Diario Catarinense 28 junho 2011

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Diario Catarinense 28 junho 2011
Expresso do inferno
Diário Catarinense Online - SC - CAPA - 28/06/2011
Livro de casal de pesquisadores americanos lança novas luzes sobre a construção da
Ferrovia Madeira-Mamoré, no início do século 20, na qual morreram 10 mil trabalhadores
Americana, interior de São Paulo, 1985. Numa tarde quente que parece emanada dos
romances de William Faulkner, a pesquisadora e museóloga Judith Mac Knight Jones mostra
a um compatriota uma caixa de metal enferrujado com 101 fotos e 10 edições de um jornal
amarelado
chamado
The
Porto
Velho
Marconigram.
Ela havia sido escolhida como depositária da papelada pela família de um certo Oscar Pyles.
- Eles não sabiam o que fazer com ela na época e pensaram que poderia me interessar.
O conteúdo da caixa mudaria, 20 anos depois, a vida do visitante de cabelos brancos e
olhos azuis. As imagens, feitas pelo fotógrafo profissional Dana Merril e pelo próprio Oscar
Pyles, registravam com minúcia o cotidiano dos engenheiros, técnicos e operários
americanos que construíram a lendária "Ferrovia do Diabo", "Ferrovia dos Mortos" ou
"Ferrovia Fantasma" - a estrada de ferro Madeira-Mamoré, que se estendia por mais de 300
quilômetros em plena Floresta Amazônica, ligando Guajará-Mirim a Porto Velho. Cerca de
10 mil trabalhadores morreram durante a construção da estrada de doenças tropicais. O
pano de fundo histórico dos flagrantes era o épico início do que viria a ser conhecido como
Século Americano: o fim da construção do Canal do Panamá, o ciclo da borracha, a busca
de um novo lar pelos ex-combatentes confederados derrotados na Guerra de Secessão
(1861-1865).
- Judith Jones guardou todo o material num baú e, no final da vida, começou a distribuir as
relíquias. Foi sepultada em Americana envolvida na bandeira confederada de batalha - diz o
jornalista Gary Neeleman, americano que recebeu o tesouro histórico das mãos da amiga e
transformou-o no livro Trilhos na Selva - O Dia a Dia dos Trabalhadores da Ferrovia
Madeira-Mamoré
(
Bei
Editora).
As imagens reunidas por Neeleman e por sua mulher, Rose, foram produzidas
especialmente por dois americanos que uniram sua sorte à da estrada que viram ser
construída. Oscar Pyles era filho de uma família confederada que trocou o Velho Sul por
Americana em 1866. Nascido em 1880, viajou para Porto Velho aos 27 anos para trabalhar
na ferrovia. Dana B. Merril foi, entre 1902 e 1912, o fotógrafo oficial da Madeira-Mamoré.
De volta aos EUA, consagrou-se como fotógrafo de Vanity Fair e Vogue.
Para entender o ambiente que Merril e Pyles haviam fotografado, o casal Neeleman viajou a
Rondônia e percorreu o trajeto da estrada, destruída na metade dos anos 1960 por temor
de que fragilizasse a defesa do território brasileiro. Com a ajuda do advogado Luiz Leite de
Oliveira, organizador da associação para salvar o que restou da estrada, obtiveram mais
fotos e testemunhos. Às imagens de Merril e Pyles, foram acrescidas as contidas na coleção
de
Fernando
J.
Torras,
engenheiro
da
ferrovia.
Os autores não teriam conseguido chegar ao fim da odisseia se não fosse a grande
intimidade com o país sobre o qual escreveram. Neeleman pisou em terras brasileiras pela
primeira vez em 1954, aos 20 anos, como missionário da Igreja de Jesus dos Santos dos
Últimos Dias (mórmons). Natural de Salt Lake City, Utah, bastião dos mórmons, não falava
uma palavra de português. Foi designado para o interior de Santa Catarina, onde tomava
banho
no
Rio
do
Peixe.
-
É
o
rio
mais
frio
do
mundo
-
brinca.
Ao final de três anos que lhe permitiram dominar o idioma, voltou aos EUA para se casar
com a namorada da escola secundária, Rose. Em 1958, com um bebê de cinco meses,
mudaram-se para o Brasil, ele à frente de 23 jornalistas no escritório brasileiro da agência
United Press International (UPI), em São Paulo. Testemunhou a febre desenvolvimentista
do governo Juscelino Kubitschek, a construção de Brasília, o nascimento do Cinema Novo e
da Bossa Nova. Estava na pista do aeroporto da capital ainda em obras quando o Boeing
707 presidencial com o presidente Dwight Eisenhower a bordo aterrissou em meio a uma
nuvem
de
poeira
vermelha.
- Alguém teve a ideia de estender um tapete vermelho para Eisenhower, e ele parou na
escada do avião porque havia sobrado um rolo de tapete que ele teria de pular ou
contornar. Numa demonstração do "jeitinho brasileiro", um mecânico apanhou um canivete
e cortou fora o pedaço sobressalente do tapete - diverte-se Neeleman.
O veterano jornalista se recorda de que o então todo-poderoso presidente do conglomerado
jornalístico Diários Associados, Assis Chateaubriand, costumava convocá-lo para revisar
seus discursos em inglês. O trabalho era concluído com o auxílio de uma enfermeira baiana
- segundo Neeleman, a única capaz de entender os balbucios de Chatô, que tivera a fala
comprometida
por
um
acidente
vascular
cerebral.
- Ele falava babando, mas ela entendia tudo. Me dizia: "O senhor tem de colocar um ponto
aqui" - lembra, acrescentando que o episódio será abordado no livro de memórias que
prepara
sobre
os
anos
passados
no
Brasil.
Companheira incansável do marido, a ex-professora da Brighan Young University Rose
Neeleman é coautora, com Gary, do livro de culinária A Taste of Brazil (2007). Os dois
autografam Trilhos na Selva em São Paulo, no dia 30, e em Porto Velho, no dia 3 de julho.
O livro aborda o cotidiano dos trabalhadores da Ferrovia Madeira-Mamoré, em Rondônia, a
partir de documentos inéditos, como fotos de Dana B. Merril e Oscar Pyles e fac-símiles do
jornal The Porto Velho Marconigram. Apresentação de Wade Davis e posfácio de Pedro
Ribeiro
Moreira
Neto.
Bei
Editora,
254
páginas,
R$
55
[email protected]
LUIZ ANTÔNIO ARAUJO