos e a cidade que Deus ama, / et descendit ignis de caelo a Deo et comedit eos [...] / mas um
fogo desceu do céu enviado por Deus e de- ¬
Giussani, L. Cristo è tutto in tutti. Appunti dalle meditazioni di Luigi Giussani per gli Esercizi della Fraternità di Comunione e
liberazione, Rimini 1999. Suplemento de Litterae Communionis-Tracce, n. 7, jul.-ago. 1999, p. 54: “Vocês se lembram de quando
Jesus – como o descreve o segundo livro da Escola de Comunidade –, andando pelos campos com os seus apóstolos, viu perto de
uma cidadezinha que se chamava Naim uma mulher que chorava e soluçava atrás do féretro do filho morto? E Ele foi lá; não lhe
disse: ‘Vou ressuscitar o seu filho’. Mas: ‘Mulher, não chores’, com uma ternura, afirmando uma ternura e um amor ao ser humano inconfundíveis! E, com efeito, depois, deu-lhe também o filho vivo. Mas não é isso, pois outros também podem fazer milagres, mas esse, essa caridade, esse amor ao homem próprio de Cristo não tem nenhuma comparação com nada!”.
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A fera que emerge do mar
vorou aqueles que [...]” estavam para conquistar a cidade amada... Agostinho, como eu mencionava antes, quando comenta essa passagem
afirma que a vitória definitiva “iam ad iudicium
novissimum pertinet / pertence ao juízo final”.
Com relação ao breve tempo em que o diabo
está solto, Agostinho diz: “[...] ne quis existimet eo
ipso parvo tempore, quo solvetur diabolus, in hac terra Ecclesiam non futuram, illo hic eam vel non inveniente, cum fuerit solutus, vel absumente, cum fuerit
8
modis omnibus persecutus / [...] ninguém pense
que nesse breve tempo em que o diabo estará
solto a Igreja não existirá sobre a terra, quer
porque o diabo não a encontrará quando for
solto, quer porque a aniquilará depois de têla perseguido de todas as formas”.
Mas, se o diabo é solto, isso significa que esteve
amarrado. Que significa estar amarrado? “[...] sed
alligatio diaboli est non permitti exserere totam
temptationem quam potest / [...] o fato de o diabo
estar amarrado significa que não lhe é permitido exercer toda a tentação da qual é capaz,
/ vel vi vel dolo ad seducendos homines / pela força
ou pelo engano, para seduzir os homens”, para dissuadir os homens de viverem a fé. Essa é a
expressão máxima da tentação. Todas as tentações do diabo são tentações, assim como são pecados capitais todos os sete pecados capitais8.
Mas a tentação a que tendem todas as tentações é
aquela que se dá quando o diabo quer destruir a
fé. Como sempre dizia padre Leopoldo Mandic
quando confessava: “O que importa é preservar a
fé”9. Esse é o critério para os padres, quando confessam; e é o fim último pelo qual uma pessoa se
confessa. Assim, é um enorme conforto confessar-se de qualquer pecado para preservar a fé. A
fé é a raiz de tudo. Assim voltamos a ser inocentes, pequenos, puros de coração.
“Pela força ou pelo engano”, o diabo se mobiliza para destruir a fé. “Pela força ou pelo engano”.
“Vi / pela força”. Por exemplo, pela ameaça.
Ante as mortes inesperadas que marcaram estes
anos, eu algumas vezes disse que, de certo ponto
Cf. Quem reza se salva. Roma: 30Giorni, 2009, p. 15: “Os sete pecados capitais: 1. soberba; 2. avareza; 3. luxúria; 4. ira; 5.
gula; 6. inveja; 7. preguiça”.
9
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Cf. Falasca, S. É o Senhor que opera. 30Dias, n. 1, jan. 1999, p. 55-59.
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Leitura espiritual
de vista, para que essas mortes sejam usadas como ameaça contra quem crê, não é importante
que tenham ocorrido por homicídio ou por acaso (em última instância, não são nunca por acaso
no desígnio da providência do Senhor). De fato,
essas mortes podem ser usadas como ameaça
contra quem crê, mesmo que não sejam realmente homicídios. Diante de certas mortes inesperadas, a pessoa pode dizer a uma outra: “Não vá fazer o mesmo, senão vai acabar como aquela pessoa”. Portanto, as mortes inesperadas são usadas
como ameaça, mesmo que não sejam realmente
homicídios, mesmo que sejam mortes, digamos
assim, naturais.
“Dolo / pelo engano”. A maior parte das pessoas é seduzida pelo engano. Para usar termos
modernos, poderíamos falar de homologação,
realizada, entre outros fatores, pelos meios de comunicação de massa. Engano midiático. Para enganar as pessoas, o diabo se vale do pecado da soberba. De fato, é aos pequenos e aos simples, ou
seja, aos humildes (“Qui sunt parvuli? Humiles”10) que o Senhor dá a sabedoria. “Vossa palavra, ao revelar-se, me ilumina, ela dá sabedoria
aos pequeninos” (Sl 118,130).
Por isso, quando Agostinho fala dessa perseguição observa que a sabedoria é importante. Em outras palavras, é importante a inteligência que se
aproveita do momento. Diz isso mais adiante:
“Omnes insidias eius atque impetus et caverent sapientissime et patientissime sustinerent / para esquivarse com suma sabedoria das insídias e dos assaltos [do diabo] e para suportá-los com suma paciência”. Agostinho insiste nessa inteligência, embora seja evidente que o fato de permanecermos
fiéis na perseguição é um dom de graça particular.
Sobretudo quando a perseguição se torna cruenta,
como Giussani previu, em abril de 199211.
Continua Agostinho: “in partem suam cogendo
violenter fraudolenterve fallendo / obrigando-os ¬
10
Agostinho. Sermones 67, 5, 8.
11
Giussani, L. Un avvenimento di vita, cioè una storia (in-
troduzione del cardinale Joseph Ratzinger), Edit-Il Sabato,
Roma, 1993, p. 104: “Isso mesmo. A ira do mundo, hoje, não
se ergue diante da palavra Igreja, fica quieta até diante da ideia
de alguém se dizer católico, ou diante da figura do Papa como
autoridade moral. Aliás, existe uma reverência formal e até
sincera. O ódio explode – mal se contém, e logo transborda –
diante de católicos que se apresentam como tais, católicos que
se movem na simplicidade da Tradição”. (Cf. trad. em português extraída de “Um evento, eis por que nos odeiam”. Trad.
Juliana P. Perez e Francesco Tremolada. In: O eu, o poder, as
O anjo que abate a fera com a pedra de moinho
obras. São Paulo: Cidade Nova, 2001, p. 220).
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a vir para o seu lado pela violência ou enganando-os pela mentira”. O diabo não tenta os
homens em primeiro lugar para que pequem (embora só os possa obrigar a passar para a sua parte
pela violência e pelo engano por meio do pecado12), mas para que passem para o seu lado. Este é
o objetivo: que passem para o seu lado. Se não percebemos isso, não percebemos uma dimensão essencial da história da Igreja. Não podemos descrever a história da Igreja apenas como história de
graça e de pecados. Lembro-me de que uma vez eu
estava de carro com Giussani em Roma. Antes de
chegar à praça Venezia, Giussani me disse: “Veja,
três são os fatores da história da Igreja: a graça, o
pecado e o anticristo. Se não levarmos em conta o
anticristo, a relação entre graça e pecados pode ser
concebida de um jeito moralista”. O anticristo,
por meio do pecado, quer levar você para o lado
dele. “In partem suam cogendo violenter fraudolenterve fallendo / obrigando-os a vir para o seu lado
pela violência ou enganando-os pela mentira.”
Pergunta-se Agostinho: por que o diabo é solto?
Abro um breve parênteses. Alguém me lembrou um sonho de São João Bosco. Dom Bosco
sonha, se não me engano, com uma aposta entre
Deus e o diabo, em que o diabo diz a Deus que é
capaz de destruir a fé em um século. E o Senhor
lhe teria dito: tudo bem, eu te dou um século, podes fazer o que quiseres. Veremos no fim se conseguirás destruir completamente a fé dentro da
12
Leitura espiritual
minha Igreja. Diante de qualquer profecia particular, como podem ser classificados os sonhos de
Dom Bosco, somos livres para crer ou não crer.
Aliás, propriamente, não cremos nelas, apenas
podemos dar-lhes crédito ou não. Pois não são
objeto da fé. As profecias particulares, no entanto, podem ser hipóteses inteligentes para ler a
realidade. As profecias particulares, inclusive as
aparições de Nossa Senhora, podem ser sugestões à inteligência iluminada pela fé para olhar
para a realidade. Pensem na profecia de Paulo
VI em setembro de 197713 e no juízo ainda mais
“Non enim nisi peccatis homines separantur a Deo / De fato, somente pelos pecados os homens se separam de Deus” (De ci-
vitate Dei X, 22); “Non deserit, si non deseratur / Não abandona, se não é abandonado” (Agostinho, De natura et gratia 26, 29);
Concílio de Trento, Decretum de iustificatione, cap. 11: De observatione mandatorum, deque illius necessitate et possibilitate,
(Denzinger 1536-1539, particularmente 1537); Concílio Vaticano I, constituição dogmática sobre a fé católica Dei Filius, (Denzinger 3014).
13
20
Cf. Giussani, L. Un avvenimento di vita, cioè una storia. Introdução do cardeal Joseph Ratzinger. Roma: Edit-Il Sabato, 1993,
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Leitura espiritual
Leitura espiritual
dramaticamente realista de Giussani em dezembro de 1998 a respeito do pequeno resto14. Uma
profecia particular – na qual não cremos propriamente falando, mas à qual simplesmente damos crédito, porque a fé nasce apenas por atração da graça15 – pode ser um ponto de partida extremamente útil para olhar com atenção e com
aceitação a realidade tal como ela é.
Então, por que o diabo é solto?
“Si autem numquam solveretur, minus appareret
eius maligna potentia, / Se nunca fosse solto, ficaria menos patente a sua força maléfica, /
minus sanctae civitatis fidelissima patientia probaretur, / seria menos posta à prova a fidelíssima
paciência da cidade santa, / minus denique perspiceretur, quam magno eius malo tam bene fuerit
usus Omnipotens [...] / mas, sobretudo, ver-se- ¬
A fera que emerge do mar, detalhe
p. 72-73: “Nos últimos anos o senhor tem desejado que sejam repetidas e conhecidas por todos as palavras que Paulo VI disse ao amigo
Jean Guitton, em 8 de setembro de 1977, nas quais o Papa fala de ‘um pensamento não católico’ e da resistência de um ‘pequeno rebanho’. Por quê? Luigi Giussani: Porque é isso que está acontecendo. Peço-lhe que me releia essas palavras. Pois bem: ‘Há uma grande perturbação neste momento no mundo da Igreja, e o que está em questão é a fé. Vejo-me obrigado hoje a repetir a frase obscura de Jesus no Evangelho de São Lucas: ‘Quando o Filho do Homem voltar, encontrará ainda a fé sobre a face da terra?’. Hoje em dia saem livros em que a fé bate em retirada em relação a pontos importantes, os episcopados se calam, e esses livros não são achados estranhos. Isso, para mim, é que é estranho. Releio às vezes o Evangelho do fim dos tempos e constato que neste momento aparecem alguns sinais
desse fim. Estamos próximos do fim? Isso nunca saberemos. É preciso que estejamos sempre prontos, mas tudo pode durar ainda muito
tempo. O que me impressiona, quando considero o mundo católico, é que dentro do catolicismo parece às vezes predominar um pensamento de tipo não católico, e pode acontecer que esse pensamento não católico dentro do catolicismo se torne no futuro o pensamento
mais forte. Mas ele nunca representará o pensamento da Igreja. É preciso que subsista um pequeno rebanho, por menor que seja’”.
14
Giussani, L. Cristo é parte presente do real. 30Dias, n. 12, dez. 1998, p. 61: “Hoje o fato de Cristo existir – quem é, onde es-
tá, que caminho percorrer para chegar até Ele – é vivido por pouquíssimos, quase um resto de Israel, e mesmo esses muitas vezes infiltrados ou imobilizados pela influência da mentalidade comum”.
15
Tomás de Aquino. Summa theologiae II-II q. 4 a. 4 ad 3: “Gratia facit fidem non solum quando fides de novo incipit esse in
homine, sed etiam quamdiu fides durat / A graça gera a fé não apenas quando a fé nasce numa pessoa, mas por todo o tempo em
que a fé perdura”.
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Leitura espiritual
Oração de São Miguel
Arcanjo
São Miguel Arcanjo,
defendei-nos no combate,
sede o nosso refúgio contra as maldades e
ciladas do demônio.
Ordenai-lhe Deus, instantemente o
pedimos, e vós, príncipe da milícia celeste,
pela virtude divina,
encadeai no inferno a Satanás
e aos outros espíritos malignos,
que andam pelo mundo
para perder as almas. Amém.
O quinto anjo derrama o cálice da ira de Deus sobre o trono
da fera
Leitura espiritual
ia menos claramente como Aquele que é onipotente pode usar um mal tão grande para um
bem ainda maior [...] / In eorum sane, qui tunc
futuri sunt, sanctorum atque fidelium comparatione
quid sumus? / Em comparação com os santos e
fiéis que viverão então [quando o diabo for solto], que somos nós?”.
Essa pergunta nascia espontaneamente para
Agostinho, pois ele vivia num tempo em que milhares e milhares de pessoas se tornavam cristãs.
Tanto assim, que para Agostinho o milagre evidente que leva a crer em Cristo é a multitudo, a multidão de pessoas que se tornam cristãs. Agostinho
estava cercado pelo milagre de milhares e milhares
de pessoas que se tornavam cristãs. Uma multitudo de ignorantes e pecadores que encontravam o
cristianismo16. Não dá para comparar a evidência
dos milagres que confortam a fé17 no tempo de
Agostinho com a situação de hoje, em que, como
observava a 30Dias um bispo de Laos, a Igreja é como uma criança pequena salva das águas18. Agostinho podia dizer: “O milagre mais evidente é que os
vossos templos e os vossos teatros estão vazios, en-
16
Cf. Ratzinger, J. Popolo e casa di Dio in sant’Agostino.
Milano: Jaca Book, 1971, particularmente p. 33-38: “Deus
fez isso [providenciar uma outra encarnação para a sabedoria
que a conduza também até o olho do tolo] primeiramente
por meio dos milagres, depois por intermédio da multitudo.
Para Agostinho, a multidão dos povos que pertencem à Igreja constitui um sinal divino evidente que realmente só o próprio Deus poderia dar” (p. 35).
17
Cf. Concílio Ecumênico Vaticano I, constituição dog-
mática sobre a fé católica Dei Filius (Denzinger 3009).
18
Cf. Paci, S. M. Para nós é suficiente uma Ave Maria. En-
trevista com dom Jean Khamsé Vithavong, vigário-apostólico de Vientiane, no Laos. 30Dias, n. 3, mar. 1999, pp. 14-17.
Leitura espiritual
Leitura espiritual
quanto as igrejas estão cheias de povo”. Hoje é literalmente o contrário. Por isso me parece possível
ler o tempo atual ou momentos do nosso tempo
como tempo ou momentos em que o diabo está
solto. Digo isso de um ponto de vista realista, de
constatação19. A própria oração do papa Leão XIII
a São Miguel Arcanjo, que, antes da reforma litúrgica, era rezada ao final da santa missa, sugeria essa
hipótese, ao pedir: “... e vós, príncipe da milícia celeste, pela virtude divina, encadeia no inferno a Satanás e aos outros espíritos malignos...”20.
“[...] Usque in illum finem sine dubio convertentur; [...] / [...] Até o fim [mesmo quando o diabo
for solto] haverá aqueles que se converterão;
[...] / qui oderint christianos, in quorum quotidie,
velut in abysso, caecis et profundis cordibus includatur / [e haverá também] aqueles que odiarão os
cristãos; na profundidade dos corações cegos dos quais o diabo está encerrado todos os
dias como no abismo”: creio que dificilmente
Agostinho tenha dado sobre alguém um juízo tão
trágico como esse sobre quem odeia os cristãos
enquanto tais, ou seja, aqueles “que se movem na
simplicidade da Tradição”21.
19
“Immo vero id potius est credendum, / É preciso
crer / nec qui cadant de Ecclesia nec qui accedant
Ecclesiae illo tempore defuturos, / que também
nesse tempo não faltarão nem aqueles que se
afastam da Igreja nem aqueles que a encontram, / sed profecto tam fortes erunt et parentes pro
baptizandis parvulis suis / mas certamente seja os
pais que farão batizar suas crianças [essa observação é muito bonita, precisamente como maneira de olhar para as coisas que têm ocorrido
nestes anos] / et hi, qui tunc primitus credituri sunt,
ut illum fortem vincant etiam non ligatum, / seja
aqueles que nesse tempo terão acabado de dar os primeiros passos na fé serão tão fortes a ponto de vencer a
força do diabo mesmo solto, / id est omnibus, qualibus
antea numquam, vel artibus insidiantem vel urgentem viribus, et vigilanter intellegant et toleranter ferant; ac sic illi etiam non ligato eripiantur / ou se- ¬
Cf. Ratzinger, J. A angústia de uma ausência: três medita-
ções sobre o Sábado Santo. 30Dias, n. 3, mar. 1994. pp.37-44.
20
Parece que foi depois que ficou profundamente pertur-
bado por uma visão que teve ao final da celebração de uma
missa a que assistia que o papa Leão XIII compôs a oração a
São Miguel Arcanjo, em 1886, e a enviou a todos os bispos, para que mandassem os fiéis rezarem-na de joelhos ao final de
cada santa missa (cf. Ephemerides liturgicae 69 [1955], p. 59,
nota 9). A oração foi também incluída num exorcismo especial que Leão XIII mandou inserir no Ritual Romano (aparecia no título XII, na edição de 1954).
21
Cf., acima, a nota 11.
Cristo no cavalo branco, seguido pelos exércitos celestes
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23
Leitura espiritual
Leitura espiritual
O Cordeiro no trono, entre os quatro seres vivos e os vinte e quatro anciãos
ja, que estarão prontos a compreender com
atenção e serão capazes de resistir com paciência ao diabo, que, como nunca antes, insidiará com todas as artes e assaltará com todas as forças, a ponto de dele serem libertados, embora não esteja amarrado”: não são
eles que vencem, mas são eles que pela graça de
Deus são arrancados das garras da força que
ameaça e do engano.
Enfim, no capítulo 9 do vigésimo livro22, Agostinho comenta os mil anos em que os eleitos reinam
sobre a terra: “Interea dum mille annis ligatus est
diabolus, sancti regnant cum Christo etiam ipsi mille
annis, eisdem sine dubio et eodem modo intellegendis,
id est, isto iam tempore prioris eius adventus. / Portanto, enquanto o diabo está amarrado por mil
anos, os santos reinam com Cristo também por
mil anos, que devem também ser entendidos
sem dúvida do mesmo modo, ou seja, já neste
tempo do Seu primeiro advento. / Excepto quippe
illo regno, de quo in fine dicturus est: ‘Venite, benedicti
22
24
Cf. De civitate Dei XX, 9, 1.
30DIAS Nº 7/8 - 2011
Patris mei, possidete paratum vobis regnum’, / Pois,
para além daquele reino do qual no fim se dirá:
‘Vinde, benditos de meu Pai, recebei o reino
preparado para vós’, / nisi alio aliquo modo, longe
quidem impari, iam nunc regnarent cum illo sancti
eius, / se mesmo hoje, neste tempo, ainda que de
um modo muito diferente [do Paraíso], não reinassem com ele os seus santos, / quibus ait: ‘Ecce
ego vobiscum sum usque in consummationem saeculi’;
/ aos quais o Senhor diz: ‘Eis que estou convosco até o fim dos tempos’, / profecto non etiam nunc
diceretur Ecclesia regnum eius regnumve caelorum /
certamente não se diria que a Igreja já agora é
o Seu reino, o reino dos céus”: seus fiéis reinam
graças à Sua presença. Pois, estando já hoje presente o Senhor, reinar é como o reflexo no coração e
nos gestos, ou seja, nas boas obras, da presença
d’Ele e da Sua ação.
“[...] Ergo et nunc Ecclesia regnum Christi est
regnumque caelorum. / [...] De fato, já agora a
Igreja é o reino de Cristo e o reino dos céus. /
Leitura espiritual
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Regnant itaque cum illo etiam nunc sancti eius, /
Também agora, portanto, os seus santos reinam com Ele, / aliter quidem quam tunc regnabunt; / de um modo diferente de como reinarão então [no Paraíso]; / nec tamen cum illo regnant zizania, quamvis in Ecclesia cum tritico crescant / mas todavia com Ele não reina a cizânia, embora na Igreja cresça com o trigo”.
O que faz a diferença, na Igreja, é justamente o
reinar. A diferença é a experiência da surpresa
que a Sua presença gera. Ou seja, a diferença é
estar ou não estar na graça de Deus23. A cizânia
também está na Igreja, a cizânia também pertence à Igreja, a cizânia também pode participar dos sacramentos da Igreja, pode estar entre
os chefes da Igreja24, mas não reina. Pois reinar é
simplesmente o reflexo no coração e nas boas
obras da surpresa da Sua graça: “[...] Postremo
regnant cum illo, qui eo modo sunt in regno eius ut
sint etiam ipsi regnum eius / [...] Enfim, reinam
com Ele aqueles que estão de tal modo em
Seu reino a ponto de serem eles mesmos o
Seu reino”.
23
O Cordeiro no monte Sião e os cento e quarenta e quatro mil eleitos
Cf. Concílio Ecumênico Vaticano II, constituição dogmática sobre a Igreja Lumen gentium, n. 14: “Non salvatur tamen, li-
cet Ecclesiae incorporetur, qui in caritate non perseverans, in Ecclesiae sinu ‘corpore’ quidem, sed non ‘corde’ remanet. Memores autem sint omnes Ecclesiae filii condicionem suam eximiam non propriis meritis, sed peculiari gratiae Christi esse adscribendam; cui
si cogitatione, verbo et opere non respondent, nedum salventur, severius iudicabuntur / Não se salva contudo, embora incorporado à Igreja, aquele que, não perseverando na caridade, permanece no seio da Igreja ‘com o corpo’, mas não ‘com o coração’.
Lembrem-se todos os filhos da Igreja que a condição sem igual em que estão se deve não a seus próprios méritos, mas a uma peculiar graça de Cristo. Se a ela não corresponderem por pensamentos, palavras e obras, longe de se salvarem, serão julgados com
maior severidade (Lc 12,48: “A quem muito foi dado, muito lhe será pedido”. Cf. Mt 5,19-20; 7,21-22; 25,41-46; Tg 2,14)”.
24
Cf. Giussani, L. L’uomo e il suo destino: In cammino. Genova: Marietti, 1999, p. 27-28: “Aqui, gostaria de fazer uma obser-
vação. O que dissemos antes a respeito do poder vale como aspecto vertiginoso também para a autoridade, da forma como poderia ser vivida na Igreja. Se a autoridade não é paternal, e portanto maternal, pode-se tornar fonte de equívoco supremo, instrumento enganador e destrutivo nas mãos da mentira, de Satanás, pai da mentira (cf. Jo 8,44). Ao passo que sempre, de modo
desconcertante, a autoridade da Igreja em última instância deve ser obedecida, paradoxalmente”.
30DIAS Nº 7/8 - 2011
25
Cartas dos mosteiros Cartas dos mosteiros
segue da p. 9
Vocação de Mateus
AGOSTINIANAS RICOLETAS DO MOSTEIRO SAINT EZEKIEL
MORENO
Bacolod City, Filipinas
Who prays is saved para as crianças
das favelas
O motivo pelo qual lhe escrevemos não é apenas o
de expressar nossa gratidão, mas também para bater
humildemente à porta de seus corações, ou seja, para
receber, se possível, alguns exemplares gratuitos do
fantástico livrinho de orações Who prays is saved. Todos os anos, durante todo o mês de maio, damos aulas
simples de catecismo às crianças pobres que vivem em
favelas muito próximas de nosso mosteiro. Nossa intenção é dar a elas pelo menos as noções fundamentais da nossa fé ou mesmo apenas ensinar como fazer
corretamente o sinal da cruz, particularmente às menores. Pensávamos que seria de grande ajuda que eles
aprendessem de cor também as orações principais.
Mas não temos recursos financeiros para levar adiante
os nossos projetos. Poder ter cem exemplares desses
livrinhos seria de enorme ajuda para nós e para quem
ensina a essas crianças.
Senhor diretor, sabemos que tudo isso será possível somente graças à sua solicitude e generosidade.
Nós só podemos oferecer nossas incessantes orações
diante do Santíssimo e nossa infinita gratidão.
Com corações gratos, lhe agradecemos,
irmã Maria E. Catalonia, O.A.R.,
pela prioresa, irmã Lourdes Eizaguirre, O.A.R.
Bacolod City, 25 de julho de 2011
CLARISSAS DA ADORAÇÃO PERPÉTUA
Prezado senhor Andreotti,
saudações em Cristo!
Estamos realmente felizes e gratas ao senhor e a
seus diligentes colaboradores pelo
grande serviço que prestam à nossa
Igreja. Se não estou errada, já faz cinco
anos que nos beneficiamos de sua benévola caridade. Cada número da revista nos agrada muitíssimo e somos
gratas por seu esforço em destacar da
melhor maneira possível o que a nossa Igreja faz pelo bem de todos. A sua
revista, com seus excelentes artigos,
é um farol que resplandece luminoso, sem nunca desencorajar, mas fazendo sempre esperar que ainda seja possível encontrar coisas boas
nestes tempos de trevas e desorientação.
26
30DIAS Nº 7/8 - 2011
Cochin, Kerala, Índia
Obrigada por The chants of Tradition
Cochin, 27 de julho de 2011
Caros senhor Andreotti e
amigos de 30Giorni,
como lhes somos gratas pelo
CD e pelo livrinho The chants
of Tradition!
Sua magnânima generosidade
é fantástica! Que bela revista,
rica em cores e imagens, e que
papel de ótima qualidade! E de
vez em quando também acompanhada de livrinhos, e tudo dado de presente por um coração
tão grande como o seu!
Cartas dos mosteiros Cartas dos mosteiros
Como podemos agradecer-lhes por tudo o que
fizeram por nós? Lançaremos flechas de amor ao
Santíssimo Coração de Jesus para que continue a fazer chover suas graças sobre
vocês e sobre a redação e para que a obra de bem que começaram prossiga com sucesso para chegar a tocar as
almas e instigá-las até a conquista da coroa da santidade.
Nosso Senhor, em sua magnificência, os recompense em
abundância neste tempo e pela
eternidade!
irmã Mary Denise Nazareth
e a comunidade das clarissas da Adoração Perpétua
CLARISSAS DO MOSTEIRO DE ANDOVER
Andover, Massachusetts, EUA
Agradecemos, dos EUA,
por The chants of Tradition
Andover, 1º de agosto de 2011
Prezado senhor Andreotti,
as palavras não conseguem expressar a nossa gratidão pelo senhor pelo envio gratuito de 30Giorni, sua
revista de extraordinária beleza, e, este mês, por The
chants of Tradition, acompanhado pelo
CD. O nosso Deus de amor abençoe copiosamente a sua bondade e generosidade!
Como o senhor nos enriquece!
Pedimos à nossa querida mãe Santa
Clara que una a sua forte oração às nossas
pelas necessidades e intenções suas e de
todos os seus entes queridos. Abençoe-nos
também com suas boas orações.
Com corações gratos em oração por toda a bondade que demonstra por nós,
as suas clarissas de Andover
Vocação de Pedro e André
CLARISSAS DO MOSTEIRO DE BELLO
Bello, Antioquia, Colômbia
Trinta e sete monjas
que dia e noite
rezam diante de Jesus
Sacramentado
Bello, 2 de agosto de 2011
Ilustre senhor Andreotti,
receba nossa cordial saudação franciscana de paz e bem, em Deus nosso
Pai e em seu Filho Jesus Cristo, que
com a promessa cumprida do Espírito Santo enche as nossas vidas de paz e alegria,
de confiança e esperança.
Um sacerdote próximo da comunidade nos emprestou alguns exemplares da revista 30Giorni; reconhecemos que é um precioso instrumento espiritual que nos atualiza em matéria eclesial e sobre outros temas interessantes, uma vez que nos aproxima
do mistério de Cristo, visível em nossos irmãos mais
necessitados.
Com esta carta, desejamos pedir-lhe que nos envie mais vezes e gratuitamente os exemplares dessa
revista maravilhosa e, se possível, um exemplar de
Quien reza se salva. É uma ótima oportunidade para crescer na vida do espírito. Nós o recompensaremos com a nossa oração assídua diante de Jesus Sacramentado; assim, em todos os seus projetos terá
sempre a luz destas trinta e sete irmãs que dia e noite rezam pelo senhor e por seus mais próximos colaboradores.
¬
Cartas dos mosteiros Cartas dos mosteiros
As bodas de Caná
Seremos gratas se puder acolher favoravelmente
esta súplica que lhe apresentamos por intercessão
dos nossos seráficos pais, São Francisco e Santa Clara, os pobres de Assis, que do alto dispensarão abundantes graças e bênçãos sobre sua vida.
Deus o abençoe e aumente o espírito fraterno e solidário com muitas pessoas que usufruem deste material espiritual.
Em Jesus e Maria,
a abadessa, irmã Margarita María del Sagrado Corazón,
O.S.C., e comunidade
que é a sua revista 30Days, que vocês nos enviam
regularmente há alguns anos e que nos mantém informadas sobre o que acontece no mundo exterior,
para tornar viva a nossa oração e abrir os nossos corações aos sofrimentos dos nossos irmãos e das nossas irmãs. Obrigada também pelo CD e pelo livrinho
com os simples cantos gregorianos que ficamos
enormemente felizes de receber. Esteja certo das
nossas orações pelo senhor e pelo seu trabalho, e
por todos os seus colaboradores.
A sua irmã em Nosso Senhor eucarístico,
irmã Maria Teresita
CLARISSAS DA ADORAÇÃO PERPÉTUA
Eluru, Andhra Pradesh, Índia
DOMINICANAS DO MOSTEIRO OUR LADY OF GRACE
North Guilford, Connecticut, EUA
30Days nos mantém informadas
para revigorar a nossa oração
A saúde e a paz de Cristo, dos EUA
Eluru, 4 de agosto de 2011
North Guilford, 21 de agosto de 2011
Prezado senador Andreotti,
minhas irmãs da comunidade se unem a mim ao lhe
agradecer de todo o coração pelo precioso presente
Prezado senador Andreotti,
a saúde e a paz de Cristo!
Obrigada pelo presente que nos envia com 30Days, que
28
30DIAS Nº 7/8 - 2011
Cartas dos mosteiros Cartas dos mosteiros
considero uma ótima revista pela
sua visão da Igreja e do mundo.
Agora, um pedido.
Seria possível enviarem um
exemplar da meditação de padre Giacomo Tantardini “The
Son cannot do anything on his
own”?
Obrigada, e que Deus o abençoe!
irmã Susan Early, O.P.
DOMINICANAS DO MOSTEIRO
DE SANTA CATARINA
Santorini, Grécia
Quem reza se salva
é uma joia para o nosso tempo
Santorini, 26 de agosto de 2011
Eu lhes seria grata se pudessem enviar-me vinte
exemplares em espanhol e um em italiano, português, francês, inglês e alemão do livrinho Chi prega si
salva: é uma joia para o nosso tempo. O Senhor já os
abençoa por este trabalho. Muito obrigada.
Que o Senhor continue a tornar frutuoso o seu trabalho.
irmã María de la Iglesia, O.P.
CARMELITAS DO CARMELO ASHRAM
Vijayawada, Andhra Pradesh, Índia
30Days nos mantém
em comunhão
com a Igreja inteira
Vijayawada, 27 de agosto de 2011
Prezado senhor Andreotti,
afetuosas saudações em oração no
preciosíssimo nome de nosso Senhor Jesus Cristo!
Com profunda gratidão desejo
agradecer-lhe pela extraordinária
revista 30Days, que com tanta generosidade e constância há anos o senhor nos envia. Que o
bom Deus o abençoe e recompense de modo cada
vez mais copioso.
Agrada-nos muito essa bela revista, rica em informações importantes e dignas de nota, de grande interesse, estímulo e utilidade para nós, irmãs de clausura, que não recebemos muitas boas notícias do
mundo exterior. 30Days nos mantém em comunhão
com a Igreja inteira e o mundo de hoje. Achamos assim oportunidade e motivação para oferecer nossas
vidas a Deus com maior entusiasmo, como sacrifício
do doce perfume, pelas necessidades mais instigantes da Igreja e do mundo, segundo o nosso carisma.
Somos também muito gratas pelos suplementos
que de vez em quando nos envia. Gostamos de modo
particular de The chants of Tradition, com o CD.
Nossas jovens irmãs ficaram encantadas ao ouvir pela primeira vez o canto gregoriano em latim. Gostaríamos de receber a meditação sobre a Santa Páscoa.
Esteja certo das nossas incessantes orações por
todas as suas intenções e o seu apostolado rico em
frutos. Que as suas boas obras continuem a ser abençoadas por uma abundância de graça e pela inspiração do Espírito Santo.
Abençoe-o e o guie a nossa Bem-Aventurada Virgem do Carmelo.
Com renovados agradecimentos e apreço pelo
que o senhor nos faz, sou sua, com afeto, em Cristo,
irmã Emmanuel of Saint Joseph e comunidade
Milagres de Jesus
30DIAS Nº 7/8 - 2011
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Cartas das missões
Cartas das missões
MISSIONÁRIOS JESUÍTAS
DON BOSCO TECHNICAL COLLEGE
Kannur, Kerala, Índia
Adua, Etiópia
Chi prega si salva, um livrinho milagroso
30Days na Etiópia
Kannur, 20 de junho de 2011
Adua, 5 de julho de 2011
Caríssimo diretor,
como aqui há muitos missionários e missionárias que
estiveram na Itália, eu lhe seria muito grato se me enviasse alguns exemplares em italiano de seu milagroso
livrinho Chi prega si salva.
Esses missionários sabem muito bem o italiano.
Eu lhe agradeço em nome deles e em meu nome pelo
grande bem espiritual que realiza com esses belos livrinhos.
Com grande afeto e gratidão, e em união de orações, sou seu para sempre afeiçoadíssimo co-missionário,
Prezado senhor Andreotti,
somos muito gratos ao senhor pelo envio da revista
30Giorni.
A nossa comunidade é composta de cinco pessoas,
e quatro de nós compreendem melhor o inglês que o
italiano. Perguntamos gentilmente se seria possível recebermos a edição em inglês em vez da em italiano.
Obrigado.
Saudações da Etiópia,
padre L. M. Zucol, S.J.
padre Tesfay Kidane, reitor
MISSIONÁRIOS COMBONIANOS
Lirangwe, Malawi
Interiorizar a fé por meio da oração
Kannur, 22 de julho de 2011
Lirangwe, 9 de julho de 2011
Caríssimo senador Andreotti,
agradeço-lhe realmente de coração pelos dois pacotes
de seu maravilhoso livrinho Chi prega si salva.
Já comecei a distribuí-lo a muitas pessoas e também o traduzi em malayalam para dá-lo aos meus novos convertidos.
Assim, todas as almas que forem
salvas mediante a leitura e as orações de seus livrinhos rezarão por
suas intenções e obterão de Nosso
Senhor um elevado lugar no céu.
Nós todos rezamos pelo seu
grande apostolado da imprensa,
realizado também mediante a
sua belíssima revista 30Giorni,
que leio com grande proveito
espiritual.
Com grande afeto, gratidão
e orações mútuas.
Sou seu gratíssimo co-missionário,
padre L. M. Zucol, S.J.
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30DIAS Nº 7/8 - 2011
Peço-lhes que me enviem, se possível, dois exemplares
do livrinho Chi prega si salva (no formato pequeno), um
em inglês e outro em italiano. Gostaria ainda de lhes pedir autorização para traduzir e imprimir esse livrinho em
língua local (chichewa). Estou certo de que faria uma
imensidão de bem a todos, desde o
clero até os cristãos dispersos nos vilarejos mais distantes. Creio que a
atual fase do nosso trabalho missionário seja a de levar os africanos à interiorização da sua fé, justamente por meio
da oração. Vivo há trinta e sete anos na
África e estou convicto de que, se não
cumprirmos, com a graça de Deus, esta
fase, a África corre o risco de se tornar
como a América Latina da época de Pio
XII, com festas triunfalistas de massa, rallies, cada vez mais famílias em desagregação, pessoas pertencendo de modo fluido
e superficial a Cristo e à Igreja.
São muitos os católicos que “viram casaca”, procurando nas seitas e nas deno-
Cartas das missões
Cartas das missões
PARÓQUIA DE LʼASSOMPTION
Boma, República Democrática do Congo
Qui prie sauve son âme
nos ajudou para a catequese
Boma, 19 de julho de 2011
Caro diretor,
as crianças da nossa paróquia que receberam a primeira comunhão e seus catequistas
lhe agradecem pelos exemplares de Qui prie
sauve son âme, que os ajudaram no ano de
formação catequética que acaba de terminar. Rogam a Deus que encha de graça e de
bênçãos o senhor e seus colaboradores. Nós
lhe pedimos um número igual de livrinhos
em francês para as crianças que começarão
sua formação em outubro, no novo ano de
catequese.
minações protestantes um maior alimento de Palavra
de Deus e uma fé mais profunda e menos barulhenta.
Digam-me se poderei pagar pelos livrinhos e as
despesas postais da remessa por via aérea.
Recebam meus votos de sucesso cada vez maior
em seu apostolado.
padre Anastasio Tricarico
XAVERIAN HOUSE
Daca, Bangladesh
Peço o livro de Joseph Ratzinger,
Lʼunità delle nazioni
Daca, 15 de julho de 2011
Caro senador Giulio Andreotti,
desejo renovar-lhe meu muito obrigado pelas contribuições tão estimulantes da sua revista. Ao mesmo tempo, renovo-lhe também meus votos de que,
Os jovens da primeira comunhão da paróquia L’Assomption,
em Boma
Queira receber, senhor diretor, a expressão da nossa gratidão.
P.S. Sou aquele com a camisa amarela na foto.
Roger Phanzu-Kumbu
considerando o peso dos anos, o senhor tenha ainda a
leveza necessária para sair-se bem na direção de
30Giorni.
No passado recebi alguns de seus livros, que me foram muito úteis. Gosto muito das meditações agostinianas de padre Tantardini.
Recentemente, um
confrade meu que trabalha com os estrangeiros
residentes em Daca me
pediu um exemplar da
edição em inglês de Chi
prega si salva.
Para mim, ouso
acrescentar o pedido
do livro de Joseph
Ratzinger, L’unità
delle nazioni.
Um obrigado e
uma oração,
padre Silvano Garello
Cartas das missões Cartas das missões
ser sentida e vivida. Se nós, que herdamos esta música sacra, a perdermos, deixando-a cair em desuso,
como poderá ser transmitida? A sua iniciativa, portanto, é bem-vinda, artística, instrumento secular de
oração, e necessária.
Nós lhe agradecemos por sua generosidade e atenção, e ao senhor voltamos nossa oração.
irmã Viviana Zanesco,
em nome de toda a comunidade
ARQUIDIOCESE DE PRETÓRIA
Phalaborwa, África do Sul
Foi uma verdadeira maravilha ler 30Days
IRMÃS MISSIONÁRIAS DA CONSOLATA DA NAZARETH HOUSE
Phalaborwa, 22 de julho de 2011
Nairóbi, Quênia
Agradecimentos, em particular,
pelo CD I canti della Tradizione
Nairóbi, 21 de julho de 2011
Prezado senador Giulio Andreotti,
temos uma dívida de gratidão com o senhor pelo presente que é a sua publicação 30Giorni, que recebemos regularmente e que lemos com interesse, pelas
notícias e pelos artigos específicos, que de outra forma não poderíamos aproveitar.
Aceite nossas congratulações pelo objetivo louvável de sua revista: formar, informar, explicar, e também louvar e estimar o bem e esclarecer sobre possíveis erros. Transparece também, nas entrelinhas, a
sua personalidade, que conhecemos há anos; mas o
seu editorial preciso nos permite conhecer ainda melhor seus valores pessoais.
Obrigada por essa partilha, não apenas da revista. Agradecemos, de modo particular, pelo CD I canti della Tradizione anexado ao número 4/5. Nós o
ouvimos imediatamente e as vozes do coral, precisas, vibrantes, disciplinadas, de estilo e execução encantadores segundo a tradição gregoriana, encheram o nosso coração. Se na Europa esses cantos hoje são ouvidos raramente, aqui já nem é possível ensiná-los. Uma música carregada de séculos de devoção e tradição não pode apenas ser ensinada: deve
32
30DIAS Nº 7/8 - 2011
Senhor,
sou um sacerdote católico romano incardinado na arquidiocese de Pretória e no momento atuo em Phalaborwa, no extremo norte do país.
Chegou a minhas mãos a sua revista, embora tenha sido um exemplar já datado, de 2007. Eu a percorri, folheando as páginas rapidamente, e no fim a li
toda. Foi uma verdadeira maravilha lê-la: os temas tratados são de grande relevo e oferecem muitas informações para um católico.
Vocês estão fazendo uma obra notável e de grande
inspiração.
A última ceia
A crucifixão
CASA DO CLERO DE BUENOS AIRES
Entusiasmado pela qualidade da revista, pedi informações e gostaria de recebê-la regularmente, mas
não tenho os meios financeiros para arcar com as despesas de uma assinatura.
Meu humilde pedido é de poder ter uma assinatura
gratuita da edição em inglês.
Espero e tenho confiança de que meu pedido seja
levado favoravelmente em consideração e que não seja um excessivo ônus econômico.
Agradeço antecipadamente.
Cordiais saudações,
padre S. Rangwaga
Buenos Aires, Argentina
Chi prega si salva para a catequese dos adultos
Buenos Aires, 29 de julho de 2011
Caros amigos, sou um sacerdote argentino e desejo
pedir-lhes um favor: eu precisaria de 10 exemplares
em espanhol e 3 em italiano de Chi prega si salva.
Utilizo o livrinho para a catequese dos adultos.
Agradeço muito desde já.
padre Francisco Caggia
30DIAS Nº 7/8 - 2011
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Cartas das missões
Buenos Aires, 18 de agosto de 2011
Caros irmãos,
obrigado pelo envio do utilíssimo Quien reza se salva,
que comecei a distribuir no mesmo dia em que chegou.
Deus lhes conceda as forças e os meios para continuar.
De novo muitíssimo obrigado e em união de oração.
padre Francisco Caggia
PARÓQUIA DE SANTO EUSÉBIO
Inhassoro, Moçambique
Alguns exemplares
de Quem reza se salva
para os nossos
catequistas
padre Giacomo Biasotto
Inhassoro,
4 de agosto de 2011
DIOCESE DE SANTIAGO DE CABO VERDE
Praia, Cabo Verde
Prezado diretor,
agradeço-lhe de coração
pelo CD de cantos gregorianos: ouvi-los aqui
na África me levou de
volta à minha juventude
no seminário.
Recebemos com prazer a sua revista. Mando-lhe
algumas fotos da nossa igreja há pouco consagrada.
Cordiais saudações,
padre Pio Bono
P.S. Se puder, nos envie alguns exemplares de
Quem reza se salva para os nossos catequistas.
MISSIONÁRIOS COMBONIANOS
Dondi, República Democrática do Congo
São momentos de serenidade
aqueles em que leio 30Jours
Dondi, 6 de agosto de 2011
Com a presente, desejo expressar-lhes minha gratidão
pela revista 30Jours, que recebo quase regularmente
na República Democrática do Congo. Se digo “quase”
é pelo mal funcionamento dos correios locais. Embora
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30DIAS Nº 7/8 - 2011
não receba todas as edições, a revista me agrada muito
pelas notícias, pelos artigos, pelas reflexões e pelas belíssimas fotos. São para mim momentos de serenidade
e distensão aqueles em que tenho a possibilidade de
percorrer as páginas de 30Jours.
Creio dar-lhes prazer ao lhes enviar uma de minhas fotos, em que estou com alguns catequistas que em março
deste ano frequentaram um curso de formação no centro
pastoral e social que dirigimos em nossa missão de Dondi
(Watsa), no nordeste da República Democrática do Congo.
Ao expressar-lhes meus sentimentos de grande estima e o desejo de longa vida, apresento-lhes minhas respeitosas saudações e a garantia de minha oração ao Senhor.
Cem exemplares
de Quem reza se salva
Praia, 8 de agosto de 2011
É com muita alegria e profundo reconhecimento que acuso a recepção da bela, rica
e importante revista 30Giorni em português, fruto de generosidade e espírito de bem servir do
seu Diretor e da sua equipe.
Agradeço o envio espontâneo e gratuito dessa interessante revista às Igrejas das missões, assim como o
suplemento 4/5 de 2011, contendo o livrinho e o CD
“Os Cantos da Tradição”, com músicas gregorianas.
Deus vos recompense.
Gostaria também de pedir cem exemplares do livrinho Quem reza se salva.
Embora eu pessoalmente não o conheça, estou
convencido de que se trata de um livro oportuno, capaz de ajudar as pessoas que querem e precisam de rezar, mas que necessitam de algum suporte. Esses livrinhos serão distribuídos a essas pessoas.
Com os votos das maiores bênçãos do Senhor,
aproveito para apresentar ao ilustríssimo senhor Giulio Andreotti os meus respeitosos cumprimentos em
Cristo Jesus.
Arlindo Gomes Furtado, bispo de Santiago de Cabo Verde
Correio do Diretor
ARQUIDIOCESE DE KARACHI
Karachi, Paquistão
Obrigado pela sua fidelidade à Igreja
Karachi, 25 de julho de 2011
Estimado senhor Andreotti,
muito obrigado pela remessa regular de 30Giorni/30Days.
Além do livrinho Who prays is
saved, agora devo agradecer-lhe
pelo The chants of Tradition. É
um belo presente da parte sua e
dos seus colaboradores. Obrigado por tudo o que fazem por
muitíssimas pessoas, particularmente nas missões. Obrigado
pela sua fidelidade à Igreja. Deus
abençoe o senhor e os seus colaboradores na sua obra de amor.
Peço suas orações pela nossa Igreja no Paquistão.
Com os melhores votos e
bênçãos,
sinceramente seu em Cristo,
As capas de Who prays is saved
e The chants of Tradition
CAPELA DE MARIA MÃE DE DEUS
Kuching, Sarawak, Malésia
Sempre li 30Giorni
com muito prazer pelos artigos doutrinais
e as entrevistas
Evarist Pinto, arcebispo de Karachi
Senhor pela minha saúde e pela ajuda por não perder
o espírito sacerdotal.
Com os melhores votos, agradecido no Senhor,
Peter Chung Hoan Ting, arcebispo emérito de Kuching
DIOCESE DE SAN ANGELO
Kuching, 20 de julho de 2011
San Angelo, Texas, EUA
Prezado Diretor,
há muitos anos recebo regularmente um exemplar de
brinde da sua revista. Agradeço-lhe de coração. Sempre li com grande prazer, particularmente os artigos
doutrinais e as entrevistas. Agradeço-lhe também por
acrescentar, algumas vezes, alguns livrinhos, como o
mais recente, The chants of Tradition. Rezarei pelo
senhor e pelos seus colaboradores, e também pelo
prosseguimento da revista. Ficaria muito agradecido
se continuassem a enviá-la.
Deixei o meu cargo em 2003, mas continuo a praticar ativamente o ministério sacerdotal, oferecendo a
minha ajuda a paróquias e às pessoas. Agradeço ao
Agradeço de coração pelo CD
e o livrinho de cantos gregorianos
San Angelo, 28 de julho de 2011
Caros e estimados amigos,
agradeço-lhes de coração pelo CD e o belo livrinho de
cantos gregorianos. Aprecio muito este presente especial e anexo uma doação para exprimir a minha gratidão.
A paz de Deus esteja convosco.
Sinceramente em Cristo e Maria,
Michael D. Pfeifer, O.M.I., bispo de San Angelo
30DIAS Nº 7/8 - 2011
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A percepção da Igreja
como “luz refletida” que une
os Padres do primeiro milênio
e o Concílio Vaticano II
pelo cardeal Georges Cottier, O.P.
teólogo emérito da Casa Pontifícia
No já próximo 2012 vão se completar os cinquenta anos do início do Concílio Vaticano
II. Meio século depois, esse que foi um acontecimento maior na vida da Igreja continua a suscitar debates – que provavelmente se intensificarão nos
próximos meses – a respeito de qual é a interpretação mais adequada daquela assembleia conciliar.
As disputas de caráter hermenêutico, embora
certamente importantes, correm o risco de se tornar controvérsias para especialistas. Ao passo que
pode interessar a todos, sobretudo no momento
O portal central da Catedral de Chartres,
séculos XII-XIII, França
36
30DIAS Nº 7/8 - 2011
presente, descobrir qual foi a fonte inspiradora que
animou o Concílio Vaticano II.
A resposta mais comum reconhece que aquele
evento era movido pelo desejo de renovar a vida interior da Igreja e também adaptar sua disciplina às novas exigências, para voltar a propor com novo vigor
sua missão no mundo atual, atenta, na fé, aos “sinais
dos tempos”. Mas, para ir mais a fundo, é preciso
perceber qual era o rosto mais íntimo da Igreja que o
Concílio se propunha a reconhecer e a representar
para o mundo, em seu intento de atualização.
O título e as primeiras linhas da constituição dogmática conciliar Lumen gentium, dedicada à Igreja,
são iluminadores, nesse sentido, em sua clareza e
simplicidade: “Sendo Cristo a luz dos povos, este Sacrossanto Sínodo, congregado no Espírito Santo,
deseja ardentemente anunciar o Evangelho a toda
criatura e iluminar todos os homens com a claridade
de Cristo que resplandece na face da Igreja”. No incipit de seu documento mais importante, o último
Concílio reconhece que o ponto de origem da Igreja
não é a própria Igreja, mas a presença viva de Cristo,
que edifica pessoalmente a Igreja. A luz que é Cristo
se reflete, como num espelho, na Igreja.
A consciência desse dado elementar (a Igreja é,
no mundo, o reflexo da presença e da ação de Cristo) esclarece tudo o que o último Concílio disse sobre
a Igreja. O teólogo belga Gérard Philips, que foi o
principal redator da constituição Lumen gentium,
evidencia justamente esse dado no início de seu monumental comentário ao texto conciliar. Segundo
ele, “a Constituição sobre a Igreja adota desde o início a perspectiva cristocêntrica, perspectiva que se
afirmará com insistência ao longo de toda a exposição. A Igreja está profundamente convencida disto:
a luz dos povos se irradia não dela, mas de seu divino
Fundador; ao mesmo tempo, a Igreja sabe muito ¬
REFLEXÕES SOBRE O MISTÉRIO E A VIDA DA IGREJA
A Transfiguração, mosaico da primeira metade do século XI do mosteiro de Hosios Loukas, Chaidari, Atenas
O último Concílio reconhece que o ponto de origem da Igreja não é a própria
Igreja, mas a presença viva de Cristo, que edifica pessoalmente a Igreja.
A luz que é Cristo se reflete, como num espelho, na Igreja
30DIAS Nº 7/8 - 2011
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A missão dos apóstolos, afresco do século X, Tokali Kilise, Göreme, Turquia
Ao mesmo tempo, devemos perceber como um dado objetivo a
correspondência entre a percepção da Igreja expressa na Lumen gentium
e a já compartilhada nos primeiros séculos do cristianismo.
Em outras palavras, a Igreja não deve ser pressuposta como um sujeito
fechado em si mesmo, preestabelecido.
A Igreja se atém ao dado de que a sua presença no mundo floresce e
permanece como reconhecimento da presença e da ação de Cristo
bem que, refletindo-se em seu rosto, essa irradiação
alcança a humanidade inteira” (La Chiesa e il suo
mistero nel Concilio Vaticano II: storia, testo e commento della costituzione Lumen gentium. Milano: Jaca Book, 1975, v. I, p. 69). Uma perspectiva que Philips retoma até as últimas linhas de seu comentário,
em que repete que “não nos cabe profetizar sobre o
38
30DIAS Nº 7/8 - 2011
futuro da Igreja, sobre seus insucessos e desenvolvimentos. O futuro desta Igreja, que Deus quis fazer o
reflexo de Cristo, Luz dos Povos, está em Suas mãos”
(ibid., v. II, p. 314).
A percepção da Igreja como reflexo da luz de Cristo aproxima o Concílio Vaticano dos Padres da Igreja, que desde os primeiros séculos recorriam à ima-
gem do mysterium lunae, o mistério da lua, para sugerir qual era a natureza da Igreja e a ação que lhe
convém. Como a lua, “a Igreja resplandece não por
luz própria, mas pela luz de Cristo” (“fulget Ecclesia
non suo sed Christi lumine”), diz Santo Ambrósio.
Para Cirilo de Alexandria, “a Igreja é iluminada pela
luz divina de Cristo, que é a única luz no reino das almas. Há, portanto, uma só luz: nessa única luz resplende todavia também a Igreja, que não é porém o
próprio Cristo”.
Nesse sentido, merece atenção a opinião dada recentemente pelo historiador Enrico Morini, num artigo publicado no site www.chiesa.espressonline.it, de
Sandro Magister.
Segundo Morini – que é professor de História do
Cristianismo e das Igrejas na Universidade de Bolonha –, o Concílio Vaticano II pôs-se “na perspectiva
da mais absoluta continuidade com a tradição do primeiro milênio, segundo uma periodização não puramente matemática, mas essencial, uma vez que o primeiro milênio de história da Igreja foi o da Igreja de
sete concílios, ainda indivisa [...]. Promovendo a renovação da Igreja, o Concílio não pretendeu introduzir algo novo – como desejam e temem, respectivamente, progressistas e conservadores –, mas retornar
ao que se havia perdido”.
A observação pode gerar equívocos, se for confundida com o mito historiográfico segundo o qual o
itinerário histórico da Igreja é uma progressiva decadência e um distanciamento crescente de Cristo e do
Evangelho. Também não é possível dar crédito a contraposições artificiosas, segundo as quais o desenvolvimento dogmático do segundo milênio não seria
conforme à Tradição compartilhada durante o primeiro milênio da Igreja indivisa. Como evidenciou o
cardeal Charles Journet, apoiando-se também no
beato John Henry Newman e em seu ensaio sobre o
desenvolvimento do dogma, o depositum que recebemos não é um depósito morto, mas vivo. E tudo o
que é vivo se mantém vivo desenvolvendo-se.
Ao mesmo tempo, devemos perceber como um
dado objetivo a correspondência entre a percepção
da Igreja expressa na Lumen gentium e a já compartilhada nos primeiros séculos do cristianismo. Em outras palavras, a Igreja não deve ser pressuposta como
um sujeito fechado em si mesmo, preestabelecido. A
Igreja se atém ao dado de que a sua presença no mundo floresce e permanece como reconhecimento da
presença e da ação de Cristo.
Às vezes, também em nossa mais recente atualidade eclesial, essa percepção do ponto de origem da
Igreja parece para muitos cristãos ofuscar-se, e parece
acontecer uma espécie de reviravolta: de reflexo da
presença de Cristo (que com o dom de Seu Espírito
edifica a Igreja), passa-se a perceber a Igreja como uma
realidade material e idealmente empenhada em atestar e realizar por si mesma sua presença na história.
Desse segundo modelo de percepção da natureza
da Igreja, que não é conforme à fé, derivam consequências concretas.
Se a Igreja percebe-se no mundo como reflexo da
presença de Cristo, como deve ser, o anúncio do
Evangelho só pode acontecer no diálogo e de modo
livre, renunciando a qualquer meio de coerção, quer
material, quer espiritual. É o caminho indicado por
Paulo VI em sua primeira encíclica, Ecclesiam Suam,
publicada em 1964, que expressa perfeitamente o
olhar para a Igreja que é próprio do Concílio. O modo
como o Concílio encarou as divisões entre os cristãos
e, depois, entre os fiéis de outras religiões reflete a
mesma percepção da Igreja. Assim, o pedido de perdão pelas culpas dos cristãos, que surpreendeu e ge-
Os apóstolos Paulo, João, Tiago Maior,
Tiago Menor e Bartolomeu,
portal sul da Catedral de Chartres
rou discussões no corpo eclesial quando foi apresentado por João Paulo II, também é perfeitamente consoante com a consciência de Igreja que até aqui descrevi. A Igreja pede perdão não por seguir lógicas de
etiqueta mundanas, mas porque reconhece que os
pecados de seus filhos ofuscam a luz de Cristo, que ela
é chamada a refletir em seu rosto. Todos os seus filhos
são pecadores chamados pela ação da graça à santidade. Uma santificação que é sempre dom da misericórdia de Deus, que deseja que nenhum pecador –
por mais horrível que seja o seu pecado – seja acorrentado pelo maligno na via da perdição. Assim, podemos compreender a fórmula do cardeal Journet: a
Igreja é sem pecado, mas não sem pecadores.
A referência à verdadeira natureza da Igreja como
reflexo da luz de Cristo têm também implicações pastorais imediatas. Infelizmente, no atual contexto, registramos a tendência de alguns bispos a exercerem seu ¬
30DIAS Nº 7/8 - 2011
39
Pentecostes, mosaico da primeira metade do século XI do mosteiro de Hosios Loukas, Chaidari, Atenas
Talvez, no mundo atual, fosse mais simples e reconfortante poder ouvir
pastores que falam a todos sem dar a fé por pressuposta. Como reconheceu
Bento XVI durante sua homilia em Lisboa em 11 de maio de 2010,
“muitas vezes preocupamo-nos afanosamente com as consequências sociais,
culturais e políticas da fé, dando por suposto que esta fé existe,
o que é cada vez menos realista”
magistério por meio de pronunciamentos pela mídia,
em que frequentemente se dão prescrições, instruções
e indicações sobre o que devem ou não devem fazer os
cristãos. Como se a presença dos cristãos no mundo
fosse o produto de estratégias e prescrições e não surgisse da fé, ou seja, do reconhecimento da presença de
Cristo e de sua mensagem. Talvez, no mundo atual,
40
30DIAS Nº 7/8 - 2011
fosse mais simples e reconfortante poder ouvir pastores que falam a todos sem dar a fé por pressuposta. Como reconheceu Bento XVI durante sua homilia em Lisboa em 11 de maio de 2010, “muitas vezes preocupamo-nos afanosamente com as consequências sociais,
culturais e políticas da fé, dando por suposto que esta fé
existe, o que é cada vez menos realista”.
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Curtas Curtas Curtas Cu
Capa
ANGELUS
“Unicamente com as tuas forças,
não consegues levantar-te.
Segura na mão d'Aquele que desce até ti”
Palácio Apostólico de Castel Gandolfo
Domingo, 7 de agosto de 2011
Estimados irmãos e irmãs
No Evangelho deste domingo, encontramos Jesus que, retirando-se sobre o monte, reza durante a noite inteira. Separado
tanto da multidão como dos seus discípulos, o Senhor manifesta a sua intimidade
com o Pai e a necessidade de rezar em solidão, ao abrigo dos tumultos do mundo. No
entanto, este seu afastar-se não deve ser
entendido como um desinteresse pelas
pessoas, nem como um abandono dos
Apóstolos. Pelo contrário – narra são Mateus – pediu que os discípulos entrassem na
barca a fim de “O preceder na outra margem” (Mt 14, 22), para os encontrar de novo. Entrementes, “já a uma boa distância
da margem, a barca era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário” (v. 24), e
eis que “pela quarta vigília da noite, Jesus
veio até eles, caminhando sobre o mar” (v.
25); os discípulos ficaram transtornados e,
pensando que se tratava de um fantasma,
“soltaram gritos de terror” (v. 26), pois não
O reconheceram, não compreenderam
que era o Senhor. Mas Jesus tranquiliza-os:
“Coragem, sou eu. Não tenhais medo!” (v.
27). Trata-se de um episódio, do qual os
42
30DIAS Nº 7/8 - 2011
Padres da Igreja hauriram uma grandiosa
riqueza de significado. O mar simboliza a
vida presente, a instabilidade do mundo visível; a tempestade indica todos os tipos de
tribulação, de dificuldade que oprime o homem. A barca, ao contrário, representa a
Igreja construída por Cristo e norteada pelos apóstolos. Jesus deseja educar os discípulos a suportar com coragem as adversidades da vida, confiando em Deus,
n’Aquele que se revelou ao profeta Elias no
monte Horeb, no “murmúrio de uma bri- ¬
Santo Agostinho, imaginando
que se dirigia ao apóstolo,
comenta: o Senhor
“humilhou-se e pegou-te
pela mão. Unicamente com
as tuas forças, não consegues
levantar-te. Segura na mão
d'Aquele que desce até ti”
(Enarrationes in Psalmos 95, 7),
e diz isto não apenas a Pedro,
mas di-lo também a nós
urtas Curtas Curtas Curtas
3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUNDO
Jesus salva Pedro das águas, mosaico da Catedral de Monreale, Palermo
30DIAS Nº 7/8 - 2011
43
Curtas Curtas Curtas Cu
3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUN
Jesus salva Pedro das águas, detalhe
sa ligeira” (1 Rs 19, 12). Depois, este trecho continua com o gesto do apóstolo Pedro que, tomado por um impulso de amor
pelo Mestre, pediu para ir ao seu encontro,
caminhando sobre as águas. “Mas, redobrando a violência do vento, teve medo e,
começando a afundar, gritou: ‘Senhor, salva-me!’” (Mt 14, 30). Santo Agostinho,
imaginando que se dirigia ao apóstolo, comenta: o Senhor “humilhou-se e pegou-te
pela mão. Unicamente com as tuas forças,
não consegues levantar-te. Segura na mão
d’Aquele que desce até ti” (Enarrationes
in Psalmos 95, 7), e diz isto não apenas a
Pedro, mas di-lo também a nós. Pedro caminha sobre as águas não pelas suas pró-
O grande pensador
Romano Guardini escreve
que o Senhor “está sempre
próximo, dado que se
encontra na raiz do nosso
próprio ser. Todavia, temos
que experimentar o nosso
relacionamento com Deus
entre os polos da distância
e da proximidade.
Pela proximidade somos
fortalecidos, pela distância,
postos à prova”
44
30DIAS Nº 7/8 - 2011
prias força, mas pela graça divina, na qual
crê, e quando se sente dominado pela dúvida, quando deixa de fixar o olhar em Jesus e tem medo do vento, quando não
confia plenamente na palavra do Mestre,
quer dizer que, interiormente, se está a
afastar dele, e é então que corre o risco de
afundar no mar da vida, e é assim também
para nós: se olharmos unicamente para
nós mesmos, tornamo-nos dependentes
dos ventos e já não conseguimos atravessar as tempestades, as águas da vida. O
grande pensador Romano Guardini es-
urtas Curtas Curtas Curtas
NDO 3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUNDO
Invoquemos a Virgem Maria,
modelo de confiança plena
em Deus para que, no meio
de tantas preocupações,
problemas e dificuldades que
agitam o mar da nossa vida,
ressoe no nosso coração
a palavra tranquilizadora
de Jesus que nos diz,
também a nós: Coragem,
sou eu, não tenhais medo!,
e aumente a nossa fé n'Ele
creve que o Senhor “está sempre próximo,
dado que se encontra na raiz do nosso próprio ser. Todavia, temos que experimentar
o nosso relacionamento com Deus entre
os polos da distância e da proximidade. Pela proximidade somos fortalecidos, pela
distância, postos à prova” (Accettare se
stessi, Brescia 1992, p. 71) [Em português, A aceitação de si mesmo, Ed. Palas
Athenas].
Caros amigos, a experiência do profeta
Elias, que ouviu a passagem de Deus, e a
dificuldade da fé do apóstolo Pedro levam-
nos a compreender que o Senhor, ainda
antes que O procuremos ou invoquemos,
é Ele mesmo que vem ao nosso encontro,
abaixa o céu para nos estender a sua mão
e nos elevar à sua altura; Ele espera unicamente que nos confiemos de maneira total
a Ele, que seguremos realmente a sua
mão. Invoquemos a Virgem Maria, modelo de confiança plena em Deus para que,
no meio de tantas preocupações, problemas e dificuldades que agitam o mar da
nossa vida, ressoe no nosso coração a palavra tranquilizadora de Jesus que nos diz,
também a nós: Coragem, sou eu, não tenhais medo!, e aumente a nossa fé
n’Ele.culdades que agitam o mar da nossa
vida, ressoe no nosso coração a palavra
tranquilizadora de Jesus que nos diz, também a nós: Coragem, sou eu, não tenhais
medo!, e aumente a nossa fé n’Ele.
30DIAS Nº 7/8 - 2011
45
Curtas Curtas Curtas Cu
3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUN
IGREJA/1
Primeiro milênio.
Notas de método
Settimo cielo, o blog do vaticanista Sandro Magister para a revista L’Espresso, apresentou um
debate sobre a Tradição católica e
o Concílio Vaticano II. Este é o incipit de um escrito do professor
Enrico Morini, professor de História do cristianismo e das Igrejas
junto à Universidade de Bolonha,
publicado em 15 de julho: “O problema já não é o que se entenda
por tradição, mas se houve um
momento em que no Ocidente tenha acontecido alguma coisa pela
qual este fluxo vital, que nunca se
interrompeu – não quero por nada colocar em dúvida esta fidelidade da minha Igreja à tradição! –,
tenha-se, assim por dizer, turvado. Na minha opinião, isso aconteceu de modo relevante justamente no final do primeiro milênio, donde a minha individuação
de um critério hermenêutico do
Concílio Vaticano II precisamente
na volta à experiência comum da
Igreja indivisa. Também a Ortodoxia seria igualmente necessitada
de uma tal “reforma” da sua vida
eclesial – mesmo se em medida
sensivelmente menor em relação
ao Ocidente católico-romano –,
sempre seguindo o mesmo critério. Aliás, já começou a fazê-la
(pode-se pensar na ‘volta aos Padres’ iniciada pela teologia russa
da emigração) e na eventualidade
de que este retorno à própria tradição chegasse também às fontes
da eclesiologia ortodoxa – libertando-a dos elementos impróprios acumulados em séculos de
polêmicas – então até mesmo o
grande problema do primado romano seria talvez suscetível a soluções ainda hoje não imagináveis. Neste âmbito da Igreja Católica ainda há muita estrada a ser
feita [...] isso foi demonstrado alguns dias atrás na preconizada sucessão da cátedra episcopal milanesa: sem a menor objeção sobre
a qualidade da escolha – considerada a elevadíssima personalidade
do eleito – o método deixou-me
46
30DIAS Nº 7/8 - 2011
A Basílica patriarcal de Santa Maria Assunta em Aquileia
atônito. Transferir um bispo de
uma grande Igreja que conta com
raízes apostólicas (Aquileia – Grado – Veneza) a uma outra grande
Igreja, que conta, ao lado de um
grande presente, igualmente um
grande passado (é suficiente pensar na tradição ambrosiana) recorda com muita proximidade a
transferência de um funcionário,
merecedor, de uma prefeitura a
uma outra mais prestigiosa e
comprometedora. O episódio pareceu-me o sintoma de um grande
desequilíbrio eclesiológico”.
IGREJA/2
Como nos dias
do assassinato de Aldo Moro.
(9 de maio de 1978)
No Corriere della Sera de 28 de
agosto, Alberto Melloni reflete
A descoberta do cadáver de Aldo Moro na Via Caetani em Roma, a 9 de maio de 1978
urtas Curtas Curtas Curtas
NDO 3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUNDO
sobre a introdução do “8 por
mil” (a contribuição do Estado
italiano para a Igreja): “O dinheiro dado à CEI (Conferência Episcopal Italiana), de fato, foi gasto
(quase sempre) muito bem: colocou em ordem um patrimônio
que a Fundação de edifícios de
Culto do Ministério do Interior
não podia manter, financiou muita solidariedade. Não faltam as
sombras: certamente financiou
interesses e comprou consensos
à venda, deu confiança a incompetentes em finanças e em cultura, protegeu operações mesquinhas (por outro lado, como explicava um grande cardeal italiano,
em assunto de dinheiro “os padres criminosos confiam sempre
em criminosos, porque eles mes-
como caminho necessário da
Igreja, segundo o límpido ditado
da constituição conciliar Lumen
gentium, 8. Porque – como ensinou o emergir dos crimes de pedofilia – cada conselho evangélico pode ser vivido de modo extrínseco ou profundo: e como a
superficialidade exalta as imoralidades, a sinceridade mesmo fraca aumenta as virtudes. Assim a
pouca confiança, pode-se dizer
assim, na pobreza subtraiu à
Igreja uma credibilidade da qual
hoje teria necessidade, para participar na virada que estamos vivendo como um fator de unidade
profunda do país. [...] Alguma
coisa que seja límpida e não política como um tal ato de fé – com
todas as consequências de rigor e
¬
Paulo VI durante a missa de sufrágio de Aldo Moro, a 13 de maio de 1978,
na Basílica de São João de Latrão
mos são criminosos; os padres
bons confiam nos criminosos
porque são bons”). [...] Porém
aquele dinheiro corroeu alguma
coisa mais profunda para a Igreja
italiana: foi a sua fé na pobreza
de transparência que isso comporta – daria aos bispos ou mesmo acrescentaria aquele crédito
do qual eles, espectadores de lamentos e de lutas de carreira
eclesiástica despudoradas, ne-
cessitam e do que mais precisa o
país. Nos dias mais difíceis da sua
história pós-fascista – 8 de setembro de 1943 e 9 de maio de
1978 – a Itália encontrou na
Igreja um apoio insubstituível e
naqueles gestos de coragem a
Igreja ganhou uma credibilidade
que foi capitalizada por décadas.
Ninguém pode excluir que dias,
felizmente diferentes na forma,
mas não menos comprometedores na substância, estejam atualmente diante do país”.
IGREJA/3
Messori: o primeiro milênio
e a Igreja que não
é nossa mas Sua
Vittorio Messori, no Corriere della Sera de 31 de agosto, reflete
sobre a queda de vocações que investiu várias congregações religiosas. Essa foi a sua conclusão:
“Certamente é doloroso assistir
ao declínio de instituições beneméritas e mães de tantos santos e
constatar a dor dos cristãos que
deram a vida a Famílias que amavam e que, agora veem extinguirse. Mas, na perspectiva de fé, não
pode existir nada realmente preocupante. A Providência que guia
a história (e muito mais a Igreja,
próprio corpo de Cristo) sabe o
que faz: ‘Tudo é Graça’, repetindo as últimas palavras do cura da
campanha de Bernanos. A Igreja
não é um fóssil, mas uma árvore
viva onde, sempre, alguns ramos
tornam-se áridos, enquanto outros desabrocham e florescem.
Quem conhece a sua história sabe
que nela, a exemplo do Fundador,
a morte é seguida pela ressurreição, muitas vezes em formas humanamente imprevistas. Não deve ser esquecido que no primeiro
milênio cristão havia apenas padres seculares e monges: todas as
famílias religiosas apareceram
apenas a partir do segundo milênio. Frades e irmãs não existiram
por muitos séculos, portanto,
mesmo deixando uma recordação gloriosa e nostálgica, poderiam não mais existir no futuro ¬
30DIAS Nº 7/8 - 2011
47
Curtas Curtas Curtas Cu
3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUN
RESENHA
Movimentos e descristianização
O Corriere della Sera de 25 de agosto fez a recensão de um minucioso estudo de Roberto Cartocci sobre o catolicismo na Itália publicado pela
editora Il Mulino. As estatísticas do estudo mostram uma Itália dividida em um Norte descristianizado e um Sul no qual a devoção católica ainda está presente. Eis a recensão do jornal: “Cartocci releva também que à secularização acompanha-se
um processo oposto, pela presença de movimentos que reforçariam o catolicismo italiano, garantindo à Igreja um peso político decisivo. É assim
mesmo? A pesquisa indica uma aceleração da secularização na metade da década de 1980. No
Congresso de Loreto de 1985, a Igreja italiana
deslocou o baricentro das tradicionais associações
que tinham como base a paróquia (Ação Católica,
Acli, Scout) para os novos movimentos (Comunhão e Libertação, Santo Egídio,
entre outros). Deu-se fim assim, a
um período de grande articulação
do catolicismo italiano, que, pagando o preço de alguns conflitos,
cobria um amplo espectro de sensibilidades e, pela dimensão nacional das associações, toda a península. Os movimentos mostram, ao
invés, um arraigamento geográfico
limitado, não influenciando nas
particularidades da Igreja meridioRoberto Cartocci, Geografia dell'Italia cattolica
[Geografia da Itália católica], ed. Il Mulino,
Bolonha, 2011, 182 pp.
(é uma hipóteses extrema) ou, ao
menos, ter sempre menos peso e
influência. A certeza é que, em cada geração, em muitos cristãos
continuará a se acender a necessidade de viver o Evangelho sine
glossa, na sua radicalidade. Qual
novo rosto assumirá a vida consagrada por inteiro ao aperfeiçoamento pessoal e a serviço do próximo? Bem, o conhecimento do
futuro nos é impedido, é monopólio d’Aquele que, através de pobres homens, guia uma Igreja que
não é nossa, mas Sua”.
48
30DIAS Nº 7/8 - 2011
João Paulo II discursa no Congresso eclesial “Reconciliação cristã
e comunidade dos homens”, Loreto, abril de 1985
nal relevadas por Cartocci. Se por um lado criouse a impressão de força do núcleo firme do catolicismo italiano, por outro, a redução da sua articulação interna levou à aceleração da secularização
justamente nas áreas nas quais é mais forte a presença dos movimentos (indicativo o caso de Comunhão e Libertação e da Lombardia). Contrastar
a secularização não é fácil, provavelmente nem
mesmo possível. É legítimo perguntar-se se escolhas diferentes teriam atenuado a fratura denunciada por Cartocci”.
SAGRADO COLÉGIO
A morte dos cardeais Noè,
Ambrozic e Deskur
No dia 24 de julho faleceu o cardeal italiano da região da Lombardia, Virgilio Noè, 89 anos, arcipreste emérito da Basílica de São
Pedro no Vaticano. No dia 26 de
agosto faleceu o cardeal canadense Aloysius Matthew Ambrozic, 81
anos, arcebispo emérito de Toronto. No dia 3 de setembro faleceu o
cardeal polonês Andrzej Maria
Deskur, 87 anos, presidente emé-
rito do Pontifício Conselho para as
Comunicações Sociais. Naquela
data, o Sagrado Colégio resultava
composto por 193 membros dos
quais 114 eleitores.
SANTA SÉ/1
Bertello e Sciacca na cúpula
do Governatorato vaticano
No dia 3 de setembro, Bento XVI
aceitou a renúncia do cardeal Giovanni Lajolo, 76 anos, do cargo de
presidente da Pontifícia Comissão
urtas Curtas Curtas Curtas
NDO 3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUNDO
para o Estado da Cidade do Vaticano e presidente do Governatorato
do mesmo Estado, “solicitando
para que permaneça no cargo até
dia 1º de outubro de 2011, com
todas as faculdades inerentes a tais
ofícios”. Ao mesmo tempo o Papa
nomeou como sucessor de Lajolo
o arcebispo da região do Piemonte
Giuseppe Bertello, 69 anos, desde
2007 núncio Apostólico na Itália e
na República de San Marino, “o
qual assumirá os citados ofícios dia
1º de outubro próximo”. Ainda no
dia 3 de setembro Bento XVI nomeou como secretário do Governatorato, elevando-o à sede episcopal titular de Vittoriana, monsenhor Giuseppe Sciacca: nascido
em Catânia 56 anos atrás, consagrado sacerdote em 1978 pela
diocese de Acireale, desde 1999
Sciacca era prelado auditor do tribunal da Rota Romana.
SANTA SÉ/2
O’Brien pró-grão-mestre
da Ordem do Santo Sepulcro
No dia 29 de agosto o Papa aceitou as demissões do cardeal John
Patrick Foley, 76 anos, do cargo
de grão-mestre da Ordem Equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém e nomeou como pró-grãomestre monsenhor Edwin Frederick O’Brien, 72 anos, que desde
2007 era arcebispo de Baltimore.
Giuseppe Bertello
versa entrevista concedida à revista polonesa Politika e retomada,
na Itália, pelo Corriere della Sera
de 2 de setembro.
ORIENTE MÉDIO/2
Grossman, o messianismo
e o estreito caminho da paz
“‘A guerra não é o nosso destino’. Com um caloroso apelo, o
escritor israelense David Grossman continua a pensar que exis-
ta um estreito caminho para a
paz, mesmo agora que os ventos
de guerra voltaram a soprar forte. ‘Hoje parece-nos muito difícil
imaginá-lo porque significaria
aceitar compromissos dolorosos’. [...] ‘Obviamente’, continua, ‘sempre existirá o risco de
novos fanáticos de um lado como
de outro que farão de tudo para
acabar com a paz em nascimento’”. Este é o incipit de um artigo
publicado no La Repubblica de
21 de agosto que prossegue
apresentando uma outra reflexão do escritor israelense: “Se
formos bastante inteligentes, corajosos e afortunados para chegar à paz, o mundo ficará surpreso em ver como os israelenses e
os palestinos podem trabalhar
juntos e utilizar seus talentos para começar uma vida normal”.
Depois, falando sobre a situação
interna do seu país, o escritor
concluiu: “Há uma constante retroação da democracia. Um grupo de judeus messiânicos sequestrou o Estado inteiro. Uma pequena minoria impõe o nosso
sistema de valores, a nossa política, o nosso futuro. [...] Não tenho confiança na boa vontade
dos países árabes. Mas o exército
não pode ser o único meio para
permanecer aqui”.
¬
ORIENTE MÉDIO/1
Israel e o terror da paz
“Os políticos israelenses estão terrorizados pela paz. Tremem, com
o terror da possibilidade da paz.
Porque sem guerra e sem mobilização geral, não sabem como viver. Israel não vê como um mal absoluto os mísseis que caem sobre
os vilarejos ao longo da fronteira.
Ao contrário: os políticos ficariam
preocupados, até mesmo alarmados, se não caísse esse fogo”. Estas são as palavras de Zygmunt
Bauman, judeu polonês que sofreu
o horror do Shoah e do grande expurgo de Stálin, em uma contro-
Crianças palestinas em Gaza
30DIAS Nº 7/8 - 2011
49
Curtas Curtas Curtas Cu
3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUN
MUNDO
Construtores do inimigo islâmico
A Mesquita Azul,
visitada por Bento XVI
em 30 de novembro de 2006,
Istambul
Quarenta e dois milhões de dólares. É o valor que
sete fundações americanas teriam concedido nos
últimos dez anos para financiar a fábrica do medo
do islã, uma rede de atividades destinadas a desacreditar os muçulmanos e a gerar no público um
verdadeiro e próprio terror dos seguidores de Maomé. A acusação está presente em um relatório de
FINANÇAS/1
As finanças e a criminalidade
organizada não
querem vínculos
“Os Estados sempre se fundamentaram em duas bases: o poder (ou
seja, fazer as coisas) e a política (ou
seja, imaginá-las e organizá-las). A
globalização move-se sem política.
Precisa de rapidez. Odeia vínculos.
Mais ou menos como o banditismo. As regras são um obstáculo.
Por isso no mundo, os mercados
mais prósperos são os criminosos e
os financeiros. Não importa se sejam sujos ou limpos. Isso não nos
Uma sede da Lehman Brothers
50
30DIAS Nº 7/8 - 2011
138 páginas escrito para
o “Center for American
Progress”, por uma equipe de seis pesquisadores.
O relatório denuncia a
crescente islamofobia
americana, definida como
“o excesso de temor, o
ódio e a hostilidade contra
o islã e os muçulmanos,
perpetrados através de estereótipos negativos dos
quais nascem o preconceito, a descriminação, a
marginalização e a exclusão dos muçulmanos da
vida social, política e civil
americana”.
Exemplos clamorosos, as
campanhas contra as mesquitas e a Sharia, a lei islâmica. Segundo o relatório, as faces da “Fear
Inc.”, da “Medo Corporation” seriam cinco: os financiamentos, os especialistas islamófobos, as organizações de militantes em grande parte ligadas à
direita religiosa, a mídia e os políticos”. Notícia publicada no Corriere della Sera de 29 de agosto.
urtas Curtas Curtas Curtas
NDO 3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUNDO 3ODIAS NO MUNDO
faz refletir? Palavras de Zygmunt
Bauman, sociólogo e filósofo no
jornal La Stampa de 7 de agosto.
CULTURA
Totti não é apenas futebol
FINANÇAS/2
O New York Times
e as dúvidas sobre
as agências de rating
Logo depois do rebaixamento do
rating dos Estados Unidos por parte da agência Standard & Poor’s,
que teve consequências trágicas
para a economia mundial, Paul
Krugman, prêmio Nobel para a
economia e respeitável colunista
do The New York Times, escreveu: “O enorme déficit de balanço
dos Estados Unidos é antes de mais
nada o produto da recessão econômica que seguiu à crise financeira
de 2008. Com as suas parceiras –
as outras agências de rating – S&P
Polêmicas de verão sobre
Francesco Totti. Em um artigo publicado no Corriere della Sera, Giovanni Bianconi
escreveu, explicando porque
o capitão do Roma não é apenas um jogador, mas também
um símbolo do Roma e de Roma, “um pouco Pasquino, um
pouco Marquês del Grillo. E
um pouco como Catão, o
Censor interpretado por Vittorio Gassman, que adverte
Marcello Mastroianni no papel de Cipião Africano: “Esta
não é a República de Platão,
mas a lamacenta cidade de
Rômulo. É preciso que te
acalmes um pouco”. O artigo
foi publicado em 4 de setembro com o título: De Catão a
Pasquino. Porque Totti não
é apenas futebol.
desmentia ter cometido qualquer
erro. Portanto são essas as pessoas
que agora se pronunciam em mérito de confiabilidade creditícia dos
Estados Unidos da América?”. O
artigo foi republicado no La Repubblica de 9 de agosto.
ESTADOS UNIDOS
Warren Buffet
Quando o Estado tutela
os mais fortes
teve um papel determinante na ativação desta crise, estabelecendo
um rating AAA para asset garantidos por financiamentos hipotecários que se revelaram em seguida
um lixo tóxico. Mas as suas avaliações erradas não se limitam a isso.
Sabe-se que S&P deu um rating A
para Lehman Brothers – cuja falência causou pânico em nível global –
até o próprio mês da sua quebra. E
como reagiu a agência de rating
quando faliu esta sociedade à qual
tinha dado um rating A? Fazendo
uma declaração oficial com a qual
“Enquanto a maior parte dos americanos têm dificuldade de chegar ao
fim do mês com seu salário, nós super-ricos continuamos a gozar de
facilidades fiscais extraordinárias.
[...] Essas e outras vantagens nos
caem do céu, graças aos legisladores de Washington, que se sentem
obrigados a proteger-nos, quase como se fôssemos corujas malhadas
ou outras espécies em via de extinção”. É um trecho do discurso do
magnata americano Warren Buffet
no The New York Times, republicado no La Repubblica de 17 de
Francesco Totti
agosto, que provocou vários debates nos Estados Unidos e no mundo.
DIPLOMACIA/1
Relações diplomáticas
entre a Santa Sé e a Malásia
No dia 27 de julho foi anunciada
oficialmente a decisão da Santa Sé
e da Malásia de estabelecer plenas
relações diplomáticas.
DIPLOMACIA/2
Novos núncios
em Cuba e no Japão
No dia 6 de agosto o arcebispo italiano da região da Apúlia, Bruno
Musarò, 63 anos, foi nomeado
núncio em Cuba; desde 2009 era
representante no Peru. Em 15 de
agosto o arcebispo indiano Joseph Chennoth, 68 anos, foi nomeado núncio no Japão; desde
2005 era representante pontifício
na Tanzânia.
q
30DIAS Nº 7/8 - 2011
51
Igreja
SÃO CARLOS BORROMEU
A casa construída
sobre a rocha
“Tudo o que São Carlos fez e realizou,
o edificou sobre a rocha indestrutível que é
Cristo, na plena coerência e fidelidade ao
Evangelho, no amor incondicionado pela Igreja
do Senhor”. O discurso do arcebispo emérito
de Milão no Meeting de Rímini
O cardeal
Dionigi Tettamanzi
Cardeal Dionigi Tettamanzi
Tudo é graça:
o olhar dirigido a São Carlos
Sim, “tudo é graça”. Também esse
nosso encontro. Sinto sobre mim a
mão da providência de Deus. É esta providência que fez com que
meu último ano como guia pastoral da diocese de Milão coincidisse
com o IV centenário da canonização de São Carlos Borromeu,
ocorrida em 1º de novembro de
1610 com o papa Paulo V. Sinto
que devo agradecer ao Senhor
porque este foi um ano muito intenso, rico de iniciativas de grande
significado espiritual, pastoral e
cultural para a Igreja ambrosiana.
Permito-me assinalar apenas
alguns fatos, recordando antes de
tudo o início deste centenário que
teve como importante evento a
carta apostólica de Bento XVI Lumen caritatis, de 1º de novembro
de 2010, no mesmo dia do aniversário da canonização, evento importante e para mim particularmente feliz pela possibilidade de
ler e apresentar a carta do Papa
52
30DIAS Nº 7/8 - 2011
Acima, São Carlos visita e cuida dos pestilentos, Giovanni Battista Crespi,
chamado o Cerano, Catedral de Milão. No hino da liturgia em honra de São Carlos,
Urbis parentem Carolum, fala-se da caridade materna do bispo ao se dedicar aos
doentes de peste: «Dum saevit annus letifer, ut mater aegris assidet / Enquanto infúria
o ano da peste, como uma mãe cuida dos doentes»
aos fiéis ambrosianos na solenidade de São Carlos, dia 4 de novembro do ano passado. Na, carta o
Santo Padre delineia em síntese alguns aspectos fundamentais da
santidade de Borromeu.
Gostaria de recordá-los.
O primeiro aspecto recorda a
sua obra como bispo reformador.
São Carlos, colocando em ação
com sabedoria e originalidade os
decretos do Concílio de Trento, reformou a Igreja que ele amava profundamente; aliás, justamente porque a amava com um amor sincero,
quis renová-la, contribuindo para
dar-lhe novamente o seu rosto mais
belo, o da Esposa de Cristo, uma
esposa sem manchas e sem rugas.
Um segundo aspecto da santidade de Carlos Borromeu: foi um
homem de oração, de oração
convicta, intensa, prolongada, reforçada e florescente na sua vida
de pastor. Se São Carlos foi apaixonado pela Igreja, o foi porque
antes ainda fora apaixonado pelo
Senhor Jesus, presente e operante na Igreja, na sua tradição doutrinal e espiritual, presente na Eucaristia, na Palavra de Deus. Principalmente foi apaixonado por Cristo crucificado, como nos documenta a iconografia que, não por
acaso, é-nos transmitida com a
imagem deste santo em contemplação e em adoração da Paixão e
da Cruz do Senhor.
¬
São Carlos salvo milagrosamente do atentado, Giovanni Battista della Rovere,
chamado o Fiammenghino, Catedral de Milão
30DIAS Nº 7/8 - 2011
53
Igreja
Enfim, Carlos Borromeu foi
santo – recorda-nos o Papa – porque soube encarnar a figura do pastor zelante e generoso, e pelo o rebanho que lhe fora confiado aos
seus cuidados estava pronto a sacrificar toda a própria vida: São Carlos foi realmente “onipresente” na
diocese de Milão, com suas visitas
pastorais, foi preocupado de maneira profética e incisiva com os
problemas do seu tempo; principalmente, como os grandes bispos
da Idade Média, foi autenticamente
pater pauperum, pai dos mais pobres e dos mais fracos: é suficiente
pensar no que soube realizar também do ponto de vista caritativo e
assistencial durante os dramáticos
momentos de carestias e da peste
de 1576. A carta do Papa intitulase justamente Lumen caritatis,
porque refere-se de modo explícito
à caridade pastoral que diariamente e de maneira heroica São Carlos
soube viver e praticar.
Na verdade, assim como Cristo deu sua vida pela nossa salvação, São Carlos literalmente “dissolveu” a própria vida na caridade pastoral. Desde o momento
em que se tornou bispo de Milão,
de modo programático e sistemático ele antepôs a causa do Evangelho e o bem da Igreja a tudo: às
próprias comodidades, aos interesses particulares e pessoais, aos
interesses da família ou do círculo
de amizades, ao próprio tempo livre, a tal ponto que não tinha
mais tempo para si mesmo, visto
que todo o tempo à disposição de
um bispo – dizia o próprio São
Carlos – deve ser usado para a salvação das almas.
O centenário de Milão a Rímini
Para mim é uma grande alegria
que o centenário de São Carlos,
iniciado com a palavra do Papa,
em um certo sentido se conclua
aqui em Rímini, com este evento
que se apresenta com sua dupla
face; cultural e espiritual.
Sem qualquer dúvida há o aspecto cultural: com efeito, hoje é
inaugurada uma mostra didática
sobre a vida e a obra pastoral de
Carlos Borromeu; há painéis, legendas, materiais de multimídia;
há um catálogo com contribuições
científicas. Tudo isso é importan54
30DIAS Nº 7/8 - 2011
O milagre de Carlino Nava, Giulio Cesare Procaccini, Catedral de Milão
te, porque permite que se conheça sempre melhor, além das muitas simplificações e outras leituras
parciais ou até mesmo ideologicamente preconceituosas, a verdadeira face deste grande bispo, autêntico intérprete da reforma tridentina da Igreja.
Pessoalmente, faço questão de
evidenciar principalmente o aspecto espiritual da iniciativa, como claramente emerge no título
escolhido pelos organizadores para esta mostra: “A casa construída sobre a rocha”. A referência é à
célebre página que conclui o Discurso da Montanha, com a parábola dos dois homens que constroem a sua casa, o primeiro sobre
a areia, e o outro sobre a rocha. O
resultado é obviamente previsível:
a casa do primeiro, diante das primeiras adversidades da vida e às
tempestades da história, desaba
inexoravelmente; a casa do segundo, apesar das dificuldades da vida
e dos transtornos da história fica
em pé e resiste. E a rocha sobre a
qual a casa foi construída é Cristo
Senhor, é o seu Evangelho de verdade e de vida (cf. Mt 7, 24-27).
Na verdade essa parábola pode
ser referida de modo particular a
São Carlos e à sua obra: tudo o que
ele fez e realizou, o edificou sobre a
rocha indestrutível que é Cristo, na
plena coerência e fidelidade ao
Evangelho, no amor incondiciona-
SÃO CARLOS BORROMEU. A casa construída sobre a rocha
sando os aspectos salientes
da santidade de Carlos Borromeu, se ele ainda hoje é
realmente um santo
“atual”: ou seja, se tem alguma coisa de grande significado para dizer ao nosso
presente, se ainda hoje é
para nós – como foi quatrocentos anos atrás – um modelo de vida evangélica não
apenas para admirar, mas
também de várias maneiras
para imitar.
Talvez seja uma pergunta meio desnecessária, à
qual podemos sem dúvida
responder positivamente:
sim! Ainda hoje São Carlos
fala a nós, ainda hoje para
nós é um válido modelo de
santidade. E a carta do Papa da qual nos inspiramos,
a própria mostra organizada aqui em Rímini, as iniciativas de vários tipos que
constelaram este ano “carolino”, provam isso de maneira irrevogável.
Certamente não podemos correr o risco de cair
em algum anacronismo,
porque devemos reconhecer abertamente que muitas
coisas na Igreja e no mundo
de hoje mudaram com relação à situação da Igreja e da
sociedade do final do séc.
XVI. Devemos também reconhecer que alguns aspecdo pela Igreja do Senhor. Por isso
o que São Carlos edificou resistiu
às tempestades dos seus tempos;
resistiu também às intempéries dos
séculos que passam, como testemunha o fato de que hoje muitas das suas intuições, muitas
das soluções pastorais e institucionais propostas por ele ou
prefiguradas conservam uma
sua permanente validade, uma
sua incisiva atualidade, não
apenas para a diocese de Milão,
para também para toda a Igreja latina ocidental.
Um santo atual ou inatual?
Não falo por acaso de “atualidade”, porque devo confessar a vocês que muitas vezes, durante este
centenário, perguntei-me, repas-
O anel episcopal de São Carlos,
Museu da Catedral de Milão
tos da ação pastoral de São Carlos
– assim como alguns aspectos do
seu estilo de vida (pensemos principalmente à sua rigorosíssima ascese penitencial) – não são material e automaticamente reproponíveis hoje sem necessárias e adequadas mediações.
Mas, apesar desta óbvia constatação, que por outro lado vale sempre quando nos referimos aos personagens do passado, há alguns
pontos salientes da santidade de
Carlos Borromeu que, no seu significado mais profundo e evangélico, realmente têm um valor perene. E portanto um valor também
para a nossa vida de cristãos do
terceiro milênio, na medida em
que também nós, hoje como ele
quatrocentos anos atrás, queremos “construir a nossa casa sobre
a rocha”, como “homens sábios”.
E ainda assim, deste ponto de
vista, a figura de São Carlos é
muito provocatória, porque coloca em crise muitos aspectos do
modo de pensar e de viver do mundo atual. É por isso que durante o
centenário, reunindo algumas experiências e recordações pessoais
do meu aproximar-me e do entrar
em relação com a figura de Borromeu, decidi escrever também um
livro com um título sugestivo e estimulante: São Carlos, um reformador inatual.
Gostaria de deter-me um pouco nesse adjetivo. “Inatual”, com
efeito, contrapõe-se imediatamente a “atual”. Porém, são dois
termos que só aparentemente se
contrapõem, porque um pode facilmente traspassar no outro. Assim, se por exemplo por “atual”
entende-se “segundo a moda do
momento”, “segundo a mentalidade do tempo presente”, “segundo a opinião partilhada pela
maioria”, é claro que São Carlos é
“inatual”. Já dissemos isso e queremos sublinhar para uma melhor
compreensão da atualidade-inatualidade: os tempos de Borromeu não são os nossos; o seu
modo de ler os problemas e
de resolvê-los não é o nosso, nem mecanicamente
podemos tomar algumas
das suas soluções e aplicálas ao nosso mundo, “atual”
precisamente.
¬
30DIAS Nº 7/8 - 2011
55
Igreja
E vice-versa: se por “inatual”
entende-se aquilo que se enraíza
nos valores fundamentais da tradição cristã, se por “inatual” entende-se ficar ancorados àquela rocha
que é Jesus Cristo e que dá verdadeira firmeza à toda a construção
da casa, se tudo isso é julgado inatual apenas porque não se adapta
àquilo que hoje é considerado “politicamente correto”, devemos então perguntar-nos se a inatualidade de São Carlos não se transforma em uma singular e urgente
“atualidade” de reconsideração,
de reavaliação das nossas medidas
de juízo, de reforma do nosso modo de viver e de conviver.
A inatualidade profética
e benéfica para o nosso tempo
Nessa linha, tomando-os da biografia de São Carlos, apresento três
exemplos, procurando aplicar-lhes
aos nossos tempos “atuais”.
O primeiro refere-se à fidelidade ao dever do próprio estado de
vida como forma própria da identidade do cristão. Borromeu teve a
consciência muito viva do que poderia significar ser bispo de uma importante diocese em tempos difíceis
de transição, de reforma e de
mudança: e justamente
por isso procurou sempre adequar as suas
escolhas e as suas
ações a uma verdadeira “deontologia”, à qual permaneceu fiel de maneira heroica e
diante da qual soube
sacrificar todo o resto.
São Carlos solicitava
este sentido de dever também aos seus padres, pelos ofícios que estes deveriam cumprir;
e o solicitava aos fiéis leigos,
homens e mulheres, segundo
a sua condição. Era o primeiro
que não aceitava os meios-termos e os acomodamentos,
com um fácil rebaixamento
em nome de uma pálida mediocridade.
Os historiadores nos recordam que quando era jovem
O báculo de São Carlos,
Museu da Catedral de Milão
56
30DIAS Nº 7/8 - 2011
cardeal em Roma, antes da sua
chamada “conversão”, tinha vivido um “cristianismo sem infâmias
e sem louvores”. Este é justamente o risco que todos nós cristãos
corremos, os próprios padres e
bispos: contentar-se de uma vida
cristã insípida, na qual evita-se
justamente o mal “macroscópico”
(que poderia causar-nos infâmias), mas que se reduz ao mínimo indispensável para colocar em
ordem a própria consciência, sem
muitos abalos.
Hoje, quando todos nós sentimo-nos já prontos e não queremos
saber de muitos desassossegos, falar de “conversão” poderia, justamente, parecer “inatual”, ou pelo
menos inoportuno. Ao contrário o
exemplo de São Carlos é atualíssimo e particularmente urgente,
porque sempre na Igreja os cristãos, todos os cristãos, de todos os
níveis, são chamados a “converterem-se” de um cristianismo “sem
infâmia e sem louvores”, de um
cristianismo incolor e insípido (ou
seja, sem a luz e o sal do Evangelho), a uma vida cristã convicta, lúcida e vigilante, no exercício fiel do
próprio dever sempre e em todos
os lugares, à busca de um caminho de perfeição que nos
conforma sempre mais
ao modelo de toda a
perfeição: Cristo Jesus, nosso Senhor.
É exatamente o
que São Carlos fez
de modo programático e sistemático: o seu exemplo
não nos permite desculpas ou diversivos. Ele é
realmente sempre atual,
porque chama os cristãos
de todos os tempos, chama também a nós cristãos do terceiro milênio
à perene e irrenunciável necessidade de nos
colocarmos em discussão. Particularmente
devo dizer que da leitura
dos escritos de São Carlos e das suas indicações pastorais tive bem
clara a impressão de que
ele vivesse com uma grande inquietude a distância –
que por outro lado sempre
existe – entre a meta altíssima à
qual o Senhor nos chama (a santidade) e a nossa concreta resposta.
Se São Carlos sentia-se em falta –
e disso nascia a sua inquietude, o
seu não sentir-se com a consciência tranquila –, o que nós podemos
dizer ou fazer? Então surge uma
pergunta à qual não podemos nos
subtrair: onde, em quais âmbitos
da nossa vida, do nosso dever de
estado, devemos ainda “converternos”, imitando São Carlos, para
sair de uma vida cristã medíocre,
“sem infâmia e sem louvores”?
Carlos Borromeu é atual também por um outro aspecto: a formidável capacidade de saber
conjugar de modo equilibrado a
ação e a contemplação. Todos conhecemos as muitas imagens de
São Carlos absorvido na oração,
principalmente diante do Crucifixo, imerso em verdadeiras e próprias experiências místicas. Mas a
forte dimensão contemplativa que
ele sempre soube incutir à própria
vida jamais afastou-o do próprio
dever de pastor de almas. Ao contrário, podemos afirmar que ele
tornou-se um dos grandes modelos de bispo e de pastor justamente
porque a sua atividade pastoral era
profundamente permeada de oração e de contemplação. São Carlos “fez” muito na sua vida, foram
inúmeras as obras que levou a termo; aliás perguntamo-nos maravilhados como fazia para encontrar
tempo e forças para fazer tudo o
que fez. Vem-nos espontâneo dizer que tudo o que fez tem algo milagroso: é isso mesmo! Realmente
há algo milagroso porque tudo era
pleno de oração, de conversa com
Deus, permeado de contemplação
amorosa dos mistérios da salvação
de Cristo, começando pela Sua
paixão, morte e ressurreição. Essa
é a mensagem sempre atual que
nos vem de São Carlos: a comunhão com Deus, a oração, a contemplação não nos arrancam da
história, mas nela nos imergem em
profundidade, dando-nos a força
de fazer também milagres no mundo e para o mundo. No entanto o
nosso é um tempo adoecido pelo
ativismo, frenético em fazer, comprometido em produzir bens e serviços se não se quer desperdiçá-lo.
Desse modo o nosso tempo acaba
O milagre de Virginio Casati, anônimo lombardo, Catedral de Milão
por avaliar a pessoa não pelo que é
mas pelo que produz. Em semelhante contexto, não se deve talvez
falar de contemplação, de meditação, de oração e de silêncio, como
o que de mais “inatual” o nosso
tempo poderia experimentar? Porém a verdade é exatamente o contrário. São Carlos apela para que
não nos deixemos enganar por es-
sa espécie de droga, mas para que
reportemos ordem na nossa vida,
recuperando o primado de Deus
sobre tudo, na certeza de que o resto virá como consequência. É a
mesma advertência do Senhor:
“Buscai em primeiro lugar o Reino
de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por
acréscimo” (Mt 6, 33).
E se há um aspecto de atividade
pastoral de São Carlos que mais do
que outro impressionou os seus
contemporâneos a ponto de que
justamente por isso começaram a
considerá-lo excepcional, foi a sua
atividade caritativa. Principalmente durante a terrível peste de 1576
ele privou-se literalmente de tudo,
dos bens de família, dos bens pes- ¬
30DIAS Nº 7/8 - 2011
57
Igreja
soais, não apenas das coisas supérfluas, mas mesmo das coisas indispensáveis desde que pudesse ajudar
o povo de Milão atingido pela epidemia. E não se prodigou apenas
nos momentos de emergência, fez
com que algumas instituições caritativas se mantivessem além do da
emergência da peste, consciente de
que a pobreza, a necessidade, a
marginalização, a degradação social e moral são uma emergência de
sempre, de todos os momentos. De
fato, em todos os momentos São
Carlos brilhou como paterno socorredor dos pobres, de cada pobre, de
qualquer um que estendesse a mão
para pedir-lhe ajuda. E foi também
– para usar uma terminologia da
nossa cultura atual – um “santo social”: soube ler à luz do Evangelho
os problemas sociais do seu tempo,
indicou algumas soluções concretas, não teve nenhum medo de denunciar as pragas da sociedade, como a corrupção pública, a prática
da usura, os privilégios de algumas
castas, a falta do que hoje chamaríamos “consciência cívica” ou “atenção ao bem comum”.
Mas há ainda um outro aspecto
da santidade de Borromeu que me-
O cálice de São Carlos,
Museu da Catedral de Milão
58
30DIAS Nº 7/8 - 2011
São Carlos se prepara à morte
no Sacro Monte de Varallo, detalhe,
Giovanni Battista della Rovere, chamado
o Fiammenghino, Catedral de Milão
rece ser evidenciado: é a dimensão ascética da sua vida. Neste
ponto ele foi muito rigoroso, a
ponto de causar fortes críticas e
mal-entendidos entre os que viviam ao seu lado. Foi pobre, casto,
humilde, penitente, praticava com
grande seriedade o jejum, prolongava a oração nas horas noturnas
para não diminuir o tempo diurno
dos compromissos pastorais, reduzia seu repouso ao mínimo, aliás tinha a tendência de não repousar
por nada. Sabemos que os médicos sempre o repreendiam por
não cuidar-se suficientemente, e
ele, como resposta, dizia que, se alguém obedece aos médicos, não
pode ser um bom bispo! A morte
chegou quando tinha apenas 46
anos, selou uma vida que se tinha
consumido literalmente nas práticas ascéticas. Esse é um aspecto
que nos deixa maravilhados, como
ficaram seus contemporâneos que
justamente perguntavam-se se
São Carlos fosse imitável nestas
virtudes devido a seu caráter de heroicidade. E hoje também nós nos
perguntamos, porém sem cair na
insídia de julgar excessivo o exercício das virtudes ascéticas assim como as viveu São Carlos, ou seja,
julgá-lo “inatual” segundo os parâmetros da nossa sensibilidade
atual. Semelhante juízo não poderia ser um modo tranquilizante de
autoeximir-se da tarefa de imitálo? É-nos solicitando, antes de
mais nada, a honestidade de descobrir nisso um aspecto de grande
atualidade: com efeito, falar hoje
de “ascese”, de “penitência”, de
“renúncia”, expõe-nos ao risco de
sermos zombados e julgados pessoas fora do tempo e do mundo,
justamente pertencentes a um
mundo de muitos séculos atrás. E
no entanto, exatamente nós temos
necessidade de uma chamada intensa para purificar o nosso estilo
de vida e torná-lo mais sóbrio, a redescobrir o autocontrole e o domínio dos sentidos, dos instintos e
das paixões incontroladas: como
caminho de uma liberdade interior
que nos torna donos de nós mesmos e do nosso autêntico caminho
para o verdadeiro, o bem, o justo e
o belo.
O anel, o báculo, o cálice
Concluo voltando a falar da mostra
que hoje é inaugurada, chamando
a atenção a uma parte original. No
centro da mostra estão expostas
SÃO CARLOS BORROMEU. A casa construída sobre a rocha
não três obras de arte, mas três autênticas relíquias, que de algum
modo revelam a personalidade de
São Carlos, são uma epifania do
seu coração, uma manifestação do
seu segredo espiritual.
Antes de tudo encontramos o
anel de Borromeu. E o anel de um
bispo fala-nos simbolicamente da
sua ligação esponsal com a Igreja
que lhe foi confiada. Portanto é o
sinal do amor pastoral, da fidelidade ao ministério, da própria dedicação total.
Depois encontramos o bastão
pastoral: é o símbolo da autoridade e do governo do bispo. Mas,
como sabemos, está em questão
uma autoridade que não poderá
jamais ser atuada como puro
exercício de poder. A imitação de
Cristo – o Bom Pastor por antonomásia – o exercício do governo
pastoral coincide com a oferta da
própria vida até a plena consumação de si. Assim fez Cristo, assim
fizeram os santos pastores, como
Carlos Borromeu.
Enfim pode-se ver o seu cálice,
o que foi usado por ele para celebrar o sacrifício eucarístico. Este
coloca-se como testemunho da vida de oração que o bispo deve ter;
como chamada que, em última
análise, é o sacrifício de Cristo sobre a cruz, são a sua palavra e os
seus sacramentos – nos quais é
presente e eficaz a sua ação de salvação – a edificar a Igreja, a iluminá-la, animá-la e guiá-la.
Como eu dizia no início, com o
IV centenário da canonização de
São Carlos cheguei à conclusão
do meu mandato pastoral na Igreja de Milão. Pois bem, devo confessar que estes três “símbolos”
expostos (o anel, o báculo e o cálice de São Carlos) acendem em
mim uma profunda alegria espiritual, ao pensamento de que como
os recebi dos meus predecessores
logo também eu os transmitirei ao
meu sucessor.
É o belíssimo mistério da “traditio”, da tradição viva da Igreja, que
– como nos ensinou São Carlos – é
verdadeiramente “a casa construída sobre a rocha”! Sim, “caiu a
chuva, vieram as enchentes, os
ventos deram contra a casa, mas a
casa não desabou, porque estava
construída sobre a rocha” (Mt 7,
25). Isso vale para a Igreja que nos
antecedeu no tempo, para a Igreja
que estamos vivendo agora, para a
Igreja que se abre ao futuro: uma
Igreja sempre cheia da graça e do
amor do seu Esposo e Senhor. É
então que sem nenhum medo, mas
com a inalterável e sobrepujante
confiança que nos vem de Cristo,
que todos juntos somos chamados
a prosseguir o nosso caminho para
a santidade, ouvindo a sua palavra
e tornando-a experiência cotidiana de vida: “Portanto, quem ouve
estas minhas palavras e as põe em
prática é como um homem sensato, que construiu sua casa sobre a
rocha” (Mt 7, 24).
Que São Carlos possa nos ajudar!
q
30DIAS Nº 7/8 - 2011
59
Augusto Del Noce
A modernidade
não é o “inimigo”
Il Mulino, editora laica de Bolonha, consagrou o filósofo católico
Augusto Del Noce como autor nacional italiano, mostrando a fecundidade
de seu ponto de vista. Uma demonstração de abertura crítica para o moderno,
que antecipava o Concílio Vaticano II.
Entrevista com Massimo Borghesi, professor titular de Filosofia Moral
por Gianni Valente
hegou há pouco às livrarias
italianas o ensaio de Massimo Bor ghesi, Augusto
Del Noce. La legittimazione critica del moderno [Augusto Del
Noce. A legitimação crítica da modernidade] (Marietti 1820). São
370 páginas que documentam
densamente a aventura intelectual
do grande filósofo católico.
Massimo Borghesi é professor
titular de Filosofia Moral na Universidade de Perúgia.
C
Professor, mais de vinte
anos após a morte de Augusto
Del Noce (1910-1989) continuam a ser escritos livros sobre ele, um dos maiores intelectuais italianos do século
XX. Qual é a novidade deste
último livro, que acaba de sair
pela Marietti?
MASSIMO BORGHESI: Há
essencialmente duas novidades.
Do ponto de vista historiográfico,
é a primeira vez que alguém tenta
reconstruir organicamente o desenvolvimento do pensamento de
Del Noce, no intervalo de tempo
que vai de 1943 a 1978, numa
profunda conexão entre o momento filosófico e o histórico-político. Normalmente, a abordagem
que faziam desse autor privilegiava
o tratamento de blocos temáticos
distintos, sem que ficasse clara a
relação entre eles. A segunda novidade é de cunho interpretativo.
A finalidade desse livro, como o
60
30DIAS Nº 7/8 - 2011
Para Maritain, nisso seguido por Del Noce, a modernidade,
que vem depois das guerras de religião e da divisão da Igreja,
já não pode pressupor a fé como “a priori”, como paradigma comum já
prefixado e pacificamente acolhido. O moderno é o tempo
em que a verdade pode e deve ser buscada e proposta na liberdade
subtítulo deixa bem claro, é evidenciar “a legitimação crítica do
moderno” realizada por Del Noce.
Trata-se de uma leitura que de fato
liberta o filósofo do estereótipo de
pensador, certamente genial, mas
voltado para o passado, crítico
conservador do tempo presente.
Uma etiqueta que pesou por muito
tempo sobre Del Noce, e que foi
acolhida acriticamente também
por muitos católicos.
De que modo a sua revisão
atinge esse objetivo?
Em primeiro lugar, esclarecendo qual é o ponto genético da reflexão delnociana. Para Del Noce,
o verdadeiro ponto de início, em
sentido especulativo, é 1943, o
ano da queda do regime fascista,
um evento que o provoca a pensar sobre o tempo histórico. É
aqui que a obra de Jacques Maritain, o grande filósofo católico
francês, se revela decisiva. Del
Noce, como ele mesmo lembrava
na entrevista que deu a 30Giorni
em abril de 1984, leu o Humanisme intégral de Maritain assim
que saiu na França, em 1936. Es-
se foi o ano da guerra italiana contra a Etiópia, um evento que marcaria o período de maior consenso em torno do regime fascista, e
que provocaria em Del Noce, ao
contrário, um sentimento de repulsa e de oposição moral a Mussolini e ao fascismo, considerado
como mero reino da força, de
uma força brutal sem justiça. É
preciso que se diga que essa oposição tinha um ponto de referência importante em Aldo Capitini –
o futuro organizador das marchas
pela paz Perúgia-Assis, que Del
Noce conheceu em 1935, justamente em Assis. Lido nesse contexto, o livro de Maritain esclareceu a Del Noce a inconciliabilidade ideal entre catolicismo e totalitarismo. Isso, de fato, libertava os
católicos da utopia “medievalista”, antimoderna, que impelia
muitos deles a uma adesão ao fascismo, entendido, erroneamente,
como uma força conservadora,
uma espécie de precioso aliado na
luta contra a modernidade.
Mas o encontro com Maritain serviu para Del Noce ape-
Massimo Borghesi. Augusto Del Noce.
La legittimazione critica del moderno.
Genova - Milano: Marietti 1820, 2011,
368 pp.
nas como antídoto para o clericofascismo?
Maritain foi quem, entre 1943 e
1945, libertou Del Noce do “complexo” de Benedetto Croce, segundo o qual os católicos, enquanto católicos, não podiam, em razão de sua fé (integralista e autoritária), ser liberais e antifascistas como os leigos. Maritain demonstrava, ao contrário, que só a perspectiva religiosa podia preservar a liberdade e os direitos da pessoa.
Para isso precisava, porém, distinguir entre cristianismo e cristandade, entre a fé e suas realizações históricas, sempre contingentes. Nisso se incluía também a cristanda- ¬
Paulo VI e Jacques Maritain durante
a cerimônia de encerramento
do Concílio Ecumênico Vaticano II,
em 8 de dezembro de 1965
30DIAS Nº 7/8 - 2011
61
Augusto Del Noce
Para dar fôlego ao projeto político do estadista,
era preciso sair do integrismo reacionário e de seu
oposto especular, o modernismo, um e outro herdeiros
da filosofia da história do século XIX, marcada, para
os católicos, pelo medievalismo e pela oposição
ao moderno. Só assim a Democracia Cristã podia
conciliar democracia e cristianismo
de medieval, assumida como modelo por aqueles cristãos que olhavam com desconfiança para todo o
mundo moderno e contrapunham
verdade e liberdade, acabando por
desposar qualquer possível autoritarismo clerical. Para Maritain, nisso seguido por Del Noce, a modernidade, que vem depois das guerras de religião e da divisão da Igreja, já não pode pressupor a fé como “a priori”, como paradigma
comum já prefixado e pacificamente acolhido. O moderno é o
tempo em que a verdade pode e
deve ser buscada e proposta na liberdade. Essa convicção é o ponto
fundamental que está na origem da
“legitimação crítica do moderno”
de Del Noce. Nos escritos de
1943-1946 há afirmações que antecipam, com grande lucidez, as
conclusões do Concílio Vaticano II
sobre a liberdade religiosa. O ponto mais significativo é que Del Noce põe suas afirmações num horizonte que retoma Santo Agostinho: se a fé é, segundo a doutrina
cristã, obra da graça, então não
pode ser imposta de forma coercitiva. A prioridade da graça leva ao
reconhecimento do momento insubstituível da liberdade, até em
sentido político. Daqui vem também a superioridade da democracia, concebida, com Capitini, como lugar do “convencimento” e da
não violência.
Como se articula o projeto
de Del Noce para estabelecer
um encontro positivo entre o
catolicismo e liberdades modernas?
Esse projeto se desenvolve em
dois planos: um político e um filosófico. No plano político, nós o vemos empenhado ao longo de toda
62
30DIAS Nº 7/8 - 2011
a década de 1950 na tarefa
de revestir teoricamente o
projeto de Democracia Cristã
formulado por Alcide De Gasperi, a sua concepção do quadro democrático girando em torno da aliança entre católicos, leigos e socialistas democráticos.
Del Noce tem a secreta ambição
de ser o “filósofo de De Gasperi”.
Para dar fôlego ao projeto político
do estadista, era preciso sair do integrismo reacionário e de seu
oposto especular, o modernismo,
um e outro herdeiros da filosofia da
história do século XIX, marcada,
para os católicos, pelo medievalismo e pela oposição ao moderno.
Só assim a Democracia Cristã podia conciliar democracia e cristianismo. Para tanto, e esta é a segunda linha de investigação da intensa reflexão delnociana, era preciso desconstruir todo o quadro do
pensamento moder no: aquele
quadro codificado por Hegel e pelo
idealismo, aceito pelo marxismo e
compartilhado, ainda que em forma de oposição, pela neoescolástica tomista. Para esse pensamento,
o moderno é o tempo da secularização (ou do ateísmo), em que a
emancipação e a liberdade do homem caminham pari passu com o
seu distanciamento de Deus e da
fé. Entre 1954 e 1958, Del Noce
subverte essa perspectiva.
De que modo?
Reconhecendo que a modernidade não é una, é “dupla”. Não
parte de Descartes apenas o filão
do racionalismo que culmina em
Hegel e Marx. De Descartes parte
também um filão agostiniano,
cristão-moderno, que passa por
Pascal, Malebranche, Vico, e culmina em Antonio Rosmini, o pen-
Augusto Del Noce
Acima, as capas das primeiras edições
de duas obras de Augusto Del Noce
publicadas por Il Mulino: Il problema
dell’ateismo, de 1964,
e Riforma cattolica e filosofia moderna,
volume I: Cartesio, de 1965
sador em que catolicismo e liberdade encontram sua síntese. Era
o filão personalista do moderno,
que liga a liberdade do homem à
existência de Deus, contraposto
ao espinoziano-hegeliano, em
que panteísmo e ateísmo culmi-
nam no totalitarismo político.
Tratava-se de uma verdadeira descoberta, graças à qual a posição
reacionária era definitivamente
superada e o encontro entre cristianismo e democracia liberal e
personalista podia, enfim, obter
legitimação.
Em seu livro, todo um capítulo é dedicado à relação entre Del Noce e a editora Il Mulino. Trata-se, certamente, de
um capítulo original.
Del Noce colaborou assiduamente com a editora de 1957 a
1965. Ali, publicou, além de muitos ensaios na revista Il Mulino,
duas de suas obras mais importantes: Il problema dell’ateismo,
em 1964, e Riforma cattolica e
filosofia moderna, volume I:
Cartesio, em 1965. Il Mulino tinha nascido na esteira do diálogo
e do confronto de posições entre
católicos, leigos e socialistas. Del
Noce entrou em sintonia particularmente com Nicola Matteucci e
Luigi Pedrazzi. Os pontos de contato eram a valorização do quadripartido de De Gasperi, a superação das tendências integristas,
presentes tanto entre os católicos
quanto entre os leigos, e também
a passagem do antifascismo ideológico – promovido pelo Partido
Comunista – para o pós-fascismo.
A época de Il Mulino é extremamente fecunda. Não só a editora
consagra Del Noce como um autor nacional, mas ele tem a oportunidade de pôr à prova a fecundidade do seu ponto de vista, segundo o qual o catolicismo é original só quando não é subalterno,
ou seja, quando não parte da contraposição a um adversário na definição de si mesmo. Por isso, tanto a posição reacionária quanto a
modernista fracassam. Como ele
mesmo escreveria em 1968: “A
oposição à sociedade do bem-estar não pode ser feita do ponto de
vista reacionário, e isso simplesmente porque a oposição entre
progressivo e reacionário é interna a sua linguagem”.
O que significa isso, especificamente, na relação entre
cristianismo e modernidade?
Significa, para Del Noce, que
não é possível valorizar a tradição,
quer a filosófica, quer a religiosa,
permanecendo numa perspectiva
reacionária. E a valorização da tradição, de suas “virtualidades”, como as chama Del Noce seguindo
Newman, permite encontrar as
exigências mais autênticas do moderno. É nesse sentido preciso
que a sua perspectiva coincidia
com a do Vaticano II.
Um aspecto interessante e
inédito levantado pela sua pesquisa é que na década de 1960
Del Noce reatou relações com
Franco Rodano, o autor com
quem tinha compartilhado a
experiência católico-comunis-
Franco Rodano
ta durante a fase de “resistência”, entre o outono de 1943 e
a primavera de 1944.
É verdade. Sempre salientam,
e com justiça, a crítica de Del Noce a Rodano contida em Il cattolico comunista, publicado em
1981. Mas se esquecem de que
do início da década de 1960 até o
Congresso de Lucca, em 1967,
Del Noce e Rodano tinham reatado relações por meio de uma correspondência, infelizmente ainda
inédita. A noção de “sociedade
opulenta”, que está no centro do
ensaio de 1963 Appunti sull’irreligione occidentale, contido
em Il problema dell’ateismo, derivou de Franco Rodano. O ano
de 1963 marca o início de uma
nova fase da reflexão de Del Noce. De fato, ele percebe que uma
época estava-se concluindo: a era
pós-bélica da reconstrução, a era
crociano-degasperiana, marcada
pelo encontro entre as componentes laico-liberais e as cristãs. A
nova sociedade do bem-estar já
não precisava das forças religiosas para se opor ao comunismo.
O novo Ocidente já era capaz de
vencer pela dilatação da sociedade do bem-estar. Uma sociedade
marcada pelo primado da razão
instrumental, mais irreligiosa que
o ateísmo comunista, vitoriosa no
próprio terreno do comunismo, o
do materialismo. Assim, em 1963
Del Noce intui, também à luz de
Rodano, o novo adversário da fé
na era pós-marxista. Em outras
palavras, ele vislumbra um tempo
em que a relativização de qualquer
ideal virá a se encontrar com uma
visão tecnocrática do mundo. É
essa perspectiva que lhe permite
valorizar, em 1975, a lição de Pier
Paolo Pasolini, como mais lúcido
intérprete do novo totalitarismo
da dissolução.
Em relação a essa perspectiva, bastante dramática, o
Del Noce da década de 1960
vislumbra alguma saída?
Ele enxergava possibilidades,
sem, todavia, poder indicar positivamente onde desembocariam. O
momento histórico expunha duas
questões que conflitavam entre si.
De um lado, a crise do marxismo –
embora este viesse a conhecer um
inesperado revival depois da contestação de 1968 – dava lugar a um
retorno ideal do pari, da aposta
pascaliana: no exato momento em
que o ateísmo perdia seu revestimento científico, a possibilidade de
uma revitalização da opção religiosa voltava a ser atual. Mas era apenas uma possibilidade, não necessariamente algo efetivo. Del Noce
nunca deduziu filosoficamente a
necessidade da opção religiosa. De
outro lado, havia o triunfo da sociedade opulenta, e portanto o da irreligião ocidental sobre o marxismo,
que esvaziava qualquer possível renascimento religioso. Duas dinâmicas conflitantes, que o Del Noce da
década de 1960 não pôde nem
queria solucionar.
q
30DIAS Nº 7/8 - 2011
63
Arte
Rembrandt comovido
pelo rosto de Jesus
por Giuseppe Frangi
m julho de 1656, Rembrandt, à beira da bancarrota, decidiu leiloar todos os
bens conservados na grande casa
de Jodenbreestraat. Como parte
do procedimento, em 24 e 25 daquele mês foi realizado o inventário pela Desolate Boedelskamer de
Amsterdã. Um inventário extremamente longo, no qual a certa altura são listadas três tábuas com
pinturas do rosto de Cristo. Uma
em particular é definida nestes termos: “Cristus tronie nae’t leven”.
Literalmente: “Cabeça de Cristo a
partir do real”. O que indicava essa
especificação “a partir do real”? O
primeiro estudioso que publicou
esse inventário, em 1834, pensou
que se tratasse de um deslize do
magistrado holandês, e não achou
nada melhor para fazer senão fingir que não era nada e suprimir essa nota. Dois anos depois, um observador atento notou essa censura e, para resolver o enigma, propôs uma interpretação decididamente forçada: “em tamanho natural”. Mas, em holandês, esse
“nae’t leven”, contração de “naar
het leven”, não deixa espaço para
ambiguidades: significa “tomado a
partir do real”, ou seja, de modelo
vivo. Por que o anônimo inventarista teria sentido a necessidade de
especificar isso, quase como se se
tratasse de um traço identificador
dessa série de pequenas cabeças
de Cristo? Para responder a essa
pergunta, o Louvre e os museus da
Philadelphia e de Detroit uniram
forças para organizar uma das
mais extraordinárias mostras dos
últimos anos. A mostra, que em
Paris é intitulada Rembrandt e a
figura de Cristo – e que nas etapas
americanas da Filadélfia (até 30 de
outubro) e de Detroit (de novembro a fevereiro de 2012) terá um título muito mais direto: Rem-
E
64
30DIAS Nº 7/8 - 2011
MOSTRA. Rembrandt e o rosto de Cristo
O grande artista holandês pintou uma série de “retratos” do Senhor,
fazendo posar como modelo um judeu de Amsterdã. Para chegar o mais
próximo possível da verdade. Pela primeira vez essas obras, geralmente
pouco consideradas pela crítica, foram reunidas numa bela mostra, que,
depois de passar por Paris, chegou aos Estados Unidos
Rembrandt, A ceia de Emaús, 1648,
Museu do Louvre, Paris; abaixo,
o detalhe do rosto de Cristo
brandt e o rosto de Cristo –, vem
acompanhada por um belíssimo
catálogo, publicado por uma editora italiana (Officina Libraria).
O coração da mostra, que reuniu algumas obras-primas absolutas, como as variantes que Rembrandt pintou sobre o tema da
Ceia de Emaús, é constituído pela
sala em que as três cabeças citadas
no inventário foram reunidas e outras quatro, todas em tábua, que a
crítica com o tempo recuperou. A
importância particular desses quadros para o pintor é demonstrada
pelo fato de que dois deles, segundo o inventário, estavam pendurados em seu quarto de dormir: mas
isso não bastou para convencer a
crítica de sua autografia. Assim, o
Rembrandt Research Project, uma
instituição que é chamada a “certificar”, entre a imensa massa de
obras atribuídas ao mestre holandês, as que são seguramente de
sua mão, chegou a suprimir as sete
tábuas do catálogo. Hoje, o trabalho desse time de críticos, apoiado
também em análises científicas
realizadas sobre as obras, voltou a
garantir a autografia de quatro dessas Cabeças, deixando para as outras uma atribuição “no ateliê de
Rembrandt”. Nesse meio-tempo
apareceram também alguns exemplares que certamente documentam uma série de outros originais
perdidos. Sinal de que esse era um
tema de grande importância para
Rembrandt, e de que muitos o pediam a ele.
Mas qual é o motivo de um tão
sutil ostracismo da crítica perante
essas obras? Certamente tem a ver
com aquele “nae’t leven” que deixou confusos os estudiosos por
tanto tempo. Rembrandt vivia numa sociedade já solidamente protestante, em que também a concepção da arte tinha mudado profundamente. Décadas antes, em
1566, o conflito com o catolicismo
desembocara numa violenta campanha iconoclasta, com a destruição de muitíssimas obras nas igrejas dos Países Baixos. Ao sul do rio
Escalda, os católicos tinham retomado o controle da situação, voltando a encher as igrejas de Antuérpia graças à energia fluvial de
Pieter Paul Rubens; ao norte, ao
contrário, a história foi mudada
para sempre. Os artistas tinham-se
desviado para cenas da vida cotidiana, alimentando um mercado
que já não era caracterizado por
grandes encomendas, mas por
uma nova classe de ricos compradores. Os temas religiosos tinhamse rarefeito muito, com um claro ¬
30DIAS Nº 7/8 - 2011
65
Arte
prevalecimento de cenas do Antigo Testamento. A imagem de Jesus estava no centro de um debate
acalorado: um dos alunos de Rembrandt, Jan Victors, chegou mesmo a afirmar que havia o risco de
uma “idolatria”.
Nesse contexto, no entanto,
Rembrandt agiu com absoluta liberdade. É claro que sua produção circulava privadamente, quando não
ficava restrita a ele mesmo. Mas é
evidente que ele sentia uma necessidade profunda, quase insuprimível,
de estar frente a frente com a figura
de Cristo. A experiência de Caravaggio, que tinha tirado as representações da vida de Jesus da perspectiva idealista e as levara a um horizonte de credibilidade realista, forneceram a Rembrandt uma referência essencial. Rembrandt vai além
nesse caminho, lidando com o contexto em que se encontrava. Estava
muito atento às fontes, pelos pormenores concretos que podiam fornecer. Tinha estudado a história de
Flávio José, como demonstra uma
gravura de 1659, São Pedro e São
Paulo à porta do Templo, em que
o edifício é desenhado seguindo as
indicações extraídas das Antiguidades judaicas.
O “nae’t leven” de que fala o inventário sugere, nesse sentido, um
elemento essencial. Rembrandt,
como escreve Lloyd DeWitt, um
dos curadores da mostra, procurou
um modelo na comunidade judaica
de Amsterdã, um pouco para confirmar as boas relações que o ligavam àquela comunidade, mas sobretudo para ter diante de si um tipo humano “etnograficamente
próximo de Cristo”. Isso representava “uma recusa tanto dos estereótipos iconográficos quanto da
idolatria, por meio do realismo”.
Não é por acaso que a mostra e as
descobertas relacionadas foram
amplamente destacadas pela imprensa israelense. De modo particular pelo jornal Haaretz, que publicou um artigo de título muito significativo: “Rembrandt’s Jewish Iesus”.
Segundo outro crítico, Willem
Adolph Visser’t Hooft, “à primeira
vista, o retrato parece o de um rabino, o mais profundo e delicado
possível. Mas percebemos logo
que há qualquer coisa de misterio66
30DIAS Nº 7/8 - 2011
Acima, Rembrandt, Cabeça de Cristo,
aproximadamente 1648,
Museum Bredius, Haia, Países Baixos;
à esquerda, Rembrandt, Retrato do busto
de um jovem judeu, 1663, Kimbell Art
Museum, Fort Worth, Texas, EUA
so. Esse Cristo está longe de nos
impressionar por sua majestade.
Ao contrário, é ‘sem forma nem
beleza’, não ‘eleva a voz’”. Nessas
observações está a substância das
imagens de Cristo pintadas por
Rembrandt. “Sem forma nem beleza” indica a ausência de qualquer
retórica, de qualquer idealismo estético. Cristo nos surpreende num
contexto de absoluta normalidade,
tanto na ambientação quanto na
calma reflexiva de sua atitude. E
“não eleva a voz”, pois Rembrandt
o imagina num instante de diálogo
profundo e amigável com quem está à sua volta. Cristo é imaginado
num momento de intimidade, nos
bastidores da sua aventura pública.
Um Cristo anti-heroico, verdadeiro na paixão do seu olhar e na ternura do vínculo que instaura com
seu interlocutor. São imagens que
se inseriam em continuidade ambiental em relação aos lugares a
que eram destinadas, como se sublinhassem sua contemporaneidade. É isso que provavelmente
Rembrandt buscava, antes de tudo
para si, mas depois também para
uma pequena comunidade de pessoas que não se rendia àquele vazio que o protestantismo tinha imposto. Hoje suas Cabeças de Cristo convencem justamente porque
em sua elementaridade iconográfica não precisam de chaves de interpretação, não requerem uma
“preparação” particular. Pedem
apenas que sejam olhadas.
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